Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 21, 2016 9:54 am

O médico tirou o lenço do bolso e enxugou os olhos, sentindo que as lágrimas teimavam em descer pelo seu rosto, e prosseguiu:
- Ela estava suja de sangue, tinha os cabelos desgrenhados e as mãos encrespadas, como se segurasse algo junto ao abdómen.
Ora chorava, ora gritava e outras vezes, ria.
Parecia que havia enlouquecido.
Hugo baixou a cabeça e ficou quieto por um tempo, olhando para o piso da varanda.
Logo depois recomeçou a falar, desta vez sem olhar para Viviane, que naquele momento não sabia o que fazer para ajudar aquela alma atormentada.
- Não sei mais o que fazer da minha vida e ajudar a única mulher que amei nesta vida, principalmente sabendo que a mesma está sofrendo muito do lado de lá.
E finalizou abatido:
- Por isso, não consegui mais dormir.
Fiquei pensando no sofrimento pelo qual ela está passando, principalmente porque pensa que o nosso filho nasceu e desapareceu.
A bela Viviane levantou-se e encostou a cabeça do rapaz em sua cintura, tentando ajudá-lo, acariciando seus cabelos em silêncio e dando-lhe o que podia naquele momento:
sua ternura e compreensão.
Hugo acalmou-se um pouco.
Viviane foi até a cozinha e trouxe uma xícara de café bem forte e um copo de suco de maracujá.
- Beba esse suco, que é bom para acalmar os nervos - disse a mulher ao rapaz, com carinho e atenção.
Após tomar o suco, Hugo ouviu Viviane dizer-lhe, como se ordenasse um comando:
- Agora, tome esse café bem forte para se animar.
Houve uma pausa entre eles, enquanto o médico se refazia.
- Desculpe-me, Viviane.
- Não sei pelo que você está se desculpando, Hugo.
- Da minha fraqueza.
- Você não é um fraco, e sim, um herói.
Mesmo depois de tudo o que aconteceu, você continua trabalhando, sempre servindo ao seu próximo, ao invés de cair em um vício qualquer ou de se entregar ao desânimo - disse Viviane com carinho, porém, firme.
O povo desta cidade o tem como um verdadeiro pai, e isso é o suficiente para que você continue lutando para esquecer essa terrível situação que se abateu sobre vocês.
- Estou com medo de que tenha acontecido algo com os meus pais, principalmente com o meu pai, pois não deixei de amá-lo mesmo depois do que ele me fez.
Não sei explicar, mas não consigo esquecê-lo ou condená-lo.
Não gosto nem de pensar que ele foi capaz de fazer isso comigo.
- Isso é um bom sinal, doutor.
Hugo fitou a bela moça e perguntou:
- Por quê?
- Ora, se, depois de tudo o que o seu pai fez, chegando até a causar uma tragédia na família, você ainda fala nele com carinho e cuidado, é porque nunca o condenou - respondeu a mulher.
Significa que o Dr. Hugo tem um bom coração, incapaz de guardar ressentimento ou de odiar alguém, principalmente quando se trata do próprio pai.
- Mas não consigo esquecer o que ele nos fez, principalmente por ter deixado a Carla nessa situação.
- Você fala como se sua noiva não tivesse morrido.
O rapaz pensou e falou, com receio de ser mal compreendido pela amiga:
- A Carla está viva.
Não acredito na morte.
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Ave sem Ninho

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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 21, 2016 9:54 am

A dona da casa ficou pensativa por um momento, mas logo fitou o rapaz e passou a mão nos cabelos, perguntando em seguida, como se não estivesse interessada no assunto:
- Você acredita nessas "coisas"?
O médico sorriu e respondeu com outra pergunta:
- A que "coisas" você está se referindo?
"É tão difícil conversar com pessoas inteligentes e vividas, principalmente quando se trata de um médico estudioso como o Hugo", pensou Viviane.
- Ora, essas coisas que fazem parte do folclore do povo, de quem acredita em almas do outro mundo.
- Mesmo sendo médico, sim, acredito que existe algo além desta vida.
- O quê?
- Vida - respondeu o rapaz, com firmeza.
Como era uma mulher inteligente, Viviane não contestou o médico, todavia, ficou pensativa, com a mão no queixo.
O médico ergueu-se, pediu licença e foi até seu quarto, trazendo um livro ao voltar.
Assim que se acomodou novamente, ele estendeu para a amiga o livro que trazia nas mãos e disse-lhe:
- Quando a Carla morreu, fiquei tão confuso, que até achei certo a atitude que ela tomou.
Enquanto ele falava, a moça lia o título do livro.
- Antes de viajar para essa cidade que me acolheu, passei numa livraria e comprei este livro, por indicação de Augusto, irmão de Carla.
O médico apontou o livro que estava na mão da amiga e perguntou:
- Conhece este livro?
- Não.
- Pois foi este pequeno livro, que leio desde que cheguei nesta cidade, que esclareceu algumas dúvidas que eu carregava comigo.
- Como podemos acreditar que existe uma vida após a morte? - perguntou Viviane.
- A morte não existe, porque somos imortais - afirmou o médico.
Enquanto folheava o livro, Viviane tentava compreender o que queria dizer as palavras escritas na capa daquela obra:
"Nosso lar.
Autor espiritual, André Luiz.
Psicografado pelo médium espírita Francisco Cândido Xavier".
- Você pode me emprestar este livro?
- Sim. Contanto que depois possamos conversar a respeito desse polémico assunto.
- Prometo que vou ler este livro mais rápido do que você pensa.
- Espero.
A anfitriã ergueu-se, beijou a face do rapaz, pediu licença e entrou em casa, deixando o médico entregue aos seus pensamentos.
Assim que a mulher se retirou, instintivamente o rapaz passou a mão no rosto, demorando-se no lugar onde havia recebido o beijo da linda Viviane.
No dia seguinte, enquanto tomava o café da manhã, Hugo notou o quanto Viviane estava calada.
- O que aconteceu? - perguntou o rapaz, após tomar uma xícara de café.
- Nada. Estou bem.
- Parece que você está preocupada com alguma coisa.
- Talvez seja sono.
Passei a noite inteira lendo o "Nosso Lar" e já estou quase terminando.
Hugo ficou em silêncio.
E assim prosseguiu no seu vai-e-vem para servir o café da manhã a todos, com o auxílio da moça que a ajudava.
Hugo se levantou sorrindo e disse:
- Pessoal, vou trabalhar.
Já estou atrasado.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 21, 2016 9:54 am

Viviane acompanhou o médico até a saída e disse-lhe:
- Agora, entendo porque você acredita que não existe morte.
- Porquê?
- Estou quase chegando à mesma conclusão.
Aliás, talvez eu já soubesse algo a esse respeito, só não queria acreditar.
Hugo riu e foi para o posto de saúde.
À noite, após o jantar, Hugo procurou o seu canto no alpendre, onde reflectia sobre a vida, e sentou-se pensando:
"Preciso fazer alguma coisa pela Carla.
Ela deve estar sofrendo bastante.
Mas o que posso fazer?"
- Posso sentar para conversarmos a respeito do livro?
- Fique à vontade, Viviane - assentiu o rapaz.
Já terminou de ler o livro?
- Por isso, estou aqui.
Demonstrando surpresa, Hugo fitou a mulher e achou-a mais bonita, principalmente pelo sorriso que trazia constantemente estampado no rosto.
- Estou com algumas dúvidas a respeito desse livro, Dr. Hugo.
- Não me faça perguntas, porque não estou em condições de respondê-las.
Conheço esse assunto tanto quanto você.
- Você não conhece outros livros dessa Doutrina?
- Não.
- Por que não adquiriu outros livros?
O rapaz pensou e respondeu:
- Medo.
- Medo de quê?
- Dessa Doutrina me mostrar que estou sendo um covarde.
Que estou evitando a realidade e não estou ajudando meus pais e a Carla, que está tão viva quanto nós.
- Ainda está em tempo, doutor.
- Você acha?
- Claro. Procure um motorista que vá para a cidade e peça-lhe para comprar alguns livros dessa Doutrina.
- E como vou saber quais livros devo encomendar?
- Telefone para o seu amigo.
Talvez ele mesmo possa enviar os livros que você precisa.
- É verdade.
Mas há um problema.
- Qual?
- Vão descobrir onde estou morando.
A mulher encarou Hugo, colocou a mão sobre a perna dele e disse-lhe:
- Acho que já está na hora de se libertar desse medo.
Enfrente a realidade e viva, pois somente assim, você conseguirá esquecer o passado e, quem sabe, reconstruir sua vida.
- Agora, minha vida é esta.
- Não é.
Deixe de se enganar, homem de Deus!
Você é um médico rico, famoso e dono de uma clínica.
- Mas eu perdi o que mais me importava nessa vida.
- Concordo.
Mas será que a Carla pensa assim? - perguntou a mulher.
Principalmente, se você tem certeza de que ela está viva.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 21, 2016 9:54 am

