Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Página 1 de 4 1, 2, 3, 4  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 16, 2016 7:35 pm

A FLOR DO PÂNTANO
Wera Krijanowskaia

J. W. Rochester

I.

Era uma calma noite de agosto.
Em um grande terraço da vila Koleoni, em Mónaco, serviam a mesa para o chá da noite, e a dona da casa observava pessoalmente e com atenção os preparativos.
Emília Karlovna Koleoni era uma mulher chamativa, em torno dos cinquenta; o rosto branco e limpo, com traços amáveis, preservava as marcas da sua beleza, os seus grandes olhos azuis representavam uma bondade extraordinária, e somente o cabelo branco e prateado revelava a chegada do envelhecimento.
Ela era nascida baronesa Farnrode; e o seu casamento com um modesto pintor acarretara a insatisfação geral e o rompimento quase total com a família.
Embora cerca de oito anos após o falecimento do marido, tivesse feito as pazes com os parentes, graças aos esforços do seu sobrinho, o barão Reimar, o qual simpatizava muito com ela e com o seu falecido marido, mesmo assim, com alguns membros da família, especialmente com a esposa do seu irmão, nascida condessa Zemovetskaia, as relações continuavam tensas.
No entanto, este esfriamento dos parentes não preocupava nem um pouco Emília Karlovna; o seu marido deixara uma boa fortuna, que lhe garantia o sustento, e uma bela mansão cercada de jardins, onde ela morava, ocupando o térreo e alugando o andar superior para estrangeiros.
— Será que o barão já voltou do passeio, Marieta? — perguntou ela à empregada italiana que punha à mesa o serviço de chá.
— Sim, senhora, o barão voltou há cerca de meia hora e está no seu aposento.
— Então vá e convide-o para o chá.
Ao colocar as flores no vaso, mais uma vez olhou a mesa: servida com louça fina, baixela de prata antiga e pesada, e recheada de abundantes e apetitosos biscoitos frescos, de manteiga, queijo e frios de caça.
Mal Marieta cumpriu a sua ordem, a porta da sacada se abriu e no terraço adentrou o sobrinho de Emília Karlovna.
— Boa noite, tia.
Me perdoe, parece que fiz você esperar? — perguntou ele, beijando a sua mão.
— Nem um pouco, meu querido. Eu e Marieta terminamos agora os preparativos.
O barão Reimar Farnrode era um homem alto, de compleição encorpada, mas bem proporcionado.
A maneira fria e até desdenhosa de se comportar abrandava com a expressão amistosa.
Seus grandes olhos azuis brilhavam com inteligência e energia; sob o bigode fino havia uma boca bem contornada e cheia de dentes deslumbrantemente brancos.
Havia dois meses o jovem barão hospedava-se na mansão Koleoni e já começava a falar sobre a sua partida, mas a tia ainda conseguia retê-lo, cercando-o de carinho e empanturrando-o com os seus pratos favoritos.
Sentados à mesa, o sobrinho e a tia tagarelavam com animação.
Nesse instante uma carruagem parou ao lado do portão de ferro fundido do jardim, e logo de dentro da casa, uma criada, que usava uma coifa elegante, correu ao encontro dela, atravessando o jardim e começando a ordenar algo para o cocheiro.
— Adaurova novamente prepara-se para ir a Monte Cario.
Que jogo arriscado ela joga!
Olhe bem, tia, para não ficar com a lembrança agradável de que hospedou essa beldade — sorriu o barão, e comentou colocando um pedaço de caça sobre o seu prato.
— Quanto a isso estou tranquila:
ela me pagou quatro meses adiantados.
De quem eu tenho dó é de Marina. Coitada da menina dá uma impressão penosa:
em seus olhos há tanta tristeza e cansaço.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 16, 2016 7:36 pm

Mas como ela é boa:
boa até demais para o ambiente em que vive.
Por outro lado, comparada a sua mãe, ela perde e muito, porque a outra é deslumbrantemente bela.
Uma mulher perigosa.
O barão ficou vermelho.
— Ambas são perigosamente belas, a única diferença é que uma ainda não se deu conta da sua sedução, enquanto a outra abusa dela!
Em geral, a mãe é uma pessoa suspeita.
Você não sabe se ela tem alguns recursos ou todas estas carruagens e vestidos luxuosos são pagos pela generosidade do meu caro primo Zemovetski?
Neste caso ela vai custar muito a ele.
Isto me interessa por causa dos meus alguns, mesmo que duvidosos, direitos à herança — desatou a rir o barão.
— Eu não acho que sua avó permita isto já que a questão é dinheiro; a condessa Yadviga tem uma mãozinha forte, não dá para fazer muita farra — respondeu sorrindo a tia.
No que se refere à vida privada de Adaurova, eu sei pouco; algumas colocações de Marina e também as estórias, talvez um tanto embelezadas, de uma senhora russa que mora na mansão Balmor, que assegura que as teria conhecido.
— Conte, conte para mim, tia.
Eu gostaria de constatar uma suposição, que me veio à mente há pouco... — Ele parou no meio da frase, porque a porta de entrada se abriu, duas damas desceram do terraço de entrada e dirigiram-se à carruagem que as esperava.
Uma delas, com uns trinta e cinco anos, era na extensão da palavra uma bela mulher.
Um vestido rendado preto e grande chapéu negro com penas acentuavam fortemente a brancura de mármore do rosto e os laivos metálicos do seu maravilhoso cabelo cinzento.
As feições eram finas e regulares.
Um brilho febril dos lindos olhos e o rubor suave das faces davam impressão de algo doentio.
Nas suas mãos havia uma capinha bordada a ouro e um saquinho incrustado de nácar.
Ela conversava a meia voz com a sua filha, a qual caminhava ao seu lado, uma jovem esbelta de dezassete anos.
O volumoso cabelo cinzento, como o da sua mãe, rodeava um rostinho encantador; e até os seus lábios finos, com seu arquear bonito mas pronunciado, pareciam rosas de cor muito clara.
Toda a vida deste rosto puro como porcelana concentrava-se nos olhos contornados de cílios longos e volumosos.
A expressão do rosto era pensativa, quase severa.
Ela usava um vestido azul de cambraia e um grande chapéu de palha, enfeitado de rosas-chás.
— E para que ela leva consigo a filha à essa espelunca, onde a moça é obrigada a assistir como Stanislav namora-lhe a mãe? — comentou o barão com desgosto e carregando as suas sobrancelhas.
Em seguida, levantou-se e apoiado na balaustrada da sacada olhou como as mulheres entravam na carruagem.
— Tia, você queria me contar sobre Adaurova, — disse Reimar, ao sentar novamente à mesa.
Veja, uma de minhas primas, Juliana Tchervinskaia, está casada com um tal de general Adaurov, que parece ter se divorciado da sua primeira mulher.
Será que esta esposa divorciada e a sua inquilina são a mesma pessoa?
— Você conhece o general?
— Não, eu não me encontrei com ele, nem vejo Juliana há pelo menos dez anos.
Ela foi educada em Varsóvia, e eu não pude comparecer ao seu casamento pois naquele momento o meu pai estava à morte.
— A sua suposição possivelmente está correta.
Marina somente me aludia ao passado da sua mãe, mas, em compensação, a madame Chvaneman, aquela senhora russa, sobre a qual falei com você, contava para mim várias coisas sobre Adaurova.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 16, 2016 7:36 pm

Você sabe que os russos não costumam poupar os seus; aliás ela contou que Adaurova foi vítima de um casamento infeliz.
Ela casou-se por amor ardente, mas seu marido a traía, chegando a amigar-se com a mulher de um marinheiro que fazia um longo percurso.
Esta estória chegou, finalmente, até Nadejda Nikolaevna.
Ao saber que o marido recebia a dona do seu coração no apartamento deles, enquanto ela estava no campo e ele na cidade, supostamente detido pelo seu serviço, ela os pegou em flagrante...
Se ela se preparara antecipadamente, convencida de que pegaria os culpados, ou a arma parou por acaso em suas mãos, não se sabe, mas ela atirou na sua rival.
Somente graças aos seus contactos foi possível evitar o escândalo:
a mulher foi morta e um escândalo não a ressuscitaria.
Depois disso Adaurova exigiu o divórcio e ela ficou com a filha, que naquela época tinha sete anos.
Dizem que a menina teria sido testemunha do assassinato, mas eu não acredito nisso.
Ao ter a sua disposição recursos particulares e bem consideráveis, ela sempre vivia na riqueza e à larga; porém não sei se ela gastou todos os seus bens, ainda que isto seja bem possível em vista de sua paixão pelo jogo.
Pela opinião de madame Chvaneman, ela desatina para abafar o amor pelo marido que ainda não conseguiu esquecer.
Além disso ela é dependente de morfina e usa abusivamente, segundo seu médico o Dr. Morelli.
— Uma história suja, e tem como resultado, uma vida arruinada.
Se este barão é o mesmo ou não, não importa: eu não entendo como um pai se atreve a deixar sua filha nas mãos de tal mãe — observou o barão.
Neste instante Marietta entregou a correspondência da noite, Reimar começou a ler o jornal e a tia desceu para o jardim para controlar a rega das flores e do gramado.
Emília Karlovna terminava o seu passeio pelo jardim, quando o barulho da carruagem, que parou em frente ao portão, atraiu a sua atenção.
Era Adaurova filha que voltava e, ao ver a proprietária, aproximou-se para cumprimentá-la.
— Você já voltou, Marina Pavlovna? — sorrindo, saudou.
Marina parecia estar indecisa.
— Eu somente acompanhei a minha mãe até o cassino.
Eu não posso ficar lá:
a sala é tão barulhenta e abafada que a minha cabeça fica rodando e fico com falta de ar.
Além disso, odeio o jogo, o tinido das moedas e os gritos altos me deixam nervosa.
Por isso eu sempre apenas atrapalho mamãe.
— Você vai ficar em cima sozinha até à chegada da sua mãe?
— Sim, claro. Em casa é tão bom:
é calmo e o ar é tão maravilhoso; eu gosto do silêncio e da tranquilidade.
Eu me sinto tão cansada...
— Não, isto é impossível.
A senhorita vai tomar chá connosco na varanda e, quanto ao seu chapéu e às luvas, eu mando levá-los para cima.
— Agradeço, a senhora é muito boa.
É verdade, é um pouco monótona a nossa casa, quando não há ninguém lá.
Mas a senhora não está só, com a senhora está o seu sobrinho... — indecisa, ela murmurou.
— E daí? Isto não é nenhum problema. Ou você tem medo dele?
São preocupações absolutamente inúteis, ele não é nem um pouco bravo. — Emília Karlovna pôs-se a rir e, ao dar o braço à moça, levou-a até o terraço.
— Trouxe a minha favorita e peço a você, Reimar, distraí-la, enquanto eu estiver ocupada com o jardineiro — ela disse a seu sobrinho, subindo a escada.
Preciso avisá-lo de que ela tem medo de você.
O barão levantou-se rapidamente e foi ao seu encontro.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 16, 2016 7:36 pm

