Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 23, 2016 9:28 am

- Aquela que pensa que morreu através de um suicídio?
- Exacto.
- Coitada - disse o homem, gargalhando espalhafatosamente.
Patrik estava sujo de sangue, tinha cabelos longos e desgrenhados e, com um olhar de pura maldade, carregava uma espada.
Apesar de sua indumentária estar completamente esfarrapada, dando-lhe uma aparência sofredora de mendigo, ele não perdia a pose de quem era acostumado a mandar e ser obedecido.
Ao ver aquele homem, Carla encolheu-se no canto do quarto, amedrontada com o ar sombrio estampado no rosto dele.
Patrik aproximou-se do espírito sofredor e disse-lhe, com um sorriso de deboche:
- Agora, você faz parte da minha falange de espíritos que não obedecem a ninguém, a não ser a mim.
Eu sou o senhor desta região!
- Não obedeço a ninguém, muito menos, um ignorante, sujo e mal educado como você!
Mal terminara de pronunciar estas últimas palavras e Carla saiu voando pelo quarto com o soco que aquele ser lhe dera.
Ela cuspiu e sentiu o gosto de sangue na boca.
- Quem manda em todos vocês, sou eu! Entendeu?
Carla nada respondeu.
Louis, na primeira oportunidade que tiver, leve esta mulher para falar comigo, em meu castelo.
- Certo, meu chefe.
Patrik olhou para Carla e ordenou-lhe:
- Quero que você continue desequilibrando esse maldito.
Meu projecto é conduzi-lo para o nosso mundo, pois ele teve sua oportunidade e não soube aproveitar.
- Você o conhece? - perguntou o espírito Carla.
- Fomos amigos.
- Por que você o odeia tanto?
- Ele me matou num duelo e tomou todas as minhas propriedades, inclusive, minha esposa Elizabeth.
- Mas você ainda está vivo - comentou Carla.
O homem riu, girou nos calcanhares e deixou o quarto, sem retrucar o comentário da mulher.
- Por que ele saiu rindo, Louis?
- Porque a morte não existe, Carla.
- Não posso acreditar nisso.
Olhe para mim:
estou viva, porque o veneno que ingeri não fez o efeito esperado.
Louis gargalhou como se tivesse ouvido uma piada.
- Você não morreu mesmo, porém, não pertence mais o mundo material.
- Então, prove o que você está dizendo.
- Acompanhe-me.
Em fracções de segundos, ambos se dirigiram para um grande cemitério.
Era noite e havia um movimento muito grande de pessoas.
Umas choravam, outras estavam deitadas sobre os túmulos e algumas cavavam o chão com as próprias mãos, como se procurassem algo.
Enfim, o espectáculo era inédito e macabro.
Louis fitou Carla, após aproximar-se de um túmulo.
- De quem é aquela fotografia e aquele nome? - perguntou Louis, apontando para uma cruz posta sobre um túmulo em especial.
Carla aproximou-se e, à medida que lia, empalidecia e começava a se transformar.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 23, 2016 9:29 am

- Não é possível!
Não posso estar enterrada aí! - gritava Carla, desesperada.
- Então, certifique-se da verdade.
- Como? - perguntou Carla.
- Olhe dentro do caixão e veja se aquele é mesmo o seu corpo.
Com as mãos na cabeça, Carla se desesperou ao pensar na proposta de Louis, e imediatamente se viu atraída para dentro de um caixão, sentindo-se como o cadáver que nele estava sepultado.
Gritou apavorada, ao ver os vermes passearem sobre o que restou daquele bonito corpo, e não aguentando mais aquele pesadelo, sentiu-se sufocar.
Tentou abrir o caixão com as mãos e não conseguiu, e como seu sofrimento era enorme, ela perdeu os sentidos e desmaiou.
Quando voltou a si, estava deitada na lápide de seu próprio túmulo, contorcendo-se de dores no estômago.
Suando muito e padecendo, ela gritava alucinada:
- Eu quero morrer!
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 23, 2016 9:29 am

Capítulo XVIII - Carla no cemitério
No horizonte, paulatinamente, os raios de sol anunciavam sua chegada para clarear a Terra, enquanto a lua pálida e quase tétrica, aos poucos deixava de iluminar o cemitério, escondendo-se dos raios do astro rei.
Na madrugada fria e triste, um vento insistente uivava por entre os galhos das árvores, verdadeiras guardiãs daquele lugar onde são guardados os corpos que um dia os espíritos animaram, por ora, vivendo na pátria espiritual.
Carla ergue-se da lápide com a mão no ventre e começa a perambular pelo cemitério, ora rindo como louca, ora gritando e gemendo de dor.
- Será que morri mesmo? - questionava-se em voz alta, como se falasse com o vento.
Mas estou viva...
Como vou entender isso?
O dia chegou e o espírito ainda caminhava ao léu pelo cemitério.
Somente quando um certo homem chamou sua atenção, é que ela sentou-se no chão e começou a observar o desconhecido.
O tal homem estava bem vestido - demonstrando em seus traços que ainda não completara quarenta anos - e naquele momento chorava ajoelhado ao lado de um túmulo.
Ela aproximou-se e ouviu as lamentações da criatura, compreendendo que ele havia perdido uma pessoa muito querida para a morte.
- Meu amor, eu não posso acreditar que você me deixou! - dizia ele, passando as mãos no rosto e enxugando as lágrimas.
Por um momento o desconhecido abaixou a cabeça, apoiando-a nas mãos postas, com os dedos entrelaçados, como se estivesse orando aos céus.
- Há dez anos você me deixou e ainda não consigo me conformar com a sua partida - continuava ele a lamentar-se.
Nosso filho já está um rapazinho e sempre pergunta por você.
De repente apareceu uma jovem linda, branca e diáfana, vestida com uma túnica branca.
Ela aproximou-se do homem e o abraçou por trás, enquanto afagava o rosto e o cabelo dele, dizendo com um sorriso:
- Querido, não se preocupe comigo.
Estou muito bem.
Talvez eu volte ao mundo corporal nos próximos meses, para dar continuidade ao meu aprendizado.
O homem ergueu a cabeça, passou um lenço nos olhos e perguntou:
- Ana Paula, é você que está aqui?
A moça o beijou e lentamente desapareceu.
Carla, que tudo assistia sem perder nenhum detalhe, aproximou-se do homem e perguntou:
- Senhor, quem é essa moça tão bonita?
O espírito não recebeu resposta e tudo indicava que o homem solitário não havia ouvido a pergunta, mas após ter se erguido e se despedido, ele disse, talvez intuitivamente:
- Fique com Deus, minha adorada esposa.
Sei que você está bem; sou eu que não consigo aceitar essa realidade, mesmo tendo certeza de que a morte não existe.
Ao saber que a esposa daquele homem já havia morrido e por ter presenciado o momento em que ela o abraçou e falou com ele, Carla saiu correndo e gritando palavras sem nexo.
Após se cansar, parou e sentou-se sob um viaduto, enquanto repetia sem cessar que não acreditava que aquela mulher estava morta, se ela mesmo a viu conversando com o esposo.
- Mentira! - repetia.
Se estou morta, como posso sentir fome e sede?
Acho que vou desmaiar...
Preciso ir para a minha casa...
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 23, 2016 9:29 am

Em poucos segundos, ela se encontrou deitada em sua cama, na casa de seu pai.
Gritava pela empregada e ameaçava despedi-la, pois a mesma não cumpria com as ordens dadas por ela.
Irritada, desceu, foi até a cozinha e gritou nos ouvidos da cozinheira:
- Quero comer e beber!
Estou morrendo de fome!
A velha empregada da família parecia não ouvi-la.
Carla tentava pegar algo para comer, mas não conseguia.
Ela desesperou-se novamente e saiu correndo pelas ruas da cidade.
Sentou-se num banco de uma praça abandonada e ficou se lamentando, quando se aproximou um homem de aspecto asqueroso e perguntou-lhe:
- O que está acontecendo com você, boneca?
- Respeite-me!
Você sabe com quem está falando?
- Não e nem me interessa saber - disse o homem, que também era um espírito errante.
- Muito cuidado com o que fala!
Sou médica e noiva do Dr. Hugo, filho do poderoso Dr. Albert, dono de uma empresa multinacional de automóveis!
- Porque você deixou o seu mundo? - perguntou o espírito.
- De que mundo você está falando?
- Ora essa! Do mundo dos vivos!
Carla se ergueu e ouviu o homem perguntar-lhe, assim que começou a se afastar:
- Você já comeu?
- Não.
- Vejo que você é novata por aqui.
- E por que você acha isso?
- Porque você ainda não sabe se alimentar...
Mais calma, Carla voltou e sentou-se novamente, embora não tivesse parado de sentir dores insuportáveis.
"Não posso desmaiar.
Preciso saber onde e como consigo um pouco de alimento", pensava ela.
O homem ergueu-se e fez um gesto para ela acompanhá-lo.
Em poucos minutos, ambos estavam na porta de um restaurante de última categoria.
- Vamos comer, boneca?
- Nesse restaurante imundo? - perguntou Carla, com ar de asco, acostumada que era a frequentar os melhores restaurantes da cidade e do país em companhia do noivo.
- Sim. Vou ensiná-la a alimentar-se, agora que deixou o corpo físico.
- Por favor, chame-me de Carla.
- Eu me chamo Gregório.
O espírito Gregório fez um gesto com a mão, indicando a porta do restaurante, e ambos entraram.
- Olhe como faço para comer e beber.
Carla viu o ser asqueroso se aproximar de quatro pessoas que riam em redor de uma mesa, repleta de pratos ensebados com comidas, copos de água e garrafas de bebidas alcoólicas.
Gregório começou a cheirar a comida e o corpo das pessoas que ali estavam.
Assim, fez com aqueles que bebiam.
Curiosa, ela pôde observar como ele colava a boca em determinadas partes do corpo das pessoas e parecia sorver algo.
Passados alguns minutos, Gregório voltou para junto de Carla e disse-lhe satisfeito:
- Pronto. Estou farto.
Apesar das dores e do mal-estar horrível que sentia, Carla prestou atenção àqueles movimentos estranhos que Gregório fez ao se alimentar.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 23, 2016 9:29 am

