Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 22, 2016 9:26 am

Eu espero muito que chegue o dia em que a senhora deseje seguir a mesma religião que é a do seu marido, renegue a sua heresia e também entre no seio do catolicismo.
Sobre este grande momento a senhora precisa pensar e guardar a sua generosidade para a verdadeira Igreja cristã.
Tudo acontecia no terraço onde serviam frutas e bombons.
O padre Ksaveri estava sentado ali mesmo e antes disso lia para a condessa um livro sobre reflexões espirituais e morais.
Enquanto a condessa falava, o rosto de Marina ruborizava fortemente.
Colocando sobre a mesa o pires com morangos, ela respondeu em tom orgulhoso e firme o que era difícil esperar da sua voz suave e melodiosa:
— Eu aspiro a preservar a minha crença, da qual gosto com todo o meu coração.
A sua suposição, de que um dia irei me converter ao catolicismo, me surpreende muito.
O que poderia obrigar-me a renegar a minha Igreja?
A senhora sabe melhor do que qualquer um que somente por acaso me tornei um membro da família Zemovetski, e a sua intolerância fanática não me inspira simpatia.
Igualmente injusto acho o seu desprezo pelo padre Andrei.
Ele é um homem simples e bondoso.
É verdade que ele é pobre, mas trabalha, dividindo com os paroquianos dele as dores, as necessidades e aquele desprezo com que a sua sociedade trata os camponeses e o humilde sacerdote deles.
Será que ele tem culpa por ter que viver, alimentando-se de batata e kvas (refresco fermentado de pão de centeio), em vez de petiscar biscoitos e vinhos finos, perfumar as mãos bem cuidadas, andar de carruagem e confessar as pecadoras nobres?
A senhora também está errada considerando o padre Andrei limitado e ignorante.
Apesar de a simples e ingénua inteligência dele não ser apurada em pormenores dogmáticos, em compensação ele sabe bem consolar com palavras de bondade os paroquianos, cujas necessidades e sofrimentos entende. Eu não considero nem um pouco que seja uma humilhação confessar-lhe os tormentos do meu coração; ele me compreenderá e resolverá as minhas fraquezas e dúvidas.
O meu espírito necessita não de um carcereiro, mas de alguém que o console.
Durante as últimas palavras o rosto pálido do padre corou, mas Marina não prestou atenção, porque neste momento a condessa, que até agora a escutava muito confusa, de repente passou à ofensiva.
— A senhora, minha querida, é sincera demais — resmungou ela com a voz sufocada de raiva.
Eu não duvido que a senhora tenha algo em comum com este sujo pope, que cheira a estrume.
Agora é possível perceber o quão pouco cuidada foi a sua alma e que na infância não havia ao seu lado uma mão firme e severa, que pudesse guiá-la.
O melhor exemplo de tal desregramento foi a sua mãe:
ela até se suicidou como uma herege e a sua moral não fez honra ao seu confessor.
Marina levantou-se pálida, mas sossegada.
— Faça-me o favor, minha senhora, de deixar a minha mãe em paz.
Ela compareceu a um Juiz mais competente e rigoroso, mas também mais justo do que podem ser as pessoas.
Se mais uma vez se repetirem injúrias, para as quais não tenha dado motivo, queixar-me-ei ao conde.
Acenando levemente a cabeça em despedida, girou e desceu para o jardim.
O que acontecera e especialmente a alusão ofensiva, de que ela pudesse renegar a sua fé, deixaram Marina profundamente indignada.
Ainda que antes a condessa por várias vezes desse início a essa conversa, esta fora a primeira ocasião em que a agredira abertamente.
"O que pensa esta velha hipócrita?
Foi ela própria quem ergueu a barreira entre Stanislav e mim.
Por quem ela me toma?"
Andava rapidamente, absorvida nos seus pensamentos, e sem perceber foi parar no seu cantinho predilecto.
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 22, 2016 9:26 am

Foi para a margem do rio, que ali caía sobre pedras com musgos, agitando-se e formando espuma.
À frente dessa pequena cachoeira, à sombra de jasmineiros, roseiras e acácias, havia um banco redondo e à sua frente uma mesa de pedra.
Nesse lugar Marina gostava de ler e sonhar.
Ela se sentou e pôs-se a meditar, quando de repente a areia começou a ranger sob os passos de alguém e atraiu a sua atenção.
Ela levantou a cabeça e nesse instante, de trás das árvores, apareceu o padre Ksaveri com um livro na mão.
Ao ver Marina, deu um passo para trás, pedindo desculpas por incomodar.
— O senhor não me incomoda nem um pouco.
Por favor, sente-se e nós conversaremos, a menos que pretenda me converter ao catolicismo — disse ela brincando.
O padre inclinou-se, se sentou e um sorriso agudo perpassou seus lábios finos.
— Acho que a minha tentativa acabaria em fracasso, tendo em vista a opinião que a senhora proferiu sobre o clero católico.
— Pelo amor de Deus, não tome para o senhor as minhas palavras, e além do mais, provocadas pela atitude inconveniente da condessa.
Eu não tencionava absolutamente reprovar os sacerdotes católicos.
Ao contrário, sinto muita pena deles por serem privados de todos os direitos humanos e da família, que é aquela esfera de afeição e amor, que qualquer um almeja.
Não me surpreende se o padre católico, que se torna insensível ao cumprir o seu dever, do qual ele é um escravo, remexer desapiedadamente a alma e a consciência do seu confesso e pela sua atitude o leve ao paraíso ou ao inferno.
E tudo isso acaba em que ele se toma geralmente não num pastor, mas num lobo que devora a alma humana.
Me desculpe pela sinceridade, padre Ksaveri, pois só quero explicar porque respeitando totalmente a crença católica não a abraçarei nunca.
— É o seu direito inalienável, condessa, e esteja certa de que eu nem tentarei em tempo algum convertê-la ao catolicismo, porque respeito qualquer crença sincera — respondeu com seriedade e ar pensativo o padre Ksaveri.
Infelizmente, há muita coisa justa que a senhora falou sobre o clero católico.
A Lei inexorável julga milhares de jovens ardentes, submetendo-os à plena solidão, e tira deles o direito de amar — uma bênção, dada para cada criatura de Deus.
Quem nasceu um asceta, sempre achará o seu deserto, mas quem não é capaz disso, terá uma luta difícil, que às vezes estará acima das suas forças.
Daqui resultam vários tipos de abusos.
A natureza humana exige o que é próprio dela e acontece que aquilo, que deve ser um direito divino como, por exemplo, o amor, transforma-se num crime.
É verdade, não são poucos os maus padres, eu particularmente conheço vários, que justificam absolutamente o ditado:
"Quando o diabo encarna-se na Terra, ele se realiza, claro, na batina do padre.
Marina olhava surpreendida para ele e de repente pôs-se a rir abertamente.
— De onde o senhor tirou este ditado?
Não acredito que alguém tenha tido a coragem de dizer isso para o senhor?
— Oh, ouvi-o já muitas vezes e acho que, de quando em quando, esta máxima é bastante justa...
Entretanto, para a honra da nossa batina, quero acrescentar que a maioria dos nossos sacerdotes são pessoas honestas.
A educação e o hábito embotam mais ou menos os sentimentos, e eles acabam de tal maneira que as almas que eles guiam tornam-se simplesmente problemas para resolver.
Mas uma vitória dessas frequentemente é alcançada à custa de esforços demorados e de uma luta difícil...
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 22, 2016 9:26 am

— A sua alma, padre Ksaveri, sem dúvida, também passou por essa prova penosa antes que o senhor tivesse vencido a si próprio — notou Marina, olhando para ele de maneira pensativa.
O rosto do padre corou fortemente, seus olhos ficaram brilhantes; ao se inclinar para ela, perguntou surdamente:
— De onde a senhora concluiu isso?
— Quase toda a noite ouço o senhor tocando piano e admiro o seu talento.
Entretanto, somente agora a sua música ficou compreensível para mim.
Ela prova que a sua alma está sofrendo e lutando, e que o senhor não está satisfeito em só governar as almas e dirigir os paroquianos.
O padre Ksaveri abaixou a cabeça.
— É verdade, a música é um consolo na minha solidão espiritual; em sons, obedientes a mim, emito aquilo que não posso dizer abertamente para as pessoas.
Fez-se um silêncio.
Marina ficou pensativa sem perceber a forma estranha com que o seu interlocutor a olhava, e levantou a cabeça quando ele começou a falar.
— Se a senhora me permitir, condessa, direi algumas palavras no que se refere particularmente à senhora.
— Pois não, estou ouvindo.
— Acho que a nossa conversa de hoje dissipou um pouco a desconfiança que infelizmente eu lhe tenho inspirado; por isso, aproveitando a situação favorável, quero dizer para a senhora que a sua solidão e a difícil posição falsa, na qual se encontra por causa da sua magnanimidade e inexperiência, desperta em mim profunda compaixão e simpatia.
Como confessor, tenho alguma influência sobre a condessa Yadviga e sobre o seu marido e com prazer a usarei para livrá-la de aborrecimentos e, se for necessário, defendê-la-ei, se, é claro, a senhora quiser aceitar a minha respeitosa amizade.
— Claro, eu aceito a sua amizade com gratidão e agradeço a sua compaixão apesar da minha "heresia" — ela sorriu e estendeu-lhe a mão.
Neste ambiente hostil para mim, estou indefesa e é muito bom saber que alguém simpatiza comigo.
Prometo, se a condessa implicar muito comigo ou o conde começar a me aborrecer, contarei para o senhor e recorrerei à sua ajuda.
Ksaveri apertou fortemente a mão dela.
— Agradeço. A sua confiança é um presente dos céus e eu me esforçarei para justificá-la.
Depois de conversar por mais algum tempo, Marina se despediu e voltou para o castelo sem prestar atenção que, ao tocar a sua mão, o padre estremecia nervosamente e sem perceber o olhar devorador com o qual ele a acompanhava.
— Ah — dando um suspiro a plenos pulmões, murmurou Ksaveri.
O primeiro passo está dado.
Você é realmente um anjo de pureza e ingenuidade, se nem suspeita que em mim cada nervo respira paixão por você.
Não! Só amizade ê pouco para mim, eu quero você toda, quero possuir a sua alma e o seu corpo, encantadora!...
Eu a conquistarei, me apropriarei de você!...
Eu também quero amar e ser feliz, ter aquilo que muitos dos meus irmãos têm — uma namorada adorável.
O tempo no castelo arrastava-se saudoso e monótono, mas Marina há algum tempo estava ansiosa, em vista de que na atitude do conde acontecera uma mudança notável, que não prometia nada de bom.
A irritação veio suceder à sua frieza gentil, mas indiferente.
Ora ele evitava a esposa, ora de repente procurava a sua companhia, levava-a consigo a todos os lugares, inventava várias situações que poderiam aproximá-los e que, apesar de serem de curta duração, obrigavam Marina a tolerá-las em vista da sua situação falsa e do papel que tinha assumido.
Não foi uma vez que ela leu nos olhos de Stanislav aquela expressão que lhe causava horror e repugnância.
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 22, 2016 9:27 am