— O que estou ouvindo, Marina Paviovna?
Você tem medo de mim? Por quê?
Jamais me considerei tão horrível assim para assustar as moças — disse o barão, sorrindo alegremente, e segurando na sua a mãozinha estendida para ele.
Ele virou o botão e uma forte luz eléctrica iluminou Marina, que ficou parada ao lado da poltrona, franzina e delicada como uma visão.
Seus grandes olhos aveludados olhavam para ele com timidez e tristeza; até nesse momento seu rosto permanecia pálido.
O barão olhava para ela com admiração e por sua cabeça passou uma ideia:
— "A minha tia está certa, ela é linda!".
— Então, diga a verdade, por que a senhorita tem medo de mim?
Marina sacudiu a sua linda cabecinha.
— Não é exactamente assim, embora o senhor tenha um olhar muito severo.
Eu sei que o senhor nos reprova, especialmente a minha mãe; eu li isso nos seus olhos e além disso tem mais alguma coisa parecida com desprezo — ela deu um suspiro profundo.
O rubor inundou o rosto do barão.
Ele pegou a mão gelada de Marina e apertou-a fortemente.
— Você está exagerando e sendo injusta — ele começou dizer de maneira confusa.
Será que eu posso desprezar um espírito tão inocente como o seu?
Porém quero ser franco:
eu reprovo a sua mãe por levar a filha a esse antro de jogo, casa do diabo; mas só isso, juro a você.
E finalmente, quem me deu o direito de julgá-las?
— Contudo, quem pode impedir o senhor de expor a sua opinião?
Na semana passada eu involuntariamente ouvi quando cruelmente reprovava a minha mãe.
Eu só posso dizer que o senhor não é justo e não sabe que ela é profundamente infeliz e sofre; ela faz tudo isso para esquecer...
O barão ficou mais vermelho ainda, ao lembrar a forma implacável com que se referira à mãe da moça com a tia.
Agora ele sentia vergonha, mas como poderia dizer a Marina que a sua mãe tinha outras obrigações e não deveria ficar somente procurando o esquecimento em loucuras, mesmo que fosse para abafar a dor.
Porém ele saiu da situação.
— Uma mãe deve com todas as suas forças espirituais, todo o amor de que é capaz o seu coração dedicar-se aos cuidados da filha, pois a sua parece não ter tempo para a senhorita.
Mesmo sem querer, fez-se ouvir a reprovação na sua voz, e Marina, que neste instante tirava as luvas, indecisamente olhou para ele.
— Agora novamente o senhor tem essa aparência severa que me dá medo; contudo o senhor está muito errado.
Minha mãe me ama, ela não me deixou ficar sem ela, enquanto o meu pai não me ama e durante dez anos não nos procurou sequer uma vez para me ver.
Uma nuvem de tristeza cobriu o rostinho terno de Marina.
— A senhorita foi educada no seu lar, com a sua mãe?
— Fui educada?
Sim, em todos os lugares um pouco, entretanto, até os meus onze anos estava com a minha mãe.
Eu tinha uma saúde frágil e não podia estudar muito, a minha governanta Suzana ocupava-se mais com o serviço de casa e com as visitas do que comigo.
Muitas vezes me esqueciam e eu dormia vestida em algum lugar numa das poltronas.
Eu tinha toda a liberdade de petiscar quando quisesse, participava dos almoços e jantares quando havia visitas, mas eu, claro, estava entediada.
Todos jogavam cartas, Suzana cochichava com algum oficial que flertava com ela, e às vezes, escondia-me em algum canto e dormia...
Mais tarde a minha mãe me pôs num colégio interno em Genebra, onde eu passei quatro anos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 16, 2016 7:36 pm

Foi uma época feliz da minha vida, lá eu, pelo menos, descansei:
a tempo me levantava e a tempo me deitava, e o que foi mais importante, eu estudava.
Eu gostava de estudar, e todos os professores me tratavam muito bem.
Na primavera passada a minha mãe declarou, concluída a minha educação e foi me buscar no colégio.
O verão nós passamos em Vichi, depois fomos para Biarritz, logo voltamos para Paris, onde a minha mãe mora permanentemente.
O inverno novamente foi muito agitado e cansativo:
somente bailes, teatros, visitas e as reuniões intermináveis com as costureiras.
Era um aborrecimento e não havia nem um minuto de sossego.
E como fiquei contente, quando em fevereiro durante toda a quaresma fui visitar minha tia, a madre superiora de um mosteiro.
Ah! Se o senhor soubesse que tempo maravilhoso passei lá.
Marina animou-se, em seus olhos radiantes acendeu-se o humor exultante.
— Lá eu aprendi a rezar novamente, o que tinha esquecido completamente.
Desde que fui separada do meu pai e minha velha babá, ninguém falava comigo nem sobre Deus, nem sobre prece.
— Como? E no colégio interno?
— Lá as alunas eram protestantes ou católicas, e eu, como ortodoxa, não participava das aulas de catecismo; quanto às orações comuns, elas não me tocavam.
Mas no mosteiro era outra coisa.
Primeiramente, aqui, eu me encontrei com peregrinos, que afluíam de todos os cantos, e frequentemente de regiões distantes, para a adoração dos lugares sagrados.
A fé profunda e firme destes pobres tocava o meu coração.
Depois, uma vida tranquila e um trabalho constante e silencioso no convento tinham um efeito extraordinariamente tranquilizante sobre mim.
Parecia que toda a futilidade secular, todas as paixões e desgraças humanas ficaram lá, longe do muro sagrado e não se atreviam a ultrapassar o portão.
Especialmente bom era estar na igreja durante a missa vespertina:
o templo espaçoso mergulhava numa penumbra misteriosa, as luzes das lamparinas na frente das imagens brilhavam como estrelas através das nuvens de fumaça do incensório, o maravilhoso canto do mosteiro embalava e levava meu espírito da terra e de todas as suas tristezas lá para cima.
Porém a minha felicidade foi curta:
depois de algumas semanas chegou a minha mãe e me trouxe do mosteiro para cá... — Marina suspirou profundamente.
O barão olhava para ela fascinado.
— Você tem saudade do mosteiro? — perguntou ele a meia voz.
— Sim, muita. O senhor me entendeu?
Imagine só, quando eu descrevi tudo isso para minha mãe, ela se pôs a rir estranhamente e disse:
"Que bobagem!
As nossas preces humanas não chegam até Deus e os santos, e por isso é desnecessário incomodá-los.
O nosso destino é diferente.
Eu e você somos "as flores do pântano" e crescemos num solo movediço e venenoso.
Ele nos alimenta, mas um dia, sem falta, seremos tragadas por ele."
É evidente que estas palavras da minha mãe foram inspiradas pela sua mágoa, mesmo assim elas me aborreceram muito...
Ficou clara a emoção de Marina.
O barão ficou silencioso; foi tomado por um profundo sentimento de compaixão pela jovem, cuja confissão abriu perante ele um mundo inteiro de pobreza espiritual.
A voz de Emília Karlovna tirou Reimar do estado pensativo em que estava e dissipou os pensamentos tristes de Marina.
— Como, você ainda está de chapéu?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 16, 2016 7:37 pm

— Nós aqui passamos muito tempo em conversas e eu esqueci dele — respondeu Marina, ao receber com um sorriso de gratidão o buquê que lhe trouxe a proprietária.
A conversa tomou outro rumo, era já cerca da meia-noite quando a moça se despediu de todos e subiu ao seu quarto.
Apoiado sobre a mesa, o barão estava tão pensativo que a sua tia, ao observá-lo, tocou-o pela manga e perguntou acerca de que estava fantasiando.
— Marina Adaurova. Você está certa, a pobre moça merece piedade, pois a mãe não tem escrúpulo nenhum.
Marina é por natureza de coração aberto e parece bem dotada, mas esta louca estraga-a sistematicamente.
O que a moça vê e ouve? É horrível se ela entende que tipo de vida a sua mãe leva.
— Eu não acho que ela se dê conta inteiramente do que está acontecendo ao seu redor.
Marina considera a mãe uma pessoa infeliz; pode ser que ela seja realmente infeliz e sua vida desordenada tem circunstâncias e motivos atenuantes — dando um suspiro, respondeu a tia.
O barão se levantara e andava pelo terraço, porém, ante as últimas palavras da sua tia, ele de repente parou.
— Isto não é desculpa para ela, tia — interrompeu-a.
Qualquer que seja a ocupação da mulher, por mais que ela não tenha caminho certo, um sentimento deveria ser para ela limpo e sagrado: o amor de mãe.
Pois esta... de nada quer saber, salvo o seu ciúme, e ainda sacrifica em nome dele a própria filha, que levou consigo não para devotar-se inteiramente à sua educação, mas, provavelmente, para contrariar o marido, que amava a filha; caso contrário ela não a tiraria dele.
E o que ela faz com Marina?
Ela não dá nenhuma atenção a ela, ridiculariza suas boas intenções e leva- a consigo para todos os lugares, fazendo dela testemunha de todas as suas loucuras, aventuras amorosas e dissipações, com os quais esta fulana abafa, veja, o seu desgosto e ciúme...
Não me fale sobre esta besta-fera e nem tente justificá-la.
O barão parecia estar furioso e apressadamente despediu-se da tia.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 16, 2016 7:37 pm

II.