Caríssimo leitor, para melhor compreendermos o ritual feito por Gregório para se alimentar, vale a pena recorrermos às elucidações do capítulo quatro, do livro "Missionários da Luz", ditado pelo espírito André Luiz e psicografado pelo saudoso médium Francisco Cândido Xavier, quando o mesmo fala sobre "vampirismo":
"(...) Absolutamente sem preparo e tendo vivido muito mais de sensações animalizadas que de sentimentos e pensamentos puros, as criaturas humanas, além do túmulo, em muitíssimos casos prosseguem imantadas aos ambientes domésticos que lhes alimentavam o campo emocional.
Dolorosa ignorância prende-lhes os corações, repletos de particularismos, encarceradas ao magnetismo terrestre, enganando a si próprias e fortificando suas ilusões.
Aos infelizes que caíram em semelhante condição de parasitismo, as larvas que você observou servem de alimento habitual - disse Alexandre a André Luiz".
O instrutor de André Luiz ainda elucida:
"Naturalmente que a fauna microbiana, em análise, não será servida em pratos; bastará ao desencarnado agarrar-se aos companheiros da ignorância, ainda encarnados, qual erva daninha aos galhos das árvores e sugar-lhes a substância vital (...)".
Gregório fitou a companheira e, sorrindo num esgar, apontou para o pessoal que comia e bebia naquele lugar.
- Vá comer alguma coisa! Você está horrível!
Carla não aceitou a sugestão e logo voltou a correr pelas ruas da cidade qual louca, sem ter nenhuma noção do que fazia.
- Vou acabar de uma vez com esta minha vida!
Posso já não saber o que faço, mas prometo que antes, vou ajudar Louis acabar com a vida daquele maldito Albert!
Carla corria pelas ruas da cidade gritando de dor, completamente perturbada e apavorada, não entendendo por que não havia morrido envenenada - se suicidado -, e como poderia estar viva em outra dimensão inexplicável.
Talvez a maior dor de um suicida, seja o facto de ter atentado contra a própria vida e ainda permanecer tão vivo quanto antes.
Nesse dilema, ele entra em pânico quando descobre que não morreu e não consegue falar com as pessoas no mundo material, como antes.
Perturbação, dores superlativas causadas pela maneira escolhida para o desencarne, abandono, uma forte ligação com o corpo material, fome, sede, frio e dor; são todas essas sensações do mundo material, o que um suicida continua sentindo ao acordar na espiritualidade.
Suicídio é a negação da existência de Deus, pois quem pensa que com a morte do corpo físico tudo se acaba, não pode pensar que é filho Dele, a Inteligência Suprema.
Não há um escritor em toda a esfera terrestre que possa descrever com fidelidade o sofrimento de um suicida, mormente o horrível e supremo desespero pelo qual esse espírito errante passa após sua suposta morte.
Talvez, nesse sentido, a Doutrina Espírita seja uma religião única, ao apresentar meios para alertar os filhos de Deus do perigo que eles correm quando cometem um ato tão extremo como o suicídio, porque, simplesmente, a morte não existe, pois o espírito é imortal.
Além do sofrimento causado por não entender o que se passava consigo, achando que com a morte do corpo físico tudo cessaria, Carla sofria ainda mais por rever diariamente, há quase dois anos, o momento em que tomou o veneno que lhe tirou o corpo material.
Fixou-se em sua memória perispiritual a cena que acabou com o seu corpo material.
- Não consigo esquecer esse maldito veneno, meu Deus!
Já não aguento mais tomar essa porcaria! - maldizia-se a filha de Deus que atentara contra o vaso físico concedido para que pudesse continuar seu aprendizado neste mundo inferior.
- Vou para perto do velho nojento que me deixou nesta situação! - disse ela.
Ela chegou na clínica de repouso, no momento em que Albert gritava com as mãos nos olhos, como se estivesse apavorado com a visão de alguma coisa.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 24, 2016 9:42 am

- Tirem essa gente de perto de mim!
- Calma, Dr. Albert - pedia uma das enfermeiras.
- Não aguento mais isso! - dizia ele.
Chamem a Iolanda, agora mesmo!
- Vamos chamá-la, mas tenha calma, por favor.
Carla agarrou o pescoço de Albert e o apertou, ou melhor, ela plasmou em seu pensamento que estava esganando o infeliz doente.
- Tirem essa louca de cima de mim!
Ela está me sufocando!
Vou morrer! - dizia Albert sentindo-se sufocar, pois era essa mensagem que a mente do espírito mandava para a mente do doente.
O Dr. Maurício foi chamado imediatamente.
Ao entrar no quarto do paciente, ele manteve-se em pé, ainda na porta, apenas observando a cena.
Homem estudioso, cientista e profundo pesquisador da mente humana, ele tentava a toda custa não rejeitar seu estudo académico, mas, às vezes, não conseguia prender o pensamento, deixando-o vagar entre a fé e a religião.
"Há casos piores do que esse, relatados no Evangelho de Jesus, e todos foram curados apenas quando Ele expulsou os demónios", pensava o médico.
- Dr. Albert, quem é essa mulher que está tentando sufocá-lo? - perguntou o médico.
- É aquela imunda e desclassificada da Carla! - respondeu-lhe o paciente.
Ela quer se vingar, porque não aceitei o casamento dela com o meu filho!
O médico ficou quieto, observando tudo o que acontecia.
"Sou um médico, um homem da ciência.
Não posso pensar nessas coisas místicas", dizia para si mesmo o Dr. Maurício.
O médico fez um sinal para a enfermeira, indicando que um calmante deveria ser aplicado naquela alma sofredora.
Em poucos minutos Albert caiu, amparando as costas na parede, até se sentar no canto do quarto, com as pernas esticadas, como estivesse sem vida.
Seu aspecto dava piedade em qualquer pessoa que o conhecera antes de ser internado.
Estava barbado, tinha cabelos grandes e despenteados, olhos sem vida, com as pupilas dilatadas sob efeito da enorme carga de medicamentos que tomava, e babava como um cão hidrófobo.
Tentava levantar os braços e não conseguia, pois o efeito do calmante que lhe aplicaram era suficiente para torná-lo um ser impotente.
No lado espiritual, Louis se acabava de tanto rir, sendo prontamente imitado pelos amigos que reuniu para apressar a morte de Albert, o Duque de ontem.
- Acho que ele não vai aguentar muito tempo, pessoal - disse Louis.
Gostei do que você fez com ele, Carla.
Carla chorava deitada na cama, com as mãos no ventre, rolando de dor e desmaiando em seguida.
- Temos que desequilibrá-lo o mais rápido possível.
Meu chefe Patrik não vai mais aceitar desculpas.
- O que você acha que podemos fazer para acabar com essa peste nociva? - perguntou Carla, assim que voltou a si.
- Temos que arquitectar um plano para ele mesmo acabar com esse corpo material:
ele deve se suicidar como você.
Ao ouvir aquela palavra - suicídio -, Carla ficou completamente desorientada e desapareceu do quarto, correndo sem destino.
Após um longo tempo, ela parou e resolveu seguir em direcção à igreja onde fizera a primeira comunhão.
De repente encontrou-se sentada, ouvindo a missa rezada pelo padre da paróquia.
Ela relanceou o olhar pelos santos, pelo padre e pelas pessoas que assistiam a missa, e se deteve num crucifixo com a figura de Jesus.
- Tudo invenção para enganar o povo - falou baixinho, deixando em seguida a igreja e novamente se pondo a correr.
De súbito perdeu os sentidos.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 24, 2016 9:42 am

Capítulo XIX - Hugo estuda o Espiritismo
No final da tarde, o Dr. Hugo chegou em casa, demonstrando que estava bastante cansado, e pôs sobre um sofá uma pequena maleta, que sempre conduzia consigo quando ia para o posto de saúde.
Com um sorriso nos lábios, Viviane se aproximou e com o seu jeito carinhoso, perguntou-lhe:
- Você quer algo para comer ou beber?
- Sim. Um pouco de água e uma xícara de café, por favor.
Após tomar um gole de água e sorver o café, ele se ergueu e ouviu a moça anunciar sorridente:
- Tenho uma surpresa, Dr. Hugo.
O médico se voltou para a mulher.
- O que você está me escondendo, Viviane?
Ela olhou para o rapaz sorrindo, pegou em seu braço e o conduziu até uma mesa que se encontrava ao lado, apontando para um pacote que estava sobre ela.
- Este pacote está endereçado a você.
Hugo se encaminhou para a pequena mesa e, surpreso e ansioso, abriu o pacote e nele encontrou os livros referentes à Doutrina Espírita, que havia encomendado.
- São os livros que eu pedi para o Augusto - disse Hugo sorrindo.
Enquanto isso fitava a bela mulher, que estava com a mão na boca num gesto gracioso e feminino, curiosa para saber que livros eram aqueles.
- Posso saber que livros são esses?
- São as obras básicas da Doutrina Espírita e toda a colecção das obras de André Luiz, psicografadas pelo grande médium brasileiro Francisco Cândido Xavier - disse ele, após abrir o pacote.
- Agora sim, você vai poder estudar, à luz dessa Doutrina, o que está se passando com o seu pai e a dona Isabel.
- Exactamente, minha querida.
Viviane sentiu uma súbita felicidade invadir-lhe todo o ser.
Seu coração acelerou, faltou-lhe o ar e pela primeira vez olhou para o Dr. Hugo de maneira diferente.
"Cuidado, Viviane.
Você não é mulher para o Hugo", pensou.
Hugo pediu licença e levou o pacote para seu quarto, deixando Viviane no meio da sala, entregue aos seus pensamentos.
A partir daquela data, nos momentos de folga, o Dr. Hugo fechava-se no quarto e lia avidamente todos aqueles livros, sem tempo para mais nada.
Certa noite, Viviane passava pelo corredor, quando se deteve em frente ao quarto do médico.
Olhou por baixo da porta e viu a luz da lâmpada, ainda acesa àquela hora.
- Deve estar lendo - disse para si mesmo.
"Tenho quase certeza de que ele vai embora daqui quando terminar de ler aqueles livros", pensou e instintivamente passou a mão pelo belo rosto, enxugando as lágrimas que corriam sem pedir licença.
- O que será que está acontecendo comigo, meu Deus? - perguntou-se suspirando, e logo se retirou para seu próprio quarto.
Deitada de bruços, começou a chorar, tentando sufocar os soluços no travesseiro.
- Meu Deus, que dor esquisita estou sentindo no coração! - exclamou em sua solidão.
Uma semana após a chegada dos livros, o Dr. Hugo chegou em casa em seu horário habitual e cumprimentou Viviane sorrindo, com um beijo na testa, dizendo em tom de brincadeira:
- Dona Viviane, após o jantar, convido-a para conversarmos um pouco.
Faz dias que não conversamos.
- Combinado - disse a mulher feliz e apreensiva.
A noite chegou, cobrindo com o seu manto escuro aquela pequena cidade do interior.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 24, 2016 9:42 am

