Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 26, 2016 10:09 am

- Saia da minha frente! - disse Albert, sem pronunciar o nome do filho.
- Pai, o senhor não vai encostar mais um dedo sequer em minha mãe! - disse Hugo encarando o progenitor.
Hugo pôs a mão sobre o ombro da mãe e viu que o escritório estava um caos, com papéis por todo canto e móveis revirados.
Albert partiu para cima de Hugo, tentando agredi-lo, mas o rapaz evitou ser espancado.
- Maldito!
Vou matá-lo novamente!
Os espíritos Patrik e Louis gritavam em coro.
- É isso aí!
Acabe com este plebeu ingrato, que desonrou a Duquesa Antonieta!
Albert retrocedera no tempo e deslocara no espaço, pois os espíritos penetraram em sua mente perispiritual e o conduziram de volta ao passado, quando era então o velho Duque Antoine.
Hugo meteu a mão no bolso, tirou o celular e discou o número do Dr. Maurício.
- Alô!
- Dr. Maurício?
Sou eu, Hugo!
Venha imediatamente para cá, pois meu pai está completamente fora de controle!
Desligou.
Em menos de quinze minutos, uma ambulância entrou na mansão e imediatamente dois enfermeiros manietaram Albert.
Por ordem do Dr. Maurício, também lhe aplicaram uma altíssima dose de tranquilizantes e o conduziram aos aposentos dele.
Sob o olhar de piedade da esposa e do filho, o empresário Albert adormeceu.
- Vamos levá-lo novamente para a clínica - disse o psiquiatra.
Hugo olhou para o pai, que estava deitado em sua cama, dormindo sob o efeito dos medicamentos, e dos seus olhos rolaram lágrimas de compaixão por aquele ser tão orgulhoso.
- Dr. Maurício, o senhor acha mesmo necessário interná-lo novamente? - perguntou o filho de Albert.
- Não. Mas para a segurança de vocês, e mesmo a dele, acho que essa é a melhor opção.
- O que a senhora acha? - perguntou o filho à mãe.
- Dr. Maurício, vamos dar mais uma chance a ele, por favor - pediu Iolanda.
- Bem, Maurício, por enquanto, deixe-o por aqui - anuiu Hugo.
- Então, vocês devem assinar este documento.
Somente assim isentarão a clínica e a mim de qualquer responsabilidade sob o que possa acontecer ao doente fora de nosso alcance - disse o psiquiatra, estendendo um papel para Iolanda e o filho.
Hugo leu o documento, pensou por alguns minutos, e logo depois o assinou, juntamente com a mãe.
- Dr. Maurício, caso ele piore, vamos interná-lo imediatamente.
E se isso acontecer, de lá ele só sairá quando estiver completamente curado, conforme a sua ciência - disse Iolanda.
O médico despediu-se e foi embora.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 26, 2016 10:10 am

Capítulo XXIV - O enviado do Senhor
Navarro caminhava inquieto pelo interior da caverna.
Chutava tudo que encontrava pela frente e esmurrava o ar com ódio estampado no rosto.
Fluía de sua boca uma baba esverdeada, que era constantemente limpa com as costas da mão.
- Patrik, hoje à noite, nós iremos desfechar o golpe de misericórdia no Duque.
- O que você pretende fazer, chefe?
- Trazê-lo para cá o mais rápido possível, antes que o filho dele encontre alguma solução e o canalha possa ser protegido pelo pessoal do tal centro espírita.
- Qual é o seu plano? - perguntou Louis, tentando disfarçar o medo que sentia daquele espírito diabólico.
- Quero persuadi-lo a se suicidar ainda hoje - respondeu o chefe.
- Acho que os protectores daquela casa não vão permitir - alertou Patrik.
Navarro não respondeu, limitando-se a caminhar, visivelmente perturbado, pois o inferno de Dante parecia materializar-se à frente daquela criatura de Deus, que tanto sofria com o ódio e o orgulho que alimentavam seus sentimentos de vingança.
Enquanto isso, Hugo conversava com a mãe, numa sala privativa da família.
- Mamãe, eu soube que a dona Isabel voltou para casa.
- O Augusto comentou que ela está passando muito bem - completou a mãe.
Mas, meu filho, ela já não larga "O Evangelho Segundo o Espiritismo", isso desde quando esteve internada.
Foram o filho, o marido e o Dr. Jacinto que a ajudaram a se recuperar, com o auxílio da Doutrina Espírita e dos medicamentos e terapias da própria clínica de repouso.
- Mas, segundo o Augusto, ela realmente só começou a ficar bem, a partir do momento em que a família passou a frequentar as reuniões de um centro espírita muito conhecido na cidade, juntamente com o Dr. Jacinto - disse Hugo.
E não vamos nos esquecer de que o Edmundo assumiu novamente a frente dos negócios, para tentar recuperar os bens perdidos e salvar o património da família.
- É verdade.
O Edmundo estava enveredando pelo caminho dos vícios, mas parece que agora está tudo sobre controle - replicou o filho.
Iolanda se ergueu e, aproximando-se do filho, fez-lhe um carinho e perguntou-lhe:
- Meu filho, o que vamos fazer para acalmar o seu pai, quando ele acordar?
O rapaz olhou para Iolanda e convidou-lhe:
- Vamos para o quarto dele, mãe.
- Agora?
- Sim. Pegue "O Evangelho Segundo o Espiritismo" e vamos fazer uma pequena reunião no quarto do papai.
- E se ele acordar? - perguntou a mãe, surpresa com aquela decisão do filho.
- Mãe, não temos tempo a perder.
Naquele exacto momento, o mentor espiritual de Hugo, o espírito Domingos, o orientou a tomar aquela decisão, pois os espíritos da falange de Navarro estavam se organizando com o objectivo de acabar com a actual existência do outrora Duque Antoine.
Ambos levantaram-se imediatamente e se encaminharam para o quarto de Albert.
Após adentrarem o quarto, Hugo e Iolanda colocaram um copo com água sobre uma mesa.
Em seguida, fizeram uma prece e leram um trecho do Evangelho.
Ambos pediram perdão a Deus, para aquele espírito ignorante que tanto sofria e que não demonstrava por causa de seu orgulho, constantemente alimentado por energias fluídicas malsãs, ligadas a sentimentos de vingança de seus inimigos do passado.
Todas as tentativas de influenciar Albert foram em vão.
Navarro, Patrik, Louis e outros não conseguiram sequer se aproximarem de Albert, pois naquele quarto acontecia algo inexplicável.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 26, 2016 10:10 am

Somente Carla, que chorava baixinho num canto do quarto, com medo da violência de Navarro, viu uma luz forte saturar o ambiente de uma imensa energia benéfica, chegando ela mesma a sentir alguns minutos de alívio em suas dores.
Hugo e Iolanda foram iluminados durante a leitura do Evangelho e, assim, Albert pôde receber os fluídos benéficos transmitidos pelo filho e pela esposa, com a orientação de um espírito belo, simpático e benévolo - o espírito Domingos.
- Chefe, eu avisei que esse canalha do Jean, o fiel escudeiro do Duque, estava trabalhando para salvá-lo de nossa vingança.
- Você se refere ao Hugo?
- Exactamente.
Navarro rosnava, enquanto caminhava do lado de fora do quarto, procurando uma maneira de adentrar o recinto.
- Não vejo alternativa a não ser acabar com esse safado, o traidor Jean - disse Navarro babando de ódio.
- Lembre-se que nesta existência ele é filho do Duque - alertou Louis.
- Não interessa!
Vamos acabar com ele mesmo assim!
- Como vamos entrar neste quarto, chefe? - perguntou Patrik, com receio daquele espírito vingativo e mau.
Temos que sair daqui o mais rápido possível.
Eu já estou enfraquecendo, e nesse estado sou uma presa fácil para os servidores do "Homem da Cruz".
- Está com medo, Patrik? - perguntou o chefe aos gritos.
- Não. Mas não pretendo deixar isso acontecer novamente - redarguiu, o espírito.
Já fiquei alguns dias preso em suas enfermarias e não quero repetir a dose.
- Então, covardes, mostrarei como se faz com a plebe! - gritou Navarro avançando para o leito de Albert.
De repente os espíritos ouviram um grito e viram o chefe voar pelos ares, desaparecendo do ambiente.
Patrik olhou para Louis e ambos também sumiram, rumo à caverna que servia de quartel-general para eles.
Somente Carla ficou, chorando baixinho.
Em fracções de segundos ela viu Hugo e a mãe dele, todavia não conseguiu se aproximar deles.
Na caverna, Navarro se encontrava todo queimado e suas mãos e pés eram os mais afectados pelas queimaduras.
Ele babava com mais intensidade e rosnava de ódio.
Quem estivesse ali naquele momento, e observasse mais detalhadamente, veria que aqueles espíritos tomavam várias formas, inclusive a de animais.
- Covardes! Só atacam pelas costas!
Ninguém tem coragem de me enfrentar frente-a-frente, com as armas nas mãos!
Patrik deixou escapar um discreto sorriso e isso foi o suficiente para Navarro descarregar toda a raiva que lhe ia na alma.
Surrou e torturou-o com os seus métodos, deixando os outros apavorados.
De repente um ser com a aparência de lobo apareceu na tétrica caverna, fuzilando os presentes com os seus olhos de cor vermelha e soltando chispas de fogo pelas narinas.
O espírito era a personificação do demónio, conforme algumas lendas religiosas.
Navarro fez uma reverência, como se aquele ser fosse alguém superior, digno de respeito.
O medo estava estampado nas feições dos espíritos presentes no recinto.
- Seja bem-vindo, Barão Pátulo - saudou Navarro, com visível espanto e medo no olhar.
O Barão cruzou os braços e virou as costas para aqueles celerados do além, permanecendo em silêncio por alguns minutos.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 26, 2016 10:10 am

