Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 31, 2016 8:48 pm

- Precisamos ir verificar o que aconteceu! - Decidiram os presentes e começaram a abotoar as espadas.
Nesse instante, a porta se abriu e na entrada surgiu padre Hilário com o rosto vermelho, radiante e os olhos brilhando de prazer.
- Não precisam ir, senhores!
Posso explicar o que aconteceu!
E o som fúnebre do fim da heresia que contaminava Praga até hoje.
Neste instante, os malditos livros de Wyclif estão sendo queimados no pátio do arcebispo.
Que a maldita alma do herege queime no inferno!
Huss soltou um grito surdo e Jerónimo disse severamente:
- Você mente, monge!
Isso é impossível!
- Ah! Ah! Ah! - Riu Hilário.
Logo vocês se convencerão da verdade.
Todo o palácio do arcebispo está cercado de guardas e Zbinek comanda pessoalmente esse auto-de-fé, realizado por ordem do Santíssimo Padre.
- Seu Santíssimo Padre é um Anticristo!
Um bandido que comprou a tiara para si.
Como ousa queimar obras filosóficas que nem ele nem seu clero entendem?
- O Santíssimo Padre, um Anticristo? Um bandido?
Aquele que une e separa as almas no céu e na terra não pode queimar alguns livrinhos hereges? - Rugiu Hilário, selvagemente.
- Sim, um Anticristo!
E ele une e separa somente bolsas e não almas! - Respondeu Jerónimo, enfurecido.
- Ah! Percebo que ambos são hereges, você e seu co-irmão Jan, que lhe incute tais sacrilégios contra o representante de Cristo!
Mas ele irá dar-lhes uma lição e enviá-los à fogueira, que é o que vocês bem merecem!
E, em sua fúria, ele avançou sobre Jerónimo com os punhos levantados.
Jerónimo, com a nova ofensa, também perdeu o auto-controle e, desviando o golpe com o cabo de sua espada, agarrou o monge, levantou-o no ar e jogou-o pela janela aberta junto à qual estivera parado, dizendo:
- Vou lhe ensinar a ofender um homem a quem não merece nem amarrar o calçado.
Tudo isso aconteceu tão repentinamente que Huss não teve tempo de evitar.
A condessa Iana, que entrava no quarto naquele instante, ao ver o seu confessor voar pela janela, soltou um grito e desmaiou.
Rugena empalideceu, mas permaneceu calada, olhando admirada para Jerónimo.
- Perdoe-me, senhora, por tê-la feito testemunha de minha precipitação. - Disse ele, preocupado com o desmaio da condessa, que já estava sendo cuidada por Ana.
- Espero, mestre Jerónimo, que minha presença nunca o atrapalhe na defesa de causas justas, principalmente quando se referem ao nosso querido padre Jan!
Eu, pelo contrário, estou satisfeitíssima, pois essa cobra teve um justo castigo. - Respondeu Rugena, olhando-o de um modo especial.
Em seu olhar liam-se o amor e a admiração com tanta clareza, que Jerónimo estremeceu e voltou-se involuntariamente procurando Vok com os olhos.
O jovem conde, debruçado na janela, olhava rindo o que se passava na rua.
O barulho da discussão havia atraído curiosos e diante da casa já estava formada uma pequena multidão, quando Hilário voou pela janela e espatifou-se na calçada, quase machucando duas mulheres que estavam lá paradas, ouvindo o que se passava na casa.
As ofensas de Hilário contra Huss tinham chegado aos ouvidos do grupo que, imediatamente, decidiu vingá-las.
Em vez de ajudar o monge que gemia na calçada, os cidadãos passaram a aplicar-lhe golpes, cuspir em sua tonsura e presenteá-lo com epítetos nada lisonjeiros.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 31, 2016 8:49 pm