E finalizou categoricamente:
- Eu gostaria que você me trouxesse mais informações a respeito dessa Doutrina que já aprendi a gostar, e depois, parta para a casa de seus pais para ajudá-los, pois tudo indica que eles estão sofrendo.
- Você venceu.
Amanhã mesmo ligarei para o Augusto, pedindo mais informações sobre os livros que devo adquirir, para conhecer melhor essa religião.
Viviane encarou o rapaz de maneira misteriosa e sorriu, mostrando os dentes brancos e perfeitos que embelezavam sua face.
Depois se levantou e beijou a testa de Hugo, entrando em casa.
"Vou telefonar amanhã cedo para Augusto", pensou o rapaz, enquanto novamente passava a mão onde a moça o havia beijado.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 21, 2016 9:54 am

Capítulo XIII - Hugo e Viviane
No dia seguinte, Viviane foi levar o almoço do Dr. Hugo e o encontrou triste e pensativo:
"Não estou gostando do aspecto dele", pensou ela.
Hugo atendia um rapaz doente.
Ele olhou de viés para Viviane e manteve-se em silêncio, sem ao menos cumprimentá-la.
A viúva estranhou a atitude do amigo, porém, não deu muita importância ao facto, por saber que ele estava atravessando um momento bastante difícil em sua vida, principalmente após o sonho que tivera com sua falecida noiva.
Dirigiu-se para a sala privativa do médico e esperou que ele terminasse de atender o pessoal da manhã e se preparasse para almoçar.
Após alguns minutos, o rapaz entrou na sala e foi directo ao banheiro.
Depois retornou e sentou-se cabisbaixo, sem falar nada.
Viviane ficou alarmada quando viu as lágrimas que escorriam pela face do médico.
- O que houve, Hugo?
Por que você está chorando? - apressou-se em perguntar a mulher, bastante preocupada.
O médico enxugou os olhos e disse-lhe, depois de alguns segundos, já refeito:
- Telefonei para o Augusto.
- Pediu os livros?
- Sim. Ele vai despachá-los ainda hoje, e devem chegar por aqui, no máximo, depois de amanhã.
Vou pedir para o Gordo ficar de plantão no correio.
- Posso colocar seu almoço, antes que esfrie?
- Hoje, não quero almoçar.
- O que você soube de tão ruim por seu amigo? - perguntou a mulher, preocupada com o médico.
- Como você sabe que ele me deu alguma notícia mim?
- Você ficou triste e até chorou após esse telefonema, Hugo.
O rapaz levantou-se, tomou um copo de suco e disse:
- Vou atender o pessoal.
À noite, conversaremos.
A mulher também se ergueu e foi embora visivelmente preocupada, pois sabia que o médico soubera de algo muito grave através do amigo.
À noite, o rapaz sentou-se em seu lugar preferido.
Viviane aproximou-se com receio de incomodá-lo e perguntou se podia se sentar.
- Sente-se, por favor.
Fique à vontade.
Ambos ficaram um momento em silêncio.
Hugo ergueu-se por um instante e começou a caminhar pela varanda.
Encostou-se no parapeito do alpendre e ficou observando o céu estrelado, como se estivesse fazendo uma oração.
A moça não fez perguntas, pois sabia que o rapaz estava inquieto e que algo o atormentava.
O médico sentou-se, cruzou as pernas e fitou um ponto qualquer na parede.
Logo abaixou a cabeça e disse, meio vacilante:
- O meu pai está internado numa clínica de repouso.
- Ele está doente?
- Sim.
- Não se preocupe.
Logo ele vai ficar bom.
- Você não entendeu, Viviane.
- Entendi, sim.
Seu pai está doente e foi internado num hospital.
- Sabe o que chamamos de "clínica de repouso"?
- Não.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 21, 2016 9:55 am

- Manicómio, um hospital para alienados mentais - disse o rapaz, tentando imprimir seriedade em suas palavras.
Viviane, o meu pai está louco!
A mulher levou um susto.
Instintivamente colocou a mão no peito e exclamou:
- Meu Deus!
Silêncio.
- Edmundo, o pai de Carla, está quase na miséria e virou um alcoólatra após a morte da filha - continuou o médico.
- Meu Deus! - exclamou novamente a mulher.
Silêncio.
- A dona Isabel enlouqueceu e também está internada - completou o rapaz, levantando-se e caminhando inquieto.
Viviane também se ergueu e, sem saber o que dizer naquele momento crucial da vida do médico, se aproximou e segurou-lhe o braço com carinho, enquanto com palavras tentava emitir-lhe força.
- Hugo, juro por Deus, como sinto uma dor enorme no peito ao vê-lo sofrer assim - disse ela, com lágrimas nos olhos.
Se eu puder fazer algo por você, por favor, conte comigo.
O rapaz olhou com carinho para aquela mulher humilde e forte o suficiente para enfrentar as dificuldades de uma vida cheia de sacrifícios, principalmente após a morte do marido.
- Obrigado - agradeceu o médico, sentindo um certo alívio no coração oprimido pela dor.
- O que você pensa em fazer?
O rapaz pensou, passou a mão no rosto, tentando melhorar seu aspecto, e respondeu-lhe, olhando para a amiga:
- Por enquanto, nada.
O certo seria partir imediatamente para junto dos meus pais, para tentar fazer algo por eles; todavia, neste momento não estou em condições de presenciar tanta desgraça.
Preciso pensar e depois tomarei uma decisão.
- Agora, o seu amigo sabe onde você está?
- Não. A não ser que ele descubra de onde eu telefonei.
- Isso é fácil para ele descobrir, se você tiver ligado para um telefone residencial.
- Foi o que eu fiz.
Liguei para a residência do Augusto.
Ambos sentaram-se novamente.
- Hugo, como médico, você acha que existe uma cura para o seu pai?
- Tenho cá, minhas dúvidas.
O Augusto falou que a dona Isabel foi internada primeiro, depois foi a vez do meu pai.
- Como os médicos chegaram à conclusão que ambos precisavam ser internados?
- O médico estava pensativo, com a mão no queixo, ao ser surpreendido pela pergunta de Viviane.
- É isso que me deixa preocupado.
Os dois foram internados com os mesmos sintomas, à excepção de papai, que tem um quadro clínico mais grave.
A viúva ficou calada, com vergonha de fazer alguma pergunta indiscreta.
Ela deixou o rapaz à vontade, para que falasse quando quisesse.
- O papai e a dona Isabel foram internados, porque o estado deles se agravou e, segundo o Augusto, foi necessário que eles se submetessem a uma minuciosa observação médica - disse Hugo.
Todos os dias, ambos viam a Carla em sonho, e essa situação se tornou insustentável quando também passaram a vê-la em vigília, nas chamadas alucinações.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 21, 2016 9:55 am

Interessadíssima no assunto, Viviane aproximou mais sua cadeira do médico.
- O Augusto falou que sempre eles viam a Carla chorando, gritando ou rindo, com a mão no ventre sujo de sangue.
- Mas esse quadro é idêntico ao que você viu no sonho.
- Exactamente.
E é isso que me deixa bastante preocupado.
- No que você está pensando, doutor?
Hugo olhou a mulher de soslaio e respondeu meio sem jeito:
- Minha querida amiga, eu sou um médico com doutorado e várias especializações no exterior.
- Aonde você quer chegar?
- Não posso crer em algo que seja contra tudo o que estudei e pesquisei.
Sou um médico por vocação, porque acredito na ciência - respondeu o rapaz, deixando algo nas entrelinhas.
Fui contra a vontade do meu pai ao estudar Medicina, ao invés de me formar em outra área com a finalidade de assumir os negócios da família.
"Está acontecendo alguma coisa no interior desse rapaz que não consigo entender", pensou a dona da casa.
- Acho que dentro de dois dias receberei os livros que o Augusto possivelmente já enviou - disse o médico, como se estivesse pensando alto.
Assim que esses livros chegarem vou tirar minhas dúvidas, e só então terei condições de resolver esse conflito que vai dentro de mim.
Demonstrando cansaço, Hugo se ergueu e convidou Viviane para entrarem.
Viviane era uma mulher simples, de cidade pequena do interior, mas bastante inteligente, pois tivera oportunidade de estudar na cidade grande, chegando, inclusive, a entrar numa faculdade, da qual foi obrigada a desistir para cuidar do progenitor doente.
O pai era um dos homens mais influentes e de maior poder económico daquela cidade, porém, com a sua morte, metade do seu património foi gasto com a sua doença e uma parte foi vendida para pagar as dívidas.
Restou apenas aquela casa, alguns hectares de terra - que eram cultivados por ela e o irmão - e um pequeno comércio, que sustentava sua família.
- Hugo, eu estou com vergonha de lhe fazer uma pergunta.
O rapaz, que já estava se encaminhando para dentro da casa, parou e perguntou, encarando a mulher:
- Essa pergunta é tão desagradável assim?
- De certa forma, sim.
- Por quê?
- Porque acho que é muito íntima.
O rapaz encostou-se na parede da casa e disse para a simpática criatura que Deus colocou em seu caminho:
- Faça a tal pergunta.
Acho que você tem esse direito.
E depois, entre nós não há segredos.
A mulher ergueu-se, colocou as mãos na cintura num gesto gracioso, e perguntou:
- Em relação à doença do seu pai e da sua quase sogra, o que está deixando-o em conflito com a ciência?
O rapaz sorriu meio encabulado, sentou-se novamente e ficou pensativo.
A mulher também voltou a sentar-se no mesmo lugar e olhou para o rapaz como se estivesse querendo descobrir algo.
- O Augusto disse-me que o pai dele e o Dr. Jacinto estão empenhados em estudar a Doutrina Espírita, com a finalidade de achar uma cura para a Dona Isabel.
- A Doutrina ao qual o livro "Nosso Lar" pertence?
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 21, 2016 9:55 am

