Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 18, 2016 10:38 am

Mas antes que o homem deixasse a sala, o médico perguntou:
- Por que o seu filho começou a falar com você sobre esses livros?
- Sei lá. Um momento... - pensou o marido de Isabel.
Foi depois que contei para ele que vi a alma de minha filha duas vezes, uma na sala e outra em meu quarto.
- Eu imaginei isso - disse o médico satisfeito.
Sente-se, Edmundo, por favor, e ouça o motivo de tê-lo chamado para essa conversa.
Edmundo, que já estava querendo ir embora para começar a beber, falou impaciente:
- Deixe para outra vez, doutor.
Agora, estou com pressa.
Tenho alguns compromissos urgentes para resolver.
Ao se voltar para ir embora, Edmundo ouviu o médico falar:
- É você quem está precisando ser internado para fazer um sério tratamento.
- Eu? - encarando o médico, o marido de Isabel perguntou surpreso, apontando para si.
- Sim. Você mesmo.
- O senhor está brincando comigo?
- Estou falando sério, meu amigo.
Edmundo sentou-se e ficou calado, aliás, ambos se calaram.
- Por que o senhor acha que estou precisando de um tratamento, doutor? - perguntou Edmundo, rompendo o silêncio que lhe provocava um grande mal-estar.
- Porque se a sua mulher, após ver a filha doente e gritando de dor no quarto dela, piorou seu quadro clínico, você, que também a viu por duas vezes, também deveria estar internado nesta clínica ou num manicómio qualquer.
- O meu caso é diferente.
- Não. É igual - afirmou o médico com um gesto de cabeça.
-Você não viu a sua filha também?
- Vi.
- Tem certeza?
- É... Tenho.
- Então, por que a sua esposa está internada e o senhor não? - perguntou o médico.
Edmundo ficou pensando.
- Acho que o senhor quer me dizer algo importante, doutor -comentou Edmundo.
O médico se calou, enquanto Edmundo se irritava com o silêncio do médico.
- Eu já vi a sua filha sentada no corredor deste hospital, chorando e gritando com as mãos no ventre.
- O quê? - espantou-se o pai de Carla.
- Sim, senhor.
Eu vi a sua filha.
- Não é possível!
Ela está morta! - afirmou Edmundo.
- Aí é que você se engana.
Ela está viva, como nós.
A diferença é que nós estamos visíveis, por causa deste corpo temporário que abriga nosso espírito, e ela está no mundo invisível - o mundo espiritual.
Edmundo empalideceu instantaneamente.
Seu coração acelerou e estava com dificuldades para respirar, mas assim que conseguiu se controlar, chegou mais perto do médico e perguntou com a voz quase inaudível:
- Doutor, o senhor tem alguma bebida bem forte?
- Bebida alcoólica, o senhor quer dizer?
- Sim.
- Não. Quer dizer...
Um momento, por favor.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 18, 2016 10:38 am

O médico fez um gesto com a mão e saiu da sala falando consigo mesmo:
- Não posso perder a oportunidade de conseguir a ajuda do Edmundo para curar sua esposa.
Após alguns minutos o Dr. Jacinto voltou com uma garrafa envolta num papel.
"Tenho que prender o Edmundo por mais alguns minutos", pensava o médico.
- Consegui uma garrafa de um bom vinho, próprio para determinadas ocasiões - disse o médico sorrindo, enquanto estendia ao seu convidado um copo.
Aceita uma dose?
- Aceito, com prazer - disse Edmundo pegando a garrafa, despejando o seu conteúdo num copo plástico e bebendo-o de uma vez.
O médico observava o visitante com ar de satisfação, pois sabia que naquele dia havia conseguido um grande amigo, mesmo infringindo as normas da clínica.
Edmundo olhou para o médico, como se estivesse pedindo permissão para tomar outro gole, e novamente encheu o copo e o entornou.
Sentindo-se mais à vontade, sentou-se e disse, passando a língua nos lábios.
- Agora, estou com os nervos aprumados.
Pode falar, doutor.
O médico sorriu:
"Ele é um alcoólatra, coitado", pensou.
- Somos imortais, meu caro Edmundo.
Já sentindo o efeito do vinho, Edmundo começou a soltar a língua.
- O senhor está com a mesma conversa do meu filho Augusto.
- É ele que lê esses livros estranhos?
- Sim. O senhor acredita nisso?
- Claro. Foi por isso que mandei chamá-lo.
Para acharmos uma maneira de curar a dona Isabel.
- Como?
- Aconselhando-o que a leve a um centro espírita.
Edmundo deu um pulo e falou sem aquela timidez de antes:
- Levar a Isabel num centro de macumba?
De jeito nenhum!
- Calma, Edmundo!
Estou falando de um centro espírita bem orientado, para que ela possa falar com alguém que entenda da Doutrina e possa informá-la a respeito dessa faculdade que nós temos: eu, você e ela.
- Não entendi.
- A faculdade que algumas pessoas têm de ver coisas do outro mundo.
- O que o meu filho Augusto chama de "mediunidade"?
- Exactamente.
Você é um bom aluno.
- Não coloque coisas na minha cabeça.
Dizem por aí que os psiquiatras são malucos.
- Você acha?
- Prestando bem atenção, acho que o senhor é meio doido.
Edmundo pegou a garrafa e virou o restante do vinho na boca, dispensando o copo.
Olhou para o médico e disse, já com a voz vacilante:
- É. Parece que o senhor tem razão.
O meu filho falou que quem vê espíritos tem uma tal de mediunidade chamada de...
- Vidência - completou o médico.
- Exactamente.
Essa tal de vidência.
Mas, sabe como é que é, dizem que esse pessoal é gente maluca mesmo.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 18, 2016 10:38 am

O médico começou a rir, porque viu que o marido de sua paciente começava a ficar tonto.
- Por que o senhor está rindo?
- Por hoje, já chega.
Depois marcaremos um encontro e conversaremos sóbrios.
- O senhor quer dizer que estou bêbado? - perguntou Edmundo ofendido, como todo bêbado.
- Não disse isso.
A verdade é que tenho uns compromissos urgentes para resolver.
- Ah! Está certo.
Vou embora, doutor.
O médico acompanhou Edmundo até a porta de saída da clínica e talvez ambos selaram, com um aperto de mão, uma parceria importante para a resolução do problema de saúde de Isabel, e quem sabe, também de sua filha desencarnada.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 18, 2016 10:39 am

Capítulo VII - Albert à beira da loucura
Albert aproveitava aquele momento, em que não sofria a influência do espírito Carla, para dormir, recostado num canto do jardim e ainda vestido de pijama.
Passados alguns instantes, um empregado se aproximou dele com o medo estampado em seus olhos arregalados.
- Dr. Albert - chamou o empregado em voz baixa, tentando não aborrecer o patrão.
- Fale - respondeu-lhe secamente o empresário.
- Tem um médico na sala de visitas que deseja falar com o senhor.
- Deve ser outro médico incompetente que veio me ver - comentou, enquanto levantava-se e se encaminhava para o quarto.
Acompanhe o médico aos meus aposentos.
- Sim, senhor.
Albert arrumou no encosto da cabeceira da cama alguns travesseiros com capas de cetim e recheados de um material macio, recostou-se e esperou o médico indicado pelo Dr. Artur, seu médico de confiança.
Alguém bateu de leve na porta do quarto do empresário e ouviu uma ríspida permissão:
- Entre!
A porta se abriu e o médico pôde ver aquele homem de aspecto autoritário, prepotente e orgulhoso sentado na cama, encostado nos vários travesseiros que forravam a cabeceira do leito.
Observou o semblante dele e pensou:
"Esse cidadão está precisando urgentemente de um tratamento, senão, vai enlouquecer de uma vez".
- O senhor é o médico indicado pelo Dr. Artur?
- Sim. Meu nome é Maurício.
Sou doutor em Psiquiatria, com várias especializações em Psicanálise nos Estados Unidos e na França - respondeu o médico, aproximando-se cautelosamente do leito e estendendo a mão para aquele homem com ar de dono do mundo.
Após os cumprimentos e apresentações, Albert apontou com o queixo um sofá ao lado.
- Sente-se, doutor - disse ele, como se fosse uma ordem.
Em poucos minutos o empresário do ramo de automóveis narrou o que estava acontecendo consigo nos últimos meses, principalmente o abalo que vinha sofrendo com toda aquela situação.
O médico apenas escutava em silêncio e fazia algumas anotações.
Após a narração do empresário, o Dr. Maurício levantou-se e se aproximou de Albert, examinando-o com os instrumentos que retirava de sua maleta.
Assim que concluiu sua inspecção, ele voltou a sentar-se pensativo, limitando-se a fitar o doente.
Impaciente, Albert lhe perguntou autoritário:
- Então, Dr. Maurício, o que o senhor acha do meu caso?
O médico escreveu algo num receituário e destacou a folha aonde havia prescritos alguns exames.
Depois repetiu o mesmo processo em outro tipo de receituário e se aproximou novamente do empresário.
Tentando ser educado, mesmo não tendo simpatizado com aquele homem, entregou a ele as receitas e repassou as informações que estavam contidas nelas.
- Pronto, Dr. Albert.
Por favor, faça esses exames e compre esses medicamentos.
Tome um comprimido três vezes ao dia.
O médico fechou a maleta e disse-lhe em pé, junto ao leito do homem:
- Agora, tudo que podemos fazer é esperar pelos resultados dos exames.
Todavia, posso adiantar, pela minha experiência na área, que o senhor está gozando da mais perfeita saúde mental.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 18, 2016 10:39 am