Hugo procurou o seu lugar preferido para meditar e esperou pela amiga, como havia combinado.
Viviane havia se produzido como se fosse a algum lugar especial, o que imediatamente chamou a atenção do rapaz.
- Você vai sair? - perguntou Hugo.
- Não. Por que a pergunta?
- Está toda produzida, como se fosse sair.
Aliás, diga-se de passagem, você está linda.
- Assim, vou ficar encabulada.
- Sente-se, por favor.
Ambos ficaram em silêncio por alguns minutos.
Hugo fitava algo no vazio da imensa escuridão perdida nos campos da lavoura.
Viviane mantinha-se em silêncio, esperando que o médico tomasse alguma iniciativa.
Ela tinha certeza de que não havia sido convidada para uma simples conversa.
- Você acredita em Deus? - perguntou o rapaz de repente, sem desviar o olhar do vazio.
A moça espantou-se com a pergunta, mas respondeu imediatamente.
- Claro que acredito!
Sem dúvida alguma!
- Acredita em espíritos?
- Não sei explicar o porquê, mas sim, acredito.
Acho que porque ouvi muitas histórias de parentes de pessoas que já morreram.
- Será que existe um outro mundo, além desse em que vivemos? - perguntou o médico.
A mulher pensou e respondeu com segurança.
- Eu acho que sim.
- Então, esse mundo é invisível?
É um mundo que existe em outra dimensão?
- Sim.
Ambos se calaram e ficaram pensativos.
- A Bíblia Sagrada e outros códigos divinos da Terra falam sobre espíritos, almas e outros mundos além desse em que vivemos - comentou Viviane, rompendo o silêncio.
Hugo voltou o rosto para Viviane completamente surpreso e a encarou por um momento.
A dona da casa manteve-se em silêncio e aquele meio sorriso já havia desaparecido de seu rosto.
- Entre as numerosas curas realizadas por Jesus, conforme o Evangelho, há a expulsão de demónios dos possessos.
A Doutrina Espírita, principalmente através do livro "A Génese", esclarece com muita propriedade que eram os espíritos sofredores ou maléficos que manipulavam aquelas criaturas curadas pelo Mestre Divino - comentou o médico.
- O que você quer dizer, doutor?
O rapaz ficou sério.
Então, se ergueu, passou a mão no rosto e caminhou pelo espaçoso alpendre.
Após alguns minutos, sentou-se.
- Acho que pode haver alguns espíritos sofredores, ou até mesmo maléficos, que, por algum motivo desconhecido, estão contribuindo para que o meu pai e a dona Isabel se encontrem tão debilitados.
Essa seria uma explicação para essa aparente esquizofrenia que acometeu os dois, conforme o diagnóstico dos psiquiatras - disse ele com o olhar perdido no vazio da escuridão.
- Vejo que você assimilou rapidamente as informações dessa Doutrina - comentou a amiga.
- É verdade.
E apesar de não haver lido todos os livros, já consegui entender muita coisa através de "O Livro dos Espíritos", "O Livro dos Médiuns" e "A Génese".
- Você leu todos esses livros em apenas uma semana? - surpresa, perguntou Viviane.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 24, 2016 9:43 am

- Sim. Mas preciso estudá-los com paciência, para entender melhor o que se passa com aqueles dois.
A moça fitou Hugo e aproximou sua cadeira dele.
Próxima ao rapaz, pôs a mão direita no joelho dele e perguntou-lhe:
- Hugo, qual seria exactamente o problema do seu pai?
O rapaz baixou a cabeça e respondeu com cuidado, colocando sua mão sobre a mão da mulher:
- O meu pai está sob um forte processo de obsessão.
Hugo passou a mão no rosto e continuou:
- Se não tomarmos providências urgentes, ele realmente enlouquecerá, e as consequências serão tão graves, que não poderemos sequer imaginar o que pode acontecer.
- Você sabe ou tem ideia de quem seriam esses espíritos que estão influenciando seu pai e a dona Isabel, a ponto de ambos estarem internados? - perguntou a bela moça, retirando a mão do joelho do rapaz.
Hugo pensou e respondeu calmamente:
- O meu pai é uma pessoa muito orgulhosa, egoísta e, às vezes, tem acessos de crueldade.
Se essa Doutrina estiver certa, possivelmente, além da Carla, que se suicidou por causa dele, não tenho dúvidas de que ele contraiu outras dívidas no passado - continuou Hugo.
Com isso, meu pai está atraindo vários inimigos desencarnados de outras existências, que estão infernizando a vida dele, deixando-o à beira de cometer uma loucura.
Ambos ficaram em silêncio, apenas ouvindo os vários sons da noite.
- Amanhã cedo partirei para a casa dos meus pais, minha querida amiga.
Eles precisam de mim - disse o médico, repentinamente, fitando a mulher.
Viviane levou um choque ao ouvir aquela notícia.
Sentiu lhe faltar o ar e o sangue parecia correr mais rápido em suas veias, acelerando o batimento de seu coração.
As pernas dela começaram a tremer e sentiu um líquido quente e salgado a descer pelas suas faces.
"Não posso chorar", pensou ela.
"Ajude-me, meu Deus!
Jamais pensei amar alguém, como amo esse homem!
Sim, é essa a verdade:
parece que sempre amei esta criatura, que só agora apareceu em meu caminho" continuou pensando.
Hugo não percebeu nada, pois estava com o olhar perdido num ponto qualquer da escuridão, pensando na viagem e no estado no qual encontraria o pai e a dona Isabel.
Pensava em sua mãe, com carinho.
"Assim que chegar em casa irei procurar o Augusto, para juntos, conversarmos com o Dr. Jacinto e tentarmos ajudar nossos velhos", pensava o médico sem ressentimentos, talvez arrependido por não estar presente para ajudar a mãe.
- Hugo, você vai fazer muita falta por aqui, mas o importante nesse momento, é ajudar o seu pai - disse a moça, discretamente passando a mão nos olhos.
Hugo olhou para Viviane como se a visse pela primeira vez, e seus olhos envolveram carinhosamente aquele belo rosto, sentindo algo diferente dentro de si.
"O que está acontecendo?
Nunca havia visto Viviane com outros olhos, a não ser como uma grande amiga, porém, agora, estou sentindo algo tão diferente e bom dentro de mim", pensou.
Ele sacudiu a cabeça e disse para si mesmo:
"Deve ser a emoção".
- Assim que o meu pai estiver curado, imediatamente voltarei para cá, pois, hoje, tenho certeza absoluta de que o meu lugar é nesta bendita cidade que me acolheu no momento em que eu mais sofria - disse o rapaz, aproximando-se de Viviane.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 24, 2016 9:43 am

Ele segurou as mãos da bela moça com carinho e as levou à boca, beijando-as.
A mulher sentia o peito ofegante e as lágrimas quentes desciam à vontade pelo seu rosto, esquecendo-se da realidade.
Hugo ergueu-se e, segurando as mãos de Viviane, fê-la levantar-se também.
Eles ficaram um longo tempo fitando-se nos olhos, em silêncio.
Mas logo se aproximaram e se abraçaram por um longo tempo, e como se fossem conduzidos por uma mão invisível, encostaram os lábios e se procuraram num longo beijo.
Depois de tanto tempo, finalmente puderam dar vazão àquele sentimento reprimido, pois somente naquele instante, seus corações se reencontraram.
Seria o amor que chegava para eles?
Nada falaram.
Eles entraram de mãos dadas na silenciosa casa e Viviane, num gesto natural, abraçou o médico e o conduziu para o seu quarto.
O galo cantou.
- Meu Deus, estou atrasado!
Tenho que pedir para o Gordo comprar uma passagem para a minha cidade! - disse Hugo em voz alta, sentando-se na cama ainda meio sonolento, enquanto esfregava os olhos, sem conseguir entender direito o que havia acontecido.
Viviane estava deitada de lado, com as costas voltadas para Hugo, fingindo que dormia.
Hugo olhou para a mulher deitada ao seu lado e ficou por alguns momentos sentado na cama, pensando:
"Eu pensei que estava sonhando, mas, vejo que é mesmo realidade.
Eu finalmente estive com a mulher que sempre amei".
E resolveu:
"Não vou acordá-la.
Vou deixá-la dormir mais um pouco e depois a desperto, para que possa me ajudar com os preparativos da viagem".
Com isso, aproveitou para admirar Viviane, que estava ao natural, com seus cabelos cobrindo parte de suas costas.
Assim que colocou os pés no chão, ele ouviu:
- Não vou ganhar um beijo, doutor?
Hugo notou que Viviane havia acordado e começou a rir.
- Pensou que eu estava dormindo? - perguntou a mulher, virando-se e beijando o médico.
- Pensei, sim.
Mas já que você está acordada, temos muito o que conversar antes de eu viajar - disse Hugo, correspondendo ao beijo daquela linda e simpática mulher.
- Você pensou, doutor?
- Em quê?
- No que aconteceu?
- Precisa pensar? - perguntou o médico, rindo meio encabulado com a pergunta da Viviane.
- Precisa sim, senhor.
- Por quê?
- Porque eu era uma mulher solitária e você um homem desiludido e ferido, quando chegou aqui.
- Não entendi!
A mulher riu, encostou seus lábios nos lábios do rapaz e disse-lhe:
- Será que é amor o que você sente por mim?
- Não tenho a menor dúvida.
- E a Dra. Carla?
Hugo passou a mão na cabeça e respondeu, beijando-a novamente:
- Não sei.
Hoje, só sei que você é a mulher da minha vida.
Entendeu?
- Acho que entendi - disse Viviane, beijando o homem pelo qual sempre esperou e que somente agora havia aparecido.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 24, 2016 9:43 am