- Exactamente.
- E o que tudo isso tem a ver com o seu conflito interior?
- Minha querida Viviane, você sabe quem é o Dr. Jacinto?
Quem é o homem que está estudando essa Doutrina juntamente com o Augusto e o Edmundo?
- Não sei mesmo.
- Ele é um dos melhores psiquiatras da minha cidade e a dona Isabel é paciente dele.
- Começo a entender sua preocupação.
- Sabe qual é a profissão do irmão da Carla?
- Não.
- Ele é dentista.
- O que você quer me mostrar, é que o irmão da Carla também é um homem da ciência?
- Acertou, querida.
- O seu conflito está entre a religião e a ciência, não é?
Ou seja, entre a fé e o conhecimento racional acerca da doença de seu pai e de dona Isabel.
- Agora você conseguiu entender a minha real preocupação.
Não posso acreditar que um psiquiatra recorra a métodos utópicos para a cura de uma pessoa que perdeu a razão.
Viviane colocou a mão no queixo e ficou pensando, como se estivesse duvidando do que ouvia.
Hugo se ergueu, em companhia da amiga, e ambos se encaminharam para a entrada da casa.
- Quer tomar alguma coisa antes de dormir? - perguntou a dona da casa.
Hoje, você quase não se alimentou.
- Aceito um copo de suco de maracujá, para relaxar e tentar dormir.
Enquanto você o prepara, vou tomar um banho e me trocar.
Após alguns minutos, a mulher caminhou em direcção ao quarto do médico, levando numa bandeja um copo de suco e outro de leite.
Bateu de leve na porta e o médico apareceu sorrindo e, ao ver aquela bandeja, disse:
- Isso é muito.
Mas pode deixar. Obrigado.
- Boa noite, doutor.
- Boa noite.
- Não se esqueça de que você foi o primeiro a dizer que estava convicto de que a morte não existe, por ocasião do sonho que teve com a Carla.
O médico ficou sério e perguntou, encarando a mulher que continuava em pé junto à porta do quarto:
- Você quer me dizer algo?
Sem responder a pergunta do médico, a mulher retirou-se, caminhando com passos rápidos em direcção à cozinha.
O médico fechou a porta do quarto e, com o cenho franzido, sentou-se na cama, falando consigo:
- O que será que essa criatura quis me dizer?
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 21, 2016 9:55 am

Capítulo XIV - O Espiritismo
Certa noite, por volta das dezanove horas, uma senhora elegante, bonita e distinta, encontrava-se sentada ao lado de um rapaz bem vestido e também elegante, num grande salão, parecido com um auditório, com capacidade para receber aproximadamente cem pessoas sentadas.
O salão era simples, mas muito asseado e confortável.
Nas paredes estavam distribuídas umas pequenas caixas de som, que espalhavam pelo recinto uma música suave e clássica, talvez com o objectivo de acalmar as pessoas que aos poucos iam chegando e lotando o ambiente.
- Este é o centro espírita que você frequenta? - perguntou Iolanda.
- Sim - respondeu Edvaldo.
Está perto de começar a reunião pública.
- Esse lugar é aconchegante e passa uma paz muito grande - disse a mulher de Albert, realmente impressionada com aquele ambiente, até então, desconhecido para ela.
"Eu pensei que um centro espírita era diferente do que estou vendo", pensou a mulher, com receio de que alguém ouvisse seus pensamentos.
Iolanda não perdia nenhum movimento e acompanhou bastante interessada a palestra da noite, que fora discorrida e se intitulava "Reconcilia-te com o teu adversário, enquanto estás a caminho com ele".
Após o encerramento da palestra, Edvaldo ergueu-se e fez uma menção discreta para a patroa, que também se levantou e o acompanhou em direcção a uma sala que, discretamente, se localizava atrás da tribuna da instituição.
Dentro de alguns minutos, ambos estavam sentados em cadeiras simples, num pequeno cómodo modesto e sem enfeites, defronte a uma mesa estrategicamente posicionada, quando entrou um senhor ainda jovem, simpático, educado e humilde.
Eles levantaram-se e, após os cumprimentos e apresentações, novamente se sentaram.
Iolanda estava nervosa, porque soube que aquele senhor era o presidente do centro e Edvaldo um trabalhador da instituição.
Marcelo, presidente do centro, sentou-se com um sorriso discreto nos lábios e olhou para o Edvaldo.
Depois fitou com simpatia a distinta senhora e perguntou, num gesto de quem tentava iniciar um diálogo:
- Então, a senhora é a esposa do Dr. Albert, o famoso rei da indústria automobilística?
Ora Iolanda olhava para Marcelo, ora para Edvaldo, tentando entender o que estava por trás daquela pergunta.
Sem mais demora, resolveu se pronunciar:
- Como o senhor sabe que sou esposa do Albert?
O homem sorriu e fitou Edvaldo, que se mantinha impassível.
A esposa do empresário notou a troca de olhares entre eles, então sorriu e comentou:
- Entendi. O senhor já deve ter conhecimento do problema que estamos enfrentando, em relação ao meu marido.
- Exacto.
Narrei ao Marcelo tudo que está acontecendo com o Dr. Albert - disse Edvaldo, apressando-se para desfazer aquele mal entendido, como se tivesse sido repreendido pela patroa.
Silêncio.
- Então, dona Iolanda, o que podemos fazer pela senhora?
Aliás, nós não, o nosso Mestre Jesus.
A mulher ficou meio confusa, pois não estava acostumada a ser tratada com respeito e educação, sem que houvesse alguma intenção de interesse ou medo, afinal, ela era a esposa do todo poderoso Albert.
Vendo que a mulher estava embaraçada, Marcelo olhou para o amigo Edvaldo e falou de modo gentil, para deixá-la à vontade:
- Dona Iolanda, nossa casa é simples e muito abençoada, pois, aqui, funciona um pronto-socorro espiritual que atende os irmãos necessitados como o Dr. Albert.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 21, 2016 9:56 am

- Então, já que o senhor sabe do que se trata, o que podemos fazer pelo meu marido, ou melhor, o que o Espiritismo pode fazer por ele?
Marcelo fitou a bela senhora e perguntou-lhe:
- A senhora tem fé em Deus e em nosso Mestre Jesus?
- Tenho. Não duvido de minha fé em Deus e, além disso, sou católica; comungo uma vez por mês e sempre deixo uma oferta para ajudar a paróquia.
O presidente da instituição trocou um olhar significativo com Edvaldo ao ouvir aquela resposta.
Porém não deixou que a distinta senhora percebesse e, com naturalidade, expôs durante uns quinze minutos, à luz da Doutrina Espírita o que realmente estava acontecendo com o Dr. Albert.
- Infelizmente, não podemos fazer muito por seu marido, tendo em vista sua internação impedi-lo de participar pessoalmente de nossas reuniões - rematou Marcelo.
- Que dizer que não podemos fazer nada pelo Albert, porque ele se encontra internado? - perguntou Iolanda.
- Vamos fazer o que estiver ao nosso alcance.
- O quê?
Marcelo pensou e disse calmamente, fitando a mulher:
- Dona Iolanda, já que o Dr. Albert se encontra impossibilitado de frequentar as nossas reuniões, vamos realizar um tratamento paliativo, até que ele melhore e possa procurar um centro espírita.
- Que tratamento é esse?
- Por favor, eu peço que a senhora siga essas instruções - e Marcelo entregou um papel com algumas orientações.
- Quer dizer que eu tenho que comparecer a essas reuniões e fazer tudo o que está escrito aqui?
- Exactamente.
A equipe de socorro espiritual desta casa pode atender o seu marido no hospital.
- Entendi.
O Edvaldo vai me ajudar a cumprir com suas orientações.
- Pode contar comigo, patroa - prontificou-se o rapaz.
Com um sorriso nos lábios, Marcelo se levantou e estendeu a mão para a mulher, cumprimentando-a:
- Que Jesus a abençoe e ao nosso irmão Albert.
Iolanda entendeu que o presidente do centro estava dando a entrevista por encerrada.
- Obrigada. Farei o possível para não faltar às reuniões.
Iolanda e Edvaldo levantaram-se e se despediram de Marcelo.
A partir daquela data, Iolanda passou a frequentar as reuniões indicadas pelo presidente do centro, sempre recebendo a colaboração do seu secretário.
Após um mês, Edvaldo estava no escritório na mansão, quando Iolanda entrou sem pedir licença, demonstrando uma grande alegria estampada em seu rosto.
Edvaldo ergueu-se surpreso e perguntou:
- O que houve, patroa?
- Adivinhe o que aconteceu?
- Não tenho a menor ideia, patroa.
Sorrindo, Iolanda abraçou o rapaz e disse-lhe:
- O Albert recebeu alta da clínica!
- Fico muito satisfeito com a notícia, senhora!
- Mas o médico disse para termos bastante cuidado, pois ele ainda não está totalmente curado.
A mulher sentou-se e pediu água, sendo prontamente atendida.
- Edvaldo, valeu o trabalho que os espíritos fizeram pelo seu patrão.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 22, 2016 9:28 am