O Dr. Maurício não esperou resposta, despedindo-se e deixando o quarto imediatamente.
Albert ficou pensando:
"Esse médico não gostou de mim.
Mas não me interessa.
Vai fazer o que eu quero, porque estou pagando, e muito caro.
A porcaria de uma simples consulta em domicílio custou-me uma fortuna".
Certa tarde, na sua residência, o pai de Carla estava deitado, ainda sóbrio, pensando na conversa que tivera com o Dr. Jacinto.
De repente, o homem levantou-se de um salto, desceu correndo os degraus da escada que terminava na sala de visitas e gritou:
- Augusto!
- O Dr. Augusto está estudando no quarto - informou uma empregada.
Edmundo correu para o quarto do filho e entrou sem bater, pedindo desculpas por aquele gesto indiscreto.
- Está desculpado, pai.
O que aconteceu desta vez?
Edmundo sentou-se ofegante e contou tudo que ouvira do Dr. Jacinto, por ocasião da visita que fizera à esposa.
Augusto deu continuidade ao trabalho que realizava no computador, aborrecendo o pai, que logo perguntou:
- Meu filho, você prestou atenção ao que eu acabei de falar?
Augusto tirou os óculos de grau e girou na cadeira, ficando de frente para o seu pai.
O rapaz falou sorrindo:
- O senhor não descobriu e nem está me falando nada de novo.
- Não entendi, Augusto!
- Papai, a mamãe não está mentalmente doente.
Já expliquei tudo o que o senhor ouviu do Dr. Jacinto, mas "santo de casa não obra milagre".
Edmundo passou a mão na cabeça e admitiu que o filho estava com a razão.
- Então, o que vamos fazer?
- Espere o Dr. Jacinto telefonar para sabermos o que ele tem em mente e só depois pensaremos numa maneira de resolver esse problema da mamãe e, quem sabe, o seu também.
- O meu? - perguntou o pai espantando, apontando para o seu peito com o dedo polegar.
Sua mãe adoece e sou eu quem fica doido?
Muito engraçado isso!
- Talvez tenha cura para a mamãe, porque tudo indica que o problema dela é somente espiritual, como falou o Dr. Jacinto, mas o seu caso é diferente; trata-se de uma enfermidade, pai.
- Continuo sem entender o que você está querendo insinuar!
- redarguiu o pai aborrecido.
- Se o senhor continuar bebendo desse jeito, não tenho dúvida alguma que vai parar num manicómio do governo, encharcado de droga, pois nem dinheiro temos mais para pagar uma boa clínica.
Edmundo baixou a cabeça e levantou-se pensativo e com medo do que o filho falara.
Antes de sair, perguntou:
- E os negócios como vão?
- Já vendi mais da metade do património para pagar os credores e estou tentando negociar o resto da dívida.
Caso eu não consiga negociá-la, vamos ter que vender os dois prédios, a fazenda e todos os terrenos.
Resumindo: estou muito optimista de que no final de tudo fiquemos pelo menos com esta casa, que o senhor construiu com tanto sacrifício.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 19, 2016 11:01 am

Edmundo saiu:
"Ele tem razão.
Se eu não parar de beber, vou cair mesmo em um hospício de pobres", pensou.
No dia seguinte, na mansão do pai de Hugo, o Dr. Maurício se encontrava sentado no mesmo sofá do quarto do empresário, com os resultados dos exames na mão, verificando minuciosamente o que havia de errado com o seu paciente.
Após esse minucioso exame, colocou o resultado dos exames sob uma pequena mesa e retirou os óculos.
Olhando para Albert, disse-lhe peremptoriamente:
- O senhor não está mentalmente doente.
Aliás, sua saúde mental é melhor do que a minha neste momento.
O médico levantou-se e estendeu a mão para o homem, despedindo-se, quando ouviu Albert perguntar:
- Quer dizer que não estou ficando maluco?
- Exactamente. Inclusive, me enganei quando o vi pela primeira vez, assim aqui cheguei.
Acho estranho, mas a verdade é que o senhor é um homem sadio de corpo e mente.
- E como se explica tudo o que venho sentindo?
Ora, chego até a ver alma de outro mundo!
O médico sentou-se novamente e estendeu a mão para uma mesinha ao lado, colocando café numa xícara, que foi adoçado e sorvido calmamente, como se fosse um ritual.
Albert estava à beira de um colapso nervoso, vendo a calma e a tranquilidade daquele psiquiatra.
- Sou um médico e cientista nesse campo - disse-lhe o médico de chofre e apontando para a cabeça do empresário.
- Tudo o que a ciência me ensinou concede-me o direito de dizer que o senhor é um homem mentalmente saudável.
O médico fitou o empresário e sentenciou:
- Se eu fosse desonesto ou um pilantra, poderia inventar várias doenças para o senhor, com a finalidade de extorqui-lo, porém não preciso disso.
O Dr. Maurício levantou-se novamente e falou entre dentes, já se voltando para sair do quarto:
- Não consigo entender o que está acontecendo com o senhor...
- Falou alguma coisa, doutor? - perguntou Albert.
- Esqueça, Dr. Albert - disse o Dr. Maurício em voz alta, saindo em seguida do seu quarto.
- O quê? - perguntou o suposto doente.
Volte aqui, seu médico de meia tigela!
O Dr. Maurício já ia longe, caminhando apressado, como se estivesse fugindo de algo.
Albert levantou-se e gritou a plenos pulmões:
- Iolanda!
Em poucos segundos a mulher estava ao lado dele, perguntando preocupada:
- O que houve, Albert?
Parece que está ficando maluco de vez!
- Isso não são horas para brincar com coisas sérias!
- Então, fale o que houve!
- Esse doutorzinho disse na minha cara que sou um homem fisicamente e mentalmente saudável.
Só faltou me aconselhar a ir a um pai-de-santo para resolver meu problema de saúde!
A mulher começou a rir.
- Por que está rindo? - perguntou o marido.
Por acaso contei alguma piada?
- Se o médico disse que sua saúde está boa, então, o que vamos fazer? - perguntou a mulher.
Quanto a esse negócio de pai-de-santo, ao qual você se referiu, achei engraçado, porque todo mundo, inclusive a criadagem, só fala nisso.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 19, 2016 11:01 am

- Não quero saber a opinião dessa gente ignorante!
Agora, por favor, deixe-me só.
Já estou bem e amanhã cedo irei para a fábrica.
A mulher fitou-o sorrindo e saiu do quarto.
"Coitado, vai sofrer tanto.
Ele nem desconfia, mas é muito mais ignorante do que essas criaturas que tratamos como criados", pensou.
Albert estava mais optimista e realmente não sentia mais nada, a não ser o orgulho que o tornava doente, principalmente no trato com seus empregados.
Ninguém era melhor do que ele.
Somente o que ele falava tinha valore crédito.
À noite, quase adormecendo, viu Carla sentada ao seu lado na cama, gritando impropérios:
- Seu velho assassino!
Pensou que ia ficar assim? Deixei aquele colega de profissão examiná-lo, só para falar no ouvido dele que você não é doente, e sim, um sujeito mau.
Fui eu que o fiz ir embora, antes de convencê-lo a matá-lo.
Albert tentava gritar, mas não podia.
Ele estava tendo um pesadelo, ou seja, mesmo num estado que ainda não é o de sonolência, seu espírito entorpecido libertou-se de suas amarras, podendo ver e ouvir o espírito Carla sem conseguir reagir.
O espírito Carla continuava doente.
Chorando e gritando de dor, aparentava o pior aspecto que um ser humano podia apresentar.
Suja, descabelada e com os olhos arregalados semelhantes aos dos animais, ainda tinha as mãos ensanguentadas, sempre levando-as ao baixo ventre, de onde se esvaia numa hemorragia incessante.
Albert tentava levantar-se, mas não podia, e assim ficou por alguns minutos, debatendo-se naquele sonho aflitivo, até que conseguiu gritar.
A criadagem correu no meio da noite, junto com a esposa do dono da casa, e entraram no quarto de Albert, deparando-se com um quadro caótico.
Ele esmurrava o ar, como se brigasse com um ser invisível.
Ao presenciar o estado do marido, sem saber que atitude tomar, Iolanda correu e sentou-se na cama procurando acalmá-lo, fazendo um carinho em seus cabelos.
- Calma, Albert.
Tenha fé em Deus, que tudo vai passar.
- Peça para esse demónio me deixar em paz, senão vou mandar matá-la de verdade!
- De quem você está falando? - perguntou a esposa.
- Dessa infame! Dessa vigarista que tentou nos roubar e que terminou sendo a responsável pelo desaparecimento do Hugo!
- Patrão, por favor, seja mais claro:
de quem o senhor está falando? - perguntou um dos empregados.
- Dessa maldita Carla!
Ao ouvirem o nome de uma pessoa que já havia morrido, os empregados começaram a correr pelos corredores e voltaram para os seus quartos.
Uns se benziam e outros tremiam de medo, mas todos faziam o sinal da cruz.
A humanidade tem a intuição de que existem outros mundos além desse em que vivemos, mas ninguém quer ver ou ouvir em falar em espíritos que vivem no mundo invisível.
O homem que havia feito a pergunta era moreno claro e tinha cabelos lisos.
De altura mediana, aparentava ter mais ou menos trinta anos, e demonstrava no porte e nos gestos uma certa elegância.
Ele trabalhava naquela mansão como secretário do patrão, mas não morava lá, porém, naquela noite, com todos os problemas dos negócios da família, resolveu dormir no quarto de hóspede.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 19, 2016 11:02 am

