Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 28, 2016 11:44 am

Viviane sentou-se numa cadeira, cruzou elegantemente as pernas e ficou ouvindo aquele homem que ela não parava de admirar, principalmente após ouvir a sua história.
Enquanto isso, num canto do alpendre, o espírito Barão Pátulo, acompanhado de seus asseclas, comentava:
- Agora vocês entenderam por que não podemos fazer nada contra essa gente?
- Chefe, será que não existe uma pequena possibilidade de conseguirmos acabar com o canalha do Albert? - perguntou Navarro, contorcendo-se e com os olhos vermelhos de ódio.
- Neste momento, não vejo como, pois há uma protecção tão forte em torno destes dois, que se irradia até mesmo para aqueles que estão vinculados a eles.
O espírito Domingos, que estava presente, baixou a sua faixa de vibração e se deixou vislumbrar pelos espíritos sofredores.
- Que a paz do Divino Mestre esteja connosco - saudou-os, o espírito amigo do Dr. Hugo.
Pátulo e seus acólitos ficaram paralisados e surpresos com a visão daquele ente iluminado.
- Meus queridos irmãos e filhos de Deus, não lutem contra as forças do bem, pois elas são infinitamente poderosas e pertencem ao Criador - disse Domingos, irradiando luz para aqueles seres arraigados na vingança.
Desistam de se vingar do nosso irmão Albert, pois, enquanto ele estiver protegido pelas suas acções no bem, jamais o atingirão, pelo menos, não nesta existência.
Pátulo ergueu a mão fechada como se desejasse enfrentar Domingos, contudo, não conseguiu o seu intento, porque, naquele momento, tudo ao redor da casa de Viviane se iluminou, com aquele abençoado casal selando mais uma vez, diante de Deus, o amor que os uniu através dos séculos.
- O que aconteceu? - perguntou Patrik, visivelmente assombrado.
- A força que move o universo está nesta casa - disse Domingos com a calma dos justos.
- Eu amo você - disse Viviane naquele exacto momento, ajoelhada aos pés do doutor, como se estivesse hipnotizada.
O rapaz nada falou, mas beijou a amada com tanto amor, que a casa foi revestida por uma camada fluídica benévola, levando a paz para todos que viviam nela e adjacências.
- Vamos - ordenou Pátulo aos seus asseclas.
Todos sumiram como que por encanto.
Domingos ficou pensando:
"Os mundos foram construídos por Deus e mantêm-se girando em torno de seus eixos no universo, sustentados por essa força inigualável - o amor".
O médico ergueu-se e abraçou a amada, convidando-a a entrar, enquanto as estrelas pareciam mais vivas ao cintilarem, talvez uma maneira do Criador também se fazer presente na felicidade irradiada por aqueles jovens abençoados.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 28, 2016 11:44 am

Capítulo XXXI - Albert desencarna
Alguns anos se passaram.
Numa bela tarde de primavera, um homem corria, pelos corredores da imensa mansão da família de Albert, atrás de um garoto louro, de olhos azuis e com aproximadamente quatro anos.
- Albert Neto, entre no carro! - ordenou o motorista.
Sua mãe está nos esperando no escritório da fábrica!
- Não vou! - retrucou a criança, cruzando os braços e batendo com o pé no chão.
Quero brincar com o meu avô!
- Mas seu avô está descansando.
Uma senhora de feições distintas encaminhou-se para o homem que corria atrás do garoto e disse-lhe com educação:
- Gordo, deixe o Netinho comigo.
- Patroa, a madrinha não vai gostar.
- Eu me responsabilizo pelo menino - disse a simpática mulher, piscando o olho para o homem.
O Gordo entrou no automóvel, suando em seu apertado uniforme de motorista e resmungando, enquanto passava a mão na cabeça e desabotoava alguns botões da camisa para deixar a barriga mais à vontade.
Depois colocou o boné de motorista e saiu em direcção ao escritório da patroa.
- A madrinha vai me dar a maior bronca.
Mas eu não tenho culpa se a dona Iolanda quer ser a mãe do Netinho.
Iolanda agachou-se e, com carinho, passou a mão na cabeça loura da criança.
Sorrindo, convidou:
- Netinho, vamos fazer uma visita ao seu avô?
Muitos factos aconteceram, desde o dia em que Hugo noivara com Viviane, havia mais de cinco anos.
Hugo casou-se e, com muito custo, conseguiu convencer a esposa a se mudar para a mansão de sua família.
Albert conheceu Viviane antes do casamento e logo no primeiro momento simpatizou com a moça, como seja a conhecesse de longa data.
Aceitou de bom grado o enlace e não parava de elogiar o filho pela noiva que escolhera.
Iolanda também simpatizou com Viviane, praticamente deixando a mansão aos cuidados dela, pois a nora se comportava como uma verdadeira dama.
Ela estava feliz e satisfeita com a escolha do filho.
Viviane aceitou mudar-se para a casa dos pais do marido, porém, disse que não queria ser um simples enfeite na mansão.
A pedido do sogro e com o consentimento do marido, a bela esposa do Dr. Hugo, além de concluir um curso superior, já havia feito vários outros cursos e estágios, inclusive no exterior, com o objectivo de conhecer os segredos dos negócios, principalmente os da família.
Conhecendo a rara inteligência da nora, aos poucos Albert entregou a direcção da fábrica a ela, nomeando-a directora-presidente e dando-lhe inteira autonomia para gerir parte da empresa sediada no país onde moravam.
Um ano depois do casamento de Hugo e Viviane, nasceu o bem-querer do empresário e de Iolanda.
Era o garoto que o motorista corria atrás para levá-lo consigo, por ordem da mãe dele.
Hugo tornou-se um dos grandes executivos no ramo da saúde.
Era presidente da associação médica da cidade e bastante conhecido pelo seu esforço em criar um plano de saúde acessível ao público carente, com o total apoio e cooperação dos donos dos hospitais particulares amigos seus, evitando assim, que o poder público interviesse em seus objectivos.
Soninha, filha do primeiro casamento de Viviane, com quase dezoito anos, havia entrado na faculdade e estudava o que sempre quis: Direito.
Ela morava com a mãe e era querida por Albert e Iolanda, tanto que os chamava de "avós", assim como o padrasto Hugo de "pai".
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 28, 2016 11:44 am

