Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 25, 2016 9:01 pm

OS LUMINARES CHECOS
Wera Krijanowskaia

J. W. Rochester

Tradução da folha de rosto do original russo

Romance histórico da época do despertar da consciência nacional checa.
A obra recebeu MENÇÃO HONROSA da Academia Imperial de Ciências da Rússia

Texto em tcheco:
"Exaltemos solenemente a fama dos gloriosos Eslavos da obra "Slavy Dcery" de Jan Kolar.
Texto em alemão:
"Você se acha inatingível?
Neste caso, lá embaixo existem as florestas da Boémia que agitam a sua folhagem em sonolenta e silenciosa paz.
Aquele é o mundo do povo Eslavo!
Quando este mundo acordar será um adeus à velha Europa!"


Max Haushofer


Prefácio

A questão Kardec – J Huss


Quando recebemos a tradução deste novo romance de J.W. Rochester, Os Luminares checos, originalmente editado em russo no ano de 1915, interessou-nos profundamente saber que Jan Huss1 era um dos personagens.
Vários autores, desde a afirmação do Espiritismo como Ciência, Filosofia e Religião, têm citado o facto de haver sido Jan Huss, uma das encarnações de Kardec.
O próprio Rochester, em outro livro seu, Herculanum2, editado em 1888, escreve sobre isso.
Na segunda parte do livro citado, de nome Júpiter e Jesus, no primeiro capítulo, "O Eremita",3 encontramos o relato do encontro do patrício Caius Lucilius com um eremita, pai João.
O patrício Caius fora ferido na fuga da cidade de Herculanum - atingida pela erupção do Vesúvio -, tendo sido encontrado e salvo pelo velho e solitário cristão.
Durante sua convalescença, interessara-se pelo cristianismo, acabando por se converter ao ouvir pai João falar sobre Jesus.
O eremita pai João contara ao rapaz sobre o tempo em que, servindo como soldado na Galileia, tivera ocasião de conhecer Jesus.
Como centurião Quirilius, recebera a tarefa de penetrar nas assembleias dos seguidores do Nazareno e, estando lá, comovera-se com a figura e a palavra do Cristo.4
Mais tarde, quando Jesus estivera preso, sendo o responsável pela sua guarda, oferecera-lhe fuga, propondo-se a ficar em seu lugar.5
Ao agradecer, Jesus relatara-lhe que ainda iria morrer por ele, mas isso seria em um futuro mais distante.
É quando pai João conta ao patrício que tivera um sonho profético, assegurando-lhe essa glória para uma existência futura.
Nesse momento Rochester coloca uma nota de rodapé explicando que esse evento se deu vários séculos depois, quando Pai João, reencarnado como Jan Huss, morreu queimado em Constança em 1415.6
No epílogo do mesmo livro - "As sombras da cidade morta", Rochester relata o encontro, séculos depois, de Caius, isto é, ele mesmo, Rochester, com Allan Kardec.7
Caius-Rochester dirige-se a Kardec:
"Tu mesmo, tu, valoroso centurião que não há muito foste Allan Kardec; tu que na última encarnação te devotaste à fundação de uma doutrina que esclarece e consola a humanidade, quantos dissabores que não amargaste".
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 25, 2016 9:03 pm

Na afirmação de Caius-Rochester, fica claro, pela maneira que o texto se coloca, que o centurião Quirilius (pai João), Jan Huss e Allan Kardec teriam sido a reencarnação de um mesmo espírito.
Em nossa pesquisa encontramos outras afirmações sobre essas encarnações.
Em um dos números do jornal Mundo Espírita8 há uma reportagem, de autoria não especificada, que afirma:
"Segundo os anais espíritas fidedignos, Allan Kardec (1804-1869), o Codificador do Espiritismo, foi a reencarnação de Jan Huss (1369-1415)".
O autor infelizmente não esclarece quais seriam esses "anais espíritas fidedignos", mas nos remete ao livro A Missão de Allan Kardec, de autoria de Carlos Imbassahy.9
Nesse livro, em sua primeira parte, há um capítulo sobre Jan Huss.
É lá que as fontes da afirmação acima são especificadas.
Citando o Dr. Canuto Abreu, Carlos Imbassahy relata que a informação de que Allan Kardec fora Jan Huss data de 1857.
Acrescenta que a informação veio por via medianímica pela psicografia de Ermance Dufaux.10
Segundo o Dr. Canuto Abreu, as fontes estavam, em 1921, na Livraria de Leymarie; ali, ele as copiara na sua quase totalidade.
Em 1925 passaram para o arquivo da Maison dês Spirites.
Durante a invasão de Paris, em 1940, os alemães as destruíram.11
Endossando as informações do Dr. Canuto Abreu encontramos na literatura espírita mais algumas assertivas a respeito.
No livro de Victor Hugo, pela psicografia de Zilda Gama, O Solar de Apoio12, encontramos confirmação do famoso escritor de que Allan Kardec foi a reencarnação de Jan Huss.13
Ainda mais interessante foi a leitura do livro Leon Denis na intimidade, mais especificadamente o prefácio de Wallace Leal Rodrigues.14
Destacamos desse prefácio um trecho do artigo de Leon Denis para a Revue Spírite de janeiro de 1923, sob o título de "L'Spiritisme: Ia Theorie et lês Facts":
"Há uma misteriosa ligação entre o discípulo e o Mestre?
Reparemos em que meu nome está incrustado no de Allan Kardec que, na realidade, se chamava: Hippolyte Leon Denisard Rivail".
Analisando a ligação supracitada entre o discípulo (Denis) e o Mestre (Kardec), Wallace Leal Rodrigues informa que:
"Eruditos e estudiosos que tiveram acesso aos documentos particulares da Sociedade Espírita de Paris afirmam que os espíritos teriam revelado a Allan Kardec, além de sua encarnação como druida, sua vida na Boémia, sob a personalidade de Jan Huss.
Nesse caso encontramos uma valiosa pista para a compreensão dessas vidas quase de todo apagadas e dessa misteriosa ligação através de Jerónimo de Praga, guia espiritual de Leon Denis e que foi, igualmente, o maior amigo e o mais eminente discípulo de Jan Huss".15
Além desses dois, uma terceira pessoa é fundamental nessa articulação histórica:
o reformador inglês John Wyclif.
Quando moço, Jerónimo estudara na Inglaterra e fora bastante influenciado pelas ideias de Wyclif,16 as quais mais tarde iria levar ao conhecimento de Jan Huss.
O que mais nos interessa retirar desse interessante prefácio é a hipótese levantada pelo autor:
Allan Kardec seria Jan Huss reencarnado e Leon Denis seria John Wyclif reencarnado, tendo como guia espiritual o espírito de Jerónimo de Praga.
Mais provas sobre Denis ter sido reencarnação de J. Wyclif não são apresentadas, mas a argumentação do autor tem forte embasamento.17
Finalizando nossa pesquisa de fontes complementares para a assertiva de que Kardec foi Huss remetemo-nos a um artigo de Hermínio Miranda no Jornal Espírita da Feesp.18
Nesse artigo, o consagrado estudioso espírita analisa duas comunicações na Revista Espírita de 1869, 19 datada a primeira de 14 de agosto de 1869, assinada por Jan Huss, e outra comunicação de 17 agosto de 1869, assinada por Allan Kardec.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 25, 2016 9:05 pm

Segundo Hermínio Miranda, na segunda comunicação Kardec subtilmente confirma que foi Jan Huss.
Confiando nas assertivas expostas até aqui, só podemos aceitar a veracidade da afirmação de que o espírito de Allan Kardec foi o mesmo espírito que animou o corpo carnal de Jan Huss.
É com a aceitação dessa verdade que voltamos ao livro Herculanum com que iniciamos este prefácio.
Vimos que Rochester conta que o eremita pai João, que ajudou e converteu o patrício Caius, foi posteriormente Jan Huss.
Ora, sendo isso válido, o centurião Quirilius, nome e cargo de pai João quando mais moço, que se oferece para ficar em lugar de Jesus, tinha em si o mesmo espírito que 19 séculos depois habitaria o corpo de Allan Kardec, o codificador do Espiritismo.20
É desta forma que encerramos este prefácio iniciado com a intenção de expor algumas fontes da afirmação de que Allan Kardec foi a reencarnação de Jan Huss, com a frase em que o futuro professor Hippolyte Leon Denisard Rivail (Kardec), então como o centurião Quirilius, pede a Jesus que o deixe morrer em seu lugar:
"Deixa-me morrer em teu lugar, porque a vida de um soldado obscuro não vale a de quem, como tu, é providencial e benéfica aos enfermos e desgraçados..."

1 Jan Huss: sacerdote tcheco, reformador religioso, mártir e precursor da Reforma Protestante.
2 Herculanum foi editado no Brasil pela Federação Espírita Brasileira (FEB), em 1937.
Consulta feita em exemplar da 10ª edição de 1995.
3 Obra citada, p. 173.
4 Obra citada, pp. 187-188.
5 Obra citada, p. 191.
6 Obra citada, p. 192
7 Obra citada, pp. 350-353. Referimo-nos aqui quando nomeamos Allan Kardec a Hippolyte Leon Denizard Rivail, codificador do Espiritismo, desencarnado em 1869.
8 Jornal Mundo Espírita, edição nº 1.3 74, Curitiba, janeiro de 1999, p. 6.
9 A Missão de Allan Kardec, de Carlos Imbassahy, edição da Federação Espirita do Paraná, Curitiba, 2ª edição de 1988, sendo a primeira edição de 1957.
10 Uma das médiuns que participaram de O Livro dos Espíritos.
11 Obra citada na nota n2 8, p. 43
12 O Solar de Apoio, romance mediúnico pelo espírito de Victor Hugo, psicografia de Zilda Gama, 6ª edição, São Paulo, Lake, 1992.
13 Obra citada acima, p. 98.
14 Leon Denis na intimidade, de Claire Baumard(1872-1961), tradução e prefácio de Wallace Leal Rodrigues, datado de 1981.
Edição da Casa Editora O Clarim, de Matão (SP)
15 Obra citada, pp. 28-30.
16 A relação histórica entre J. Huss, J. Wyclif e Jerónimo de Praga já foi abortada na introdução e será mais esmiuçada no decorrer do livro pelo próprio Rochester.
17 Para essa questão indicamos o livro Allan Kardec, o druida reencarnado, de Eduardo C. Monteiro, 3ª.ed., 1998, São Paulo, Editora Espírita Eldorado-EME.
18 Jornal Espírita da Federação Espírita do Estado de São Paulo, nº. 90, ano VIII, dezembro de 1982
19 Revista Espírita de 1869, pp. 270-272, conforme citação do autor do artigo.
20 "Sobre o encontro do centurião com Jesus, ver Herculanum, p. 191, e a nota de rodapé em que Rochester esclarece que futuramente ele será Jan Huss na página seguinte, 192.

