Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 18, 2016 7:32 pm

Uma destas entradas leva ao corredor e ao quarto de Juliana.
Este caso não sai da minha cabeça e despertou em mim desconfiança; e em geral, a própria aparência daquele senhor, que passa aqui o tempo todo, me enoja.
— Espere, mas parece que o conde está atrás de Tudelskaia?
— Hum! Mas quem sabe?
Não foi só uma vez que Tudelskaia lançava olhares para Juliana e o conde, ela sem dúvida tem ciúmes da minha esposa; significa que ela tem razões para isso.
Quanto a mim eu não estou para brincadeiras em tais casos e abro bem os olhos — se pegar em flagrante este par, eles me pagarão caro.
Pavel Sergueevitch deu um murro na mesa.
— Eu não permitirei que este miserável rapazola me corneie e, se eu tiver a menor dúvida sobre a origem da criança a nascer, a matarei e me baterei com ele em duelo.
A sua voz tremia da surda indignação contida.
— Você entrega-se a loucuras, Pavel, — com desaprovação notou Kuriatin.
Será que pode deixar se arrebatar tanto?
Não invente:
bater-se em duelo com um almofadinha por causa de qualquer flerte?
Tenho certeza que a sua esposa é muito esperta e prudente para se arriscar com uma traição evidente.
— Não, eu não admito que isso seja possível.
Sem dúvida, ela não é Nadejda Nikolaevna, que amava você loucamente e era franca até em seus erros.
Mas no dado caso, me parece, você está exagerando e, sendo muito desconfiado, pode impensadamente fazer uma cena tempestuosa, que pode causar danos a sua saúde, pois o seu estado exige cuidados.
Finalmente, você tem uma filha adulta, pense bem como vai reflectir nela todo esse escândalo.
— Sim, você está certo, Kostia; eu tenho que estar calmo e ser prudente.
Obrigado, meu amigo, por me dar um conselho sensato e prometo a você que nada farei até que não tenha em mãos uma prova evidente da criminalidade da minha esposa.
Depois de alguns minutos os dois entraram no escritório.
Marina tremia como se tivesse febre amarela. Assim que o seu pai saiu, ela, como uma sombra, esgueirou-se por uma porta oposta, infiltrando-se no seu quarto e fechando-se lá.
O medo pelo seu pai e a indignação pela sua madrasta lutavam no seu espírito.
A cena, vista por ela entre o conde e Juliana, mostrava que a suspeita do seu pai podia ser fundamentada.
Mas, meu Deus, o que poderia acontecer, se ele presenciasse qualquer episódio semelhante?
Ele mataria Juliana e Zemovetski!
Seria uma infelicidade, uma vergonha e um evidente remorso posterior!
Agora a única salvação, para ela, de todas essas desgraças era a prece e então ajoelhou-se perante as suas imagens.
No dia seguinte eles assistiam a uma peça de teatro.
Marina com grande desgosto avistou o conde na primeira fileira da plateia.
Durante o intervalo ele chegou para cumprimentar a família Adaurov, parecendo nem se dar conta da frieza de Pavel Sergueevitch, ficou no camarote deles durante toda a segunda parte.
Marina parecia que estava sobre brasas e o seu descontentamento era tanto que, quando Zemovetski saiu e Juliana sentou-se no fundo do camarote, ela se aproximou da madrasta e disse a meia voz:
— Gostaria de saber por que o conde sempre nos segue como uma sombra?
Juliana ruborizou um pouco.
— Eu posso dirigir a você a mesma pergunta, querida Mara — sem hesitação e zombeteiramente, retrucou ela.
Para falar a verdade, eu não posso mandar Stanislav embora somente porque ele a admira.
Marina não disse nada; não teve coragem de responder algo que pudesse atrair a atenção do seu pai e assim aumentar a sua suspeita, tanto que nesse momento ela surpreendeu um sorriso no rosto de Pavel Sergueevitch.
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 18, 2016 7:33 pm

Então ele ouvia tudo, mesmo observando a sala atentamente através do binóculo.
O general escutava tudo e de repente ocorreu-lhe uma ideia:
que poderia ser que Marina realmente tivesse agradado ao conde, ela era bastante bonita para isso.
Neste caso o cochicho da sua esposa e do conde poderia ser simplesmente um pedido de casamento.
Esta ideia o acalmou; o cortejo por esse lado não o ameaçava, pois o desprazer de Marina demonstrava que ela não gostava do conde e só isso.
Era final de março.
Uma manhã, após despedir-se do seu pai, Marina como sempre foi para a saleta da sua madrasta para ler um livro com ela até o café da manhã, quando de repente parou embaraçada na sala.
Uma conversa em voz alta chegava da saleta e Marina reconheceu a voz aguda de Tudelskaia:
— Não e não! Não vou ficar calada, apanharei você, uma coquete sem- vergonha, uma intrigante baixa, você me roubou o coração de Stanislav.
E eu, uma boba, quantos meses servindo de biombo para suas aventuras amorosas!
Mas para mim chega destas brincadeiras, agora vocês estão nas minhas mãos.
Eu encontrei a pista de vocês e interceptei uma carta, bastante evidente, do conde, para abrir os olhos desse tolo Adaurov, quem é o mago que dá para ele um herdeiro no sexto ano de casamento.
Ainda hoje mandarei esta carta para o seu marido e de antemão quero dar os parabéns com uma explicação agradável que espera por você.
A porta se abriu fazendo barulho e Tudelskaia saiu voando da saleta, como uma bomba, passou correndo sem notar Marina, encostada na parede e deprimida com o que tinha ouvido.
O rosto de Tudelskaia, desfigurado de raiva e coberto com manchas vermelhas, apesar do pó de arroz branco e do carmim, horrorizou Marina, mas imediatamente a reflexão sobre seu pai dominou todo o seu sentimento.
— Coitado do meu pai!
A sua vida está arruinada novamente...
O que poderá acontecer quando ele souber da sua desonra?
Sem dúvida, desafiará o conde para um duelo, e se matarem o meu pai?
Uma piedade indescritível dominou o coração de Marina.
Ela estava pronta a dar a sua vida, sem hesitação, para poupar o seu querido pai de toda essa vergonha e desgraça...
Entretanto qual seria a saída, em que poderia consistir a salvação, e ela seria possível?
Ela correu até a saleta e encontrou Juliana soluçando convulsivamente no sofá, a cabeça afundada nos travesseiros.
Tomando a mão da sua madrasta, começou a sacudi-la.
— O que foi que você fez? — severamente e com a voz surda perguntou Marina.
Como a senhora se atreveu a trair meu pai?
Se ele souber da sua desonra, a sua vida estará arruinada; ele matará o conde ou ele próprio será morto.
Juliana levantou-se de um salto do sofá; o medo e a raiva pareciam lutar dentro dela.
— Você ouviu aquelas maluquices dessa mulher furiosa?
— Sim, ouvi tudo.
Diga-me o que está escrito na carta que ela tenciona enviar para o meu pai?
— Eu não sei — transtornada murmurou Juliana.
Essa carta de Stanislav para mim... "quelques paroles d'amour"... e nada mais, mas isto já é o suficiente para me arruinar.
Ela mostrou o seu horror com as duas mãos.
— Você, Marina, não sabe como o seu pai é ciumento e como ele é perigoso quando encolerizado.
Ele matará não somente o conde, mas também a mim.
Uma megera infame, essa Tudelskaia!
Ela está louca por Stanislav e tencionava até divorciar-se para poder se casar com ele, enquanto ele a cortejava somente por divertimento.
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 18, 2016 7:33 pm

Sem dúvida, agora ele disse toda a verdade.
Então por vingança, não sei como, ela roubou a carta e quer fazer um escândalo sem precedentes.
Meu Deus! O que vou fazer?
É melhor me envenenar ou fugir.
Ela caiu no sofá, mordendo com raiva seu lenço de cambraia.
— Agora não é hora para se enfurecer, é melhor a senhora pensar se pode interceptar essa carta a fim de, de alguma forma prevenir esse escândalo.
Se eu puder a ajudarei de bom grado.
Juliana pôs-se erecta e, apoiando-se com a mão na mesa, ficou pensativa; depois de alguns minutos levantou a cabeça e de maneira um tanto estranha olhou para Marina, que pálida estava de pé à sua frente.
— Interceptar a carta é quase impossível:
Tudelskaia tomará suas medidas para que ela chegue ao seu destino.
Contudo há um meio para arranjar tudo isso...
Mas eu não me atrevo nem a abrir a boca para mencionar tal sacrifício...
— Fale! Estou pronta a tudo por meu pai, pois sei como ele ama a senhora.
— É preciso que você assuma tudo, que diga que o conde escrevia para você e que vocês se amam, que eu somente sou a protectora do seu amor.
Em poucas palavras, eu conseguirei explicar tudo devidamente, já que em você Pol acreditará:
ele sabe que você não mente.
Mas... em consequência você terá que se casar com Stanislav...
Será que você acederá a isso?
Marina parecia imóvel, escutando-a.
— Eu devo me casar com ele?.. - perguntou surdamente, empalidecendo.
— Em que, então, consiste a ajuda?
Tudelskaia de qualquer modo não vai demorar a desmascarar o engano...
— Ah, não!
Nós vamos explicar a sua calúnia com ciúme e o desejo de causar um rompimento entre você e o conde.
Mas, repito, eu não me atrevo a esperar de você tal sacrifício...
Marina apertou a mão contra o coração e ficou pensativa; lia-se uma difícil luta espiritual no seu rosto pálido e desolado.
Dentro de alguns minutos, que pareciam uma eternidade para Juliana, ela começou com voz baixa:
— Estou pronta a me sacrificar por amor a meu pai.
Mas se sobra uma gota de consciência na sua alma, jure para mim perante uma imagem que nunca mais na vida atentará contra a felicidade e honra do meu pai.
Ao ouvir tal decisão, Juliana, que observava com tremor a luta interior de Marina, caiu de joelhos perante ela e chorando começou a beijar as suas mãos.
— Você é um anjo!
Deus lhe pague pelo seu acto generoso.
Levantando-se, agarrou Marina e a conduziu ao seu dormitório, onde na parede ao lado da cama estava um crucifixo; lá, tocando com a mão a cruz, Juliana jurou que jamais na vida iria arriscar o nome que usava, e daí em diante iria se dedicar ao dever que lhe fora concedido.
— E agora, — acrescentou ela, — imediatamente colocarei Stanislav a par do que aconteceu e depois vou até o seu quarto para que nós juntas possamos planear como agir mais adiante.
Marina fez silenciosamente um aceno com a cabeça, puxou a sua mão e saiu correndo para o seu quarto fechando a porta à chave.
Caiu na cama e rompeu a chorar; mais tarde, quando o acesso de desespero passou, ela se levantou, lavou os olhos, inchados e vermelhos por causa das lágrimas, e se sentou ao lado da janela, procurando pôr em ordem seus pensamentos.
Para poder desempenhar o papel que ela assumira, tinha que estar calma; a angústia encheu seu coração.
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 18, 2016 7:33 pm