O Gordo, afilhado de Viviane e amigo de Hugo, foi convidado a ser o motorista particular da madrinha dele.
Após deixar Albert Neto aos cuidados de Iolanda, Gordo foi apanhar a patroa.
Ao entrar no imenso pátio da fábrica onde a madrinha trabalhava, ele estacionou o carro e encaminhou-se para o escritório dela.
Numa luxuosa sala, uma bela e elegante mulher ergueu os olhos de um documento que lia e viu o afilhado entrando no ambiente, após bater de leve na porta.
- Vamos, meu filho.
Estou atrasada e ainda quero levar o Netinho ao escritório do Hugo, para participarmos da recepção de inauguração de uma unidade de saúde que vai atender muita gente carente nesta cidade.
O Gordo passou a mão na cabeça e disse sem jeito:
- A dona Iolanda ficou com Netinho, alegando que iria levá-lo para visitar o Dr. Albert.
Viviane riu, ergueu-se e disse, enquanto retocava a maquiagem na frente do afilhado:
- A mamãe ainda vai atrapalhar a educação do Albert Neto.
Espero que ele não herde da família aquela empáfia do avô.
- A senhora está falando comigo, madrinha?
- Não. Pensava em voz alta.
- Ah!
À noite, toda a família, menos o garoto, estava reunida em torno do patriarca Albert, tentando convencê-lo a viajar para o exterior, para fazer uma cirurgia e se tratar contra um câncer que havia aparecido em seu pulmão.
- Meus filhos, não adianta tentar me convencer.
Não me afastarei da minha família para fazer um tratamento em outro país; além disso, estou feliz e satisfeito com a vida que Deus me deu nestes últimos anos ao lado de vocês.
O homem de olhar firme observava seu anel, enquanto pensava:
"Sei que Deus já sentenciou a minha volta e que estou cumprindo com a minha promessa de voltar através dessa doença infeliz".
Iolanda pensava:
"A maior graça que esse homem recebeu na vida foi acreditar em Deus.
Ele já fala no nome Dele com naturalidade e respeito".
- Cadê o Netinho? - perguntou o enfermo.
- Foi dormir - disse a nora.
O homem olhou para a bela esposa do filho e ficou um bom tempo encarando-a.
- Obrigado, minha filha.
Você trouxe para essa casa, principalmente para nós, eu e Iolanda, o maior presente que Deus podia me dar:
meus dois netos e a felicidade de meu filho - disse Albert repentinamente.
Viviane não conseguiu conter as lágrimas, emocionada com aquele homem que, apesar do orgulho e prepotência estampada em sua feição, era sincero em seus sentimentos, coisa muito rara entre os espíritos imperfeitos.
- Papai, então vamos fazer essa cirurgia aqui mesmo? - disse o filho, passando a mão na cabeça do velho Albert, já com mais de oitenta anos.
- Hugo, vocês vão perder tempo comigo.
Sou velho e tenho certeza absoluta que não suportarei essa cirurgia; além disso, essa maldita doença já se espalhou pelo meu corpo - disse Albert, com segurança.
- Peço-lhes que atendam ao meu pedido.
Evitando a cirurgia, não significa que desejo me suicidar, quero apenas viver mais um pouco para gozar da alegria que vocês me proporcionaram nesses últimos anos.
- O senhor foi o culpado disso - disse Viviane, com lágrimas nos olhos.
- Sei que fui culpado, minha filha, mas tive medo de ir embora antes do tempo.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 28, 2016 11:44 am