- Navarro! - chamou o Barão com a voz tonitruante, que fazia estremecer toda a caverna.
- Sim, mestre.
- Eu estou a par de todas as actividades, mormente a situação de Antoine.
Silêncio.
Ninguém ousava interromper o Barão Pátulo.
- Vocês não conseguirão realizar esses projectos contra o Duque.
A cada dia que passa, a família dele torna-se mais forte, pois aderiu a essa Doutrina responsável pelo aumento no número de baixas em nossas fileiras - disse o Barão, com firmeza.
Antes de sua existência como Jean, escudeiro de Antoine, o Hugo já era protegido por amigos do bem.
Enfim, o que quero mostrar, é o quanto vai ser difícil penetrarmos nas mentes deles, para conseguirmos nossos objectivos.
A Carla cometeu um acto contra as leis do "Maioral", entretanto, também está sob a protecção de vários amigos do bem, pois não aceita ser cúmplice na destruição de Albert, somente porque soube que ele fora o seu pai, o Duque Antoine - completou o Barão Pátulo.
- Afinal de contas, o que podemos fazer para acabar com aquele crápula? - impaciente, Patrik atreveu-se a perguntar.
- Por enquanto, nada.
- Então, o Duque vai ficar impune? - perguntou Navarro.
O Barão Pátulo fuzilou o subordinado com um olhar cheio de ódio e respondeu-lhe, segurando-o pela garganta, como se desejasse sufocá-lo:
- Deixe de ser estúpido! - respondeu Pátulo, largando sua presa.
Como sou chefe dessa falange há séculos, tenho experiência suficiente para afirmar que vocês não vão conseguir destruir o Albert com esses métodos ultrapassados.
- E o senhor tem algum plano mais eficiente? - perguntou Navarro, passando a mão no pescoço.
- Sim.
- Qual?
- Por enquanto é segredo - respondeu Pátulo.
Reunir-nos-emos quando chegar a hora e resolveremos esse e outros assuntos pendentes.
- Podemos saber que outros assuntos são esses, chefe? - perguntou Navarro.
- São aqueles ligados aos responsáveis pelos fracassos sucessivos que temos sofrido.
- O senhor está falando dos seguidores dessa maldita Doutrina? - perguntou Patrik.
- Exactamente - respondeu Pátulo, desaparecendo sem se despedir.
Os homens de Navarro ficaram pensativos, olhando de soslaio para ele.
"Eu mesmo vou acabar com aquela serpente do Albert", pensou Navarro.
Enquanto isso, no quarto de Albert, mãe e filho se aproximaram da cama dele.
Hugo fez um gesto com a mão, no sentido da cabeça aos pés do pai, que naquele momento dormia e em seguida retiraram-se.
O espírito Domingos aproximou-se de Carla e com carinho pousou sua mão no ombro dela, dizendo-lhe:
- Minha filha, você fez uma bobagem com o seu corpo físico em um momento de desespero e ignorância.
Humildemente, solicite ajuda ao Pai e ao nosso Mestre Jesus, pois tenho certeza de que Eles não lhe negarão amparo em Seus corações.
- Lamento, meu senhor, mas não sou adepta dessas crenças ignorantes.
Sou médica e só espero melhorar para poder voltar a trabalhar.
Domingos elevou os olhos para os céus e fez uma prece fervorosa por aquela irmã sofredora.
À medida que a prece era proferida, desciam como flocos de neves, energias balsâmicas que vinham ajudar Carla, porém ela estava tão arraigada ao mundo material, que os fluidos não conseguiam ser absorvidos por seu corpo espiritual.
Tão logo se sentiu um pouco mais calma, levantou-se e saiu correndo feito louca pelas ruas da cidade.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 26, 2016 10:10 am

O espírito Domingos chorava por nossa irmã Carla, enquanto dizia:
- Pai Amado, é por isso que no capítulo sétimo, de "O Evangelho Segundo o Espiritismo", o codificador Allan Kardec faz as seguintes considerações:
"... Se se recusam a admitir o mundo invisível e um poder extra-humano, não é, entretanto, porque isso esteja acima de sua capacidade, mas porque seu orgulho se revolta com a ideia de uma coisa acima da qual não podem se colocar, e que os faria descer de seu pedestal.
Por isso, eles não têm senão sorrisos de desdém por tudo o que não é do mundo visível e tangível; eles se atribuem muito de espírito e de ciência para crerem nessas coisas, segundo eles, boas para as pessoas simples, tendo aqueles que as levam a sério por pobres de espírito".
Domingos olhou para o Albert e pensou:
"Você conseguiu protecção do alto, através desse espírito bom que reencarnou como seu filho".
Mãe e filho conversavam, enquanto caminhavam de mãos dadas pelos corredores da mansão:
- Meu filho, você acha que o seu pai vai conseguir se curar?
- Não tenho dúvidas, minha mãe - respondeu o filho.
Porque a senhora acha que eu voltei?
A mulher passou a mão no cabelo, num gesto feminino, e perguntou-lhe:
- Então quer dizer que você voltou pelo seu pai?
E eu pensando que você gostava um pouquinho de mim...
Hugo abraçou a mãe e disse-lhe rindo:
- Bobagem, mamãe.
Eu sempre amei vocês, mesmo quando estava magoado e ressentido com o meu pai.
- Compreendo, meu filho.
Vocês nunca foram amigos, mas o seu pai nunca deixou de fazer seus caprichos.
A mulher se calou e ficou pensativa.
- O que foi, mamãe?
Por que a senhora se calou de repente?
- Estou tentando descobrir por que o seu pai não aceitou seu namoro e muito menos seu casamento com a Carla.
Hugo ficou em silêncio.
"Mistérios que um dia a Doutrina Espírita vai explicar", pensou.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 26, 2016 10:10 am

Capítulo XXV - Recuperação de Albert
No dia seguinte, ao acordar, Albert levantou-se disposto e com o aspecto mais optimista e calmo.
Estava bastante fraco, ainda sentindo os efeitos da medicação administrada pelo Dr. Maurício, por ocasião do surto que tivera no dia anterior.
Ele ouviu alguém bater na porta do seu quarto.
- Entre!
Meio desconfiado, Hugo entrou no aposento do pai, aproximando-se do leito, e o cumprimentou.
- Aproxime-se, meu filho - pediu o pai.
Há quanto tempo não nos vemos?
Por onde você andava, garoto?
Hugo permaneceu em silêncio e em estado de alerta.
"Estranho...
Parece que ele está me vendo somente agora", pensou.
O filho chegou mais perto do pai, que abriu os braços e o abraçou, como se nada tivesse acontecido.
- Desculpe-me, filho, pelas grosserias que falei quando você chegou - disse ele, fazendo um carinho na cabeça do médico.
Hugo percebeu que o pai havia tido conhecimento da sua chegada e até da maneira como ele o tratou.
"Talvez ele realmente esteja melhor, ou livre, pelo menos por alguns dias, do assédio de seus perseguidores do outro mundo", concluiu.
- O senhor não tem de que se desculpar, pai - disse o filho, correspondendo ao abraço dele.
- Por favor, sente-se - convidou o pai, apontando um lugar na cama.
Hugo sentou-se e viu que o pai havia melhorado consideravelmente.
Pai e filho conversaram durante quase uma hora e falaram sobre tudo.
Hugo narrou onde estivera durante todo aquele tempo, porém, em momento algum mencionou qualquer assunto que relembrasse a ex-namorada Carla.
"Devo evitar esse assunto por enquanto e também acho prudente omitir o meu relacionamento com Viviane", pensou.
- Filho, você já está pronto para reassumir a direcção do hospital? - perguntou o pai de surpresa, enquanto se levantava e vestia um paletó, aprontando-se para deixar o quarto.
Hugo pensou e respondeu, tomando cuidado com as palavras que iria pronunciar:
- Voltei para isso, pai.
- Então, mãos à obra!
Aquilo lá deve estar entregue às baratas - disse Albert segurando o braço do filho e encaminhando-se para porta.
- Eu estive doente, mas já estou me recuperando.
Logo vou estar completamente curado.
- Claro, pai - concordou o filho, pondo a mão no ombro dele com carinho.
Iolanda estava sentada no jardim, quando viu que o marido caminhava em companhia do filho e conversava normalmente.
"Não posso acreditar no que estou vendo!
Obrigada, meu Deus!
Parece que o Senhor atendeu nossas preces", disse emocionada para si mesma.
Ela ergueu-se e foi ao encontro dos dois, mesmo bastante desconfiada da súbita melhora do marido.
Os dois homens aproximaram-se dela.
O marido beijou-lhe a face e cumprimentou-a, dizendo:
- Tudo bem com você, Iolanda?
- Tudo, querido - respondeu a esposa feliz.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 26, 2016 10:11 am