Orphila Conte Rodrigues
Solange Vaz
Maurício Brandão
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 25, 2016 9:05 pm

Bibliografia

AUTOR NÃO ESPECIFICADO.
Jornal Mundo Espírita nº 21.374. Curitiba: Federação Espírita do Paraná, janeiro de 1999.
HUGO, Victor (espírito) e GAMA, Zilda (médium). O Solar de Apoio. 6ª ed. São Paulo: Lake, 1922.
IMBASSAHY, Carlos. A Missão de Allan Kardec. 2ª ed. Curitiba: Federação Espírita do Paraná, 1998.
MIRANDA, Hermínio. Jornal Espírita, ano VIII, nº 290, São Paulo: Federação Espírita do Estado de São Paulo, dezembro de 1982.
MONTEIRO, Eduardo C. Allan Kardec, o Druida Reencarnado. 3ª ed. Capivari: Editora Espírita Eldorado de São Paulo/Sociedade Espírita Anália Franco, EME, 1998.
ROCHESTER, J.W. (espírito) e KRIJANOWSKY, Wera (médium). Herculanum. 10ª ed. Rio de Janeiro: Federação Brasileira, 1995.
RODRIGUES, Wallace Leal. "Prefácio" de: BAUMARD, Claire. Leon Denis na intimidade. Matão: O Clarim, 1981.

Um pouco de História
O Tempo das Reformas
Somos todos hussitas.


Lutero

Em que contexto histórico podemos situar a vida e a obra de Jan Huss,21 sacerdote, mártir e reformador checo, personagem principal do livro?
Qual era o panorama político-religioso europeu nos séculos XIV e XV, época em que Huss viveu?
Em termos de história das religiões e da Igreja, com todo o seu significado espiritual e político, Jan Huss, seu amigo e principal discípulo, Jerónimo de Praga, bem como o reformador e pensador inglês John Wyclif, que muito os influenciou, pertencem ao período que a historiografia mais tradicional denominava como "a época da pré-reforma da Igreja".
Seguindo o ponto de vista do historiador francês Pierre Chaunu, em magnífica obra - O Tempo das Reformas - que indicamos a todos, situamo-lo dentro do contexto do que ele chama de Primeira Fase da Reforma.
Cronologicamente, o processo de transformação da cristandade latina inicia-se nos séculos XIV e XV.
Essa chamada "pré-reforma" e as reformas protestantes do século XVI são perfeitamente solidárias. São tipicamente reformas da Igreja, questionam simultaneamente a relação com Deus - que desejam mais pessoal - e os fundamentos da dogmática, não para modificá-la mas para melhor fundamentá-la, para defendê-la, para preservar a sua identidade.
Os reformadores da Igreja querem estar na Igreja, não aceitam ser afastados, não se consideram heréticos.
É nesse sentido que existe toda uma linha de continuidade entre Wyclif, Huss, Lutero e Calvino.21
Em outros livros editados no Brasil que se referem a ele também é chamado de John ou João Huss; adoptaremos aqui a denominação Jan por considerarmos mais adequada.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 25, 2016 9:05 pm

Europa no século XV

As origens - Igreja e Estado política e religião
Desde o Edito de Milão do Imperador Constantino no começo do século IV e da oficialização do cristianismo como religião oficial do Império Romano pelo Imperador Teodósio, que a utilização da Igreja e da religião como instrumento político por parte de imperadores, reis, príncipes e duques foi uma constante.
Paralelamente, por parte da Igreja Católica era hábito comum e corriqueiro a sua participação e ingerência em todos os assuntos da vida política e económica do mundo secular.
Se hoje já podemos exercer em muitos países uma prática religiosa como manifestação de crença do indivíduo, manifestação de uma convicção íntima, isso não foi o que ocorreu na maior parte da história do cristianismo.
Em muitos casos a relação das entidades institucionais religiosas com os estados, com a política, foi embaraçosa e vergonhosa.
A partir do século XI, com o fim das invasões dos chamados "povos bárbaros", a Europa entrou em fase de expansão.
O revivescimento do comércio que se seguiu teve um efeito perturbador sobre a sociedade feudal.
A uma civilização exclusivamente rural sucedeu uma civilização cada vez mais de cidades e de mercadores.
Concomitantemente a isso, a disputa entre o papado e os estados pelos poderes temporal e espiritual acirrou-se ainda mais.
O Papa passou a envolver-se em diversos conflitos políticos com as monarquias medievais.
Exemplo marcante desse conflito foi a questão das investiduras, quando o Papa chocou-se com o imperador alemão a respeito de quem teria o direito de nomear sacerdotes para cargos eclesiásticos.
No século XI, o papado iniciou uma série de reformas internas na Igreja.
Os costumes do clero eram vergonhosos, sombrios; os dois principais "vícios" do momento eram constantemente denunciados:
a simonia - acção de obter por meio de influência ou em troca de uma soma em dinheiro um ofício divino - e o nicolaísmo - na linguagem corrente, recusa do celibato dos sacerdotes.
Ao mesmo tempo em que realiza a reforma interna, o papado afirma a intenção de retomar a independência da Igreja.
Proclama o primado absoluto de Roma sobre a Igreja e o conjunto da cristandade, e proíbe o imperador de "investir" sacerdotes em cargos eclesiásticos.
No século XIII, o poder papal atingira o apogeu.
O Império germânico, aparentemente o estado mais forte da cristandade de então, tinha sido forçado a ceder, se não a todas, pelo menos a muitas das exigências papais.
A excomunhão, instrumento brandido por uma diplomacia oportunista e brilhante, conseguira muitas vitórias.
Na época do Concilio de Latrão, em 1215, o papa Inocêncio III sonhava em instaurar uma espécie de teocracia, por meio da qual todos os príncipes temporais submeter-se-iam ao patronato do Papa, vigário do Cristo.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 25, 2016 9:05 pm

As heresias

Esse longo período de liberalização do culto, oficialização do cristianismo, conversão dos povos "pagãos", expansão e fortalecimento do poder da Igreja estende-se basicamente do século III ao século XII-I. Foi o período em que o cristianismo deixou de ser uma religião considerada herética e perseguida e passou a ser a religião dominante em toda a Europa.
Infelizmente, a mesma intolerância que os cristãos dos primeiros séculos sofreram, a Igreja cristã - assim que se viu oficial - passou a praticar, datando desde o século IV as primeiras perseguições e acusações de heresia a todos os que divergissem da ortodoxia oficial.
Na mesma medida em que sofreu, perseguiu.
Durante os séculos que se seguiram, afirmou-se uma série de seitas ou heresias; por sua atitude decididamente anti-hierárquica, hostil a Roma, essas seitas passaram a ameaçar seriamente a unidade espiritual do mundo cristão do Ocidente.
A exaltação religiosa, as aspirações apocalípticas, as esperanças milenaristas, os questionamentos sociais, os sentimentos nacionais - tudo isso multiplicava a força desses movimentos "heréticos".
Rejeitavam a autoridade dos bispos e do Papa, e mesmo por vezes a dos soberanos.
Proclamavam insistentemente a necessidade de uma renovação moral.
Isso traduzia-se frequentemente pela nostalgia de uma Igreja primitiva, evangélica, considerada como um modelo de pureza, pela vontade de retornar a uma ordem moral antiga - a dos primeiros tempos do cristianismo.
De qualquer maneira, essas heresias rejeitavam a Igreja constituída, recusando a missa e a comunhão, todo o clero romano, o culto da Virgem e o dos santos.
Esses movimentos apoiavam-se estritamente numa determinada interpretação do Novo Testamento.
Dentre esses movimentos destacamos o dos patarinos, o dos cátaros, o dos albigenses e o dos valdenses.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 25, 2016 9:05 pm

As correntes de pensamento

As novas condições de vida, sociais, económicas, urbanas principalmente, a partir do final do século XI, vão gerar, de forma mais marcante em meados do século XII, um certo "renascimento cultural", embora de proporções e consequências bem mais modestas que o afamado renascimento seiscentista.
As maiores cidades têm universidades, intelectuais e um maior consumo de livros.
O estudo volta a ser valorizado.
Mas, importante não sairmos da realidade do mundo medieval.
Tudo isso é muito circunscrito, passa ao longe dos camponeses, dos artesãos urbanos, mesmo da grande parte dos comerciantes e nobres.
Ainda são poucos os que sabem ler, se tomarmos a sociedade medieval como um todo; o livro é ainda artesanal, ainda vive dos copistas, embora a quantidade de livros já fosse bem maior.
O que não podemos perder de vista é que, na Idade Média, os destinos da sociedade civil e da sociedade eclesiástica estão estreitamente ligados.
O intelectual, o filósofo, o teólogo, em sua maioria, são clérigos, ou aprenderam com estes.
Em todas as épocas, a vida religiosa e as manifestações de pensamento no domínio literário são directamente influenciadas pelas estruturas sociais, pela evolução da economia e da sociedade, e as influenciam por sua vez. Era o clero quem dominava as escolas dos mosteiros, as escolas paroquiais e as universidades.
A escolástica é a forma de pensamento que se impõe nesse período.
Entre muitos outros, nos séculos XII e XIII destacam-se os nomes de São Tomás de Aquino e Alberto Magno, influenciados profundamente tanto pela herança de Santo Agostinho e São Jerónimo, entre os principais autores dos primeiros tempos do cristianismo, como pela influência grego-árabe.
Basicamente, a escolástica é um método de estudo e de exposição.
É fruto de um momento específico, de uma confluência histórica, e digere o passado da civilização ocidental.
A Bíblia, os padres da Igreja, Platão, Aristóteles, os árabes - esses foram os dados de seu saber, os materiais de sua obra.
Em meados do século XII e no século XIII, assistiu-se à propagação de um sentimento novo.
A partir do momento em que a cristandade tomou consciência de sua força, passou a ser tentador fundamentar a fé numa base racional mais vasta do que a de uma revelação.
Esta foi, fundamentalmente, a grande tentação desse período:
privilegiar a filosofia na leitura da palavra de Deus.
É nesse contexto que se dá o trabalho dos grandes doutores do século XIII, destacando-se São Tomás de Aquino.
A escolástica realista desse pequeno renascimento aceitou a leitura aristotélica do universo e cristianizou-a.
São Tomás de Aquino não diminuiu a parte da revelação, mas a colocou no topo, como complemento e não em oposição ao sentimento racional.
Pretendeu conciliar a filosofia de Aristóteles com o cristianismo.
Os escolásticos chamavam a isso de razão teológica, isto é, razão iluminada pela fé.
Apesar disso, o pensamento escolástico no seu próprio desenvolvimento, no final do século XIII, com a morte de São Tomás e em virtude de seu próprio aprofundamento, descobriu seus limites e suas fraquezas.
No domínio do pensamento manifesta-se desde então uma viva reacção contra as teorias "tomistas", criticadas por uma fidelidade excessiva a Aristóteles.
Os maiores críticos pautavam que a dogmática não se fundamenta na razão, cujo manuseamento Aristóteles ensina na sua "Lógica", mas sim na palavra de Deus confiada à Igreja.
Segundo esses adversários, a filosofia dos "tomistas" atentava contra o essencial da revelação:
a soberana liberdade e o poder absoluto do Deus cristão.
A grande síntese reconciliadora pela qual São Tomás lutara encontrava-se combatida no final de sua vida.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 25, 2016 9:06 pm