As dependências ocupadas por Adaurova e sua filha contavam com cinco quartos luxuosamente mobiliados, duas sacadas e dois dormitórios para criados.
Marina tinha o seu próprio quarto com uma varanda que dava acesso ao jardim.
Ela gostava muito do seu cantinho aconchegante, revestido de cretone cor-de-rosa e impregnado do aroma fresco que chegava do jardim florescente.
Ao voltar para o seu dormitório, Marina vestiu um roupão leve, de cambraia, deixou que trançassem seu maravilhoso cabelo e começou a ler.
O barulho da carruagem que parou em frente ao portão do jardim interrompeu a sua leitura.
Adivinhando a volta da mãe, levantou-se, ordenou que servissem o jantar e foi ao seu encontro, foi quando o aspecto da sua mãe assustou-a.
Nadejda Nicolaevna caiu na poltrona e jogou a cabeça para trás apoiando-a no encosto.
A cor radiante do seu rosto convertera-se numa palidez profunda; em torno dos olhos havia olheiras escuras e o olhar estava apagado, as faces ficaram cavadas e até o sorriso murchara; todo o seu corpo mostrava claramente completo esgotamento.
Ao cabo de algumas horas uma leoa brilhante e elegante transformara-se numa velha.
Marina sabia que sua mãe recorria à morfina e sem a droga ficava enfraquecida, mas jamais a vira naquele estado.
— Você está passando mal, mamãe? — exclamou Marina assustada.
— Não, não se assuste, ela está somente com uma grande fraqueza — respondeu prontamente a empregada, preparando a mesa com tudo que fosse necessário.
Farei uma aplicação e tudo vai passar, enquanto isso a senhorita prepare uma xícara de chá.
Quando Marina voltou com a xícara na mão, a manga dobrada do vestido mostrava que a injecção já havia sido aplicada e a sua mãe começou a reanimar-se paulatinamente e voltou a si; recebeu a xícara oferecida e avidamente bebeu o líquido até o final.
— Obrigada, minha filha, e não se preocupe.
Isto não é nada, somente uma fraqueza repugnante, e até isto já está passando:
hoje eu me irritei demais.
Acredite, toda a noite não tive sorte alguma, mas em compensação amanhã, certamente, eu me desforrarei.
— Vamos, coma alguma coisa, isto vai reconfortar você.
— Não, não quero jantar.
Quero dormir para recuperar as minhas forças para amanhã.
Vá você, Marina, vá dormir.
Adaurova beijou a filha e recolheu-se.
Enquanto a empregada ajudava-a a tirar a roupa, Adaurova perguntou se chegara correspondência.
— Claro. Perdoe-me, minha senhora, eu esqueci — respondeu, pegando do criado-mudo uma grossa carta e entregando-a sobre uma bandeja de prata.
Adaurova apressadamente abriu o envelope.
Mas à medida que percorria a carta com os olhos, o seu rosto ia ficando pálido, até que, finalmente, a carta caiu das suas trémulas mãos.
Realmente havia motivo para se assustar.
Mandara uma mensagem exigindo que lhe enviassem dinheiro imediatamente, mas o administrador de seus bens respondia dizendo que não poderia mandar nada para ela.
— O que aconteceu com a senhora? — indagou assustada a criada.
— Nada de importante, Lanceta:
simplesmente recebi uma notícia má.
Vá para seu quarto, eu preciso responder esta carta.
Ao ficar só, Nadejda Nicolaevna percorreu o quarto várias vezes muito agitada; depois tomou assento e, apoiando-se com o cotovelo na mesa, ficou pensativa.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 16, 2016 7:37 pm

O seu rosto pálido cobriu-se de manchas vermelhas revelando claramente que sofria uma luta interna:
os lábios tremiam nervosamente e os olhos brilhavam febris.
— Sim! Não é possível continuar assim, tenho que acabar com isso...
Como eu estou farta da vida!
Ela nada me ofereceu — murmurou raivosamente.
— O pântano me tragou: sinto que se aproxima e me sufoca...
Cada batida penosa do meu coração doente, cada injecção de morfina que me dá só a ilusão de ânimo, mas em compensação me mata lentamente, tudo isso me aproxima do remate fatal.
Era só o que faltava! Não quero viver lutando contra a miséria, renunciar aos meus costumes, ao conforto que me cerca e suportar os olhares zombeteiros e a falsa compaixão dos invejosos...
De modo algum!
Não, não e não!
Ela saltou da poltrona.
— Eu quero, eu almejo a paz. Nada mais me prende aqui.
Aproximou-se rapidamente da escrivaninha e escreveu algumas linhas.
— Isto é tudo que posso fazer por Marina, para que ela não fique completamente sozinha, sem nenhum apoio...
Na casa do seu pai ela terá uma posição mais ou menos sólida.
Para dizer a verdade, o que ela pode perder comigo?
Que posso eu dar a ela?
Uma vida cigana e nada mais...
Ela dobrou o papel e tocou a campainha, chamando a criada.
— É preciso mandar este telegrama urgentemente, aqui há dez francos.
Depois pode se deitar; eu ainda vou ficar escrevendo e não vou precisar da sua ajuda para trocar a roupa.
Seguiu com os olhos distraídos a criada que foi embora e por alguns momentos olhou a porta que já se fechara, depois casualmente voltou o olhar para o canto da frente, mas ele estava vazio.
Fora Marina quem pendurara a imagem no seu quarto e acendera a lamparina à sua frente.
Nadejda Nicolaevna sentiu desgosto por causa da sua fraqueza e, zangada, virou as costas.
Pois ela não acreditava nem em Deus, nem no diabo e não admitia a ideia de que a prece pudesse ser ouvida ou atendida...
Mesmo nesse instante, quando preparava-se para entrar em um grande caminho desconhecido, o seu espírito endurecido estava mudo, nenhum impulso foi encontrado no seu coração.
Ao contrário, estava convicta, o Céu fora o culpado da destruição da sua vida e dos sofrimentos passados.
Estremeceu e um tremor frio percorreu o seu corpo.
Será que a consciência se agitara nesta hora fatal e murmurara uma triste verdade?
No entanto, ela rapidamente passou a mão no rosto como se desejasse deixar de lado a sua fraqueza.
Decidiu-se por deixar a porta aberta, evitando o barulho e não querendo que a polícia forçasse a entrada do seu dormitório; a sua morte deveria parecer acidental.
Decidida, aproximou-se da estante e pegou o vidro com morfina; preparando uma injecção com dose mortal da droga, tudo organizou, e paulatinamente tirou a roupa e deitou-se na cama.
Um peso de chumbo começou a tomar conta do seu corpo.
— Adeus, minha pobre Marina...
Aliás, para você e para Stanislav será uma sorte que eu os deixe.
Ele, com certeza, logo me esquecerá — pensava ela, ao fechar os olhos e entregar-se a uma doce sonolência que a envolveu...
Marina voltou para o seu quarto num estado ansioso:
sua mãe parecia diferente, e uma tristeza angustiante apertou-lhe coração.
Depois de rezar ardentemente, deitou-se na cama e de repente desatou em pranto; entretanto as lágrimas amargas, causadas pela melancolia, trouxeram-lhe um alívio e dormiu um sono profundo, mas pesado.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 16, 2016 7:37 pm

Acordou tarde e já terminava de vestir-se, quando a sua criada Fancheta entrou voando no seu quarto com o rosto pálido e desfigurado pelo horror.
— Depressa, depressa, senhorita, venha até o quarto da sua mãe.
Aconteceu alguma coisa com a senhora e eu já mandei chamar o médico — balbuciou ofegante.
Marina ficou pálida e saiu correndo para o quarto da mãe, onde a encontrou imóvel, estendida nos travesseiros.
A filha a chamava e sacudia para fazê-la voltar a si; mas tudo foi inútil.
Logo chegou o médico, e este ao examinar Adaurova, declarou que estava morta.
Marina perdeu os sentidos caindo sobre o tapete.
A notícia sobre a morte repentina de Nadejda Nicolaevna perturbou toda a casa.
Emília Karlovna e o barão Reimar mostraram a sua profunda compaixão no tocante a horrível situação da pobre Marina, decidindo apoiá-la e ajudar no que fosse possível.
Em respeito à coitada da moça, Emília Karlovna resolveu não tirar da casa o corpo da suicida, como era o costume, mas cedeu um quarto isolado, que foi revestido de preto, e colocaram lá o cadafalso.
A falecida, vestida de branco e toda coberta de flores, estava no caixão como se fosse uma admirável estátua de mármore.
Pálida, mas sem lágrimas, Marina estava silenciosamente ajoelhada ao lado do caixão e não tirava o olhar desesperado do rosto impassível da finada:
ela amava mais a sua mãe do que fora amada por ela, que a deixou sem um beijo, sem uma única palavra de despedida.
Entretanto, naquele instante ela não pensava o quão pouco sua mãe a amara; ela somente sentia a dor da separação e a consciência da completa solidão que pesava sobre ela.
Foi nesse estado que o barão encontrou a moça depois de algumas horas.
Ele parou na entrada e começou a pensar sobre a falecida.
Presa pelo seu próprio egoísmo, ela não pensara nos seus actos e nem os compreendera.
A sua consciência abandonada até o último minuto não pôde lhe mostrar, que ela não estava só no espinhoso caminho da vida, que tinha uma filha, a quem tinha que dedicar todo o seu amor e servir de exemplo.
Pois ela destruíra criminosamente a sua vida, arruinara-se, esbanjando os seus bens, procurando o esquecimento em desregramentos.
Tanto ela vivera leviana e obscenamente como morrera só para evitar as consequências da própria loucura...
Sentindo profundas compaixão e admiração, o barão olhava para Marina, que usava um vestido branco, vaporosa como uma visão, que quedara-se de dor inconsolável como uma pedra.
Ela não percebera a proximidade do barão, e somente quando foi tocada pela sua mão, estremeceu e alçou os olhos até ele.
— Titia pede à senhorita que desça para ficar connosco.
Vamos lá. Aqui nada pode fazer para ajudar, e no entanto a solidão lhe faz mal — disse tranquilamente e ajudou-a a levantar-se.
Ela se levantou obedientemente.
— Como o senhor e a sua tia me tratam bem; pois eu sou, somente, uma pessoa estranha para vocês — falou em voz baixa Marina, superando o tremor nervoso que tomou conta dela.
O perfume das flores misturado com o cheiro de fenol deixou o ar abafado.
O barão tomou em suas mãos um xale branco da cadeira e o colocou sobre os ombros de Marina.
Embaixo a senhora Koleoni a recebeu e abraçou carinhosamente.
— Fique no meu quarto, querida, eu darei ordens para acomodar você no meu quarto.
E se quiser, depois do almoço, colocarei você para dormir, porque você necessita de repouso.
A boa velhinha deu as ordens para a acomodação da sua cara hóspede.
— Marina Pavlovna, a senhorita deseja avisar algum dos seus sobre o acontecido?
Estou a sua disposição.
— Não tenho nenhuma pessoa próxima — disse com tristeza nos olhos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 16, 2016 7:38 pm