Pois a disposição espiritual do conde realmente era ruim.
Sendo jovem, ardente e sensual, acostumado a satisfazer cada capricho seu, ele considerava a sua situação ridícula, no referente à mulher que lhe pertencia por Lei, como se a roubasse ou ofendesse.
Em condições normais, ele, provavelmente, ficaria indiferente a ela, porque mesmo apreciando a beleza de Marina, ela não era do seu gosto.
Porém exactamente, porque entre ele e a esposa havia um obstáculo, esse facto a fazia especialmente fascinante e querida ante seus olhos.
Ele observava Marina, pensava nela, e o desejo de liquidar o obstáculo que os separava mexia com ele e o excitava.
A cada dia Marina lhe parecia mais bela e encantadora e nem haviam passado dois meses quando se apaixonou perdidamente pela própria esposa, sonhando dia e noite como poderia tomá-la custasse o que custasse.
As considerações morais lhe pareciam ridículas e ele, sem dúvida, teria aproveitado o seu direito contra Marina, se não receasse que ela executasse a sua ameaça de suicidar-se.
Ele não queria isso e portanto viu-se obrigado a armar-se de paciência e conquistá-la passo a passo, mas não tinha dúvidas do seu êxito.
No que se referia à sua avó, que tinha armado toda essa "brincadeira", ele quase a odiava.
As relações entre Marina e o padre Ksaveri eram bastante amigáveis; a discrição invariável e respeitosa do padre entorpeceu a desconfiança anterior por ele e o apoio que ele demonstrava lhe dar, mesmo às ocultas, mas na medida do possível teria provado que ele realmente lhe desejava o bem.
Ele lhe trazia interessantes livros científicos, contava muitas coisas interessantes de factos históricos e das lendas relativas ao castelo e à noite, quando não tinha ninguém, ele se ocupava com a música.
Tocava na sala de estar da velha condessa onde haviam colocado para ele um excelente piano de cauda.
Marina assistia constantemente aos concertos da noite, ao se sentar na poltrona com um sentido estranho escutava as fantasias arrebatadoras do jovem padre.
Ante os seus olhos havia duas pessoas completamente diferentes:
o padre Ksaveri num ambiente ordinário e este pálido, indiscutivelmente dotado, músico com um olhar brilhante de inspiração.
O primeiro parecia frio, firme e impenetrável, que tudo vencia e subjugava; e quanto ao segundo, sob seus dedos finos, na tempestade das melodias maravilhosas e arrebatadoras, reflectia-se um mundo inteiro de paixões, de luta e de suplícios.
Marina ficava muito impressionada com esta música:
ela se unia a estes acordes potentes, que lhe pareciam gritos de uma alma dolorosa e extenuada; esta disposição transformava-se quase em hipnose e deixava-a cravada no lugar, ora encantando com uma tempestade de sons, ora emocionando com um tremor frio.
Às vezes ela não queria ir, mas a força da melodia maravilhosa atraía-a irresistivelmente e ela chegava e sem nada dizer sentava-se no seu lugar habitual.
Um dia, depois que Marina se despediu e foi embora e que o padre Ksaveri também tencionava voltar para o seu quarto, a condessa o deteve e o levou ao seu oratório, ao lado do seu dormitório.
Era um quarto bastante espaçoso com altas janelas góticas; as paredes foram cobertas com uma velha entalhadura de carvalho, escurecida com o tempo.
O quarto fora mobiliado com um facistol, uma poltrona ao lado e um sofá baixinho ao lado do qual havia uma estante de carvalho, ocupada com livros religiosos e outros tipos com capa de couro.
Uma pesada cortina de brocado verde, bordada com flores de ouro, fechava uma porta ogival, guarnecida com gravuras de aço.
Aqui a condessa Yadviga gostava de retirar-se junto com seu confessor para poder longe de ouvidos indiscretos confessar-lhe os seus pecados ou discutir com ele questões importantes ou segredos.
Desta vez a condessa parecia muito aflita, descontente e distraída.
Ao fazer sentar o padre ao seu lado no sofá, perguntou com irritação mal contida:
— E como vai a conversão dessa mocinha imprestável?
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 22, 2016 9:27 am

O senhor está calado, padre Ksaveri?
Pois é necessário que o caso ande com mais rapidez.
— Coisas tão complicadas não se fazem de um dia para outro, se, claro, têm em vista uma conversão verdadeira e séria pela convicção e não por qualquer vantagem.
A jovem condessa é muito tenaz e não quer saber nada sobre conversão de fé; por isso, antes de ter a possibilidade de convencê-la da superioridade da santa Igreja católica, eu tenho que ganhar a confiança dela.
Em cima disso estou trabalhando actualmente e posso dizer que não é em vão; o resto vem com o tempo.
Não entendo porque a senhora está com tanta pressa.
— Ah! Se eu pudesse me livrar dessa maldita de cara pálida, não daria mais importância a ela, e a deixava ferver no inferno eternamente — resmungou a condessa e a expressão de um rancor figadal perpassou no seu rosto carnudo.
Será que você não entende que Stanislav se apaixonou por ela...
— Deixe-o. De qualquer modo, ele não terá coragem de tocá-la, senão o excomungarei — ruborizando fortemente, respondeu o padre com ar de ameaça.
— Tenho medo que quando um homem com o carácter de Stanislav se apaixona, nem mesmo a questão religiosa o detém, enquanto esta mulher estouvada o provoca com suas caretas e sua postura de não-me-toques. Entretanto, eu não quero que ele se amigue com a esposa antes que ela abrace o catolicismo e a sua santidade o papa dê a sua permissão.
Escreva para o bispo, que eu não pouparei nada para conseguir a bênção de Roma; da sua parte, o senhor, também tem que agir mais zelosamente e eu doarei o dinheiro, que o senhor faz tempo me pediu para comunidade de santa Susana.
— Eu, claro, me esforçarei.
Mas por que a senhora concluiu que o conde está impaciente e almeja possuir sua esposa? — perguntou maliciosamente o padre.
— Pela raiva, quase ódio, com que ele me trata.
E tudo isso por causa da maldita moscovita.
Espere que vai ver, cobra!
Se você não proceder como eu quero, varrerei você do meu caminho.
A descendência de Zemovetski tem que ser garantida da maldição da mãe herege.
— Espero que a senhora não esteja planeando homicídio? — perguntou o padre, dirigindo olhares perscrutadores a ela.
— Homicídio? Isso não, mas segregação sim!
O senhor sabe que eu gosto de remexer crónicas antigas e outros documentos do nosso arquivo!
Lá encontrei um conto de um capelão, que vivia há 200 anos.
Veja só, naquela época um dos Zemovetski, enquanto estava a serviço em Moscou, apaixonou-se por uma russa, com a qual depois se casou, contra a vontade de ambas famílias.
Ele a trouxe aqui, onde nasceu a sua filha, que foi baptizada como católica.
Ao partir para a guerra, ele confiou a sua esposa e filha ao seu irmão mais novo e o último com a ajuda do capelão tentou convertê-la para a verdadeira religião, mas ela resistia em sua heresia.
Um certo dia a moscovita sumiu e todos pensaram que ela ou se afogara ou fugira para a sua pátria.
Não havia mais nenhuma notícia dela.
Enquanto isso, o marido dela fora morto durante uma batalha, a filha foi para o mosteiro e o irmão mais novo foi o fundador da actual família dos Zemovetski.
Uma história instrutiva, não é?
Eu achei o lugar onde aquela moscovita estava presa; vamos lá, eu mostro para você.
Ela levantou-se, aproximou-se da estante com livros, apertou uma mola e no mesmo instante abriu-se uma porta, escondida no entalho.
Um ar frio, viciado e húmido exalou ao encontro deles; não dando atenção a isso, a condessa inclinou-se e pegou uma lanterna antiga que estava num canto.
— Acenda-a, padre, para mim, por favor.
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 22, 2016 9:27 am

Há trinta anos ou mais que eu não vou lá.
Ksaveri acendeu silenciosamente a vela, que estava na lanterna, e eles entraram por uma passagem estreita, no final da qual a escada de trinta degraus acabava embaixo com uma maciça porta, guarnecida de metal e equipada com ferrolho; um cadeado pesado estava jogado no chão.
Quando a porta foi aberta, dava para ver um subterrâneo redondo com uma baixa abóbada de pedra.
O padre levantou a lanterna e com curiosidade examinou o calabouço.
Ao lado da parede, num baixo banco de pedra havia um monte de lixo, deveria ser palha apodrecida, e um cobertor vermelho de tecido decomposto, todo em farrapos; em cima na parede estava pendurada uma cruz preta com o corpo amarelado do Cristo feito de marfim.
Perto da entrada, numa mesa de pedra havia uma caneca de barro e uma taça de prata, escurecidas pela umidade; as contas do rosário haviam sido espalhadas parte no chão, parte na mesa; no mesmo lugar um açoite e um livro numa capa de couro com os cantos de prata.
Com um sorriso maldoso a condessa pegou o açoite e o ergueu no ar.
— A crónica não diz se a própria arrependida açoitava o seu corpo pecador ou o capelão, ou pode ser que o irmão do marido a castigasse quando ela ficava insubmissa demais.
Em todo o caso, é um meio maravilhoso e ajuda a vencer a teimosia — observou ela maliciosamente.
— Oh, sem dúvida — respondeu Ksaveri, ao virar-se.
Involuntariamente apareceu-lhe o quadro:
Marina, fechada nesta prisão fétida, e ele chicoteando com açoite o seu branco corpo de mármore.
Um arrepio frio percorreu o seu corpo ou por paixão ou por piedade.
Mas não, essa tenra criatura frágil não morreria neste buraco horrível; somente um diabo como esta velha seria capaz de inventar uma coisa dessas.
Ele iria vigiar para que Marina não caísse numa cilada...
Já era tarde quando o padre Ksaveri voltou para o seu quarto, sombrio e excitado; ele releu a escritura de doação de uma soma bastante considerável a favor da sociedade de propagação do catolicismo e depois a jogou na gaveta da sua escrivaninha.
— Paguei caro por este pedaço de papel para alegrar o Vosso Reverendíssimo Arcebispo...
Porém como foi asqueroso comprá-lo à custa de favores da velha bruxa.
Que repugnante!
É isto que é devoção à Igreja, que não tinha sido citada no meu voto.
Talvez isso faça parte da noção "obediência"? ...
Ele caiu numa risada maldosa e maliciosa e, ao fechar com um estrondo a mesa, resmungou entre dentes:
— Se sou obrigado a servir a Igreja de uma tal maneira, então, evidentemente, posso sem remorso aproveitar do mesmo modo para interesse próprio, para gozo próprio.
Uns dias depois um dos fazendeiros vizinhos promoveu um piquenique por ocasião de uma solenidade familiar.
O conde achou necessário participar deste festejo e desejou que Marina o acompanhasse.
Como de costume; ela concordou sem protestar e na hora combinada sentou-se na carruagem ao lado do marido.
A viagem realizava-se em completo silêncio.
Encostada no canto da carruagem, Marina estava pensativa, esquecida do seu vizinho.
Ao contrário, os olhos de Stanislav espiavam tenazmente o corpo cativante da sua esposa e parecia-lhe que ela nunca havia sido tão bela como naquele dia.
A indiferença completa e aberta de Marina o irritava e ofendia, estragado até fartar-se com as vitórias na alta sociedade, este fracasso com a própria esposa o deixava furioso.
Durante a festa Marina foi um grande êxito, e uma multidão de admiradores cumulava-a de amabilidade e atenção.
Ela estava muito bonita de vestido branco, adornado com rendas, que combinavam extremamente com a sua beleza aérea e seus lentos movimentos graciosos.
Stanislav sufocava-se de raiva e começou a cortejar abertamente uma viúva, atraente e sedutora, procurando excitar o ciúme da esposa, mas esta nem percebeu o flerte do marido e somente a sociedade se surpreendeu com a leviandade do jovem conde.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 22, 2016 9:27 am