— Minha mãe, — pensava ela.
Por que você não o perdoou, quando ainda tinha tempo?
Será que você já não tinha se desforrado o bastante?
Mas você estava certa quando dizia que o pântano iria me tragar...
Meu Deus, em que sujeira eu mergulhei!
Eu encubro a libertinagem infame com a minha vida e esta criança vai usar o nosso nome.
Porém eu não posso proceder de outro modo.
Se meu pai não fosse tão irascível e excitável, seria outra coisa; tomado de cólera, ele poderia cometer algo que mais tarde o tornaria infeliz a vida toda.
Não, o meu dever é salvá-lo.
Aliás, isto não faz diferença:
se serei a esposa deste farrista e libertino, ou de qualquer outro.
O homem realmente honesto e nobre tem receio de uma "flor do pântano", como eu...
Ela atirou a cabeça para trás no encosto da poltrona, fechou os olhos e entregou-se ao sentimento de cansaço que a tinha dominado.
Passaram-se duas horas quando de repente bateram na porta e entrou Juliana.
Ela ainda estava pálida, mas parecia mais tranquila, sentou-se ao lado de Marina e apertou a sua mão.
— Amanhã o conde virá para pedir oficialmente a sua mão em casamento.
Vou pedir a Deus por você o resto da minha vida, — cochichou insinuantemente ela.
Ao ver o tremor nervoso que abarcava Marina, Juliana a acalmou e depois começou a discutir o que elas tinham a fazer.
Ao que parecia, ela ponderara sobre todos os acasos e preparara para Marina todas as respostas a todas as perguntas possíveis do seu pai.
Quando para o almoço voltou Pavel Sergueevitch, Juliana parecia alegre e no rosto de Marina também não se via nada senão uma leve sombra de tristeza.
Mal Adaurov levantou-se da mesa, o porteiro entregou um envelope ao general; Juliana e Marina logo reconheceram o autor por um monograma grande no envelope.
Marina inquietou-se, corou e, para pôr fim à incerteza, dirigiu-se ao seu pai:
— Papai, eu preciso falar com você — com uma voz insegura começou ela.
Será que você poderia me dedicar meia hora?
Ao ver o embaraço e o rubor no rosto da sua filha, Pavel Sergueevitch deu umas palmadinhas na sua face e carinhosamente disse:
— Venha comigo, minha pequena, para o meu escritório e me conte o caso.
Ele recebeu a carta das mãos do criado e leu o monograma.
— Novamente desta Tudelskaia!
Levou consigo a missiva da traição e a jogou na escrivaninha.
Ao se sentar na poltrona, ele pôs a filha no colo.
— Então, querida, diga o que você quer.
Dinheiro, alguma coisinha de ouro ou algo diferente?
Diga francamente, não fique tão abatida.
Por um momento a fraqueza dominou Marina; as lágrimas brotaram dos seus olhos e ela abraçou o colo do pai com as mãos.
— Tenho medo que você fique zangado comigo, papai.
Eu não fui sincera com você como deveria.
Mas, veja, eu morei tanto tempo longe de você que, apesar de todo o seu carinho e bondade, ainda receio... tenho vergonha...
Pavel Sergueevitch pegou-a pelo queixo, olhou nos seus olhos confusos.
— Tal prefácio promete a revelação de um segredo íntimo.
Entretanto não é o caso de tremer e temer.
Daqui a pouco você fará dezoito anos e essa é a época do amor e dos sonhos.
Agora diga para mim quem roubou o seu coração?
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 18, 2016 7:33 pm

— Eu achei que você tivesse uma certa antipatia por ele...
É o conde Stanislav e amanhã virá para pedir a minha mão em casamento.
— Zemovetski? — ficando carrancudo, repetiu Adaurov.
Confesso que não esperava ouvir de você este nome e preferia outro marido para você.
Não posso dizer que na realidade tenha algo contra ele: ele é um rapaz bonito, de uma família digna, é rico e de reputação impecável; mas ele é uma pessoa leviana, tem fama de um grande pândego e ainda neste inverno flertava com Tudelskaia. Você deve ter notado isso.
— Sim, papai, ele cortejava essa mulher asquerosa para despertar o meu ciúme.
Ele me ama desde os tempos de Mónaco; Juliana sabe disto e é a nossa madrinha.
— Ah é? Pois então essa é a causa de todas as suas consultas e cochichos intermináveis.
Imagine só, como estas mulheres gostam de arranjar casamentos!
— Você não sabe de tudo, querido pai.
Tudelskaia está loucamente apaixonada por Stanislav Boleslalovitch e o persegue decididamente, colocando na cabeça, que ele se casará com ela, se ela se divorciar.
Finalmente ele ficou farto disso e declarou a ela que me ama.
Hoje ela veio voando, como uma fera, lançou-se sobre nós e fez uma cena, exigindo que Juliana Adamovna a ajudasse e não a mim.
Logo, declarou que você jamais me casaria com um polonês.
Para pôr fim e provocar o rompimento entre nós, ela disse que lhe mandaria imediatamente uma carta que o conde escreveu para mim e que ela roubou não se sabe como.
Isto é infame, asqueroso por parte dela, mas eu tenho certeza, que é esta mesma carta.
Papai, querido, me entregue a carta — implorava Marina, ficando vermelha até a raiz dos cabelos.
O pai estendeu-lhe a carta.
— Pegue-a, amiguinha.
Marina escondeu apressadamente a carta atrás do corpete e, ao apertar a sua facezinha aveludada contra a face do pai, sussurrou indecisamente:
— Então eu posso esperar que você dê uma resposta positiva ao conde?
Pavel Sergueevitch guardava silêncio pensativamente e um sentimento penoso apertou o seu coração.
Não tinha nada de definitivo que pudesse culpar Zemovetski; seria um brilhante partido em todos os sentidos, quanto a Marina, ela era muito linda para não prender até este homem tão fútil.
Entretanto a sua voz interior lhe sugeria que a sua filha não seria feliz com o conde.
Stanislav tinha algo que ele não gostava.
E outra coisa:
a sua avó, uma velha santarrona cercada sempre de padres e de várias pessoas suspeitas, era-lhe repugnante.
Para finalizar, só pensar que Juliana intrigava e ajudava o conde a seduzir Marina o irritava.
Ao encontrar o olhar amedrontado e enevoado de lágrimas ele suspirou penosamente e a beijou.
— Tudo bem, eu aceitarei o pedido do conde.
Parabéns, minha querida, vou pedir a Deus por sua felicidade.
Marina beijou fortemente o pai e saiu correndo.
Não conseguia mais fingir.
Passou directamente do escritório do seu pai para a saleta, onde Juliana, alvoroçada e pálida, fingia ler um livro.
Ao parar à frente da sua madrasta, rompeu o envelope e tirou duas cartas:
uma delas era do conde e a outra de Tudelskaia.
Dando uma olhada nas assinaturas, ela as jogou na mesa.
— Eis aí a prova da sua vergonha, elimine-a na minha presença.
Mas cuidado, mantenha o seu juramento.
Paguei o preço da minha vida futura e não quero que o sacrifício que fiz seja em vão.
Quero que o meu pai seja feliz!
Está me ouvindo?
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 19, 2016 7:13 pm

— Ele será feliz, lhe juro — respondeu decididamente Juliana.
A minha imprudência me custou muito caro.
Após percorrer com os olhos as cartas, ela as jogou na lareira.
Quando das provas sobraram apenas as cinzas, Marina saiu.
Ao voltar ao seu quarto, ela caiu na poltrona e cobriu os olhos com as mãos. Sentia uma tontura.
O seu futuro parecia um abismo sombrio onde ela caía.
Tudo estava acabado...
Ela se casaria com um homem que não amava e nem respeitava e que era amante da sua madrasta.
Estremeceu de repugnância e de repente na sua memória ressurgiu a imagem do barão Farnrode.
Ah, se ele fosse aquela pessoa para quem amanhã daria a sua palavra!
Mas ele não confiava nela; ele tinha medo e não queria salvá-la.
Ela com raiva afastou as recordações sobre o barão; uma tristeza e amargura indescritíveis encheram o seu coração e ela desatou em pranto.
Daquele jeito, com o rosto coberto de lágrimas, ela foi encontrada pela babá.
Avdotia Mironovna assustou-se com o aspecto desconcertado de Marina e começou a indagar o que estava acontecendo.
Nunca antes Marina se sentira tão solitária e tinha a necessidade de abrir o seu coração e falar com alguém sobre a sua dor; ela não tinha mais forças para dissimular e ficar calada.
— Jure por Deus, babá, que não passará para ninguém o que eu vou lhe dizer — murmurou ela, abraçando a pajem.
E depois que a velha rezou freneticamente perante as imagens, Marina, sufocada, contou-lhe tudo o que tinha acontecido.
A cabeça de Avdotia Mironovna sacudia da emoção enquanto ela escutava a moça.
— Maldita — resmungava com raiva a velha.
É você, a minha pombinha, que agora tem que pagar os pecados dos outros para dispensar o patrão da vergonha e da dor?
Coitadinha, é de crer que você nasceu em má hora!
Porém Jesus Cristo e Nossa Senhora estão vendo o seu amor filial e abençoarão você.
Fique sossegada, a sua velha babá não dirá a ninguém até à morte e rezará para que Jesus Cristo poupe você.
Ela pegou a mão de Marina, levou-a até as imagens e ajoelhou-se junto com ela.
— Peça a Deus para que Ele proteja você — disse severamente, com muita fé, a velha.
O ardente impulso de oração acalmou Marina, dando-lhe confiança na bênção dos céus.
No dia seguinte esta convicção também não abandonava Marina.
O seu belo rosto de pouca cor e como de costume pensativo ficou naturalmente agitado, quando a chamaram para a sala de visitas, onde estava o conde.
O seu pai pegou a sua mão e a pôs na mão de Zemovetski, dizendo que estava dando o seu consentimento.
Depois o pai saiu para o trabalho e deixou a discussão dos detalhes para depois do almoço. Os noivos ficaram sós.
Um silêncio embaraçoso e penoso reinou durante alguns minutos.
O conde estava pálido e seu bonito rosto também estava emocionado.
Ele olhava para a cabecinha abaixada de Marina com um olhar um tanto estranho.
Depois de se conter, finalmente, pegou a mão da noiva e aproximou a boca para beijá-la.
— Perdoe-me que deste jeito intervenha na vida da senhorita, entretanto, acredite que faço todo o possível para ser digno da felicidade de chamar a senhorita de minha esposa.
Até agora eu nem me atrevia a pensar na senhorita, mas será que é possível vê-la e não amar?
Juro que esta insensatez, a qual eu lamento, foi a última.
Marina suspirou.
— Acredito no senhor. Vamos unir as nossas melhores intenções para cumprir uma tarefa penosa para ambos:
o senhor se casará comigo para salvar a honra da sua prima, eu me caso com o senhor para preservar a felicidade e a tranquilidade do meu pai.
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 19, 2016 7:14 pm