- Que a sua alma descanse em paz, Dra. Carla - falou o secretário do Dr. Albert.
Já calmo, Albert olhou para o secretário e perguntou meio desconfiado:
- Edvaldo, você conhecia a Carla?
- Claro. Inclusive, quando eu ia ao hospital dirigido pelo Dr. Hugo, era a Dra. Carla que sempre me atendia.
Lembro-me que era uma moça muito bonita e educada.
Foi uma pena ter desencarnado tão jovem, e principalmente, daquela maneira drástica.
- Desencarnado? - perguntou surpreso o patrão.
- Sim. Desencarnado.
- O que significa esse termo?
- Esse termo é usado pelos adeptos da minha religião.
- Qual a sua religião, Edvaldo? - perguntou Iolanda, que até então se mantinha em silêncio.
- Sou espírita.
- O quê?! Espírita?! - disse o patrão surpreso.
Ponha-se daqui para fora, seu macumbeiro!
Depois passe no meu escritório para acertamos suas contas!
- Calma, Albert - pediu a esposa.
- Você ainda me pede para ficar calmo, com uma pessoa que eu pensava ser um bom profissional e que é formado em Administração de Empresas?
- E o que tem a ver minha formação académica com a religião que professo? - perguntou Edvaldo.
- Fora! - gritou o patrão.
Iolanda fez um sinal e o rapaz saiu cabisbaixo.
- Coitado! Como esse homem é ignorante!
Achava que essas pessoas ricas, principalmente essas metidas a nobres, fossem informadas em todas as áreas do conhecimento humano - pensava o rapaz em voz alta, ao sair do quarto.
Após a saída de Edvaldo, Iolanda falou com naturalidade, evitando ao máximo irritar o marido, que já estava desequilibrado.
- Eu acredito na religião do Edvaldo.
- Você também!
Ponha-se para fora do meu quarto, sua cascavel!
A mulher de um homem como eu, não pode pensar como essa gente sem classificação!
Iolanda foi saindo do quarto e, ao abrir a porta, voltou-se para o marido e falou sorrindo:
- Precisamos mesmo de um bom pai-de-santo, como ironizou você, quando o Dr. Maurício disse que sua saúde era excelente.
- Fora, sua traidora! - gritou o marido, jogando um travesseiro na esposa.
Num canto do quarto, Carla chorava, ria e gritava ao mesmo tempo, sentindo-se feliz com o sofrimento do homem.
- Mais um pouco e vou fazer com que ele seja internado para sempre num hospício - dizia ela envolvida em pensamentos vingativos.
- Viu, meu filho, como o seu avô está com medo? - passando a mão na barriga, perguntou ao espírito que achava carregar em seu ventre.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 19, 2016 11:02 am

Capítulo VIII - Hugo tenta esquecer a tragédia
Passou um ano e três meses após a tragédia que se abateu sobre o casal Hugo e Carla.
No pequeno posto de saúde de uma cidadezinha perdida no interior do país, um rapaz louro, de pele branca tostada pelo sol, educado e muito servidor, atendia várias pessoas humildes, principalmente crianças e idosos, que, pelos olhares que lhes dirigiam, tinham uma verdadeira adoração por ele.
Num pequeno consultório, o Dr. Hugo atendia com muito carinho e desvelo uma mocinha com aproximadamente treze anos, de aspecto pobre e doentio.
A menina era magérrima e estava pálida e trémula, demonstrando extrema fraqueza ao ser amparada por uma senhora, que, pelos cuidados e tratamento íntimo, só poderia ser sua mãe.
- Leninha, você vai ficar boa.
Mas é preciso que tenha fé em Deus, porque sem a autorização Dele, nós não podemos fazer absolutamente nada - disse Hugo com a simplicidade dos humildes.
- Doutor, eu rezo todos os dias - disse a mocinha com tuberculose, provocada pelo excesso de trabalho na rocinha da família e, principalmente, pela falta de recursos para se fazer uma boa alimentação.
- Por favor, Dona Josefa, não se esqueça de trazê-la aqui, diariamente, para tomar essas injecções, durante o período prescrito na receita.
Tenha cuidado com a nossa menina.
Ela precisa de muito repouso e uma boa alimentação.
- Não vou esquecer, doutor.
A saúde de minha filha é muito importante para nós.
- Vou ajudá-la, arranjando esses medicamentos com os amigos.
Quanto à alimentação, deixe comigo, pois vou mandar para sua casa algumas provisões necessárias à recuperação dela.
O médico ergueu-se e abraçou a mocinha e a mãe com doçura nos gestos, conduzindo-as até à porta de saída.
- Que Deus o abençoe, doutor - disse Josefa com lágrimas nos olhos, agradecendo àquela alma boa que apareceu por lá havia mais de um ano.
Mais ou menos às treze horas, Viviane trouxe uma marmita que continha o almoço do médico, além de uma garrafa com café e outra com suco.
- Hugo, está na hora de parar um pouco para almoçar - disse com carinho na voz e sorrindo, a bela e simpática amiga e dona da casa onde o médico residia.
- Não se preocupe.
Ainda não estou com fome.
- Você vai se alimentar agora mesmo, e só depois volta a atender.
Se adoecer, quem vai ajudar todo esse povo que está na frente do posto de saúde, doutor?
- Então, aguarde um momento, certo?
Quando o Dr. Hugo chegou àquela pequena cidade, foi informado que não havia clínico - nem nos municípios e povoados adjacentes - porque o antigo médico havia morrido e não fora substituído.
Imediatamente ele procurou o prefeito e se ofereceu para substituir o cargo vago no posto de saúde.
- Dr. Hugo, pertencemos a uma comunidade pobre, composta de pequenos agricultores e criadores, sem muitos recursos para manter um médico, principalmente um vindo da cidade grande.
O prefeito era um homem ainda jovem, moreno e com cabelos cortados tipo escovinha.
Além disso, era criador de gado e o homem mais rico daquela região, segundo os padrões das redondezas.
Após a resposta do prefeito, Hugo, que havia simpatizado com o administrador daquela cidade, disse-lhe, entregando um diploma de médico:
- Prefeito Marcondes, eu sou pobre e estou me oferecendo para assumir a vaga do médico que faleceu, pensando num emprego para sobreviver e ajudar essa comunidade que me acolheu no momento em que eu mais precisava.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 19, 2016 11:02 am

O prefeito ajeitou-se na cadeira e encarou o médico com um sorriso simpático, pois havia se estabelecido uma empatia mútua entre eles, ele disse:
- Continue, doutor.
Senhor, deixe-me trabalhar e ajudar sua comunidade, os habitantes desta cidade e dos lugares adjacentes.
O prefeito fitou aquele homem de traços finos.
Olhou de soslaio para as mãos do médico e observou que eram mãos de um homem que jamais havia conhecido o trabalho duro do campo:
"Quem será esse homem?
É muito educado e fino e tem traços de uma pessoa rica", pensou.
- Mesmo assim, qual o seu preço? - perguntou o executivo da cidade.
Aviso que a nossa prefeitura não tem verba.
Hugo ficou pensativo por alguns minutos, depois respondeu com calma e educação.
- Que não me façam perguntas sobre o meu passado.
O prefeito ficou em silêncio e perguntou, tentando não ferir o homem desconhecido:
- O senhor tem dívida com a Justiça?
- Não. Quanto a esse detalhe, fique tranquilo:
nada devo à Justiça.
O prefeito levantou-se e aproximou-se do médico, estendendo-lhe a mão.
- A vaga é sua, Dr. Hugo.
Os dois homens se cumprimentaram e ambos serviram-se do líquido da garrafa posta sobre uma bandeja.
- À sua função como médico da cidade, Dr. Hugo - disse o prefeito, levantando o copo com vinho e brindando ao acordo com o novo médico.
- À sua consideração, por ter me aceitado - brincou o médico, demonstrando felicidade por ter sido admitido naquela abençoada cidade.
A partir daquela data Hugo arregaçou as mangas e se entregou de corpo e alma ao trabalho.
Durante os dias da semana clinicava naquele pequeno posto de saúde, passando a ser reconhecido por sua competência.
À noite dedicava-se a uma escola de alfabetização para todas as idades, principalmente para os adultos que não tiveram condições de frequentar regularmente um colégio.
Sempre que podia, também ajudava Viviane e o irmão a plantar e a cuidar dos poucos animais que possuíam.
Embora a dona da propriedade reclamasse dessa ajuda, o médico dizia que aquele trabalho servia para pagar as despesas dele, porque o pouco que recebia da prefeitura mal dava para comprar o essencial que necessitava para sobreviver, e o restante era utilizado para auxiliar os mais pobres da redondeza.
A casa de Viviane se transformou na residência mais conhecida dos arredores, porque o povo sempre procurava o Dr. Hugo com pequenos presentes - animais, cereais, verduras, frutas e outros - ou simplesmente para conversar com o bondoso médico.
Após quase um ano desde que o médico se hospedara em sua casa, numa certa noite de lua cheia de um sábado, Viviane o viu sentado numa cadeira no alpendre e na penumbra.
Ela se aproximou temerosa em invadir a privacidade do rapaz e logo notou que ele estava chorando, embora tentasse disfarçar.
Silenciosamente a moça sentou-se numa cadeira ao lado e ficou meditando na situação daquele rapaz, evitando puxar conversa para não atrapalhar o seu estado, pois lhe doía o coração ver aquela criatura que lhe era muito cara sofrer daquela maneira.
- Estou incomodando, Hugo?
- Não. Fique à vontade.
Um silêncio mortal se abateu entre os dois.
Era possível se ouvir qualquer tipo de barulho da mata que rodeava a cidade.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 19, 2016 11:02 am