Quando recebi os primeiros resultados dos exames, resolvi ficar calado para participar dessa felicidade que ora estou sentindo, pois graças ao meu silêncio, pude ver o meu neto me chamar de "avô" pela primeira vez - disse Albert, sorrindo.
- Existe maior felicidade que esta?
- Albert, nunca consegui entendê-lo - disse Iolanda.
- Não se preocupe com isso, minha querida - o marido tentou acalmá-la.
Agora, meus filhos, tentem espantar essa tristeza, porque já estou preparado para voltar para essa tal de "pátria espiritual".
Só espero que o Marcelo não esteja enganado ou me enganando.
- Papai! - alertou o filho, com o dedo indicador na boca.
- É verdade, meu filho.
Até hoje, não creio que voltarei para um lugar onde não terei mais esse corpo e que depois de muito tempo estarei de volta.
- Você não tem jeito, meu velho!
Notava-se no semblante de Albert que, aos poucos, a vida deixava aquele corpo.
Gradativamente, o tónus vital cessava de animar o corpo material daquele homem que trabalhou dia e noite para manter a empresa funcionando, garantindo assim, emprego e sustento para milhares de famílias.
Hugo deixou o quarto após beijar os cabelos brancos do pai e dirigiu-se para uma pequena sala em companhia da mãe, da esposa e da enteada, onde se sentaram e começaram a conversar à vontade, enquanto tomavam chá.
- Meu filho, como médico conceituado e colega de excelentes profissionais, você já conversou com eles a respeito do seu pai? - indagou a mãe, disfarçadamente enxugando uma lágrima que teimava em escorrer pelo seu rosto.
- Sim, mamãe.
Inclusive, com um colega francês.
Entretanto, todos são unânimes, quanto à resposta.
- E que resposta é essa, meu filho? - perguntou a mãe.
- As chances de sobrevivência do meu pai são mínimas ou nenhuma.
- Mas e se ele fizer essa cirurgia, para extirpar os nódulos, as chances de prolongar o tempo de vida dele aumentará? - perguntou a esposa.
Hugo fez um carinho no rosto da mulher e respondeu com cuidado:
- Não. Ele conseguirá viver mais algumas semanas, se continuar assim como está.
- Não posso acreditar nisso - disse Iolanda.
- Acredite, mãe.
Se o papai submeter-se a uma cirurgia, ele terá de fazer um tratamento agressivo, muito pior do que o próprio câncer, isto se sobreviver à retirada dos nódulos, devido a sua idade.
- Pai, você está falando em quimioterapia e radioterapia? - perguntou Soninha.
- Exactamente, minha filha.
Albert exigiu que fossem postas à sua disposição, em sua própria casa, uma equipe médica e equipamentos, com o objectivo de atendê-lo em domicílio, pois ele estava decidido a não ser hospitalizado.
Como sempre, sua palavra era ordem e não deixava margens a qualquer tipo de questionamento.
O empresário definhava a olhos vistos, contudo, recusava-se a passar por qualquer tipo de tratamento, alegando que não havia cura para a sua doença, no que era abalizado pelos melhores especialistas no assunto.
Ele sentia dores terríveis, minoradas apenas com medicamentos à base de morfina.
Sua alimentação era composta por líquidos, pois já não conseguia mais engolir alimentos sólidos.
Certa tarde, com a respiração ofegante, o famoso empresário abriu os olhos e viu ao redor de si a mulher e o grande amigo Marcelo, presidente do centro espírita.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 28, 2016 11:45 am

- Pensei que você tivesse... me esquecido... presidente - disse Albert, tentando encontrar ar nos pulmões para falar.
- Fiquei com vergonha de visitar um homem tão importante como você, meu caro Albert - disse Marcelo, também tentando sorrir com optimismo.
O empresário fez sinal com a mão e pediu que o amigo se aproximasse mais um pouco.
Esforçando-se para não chorar, pois era triste a situação do amigo, Marcelo ficou com o rosto perto dele.
- Como vai o hospital?
- Está quase pronto.
- Será que o dinheiro... será suficiente para concluí-lo.
- Claro. Não se preocupe.
Em pouco tempo vamos inaugurá-lo com a sua presença.
Albert sorriu e disse-lhe, respirando com dificuldade:
- Não sou iludido... meu amigo.
Sei que o meu fim está próximo...
Ou como você diz... a minha partida... para o mundo espiritual... está chegando.
Marcelo viu que o amigo estava realmente indo embora.
Ele beijou sua mão em silêncio e foi embora com lágrimas nos olhos.
No dia seguinte, antes das oito horas, Albert mandou o médico de plantão chamar a família, que estava tomando café em silêncio.
- Dona Iolanda, com licença - solicitou a médico, adentrando a sala onde a família fazia a primeira refeição do dia.
- O que houve, doutor?
- O Dr. Albert pediu a presença de todos.
Hugo ergueu-se de repente e saiu correndo em direcção ao quarto do pai, sendo acompanhado pelo restante da família.
Em poucos minutos, Albert estava rodeado pelos familiares.
Ninguém reconhecia naquele homem magérrimo, com o rosto envelhecido e encovado, o famoso e orgulhoso empresário que causara tanto medo nas pessoas, principalmente em seus adversários.
- Papai, o senhor mandou nos chamar? - perguntou o filho.
Albert gesticulou afirmativamente e manteve-se em silêncio.
Mesmo com os olhos fechados, todos viram lágrimas rolarem pelo seu rosto branco como cera.
Ninguém ousou falar.
Albert abriu os olhos e, num sorriso que mais se assemelhava a um esgar, a um ricto de dor, ofegante e com dificuldade, falou com a voz quase inaudível:
- Não sei fazer... uma prece...
- Calma, meu querido - pediu Iolanda.
Não precisa se cansar.
Silêncio.
- Orem ... o "Pai Nosso"...
Todos que estavam ao redor da cama começaram a chorar, pois sabiam que o patriarca estava se despedindo deste mundo material.
Mesmo assim, eles oraram o "Pai Nosso" em voz alta.
Albert fechou os olhos por alguns segundos.
Em seguida abriu-os novamente e disse, fazendo um esforço sobre-humano:
- Obrigado. Sempre quis... aprender essa oração..., mas tinha vergonha.
Após essas palavras, Albert virou o rosto para o lado e ficou inerte.
Hugo apressou-se em tomar a pulsação do pai, para encontrar vida naquele velho corpo carcomido por uma doença que já ceifara milhares de vidas, e começou a chorar quando informou à família:
- O papai desencarnou.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 29, 2016 9:46 am