Sabe Deus como terminaria aquela cena se o próprio Huss não saísse e, com palavras severas, não parasse a multidão, que se dispersou em seguida.
Com o rosto ensanguentado, dentes quebrados, a batina rasgada e suja, coberto de hematomas e arranhões, Hilário arrastou-se capengando até seu quarto.
Ele sufocava de ódio e ânsia de vingança; no dia seguinte, uma carta embebida de fel e cheia de venenosas calúnias contra Huss e Jerónimo, contendo uma longa lista de palavrões que teriam sido pronunciados por eles contra o Papa, foi encaminhada a Bolonha.
Ela estava endereçada ao padre Bonaventura, tesoureiro do reverendíssimo bispo Brancassis.
A cena descrita acima foi, aparentemente, o início de uma série de desordens em Praga.79
Dois dias depois, ao passar pela "Cidade Nova" para visitar uma parenta doente, Rugena teve que parar por causa da multidão que se havia formado em volta do templo de São Stéfano.
De dentro da igreja ouvia-se uma terrível gritaria e, naquele instante, um grupo de pessoas arrastava para fora da igreja um sacerdote ensanguentado, cobrindo-o de golpes e palavrões.
- É isso mesmo!
Matem este blasfemo! - Berrava a multidão.
Rugena, horrorizada, voltou atrás e retornou para casa.
Mal tinha acabado de contar o ocorrido ao velho conde, quando chegou Marga apressadamente, também pálida de emoção.
- Vim correndo para me esconder aqui.
Na rua está havendo uma terrível confusão!
Fui orar na catedral e, quando entrei, chegou lá o próprio arcebispo com 40 prelados e começou a ler a excomunhão do mestre Jan, proibindo-o de pregar na capela de Belém.
Então começou tal confusão que eu, temendo ser atropelada, escondi-me no canto mais próximo e o arcebispo com os seus fugiu pela sacristia.
Só consegui chegar até aqui com grande dificuldade e, ainda, por atalhos.
- Isso já é demais!
Excomungar uma pessoa tão valorosa como Huss, enquanto tantos sacerdotes patifes têm tantas honrarias e se refestelam! - Indignava-se o conde.
Naquele momento, uma multidão de cidadãos passava pela janela e uma estrondosa e sonora voz cantava:
"Zbinek queima montes de livros, queima livros sem saber o que aqueles livros contêm; Zbinek lebre80 ri com riso maldoso...
Ele está satisfeito: que queimem!".
Explosões de riso, assobios, piadas e zombarias sobre o arcebispo acompanhavam essa canção.
Quando as jovens damas ficaram a sós, Marga disse a Rugena:
- Não foi só a confusão na rua que me fez correr para cá, mas o encontro com Guints Leinhardt.
Não o via desde o meu casamento; ele estava em Munique quando nós nos instalamos na "Cidade Nova".
Hoje eu o encontrei na rua e ele me olhou com uma raiva e um ódio tão diabólicos que fiquei gelada.
Pressinto que esse homem me trará a desgraça!
Esse pensamento havia deixado Marga tão assustada que Rugena teve que mandar os criados acompanharem-na até sua casa.

76 Berger, "Huss und Konig Sigismund", p. 63 - Nota do autor.
77 Palacky, "G. v. B. ", III, p. 235, nota 310- Nota do autor.
78 Palaky, "G. v. B. " e Berger, p. 64, nota I.
79 Palacky, "G. v. B.", p. 235 - Nota do autor.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 31, 2016 8:49 pm