A mulher ergueu-se com elegância e entrou em casa, voltando depois com duas xícaras de café.
Entregou uma das xícaras ao médico e ficou com a outra, sentando-se novamente na mesma cadeira, em silêncio.
- Viviane, você sentia muita dor e falta do António, quando ele morreu? - perguntou o médico de surpresa, enxugando o rosto com um lenço.
A mulher tomou um gole de café.
Pensou um pouco, fitando a lua que ia se escondendo atrás de uma pequena montanha distante, e respondeu com a voz calma:
- Um pouco. Eu não amava o meu marido.
Gostava, porém, não o amava.
Mas sim, senti sua morte, principalmente a falta de um companheiro, pois o António era um homem muito bom.
Hugo calou-se por alguns momentos, enquanto tomava seu café.
- Nunca pensou em se casar novamente?
A mulher pensou, fez um ar de surpresa, e respondeu sorrindo:
- Não.
- Porquê?
Não gostou da experiência de ser casada?
Viviane riu, levantou-se e pegou a xícara do médico, e dirigiu-se para a entrada da residência sem responder a pergunta do amigo.
- Um momento.
Volto logo - avisou antes de entrar em casa.
Minutos depois, a viúva encontrava-se sentada no mesmo lugar, ainda pensativa.
Como um verdadeiro cavalheiro, Hugo esperava a resposta sem ser indiscreto.
- Fui feliz enquanto estava casada com o António - disse ela rompendo aquele silêncio.
Ele fazia todos os meus gostos.
Era responsável, cumpridor de suas obrigações, além de ser um bom pai, que amava com loucura a nossa filha.
O médico manteve-se quieto, sem fazer perguntas e evitando assim, interromper sua anfitriã.
- Quando mataram meu marido, senti uma dor atroz dentro do meu peito.
Dias depois fiquei sabendo que o António havia surrado o seu assassino numa cidade próxima à nossa, por uma pequena bobagem - disse a mulher suspirando, talvez porque não desejava se lembrar do passado.
Naquele momento descobri que eu não sentia nada pelo meu marido - falo de amor -, a não ser uma amizade de criança.
Acho que eu gostava dele, porém, nunca o amei de verdade - concluiu.
- Você quer dizer que se amasse o António, o facto dele ter surrado uma pessoa não iria fazer diferença?
- Exactamente, meu caro.
Quem ama realmente, não pensa em si, pois não há espaço no coração para outra pessoa, a não ser a pessoa amada - respondeu a mulher.
Se eu amasse o António, não seria uma pequena bobagem dessa que abriria os meus olhos.
Entendeu, doutor?
- Entendi.
Ambos ficaram em silêncio.
Hugo olhou de soslaio para aquela mulher nativa da região e pôde ver o quanto ela era bonita, de corpo esbelto e bem distribuído, esculpido pela luta do dia-a-dia no campo.
Notou ainda que ela tinha uma certa educação e polidez em seus gestos e palavras.
"Se essa mulher recebesse um tratamento de beleza, dessas que as mulheres das grandes cidades fazem, ela se transformaria em uma rainha", pensou.
- Hugo, você nunca me contou o que o fez deixar a vida na cidade.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 19, 2016 11:02 am

Sei apenas que sua família é rica e que sua noiva morreu.
O médico levantou-se de surpresa e começou a caminhar pelo alpendre, como se tivesse sido picado por um insecto.
Viviane notou que ele se sentiu incomodado, pois segundos depois tirou o lenço do bolso e enxugou o rosto, como se estivesse transpirando.
Hugo sentou-se em sua cadeira de cabeça baixa e começou a falar com a voz vacilante.
- Eu era noivo da mulher mais bonita e inteligente que já conheci nesta vida.
Ela era médica e se especializou em Cirurgia Plástica, trabalhando nessa área até o dia de sua morte, quando se suicidou.
O médico narrou sua história, até o dia em que chegou naquela cidade, com a finalidade de esquecer esse passado que estava mais vivo do que nunca.
Após ouvir aquela triste história, Viviane passou as mãos nos olhos, tentando enxugar as lágrimas que desciam pelo seu belo rosto, independentemente de sua vontade.
"Meu Deus, como este homem sofreu e tem sofrido até agora", pensou.
"O que será que posso fazer para ajudá-lo a carregar esse fardo tão pesado?"
Passou automaticamente as mãos nos cabelos, ajeitando-os num gesto feminino.
- Será que a Carla era realmente meu verdadeiro amor? - perguntou o rapaz fitando o vazio da noite.
- Não sei.
Esta pergunta somente você sabe responder - respondeu a mulher sorrindo e tentando deixar o rapaz mais relaxado.
- E você? Nunca amou?
A moça não respondeu, simplesmente riu, com sua maneira simpática e educada.
Hugo não insistiu.
A partir daquela data, Viviane começou a cuidar mais do seu hóspede, principalmente da saúde dele.
Agora ela entendia porque o médico não parava de trabalhar.
Era para esquecer aquele passado repleto de dor.
Quantas vezes ela se levantara à noite e procurara escutar atrás da porta do quarto dele, com medo de que ele fizesse uma bobagem qualquer, e o ouvia chorar baixinho.
Ela também chorava, porque como mulher tinha uma alma sensível e podia imaginar o que se passava naquele coração tão sofrido.
A vida naquela cidade seguiu seu rumo e o Dr. Hugo passou a ser mais adorado que os santos de devoção daquelas pessoas simples, honestas e trabalhadoras.
Voluntariamente, o Gordo tomou-se o fiel segurança do Dr. Hugo.
Ninguém conseguia falar com o médico, sem antes falar com ele, que deixara de trabalhar no carro velho para ajudar o médico no posto de saúde.
"Alma boa e caridosa, esse rapaz", pensava o médico, quando o Gordo entrou em seu consultório dizendo:
- Doutor, eu já dispensei o pessoal que faltava para ser atendido.
Avisei que agora, só amanhã.
- Ok amigo.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 19, 2016 11:03 am

Capítulo IX - Comentário sobre o suicídio
Na mansão de Albert o martírio prosseguia.
Ele já não conseguia dormir, mesmo com o auxílio de tranquilizantes fortíssimos.
Andava pelos corredores falando sozinho e gesticulava como se conversasse com alguém.
- Malditos, vou mandar matar todos vocês!
Não brinquem comigo!
Sou rico, poderoso e capaz de acabar com a raça de todos aqueles com os quais não simpatizo, entenderam? - dizia ele furioso.
Iolanda fizera de tudo, chegando até a mandar rezar uma missa na mansão, porém, de nada adiantou.
À noite, Albert costumava gritar e sair correndo pelo jardim da imensa casa, assombrando os poucos empregados que ainda restavam na mansão, talvez por apreço à patroa, mulher que respeitavam e aprenderam a amar como a uma pessoa da família.
Os enfermeiros que se alternavam, dia e noite, acompanhavam os passos do empresário como verdadeiras sombras, para evitarem que o mesmo cometesse alguma loucura.
Quando Albert ficava muito agitado e agressivo, aplicavam-lhe medicamentos de efeito poderoso, que o acalmavam e o deixavam com um aspecto doentio e apático, chegando até a babar involuntariamente.
Iolanda chorava muito.
Apesar de não amá-lo, ela gostava muito dele e não se conformava em vê-lo sofrendo tanto, a ponto de perder a razão e enlouquecer daquela maneira.
- Meu Deus, por favor, mostre-me uma maneira de ajudá-lo! - rogava ela em voz baixa.
Não aguento mais vê-lo sofrer como um alienado!
Todavia a perturbação sofrida por Albert em decorrência da influência do espírito Carla se tomava mais evidente a cada dia que passava.
Uma atracção muito forte não a deixava se afastar daquela mansão, com excepção dos momentos em que visitava o pai e a mãe, em busca de recursos para amenizar seu sofrimento.
Ela começou a ver pessoas horríveis e de aspectos maléficos - verdadeiros monstros -, que a insuflavam a continuar perseguindo Albert, tendo em vista que eles também desejavam se vingar das maldades causadas por ele.
- Vamos arquitectar um plano para enlouquecer esse maldito e fazê-lo se suicidar? - convidava um deles, em péssimo estado.
- Não é perigoso levá-lo à morte?
- Deixe de bobagens!
Ele merece ser castigado por suas maldades, principalmente pelas pessoas que mandou matar para satisfazer seu maldito orgulho!
Além do predomínio maléfico imposto por Carla, Albert começou a ser influenciado por outros espíritos de um passado distante, que também sofreram as consequências de suas maldades.
Mesmo passando por toda aquela situação desesperadora, ele mantinha-se orgulhoso, desprezando os pobres e humildes e colocando-se acima de Deus, apenas por ser descendente de uma rica e influente família nobre da Europa.
Carla padecia há mais de um ano e por isso estava numa situação caótica.
Os socorristas do além tentavam ajudá-la, mas não conseguiam, porque sua vibração mental era muita baixa e ela ainda guardava, na tela mental de sua memória perispiritual, muita dor e mágoa devido ao pai do homem que amava.
Os espíritos responsáveis pelo socorro às pessoas sofredoras não encontravam oportunidades para levá-la a uma colónia espiritual, lugar adequado onde poderia ser tratada.
Um deles falou para aquele que parecia ser o responsável pela operação:
- Acho que a nossa irmã ainda vai sofrer bastante, porque ela cometeu dois crimes contra as leis de Deus.
No entanto, outro da equipe contemporizou:
- Isso depende do merecimento e progresso dela.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 19, 2016 11:03 am