Todos choraram com a notícia.
Os empregados souberam que o patrão havia desencarnado e também choraram, pois, ao jeito de cada um, eles gostavam dele.
Após dois meses da partida de Albert para a pátria espiritual, muita gente - principalmente Iolanda, Hugo, Viviane, Soninha, Albert Neto, Augusto, Edmundo, Isabel, o Dr. Maurício e o Dr. Jacinto - estava presente no centro espírita participando da inauguração de um hospital para doentes mentais, anexo às instalações da instituição espírita, denominado "CASA DOS AFLITOS JESUS DE NAZARÉ".
Após a simples cerimónia de inauguração, quando todos já estavam se retirando, Marcelo aproximou-se da família do Albert, apontou para o hospital e falou sorrindo:
- Hugo, solicito que você, como um homem que está tentando ajudar os carentes desta cidade, também administre este hospital.
Hugo pôs a mão no ombro do amigo e disse:
- Meu amigo Marcelo, não posso aceitar sua oferta.
Este hospital é propriedade da instituição espírita.
Marcelo sorriu e fez um gesto com os ombros, sendo observado pela família de Albert.
Ainda sorridente, ele revelou para o jovem médico:
- São ordens do seu pai.
- O que o meu pai tem a ver com isso?
- Foi ele que mandou construir este hospital em segredo e deixou ordens, por escrito, para que você o administrasse, como faz com o seu hospital particular - disse Marcelo.
Acho muito justo, pois não tenho condição de administrar um manicómio.
Mas o seu pai sabia que você, como espírita, médico e dono de hospital, reunia todos os requisitos para não deixar que essa belíssima obra caísse nas mãos de aventureiros.
Iolanda puxou um lenço da bolsa e começou a enxugar as lágrimas de emoção que desciam pelo seu rosto.
Hugo olhou para esposa e recebeu um lindo sorriso e aceno de cabeça em sinal de aprovação.
- Parece que o meu pai nos deixou uma mensagem, quando deu ordens para que este hospital fosse inaugurado após sua partida.
- Que Deus o abençoe aonde ele estiver - disseram todos em uníssono.
O espírito Domingos, que também estava presente, sorriu e disse em pensamento:
"Nunca é tarde para se fazer o bem, arrepender-se dos erros cometidos e pedir perdão a Deus".
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 29, 2016 9:46 am

Capítulo XXXII - Carla nas zonas umbralinas
Após um longo tempo em completo estado de perturbação, Carla despertou e ficou observando o lugar onde se encontrava.
Notou que estava sentada encostada na parede de uma caverna.
Observou o seu estado e ficou com medo e perplexa com o quadro que o seu aspecto apresentava.
Estava semelhante a um espectro saído dos contos de terror -esquálida, cabelos desgrenhados, olhos vermelhos quase saindo das órbitas encovadas e trajava verdadeiros trapos.
Além disso, continuava sentindo a mesma terrível dor no estômago e o sangue não cessava de escorrer entre suas pernas, sujando-a por completo.
O espírito se ergueu e, apoiando-se na parede daquele lugar lúgubre, que exalava um mau cheiro nauseabundo, começou a caminhar com passos vacilantes, pisando sobre uma lama fétida e pegajosa.
Viu uma luz opaca, que a direccionou até a entrada daquele lugar, e vislumbrou fora da tal gruta um espectáculo dantesco.
Uma paisagem infernal apresentava um espectáculo teatral nunca visto ou imaginado por um ser humano.
Vários espíritos caminhavam em movimento circular, como se estivessem hipnotizados, gritando, chorando e blasfemando contra o Criador.
- O que será isso? - perguntou-se Carla saindo da caverna e juntando-se àquelas criaturas semelhantes a zumbis.
Ela sentiu que a atmosfera era pesadíssima e difícil de respirar, pois praticamente não existia ar.
Não havia vegetação e a luz do Sol parecia chegar até aquele lugar com uma certa dificuldade, pois tudo estava envolvido por uma penumbra fantasmagórica.
O clima era seco e abafado, impossível para a sobrevivência de um ser humano normal.
- Que lugar será este? - perguntou-se, enquanto caminhava com a lama lhe cobrindo os pés.
Os gritos das criaturas eram ensurdecedores e a visão daquele lugar não poderia ser descrita por nenhum poeta, escritor ou pintor, pois a humanidade não é capaz de criar absolutamente nada que se compare àquela cena lúgubre.
Carla caminhava como uma sonâmbula, acompanhando aqueles seres sofredores de aspectos horríveis.
Em certo momento observou uma daquelas pessoas sentada, com as pernas abertas na lama do lugar, que se assemelhava a um imenso charco, apontando para o seu ouvido o que parecia ser um revólver.
Com uma certa dificuldade, ela aproximou-se do espírito e perguntou, tentando dominar sua dor:
- O que o senhor vai fazer?
- Vou acabar com esta maldita vida - respondeu o homem que mais se assemelhava a um animal.
-Senhor, não faça isso!
- Por quê?
- Dizem por aí, que nós não morremos.
O homem baixou a arma e ficou pensando por algum momento.
Depois fitou o espírito com seus olhos esbugalhados e vermelhos e comentou:
- Já ouvi falar sobre isso, mas não acredito.
Isso se trata de conversa de pessoas ignorantes, que vivem nas igrejas ouvindo histórias de carochinhas narradas pelos religiosos, principalmente por espíritas.
Carla ficou em silêncio.
- Você está vendo aquele lá? - perguntou o homem apontando para um homem deitado.
- Sim.
- Ele se jogou sob as rodas de um veículo em alta velocidade.
- Ninguém o levou para um hospital? - perguntou Carla sentindo lhe faltar ar.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 29, 2016 9:46 am