— E o seu pai?
— Não sei onde ele está agora; nem sei se ele gostaria que eu morasse com ele, pois ele contraiu novas núpcias...
Ela pensou um minuto e, finalmente, com um certo esforço disse:
— Gostaria de lhe fazer um pedido, barão.
— Com todo o prazer, estou à sua disposição.
— Eu preciso saber se a minha mãe ficou devendo a alguém, e entre outros, para o conde Zemovetski.
Eu sei que ontem ela não teve sorte no jogo, e pode ser que ele tenha lhe emprestado dinheiro.
Assim, gostaria de cobrir essa dívida.
Tenha bondade, pergunte a ele.
Parece que ele é seu parente?
— Sim. Stanislav é meu primo e logo que o vir, imediatamente perguntarei se havia dívidas entre ele e a sua mãe.
— Outra coisa, gostaria de saber os custos de um enterro digno e do monumento.
Tenho à minha disposição alguns milhares de francos, brilhantes da minha mãe e as minhas coisas de ouro; espero que isto seja o suficiente para cobrir as despesas.
Nos olhos de Marina surgiram lágrimas.
A conversa foi interrompida com a chegada de Emília Karlovna, que veio dizer que a costureira estava esperando e levou Marina consigo para encomendar o vestido de luto.
Assim passou o tempo até o almoço, depois do qual a proprietária pôs para dormir a pálida e exausta Marina.
À noite apareceu o conde Zemovetski.
Era um homem bonito, imponente, ainda jovem e de modos refinados.
Só uma certa expressão de indiferença, que emanava dele, também algumas rugas precoces, vistas aqui e acolá no seu rosto, e a calvície transparecendo, testemunhavam o quão amplamente aproveitava a vida.
A morte repentina de Adaurova, claro, servia de assunto para a conversa entre o barão e Stanislav.
— Que pena, tenho dó dela!
Foi uma mulher maravilhosa!
Formosa, como Vénus, e que temperamento!
Você está convencido, Reimar, de que ela se envenenou?
— Foi pelo menos isso que disse o médico.
— Que diabo!
De facto, ontem ela realmente não teve sorte no jogo, mas isto não é razão para se suicidar — encolhendo os ombros, o conde comentou e tranquilamente acendeu um cigarro.
— A propósito, ela deve alguma coisa a você?
Marina Pavlovna pediu que lhe transmitisse que ela deseja, neste caso, saldar a dívida da mãe.
— Opa! Esta dívida é pequena, uns trinta mil francos.
E de onde a coitadinha tiraria esse dinheiro se, e além do mais, elas estavam arruinadas?
Quero lhe pedir que responda a ela que a sua mãe não me deve nada.
Para dizer a verdade, o amor dela realmente valia alguma coisa, mas ela nunca exigiu nenhum tostão — terminou o conde sorrindo.
— Se você de tal modo quer ajustar as contas com a falecida pelo seu amor, eu, está claro, guardarei silêncio — respondeu o barão friamente.
— Principalmente, tenho em vista a pobre menina de quem tenho pena de todo o coração.
Nádia... quer dizer, Nadejda Nikolaevna gostava muito do apelido que dei a sua filha, a chamava de "centelha errante".
Por enquanto Marina ainda é uma criança, mas quando desabrochar será uma mulher... encantadora.
E Stanislav com gosto beijou as pontas dos seus próprios dedos.
Entrou Emília Karlovna e impediu a resposta do barão; parecia excitada e abanava-se com um lenço.
Cumprimentando os presentes, tomou assento.
— Ah! Meu caro Stanislav, como eu estou entristecida.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 17, 2016 7:27 pm

Ai que mãe sem consciência nenhuma, esta Adaurova.
Arrastava a filha por todos os lugares, arruinou-a e, depois de tudo isso, indiferente a abandonou à própria sorte.
Como ela não pensou nos perigos que correrá tão bonita moça quando morar sozinha, sem recursos, em algum lugar de quartos mobiliados?
— Isto é verdade — disse o barão.
Se você não cuidasse dela, ela teria que ficar sozinha lá em cima, junto da falecida, o que seria intoleravelmente difícil para ela.
E como ela está agora?
— Dormiu de cansaço.
Ah, estou com muita pena da pobre menina, mas eu não a deixarei.
Escreverei ao seu pai e contarei toda a verdade.
Ele é obrigado a ocupar-se dela, abrigar Marina, dar-lhe uma posição e casá-la.
Pois é sua filha!
Qual ê a culpa dela de que os pais se divorciassem?
Será que você, Stanislav, poderá conseguir para mim o endereço do pai, Adaurov?
Marina me disse que ele está casado pela segunda vez com a sua prima.
— Claro, tia, ele é casado com Juliana.
Eu o conheço bem: é um homem bem digno e muito rico; quanto à prima Juliana, ela é uma mulher bonitinha, mas astuta como o diabo e manda em seu marido.
Eu os visito frequentemente, no primeiro encontro conversarei com ele a respeito da sua filha.
— Não precisa não, obrigada. Me dê só o endereço dele, e eu mandarei alguém com uma carta minha.
Não vale a pena esperar mais; eu escreverei dizendo que ela está aqui sem nenhum apoio.
Emília Karlovna estendeu para ele o seu caderno de notas e o lápis.
No dia seguinte, pela manhã, Marina mal se vestira quando diante do portão parou uma carruagem, da qual desceu um senhor acompanhado de um criado que levava a sua mala.
Era um homem alto e de compleição encorpada, de idade média, e com as feições corretas.
Seu cabelo preto e abundante era um pouco grisalho, mas o seu andar leve, o corpo garboso e os vivos olhos negros davam a ele uma aparência jovial.
Parecia preocupado e perguntou em italiano a Marieta onde era o apartamento da senhora Adaurova e se a sua filha estava em casa.
Pela indicação da criada, o desconhecido dirigiu-se ao terraço da entrada onde Marina já esperava por ele.
Ela viu da janela como ele se aproximava e logo reconheceu o pai apesar dos muitos anos de ausência.
Marina estava emocionada e trémula.
Mortalmente pálida, em pé, indecisa sem saber como enfrentá-lo:
fazer vénia como a um estranho, ou jogar-se nos seus braços como ditava o coração.
Indo ao seu encontro, Adaurov também não tirava os olhos da filha.
Vestida de luto, ela parecia mais alta e magra do que era, o seu lenço preto em volta do pescoço claramente acentuava a brancura marmórea do seu belo rosto e a maravilhosa cor cinza dos seus cabelos.
Se Adaurov leu nos olhos de Marina a incerteza que a afligia, ele acabou com estes sentimentos ao estender as mãos para ela.
— Marina, querida, — disse com uma voz surda e trémula.
— Papai — ela quase gritou em resposta, abraçando com as mãos o seu pescoço e apertando a cabeça no seu peito.
Foi o grito sincero do coração, e três palavras, pronunciadas por eles, derrubaram todas barreiras, erguidas entre a filha e o pai por um longo tempo e circunstâncias.
Por alguns minutos ficaram imóveis, se abraçando fortemente; depois Marina conduziu-o à sala de visitas, onde a criada Fancheta ajudou-o a tirar o casaco, e com um sorriso feliz fez com que ele se sentasse ao seu lado no sofá.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 17, 2016 7:27 pm

— Finalmente, querida, você está novamente comigo.
Não pense que eu alguma vez esqueci de você; foi a sua mãe que com rancor implacável não me permitia encontrar você — Pavel Sergueevitch disse, beijando carinhosamente a sua filha.
— Papai, como você ficou sabendo, da morte da minha mãe?
Pois isto aconteceu tão inesperadamente...
— Ela própria foi quem telegrafou para Vichi e chamou-me aqui, na sua casa.
Você também sabia que eu estava lá?
— Não, eu não sabia de nada.
A minha mãe jamais mencionava o seu nome e até proibiu que eu falasse de você.
Mas eu também nunca o esqueci.
Você nem imagina como me torturava o pensamento de que me esquecera e deixara de amar. Olhe..
Puxou de baixo da gola uma corrente de ouro, tirou o medalhão que levava no peito e o abriu.
Nele havia um retrato de Pavel Sergueevitch quando jovem.
— Uma vez eu o achei no porta-jóias de mamãe e há muitos anos que uso o medalhão.
De manhã e à noite eu olho seu retrato para não esquecer o seu rosto.
Profundamente comovido, Adaurov a apertou contra o peito.
— Agora ninguém vai tirar você de mim e nós não nos separaremos mais.
Eu tentarei com o meu amor fazer você esquecer todas as amarguras do passado.
Ela encostou a cabeça no ombro do seu pai e deu um suspiro de alívio.
De repente ela se pôs erecta e as lágrimas brilharam nos seus olhos.
— Papai, mas você é casado... — ela pronunciou indecisa.
Será que a sua esposa desejará que eu more com você?
Uma sombra leve passou pelo rosto de Pavel Sergueevitch, mas imediatamente disse com a voz firme:
— Sou o dono da minha casa e espero que tenha o direito de abrigar minha única filha.
A sua madrasta vai tratar você, com a atenção devida a minha filha.
Naturalmente, não posso garantir a simpatia e disposição dela, entretanto você pode ter certeza que será bem acolhida.
Agora me leve até a falecida, eu quero vê-la e despedir-me dos seus restos mortais.
Marina se levantou e o levou até o quarto onde estava o corpo; abriu a porta deixando o seu pai entrar, e saiu deixando-o só.
As velas de cera acesas com uma luz meio amarela iluminavam o caixão metálico de defunto; o véu e os buquês de flores estavam aos pés da finada.
Pavel Sergueevitch com a mão insegura tirou o véu e apoiou-se no caixão.
Como se a morte apagasse as marcas da vida insensata, a expressão de majestosa paz ficou impressa no belo rosto transparente como cera, com os olhos fechados e sombreados pelos cílios densos.
É essa expressão que a morte põe sobre aqueles de quem retira a vida.
Toda a vida passada com a sua mulher falecida reconstituiu-se na sua memória, quando ele se reclinou sobre ela.
Como ele a amava apaixonadamente; mas no entanto, a leviandade e depravação do meio que o cercava seduziram até ele.
Evidentemente, ele nem pensara que a relação ligeira com uma beldade disponível poderia acarretar um final trágico, que a sua esposa num acesso de ciúme mataria a sua rival, e, infelizmente, Marina tornar-se-ia testemunha do assassinato...
Mais tarde ele se arrependera, mas era tarde:
a sua esposa permanecia surda diante do seu pedido ardente de perdão.
Vingativa e implacável, tirou dele até a filha que ele tanto adorava. Mesmo assim ele sabia que ela o amava como antes, não conseguia esquecê-lo e procurava em vão o esquecimento no jogo e na vida insensata.
Ele lembrou agora a alegria do nascimento da sua filha, as tardes que tinham passado os dois juntos e outros detalhes do seu amor rapidamente desfeito.
A falecida dera para ele sete anos da felicidade serena.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 17, 2016 7:28 pm