O filho enlaçou a mãe com carinho, também demonstrando sua felicidade com a recuperação do pai, e disse-lhe:
- Veja aí, o nosso grande Albert, mamãe!
- Estou vendo, filho.
- Estou faminto, Iolanda - disse o marido.
Tem algo bom para se comer nesta casa?
- Claro que tem, meu querido.
Vamos para a sala de refeições, que a mesa está preparada.
Alguns minutos após a refeição matinal, o trio se dirigiu para o escritório do empresário.
Edvaldo passou a conversar com o patrão sobre os negócios, mas não tirava os olhos de Hugo e Iolanda, desconfiado de que alguma coisa não estava bem.
Iolanda meditava sobre tudo que havia acontecido nos últimos dias, principalmente no que se refere à doença do marido.
Ela não conseguia acreditar naquela recuperação milagrosa.
Hugo ergueu-se e sinalizou que deixaria o escritório, mas ouviu uma voz ordenar:
- Por favor, Hugo, sente-se - disse Albert, de cabeça baixa, verificando uns papéis.
Iolanda enregelou de medo, todavia, manteve-se calma e em silêncio, enquanto se perguntava:
"Meus Deus, será que o Albert voltou a ser o que era?".
Hugo fitou a mãe de soslaio e continuou sentado como se não tivesse percebido a preocupação dela.
Ele sorriu para o pai e esperou que o mesmo se pronunciasse.
Albert ergueu-se e começou a andar pelo luxuoso escritório, parando aqui e acolá, como se estivesse pensando em algo.
Disfarçando o que se passava em seu interior, ele fingia olhar com muito interesse as preciosas peças de artes que adornavam o seu ambiente de trabalho.
Sentou-se novamente à sua escrivaninha e calmamente pôs os cotovelos sobre a mesa, de maneira que seu queixo ficasse apoiado pelas suas mãos.
- Será que estou realmente bem? - perguntou Albert, surpreendendo a todos com um meio sorriso estampado no rosto.
Adquirindo mais confiança, Hugo se ergueu e respondeu, aproximando-se do pai:
- Claro. Logo o senhor estará novinho.
- Eu tenho uma vaga lembrança de tudo o que aconteceu ultimamente, inclusive, dos dias em que estive hospitalizado e do horror que senti quando vi aquelas pessoas que mais pareciam demónios - disse Albert, passando a mão no rosto, como se quisesse espantar os maus pensamentos.
Edvaldo fitou a patroa de viés e continuou em silêncio.
No fundo, ele não acreditava muito na recuperação do patrão.
Albert olhou para o secretário e lhe pediu com delicadeza:
- Por favor, Edvaldo, deixe-nos a sós.
Hoje você está dispensado, mas amanhã, vamos arregaçar as mangas e tentar recuperar o tempo perdido.
Imediatamente, Edvaldo se levantou e pediu licença para deixar o recinto.
Após a saída do secretário, Albert encarou a mulher e o filho e perguntou-lhes, com as mãos sobre a mesa:
- Iolanda e Hugo...
Alguma vez deixei de cumprir com os meus compromissos, principalmente aqueles referentes à minha família e aos meus funcionários?
Iolanda foi surpreendida pela pergunta, mas mesmo assim, não se deixou abalar e respondeu:
- Não, Albert.
Você sempre foi um fiel cumpridor de seus deveres com a família e, principalmente, com os seus funcionários.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 26, 2016 10:11 am

- Então, por que tudo isso aconteceu comigo? - perguntou o marido abaixando a vista.
- Papai, talvez o facto de o senhor ter sido um bom patrão para os nossos funcionários, é que o salvou das garras dos seus perseguidores.
Seu enorme senso de responsabilidade para com aqueles que trabalham para o senhor é um gesto extremamente relevante e bem visto aos olhos de Deus - o filho atreveu-se a responder.
- Hugo, eu nunca soube que tinha inimigos, excepto os nossos concorrentes, e mesmo assim, por motivos profissionais.
Sempre cumpri todos os meus compromissos e, portanto, não entendo aonde você quer chegar.
O filho sentiu que havia falado demais, mas agora teria que ir até o fim.
- Papai, nós sabemos que os nossos funcionários respeitam-no e o admiram, pois o senhor jamais deixou de pagá-los em dia, cumprindo com todos os compromissos legais de uma empresa.
Além disso, o senhor nunca os espoliou, pelo contrário, todos ganham acima do tecto salarial pago pelas outras empresas.
- Ainda não entendo o que você quer me dizer, filho - disse Albert cruzando os braços e encarando rapaz.
- Ele quer dizer que você é um bom patrão e que, embora enérgico, sempre cuidou muito bem de seus funcionários.
É por isso que Deus o tem protegido - tentou esclarecer Iolanda.
Querido, lembre-se de que você é responsável pela sobrevivência de milhares de pessoas espalhadas pelo mundo.
- Como assim, Iolanda?
Explique-se melhor, por favor.
- Você sustenta centenas de famílias espalhadas no mundo inteiro, com seus vários negócios, principalmente com a fábrica de automóveis, que tem filiais em vários países.
Albert ficou sério e fez um sinal para que a esposa prosseguisse com sua explicação.
Iolanda encarou o filho e percebeu pelo olhar do mesmo que deveria parar por aí.
- Não tenho mais nada a dizer, Albert.
Albert olhou para o filho e perguntou:
- E você, Hugo?
Tem algo a falar?
- Por enquanto, não.
- Então, por favor, deixem-me trabalhar.
Tenho que verificar como estão os negócios.
Mãe e filho ergueram-se e se retiraram em silêncio.
Iolanda não parava de pensar numa possível recaída do marido, pois segundo o que ela aprendera na Doutrina Espírita, os perseguidores do marido estavam apenas se reorganizando para voltarem a atacar novamente.
- Mamãe, a senhora está preocupada?
- Claro que estou, filho.
Imagine se os inimigos de seu pai voltarem a atacar?
Tenho quase certeza de que ele não suportará, pois eles virão preparados para acabar com o Albert de uma vez por todas.
- A senhora tem algum plano?
Iolanda olhou para um lado e outro, certificando-se de que não havia ninguém por perto, convidou o filho:
- Vamos conversar em seu quarto?
Hugo anuiu com um sinal de cabeça e ambos se encaminharam para o quarto dele.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 26, 2016 10:11 am

Capítulo XXVI - Porque aconteceu
Iolanda conversava com o filho, esforçando-se ao máximo para evitar que alguém os ouvissem.
Ela dialogava com o rapaz como se estivesse conspirando.
Preocupado e em silêncio, Hugo permanecia sentado ao lado da mãe, ouvindo-a atentamente e tentando entender o que ela queria transmitir com aquelas palavras.
- Chegou o momento de tentarmos convencer o seu pai a frequentar o centro espírita.
E isso deve acontecer antes que seus obsessores voltem a atacá-lo - disse Iolanda, segurando as mãos do filho.
Você concorda comigo?
Hugo, que meditava sobre as palavras da mãe, voltou a cabeça para ela e respondeu-lhe com uma pergunta:
- A senhora notou que ele não se referiu à Carla em momento algum?
- Sim. Talvez ele não queira falar sobre esse assunto tão delicado.
- Pode ser.
- Parece que você está preocupado com alguma coisa - comentou Iolanda, notando a seriedade estampada no rosto do filho.
- Mamãe, se nós conversamos sobre vários assuntos, e ele deu a entender que se lembrava de tudo, por que o papai não falou sobre a Carla e o convite que fizemos?
Iolanda ficou em silêncio.
- É estranho mesmo.
Mas vamos tentar conversar com o seu pai a esse respeito.
- Quando?
- Agora mesmo, filho.
Hugo encarou a mãe com os olhos muito abertos, surpreso com a decisão dela, mas anuiu com a cabeça.
Ambos se ergueram e se dirigiram ao escritório de Albert.
Albert estava de cabeça baixa, folheando um documento, quando ouviu a mulher e o filho pedirem licença para falarem com ele.
- Entrem e fiquem à vontade - disse Albert, erguendo a cabeça e colocando os óculos sobre a mesa.
Sentem-se, por favor.
Pelo aspecto de vocês, acho que vamos ter uma conversa séria.
Hugo fitou a mãe de esguelha e recebeu o sinal.
- Vocês têm algum segredo para me contar? - perguntou o empresário, sorrindo.
Hugo ganhou coragem com aquele sorriso e com muito jeito perguntou-lhe:
- Papai, o senhor se lembra de tudo que aconteceu quando esteve doente?
O homem passou a duas mãos nos cabelos brancos, que já estavam rareando, e como se estivesse se espreguiçando, talvez querendo ganhar tempo para responder a pergunta do filho, ficou em silêncio por alguns momentos.
- Quase tudo, filho - disse ele.
- O senhor sabe por que adoeceu?
Albert fitou o filho com seus olhos azuis - que agora mudavam de cor, sinal de que ele não estava gostando da conversa - e tentou se controlar.
Hugo observou que o pai havia fechado os punhos, como se quisesse, num esforço muito grande, dominar o próprio génio.
- Sua ex-namorada Carla foi o começo de tudo - respondeu o pai sério, não deixando dúvida de que aquele assunto não o agradava.
Era isso que você queria saber, Hugo?
O filho baixou a cabeça por alguns segundos e depois perguntou ao pai, com calma e muito cuidado para não desequilibrá-lo:
- O senhor ainda continua ressentido com o que aconteceu entre mim e Carla?
Albert limitou-se a riscar um papel que estava à sua frente como se não tivesse ouvido a pergunta do filho.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