- Não. Dizem que não adianta, porque ele já está morto.
- O quê?
- Sim. Dizem que ele já morreu.
- Não acredito nisso!
Então, como ele pode falar e se mover?
- Pois é... Dizem que todos nós estamos mortos - o homem se lamentou.
Você mesma disse que ouviu por aí que nós não morremos.
Carla deu um salto para trás e gritou com os olhos arregalados:
- Mentira! Estou viva!
O homem limpava o sangue que teimava em escorrer de seu ouvido direito.
Às vezes, colocava a palma da mão sobre ele, tentando em vão estancar aquela hemorragia.
- Por que este sangue não pára de sair do seu ouvido?
- Há dezenas de anos tento estancá-lo e não consigo - respondeu o homem, erguendo-se com dificuldade.
Dizem que foi com um disparo desse revólver, que me suicidei.
- Isso não pode ser verdade!
O suicida gargalhou, ergueu-se e, como um louco, saiu correndo, falando coisas sem nexo.
Carla sentiu a cabeça girar e de repente se encontrou correndo por uma vereda, em um lugar onde não conseguia enxergar, pois era envolvido por um nevoeiro escuro e frio, que causaria calafrios em qualquer um.
Ela caiu e ficou deitada contorcendo-se de dor, enquanto batia desesperada as mãos fechadas no chão, perguntando-se:
- O que está acontecendo comigo?
A moça sentou-se, ouvindo gritos e lamentações de pessoas que passavam correndo enlouquecidas.
De repente ela sentiu uma dor indescritível e ergueu-se com dificuldade, caminhando cambaleante, talvez sem saber quem era ou onde estava. Caiu novamente e ficou com o rosto apoiado no chão, chorando desesperadamente, porém, num impulso, ergueu a cabeça para o alto e pediu num sussurro sofrível, chorando e cansada, numa demonstração de que suas forças já haviam desaparecido:
- Meu Deus, por favor, ajude-me!
Pela primeira vez naquela existência, e após a sua desencarnação, Carla havia falado em nome do Criador, reconhecendo que Ele existia e que realmente era o Senhor do Universo.
Com essa súplica, ela curvou-se à Divindade e pediu clemência em um momento crucial, pois já estava sendo preparada pelos espíritos das trevas para ser conduzida a lugares infernais.
Um espírito de aspecto simples e saturado de energias fluídicas benéficas aproximou-se de Carla, desmaiada, envolveu-a em seu peito, como se fosse uma criança, e desapareceu do lugar em direcção à colónia espiritual responsável por aquele sector.
Após um longo período, o espírito Carla despertou e ficou observando em silêncio.
Ela pôde perceber que estava em uma pequena enfermaria, onde havia médicos, enfermeiras e outras pessoas envolvidas naquele trabalho.
Viu também que estava vestida com uma roupa limpa e sua aparência estava melhor.
Tentou lembrar-se das dores, mas não as sentiu.
Continuou em silêncio e aos poucos adormeceu novamente.
Depois de alguns dias, Carla acordou e prosseguiu observando o vai-e-vem daquele pessoal parecido com seus amigos de profissão.
- Bom dia, irmã.
- Bom dia - respondeu a moça, notando que o cumprimento vinha de um médico ainda jovem, com aspecto bondoso e um belo sorriso estampado no rosto.
- Você está melhor?
- Sim. Já não sinto aquelas dores horríveis.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 29, 2016 9:46 am

- Esperamos que você melhore mais um pouco, para encaminhá-la a um dos nossos hospitais da colónia, para o seu completo restabelecimento e recuperação.
- Desculpe-me, doutor...
Mas onde estou?
O médico sorriu e, com um gesto carinhoso, passou a mão nos cabelos da moça e respondeu-lhe:
- Você está numa enfermaria de urgência.
Aqui, prestamos os primeiros socorros aos espíritos que são recolhidos das zonas umbralinas.
Carla sentou-se imediatamente na cama e perguntou-lhe com os olhos fixos no médico:
- Que pronto-socorro é este?
O medico fitou a moça e disse-lhe com cuidado:
- Este pronto-socorro fica situado na Terra.
Mais precisamente, num centro espírita.
- O quê? Estamos num centro espírita?
- Exactamente, minha querida.
- E como não estou vendo ninguém trabalhando, como vi quando visitei um?
- Nós estamos no lado invisível.
Ou seja, em outra dimensão que não pode ser vista pelos olhos das pessoas encarnadas.
- Doutor, o senhor está me deixando confusa.
- Porquê?
- Do jeito que o senhor fala, tudo indica que realmente estou morta.
- Mas como você está morta, se estamos conversando?
A moça ficou em silêncio, pensando na pergunta do médico, e logo depois respondeu:
- Sei lá...
Mas do jeito que o senhor explica as coisas, parece que já morri.
- Carla, você não morreu.
Simplesmente, passou para o outro mundo, aquele que não acreditamos enquanto estamos encarnados.
A moça estava entregue aos seus pensamentos, quando perguntou repentinamente:
- Que dia é hoje?
O médico sorriu e apontou para um calendário que estava pendurado na parede da enfermaria improvisada.
- O quê? Há quanto tempo estou aqui?
O médico sorriu.
- Por que o senhor está rindo?
- Somente nesta enfermaria, você está há dez anos.
- O senhor está brincando comigo?
- Não. Antes de ser recolhida nesta enfermaria, havia quinze anos que você perambulava pelas zonas umbralinas, contudo, sem passar pelas zonas infernais.
O médico observava a reacção daquele espírito que tanto deu trabalho à equipe de primeiros socorros.
Por sua vez, Carla continuou sentada na cama, esfregando as mãos uma na outra, num visível estado de nervosismo e lutando para não se desequilibrar.
- Como é o seu nome?
- Luís.
Sou o médico responsável pelos primeiros socorros prestados aos irmãos desequilibrados atendidos neste centro espírita.
- Sabia que sou médica?
- Sim.
Silêncio.
- Dr. Luís, não consigo entender como um centro espírita também pode se transformar num pronto-socorro - comentou a moça, tentando se controlar.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 29, 2016 9:47 am