Somente o futuro irá nos mostrar se superamos as dificuldades das obrigações que assumimos.
Entretanto eu acho que entre nós não precisamos mentir e fingir um amor inexistente, porque a base do nosso casamento é profundamente humilhante para a minha dignidade feminina.
Mesmo assim prometo que cumprirei honestamente o meu dever e não exijo nada senão respeito.
— O desejo da senhorita é lei para mim.
— Mais um pedido, conde.
O senhor entende como é duro desempenhar o meu papel para que o meu pai não perceba nada; por isso gostaria de reduzir na medida do possível a situação actual.
— Entendo. Eu partirei para Tcharna sob pretexto de arrumar a casa para a vinda da senhorita.
Porém a minha saída tem que ser preparada de tal maneira que não pareça uma fuga.
Marina acenou que sim.
— Resignar-me-ei ao inevitável, claro, e depois tenciono visitar a minha tia em um convento por algum tempo.
Acredito que meu pai nada terá contra isso.
Durante o almoço, onde se reuniram as pessoas mais próximas, entre outros conhecidos, os esponsais foram anunciados.
Brindaram à saúde dos noivos e zombaram da confusa Marina quando o conde teve que beijar a noiva.
Pavel Sergueevitch estava tão alegre e animado que, observando-o, Marina ficou contente: tendo uma natureza entusiasta, neste momento achou o seu sacrifício leve.
À noite decidiram que o casamento seria realizado dois meses depois e dentro de uma semana o conde partiria para Tcharna.
Por mais difíceis que fossem esses momentos para Marina, ela cumpria cuidadosamente o seu papel de noiva feliz.
O luto, em que ela estava, a dispensava da festa pomposa de noivado e nos círculos mais íntimos ela recebia os parabéns com alegria.
Juliana também estava contente e feliz e parecia muito ocupada com a preparação do enxoval e durante horas arrastava a sua enteada pelas lojas.
O mais penoso era passar as noites quando os noivos estavam juntos.
Stanislav procurava tanto quanto possível atenuar o embaraço das relações, distraindo Marina com conversas sobre Tcharna, desenhando para ela os planos da futura residência e discutindo detalhadamente o arranjo e mobiliário dos quartos.
Marina não tinha nada contra tais conversações e discutia com vontade questões de tal espécie.
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 19, 2016 7:14 pm

V.

O castelo Tcharna (que significa Negro em polonês) fora construído ainda no século XVI.
Ele estava numa colina alta, um gigante sombrio e imponente com três torres pontiagudas.
No começo Tcharna era um forte, mas com o tempo aterros e muralhas foram arrasados e o fosso do castelo fora coberto.
Agora o castelo estava cercado por um enorme parque, cuidadosamente conservado, pelo qual corria um riacho com pedras.
A aparência externa do castelo também sofrerá transformações.
Ao lado do prédio principal fora anexada uma nova ala que não combinava absolutamente com a aparência feudal da construção principal.
Havia um terraço largo com colunas no estilo italiano e uma grande janela veneziana.
Entretanto, a velha condessa não gostava desta nova construção e ocupava os aposentos ao lado de uma das antigas torres e na medida do possível ela reconstruíra tudo que lembrava o passado.
Depois do almoço, ela e o conde Stanislav estavam sentados na sala de visitas ao lado do quarto da condessa.
Pelos seus rostos corados logo se percebia que a conversa tinha sido tempestuosa.
A condessa Zemovetski era uma mulher que tinha mais de sessenta anos; porém ela estava tão bem conservada que dificilmente dava impressão de ter mais de cinquenta.
Era alentada e até maciça, e a cor do rosto era levemente vermelha como das pessoas florescentes; o cabelo grisalho caía sobre as orelhas; os traços secos e angulosos e os lábios finos e cerrados eram sinal de algo cruel e desdenhoso, nos olhos negros e perspicazes irradiava-se uma mistura de algo maldoso e de hipocrisia afectada.
Agora ela olhava para o neto, carregando as sobrancelhas com um ar severo.
— Repito-lhe; Stanislav, a sua conduta é inadmissível.
Será que pôde ser tão leviano para se meter com uma parente?
Será que há poucas mulheres fora essa Juliana imprestável?
E por favor, não retruque!
Juliana não presta, caso contrário ela não se casaria com um "moscovita".
É evidente que naquela casa não guiam o seu espírito devidamente, senão ela não entraria num relacionamento amoroso com o seu primo, não inventaria uma nova infâmia para cobrir toda esta sujeira — casar você com uma "moscovita" e de tal modo dar para os futuros condes Zemovetski uma mãe herege...
A sua voz tremia de cólera e os olhos faiscavam.
O conde que andava de um canto para outro, pondo as mãos nos bolsos, parou na frente da sua avó e mediu-a com um olhar zangado.
— Você prefere, provavelmente, que ela seja desonrada publicamente e que eu seja ferido ou morto em um duelo com Adaurov? — disse com a voz surda e irritada.
Sem dúvida, procedi imprudentemente, nós ambos não sabemos como aconteceu essa tolice; porém se a coisa já ocorreu, eu lhe exijo, avó, que você acolha Marina como parente, pelo menos aparentemente.
Ela é tão jovem, dócil e magnânima que isso facilita muito o meu sacrifício inevitável.
Além do mais ela não deve nunca suspeitar que você conhece a razão do nosso casamento.
— Se no presente caso não se tratasse da salvação da honra de uma Tchervinski, jamais daria a minha permissão para este horrível casamento.
Entretanto, se eu aceitar o facto que você prefere o casamento ao duelo, saberei o que exige o bom-tom e não será você quem irá me ensinar como devo me comportar.
— Não vou lhe exigir mais nada, vovó.
Eu também preferiria me casar com uma católica, porque não aprovo os casamentos mistos, mas... agora não há outra saída e nosso sacrifício é inevitável.
Ao dar às pressas um beijinho na mão da condessa e, parecendo satisfeito com o encerramento da desagradável explicação, ele saiu.
Ficando só, a condessa agitada começou a andar pelos quartos; a expressão de raiva e desprezo surgiu momentaneamente no seu rosto, de quando em vez um sorriso maldoso torcia a sua boca fina.
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 19, 2016 7:14 pm

Embora lá fora ainda estivesse claro, pouca luz penetrava através das estreitas janelas com vidros coloridos e o quarto estava coberto de penumbra; os móveis antigos e reposteiros de veludo violeta escuro faziam o quarto ainda mais sombrio.
— Procure saber se o padre Ksaveri está em casa e se estiver, peça-lhe para vir — deu ela as ordens ao criado.
O criado voltou logo, informando que "seu reverendo" fora ao povoado vizinho para visitar um doente.
A condessa apoiou-se com o cotovelo no peitoril da janela e ficou pensativa.
Ela estava tão absorvida pelos seus pensamentos que não percebeu quando acenderam as lâmpadas e levantou a cabeça somente quando alguém parou na frente da sua janela.
— É você, Camila?
Pensei que fosse o padre Ksaveri.
Que aspecto perdido você tem, aconteceu alguma coisa?
A senhora Camila Vrublevskaia, a companheira e até parcialmente uma parente da condessa, era uma solteirona, baixinha, descarnada e loira.
Sempre se vestia de preto, usava um rosário nas mãos e, como colar, uma cruz com contas no pescoço; apesar de tal hábito monacal, as faces da senhora Camila estavam sempre com carmim e as sobrancelhas maquiadas.
— Acabei de saber que o jovem conde vai se casar, será que é verdade?
Sim? Posso dar os parabéns?
— Sim, Camila, é verdade, só que não é caso de se alegrar.
Stanislav se casará com Adaurova, a filha do marido de Juliana. Mas quem contou a você sobre o casamento?
— Jesus, Maria!
Com uma herege? — ergueu os braços, aturdida Camila.
— Quem me contou isso foi Franco, um criado do jovem conde — voltando a si, continuou ela.
Escutei barulho na galeria de arte, ao lado do escritório do conde, fui lá para ver o que era, vi que abriam uma grande caixa que acabaram de trazer da ferrovia.
Naquele momento o conde me disse que aquele era o quadro onde estava o retrato da noiva.
Depois o quadro será levado para escritório do conde Stanislav, mas por enquanto até que lá haja lugar, ficará por algum tempo na galeria.
O conde disse que ele próprio indicará onde e como colocar as lâmpadas para uma melhor iluminação — informou a senhora Camila.
— O retrato da noiva? Neste caso seria interessante dar uma olhada nela.
Pois não tenho nenhuma noção sobre sua aparência.
A atenção de Stanislav inspira a desconfiança de que a moça parece ser bastante bonita — maliciosamente notou a condessa.
O jovem conde ocupava a ala do castelo recentemente construída.
A longa galeria de vidro ficava adjacente ao seu escritório, todas as suas paredes haviam sido cobertas de quadros e retratos, as estátuas e plantas raras também foram colocadas lá; essa galeria dava saída para um amplo terraço.
Fora nesta galeria, que o conde resolvera instalar por um tempo o quadro "A centelha errante", que lhe deu Pavel Sergueevitch, deixando para si uma cópia.
Ao se dirigir aos aposentos do seu neto, a condessa encontrou no caminho o padre Ksaveri e o levou consigo.
— Padre, vamos dar uma olhada no retrato da futura esposa de Stanislav.
Ele acabou de declarar para mim que irá se casar com a filha do marido de Juliana.
O padre quase deu um pulo.
— Casar-se com uma herege?
Como pode?
— Infelizmente, é verdade, padre!
Sobre isso eu gostaria de falar com o senhor especialmente; passe no meu quarto depois do chá.
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 19, 2016 7:14 pm