Capítulo XX - Hugo retorna à casa dos pais
Hugo pagou o táxi e, após descer, ficou parado em frente à entrada da bela mansão de seus pais, pensando no dia em que deixou aquela casa aos prantos.
Naquele dia fatídico, ele havia decidido nunca mais voltar ali, todavia, às vezes, as coisas não acontecem como queremos, e sim, conforme a vontade de Deus e do nosso merecimento.
Com passos firmes aproximou-se e apertou o botão do interfone, ouvindo a voz do segurança:
- Quem é?
- Sou eu, Hugo.
- Quem?
- Hugo. O Dr. Hugo.
- Não é possível!
Faz mais de um ano que o Dr. Hugo, viajou!
- Fale com sua patroa, por favor.
- Um momento.
Após alguns minutos, o portão se abriu diante de Hugo e sua mãe apareceu, chorando e se atirando em seus braços.
Ela não conseguia sequer articular uma frase completa, apenas falando qualquer coisa e dando vazão à alegria de poder rever o filho.
- Não posso acreditar que seja você, meu filho! - disse a mãe, abraçando e beijando-o, como se estivesse com medo de estar num pesadelo ou de que ele fosse embora novamente.
- Calma, mamãe.
Sou eu mesmo.
- Ainda não acredito que você está aqui!
Hugo abraçou a mãe e caminhou em direcção à mansão, enquanto um serviçal levava sua pequena mala.
Observou que Iolanda estava mais magra, sem maquiagem e com olheiras, o que o deixou apreensivo.
Num gesto de extremo carinho, aconchegou-a no peito e lhe beijou os cabelos bem cuidados, porém, sem aquele toque de vaidade feminina, tão comum às madames milionárias.
Ele prometia para si mesmo:
"Vou cuidar de vocês, mamãe".
- Meu filho, por onde você andou?
O que aconteceu, para você sumir daquela maneira?
- Vamos com calma, mãe - pediu o rapaz.
Vou explicar tudo, mas antes, quero tomar um banho e descansar um pouco, pois viajei dois dias sem conseguir dormir.
- Menino, de onde você vem? - perguntou Iolanda.
Por acaso, estava na Europa?
Hugo riu e abraçou a mãe.
Ela achava que uma viagem tão longa só poderia ter o exterior como destino, pois pensava no transporte aéreo.
- Estou vindo de um lugar abençoado.
Depois lhe conto tudo, mamãe.
Agora, deixe-me tomar um banho.
- Fique à vontade, meu filho - disse a mãe, com um sorriso de felicidade no rosto.
O seu quarto continua o mesmo.
E enquanto subia para seu quarto, ouviu a mãe perguntar receosa:
- Filho, não quer saber como vai o seu pai?
Hugo parou na escada e se voltou para Iolanda.
Com a mão na cabeça e visivelmente preocupado, ele respondeu-lhe:
- Temos tempo para isso, mamãe.
Depois conversaremos com calma a esse respeito.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 24, 2016 9:43 am

- Você já sabe de alguma coisa?
Hugo pensou, como se quisesse pesar as palavras que diria, e por fim resolveu responder:
- Sim, pouca coisa.
Mas sei que o meu pai não está bem.
Não se preocupe, mãe, pois eu vim para isso.
- Graças a Deus, meu filho, que você está em casa novamente - disse a mulher, fazendo um gesto com as mãos postas, como se estivesse agradecendo aos céus, a volta do filho amado.
Hugo retomou a direcção de seu aposento, com um sorriso no rosto, e logo se encontrou sentado na cama de seu amplo e luxuoso quarto.
Deitou-se de costas e ficou um longo tempo fitando o tecto, tentando colocar os pensamentos em ordem e lembrando-se do que acontecera consigo naquele espaço de tempo, principalmente da bela Viviane, que certamente também pensava nele.
Levantou-se e foi para o banheiro tomar uma ducha.
Enquanto relaxava da tensão provocada pela viagem, se perguntou:
"Porque você fez isso, Carla?
Será que não pensou em nosso filho?".
O espírito Carla, que estava junto ao pai de Hugo, ouviu seu nome e em fracções de segundos sentiu-se atraída para o quarto do rapaz.
"Que lugar é esse?
Parece o quarto de alguém muito rico", pensou.
Gemendo de dor e completamente perturbada, olhou para a pessoa que saia do banheiro.
"Esse rapaz se parece com o Hugo", pensou desconfiada.
Em seguida sentou-se ao seu lado e o reconheceu.
Tentou abraçá-lo, mas foi repelida por uma força magnética tão forte, que não a deixou encostar um dedo no rapaz.
- Hugo, por favor, ajude-me! - pedia.
Há quanto tempo não o vejo, querido!
Estou com muita saudade de você! - dizia Carla, começando a chorar e a se lamentar, pois não conseguia abraçar o rapaz.
Carla não conseguiu se aproximar fisicamente do rapaz, porque ele vibrava numa faixa totalmente diferente da dela.
O espírito sofredor estava envolvido por energias fluídicas malsãs impregnadas de ressentimentos e ódio, e sua memória perispiritual arquivou voluntariamente a destruição de seu corpo material, enquanto Hugo, ao contrário, estava
envolvido por fluídos benéficos, com o coração voltado para o bem, pois realizara, durante quase dois anos, um prestimoso trabalho de auxílio ao próximo, como médico e amigo dos habitantes daquela cidadezinha que o hospedara durante todo o tempo que ficara longe de casa.
Aproveitou também para estudar a Doutrina Espírita com a finalidade de ajudar seu pai e a dona Isabel.
Enfim, até aquele momento, não praticara nenhum ato grave contra as leis de Deus.
Quando praticamos de coração os ensinamentos do Mestre Divino, somos protegidos pelos nossos irmãos do bem, tanto no mundo espiritual como no material.
Isto é uma lei e um dos princípios básicos da Doutrina Espírita:
a lei de causa e efeito.
Naquele momento, embora Hugo estivesse protegido contra os fluídos dos espíritos sofredores, ele ainda captou algumas energias malsãs e sentiu-se mal.
Com uma súbita dor de cabeça, ele se arrepiou, como se estivesse com os sintomas de uma gripe, e sentiu muito sono.
"Estou muito cansado", pensou.
Em seguida, deitou-se e dormiu.
Ao dormir, o médico desprendeu-se de seu corpo físico e penetrou o mundo espiritual.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 24, 2016 9:43 am

Viu Carla chorando, sentada numa cama.
Ele aproximou-se e comentou com o coração doído, após verificar o estado de sua ex-noiva:
- Carla, eu não posso acreditar no que vejo!
Vou levá-la agora mesmo para um hospital!
Calmamente, o espírito protector de Hugo se aproximou e disse, após colocar a mão no ombro dele:
- Meu querido irmão, você terá várias outras oportunidades para ajudar nossa irmã, mas por enquanto, isso não vai ser possível, pois ela ainda não está em condições para receber qualquer tipo de auxílio.
Hugo olhou para a pessoa que havia falado e viu um homem de aspecto bondoso, envolvido por uma luz que levava paz e equilíbrio para aquele ambiente.
- Quem é o senhor?
- Sou um amigo de vários séculos.
Se quiser um nome, pode me chamar de Domingos.
Hugo despertou de repente, suando e sentindo um ligeiro mal-estar.
Foi até a pia do banheiro e lavou as mãos e o rosto.
Depois abriu uma garrafa de água, que estava no refrigerador de seu quarto, e bebeu um pouco do líquido.
Caminhando pelo quarto, ele reflectia sobre o que havia acontecido:
"Acho que sonhei com a Carla.
Ela deve estar sofrendo bastante".
Sentou-se num sofá e resolveu fazer uma prece sincera pelo espírito.
Ao ver o ex-namorado fazendo uma prece, o espírito saiu do quarto correndo.
- Até o Hugo anda pensando nessas bobagens! - gritava Carla aborrecida.
Não duvido que ele também esteja louco como o pai!
Depois de uma hora pensando no que aconteceu e tentando colocar as ideias em ordem, o Dr. Hugo sentiu que melhorava da dor de cabeça.
Sendo assim, se trocou e foi se encontrar com a mãe no escritório dela.
Assim que viu o filho entrando no escritório, Iolanda se ergueu e foi abraçá-lo:
- Filho, deixe-me matar as saudades!
- Não precisa ficar aflita, mãe.
Já estou de volta e temos muitas coisas para resolver.
Hugo sentou-se numa poltrona perto da mãe e em poucos minutos narrou tudo o que lhe acontecera nesses meses que passou longe de casa, desde o dia do suicídio da namorada.
Não se esqueceu de falar de Viviane com carinho na voz e também de Augusto, que havia lhe informado tudo o que acontecera durante a sua ausência.
- Então, você está a par de tudo o que ocorreu por aqui, desde que viajou?
- Em parte, mamãe.
Só sei o que o Augusto me informou num rápido telefonema.
Segurando a mão do filho, Iolanda pensou por um instante e narrou tudo o que se passara com Albert, inclusive, como ele começou a ficar desequilibrado.
Ambos ficaram calados.
- O que você pensa fazer? - perguntou a mãe.
O rapaz aproximou sua cadeira e começou a fazer um carinho em Iolanda, afagando as mãos dela.
- Como se chama o rapaz que assumiu o controle dos negócios, com a autorização da senhora?
- Edvaldo.
- Eu conheço o Edvaldo.
Parece-me uma pessoa honesta.
A senhora confia nele?
- Sim, sem dúvida.
Além disso, meu filho, ele entende bastante dessa Doutrina conhecida como Espiritismo.
Hugo ergueu-se de repente e começou a andar pelo escritório da mãe, bastante inquieto.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 24, 2016 9:44 am