O médico espiritual aproximou-se de Carla e cruzou os braços, tentando explicar-lhe:
- Minha querida amiga, há muitos centros espíritas na Terra que são verdadeiros postos de socorros de urgência, com o objectivo de dar os primeiros atendimentos aos irmãos sofredores e depois encaminhá-los aos hospitais adequados nas colónias, a fim de que se recuperem por completo.
- Esse é o meu caso?
- Exacto.
Carla pensava:
"Não consigo me lembrar o que me trouxe a este lugar.
Acho que morri mesmo.
Agora, passar esse tempo todo para ser atendida, está me intrigando".
O médico espiritual captou os pensamentos da moça e sorriu, enquanto fingia escrever algo em uma caderneta de anotações.
- Posso saber porque você está rindo, Luís?
- Depois nós conversaremos.
- Por favor, Luís, ponha-me a par do que realmente aconteceu comigo, antes de morrer.
Percebendo que a moça ficava nervosa, Luís passou a mão em sua cabeça e em questão de segundos ela adormeceu.
"Preciso perguntar ao director do pronto-socorro se tenho permissão para contar a Carla o que aconteceu com ela, até sua chegada aqui", pensou o médico espiritual.
Após alguns minutos, dois médicos conversavam, enquanto caminhavam pela pequena alameda que ligava duas enfermarias.
- Luís, você acha que a Carla já está em condições de ouvir a própria história?
Esse momento é fundamental para sabermos se ela está apta a ser transferida para a colónia espiritual.
O Dr. Luís encarou o companheiro, que era o director daquele posto avançado de urgência radicado na Terra, e não respondeu de imediato.
O director era muito jovem, porém, dono de um cabedal muito grande de conhecimento, sendo reconhecido pelos superiores como o médico que mais estava preparado para ser um dos mentores daquele centro espírita, onde se localizava o pronto-socorro.
- Rogério, eu tenho acompanhado de perto o caso de Carla, e acho que já está na hora de tentarmos informá-la de sua real situação, principalmente, o que aconteceu em sua última existência.
O director do pronto-socorro parou e perguntou-lhe, com as mãos no bolso do avental:
- E se ela se desequilibrar novamente?
O director do pronto-socorro pensou e disse, após alguns segundos:
- Meu irmão, amanhã, nós resolveremos o que faremos em relação à nossa querida Carla.
- OK, colega.
Ambos se despediram e rumaram para os lugares onde exerciam suas actividades.
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Ave sem Ninho

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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 29, 2016 9:47 am

Capítulo XXXIII - Casa dos aflitos Jesus de Nazaré
Depois de dois dias, Carla despertou do sono provocado pelo Dr. Luís.
Observando a enfermaria onde estava internada, resolveu descer da cama e caminhar até uma ampla janela, que se abria para um jardim envolvido por um belo pomar.
Ali se podia vislumbrar várias pessoas sentadas nos bancos que ladeavam o jardim e as alamedas que atravessavam o pomar.
Tudo cheirava ao aroma de flores e uma paz indescritível era sentida no ambiente.
- Acho que o Dr. Luís deve ter se enganado.
Isso não pode ser o pronto-socorro de um centro espírita - disse a moça em voz baixa.
Nada aqui se parece com uma instituição religiosa.
Discretamente, o Dr. Luís aproximou-se da moça em companhia do director Dr. Rogério.
Carla apressou-se em pedir desculpas aos médicos por ter saído da cama.
- Não há do que você se desculpar, minha irmã - disse o Dr. Luís.
Aproveito este momento para apresentá-la ao nosso director, o Dr. Rogério.
- Muito prazer, doutor - disse Carla, estendendo a mão com reserva.
- Prazer, querida irmã.
Fico feliz em saber que você está bem - disse o Dr. Rogério, também estendendo a mão.
Carla encaminhou-se em direcção ao seu leito, acompanhada pelos médicos.
O director do pronto-socorro fez um sinal, chamando uma enfermeira que circulava entre os leitos, atendendo os pacientes.
De pronto ela atendeu.
- Às suas ordens, doutor.
- Por favor, atenda nossa querida irmã Carla e depois a leve até o meu consultório.
- O que irei fazer em seu consultório, Dr. Rogério? - perguntou Carla.
O médico pensou e respondeu, após fitar o colega Dr. Luís, ambos se entendendo numa comunicação muda:
- Já que você está bem, chegou a hora de conversarmos um pouco a respeito de sua situação.
A moça pensou e perguntou, olhando para a enfermeira:
- Será que já estou pronta, enfermeira?
- Vamos melhorar esta aparência.
Depois de trocar a roupa, irei acompanhá-la até o consultório do director.
Uma hora se passou.
- É este o consultório particular do Dr. Rogério - disse a enfermeira, apontando para uma porta.
Carla viu que a porta se abriu automaticamente, sem esperar que alguém batesse.
- Entrem, por favor - disse o Dr. Luís, com um sorriso.
- A irmã Carla está pronta - avisou a enfermeira, enquanto se afastava discretamente.
Timidamente, Carla olhou para o interior da sala e viu o Dr. Rogério em pé, atrás de uma mesa, enquanto o Dr. Luís apontava uma cadeira.
- Sente-se, por favor, Dra. Carla.
- Obrigada - agradeceu a moça, sentando-se e estranhando aquele tipo de tratamento.
O trio estava sentado, em silêncio, talvez esperando uma oportunidade para iniciarem um diálogo a respeito do assunto que os trouxeram ali.
O Dr. Rogério ergueu-se e começou a passear pelo consultório.
Inesperadamente, parou e comentou:
- Ao visitá-la, há pouco, você dizia para si mesma que o Dr. Luís havia se enganado.
A moça confirmou, ainda tentando ficar à vontade diante dos médicos:
- É verdade, doutor.
Não acredito que este pronto-socorro fica localizado num centro espírita.
- Então, você já conhece um centro espírita?
- Já. Fui levada pela curiosidade a conhecer um, frequentado pela minha família.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 29, 2016 9:47 am