- Como a senhora sabe que foram os espíritos, os responsáveis pela melhora do Dr. Albert?
- Questão de lógica, meu caro amigo - respondeu a mulher.
A recuperação do Albert só começou, após o tratamento espiritual ao qual ele foi submetido.
- É... A senhora tem razão.
Mas ainda estou preocupado.
- Com o que, homem de Deus?
- Temo que o Dr. Albert não aceite ser tratado por um centro espírita, mesmo à distância.
- Eu não tinha pensado nisso.
Mas o importante é que, ainda hoje, ele estará de volta à nossa casa.
- Concordo.
No dia seguinte, Edvaldo entrou no escritório da mansão e encontrou o Dr. Albert sentado em sua escrivaninha, mexendo em alguns papéis e aparentemente calmo.
- Bom dia, Dr. Albert.
Fico satisfeito pelo seu restabelecimento.
- Bom dia, Edvaldo.
Eu não estava tão doente assim, para merecer tanta preocupação de vocês.
Envergonhado e desconfiado do estado de saúde do patrão, Edvaldo baixou a cabeça e passou a se ocupar com seus afazeres, enquanto se perguntava:
"Será que o Dr. Albert está bem mesmo?
À noite, vou falar com o Marcelo para saber o que está acontecendo", pensou.
No centro espírita, Edvaldo procurou o presidente e perguntou-lhe sem preâmbulos:
- Marcelo, será que o Dr. Albert está se curando?
- Posso saber qual o motivo desta pergunta?
- O Dr. Albert teve alta do hospital.
- Fico contente com essa notícia, principalmente pela dona Iolanda, que deve estar bastante contente com a volta do marido ao lar.
Edvaldo ficou calado.
- O que está havendo, Edvaldo?
- Hoje, quando cheguei ao escritório, encontrei o Dr. Albert trabalhando - disse Edvaldo.
Mas fiquei meio desconfiado quando o cumprimentei e o elogiei pela sua recuperação.
- O que houve?
- Ele disse que não estava doente.
- Realmente, o Dr. Albert não estava doente do ponto de vista material.
Digamos que ele estava sofrendo uma influência espiritual de Carla e de outros espíritos vingativos.
- Mas isso não justifica que ele tenha se esquecido do desequilíbrio pelo qual passou quando esteve sob a influência de Carla e do tal Louis, durante o período em que foi tratado como doente mental pelos médicos.
- Concordo - disse Marcelo passando a mão no rosto.
Agora, entendo sua preocupação.
Ambos ficaram entregue a seus pensamentos.
- A equipe espiritual encarregada de ajudá-lo tentou afastar momentaneamente os espíritos que o influenciavam e causavam aquele desequilíbrio - disse Marcelo meio desconfiado e sem muita convicção.
- Por isso ele teve essa melhora, praticamente voltando ao seu estado normal e esquecendo que esteve bastante doente e desequilibrado durante vários meses - comentou Edvaldo.
- Exacto. Porém, se o Albert não der seguimento ao tratamento, principalmente no centro espírita, os espíritos obsessores vão voltar a influenciá-lo e tentarão acabar com ele de uma vez.
- O que terá acontecido com a Carla e o Louis, para terem se afastado temporariamente dele?
- Talvez estejam sob o efeito de um forte medicamento.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 22, 2016 9:29 am

Entretanto, os espíritos socorristas não têm permissão para intervir no livre arbítrio de ninguém.
- Isso quer dizer que, assim que passar o efeito dos medicamentos administrados pelos espíritos do bem, eles voltarão a fazer a mesma coisa?
- Ou pior, meu irmão Edvaldo.
- É tão grave assim?
- Mais do que você imagina.
Porque eles estavam se alimentando das energias fluídicas do Albert.
- E quando voltarem a si, estarão precisando de alimentos que só encontrarão em seu desafecto?
- É isso aí, Edvaldo.
- Então vou tentar trazê-lo até aqui.
- Se conseguirmos isso, os espíritos terão a oportunidade de continuar o tratamento de Carla e do restante dos obsessores de Albert.
Você sabe muito bem que cessada a causa que o desequilibra, não tenho dúvida de que o mesmo ficará curado.
Nos dias seguintes, tanto Iolanda como Edvaldo fizeram o possível para que o Dr. Albert frequentasse as reuniões do centro espírita, alegando que ele só havia melhorado, graças ao tratamento espiritual ao qual fora submetido, à distância.
- Não quero mais ouvir falar nesse tal de Espiritismo!
Isso é coisa de gente ignorante e pobre! - disse Albert.
Não posso acreditar que um homem como você, Edvaldo, com formação académica, e uma mulher inteligente como a Iolanda, estejam frequentando esses cultos infestados de doentes mentais, para não dizer malucas mesmo.
- Querido, é para o seu bem.
Você está bem melhor, graças a ajuda dos espíritos - disse-lhe Iolanda.
Não custa irmos pelo menos uma vez, assistir uma reunião espírita.
Albert olhou para Iolanda e para Edvaldo e ergueu-se com o olhar furioso.
- Saiam os dois do meu escritório!
Não acredito em nada nesta vida a não ser em mim, no meu poder e, principalmente, no dinheiro!
Entenderam? - falou Albert, gritando de raiva.
Estou bom e nunca estive doente!
E se estive, foi por causa do stress e nada mais!
Envergonhados, Iolanda e Edvaldo baixaram a cabeça e saíram do escritório.
A mulher chorava e Edvaldo tentava consolá-la.
- Tenha calma e fé em Deus, dona Iolanda.
O Dr. Albert não é tão mal quanto parece.
- Não sei não - disse a mulher cansada e pessimista.
Carla havia acordado do sono induzido pelos socorristas do mundo espiritual e estava sentada em frente ao Albert gritando:
- Velho nojento, estou de volta!
Vou acabar com você!
Só não sei o que fizeram comigo, pois ainda estou meio sonolenta.
Albert havia entrado numa faixa de vibração tão ruim, que trouxera de volta Carla e Louis.
Com isso, logo ambos estariam com os seus amigos no encalço dele.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 22, 2016 9:29 am

Capítulo XV - Perturbação de Carla
O espírito Carla aproximou-se de Albert - que estava sentado, acalmando-se da raiva que teve, ao expulsar Iolanda e Edvaldo de seu escritório -, e o abraçou por trás, aspirando as emanações dele.
Ela vociferava em voz alta:
- Seu monstro!
Você vai pagar por ter me separado do único homem que amei nesta vida!
- É isso aí, vamos acabar com esse traidor, levando-o a morte! - dizia o espírito Louis, rindo como um louco e fazendo gestos de incentivo àquele espírito sofredor.
Ele pensa que eu morri, que fui executado, mas estou aqui, vivo e pronto para cobrar minha dívida!
Albert começou a sentir um mal-estar, então se ergueu e caminhou pelo espaçoso escritório.
Tomou água, afrouxou o nó da gravata, foi à janela respirar o ar do lindo jardim e depois se sentou num confortável sofá, percebendo que não estava bem.
Sua cabeça ficou pesada e o estômago doeu, fazendo com que ele apertasse o abdómen com as mãos, enquanto seus pés e mãos suavam.
Imediatamente passou a sentir uma ansiedade incontrolável, no mesmo instante que as batidas do seu coração se aceleraram.
Carla chorava e expelia pela boca uma saliva avermelhada, talvez por estar misturada a sangue, enquanto queixava-se de dores terríveis no estômago.
- Meu Deus, ajude-me, por favor!
Não aguento mais essas dores insuportáveis no estômago!
Parece que estou queimando por dentro e aquele medicamento miserável não resolveu nada! - queixava-se o espírito, nos poucos momentos de lucidez.
Ela permanecia colada a Albert pelo pescoço, dizendo-lhe:
- Você é o culpado por tudo isso!
Albert sentiu falta de ar e entrou em pânico.
Meteu a mão no bolso e tomou alguns comprimidos receitados pelo seu médico, que não surtiram efeito.
Abriu a porta e começou a andar pelos corredores da mansão extremamente descontrolado, falando coisas ininteligíveis e causando medo nos poucos empregados domésticos que ainda trabalhavam na residência.
- Dona Iolanda, o Dr. Albert está andando pelos corredores e falando coisas que não entendemos - avisou um dos empregados.
Iolanda, que conversava com Edvaldo em seu escritório particular, ergueu-se em companhia do funcionário e ambos correram em direcção ao lugar onde o empresário se encontrava.
A mulher olhou significativamente para Edvaldo, ao avistarem Albert.
O rapaz entendeu e fez um gesto com a cabeça.
Ela aproximou-se do doente com cautela.
- O que está acontecendo, Albert? - perguntou a esposa.
Você chegou tão bem.
- Deixe-me, miserável!
Não tenho satisfação a dar-lhe dos meus actos! - respondeu-lhe o marido.
Largue-me, sua imunda!
Não tenho outra alternativa, a não ser matá-la pessoalmente! - disse o marido para um ser invisível, como se estivesse tentando se desenvencilhar de algo que o incomodava.
Ele corria pelo jardim e pelos corredores da ampla mansão como se brincasse de esconde-esconde, sempre ameaçando alguém.
- Está com medo, sua desclassificada?
Deixe-me pegá-la, que vou torcer o seu pescoço!
Carla ria e chorava de dor, sempre acompanhada por seu amigo de desdita, o espírito Louis.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 22, 2016 9:29 am