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Iolanda, que ainda não havia se pronunciado, perguntou de chofre, tentando desviar o assunto.
- Querido, você se lembra de que nós o convidamos para participar de uma reunião num centro espírita?
Albert fitou a esposa e fez um gesto com a cabeça, confirmando que se lembrava do convite.
Um silêncio mortal tomou conta do ambiente.
Albert estava com o olhar perdido, fingindo que observava um belíssimo quadro pendurado logo à sua frente.
Ele evitou comentar a pergunta da esposa.
Enquanto isso, o mentor espiritual de Hugo - o espírito Domingos - estava em prece, próximo à porta.
Do lado de fora do escritório e acompanhado de seus asseclas, em vão Navarro estudava uma maneira de envolver Albert, porém, não conseguia, pois Hugo e Iolanda se mantinham em silenciosa prece.
- Não adianta tentar controlar o Duque, Navarro - disse Patrik, nervoso e aborrecido.
Ele encontra-se protegido por uma energia poderosa, enviada pelas preces da esposa e do filho.
- Chefe, sinto que tem alguém muito poderoso neste lugar, enviado pelo dirigente deles - alertou Louis.
- Não vejo mais ninguém, além desse canalha e sua família - disse Navarro, furioso com os empecilhos que atrapalhavam sua vingança tramada há anos contra o então Duque Antoine.
Aos poucos o espírito Domingos foi aparecendo para aqueles espíritos sofredores, mas para isso, tivera que graduar sua faixa de vibração com a deles, para que os mesmos pudessem perceber a presença do mensageiro do Senhor que protegia Albert e família.
- Não consigo entender porque esse canalha tem a protecção desse pessoal - disse Navarro, expelindo uma saliva grossa e esverdeada, enquanto encarava Domingos desconfiado.
Louis também pôde ver o espírito do bem que estava a postos naquela residência, ao ouvir o comentário do chefe.
- Chefe, o Duque de L. tem ajudado muita gente.
Nesta existência ele é um dos homens mais ricos do país e do mundo e ajuda milhares de pessoas, empregando-as em suas fábricas - disse ele, recebendo intuitivamente essas palavras do espírito Domingos.
Imagine, chefe, quantos pedidos de protecção são dirigidos ao Todo Poderoso para esse elemento ignóbil que acabou connosco, quando era o Duque Antoine.
- Não me interessa essa história, Louis! - gritou Navarro.
Tenho que encontrar uma maneira de fazê-lo pagar pelo que fez connosco!
- Lembre-se, chefe, que éramos nós que conspirávamos contra o Duque, no sentido de delatarmos ao rei toda a estratégia dele para usurpar o trono - disse Patrik.
Sendo assim, ele teve lá suas razões para mandar acabar connosco.
Navarro deu um pulo, agarrou o pescoço do seu lugar-tenente e perguntou com o rosto congestionado de ódio:
- Você está defendendo esse canalha?
- Não. Sei que ele merece deixar esse mundo, porém, eleja fez coisas que nós ainda não fizemos, pois estamos, há mais de três séculos, vivendo somente para a vingança e esquecendo-nos de progredir como ele.
- Seu safado!
Vou castigá-lo por isso e também para aprender a me respeitar! - berrou Navarro.
Você está se deixando seduzir pela conversa desse pessoal sem personalidade, que acredita nas promessas dessa gente metida a boazinha!
De repente o chefe sentiu-se preso por algo invisível.
Atordoado, ele perguntou:
- O que está acontecendo?
Quem está me prendendo?
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 27, 2016 9:50 am

Navarro pôs a mão no rosto, sentindo um terrível mal estar, e como se estivesse retrocedendo no tempo e no espaço, se viu no exacto momento em que foi executado.
Assim que voltou ao normal, ele se encontrou deitado no chão de sua caverna - lugar que plasmara em seu subconsciente perispiritual como um castelo, sua residência na sua última existência em uma pequena cidade da França.
Apavorados com aquele estranho acontecimento, Louis e Patrik correram em direcção à caverna deles, pois no fundo acreditavam na força do espírito enviado pelo poder maior desse universo: Deus.
Caríssimos leitores, voltaremos ao solar de Albert, para sabermos como está o diálogo entre pai, mãe e filho.
Albert pousou as duas mãos sobre a mesa, vislumbrando com admiração e orgulho o portentoso anel incrustado com um diamante puro, herança de família, e depois relanceou o olhar entre o filho e a esposa.
Calmamente ele disse:
- Meu filho, eu pensava que agia certo quando tomei aquela decisão sobre o relacionamento de vocês e, por isso, não sinto remorso algum quanto ao que aconteceu.
No que diz respeito ao convite que vocês me fizeram, para ir a um centro espírita, minha resposta é não.
Não tenho religião e não acredito em nada que não seja palpável, todavia, não vou proibi-los de seguir a religião que desejarem.
Albert ergueu-se e finalizou a conversa com um ar sério.
- Agora, por favor, deixem-me só.
Tenho muito trabalho para pôr em ordem.
Esposa e filho ergueram-se e deixaram o escritório em silêncio.
Ambos se dirigiram para um banco do jardim e, após acomodarem-se, Iolanda perguntou ao Hugo:
- O que você achou da conversa, filho?
- Melhor do que eu pensava.
- Por que?
- Ora, mãe!
A senhora mesma ouviu que ele falou sobre a Carla de outra maneira.
E a respeito do nosso convite, o facto dele não ter intenção de impedir nossas escolhas, já foi um grande progresso para afastar seus inimigos.
- É verdade, filho.
Iolanda fitou o rapaz e perguntou em voz baixa:
- Ele já sabe do que você sente por Viviane?
- Não.
- Como você acha que ele vai receber essa notícia?
- Não tenho ideia - respondeu o filho.
Mas algo me diz que ele mudou um pouco, e para melhor.
- Deus o ouça!
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 27, 2016 9:51 am

Capítulo XXVII - Viviane
Carla encontrava-se deitada nos degraus de uma igreja bastante conhecida da cidade.
Desesperadamente, ela chorava, gritava e contorcia-se de dor.
Ora apertava com as mãos a cabeça, ora o estômago e ora a boca, como se quisesse evitar o vómito.
Aquele pobre espírito não esquecia por um segundo a maneira como havia encerrado sua existência.
Havia plasmado em sua memória perispiritual o momento em que ingerira as substâncias que a conduziram de volta ao mundo espiritual.
- Hugo! Por favor, ajude-me! - gritava ela, lembrando-se do ex-namorado.
Em fracções de segundos, Carla se encontrou no quarto de Hugo, entretanto, notou que não podia aproximar-se do rapaz, pois se chocava em uma barreira, não podendo tocá-lo.
Com a bondade daqueles que trabalham na seara do Mestre Divino, o espírito Domingos apareceu novamente - entendendo o sofrimento da médica que, num momento de fraqueza e afastamento da Divindade, tirou a preciosa existência que Deus nos dá como instrumento de progresso - e graduou sua faixa de vibração para permitir que o espírito sofredor pudesse vê-lo.
Assim que captou a presença do espírito, e prevendo que ele lhe passaria um sermão, a pobre moça falou aborrecida:
- Meu senhor, perdoe-me a ignorância, mas não suporto seus conselhos.
Isso me cheira a sermão de gente alienada, que vive perambulando pelas igrejas e lugares semelhantes.
Aviso-lhe que não tenho religião e não acredito nisso, porque sou uma médica e cientista.
- Minha querida irmã, deixe-me tentar fazer algo por você - pediu o espírito chorando, pois ele a conhecia de outras existências.
A moça encarou o espírito e, num rito de dor estampada no rosto, causada pelo seu superlativo sofrimento, baixou a cabeça e resmungou:
- Ninguém pode me ajudar, senhor - disse ela, tentando compreender o belo homem que desejava ajudá-la.
Quero morrer e não consigo.
Não aguento tanta dor e já estou enlouquecendo por isso.
Domingos orava, pedindo a clemência do Pai para aquela criatura sofredora.
- Domingos! - alguém chamou o espírito.
Ele viu uma bela mulher, com a feição iluminada por um sorriso de bondade e simpatia, pegar em seu braço e dizer-lhe:
- Querido, não se esqueça do livre-arbítrio que Deus deu aos Seus filhos.
Nós é que escolhemos as provações e as expiações pelas quais passaremos para resgatarmos suas dívidas.
- Amanda!
Como estou feliz com a sua presença!
E como se a tristeza tivesse novamente nublado seus olhos, disse-lhe:
- Desculpe-me, querida amiga, mas não consigo ver a nossa Antonieta sofrendo dessa maneira - disse Domingos.
Você sabe muito bem que essa filha de Deus tem um coração de ouro.
Amanda fez um gesto afirmativo com a cabeça e disse:
- Sei tanto quanto você que nossa irmã vem vencendo suas provações, até esta, quando não aguentou o peso do orgulho, reactivado pela sua formação académica, e renegou a fé no Ser Supremo - disse o formoso espírito, chorando.
- Você não acha que o Albert contribuiu para que ela cometesse esse acto insano contra as leis do Criador? - perguntou Domingos.
- Querido Domingos, conforme o que está registado na memória perispiritual dela, foi o orgulho que destruiu seu corpo material, simplesmente porque o pai do Hugo não fez a vontade da mesma.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 27, 2016 9:51 am

Por outro lado, o Albert foi contra o casamento dela com o filho dele, também porque o orgulho, juntamente com as lembranças do passado que estão arquivadas na memória perispiritual dele, veio à tona naquela ocasião.
- As lembranças de quando ele era o Duque Antoine, Carla sua filha Antonieta e Hugo seu fiel servidor Jean - completou Domingos.
- Exactamente, meu irmão - confirmou a bela Amanda.
Além disso, conhecemos vários inimigos do pretérito de Albert que sempre o perseguiram, exercendo uma influência muito forte sobre ele, com o objectivo de destruí-lo em todas as existências que tivera, após ter sido um nobre na corte francesa do século XVIII.
- É verdade. Isso sem levarmos em consideração as existências que ele tivera antes desta como o Duque Antoine.
Ambos ficaram em silêncio, como se estivessem em prece, a fim de receberem orientações do alto.
Carla ergueu-se e saiu novamente correndo e gritando, misturando a dor que sentia à revolta pelo mundo, porque se sentia uma desventurada e inútil.
A vontade de morrer tornava-a cada vez mais desequilibrada, pois não conseguira acabar com a vida no momento em que tentara o suicídio.
Domingos aproximou-se de Amanda e perguntou-lhe, com a educação dos espíritos evoluídos:
- Querida irmã, você acha que o Albert vai conseguir vencer os seus perseguidores nessa existência?
- Eu não posso responder essa pergunta, meu caro Domingos.
Todavia, algo me diz que aquelas duas almas boas que estão ao seu lado conseguirão amenizar um pouco o orgulho secular do famoso Duque Antoine, neutralizando as acções de seus inimigos.
- Você está se referindo ao Hugo e Iolanda?
- Exacto.
Após esse diálogo, ambos se despediram e foram para as colónias espirituais aonde estavam lotados, prestando serviços no mundo espiritual.
Enquanto isso, na caverna aonde se reunia os espíritos inimigos de Albert, o Barão Pátulo chutava tudo que encontrava pelo caminho e esmurrava as paredes com ódio, causando medo em seus subordinados, que se mantinham encolhidos no fundo.
Navarro observou que os olhos do Barão emitiam chispas de ódio, o que os tornavam vermelhos e semelhantes aos de um cão raivoso.
Mesmo assim, aproximou-se com muito cuidado do chefão e perguntou:
- O que houve, Barão?
O que o atormenta?
Visivelmente fora de si, Pátulo voltou-se para o companheiro de infortúnio e gritou totalmente descontrolado:
-Cale-se, seu inútil!
Silêncio.
Navarro baixou a cabeça e concluiu que não devia continuar fazendo perguntas, sob pena de receber um castigo terrível daquele ser que mais parecia um animal.
- As chances que tínhamos para destruir aquele cão danado se acabaram - disse o Barão, falando para si mesmo.
- Do que o senhor está falando? - atreveu-se a perguntar Navarro.
- De Viviane.
- Quem é Viviane?
- A princesa Angelina, filha do rei naquela época.
Actualmente, ela se chama Viviane e reside numa pequena cidade, onde Hugo ficou algum tempo exilado e se apaixonou por ela.
- Qual era o seu plano? - perguntou Patrik.
- Tentar dominar a mente de Viviane e insuflar a vingança no coração de Hugo.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 27, 2016 9:51 am