Infelizmente, o seu egoísmo ciumento e a possessão levaram ao rompimento.
Ao mesmo tempo, o seu espírito sempre fora, para ele, um livro aberto no qual via claramente todas suas qualidades e defeitos.
Involuntariamente, uma comparação impôs-se entre a primeira e a segunda esposa.
Juliana era uma mulher muito esperta, sempre escondia dele o seu mundo espiritual, com destreza o cercara com uma teia de aranha e ele já não era capaz de romper esta teia invisível.
As lágrimas ardentes — o último pagamento do tributo ao passado enterrado — sem controle começaram a rolar sobre o caixão aberto.
Marina entrou e, ao ver que o seu pai estava chorando, carinhosamente o abraçou.
— Você está chorando, papai?
Então você perdoou tudo e esqueceu?
Pavel Sergueevitch silenciosamente acenou que sim em resposta.
— Tome. Esta é uma carta para você da minha mãe — disse ela, passando-lhe um grosso envelope fechado.
— Há três anos, quando a minha mãe estava muito doente, me entregou esta carta em caso da sua morte.
Ao sarar depois, ela não me perguntou mais sobre ela, agora eu a entrego ao senhor.
Comovido, Adaurov guardou a carta no bolso lateral e saiu com Marina para discutir os detalhes da partida.
O funeral de Adaurova foi simples e realizou-se no cemitério local.
Dos não familiares havia somente o barão e a tia.
Depois de voltar do cemitério, Pavel Sergueevitch reuniu-se com Emília Karlovna, pagou as contas e pediu que acolhesse Marina até que ele fosse a Vichi ajustar as suas contas lá e voltasse para levar a filha já directo para Varsóvia.
À noite Emília Karlovna estava passeando no seu jardim, deleitava-se com o maravilhoso ar perfumado de uma noite de luar, clara como o dia, quando o barão se aproximou dela.
— Tia, você está só?
— Sim, meu amigo.
Marina foi dormir.
Ela ficou cansada, coitadinha, também a partida do seu pai perturbou-a.
Como estou contente por ela!
Pavel Sergueevitch revelou-se uma pessoa altamente honesta, um verdadeiro cavalheiro, e dá para perceber que ele ama muito a filha.
— Que Deus o ajude e lhe dê muita felicidade.
Entretanto estou contente de estar só com você e podermos trocar opiniões.
— Então vamos para lá ao lado da varanda, no banco.
Aqui, no jardim, é tão gostoso, que nem quero sair.
— Primeiro, lamento muito, mas tenho que dizer para você que depois de amanhã vou partir — começou a falar o barão quando eles se sentaram.
Eu recebi uma carta do administrador dos meus bens que me chama de volta para casa para tratar de negócios.
— Meu Deus, como vai ficar triste aqui sem você e Marina! Estarei completamente sozinha — a tia suspirou.
— Por causa disso eu quero fazer a seguinte proposta.
Você está sozinha aqui, eu também depois da morte do meu pai fiquei só, a economia está nas mãos da criadagem; então a senhora se mudaria para minha casa.
A sua mansão poderia ser alugada, e Gaspar é um homem tão honesto e fiel a você, que você poderia contar completamente com ele.
Estarei muito feliz em ter você ao meu lado, e você também não vai se entediar.
— A sua proposta é muito atraente, mas devo notar que a minha presença verificar-se-á um remédio extremamente ineficaz contra a sua angústia.
Falando francamente, você precisa se casar, meu querido.
Você tem vinte e oito anos, você é o último da sua geração e por isso é obrigado a pensar na sua continuação; uma esposa bonita e jovem rapidamente dissipará o seu aborrecimento.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 17, 2016 7:28 pm

— Ah, tia! Eu não posso me casar somente para salvar de extinção a família do barão Farnrode, — disse, irritado, passando a mão em sua vasta cabeleira.
Não posso me casar sem amar.
— Quem está falando isso?
Sem dúvida, você tem que amar a mulher com que pretende se casar.
Será que você não está gostando de alguém?
Sem receber a resposta, inclinou-se e sorrindo olhou nos olhos pensativos do seu sobrinho.
— Vá, abra-se comigo!
A minha experiência parece que não me engana.
Marina agradou você, pois por que você não se casa com ela?
Ela é uma jovem encantadora, e agora, ao estabelecer-se na casa do seu pai, ganhará na sociedade uma posição completamente diferente.
— Não, tia, não vamos falar sobre isso.
Não quero negar que gosto de Marina e essa é a principal razão, porque devo evitá-la.
Mas vale lembrar em que solo mórbido ela foi criada.
É um pântano, coberto com uma camada verde, sob a qual se esconde um abismo.
Ai daquele que se atreva a pisar o solo movediço:
ele será tragado pelo lodaçal.
É perigoso demais aspirar a esta centelha errante.
Por enquanto ela é ainda uma criança; mas quando acordar nela uma mulher com todo este veneno que ela chegou a absorver, isto pode acabar em uma grande desgraça para mim.
E depois, que exemplo ela teve perante seus olhos na face da sua mãe, esta dissipadora, que se entregou à licenciosidade, à coquetaria e a roupas sumptuosas, que vivia para o mundo e ao seu bel-prazer, em roda com os mesmos homens sem rumo.
Que noções sobre vida familiar poderia tirar Marina deste meio em que cresceu, cercada de uma multidão cínica e trivial de adoradores da sua mãe, que a enchiam de guloseimas e maculavam o seu espírito infantil?
É verdade, que Marina é maravilhosamente linda e com o tempo será ainda mais bonita, mas a mulher por enquanto está dormindo nela e eu tenho medo do seu despertar...
O que ela vai fazer na nossa fazenda solitária, onde reina a ordem e parcimónia, onde a própria dona tem que cuidar de tudo?
Será que ela estará satisfeita com o marido, dedicado ao trabalho, honesto e amoroso, mas que não poderá rodar a Europa com ela e gastar dinheiro sem conta, à toa?
E em geral, será que uma mulher tão bonita vai querer limitar-se só a admiração do seu marido?
Agora é a minha vez de perguntar a você, minha querida tia, se estou certo e se você pode, com a mão na consciência, me persuadir a casar com esta moça encantadora, mas perigosa?
Emília Karlovna abaixou a cabeça.
— Não vou refutar a sua argumentação, mas acho que você está exagerando, pois esta bonita e simpática criança infeliz se transformaria por mãos firmes e amorosas numa mulher digna do amor de um homem probo.
Entretanto, Deus me livre que eu aconselhe você a uma experiência tão arriscada, e mais ainda, a sensatez da sua reflexão e a previsão do perigo provam que você gosta dela, mas o fatal amor insensato não cegou você.
Eles se calaram.
Estava silencioso ao redor deles e de repente em algum lugar nas proximidades ouviu-se um pranto contido.
Reimar empalideceu, rapidamente se levantou e confuso deu uma olhada na casa, ao lado da qual estava o banco, onde eles se sentavam:
em cima deles ficava a sacada do quarto de Marina.
Entretanto o quarto em cima actualmente estava vazio, a moça dormia no quarto da tia, do outro lado da casa; não obstante o pranto chegava de lá de cima.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 17, 2016 7:28 pm

Preocupada, Emília Karlovna olhava com perplexidade ora para cima, ora para o sobrinho.
— Vou ver se ela está dormindo.
Quem poderia estar chorando? — disse ela e apressadamente dirigiu-se ao terraço.
A cama de Marina estava vazia.
A empregada Marieta informou que Marina, que parecia não conseguir dormir, levantou-se e disse que ia buscar um livro lá em cima.
— Já faz meia hora que a senhorita saiu — ela acrescentou.
Perturbada, Emília Karlovna subiu.
Por toda a parte estava deserto e silencioso; somente o quarto de Marina estava fechado a chave e por mais que ela batesse à porta, ninguém atendia.
Muito amargurada, voltou para o seu sobrinho, enquanto ele desassossegado, irritado por causa da sua imprudência, andava pelo terraço.
— A coitadinha ouviu tudo — disse a velhinha com lágrimas nos olhos.
No dia seguinte Marina estava ocupada, arrumando as malas, e não desceu, mas almoçou no seu quarto; depois visitou o cemitério e levou uma coroa de flores para o túmulo da sua mãe.
No dia seguinte o barão Farnrode partiu e ao cair da noite chegou Adaurov para buscar a sua filha.
De manhã, Marina, já vestida em traje de viagem, chegou para se despedir da dona hospitaleira antes da sua partida e também para agradecer pela sua bondade e solicitude.
Emocionada, a velhinha a beijava e abraçava muito.
— Escreva para mim colocando-me a par da sua vida lá.
Será que está brava com uma velhinha maldosa? — sorrindo, disse ela olhando nos olhinhos embaraçados de Marina.
— Se a senhora assim deseja e está interessada no meu destino, eu escreverei de bom grado.
Por que eu devo ficar brava?
Ao contrário, eu só posso agradecer a senhora pela sua opinião lisonjeira sobre mim.
Pode ser que eu na realidade não seja tão venenosa e perigosa como pareço.
Algo saudoso e amargo passou no seu rosto, ao abraçar mais uma vez a senhora Koleoni.
Marina subiu na carruagem.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 17, 2016 7:28 pm

III.

Há duas semanas que em todo o apartamento de Pavel Sergueevitch tem reinado um rebuliço febril, causado pela ordem do general, que do exterior mandou arrumar tudo na casa para a espera da sua chegada e da filha.
A faxina da casa era realizada sob a vigilância da velha governanta, antiga babá de Marina, Avdotia Mironovna, que foi a única da antiga criadagem que resistiu à pressão da nova esposa do dono e não se deixou mandar embora.
Para o dia da volta de Marina para o tecto paterno tudo fora preparado.
Um ninho aconchegante esperava por ela:
um dormitório azul claro, saleta de veludo cor-de-rosa e sala de visitas verde; nas janelas colocaram cortinas rendadas, flores nos vasos, os bibelôs preciosos dispostos nas estantes.
Antigamente nesse lugar ficavam as dependências de Nadejda Nikolaevna; porém depois do rompimento com a sua esposa, Adaurov mandou fechá-las e pediu que não tocassem em nada.
Agora ele as cedia à sua filha.
Para a sua segunda esposa ele deu quartos do outro lado da casa.
A própria Juliana Adamovna, por enquanto, estava na casa dos seus parentes e voltaria dentro de um mês e meio.
Ao percorrer todos os quartos da sua mãe, onde brincou quando criança, e ao ver novamente o seu antigo quarto de criança, que actualmente fora transformado em vestiário, mas no qual fora preservado até o armário com seus brinquedos, Marina rompeu a chorar sob a chegada das recordações.
Ela se instalou rapidamente no seu ninho e logo se sentiu bem.
A ausência da sua madrasta lhe servia de grande alívio, dando-lhe a possibilidade de olhar ao redor de si e entrar numa vida nova.
Ela encontrava o pai somente durante o almoço; ele se levantava cedo, passando as horas da manhã e a metade do dia no seu trabalho.
Estas horas de recolhimento foram para Marina verdadeiro gozo e exerceram uma influência favorável sobre ela.
Descansava depois de todas as agitações e se sentia como que acordando do pesadelo de uma vida ambulante.
Agora ela nem podia pensar sem um arrepio nessa roda insensata, sem rumo determinado de um balneário para o outro, às voltas pelos bailes, os espectáculos e os turfes, troca interna das roupas sumptuosas como se fosse no palco, e geralmente toda esta vida vaga, agitada, sem rumo, que não lhe trazia nada a não ser fastio e cansaço.
Quando a sua mãe morreu, sentiu pena dela de todo o coração; mas, coisa estranha, o seu falecimento não deixou uma lacuna na vida de Marina.
Nadejda Nikolaevna jamais tinha tempo para a sua filha, e até a deixou sem nenhuma palavra de despedida.
Esta indiferença egoísta — Marina suspeitava da verdadeira causa da morte da sua mãe — deixou no seu coração delicado e amoroso a impressão vaga de tristeza e ressentimento.
Pavel Sergueevitch a tratava com bondade e carinho.
A tarde ele frequentemente passava com a filha, andava de carruagem e conversava durante um longo tempo com ela.
Entretanto, de maneira geral, ele lhe dava plena liberdade, dinheiro o bastante para pequenas despesas e a enchia de presentes.
Marina apegou-se a ele com todo o seu coração ferido, mas mostrava a sua afeição um tanto acanhadamente, e este sentimento tocante cada vez mais e mais atraía o seu pai para ela.
Era um dia húmido de outubro.
Marina estava sozinha no seu quarto de visitas.
O seu pai saíra a negócios e voltaria somente no dia seguinte.
Estava sentada triste e meditando, a expressão de ressentimento aparecera novamente no seu rosto, a qual ultimamente não tinha sido observada.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 17, 2016 7:28 pm