Iolanda estava paralisada sem saber que atitude tomar.
O ser humano, em determinado momento, não sabe o que fazer e que atitude tomar quando acontece algo adverso na vida, principalmente quando não estava esperando.
A esposa de Albert estava em pé e com as mãos na boca, como se estivesse sufocando um lamento que tentava sair, sem ter nenhuma ideia para ajudar o marido, e por isso, sentia-se impotente naquele instante.
Com sua experiência de espírita, Edvaldo fechou os olhos e fez uma oração, mas não conseguiu mudar aquela situação, porque o ambiente não estava preparado e ele sentia-se mal.
Então, ao ouvir risos e choro, ficou com medo e não pôde continuar em prece.
Tudo o que é desconhecido intimida, e é por isso que o sobrenatural deixa-nos temerosos com algo que não sabemos explicar, principalmente quando se trata de seres extra-físicos.
A noite já estava chegando, quando Albert viu o espírito Louis e partiu para esbofeteá-lo, dizendo-lhe:
- Cão imundo! Você também não morreu?
Pois vou acabar com a sua vida com as minhas próprias mãos, seu covarde!
Iolanda viu o marido gesticular, como se tivesse agarrado alguma coisa.
Ela olhou para Edvaldo e o viu paralisado, sem acção.
Aproximou-se dele e perguntou:
- O que está havendo, Edvaldo?
- Ouço risos e um choro sofrido.
- Você está sentindo algo? - perguntou a mulher notando a palidez dele.
- Sim. Sinto frio e um mal-estar indescritível.
No mesmo instante a mulher saiu daquela inércia e também começou a se apavorar.
O aspecto do marido causava-lhe medo e uma dor terrível no peito, ao vê-lo naquela situação caótica, praticamente louco e totalmente entregue às entidades inferiores, como entendem os espíritas.
- Você tem ideia do que está acontecendo?
- Mais ou menos.
Como sou sensitivo, deve ser por isso que estou captando as sensações de um dos espíritos que apareceram para o Dr. Albert.
Talvez seja o sofrimento da Dra. Carla, que estou sentindo nesse momento.
Não se preocupe, dona Iolanda.
É normal acontecer isso com as pessoas que percebem o lado espiritual.
Albert havia tirado o paletó e arregaçado as mangas da camisa, como se estivesse desafiando alguém para uma briga corpo a corpo, enquanto falava coisas que ninguém entendia.
Ele babava, gritava e rasgava a camisa que trajava.
Os empregados desapareceram como num passe de mágica.
Iolanda olhou para Edvaldo.
- E agora, o que vamos fazer? - perguntou a esposa do homem.
- Não vejo alternativa, a não ser chamar o Dr. Maurício.
Telefonaram para o médico.
Em poucos minutos o Dr. Maurício entrou na mansão e viu o paciente totalmente descontrolado.
Ele ficou alguns momentos em silêncio, apenas observando aquele homem e tentando descobrir, através de seus conhecimentos científicos, o que estava acontecendo com o empresário, pois tinha certeza absoluta que o mesmo não estava louco.
O médico aproximou-se do Dr. Albert e o cumprimentou, mas o doente riu e disse-lhe:
- Dr. Maurício, ajude-me a pegar esse safado!
Vou torcer o pescoço dele com as minhas próprias mãos!
O médico se assustou e percebeu que o estado do Dr. Albert era muito mais grave do que pensava.
Caminhou em direcção a dona Iolanda, que estava em pé junto a Edvaldo num canto da mansão.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 22, 2016 9:29 am

- Então, doutor, o que vamos fazer?
- Interná-lo novamente.
- Faça o que for necessário, doutor - permitiu Iolanda.
Em poucos minutos, uma ambulância adentrou o jardim da bela mansão conduzindo, além do motorista, dois enfermeiros truculentos, treinados para aquele tipo de situação.
Ao sinal do Dr. Maurício, os dois enfermeiros manietaram o pobre doente e um deles aplicou uma injecção que teve um efeito quase imediato.
Acomodaram o Dr. Albert na ambulância, vestido numa camisa-de-força, e partiram para o hospital.
Iolanda ficou chorando.
Ela não conseguia aceitar o que se passava com o marido, e embora compreendesse perfeitamente os ensinamentos espíritas, há momentos em que precisamos ter muita fé em Deus para não desabar e deixar de acreditar em tudo, principalmente nos espíritos inferiores que habitam mundos como o nosso.
Edvaldo pensava:
"Acho que agora, ele chegou ao estado máximo de uma obsessão: a subjugação".
Os empregados reapareceram desconfiados.
A empregada mais velha, ama de leite de Hugo, estava com um terço na mão, rezando pelo patrão, que mesmo sendo tão mal, era muito amado por ela, porque fora ele que lhe estendera a mão no momento em que mais precisava.
Iolanda convidou Edvaldo a acompanhá-la ao seu escritório particular.
- Patroa, já está ficando tarde.
Ainda vou para o centro espírita.
- Edvaldo, por favor, fique mais um pouco.
Não estou me sentindo bem.
- Posso imaginar o que a senhora está sentindo.
A mulher desabou a chorar, como se naquele momento, pela primeira vez, estivesse dando vazão à sua dor de esposa e mãe.
Ela tremia, enquanto as lágrimas desciam pela sua face ainda bela.
Edvaldo fez uma prece e aplicou um passe na patroa.
- Não sei se vou aguentar tanto sofrimento, meu amigo - disse Iolanda.
- Tenha fé em Deus, dona Iolanda.
O Pai jamais abandona Seus filhos.
- Abateu-se sobre a minha família tanta desgraça em tão pouco tempo, que não posso acreditar que tudo isso esteja acontecendo.
Às vezes, penso que é somente um pesadelo.
Edvaldo estava em silêncio, apenas ouvindo o desabafo daquela mulher tão rica e sofredora.
- Daria tudo o que tenho para estar ao lado do meu marido e do meu único filho.
Por onde você andará, meu filho? - falou a mulher.
A mulher começou a chorar novamente ao se lembrar do filho amado.
- Dona Iolanda, não se preocupe com o Dr. Hugo.
Talvez ele esteja bem, apenas esperando uma oportunidade para voltar para casa - disse-lhe o funcionário, tentando consolá-la.
- Que você esteja falando pela boca de um anjo, meu querido amigo!
No entanto, acho difícil que o meu Hugo volte para esta casa.
Na clínica de repouso, o empresário já se encontrava deitado e manietado pela camisa de força.
Babando e com os olhos esgazeados, ele tentava falar, pois o medicamento não havia surtido o efeito esperado, ou seja, não o dopara por completo.
O Dr. Maurício estava em pé, olhando o paciente deitado na cama.
"Não consigo aceitar que ainda hoje, a ciência não tenha formulado medicamentos ou criado meios para curar uma pessoa que perdeu a razão.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 22, 2016 9:29 am

A ciência terá que se aliar à religião para progredir nesse campo tão delicado, que é a mente?".
Uma enfermeira pediu licença e perguntou ao médico:
- Quando o Dr. Albert acordar, podemos deixá-lo livre?
- Avisem-me antes.
Não posso confiar nesse homem, e se acontecer alguma desgraça, já sabem de quem é a responsabilidade.
- O senhor tem razão, doutor.
Carla estava num canto do quarto da clínica falando palavrões e rindo por qualquer coisa.
- Ouviu o que esse maluco do Dr. Maurício falou, amigo? - perguntou Carla ao espírito Louis.
- Vamos acabar com ele também?
- Não. O Dr. Maurício foi meu professor na faculdade e é gente boa.
Após alguns minutos de silêncio, Carla volta a perguntar:
- Como faremos para acabar com a vida desse maldito Albert?
- Deixe de ser maluca! Ninguém morre!
- O quê? - surpreendeu-se Carla.
- Exactamente.
Há muitos anos fui executado na França e até agora não consegui morrer.
Só vim compreender isso, após um século que havia deixado o mundo dos vivos.
- O mundo dos vivos?
Que história é essa? - perguntou Carla, com os olhos arregalados.
- Sim, minha cara.
Informaram-me que esse mundo onde as pessoas têm um corpo é o mundo dos vivos, e esse em que estamos é o mundo dos mortos - disse Louis.
- Que loucura é essa?
Não acredito nisso!
Sou médica e não acredito nessas bobagens de religiosos fanáticos!
Não existe um mundo de vivos e outro de mortos!
- É modo de falar...
- E qual é a verdade mesmo? - perguntou Carla, com uma cara de quem sofria muito.
Louis riu como um louco.
- Veja essa marca em meu pescoço - disse Louis, mostrando o pescoço para Carla.
- Estou vendo... E daí?
- É a marca de uma corda.
E completou, como se estivesse relembrando o momento:
- Fui executado por enforcamento, por ordem do rei da França.
- E por que você está vivo? - perguntou Carla.
- Porque não morremos nunca, minha cara.
- Não acredito nessa bobagem!
- É verdade.
Já tentei me matar várias vezes, por não aguentar mais tanto sofrimento, e não consigo morrer - disse Louis.
Em alguns lugares por onde passei, me disseram que somos imortais.
- Não posso acreditar nisso! - disse Carla, que no mesmo instante passou a correr e a gritar pelas ruas da cidade.
Louis ficou ao lado de Albert.
- Lembra que fui seu melhor general nas batalhas e que você nunca admitiu derrotas, fazendo de tudo para vencer, nem que para isso tivesse que sacrificar parentes, amigos e até a própria esposa? - perguntava Louis ao obsedado.
Louis ria e ora aparecia vestido como um guerreiro, empunhando uma espada, ora com uma roupa de gala de uma época distante.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 22, 2016 9:30 am