O padre Ksaveri acenou com a cabeça concordando.
Neste instante eles entraram na galeria onde tudo estava desarrumado.
As estátuas e adornos com as plantas estavam fora do lugar; os quadros tirados das paredes foram postos juntos no chão.
Mesmo antes de "A centelha errante" haver sido pendurada e estando ainda encostada na parede, as lâmpadas com reflectores já a iluminavam.
O próprio conde não estava, mas na frente do quadro havia um grupo de criados que trocava opiniões a meia voz.
Ao verem a velha condessa, os criados se dispersaram.
Ficou só Frantichek, que puxou para ela uma poltrona.
Zemovetskaia examinou o quadro por muito tempo e somente expressou o seu espanto com uma exclamação prolongada "Veja só!".
O padre ficou atrás da sua poltrona e, ao dar uma olhada no quadro, parou admirado.
Os seus olhos fascinados se cravaram na visão fantástica de "A centelha errante".
Ora o rubor vivo, ora a palidez profunda sucediam-se alternadamente no seu rosto.
Ele não conseguia tirar os olhos daquela imagem encantadora e aérea de Marina e somente a voz da condessa tirou-o do torpor.
— Padre Ksaveri, o que o senhor acha disso?
— O traje é demasiado transparente e leve e, além do mais acho que este quadro é um mau sinal — respondeu ele com uma voz surda.
— Ah, sim. A noiva que contrai matrimónio, apoiando-se na morte e atraindo o seu cavaleiro para o perecimento .certo, não promete nada de bom.
Mas eu estou persuadida que o sacrifício, feito por Stanislav, não é dos mais penosos — sorrindo com azedume, disse a condessa e saiu.
— Até logo, padre, eu vou esperar o senhor depois do chá.
Eram quase onze horas, quando o padre Ksaveri entrou na sala de estar da condessa.
A sala estava vazia; o padre sentou-se junto à mesa, pegou nas mãos o livro de orações e o abriu, porém seus pensamentos estavam longe.
A imagem de Marina surgia perante seus olhos e o coração batia fortemente no peito, enquanto a ideia fixa de que aquela mulher bela como um sonho seria a esposa de Stanislav permanecia na sua cabeça e o torturava.
O padre Ksaveri era um homem ainda jovem, alto e de compleição forte.
Seu rosto fino e descorado era raspado e trazia uma expressão especial, que caracterizava um padre católico; seus olhos grandes eram impenetráveis e era dono de uma boa quantidade preta de cabelos crespos.
Sob esta máscara de serenidade aparente, um observador perspicaz notaria o homem de paixões ardentes que talvez fossem reprimidas pela sotaina, mas não apagadas.
A chegada da condessa interrompeu as reflexões impetuosas do padre Ksaveri.
Ela trocara o seu vestido de seda por um largo roupão preto de veludo e naquele instante parecia bem menos severa que antes.
Logo começou a falar sobre o futuro casamento e classificando-o como a maior tolice; já o facto de Marina ser uma russa deixava-a furiosa.
— O senhor entende, claro, como é repulsivo para mim ter uma "moscovita-herege" como neta.
Eu a odeio, mesmo que ainda não a tenha visto, porque posso prever que influência nociva ela irá causar sobre seus filhos do ponto de vista religioso e nacional.
Ela irá incutir-lhes o amor pela Rússia e a frieza para com a nossa religião.
Quanto a mim, jamais esquecerei que em 1863 os russos enforcaram meu primo, um jovem bonito e genial, que prometia uma carreira brilhante.
No caso da religião eu não admito nem mostras de fraqueza, nem concessões.
— Então por que a senhora permitiu este matrimónio?
Motivos tão convincentes são suficientes para vetar, e eu aprovo completamente.
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 19, 2016 7:15 pm

— Pois outra razão me força a dar o meu consentimento — respondeu a condessa com raiva e em poucas palavras contou as aventuras amorosas de Juliana e suas consequências.
— Que confessor bom tem a senhora Juliana, que não a proibiu de um amor pecaminoso entre parentes tão próximos.
Deve ser que o conde também perdeu o temor perante Deus — indignou-se o padre Ksaveri.
— Oh! Stanislav está pronto a vender a alma por causa de uma mulher bonita, mas neste caso ele se submete a um pecado ainda maior.
Imagine só, ele foi amante da mãe de Marina, a primeira esposa de Adaurov, de quem ele se separou.
Eles se conheceram no exterior.
Em Mónaco ele tinha relações abertamente com ela.
Uma expressão estranha perpassou o rosto do padre.
— Pois isto é criminoso, é um dos pecados, que não perdoa nem a Igreja, nem os Céus.
É dever sagrado da senhora impedir a realização de tal coabitação matrimonial, baseada em carácter criminoso e amoral.
Se a senhorita Adaurova não está absolutamente corrompida, ela própria vai estremecer de horror e de repugnância ao saber que será a esposa do amante da sua mãe — replicou o padre Ksaveri, indignado.
— Entretanto, é difícil supor que ela não soubesse nada sobre isso; por outro lado, ela é linda demais para que Stanislav recuse voluntariamente seus direitos legítimos.
Mesmo assim, eu pensarei seriamente sobre o que o senhor me disse e farei todo o possível para que o "sacrifício" de Stanislav não passe dos limites... platónicos — rindo com escárnio, terminou a condessa.
— Em todo o caso. — acrescentou ela — se a minha providência não ajudar ou se revelar ineficaz durante um longo tempo, eu tenho em vista outra solução para expiar o crime e fazer este matrimónio conveniente a Deus do ponto de vista cristão.
Isto seria converter a minha futura neta à nossa sagrada religião católica.
Ela ainda é jovem e por isso não pode ter os princípios religiosos muito firmes.
Em relação a isto eu conto muito com o senhor, meu padre:
a sua influência sábia e a força da persuasão poderão converter esta alma à fé verdadeira.
E se ela se limpar do erro, será possível conseguir para ela e Stanislav absolvição.
— Seria uma solução desejável, mas será que eu consigo fazer isso?
— Se alguém puder conseguir, esse alguém será somente o senhor.
Só para o senhor pode-se tranquilamente incumbir a conversão de uma pecadora tão perigosa, porque o senhor é invulnerável aos encantos femininos.
Ela se inclinou e deu umas palmadas carinhosas na mão branca e bem cuidada do padre, procurando seus olhos com seu olhar terno e bastante significativo.
Quando o confessor saiu, a condessa ainda permaneceu por muito tempo sentada meditando.
Se alguém pudesse observá-la neste momento ficaria horrorizado com aquela crueldade fria e ódio implacável reflectidos na sua face cheia.
— Sim — murmurou ela entre dentes -, jamais Stanislav possuirá a sórdida "moscovita", eu me erguerei entre eles.
E se ela se verificar muito perigosa e não se converter à nossa religião, ela desaparecerá...
É melhor que esta forasteira morra só para salvar o espírito de Stanislav. Isto será justo...
O padre Ksaveri era pároco no castelo e realizava a missa numa capela antiga, montada luxuosamente pela condessa; ele morava na segunda torre onde ocupava dois quartos, mobiliados com luxo, mas severamente.
Eram aproximadamente duas horas da manhã e tudo no castelo repousava em sono tranquilo; somente da porta aberta dos aposentos do padre Ksaveri ouviam-se os sons tocantes da Appassionata de Beethoven, que era tocada com um brilho maravilhoso e muita arte.
Quando o último acorde parou sob a mão do músico, ele se levantou, aproximou-se da janela e se debruçou nela.
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 19, 2016 7:15 pm

Neste momento, a máscara, que ocultava habilmente os sentimentos verdadeiros do jovem padre, foi tirada e no seu rosto descorado lia-se claramente uma luta difícil de sentimentos ardentes e desenfreados.
Ao ficar parado algum tempo, ele aparentemente decidiu-se a algo, pegou um pesado candelabro de duas velas e, passando pelos quartos vazios e silenciosos, dirigiu-se à galeria de vidro.
Colocando o candelabro de maneira que a luz iluminasse a figura de Marina, ele se sentou na poltrona, onde antes estava sentada a condessa, e cravou os olhos no quadro.
Com a iluminação fraca, a maior parte do enorme quadro mergulhava em penumbra, e somente a imagem leve de Marina e o crânio do esqueleto sobressaíram da escuridão.
O padre Ksaveri deleitava-se, observando as formas maravilhosas, transparecidas através do tecido leve.
Tendo a imaginação excitada, parecia-lhe que a veste vaporosa ondulava sob o sopro da brisa nocturna, que as melenas ondeadas do cabelo maravilhoso tremiam e os lindos olhos aveludados fixavam-se nele e sorriam.
— E você, criatura maravilhosa, vai pertencer a este crápula e vagabundo que estende a mão criminosa em sua direcção? — pensava ele, sufocando de indignação.
Seus olhos inocentes são limpos, eles não mentem e na realidade não percebem aquela sujeira, com a qual pretendem maculá-la.
Só que nunca, nunca você vai lhe pertencer; a sua impecabilidade e pureza de espírito me servirão de instrumento para abrir um abismo entre você e o seu marido.
Ele não conseguia tirar os olhos da pintura e ficou calado, depois pôs-se a rir baixinho e com escárnio.
— Fui eu a quem incumbiram convertê-la à nossa religião, porque eu, vejam, sou invulnerável aos fascínios das mulheres...
Ha, ha, ha! Uma velha tola!
Você não entende que para que eu possa suportá-la tenho que realmente ficar cego e couraçado de indiferença.
Maldita sotaina!
Ele amassou convulsamente a aba da batina.
— Você me fechou o caminho para a legítima felicidade, mas nunca foi obstáculo para o amor...
Eu quero que você me ame, fada de cabelo dourado, você já me enfeitiçou.
Está aqui solitária e cercada de inimigos e, quem sabe, fique feliz, ao achar defesa e protecção em meus braços...
Ele ardia todo, sufocava-se e de repente, acercou-se de um salto ao quadro e beijou o ombro branco da "Centelha errante", mas no mesmo momento sobressaltou-se e retrocedeu.
Se era o brilho da chama trémula da vela ou a combinação daquela luz avermelhada com a luz do luar que naquele momento inundava a galeria, mas lhe pareceu como se o crânio se destacasse do quadro e sua boca sem dentes fizesse uma careta maldosa e zombeteira.
— Você me ameaça com a morte, pântano traiçoeiro, porque eu tenho coragem de aproximar-me de você!... — murmurou o padre apavorado, que pegou o candelabro e saiu correndo para o seu quarto...
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 19, 2016 7:15 pm

VI.

Ao voltar de Mónaco para o seu velho castelo, o barão Reimar não encontrava mais a tranquilidade espiritual que tivera antigamente.
O tédio e a tristeza o dominavam.
Ele sentia um vazio ao seu redor, que não conseguia preencher nem com o trabalho, nem com a leitura.
Enérgico e persistente, cheio de regras, o barão considerava indigno afastar-se delas, não queria reconhecer qual era exactamente a causa da sua tristeza, daquele desequilíbrio espiritual que o fazia ficar irritado e até injusto e sob cuja influência a sociedade parecia absurda e as mulheres pareciam maçantes.
Indignado, ele afastava a lembrança de Marina, cuja imagem, como uma visão encantadora, estava insistentemente a sua frente e parecia bulir com o seu fascínio.
Toda vez que na sua memória passava o seu rostinho descorado e pensativo com grandes olhos aveludados e tristes, ele era dominado por um sentimento desagradável, parecido ou com vergonha, ou com despeito, ou com descontentamento consigo mesmo e logo ele habitualmente lembrava a última conversa com a sua tia que por acaso havia sido ouvida por Marina.
Por volta dos três meses o barão chegou a conclusão que a solidão não era para ele, escreveu por este motivo para sua tia Emília e convidou-a insistindo tanto que ela não pôde recusar o pedido do seu favorito e prometeu chegar para o Natal e ficar na sua casa até o término do inverno.
Alegre, Reimar saiu para encontrar a sua tia e a trouxe para o castelo, onde a cercou com amor puramente filial e conforto de toda a sorte.
Mas Emília Karlovna logo notou a mudança no seu sobrinho, estava triste e nele parecia ocorrer uma luta interna.
Ainda as suas cartas continham um tom suspeito, e tudo isto junto com uma agitação mal dissimulada, quando se tratava de Marina, despertou a suspeita de que a jovem o tinha impressionado bem mais do que ele próprio pensava e que a sua fuga prudente custava-lhe muito caro.
Chegou a primavera, e um dia, quando a tia e o sobrinho estavam à mesa e tomavam um cafezinho depois do almoço, entregaram-lhes, como sempre, as cartas e revistas, trazidas da estação de trem.
Emília Karlovna concentrou-se na leitura da carta do seu gerente de bens, o velho Kaspar, que lhe pedia instruções detalhadas sobre a vila, quando de repente a exclamação surda de Reimar atraiu a sua atenção. Ela levantou a cabeça, mas o espanto e o susto fizeram-na perder o dom da palavra.
O pálido barão comia com os olhos a carta, que farfalhava em sua mão trémula.
— Meu Deus! Você recebeu uma notícia desagradável? — perguntou ela com receio.
O barão jogou a carta na mesa e o seu rosto cobriu-se de manchas vermelhas.
— Não tem nada de importante!..
É de vovó me chamando para o casamento de Marina Adaurova.
— A condessa?
Para o casamento de Marina?...
— Eu quero dizer para o casamento de Stanislav e Marina!
— Você poderia imaginar algo parecido?
Será que eu não estava certo ao dizer que esta hipócrita tinha crescido num pântano e absorvido toda a sua podridão?
Como você vê, ela se casa tranquilamente com o amante da sua mãe. Será que isto não é cínico?
Emília Karlovna ficou profundamente abalada.
Mas pode ser que ela nem saiba disso...
— O que a senhora está me dizendo! - respondeu furiosamente o barão.
— Uma moça adulta, que passou toda a sua vida num albergue cigano, onde perante seus olhos desfilaram todos os amantes da sua mãe, seria ingénua demais se não adivinhasse que papel desempenhava lá Stanislav!
Disso você nunca me dissuadirá.
Claro, Stanislav também, vou lhe dizer, ele não sabe o limite do seu desregramento.
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 19, 2016 7:15 pm