Já escurecera nos quartos.
Acendeu a luz e, ao colocar ao lado no banquinho uma caixa grande revestida de couro vermelho que trouxera de Mónaco, começou a retirar dela coisas.
A mesa inteira foi coberta com postais de lugares pitorescos de Nice, Biarritz, Truvile e outros, com vários retratos e bibelôs, que pertenciam à falecida Nadejda Nikolaevna.
Sustentando nas mãos e com aparência sombria começou a pesquisar uma grande foto que reflectia o terraço da mansão Koleoni, em cuja mesa de chá estavam sentados a própria proprietária e o seu sobrinho.
Emília Karlovna dera para ela esta foto um pouco antes da morte da sua mãe, mas só hoje Marina a encontrava na caixa.
"Será que eu posso condená-lo pela apreciação áspera sobre mim?" — pensava ela, olhando para o rosto enérgico e aberto do barão Reimar.
Não, não posso se quiser ser justa.
Uma pessoa como ele, honesta e franca, sendo escravo do seu dever, tem direito de exigir da mulher que amará, as mesmas regras severas de conduta e espírito íntegro, e que não sejam maculadas com aquela sujeira em que eu cresci".
"Claro, ele não pode saber que todo este tropel da alta roda e pressa me causam somente repugnância, que com todo o meu espírito eu aspiro à vida familiar tranquila e simples.
Ele nem sabe que eu preciso do amor de uma pessoa honesta, enérgica, que eu poderia respeitar e amar, que poderia servir-me de apoio, ser o meu guia na vida, um amigo para quem com toda a confiança abriria o meu espírito".
Ela deu um suspiro, jogou a foto na caixa e, ao recostar-se no encosto da poltrona, pôs-se a meditar profundamente.
O passado começou a surgir na sua memória com uma clareza surpreendente.
Ali estava o salão da sua mãe, sempre cheio de pessoas de todas as idades, posições e nacionalidades:
aqui os lordes, os príncipes e barões, os pintores e músicos, os cantores e financistas.
Todo este tropel bem vestido de modos livres e tagarelice cínica, que sempre era desprezível para ela.
Não gostava de ninguém e estava tremendamente entediada nessa sociedade onde não falavam de outra coisa senão jogo, recepções, cavalos e aventuras amorosas.
Ao mesmo tempo lembrou-se de um banqueiro judeu, que era fabulosamente rico, e que a cortejara insistentemente durante o último inverno em Paris, finalmente pedindo-a em casamento.
Nadejda Nikolaevna de modo benevolente aceitou o seu pedido, mas Marina o rejeitou decididamente, ao declarar com uma coragem rara que se fosse forçada a aceitar aquela proposta, procuraria a defesa do seu pai.
Esta recordação involuntariamente despertou a comparação entre ela e sua mãe cuja beleza fascinante conquistava todos os corações e atraía ao seu redor um tropel de adoradores.
Sem dúvida, ela não era tão bem parecida como Nadejda Nikolaevna, evidentemente não tinha aquela coisa que o conde Zemovetski chamava brincando de "o charme diabólico"; não obstante, também poderia agradar alguém e não uma só vez chegou a notar os olhares admirados dirigidos a ela.
O barão Reimar também indubitavelmente gostava dela e ela ouviu isso dele mesmo.
No entanto, ele a considerou perigosa, igual a sua mãe, a quem ele jamais deu atenção e até a reprovava severamente assim como a seu primo o conde Stanislav.
Quanto ao conde, abertamente arrastava-se atrás da Nadejda Nikolaevna, cobria-a de flores e não se afastava da sua poltrona até que ela não acabasse de jogar loucamente na roleta.
Mesmo o barão Farnrode não sendo parecido com os outros, tinha medo de tirá-la do limo que a cercava...
Uma nova onda da amargura apoderou-se dela.
Hoje ela decidira responder à carta, recebida recentemente, de Emília Karlovna, que se interessava pela sua saúde, mas neste momento ela se sentia incapaz de responder e, em geral, qualquer recordação sobre Mónaco ficara insuportável para ela.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 17, 2016 7:29 pm

Começou rapidamente a colocar de volta na gaveta as coisas, espalhadas na mesa, e se absorveu tanto neste trabalho que nem percebeu quando a porta se abriu e uma mulher elegante, vestida com traje de viagem de cor verde escura e com um grande chapéu preto na cabeça, parou na entrada do quarto e examinou Marina fixa e penetrantemente.
— Marina, minha querida criança, finalmente vejo você — disse com uma voz sonora e rapidamente se dirigiu à Jovem.
Apanhada de surpresa, Marina se levantou confusa e foi ao encontro da sua madrasta.
— Meu Deus, como você é linda!
Me deixe abraçá-la — continuou Juliana, beijando a moça nas faces.
Mas por que você está tão pálida e seus olhinhos estão tão tristes?
Ela, curiosa, continuava a examinar a desconcertada Marina, como se ponderasse se a jovem poderia ser perigosa para ela.
Entretanto esta observação atenta passou rapidamente; logo decidiu que, apesar de sua beleza aérea, Marina era muito modesta, ingénua e indiferente para disputar o seu êxito na sociedade.
E mais uma vez carinhosamente abraçou a sua enteada.
— Espero que seu pai e eu logo consigamos dissipar esta tristeza que nem um pouco combina com a sua idade.
Amaremos e mimaremos você tanto que será obrigada a sentir-se mais alegre.
Agora até logo:
vou trocar de roupa e descansar.
Na hora do chá da noite buscarei você e nós conversaremos.
Ao ficar só, Marina se sentou e ficou pensativa.
Percebeu que não tinha compreendido o sentido dos olhares perscrutadores da sua madrasta.
Por sua parte, ela também examinava com curiosidade Juliana e tinha que considerar que a segunda esposa do seu pai era uma mulher muito bem apessoada.
Juliana aproximava-se dos trinta anos.
Era de altura média, bem proporcionada e esbelta; tinha o rosto pálido, olhos grandes, cinza-escuros sob as sobrancelhas densas, quase unidas, e o seu nariz era recto com narinas finas.
Em tudo mostrava um temperamento apaixonado, arbitrário, mas atraente; contudo causou-lhe uma impressão desfavorável.
Marina, sensível e impressionável, instintivamente percebeu que a madrasta não era franca com ela e nem gostava dela, apesar de todos os carinhos dispensados; nos olhos de Juliana notou algo frio e desapiedado.
Irreflectidamente, no interior de Marina despertou-se um sentimento de desconfiança da sua madrasta.
Desde a chegada de Juliana, o ritmo da casa mudou completamente: tudo se animou e entrou em movimento.
Diariamente, ora no almoço, ora à noite, ela tinha visitas, de preferência homens.
Certo dia de manhã, Juliana declarou para Marina que tinha que providenciar os vestidos para o inverno.
— Mas eu estou de luto — Marina replicou, assustada de repetir todas as preocupações enfadonhas com as costureiras.
— Eu conheço o seu vestuário, mas isto é completamente insuficiente, minha querida.
Respeito muito o seu luto, mas na sua idade não pode isolar- se, e o seu pai também não quer isso.
Eu gostaria de apresentar você às famílias de amigos e dos parentes.
Nós precisamos fazer visitas.
É necessário você frequentar, claro, não os grandes bailes, mas sim os pequenos círculos familiares, e nessas ocasiões tem que ter as roupas convenientes.
E foi assim que começaram a busca nas lojas e as visitas das costureiras; o resultado foi a encomenda de uma série de vestidos brancos e pretos.
Juliana colocara na sua cabeça casar o mais breve possível, e sem falta, a sua enteada para livrar-se de uma rival incómoda.
O encanto jovem e fresco de Marina poderia, como uma flor desabrochando, brevemente abrir-se e ser perigosa para o seu sucesso na sociedade.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 17, 2016 7:29 pm

Mesmo assim, apesar da sua firmeza em reduzir o quanto fosse possível o prazo de estadia de Marina na casa paterna, Juliana cercava-a de todos os cuidados e carinhos, e os cálculos estavam certos.
Ela entendeu que Pavel Sergueevitch adorava a sua filha e tentava recompensá-la pelo seu exílio e longa separação, por isso, sem dúvida, ele estaria agradecido a sua esposa pela atenção que dispensava a Marina.
Um dia de manhã, enquanto Marina terminava, finalmente, a sua carta para Emília Karlovna, Juliana entrou.
Procurando ganhar a confiança da sua enteada, frequentemente, por acaso, visitava Marina para conversar, mas evitava mencionar o nome da sua mãe na conversa, compreendendo como isto seria desagradável para a moça.
— Perdoe-me, meu bem, você está escrevendo e eu atrapalhei você? — desculpou-se sorrindo.
— De jeito nenhum, eu terminei a carta para a senhora Koleoni e até já a fechei.
Por favor fique — respondeu, enrubescendo.
— Eu também conheço uma tal Koleoni em Mónaco.
Será que é a mesma com quem você mantém correspondência? — Juliana perguntou ao sentar-se.
— Isso mesmo.
Nós morávamos em sua mansão, foi onde a minha mãe morreu.
Ela e seu sobrinho, barão Farnrode, foram muito gentis comigo e de todas as formas me ajudaram naquela época difícil.
A senhora Koleoni queria que eu escrevesse para ela, e para minha vergonha, somente hoje consegui cumprir a minha promessa.
— Eu não sabia desses detalhes.
Pavel não gosta de falar sobre o passado e eu o compreendo plenamente e respeito a sua dor.
Então você conheceu o meu primo Farnrode?
Agora eu me lembrei que outro primo meu, o conde Zemovetski, me disse que no outono tinha encontrado Reimar em Mónaco.
— A senhora viu o conde?
Eu o conheço um pouco.
Ele também jogava em Mónaco e era conhecido da minha mãe.
Marina abaixou a cabeça e não viu o olhar malicioso da sua madrasta.
— Eu passei o verão na casa dos meus parentes.
As nossas terras têm limites com a propriedade da condessa Yadviga Zemovetskaia, a avó de Stanislav e de Reimar.
Stanislav voltou do exterior para o aniversário da condessa, quando eu o vi.
— Como?
O barão e o conde têm a mesma avó? — Marina surpreendeu-se.
— Você está surpresa que um alemão e um polonês sejam netos da mesma avó? — pôs-se a rir Juliana.
Não posso negar, a tal combinação é estranha o bastante; mesmo assim o facto é evidente.
Se você está interessada, posso descrever reduzidamente a genealogia da nossa família.
O próximo verão eu pretendo passar, como sempre, na fazenda dos meus pais.
Pavel também tenciona ir para lá depois de Vichi.
Você, claro, vai ficar comigo e eu gostaria que você e os meus se tornassem amigos e que você se sentisse bem lá.
— Claro, se eles forem tão gentis comigo como você.
Estaria muito agradecida, se você me contasse sobre...
— Sobre seus novos parentes? — Juliana a interrompeu alegremente.
Então escute.
Entretanto, para entender melhor, vejo-me obrigada a começar de longe.
Depois da revolta de 1830, muitos fidalgos poloneses ficaram arruinados, inclusive o meu parente afastado, Frantisko Tcharninski, que fugiu para a Áustria.
Durante muitos e difíceis anos de exílio, ele teve a sorte de casar-se com a filha de um banqueiro, tendo ficado milionário.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 17, 2016 7:29 pm