Durante o almoço, que encerrou a festa, Stanislav tinha bebido mais do que o de costume e agora voltava para casa com cabeça quente, excitado pela raiva dos ciúmes, o amor-próprio ofendido e a paixão.
Apesar de guardar tenazmente silêncio durante toda a viagem, inventava meios para pôr fim às relações com a sua esposa que tinham se tomado insuportáveis para ele.
Nesse instante a carruagem entrou no parque e, ao chocar-se com alguma coisa, parou.
Respondendo à pergunta do conde, o cocheiro disse que um dos cavalos tropeçara e, parece, torcera uma pata, mas mesmo com dificuldade ainda dava para ir a passo lento até o castelo.
Então o conde mandou o criado buscar um cavalo de casa, enquanto eles continuariam devagarzinho.
— A noite está maravilhosa e nós poderíamos chegar à casa a pé para não cansar o pobre animal — notou Marina, assomando à janela e olhando ao redor onde eles estavam.
Ao sentar novamente no seu lugar, ela se chocou com o marido, que também olhava pela janela e sua face tocou a dela.
Com esse toque, toda a sua paixão acendeu-se num instante.
Abraçando a sua esposa, ele a estreitou e a cobriu com beijos ardentes.
— Mara, Mara!
Livre-se das sombras que foram despertadas entre nós pela maldade humana e não nos deixam viver uma vida natural — sussurrava ele, beijando-a.
Você não tem culpa que um acaso fatal tenha feito com que me encontrasse com a sua mãe...
Deixe-me amá-la e você me ame também.
Esse é nosso direito, o nosso dever!...
Marina rechaçava silenciosamente e tentava libertar-se.
— Deixe-me, você não pode proceder deste jeito.
Não me obrigue a gritar perante todo mundo... — murmurou ela, sufocando.
— Pode gritar, para mim tanto faz!
Todo mundo vai rir de você que grita quando o marido a abraça.
Com uma força que ele nem imaginava que ela tivesse, ela o empurrou e, abrindo a porta, desceu.
Depois de pular uma vala da estrada, ela se encontrou numa alameda conhecida do parque, mais adiante começava um matagal, cortado de caminhos em várias direcções e chamado de labirinto.
Marina queria o mais rápido possível chegar até lá para que pudesse se esconder no bosque, e mais ainda, porque caía o crepúsculo.
Mas Stanislav adivinhou a sua intenção e queria explicar-se, já que a própria questão sobre suas relações estava na ordem do dia.
Sem perder tempo ele desceu rápido da carruagem.
— Vá devagarzinho, Voiteke, enquanto eu e a condessa vamos a pé para casa — gritou ele para o cocheiro e foi atrás da esposa.
Marina sabia que o conde a qualquer momento a alcançaria, e quanto mais ela se afastasse da estrada tanto mais rápido arriscaria ficar sob o domínio do marido, a quem nunca antes tinha visto num estado tão excitado; mas a repugnância e a raiva logo lhe devolveram a coragem.
Não longe dali, agitando-se e formando espuma, corria o rio; a margem neste lugar era alta e abrupta.
Ela se lançou até o rio e encostou-se à árvore no momento em que o marido, ofegante e furioso, aproximou-se dela.
— O que significa a sua ofensa e esta perseguição?
Será que cumpre a promessa deste jeito?
Eu considerava o senhor mais honesto.
Uma profunda indignação e desprezo percebia-se no tom da sua voz.
— Isto significa somente que, como um louco, eu prometi coisas que não sou capaz de cumprir, e no que se refere à vida ridícula e anormal que nós levamos, assim não pode continuar.
Para mim chega! Entendeu?
Conforme todas as leis, de Deus e humanas, você me pertence, você é minha esposa e eu amo você.
A sua voz tremia de cólera e paixão.
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 22, 2016 9:27 am

— Quando me casei com o senhor, não sabia do passado.
Me entenda, sou a filha daquela que o senhor amava somente há um ano atrás.
Eu não perdi ainda o temor a Deus e ao pecado terrível que agora está entre nós...
— Tudo isso é uma besteira, um romantismo obsoleto — fora de si, interrompeu-a o conde.
Dê uma olhada ao redor e veja o que está acontecendo na sociedade:
a cada passo você verá ora o pai que namora a sua nora, ora as senhoras que têm como admiradores os maridos das suas irmãs; no que se refere aos homens que se casam com as filhas de suas ex-amantes há à beça e os raios dos céus não os atingem...
Já passaram os tempos quando acreditavam em ameaças dos suplícios do inferno.
Quanto a mim, quero achar a felicidade nos seus braços, encantadora; os seus olhinhos aveludados me enfeitiçaram e queira ou não, será minha.
— Eu prefiro morrer neste rio a tal "felicidade".
Será que o senhor não entende que repugnância invencível me inspira o seu amor sujo e o senhor próprio, crápula que não tem fé nem escrúpulos?
Sim, o senhor é detestável e asqueroso para mim...
Claro, nada posso fazer contra a violência, mas saiba, que o dia, em que o senhor violar a promessa que me deu, será o último da minha vida.
Vendo que o conde com o rosto corado pretendia aproximar-se, ela agilmente deu alguns passos para trás até a margem.
— Saia do meu caminho e deixe-me voltar para casa.
Será que o senhor tenciona como um bandido me desonrar na estrada principal? — pronunciou ela com voz trémula.
Por causa do movimento rápido de Marina, um pedaço de terra desmoronou da beira e sob seus pés pedras começaram a cair fazendo barulho na água.
Assustado, o conde ficou pálido e pôs-se a retroceder.
— Pode ir, mas saiba que na hora certa nós reataremos esta conversa.
Prefiro dizer toda a verdade a seu pai e estarei pronto a bater-me com ele em duelo do que arrastar tal vida.
Ele girou e desapareceu depois da curva da alameda.
Aturdida, Marina ficou parada por algum tempo, depois foi para o castelo.
Tudo nela tremia e doía por dentro, o coração batia fortemente.
Ela vira claramente a paixão nos olhos do marido; isso significava que a sua única defesa segura — a indiferença de Stanislav — não existia mais.
Entretanto, aos olhos dos estranhos o conde estaria certo, enquanto a sua conduta em relação ao marido, aparentemente escolhido livremente por ela, seria julgada como imperdoável.
Ela duvidava, claro, que ele cumprisse a sua ameaça...
Mas e se ele por vingança procedesse como tinha ameaçado?
O que aconteceria então?
Só em pensar nisso o suor frio cobriu a sua testa.
Além disso se alguma coisa chegasse até Pavel Sergueevitch sobre sua discórdia familiar, este rumor com certeza despertaria a sua antiga suspeita motivada pelo ciúmes que fora dissipada somente com o casamento dela com Zemovetski.
Ela lembrou alguns episódios pesados desse tipo.
No dia inesquecível do choque com Tudelskaia, a própria Juliana confessara que o seu marido por mais de uma vez fizera cenas por causa de Stanislav, exactamente isto servira de motivo para a decisão de Marina.
Agora de um modo ou de outro, se a verdade fosse desvendada, o sacrifício dela teria sido inútil...
Ocupada com seus pensamentos que causavam ansiedade, Marina andava rapidamente e não prestava atenção nem para as moitas, montículos e galhos que rasgavam o seu vestido, nem para o orvalho que molhava os seus pés.
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 22, 2016 9:28 am

Impensadamente, ela andava ao longo do rio, que parecia um defensor fiel, e por isso fez um longo caminho ao seu redor.
Já era noite quando ela se aproximava do castelo.
A lua estava em quarto crescente e iluminava, com a luz embaciada, uma alameda ao longo do muro da casa.
Marina andava rapidamente e de repente deu-se com a alta figura do padre Ksaveri a qual não tinha notado antes.
— Como, a condessa voltou sozinha e ainda a pé? — perguntou o padre Ksaveri surpreso.
— Sim. O cavalo torceu a pata e fui obrigada a descer da carruagem.
Por isso eu cheguei atravessando o parque — sem vontade respondeu ela, querendo passar.
Mas o olhar penetrante do padre já notara que o seu vestido estava sujo e molhado, uma das mangas rasgada, o seu rosto pálido e profundamente abalado.
Era notório que alguma coisa tinha acontecido entre os esposos e o padre tinha que saber o que exactamente tinha ocorrido.
— Será que o conde deixou a senhora voltar sozinha? — desconfiando, perguntou ele.
Deve ter acontecido alguma coisa...
A senhora tão pálida e desolada...
Ele pegou a mão fria de Marina e apertou com força na sua.
— Diga-me, o que abalou a senhora?
Seja sincera comigo, condessa.
A senhora anda por aí sozinha, sem qualquer apoio e sem um conselho no meio da senhora Yadviga, que a odeia, e o conde que não é tão indiferente como lhe parece.
Abra-se comigo e aceite a minha ajuda.
Se a minha experiência de vida, o conhecimento e a autoridade eclesiástica podem ser úteis para a senhora, aproveite sem medo, faça o favor.
Marina não tirou a sua mão.
A voz dele emitia um interesse sincero e caloroso, nos olhos reflectia-se a compaixão do adulto que desejaria consolar uma criança.
Sim, o que ele dizia era justo:
ela estava sozinha por aí sem amigo e sem conselheiro.
Marina estava em tal estado de espírito, que aspirava desabafar a sua dor, ouvir uma palavra de consolo e um conselho sábio que poderiam acalmar o seu desacordo espiritual.
E por que não aconselhar-se com ele?
Ele era a única pessoa que lhe estendia a mão para prestar ajuda.
Devido a sua inexperiência, não suspeitava nem um pouco que o padre pudesse alimentar um sentimento mais ardente do que parecia e que sob sua batina pudesse se esconder uma paixão mais forte e persistente do que a de Stanislav, que em toda a sua vida amara mulheres até fartar-se, enquanto o outro pela primeira vez na sua vida estava escravizado por esse sentimento.
— Obrigada, pelas boas palavras, padre Ksaveri.
Pois o senhor é também servidor do mesmo Deus, que nós dois adoramos.
Então por que não posso expor os tormentos do meu coração? — disse ela em voz baixa.
— Aconteceu uma cena desagradável entre o conde e mim, que mostrou claramente que a palavra que me foi dada depois do nosso casamento não mais tem me protegido...
Não vejo saída para esta situação e nem posso me defender abertamente pois poderá provocar rumores ou mesmo um escândalo ruidoso, que arriscaria chegar até meu pai e reduzir a nada o meu sacrifício.
Entretanto, a minha morte poderia resolver tudo...
Cansei-me de viver e não valorizo mais a existência, porém uma dúvida me detém e tortura:
como Deus condenará minha alma rebelde, se por decisão própria comparecer ante Ele sem ser chamada?
O padre estremeceu e olhou atentamente para o seu rosto desolado e olhos húmidos de lágrimas.
— Quem entre nós mortais ousaria definir os limites da piedade de Deus?
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 22, 2016 9:28 am

Mas a minha Igreja considera que o suicídio é um pecado tão penoso que priva o morto do túmulo bento, das orações e o expulsa do cemitério.
A Igreja ensina que a alma sofredora do suicida vagueia na escuridão do inferno...
Será que a sua doutrina religiosa não prega o mesmo?
O padre que guia a sua consciência deveria explicar-lhe que só pensar nisso já é um pecado horrível.
Será que a senhora não tem um confessor que possa consolá-la e dar-lhe apoio?..
Marina abaixou a cabeça e absteve-se da resposta directa.
— Sim, a minha Igreja também condena a morte por vontade própria e eu me tornaria um pária se me suicidasse.
Entretanto, o que me resta para poder evitar as relações com meu marido que provoca em mim somente repugnância?
O senhor é o confessor dele, será que não poderia colocar na cabeça do conde que o seu sentimento, a sua paixão, é odiosa para mim; convencê-lo de que uma pessoa honesta tem o dever de cumprir a palavra dada?
— Farei o máximo possível — disse o padre Ksaveri depois de guardar silêncio por um certo tempo.
Sem dúvida, o conde não evitou a influência prejudicial do ambiente da feia e amoral sociedade que o cerca.
A conduta dele mostra o quão pouco ele se restringe às regras da moral cristã, que rejeita directamente quando ela o detém; mesmo assim ele acredita em Deus e é acessível à voz da consciência.
Tentarei persuadi-lo; em todo caso a senhora poderá contar com minha ajuda e apoio.
— Agradeço muito, senhor — respondeu Marina, apertando a mão dele com gratidão, e apressadamente se dirigiu ao seu quarto.
Stanislav voltou enfurecido para o seu quarto.
Ele não esperava encontrar uma resistência e desprezo desses por parte da menina, a quem ele outrora mal se dignava a olhar e sempre achara sem graça, "insípida" em comparação com a beleza brilhante de Juliana ou à beleza demoníaca de Nadejda e de outras mulheres ardentes que deleitavam a vida agitada do rico farrista.
O obstáculo moral que os dividia, voltou a sua atenção para Marina e de repente a sua tenra beleza sonhadora, a graça acanhada e aquela intactabilidade que se sentia nela encantaram-no.
Mais tarde, este sentimento muito rapidamente transformou-se em uma louca paixão, que a resistência de Marina inflamava mais ainda.
O facto de que esta mulher, sendo seu património, o rejeitava, deixava furioso Stanislav e despertava um verdadeiro ódio para com a condessa Yadviga.
Se essa megera, dominada por um fanatismo estúpido e um ódio cego a tudo que é russo, não tivesse desvendado o passado a Marina, ele jamais se encontraria nessa horrível situação perante a própria esposa.
Como um tigre na jaula, ele atravessava o seu quarto, inventando planos, um mais arriscado que o outro para poder pôr fim ao seu estado insuportável.
De qualquer maneira, ele não queria mais viver sob o mesmo tecto que a sua avó.
Resolveu partir de Tcharna.
Podia ser que Marina criasse juízo e fizesse as pazes com ele em um outro ambiente.
O conde passou uma noite horrível e de manhã dirigiu-se ao aposento da sua avó para declarar a sua decisão, que com certeza a deixaria furiosa, mas ela não poderia impedi-lo porque a herança, que ele recebera da sua mãe, fê-lo totalmente independente.
A condessa Yadviga estava na sua saleta, e desfiando o rosário folheava o livro "Descrição da vida dos mártires", tendo um aspecto devoto.
Quando o neto entrou, ela fechou o livro.
— Por que você está tão pálido e carrancudo, meu amigo? — perguntou ela com um sorriso, estendendo-lhe a mão.
Mas Stanislav parecia não ver a mão estendida.
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 22, 2016 7:17 pm

A sua voz tremia de raiva contida enquanto ele respondia:
— Que pergunta inocente depois daquela imundície incrível que você fez, ao semear a discórdia entre mim e minha esposa.
Há tempos que eu quero exigir a sua explicação, com que direito você se mete na minha vida privada?
Você sabia o que forçou o nosso casamento e deu o seu consentimento.
Depois tirou a faixa perfidamente dos olhos dessa menina ingénua, abriu o passado e com isso criou um inferno para mim, colocando-me numa situação horrível.
— A minha consciência obrigou-me a fazer isso - interrompeu a condessa com um tom decisivo.
Eu tinha que consentir com seu casamento para salvar a honra de Juliana; porém deixar que houvesse entre vocês relações íntimas seria entrar em contradição com o meu dever de cristã e pisotear o fundamento das normas morais.
O conde corou e mediu-a com um olhar de profundo desprezo.
— Você?.. Você tem medo de violar as normas da moral e do dever cristão?
Ha, ha, ha! — e ele deu gargalhadas em voz alta.
Por quem me toma, avó?
Não sou um menino e nem tão bobo ou cego para não perceber que papel desempenhavam na sua vida o padre Ignati ou Tadeuch e qual desempenha actualmente o padre Ksaveri e por isso duvido que essas relações encaixem no termo "dever da moral cristã".
Mas não me toque e, por favor, não se refira a ela para justificar as suas patifarias.
Não é a aspiração de me salvar do pecado que a conduz neste caso, mas o ódio cego pela religião que Marina professa, e pela sua origem russa.
Se eu me casasse com uma polonesa, mesmo que uma devassa, mas católica, você não diria nada, mas com uma ortodoxa você resolveu me separar.
Então eu vim para dizer a você que estou farto da sua tutela e que penso sair de Tcharna.
Daqui a alguns dias viajarei para o exterior, dou para você plena liberdade para praticar virtudes cristãs com a ajuda do padre Ksaveri e desejo que vá parar junto com ele directamente ao Paraíso.
Sem esperar resposta, ele girou e foi embora.
A condessa não disse nada por uma simples razão, ela não conseguia proferir uma palavra:
o seu rosto ficou rubro e lilás, a fúria apertou a sua garganta e durante um minuto ela pensava que ia sufocar.
Irascível, brusca, cruel e arrogante, graças à sua fortuna, a condessa Yadviga não tolerava objecções e menos ainda críticas aos seus actos.
Ainda nunca e ninguém tivera a coragem de pôr a nu e indicar a base das relações dela com os confessores, as quais ela considerava perdoáveis e legais.
Jamais Stanislav se decidiria a fazer uma alusão deste tipo:
de repente ele a insultava com insolência e por culpa de quem?
Por causa desta detestável moscovita herege?!
Dentro dela despertou uma tal raiva contra a pobre Marina, que se ela caísse na mão da condessa seria capaz de estrangulá-la.
Mas esta tempestade logo se acalmou, dissimulada sob a aparência da habitual aferição astuta da condessa.
Somente nos olhos dela ainda brilhava um sorriso diabólico.
"Você não sairá para lugar algum, simplesmente desaparecerá para não servir de obstáculo para salvar o espírito do seu tolo marido e não provocar novas afrontas contra mim" — resmungou ela e ficou pensativa.
Mais tarde ela chamou a empregada e mandou buscar o padre Ksaveri.
Outro que também passou uma noite horrível.
O acontecimento da véspera inesperadamente perturbou a tranquilidade aparente e despertou-lhe um acesso de ciúme.
Ele passou toda a noite sem poder conciliar o sono, pensando em vários modos de separar Marina e seu marido e ainda estava completamente absorvido por estes pensamentos quando foi chamado para o quarto de Zemovetskaia.
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 22, 2016 7:17 pm

A condessa começou perguntando como estavam as coisas em ralação à conversão de Marina.
— A sua prudência excessiva, padre, destruirá todo o seu trabalho — notou sarcasticamente ela quando ouviu uma resposta evasiva do confessor.
Tenho que lhe dizer que esta mulher leviana fez Stanislav se apaixonar por ela de tal maneira que eu nem poderia imaginar.
Agora ele está louco por esta mulher de face pálida e me acusa de roubar-lhe a felicidade.
Depois de dizer muitas insolências e injúrias, declarou que viajará para o exterior com sua esposa e não voltará mais aqui.
O padre empalideceu, o seu rosto reflectia ansiedade e tal embaraço que a condessa estremeceu e lançou um golpe de vista de desconfiança para ele.
"Que significa essa agitação?
Será que Ksaveri também fora apanhado nas malhas da rede da moscovita, assim como Stanislav?"
No mesmo instante ela lembrou que ultimamente o padre estava mudado:
triste e pensativo ele parecia evitá-la, perdera o antigo afinco pelos interesses da Igreja."
A condessa cerrou os dentes.
Era só o que faltava:
que o seu confessor se apaixonasse por aquela herege! Essa não.
Logo ela colocaria um fim a isso e Marina pagaria caro por suas vitórias inoportunas.
Aparentemente ela não se traía com nada e depois da curta conversa deixou o padre Ksaveri sair, o qual foi embora com um alívio no coração.
O dia foi fatigante e entediado.
O conde almoçou sozinho no seu aposento, para depois partir sem dizer aonde ou quando voltaria.
Marina também não deixara o seu quarto, mas ao saber que o conde havia partido deu um suspiro de alívio.
— Graças a Deus.
Podia ser que por alguns dias ela estivesse livre da presença dele e não precisasse mais temer que ele fizesse novas cenas.
À noite ela resolveu visitar como sempre a velha condessa, porque não queria chamar a sua atenção.
Na sala de visitas ela só encontrou o padre Ksaveri, que percorria o pacote de novas músicas, enviadas de manhã, e a senhora Camila, que juntava as revistas ilustradas.
A comensal lhe disse que a condessa não estava bem e descansava, mas que apareceria na hora do chá, enquanto isso pedia que não se acanhasse e que se ocupasse com a música, tocando piano.
Ao responder com gentileza a profunda reverência do padre, Marina notou que ele estava muito pálido e tinha o olhar febril e inquieto.
— O senhor hoje me parece não estar muito bem, padre Ksaveri?
O senhor não está com uma boa aparência — perguntou ela com simpatia.
Este corou e embaraçado murmurou um agradecimento, mas disse que estava perfeito e sentou-se para estudar uma música nova.
Marina sentou-se na poltrona na cavidade da janela, onde sempre costumava ficar, e preparou-se para escutar a sinfonia que lhe interessava.
Logo percebeu que Ksaveri hoje tinha uma disposição um tanto especial:
compreendia as músicas com dificuldade, errava frequentemente, depois parecia esquecer totalmente o caderno aberto à sua frente e não virava mais as folhas.
Porém ele tocava cada vez mais e mais estranho:
o piano retumbava, gemia dolorosamente e chorava, sacudindo os nervos com uma torrente de sons selvagens e bruscos, os quais reflectiam aquela discordância que reinava no seu espírito.
Parecia uma música diabólica onde se misturavam todas as paixões humanas.
Um tremor frio percorreu o corpo de Marina, surpresa, ela examinava o rosto pálido de Ksaveri, enquanto este olhava para um lugar longínquo com olhar ardente e parecia esquecer onde estava.
Finalmente, Marina não aguentou.
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 22, 2016 7:17 pm

Não conseguia escutar por muito tempo aquela música que quebrava os seus nervos e lhe causava uma dor quase física.
Levantou-se de um salto do seu lugar, correu para o piano e pôs a sua mão em cima da mão do padre.
— Espere, espere, padre Ksaveri.
Pare essa música terrível.
Podem pensar que o senhor quer convocar todos os demónios — disse ela com emoção.
O padre estremeceu como se fosse acordado de um sono profundo e deixou cair as mãos sem forças; entretanto, a tempestade, que se transportava nele e que ele emitia nos sons furiosos, continuava a ferver no seu interior.
Ele olhava para ela com um olhar sombrio e devorador, com uma tal expressão que ela não havia visto nunca.
Depois ele enrubesceu e pôs-se a rir de modo selvagem.
— Pois eu gosto desta música diabólica — sussurrou com uma voz trémula de emoção.
Eu imagino que estou dançando numa festa, onde tudo é permitido e todos são iguais:
o camponês, o soldado e o padre, onde posso saciar todos os meus desejos, onde possuo a omnipotência do mal, onde não preciso propagar a adoração de Deus, que condena suas criações ao sofrimento infernal.
Ele se levantou continuando a falar sufocando e olhando atentamente nos olhos dela:
— Você me chamou directamente desta festa, mulher sedutora.
Você despertou os demónios que estavam adormecidos no meu íntimo.
Eu me apaixonei por você.
Eu quero me embriagar com a felicidade e chamo todo o inferno para que me ajude.
Estupefacta, Marina olhava com medo para ele.
"Será que enlouqueceu?" - passou na sua cabeça.
Ela retrocedeu e teve a intenção de correr, mas neste momento ele a abraçou fortemente até doer, apertou-a contra si e cobriu o seu rosto com beijos ardentes.
A repugnância e o medo como que a imobilizaram, mas dentro de um instante ela com todas as suas forças empurrou Ksaveri de tal jeito que ele começou a cambalear e uma bofetada sonora reproduziu-se na sua face barbeada.
— Descarado! — Fora de si exclamou ela.
Miserável, que esqueceu a sua dignidade e falta ao respeito a uma mulher!
Ela saiu correndo do quarto.
Ksaveri encostou-se na parede e fechou os olhos.
Agora ele novamente ficava pálido e a marca da bofetada recebida ardia claramente na sua face descorada, ele tremia como se tivesse febre; a lembrança da repugnância e desprezo, que se reflectiam nos olhos de Marina, o torturavam mais dolorosamente que a marca na sua face.
Ela o repudiara como uma cobra, espancara-o como um cachorro, asperamente lembrou-lhe sobre sua veste, essa batina, que sempre cortava caminho para todas as alegrias do viver, acessíveis para as outras pessoas.
Um suspiro penoso ou um gemido escapou-lhe; mas aquele domínio de si, com que tinha sido criado, novamente começavam a dominá-lo apesar de ter temporariamente ficado abalado pelo ímpeto da paixão.
Ele passou a mão na face coberta com suor frio e pôs-se erecto, tencionando também sair, mas neste momento encontrou-se com os olhos da velha condessa, que estava na entrada da sua saleta e olhava para ele com atenção e escárnio.
— O que há com o senhor, padre?
O senhor está muito perturbado por alguma razão.
Por que essa mancha vermelha no seu rosto?
— É o sinal da bofetada que me deu a jovem condessa, quando tentei mais insistentemente convencê-la da necessidade de renegar a sua heresia e convertê-la à verdadeira fé.
Como a senhora vê, a tarefa que me incutiu é cheia de perigos e aborrecimentos — respondeu sombriamente ele.
Um sorriso maldoso percorreu o rosto de Zemovetskaia.
— Estou surpresa, meu pobre amigo, eu nem imaginava que esta gata selvagem ousasse ofendê-lo seriamente.
Entretanto, vejo que chegou a hora de ajudá-lo na difícil tarefa de converter nossa jovem selvagem e pôr à sua disposição meios mais efectivos que a sua música maravilhosa.
Vamos para o meu oratório, padre, e juntos discutiremos esta importante questão.
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 22, 2016 7:18 pm

VIII.

Marina voltou para sua casa revoltada até o fundo da alma.
Ao pensar como fora ultrajada, fervia de indignação, mas à medida que se acalmava, o medo e o desespero sucediam à raiva.
Sentia-se uma mosca que caíra na teia de aranha.
Agora o perigo a ameaçava de dois lados:
não somente o marido a perseguiria com seu amor, mas também esse descarado e devasso padre, que pela sua ingenuidade achava-o o seu "protector".
Por muito tempo ela caminhou pelo quarto, procurando a saída para sua situação insuportável, e finalmente chegou à conclusão que tinha que aproveitar a ausência do conde e sair dali.
Diria para a velha condessa que visitaria um parente que adoeceu, mas na realidade se esconderia num mosteiro e de lá escreveria para o conde sobre o divórcio.
Todas as preocupações passadas provocaram-lhe uma forte enxaqueca e ela foi dormir, deixando para o outro dia a realização das suas intenções.
No dia seguinte, depois de tomar o café, Marina pediu o chapéu e o guarda-chuva e desceu para o jardim.
Ela autorizou a criada para que fosse à casa do intendente da zona florestal, onde se realizava um baptismo e onde Camila substituía a senhora Yadviga na qualidade de madrinha, fora também quase toda a criadagem com a licença da velha condessa e até o segundo cozinheiro, enviaram para a preparação da comida para a festa.
A dor de cabeça ainda não passara depois dos acontecimentos na véspera, mas esperava que passasse ao ar livre, pois tinha pela frente que estudar todos os pormenores da sua partida, de que ela tencionava falar com a condessa à noite.
Por precaução, ela colocou um revólver no bolso.
Evitando se encontrar com Ksaveri, ela foi para a parte deserta do parque e ficou lá sentada durante várias horas, depois resolveu voltar para o castelo, examinando temerosamente as alamedas.
Entretanto ao seu redor estava vazio e ela já se aproximava da casa sem encontrar ninguém.
Perto do terraço que dava para o seu quarto, Marina encontrou a velha condessa.
Esta lhe contou amavelmente que também passeava e convidou-a para que a visitasse para tomar uma xícara de chocolate.
— Nós mesmas o prepararemos porque Camila não está e somente ela sabe me contentar.
Mas é necessário matar a fome porque hoje teremos o almoço mais tarde.
A propósito, eu lhe mostrarei a minha colecção de rendas antigas, — terminou bondosamente Yadviga.
Marina com prazer teria recusado o convite, tanto a condessa lhe era repugnante como as rendas não lhe interessavam, especialmente agora, quando ela pensava em coisas completamente diferentes.
Mas ela achou que não ficaria bem recusar o convite; além do mais, ela teria a possibilidade de comunicar a sua partida.
Ela foi para a saleta de Zemovetskaia e, enquanto a outra preparava o chocolate, Marina lhe contou sobre a doença da sua tia, superior do convento, e o seu desejo de passar alguns dias no mosteiro enquanto o conde estava fora.
Aparentemente, a velha condessa concordou com ela.
Claro, vá visitar a sua doente.
Tenho certeza de que Stanislav não terá nada contra isso; afinal, ele poderá ir buscá-la depois — disse ela, oferecendo a xícara de chocolate.
— Eu até pensei em deixar uma carta para ele antes de partir — disse Marina com alegria, contente que tudo tivesse ficado arranjado com facilidade.
Conversando, ela tomou o chocolate e comeu um doce, quando de repente sentiu que suas mãos e pés pareciam encher-se de chumbo.
Quando assustada ela tentou levantar-se, ficou tonta, sentiu que as pernas fraquejavam e caiu no sofá; tudo começou a girar ante seus olhos e sentiu como se caísse num abismo escuro.
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 22, 2016 7:18 pm

Depois ela perdeu a consciência...
A condessa abaixou-se sobre ela, levantou a sua mão fria que caiu sem forças; um sorriso maldoso torceu a sua boca.
— A sua caminhada acabou, beldade, e a cela onde vou encarcerá-la será o seu túmulo.
Mas antes converterei você para nossa religião e farei de você uma moça quieta e obediente.
Ela abriu a porta do oratório na entrada do qual o padre a esperava.
— Rápido, Ksaveri, me ajude a levá-la.
Já é tarde, entretanto, o senhor tem que chegar na hora na casa do intendente da zona florestal.
O padre se aproximou e com um olhar sombrio e severo olhou para Marina, que estava deitada desmaiada no sofá, branca como o seu vestido de musselina.
— Agasalhe-a bem com este xale.
Lá embaixo está frio, e eu não quero causar desgosto a Stanislav, ao resfriar o seu "tesouro" — disse a condessa, dando risadinhas com desprezo.
Ksaveri enrolou Marina no xale quente de lã e, carregando-a nos braços, levou-a à passagem secreta seguindo a condessa que levava uma lanterna acesa.
Cada nervo começou a vibrar, quando ele tocou o corpo esbelto de Marina, cujos cabelos sedosos tocavam a sua face.
A condessa, que o observava, notou como ele enrubescia e como tremiam as suas mãos e uma expressão de ódio por ciúmes reflectiu-se nos seus olhos.
"Você é muito suspeito, meu respeitável confessor.
Convém observar você.
Agora somente na minha presença você vai trabalhar na conversão desta herege" — pensou ela maldosamente.
O subterrâneo parecia estar preparado de antemão para receber a nova vítima.
A lâmpada no tecto estava acesa, a palha podre no banco de pedra fora substituída por um colchão, um travesseiro e um cobertor de lã; havia uma cesta no chão e foram colocados uma jarra com água e um copo na mesa ao lado do açoite.
Colocaram Marina na cama e a condessa arrancou um pedaço da renda da manga da moça, depois os dois cúmplices saíram, fechando cuidadosamente, a porta.
Somente por volta do meio dia perceberam a ausência de Marina e começaram a procurá-la por toda a parte.
A condessa parecia surpresa e disse que, apesar de não ter visto Marina, achava que ela fora para algum lugar longe dali e por isso demorava para voltar.
Mas quando caiu a noite e Marina não aparecia ainda, Zemovetskaia alertou todo mundo no castelo e os criados, que tinham voltado da festa do intendente da zona florestal, foram enviados para procurar por todos os lados.
Evidentemente, a busca não deu em nada nem à noite, nem no dia seguinte.
Interrogaram as pessoas, mas ninguém sabia de nada, somente um menino jardineiro disse que vira a jovem condessa dirigindo-se ao labirinto.
Então a busca foi canalizada para este lado e ao meio-dia um dos criados achou na declive do rio um chapéu completamente amassado e o pedaço da renda de seu vestido num arbusto.
A empregada confirmou que foi o mesmo chapéu que de manhã tinha dado para a sua patroa e que exactamente com tal renda fora ornado o vestido dela.
Porém com isso todas as pistas cessaram, não tiveram nenhuma indicação do que tinha acontecido com a jovem mulher que desapareceu como por encanto.
Três dias depois do desaparecimento de Marina, Stanislav voltou.
Exactamente naquela época procuravam no rio o corpo com gongos e não somente o povo do castelo, mas até os camponeses vizinhos participavam da busca.
A notícia do desaparecimento misterioso da sua esposa deixou o conde como que fulminado e levou-o ao desespero.
Participou activamente da busca, ele próprio interrogou todas as pessoas existentes no castelo junto com os moradores das redondezas e voltou para casa exausto somente à noite.
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 22, 2016 7:18 pm

Após mandar um telegrama com a notícia sobre a desgraça que tinha acontecido, o conde recolheu-se para o seu aposento para poder analisar com tranquilidade tudo que tinha ocorrido na sua ausência.
A sua primeira suposição foi que Marina tinha fugido, mas imediatamente ele compreendeu que estava errado.
Revistou todo o aposento da esposa e em toda a parte encontrou a perfeita ordem:
as suas coisas, o seu vestido e o dinheiro ninguém tocara.
Seria incrível que ela saísse sem casaco, vestida somente com um vestido de musselina e de tal jeito que ninguém a tivesse visto.
Agora ele se culpava por ter deixado o castelo por algum tempo; se ele estivesse em casa não teria acontecido nenhum crime, e a certeza, que aqui se escondia justamente um crime, crescia nele a cada minuto.
Mas quem o teria cometido?
De repente ficou pálido, estremeceu e deixou-se cair na poltrona: um pensamento atravessou o seu cérebro, de que a sua avó estava envolvida neste caso.
Ele rapidamente considerou e ponderou sobre o ódio dela para com Marina, o seu cego e estúpido fanatismo, a indubitável raiva, provocada na alma vingativa da velha pela última conversa, quando ele discutiu claramente com a condessa sobre a sua ligação amorosa com o padre.
Não há dúvida, foi ela quem recolheu Marina por raiva e vingança...
Mas como e onde?...
Poderia ser que já tivessem acabado com ela e jogado o corpo num esconderijo?...
Ela conhecia no velho ninho todos os recantos pelos quais ele, o pândego mundano, não se interessava nunca.
Entretanto, se a verdade um dia fosse desvendada, que vergonha cairia sobre o nome de Zemovetski; por outro lado seria indigno não vingar a morte de Marina e deixar impune o crime desta velha coroca!
A cabeça do conde ficou tonta por causa da emoção, toda a noite ele passou em claro, pensando e em desassossego; finalmente chegou à conclusão de que antes de tomar uma decisão definitiva, deveria espiar e observar a velha.
A droga que tinham dado para Marina foi tão forte, que o sono dela durou um dia e uma noite, e ela acordou com a cabeça pesada.
Sentia uma opressão no peito, surpreendida lançou um olhar cansado sobre o ambiente desconhecido.
"Isto é um pesadelo" — pensou ela, fechando os olhos cansados.
O ar pestilento a fez sentir calafrios, além disso estava com a garganta ressecada e sentia uma sede que a torturava.
Ela abriu os olhos e ergueu-se.
Não, aquilo não era um sonho. Horrorizada, mais uma vez lançou um olhar ao redor sobre uma mesa de pedra, uma porta pesada, guarnecida de metal, uma lâmpada que fumegava sob o tecto, a cruz na parede e uma cama onde ela estava deitada. Pois ela estava numa prisão!...
Apavorada, Marina correu para a porta e tentou abri-la; ela batia e gritava, mas a mesa de carvalho não cedia sob as suas mãos, a sua voz cessava sob a abóbada.
Ela contornou sua prisão, procurando uma saída, mas rapidamente convenceu-se que todos os esforços eram inúteis.
Finalmente aproximou-se da cama e deixou-se cair nela sem forças.
Marina começou a compreender que caíra numa armadilha, lembrou o chocolate que lhe tinham servido, e a perda de consciência depois.
Mas, entretanto, com que objectivo ela fora presa?
Será que queriam matá-la?
Em todo o caso ela agora estava sob o domínio dessa velha imprestável, que a odiava, ou talvez sob o domínio do padre, que revelara a sua paixão por ela.
Ela estremeceu de repugnância e a sua imaginação começou a desenhar-lhe quadros de horror; desatando em pranto ela caiu de joelhos perante o Crucifixo e começou a rezar ardentemente e com lágrimas.
Depois de derramar todas as lágrimas que tinha, ficou novamente com sede e a fome também fez-se sentir.
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 22, 2016 7:18 pm

Aproximou-se da mesa, tomou um copo de água e revisou a cesta.
Nela achou pão, vinho e carne.
Após comer um pedaço de pão, Marina voltou para cama.
Começou a sentir tontura por causa do cansaço e da comoção que tinha passado e ela logo dormiu um sono pesado e desassossegado.
Não saberia dizer por quanto tempo ela dormiu, mas ela foi acordada pelo ranger da porta que se abria.
A raiva e o medo levantaram-na.
A condessa entrou com a lanterna acesa, que colocou na mesa, atrás dela estava o padre Ksaveri com a vela acesa na mão e fechou a porta.
A expressão no rosto da condessa era cruel e maliciosa, a do padre era sorumbática e concentrada.
Enrubescida de indignação, Marina mediu o inimigo com um olhar raivoso; revoltada pela violência à qual fora submetida, ela esqueceu qualquer medo.
— Que espécie de cilada pérfida vocês armaram contra mim?
Como se atrevem a me deixar presa?
O que vocês querem de mim?
Deixem-me sair imediatamente ou custará caro a vocês — gritou ela com a voz surda e instável de emoção.
— Ah, como a senhora é irascível, minha filha!
A senhora me crivou de perguntas — respondeu com escárnio a condessa, olhando maldosamente para a moça, — entretanto, o lugar da sua estadia deveria dar-lhe uma ideia de que na sua situação seria útil ser mais humilde e pedir, em vez de ameaçar.
— Eu quero sair daqui e voltar para a casa do meu pai.
Nesta condição estou pronta até a guardar silêncio da conduta indigna da senhora.
— Muito obrigada, mas não posso aproveitar a generosidade da senhora.
Stanislav está tão apaixonado pela senhora, que não a deixará sair de perto dele; ele decidiu fazer as pazes com a senhora.
Daí que, antes deve-se converter a esposa dele à verdadeira fé, como o dever me manda.
A partir de hoje nós daremos início à instrução, o padre Ksaveri será o seu mentor e confessor, mas aviso que, muito severo.
Querendo ou não, a senhora será católica.
Agora pois, chega de palavras.
Ajoelhe-se! Cinquenta reverências muito profundas, batendo-se no peito, depois por meia hora fique deitada no chão.
Antes de ocupar-se da alma, deve-se subjugar o corpo. Depois a senhora deverá ler as preces que o padre Ksaveri lhe indicar — ordenou a condessa.
Marina fez sinal de não com a cabeça.
— Não rejeitarei nunca a minha religião e não vou me ajoelhar conforme a ordem...
Não permitirei nunca que me guie um miserável que me ofendeu e cuja alma está cheia de sentimentos sujos, proibidos pela sua Igreja...
— Chega, chega!
A senhora não é somente uma herege teimosa, mas é também mentirosa e difamadora!
Prossiga, padre. O senhor está vendo que actuando com doçura e exortações não poderá fazer nada — gritou a condessa, pegando o açoite e ameaçando com ele.
O padre pôs-se rubro de raiva, e nem deu tempo para Marina reconsiderar quando ele lançou-se sobre ela e prendeu as suas mãos atrás das costas com a toalha, que tirou do bolso.
— A senhora é muito rápida com as mãos, bela condessa.
Pode ser que agora a senhora se tome mais conciliadora — rindo maldosamente, disse o padre, ao amarrar as mãos dela.
Marina gritava e tentava libertar-se, mas nesse instante a condessa rasgou o corpete do seu vestido, cortou com a tesoura o forro, desnudando as suas costas e peito.
Enlouquecendo de vergonha e horror, Marina ainda tentava escapar das mãos de seus torturadores, mas de repente escapou-lhe um grito selvagem e lancinante.
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 22, 2016 7:18 pm

O açoite estalou no ar e bateu nas costas dela, deixando vergões vermelhos carregados.
— Mais, mais, padre!
Isto faz com que as cabeças mais arrogantes e teimosas vejam claro — excitava a condessa.
Depois da segunda batida Marina caiu no chão de pedra sem sentidos.
Quando ela abriu os olhos, a condessa estava sozinha e desamarrava as mãos dela, dando-lhe depois o xale de lã.
— Hoje foi a primeira lição, que claramente mostrou até onde leva a teimosia — disse ela severamente.
Por isso, procure no futuro subjugar-se sem escândalo.
Aqui está o livro de orações: reze e reflicta.
Marina não podia responder nada:
nela cada nervo tremia, os dentes batiam como se tivesse febre.
Ao ver que ela estava sentada como louca, nada vendo ou escutando, a condessa saiu.
Ao ficar só, Marina pouco a pouco voltou a si; mas sob esta tranquilidade externa escondia-se algo jamais experimentado:
um sentimento de ódio selvagem e a decisão inabalável de defender-se, vingar-se daqueles monstros ou perecer.
Uma dor insuportável nas costas, ombros e pescoço por causa dos vergões sangrentos privavam-na da possibilidade de analisar com calma as suas próximas acções.
Ela molhou a toalhinha com água e rodeou os lugares dolorosos, o que lhe deu algum alívio, depois, o melhor que pôde, arrumou o vestido e, agasalhando-se no xale quente, ficou pensativa.
Então ela lembrou que levara um revólver para passear.
Será que ele ainda estava com ela?
Ela enfiou a mão no bolso e deu um suspiro de alívio — a arma estava com ela.
Ao tirar do bolso o revólver, ela o examinou: ele estava carregado com seis balas e ela sabia atirar bastante bem e estava convenci da de que não falharia.
Portanto, ela poderia se defender, no caso extremo até matar ou ferir seus verdugos e fugir da prisão.
A cada minuto Marina ficava mais sossegada.
Ela reflectiu que com certeza se eles descobrissem a arma com ela, seria novamente posta para dormir com a ajuda de algum sonífero, por isso deveria ter cuidado com a comida que trouxessem para ela.
Examinou outra cesta, posta ao lado da porta, e escondeu parte da comida e duas garrafas de vinho; com estes víveres daria para sustentar-se por um certo tempo.
Mas a condessa Yadviga parecia querer dar tempo para que sua vítima se refizesse, porque passaram alguns dias e ela não apareceu, em compensação, cada noite traziam comida, que empurravam através da porta semi aberta e depois rapidamente a fechavam.
Marina escolhia tudo que era menos perecível e juntava ao seu estoque.
Finalmente, certa noite Marina novamente viu na sua frente seus torturadores e imediatamente pôs a mão no bolso para tirar a arma.
Logo que a condessa começou a falar e Ksaveri pegou o seu açoite, Marina tirou o revólver e apontou-o.
— Eu mato como a cachorro o primeiro que der um passo em minha direcção.
Não mais permitirei que me torturem — disse ela com firmeza.
A condessa, que era corajosa e cruel com indefesos, mas na realidade uma grande covarde, deu um grito, e de um salto, encontrou-se atrás da porta e fugiu, Ksaveri seguiu-a retrocedendo.
Do lado de fora da porta ouviam-se injúrias e ameaças, depois tudo acalmou-se.
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 22, 2016 7:19 pm

IX.

Com a volta de Zemovetski, Adaurov e sua esposa voltaram a viver como antes, em paz e tranquilamente.
As suspeitas do general dissiparam-se e a esperança do nascimento de um filho alegrava-o muito.
Só uma coisa oprimia o coração de Pavel Sergueevitch, a vaga preocupação com o destino de Marina.
Será que ela realmente estava feliz?
As cartas da sua filha pareciam persuadi-lo disto, mas uma voz interna sussurrava-lhe que faltava sinceridade nelas; pois Marina escrevia muito sobre seus vizinhos e a sociedade que ela frequentava, mas muito pouco sobre sua vida familiar e especialmente sobre seu marido.
O outono estava incrivelmente sereno e quente, por isso a família dos Adaurov decidiu ficar na casa de verão até meados de setembro.
Um dia Pavel Sergueevitch encontrou um telegrama de Zemovetski sobre a sua mesa o qual informava o desaparecimento de Marina.
Esta triste notícia aturdiu Pavel Sergueevitch; mas mal ele se refez um pouco, decidiu ir ao Tcharna para poder pessoalmente, no lugar, investigar este acontecimento misterioso.
Tinha que se apressar não somente para obter notícias sobre o destino da filha, mas também resolver este problema até o parto da sua esposa.
Juliana passeava diariamente depois de tomar café e gostava muito de sair com o carro que seu marido lhe tinha presenteado.
Naquele dia ela levou junto consigo a sua velha tia, que fora convidada para passar uma temporada na sua casa, para que Juliana não ficasse sozinha enquanto o marido estava na cidade.
As damas já voltavam para casa, quando de repente numa curva, o motorista percebeu outro automóvel que corria impetuosamente ao seu encontro.
Assustado com a possível colisão, ele virou a direcção bruscamente para passar para o outro lado da estrada, mas nesse instante o carro deu de encontro com alguma coisa, virou e jogou para fora os seus passageiros.
Jogada do automóvel, Juliana bateu no tronco de uma árvore, depois rolou para uma vala, onde ficou caída sem sentidos; a sua tia feriu a cabeça e o motorista torceu a perna.
Levada para casa, Juliana permaneceu inconsciente.
O médico achou o seu estado grave e mandou chamar de volta da cidade Pavel Sergueevitch.
Juliana deu à luz um menino morto e o médico disse que ela não ia sobreviver até a noite por causa da forte comoção.
Ardendo de febre, Juliana agitava-se com inquietação na cama, frequentemente caindo em delírio.
Parecia que um pensamento calava fundo na cabeça da agonizante, porque cada vez mais persistentes ouviam-se as palavras:
— Pequei... eu pequei!...
Deus me castigou!...
Já eram cerca de nove horas da noite, quando Pavel Sergueevitch voltou para a sua casa de verão, cansado de andar atarefado na cidade e atormentado com o medo por Marina, mas o aspecto desolado da criadagem e uma evidente desordem, que reinava na casa, deixaram-no perplexo.
O criado a quem ele tinha indagado balbuciou algo incompreensível, porém a velha Avdotia, que o esperava, entrou no seu escritório e contou-lhe o que tinha acontecido.
No primeiro instante Pavel Sergueevitch pensou que enlouqueceria.
Toda a sua vida perecia neste maldito dia, que privava-o da sua filha, da esposa e do filho, ardentemente desejado.
Com um esforço enorme procurou dominar-se e concentrar-se; um frio tremor percorreu o seu corpo e os dentes batiam nervosamente.
— Ela está viva? — perguntou ele com uma voz surda.
- Sim, senhor, porém o médico na saída disse que é pouco provável que ela sobreviva até amanhã de manhã.
Agora a senhora está quase sempre delirando, mas quando volta a si, exige o confessor dela.
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 22, 2016 7:19 pm

Grigori há tempo que saiu para a cidade para buscá-lo e nós o esperamos de volta a cada trem.
Adaurov sentou-se, apoiou-se com os cotovelos na mesa e apertou a cabeça com as mãos.
Depois ele mandou trazer água e, depois de tomar um copo, foi sem fazer barulho para o dormitório.
Lá tudo estava em silêncio e nesse silêncio sinistro ouvia-se somente a respiração difícil e ofegante da doente.
Pavel Sergueevitch indicou com a mão para a criada de quarto, lá sentada, que saísse do dormitório, e abaixou-se sobre a esposa que mal podia ver na penumbra.
Juliana estava deitada com os olhos fechados e respirava com dificuldade; as suas mãos vagueavam com inquietação sobre o cobertor.
Pavel Sergueevitch pegou a mão da sua esposa e ajoelhou-se ao lado da cama.
Ele não podia falar e somente lágrimas amargas derramavam dos seus olhos...
Ao sentir o toque do marido, Juliana estremeceu e abriu os olhos inflamados.
Ela olhou atentamente para o marido, mas não o reconheceu e sob a influência da ideia fixa, que a dominava, ela tomou o marido ajoelhado na cabeceira pelo confessor que esperava.
— Padre Vetold — sussurrava ela com voz entrecortada.
Como o nosso bispo estava certo e o senhor também que Deus ia me castigar porque me casei com um herege moscovita, inimigo da nossa pátria e Igreja.
Eu nunca o amei, mas o que me tentou foi a sua riqueza e posição social...
Reze por mim, padre, e me absolva para que eu não morra repudiada...
Eu jurei para meu marido pela salvação da minha alma que seria fiel a ele, no entanto o bebé não é dele...
Ela falava cada vez mais rápido e sem nexo e de repente exclamou de maneira selvagem:
— Estou em fogo... estou em fogo...
Rápido me absolva!
Jesus, Maria, tenham piedade de mim!...
Pavel Sergueevitch ficou petrificado, mal compreendendo o seu balbucio que desvendou perante ele toda a baixeza espiritual dessa mulher, que pagou com ingratidão pérfida, a ele que a tirou da família pobre e numerosa e rodeou-a de amor, cuidados e luxo.
Juliana continuava a balbuciar algo, mas Pavel Sergueevitch não mais escutava.
Parecia que ante ele descia uma cortina preta e ele ruiu sem sentidos no tapete.
Nesse instante a porta se abriu e na entrada apareceu o padre que veio da cidade.
Somente algumas horas depois Pavel Sergueevitch voltou a si do desmaio.
Toda em lágrimas, Avdotia que cuidava dele deu-lhe um copo de vinho e em seguida informou com voz insegura que a senhora falecera.
— Morreu, maldita, a desonra e a desgraça da minha vida — ao cerrar os punhos, disse furiosa e dolorosamente Pavel Sergueevitch.
Ela roubou tudo que eu tinha.
Ela é a causa da desgraça de Marina!...
Ao ver o espanto e o horror no rosto da velha, ele contou resumidamente sobre o desaparecimento de Marina.
— Ah, estes malditos mataram o nosso anjo!
Ela não se poupou para livrar o senhor da desgraça — falava Avdotia, soltando revelações, e começou a contar para Adaurov surpreendido os detalhes do casamento de Marina.
Não é possível descrever o que sentiu Pavel Sergueevitch naquele momento.
Marina inspirava-lhe admiração e, apesar da preocupação pelo seu destino, a afeição pura e sagrada da filha, a qual fora induzida a se sacrificar por causa dele, acalmava a alma dolorosa de Pavel Sergueevitch.
— Eu encontrarei você, querida, em todo o caso vingarei o miserável que ousou tocá-la com a sua mão suja — sombriamente e com decisão murmurou ele baixinho.
O amor que Juliana inspirava-lhe não mais existia.
Agora ele pensava somente com repugnância naquela mulher maliciosa e depravada, que não tinha achado para ele outra expressão senão "herege moscovita", mesmo quando estava à beira da morte!
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 23, 2016 8:01 pm

Que tipo de cristã foi ela, que vagueava por todas as missas, sempre balbuciando as preces, ficava horas ajoelhada perante imagens e comungava mensalmente e ao mesmo tempo sacrificava a enteada por causa do seu egoísmo e, quanto a ele, toda a vida enganara-o descaradamente!
Pavel Sergueevitch riu bruscamente e com amargura. Entretanto quem sabe?
Pode ser que a ligação com Zemovetski não fosse a única!
A senhora, tão experiente "em amores", poderia ter várias vezes se divertido às custas do marido.
Esta reflexão repentina sugeriu a ideia de dar uma olhada na correspondência da esposa; ele mandou que Avdotia lhe desse as chaves da falecida e abriu a sua escrivaninha.
Verificou-se que Juliana mantinha uma correspondência viva com seus parentes, com numerosos amigos e amigas; a gaveta estava cheia de cartas antigas.
Entretanto, Pavel Sergueevitch não encontrou nada que pudesse confirmar as suas suspeitas, mas numa pequena pasta ele achou algumas cartas carimbadas com "Tcharna".
Três delas eram de Stanislav, mas Adaurov desdenhosamente atirou-as fora sem ler; em compensação uma carta, escrita com letra grande e negrita da condessa Yadviga, atraiu a atenção com algumas palavras que por acaso deram na vista.
Ele desdobrou a carta e começou a ler, mas à medida que percorria as linhas, o seu rosto corava de indignação.
A mensagem da condessa fora escrita há cerca de dois meses e continha um sermão severo.
Ela acusava Juliana pela ligação com um parente tão próximo como Stanislav, mais ainda pela sua intenção criminosa de casá-lo com uma herege e ainda mais cuja mãe fora amante do conde em Mónaco.
"Eu apresentarei queixa para o arcebispo contra o seu confessor que não proibiu você de uma tal torpeza.
Parece que em companhia de tal marido ímpio você esqueceu que contribui para um pecado duas vezes mais terrível por causa da religião asquerosa da Marina!
O que aconteceu que você não ficou com medo de arriscar a salvação da alma de Stanislav, abusando da leviandade e do impulso de cavalheiro dele para salvar a própria pele?
E ainda diz que gosta dele!..."
Pavel Sergueevitch pensava que ia sufocar de raiva.
Em que corja de canalhas caíra sua pobre Marina!...
De manhã chegou o general Kuriatin e Adaurov contou para o seu velho amigo toda a verdade.
— Como você vê, a minha desconfiança tinha razão de ser — acrescentou ele com um tom triste.
Dispense um favor para mim, assuma a responsabilidade do enterro e apresse-o o quanto puder.
Não sou capaz de fazer nada por causa da preocupação; entretanto, partir antes do enterro significaria dar motivo para mexericos, enquanto estou ansioso para viajar para Tcharna o mais rápido possível.
Tudo ficou arranjado como quis Pavel Sergueevitch.
Alegando tempo quente e decomposição rápida do corpo, ninguém se surpreendeu que apressassem o enterro; e como já corriam rumores sobre o desmaio de Adaurov, enquanto o seu aspecto envelhecido e as faces cavadas confirmavam totalmente o seu profundo pesar e o seu estado enfermiço, ninguém se surpreendeu que o general não participasse de todas as missas de réquiem.
À noite, depois do enterro, Pavel Sergueevitch finalmente partiu para Tcharna.
A desordem e a tensão reinavam no castelo.
O desaparecimento incompreensível da jovem condessa desalentava a todos.
A condessa Yadviga inspirava a compaixão de todos:
ela fazia ar que estava muito aflita, celebrava as missas e distribuía esmolas para que Deus ajudasse a revelar a verdade.
Uma única pessoa, Stanislav, não foi enganado com os requebros dela.
Alimentando a raiva no seu coração, ele prestava atenção nela e observava e, embora ainda não conseguisse qualquer tipo de provas, captou um olhar maldoso e de escárnio que ela lançou sobre ele às escondidas e que transformou a sua suspeita em convicção de que ela era a autora do crime.
O estado espiritual do conde era horrível.
O sentimento misto de amor e de amor-próprio ofendido inspirados por Marina transformou-se, em vista de a ter perdido, em paixão que o absorveu completamente.
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 23, 2016 8:01 pm

A preocupação por Marina e o medo de que a má condessa fanática — que era tal qual qualquer inquisidor medieval — pudesse torturar a sua vítima inocente causava-lhe arrepios.
Neste desacordo espiritual, sem saber o que empreender para desmascarar a velha pecadora e ao mesmo tempo não infamar o seu nome antigo, Stanislav lembrou do seu primo Reimar.
Mesmo que ele sentisse certa antipatia pelo barão, admitia que Reimar era uma pessoa séria e resoluta e que ele poderia dar-lhe um bom conselho.
Fora disso, ele também era neto da condessa Yadviga e junto com a tia Emília no passado interessava-se por Marina.
Ele decidiu escrever para Reimar e, ao contar os detalhes do desaparecimento da esposa, pedir-lhe muito o mais rápido possível vir para ajudar com um conselho e a sua participação em busca de Marina.
Anoitecia quando Stanislav acabava de voltar de uma viagem infrutífera com um policial que o acompanhava.
O rastro que parecia ter sido dado, desta vez também verificou-se falso.
Extenuado o conde estava desesperado e deixou-se cair no sofá do seu escritório; neste instante o criado informou a chegada do general Adaurov.
Já antes Stanislav estava admirado que Pavel Sergueevitch havia tempo não desse sinal de si e agora a chegada do general alegrou-o muito.
Ele levantou-se e foi ao encontro do general, mas parou de chofre, surpreendido com aquela mudança que tinha acontecido com ele.
Aparentemente Adaurov estava mais velho uns vinte anos e, no olhar com que ele mediu o conde liam-se ódio e desprezo.
— Conde, eu desejaria conversar com o senhor a sós.
Tenho para o senhor notícias importantes, também preciso discutir com o senhor algumas questões — disse Pavel Sergueevitch com uma voz severa como se não visse a mão estendida a ele.
O rosto pálido e cansado de Stanislav corou.
— Estou à disposição do senhor — respondeu ele friamente, ao abrir a porta de par em par do seu escritório.
Pavel Sergueevitch recusou o convite tácito para sentar, meneando a cabeça, e perguntou secamente se tinham notícias sobre a sua filha.
Quando Zemovetski respondeu "não", ele notou:
— Resta-me tomar as próprias providências para achar a minha filha e não privá-la pelo menos de um enterro cristão.
Sobre isso conversaremos depois, agora antes de tudo devo anunciar a morte da sua prima e do seu filho ilegítimo, que ela me pretendia dar...
Ao ver que o outro ficou pálido e horrorizado afastou-se, Pavel Sergueevitch pôs-se a rir secamente.
— Acalme-se, conde, eu não mato ninguém às escondidas.
Simplesmente o acidente de automóvel cortou a vida "virtuosa" de Juliana Adamovna.
Antes de morrer, delirando, ela me tomou por seu confessor e confessou para mim suas aventuras amorosas com o senhor e o modo que ela inventou para cobri-las.
Então atacaremos o principal:
o ajustamento de contas entre nós, pois o resto dos personagens deste drama, que é a criminosa e a sua vítima, já morreram.
O senhor, conde, deleitava-se apaixonando-se por ambas minhas esposas.
O direito à primeira eu já não tinha mais, mas quanto à segunda, o facto de serem parentes deveria tê-la preservado, este é o primeiro, e o segundo direito é que a sua honestidade deveria deter o senhor para não pagar com desonra àquele que o recebia com honestidade e confiança na sua casa.
Será que o senhor não segue tais "preconceitos obsoletos"?
Pode ser. Mas como o senhor se verificou tão infame que aceitou o auto-sacrifício desta moça ingénua que pelo amor filial esperava com isso defender a minha falsa felicidade?
E o senhor pegou com sangue frio em suas mãos sujas a pobre Marina para disfarçar assim a chamada "honra" de uma mulher ignóbil que foi castigada por Deus?
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 23, 2016 8:01 pm

Será que a sua consciência não se sobressaltou quando o senhor se casava criminosamente com a filha da antiga amante?
O senhor é um miserável no sentido pleno da palavra, que não vale nem a bala de uma pessoa honesta, mas mesmo assim eu o desafio para um duelo, porque um de nós é demais neste mundo.
Eu envelheci durante estes dias quando perdi tudo que era caro para mim; mas Deus me dará forças para castigá-lo.
Aí está tudo o que eu queria dizer para o senhor.
Stanislav estava em pé e escutava sem nada dizer.
Tudo nele tremia e fervia de ofensas, atiradas na cara, mas aparentemente ele estava tranquilo.
— Estou a disposição do senhor, general, tenha a bondade de estabelecer as condições do duelo.
O senhor deseja testemunhas?
— Deus será a nossa testemunha, já há bastante escândalo sem elas.
Eu me hospedei na casa do padre Andrei da igreja ortodoxa e esperarei o senhor lá às seis da manhã em ponto, no que se refere ao lugar, a escolha será sua.
— Óptimo, serei pontual.
Entretanto, permita-me dizer para o senhor que não quero negar a minha culpa, mas o senhor não tem direito de me julgar.
Lembre-se, o seu divórcio foi provocado por desrespeito semelhante ao lar familiar.
Agora permita-me acompanhá-lo até à porta.
Pavel Sergueevitch ficou pálido, mas não disse nenhuma palavra e eles se despediram em silêncio.
Ao voltar para o escritório, Stanislav sentou-se, apoiou-se com os cotovelos na mesa e abaixou a cabeça nas mãos.
Ele queria juntar as ideias e acalmar-se.
O conde não era medroso, o duelo e mesmo a morte não o amedrontavam, mas um tal encadeamento dos acontecimentos trágicos e a perturbação provocada pela última conversa definitivamente transtornavam a sua alma, abalada pelo desaparecimento de Marina.
"Juliana morreu — pensava ele, — Marina também pode ser que não esteja viva...
Que estranha coincidência infeliz:
naquele momento, em que desaparecia a inocente que tinha se sacrificado para encobrir o pecado deles e que lhes servira de escudo contra a maldade humana, a verdade vinha à tona, desvendada pela própria culpada...
Será que realmente existe a justiça do céu implacável, que desdenha os cálculos humanos e que castiga os pecadores naquele momento quando eles menos esperam a punição?
Aliás, será que o destino não se divertia às custas dele próprio?
A sua louca e insaciável corrida em busca de prazeres o levou ao casamento com uma mulher que ele não amava, mas que como por troça escravizou-o a tal ponto que a vida sem ela parecia-lhe sem sentido e trivial.
Agora, mesmo que Marina estivesse viva e fosse encontrada, estaria perdida para ele para sempre:
o duelo com Adaurov, se ele o matasse, abriria entre ele e Marina um abismo intransponível"...
Um suspiro pesado escapou de Stanislav, então podia ser que pela primeira vez ele se sentisse dominado pelo asco da vida...
Durante algum tempo ele ainda ficou sentado meditando, depois, de repente levantou-se e acendeu as luzes que iluminavam o quadro "A centelha errante", já fazia tempo transferido para o seu escritório.
Carregando o sobrolho, por muito tempo encantou-se com a imagem de Marina, depois aproximou-se da escrivaninha, abriu as gavetas e parcialmente rasgou, parcialmente pôs em ordem todos os papéis.
Em seguida sentou-se e começou a escrever.
Eram cerca de seis e meia da manhã, quando a senhora Camila entrou voando no dormitório da condessa, com os olhos arregalados de horror e vestida somente de saia e blusa para dormir.
Ela lançou-se para a cama e agarrou a adormecida pela mão.
Zemovetskaia ergueu-se de um salto, ao ver o susto da sua comensal, perguntou ansiosa o que tinha acontecido.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 23, 2016 8:02 pm

— O jovem conde... o senhor Stanislav... aconteceu uma desgraça — às pressas, mal inteligível balbuciava Camila, tremendo como se tivesse febre.
O gordo rosto avermelhado de Zemovetskaia ficou branco.
— Ajude-me a me vestir e diga claramente o que aconteceu — disse ela e agilmente saltou da cama.
Calçando a condessa, passando para ela as saias e o roupão, Camila contava que na véspera o conde tinha dado ordens para o criado para que ele o acordasse às cinco da manhã e advertisse o cocheiro de que até cinco e trinta a carruagem deveria estar preparada.
Na hora marcada Franeque chegou para acordar o senhor, mas vendo que ele não estava no quarto e o seu escritório estava iluminado, deu uma olhada lá:
o conde estava sentado, com a cabeça atirada para trás numa poltrona na frente da escrivaninha na qual a lâmpada estava acesa.
Pensando que ele simplesmente cochilasse, não quis perturbá-lo, mas quando a carruagem já estava na porta, Franeque foi anunciar isso para o conde e encontrou-o na mesma posição.
Ao aproximar-se mais, ele notou horrorizado um revólver atirado ao lado da poltrona, no tapete, e o sangue na camisa do conde.
Ao ouvir esta notícia, a condessa começou a tremer e apressou-se aos aposentos do neto; mas no caminho ela cambaleou duas vezes, como se estivesse tonta.
No escritório ao redor da poltrona em que estava deitado Stanislav, aglomeravam-se criados com rostos pálidos e desconcertados; as pessoas assustadas deram passagem e foram embora quando entrou a condessa.
Ela se aproximava a passos inseguros, segurando-se em Camila, e apoiou-se na escrivaninha.
Olhava com pavor o rosto imóvel do conde que também estava com os olhos vidrados e arregalados, fitos nela; o colete foi desabotoado e umas gotas de sangue viam-se na camisa.
Neste instante entrou o padre Ksaveri.
Ao inclinar-se a Stanislav, ele tomou o pulso, pôs a mão no peito e endireitou-se.
— Acho que o conde faleceu — disse ele surdamente.
O corpo está frio e o coração não bate...
A condessa fechou os olhos, depois, de repente, ela deu um passo para frente e o seu rosto cobriu-se com as manchas rubras.
Agitando as mãos, ela deu mais alguns passos e caiu desmaiada no chão.
Foi levantada e colocada na cama, o cavalheiro foi buscar o médico.
Os rumores sobre o que aconteceu no castelo rapidamente percorreram os arredores e cerca de meio-dia chegaram até a casa onde se instalou Pavel Sergueevitch, que toda a manhã, preocupado e indignado, tinha esperado por Stanislav.
A notícia sobre o suicídio do conde surpreendeu-o profundamente e o fez reflectir; mas pensando bem ele achou melhor ir ao castelo e pessoalmente informar-se dos detalhes.
Ao decidir firmemente não partir antes que esclarecesse de maneira devida o que tinha acontecido com Marina, Pavel Sergueevitch queria saber como e de quem poderia receber permissão para revistar o castelo no caso de que a doença da condessa demorasse.
Dirigir-se às autoridades ele não queria devido à morte do conde.
Todavia, para os olhos da sociedade o falecido fora seu genro e foi penoso para ele aumentar o escândalo familiar.
Toda desolada, Camila lhe disse, derramando lágrimas, que segundo as palavras do médico, o conde dera um tiro directamente no coração e a sua morte fora instantânea, mas que a condessa também estava num estado quase desesperador:
ela tivera um ataque apopléctico e depois do desmaio a metade do seu corpo ficara paralisada.
Depois ela acrescentou que recebeu o despacho no nome do conde Stanislav, que ela se permitiu abrir.
O despacho era do barão Farnrode que tinha telegrafado avisando que chegaria no trem da noite, pedindo que mandassem uma carruagem para ele.
— Pois ele é o segundo neto da condessa e, portanto, o herdeiro do conde?
— Sim, ele mesmo — respondeu Camila, carregando o cenho.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 23, 2016 8:02 pm

— Eu conheço o barão e o visitarei à noite — disse Adaurov.
A carta de Stanislav deixou Reimar como que fulminado.
Ele não queria acreditar que Marina pudesse sumir na própria casa, cercada de uma quantidade enorme de criados, e além disso de tal jeito que ninguém ouvira e nem sabia nada.
Algumas alusões na carta provocaram nele a mesma suspeita que torturava também o conde, que a sua avó estava ligada a este desaparecimento misterioso.
Ao pensar nisso, um suor frio cobriu a sua testa.
"Meu Deus! Como o destino o castigava cruelmente pelo seu egoísmo de então e prudência inoportuna.
Ele tinha receio da felicidade que o destino lhe mandava, agora o desaparecimento da mulher amada destruía a última esperança de ficar com ela quando o divórcio a libertasse do cativeiro."
De repente uma raiva incrível veio suceder ao seu desespero.
"Sim, ele desmascararia toda esta torpeza, mesmo que se visse obrigado a colocar nas galés a velha coroca".
Ele pegou o indicador das ferrovias, achou o trem de que precisava e em seguida foi voando para o quarto da sua tia e contou a ela o que tinha acontecido.
Emília Karlovna ficou aturdida com a notícia, mas conseguiu convencê-lo a levá-la consigo.
— Aqui eu me extenuarei de preocupação.
Se quiser eu posso me alojar não no castelo, mas sim na casa de alguém na aldeia; mas pelo menos saberei o que lá acontece.
Tenho muita pena da pobre Marina — acrescentou ela com lágrimas nos olhos.
O barão pensou por um minuto.
— Está bem, tia, se der tempo para você juntar as coisas dentro de uma hora, nós partimos juntos.
Pode ser que Deus inspire você e a sua perspicácia feminina discirna as pistas onde nós estejamos cegos.
Vamos directamente para o castelo, senão Stanislav poderá se ressentir se você não se hospedar na casa dele.
Na estação de trem, depois de sentar-se na carruagem enviada de Tcharna, o barão soube da notícia inesperada e triste sobre o suicídio do seu primo e a situação desenganada da sua avó.
Os nervos de Emília Karlovna não suportaram e ela chorou todo o caminho.
O barão e a tia chegaram ao castelo, num estado de espírito penoso.
Lá foram recebidos humilde e servilmente pela senhora Camila com o rosto inchado de lágrimas.
Ao saber que a avó estava cada vez pior e que ela não reconhecia ninguém, o barão passou para a sala grande onde estava o corpo do conde e o padre Ksaveri acabava de celebrar a primeira missa de réquiem.
Reimar jamais tivera muita amizade com Stanislav, não aprovava a vida dissipada e desregrada dele, mas ao ver o corpo do jovem bonito, afortunado pelo destino, tendo muitos talentos e que perecia prematuramente por sua própria culpa, sentiu uma profunda compaixão.
Mais tarde chegou Pavel Sergueevitch e cedeu aos pedidos insistentes do barão para mudar-se para o castelo para juntos irem em busca de Marina.
No dia seguinte a condessa faleceu, sem pronunciar palavra nenhuma.
Antes de anoitecer, na sala estava o segundo cadafalso.
Um ambiente pesado e angustioso instalou-se no castelo.
Depois do almoço, que ninguém tocou, Emília Karlovna foi descansar, Pavel Sergueevitch e o barão foram para a pequena sala de visitas para poder fumar e conversar.
A conversa, evidentemente, foi sobre o desaparecimento de Marina e as medidas necessárias para achar pelo menos o corpo dela.
— O senhor permita-me, barão, ser totalmente sincero?
Sim? Neste caso, quero confessar-lhe que, pela minha profunda convicção, Marina foi vítima de um crime, porque supor um acidente nas condições atuais seria impossível.
Somente a sua avó, uma mulher fanática, e pode ser que, este padre com a expressão satânica no seu rosto, sabem a verdade, e para achar o corpo de Marina é necessário revistar todo o castelo.
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