- Chefe, mas ainda está em tempo - disse Navarro, demonstrando esperança na voz.
O Barão Pátulo, que caminhava enfurecido dentro da caverna, voltou-se para o capanga e respondeu:
- Não há como interferir na relação entre os dois, pois eles nutrem um amor de séculos.
Naquela época, a princesa Angelina já amava o escudeiro do Duque, e quando soube da relação amorosa entre Jean e a Duquesa Antonieta, sufocou o seu sentimento e não deixou que ninguém soubesse.
- Como o senhor descobriu? - perguntou Navarro.
- Conheço Viviane, a princesa Angelina de ontem, há vários séculos.
Havia esquecido desse detalhe, até o dia em que fui ver de perto a mulher pela qual Hugo havia se apaixonado.
- Foi aí que o senhor lembrou do passado dela? - perguntou Patrik.
- Sim.
- Mas se dominássemos a mente dela, talvez conseguíssemos - disse Louis.
- Deixe de ser ignorante!
Lembre-se que ninguém consegue interferir no amor puro entre duas pessoas! - disse o Barão.
- Isso é verdade - concordou Patrik, passando a mão no rosto disfarçadamente, como se estivesse enxugando uma lágrima.
- E agora, chefe? - indagou Navarro.
- Vamos pensar.
O Barão Pátulo foi embora, deixando Navarro e seus asseclas pensativos.
- Não me conformo em perder para esse demónio do Albert - disse Navarro.
- Deve haver uma maneira de levá-lo à loucura - disse sem muita convicção Patrik.
Navarro caminhava inquieto pela caverna.
- Ainda não consegui entender porque esse asno do Albert está sob a protecção do Todo Poderoso - falou Navarro.
- O motivo já foi explicado - disse Louis timidamente.
- Eu sei - disse Navarro aborrecido e dispensando seus homens com um gesto.
Enquanto isso, em seu escritório, Albert pensava:
"Não sei o que está acontecendo comigo".
Ele ergueu-se, começou a caminhar pelo luxuoso escritório e reflectia em agonia:
"Por que eu fiz aquilo com a Carla, inclusive renegando meu próprio neto?
Tenho que encontrar respostas para essas perguntas que martelam em meu cérebro, senão vou enlouquecer novamente e dessa vez será irreversível".
Albert sentou-se numas das confortáveis poltronas e se entregou completamente às suas indagações.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 27, 2016 9:51 am

Capítulo XXVIII - Albert resolve buscar recursos
Albert ergueu-se da cadeira na qual estava sentado em seu escritório e se dirigiu a um pequeno jardim localizado no interior da mansão, onde a sua esposa e filho conversavam acomodados em aconchegantes poltronas.
Ao ver o marido encaminhando-se em direcção a eles, Iolanda ergueu-se surpresa, no que foi imediatamente imitada pelo filho, e ambos cumprimentaram o homem, desconfiados.
"Nunca vi o Albert se aproximar voluntariamente de nós, sem que estivesse em seu escritório", pensou Iolanda.
Albert respondeu ao cumprimento, sorriu e sentou-se numa cadeira.
Ficou em silêncio por alguns minutos, talvez procurando palavras adequadas para entabular um diálogo com eles.
Ninguém se atreveu a fazer qualquer comentário ou perguntar-lhe algo.
O homem encarou Iolanda e depois o filho, enquanto tirava os óculos com gestos lentos e estudados - como era de costume sempre que desejava falar sobre algo importante.
- Aonde fica esse centro espírita? - indagou o empresário em voz baixa, fitando um ponto invisível ao lado e demonstrando aparente enfado.
Iolanda imediatamente olhou para o filho, surpresa com a pergunta do marido.
- De carro, fica a uns trinta minutos daqui - respondeu Hugo, tão surpreso quanto à mãe.
O pai ergueu-se, aproximou-se de uma planta que estava florida e fingiu que a observava para ganhar tempo, tentando reassumir o controle, como se estivesse vivendo um conflito interno.
- Eu irei com vocês na próxima reunião, para conversar com o responsável por esse tal de centro - disse Albert, com as costas voltadas para a família.
- Querido! Como fico feliz em saber que você aceitou o nosso convite! - disse a esposa, demonstrando uma enorme satisfação pela decisão que o marido havia tomado.
- Preciso conversar com a pessoa que dirige essa seita, para tirar algumas dúvidas.
- Papai, o Espiritismo não é uma seita, e sim, uma religião, embora seja uma Doutrina que abrange vários assuntos, como filosofia, ciência e religião.
Quanto à pessoa que o senhor deseja conversar, tenho certeza de que o mesmo vai esclarecer todas as suas dúvidas.
- Espero, filho.
Vou viajar para inspeccionar as fábricas e não quero ficar pensando no que pode dar errado.
E sendo assim, se esse é o caminho para ficar completamente curado, vou sim, recorrer a esses métodos estranhos - disse o pai, afastando-se em direcção ao seu escritório.
Após o homem ter deixado o local, Iolanda aproximou-se do filho e perguntou:
- O que você acha disso, filho?
Hugo pensou, passou as mãos nos cabelos louros, num gesto de satisfação, e respondeu:
- Acho que ele reflectiu sobre tudo o que lhe ocorreu, e como não encontrou explicações através da ciência, agora, decidiu tentar entender, a qualquer custo, o que realmente lhe aconteceu, por ocasião de sua internação.
- Você acha que o presidente daquele centro conseguirá ajudar seu pai?
- Não sei, mamãe - respondeu o filho.
Mas não custa nada que ele tenha uma conversa com alguém que possua mais conhecimento acerca da Doutrina Espírita.
- Estou com medo, filho.
- Onde está a sua fé, mãe?
Silêncio.
Após alguns minutos, ambos ergueram-se e tomaram a direcção de seus aposentos.
No dia seguinte, à noite, Albert e família encontravam-se no interior do pequeno salão do centro espírita, no horário previamente combinado.
Albert tirou um lenço do bolso e o passou numa cadeira, sentando-se com o seu jeito imponente e orgulhoso.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 27, 2016 9:51 am

Iolanda olhou de esguelha para o filho e se sentou ao lado do marido.
Após alguns minutos, Edvaldo, que já tomara conhecimento do facto, aproximou-se do patrão e convidou-o com um sorriso:
- Por favor, acompanhe-me, Dr. Albert.
Albert sentiu algo estremecer dentro de si.
Ele não sabia que naquele momento os espíritos Navarro, Patrik e Louis estavam tentando controlar sua mente, induzindo-o a não conversar com o presidente do centro.
Ele encarou o funcionário e com muito esforço se ergueu e o seguiu.
Em poucos minutos, encontravam-se reunidos em silêncio Marcelo, homem ainda jovem, calmo, carismático, atrás de uma mesa simples, e defronte a si o empresário, que tentava transmitir calma, para mostrar àquele senhor humilde sua superioridade.
Na porta da sala, o espírito Domingos estava de plantão, para evitar que os asseclas de Navarro atrapalhassem a conversa entre Albert e Marcelo, o presidente do centro.
Os espíritos rebeldes esmurravam o ar e seus olhos fuzilavam Albert com ódio, revoltados por não conseguirem seu intento.
- Não consigo acreditar nessa tal de justiça! - disse Navarro, soltando uma saliva amarelada pela boca, semelhante a um cão raivoso.
- Por que, chefe? - perguntou Patrik.
- Não entendo porque esse canalha é protegido por essa gente que nos impede de concluirmos nossa vingança!
- Concordo, chefe! - disse Louis.
Enquanto isso, Domingos fazia uma prece, pedindo a Deus por aqueles espíritos perseguidores de Albert, que plasmaram em suas memórias perispirituais, há mais de três séculos, um dos mais terríveis defeitos da humanidade: a vingança.
- Albert é um ser que está sob a protecção do bem pelos seus próprios méritos - disse Amanda, aparecendo de repente.
Navarro jamais entenderia essa protecção do alto, principalmente a dessas criaturas que estão tentando ajudá-lo - mãe e filho.
- Concordo, irmã - disse Domingos.
Mas se Navarro conseguisse se vingar do Albert, levando-o à loucura ou ao suicídio, como era o plano dele, não seria apenas o cumprimento da Lei de Causa e Efeito?
- Não, meu querido irmão.
- Por quê?
- Lembre-se que Jesus disse um dia:
"Eu não vim destruir a lei, e sim, dar cumprimento a ela".
- Não entendi, irmã Amanda.
- Todos que estão sob a protecção de Albert em suas empresas e fábricas, agradecem diariamente a Deus por ter um patrão como ele - elucidou Amanda.
Se o patrão fosse arrancado do corpo material antes do tempo, o que aconteceria com eles?
- Mas isso não o isenta das dívidas contraídas com esses irmãos sofredores do mundo espiritual.
- Certamente. Mas não se esqueça de que enquanto os seus perseguidores ainda vivem envolvidos por fluídos malsãos, Albert, apesar de ser orgulhoso e prepotente, também é honesto e não pára de trabalhar, enquadrando-se nas leis de trabalho e progresso.
- Por isso, ele consegue a protecção do alto?
- Exactamente, caríssimo irmão.
Domingos, que já sabia desse pormenor, pois também era um espírito bastante evoluído, pensou:
"As leis de Deus são perfeitas".
Na sala de Marcelo, Albert estendeu a mão em direcção a um copo que se encontrava na sua frente e tomou um gole d'água.
Em seguida, olhando directamente para os olhos do presidente daquela instituição religiosa, falou tentando se controlar:
- O senhor é médico? - indagou Albert, fitando Marcelo com um certo desdém na voz.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 27, 2016 9:52 am

- Não. Sou um simples funcionário público.
- Não sei como uma pessoa tão desqualificada vai poder tirar minhas dúvidas - disse Albert, levantando-se.
Desculpe-me, senhor Marcelo, mas nada temos a falar.
- Concordo, senhor Albert.
Quando Albert abriu a porta para sair e ir embora, ouviu Marcelo falar:
- O senhor teve muita sorte, quando a misericórdia divina atendeu aos vários pedidos de seus funcionários e evitou que seus perseguidores se vingassem, levando-o à loucura e ao suicídio.
Albert parou e repousou uma mão no trinco da porta, sem abri-la.
- Deus é infinitamente bom e justo - prosseguiu Marcelo.
Não se esqueça de que o seu filho Hugo perdeu uma pessoa que ele pensava amar, unicamente por causa desse seu orgulho que nada constrói, e mesmo assim ele está ao seu lado, tentando ajudá-lo.
O presidente do centro espírita respirou profundamente e com as duas mãos sobre a mesa continuou:
- Mas logo o senhor terá uma grande surpresa, pois ele encontrou o verdadeiro amor.
Albert girou sobre os calcanhares num gesto de surpresa e sentou-se novamente em silêncio, enquanto ouvia aquele porta-voz de um ser invisível.
Naquele momento, a irmã Amanda estava em perfeita sintonia com a mente de Marcelo, falando através dele ao orgulhoso empresário.
- Deus é o criador de todos os seres e de todos os mundos, e nada acontece sem a permissão Dele - disse Marcelo.
Todas as Suas criaturas têm o chamado "livre-arbítrio", desde que não ultrapassem essa liberdade para fazer o mal a quem não merece.
Marcelo fez uma pequena pausa e logo prosseguiu, olhando directamente para os olhos de Albert:
- Meu irmão Albert, nunca desdenhe do nosso Criador.
Você tem muitas dívidas a pagar e precisará de muita coragem para resgatá-las no tempo previsto.
E finalizou:
- Albert, daqui para frente, tudo depende de você:
vencer ou não, essa existência.
Após esse instante, ele se calou e permaneceu em silêncio e de olhos fechados durantes alguns minutos.
Em seguida, como se saísse de um transe, Marcelo respirou profundamente e perguntou:
- Meu irmão, estou à sua inteira disposição, para informá-lo sobre qualquer dúvida a respeito da Doutrina Espírita.
O famoso empresário Albert baixou a cabeça e apenas disse, como se estivesse envergonhado:
- Desculpe-me, senhor Marcelo, pela minha grosseria.
- Não tenho porque desculpá-lo, senhor.
Nossa humilde casa está à sua disposição.
Albert ergueu-se para sair, mas ouviu o presidente do centro falar:
- Por favor, senhor, compareça às nossas reuniões.
É para o seu bem.
Albert estendeu a mão e despediu-se de Marcelo com um sorriso, dizendo:
- Farei o possível para frequentar todas as suas reuniões, pois necessito entender melhor essa Doutrina.
- Vá com Deus, meu irmão!
Albert assistiu a reunião pública, ouvindo com atenção a explicação evangélica prevista para aquela noite.
Ao retornarem para o lar, Iolanda e Hugo se entendiam através do olhar, perguntando-se o que havia acontecido com Albert.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 27, 2016 9:52 am

Já em casa, Albert sentou-se num banco do jardim e permaneceu em silêncio.
A esposa e o filho notaram que ele desejava ficar só, por isso cumprimentaram-no e seguiram em frente.
"Como aquele homem sabia que eu não acreditava em Deus?
E porque não consegui rebatê-lo, logo, uma pessoa aparentemente sem instrução ou recursos?", perguntava-se o empresário.
Ele levantou-se e andou pelo jardim.
"Todo mundo sabe o que houve com Carla, principalmente que fui contra o casamento dela com o Hugo, mas ele deixou claro que o Hugo não sentia amor por ela", continuou a pensar.
De repente ele se encaminhou apressado para o interior da mansão e encontrou a esposa conversando com o filho numa pequena sala íntima.
Iolanda e Hugo ergueram-se assustados, pois não esperavam aquela visita inesperada.
- Papai, sente-se, por favor - convidou o filho.
- Obrigado.
Silêncio.
Albert aproximou-se do filho, que estava sentado, e perguntou-lhe:
- Hugo, você pode me tirar uma dúvida?
- Com prazer, meu pai.
- Você amava a Carla?
Hugo deu um pulo, erguendo-se da cadeira como se algo o tivesse impulsionado automaticamente.
- Porquê a pergunta? - respondeu o rapaz com outra pergunta.
- Responda, Hugo, por favor! - pediu o pai em voz enérgica.
- Papai, nunca amei a Carla, porém, só descobri isso após alguns meses.
- Quando?
Hugo olhou para a mãe e recebeu um sinal.
- Quando descobri que amava outra moça.
- Quem?
- A dona da casa onde passei os quase dois anos do meu exílio.
Albert contraiu as mandíbulas num gesto típico de quem tentava controlar a raiva.
"Então, é verdade o que o Marcelo falou", pensou.
- Você falou isso para o Marcelo?
- Somente minha mãe sabe disso.
Eu pretendia informá-lo de tudo, mas esperava uma oportunidade para explicar-lhe toda a situação.
Ele foi até a janela, respirou o ar perfumado do jardim e se voltou para a família.
- Vou para o meu quarto.
Depois conversaremos, Hugo.
Antes de deixar a sala, ele fitou a esposa e perguntou-lhe:
- Você falou sobre esse assunto com mais alguém?
- Não. Esse é um segredo que o Hugo guarda a sete chaves.
Albert apertou os punhos e saiu da sala.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

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Capítulo XXIX - O sofrimento de Carla
Nem por um segundo o espírito Carla conseguia paz, pois não esquecia o momento infeliz em que destruiu o seu corpo material.
Não podemos infringir as leis de Deus, sob pena de sofrermos as consequências desses actos.
Sabemos que Deus é omnipotente e infinitamente bom, porém precisamos respeitar Suas leis, para continuarmos o aprendizado através da pluralidade das existências e assim nos libertarmos da matéria e progredirmos intelectualmente e
moralmente, a fim de galgarmos mundos superiores, com nossas consciências tranquilas ante ao Criador.
"O melhor mesmo é seguirmos os conselhos dos próprios suicidas que se comunicam com os médiuns:
- Que os homens suportem todos os males que lhes advenham da Terra, que suportem a fome, desilusões, desonra, doenças, desgraças sob qualquer aspecto, tudo quanto o mundo apresente como sofrimento e martírio, porque tudo isso ainda será preferível ao que de melhor se possa atingir pelos desvios do suicídio.
(...)", diz a médium Yvonne do A. Pereira, no seu livro "A Luz do Consolador", edição da FEB.
O espírito Carla recorreu a esse acto tresloucado movido pelo terrível defeito da humanidade denominado orgulho.
No capítulo décimo, de "O Evangelho Segundo o Espiritismo", o codificador comenta o seguinte, no número dez:
"...Incontestavelmente, é o orgulho que leva o homem a se dissimular os próprios defeitos, tanto ao moral como ao físico.
(...) Se o orgulho é o pai de muitos vícios, é também a negação de muitas virtudes; encontramo-lo no fundo e como móvel de quase todas as acções.
Por isso, Jesus se dedicou a combatê-lo como o principal obstáculo ao progresso".
Portanto, conforme essas considerações evangélicas, tanto Carla como Albert são vítimas dessa chaga que ainda manipula a humanidade habitante dos mundos inferiores.
Albert deixou-se envolver por esse sentimento que nega a caridade para com o próximo e Carla, se achando ofendida, porque o pai do namorado não lhe fez os caprichos, fortaleceu ainda mais esse defeito horrível não acreditando na imortalidade do espírito e tentando inutilmente acabar com apropria vida.
Mesmo com uma existência distanciada dos ensinamentos do Mestre Divino, o empresário Albert ainda possuía créditos junto ao Criador, pois, apesar de seus defeitos, ele também lapidou algumas virtudes ao longo do tempo, como honestidade e trabalho, e administrou com sabedoria os bens que Deus lhe emprestou para ajudar os milhares de espíritos que estavam sob sua responsabilidade.
Quanto à Carla, mesmo sendo um espírito bom, caridoso e trabalhador, num momento de fraqueza pôs fim a sua última existência, cometendo, assim, uma das mais graves transgressões às leis de Deus.
Dessa forma, ela vai sofrer as consequências de seus actos, até encontrar condições necessárias para sua recuperação.
A cada dia que passava, Carla se desequilibrava mais, ficando à mercê dos espíritos maléficos das zonas umbralinas.
Apenas quando erguer os olhos para o alto e pedir perdão a Deus, reconhecendo Nele o Criador, com a sinceridade advinda do princípio espiritual, é que ela será imediatamente atendida e conduzida para um lugar adequado à recuperação dos suicidas.
Os familiares de Carla, inclusive sua mãe, tornaram-se espíritas e trabalhadores da Seara do Mestre, ajudando os necessitados e estendendo as mãos para aqueles que sofrem as adversidades na existência material.
Aprenderam com o desencarne dela que precisavam estar sempre ancorados pelo nosso Criador, para vencer as agruras das existências, principalmente as dos mundos inferiores.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 27, 2016 9:52 am

Enquanto isso, Albert e família frequentavam o centro espírita tentando ajudar-se mutuamente.
Com sua vontade férrea, o empresário levava à sério os ensinamentos dos espíritos, e embora ainda se considerasse céptico, pois não conseguia acreditar em um ser invisível, que havia criado o universo com todas as suas criaturas, ele já se deixava meditar sobre o assunto.
Iolanda e Hugo estavam satisfeitos com a melhora dele, e principalmente, com a transformação pela qual ele passava.
Albert havia desenvolvido um verdadeiro respeito por Marcelo, presidente da instituição espírita, pois durante os dois meses em que frequentava o centro, ele estava sempre por perto tentando tirar suas dúvidas.
- Meu caro Marcelo, eu ainda não consegui entender por que você disse que a minha doença foi causada pela perseguição de meus inimigos do passado - disse Albert, enquanto caminhava com o amigo, visitando as instalações do centro. - Pessoalmente, nunca conheci nenhum inimigo, pois sempre cumpri minhas obrigações, a não ser os concorrentes que, por motivos comerciais, às vezes, tornam-se adversários no mundo dos negócios.
- Sou médico e confesso que tudo isso foge aos meus estudos, a respeito da mente humana - também disse o Dr. Maurício, que acompanhava os dois homens naquela ocasião.
Marcelo, que mostrava ao empresário um terreno ao lado do centro, onde pretendia construir um pequeno hospital para o tratamento dos irmãos perturbados, parou e falou sorrindo, voltando-se para Albert e o Dr. Maurício:
- Segundo a Doutrina Espírita, os espíritos influenciam em nossos pensamentos muito mais do que imaginamos.
Quando me refiro à perseguição de inimigos do passado, não falo em inimigos desta existência.
- Você quer dizer que esses inimigos são de minhas vidas passadas? - perguntou Albert.
- Exactamente, meu caro Albert - confirmou Marcelo, fitando o terreno ao lado do centro.
- É difícil acreditar nisso, Marcelo - disse o Dr. Maurício com a mão no queixo, como se estivesse tentando vencer um conflito que lhe ia na alma.
Os homens continuaram a caminhar em silêncio.
- Não creio que tive outras existências - disse Albert sem muita convicção.
- Quer dizer que tudo que estudei e todos os tratamentos comprovados cientificamente, segundo seus esclarecimentos, são inúteis? - perguntou o Dr. Maurício, aproveitando o comentário do empresário.
Marcelo parou e respirou profundamente, talvez tentando encontrar palavras adequadas para elucidar os questionamentos daqueles homens.
Pensou um pouco e depois disse:
- Albert, como um espírito imortal, logo você vai deixar este corpo que lhe serve de moradia, porém, no futuro, Deus lhe concederá outras moradas, outros corpos materiais, nas quais você terá novas existências.
Isso prova que a vida continua após a morte.
Quanto à sua dúvida, Dr. Maurício - continuou Marcelo.
Você é um médico, com aval da ciência e de Deus, apto a prestar seus serviços ao próximo, pois, enquanto os espíritos viverem em mundos inferiores, eles necessitarão da ajuda dos profissionais de várias áreas para poderem progredir.
Sendo assim, caro Maurício, continue estudando e exercendo sua profissão, pois a Doutrina Espírita nos informa que a Lei do Trabalho é fundamental para o progresso do espírito.
Durante todo aquele tempo, desde sua volta para casa, Hugo pôs em ordem o hospital no qual era director.
Após muito trabalho e graças às informações da Doutrina Espírita e a ajuda de seu amigo espiritual Domingos, conseguiu ajudar o pai a ficar equilibrado.
Certo dia, enquanto estava entregue ao trabalho em seu consultório, ele recebeu a visita de Albert.
Após os cumprimentos de praxe, Albert sentou-se e ficou em silêncio, apenas observando o filho, que simulava pôr em ordem alguns documentos.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 28, 2016 11:43 am

Albert ergueu-se e se pôs a observar um bonito vaso de porcelana que adornava uma das mesas do escritório do director do hospital.
- Você vai viajar? - perguntou Albert repentinamente, analisando os outros objectos de arte que o filho coleccionava.
Hugo se assustou com a pergunta, pois realmente pretendia viajar para visitar a sua amada e o pai jamais havia perguntado algo sobre Viviane.
"Meu Deus, acho que chegou a hora de passarmos tudo a limpo", pensou.
- Vou visitar a minha namorada - respondeu o filho receoso.
- Quem? - perguntou Albert fazendo-se de desentendido.
Viviane?
- Sim.
Silêncio.
O empresário aproximou-se do filho e perguntou-lhe, pondo as mãos sobre a mesa dele, com um sorriso sem jeito:
- Por que você não traz essa moça, para que eu e sua mãe possamos conhecê-la?
Hugo pensou:
"Obrigado, meu Deus, por esse presente que recebo nesta manhã!".
- Posso convidá-la para passar uns dias aqui connosco - comentou o filho.
Mas não garanto se vou conseguir convencê-la.
Albert fez um pequeno afago na cabeça do filho e encaminhou-se para a porta de saída, mas antes falou sem se voltar, como era de costume:
- Parece que já conheço essa moça.
Sabe, filho, não quero que se repita com ela o que aconteceu com a Carla.
Albert tirou um lenço do bolso do paletó, enxugou uma lágrima e saiu do consultório de Hugo.
Hugo baixou a cabeça e começou a chorar, pois seu coração foi envolvido por sentimentos de amor e fraternidade pelo pai, que finalmente havia demonstrado um pouco de sensibilidade naquele coração tão conhecido por ele.
- Por isso é que Kardec diz em "O Evangelho Segundo o Espiritismo", que "se reconhece o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que ele faz para dominar as suas más inclinações" - emocionado, disse Hugo para si mesmo.
"Parece que meu pai está mesmo se esforçando para melhorar sua conduta como filho de Deus", pensou e se ergueu, saindo apressado pelos corredores do hospital e deixando que seus funcionários notassem toda a alegria estampada em seu rosto com um largo sorriso.
Entrou num consultório e falou para um senhor de branco, com aproximadamente sessenta e cinco anos, que transmitia bondade em seu semblante:
- Dr. Valdomiro, assuma a direcção do hospital, imediatamente.
O médico subdirector do nosocómio ergueu a cabeça e levantou-se para abraçar o amigo Hugo, perguntando-lhe sorrindo:
- Posso saber o que houve, meu amigo?
- Se possível, viajarei ainda hoje.
- Por que tanta urgência? - perguntou o amigo.
Você me avisou que só viajaria dentro de cinco dias.
Aconteceu algo?
- Aconteceu. Mas não tenho tempo para narrar-lhe o que houve - respondeu o rapaz.
Quando voltar, e com mais calma, o colocarei a par de tudo.
- Tudo bem, meu caro Dr. Hugo.
Vá com Deus e deixe comigo a direcção do hospital.
Farei o possível para cumprir todas as normas.
- Obrigado, amigo - agradeceu Hugo, saindo do consultório do médico em direcção à sua residência.
No carro, Hugo cantarolava uma música, visivelmente alegre, com a felicidade própria das pessoas possuidoras de um bom coração.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 28, 2016 11:43 am

Ele entrou na mansão, desceu do carro e correu para o seu quarto.
Assim que lá entrou, passou a colocar algumas roupas dentro de uma pequena valise.
Iolanda soube que o filho havia chegado; então logo se encaminhou para os aposentos dele.
Mas ao saber o quanto o rapaz estava agitado, segundo informações dos empregados, imediatamente ficou apreensiva e com receio do que estaria por vir.
Hugo ouviu uma leve batida na porta.
Ele falou em voz alta, sem dar muita importância ao facto.
- Entre.
Iolanda entrou no quarto com o coração batendo forte e descontrolado, a ponto dele quase sair pela boca.
Verificando que o ambiente estava um caos, só pôde se acalmar quando viu que o filho sorria.
- Mamãe, ajude-me a arrumar esta mala, por favor.
- Para onde você vai, meu filho?
- Vou ver a Viviane - respondeu o filho.
Quero fazer uma surpresa para ela.
- Filho, aconteceu algo?
- Sim, mas depois eu lhe conto.
- Pelo menos, me diga se foi bom ou ruim.
- Não se preocupe, mãe.
Aconteceu algo muito bom.
- Graças a Deus.
Correndo, Hugo jogou duas valises no porta-malas de seu carro; depois abraçou a mãe e se despediu.
- Meu filho, cuidado! - pediu Iolanda.
Não precisa essa pressa toda!
- Mãe, o papai está quase bom.
Agora, vou poder cuidar da minha vida.
O filho já estava dentro do carro, ligando o motor, quando a mãe indagou-lhe:
- O seu pai já sabe dessa viagem?
- Claro. Ele foi se despedir de mim no hospital.
- Graças a Deus, meu filho.
Iolanda viu o filho fazer a curva que rodeava o jardim e dirigir-se para o portão de saída.
Sentindo que alguém a observava, olhou instintivamente para a sacada de uma das janelas do quarto do marido e o viu afastar-se sorrateiramente.
Ela sorriu e pensou:
"Temos que conversar, senhor Albert...
Mas há muito tempo para isso".
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 28, 2016 11:43 am