Mais tarde foi amnistiado e voltou para o seu país.
As suas estâncias, confiscadas e vendidas, ficaram perdidas para sempre.
Então ele comprou uma fazenda Tcharna de uma parente sua, a condessa Zemovetskaia, cujo marido pouco antes se suicidara deixando a viúva e o filho de sete anos, com a propriedade muito abalada.
Na família de Tcherninski nasceu a filha Yadviga.
Quando morreu a condessa Zemovetskaia, eles pegaram o pequeno Stanislav, criaram-no e depois o casaram com a própria filha.
Deste casamento nasceram dois filhos:
Boleslav, o pai do conhecido para você Stanislav Zemovetski, que é meu primo, e a filha Vanda, que se casou com o barão Farnrode e foi a mãe de Reimar.
Eis aí toda a história em poucas palavras.
Acrescentarei somente que o meu pai é descendente do irmão mais novo daquele emigrante Frantisko Tcharninski.
Outros detalhes familiares contarei um dia lá na fazenda, quando você conhecer a velha condessa Zemovetskaia.
Posso dizer somente que ela é uma mulher soberana. — Juliana pôs-se a rir.
Marina escutava-a com atenção.
É verdade que ela era completamente indiferente em relação à genealogia das pessoas estranhas para ela.
Em compensação, tudo que se relacionava ao barão Reimar despertava um profundo interesse, misturado com amargura.
Conversando sobre vários assuntos, Juliana levou Marina para fazer visitas.
Em pouco tempo Marina ganhou um bastante amplo círculo de relações.
De toda essa massa de novos conhecidos somente uma mulher jovem, desde o primeiro encontro, ganhou a viva simpatia de Marina e este interesse por ela crescia a cada encontro.
O marido de Valentina Antonovna Bulavina era parente da família Adaurov.
O jovem casal não vivia ricamente, mas Marina se sentia muito bem na sua casa, onde tudo era aconchegante, simples, respirava cordialidade e tranquilidade.
A conversa inteligente, viva e variada de Bulavina sempre despertava um profundo interesse da moça que crescera solitária e aspirava ao conhecimento, mas cuja educação fora abandonada.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 18, 2016 7:31 pm

IV.

Marina frequentemente visitava Bulavina, que zelosamente lhe dava aulas e lia muito sobre História, literatura e até geografia da Rússia.
Pavel Sergueevitch estava muito contente com esta aproximação.
— Estou feliz que você tenha estimulado Valentina Antonovna e que ela por sua vez goste de você — disse ele, beijando Marina.
Visite-a mais frequentemente:
ela é uma mulher proba, culta e inteligente, cuja companhia lhe trará grande proveito.
Marina aproveitou esta permissão com vontade, porque no salão da sua madrasta apareciam algumas pessoas que eram extremamente antipáticas para ela.
O primeiro foi o conde Stanislav Zemovetski que a fazia recordar Mónaco, a morte da sua mãe, o encontro com o barão Farnrode e vários pequenos detalhes desagradáveis.
O encontro com o conde surpreendeu-a, ela não sabia porque, mas a presença de Zemovetski na casa do seu pai era insuportável para ela.
Entretanto, parecia que o conde não percebia este seu tratamento hostil e mostrava-se extraordinariamente cortês com Marina, enquanto Adaurov o apresentava.
— Eu tenho a honra de já ter sido apresentado a Marina Pavlovna.
Conheci-a na casa da minha parente, senhora Koleoni.
Naquela ocasião lá também morava o meu primo barão Farnrode.
O silêncio do conde para com a sua mãe foi atribuído por Marina ao seu tato mundano e, apesar de estar muito agradecida a ele por isso, mesmo assim a aparência de Stanislav e suas visitas frequentes a irritavam.
Outra antipatia de Marina era por uma mulher que tinha, conforme palavras de Bulavina, uma grande amizade com Juliana.
— Seu marido é director em várias sociedades anónimas e ganha muito dinheiro.
A mulher gasta dinheiro à larga com roupas, o marido paga na mesma moeda e também despende uma soma louca com actrizes, — explicou com desprezo Valentina Antonovna.
Esta pessoa, Tecla Tudelskaia, era uma dama de cerca de trinta e seis anos, parcialmente atraente, mas gordinha.
Mesmo assim era muito desembaraçada, ousada e uma coquete inveterada. O conde Stanislav a cortejava abertamente.
Tudelskaia desde o início causava em Marina uma impressão desagradável com seu rosto pintado, modos livres e com seu assédio aberto ao conde Zemovetski.
Marina lembrava haver visto esta mulher ainda em Mónaco, um pouco antes da morte da sua mãe.
Um dia, quando sua mãe não se sentia bem e Marina passeava com Emília Karlovna, deram com Tulskaia na rua, que passeava de braços dados com o conde Stanislav e jogava olhares carinhosos a ele.
No terceiro dia dos festejos do Natal comemorava-se o aniversário de Pavel Sergueevitch e por este motivo sempre davam um grande almoço e festa na casa de Adaurov.
Todo o dia as visitas aglomeravam-se na casa, mas Marina, encantadora em seu vestido branco, cansou-se daquele tropel e barulho.
Tudelskaia, bem vestida, de um vestido rendado e coberto de lentejoulas, saiu logo depois do almoço porque prometeu ir à festa dos seus familiares.
Alguns dos convidados também partiram logo depois de almoço, os homens foram fumar e tomar café no escritório do general, enquanto as damas sentaram-se à mesa para jogar cartas.
Marina queria aproveitar a calma antes da festa começar e descansar um pouco no seu quarto.
Ela imperceptivelmente saiu da sala, atravessou a saleta de Juliana e saiu para o corredor que levava ao seu quarto.
De repente estremeceu, assombrada, e parou.
Através da porta entreaberta ela ouviu o murmúrio de vozes e avistou atrás da cortina semi erguida a sua madrasta e o conde Zemovetski, que, segurando as mãos de Juliana, apaixonadamente as beijava.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 18, 2016 7:32 pm

O quarto onde eles estavam ligava-se à saleta de Juliana, que servia ou à biblioteca, ou ao camarim, e geralmente os estranhos não entravam lá.
— Hoje você está tão maravilhosamente bem parecida, Juliana, que é capaz de enlouquecer até um santo — murmurava o conde, devorando-a com os olhos, e de repente aproximou-a para si, tão perto que seus rostos se tocaram.
Juliana realmente estava bonita de vestido vermelho e com uma rosa chá no cabelo preto.
Ela riu baixinho, tirou as suas mãos e repeliu o conde.
— Pare de falar bobagens, Stanislav.
De um momento para outro, Pol pode entrar aqui e então desgostos resultarão; ele é ciumento como um turco e nessas relações não está para graças.
Ela quis ir embora, mas Zemovetski alcançou-a na porta e ousadamente beijou o seu pescoço desnudo.
Já fazia tempo que eles tinham saído através da outra porta da saleta enquanto Marina ainda estava parada como se solidificasse.
O que significava esta cena: uma brincadeira entre parentes ou um flerte?
Mesmo eles falando em polonês, Marina compreendeu tudo, pois ouvindo constantemente ao seu redor, ela chegara a familiarizar-se com língua.
Se Juliana dissera que Pol era ciumento, então seu pai, Pavel Sergueevitch, que neste caso era Pol, não aprovaria o que aqui acontecera.
Marina sabia que o seu pai adorava sua esposa; por acaso ela viu quando Juliana entrou à noite no seu escritório, ele a pôs no colo e começou a beijá-la apaixonadamente na boca.
Ela saiu correndo naquele momento sem saber porque, mas uma sensação vaga de amargura dominou-a e ela se sentiu sobrando por aí, como se sentia antigamente, morando com a sua mãe.
Ninguém a procurava, ninguém a amava, a única pessoa a quem ela queria agradar, tinha medo dela.
Mas por que ninguém tinha medo da sua mãe ou de Juliana?
Totalmente desolada, saiu correndo para o seu quarto e tentou conter-se; sabendo que iria ao encontro das visitas, não queria revelar a sua emoção.
Depois de tomar um calmante e cheirar sal inglês, Marina acalmou-se um pouco e começou a convencer-se que tudo isso fora uma simples liberdade que o conde permitira-se tomar com sua simpática prima e também amiga de infância, por outro lado ele estava apaixonado por Tudelskaia.
De um modo geral, o conde era um tipo imprestável, como um dia opinou o barão Reimar.
Quanto ao seu pai, ele era tão bonito e inteligente, que, sem dúvida, poderia com êxito superar qualquer comparação com aquele homem repugnante.
Ao se acalmar com estes últimos argumentos, Marina voltou para a sala de visitas.
Pura no fundo do seu espírito, ela realmente passou pela sujeira que a cercava não somente não se manchando, mas também nem teve completa compreensão de toda a feiura da realidade da vida.
Tendo a ingenuidade de uma criança, aquela adoração ardente que outros rendiam à sua mãe, ela entendia como uma homenagem a sua beleza encantadora, e para Nadejda Nikolaevna não era difícil dissimular da sua filha as suas verdadeiras relações com seus adoradores.
Quando Marina apareceu na sala de visitas, encontrou lá as novas visitas que vieram para a festa.
Confusa, começou a procurar com os olhos o conde, mas ele já alegremente cortejava uma dama e ria às gargalhadas.
— Ele deve ser simplesmente um mulherengo, nada mais — pensou ela.
Juliana e o pai sentavam-se no lado oposto do aposento com um desconhecido senhor, homem moreno de cabelos pretos.
Ao ver a sua filha, Pavel Sergueevitch chamou-a com um sinal e lhe apresentou o pintor Solomin.
— Como Juliana tem preguiça de posar e cada vez adia as sessões, será que o senhor teria a bondade de pintar o retrato da minha filha? — disse rindo Adaurov.
Ela é uma menina paciente e calma e, como não tem nada especial para fazer, vai posar quando o senhor quiser.
O artista lançando um olhar ponderado e perscrutador sorriu.
- Uma fada à margem do lago, uma visão, um raio de luar, em poucas palavras, algo fantástico ou místico combinaria mais com a sua beleza.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 18, 2016 7:32 pm