Nossa irmã Carla tem um relatório muito positivo a seu favor - disse um deles, com o semblante preocupado.
No passado ela resgatou muitas dívidas, dedicando-se ao próximo numa guerra na qual desencarnaram milhões de irmãos.
Um deles pensou e retrucou:
- É provável que a Divindade leve em conta esse relatório repleto de trabalhos relevantes ao próximo.
Não conseguindo um só momento de paz, Carla pensou em sua casa e no mesmo instante se encontrou deitada no sofá da sala de sua residência.
Lamentando-se de sua dor, observou que o irmão Augusto, o pai e um desconhecido conversavam ao redor de uma mesa.
Carla levantou-se curiosa e aproximou-se deles, com as mãos no ventre ensanguentado, tentando escutar o que eles diziam.
Edmundo havia marcado um encontro com o Dr. Jacinto em sua casa, para tratar do assunto que o médico queria falar com ele, conforme ficou combinado na clínica de repouso.
Após as apresentações entre Augusto e o médico, eles se sentaram ao redor de uma mesa que havia na sala, sugestão do Dr. Jacinto, e começaram a conversar sobre coisas sem importância.
Os três homens ficaram calados por alguns instantes, como se estivessem com receio de tocar no assunto que era o motivo daquele encontro.
Edmundo, que se mostrava ansioso e enxugava o suor do rosto com um lenço, fitou o filho e em seguida o médico, perguntando sem preâmbulos, talvez antes que perdesse a coragem para falar.
- Então, Dr. Jacinto, sobre qual assunto iremos conversar?
Seria uma continuação daquele que não concluímos no hospital?
Calmamente, o médico pôs as duas mãos sobre a mesa, olhou de viés para Augusto e respondeu com naturalidade:
- Exactamente, amigo.
É o mesmo assunto.
Edmundo notou o vacilo e o olhar de indagação do médico em direcção ao seu filho, talvez se perguntando se poderia falar sobre aquele assunto na presença dele.
- Pode falar, doutor - disse Edmundo.
O Augusto já sabe do que houve.
- Bom, então vamos ao assunto propriamente dito - disse o médico mais à vontade.
A dona Isabel está perfeitamente sã.
E isso foi comprovado pelos vários exames aos quais foi submetida e que tiveram excelentes resultados.
Edmundo olhou de soslaio para o filho, visivelmente espantado com a afirmação do médico, mas ficou em silêncio.
- Ela está apenas muito abalada por causa do que aconteceu com a filha.
Entretanto seu estado se agravou, e hoje, ela realmente acha que está doente, ou melhor, louca - disse o médico.
Mas na realidade, o que a dona Isabel está sentindo é a influência dos espíritos sofredores.
- É por isso que ela vê a minha irmã? - perguntou Augusto, não se surpreendendo com o que acabava de ouvir.
- Exactamente.
Ela tem a faculdade de ver e ouvir o que se passa no outro mundo - mundo invisível -, que se encontra em uma dimensão ainda não comprovada pela ciência.
Edmundo ora olhava para o médico, ora para o filho, sem entender o que eles estavam falando.
- Então, é verdade que a minha filha não morreu? - arriscou-se a perguntar Edmundo.
Quer dizer que a Carla, segundo essa Doutrina, apenas passou desse mundo para outro.
- Exactamente, meu pai.
O senhor está compreendendo bem, onde nós queremos chegar.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 19, 2016 11:03 am

- Mas vale salientar que esse mundo onde sua filha se encontra actualmente é aquele que a Doutrina Espírita chama de "mundo espiritual", e que de facto existe - disse o médico.
O pai de Carla se ergueu e caminhou pela sala sem saber o que pensar.
Ele não conseguia entender completamente aquele assunto tão estranho, pois era acostumado a lidar com factos concretos, com negócios financeiros, que não deixavam dúvidas quanto ao tipo de transacção.
Sentou-se novamente, sendo observado pelo médico, enquanto o filho sorria, tamborilando com os dedos na mesa.
- O que o senhor quer dizer com isso, doutor? - perguntou ele.
- Que não é aquele mundo convencionado pelas religiões, quando alguém diz que "fulano passou dessa para uma melhor", como uma forma decorada de se prestar condolência.
- Doutor, eu não sou tão burro assim.
Eu compreendo que esse mundo ao qual vocês estão se referindo realmente existe, segundo essa Doutrina esquisita da qual tanto falam.
Augusto sorriu satisfeito.
Ainda vacilante, seu pai conseguia depreender daquela conversa alguns aspectos da Doutrina Espírita.
- Continue, doutor.
Estou muito interessado nesse assunto - pediu-lhe o pai de Carla.
Neste momento o espírito, irmã de Augusto, que havia ouvido a conversa entabulada por aqueles homens, ficou em pânico, principalmente quando abordaram aquele assunto sobre essa tal de Doutrina Espírita.
- Eles acham que eu morri?
Não posso acreditar nessa mentira!
Vou embora agora mesmo, porque essa gente está ficando louca!
E sendo assim, Carla saiu correndo pelas ruas gritando e chorando, ora botando a mão no ventre, ora tapando os ouvidos, como se pudesse afastar os ecos daqueles comentários que tanto a perturbaram.
- Não posso acreditar que morri - repetia Carla deitada perto da cortina do quarto do Albert.
Ela aproximou-se do pai de Hugo, que estava deitado, dormindo sob o efeito de um fortíssimo medicamento.
- Viu, seu velho nojento?
Dizem que você me matou - disse ela sentada ao lado de Albert.
Vou descobrir se realmente aquela conversa é verdadeira e depois conversaremos, seu demónio!
Enquanto isso, na casa de Edmundo, todos notaram que havia alguma coisa diferente, porque um clima pesado pairava no ar.
- Você viu algo, Edmundo? - perguntou o médico, saindo do torpor..
- Não sei.
- Pai, o senhor viu ou não viu algo?
Edmundo ficou pensando por alguns minutos e depois respondeu com cautela, meio vacilante:
- Acho que estou precisando beber algo bem forte.
- Vamos, papai.
O senhor viu alguma coisa diferente?
- Acho que vi a minha filha - respondeu o pai.
Silêncio.
- Ela estava próxima a nós, com a mão no ventre? - perguntou o médico.
- Não posso afirmar, mas me parece que estava suja de sangue, do mesmo jeito que a vi no dia em que cometeu aquele acto impensado.
- Então, doutor, o papai pode ser um médium vidente? - perguntou Augusto.
- Pode ser.
- Neste caso, está provado que a minha filha ainda vive, conforme a Doutrina Espírita?
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 20, 2016 9:49 am

- Sem dúvida, meu pai.
A diferença é que ela deixou o corpo material no cemitério e continua com o seu corpo espiritual, mas viva e sofrendo muito, pois, como é um espírito imperfeito, ainda não conseguiu se desligar das sensações do seu corpo material.
Ela sente dor, ressentimento, chora porque acha que abortou o filho e não pensa na possibilidade de ter desencarnado, pois ainda se vê viva.
Inclusive, deve ter ficado bastante perturbada ao ouvir o que falamos sobre o estado dela.
A empregada aproximou-se dos homens e pediu licença, deixando sobre a mesa uma bandeja com café, suco, água, biscoitos, copos e xícaras.
Os participantes daquela reunião serviram-se em silêncio.
O médico notou a ansiedade estampada no rosto de Edmundo e comentou:
- Agora, o problema é outro.
- Qual? - de olhos arregalados, Edmundo perguntou imediatamente, pegando no braço do médico.
- Temos que ajudar na recuperação da dona Isabel e depois procurar um meio de conscientizar a Carla de que ela já desencarnou.
O rapaz estava calado, pensativo.
- No que está pensando, meu filho?
Augusto olhou para o doutor Jacinto e perguntou-lhe:
- Qual será a reacção da minha irmã quando ela souber que se suicidou?
- Ela ainda não sabe que se suicidou? - perguntou o pai, surpreso.
- Ela deve ter consciência de que atentou contra a própria vida; todavia, como ainda se encontra viva, é possível que fique bastante perturbada ao se lembrar do ato que a tirou do mundo corporal, sem entender o que está se passando consigo - revelou o médico.
Fizeram uma pausa.
- Quando ela souber que não tem mais um corpo físico, que provocou sua própria destruição, aí sim, o seu sofrimento será inenarrável - arriscou-se a dizer o Dr. Jacinto.
- Meu Deus!
Coitada da minha querida filha! - disse o pai chorando.
- É. Nem o mais talentoso dos escritores conseguiria narrar o terrível sofrimento pelos quais os suicidas passam no mundo espiritual - disse Augusto.
- Nem quem um dia já atentou contra a própria vida, consegue descrever de maneira integral o que passam do outro lado.
O Dr. Jacinto falou de maneira calma, fitando um ponto qualquer na mesa.
- Já li algumas obras mediúnicas, e a que mais se aproximou do sofrimento pelo qual alguém passa quando recorre a esse ato extremo, foi o livro "Memórias de um suicida", da médium e escritora espírita Ivone do Amaral Pereira.
- Estamos esquecendo um detalhe importante - disse Augusto, repentinamente, com a mão na testa.
Minha irmã estava grávida, quando se suicidou.
Edmundo chorou.
Augusto passou as mãos no rosto, enxugando umas lágrimas que desciam involuntariamente.
O Dr. Jacinto pensava:
"Como é difícil vencer as dificuldades de uma existência, principalmente quando estamos afastados de Deus".
- Bem, meus amigos, o meu tempo terminou, pois daqui a pouco tenho de estar na clínica.
Outro dia continuaremos nossas considerações, procurando uma maneira de ajudar a nossa irmã Isabel e sua filha Carla - disse o médico erguendo-se e se encaminhando para a porta de saída.
- Doutor, não se esqueça de telefonar, avisando o dia em que retornaremos a essa conversa, que muito me animou - disse o dono da casa.
- Talvez, da próxima vez, encontraremos mais respostas a respeito desse polémico assunto - comentou Augusto, apertando a mão do Dr. Jacinto.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 20, 2016 9:49 am