É preciso reconhecer, ele escolheu uma esposa conveniente, os dois se merecem.
— Em relação a Stanislav você está certo, o seu procedimento é criminoso; mas uma profunda convicção me diz que Marina é inocente.
Estou surpreendida com a dureza com que você reprova esta moça, profundamente infeliz e um amor de pessoa, que, a meu ver, é totalmente incapaz de um acto de tal baixeza.
Deus sabe quais são as razões que obrigaram-na a aceitar este matrimónio, porque Stanislav sempre foi repugnante para ela.
Pode ser que ela seja uma vítima das intrigas da sua madrasta, que aspira a se livrar de tal maneira da sua adversária em beleza.
É você mesmo quem pintava para mim Juliana com um aspecto nada atraente.
— Tudo é possível, mas não acredito que Marina não saiba sobre Stanislav e sua mãe.
Por isso, se ela aceitou o casamento com o amante da sua mãe, isso é detestável, uma vilania.
A notícia sobre o casamento de Marina e o conde Zemovetski causou uma verdadeira reviravolta no espírito do barão.
Ele foi absorvido inteiramente pelo novo sentimento, que julgava ser de desprezo, mas que na realidade não era nada diferente senão de ciúme.
Dia e noite pensava sobre aquele enlace e cerca de dez vezes por dia mudava a sua decisão:
ir para Tcharna ou achar uma desculpa para não ir.
Finalmente ele declarou para a tia que era inconveniente recusar o convite da avó, mas a verdadeira razão que o atraía para lá era a vontade ardente de ver novamente Marina e pessoalmente verificar o que exactamente a induzira a dar tal passo.
O barão chegou em Tcharna na véspera do casamento.
A condessa o acolheu cordialmente, embora gostasse do barão menos que de Stanislav porque o casamento da sua filha, a mãe de Reimar, com um barão protestante lhe fora repugnante.
Na época fez tudo para impedir, mas a jovem senhorita Yadviga revelou uma vontade de ferro que venceu a vontade da sua mãe.
Contudo, correto e laborioso, Reimar, tendo um carácter sério e a bondade de um cardeal, com o tempo colocou a sua avó a seu favor.
Pois bem, a condessa recebeu seu neto com carinho, agradecendo a sua visita, mas às suas indagações sobre o futuro casamento respondeu evasivamente.
— Veja bem, meu filho, para cada um de nós Deus impõe a sua prova; quanto a mim, Deus submeteu-me à prova em uma coisa, a mais importante na minha vida, a fé.
A sua mãe casou-se com um protestante, Stanislav casa-se com uma ortodoxa; isso é muito penoso, mas eu me submeto à vontade do Senhor.
Fora disso o que eu posso ter contra a escolha de Stanislav?
Apesar da resposta tão diplomática, o barão percebeu o descontentamento da sua avó, que estava preocupada e desejava que ele a deixasse só.
Depois do almoço, em que estava presente o padre Ksaveri, de quem o barão não gostou, a condessa recolheu-se ao seu quarto e deixou Reimar só com suas difíceis reflexões e desassossego espiritual.
Depois de passear um pouco no jardim, foi buscar um livro na biblioteca de Stanislav e inesperadamente encontrou-se na galeria à frente do quadro "A centelha errante".
Ao ver o quadro, ele ficou pasmo.
De que jeito o apelido que ele tinha dado para Marina ficara encarnado nesta obra maravilhosa?
Será que ela própria, tendo espírito rancoroso e ressentimento por causa da opinião que naquela época tinha expressado sobre ela, dera a indicação para o pintor sobre tal enredo?
Mas esta visão encantadora, como ela era bela, como era maravilhosamente bonita esta flor do pântano, que agora Stanislav arrancava sem ter medo da morte, que o esperava nessa traiçoeira superfície plana do pântano...
Durante muito tempo ele analisou o quadro e novamente o ciúme o dominou com tanta força, que ficou insuportável para ele ver alguém mais.
Recolheu-se ao seu quarto e, sob pretexto de enxaqueca, mandou pedir desculpa pois não sairia para o chá da noite.
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 19, 2016 7:15 pm

O barão dormiu pouco nessa noite.
A janela do seu quarto dava para o pátio e ele viu a chegada de Stanislav que novamente saiu para encontrar a esposa e o sogro na estação de trem.
Perturbado pelas emoções que ele próprio não conseguia compreender, o barão esperava com impaciência o retomo de Stanislav; o seu coração começou a bater forte, quando ao lado da entrada parou a carruagem, onde estavam Adaurov e a sua filha, e quando Zemovetski começou a ajudá-la a descer, falando baixinho alguma coisa no seu ouvido.
O barão ruborizou, mesmo assim não lhe escapou que a jovem estava triste e descorada e parecia evitar olhar para marido.
Marina realmente se sentia todo o tempo como sob jugo do pesadelo.
Durante o casamento ela estava tão preocupada que toda a cerimónia passou sem notar e sem deixar qualquer impressão.
Ficou completamente absorvida pelo pensamento opressivo, que daquele dia em diante ela estava para sempre ligada com laços inquebrantáveis a um homem que lhe era repugnante e que o peso das obrigações que ela tinha assumido superava as suas forças.
Aparentemente suportava seu papel com uma perfeição que nem ela própria imaginava ser capaz; somente depois da partida do conde quando ela ficou sozinha durante algumas horas, as lágrimas e uma prece ardente aliviaram a sua penosa opressão espiritual.
Sob a máscara da discrição tímida, no espírito de Marina escondiam-se a energia e o muito desenvolvido sentimento de dever; quaisquer fossem as causas do seu casamento, ela julgava ser sua obrigação superar o asco e fazer a vida conjunta deles tolerável.
Ao chegar a Tcharna, o conde levou a sua esposa e o sogro aos aposentos da sua avó.
A condessa recebeu Marina com muito carinho e foi extremamente gentil com Pavel Sergueevitch, convidando-o a ficar mais tempo na sua casa, mas Adaurov disse que depois do casamento na Igreja, à noite, seria obrigado a partir imediatamente de volta.
Depois da recepção feita pela velha condessa, Zemovetski acompanhou Marina ao quarto dela, que fora reformado com luxo e bom gosto e que tinha uma pequena passagem para os aposentos do conde.
Marina estava tão cansada que tomou banho e foi dormir, dando a ordem de se levantar para trocar a roupa às quatro horas da manhã.
A "capela" de castelo fora enflorada com luxo; o altar, decorado com raras plantas, parecia um pitoresco pavilhão de jardim, a luz forte dos lustres iluminava os ricos paramentos do padre e as roupas sumptuosas dos convidados.
Marina entrou, encantadora em seu vaporoso vestido rendado, ajoelhou-se no travesseiro de veludo vermelho, colocado nos degraus do altar.
Quando ela levantou os seus lindos olhos aveludados para o padre, ele até semicerrou os olhos por um instante.
Era realmente a visão dos seus sonhos, porém ainda mais bela e atraente do que estava no retrato; ao mesmo tempo, um triunfo maldoso e desapiedado despertou no seu coração:
ele abrira um abismo entre ela e o conde, que estavam ajoelhados juntos à sua frente; era o castigo justo pela vida desregrada.
Escondido atrás das pessoas, Reimar, pálido, estava em pé, encostando-se na parede e também não tirando os olhos da noiva.
Seu coração batia fortemente e ele procurava com ansiedade nos olhos de Marina a solução do seu mistério espiritual.
Entretanto o olhar dela era tão puro e sincero que não havia dúvida de que ela não sabia nada do passado depravado e criminoso do seu marido.
Além do mais ela não parecia feliz: nos seus olhos escondia-se uma profunda tristeza, enquanto os lábios cerrados davam uma expressão amarga ao seu rosto.
Então qual fora o motivo de tal casamento?
Reimar olhou para o seu primo.
O rosto pálido de Stanislav não expressava nada e o ciúme soprou para o barão que o conde também não tinha sentimentos verdadeiros e profundos.
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 20, 2016 8:06 pm