O pensamento do século XIV tornara-se mais céptico, mais pessimista.
É na morte de São Tomás de Aquino, na viragem da escolástica, que se situa a origem, o ponto de partida do que chamamos de Primeira Reforma.
Se é válido periodizar por meio de datas, de rupturas, destacaríamos esse período de crise da cristandade entre 1274 - morte de São Tomás de Aquino - e 1517 - data em que Lutero fixa suas 95 teses na porta da igreja de Witenberg, como o período da Primeira Reforma.
A viragem da escolástica inicia-se com Duns Escoto (1266-1308).
Ele propõe outra concepção de fé, um Deus mais livre, acessível não pelo raciocínio, mas por um impulso do homem, um acto de caridade, espiritual e não intelectual.
Segundo ele, a religião não pode explicar-se pela razão, como pretendiam até então os filósofos:
é artigo de fé e de crença directa.
Duns Escoto já é um homem do tempo da Reforma da Igreja.
Mas é na primeira metade do século XIV, com Guilherme de Ockham, que muito influenciou John Wyclif e Jan Huss, que se deu a verdadeira viragem.
O século XIV é um tempo de crise.
Tempo de guerra, peste, fome, normalmente retratado como de uma atmosfera cinzenta, em que o divórcio entre a filosofia e a religião acabou levando ao misticismo.
O pensamento escolástico tradicional do escol pensante da Igreja não respondia mais à necessidade daqueles novos tempos.
Guilherme de Ockham, por sua vez, restringiu mais do que o seu predecessor o domínio da demonstração filosófica, acentuando a separação "iniciada" entre a filosofia e a teologia.
Para Ockham, nada devia existir entre o conhecido e o conhecedor.
Não havia mediador entre Deus e a criação.
Sua filosofia deixava o caminho livre a uma teologia limitada ao conteúdo objectivo da revelação.
Ockham elaborou a personalidade do Deus do século XIV, ou seja, a personalidade do Deus do primeiro tempo da Reforma.
O Deus de Ockham - Deus da tradição mais antiga e mais segura da Igreja - não é decididamente o Deus dos filósofos.
O seu Deus é o Deus da Sagrada Escritura.
Para ele, toda a revelação de Deus sobre si próprio - tudo o que a Igreja ensina sobre a salvação - está contida na Sagrada Escritura.
Apesar da afirmação da autoridade da Escritura, para que a Escritura confiada à Igreja funcionasse como juiz prático da verdadeira Igreja, seria ainda necessário que à destruição da teologia natural se acrescentasse a diminuição do magistério, do poderio, da Igreja visível.
A corrente que tende a reatar com o recurso directo à Escritura, como fonte de pensamento e de crítica, nasce mesmo com o Grande Cisma e com Wyclif.
Culminará no século XVI, quando os teólogos da Reforma esforçam-se por estabelecer a autoridade global da Sagrada Escritura.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 25, 2016 9:06 pm

O tempo das Reformas - Os séculos XIV e XV

O final da Idade Média é um período de transformações. Período obscuro, do qual a história guardou principalmente as catástrofes, os grandes conflitos políticos e espirituais.
A interrupção do desenvolvimento demográfico - seguida de um grande refluxo agravado pelas fomes e pestes, entre as quais foi catastrófica a de 1348 - e as perturbações no suprimento de metais preciosos na economia ocidental - produzindo uma carência de prata e depois de ouro, tornada mais aguda pelas guerras (Guerra dos Cem Anos, Guerra das Duas Rosas, guerras ibéricas, guerras italianas) - aceleraram a transformação das estruturas políticas e socio-económicas do Ocidente.
O século XIV, especialmente, é conhecido pela união simultânea dos três grandes flageles da humanidade: fome, epidemia e guerra.
No que diz respeito às mentalidades, apesar das fortes diferenças regionais, é uma época assolada pela psicose do medo.
Nas cidades e nos campos, tanto os ataques da peste negra como as crises frumentárias eram encarados como castigos de Deus.
O sentimento religioso evolui, e é frequentemente angustiante em virtude da morte e dos infortúnios que rodeiam a todos.
Surge uma fé diferente, mais complexa que a dos séculos anteriores, mais pessoal, chegando ao misticismo.
É a época em que as angústias e os males do tempo levam o homem a procurar uma religião mais humana, mais familiar, um Deus mais próximo.
A sociedade religiosa do final da Idade Média - somos tentados a dizer:
a sociedade da primeira fase informal do longo tempo solidário das Reformas - está profundamente desarticulada.
Tanto no aspecto da religiosidade popular, do sentimento, quanto no aspecto político.
As crises que sacudiram o topo da sociedade eclesiástica, no final do século XIV, também tiveram grandes repercussões no plano da sensibilidade e do pensamento.
Isso porque, apesar de uma profunda dissociação aparente entre as diferentes camadas da piedade popular e a religião da elite, a religião popular aceitava, sem hesitação, a mediação eclesiástica da Igreja em relação a Deus.
Era uma intermediação completamente aceita nas camadas populares, que representavam a grande maioria da população - quase 90% de analfabetos.
O fervor do baptismo, o temor reverencial dos outros sacramentos, os gestos de imitação eucarística, tudo isso traduz uma forte impregnação de formas de pensar e agir próprias da cristandade.
Apesar da sua relativa autonomia, a religião popular é cada vez mais dependente da religião elaborada dos clérigos.
Nessa situação, tudo o que pudesse afectar a Igreja como instituição era particularmente grave.
Se era posta em dúvida, a alternativa era avançar para o elo seguinte da cadeia das autoridades:
o recurso directo à Sagrada Escritura.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 25, 2016 9:06 pm

A crise da cristandade - O Grande Cisma

A Igreja Católica como instituição político-religiosa também entrara em crise a partir dos anos finais do século XIII.
As disputas e os conflitos entre o papado e os estados acirravam-se.
Ora um, ora outro grupo político ligado a determinado estado exercia um domínio sobre os rumos da Igreja.
Jogar um adversário contra o outro de forma a buscar a melhor aliança era um hábito político corriqueiro dos papas.
Logo no começo do século XIV, tivemos o episódio que foi baptizado como "Cativeiro da Babilónia", em que o papado ficou sediado em Avignon, na França, não mais em Roma - daí o termo "cativeiro" inventado pelos romanos.
A eleição do papa Clemente V, arcebispo francês, e a instalação do papado em Avignon por 69 anos (1309-1378) iniciaram um período de sérias dificuldades e discórdias.
Esse papado de Avignon era aliado e submisso aos reis franceses, o que tornou os papas muito impopulares.
Eles eram odiados pelos italianos, mais particularmente pelos romanos.
Toda a cristandade condenava violentamente a submissão papal aos franceses.
Em 1377, o papa Gregório XI voltou a Roma, mas a situação acabou se complicando ainda mais.
O Papa morreu seis meses depois e o povo romano aproveitou a oportunidade para forçar o colégio dos cardeais a eleger um papa italiano, o que acreditavam restabeleceria definitivamente o papado em Roma.
Os cardeais elegeram o arcebispo de Bari, que recebeu o nome de Urbano VI, e fugiram assim que puderam, renegando a escolha forçada que haviam feito.
Enquanto o Papa eleito permanecia em Roma amparado por um colégio de cardeais totalmente novo e escolhido por ele, os outros cardeais dissidentes reuniram-se e escolheram um novo Papa, mais do seu agrado.
Com a eleição de Clemente VII como o Papa dos dissidentes iniciou-se o Grande Cisma do Ocidente (1378-1417), que separou toda a cristandade romana em duas obediências - papado de Avignon e papado romano - e arruinou o prestígio pontificai.
De início, a crise no topo da estrutura eclesiástica desenvolveu-se num clima até favorável, reflexo das disputas políticas e económicas que assolavam a Europa de então.
De um lado, o imperador alemão Carlos IV, a Inglaterra e uma parte da Itália urbanista opõem-se a Avignon, à França, à Escócia, à Espanha e a alguns outros aliados menores.
As associações reflectem as alianças políticas do momento.
A Igreja como instituição estava doente; o impasse continuaria.
Urbano VI morre e seus cardeais elegem Bonifácio IX (1389).
Sobrevém a morte de Clemente VII (1394), e os cardeais deste último, reunidos na França, elegem, por sua vez, Benedito XIII.
A triste verdade é que nenhum papa desse período, de ambas as facções, foi digno do cargo.
Serão necessários vários anos para que, neste mundo lento, surjam condições para um retorno à unidade.
As ideias para romper o impasse surgiram primeiramente fora das estruturas centralizadoras da Igreja.
Justificando-se por meio de referências a princípios teológicos, passaram a circular propostas da convocação de um concílio-geral.
Os partidários dessas ideias defendiam a tese de que a verdadeira autoridade da Igreja estava com o episcopado, como um organismo, e que os concílios-gerais estavam acima do Papa.
Respondendo a instâncias feitas pela Universidade de Paris, em 1409, um concílio foi convocado em Pisa.
Uma parte dos cardeais de ambos os papas compareceu a esse concilio de Pisa, além de numerosos bispos e doutores em teologia.
Os dois papas foram citados para que comparecessem e, como deixassem de fazê-lo, foram, à revelia, condenados por heresia.
Os cardeais elegeram então um novo Papa, que recebeu o nome de Alexandre V.
Entretanto, o apoio externo para o concilio não fora bem-estruturado.
Seus partidários haviam-se apressado e convocaram-no demasiado cedo.
Nem o Papa de Roma nem o de Avignon haviam sido privados de obediência, enquanto se esboçava a obediência a um terceiro Papa.
Essa primeira tentativa de um concílio "conciliatório" acabou resultando num retumbante fracasso.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 25, 2016 9:06 pm

A Igreja passa a ter três cabeças.

De 1409-1414 a Igreja passa do cisma ao caos.
Toda a instituição parece desfazer-se no seu topo.
O papa Alexandre V durou apenas dez meses e o partido de Pisa elege para seu sucessor Baldassare Cossa, que recebeu o nome de João XXIII.
Homem indigno de ocupar qualquer cargo eclesiástico, buscava recursos negociando indulgências pela Europa.
Apesar do fracasso da via conciliatória em Pisa, será por meio de outro concilio que a Igreja sairá do impasse.
Com a intervenção dos laicos e o apoio político e policial do imperador Sigismundo, outro concilio foi preparado com bastante antecedência e, dessa vez, com a articulação política necessária.
O concilio de Constança- 1415-1417 -, convocado pelos laicos, organiza-se em nações.
As decisões eram tomadas pelas nações que os compunham.
Os cardeais não tinham nenhuma autoridade além da que possuía qualquer outro membro individual de seu país.
Simultaneamente, afirma-se, na prática, superior ao Papa, depondo os três papas.
A cristandade vive um pouco mais de dois anos sem Papa, com um singular governo de assembleia.
O lugar estava livre para a designação de um papa, mas o partido imperial pretendia retirar vantagens da situação.
Finalmente, após uma série de disputas internas, é indicado em 1417 o cardeal Colonna, proclamado Martinho V.
Os últimos refractários fizeram voto de obediência e o cisma, aparentemente, resolveu-se.
Contudo, esse mesmo concílio, que havia dado paradeiro ao cisma, tinha lançado as sementes da futura dissensão, a Reforma Luterana, que começaria exactos cem anos mais tarde, em 1517.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 25, 2016 9:06 pm

-John Wyclif- Profeta de uma nova era

A crise institucional da Igreja levantou uma série de interrogações sobre sua estrutura e seus fundamentos dogmáticos.
Vistos dentro de uma perspectiva verdadeiramente vasta e integrante da história da Igreja, wyclifismo e hussismo são movimentos indissociáveis da crise que se revela no Grande Cisma do Ocidente.
Devem ser compreendidos como expoentes principais da primeira fase da Reforma, dentro da linha de continuidade que os une a Lutero e Calvino.
Com Wyclif e Jan Huss é ultrapassado um limiar na cadeia histórica da transmissão da revelação: o limiar do recurso directo, do recurso à autoridade da Sagrada Escritura, palavra de Deus.
O pensamento de Wyclif não é fruto directo do cisma, mas este proporcionou um terreno favorável ao seu desenvolvimento.
Nascido por volta de 1324, em pleno "Cativeiro da Babilónia", afirmara-se na
Universidade de Oxford como um dos mais brilhantes canonistas do seu tempo.
Wyclif foi um teólogo da Igreja - o primeiro teólogo da Igreja "protestante" seiscentista.
Em poucos anos, grandes tratados. Em seu tratado De civili domínio - 1377 - afirma veementemente que a Igreja não tem qualquer poder delegado - apenas verifica e proclama a acção de Deus.
A acção da providência é sempre directa, ignorando a Igreja como instituição.
A Igreja já não é encarada como a instituição, o canal de todas as mediações.
O De civili domínio contém, potencialmente, toda a eclesiologia hussita e toda a eclesiologia protestante.
O pensamento de Wyclif expressa-se também em outros dois brilhantes tratados:
o De veritate Scripturae sancta e o De Ecclesia, os dois em 1378.
À primeira vista, não havia nada mais tradicional e menos contestável do que a afirmação da verdade e da autoridade da Sagrada Escritura, palavra de Deus.
Se isso, mesmo assim, surpreendeu, é porque foi expresso de forma mais autónoma, mais clara.
Melhor ainda, ele descobre que a autoridade da Escritura pode combater a da Igreja.
A Escritura foi, durante séculos, o postulado nunca desmentido de toda e qualquer construção teológica.
A Igreja baseia sua autoridade e seu ensino na Sagrada Escritura, encarando-a como um ditado de Deus.
Wyclif propõe:
Deus, a Escritura e só depois a Igreja.
É o primeiro a propor, como alternativa, a autoridade da Escritura, juiz da Igreja.
No espírito de Wyclif o cisma que se desenrolava era a maior manifestação da impossibilidade radical do poder divino delegado.
Seus tratados propõem a Escritura em abordagem directa.
As Escrituras são suficientes, são bastante claras; o comentário da Igreja e sua intermediação não são necessários.
É por essa radical simplificação que, sem ter a clara consciência da inovação, Wyclif é revolucionário.
É também nesse sentido - da Escritura oferecida a todos - que se compreende seu esforço na tradução da Bíblia para o inglês.
John Wyclif é o primeiro artesão da sangrenta e profética ruptura da Igreja despedaçada, do século XIV.
Ao contestar a transubstanciação, a missa, e toda e qualquer forma de expressar a presença
real do corpo de Cristo na hóstia, traçou uma via anunciadora de perturbações e de rupturas.
Foi ele quem inspirou a Jan Huss a sua eclesiologia, e a eclesiologia de Lutero é hussita.
Morreu tristemente abandonado, em 1384, sendo enterrado em terras da Igreja até sua condenação como herege pelo concilio de Constança, o que provocou a exumação e a dispersão das suas cinzas.
Sua descendência deve ser procurada na Boémia.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 25, 2016 9:07 pm

A Boémia e o Império

Actualmente, a Boémia corresponde, junto com a Morávia, ao que é, geograficamente, a República Tcheca, embora os limites fronteiriços tenham variado muito com o correr da história.
Os tchecos têm sua origem nos povos eslavos que migraram para essa região entre o século V e o século VII da Era Cristã, tendo sido cristianizados no século X.
No século XIV, a Boémia era um dos mais importantes centros comerciais e culturais da Europa.
Por muito tempo, a prata tcheca forneceu a base da moeda corrente do continente.
A Boémia sempre girou na órbita política e económica do Sacro Império Romano-Germano.
O Império, naquela época medieval, não era um Estado material, mas correspondia sim à ideia de um Império formado por uma confederação de Estados.
O imperador era o senhor de um dos Estados que o compunham, sendo eleito pelos seus pares.
O Reino da Boémia era um dos eleitores do imperador.
Além de ser electivo, o cargo de imperador não implicava necessariamente muito poder, sendo relativo à força do próprio imperador eleito.
Os Estados do Império agiam, de facto, como reinos independentes.
Na maior parte do tempo, os príncipes alemães criavam intrigas e disputas em torno do título de imperador e de seu reconhecimento pelo Papa.
Eleições eram impugnadas, compradas, anuladas.
Do século X ao XIII houve um longo processo de expansão alemã para o leste europeu.
Incentivados por questões económicas e ambições políticas, os esforços do Império para anexar ou submeter as regiões eslavas vizinhas foram constantes.
Na Boémia, durante o século XIII, o rei Otakar II estimulara a imigração de colonos alemães, na esperança de que estes o ajudassem a fortalecer seu próprio poder em relação à nobreza da Boémia.
Os alemães receberam vantagens especiais para se desenvolverem como mercadores e artesãos, mas os seus privilégios acabaram por indispor os tchecos contra eles.
Os conflitos e as disputas entre esses dois grupos étnicos foram uma constante em toda a história, tendo-se concentrado principalmente em Praga.
Praga, capital da Boémia, às margens do rio Vltava, pouco acima de sua confluência com o Elba, nascera do interesse dos mercadores pela sua localização.
Em 1232, Venceslau I outorgou uma carta régia a essa "Velha Cidade" (Staré Mesto). Otakar II fundou nova aglomeração, a "Pequena Cidade" (Mala Strana), para os colonos alemães, e Carlos IV, no século XIV, fundou um terceiro agrupamento, a "Cidade Nova" (Nove Mesto), que viria a ser habitado principalmente por tchecos, ao contrário da "Cidade Velha", que era povoada mais por alemães.
Praga ainda possuía as regiões - os bairros - denominadas "Cidade Alta", "Cidade Baixa" e "Margem Pequena".
Carlos IV, rei da Boémia e imperador do Sacro Império Romano-Germano no século XIII, tem sua memória particularmente reverenciada em Praga.
Quando eleito, fez de Praga sua capital, atraindo para a cidade artistas e humanistas italianos.
Daquela época, datam a nova ponte, a universidade, o castelo real e sobretudo as igrejas.
Dentro da política alemã de expansão em direcção ao Leste, Carlos IV conseguiu fazer seu filho Sigismundo rei da Hungria, e fazer seu outro filho, Venceslau, rei da Boémia.
A Universidade de Praga, fundada por Carlos IV, foi a primeira universidade de língua alemã.
Fundada em um ambiente conturbado, internacional como todas as universidades, logo se tornou controlada
pelos mestres e estudantes alemães, cada vez mais numerosos à medida que refluíam de Paris no momento do Grande Cisma.
Os alemães chocavam-se com os tchecos, gradativamente conscientes de sua originalidade e de suas aspirações.
Essa oposição étnica duplicava-se em uma oposição corporativa: tratava-se de definir se as nações - grupos em que se dividia a faculdade - dominadas pelos alemães prevaleceriam sobre a nação tcheca.
Como se verá no decorrer do livro esses conflitos étnicos entre os tchecos e os alemães foram muito importantes no desenrolar da vida de Jan Huss.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 25, 2016 9:07 pm

Jan Huss

O pensamento de Wyclif fora bloqueado na Inglaterra pelo próprio sucesso do Estado.
A reforma da Igreja não consegue impor-se nos locais em que a construção do Estado está avançada.
O sucesso de Jan Huss na Boémia explica-se por uma diferença de evolução.
O Império não é a Inglaterra.
O protesto hussita confunde-se com a revolta de quase toda uma sociedade no âmbito territorial de um conjunto de Estados.
Além do mais, Huss é nacionalista - o "Pai-Nosso em tcheco" é uma demonstração inequívoca, tanto quanto seu trabalho de fixar a ortografia e reformar a língua literária tcheca.
Mais tardio, o protesto hussita situa-se num momento propício.
Nascido em 1369, na pequena cidade de Husinec, Jan Huss viveu, durante 37 anos de sua vida, o drama do cisma.
Huss é fruto desse mesmo cisma.
Mas é também fruto de uma Boémia muito específica.
Nesse país marginal, cristianizado meio milénio mais tarde que a Itália, a Espanha ou Gália, o clero é demasiado numeroso, excepcionalmente deficiente, sem formação e com maus costumes, vivendo de prevaricações simoníacas.
Quando Praga se tornou a capital do Império isso se tornou intolerável.
Foi nessa situação que Jan Huss se destacou.
De um temperamento mais de sábio e moralista do que de profeta, sua firmeza de carácter e posição elevou-o a uma posição de destaque tanto em termos religiosos como nacionais.
Uma corrente reformista moderada formara-se em Praga, e um grupo - ligado aos universitários tchecos e aos nacionalistas - aparece: "Capela de Belém".
Nessa igreja, reúnem-se milhares de pessoas ávidas por receber, em tcheco, a pregação da palavra de Deus.
Fixam-se então alguns objectivos, que caracterizam a tradição boémia:
a preocupação de uma linguagem inteligível; um moralismo atento aos casos de consciência que o clero encontrava nas suas confissões; uma devoção à eucaristia - que está nas origens do desejo de beber pelo cálice -; uma crítica virulenta às insuficiências morais do clero.
Huss torna-se, além de membro do grupo de Belém, seu expoente máximo.
Pregador apaixonado, rapidamente tornou-se muito popular, exortando o povo às virtudes dos apóstolos e a procurar Cristo nas palavras do Evangelho.
Denuncia os abusos da Igreja.
Desejava uma piedade um pouco menos exterior, mais de relação pessoal, de tempos de oração.
Sua pregação é basicamente neotestamental, voltada principalmente ao moralismo dos sinópticos e à espiritualidade do Sermão da Montanha.
A influência de Wyclif em seus pensamentos é considerável.
Toda a obra de Wyclif é conhecida em Praga no começo do século XV. Jerónimo de Praga tinha estudado em Oxford, de onde trouxera numerosas cópias das obras do teólogo inglês.
Quando Huss tomou conhecimento das obras do inglês, a situação na Boémia era muito delicada.
O conflito entre os tchecos e os alemães crescia.
O povo escandalizava-se cada vez mais tanto com a vida luxuosa dos bispos quanto com o nível que atingira a contra-propaganda dos papas rivais.
É nessa situação que o papel de líder religioso - e, de certa forma, até nacionalista - de Huss é realçado.
É nesse tempo que Rochester nos brindará com a descrição da saga desse grande homem, de uma moral exemplar.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 25, 2016 9:07 pm

As heranças de J. Huss

Num momento mais imediato, a repressão a Huss e Jerónimo de Praga provocou uma explosão ao mesmo tempo religiosa e nacionalista, de ambas as formas radical.
Uma enorme agitação político-religiosa dos Estados da Boémia desafiou a autoridade do Império.
Calistinos nacionalistas e taboritas radicais lutaram pela sua terra e por sua liberdade religiosa durante mais de 20 anos.
Ainda decorreriam vários anos até que, numa manhã de vento de 1517, um padre alemão atravessou a praça e afixou duas folhas na porta da igreja do Castelo de Wittenberg.
Era um violento ataque à venda das indulgências, à simonia.
Poucos anos mais tarde, esse mesmo padre - Martinho Lutero - diria:
"Éramos todos hussitas, mas não sabíamos disso".
Quando os protestantes, no século XVI, minimizam o papel institucional da Igreja como dispensadora da graça divina e afirmam que o indivíduo está em relação directa com Deus e depende exclusivamente de sua omnipotência, eram as ideias destes homens, Wyclif e Huss, que estavam renascendo.
Os livros de Huss seriam republicados.
Cem anos mais tarde, a cavalaria de Cromwell leria Wyclif e Huss às vésperas das batalhas, e os puritanos que partiam para a América levariam seus escritos através do Atlântico...
* * *
Em decorrência do carácter introdutório do texto, renunciamos ao dever de colocar notas de rodapé indicando a origem de cada citação feita, bem como o autor das ideias e frases mencionadas.
As informações históricas foram retiradas da bibliografia que segue abaixo, a qual indicamos aos interessados.

Maurício A. Brandão


Bibliografia

ANTONETTI, Guy. A Economia Medieval. São Paulo: Atlas, 1977.
CHAUNU, Pierre. O Tempo das Reformas, 2 vols, Lisboa: Edições 70, 1975. Vol. l: A Crise da Cristandade.
CHORLTON, Windsor et ai Nações do mundo: Europa Oriental. São Paulo: Time-Life Books/Abril, 1992.
EQUIPE DA EDITORA. Grandes personagens da história universal. São Paulo: Abril Cultural, 1971.
GANSHOF, F.L. Que é o feudalismo ? Lisboa: Publicações Europa-América, 1976.
GUENÉE, Bernard. O Ocidente nos Séculos XIV e XV: Os Estados. São Paulo: Pioneira/Edusp, 1981.
HEERS, Jacques. O Ocidente nos Séculos XIV e XV: Aspectos Económicos e Sociais. São Paulo: Pioneira/Edusp, 1981.
História Medieval. São Paulo: Difel, 1985.
HUGHES, Philip. História da Igreja Católica. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1954.
LÊ GOFF, Jacques. Os Intelectuais na Idade Média. São Paulo: Brasiliense, 1988.
MCEVEDY, Colin. Atlas da História Moderna. São Paulo: Verbo/ Edusp, 1979.
MONTEIRO, Eduardo Carvalho. Allan Kardec, o Druida Reencarnado. 3- ed. Capivari: Editora Espírita Eldorado de São Paulo/Sociedade Espírita Anália Franco. EME, 1996.
RODRIGUES, Wallace Leal. "Prefácio" de: BAUMARD, Claire. Leon Denis na Intimidade. Matão: O Clarim, 1981.
THOMAS, Henry e THOMAS, Dana Lee. Vidas de Grandes Capitães da Fé. Rio de Janeiro: Globo, 1948.
Retrato de São Jerónimo de Praga (1521)
Óleo sobre madeira do pintor Albrecht Dürer.
No fim do século XV na Alemanha e na Europa Central a arte Gótica marcou a pintura, exprimindo uma concepção voltada acima de tudo para a religião.
Quando o relógio da prefeitura na Cidade Velha em Praga toca as horas, as estátuas dos apóstolos aparecem em duas janelinhas.
Construído em 1410, o relógio mostra os signos zodiacais, os movimentos do sol e da lua, a data e a hora.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 26, 2016 8:08 pm

Primeira parte

Capítulo I


Na confluência dos rios Miesy e Radbuzy localiza-se a velha cidade de Pilsen, actualmente um grande centro industrial, com muitas usinas produzindo a mundialmente famosa cerveja de mesmo nome.
No fim do século XIV, a população dessa cidade, assim como a da maioria das cidades tchecas, era composta predominantemente de cidadãos alemães, fartos e enriquecidos, em prejuízo directo dos filhos do povo, graças às inúmeras concessões com que os reis da Boémia os atraíam para o país.
Entretanto, nos últimos anos daquele século aconteceram mudanças que não favoreceram os alemães; a população urbana tcheca cresceu significativamente e muitos senhores feudais compravam ou construíam para si casas na cidade, aumentando assim a rivalidade entre as duas nacionalidades.
Num lindo dia de verão do ano de 1401, um numeroso séquito de cavaleiros passava pelas estreitas e sinuosas ruas de Pilsen.
Era encabeçado por um homem de uns 35 anos, um tipo claramente italiano: moreno, esbelto, mas bem-formado e forte.
O rosto indubitavelmente bonito era estragado por um permanente, beatifico e afectado sorriso; os olhos negros e espertos também deixavam má impressão, ocultando uma certa crueldade.
Vestia um belo traje de veludo negro; uma leve couraça de aço cobria seu peito e sobre os negros cabelos havia um chapéu enfeitado de penas, colocado de modo faceiro.
Trazia no cinto um punhal de cabo incrustado e uma espada de respeitáveis dimensões.
Esse traje mundano-militar contrastava sobremaneira com a grande cruz pendurada numa corrente de ouro que trazia no peito e um anel episcopal colocado sobre a luva de couro de cervo.
O bispo montava garbosamente um cavalo murzelo22 e distribuía bênçãos aos passantes.
Atrás dele, quatro pajens carregavam seu elmo, seu escudo, sua lança e outros armamentos; mais atrás seguia um considerável cortejo e, fechando a procissão, viam-se algumas mulas carregadas de bagagem.
O bispo parou diante de uma casa ao lado dos muros da cidade.
A casa era grande, toda de madeira trabalhada, com um alto e pontiagudo telhado.
Outrora ela fora construída por algum rico botchar23, em nada diferindo das outras casas da cidade; mas o conde Hinek Valdstein, que a comprara recentemente, acrescentara-lhe algumas torres dentadas e cercara-a com um grande muro, dando àquela casa modesta e pacífica um aspecto de castelo fortificado.
Via-se que o prelado já era esperado, pois o cavalariço nem teve tempo de bater e já os portões se abriram.
Um velho criado correu ao encontro do clérigo, ajudou-o a desmontar do cavalo e informou:
"O conde está ausente, mas a condessa aguarda o bispo Brancassis e ordenou que conduzíssemos o reverendíssimo até ela".
No alto da escada, a própria condessa recebeu o grande convidado com amabilidade e respeito e perguntou sobre sua saúde.
- Sinto-me bem, graças a Deus; mas, mesmo assim, minha cara prima, vou pedir-lhe pousada por alguns dias.
Depois da longa viagem a cavalo, uma velha ferida da época da juventude passou a me incomodar e gostaria de descansar.
- A minha casa inteira está à disposição de Vossa Reverência.
Perdoe se não encontrar aqui o conforto desejado.
- Um pobre monge como eu não precisa de muito!
Vou pedir-lhe somente que o meu pajem Riciotto seja instalado perto de mim:
preciso dele com frequência e, por isso, ele deve estar sempre à mão.
Uma hora depois, reforçado por um bom jantar, o bispo estava sentado a sós com a dona da casa, em seu quarto, longe de ouvidos indiscretos.
A condessa Valdstein era uma mulher de uns 40 anos, alta, loura e magra.
Seu rosto, de nariz aquilino e boca larga de lábios finos, era pouco atraente.
Nem mesmo seus grandes e bonitos olhos enfeitavam-no em virtude de sua expressão esperta e má.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 26, 2016 8:09 pm

Sua pose humilde não combinava com a soberba que dela emanava e que claramente repousava na base do seu carácter.
A condessa Iana era parente do bispo Brancassis pelo lado feminino da família, e o sangue italiano que herdara manifestara-se nela numa fanática hipocrisia.
Com indisfarçada impaciência, ela não tirava os olhos do convidado, mas este parecia não notar sua ansiedade, brincando distraidamente com a corrente da cruz pendurada em seu peito e com as esporas que não tivera tempo de tirar.
Finalmente, ela não aguentou e, inclinando-se para o prelado, perguntou baixinho, em italiano:
- E, então, primo Tomasso, que novidades trouxe para mim?
Brancassis endireitou-se.
- Péssimas, dona Giovanna!
Definitivamente, minha missão não deu certo!
- O barão recusou tudo? - Murmurou a condessa, empalidecendo.
- Quase. É melhor contar-lhe detalhadamente a minha conversa com o barão Rabstein.
Primeiro, expus-lhe a proposta de casamento de seu filho com a filha dele, Rugena.
Isso ele recusou terminantemente, acrescentando que a menina já está prometida ao filho de Henrique vonRosemberg e o noivado deverá acontecer em alguns dias.
Além disso, conforme opinião dele, o jovem conde não serviria para ser seu genro por ser frívolo e arrogante.
Em suma, vosso filho Vok é tão pouco simpático ao barão quanto vosso marido, de cujas convicções religiosas e políticas Rabstein não partilha.
Disse-me ele:
"Em vez de apoiar o partido dos grandes barões, que defendem seus direitos, Hinek nos prejudica onde pode, agarrando-se ao rei Venceslau, o que quase atrapalhou a sua captura em Beroun".
Brancassis parou, percebendo o nervosismo da condessa e as manchas vermelhas que apareceram em seu rosto.
- Desculpe, prima - continuou ele -, por transmitir tão desrespeitosas referências, mas me parece necessário esclarecer a situação em definitivo.
- Mas, claro, claro, prossiga! - Sussurrou ela, dedilhando nervosamente com longos e ossudos dedos o cordão negro e dourado que a cingia.
- Portanto, descartando a questão do casamento, informei ao barão os vossos problemas monetários, provocados por estes tempos inquietos e, em nome do parentesco próximo, pedi-lhe que viesse ajudá-los.
Nessa parte ele foi mais condescendente.
Dizendo que já salvou o primo por diversas vezes e que esta seria a última, ele concordou em pagar a vossa dívida com o insolente burguês de Praga que vos pressiona.
Tal concessão tem, obviamente, o seu preço, mas... a senhora percebe que isso não será suficiente para reerguê-los?
- Nesse caso, o que fazer? - Sussurrou, indecisa, a condessa, olhando-o com ar suplicante.
Por baixo das pálpebras semi-cerradas do prelado brilhou um olhar esperto e escrutador.
- Parece-me que a única saída é voltar àquele projecto que discutimos juntos antes da minha visita ao barão. - Respondeu ele, surdamente.
A condessa começou a respirar pesadamente, como se lhe faltasse o ar.
Suas mãos tremiam tanto que o lenço com que ela rispidamente enxugava a testa quase escapou por entre os dedos.
- Essa saída que o senhor chama de única é terrível! - Murmurou ela, com voz entrecortada.
Mas devo me sacrificar para garantir o futuro de meu filho. - Concluiu a condessa, contendo com esforço o próprio nervosismo.
- Entendo a sua indecisão e valorizo o temor beato que atormenta seu coração cristão, apesar de a senhora estar sendo dirigida somente pelo amor materno. - Observou o bispo.
Em seguida, levantando os olhos para o céu, prosseguiu:
- Mas para todo pecado existe o perdão.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 26, 2016 8:09 pm

Será que a senhora se esqueceu de que a nossa Santa Madre Igreja aceita o pecador como o pai aceita o filho pródigo e, por meio dos representantes terrenos de Cristo, devolve-lhe novamente a pureza?
Um forte rubor cobriu o rosto pálido da condessa e uma luz de alegria acendeu-se em seus olhos.
- Será isso possível? - Exclamou ela, juntando as mãos como se fosse rezar.
O senhor conseguiria do Santo Padre a absolvição do pecado que sou obrigada a cometer por amor à minha família?
- Sim, minha filha espiritual e irmã!
Depende da senhora obter ainda hoje essa altíssima bênção.
Meu tio, o cardeal Cossa, concedeu-me algumas indulgências e permitiu dispor delas a meu critério.
Mas saiba que o perdão do pecado que a senhora se prepara para cometer custa caro; o céu exige uma generosa recompensa pela sua misericórdia...
- Eu sei, eu entendo, não há dúvidas!
Esse benefício não tem preço. - Respondeu ela, alegremente.
Então, quero pedir-lhe uma indulgência completa para meu marido, meu filho e para mim e pagarei o que pedir.
Além disso, imploro ao reverendíssimo conceder-me um perdão especial e permitir que eu coloque à sua disposição uma certa quantia aos pobres.
O rosto de Brancassis abriu-se num agradável sorriso.
- Concordo com tudo, prima Giovanna, e se o céu for tão magnânimo consigo quanto a senhora é com ele, então já garantiu para si um lugar no Paraíso.
Mas voltemos aos negócios.
Não temos tempo a perder!
Eu já falei que cheguei aqui em companhia do barão vonRabstein, que viaja a negócios para Praga.
Nós nos separamos na saída da cidade; enquanto eu vinha para cá, ele foi para a hospedaria "Bezerro de Ouro".
Precisamos nos apressar, pois Rabstein parte amanhã cedo.
- Agora que a minha consciência está tranquila, o caso não vai parar por falta de acção.
Pelo jeito, o próprio céu nos ajuda fazendo o barão hospedar-se no "Bezerro de Ouro".
Por coincidência, a servente dessa hospedaria é uma grande amiga do meu confessor, o padre Hilário, e obedece-lhe cegamente.
Ela é que irá servir ao barão o aperitivo
que ele merece.
Mas o senhor tem certeza de que a poção que prometeu funcionará do modo que queremos?
- Quanto a isso, fique sossegada. Minha poção é de confiança!
Enquanto isso, avise ao padre Hilário para ele não se ausentar e aguardar o meu tesoureiro, o padre Bonaventura.
Ele lhe entregará a poção e as instruções necessárias.
Inclinando-se para a condessa, ele sussurrou:
- Não se preocupe. Se, depois disso, o barão ainda partir ao amanhecer, então adoecerá no caminho.
Isso será ainda melhor, pois correrão para pedir ajuda médica à senhora e, então, o barão ficará sob a minha guarda.
E tudo se arranjará da melhor forma!
A condessa levantou-se apressadamente, mas Brancassis deteve-a.
- Um momento! A senhora contou sobre os nossos planos ao conde?
- Não! Hinek poderia se opor à ideia, ou simplesmente nos entregar durante uma festinha qualquer com o rei, onde sempre bebem e falam demais. - Respondeu a condessa, meio embaraçada.
- Perfeito! Nem sempre se extrai sabedoria da culpa!
O seu cuidado faz-lhe as honras, condessa. - Observou o prelado, com um leve riso.
Em seguida perguntou:
- E quando volta o seu marido?
- Ele viajou a negócios inadiáveis e deverá voltar somente depois de amanhã.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 26, 2016 8:09 pm

- Melhor ainda.
Deixemo-lo de lado, por enquanto, e depois lhe ofereceremos o uso pacífico da tutela da linda Rugena.
Abençoando a condessa, que beijou respeitosamente sua mão, o bispo retirou-se para os aposentos que lhe haviam sido reservados e ordenou que chamassem imediatamente o padre tesoureiro.
Após um curto diálogo, Bonaventura, um monge italiano, de pequena estatura e cara de raposa, saiu apressadamente do quarto e foi falar com o confessor da condessa, padre Hilário.
Ficando sozinho, Brancassis andou pensativo pelo quarto, depois sentou-se à mesa e começou a fazer contas.
Satisfeito com os resultados, fechou o livro de anotações, guardou-o numa caixa e chamou:
-Riciotto!
Entrou um pajem elegantemente vestido num traje de veludo violeta, com o brasão do bispo bordado no peito.
Era um jovem bonito:
rosto pálido, longas e negras mechas de cabelos sobre os ombros e olhos negros e ardentes; sua figura esbelta era flexível e graciosa como a de uma mulher.
- Vá dizer ao meu pessoal que hoje não serão mais necessários e que podem ir descansar.
Depois volte aqui para me ajudar a trocar de roupa.
Riciotto saiu e voltou rapidamente.
Despiu o seu senhor, trouxe-lhe uma larga capa de seda, depois saiu e retornou com uma jarra de vinho e duas taças que colocou sobre a mesa.
Em seguida, fechando cuidadosamente a porta no trinco, parou diante de Brancassis e, com as mãos na cintura, perguntou:
- Então, o serviço oficial terminou, não é, Tomasso?
- Sim, meu diabinho, e agora começa o meu... - Respondeu Brancassis, puxando Riciotto para o seu colo e beijando-o carinhosamente.
Enchendo a taça de vinho, começou a dar de beber ao pajem, servindo-lhe também doces que havia na bandeja de prata.
O belo "rapaz" começou a embriagar-se, tornando-se cada vez mais alegre e desembaraçado; piadas e palavras obscenas próprias de soldado raso saíam de sua boca e o bispo também não ficava atrás.
Aquela orgia a dois e de portas trancadas parecia agradar-lhe muito e sua alegria chegou ao auge quando o pseudo Riciotto dançou à sua frente uma ousada tarantela vestido como uma antiga deusa.
Somente um fio de precaução conteve Brancassis de acompanhar a dança com uma alegre canção napolitana...
Já era tarde quando o reverendíssimo bispo e seu "fiel pajem" foram finalmente cada um para o seu quarto - e mesmo assim por terem discutido.
O vinho e o amor havia tornado o pajem mais ousado.
- O que você está tramando com Bonaventura?
Aposto que estão outra vez abrindo as portas do céu para alguém.
- Minha filha - rosnou raivosamente Brancassis, ficando imediatamente sóbrio -, eu lhe aconselharia a ver, ouvir e discutir somente o que diz respeito aos seus serviços, o oficial e o secreto.
Cuidado, pois para você também podem abrir-se, de repente, as portas do céu, ou pelo menos, in pace!
A monja fugida, Margarida de Angeli, poderá ser de repente acolhida por qualquer mosteiro que encontrarmos no caminho...
Margarida-Riciotto ficou brava e, brindando o seu confessor com um soco nas costas, fugiu para o seu quarto.
No dia seguinte, a condessa e o bispo ainda estavam à mesa do almoço, servido como de costume ao meio-dia, quando vieram informar a Brancassis que um de seus criados trouxera o escudeiro do barão Rabstein.
Este tinha sido enviado a fim de buscar um médico para seu amo, que adoecera seriamente durante a viagem e estava deitado no estábulo de uma hospedaria a algumas horas de distância da cidade.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 26, 2016 8:09 pm

O escudeiro, infelizmente, não achara o médico da cidade, que naquela hora atendia alguém num castelo da vizinhança.
Sem saber o que fazer, e tendo encontrado de repente um dos criados do bispo, este, ao saber do que se tratava, aconselhara-o a pedir ajuda ao reverendíssimo, que passava alguns dias em Pilsen e que naturalmente mandaria o seu médico, padre Bonaventura, para ajudar.
Ao ouvir a notícia da doença do barão Rabstein, o bispo ficou surpreso e triste.
Chamando o escudeiro, inquiriu-o e disse que não só enviaria imediatamente o seu médico, como ele próprio iria examinar o paciente e providenciar o seu transporte para a cidade.
A condessa, presente àquela hora, também parecia participar ardentemente.
Não poupou elogios à grandeza da alma e à misericórdia cristã de Brancassis que, conforme ela, esquecendo o próprio cansaço e os sofrimentos do seu antigo ferimento, corria ao leito do paciente, levando-lhe a ajuda da fé e da ciência.
- Possuo uma confortável liteira que ponho à disposição do paciente.
Acrescentou ela após o comovido discurso.
-Trazendo-o para cá, estou agindo em nome de meu marido, que certamente faria o mesmo.
Na ala direita da casa existem aposentos separados de três quartos e, se a doença do barão Svetomir von-Rabstein for grave e longa, ele estará aqui muito mais confortável do que num ruidoso hospital.
Eu e meus servos cuidaremos dele.
- Essa proposta mostra o seu coração de ouro, cara prima.
Certamente, o barão irá aceitar com gratidão o seu convite.
Disse o bispo, despedindo-se apressadamente e pondo-se a caminho.

22 Que, ou o que tem cor de amora (falando de cavalo) - Nota da editora.
23 Fabricante de tonéis e barris - Nota do tradutor
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 26, 2016 8:10 pm

Capítulo II

Era um claro e silencioso entardecer de verão.
O sol avermelhado estava se pondo, dourando com seus raios tudo ao redor.
Dois cavaleiros seguiam pela estrada em direcção a Pilsen.
Um era religioso e trajava uma batina negra de mangas largas e um pequeno chapéu de tecido.
Seu rosto fino e pálido era extremamente atraente e terminava embaixo com uma barbicha pontiaguda.
A testa era alta e a boca, bem delineada; os grandes olhos, claros e pensativos, olhavam com brandura, como se contivessem uma silenciosa tristeza.
Notava-se nele um pensador idealista, de alma aberta e sincera, que não admite negociações com a consciência, mas que possui uma tendência a paixões no caminho da fé, do amor e da verdade.
Uma inconsciente e grandiosa simplicidade transparecia em seus movimentos.
Seu companheiro de viagem era um jovem de rara beleza, alto, esbelto e surpreendentemente bem-formado, de cabelos negros como asa de corvo.
Seus grandes olhos escuros brilhavam com inteligência e poderosa vontade.
Vestia roupas civis - um traje de fino tecido marrom, com uma grande capa preta sobre os ombros.
Trazia na cintura uma espada com empunhadura de aço e um punhal.
Puxava atrás de si um cavalo de carga e, na parte posterior da sela de cada um dos viajantes, também havia uma mala.
Conversavam animadamente.
- Esses são, em resumo, os principais acontecimentos da minha estada em Oxford.
Encerrou seu discurso o jovem.
- Quando estivermos em Pilsen, vou contar-lhe nas horas vagas muitas coisas interessantes, mestre Jan; por enquanto, não consigo me acalmar com a feliz coincidência de encontrar você no caminho.
Na realidade, ainda não me disse de onde vem e para onde está indo.
- Fui a Hussinec24 por motivos familiares:
acertar a herança de minha prima Catarina; a partir de lá visitei alguns amigos e preguei a palavra do Senhor aos pobres, cujos párocos os ignoram completamente.
Meu Deus, quanta indecência encontrei!
Tanto, que me pergunto, involuntariamente, se não chegou a época do Anti-cristo!25
Todavia, vendo a profunda fé daquelas pessoas humildes e a alegria entusiasmada com que eles ouvem o sermão na língua pátria, no meu coração nascia a esperança de tempos melhores.
Eu, então, com lágrimas nos olhos, implorava ao Senhor para devolver a paz à Igreja e fazê-la renascer.
- Naturalmente, todos os corações realmente cristãos irão responder às suas preces.
Esperemos que o Deus misericordioso não esqueça o Seu fiel povo tcheco e livre-o da praga alemã que o assalta, maltrata e corrompe.
De onde mais viriam tanto mal, tantas desgraças e desavenças?
- Não se exalte Jerónimo!
É claro que os estrangeiros nos prejudicam, mas nós também pecamos bastante e merecemos ser castigados!
- Então existe um castigo maior do que esses patifes? - Exaltou-se Jerónimo.
Será que há limites para sua insolência e sua avidez?
Depois que foram derrotados no campo de batalha, eles retornaram como colonos, apropriando-se de terras, cargos e privilégios.
Não são eles os donos das cidades?
Fazem o que bem entendem nas universidades e, algum dia, irão nos expulsar de lá se não dermos um basta nisso a tempo!
O tcheco tornou-se um estrangeiro na própria pátria; ele trabalha e o alemão comanda, um planta e o outro colhe!
Eles até gostariam de nos tirar o nosso idioma!
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 26, 2016 8:10 pm

Ao ouvir essas palavras, o rosto do padre ruborizou-se, seu cenho franziu-se e os claros olhos brilharam com desaprovação.
-Tem razão, Jerónimo, tudo isso é de se indignar!
Mesmo sendo pecado, fico constantemente indignado ao presenciar as patifarias praticadas contra os tchecos nas universidades.
Os desacordos entre professores e os confrontos entre estudantes alemães e tchecos já viraram rotina e o reitor fica sempre do lado dos alemães.
Eles se calaram, imersos nos próprios pensamentos.
O belo cavaleiro a quem o companheiro chamava de Jerónimo foi o primeiro a quebrar o silêncio.
- Será que vamos encontrar alguma hospedaria pelo caminho, mestre Jan?
Já viajamos um bom pedaço e começo a sentir necessidade de alimento e descanso.
Lembro-me de que aqui por perto existia uma.
- Soldados bêbados a incendiaram no ano passado, destruindo-a completamente, e a próxima hospedaria ainda está longe.
Entretanto, logo passaremos por uma aldeia e encontraremos abrigo na casa do padre local que, de acordo com a mulher que toma conta da casa, está ausente há um ano.
Lá poderemos descansar tranquilamente.
- E por onde anda o reverendo pastor da igreja? - Perguntou Jerónimo, rindo.
- Bem, ele possui mais duas paróquias26 e, quando não está numa, dizem que está na outra, o que é difícil de conferir.
Apesar disso, dizem também que ele cobra o dízimo27 com surpreendente pontualidade.
- E, provavelmente, deve ser muito exigente nessa colheita, principalmente se for alemão.
- Não o conheço.
Parece-me que era o caçula da família e foi consagrado quase que aos sete anos de idade.
- Foi muito previdente da parte dos seus pais e deve ter saído caro.
Todos os bispos cobram bem pelas paróquias:
eles próprios precisam pagar os seus postos.
Aliás, todos os padres colaboram com Roma, isto é, com o Papa, ou melhor, os Papas, e isso serve de desculpa aos párocos.
- Sim, a simonia está consumindo a Igreja como uma lepra.
Vejo com repugnância o luxo tresloucado, a avidez e a degradação com que vivem as pessoas que têm coragem de chamar-se seguidores de Cristo, o Rei Celestial, que andava descalço, desprezava a cobiça e que proferiu a terrível frase:
"É mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha do que um rico entrar no Céu".
- O arcebispo de Praga, por exemplo, que tem o seu próprio castelão, sua corte, chanceler, marechal, tesoureiro etc., e que possui um ganho de três mil marcos, sem contar tributos in natura, corvéias,28 venda de benefícios, indulgências e outros ganhos semelhantes, quão pouco ele parece com o seu Mestre Divino... - observou Jerónimo e, de repente, desandou a rir.
- De que está rindo?
Será que o assunto da nossa conversa pode motivar isso?
- Desculpe o riso involuntário, querido mestre Jan.
Mas lembrei do caso engraçado do Nikolai Pukhnik,29 o meritório canónico das cidades de Praga, Tcherninsk e Olomutsk, pároco das igrejas de São Nicolau e de "lernitsa" da Morávia, sujeito famoso por sua avareza.
No rosto de Huss apareceu também um sorriso.
- É mesmo!
Foi quando o rei, só de brincadeira, permitiu que ele levasse consigo tanto ouro quanto pudesse carregar. Nikolai encheu tanto os bolsos e as botas que não conseguia se mover.
É um caso engraçado e triste!
- Mas o melhor foi a apoteose, quando o rei Venceslau, não aguentando de tanto rir, mandou que lhe tirassem tudo e o expulsassem.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 26, 2016 8:10 pm

Às vezes, o rei tem grandes ideias e eu, francamente, gosto dele.
Apesar de suas fraquezas, ele não é indiferente à Boémia!
Bem, parece que finalmente chegamos.
Veja, Huss, aqueles pobres casebres lá à direita.
Deve ser a aldeia a que você se referiu.
E lá, perto da estrada, ao lado da igreja, aquele prédio de pedra deve ser a casa do padre.
- É ela mesma! - Respondeu Huss, virando o cavalo para a estrada que conduzia à aldeia.
Um alto e forte muro de pedra cercava a casa; os portões estavam escancarados e, no quintal, junto às gamelas com feno, estavam amarrados uns 20 cavalos selados.
Havia alguns cães por perto e, sob a cobertura, havia uma carroça carregada com carcaças de dois cervos e um javali.
- Parece que um grupo de caça ocupou a casa antes de nós.
Veja que as janelas estão iluminadas e, pelo barulho, a festa deve estar no auge.
Temos de voltar. - Observou Huss, desapontado.
-Nada disso! Onde comem 20, comem mais dois e estou morrendo de fome.
Apeie, irmão Jan, e vamos pedir aos caçadores que aceitem a nossa companhia.
Eles devem ser os senhores da vizinhança. - Respondeu Jerónimo descendo rapidamente do cavalo.
Huss seguiu o seu exemplo e, após amarrarem os cavalos, dirigiram-se à casa de onde provinha o desordenado ruído de vozes, risos e cantos.
No instante em que galgavam os degraus de pedra da entrada, a porta abriu-se de repente.
No alpendre apareceu, com uma lâmpada na mão, um monge gordo de rosto vermelho e sebento e olhos piscantes e míopes.
Por debaixo da batina escura, levantada e presa na corda que lhe servia de cinto, viam-se pernas grossas, calçando sandálias às quais estavam amarradas grandes esporas.
Ele estava visivelmente bêbado e balançava, apoiando-se no batente da porta para não cair.
A lâmpada em sua mão balançava para os lados; a batina estava manchada de vinho e brilhava com manchas de gordura.
- Então, o Senhor nos envia mais convidados, e um deles é um irmão... - Balbuciou ele enrolando a língua e explodindo num riso bêbado.
Salve, salve!
Entrem, meu padre e também o digníssimo senhor.
Temos lugar para todos e também algo para comer.
Dizendo isso, afastou-se para deixá-los passar.
Huss, com indisfarçável repugnância, seguiu atrás de Jerónimo pela porta que conduzia ao saguão e depois a um grande salão.
Lá dentro, pararam, estupefactos.
No meio da sala havia uma grande mesa coberta por diversos pratos e vinho.
Restos de pastelões, carne de caça e as garrafas e copos vazios jogados no chão testemunhavam ostensivamente que a bebedeira já corria há muito tempo e os rostos vermelhos dos presentes demonstravam o farto consumo.
Naquela hora a comilança já havia terminado e, afastados os pratos para um canto da mesa, os presentes jogavam dados em meio a montes de ouro, prata e cobre.
O grupo era surpreendente:
monges e padres, a julgar pela tonsura30, quando esta revelava o seu cargo clerical, alguns militares e mulheres, entre as quais três monjas, cujos trajes desarrumados e cujas poses indecentes atestavam o grau de sua decadência.
O centro da mesa estava ocupado por um homem ainda jovem, de uns 35 anos, mas totalmente calvo; seu rosto obeso e amassado testemunhava sua vida agitada.
Em seu colo estava sentada uma cigana de saia multi-colorida, braços e pescoço desnudos e cabelos soltos que caíam como crina negra pelos seus ombros.
No momento em que Huss e Jerónimo entraram, ela levantou o copo de dados e, rindo alto, jogou os dados sobre a mesa.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 26, 2016 8:10 pm

Com o aparecimento de estranhos o barulho da sala silenciou repentinamente.
- Vejam, o Bertoldo nos trouxe reforços:
um militar e um irmão - velhacos, assim como nós!
Exclamou o homem sentado no centro da mesa.
- Entrem, prezados viajantes!
Dietrich von-Stern, dono do lugar e reverendo pároco desta pobre paróquia, convida-vos para partilhar deste humilde jantar.
Você, guerreiro, fique à vontade, enquanto você, irmão de batina, sente ali perto do Zdenka, que logo desabará para debaixo da mesa e deixará para você, de herança, a maravilhosa irmã Berta.
Jerónimo permaneceu calado, alisando nervosamente sua barba negra.
O rosto pálido de Huss ficou rubro, os olhos chamejaram de ira e, aproximando-se, ele deu um murro na mesa com tal força que a louça tilintou.
- Seu patife! Envergonhando o paramento que veste! - Gritou ele, ameaçador.
Não tem vergonha das próprias blasfémias?
Não se envergonha de segurar no colo essa moça e cercar-se desses animais?
Recupere a razão, seu renegado de votos sacerdotais!
Afogando-se na bebida, como o último dos soldados, e transformando sua casa num cabaré, numa espelunca...
Surpreso, boquiaberto e com olhar imbecil, Dietrich von-Stern ouvia aquele severo e inesperado sermão.
Mas esse torpor transformou-se, de repente, num ataque de ira.
- O quê? Como ousa falar assim comigo, seu infeliz fofoqueiro de rua?
Vou ensiná-lo a não me ofender na minha própria casa!
Rugiu Dietrich em resposta, tentando levantar e empurrando para longe de si a cigana, que caiu no chão com um grito.
Ele finalmente conseguiu pôr-se de pé com dificuldade e começou a puxar da bainha a faca de caça que trazia na cintura.
- Vou cortar-lhe a língua para que se lembre de que não estava passando um sermão a um sapateiro qualquer mas a Dietrich von-Stern! - Prosseguiu ele, com a faca na mão e aproximando-se cambaleante de Huss.
Naquele instante, um dos monges bêbados agarrou um copo de barro e arremessou-o contra Huss.
Errou o alvo e o copo arrebentou-se em mil pedaços contra o batente da porta a dois dedos da cabeça de Jerónimo.
Este então sacou da espada e, num pulo, postou-se à frente de Huss, protegendo-o com o seu corpo; a lâmina brilhante da espada agitou-se diante do rosto distorcido pela raiva de Dietrich, que recuou involuntariamente e desabou pesadamente na cadeira.
- Acalme a sua bebedeira, reverendo padre Dietrich, e pense na verdade que lhe foi dita!
Uma luta comigo pode terminar mal para os seus digníssimos amigos! - Gritou ele com desprezo.
Vamos, Jan!
Vamos sair rápido deste covil!
- Vamos, e limpemos dos nossos pés esta carniça!
Um pedaço de pão sob este tecto é pior que qualquer veneno! - Respondeu Huss com voz trémula de emoção.
Sem prestar atenção aos gritos e ofensas que desabavam sobre eles, ambos saíram da sala.
No saguão, Jerónimo quase tropeçou no padre Bertoldo, caído no chão, em prantos, batendo no próprio peito e repetindo:
"Mea culpa! Mea culpa!
Pequei contra Ti, meu Deus e Senhor!".
Enojados, eles passaram por cima do bêbado, montaram os cavalos e dirigiram-se rapidamente para a saída.
Da casa ouvia-se um barulho infernal entremeado de gritos femininos.
Por alguns minutos eles andaram em silêncio.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 26, 2016 8:11 pm

- Eis um bom exemplo do que acontece com a Igreja. - Disse Jerónimo, refreando um pouco o cavalo.
Mas, partindo de Dietrich, isso não é de admirar.
Três anos atrás, em Praga, presenciei um escândalo que mostrava claramente do que ele é capaz.
Você lembra que na época eu morava na casa da minha tia, na "Cidade Baixa"?
Um dia, o mestre lakubek e eu voltávamos à tarde para casa quando, de repente, ouvimos à frente gritos, risos e assobios de uma multidão de pessoas, artesãos, garotos etc.
Aumentamos o passo para ver do que se tratava e vimos um homem com tonsura na cabeça - na época ele ainda tinha cabelos - completamente nu, andando em ziguezague pela rua.
O povo caçoava dele e jogava-lhe lama e ele respondia com palavrões e cuspia na turba.
O patife teria apanhado se não sumisse a tempo no portão de uma casa de onde não mais apareceu.
Lakubek, não cabendo em si de raiva, levantou imediatamente informações sobre isso e ficamos sabendo que esse desordeiro chamava-se Dietrich von-Stern, que fora a Praga para conseguir um lugar de canónico, vagando por cabarés e covis e jogando demais.
Naquele dia não tivera sorte e, perdendo no jogo até a roupa do corpo, voltava para a "Cidade Alta" onde residia a sua amante31.
Na ocasião, Lakubek proferiu um discurso trovejante sobre o assunto, mas o arcebispo esfriou o caso e ordenou a Dietrich que saísse da cidade.
Apesar disso, ele acabou conseguindo o lugar de canónico do capítulo de Praga.
- Você viu um padre bêbado e nu em plena rua.
Eu vi um que se negava a realizar os funerais de pobres, porque seus familiares não tinham como pagar32.
Não sei qual deles é melhor. - Respondeu Huss, com amargura na voz.
- Bem, graças a esse maldito Dietrich estamos novamente na estrada e por toda a noite.
Os cavalos precisam de alimento e descanso mais do que nós.
- Mas acho que logo encontraremos um abrigo.
Lembrei-me de que aqui por perto está o castelo do barão Rabstein, que conheço de Praga.
Tranquilizou-o Huss.
- O barão sempre me recebe com grande amabilidade e até tornei-me amigo da sua pequena filha, Rugena.
Sob esse tecto seremos recebidos com todas as honras.

24 A cidade onde Jan Huss nasceu em 1369 - Nota da editora.
25 Os dois papas, de Roma e de Avignon, acusavam-se mutuamente de "Anticristo " - Nota da editora.
26 Tomek Dejepís mesta Prahy (Estudo histórico de Praga), III, pp. 140-145 - Nota do autor.
Obs.: Em todo o livro Rochester colocou muitas notas de historiadores apoiando suas afirmações; foram transcritas da forma que aparecem no original.
27 Originariamente, tributo em espécie, equivalente à décima parte do rendimento de cada um.
No século VI, além do dízimo profano (que já existia na Antiguidade), introduziu-se, segundo o modelo do Antigo Testamento, o dízimo eclesiástico, pago regularmente à Igreja - Nota da editora.
28 Trabalho obrigatório e gratuito do camponês para o seu senhor - Nota do tradutor.
29 Tomek Dejepís mesta Prahy, p. 175- Nota do autor.
30 Consiste no corte de cabelo, na parte superior e posterior da cabeça, em forma de pequeno círculo; alguns regulares costumavam raspar a cabeça deixando uma espécie de coroa de cabelo.
Era distintivo do clero católico - Nota da editora.
31 Ernest Denis, Huss e a guerra hussita, p. 13 - Nota do autor.
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