- Lembra, excelência, das batalhas que ganhamos?
Você era mais temido e poderoso que o rei, aquele pobre coitado!
Albert sentiu a presença de Louis e começou a gritar, fazendo para isso um esforço muito grande, pois estava dopado.
As enfermeiras se apressaram e viram o empresário se contorcendo na cama.
- Coitado, enlouqueceu de uma vez - comentou uma delas.
- Pessoal, vamos tomar cuidado.
Ele pode fazer uma loucura consigo mesmo, e aí sim, estamos perdidas - comentou outra.
- Vocês já pensaram na repercussão negativa que a clínica teria se acontecesse algo com alguém da posição do Dr. Albert? - perguntou a enfermeira-chefe.
- Nem gosto de pensar nisso - comentou a que tentava acomodar o paciente.
Bem, vamos embora.
Ele não oferece mais perigo, pelo menos, por enquanto.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 22, 2016 9:30 am

Capítulo XVI - Pai descobre porque a filha se suicidou
A situação na residência de Edmundo permanecia a mesma, mas a família, mesmo se acostumando àquele momento pelo qual passava, ainda tinha esperança de que Isabel se recuperasse, com a ajuda da Doutrina Espírita.
Edmundo acordou cedo e levantou-se bem disposto.
Dirigindo-se à sala de refeições, ele passou pelo bar da residência e assim que o avistou, foi como se tivesse sido hipnotizado pelas garrafas de bebida.
Chegou até a pegar um copo, mas hesitou:
"Não vou beber.
Não sou obrigado a continuar bebendo.
Onde está a minha força de vontade?".
Olhou para o copo e o recolocou no lugar, indo para a cozinha.
Surpresa por ver patrão de pé tão cedo, a empregada apressou-se em atendê-lo.
- Bom dia, patrão.
O senhor deseja alguma coisa?
Edmundo cumprimentou-a com um sorriso simpático e pediu:
- Por favor, faça um café forte para mim.
- Aguarde um minuto, patrão.
Edmundo foi para o jardim meditar.
Assim que Augusto acordou e se preparou, ele desceu e foi de encontro ao pai, cumprimentando-o com um sorriso e fazendo um afago nas costas dele.
- Bom-dia, pai.
O senhor está com uma boa aparência.
- Graças a Deus.
Eu estava pensando, meu filho...
Acho que irei amanhã ao escritório, para tomar pé de toda a situação e tentar salvar alguma coisa do nosso património.
- É assim que se fala, papai!
Estou gostando de vê-lo tão optimista.
- Hoje, quando pensei em tomar uma dose, entendi que não posso continuar bebendo.
Por isso, vou tentar largar esse vício aos poucos.
- Fico feliz com essa notícia.
- Meu filho, espero ter força suficiente para lutar contra essa situação drástica que se abateu sobre a nossa família.
Senão, o que sua mãe vai pensar de mim quando chegar?
- É verdade.
O Dr. Jacinto disse que a mamãe está muito bem e receberá alta, talvez, ainda nesta semana.
- Será que ela está curada mesmo, Augusto?
- Segundo o Dr. Jacinto, não há porque ela continuar internada - respondeu o filho, fazendo um afago no pai e dirigindo-se para o seu carro.
Após um certo tempo, Edmundo interrompeu seus pensamentos ao receber a bandeja que a empregada havia trazido para ele.
Ele abriu o jornal que a empregada trouxera e, após ler algumas notícias, o fechou e o colocou em cima de uma mesa que estava ao seu lado.
"Vou visitar o quarto de Carla.
Desde que ela morreu, ninguém mais entrou naquele quarto", pensou.
Então, imediatamente ergueu-se e se dirigiu para o quarto que pertencera à filha.
Ao abrir a porta do dormitório, Edmundo sentiu o pó penetrar em suas narinas, pois havia quase dois anos que ninguém entrava lá.
Ele caminhou em direcção à janela e a abriu, clareando o ambiente.
Sentou-se na cama e começou a esquadrinhar o lugar, que fora o palco de uma tragédia gravada para sempre na memória dos que presenciaram o estado de Carla, naquele momento terrível.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 22, 2016 9:30 am

No mesmo dia, ele proibiu qualquer pessoa de entrar lá; além disso, deveriam deixá-lo do mesmo jeito que estava quando a filha se suicidou.
- Como estou satisfeito com a Doutrina Espírita - disse em voz alta.
Se não fossem as informações dessa Doutrina, acho que eu não teria tido forças para superar toda essa tragédia que envolveu a minha família.
Edmundo observava o quarto da filha, sem tocar nos objectos.
Viu os bichinhos de pelúcia empoeirados nas prateleiras que adornavam as paredes.
Abriu o armário cheio de roupas, sapatos, livros e estojos de maquiagem, e pensou ao vê-los:
"Vou doar tudo isso para uma casa de caridade, possivelmente para o centro que frequento, para ajudar nos bazares de usados que ele promove".
Relanceando o olhar pelo ambiente, viu uma bolsa em cima de uma cadeira e, com receio de invadir a privacidade dela, pensou:
"Mesmo nessa situação, não está certo abrir a bolsa de alguém, sem permissão".
Então se afastou; todavia, como a curiosidade ainda é algo inerente às imperfeições dos espíritos atrasados, voltou e pegou a bolsa, não tocando em nada, e disse para si mesmo:
"Vou pedir para a mãe dela verificar o que tem de importante nessa bolsa, para doá-la também".
Mas antes de fechar a bolsa, viu um receituário.
Pegou-o e falou em voz alta:
- A Carla seria uma grande médica...
Entretanto, enquanto novamente guardava o receituário na bolsa, ele viu algumas palavras em sua capa.
Sem muito interesse pelo que estava escrito, Edmundo começou a empalidecer ao ler a acusação escrita com a letra da filha.
Desorientado, sentou-se na cama com os olhos fixos naquela frase:
"Albert, você acabou com a minha vida!".
Edmundo ergueu-se, colocou o receituário dentro da bolsa e desceu apressado, indo directo para o bar.
Serviu-se de um copo cheio de bebida e a sorveu de um gole só.
Depois, sentou-se no sofá da sala e tentou reflectir:
"O que o Dr. Albert tem a ver com a morte da minha filha?
Eu sei que ele não aceitava o namoro entre ela e Hugo, mas por que a Carla escreveria isso?"
E como se tivesse sido impulsionado por uma mola, levantou-se decidido e se dirigiu para a casa do Albert.
- Dona Iolanda, o senhor Edmundo encontra-se na sala de espera anunciou um empregado.
Ele parece nervoso e quer falar urgentemente com a senhora.
- Por favor, avise que já vou atendê-lo.
"Estranho...
O que será que o Edmundo quer comigo?", perguntava-se Iolanda.
Ao entrar na sala, a esposa de Albert viu o homem caminhando inquieto pela sala.
- Bom dia, Edmundo.
Seja bem vindo à nossa casa.
- Bom dia, Iolanda.
- Há quanto tempo não nos vemos, não é mesmo? - disse a mulher.
Como vai a Isabel?
- Ela está bem.
Talvez ela tenha alta, ainda nessa semana.
- Graças a Deus.
Pena que não posso dizer o mesmo de Albert.
- Porquê, Iolanda?
Ele teve de voltar à clínica, sedado e manietado por uma camisa de força.
"Coitada. Será que é certo tirar minhas dúvidas num momento como esse?
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 22, 2016 9:30 am