"Como pôde Stanislav, que a si próprio considerava um conhecedor da beleza feminina, ficar cego?
Será que, farto da vida, ele achava que tinha direito a possuir qualquer mulher bonita?" — pensava o barão.
Depois do casamento religioso os recém-casados foram cercados e começaram as felicitações; entre outros convidados o barão também se aproximou.
Ao vê-lo inesperadamente à sua frente, Marina estremeceu, um rubor leve corou o seu rosto pálido; no entanto, ela rapidamente se conteve e respondeu o seu cumprimento com uma frase gentil e fria e com uma inclinação leve de cabeça.
O barão até achou que ela, com isso, olhara para ele com uma certa hostilidade e ficou dominado por um vago sentimento de inquietação.
Após beber à saúde dos recém-casados uma taça do champanhe, ele saiu, desceu para o jardim e foi para o fundo para se acalmar e pôr em ordem seus pensamentos.
Enquanto isso, a animação e alegria reinavam na casa:
a jovem condessa com a sua beleza e amabilidade causou uma excelente impressão a todos.
Às dez da noite Pavel Sergueevitch partiu, despedindo-se com ternura da sua filha.
Marina pôs-se a chorar, despedindo-se do seu pai, mas ele amistosamente zombou das suas lágrimas, não sabendo que preço penoso tinha pago a sua filha pela felicidade ilusória dele...
O jantar ia ser servido cerca da meia-noite e a condessa Yadviga e algumas senhoras idosas foram descansar, o resto dos convidados foi para o terraço ou se dispersou pelas alamedas iluminadas do parque.
Era mês de maio, a primavera chegara cedo nesse ano, e uma noite calma e serena, um pouco fresca, cheia dos odores das flores e da verdura nova, acariciavam com ternura e tranquilidade.
Marina também saiu para o terraço junto com os hóspedes, mas o meio desconhecido e as conversas em idioma pouco compreensível irritavam-na; ao achar uma oportunidade, ela imperceptivelmente desceu para o jardim e pôs-se a percorrer lentamente o caminho ao longo do castelo.
A sua cabeça estava cheia de pensamentos pesados.
Agora, depois da partida do seu pai, ela ficara totalmente só; e exactamente nesse momento, quando começava o seu sacrifício pesado e doloroso — a vida conjunta com o marido — ela se encontrava com o barão, o homem que ocupava um lugar especial no seu coração.
Ele a tratara com desdém e reserva; os seus lábios mal haviam tocado a sua mão; a olhara com frieza e indiferença, enquanto fazia os votos de felicidade e dava os parabéns banais...
Talvez ele a desprezasse porque ela se casara com o conde Stanislav, vazio e leviano, aquele a quem o barão havia reprovado severamente na época.
O seu coração batia fortemente, tinha um sentimento de amargura e indignação.
Sem dúvida, o barão não suspeitava que ela se sacrificara; mas que direito ele tinha de reprová-la, mesmo que ela realmente estivesse apaixonada pelo conde?
O que ele tinha a ver com isso?
Pois ele próprio virara as costas para ela, vendo nela "uma flor venenosa", da qual achou necessário fugir.
Entregando-se a esses pensamentos tempestuosos, ela não prestara atenção por onde ia, quando se encontrou diante de um terraço, decorado com flores, tomou-o por aquele adjacente aos seus aposentos.
Ao subir rapidamente a escada, ela, surpreendida, viu-se numa entrada que dava para a larga e comprida galeria, decorada com plantas e estátuas.
Não distante, perante um quadro bem iluminado, o barão Farnrode estava numa atitude pensativa, com as mãos cruzadas.
O primeiro que pensou Marina foi em sair:
encontrar-se com a pessoa em que acabara de pensar foi-lhe desagradável e penoso, mas o seu orgulho venceu.
Aproximou-se e disse:
— Será que senhor barão poderia me informar onde estou?
Eu não sei onde vim parar e como voltar para a sala...
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 20, 2016 8:06 pm

Ela calou-se, ao discernir o quadro ante o qual estava parado o barão.
Era "A centelha errante".
O barão virou-se e sombriamente, quase com hostilidade olhou para Marina que estava à sua frente.
— Às suas ordens, condessa.
Que obra maravilhosa este quadro!
Eu acabava de admirá-lo.
Que talento enorme é preciso ter para criar algo tão forte.
— O senhor gostou da ideia do quadro?
Eu também acho que ele foi bem realizado — respondeu Marina com uma voz surda.
Muito vivo foi esse cavaleiro prevenido, que já quase levantou o pé, mas não saiu do lugar, tendo medo que "a centelha errante" o levasse à morte.
— Sim — respondeu secamente o barão -, o limo do pântano criou esta visão atraente, o seu encanto é venenoso, e a felicidade que ela promete é somente aquela centelha ilusória por trás da qual se esconde a morte.
Será infeliz aquele que, ao ceder ao sentimento, siga tal criatura sem coração.
Durante as últimas palavras Marina mordeu levemente os lábios, como que querendo reprimir o sentimento agudo de dor.
— Eu devo, entretanto, defendê-la, porque servia o seu protótipo.
Contudo não acho que o conde Stanislav esteja arriscando.
Coitada da solitária "centelha"!
Ela nem sabia de virtude tão severa, despiedosa e que julga cegamente sem pensar se a condenação é merecida?...
Mas basta de metáforas, falemos directamente.
Diga-me, barão, por que o senhor me trata tão severamente?
Reprovar a moça, achando que ela é uma flor venenosa só porque cresceu num pântano é bastante leviano; entretanto eu não estendi a mão criminosa atrás de qualquer cavalheiro, não estava intencionalmente no seu caminho e nem tentava perturbar a sua santa castidade.
A sua voz a traiu; ela respirava impetuosamente e os seus lábios tremiam.
O barão ruborizou fortemente.
— Perdoe, condessa, as minhas palavras impensadas.
Que direito eu tenho para poder reprová-la?
Resta-me somente lamentar que uma criatura jovem, à qual Deus deu uma beleza angélica, esteja entrando nessa sujeira moral.
A senhora está certa, as minhas convicções são severas e por isso estou indignado com a sua escolha.
Pegue quem quiser, mesmo que o homem seja tão desregrado quanto Stanislav, mas não ele!...
Marina estava branca como o seu vestido, e olhava para o barão com os olhos arregalados e perplexos; pelo seu rosto se percebia claramente que ela não entendia o sentido verdadeiro das suas palavras e ele sobressaltou-se.
Mas o barão não teve tempo para acrescentar algo, porque nesse momento na galeria entrou correndo e perdendo o fôlego Camila.
— Estou procurando pela senhora por toda parte.
A senhora condessa pede à senhora para que passe agora no quarto dela para lhe dizer uma palavrinha — dirigiu-se ela a Marina.
Ela passou a mão no rosto e respondeu:
— Está bem, eu seguirei a senhora.
Ela encontrou a condessa num dormitório arqueado igual à sua sala de visitas.
A grande cama sob cortinado de leito e entalho de carvalho nas paredes, escurecida com o tempo, davam ao quarto a aparência do dormitório de uma abadessa de abadia medieval.
Ao fazer com que Marina se sentasse, a condessa olhou para ela atentamente parecendo até como se tivesse compaixão dela e depois, reprimindo um suspiro de pena, começou com a voz baixa e melíflua:
— Querida criança, eu pedi para a senhora me visitar para uma conversa muito importante e séria.
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 20, 2016 8:06 pm


Vejo-me obrigada a referir-me a várias circunstâncias desagradáveis e difíceis.
Deus é testemunha do quanto isso é penoso para mim, mas considero meu dever moral lhe dizer toda a verdade...
— Eu não entendo — disse Marina, surpreendida com tal introdução.
— A senhora agora entenderá tudo.
Eu a conheço muito pouco para julgar:
a ignorância ou desregramento moral guiava a senhora quando contraía matrimónio, que infelizmente já aconteceu.
Entretanto pode ser que a senhora nem se tenha dado conta de que pecado horrível estava cometendo, ao casar-se com uma pessoa que tenha sido amante da sua mãe.
— A senhora provavelmente está falando da minha madrasta.
Pois eu me casei com o conde exactamente para salvar a honra de Juliana e, ao mesmo tempo, proteger a felicidade do meu pai.
Mas não considero que isto seja um pecado — respondeu desdenhosamente Marina.
— Indubitavelmente, a sua intenção é muito louvável, mas apesar de tudo, em Mónaco, Stanislav era amante da sua própria mãe e por isso a sua vida conjugal será uma indecência...
— Isto não é verdade!..
É mentira! — ficando fora de si de indignação, exclamou Marina e as lágrimas ressoaram em sua voz.
— Eu não estou acostumada a dizer mentiras, minha querida!
Mas para pôr fim à nossa disputa, pegue e leia esta carta, escrita e enviada pelo seu marido, e... assim irá se convencer.
Marina quase arrancou a carta das suas mãos e percorreu ansiosamente as linhas sublinhadas com lápis vermelho:
"Estou surpreendida com que talento você me acompanha onde quer que esteja, longe de você ou por perto.
Todavia, as suas preocupações de que eu me case com a bela Adaurova são infundadas.
Aliás, corno você já sabe sobre as minhas travessuras, eu não vou negar que esta mulher é bonita corno o diabo e sedutora.
Entretanto, na minha idade não caso com a própria amante que, além do mais, tem urna filha de dezassete anos.
Do mesmo jeito são infundadas as suas preocupações que gasto muito com Adaurova.
Ela se contenta com o meu amor e é ela própria quem paga tanto as suas contas como as perdas no jogo em Monte Cario.
No que se refere a mim, eu ofereço flores e bombons"...
Marina lia as últimas frases com uma névoa nos olhos; tudo nela tremia de vergonha, raiva e desespero.
Uma cortina caiu perante ela e revelou a degradação moral da sua mãe, confirmada por essa carta onde cada palavra foi-lhe uma bofetada.
Mas ao mesmo tempo, ela entendeu toda a vilania e a maldade dessa mulher que pôs a nu perante ela a triste verdade quando tudo já acabara.
— Por que a senhora me contou isso somente agora quando eu já me vinculei por casamento para sempre? — quase gritou ela.
— Para prevenir relações que considero criminosas, até que nossa santa Igreja não perdoe o pecado e não lhe permita a vida conjugal.
Marina levantou-se de um salto da cadeira, amassando a carta traidora que estava na sua mão.
— Eu não preciso nem do perdão, nem da permissão da sua Igreja e nunca pertencerei ao seu neto — disse ela, ao medir a condessa com um olhar raivoso, e depois quase saiu correndo do quarto.
Na sala de visitas ela por pouco não colidiu com o barão que entrava, mas, pelo visto, nem o percebeu e desceu correndo para o jardim, onde caiu esgotada num banco sob um carvalho ramoso.
Ela estava sufocada:
nunca antes uma tempestade dessas desencadeara-se sobre ela.
Ela se culpava da sua tola cegueira e da sua ingenuidade imperdoável.
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 20, 2016 8:06 pm