O director encarou o amigo, ao entender que a moça não sabia o porquê havia sido levada a um centro espírita, e com bastante cuidado perguntou:
- Querida, o que você foi fazer num centro espírita?
Carla se entregou aos seus pensamentos, antes de responder aquela pergunta.
De repente ergueu-se impaciente e disse, sentando-se novamente:
- Não sei.
Aliás, esqueci muita coisa.
Não consigo me lembrar de quase nada do meu passado, a não ser desse centro espírita.
Porém, lembro-me que sou médica e que me encontro internada neste pronto-socorro.
O Dr. Rogério apontou uma pequena cama ao lado e pediu:
- Será que você pode se deitar naquela cama?
Carla se virou para a cama e perguntou:
- Agora?
- Sim.
A moça se ergueu sem falar nada e deitou-se.
- Relaxe e mantenha os braços soltos ao longo do corpo.
- O senhor vai me hipnotizar?
- Não tenha medo, irmã - pediu o médico, sem responder a pergunta.
Carla pôde ver que o Dr. Luís estava postado atrás de sua cabeça, enquanto o director Dr. Rogério mantinha-se ao seu lado, de braços cruzados.
- É verdade que você não se lembra qual o motivo que a trouxe a este lugar?
- Sim. É verdade.
- E mesmo assim está preparada para saber toda a verdade?
- perguntou o Dr. Rogério.
- Sim.
Carla notou que o director fez um leve sinal ao amigo.
O Dr. Luís gesticulou e dentro de poucos segundos a moça se encontrava em sono profundo.
Após um breve instante, os médicos notaram que ela passou a se mexer na cama.
Aos poucos foi ficando mais agitada, com uma intensa sudorese, e tentava respirar com dificuldade.
Logo começou a gritar e a pedir socorro.
Debatia-se na cama e somente depois de dez minutos se acalmou com o auxílio dos médicos e de outros espíritos que prestavam serviços no pronto-socorro.
Já refeita, Carla abriu os olhos e imediatamente sentou-se na cama, vendo que havia outras pessoas deixando o ambiente, além dos médicos conhecidos.
O Dr. Luís apressou-se em oferecer um copo com um líquido, que ela bebeu sem perguntar o que era.
Sentiu-se melhor.
- Ajude-a a descer da cama, Luís.
Passados alguns minutos, os três estavam novamente sentados em pequenas cadeiras, num canto do consultório.
Carla ajeitava os cabelos, sob o olhar do Dr. Rogério e do Dr. Luís.
- Agora, minha querida irmã, você relembrou algumas de suas existências, principalmente a última, na qual foi noiva do Dr. Hugo - elucidou o Dr. Rogério, sorrindo.
- E também sabe o motivo que a trouxe até este pronto-socorro - completou o Dr. Luís.
A moça permaneceu em silêncio.
- Onde se encontra a pessoa que me guiou durante essa experiência?
- Nosso irmão Domingos é uma pessoa muito ocupada.
Ele nos atendeu, porque vocês se conhecem há muito tempo - respondeu o director do pronto-socorro.
A moça baixou a cabeça, como se estivesse recordando tudo que viu e ouviu durante o sono provocado pelos médicos.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 29, 2016 9:47 am