Bem, preciso saber o que houve entre a Carla e o Dr. Albert", reflectia Edmundo.
- O que está acontecendo, Edmundo?
O homem passou a mão na cabeça meio vacilante.
- Dona Iolanda, apesar do Dr. Albert não estar bem, preciso lhe fazer uma pergunta - disse o homem armando-se de coragem e seguindo firme em seu propósito.
- Fique à vontade - disse a esposa do empresário, tentando manter-se tranquila, porém não conseguia, pois sabia que a pergunta do pai de Carla não era boa.
O homem pensou por um instante e logo revelou:
- Encontrei algo na capa de um receituário da Carla que me deixou confuso.
- Pode falar, Edmundo - a bela senhora tentou encorajá-lo.
- Encontrei uma frase que dizia:
"Albert, você acabou com a minha vida!".
A mulher ergueu-se nervosa e perguntou:
- O que você quer saber, meu caro Edmundo?
- A senhora sabe por que a minha filha escreveu essa frase tão...
- Comprometedora? - completou Iolanda.
- Sim. Comprometedora.
Iolanda sentou-se num sofá próximo a Edmundo e ficou calada.
Edmundo sentiu novamente vontade de beber, mas se controlou e tentou se concentrar apenas na situação.
- Você não sabe qual o conteúdo da conversa que eles tiveram, antes dela cometer aquele ato tresloucado contra a própria vida? - perguntou a esposa de Albert.
- Não. Sei apenas que ele não aceitava o namoro dos nossos filhos e que as coisas pioraram depois de saber que a minha filha estava grávida do Dr. Hugo.
"Ele não sabe da história, na íntegra.
Será que devo contar tudo que aconteceu?", pensava.
Muito nervosa, Iolanda ergueu-se e passou a caminhar pela sala, respirando com uma certa dificuldade.
Mais calma, sentou-se novamente perto do pai de Carla e narrou toda a história, com voz vacilante e pausada, tentando não omitir nenhum detalhe importante, para que Edmundo pudesse compreender o que havia se passado entre Albert e a filha dele.
Edmundo ficava ofegante à medida que ouvia a mãe de Hugo, e não se contendo, enxugou discretamente, com um lenço que havia retirado do bolso, as lágrimas que desciam pelo seu rosto.
- E isso é tudo que sei - finalizou ela.
Você tinha o direito de saber a verdade.
Pensei que o meu filho havia lhe contado o que realmente aconteceu.
Após um longo silêncio, Edmundo se aproximou da esposa do empresário e estendeu-lhe a mão, em sinal de respeito.
Em seguida, ainda sem falar nada, deixou a bela mansão.
Já era quase meia-noite e Augusto se encontrava visivelmente ansioso e com a mente recheada de pensamentos negativos, à espera do pai.
Sentado num recanto discreto do alpendre, perguntava-se aflito:
"Será que o papai voltou a beber?".
Poucos minutos depois, um carro atravessou o jardim e parou em frente à residência.
Augusto ergueu-se e foi de encontro ao pai que, agora, descia do veículo.
Augusto ficou surpreso ao ver que o pai havia ingerido pouca bebida alcoólica e estava sóbrio.
Edmundo abraçou o filho e começou a chorar.
- O que houve, papai?
- Sua irmã foi assassinada pelo crápula do Albert! - disse-lhe o pai desesperado.
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Ave sem Ninho

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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 23, 2016 9:27 am

Augusto colocou a mão no ombro do pai e o levou para casa em silêncio, talvez procurando palavras que pudessem ajudá-lo naquele momento.
Ambos sentaram-se nos confortáveis sofás que decoravam a ampla sala de visita da família.
Assim que se acomodaram, Edmundo disse:
Fui na residência de Albert e Iolanda me contou toda a história.
"Ele já sabe de tudo", pensou Augusto.
Silêncio.
- Meu filho, eu tomei três copos de vinho e rodei esta cidade inteira, atormentado pelos meus pensamentos.
Augusto ficou de sobreaviso.
- Por quais pensamentos, pai? - perguntou o filho, receoso com a resposta que poderia ouvir.
Edmundo encarou o filho e respondeu enérgico, sem vacilar:
- Eu pensava numa maneira de mandar para o inferno aquele velho asqueroso e orgulhoso!
Aquele assassino, Augusto!
Augusto se assustou com o que acabara de ouvir.
- Em matar o Dr. Albert?
- Isso mesmo, filho - confirmou o pai.
Vou matar o todo poderoso desta cidade, o assassino de minha filha!
"Meu Deus, o que faço para impedir mais uma desgraça em nossa família?", tentava Augusto encontrar forças.
Edmundo chorava em silêncio.
- Agora, entendo o conflito, a angústia e, sobretudo, a humilhação que a minha filha sofreu - disse ele.
Acho que ela ficou tão perturbada, que não encontrou outra solução a não ser acabar com a própria vida.
O filho aproximou-se do pai e ficou em silêncio, enquanto passava a mão na cabeça dele.
Depois começou a falar com naturalidade:
- Papai, é difícil saber o que aconteceu com a minha irmã no dia de sua morte.
Todavia, desculpe-me por falar isso, mas nenhum ser humano pode tirar sua própria vida.
Nada justifica um acto como esse, pois este corpo que usamos, enquanto estamos encarnados, é um presente de Deus, que serve para o nosso aprendizado na matéria.
- O que você quer dizer?
- Que embora a Carla tenha tido motivos suficientes, em virtude da maldade do Dr. Albert, ela não poderia haver se suicidado - disse o rapaz, com lágrimas nos olhos.
Não precisava ter chegado a esse ato extremo, pois cuidaríamos dela e do meu sobrinho com carinho e amor e, hoje, ela não estaria sofrendo e fazendo tanta gente infeliz.
- Você está me dizendo que a Carla estava errada ao se suicidar, mesmo depois do que passou por causa do Dr. Albert?
- Papai, não me julgo com o direito de dizer o que é o certo ou errado - respondeu o filho muito emocionado que, afinal de contas, falava de sua querida irmã suicida.
Augusto ergueu-se e foi até seu quarto, voltando com "O Evangelho Segundo o Espiritismo" nas mãos.
Sentou mais próximo ao pai e pediu-lhe:
- Pai, por favor.
Ouça o que Allan Kardec, o codificador do Espiritismo, fala a respeito dos suicidas.
- Augusto, você está começando a ficar fanático.
Há coisas que não podemos esquecer e nem fechar os olhos, como se nada tivesse acontecido.
- Concordo, pai - disse o filho.
Mas deixe-me ler um pequeno trecho deste Evangelho, que se encontra no número dezasseis, do capítulo quinto.
Edmundo calou-se.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 23, 2016 9:28 am

Augusto começou a ler:
- A incredulidade, a simples dúvida sobre o futuro, as ideias materialistas, numa palavra, são os maiores excitantes ao suicídio:
elas dão a covardia moral.
Quando se vêem homens de ciência se apoiarem sobre a autoridade do seu saber para procurarem provar aos ouvintes, ou aos seus leitores, que eles nada têm a esperar depois da morte, não os conduzem a essa consequência de que, se são infelizes, nada têm melhor afazer do que se matar?
Que lhes poderiam dizer para disso desviá-los?
Que compensação poderiam lhes oferecer?
Que esperança poderiam lhes dar?
Nenhuma coisa senão o nada.
De onde é preciso concluir que se o nada é o único remédio heróico, a única perspectiva, mais vale nela cair imediatamente que mais tarde e, assim, sofrer por menos tempo.
(...)
O rapaz fechou o livro e ambos ficaram em silêncio por um momento, cada qual entregue aos seus pensamentos.
- Como encontraremos coragem, no lugar de covardia, para enfrentarmos uma situação tão difícil como essa, que só pode ser descrita por quem passa por ela? - perguntou o pai.
Sua irmã deve ter tido o inferno dentro de si, antes de tomar essa decisão fatal.
- Concordo. Mas o senhor também sabe que a minha irmã dizia sempre que só acreditava na ciência e que religião era coisa de velho ou gente ignorante - disse o filho, com pesar na voz.
Depois de meditar no trecho lido do Evangelho, Edmundo ergueu-se e abraçou o filho com lágrimas nos olhos.
- Perdoe-me, meu filho!
Deus, como ainda somos frágeis!
Augusto não respondeu.
Limitou-se a abraçar o pai pelos ombros e ambos se retiraram para os seus quartos, em silêncio.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 23, 2016 9:28 am