Sentia nojo de si mesma e da sujeira em que tinha mergulhado, porém do que já não tinha saída.
— Morrer!... Só a morte me livrará e resolverá o problema — passou na sua cabeça quente.
Sim, ela desejava morrer, mas como?...
Os pensamentos embrulhavam-se, mas de repente ela lembrou que quando eles chegavam àquele lugar de manhã, ela vira um rio no parque, nas proximidades da casa.
É aí onde fica a paz beatifica-la, na água fresca que sussurra baixinho.
Ao ficar só, depois que Marina tinha saído da galeria, o barão andava para frente e para trás.
Que Marina não sabia nada sobre o passado era indubitável, que ela não amava Stanislav também estava fora de qualquer dúvida, entretanto ela se casara com ele...
Por quê? Aqui estava escondido um mistério.
O que significava, afinal, este convite da avó?
O que ela poderia dizer que não admitia esperar até amanhã?
Ele foi dominado pelo desejo insuperável de saber tudo e tudo esclarecer.
Que diabo, ele não era um estranho por ali!
Sem pensar mais, ele dirigiu-se a passos rápidos aos aposentos da velha condessa.
Se Marina já saíra, mesmo assim ele conversaria com a sua avó.
Na entrada da sala da recepção ele por pouco não se chocou com Marina que saía correndo da sala, mas parecia que ela não o vira e deslizou sem notar.
Ela estava mortalmente pálida, tinha um aspecto desconcertado e o olhar parecia vago e distraído.
O barão inquietou-se e além do mais foi tomado por um mau pressentimento, entrou com toda pressa no dormitório da sua avó, facto que impediu o padre Ksaveri de sair do nicho, onde ele estava escondido, fechado com uma cortina pesada.
A condessa sobressaltou-se quando o seu neto entrou inesperadamente.
— Meu Deus! Parece que você enlouqueceu?
Que significa esta sua visita repentina?
— Eu quero, finalmente, saber o motivo desse casamento detestável, que você não devia permitir, sendo uma mulher religiosa e de normas rígidas, — disse o barão com excitação que nem um pouco correspondia ao seu habitual sangue-frio.
A condessa tentava esquivar-se da resposta directa, mas as perguntas insistentes do seu neto a obrigaram a falar e ela fez Reimar jurar que iria ficar calado.
— Por favor, acalme-se!
Mesmo sem jurar eu guardarei silêncio sobre assuntos de família; eu sinto que aqui esconde-se um escândalo.
O que você disse para Marina?
Acabei de vê-la sair correndo como uma louca do seu quarto.
Uma expressão de inquietação percorreu o rosto severo da condessa e ela às pressas contou a aventura de Juliana e as causas que forçaram Stanislav a casar-se.
— Claro, somente a necessidade poderia me obrigar a concordar com este casamento horrível; mas prevenir o pecado considero meu dever, porque não posso contar com Stanislav, quando se trata de uma mulher bonitinha.
Por isso eu me dirigi à consciência de Marina; e imagine, esta mocinha boba não sabia nada sobre as aventuras da sua mãezinha.
No começo ela nem queria acreditar em mim, mas eu mostrei para ela a carta de Stanislav, que confirmava totalmente as minhas palavras.
Todavia, se ela abordou esta questão assim tão tragicamente, é melhor que você vá, querido Reimar, e console esta tola senão ela armará um escândalo, que pode revelar toda essa história.
Pois se Adaurov souber a verdade, isso poderá acabar mal tanto para Juliana quanto para Stanislav.
O barão escutava sem nada dizer e no primeiro momento nem sabia o que fazer; um pensamento em turbilhão atravessou o seu cérebro, que Marina tinha sido a vítima dessa intriga infame, que ele não adivinhou o seu espírito, e quando poderia salvá-la, não quis fazer isso e agora era o culpado da vida dela arruinada.
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 20, 2016 8:06 pm

Entretanto, este torpor passou rapidamente.
Antes de tudo ele tinha que achar Marina e prevenir uma possível desgraça ou escândalo.
— É digno da prima Juliana aproveitar-se da inexperiência e magnanimidade dessa criança.
Por outro lado, a cautela de Stanislav também desperta a minha "admiração" absoluta — disse o barão com desprezo.
Sem dúvida, essa aliança é menos ofensiva que uma bala.
— O sacrifício é pago com o título da condessa Zemovetskaia, que acho uma recompensa suficiente.
Agora, Reimar, em vez de filosofar, corra e acalme essa menina:
é preciso que ela esteja presente no jantar.
O barão ficou em silêncio para não se abrir demais e não jogar na cara da sua avó a repugnância, provocada por aquele desalmamento, egoísmo e baixeza com que a avó tinha revelado diante da pobre moça o passado da sua mãe e ainda mais naquele momento quando não havia mais retorno.
Sem dizer nenhuma palavra, ele girou e saiu rapidamente do quarto.
Mas onde estava Marina?
Ele percorreu todos os quartos e, ao saber pelo criado que a jovem condessa fora para o jardim, imediatamente foi para lá também.
A ocasião lhe favoreceu e depois da curva da alameda ele notou uma figura de branco que corria para o fundo do parque.
O barão pôs-se a correr atrás dela.
Através do vão dos árvores ele viu Marina e com horror percebeu que se dirigia ao rio e que parava na margem alcantilada.
Cansada, ela encostou-se na árvore e parecia ter começado a rezar, pois ele via os sinais da cruz que ela fazia.
Enquanto isso o barão percorreu a distância que os separava.
Ao ouvir passos atrás de si, Marina avançou para frente com uma clara intenção de se jogar no rio e ele mal conseguiu agarrá-la, mas puxou-a para trás tão fortemente que ela quase caiu.
Ao reconhecê-lo, ela soltou um grito surdo.
O barão mais levava do que apoiava a moça e, acompanhando-a até o banco, a fez sentar.
— Marina Pavlovna, o que a senhora decidiu?
Pense, o que aconteceria se Deus não me conduzisse aqui na hora certa? — disse ele, censurando-a.
Ela estremeceu e endireitou-se.
— Por que o senhor me impediu?
Eu preciso morrer de qualquer modo...
É a única saída para a situação em que me encontro...
Pois o senhor ainda não sabe...
— Eu sei de tudo.
— O senhor?.. Sabe?
— Sim, sei, como abusaram infamemente da sua magnanimidade e inexperiência e ajoelhado imploro o seu perdão pelas minhas recentes tolas acusações e por outras palavras tão infundadas e cruéis.
— Então, o senhor não acredita mais que eu seja tão má, depravada e perigosa assim? — murmurou Marina e um sorriso feliz e alegre, como de uma criança, floresceu no seu rosto descorado.
O barão agarrou as mãos de Marina e as cobriu com beijos.
A verdadeira felicidade de toda a sua vida passara tão perto, sorrira amavelmente, mas ele não soubera distingui-la.
O amor e os arrependimentos tardios atormentavam-no.
— A senhora é um anjo, Marina, e eu fui um tolo com todas as minhas ideias preconcebidas e agora estou sendo cruelmente punido.
Mas prometo que logo falarei com Stanislav, e garanto que ele respeitará a senhora como irmã.
Estou convencido de que ele é honesto o bastante e não se imporá à mulher que se casou com ele em tais circunstâncias; ele não se atreverá a fazer isso!
Com o passar do tempo o divórcio devolverá para a senhora a liberdade.
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 20, 2016 8:07 pm

Arme-se de paciência, Marina Pavlovna, mas me prometa nunca mais atentar contra a própria vida.
— Se o senhor soubesse como agora fiquei farta da vida quando compreendi o passado — a sua voz a traiu.
— Mas ela é extremamente cara para o seu pai e para mim.
Não sairá daqui até que a senhora me prometa...
— Esta bem, prometo não mais atentar contra a minha vida...
No que se refere ao futuro, só Deus sabe.
— Agradeço a senhora.
Agora procure se acalmar e volte para a sala.
Os hóspedes não devem notar nada.
Marina acenou que sim e levantou-se.
— O senhor está certo, irei até os hóspedes.
Obrigada por me livrar das explicações com o conde.
A ausência da noiva por muito tempo e a sua palidez mortal, sem dúvida, foram percebidas pelos convidados, contudo, ninguém lhe disse nada a respeito disso; mas como Marina parecia sossegada e o conde e a velha condessa, pelo visto, estavam muito bem humorados, a perplexidade vaga dos convidados dissipou-se.
Depois do jantar, quando os hóspedes se foram e a recém-casada se recolheu para o seu quarto, o barão, que todo o tempo não tirava olhos do primo, aproximou-se e disse que precisava conversar com ele sem testemunhas.
— Você escolheu um momento estranho.
Será que amanhã nós não teremos tempo para falar? — respondeu impacientemente o conde.
— Não. Aquilo que preciso lhe dizer é muito importante e urgente.
— Neste caso, vamos para o meu escritório e fale depressa.
Então, do que se trata?
Você parece estar preocupado com alguma coisa? — perguntou o conde quando eles ficaram a sós no escritório.
— Eu acabei, e além do mais, por acaso, de impedir sua esposa de se jogar no rio.
— Já? — assustou-se o conde, ficando pálido.
Mas realmente o nervosismo de Marina excede todos os limites.
Mas eu lhe exigirei explicações — acrescentou ele com maldade.
— Exactamente para esclarecer os motivos que levaram a sua esposa a uma tentativa de suicídio, eu gostaria de falar com você.
A razão deles é a conversa de Marina Pavlovna com a avó, que não somente disse que você tinha sido o amante da mãe dela, mas também mostrou-lhe a sua carta, que comprovava a sua relação com a mãe dela.
Ao mesmo tempo, ela pintou com tanta eloquência a imoralidade das suas relações conjugais que a pobre Marina Pavlovna decidiu-se dar cabo de si.
Agora, se você não quiser que o atentado se repita, a sua obrigação será tratá-la somente como a uma irmã.
Espero que você seja um homem bastante honesto e não leve ao desespero a pobre moça que você próprio considera exaltada.
E se você tinha outras intenções deveria prevenir a avó para que ela não se intrometesse nos seus negócios.
O conde ouvia, ora ficando corado ora empalidecendo.
— Que mulher infame, esta velha hipócrita! — murmurou ele entre dentes, procurando se conter.
Se não estivesse envolvida a honra da Juliana, eu preferia lutar com Adaurov e não me casaria com a filha de Nadejda...
Entretanto, neste caso não serei o primeiro nem o último a se casar deste jeito.
Mas Deus me livre de ser o motivo da morte de Marina, que além disso foi desprezada pela minha respeitável avó.
Eu de maneira alguma aspiro a possuí-la, ela não é do meu gosto:
em matéria de mulheres gosto de vida, do fogo, da paixão.
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 20, 2016 8:07 pm

Por exemplo, a falecida Nádia ou Juliana!
Elas têm fogo e não sangue nas veias; mas esta pálida fantasma com sangue frio não me atrai.
Será que há poucas mulheres que poderão me amar pelo meu jeito!
Entretanto estou muito agradecido a você pelo aviso.
Depois de apertar as mãos um do outro, eles se foram.
A desconfiança ciumenta do barão cessou por algum tempo, mas ele não acreditou na indiferença de Stanislav.
Aquele era um conhecedor fino demais da beleza feminina para não apreciar o encanto fascinante da sua jovem esposa e muito devasso para renunciar voluntariamente uma mulher linda, que lhe pertencia legalmente.
Era evidente que por ora ele tinha que se aplacar, tendo em vista aquela má brincadeira que tinha feito com ele a condessa Yadviga devido ao ódio cego que ela alimentava a tudo que fosse russo e ortodoxo.
Mas seria imperdoável contar com o futuro, apesar de tudo o conde poderia tentar conseguir o que desejasse.
Marina, muito preocupada, voltou para o seu quarto.
Ela vestira um roupão branco, fez uma trança para dormir e mandou embora a criada.
Depois ela abriu apressadamente o porta-jóias e tirou um pequeno revólver com um trabalho maravilhoso, que dera para ela o marido da sua amiga Bulavina e o colocou no bolso.
Depois disso ela se sentou ao lado da janela e com tremor pôs-se a escutar o menor barulho.
Ela não sabia se o barão conseguira conversar com o seu marido, se o outro viria para explicar-se com ela e o que lhe diria.
Às vezes a consciência de que ela se justificara perante o barão e que ele a amava provocava um sorriso feliz no seu rosto, porém o medo e a preocupação venciam.
O relógio já batera a meia-noite quando de repente ela ouviu os passos que se aproximavam no corredor que ligava o seu quarto ao do marido.
Um minuto depois a porta se abriu e entrou o conde.
Ele não tirou a casaca e estava muito pálido.
Olhou fria e sombriamente para Marina que se levantou trémula, emocionada e pálida.
— Sente-se, preciso conversar com a senhora — disse ele, aproximando-lhe a poltrona na qual ela deixou-se cair automaticamente.
Ele próprio ficou de pé.
— Soube por Reimar que a senhora tentou suicidar-se por desespero — continuou ele friamente, — ao saber pela minha avó sobre as minhas relações com a sua falecida mãe.
Graças a Deus que ele conseguiu impedir a senhora de suicidar-se, mas como eu não quero nem um pouco transformar a sua permanência aqui num eterno escândalo, vim para dizer que a senhora não precisa recear qualquer importunação da minha parte.
Permita-me acrescentar que, se eu só pudesse imaginar o grau da sua ingenuidade, claro, recusaria a proposta de Juliana e preferiria prestar satisfação ao seu pai com a arma na mão.
Eu nem poderia imaginar que a senhora, criada na casa da sua mãe onde geralmente não se acanhavam muito com as palavras e procedimentos, não soubesse o que era conhecido por qualquer criado ou empregada da vila Koleoni.
Porém se isto aconteceu, eu respeito a sua ingenuidade e somente não quero servir de palhaço e por isso exijo, que as regras externas de bom tom sejam respeitadas.
Pode ser que no futuro, depois de alguns anos, a senhora fique mais ajuizada e entenda o que é o amor...
— Só não será com o senhor — ficando corada, interrompeu-o ela.
— Para que isso não aconteça com qualquer outro eu cuidarei pessoalmente.
Se eu tenho que admirá-la de longe, evidentemente, não permitirei que ninguém se aproxime da senhora.
No que se refere a divórcio, nem pense:
eu somente consentirei com ele no caso de que seja conveniente para mim.
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 20, 2016 8:07 pm