Capítulo X - Desespero no além
Carla estava completamente desesperada e fora de si, após ouvir na residência do pai que havia morrido.
O seu estado precário se alternava entre raros minutos de consciência e o restante do tempo de perturbação, sem saber o que fazia e nem onde estava.
Qualquer pessoa normal e sensível, que observasse o estado daquele espírito, não reconheceria nela a bela e inteligente médica, namorada do Dr. Hugo, filho do poderoso empresário Albert.
Após sair da residência do pai e ter ido atrás de Albert, correu, em seguida, sem destino certo, sempre maldizendo tudo e a todos pela sua desdita, até que se deitou num lugar qualquer da cidade, lamentando-se, enquanto tentava suportar sua superlativa dor, falando impropérios em voz alta.
- Não acredito que não estou viva - dizia ela.
Não posso ter morrido, pois ainda sinto essas malditas dores no abdómen e não paro de sangrar, o que me causa essa fraqueza horrível, efeito daqueles medicamentos que ingeri e que de nada me serviram, pois continuo viva e pior do que estava antes.
Ninguém quer conversar comigo e não aparece um amigo para me atender.
Minha própria família não liga para o que aconteceu comigo.
Até meu namorado Hugo deve ter fugido, porque eu nunca mais soube notícias dele.
Enquanto isso, na mansão de Albert, o Dr. Maurício, com um vinco na testa, demonstrando estar bastante preocupado, procurou a esposa do doente e calmamente comentou:
- Dona Iolanda, não tenho mais como ajudar o Dr. Albert.
Pouco a pouco o vejo perdendo a razão, sem que eu possa fazer nada para neutralizar essa doença que o está consumindo.
- O que o senhor aconselha? - perguntou a mulher, aflita.
O médico ficou calado por alguns minutos:
"Por enquanto, não tenho alternativa, a não ser solicitar sua internação", pensou.
- Interná-lo - respondeu o médico vacilante.
- O senhor não acha essa medida muito radical?
- Acho, e por isso lhe recomendo uma clínica de repouso, onde existem bons médicos e enfermeiras treinadas para tratar com discrição e eficiência pessoas que estão mentalmente perturbadas.
Esse tipo de clínica é ideal para o seu marido, que é uma personalidade muito influente e visada em toda a sociedade.
- O senhor quer dizer que tudo será feito no mais absoluto sigilo?
- Exactamente.
Ninguém saberá de detalhes sobre a internação do Dr. Albert, entendeu?
- Acho que entendi.
- E como vou administrar os negócios, principalmente a fábrica?
- Como secretário de confiança do seu marido, o Sr. Edvaldo deve assessorá-la e informá-la de tudo.
- Mas como vou conseguir que ele assine uma procuração para que eu possa administrar os negócios na ausência dele?
- Acho que isso não vai ser problema.
A Justiça pode expedir um mandado de segurança, autorizando-a a assumir o controle dos negócios por um tempo determinado, e que pode ser renovado, com base no parecer de uma comissão médica.
Dois meses se passaram.
Vamos encontrar o poderoso Albert internado numa das melhores clínicas de repouso do país.
Naquela clínica ele estava em segurança e não poderia fugir ou cometer algum acto desesperado contra a sua vida ou contra a das pessoas que o cercavam.
O pai do Dr. Hugo parecia um espectro.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 20, 2016 9:49 am

Caminhava como um autómato, sempre com os olhos fixos em algo invisível, e envelhecera dez anos em pouco mais de alguns meses.
Gesticulava exageradamente e conversava com uma pessoa que somente ele via.
Às vezes se tornava agressivo, o que obrigava os enfermeiros a manietá-lo para evitar graves acidentes.
Iolanda não conseguia deixar de chorar quando o visitava, porque era demais para ela ver naquele trapo humano, o homem que um dia controlou a todos e os negócios da família com competência e, às vezes, também com uma certa truculência, pois não hesitava em tirar do seu caminho aqueles que não o obedeciam por puro orgulho e vaidade.
- Iolanda, mande essa gente me deixar em paz, senão, vou ser obrigado a tomar sérias providências - dizia Albert, quando a mulher o visitava.
- O que você está vendo, querido? - perguntava a esposa, aproveitando para sondar o que realmente o marido sentia.
São pessoas conhecidas?
- Veja - apontou o homem para um lugar.
É essa filha do demónio, que não me deixa sossegar um instante!
Agora, imagine que esta pilantra arranjou amigos semelhantes a ela, que estão ajudando-a a infernizar minha vida.
Iolanda estava apavorada com as alucinações do marido:
"Ele ficou louco de vez!
Acho que não tem mais cura", pensava.
Certo dia, após visitar o marido, ela passou numa livraria, aproximou-se de uma moça e perguntou em voz baixa, como se estivesse envergonhada:
- Moça, por favor.
Você pode me indicar algum livro espírita, para eu tirar umas dúvidas que estão me deixando sem sono?
A atendente olhou para a distinta mulher e perguntou com educação e uma certa meiguice na voz:
- Senhora, posso saber o que está acontecendo?
Assim, posso lhe indicar um livro mais específico para o assunto.
Iolanda pensou e logo chamou a moça para um canto da livraria.
- Eu queria ajudar o meu marido, que está internado numa clínica psiquiátrica - disse-lhe em tom confidencial.
- Entendo.
A moça olhou para Iolanda com os olhos repletos de compaixão e pediu, fazendo um gesto com a mão:
- Um momento, senhora.
Minutos depois ela voltou com um livro na mão e, entregando-o a Iolanda, disse-lhe:
- Esse é o livro adequado para a senhora tirar suas dúvidas.
Iolanda pegou o livro e olhou de esguelha para o público que estava na livraria, como se estivesse com receio de que alguém a reconhecesse e a visse segurando aquele livro.
- "O Livro dos Espíritos"?
- Exactamente, senhora.
Esse é o primeiro livro das obras básicas da Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec.
Acho que a senhora vai encontrar informações preciosas para começar a resolver o caso do seu marido.
Iolanda pagou o livro e foi embora apressada, sempre olhando para trás.
Chegou em casa nervosa e deu ordens para os empregados não a incomodarem em seu escritório particular.
Também pediu que Edvaldo só a procurasse em caso de extrema necessidade.
No dia seguinte, enquanto caminhava impaciente por seu escritório, Iolanda ouviu alguém bater de leve na porta.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 20, 2016 9:49 am

- Entre - disse Iolanda.
Ao entrar na sala, Edvaldo viu que a patroa estava inquieta e bastante preocupada, porém, não fez nenhum comentário a esse respeito, limitando-se a perguntar:
- O que aconteceu, patroa?
- Muita coisa, meu caro Edvaldo.
Se tudo que li neste livro for verdade, acho que o seu patrão vai se recuperar o mais rápido possível - disse ela, estendendo o livro para o secretário.
Edvaldo leu o título do livro e o devolveu para Iolanda.
- Parece que você não ficou interessado no livro, Edvaldo? - perguntou a mulher, estranhando o comportamento do funcionário.
- Não é o que a senhora está pensando.
- Você ficou com medo, porque o livro é espírita?
- Não, senhora.
Eu não poderia ficar com medo, porque sou espírita.
Lembra-se da pergunta que a senhora fez na noite em que o Dr. Albert estava bastante agitado, quando ele quis me despedir porque eu disse que era espírita?
- Agora estou me lembrando...
Ele só não o despediu, porque pedi e fiz com que ele entendesse que você era uma pessoa dedicada e honesta e jamais encontraria um substituto a altura para ser seu secretário de confiança.
- Obrigado, patroa.
- Edvaldo, no primeiro tempo que encontrar livre, à tarde, por favor, venha conversar comigo a respeito dessa Doutrina que você conhece tão bem.
- Combinado, dona Iolanda.
Logo que eu conseguir resolver alguns compromissos e mandar todos os memorandos para a fábrica, falaremos sobre esse assunto.
Mas vou avisando que não sei tanto, como a senhora pensa.
O Espiritismo é uma Doutrina muita vasta em informações sobre todos os aspectos, sejam estes filosóficos, científicos ou religiosos.
- Vá logo, Edvaldo, resolver esses problemas e venha conversar comigo, para tentarmos ajudar seu patrão.
Edvaldo fez uma menção de respeito e retirou-se do escritório da mulher do patrão.
No meio da tarde, Edvaldo estava sentado num confortável sofá no escritório de Iolanda, com as pernas cruzadas e tomando a xícara de café oferecida pela empregada particular da patroa.
Após assinar os documentos que Edvaldo havia levado, Iolanda ergueu o rosto e encarou o rapaz.
Passado alguns segundos, ela resolveu perguntar:
- Então, podemos conversar sobre aquele assunto?
- Estou à sua disposição, patroa.
A mulher ergueu-se e foi se sentar num sofá próximo ao empregado, demonstrando bastante ansiedade.
- Recordo-me que naquele dia em que o Albert quis demiti-lo, você disse-me que era espírita.
- Exacto.
- Eu li "O Livro dos Espíritos" num tempo recorde, todavia, confesso que não entendi todas as respostas das perguntas que são feitas aos espíritos, conforme informações do codificador do Espiritismo.
Edvaldo ouvia a patroa sem interrompê-la, para tentar descobrir aonde ela queria chegar.
- Compreendi perfeitamente que essa Doutrina está calcada em alguns princípios, como a existência de Deus, a imortalidade da alma, a comunicabilidade dos espíritos, a reencarnação, a pluralidade dos mundos e a lei de acção e reacção.
Isso significa que sua religião nos informa, entre outras coisas, que somos imortais e fomos criados simples e ignorantes.
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Ave sem Ninho

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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 20, 2016 9:49 am

O rapaz limitou-se a anuir com um gesto de cabeça, confirmando o que a patroa falava.
Iolanda parecia inquieta, quase que perdendo o controle, pois ela era uma mulher calma e dona de si, principalmente diante dos problemas sérios que geralmente se apresentavam.
Assim que ela se ergueu na intenção de se servir de uma xícara de café, ele fez um sinal com a mão.
- Por favor, senhora, deixe-me servi-la.
Mais calma, a patroa de Edvaldo passou a falar sobre o livro.
- Meu caro Edvaldo, esse assunto é longo, bem o sei, portanto, vou tentar resumi-lo ao máximo.
- A senhora é quem sabe.
Depois da leitura desse livro, cheguei a uma conclusão, embora sem uma confirmação plausível.
- Qual?
- O meu marido não está louco.
- O que a faz ter essa certeza, dona Iolanda?
- Simplesmente, pelo facto da Carla estar tão viva quanto nós, mesmo num mundo muito complicado para ser explicado, principalmente por mim, que ainda não sei quase nada a respeito do Espiritismo.
- E daí, patroa?
- Se a Carla está viva, como afirmam os espíritos no livro de Allan Kardec, então, a loucura de Albert deve-se ao facto de ele realmente ver essa moça em sonhos, ou até mesmo em estado de vigília, através de alguma faculdade que possa ter.
- Vidência é a faculdade de ver os espíritos, segundo Allan Kardec - completou o secretário.
- Exactamente isso - confirmou Iolanda, fazendo um gesto com a mão.
Antes de interná-lo, o Dr. Maurício falou que os exames não acusaram absolutamente nada de anormal no cérebro de meu marido.
Portanto, creio que ele está visivelmente abalado com os fantasmas que vê, acreditando que isso são coisas de sua mente doente.
- E de facto, não são fantasmas.
São apenas pessoas que estão vivendo nesse mundo que a senhora diz ser "muito complicado para ser explicado".
- Acertou. Como o Albert é ateu, orgulhoso, materialista e não acredita absolutamente em nada que ele não domine ou controle, é por isso que está em estado de loucura, pois não consegue explicar o que está acontecendo consigo.
- A senhora quer dizer que ele está vendo a Carla no outro lado da vida, com os seus sofrimentos e dores, e por não acreditar em uma vida após a morte, ele não aceita essa versão, e por esse motivo ficou mentalmente doente?
- Exacto. Ainda bem que você é espírita- disse Iolanda.
A Carla deve estar bastante perturbada e também deve odiá-lo, pois foi ele, de certa forma, quem causou a desgraça que se abateu sobre ela e o meu filho.
- Agora, ele fala que está vendo outras pessoas, porque os chamados bandoleiros do além, que se uniram por afinidade à nossa infeliz irmã, com o objectivo de fazer o mal, também passaram a persegui-lo - completou Edvaldo.
A patroa de Edvaldo ficou pensativa durante alguns minutos, mas logo encarou o empregado e perguntou:
- Você tem ideia de como podemos ajudar esses dois, a Carla e o Albert?
- Tenho.
- Como?
Edvaldo ergueu-se e respondeu, fitando a patroa:
- Por enquanto, vamos estudar com calma uma maneira para ajudá-los.
Depois voltaremos a falar sobre esse assunto.
- Não demore muito, pois pode ser tarde demais.
- Tenha paciência e fé em Deus, patroa.
Encontraremos um meio para ajudar essas criaturas.
- Deus o ouça, meu amigo.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 20, 2016 9:50 am

Capítulo XI - De volta ao passado
Albert continuava internado.
O seu estado de saúde piorava a cada dia que passava, preocupando a esposa e os médicos, que já não tinham mais o que fazer para a recuperação do famoso empresário.
O pai de Hugo também não cessara de brigar com as pessoas invisíveis que teimavam em humilhar e ameaçar de morte.
- Mandei matá-los e não sei como vocês ainda estão vivos! - dizia ele.
Mas desta vez vou acabar definitivamente com a vida de todos esses crápulas que se dizem nobres!
Um desses espíritos doentes e perturbados gritava impropérios contra Albert e chorava de dor e ódio.
Ele teve sua última existência na França do século XVIII, como um nobre da corte e amigo de um certo Duque muito conhecido pelas maldades, traições, truculências e por praticamente ter levado o país ao caos, devido sua forte influência sobre o rei e a Igreja.
O Albert de hoje, fora aquele Duque de ontem, amigo desse espírito que o perturbava.
Esse irmão sofredor que se destacava nos momentos de alucinações do empresário, no passado fora vítima de uma traição que o levou à morte, deixando uma esposa e filhos, além de seus pais doentes.
- Nunca o perdoarei, Duque!
Hei de odiá-lo para sempre e um dia vingar-me-ei de tudo que o senhor me fez! - disse o nobre, poucos minutos antes de sua execução.
- Meu único objectivo é vê-lo sofrer e morrer pedindo clemência - disse o espírito Louis, o então nobre e amigo do Duque - o Albert de hoje.
Enquanto caminhava pelos corredores da clínica de repouso, Albert falava e gesticulava apontando para um ser invisível, inclusive, assustando os outros pacientes internados.
- Nunca pedirei clemência a esse povo sem alma, Louis!
Você não tem sangue azul como o meu!
Sua nobreza vem da minha influência como Duque, pois fui eu que o tornei um cavaleiro do rei!
O pai de Hugo gargalhava, falava, e não parava de passar as mãos nos poucos cabelos brancos que ainda lhes restavam, enquanto caminhava pelo pátio da clínica.
- SOCORRO! - implorava Albert, gesticulando como se estivesse se defendendo do ataque de pessoas invisíveis.
Tirem essa gente imunda de perto de mim!
As enfermeiras corriam para atender o poderoso dono da fábrica de automóveis de luxo, pois tinham medo de que a culpa recaísse sobre elas, e consequentemente fossem despedidas, se algo acontecesse com ele.
O homem era possuidor de um dos maiores impérios económicos do país, e por isso, tinha tratamento diferenciado dos outros pobres mortais.
- Calma, Dr. Albert.
Não vai acontecer nada com o senhor.
- Bando de médicos e enfermeiras incompetentes! - queixava-se o doente.
Vou comprar essa pocilga que vocês chamam de clínica e mandar queimá-la com todo mundo dentro!
Os outros doentes faziam o sinal da cruz, quando passavam correndo por Albert, e as enfermeiras choravam de tanta humilhação.
Já os médicos, estes fingiam que não ouviam o que o Albert falava, porque para eles, o paciente era apenas mais um esquizofrénico, um maluco.
Cinco dias após a última conversa que Iolanda tivera com o secretário Edvaldo, eles voltaram a se encontrar no mesmo lugar - no escritório da esposa do magnata dos veículos de luxo.
Ambos estavam em silêncio.
- Não consigo ter um pouco de optimismo quanto à recuperação do Albert, nem mesmo com as explicações que tenho encontrado na Doutrina Espírita - rompeu o silêncio a elegante esposa do doente.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 20, 2016 9:50 am

Confesso que antes eu tinha alguma esperança em vê-lo curado, porém, passados todos esses dias, vejo-o cada vez pior.
Edvaldo mantinha-se em silêncio, observando e prestando atenção à dor reflectida nas feições da bela mulher, que tentava extravasá-la através daquele diálogo, que mais parecia uma confissão.
A esposa de Albert narrava o que havia acontecido nos últimos dias, inclusive, o surgimento dessas novas personagens invisíveis, que segundo Albert, o ameaçavam de morte.
- Como você explica esse mistério, Edvaldo?
O rapaz pensou antes de responder:
- Estive conversando com um amigo, que tem muita experiência com esses fenómenos extra-físicos.
Iolanda mantinha-se calada, com receio de atrapalhar Edvaldo.
Ele ergueu-se e começou a caminhar, deixando Iolanda ansiosa e quase irritada com o silêncio do funcionário, principalmente com aquele vai-e-vem pelo seu escritório.
- Homem de Deus, por favor!
Fale alguma coisa, antes que eu sofra um colapso nervoso!
- O Dr. Albert está sendo perseguido e influenciado pelos espíritos que se tornaram seus inimigos no passado - disse o rapaz, sentando-se e cruzando as pernas.
Talvez seu esposo tenha cometido actos não condizentes com os ensinamentos do nosso Mestre Jesus, em um passado recente ou até mesmo remoto.
- Que passado é esse, Edvaldo?
- Refiro-me a outras existências, outras reencarnações.
A mulher levantou-se e pôs as mãos sobre a escrivaninha, sem saber o que falar.
- Por favor, explique-me melhor esse assunto.
- Essas criaturas do mundo espiritual estão ameaçando-o e cobrando-lhe uma dívida passada, o que provoca no Dr. Albert um grande desequilíbrio entre seu espírito, perispírito e corpo material.
Se não tomarmos providências urgentes, o quadro clínico dele será praticamente irreversível.
O rapaz respirou profundamente e continuou:
- Os novos factos que a senhora terminou de narrar provam que essas criaturas pertencem a um passado remoto, e tudo indica que eles realmente conhecem o Dr. Albert, pois segundo suas informações, esse Louis se refere ao seu marido como "Duque", e o Dr. Albert, por sua vez, fala em nobreza, quando se refere a esse espírito.
Além de Louis, talvez, em séculos passados, seu marido tenha feito vários outros inimigos, que também estão actuando e contribuindo para o desequilíbrio dele.
- Você quer dizer que além de Carla, outros espíritos que também foram prejudicados pelo Albert estão influenciando-o e agravando o quadro de demência dele, o que se caracteriza como "obsessão"?
- Exactamente, patroa.
- O que você realmente entende por "obsessão"?
O rapaz pensou e meteu a mão no bolso, tirando um papel com algo escrito.
- Há várias definições.
A definição mais completa e simples para mim é que está em "A Génese", uma das obras básicas da Doutrina Espírita, na qual Allan Kardec nos informa, no número quarenta e cinco, do capítulo décimo quarto:
"(...) A obsessão é quase sempre um facto de vingança exercida por um espírito, e que mais frequentemente tem sua origem nas relações que o obsedado teve com ele, em uma existência precedente. (...)".
- Então, esses espíritos são maus, até mesmo a Carla? - perguntou a mulher do obsedado.
- Sim - ele respondeu.
Todos que vivem neste mundo de expiações e de provas, com raríssimas excepções, ainda têm defeitos inerentes aos espíritos atrasados.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 20, 2016 9:50 am

O secretário fez uma pausa, fazendo sinal com a mão, como se não tivesse terminado seu raciocínio, e depois continuou:
- Portanto, não tenha dúvida quanto a real possibilidade de nos tornarmos um espírito mau, porque tudo depende da causa que nos levou a sermos vingativos.
- Então, conforme suas explicações, qualquer um de nós pode se tornar mau de um momento para outro, dependendo do motivo que venha a alimentar esses defeitos inerentes à humanidade dos mundos inferiores e que podem estar apenas adormecidos?
- A senhora disse muito bem:
"... defeitos inerentes à humanidade dos mundos inferiores e que podem estar apenas adormecidos".
- Todos habitantes dos mundos inferiores têm esses defeitos?
- Nem todos.
Levemos em consideração que o progresso espiritual dos espíritos, assim como o intelectual, não se dá na mesma proporção.
- Explique melhor, meu amigo Edvaldo.
O rapaz passou a mão na cabeça, como se procurasse as palavras certas para se fazer compreender.
- Vou tentar explicar através de exemplo: quando uma pessoa não pensar mais em roubar, ela não tem mais esse defeito - baniu para sempre a vontade de cometer esse tipo de delito -, consequentemente, por mais que viva em situação de penúria, faltando-lhe o suficiente para sobreviver, ela não roubará mais, pois já venceu essa tentação.
- Entendo. Significa que se ainda tenho adormecido o instinto de vingança, a qualquer momento, conforme a situação, posso me tornar vingativa, e com isso, um espírito mau?
- Acertou em cheio, patroa.
Mas também podemos aprender a dominar nossas más tendências, conforme as informações de Allan Kardec contidas em "O Evangelho Segundo o Espiritismo":
"Reconhece-se o verdadeiro espírita, pela sua transformação moral e pelos esforços que faz para dominar suas más inclinações".
- Trocando em miúdos, Allan Kardec quer nos dizer que, embora um espírito tenha determinadas imperfeições, ele pode dominá-las e evitar se transformar em um mau espírito nos momentos difíceis de sua existência.
- Exactamente.
- Agora entendo perfeitamente o que está acontecendo com o Albert e com a Carla, que sempre me pareceu ser uma moça muito boa de coração.
Cabisbaixa, a mulher falou para si:
- Realmente, é muito difícil para qualquer um, aguentar a humilhação pela qual a Carla passou, quando ouviu de Albert "sabe Deus o quê", e não guardar qualquer sentimento de mágoa ou até mesmo ódio.
- Dona Iolanda, isso é o que temos conhecimento até agora.
- É verdade. Talvez ele tenha cometido mais males a outras pessoas inocentes, tanto em um passado recente quanto em um distante.
O rapaz se ergueu, demonstrando que já estava de saída, mas antes, Iolanda pediu-lhe:
- Por favor, Edvaldo, sente-se um momento.
O rapaz se sentou e esperou pacientemente.
- Edvaldo, quer dizer que o Albert não tem mais jeito?
- Patroa, eu não disse isso em momento algum.
Deus é infinitamente misericordioso e bom.
Jesus disse um dia:
"Nenhuma das ovelhas que o Meu Pai Me confiou se perderá".
Portanto, patroa, lutaremos muito para ajudar o Dr. Albert.
Iolanda começou a chorar, pensando na tortura pela qual o marido estava passando.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 20, 2016 9:50 am

Emocionado, Edvaldo se aproximou da patroa e colocou a mão em sua cabeça, começando a orar.
Iolanda se acalmou.
- Edvaldo, eu estou com uma dúvida.
- Qual?
- Se o Albert é um espírito tão mau, então, por que eleja reencarnou, enquanto esse espírito Louis permanece do lado de lá, ainda envolvido em seus pensamentos vingativos?
- Porque apesar de o Dr. Albert ser um espírito devedor e considerado maléfico pela nossa ignorância, acredito que tenha feito algo relevante para aqueles que lhes enviam orações e agradecem pelo bem que receberam dele um dia.
- Você acredita que ele pode ter feito o bem a alguém, mesmo sem perceber?
- Sim. O exemplo disso é a fábrica que ele administra.
Ela mantém milhares de pessoas que não se esquecem de incluí-lo em suas orações, apesar da fama de orgulhoso, prepotente, egoísta, truculento e outros defeitos imputados a ele.
- Apesar das maldades que ele faz?
- Sim. Sou secretário do Dr. Albert e nunca o vi deixar de cumprir suas obrigações para com os seus funcionários.
Isto conta muito em seu currículo espiritual, pois seus empregados não sofrem as consequências de um patrão "bonzinho", que não perde a oportunidade de explorar o pobre, principalmente no pagamento de serviços prestados.
- Ah! Agora entendo porque ele já teve outras oportunidades de reencarnar e esse irmão Louis ainda não possui condição para ter uma nova existência.
A mulher ficou calada, como se estivesse fazendo uma oração.
Em respeito à patroa, Edvaldo se manteve em silêncio.
- Não consigo entender porque ele continua tão orgulhoso e ainda maltrata as pessoas, se ao receber permissão para reencarnar e ter feito seu programa de vida, pediu para ter uma existência rica, como o poderoso dono de um vasto património - disse Iolanda, rompendo o silêncio.
- Patroa, o objectivo fundamental da reencarnação é progredir na matéria, tanto intelectualmente como moralmente, com a finalidade de banir para sempre os defeitos sobre os quais falamos, e gradativamente conseguirmos pôr em prática os ensinamentos que o Mestre Jesus nos ensinou.
O rapaz fitou Iolanda e disse-lhe:
- É difícil vencer a matéria e, principalmente, os defeitos que nos acompanham desde que fomos espíritos primitivos.
- Então, por que ele não pediu uma existência de penúria e sofrimento para resgatar as dívidas do passado e aprender a ser humilde?
- Quantas vezes ele já deve ter reencarnado nessa situação que a senhora citou?
Não sabemos, mas talvez por isso tenha pedido para vir rico nessa, para lutar e conseguir vencer essa prova difícil, que é a riqueza.
- É, mas falhou - completou a mulher do magnata, demonstrando uma certa irritação.
Agora vai sofrer novamente até aprender a curvar-se e a crer em Deus, pois ele não acredita em nada, a não ser nele mesmo.
Silêncio.
- Por enquanto, o que podemos fazer por ele, meu caro amigo?
- Preces. Vamos tentar ajudá-lo, através do Espiritismo.
- Como faço para chegar até esse centro espírita que você frequenta?
Edvaldo passou um papel para Iolanda, com a programação do centro que frequentava.
A mulher olhou o papel e ergueu-se, estendendo a mão ao funcionário.
- Vou começar a frequentar as reuniões espíritas.
Talvez possamos ajudá-lo - disse Iolanda resolvida.
Despediram-se e Edvaldo deixou o escritório da patroa.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 20, 2016 9:51 am

Capítulo XII - Hugo sonha com Carla
O Dr. Hugo acordava e levantava-se cedo, quase de madrugada.
Acompanhava o irmão de Viviane à roça e o ajudava a arar o solo até o Sol nascer espalhando seus raios, iluminando o mundo, inclusive aquele bendito pedaço de terra.
Após o Sol aparecer por completo no horizonte, avisando a chegada de um novo dia, ele voltava para casa, trocava de roupa, tomava café e, pontualmente às oito horas, já se encontrava em seu pequeno consultório no posto de saúde, atendendo seus pacientes com satisfação.
Também sempre agradecia com um leve sorriso e cumprimentos as sinceras manifestações de carinho do povo simples que habitava aquela pequena e aconchegante cidade do interior.
Certo dia, ao chegar no seu pequeno consultório, não se sentiu bem, pois não havia conseguido dormir direito.
Passou toda a noite tendo pesadelos horríveis, que atrapalharam o seu sono.
Uma senhora que o ajudava no posto, trabalhando como enfermeira, comentou ao ver as olheiras no médico:
- Parece que o senhor não dormiu direito ontem à noite, doutor.
- É verdade, Verónica.
Tive um pesadelo horrível e não consegui mais pregar os olhos, até a hora em que acordei e fui ajudar o Jacó na roça.
A enfermeira, uma dessas mulheres da roça que conhecia a vida através de suas próprias experiências, encarou meio desconfiada o médico e perguntou inocentemente:
- O senhor está namorando, doutor?
- Não. Acho que não terei mais ninguém para dividir minha vida, querida amiga.
- É uma pena ver um homem como o senhor, na flor da idade, médico e de boa aparência, já tão desiludido com a vida - disse a mulher, com a voz triste.
Vou fazer um café forte, para ajudá-lo a espantar o sono.
- Não se preocupe comigo.
Mas como sei que você não vai desistir, pode fazer o café e só me resta agradecer o favor.
- Não precisa agradecer, doutor.
É minha obrigação cuidar do nosso médico.
O Dr. Hugo sorriu e começou a atender um senhor que estava queixando-se de dores e febre.
À noite, Hugo refugiou-se no alpendre, aproveitando para pensar na vida, quando notou que Viviane aproximava-se lentamente, como se não quisesse incomodá-lo.
- Posso ajudá-lo em alguma coisa ou estou incomodando?
- Não. Está tudo bem comigo e você nunca me incomoda.
- Sei disso.
Mas ontem, sem querer, vi que você passou a noite em claro.
- As mulheres prestam atenção em tudo! - brincou Hugo, rindo à vontade.
Você tem razão; ontem à noite não consegui dormir mesmo.
Tive um pesadelo que me deixou impressionado e me fez perder o sono.
A mulher ficou calada.
Pediu licença, puxou uma cadeira e sentou-se próximo ao médico.
- Você pode me contar esse pesadelo, doutor? - perguntou Viviane educadamente, com sua maneira graciosa que desarmava o médico.
- Está bem.
Vou contar-lhe o tal pesadelo.
O rapaz passou as duas mãos nos cabelos louros e rebeldes, afastando-os do rosto, enquanto fitava um ponto distante na noite estrelada.
Pensou e começou a falar pausadamente e vacilante:
- Sonhei que a Carla chorava desesperada e me pedia ajuda, pois segundo a mesma, ela não conseguia encontrar o nosso filho.
Ela também maldizia a todo instante o meu pai, dizendo que não descansaria enquanto não o levasse à loucura e à morte, sempre o culpando por tudo que acontecera connosco.
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