- Quer dizer que sou uma suicida? - perguntou Carla, discretamente passando os dedos nos olhos, como se quisesse estancar as lágrimas que desciam pelo seu rosto.
Ninguém respondeu, pois ela sabia perfeitamente a resposta para a própria pergunta.
- Meu Deus, quanto mal eu fiz para as pessoas que tanto amo e para mim mesma!
Como tive coragem de tirar o corpo material que o Senhor me deu para continuar meu aprendizado?
Os médicos se entreolharam surpresos com o comentário de Carla, ao notarem o quanto ela era esclarecida no Espiritismo.
- Você já conhecia a Doutrina Espírita? - questionou o Dr. Luís.
- Não. Mas sei que somos imortais e que o corpo material é um instrumento valioso, nos emprestado por Deus para progredirmos.
Os médicos se entreolharam novamente e ficaram em silêncio.
Rompendo o silêncio, o director perguntou à moça:
- Aonde você conheceu esses ensinamentos?
- No Evangelho de Jesus.
Sempre fui religiosa.
Na minha penúltima reencarnação, fui uma fiel servidora do Mestre Divino, quando resolvi abdicar de tudo e vesti um hábito de freira para ajudar os irmãos que sofriam os horrores de uma grande guerra.
O director ergueu-se inquieto e perguntou-lhe, como se quisesse descobrir algo mais a respeito da vida da moça:
- Minha irmã, eu posso lhe fazer uma pergunta indiscreta, e até certo ponto desagradável?
- Sim. Fique à vontade, doutor.
- Por que você se suicidou em sua última existência?
Carla se dirigiu a uma janela do consultório e se sentou novamente após retornar para onde estava.
Fitando o Dr. Rogério, ela respondeu com franqueza:
- Orgulho, meu caro irmão.
Esse sentimento que destrói os melhores sentimentos ligados ao nosso Pai e causa as piores desgraças nos mundos inferiores - respondeu a moça, chorando.
Foi esse defeito horrível que me levou a acabar com o meu próprio corpo, ser ingrata com Deus e com todos que conviveram comigo, principalmente meus pais, meu noivo e o homem que vem reencarnando comigo há vários séculos.
Os médicos permaneceram em silêncio, enquanto a moça se refazia.
- Meus amigos, esse sentimento nefasto foi o que me levou a acabar com a minha própria vida, apenas para vingar-me - prosseguiu a suicida arrependida.
- Vingar-se de quem, Carla? - perguntou o director.
A moça abaixou a cabeça, como se estivesse com vergonha, e respondeu com a voz baixa:
- Do Albert. Foi por querer me vingar dele que cometi esse acto tresloucado contra o meu corpo e as Leis Divinas.
- Quem é Albert? - perguntou o Dr. Luís, bastante interessado.
- Ele é o pai do meu namorado Hugo, em minha última existência.
- Ainda não consegui entender bem o que você quer dizer, Carla.
A bela moça respirou profundamente e narrou, com voz quase sumida, toda a trama que a fez cometer aquela tragédia.
Ao fim da narrativa, o director ergueu-se e disse:
- Bem, agora que você tem conhecimento de tudo o que lhe aconteceu e porque está neste pronto-socorro, só nos resta encaminhá-la para o hospital de uma colónia espiritual, aonde você receberá um atendimento específico e será reeducada para mais uma experiência na matéria.
A moça também se ergueu, acompanhada pelo Dr. Luís, e perguntou antes de sair do consultório:
- Eu posso ver o lado material do centro espírita onde fica localizado este pronto-socorro?
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 29, 2016 9:47 am

- Você já tem condições de realizar esse desejo independentemente de nossa ajuda.
A moça se concentrou e imediatamente viu um belo hospital ao lado de uma edificação pequena.
- Casa dos Aflitos Jesus de Nazaré - era o nome que estava escrito na placa e que ela leu em voz alta.
Surpresa, olhou para o Dr. Rogério e comentou:
- Eu já estive neste centro espírita, quando o meu pai buscava recursos para mim e minha mãe.
Ele continua quase do mesmo jeito, com excepção deste belíssimo hospital.
- Este nosocómio foi construído para abrigar os irmãos encarnados com problemas obsessivos e outras doenças do espírito - sorrindo, informou o director, como se estivesse escondendo algo.
- Por que o senhor está rindo?
- Este hospital foi construído por um homem que, apesar de seus defeitos, nos últimos anos de sua última existência, conseguiu aproximar-se de Deus e fazer algo relevante pelos irmãos deserdados da sorte ou com problemas que as experiências científicas ainda não conseguiram explicar.
A moça entendeu que o médico espiritual referia-se ao espírito Albert.
A mesma baixou a cabeça e começou a chorar.
- Por onde ele andará?
- Quem?
- Albert.
- Há anos foi recolhido de zonas umbralinas e actualmente se encontra numa colónia, refazendo-se dos ataques que sofreu de seus inimigos desencarnados.
Ele trabalha para dominar suas más tendências e poder assumir uma grande missão.
- Posso pedir para ir para a mesma colónia?
- Não precisa.
Nossos superiores já ordenaram sua ida para a mesma colónia, para ajudá-lo.
- Obrigada, meu Deus! - agradeceu a moça, fitando o céu azul daquele lugar envolvido por um cordão fluídico, semelhante a uma corrente que parecia protegê-lo.
O trio voltou para o lado espiritual e se encaminhou para a enfermaria onde Carla estava internada.
De repente ela parou e perguntou, segurando o braço do Dr. Luís.
- Que missão será esta para a qual o Albert está se preparando?
Os médicos riram.
- Um dia você saberá, minha querida Carla - disse o director.
- Lembre-se apenas que nós sempre estaremos perto de vocês, sejam encarnados ou desencarnados.
- Por quê?
- Essa é nossa missão.
Ela riu e notou que não adiantava mais fazer perguntas a esse respeito, pois sabia que elas não seriam respondidas.

§.§.§- Ave sem Ninho
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Ave sem Ninho

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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

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