— Pode ser "a centelha errante" ou "a flor do pântano"? — ruborizando, sugeriu Marina.
— Puxa, que ideia brilhante!
Exactamente "a centelha errante" — levou adiante entusiasmado Solomin.
Adaurov riu às gargalhadas.
— Perdoe-me, Serguei Sergueevitch, eu esqueci que o senhor é o retratista das criaturas etéreas, das visões misteriosas, que tudo que é invisível para os simples mortais inspira o senhor.
Pode pintar o que quiser:
eu não quero atrapalhá-lo.
Pode fazer de Marina uma luz do luar, uma esfinge, um fantasma, mas antes de tudo eu quero ter o retrato da minha filha e da minha esposa.
Eu prefiro tê-los tais quais elas são na realidade e não em sonho mesmo que poético.
E ele beijou a mão da sua esposa.
As visitas reuniram-se ao lado dos Adaurov e riam alegremente.
Solomin insistia em descrever antes de tudo o quadro que contava fazer para uma exposição de primavera, para depois começar a pintar os retratos.
Pavel Sergueevitch cedeu e pôs à disposição do pintor o seu estúdio de fotografia.
Foi decidido que as sessões começariam imediatamente.
A colocação do estúdio começou já no dia seguinte.
A tela trazida para o quadro era de dimensões enormes.
Todas as janelas foram fechadas com cortinas grossas, e em vários lugares por indicação do pintor foram instaladas lâmpadas de várias cores e as sessões começaram.
Marina estava entusiasmada e durante um longo tempo consultava o pintor sobre o traje que era feito pelo desenho do próprio Solomin.
De repente ela revelava uma rara intuição artística.
Salvo Juliana e Valentina Antonovna, ninguém foi admitido no estúdio:
o quadro deveria ser uma surpresa para Adaurov.
Mas, logo somente Valentina Antonovna Bulavina estava no estúdio durante sessões, pois a dissipada vida da alta roda rapidamente distraiu Juliana.
As sessões eram bastante prolongadas, porque o pintor trabalhava com animação e estava extasiado com a paciência e diligência do seu "modelo".
Absorvida pelo quadro, Marina nem prestava atenção ao que acontecia em casa.
Ela não notava que Zemovetski frequentemente visitava a sua casa, quando Pavel Sergueevitch estava de serviço.
E ainda mais frequentemente, na mesma hora e na parte da manhã, Juliana saía de casa ou para fazer compras intermináveis, ou para passear.
O quadro foi terminado bem mais cedo que se esperava, e a tela, cuidadosamente coberta, foi levada para a sala de juízo de Adaurov.
Juliana aproveitou a ocasião e chamou seus conhecidos mais próximos.
Enfim, o emocionado artista abriu a capa que escondia a sua obra, e todos na sala pararam de admiração, impressionados pelo quadro, do qual logo sentiu-se o silêncio fascinante da noite.
Perante o espectador estendia-se o pântano, coberto de algas, em alguns lugares, como se fossem pedaços de vidro, havia clareiras de água parada, em alguns lugares sumptuosamente branquejavam os cálices de lírio d'água.
Na beirada do céu elevava-se a configuração preta do bosque, a luz da lua mostrava-se de trás das árvores.
No meio do quadro, via-se um esqueleto verde acinzentado com o crânio coberto de musgo.
Com sua descarnada mão ele amparava a traiçoeira "centelha errante" — Marina, que se apoiava no seu ombro.
Nunca Marina foi tão bela como neste misterioso ambiente fantástico.
O corpo esbelto e aéreo transparecia, um pouco, através do vestuário lilás e perdia-se nas águas; os cabelos cinzentos estavam soltos e brilhavam na luz do luar.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 18, 2016 7:32 pm

As mãos, virginalmente belas e brancas, destacavam-se das largas mangas, cortadas até os ombros.
O rosto branco e translúcido parecia iluminado do interior, um misterioso sorriso de languidez movia os lábios escarlates.
Em uma mão ela segurava uma flor brilhante, com outra ela fazia sinais chamando um jovem que estava na beira do pântano em rico vestuário medieval.
Pela expressão concentrada do rosto e movimento, com que ele apertava a empunhadura do seu punhal, dava para perceber que o cavaleiro reconhecia o perigo.
Mesmo assim ele já levantara o pé para pisar no pântano traiçoeiro, onde o esperava a morte.
O seu olhar encantado estava preso à maravilhosa visão, coberta de névoa ligeira e clara.
Uma cruz dourado-clara desenhava-se em cima da cabeça do cavaleiro.
— É espantoso!...
Magnífico!... — ouvia-se de todos os lados, quando a primeira impressão tinha cessado.
Comovido, Pavel Sergueevitch abraçou e beijou carinhosamente Marina, depois ele estendeu as duas mãos para o pintor.
— O seu quadro, Serguei Sergueevitch, está acima de todos os elogios, além disso, que coisa forte! Sim, na nossa época, quando a poesia é extirpada da arte, deve haver muita decisão e independência de pensamento para pintar uma obra tão mística e poética, e ainda por cima instalar uma cruz cristã como o símbolo da salvação do homem no caminho da tentação.
Eu compro este quadro, qualquer que seja o preço, e depois da exposição o levarei para o meu escritório.
O conde Stanislav também estava admirado e pediu o consentimento de Adaurov para fazer uma cópia e colocar na sua galeria de quadros em sua estância, ao que recebeu a permissão do general.
— Serguei Sergueevitch, o senhor sabe que sua "visão" tem um grande defeito? — dirigiu-se Zemovetski ao pintor.
— Qual é? — ouviram-se as vozes curiosas.
— Nele sobrou pouquíssimo de satânico.
Não é o inferno com todas suas tentações que está olhando para o cavaleiro com esses lindos olhos misteriosos, mas antes um dócil anjo com espírito sonhador.
— Que bobagens você diz — interrompeu-o Juliana, rindo.
Eu penso que todos sabem que demónios muitas vezes tomam a aparência angelical para enganar os mortais, ávidos de tentações...
Todos riram de todo o coração e com isso a crítica cessou.
Sem ocupar-se mais do quadro, Marina novamente estava a par dos acontecimentos de casa.
No início deu na vista que a madrasta não estava tão alegre, como antes; às vezes, quando achava que ninguém estava olhando para ela, até ficava pensativa e preocupada.
Mas depois, ao saber que ela seria mãe, Marina atribuiu a sua inquietação e meditação com o seu estado enfermiço e deixou de pensar sobre isso.
Agora Zemovetski visitava bem mais raramente, mas em compensação, ele quase sempre era seguido por Tudelskaia que corria com insistência atrás.
Uma mudança desfavorável aconteceu no humor de Pavel Sergueevitch:
ele parecia muito preocupado, irritado, impaciente e, o que sobretudo surpreendeu Marina, foi que às vezes era descortês em relação a sua esposa.
Olhando mais atentamente, ela percebeu que o mau humor do seu pai era provocado principalmente pelas visitas de Zemovetski.
Até uma vez, quando anunciaram que chegara o conde, Pavel Sergueevitch de repente levantou-se, saiu para o seu escritório sob o pretexto de ter muita coisa para fazer e nem apareceu na hora da chá.
Quando no mesmo dia, à noite, depois que o conde tinha partido, Juliana foi para o escritório do seu marido, de lá ouviu-se uma conversa em voz alta.
Mais tarde a esposa do general saiu com os olhos chorosos.
Marina voltou para o seu quarto extremamente agitada.
A briga daquele dia do seu pai com a sua esposa, de repente, lembrou-lhe a cena entre Zemovetski e Juliana, a que ela assistira à noite, no dia do aniversário de Pavel Sergueevitch.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 18, 2016 7:32 pm

Ela também lembrou-se das palavras ditas naquele dia pela sua madrasta:
"Pol é ciumento e nessas coisas não está para graças". Será que o pai começara a suspeitar de algum jeito que Stanislav cortejava a própria prima e beijava-a por trás de suas costas?
Amargurada, Marina continuava a observar e dela não escapou que o seu pai estava cada vez mais frio e irritado, a madrasta estava preocupada com alguma coisa e tinha a aparência amuada, quanto ao conde, ele não comparecia na sua casa já fazia três ou quatro dias.
Então um caso inesperado confirmou os pressentimentos tristes de Marina.
Naquele dia seu pai almoçava no clube e Juliana fora visitar seus parentes.
Só Marina ficou em casa, alegando estar com enxaqueca.
Ela almoçou sozinha e foi para biblioteca do seu pai onde gostava muito de ler, quando Pavel Sergueevitch não estava em casa.
A sala era de tamanho médio e estava ao lado da sala para fumantes.
Todas as paredes estavam ocupadas por estantes com livros, na frente das janelas estava a escrivaninha e uma poltrona de estilo Voltaire; à noite lá costumavam acender a luz; o pesado reposteiro de pelúcia separava esta parte do resto da biblioteca.
Marina escondeu-se no seu canto preferido e absorveu-se na leitura.
De repente ouviu no quarto para fumantes a voz do seu pai, mas ele não estava só, em seu interlocutor ela reconheceu a voz de general Kuriatin, o amigo de Pavel Sergueevitch.
Ela levantou-se, desagradavelmente surpreendida com a volta inesperada do pai, por saber que normalmente ele voltava do clube muito tarde.
Tendo o humor excitado, qualquer ninharia para ela parecia suspeita.
— O que significa tudo isso? — pensava ela.
Ela estava indecisa e hesitava se saía do seu canto ou esperava quando o pai e seu hóspede fossem para o escritório.
Mas Pavel Sergueevitch resolveu, parece, ficar lá no quarto para fumantes e com uma voz muito irritada respondia a uma pergunta do seu companheiro, a qual Marina tinha ouvido mal.
— Você notou com justiça, Kostia, que ultimamente eu tenho estado perturbado e vou ser totalmente sincero com você.
Quando aconteceu aquela história com Nádia, a minha primeira esposa, você era o meu único confidente.
Não posso deixar de esconder de você que tenho medo de um novo escândalo; receio exactamente agora quando esperava encontrar uma felicidade tranquila.
— Escute, Pavel, pode ser que tudo isso sejam ninharias, pode ser que simplesmente seja você mesmo quem crie o espantalho.
É verdade que a sua esposa gosta de exibir-se, por outro lado, que mulher bonita não faz isso?
Até agora ela não dava motivo sério para descontentamento.
E agora, enquanto Juliana Adamovna se prepara para ser mãe, evidentemente, ela não vai começar a fazer bobagens.
Os interlocutores ficaram um pouco calados, depois Pavel Sergueevitch pôs-se a falar novamente:
— Pode ser que eu seja desconfiado demais, mas mesmo assim dá para perceber algo duvidoso.
Esse primo Zemovetski, falando entre nós, é um perfeito vagabundo e visita a nossa casa frequentemente demais.
Eu comecei a perceber alguns cochichos e uma vez me pareceu que Juliana estava saindo da casa onde mora o conde.
É verdade que ela estava sob um véu e estava vestida de maneira muito simples.
Mesmo assim eu tenho quase certeza que não me enganei.
Eu me apressei para casa e interroguei a criadagem, mas o porteiro, que tinha sido mandado não se sabe para onde, não sabia de nada, já a criada me convencia que Juliana não tinha saído de casa e estava ocupada com a sua costureira. Entretanto, eu não confio nessa mulher:
ela é astuta como o diabo e ainda por cima hipócrita.
Tenho que notar que em casa há três entradas e duas delas têm saída para a travessa, onde não tem porteiro.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71996
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 1 de 4 1, 2, 3, 4  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum