Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 23, 2016 8:02 pm

Provavelmente, em prédios tão antigos como este há porões, esconderijos e etc., lá temos que procurar a chave para este enigma.
O barão ouviu-o sem dizer nada e ficou emocionado.
— A suspeita que você tem também me atormenta.
Eu sei que minha avó odiava Marina Pavlovna.
Desculpe se eu abordar assuntos difíceis para você, mas eu, por minha vez, também desvendarei muita coisa que você desconhece totalmente.
E ele resumidamente contou o acontecido no castelo no dia do casamento, sobre as explicações entre Marina e a condessa Yadviga, o atentado contra a própria vida e o obstáculo levantado entre Stanislav e sua esposa.
Entusiasmado com a narração, o barão sem querer revelou os seus sentimentos, facto que não escapou de Pavel Sergueevitch, que notou com um sorriso triste:
— Eu vejo que o senhor era um amigo fiel da minha pobre Mara.
Reimar ruborizou-se fortemente.
— Fui mais que um amigo, Pavel Sergueevitch, eu amo a sua filha com todas as forças da minha alma.
Remorso e pena tardios, por não entender oportunamente que tipo de anjo ela é, são como um peso no coração.
Eu fui muito punido pela minha cegueira, mas agora, depois da minha confissão, o senhor deve compreender que encontrarei Marina Pavlovna morta ou viva mesmo que para isso seja necessário destruir todo este velho ninho.
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 23, 2016 8:02 pm

X.

O padre Ksaveri estava no seu quarto e estudava o plano das suas acções futuras.
Os últimos acontecimentos não previstos por ele apanharam-no de surpresa.
Para dizer a verdade, o suicídio do conde deu-lhe até prazer:
um inimigo a menos e além disso, que fora muito perigoso; mas a morte da velha condessa o desconcertou e assustou.
O que fazer com a prisioneira?
De que maneira visitá-la e levar-lhe comida?
Ele compreendeu que o novo dono do castelo, que era protestante, não ia querer manter um padre católico, desnecessário para ele, e que ele teria que se mudar para a paróquia, depois os aposentos da falecida condessa seriam fechados, o que seria o fim para tudo.
Durante um dia e meio, que durou a doença de Zemovetskaia, e até a transferência do corpo da falecida para uma sala grande, todos os aposentos da condessa estavam cheios da criadagem e por isso visitar o subterrâneo era completamente impossível.
A única coisa que ele conseguiu foi roubar a chave da porta oculta.
Evidentemente, ele poderia abandonar Marina à própria sorte:
o velho subterrâneo não revelaria o segredo do crime e ninguém ouviria os gritos agónicos da presa.
Mas não era isso que planeava Ksaveri:
ele não queria a morte para a sua vítima e, quanto à sua conversão ao catolicismo, para ele era indiferente; uma paixão selvagem consumia-o.
Mas como conseguir o seu objectivo?
Abaixando a cabeça nas mãos, carregando o sobrolho e mordendo o lábio, ele pensava intensivamente, de repente o seu rosto começou a irradiar triunfo.
Ele lembrou que a condessa falava-lhe sobre um outro caminho do subterrâneo, que levava ao rio perto da pedreira.
Mesmo que ela não tivesse lhe mostrado exactamente aquele lugar onde estava a segunda porta, algumas indicações que ele lembrou, sem dúvida, dariam para ele a possibilidade de achar a segunda saída.
"Naquela noite ele desceria para visitar Marina, usando o caminho habitual, e levaria para ela víveres porque ela já havia dois dias não recebia nada.
Ao mesmo tempo ele procuraria a segunda saída que depois poderia usar para visitar sua prisioneira quando quisesse, directo da igreja.
Ele habituaria Marina à obediência; a velha bruxa não poderia mais deixá-lo constrangido com seu tolo ciúme bestial, quanto à "moscovita", que procure quando quiser...
E ele pôs-se a rir com um riso alegre e satisfeito.
— E como ele não se lembrara antes desta circunstância, que lhe permitiria gozar de uma felicidade perfeita, apesar da sua batina, que lhe colocou o selo de um repudiado e fê-lo escravo"?
Ao dar ordens para trazer o jantar para o seu quarto, Ksaveri imperceptivelmente colocou toda a comida na cesta.
Como se fosse uma sombra, dirigia-se pelo corredor e banheiro até o quarto da falecida condessa.
Por toda a parte estava silencioso e deserto; os criados cansados provavelmente estavam jantando na sala para criados.
Ksaveri não era medroso, nem supersticioso, mas quando ele atravessou o dormitório da condessa, ele sentiu calafrios e foi dominado pelo pavor.
As altas janelas ogivais foram abertas inteiramente e o raio decorado da lua iluminava com a luz esbranquiçada a cama vazia e o vestido e roupa de baixo que não foram guardados e estavam em desordem jogados na cama.
De repente pareceu-lhe que o rosto rubro da falecida levantava-se dos travesseiros, que seus olhos fixos e vidrados olhavam para ele com raiva louca e com ciúmes e que ela o ameaçava com o punho...
Ele apanhou o castiçal da penteadeira com a mão trémula, acendeu e foi correndo para o oratório.
Pobre Marina, dominada pelo medo e desespero, nestes dias era uma verdadeira mártir...
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 23, 2016 8:02 pm

Havia duas semanas que durava a sua segregação no subterrâneo com ar húmido e contaminado.
Quando pararam de trazer-lhe comida, ela se alimentava com víveres, guardados antes; mas o pior de tudo era quando tinha se apagado a sua lâmpada.
Ao perceber que a luz se extinguia, ela levou para o seu leito os restos de vinho e comida e sentou-se com o revólver nas mãos, pronta para se defender se fosse necessário.
Parecia que ela fora condenada à morte ou queriam vencê-la com o medo e a fome.
E realmente, quando ela se encontrou no escuro como num túmulo, foi dominada por tal terror e desespero que por pouco não enlouqueceu.
Tremendo de excitação nervosa, Marina sensivelmente prestava atenção ao mínimo barulho; mas lá fora tudo estava em silêncio e ouviam-se somente os chiados dos ratos, que trincavam e brigavam por causa dos restos de comida.
Os seus cabelos punham-se em pé de horror e havia um momento quando ela pensava em aproveitar a arma para acabar com o seu suplício insuportável; porém quando ela abriu o corpete do vestido para tactear o coração, a sua mão tocou a cruz bizantina pendurada no peito e o revólver caiu das suas mãos.
O símbolo da expiação parecia fazê-la lembrar que nos momento de desespero deveria procurar a salvação não no suicídio, mas na oração...
Marina começou a rezar como ainda não rezara nenhuma vez na sua vida, pedindo à fonte da misericórdia eterna para libertá-la ou enviar-lhe a morte.
E este ímpeto entusiástico não passou infrutífero:
uma tranquilidade incrível desceu na sua alma e sonolência cobriu todo o horror da sua situação.
Ela dormia tão profundamente que não ouviu quando o ferrolho começou a ranger e a porta se abriu.
Foi o padre Ksaveri quem entrou no subterrâneo e colocou na mesa uma vela acesa.
Ao aproximar-se da moça adormecida, ele foi tomado de admiração por ela.
Apesar da palidez mortal e a expressão de sofrimento no rosto, ela estava maravilhosamente bela.
Excitado pela paixão, o padre inclinou-se sobre ela e neste momento viu o revólver na sua mão, ele tirou-o com cuidado e colocou-o no seu bolso.
— Agora, meu bem, você estará mais conciliadora e menos perigosa — resmungou ele.
Entretanto, apesar de toda cautela do padre, o toque da mão húmida e fria acordou Marina.
No primeiro momento ela pensou que provavelmente uma ratazana subira nela e, soltando um grito, levantou-se de um salto, mas quando sentiu que as mãos de alguém a abraçavam e lábios ardentes apertavam-se contra os dela, a consciência voltou imediatamente.
Num instante ela entendeu que estava desarmada e sob o domínio pleno do miserável padre, mas o rosto esquentado do padre provocou nela um sentimento de tal repugnância que as suas forças dobraram.
Ela endireitou-se nas mãos, que a seguravam pela cintura, e começou a rechaçar desesperadamente.
Entretanto, Ksaveri caiu de joelhos e com voz sufocada sussurrou:
— Não se contraponha, é inútil.
Você está sob o meu domínio e nada no mundo poderá atrapalhar que me embriague com a sua beleza.
Deixe-me beijar a sua boquinha e divida comigo o meu ardente e fiel amor.
Serei o seu escravo e lhe devolverei a liberdade...
Mas Marina não o escutava; ela lutava e defendia-se com tanta força que ele mal poderia retê-la.
Nessa luta o seu vestido rasgava-se em pedaços, alfinetes voavam e de repente a corrente dourada quebrou e a cruz, que estava nela, ficou nas mãos da moça.
Cerrando fortemente a mão, ela bateu na cabeça do padre com toda a força.
Com o canto agudo da cruz maciça ela acertou a fronte com tanta força que Ksaveri saltou em grito e caiu desmaiado no chão.
Ela olhava para o rosto do inimigo coberto de sangue e para o seu corpo imóvel com uma auto-suficiência maldosa de que cerca de cinco minutos atrás não se consideraria capaz; a doçura da libertação dominou-a.
Mas ela lembrou que teria que fugir enquanto pudesse e enquanto aquele canalha não voltasse a si.
Ela pegou com as mãos trémulas o castiçal com a vela e lançou-se em direcção à saída; a porta estava semiaberta.
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 23, 2016 8:03 pm

Como um raio, ela subiu correndo a escada, atravessou voando o corredor e abriu a porta para o oratório.
Aqui ela parou por um instante indecisa.
"Se a condessa a vir, não a deixará passar e vai querer novamente pô-la no cativeiro.
Isso não! Agora ela não se entregará nas mãos, mas aturdirá com o castiçal e levantará em pé todos no castelo porque ela sabe onde estão as campainhas eléctricas".
Ao apagar com um sopro a vela, ela decididamente abriu a cortina e parou perplexa.
O que significavam as janelas abertas, a cama vazia e a desordem no quarto?..
Pois tanto fazia!
O caminho estava livre e tinha que aproveitar.
Ela atravessou a sala de visitas e outros quartos da condessa e encontrou-se num corredor largo e iluminado, que através do pequeno refeitório levava até o aposento dela.
Neste instante a porta se abriu e um criado levando a louça na bandeja apareceu na entrada.
Ao vê-la, ele parou aturdido e a bandeja caiu das suas mãos.
— Jesus, Maria!
A falecida condessa! — começou a berrar ele e saiu correndo para trás.
O susto que levou o criado era absolutamente desculpável.
Tendo a tez lívida, o cabelo solto e despenteado, o vestido ensanguentado e rasgado, segurando a cruz salvadora nas mãos, Marina poderia assustar qualquer um.
Na sala de jantar Pavel Sergueevitch junto com o barão e Emília Karlovna tomavam chá; mas ao ouvirem o grito desenfreado do criado, acompanhado de retinir da louça quebrada, eles correram para a porta e pararam de chofre.
No corredor, a alguns passos deles, estava Marina ou mais exactamente a sua sombra, porque nesta visão não havia nada de vivo fora os olhos arregalados e ardentes.
Mas o "fantasma" estendeu para frente as mãos, deixou cair a cruz e com o grito "papai!" pôs-se em movimento para eles...
Neste mesmo instante Marina começou a cambalear e estava para cair no chão se o barão não a segurasse oportunamente.
Adaurov e Reimar levaram-na para o quarto e colocaram-na no sofá, enquanto Emília Karlovna, vendo que ela estava seminua, tirou o seu xale e agasalhou Marina.
Ao cobrir a moça, ela notou equimoses e vergões que cobriam as suas costas e pescoço.
— Parecem ser marcas de um açoite — horrorizou-se.
Ela estava numa espécie de porão:
o seu vestido está impregnado de odor de umidade — notou Reimar.
Só Pavel Sergueevitch não falava nada e, estando de joelhos ao lado do sofá, cobria com beijos as mãos frias e o rosto pálido da sua filha repetindo — Marina, minha querida filha.
Reimar foi o primeiro a voltar da sua surpresa e, depois de mandar chamar o médico, ele próprio trouxe a água e os sais para que Marina inalasse e recobrasse os sentidos.
Depois de muitos esforços ela, finalmente, voltou a si e suas primeiras palavras foram:
— Eu matei o padre... com a cruz que me deu a minha tia do convento.
Ele está lá no subterrâneo...
Logo, abraçando-se convulsivamente ao pescoço do pai, ela apertou-se contra ele repetindo:
Me defenda... tire-me daqui...
Pavel Sergueevitch consolava-a e procurava convencê-la de que no futuro nunca mais se separaria dela e isto em parte acalmou Marina.
Ela tomou vinho e leite, mas mesmo assim, estava muito excitada e a cada instante sobressaltava-se, quando começou com voz nervosa a descrever tudo que tinha acontecido com ela.
— Tire-me deste lugar horrível, papai — pedia ela, para que eu nunca mais veja esta terrível mulher, que tanto me fez sofrer.
Depois de tudo que aconteceu, Stanislav não terá coragem de continuar a me reter aqui...
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 23, 2016 8:03 pm

— Você está livre, meu bem:
seus inimigos estão mortos — respondeu baixinho Adaurov.
Porém o seu sacrifício, infelizmente, foi inútil.
Ele lhe contou em poucas palavras como ele soube a verdade de Juliana e os últimos acontecimentos:
o suicídio do conde e o falecimento da condessa.
— Como você vê, querida, para nós todos os dissabores acabaram.
Você não me deixará mais, enquanto na sua face foi devolvida para mim pelo menos a metade da minha felicidade.
Isto é que vale a pena viver!...
Pavel Sergueevitch carinhosamente estreitou-a ao peito.
Marina admirava-se e horrorizava-se ao ouvir o pai, mas estava muito extenuada para poder avaliar bem o sentido dos acontecimentos ocorridos.
Emília Karlovna, que a observava, ficou preocupada ao perceber que os olhos de Marina brilhavam febrilmente, que de quando em vez ela ruborizava e um tremor percorria o seu corpo.
— Por hoje basta de conversas, tem que colocá-la para dormir.
Eu mandei preparar o banho, depois ela deve descansar bem.
Apoiando-se no pai e no barão, ela conseguiu chegar ao seu dormitório.
Depois que a colocaram no sofá e o pai saiu, Reimar tomou as suas mãos e apertou-as contra seus lábios.
— Desculpe-me, Marina Pavlovna.
Ele murmurou tão baixo, que ela mal podia ouvir, mas o olhar que acompanhava suas palavras estava cheio de um amor ilimitado e custava a mais ardente declaração.
Um sorriso beatífico percorreu o rosto exausto de Marina e através da languidez que a dominou já se desenhava um quadro longínquo do futuro feliz e pacífico.
Marina estava no auge da felicidade quando uma hora mais tarde, após refrescar-se, tomar banho e vestir uma roupa limpa, ela foi para cama e a criada penteou seu cabelo e fez uma trança.
— Como a senhora é boa e como eu a amo — murmurou, abraçando Emília Karlovna, que cuidadosamente colocava um pequeno travesseiro em baixo da cabeça de Marina.
Fique um pouco mais comigo.
— Eu não a deixarei.
Vou dormir aqui mesmo.
Veja, me fizeram a cama para dormir aqui no sofá.
Marina deu um suspiro de alívio, mas de repente soergueu-se e agarrou a mão da sua interlocutora.
— Diga-me, será que é um grande pecado sentir a satisfação de pensar que meus perseguidores morreram e não ter pena de Stanislav?
Pois ele, apesar de tudo, foi o meu marido e o seu fim foi tão triste.
— Não se preocupe, querida, não se atormente com essas questões.
Deus sabe o que faz e não reprovará o seu sentimento natural e perdoável.
Se você não quer dormir, então é melhor que pense no futuro e não no passado.
Estou firmemente convencida, querida Marina, que será amada e feliz — tranquilizava-a Emília Karlovna com um sorriso bondoso.
Marina ruborizou e fechou os olhos.
Enquanto isso o barão e Pavel Sergueevitch desceram para o subterrâneo e examinavam com horror a prisão, na qual Marina poderia sofrer por muitos anos e até morrer por inanição, se a Providência não a salvasse.
Com repugnância olharam para o corpo do padre, que estava banhado de sangue; ele ainda respirava e gemia fracamente.
O miserável não inspirava, claro, compaixão, mas o barão chamou os criados e depois de proibir severamente que eles contassem sobre o que viam, mandou transferir o padre Ksaveri para um dos quartos do primeiro andar e fazer um curativo.
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 24, 2016 7:17 pm

Depois de discutir a situação, Reimar e o general decidiram poupar a honra de Pavel Sergueevitch e a reputação do barão, pois o crime havia sido cometido pela sua avó, evitando, na medida do possível, tornar pública essa história escandalosa.
Além disso, o barão mandou para o bispo com um mensageiro especial uma carta na qual fazia saber sobre a conduta de Ksaveri, deixando para a sua Santidade a tarefa de abafar essa história.
O médico, que tinha chegado de manhã, achou que a saúde de Marina merecia cuidados.
A doente acordou em estado febril e de tempos em tempos não reconhecia ninguém; na opinião do médico, uma febre nervosa.
O estado do padre Ksaveri era desesperador:
o golpe que ele levara na cabeça danificara o seu crânio, provocando um derrame cerebral.
Ele morreu no dia seguinte sem voltar a si.
O enterro de Stanislav e a velha condessa realizaram-se sem barulho e sem qualquer solenidade; a missa funerária foi celebrada pelo cónego que o bispo enviou.
Ksaveri foi enterrado na calada da noite.
Depois o mesmo cónego conversou por logo tempo com o vigário e discutiu algo com os criados o que resultou um silêncio geral sobre o que tinha acontecido no castelo; somente os rumores surdos penetraram posteriormente na sociedade.
Chegou uma época difícil e alarmante para o jovem dono do castelo e seus hóspedes.
A vida de Marina estava por um fio.
Os sofrimentos morais por que ela passou, a excitação nervosa, além das privações físicas no subterrâneo húmido e frio, foram muito duros para sua natureza frágil e delicada.
A doença progredia rapidamente, não era possível curá-la e o estado da doente agravava-se dia após dia.
Com dor na alma, Pavel Sergueevitch não se afastava da cama da filha.
O barão também observava com ansiedade a evolução da doença, indagava atormentado aos médicos, Adaurov e a tia, que abnegadamente cuidava de Marina.
Ele enlouquecia, pensando que naquele momento quando finalmente brilhava a esperança de reconquistar a mulher amada, a morte poderia tirá-la dele.
Durante esses dias e noites difíceis, dividindo preocupação e dor, Adaurov e Reimar ficaram amigos.
A afeição pela vítima inocente dos pecados alheios uniu-os e semeou confiança completa um no outro.
Havia três semanas que ocorria esta luta extenuante entre vida e morte e, finalmente, o médico declarou a situação desesperada da doente: se a noite a doença não mudasse de rumo, a jovem não sobreviveria até a manhã do dia seguinte.
Pavel Sergueevitch estava tão esgotado, pela opinião do médico, com as noites de vigília e a preocupação constante, que foi preciso receitar um sedativo, mesmo sem que ele soubesse, para que ele pudesse dormir algumas horas para repor as suas forças, de que ia precisar.
O barão serviu o remédio a Adaurov no copo de vinho e este logo dormiu depois do almoço um sono profundo até a manhã.
O próprio barão andava como um louco.
A alguns passos dele Marina estava morrendo...
Nunca mais seus maravilhosos olhos aveludados lançariam sobre ele aquele olhar limpo, ingénuo e amável, que o escravizara.
Nunca mais a sua mãozinha suave corresponderia ao aperto de mão dele e amanhã ele veria somente o seu corpo morto...
Esta noção do fim inevitável deixava-o indignado.
Não e não! Mesmo que só por uma única vez, ele tinha que vê-la viva...
Ele se dirigiu para a pequena sala de visitas de Marina e decidiu esperar a tia.
Emília Karlovna saiu do quarto para buscar algo e ficou muito surpresa quando encontrou o seu sobrinho.
Ao pedido do barão de deixá-lo ver Marina ela quase recusou, mas a dor e a insistência dele a fizeram vacilar.
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 24, 2016 7:17 pm

— Tudo bem, vamos.
De qualquer modo ela não vai reconhecer você.
A noite inteira ela delirava com Stanislav e com a condessa, agora há algumas horas a sua febre caiu e ela desmaiou.
Receio que este seja o fim... — disse ela com lágrimas nos olhos.
Assustado, Reimar abaixou-se com o coração desfalecido sobre a imóvel doente adormecida.
Ela parecia uma sombra da antiga Marina, o rosto magro estava branco como os travesseiros, sobre os quais ela estava deitada, as mãos transparentes jaziam sem forças sobre o cobertor.
Reimar quase desfez-se em pranto, mas conteve-se, ainda que uma lágrima ardente corresse pela sua face e caísse na testa da doente.
Marina estremeceu e abriu os olhos.
O seu olhar estava cansado e apático, mas era possível perceber que ela recobrava plenamente os sentidos.
— Marina — murmurou o barão, — recupere-se o mais rápido possível!
Toda a minha vida eu dedicarei para fazer você feliz e redimir aquele mal que causei por causa do meu egoísmo sem sentido.
Você não sabe como a amo.
O seu rosto ficou levemente corado.
— Você me ama, Reimar?
As suas palavras me fazem feliz e eu quero muito viver...
Mas a vontade de Deus não é essa, eu sinto que estou morrendo.
Numa hora dessas eu sem constrangimentos posso confessar que também amo você..:
Ela queria soerguer-se, o barão solevantou-a e, arrebatado pela paixão, beijou-a ardentemente.
Os olhos negros de Marina acenderam-se com uma alegria extasiada; mas a emoção, talvez, foi forte demais porque a sua cabeça atirou-se para trás e seus olhos se fecharam.
Um horror indescritível dominou Reimar e ele começou a sacudir Marina com força, gritando fora de si:
— Não morra!.. Viva!..
Eu quero que fique viva...
Atraída pelo grito dele, veio correndo assustada Emília Karlovna e com as mãos trémulas começou a fazer Marina recobrar os sentidos.
Empurrou o seu sobrinho para fora do quarto, ignorando seus protestos e descontentamento e, mandou chamar o médico, que passou a noite no castelo, e achou que Marina estava somente desmaiada, mas ficou para observá-la.
O desfalecimento pouco a pouco transformou-se num sono profundo, o corpo cobriu- se de perspiração, e de manhã, ao examinar a doente, o velho médico disse sorrindo:
— Uma forte emoção provocou a salvação e eu acho, senhora, que a nossa doente está fora de perigo.
Vou alegrar o general, que deve acordar de um momento para outro.
Cerca de seis semanas depois Pavel Sergueevitch e Marina, Emília Karlovna e o barão estavam na sala de visitas, ao lado da sala de jantar.
Era um dia maravilhoso de outono e através da porta da varanda soprava ar fresco e vivificante.
Depois da crise de salvação, a recuperação de Marina andava devagar, mas continuamente.
Neste dia ela pela primeira vez levantou-se da cama e a sua poltrona foi levada para a sala de visitas.
Pavel Sergueevitch colocou a sua mão na do barão.
O noivado, evidentemente, mantinha-se às ocultas e o casamento deveria ser realizado somente quando terminasse o luto de um ano, mas isto já não tinha tanta importância pois a felicidade tinha sido conquistada.
Emagrecida e descorada, mas encantadora com o vestido de luto, Marina, pensativa, estava sentada ao lado da mesa; somente às vezes, quando ela encontrava o olhar do seu noivo, seus olhos se acendiam alegremente e na sua face florescia um sorriso feliz.
Ao notar que a sua noiva não estava participando da conversa, o barão inclinou-se para ela.
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 24, 2016 7:18 pm

— Você está triste, Marina — disse ele baixinho.
A visita à sepultura causou este efeito, mas você insistiu tanto em vê-la.
— Eu não estou triste, simplesmente fiquei pensando no passado.
Visitar a sepultura era a minha obrigação:
o conde suicidou-se para não se bater em duelo com o meu pai, eu ainda levo o nome dele; ao menos eu devia orar por sua alma no túmulo.
E outra coisa, as recordações sobre Stanislav não me assustam:
até no escritório dele, onde ele morreu, eu posso orar pela alma dele com o coração leve.
Já quanto ao padre Ksaveri, não posso nem pensar nele sem um estremecimento, não irei nunca também ao oratório da condessa.
Ela passou a mão na testa.
— Pode rir, se quiser, mas eu até agora tenho medo do padre Ksaveri.
Quando à noite eu penso nele, parece-me que tudo em minha volta estala e o rosto desfigurado e assustador olha para mim de todos os cantos escuros.
E se o seu espírito sofredor realmente for caminhar por aí?
— Minha filha, não se atormente com tais pensamentos.
Esse pecador está morto e enterrado e não se atreverá a perturbar os vivos — acalmava-a Emília Karlovna.
- Eu não aconselharia esse canalha a começar a cortejar você, caso contrário se submeterá a tal encantamento, que ele irá se arrepender — riu alegremente o barão.
A propósito, há tempo que eu tencionava dizer-lhe, Pavel Sergueevitch, que nas minhas mãos caiu o diário do padre Ksaveri, extremamente interessante.
— Onde?... Quando o senhor o encontrou? — perguntaram todos.
— No mesmo dia em que achamos o padre no subterrâneo.
Quando o apanharam e levaram embora, na minha cabeça ficou a ideia de vasculhar o seu buraco, na torre, e imagine só, ainda na escada eu encontrei a senhora Camila que parecia ter a mesma intenção; mas eu sem me acanhar mandei aquela besta-fera embora e ela foi, lançando um olhar raivoso sobre mim.
Subi, examinei todo o quarto e achei que o seu aposento não se parecia com a cela de um asceta.
Porém parece que o canalha ficava muito emocionado quando partia para suas aventuras, porque por toda a parte havia desordem; ele até esqueceu de tirar a chave da escrivaninha, então eu encontrei este diário num pequeno armário embutido, que trouxe comigo.
De arrumar toda pilha de papéis, com que foi atulhada a sua escrivaninha, eu não tinha tempo, nem vontade, depois tudo isso levou o enviado do bispo.
Durante a doença de Marina eu esqueci completamente disso e somente agora, quando me acalmei um pouco, tomei o diário e li.
Nele extremamente claro aparece o estado trágico da sua alma e a paixão "demoníaca", que o devorava; mas o mais curioso foi o sonho profético descrito por ele.
— E o que foi que ele sonhou? — indagou Marina.
— É melhor que eu leia esta pane.
Uma profecia que é surpreendente na sua exactidão — disse o barão, saindo para buscar o diário.
Pouco depois ele voltou com um caderno volumoso e começou a folhear.
— Este trecho.
Este sonho ele teve na noite após ter pela primeira vez visto o quadro "A centelha errante", trazido por Stanislav e previamente guardado na galeria.
Para contar a impressão que lhe causou o retrato de Marina, ele escreve:
"Que pesadelo me persegue esta noite.
Deus me livre, se isto é uma previsão que sem dúvida me promete a morte.
No meu sonho o quadro que me impressionou tanto encheu-se de vida:
Na minha frente um pântano e o bosque verdadeiros, eu próprio encantado estava na beira sem tirar os olhos da aparição milagrosa que me atraía irresistivelmente.
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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 24, 2016 7:18 pm

Compreendia que a morte me ameaçava se pisasse o pântano, o cavaleiro ao meu lado não se mexia; a força que me atraía venceu tudo.
Eu me atirei para a água turva e afundei cada vez mais e mais no limo viscoso, mas me aproximava da centelha errante, que pairava sobre mim como uma leve neblina, agitada pelo vento.
Finalmente consegui meu objectivo e já queria estreitar ao peito a minha visão encantadora, mas ela desapareceu nas minhas mãos."
"Percebi na minha frente somente a boca do esqueleto, desfigurada pelo risinho maldoso, que caiu numa risada maliciosa.
Nesse instante a cruz que brilhava sobre a cabeça do cavaleiro bateu na minha cabeça com tanta força, que senti como se começassem a crepitar os ossos do meu crânio, e eu afundei no brejo.
O pântano me tragou e eu perdi os sentidos..."
"Acordei coberto de suor frio; sentia uma opressão no peito e o dia inteiro não consegui me livrar desta impressão do terrível pesadelo".
— Não é verdade que o conto é estranho e confirma que a alma humana às vezes consegue prever o porvir? — finalizou o barão e voltando-se para Marina completou, sorrindo:
— Olhe só quantas paixões foram provocadas pela perigosa "centelha errante".
Marina, confusa, escutava-o.
— Deus é minha testemunha de que eu jamais pensei em despertar o interesse desse homem, nem com palavras, nem com olhares; fui convencida de que a batina dele o preservaria da fraqueza vergonhosa.
Além disso, eu não sou tão linda para que possa inspirar uma paixão tão ardente e sobretudo num padre.
A minha mãe era outra coisa; nela havia este poderio que conquistava os corações dos homens, enquanto eu nada aprendi na escola dela.
— Palavra, às vezes eu penso que o solo do pântano onde eu cresci deixou comigo os miasmas contaminados, que atraem e são nefastos para as naturezas corruptas.
Parece que eu realmente sou "uma perigosa flor do pântano", se trago a infelicidade para as pessoas das minhas relações.
Por exemplo, aqui pereceram três pessoas por minha causa:
o padre Ksaveri, Stanislav e a condessa Yadviga.
Você tinha razão, Reimar, que se acautelava.
O barão ruborizou e, pegando as mãos da noiva, beijou-as.
— Como você é má.
Será que eu já não fui cruelmente punido por não compreender que no solo do pântano também crescem lírios d'água?
Não, eu não tenho medo de você e confio na nossa felicidade futura.
Mas para castigar você, estou disposto a mandar os trechos do diário de Ksaveri com a sua biografia para um dos escritores como o enredo para um romance.
Marina pôs-se a rir.
— É verdade, a minha vida parece um romance.
Seria interessante ler a própria descrição da vida.
— E o nome?
— "A flor do pântano", é lógico — rindo alegremente, opinou o barão.

§.§.§- O-canto-da-ave
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - A FLOR DO PÂNTANO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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