Capítulo XVII - Eu não morri!
No dia seguinte, enquanto o Sol desmaiava no horizonte, deixando a noite cobrir a cidade com o seu manto escuro, o Dr. Augusto caminhava impaciente pelo jardim da casa, bastante nervoso, à espera do pai, que ainda não havia saído do quarto e nem se alimentado durante o dia.
Ele temia que Edmundo estivesse tramando algo contra a vida do Dr. Albert.
- Por favor, vá chamar o papai - pediu Augusto à empregada, não suportando mais a ansiedade.
- Sim, senhor.
Alguns minutos depois, Edmundo apareceu com a aparência de quem ainda não havia dormido, passando as mãos nos cabelos com gestos nervosos e a feição de quem estava preocupado com algo.
- O que houve, pai?
O pai acenou para o filho e se dirigiu a um banco do jardim, sem responder a pergunta.
Augusto acompanhou o pai em silêncio e ambos sentaram-se no mesmo banco.
Com o semblante contraído e pálido, Edmundo fitava um ponto qualquer do belo jardim, quando passou a mão no rosto, ergueu-se, foi até a uma roseira e lá parou por alguns instantes.
Depois voltou, sentou-se novamente e perguntou ao filho:
- Você lembra quem plantou esse jardim?
- É óbvio que lembro.
Foi a mamãe e a Carla, quando esta casa ainda estava em construção.
- Como elas eram felizes naquela época, meu filho!
Finalmente conseguíamos construir uma bela casa, e uma como essa sempre foi o maior sonho da sua mãe!
Augusto mantinha-se em silêncio, apenas ouvindo o desabafo do pai, através daquelas belas lembranças que já iam longe, num passado no qual realmente foram felizes, pois foi à custa de muito trabalho que Edmundo havia conseguido construir um belo património, coroando todo o êxito de uma vida com a construção daquela mansão.
Silêncio.
Edmundo passou o lenço no rosto, as mãos na camisa - como se estivesse se preparando para um ritual - e cruzou as pernas, surpreendendo o filho.
Logo, se pôs a falar com o olhar perdido no jardim:
- Ontem à noite, enquanto me trocava para deitar, olhei para minha cama e numa fracção de segundos vi sua irmã sentada ao meu lado.
Fiz uma prece e não consegui mais dormir.
Passei o dia pensando em mil coisas, e só quando meditei sobre o que conversamos é que tive um pouco de paz e pude adormecer por alguns minutos.
Nesse exacto momento a empregada anunciou a visita do Dr. Jacinto, que prontamente foi recebido por Edmundo e o filho, com os cumprimentos de praxe, e depois todos se encaminharam para a sala de visita.
Já acomodados, notava-se que eles apresentavam os semblantes carregados, embora tentassem dissimular seus sentimentos.
Impaciente e discretamente, Augusto se aproximou do pai e perguntou-lhe, sussurrando:
- Como estava a Carla?
- Ela apresentava um aspecto horrível.
Sua aparência causaria comoção em qualquer um que tenha o mínimo de sensibilidade.
Sem querer ser indiscreto, o Dr. Jacinto não pôde deixar de ouvir o diálogo entre eles, todavia não fez nenhum comentário, em respeito à confidência entre pai e filho.
Após conversarem sobre assuntos menos importantes, os homens ergueram-se e o Dr. Jacinto convidou:
- Vamos, meus amigos.
Já está ficando tarde.
- Vamos, senão perderemos a reunião no centro espírita - anuiu Augusto, olhando significativamente para o pai.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 23, 2016 9:28 am

Carla, que ouvira a conversa entre eles, resolveu acompanhá-los para saber o que eles iam fazer naquele lugar, sobre o qual já havia ouvido falar e que acreditava ser um ambiente frequentado por gente maluca e fanática.
No centro espírita, Carla resolveu sentar-se ao lado do pai e do irmão, perto da tribuna - local onde alguém faria uma palestra dentro de poucos minutos -, com o objectivo de descobrir o que estava acontecendo com ela, pois desde de algum tempo ansiava por aquela oportunidade.
No entanto, ela não sabia que uma pessoa de aspecto bondoso tentava ajudá-la - seu protector espiritual -, aplicando-lhe passes para diminuir sua dor e desequilíbrio, durante a palestra pública.
A tribuna do centro espírita era simples, e ao seu redor se sentou o dirigente da reunião, o palestrante da noite, além de outros trabalhadores da casa.
Após a prece inicial, um jovem de aspecto sério e simpático ergueu-se e falou para o pequeno público:
- Meus queridos irmãos, hoje nós iremos falar sobre o capítulo quinto e, principalmente, sobre o capítulo quatorze de "O Evangelho Segundo o Espiritismo" - o suicídio e a loucura.
Augusto olhou de soslaio para o Dr. Jacinto e o pai, como se estivesse querendo dizer algo.
Carla se inquietava à medida que o orador discorria sobre o assunto, e sem se conter e bastante assustada com o que ouvia, começou a gritar:
- É tudo mentira desse impostor!
O orador prosseguiu protegido pelos espíritos do bem, responsáveis pelo funcionamento da instituição religiosa e por aquela reunião pública.
- Sou médica e a ciência nunca provou essa tal imortalidade!
Isso é bobagem de pessoas ignorantes, sem conhecimento académico, e que nunca puderam estudar Filosofia! - gritava Carla totalmente desequilibrada, blasfemando contra as divindades.
Edmundo começou a suar frio.
Arregaçou as mangas da camisa e passou um lenço no rosto, tentando enxugar aquele suor indesejado.
Notando o mal-estar que o pai sentia, Augusto não deixou de perceber sua palidez e a forma como apertava o estômago, como se estivesse sentindo uma dor insuportável.
- O senhor está bem? - perguntou ele, preocupado com o pai.
- Sinto um grande mal-estar.
Uma sensação horrível, e parece que estou ouvindo sua irmã gritar.
- Eu não morri!
E como o efeito desse veneno miserável não foi suficiente para tirar-me a vida, prometo que não vou tentar o suicídio novamente, senão, vou acabar matando meu filhinho! - dizia Carla, embalando uma criança que não existia.
O orador continuou sua prelecção.
- Portanto, meus irmãos, Allan Kardec encerra esse assunto, sobre o suicídio e a loucura, com o último parágrafo do número dezasseis, do mesmo capítulo:
"(...) Comparando-se, pois, os resultados da doutrinas materialistas e espírita, sob o único ponto de vista do suicídio, vemos que a lógica de uma a ela conduz, enquanto que a lógica da outra dele desvia, o que está confirmado pela experiência".
- Mentira! - berrou Carla, erguendo-se, dando um murro no ar e desmaiando em seguida, de tanta dor.
O palestrante da noite deu por encerrada suas considerações evangélicas.
Após a reunião, o Dr. Jacinto, Augusto e Edmundo conversaram um pouco, antes de irem embora.
No carro, pai e filho mantinham-se calados.
Assim que acordou, Carla saiu correndo da sala onde desmaiou e foi directo para clínica de Albert.
Ela corria desesperada, sempre reclamando que estava muito cansada.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 23, 2016 9:28 am

"Hugo, onde está você?", perguntava-se, enquanto vários bandoleiros do além a seguiam gritando:
- Beleza, vamos brincar? - convidou um deles tentando agarrá-la.
- Solte-me, seu imundo!
Os espíritos gargalhavam como se fossem alienados.
- Vou matar com as minhas próprias mãos, aquele homem asqueroso que me tirou o amor de minha vida! - dizia ela, fechando as mãos num gesto de quem ia esmurrar alguém.
Na clínica de repouso, Albert estava inquieto.
Os medicamentos que lhes eram administrados não estavam mais fazendo efeito, preocupando os médicos, principalmente o Dr. Maurício, que já havia feito de tudo e não conseguira mudar o estado de saúde de seu paciente.
Assim que entrou no quarto de Albert, o espírito Carla ficou completamente louco.
Pulou no pescoço do empresário e começou a gritar no ouvido dele:
- Crápula nojento!
Eu vou matá-lo com as minhas próprias mãos!
Enquanto eu viver, você jamais terá paz!
Vou infernizá-lo até sua morte, seu cretino e assassino do próprio neto! - esbracejava ela do lado espiritual.
Albert começou a gritar, chamando a atenção do pessoal da clínica.
O Dr. Maurício ordenou que lhe fosse administrada uma dose altíssima de tranquilizantes, pois achava muito perigoso o estado no qual o paciente se encontrava.
Logo, em poucos segundos, o empresário se acalmou e ficou encolhido, tentando falar algo, mas não pôde devido ao efeito do medicamento.
Ele estava todo retorcido e tinha os lábios inferiores caídos, o que o fazia babar involuntariamente.
Abraçado ao seu desafecto de séculos passados, Louis fitou Carla e disse-lhe, rindo como um louco:
- Muito bem!
Vamos acabar com esse animal!
Louis aproximou-se da mulher e disse-lhe em seu ouvido:
- Temos de nos cuidar agora, minha cara.
Se ele enviar alguma ordem para sua guarda particular, ainda hoje, nós seremos executados.
- Louis, há quanto tempo esse homem mandou matá-lo? - perguntou ela.
- Há mais de três séculos.
Carla sentou-se num canto da clínica e ficou em silêncio, tentando concatenar as ideias num segundo de sobriedade.
- O que houve, Carla?
- Não sei.
O pessoal do lado de cá diz que somos imortais.
Também já me levaram em locais estranhos, onde também ouvi dizer que somos espíritos imortais.
Nesse exacto momento um homem com aspecto feroz, que conduzia um chicote, e dois acompanhantes, que se portavam como seus seguranças, entraram no ambiente.
As três figuras apresentavam um aspecto aterrorizante.
Louis levantou-se tremendo, demonstrando bastante medo daquele espírito com feições animalescas, pois tudo naquele homem era asqueroso e ele não se assemelhava a um ser humano.
Louis tentou se desculpar, caindo de joelhos aos pés daquele ser:
- Patrik, meu senhor!
Ainda não consegui levar esse imundo para a nossa cidade!
- Quem é essa? - perguntou Patrik, apontando para Carla.
- Meu amo, essa é a mulher da qual lhe falei.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

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