Entretanto, deixo isto para o futuro, agora exijo que para a sociedade nós sejamos marido e mulher, como todo mundo:
a senhora me chamará de você, faremos visitas juntos, os dois andaremos a cavalos e etc.
Em relação a isso eu conto com o seu bom senso.
Lembre-se que pela Lei a senhora é a minha esposa, tem o meu nome e é obrigada a me obedecer.
Isso é tudo que eu lhe queria dizer.
Agora me permita desejar-lhe boa noite e me despedir.
A sombra de ciúmes da sua mãe não se erguerá entre nós.
O conde mal se dirigia à porta quando de repente virou novamente para a esposa.
— Este corredor leva directamente ao meu quarto, a senhora pode fechá-lo para sua tranquilidade, mas para todos entenda-se que esta porta está aberta.
Espero que a senhora tenha me entendido.
A propósito, permita-me usar a sua vela, lá está escuro.
Ele pegou o castiçal de prata da penteadeira, acendeu a vela e saiu; mas Marina notou que a sua mão tremia.
Mal amorteceram os passos do marido ao longe, ela correu até a porta e fechou-a com o ferrolho.
O caos de sentimentos diversos ferviam nela, mas a consciência de que ela se livrara de um aborrecimento horrível reinava sobre tudo, mesmo que o pensamento de que daqui para frente ela se veria obrigada a encenar uma comédia torturante durante toda a sua vida solitária e ainda com este homem detestável para ela, a oprimia como um pesadelo.
"Não, ele não tinha o direito de prendê-la para sempre a ele.
Chegará o dia quando ela reivindicará o divórcio.
O próprio Stanislav um dia estará cansado das relações e situação falsas e ele a deixará ir embora.
Tinha que somente ser prudente e não irritá-lo à toa."
Acalmando-se, rezou a Deus e foi dormir.
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 20, 2016 8:07 pm

VII.

Uma vida penosa e difícil arrastou-se para Marina.
O castelo esvaziou-se, o barão foi embora no dia seguinte depois da cerimónia do casamento e ela se sentiu absolutamente solitária com seu marido, que não era ninguém para ela, a velha condessa, que a odiava, e o padre.
O conde tenazmente seguia o programa que tinha planeado:
visitou com sua esposa todos os vizinhos, passeava e andava com ela a cavalo, e até às vezes tomava o chá da noite na sala de visitas da sua esposa.
Marina detestava estes encontros a sós, mas não tinha motivo para protestar, porque o esposo se comportava extremamente discreto.
Mesmo assim, não sabia porque ela tinha medo dele e quando os olhos negros de Stanislav paravam na sua esposa com uma expressão diferente, incompreensível para ela, o tremor nervoso a dominava, o que provocava um sorriso irónico nos lábios do conde.
Uma dessas noites, alguns dias depois do casamento, Marina saiu ao terraço para tomar ar fresco, e de repente um som de piano chegou a ela.
A interpretação era de artista.
No começo ouviam-se os acordes grandiosos de uma cantata, depois, aos poucos, o músico pôs-se a improvisar:
ouviam-se motivos musicais estranhos, ora selvagens, dilacerantes, ora tempestuosos e ardentes, mas tanto uns como outros expressavam claramente que o músico derramava através dos sons potentes a luta e os tormentos da sua alma.
Quem poderia ser?
Em todo o caso não era a condessa, nem Stanislav e nem a senhora Camila.
Marina escutava com atenção, mas a curiosidade foi mais forte; então ela desceu para o jardim e certificou-se de que os sons vinham da torre mais próxima, onde morava, como ela ouvira dizer, o padre Ksaveri.
Sem dúvida quem tocava era ele.
Pois então, ele escondia a alma atormentada com uma luta moral sob a máscara de indiferença e impassibilidade e isso ninguém suspeitava...
Desde esse dia o jovem padre despertou o interesse de Marina, ela começou a observá-lo, procurando decifrar o mistério da vida dele.
Além disso o tratamento cortês, respeitoso e amigável por parte do padre Ksaveri para com ela inspirava-lhe simpatia.
No que se refere ao seu tacto nas questões religiosas, ele distinguia-se completamente da intolerância grosseira e da hostilidade notável da condessa Yadviga.
Marina, por natureza, sempre fora devota, mas agora, ao achar-se numa posição falsa da nova família e ao sentir-se totalmente sozinha, a necessidade de rezar manifestava-se ainda mais insistente.
Entretanto ela evitava visitar a "capela" do castelo e só uma vez foi à maravilhosa igreja católica do povoado vizinho, onde nos feriados também celebrava o padre Ksaveri com o vigário.
Neste caso ele foi levado para lá de carruagem e todos os que moravam no castelo foram obrigados a assistir à missa.
Com dificuldade, finalmente, Marina conseguiu se informar que nas proximidades havia uma igreja ortodoxa.
No domingo seguinte ela mandou preparar a carruagem e foi para a missa.
Mas levou um susto quando a carruagem parou na frente de uma cabana semi desmoronada, que se verificou ser a igreja ortodoxa.
Acostumada com as igrejas ricas da capital, ela estremeceu ao ver a torre do sino caindo aos pedaços, as paredes entortadas, madeiras e janelas apodrecidas, onde os vidros quebrados haviam sido colados com papel.
Vergonha e amargura dominavam-na quando ela entrou:
ela nem poderia imaginar tal miséria.
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 20, 2016 8:07 pm

Na igreja havia somente duas imagens com a pintura quase apagada; paramentos e casula do padre eram de antiga chita descorada, o Evangelho estava numa velha capa gasta, as lâmpadas eram luminárias de barro com sebo aceso no lugar de óleo, enquanto zimbro fumegava em incensório no lugar do incenso.
Esta revoltante miséria involuntariamente fazia comparar com a rica igreja católica, suas altas janelas góticas, o divino arranjo de altar e os paramentos sumptuosos do clero.
Na igreja estavam cerca de dez camponeses e camponesas vestidos com roupas pobres que ora com curiosidade, ora com desconfiança mediam com o olhar a moça elegantemente vestida.
Depois da missa Marina se aproximou do padre e procurou saber as causas de tal decadência da igreja.
O padre Andrei, um homem de meia-idade, simples e bondoso, convidou-a respeitosamente para visitar a sua pobre casa, coberta de palha.
Marina gostou extremamente da esposa do sacerdote e de suas duas filhas e encontrou sossego para a sua alma na casa pobre do padre, como se fosse na família dos seus parentes, diferentemente do que ela sentia no castelo, onde o trato hostil dissimulado e aberto deprimiam-na.
— Quanto é preciso para renovar a igreja, suprir de material e fazer todas as mudanças? — de repente perguntou ela.
— Pelo menos duzentos mil — respondeu o padre Andrei.
Mas como colectar tanto dinheiro?
Cheia de alegria, Marina pediu para imediatamente começar a trabalhar, doou vinte e cinco mil e além disso prometeu ajudar a adornar a igreja por dentro.
Toda a família pôs-se a chorar de felicidade.
Depois de receber a bênção deles e votos de felicidade, Marina partiu e voltou para o castelo tão feliz como há muito tempo não se sentia.
No mesmo dia ela descreveu tudo na carta para Pavel Sergueevitch e pediu-lhe para comprar por conta dela todos os utensílios necessários à igreja.
Passadas algumas semanas chegaram umas caixas grandes com imagens, lâmpadas de bronze, manto de brocado para mesa do altar, cortinas de seda; em uma palavra, havia tudo em abundância, não foram esquecidos nem alguns quilos de incenso.
De sua parte particularmente, Pavel Sergueevitch ofereceu os paramentos, dois tapetes e um lustre:
A reconstrução da Igreja também realizava-se rapidamente para grande alegria da população ortodoxa.
Evidentemente, isso não ficou em segredo dos donos do castelo e seus criados; no castelo e seus arredores falavam somente sobre "as extravagâncias" da jovem condessa Zemovetskaia, assim chamavam a ajuda que prestou Marina à sua igreja.
Apesar de perceber que a velha condessa arrufava-se, ela não prestava atenção ao seu descontentamento e não dava ouvidos às suas observações venenosas.
Entretanto, quando uma vez a condessa tentou dirigir palavras mordazes sobre este assunto contra Marina em presença do conde, este olhou zangado para a avó e disse de forma significativa:
— Eu não suportarei que a minha esposa seja limitada em suas acções, e o seu desejo de ajudar a sua igreja é absolutamente legítimo.
Mas a condessa Yadviga não permitia tão facilmente ser chamada à ordem e a censura do neto deixou-a furiosa.
Passado algum tempo depois da entrega das caixas, cujo rico conteúdo atraiu a atenção de todo o castelo e alimentou o informe detalhado de Camila, a raiva da condessa, reprimida por um tempo, finalmente, manifestou-se.
Um dia desses depois de almoço, quando o conde não estava em casa e Marina acabava de voltar da visita da construção, a condessa Yadviga fez uma observação venenosa:
— A beneficência, minha filha, sem dúvida, é um belo acto; mesmo assim, tem que ser prudente, mesmo praticando o bem.
Todos em volta já estão falando sobre seu zelo na realização da construção da nova igreja russa e sobre suas visitas frequentes àquele homem sujo e ignorante que se chama de "pope" (o padre ortodoxo).
Na minha opinião, aqui não há lugar nem para ele, nem para sua cabana.
A senhora, minha querida filha, está esquecendo completamente que pertence à família Zemovetski cujas esposas sempre foram filhas fiéis da nossa santa Igreja.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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