Capítulo XXX - O verdadeiro amor
Viviane costumava regar o seu belo jardim todos os dias, quando o Sol buscava seu esconderijo e deixava a Terra mergulhada na escuridão.
"Meu Deus, o que aconteceu ao meu Hugo?", pensava a linda mulher, enquanto tentava regar uma planta que ficava longe do alcance do jacto d'água do regador.
Ela trajava uma calça branca, que moldava suas formas, e uma blusa de seda azul clara amarrada nas pontas na altura da cintura, que a deixava mais jovem, sensual e alegre, tal qual uma adolescente.
"Já faz quinze dias que não recebo nenhuma carta!
Meu Deus, proteja o meu querido Hugo!
Quase chego a sufocar de tanta saudade!", continuava pensando.
O espírito Barão Pátulo tinha razão, quando afirmava que Viviane era a princesa Angelina reencarnada.
Aquela mulher tinha traços nobres no rosto, nos gestos e ao falar, mesmo levando uma vida simples no campo.
Ela era graciosa, bonita e tinha um sorriso permanente emoldurando-lhe o rosto corado, além de gestos femininos e um comportamento especial, próprio das pessoas educadas e espiritualmente elevadas.
- Mãe! - gritou a filha, gesticulando com as mãos, como fazem as crianças em sua inocência.
- Sim, filha - respondeu Viviane agachada, enquanto cortava um galho seco de uma de suas roseiras.
- Adivinhe quem está aqui?
- Minha filha, eu não sou adivinha - respondeu a mulher, acarinhando com um sorriso uma linda rosa.
- Mãe! - chamou novamente Soninha, abraçando-se beijando-a no rosto, numa demonstração de alegria.
- Sim, querida - disse a mãe, correspondendo ao abraço da filha e beijando-lhe a face com carinho.
- Olhe para trás!
Viviane sentiu um choque e intuitivamente pensou:
"Meu Deus, o Hugo está aqui!".
Ela não teve tempo para voltar-se, pois logo sentiu dois braços conhecidos que a abraçavam por trás e um sussurro em seu ouvido:
- Não posso viver sem você, mulher de minha vida!
- Hugo! - disse Viviane soltando o regador, com as pernas trémulas.
Não posso acreditar que você está aqui!
A bela mulher voltou-se e se atirou nos braços de Hugo, chorando e dando vazão à toda saudade que sentira durante a ausência do homem que tanto amava.
Ficaram se olhando por alguns minutos, se acariciando e conversando numa linguagem muda, típica dos enamorados.
Depois, ambos buscaram os lábios um do outro e se beijaram, enquanto as lágrimas escorriam por suas faces.
Naquele momento o mundo deixou de existir, pois aqueles filhos de Deus encontravam-se novamente neste mundo inferior, tão importante para a evolução espiritual e intelectual dos seres, principalmente para os seres humanos.
Passada as primeiras emoções do reencontro, o casal encaminhou-se para casa, onde algumas pessoas que foram visitar o amigo e bondoso médico da cidade, o Dr. Hugo, esperavam-no para cumprimentá-lo pelo seu retorno.
- Dr. Hugo, eu já estava ficando impaciente com a sua demora! - disse o amigo Gordo, que viu quando o carro do médico entrou na pequena cidade.
- Eu tinha que resolver alguns problemas.
Mas agora, está tudo sob controle.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 28, 2016 11:43 am

Viviane não se cansava de olhar para o namorado, pensando:
"Meu Deus, acho que podes até me levar, pois tenho a impressão de que procuro esse homem há muito tempo e só agora o encontrei, graças a Ti.
Obrigada, Senhor!"
O Gordo não parava de rodear e passar a mão no carro do amigo, semelhante a uma criança quando brinca com algo que há tanto sonhava.
"O homem é rico mesmo!
E quem diria que a madrinha iria encontrar um milionário para se casar depois de viúva?", pensava satisfeito.
Quando o pessoal que fora visitar o Dr. Hugo se retirou, o médico foi tomar banho e trocar-se.
- Não demore, querido.
Já mandei preparar o jantar para comemorarmos sua chegada - disse Viviane com um gesto gracioso e um lindo sorriso estampado no rosto simples, expressivo e feliz.
- Hugo, você trouxe alguma coisa para mim, da cidade grande? - perguntou Soninha, rindo com gestos de menina-moça.
- Isso é surpresa - disse o médico.
- Minha filha, isso é falta de educação!
- Deixe, querida - pediu o rapaz, encaminhando-se para o seu quarto.
Após mais ou menos uma hora, Hugo apareceu na sala com o aspecto mais descansado.
- Onde está Viviane? - perguntou Hugo a Jacó.
- Assim que você foi para o seu quarto, ela também desapareceu.
Meu amigo, você sabe como são as mulheres.
Hugo conversava com a filha e o irmão de Viviane, quando sentiu um aroma agradável de perfume.
Ele voltou-se e viu a mulher mais linda de sua vida.
Então, se ergueu e foi ao encontro dela, abraçando-a, enquanto lhe falava em voz alta, como se quisesse que todos ouvissem aquele elogio vindo de um coração apaixonado e simples.
- Você parece uma princesa!
- Hugo, não me deixe envergonhada!
- Mamãe, eu queria ser linda como a senhora - disse a filha rindo e passando a mão no vestido.
- Filha, por favor, não diga isso nem de brincadeira.
Viviane estava com um vestido simples, mas como era uma mulher elegante, tudo que vestia deixava-a radiante.
A essência de sua beleza estava na alma, e o seu corpo apenas resplandecia o bem e alegria que o seu coração enamorado reflectia de outra dimensão invisível, ou seja, o seu perispírito envolto em sentimentos puros, a tomava uma princesa saída directamente dos contos de fada.
- Já chega de tanto elogio, pessoal - disse a mulher sorrindo.
Vamos jantar?
- Um momento - pediu Hugo, em voz alta.
Aguardem um instante, enquanto vou ao meu quarto.
Todos estavam ansiosos para saber o que o médico tinha ido fazer em seu quarto.
De repente viram o rapaz com vários pacotes.
Ele começou a distribuir para todos, os presentes que trouxera da cidade onde morava.
Soninha pulava de alegria, abrindo os pacotes que Hugo lhe dera, sem saber qual era o mais bonito.
Jacó agradeceu com lágrimas nos olhos, os aparelhos electrónicos que o amigo lhe presenteou.
A moça que trabalhava para Viviane não se cansava de agradecer ao médico pelos presentes que também recebera.
Hugo olhou pela janela e viu o Gordo ainda admirando o seu luxuoso carro.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 28, 2016 11:44 am

Ele o chamou em voz alta:
- Gordo!
- Pronto, doutor!
- Entre um momento, por favor.
O Gordo entrou e viu a alegria estampada nos rostos dos familiares de sua madrinha.
- O que está acontecendo por aqui? - perguntou o rapaz.
- Nada de mais - respondeu o médico, entregando um pequeno pacote ao amigo.
O afilhado de Viviane abriu o pacote e se deparou com um relógio que o deixou sem fala por alguns minutos.
Ele o colocou no braço e, enquanto admirava o presente do amigo, começou a chorar, sendo mimado pela madrinha.
- Não posso aceitar este presente, madrinha! - disse o Gordo.
É muito caro para mim!
Hugo aproximou-se do amigo e carinhosamente o abraçou.
Sorrindo, ele disse-lhe:
- Você merece muito mais, amigo.
Acho que foi Deus que o colocou em meu caminho.
O Gordo não parava de admirar o seu presente.
Viviane ria discretamente com a alegria do irmão, da filha e do afilhado, que abraçavam o médico, agradecendo-lhe os presentes.
- Querida, por favor, feche os olhos - pediu o médico, fitando a namorada.
A bela mulher fechou os olhos e ficou em pé, perto da mesa.
Hugo aproximou-se por trás e colocou algo em seu pescoço.
Em seguida, pegou a mão direita da mulher e pôs um anel em seu dedo.
- Pronto! Agora abra os olhos! - pediu o rapaz, com os braços abertos, num gesto espontâneo de alegria.
Viviane abriu os olhos e ficou lívida quando viu o belíssimo colar de pérolas e diamantes que estava em seu pescoço, enfeitando-lhe o colo branco, e o anel que cintilava em seu dedo.
Ela começou a chorar e, não se contendo, correu e abraçou o rapaz, sem nada falar.
Pôs o rosto no ombro dele e começou a beijá-lo em silêncio.
- Agora, se aceitar, você é minha noiva, e em muito em breve, será a esposa que sempre sonhei - disse Hugo, segurando as duas mãos da bela namorada que, naquele momento, realmente parecia uma deusa inacessível ao ser humano, como nas lendas.
Resta-me saber se você aceita o meu pedido de casamento.
A moça fitou o rapaz e o beijou com todo o amor que lhe ia na alma.
Depois do beijo aplaudido pelos presentes, ela disse:
- Eis a minha resposta, pois não tenho palavras para descrever a felicidade que sinto neste momento.
O casal continuou abraçado durante uns minutos e depois se sentou à mesa.
O jantar transcorreu num clima de paz, harmonia e uma grande alegria se irradiava por toda a residência.
Após a refeição, Soninha notou que os dois queriam ficar a sós.
Ela se ergueu e, aproximando-se da mãe e de Hugo, beijou-os.
- Vou dormir. Boa-noite.
Obrigada, mais uma vez, meu futuro pai - disse ela, piscando para o médico.
O restante das pessoas também cumprimentou o casal e com uma desculpa qualquer deixou o ambiente.
Hugo ergueu-se e procurou sua cadeira no alpendre, sentando-se em silêncio.
Viviane sentou-se no braço da cadeira, enlaçando o rapaz pelos ombros e beijando seus cabelos, também em silêncio, como se estivessem combinados.
Hugo pôs as mãos nas pernas da namorada e começou a falar, narrando tudo o que lhe aconteceu desde a sua chegada na residência dos pais.
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