Depois se sentou e perguntou:
- A senhora tem certeza de que o Edvaldo conhece a Doutrina Espírita a ponto de podermos confiar nele?
- Claro, filho.
Foi ele que me passou força e informações a respeito de assuntos que eu não conhecia, para enfrentar a doença de seu pai e os problemas que ele nos causou.
- Mãe, antes de visitar o meu pai, quero falar com o médico que cuida dele.
- Com o Dr. Maurício?
- Esse mesmo.
- Quando você quer falar com ele?
- Ainda hoje.
E se possível, agora mesmo.
- Meu filho, já está tarde e não sei se ele pode atender o nosso pedido.
- Telefone para ele e tente marcar um encontro entre nós dois - pediu o filho.
Iolanda telefonou para o Dr. Maurício e conseguiu que ele viesse até a mansão em trinta minutos.
Enquanto isso, Hugo telefonou para o irmão de Carla.
- Alô! Augusto?
- Hugo! É você mesmo?
- Claro! Estou em casa!
- Quando vamos nos encontrar, amigo?
- Dentro de trinta minutos.
- Você está brincando, Hugo?
- Augusto, dentro de mais ou menos trinta minutos, falarei com o médico do meu pai, um tal de Dr. Maurício, e quero você presente, para tentarmos salvar os nossos pais enquanto é tempo.
- Ok. Daqui a pouco estarei aí - anuiu Augusto.
Ao desligar o telefone, Hugo fitou a mãe e perguntou-lhe:
- Mãe, será que o Edvaldo pode participar dessa minha conversa com o Dr. Maurício?
- Não sei, filho. Mas é fácil.
Vou telefonar para o escritório.
Após alguns minutos, Iolanda disse sorrindo para o filho:
- O Edvaldo vai poder participar da reunião.
- Confirmado? - perguntou o rapaz.
- Claro.
Desconfiada, Iolanda se aproximou do filho, que estava sentado, afagou-lhe os cabelos e perguntou-lhe:
- Por que toda essa pressa, meu filho?
- Não temos mais tempo a perder, mãe - respondeu-lhe o filho.
Vamos agir com urgência, para tentar salvar o papai de uma tragédia pior do que a de Carla.
- Assim você me assusta, meu filho!
- Apenas estou sendo realista.
Após quarenta minutos, encontravam-se sentados em confortáveis poltronas, numa sala privativa, Iolanda, Hugo, Edvaldo, Augusto e o Dr. Maurício, conversando sobre amenidades, embora todos estivessem curiosos a respeito do assunto que seria abordado pelo filho de Albert.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 24, 2016 9:44 am

Capítulo XXI - O psiquiatra
O Dr. Hugo, filho único de Albert e Iolanda, cruzou as pernas, após tomar um pouco d'água, e encarou directamente o Dr. Maurício, num misto de admiração e dúvida, como se procurasse palavras adequadas para ajudá-lo a abordar o objectivo daquela reunião informal.
- Dr. Maurício, desculpe-me, mas preciso lhe fazer uma pergunta - disse o filho do empresário, com educação e firmeza.
- Fique à vontade, Hugo.
E conte comigo para auxiliá-lo no restabelecimento da saúde do Dr. Albert.
Hugo sabia que aquele médico era bastante conceituado no mundo da ciência, pois era doutor em psiquiatria e diplomado em patologias relativas à mente humana.
O rapaz passou a mão no rosto, meio hesitante, e fitou os presentes.
Sem mais demora perguntou, firmando o olhar no psiquiatra:
- O senhor acha que o meu pai é um alienado?
Também calmo e firme, o psiquiatra fitou o rapaz e ficou pensativo durante alguns segundos.
Em seguida, não querendo mais prolongar uma situação angustiante para as outras pessoas presentes, que esperavam uma resposta do famoso médico, ele respondeu aquela pergunta inteligente:
- Não.
Os presentes suspiraram, principalmente pela resposta ter partido de um médico conceituado como o Dr. Maurício, e ficaram na expectativa sobre o que mais ele iria falar.
O Dr. Maurício, médico e cientista, além de ter seus artigos publicados nas melhores revistas da área e ser respeitado pela comunidade cientista, também tinha fama por ser muito inteligente.
- Pessoalmente realizei vários exames no Dr. Albert e não constatei nada de anormal em seu cérebro, que pudesse ter causado o desequilíbrio que o acometeu, a ponto de se tornar indispensável sua internação - completou o famoso psiquiatra.
Hugo se remexeu na poltrona, demonstrando sua inquietação ante a resposta do médico.
- E qual é a doença do meu pai?
- Não sei - respondeu o médico com a maior tranquilidade.
Desconheço o motivo que levou o Dr. Albert a esse desequilíbrio mental.
Em outras palavras, e conforme o que já aprendi com a ciência, ele não foi acometido por nenhuma doença que requeira um tratamento psiquiátrico.
Todos permaneceram em silêncio.
Ninguém ousava perguntar ou comentar nada a respeito da doença do Dr. Albert, afinal de contas, o médico presente era um renomado psiquiatra.
- Então, por que ele continua internado? - Iolanda foi a única que se atreveu a perguntar, ainda assim, com receio de ser desagradável naquele momento tão delicado.
- Para evitarmos que ele cometa um acto impensado contra ele mesmo ou contra vocês - respondeu o psiquiatra.
Albert necessita ser vigiado por uma equipe de profissionais que possa mantê-lo sobre controle.
- Ainda não entendo o que o senhor quer dizer - replicou Iolanda.
- Calma, minha querida mãe - pediu o filho com carinho, para não aborrecer Iolanda.
Eu esperava exactamente essas respostas, quando pedi para chamar o Dr. Maurício.
Agora que tudo foi esclarecido, vou chegar exactamente onde eu queria.
- Então, pelo amor de Deus!
Fale logo, meu filho! - pediu a mãe, aflita e nervosa.
- Calma - insistiu o filho com um sorriso, tentando apaziguá-la.
Hugo ergueu-se e foi até a janela, observando um ponto qualquer no belo jardim que rodeava a mansão, enquanto vislumbrava o Sol desmaiar no horizonte.
Voltou a sentar-se e notou que os convidados estavam impacientes, talvez com medo do que pairava sobre a mente de cada um deles.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 25, 2016 9:37 am

- Edvaldo, eu soube que você é espírita - disse ele repentinamente.
- É verdade, Hugo.
- Minha mãe também me disse que vocês estão tentando ajudar meu pai, através das informações transmitidas pela Doutrina Espírita.
Edvaldo olhou para Iolanda, como a lhe perguntar algo com o silêncio de um olhar, e fez um gesto afirmativo com a cabeça, confirmando:
- Realmente, temos tentado ajudar o Dr. Albert em nossas reuniões.
- Conseguiram algo?
- Quando seu pai foi internado pela primeira vez, conseguimos que ele se livrasse temporariamente da influência dos espíritos sofredores e, talvez, de seus perseguidores de existências passadas.
- E porque ele piorou quando teve alta e voltou para casa? - perguntou Hugo, demonstrando um vivido interesse pelas respostas do funcionário das empresas da família.
- Convidamos seu pai a participar das reuniões no centro espírita, porém, ele se recusou a ir, além de criticar e gritar para todo mundo que não acreditava nessas bobagens - respondeu o rapaz.
Não se passou muito tempo e ele teve que voltar para o hospital completamente manietado, pois parecia um alucinado.
Augusto pediu licença com um gesto de mão e falou meio temeroso de ser criticado:
- Ainda não me considero espírita, todavia acredito no Espiritismo disse ele.
A mamãe volta para casa amanhã, pois o médico disse que não há mais motivo para ela continuar internada.
- Vocês buscaram recursos no Espiritismo, para cuidar de dona Isabel? - perguntou Hugo.
- Exactamente - confirmou Augusto.
Graças a Deus, a mamãe está muito bem e parece que até os problemas causados pela morte da minha irmã estão sob controle.
Vendo que os presentes mantinham-se em silêncio, ele aproveitou para falar um pouco mais sobre sua família, pois talvez isso ajudasse o amigo em sua tarefa.
- O papai, que estava se entregando ao vício da bebida, conseguiu se recuperar e tomar conta dos negócios da família.
Enfim, o enorme desequilíbrio causado pela tragédia que se abateu sobre nós, aos poucos está deixando de existir.
Com calma e fazendo algumas anotações em uma agenda, o Dr. Maurício perguntou:
- Você atribui a melhora de seus pais ao Espiritismo?
Augusto pensou:
"Tenho que tomar cuidado com essa resposta, pois esse médico é um especialista no assunto".
- Em parte, sim - disse Augusto.
Mas não podemos nos esquecer de que a clínica de repouso foi imprescindível na cura de minha mãe, pois ela também precisava ser acompanhada por profissionais da área.
- Mas a cura propriamente dita, você atribui à fé de vocês nos espíritos? - redarguiu novamente o Dr. Maurício, tentando fazer pressão sobre o dentista, talvez para fazê-lo cair no ridículo.
Augusto encarou o amigo Hugo e respondeu calmamente, agora, olhando directamente para o psiquiatra:
- Sim.
- Augusto, eu o conheço desde a época de faculdade; por isso, não posso crer que você está desprezando a ciência em detrimento de uma fé utópica.
Silêncio.
O filho do empresário ora olhava para o amigo Augusto, ora para o Dr. Maurício, tentando compreender as minúcias daquele diálogo, pois também havia estudado a Doutrina Espírita e era médico.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 25, 2016 9:37 am

- Maurício, você está enganado - rebateu Augusto.
Sim, acredito na ciência; entretanto não posso renegar uma Doutrina que tem ajudado muita gente.
Nós a ignoramos por desconhecer esse outro lado.
- A qual lado você se refere?
- A religião, à fé em Deus.
Nada podemos fazer sem o aval do nosso Pai.
- Meu amigo Augusto, eu também acredito em Deus, mas devemos tomar cuidado para não cairmos em histórias sem o devido aval da ciência do homem - também rebateu o Dr. Maurício.
Edvaldo pigarreou e pediu licença para falar.
- Sou administrador de empresas e secretário de confiança da família do Dr. Albert - disse Edvaldo, tentando se expressar de maneira que todos entendessem sua mensagem.
- Todavia, isso não me isenta de procurar um amigo que seja formado em outras áreas, para ajudar-me a compreender alguns problemas que fogem à minha formação académica.
- O que você quer dizer com isso? - perguntou o Dr. Maurício, demonstrando uma certa irritação.
- Que a ciência precisa aliar-se urgentemente à religião, para conseguir êxito nos vários casos complicados que os profissionais da área se deparam, porque acreditam apenas neste mundo material - respondeu Edvaldo.
O que a ciência descobriu, há cinquenta anos, hoje está completamente obsoleto, porém os ensinamentos do nosso Mestre Jesus, que esteve na Terra há mais de vinte séculos, continuam os mesmos até os dias de hoje.
Todos ficaram em silêncio.
A noite havia chegado e a reunião prosseguia, pois o assunto era empolgante do ponto de vista religioso e científico.
Foi servido um lanche e logo depois os presentes voltaram a conversar.
Quando Edvaldo falou no nome de Jesus, houve uma imediata transformação no ambiente.
Todos se acalmaram e ficaram com os corações mais solidários.
Houve até quem sorrisse, enquanto brincavam uns com os outros.
Ninguém percebeu que na sala estava presente o espírito Domingos, mentor espiritual do Dr. Hugo, saturando o ambiente de energias fluídicas benéficas, tornando-o mais leve e receptivo às informações acerca da Doutrina Espírita.
O Dr. Maurício, que já estava mais à vontade e com a feição descontraída, pensava com mais cuidado sobre o assunto, tendo em vista que ele também tinha suas dúvidas a respeito da doença do Dr. Albert.
- Augusto, quem participa desse grupo que estuda o Espiritismo com você? - perguntou ele.
- O meu pai, o Dr. Jacinto e a minha mãe, que tem se dedicado à compreender a Doutrina Espírita, mesmo estando internada.
- O Jacinto? - o Dr. Maurício perguntou surpreso.
Aquele que é o director responsável pela clínica onde sua mãe está internada?
- Ele mesmo, doutor.
- Acho muito perigoso um médico conhecido como o Dr. Jacinto se envolver com coisas não validadas pela comunidade científica - disse o Dr. Maurício, erguendo-se visivelmente preocupado.
O que o público vai pensar a respeito das clínicas especializadas para tratamento de doentes mentais, se os próprios médicos buscam recursos em algo abstracto?
- Não vejo perigo algum e muito menos acredito que o público criticará um nosocómio qualquer, simplesmente em virtude da religião de seus pacientes - comentou Augusto.
Até porque, hoje em dia, os hospitais aceitam de bom grado que os religiosos visitem os doentes, principalmente aqueles que estão em estado grave.
Alguns médicos descobriram que os doentes que tem fé nas palavras dos religiosos recuperam-se com mais rapidez - Edvaldo deu sua opinião.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 25, 2016 9:38 am

Hugo sinalizou, pedindo licença para falar.
- Meus amigos, sou médico e passei um longo tempo tentando esquecer aquele fatídico dia, no qual a Carla se suicidou.
Voluntariamente me exilei numa pequena cidade do interior, onde aprendi muitas coisas que não são ensinadas em clínicas de luxo e nos bancos académicos das grandes cidades - disse o filho de Albert.
Os presentes ouviam com atenção o jovem médico.
- Meu amigo Augusto, antes de viajar, presenteou-me com um livro intitulado "Nosso Lar", ditado pelo espírito André Luiz e psicografado pelo médium Francisco Cândido Xavier - prosseguiu o filho de Albert.
Graças a esse livro pude entender muitas coisas, inclusive que a morte só existe em relação aos nossos corpos físicos, pois o espírito é imortal, conforme o autor do livro.
Na época, mesmo acreditando nessas verdades, eu ainda tinha muitas dúvidas.
- Quer dizer que, agora, você concluiu que esse livro não passa de uma história esquisita, sem nenhuma comprovação científica? - indagou o Dr. Maurício.
Hugo sorriu e respondeu-lhe com a calma e a firmeza de quem sabia o que dizia:
- Ao contrário, Dr. Maurício.
Agora, não questiono mais essa Doutrina e creio piamente em seus princípios básicos - disse Hugo.
Foi através dela que cheguei à conclusão de que o meu pai realmente não é um alienado.
E isso, foi o senhor mesmo que confirmou.
- O que o fez ter essa certeza? - perguntou Dr. Maurício.
- Li todas as obras básicas da Doutrina Espírita - disse o médico.
Estudei e percebi, mesmo não sabendo explicar como, que o meu pai é um obsedado, ou seja, ele está sob influência de espíritos perversos ou doentes, que o desequilibraram completamente.
- Quer dizer que o seu pai não precisa mais de acompanhamento psiquiátrico?
- Não é isso que quero dizer, doutor.
- Então, o que é?
- Meu pai e dona Isabel são portadores de faculdades desconhecidas pela ciência.
- Você quer dizer que eles sentem ou têm contacto com o mundo espiritual - completou Augusto.
- Exactamente isso.
Eles vêem, ouvem ou sentem o que uma pessoa comum não sente.
- Por isso ficam desequilibrados, quando entram em contacto com o mundo extra-físico, onde vivem os espíritos de pessoas que já morreram - comentou Edvaldo.
- Então, além de possuir essa faculdade da qual vocês falam, seu pai também tem muitos inimigos de existências passadas? - indagou o Dr. Maurício, com os braços cruzados e um ar desafiador.
- É verdade - confirmou o Dr. Hugo.
Mas não esqueçam de que tudo começou quando a Carla se suicidou.
- Você quer dizer que a minha irmã é um dos espíritos que perturbam o seu pai? - perguntou Augusto.
- Ela não só o perturba, como tem razão para fazê-lo - afirmou Hugo.
Lembra-se das circunstâncias que a levaram ao suicídio voluntário?
O Dr. Maurício ergueu-se e disse:
- Pessoal, acho que entendi o chamado do Hugo e confesso que estou inclinado a acreditar no que ouvi de vocês, espíritas.
Iolanda também se levantou e se aproximou do médico, perguntando-lhe:
- E quanto ao meu marido?
- Vou observá-lo mais alguns dias e depois darei alta para ele vir continuar o tratamento em casa, pois não adianta deixá-lo internado.
Talvez, em casa, com a ajuda da família e a fé de vocês, o Albert consiga ficar curado desse desequilíbrio que o acometeu.
O Dr. Maurício, Edvaldo e Augusto despediram-se e foram embora.
Hugo abraçou a mãe com carinho e disse-lhe preocupado, enquanto passava a mão em sua cabeça:
- Mãe, eu vou visitar o papai amanhã cedo.
- Vou com você, meu filho.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 25, 2016 9:38 am

Capítulo XXII - Trama dos espíritos maléficos
Enquanto isso, no mundo espiritual, mais precisamente em uma cidade localizada na zona umbralina, lugar aonde os espíritos sofredores e malévolos se encontram conforme as afinidades de cada um, um grupo aterrorizante estava reunido.
Em uma caverna envolvida por um clima denso, quase escuro, e que exalava um cheiro pútrido, semelhante aos odores de um pântano, Patrik conversava com vários amigos mal encarados, com ares desequilibrados e doentios.
Numa cadeira improvisada, construída de pedras e ossos de animais, estava sentado um ser que personificava o mal, pois tudo nele cheirava a ódio e a desprezo pelos outros.
Coberto de sujeira, ele trajava roupas esfarrapadas de épocas remotas e demonstrava nas feições demoníacas uma visível impaciência, esmurrando o ar com um aspecto asqueroso e animalesco, enquanto fuzilava com o olhar aqueles espíritos subordinados à sua autoridade.
- Chefe, precisamos acabar imediatamente com o Albert, pois a família dele está se mobilizando para protegê-lo - disse Patrik, com receio daquele espírito demoníaco, dono de um poderoso e maléfico magnetismo.
O homem que estava sentado na cadeira improvisada como trono - se é que podemos considerar aquela criatura um ser humano -, era o chefe daquele grupo de celerados do além.
Navarro, o chefe, pensou e fez um esgar com a boca, como se tivesse nojo de tudo que o rodeava.
- Navarro, o que você vai decidir? - perguntou novamente Patrik, preocupado com uma possível punição em virtude de sua insistência.
- Hoje, acompanhei o Dr. Maurício à casa de Albert e presenciei uma reunião convocada pelo filho dele - disse Louis, que também estava naquela macabra caverna.
Navarro permaneceu calado e apenas rosnava como um animal quando algo o incomodava.
Todavia podia se notar que aquele ser bestial era bastante astuto e dono de uma inteligência privilegiada voltada para o mal e utilizada para dominar os mais fracos, como aqueles que o rodeavam.
Navarro ergueu-se e todo mundo emudeceu.
Ele tinha quase dois metros de altura, empunhava uma espada medieval nas mãos, apresentava um corte profundo no pescoço, como se tivesse sido degolado, e sua cabeça tentava equilibrar-se no pescoço a qualquer custo.
- Patrik! Ordene aos homens que deixem o canalha do Albert ir para casa e, durante alguns dias, ninguém deve interromper o trabalho que o filho dele fará para tentar salvá-lo! - ordenou o chefe, com uma careta que escondia um sorriso irónico.
- Chefe, é perigoso deixar o patife do Albert solto.
Ele pode recuperar-se com a ajuda daquele pessoal "bonzinho" e nunca mais teremos uma chance como esta - alertou Patrik com muito cuidado, para não irritar aquele ser doente e afastado de Deus.
- Deixe de ser burro, seu verme! - gritou Navarro, deixando escorrer pela boca uma gosma amarela.
Aquele traidor conseguiu afastar de si, por muito tempo, os "anjos protectores"!
- Concordo com o chefe - disse Louis.
Além disso, aumentamos o número de inimigos em cima daquele monstro - explicou, apontando para Carla, que estava deitada num canto da caverna, gritando de dor.
- Cuidado com essa mulher - alertou o chefe.
- Por quê? - perguntou Louis.
- A qualquer momento ela pode ser levada para um lugar de difícil acesso para nós - disse Navarro, passando a mão na velha espada e olhando para a médica.
Navarro era o chefe daquela falange de espíritos maléficos por sua inteligência e crueldade.
- Chefe, essa mulher está completamente dominada por nós; além disso, temos a nosso favor o ódio que ela nutre pelo Duque - completou o espírito Louis.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 25, 2016 9:38 am

- Foi ele que provocou a vinda dela para o nosso mundo, antes do tempo - confirmou Patrik.
Navarro continuava em pé, com olhar perdido em algo que somente ele via.
De repente fitou o subchefe Patrik e disse-lhe, com uma voz cavernosa e firme:
- Essa mulher é muito mais perigosa do que você pensa.
Silêncio.
- Por que a Carla é tão perigosa assim, chefe? - perguntou Patrik, curioso.
Navarro passou a mão na boca, tentando limpar a baba que escorria continuamente, e sentou-se em sua cadeira, demonstrando todo seu poder sobre aqueles pobres coitados.
- Ela foi a querida filha única do Duque Antoine, hoje Albert - disse Navarro cuspindo a baba amarela no chão.
- Não é possível, chefe! - espantou-se Patrik.
- Ela teve a ajuda de seus amigos do bem, após ter sido assassinada a chicotadas, pelo Duque Antoine, seu pai na época - disse Navarro, novamente cuspindo de lado.
Mas a nosso favor, não se esqueçam de que nessa última existência ela pôs fim à sua própria vida.
Enfim, ela teve essa e duas outras existências, após ter seu corpo material destruído pelo Duque de L.
- Então vamos despachá-la para outro lugar, pois a qualquer momento, podemos sofrer uma represália dos amigos dela, que são poderosos e vivem em lugares superprotegidos pelos mensageiros do poderoso "Homem da Cruz" - opinou Louis.
- Não.
- Porquê? - indagou Patrik.
- Por enquanto ela nos poderá ser útil, fornecendo-nos informações sobre aquele nojento - respondeu o chefe, passando a mão no nariz, como se espantasse um insecto invisível.
- Entendi, chefe.
O espírito Louis passava frequentemente a mão na cabeça, demonstrando bastante preocupação.
- Parece que você está preocupado, Louis - comentou Patrik.
- É verdade - confirmou Louis.
Estou aqui pensando...
Porque o chefe ordenou para cessar o assédio sobre o diabólico Albert?
Navarro encarou o subordinado com ódio e ele mesmo respondeu a pergunta:
- Sou um guerreiro!
E guerreiros raciocinam estrategicamente, seu idiota!
- E qual seria essa estratégia, Navarro? - perguntou Patrik.
- Deixem a família pensar que ele está curado e que pode voltar para casa - disse Navarro.
Depois de uma semana, voltaremos a influenciá-lo de tal maneira, que ele não suportará a pressão e recorrerá ao suicídio, deixando aquele mundo e caindo em nossas mãos.
Todos ficaram boquiabertos com o que acabaram de ouvir.
- Agora, obedeçam minhas ordens e estão dispensados - disse Navarro, finalizando a reunião.
- E a Carla? - perguntou um deles.
- Por enquanto, deixem-na fazer o que quiser.
Depois faremos do ódio que ela nutre pelo Albert uma ponte que nos levará até o campo da memória perispiritual do invencível Duque de L.
- Agora entendi, chefe - disse Patrik com um sorriso idiota, que mais parecia uma máscara horrenda.
Navarro fitou Carla por um momento e ordenou ao Louis que a trouxesse até os seus pés.
Louis pegou o pobre espírito pelos cabelos e o arrastou aos pés do chefe.
- Carla, levante sua cabeça e saúde nosso chefe! - ordenou Louis.
O espírito ergueu a cabeça, olhou para Navarro e, com as mãos ensanguentadas, começou a chorar e a gritar descontrolada.
Navarro ergueu-se com um gesto imponente de seu trono, símbolo do poder máximo sobre aqueles espíritos desesperados, sofredores e malévolos, e gritou:
- Antonieta!
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 25, 2016 9:38 am

Depois de tanto tempo encontramos o seu pai e não vai ser agora que vamos perdê-lo de vista novamente! - disse Navarro, segurando Carla pelos cabelos, com os olhos vermelhos de ódio.
- Não sei de quem o senhor está falando - disse Carla.
Por favor, solte-me!
Estou quase desmaiando de tanta dor!
- Já se esqueceu do seu diabólico pai, Duquesa Antonieta?
- Continuo não entendendo o senhor.
Navarro fez um gesto com a mão direita, da cabeça aos pés dela, e perguntou em seguida:
- O que você vê, Antonieta?
Com os olhos fixos, Carla começou a gritar desesperada, como se estivesse sendo surrada.
Espírito inteligente, Navarro magnetizou-a, mostrando o quadro de séculos passados, no qual ela vivera como filha do Duque de L.
- Não vou aguentar mais, meu pai! - disse ela.
Mande parar de me surrar, pois vou morrer e o senhor não vai conseguir o que quer!
- Acabe com ela!
Não quero uma filha desonrada por um plebeu nojento! - ordenou o Duque Antoine, com os braços cruzados e a feição inalterada, pois era mau e de coração frio como gelo.
Carla arregalou os olhos, num misto de dor e surpresa, e deu um grito ainda mais desesperado, desmaiando em seguida.
- Acorde-a! - ordenou o chefe.
Alguém deu um pontapé nas costelas de Carla, o que a fez voltar ao seu estado normal.
Navarro se aproximou dela.
- Lembrou agora, Duquesa, quem é o seu pai?
- Sim. Mas isso já faz muito tempo.
- E você sabe como ele se chama actualmente?
- Sim. Ele é o Albert, pai de Hugo, meu namorado.
- Lembra-se também de Hugo?
- Sim. Ele foi um homem de confiança do meu pai, porém, como era plebeu, meu pai, o Duque de L., mandou surrar-me até a morte e acabou com a vida de meu bem amado Jean, o Hugo de hoje.
Navarro voltou a sentar-se em sua defectiva cadeira e ficou em silêncio.
Carla chorava baixinho, principalmente agora, que havia se recordado de sua existência como filha do Duque de L.
- Está disposta a cooperar para acabar com o Albert, seu pai e algoz de ontem?
A mulher ficou pensativa.
- Não sei.
Agora não tenho mais certeza se desejo vingar-me, pois ele foi meu pai.
Lembro-me de tudo e de que fui a Duquesa Antonieta, filha de Antoine.
Acho que não tenho mais coragem para concretizar minha vingança.
- Por quê?
- Acho que amo esse homem, não sei se como pai.
Estou confusa...
Carla recebeu no ventre um chute do cruel e sanguinário Navarro.
Ela se contorceu de dor e gritou com tanta força, que o eco repercutiu na caverna e apavorou os espíritos comandados por Navarro, que tremeram de medo daquele representante das entidades maléficas.
- Estou esperando uma resposta, Duquesa - disse o chefe como se nada tivesse acontecido.
E deixe de sentimentalismo bobo, pois esse asno não merece outra coisa, a não ser sofrer mais ou como nós.
- Quem é o senhor? - perguntou Carla.
- Fui o Duque Navarro, chefe da guarda real naquela época, porém o rei mandou degolar-me a pedido de seu pai, que era poderoso e temido, inclusive, pelo próprio soberano - respondeu Navarro.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 25, 2016 9:38 am

Para desgraça de seu pai, não morri, como muitos pensaram e continuam pensando.
Estou neste mundo sem um corpo físico, mas nada me impede de lutar para continuar vingando-me desse miserável.
- Por que você diz que continua se vingando dele? - perguntou Carla, como se estivesse com pena de Albert.
Navarro começou a andar pelo minúsculo espaço da caverna, chutando tudo que aparecia em seu caminho.
Sentou-se e respondeu-lhe com ódio, encarando-a friamente:
- Aquele crápula já teve outra existência, após ter sido enforcado por traição pelo novo rei, na época em que foi seu pai.
O chefe ficou pensativo e disse, com um sorriso esquisito de satisfação:
- Ele teve uma existência terrível, pois optou por ser um pirata que matou muita gente nos mares do sul, saqueando os navios da coroa britânica.
- Onde você entra nessa história?
Navarro gargalhou, como se pela primeira vez alguém o fizesse rir, depois de tantos séculos pensando em uma maneira terrível de se vingar do inimigo Antoine.
- Assumi o comando do navio dele e o levei a enfrentar uma armada enviada pela coroa, que o capturou e o levou para a Inglaterra.
Gemendo de dor, Carla conseguiu perguntar:
- Como você assumiu o comando do navio?
- Eu o influenciei a enfrentar a armada enviada pela coroa britânica.
- Se o senhor não o tivesse influenciado a enfrentar a armada da coroa, o que ele teria feito?
- Fugido - respondeu Navarro.
Ele teria conseguido fugir, pois era um profundo conhecedor dos mares.
- E o que aconteceu com ele na Inglaterra?
Navarro pensou e respondeu satisfeito:
- Após sofrer vários dias de fome, sede e escárnio da população, fora enforcado e os restos do seu corpo físico jogados às feras de um circo.
Carla deu um grito horrível, que ecoou por toda a cidade umbralina, e começou a chorar, desmaiando de dor logo após.
Navarro encarou Patrik desconfiado e fez um gesto para que a levassem dali.
Ele já estava perdendo a paciência com aquele tipo de conversa.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 25, 2016 9:39 am

Capítulo XXIII - Influência dos espíritos maus
Albert teve alta da clínica.
Homem estudioso e profundo observador das reacções humanas, o Dr. Maurício meditava em seu consultório sobre seu paciente, mormente por ele ter conseguido uma melhora considerável em menos de vinte e quatro horas, após a conversa que tivera com o filho dele, juntamente com Iolanda, Edvaldo e Augusto.
Albert chegou em casa, acompanhado pelo filho e pela esposa e estava calmo.
Após tomar banho e descansar um pouco em seu quarto, foi para o escritório conversar com seu secretário, aproveitando a prosa para tomar conhecimento a respeito do andamento dos negócios.
Edvaldo não estava à vontade, pois notara que apesar da aparente calma do patrão, pairava no ar um clima diferente, embora ele não soubesse explicar porque sentia isso.
Albert foi restrito ao falar com Hugo.
Era perceptível que o mesmo mantinha uma certa distância, evitando fazer um contacto mais íntimo, como seria o normal entre pai e filho.
Não perguntou o que o médico fizera durante o tempo que ficara ausente e nem se interessou em saber como ele estava.
Antes dos primeiros raios de sol anunciarem o fim da noite, Albert acordou e, mesmo pensando em ficar de repouso, resolveu erguer-se da cama e fazer sua higiene matinal.
Bem disposto foi passear pelo imenso jardim, aproveitando para aspirar o perfume que exalava das flores, por ocasião do nascimento de um novo dia.
Em sua caminhada, ele encontrou o filho concentrado na leitura de alguns documentos.
Após cumprimentá-lo, Hugo tentou conversar com ele; entretanto o pai deu-lhe as costas e continuou seu passeio, ignorando-o por completo.
O café da manhã transcorreu num clima ameno e silencioso e tudo indicava que Albert estava evitando qualquer tipo de conversa com a família.
Às nove horas, o empresário se encontrava sentado em uma confortável cadeira de espaldar alto, atrás de sua escrivaninha, folheando alguns documentos sob o olhar atento do secretário.
"Acho que o Dr. Albert está curado", pensou Edvaldo.
"Só acho muito estranho a rapidez com que essa cura se deu", concluiu.
- Edvaldo.
- Sim, patrão?
- Vou descansar durante uns dias e só depois passarei a assinar e a verificar pessoalmente os negócios, principalmente a situação das empresas.
- Certo, senhor.
Albert ergueu-se e foi ler jornal em uma outra sala, deixando o funcionário de confiança trabalhando.
Iolanda ligou para o secretário e perguntou, com voz preocupada:
- O que você acha, Edvaldo?
- Ele parece estar muito bem, senhora.
Mas não estou gostando dessa calma.
- É assim mesmo.
Talvez, aos poucos, esteja voltando ao seu estado normal; afinal de contas, ele ficou sob o efeito de medicamentos por vários dias.
Lembre-se, meu amigo, que os tais remédios eram tranquilizantes fortíssimos.
- Concordo.
Iolanda desligou.
Hugo ouviu aquele diálogo entre a mãe e o secretário e aproveitou para perguntar:
- O que o Edvaldo está achando?
- Ele acha que seu pai está muito bem, embora não esteja gostando da súbita calma dele.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 25, 2016 9:39 am

- Também não estou gostando disso.
À tarde, Iolanda pediu licença e adentrou a sala onde o marido lia um livro.
Sentou-se e notou que Albert não parou de ler, porém, sem erguer a vista, perguntou:
- Você quer alguma coisa?
- Sim. Quero lhe fazer um convite.
- Estou ouvindo - disse-lhe o marido, mantendo o olhar no livro.
A mulher estava com receio da reacção de Albert, quando o convidasse para frequentar uma reunião espírita.
- Estou esperando, Iolanda - disse Albert, tirando os óculos e encarando a mulher.
- Albert, você sabe por que está melhor?
- Sim. Estou bem, porque nunca estive doente - respondeu o marido.
Aquele teimoso do Dr. Maurício só me internou por causa do meu nervosismo, causado por stress de trabalho.
- Concordo - disse Iolanda.
Mesmo assim, posso fazer-lhe um convite?
- Sim.
- Vamos assistir à uma reunião no centro espírita, que eu, Edvaldo e o Hugo estamos frequentando?
Albert ergueu-se com o rosto vermelho, pôs o livro sobre uma pequena mesa e aproximou-se da mulher.
- Iolanda, não acredito nessas bobagens - disse ele.
Só creio em duas coisas neste mundo: dinheiro e poder.
Albert pegou o braço da mulher com firmeza e ordenou-lhe:
- Saia de minha sala e deixe-me em paz!
Só acredito no que sou e possuo, entendeu?
Ao ouvir o marido, Iolanda tremeu como se aquelas palavras tivessem selado algo em definitivo para aquele ser humano orgulhoso.
Num canto da sala, os espíritos Louis e Patrik riam satisfeitos, enquanto Carla chorava.
- Por que você está chorando, Carla? - perguntou-lhe Patrik.
- Eu não concordo com a armadilha que vocês estão preparando para o meu pai.
Ele não merece.
Sei que foi e continua mau, mas já fez muito bem neste mundo, até mesmo sem saber.
Os espíritos obsessores riram novamente, como se tivessem ouvido uma piada.
Iolanda saiu correndo pelos corredores da mansão e entrou em seu quarto chorando e pedindo perdão a Deus pela ignorância do marido.
Após cinco dias, Albert entrou no escritório e cumprimentou o secretário, que já estava trabalhando.
- Edvaldo, por favor, ponha sobre a minha mesa todos os documentos que foram assinados pela Iolanda, durante a minha ausência - ordenou Albert.
- Sim, senhor.
Neste momento, os espíritos Patrik e Louis adentraram a sala puxando Carla pelos cabelos e a jogaram no chão, ao lado da cadeira de Albert.
- Agora, cadela, chegou a sua vez de trabalhar!
- Não farei isso!
Nem bem terminou de falar, Patrik agarrou-lhe os cabelos e a esbofeteou.
- Vocês podem me surrar à vontade, pois sei que mereço, por não ter contido o meu orgulho e atentado contra a minha própria vida.
Nesse momento Navarro apareceu, acompanhado por dois seguranças animalescos.
- Ou você cumpre as minhas ordens ou vamos acabar com a sua família - disse Navarro, rosnando.
Nosso alvo é esse miserável, mas podemos mudar os planos a qualquer momento.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 25, 2016 9:39 am

- Meus pais não merecem!
Isso é uma injustiça! - gritou Carla, completamente atormentada.
Navarro agarrou o pobre espírito pelos cabelos e passou a mão nos olhos dela, num gesto de quem sabia exactamente como magnetizar uma pessoa.
- Veja quem foram os seus pais atuais numa época não muito distante - disse Navarro rosnando como um animal.
- Não é possível! - gritou Carla.
O meu pai não foi isso que estou vendo!
Você está mentindo!
- Esse vagabundo do Edmundo e a cadela da Isabel foram verdadeiros mercadores do sexo e do aborto, portanto, não tenho nenhuma dificuldade em dominar-lhe as mentes.
- Não faça isso! - gritou Carla.
Prometo que cumprirei suas ordens!
Carla ficou atrás de Albert e se pôs a entrar em sintonia com a mente dele.
O pai de Hugo começou a passar mal, pois passou a absorver o sofrimento do espírito.
Ele tirou os óculos e perguntou ao secretário, passando a mão no rosto:
- Quem deu ordens para Iolanda assinar esses papéis?
Edvaldo ficou com medo, pois tudo indicava que o patrão não tinha conhecimento da ordem judicial que fora expedida em favor de Iolanda.
Tentando contemporizar a situação, ele falou.
- Chefe, o senhor sabe que na sua ausência, é a vice-presidente, sua esposa, quem assume o seu lugar nas empresas.
- Mas por um tempo determinado, a não ser que seja constatado algo que legalmente impeça o presidente de assumir definitivamente o controle da empresa.
- Certo, chefe - disse Edvaldo, entendendo que o patrão não sabia da interferência da Justiça no caso, que o julgou temporariamente incapaz de gerir os negócios da família e deu plenos poderes à Iolanda.
Edvaldo fitou o patrão e narrou toda a história, desde o afastamento do mesmo da presidência das empresas, por motivos de saúde.
Em seguida, estendeu uma documentação para ele.
Albert pegou os documentos e ia mudando de cor à medida que os lia, empalidecendo como se estivesse doente.
Ergueu-se lentamente, com o semblante transfigurado de ódio, pois a acção perturbadora dos espíritos Carla, Patrik e Louis deixava-o, aos poucos, completamente fora de si, e gritou:
- Iolanda!
Iolanda correu para atender ao chamado do marido e perguntou:
- O que houve, Albert?
Edvaldo olhou para a mulher e disse-lhe:
- Ele leu o documento no qual a Justiça lhe concedeu permissão para assumir a presidência das empresas.
Albert partiu em direcção a mulher e com a mão direita deu-lhe um tapa no rosto, perguntando-lhe:
- Quem permitiu tudo isso?
- Isso o quê? - perguntou Iolanda, querendo ganhar tempo.
- Que uma comissão de médicos me julgasse mentalmente inapto para dirigir minhas empresas?
A mulher abriu a boca para explicar, mas não conseguiu, porque recebeu outro tapa.
- Albert, acabe com esta safada!
Não se esqueça de que você é a maior autoridade do reino! - berrava o espírito Patrik.
Você se esqueceu de que é o Duque mais temido dessas redondezas?
Albert caminhava descontrolado pelo escritório.
Quando se dirigiu novamente à mulher, encontrou o filho encarando-o e erguendo a mãe, que havia caído no chão.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

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