Capítulo II

Todo o período seguinte foi marcado por fortes agitações na cidade.
Huss protestou contra a excomunhão e continuou a pregar na capela de Belém, com o apoio da rainha que continuava a frequentar seus sermões.
Venceslau proibiu, sob pena de morte, o cantar de canções ofensivas ao arcebispo.
Por outro lado, permitiu aos proprietários dos livros queimados que cobrassem seu valor de Zbinek e dos outros sacerdotes, participantes do auto-de-fé.
O cumprimento da vontade real ficou a cargo do chefe militar da Cidade Alta, o cavaleiro Kobyla, e do conde Vok Valdstein.81
Para Rugena, esse tempo foi particularmente difícil e envenenado por problemas domésticos.
Além do marido, que se destacava pelas aventuras, também a sogra começara a persegui-la.
A condessa Iana ouvira as palavras de aprovação de Rugena, quando Hilário fora jogado pela janela.
Agora, vingava-se da ofensa ao seu confessor, culpando a nora pelas loucuras de Vok e afirmando que ela afastara-o com sua frigidez, com seus caprichos e com suas exigências.
Rugena sentia-se muito só e o relacionamento amigável e caloroso com Jerónimo agia como um bálsamo sobre seu coração ferido.
Jerónimo, mesmo sendo partidário da Reforma e estando envolvido em sua discussão - que era assunto de todas as reuniões universitárias e políticas -, conseguia passar seu tempo livre com a jovem condessa e a divertia como podia:
lia, cantava ou lhe ensinava artes e ciências.
Essa atenção despertava em Rugena um profundo reconhecimento e criava entre eles uma perigosa aproximação.
As visitas de Jerónimo custavam à esposa de Vok muitas discussões com a condessa Iana, embora a sogra estivesse longe de suspeitar da fidelidade de Rugena, acusando-a simplesmente de receber Jerónimo para irritá-la.
O amor de Jerónimo crescera, principalmente, desde o memorável dia do voo de Hilário em que ele percebera o olhar apaixonado de Rugena.
A ideia de ser amado por aquela encantadora mulher perturbava-o e revelava nele um ardente desejo de certificar-se disso, olhando por baixo da máscara com que Rugena ocultava seus sentimentos.
Um acontecimento inesperado precipitou a explosão.
Vok realizava assiduamente expedições punitivas contra párocos de mosteiros e o clero em geral que havia participado da destruição dos livros de Wyclif, tomando deles resgates, levando tesouros de sacristias e ouro de baús.
O sacerdote de uma das grandes e ricas paróquias na periferia de Praga trancara-se em casa, negando-se terminantemente a pagar a quantia exigida.
Valdstein, então, tomara a casa de assalto e, ao procurar os tesouros, encontrara uma jovem e bonita moça.
Apesar dos gritos e protestos do reverendo pastor da igreja, ele levara-a consigo e, em despedida, mandara dar umas boas chicotadas no "maldito padreco" por libertinagem.
Por azar, ao retornar trazendo consigo a amante do padre, encontrara Rugena pelo caminho.
A moça voltava de uma visita à rainha e pôde ver o marido com a bonita mulher sentada na garupa.
O conde, olhando zombeteiro para a esposa, passou por ela com sua presa e foi festejar numa taberna.
Rugena voltou para casa fora de si, repassando na mente os mais ousados planos de vingança.
Naquele momento ela odiava o marido, imaginando que, pelo acontecido, todos ririam e apontariam para ela.
Ela andava pelo quarto tão indignada e absorta em pensamentos que não percebeu nem o pajem anunciando uma visita nem a entrada de Jerónimo.
Este, não recebendo resposta ao seu cumprimento, parou olhando-a com espanto.
- Meu Deus!
O que aconteceu, condessa?
Algo terrível? - Perguntou ele, aproximando-se de Rugena.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 31, 2016 8:49 pm

- Aconteceu que odeio Vok e não quero mais vê-lo! - Ela deixou escapar.
- O felizardo provoca ciúmes!
Posso somente invejá-lo... - Disse Jerónimo, sorrindo tristemente.
Percebo que alguns pecadinhos do jovem pândego chegaram aos seus ouvidos; mas não deve levar isso ao coração.
Ele é fogoso, teimoso e facilmente se distrai, mas será que pode não amá-la?
Certamente ele logo aparecerá com ar de culpado...
Rugena riu com desprezo.
- O senhor está completamente enganado, mestre Jerónimo!
Não tenho ciúmes de Vok, porque nunca o amei, e ele não virá pedir perdão, porque também não me ama.
Sou vítima de um acordo familiar!
Como poderia saber a que pessoa estavam me entregando?
Ele via em mim uma rica herdeira que lhe traria de dote dez castelos, 80 aldeias e ouro para cobrir as dívidas de sua família e pagar as suas farras.
Não preciso do amor dele, mas tenho o direito de exigir não ser ofendida publicamente!
A ideia de estar ligada a ele e não poder cortar esses odiosos grilhões está me enlouquecendo!
Ela desabafava com arrebatamento, mas, de repente, seu ardor transformou-se em desespero.
Sentou-se na cadeira e, tapando o rosto com as mãos, rompeu em prantos.
Jerónimo nunca a tinha visto chorar e isso despertou nele amor e compaixão.
Ele olhava, enfeitiçado, para as grossas lágrimas que corriam pelos finos dedos e caíam como brilhantes sobre o veludo escuro do seu vestido.
- O que fiz para merecer essa vergonha?
Todos me deixaram e ninguém me ama... - Dizia ela, soluçando.
Jerónimo, esquecendo de tudo na vida, ajoelhou-se diante dela e pegou suas mãos.
- Ninguém a ama?!
Será que nunca percebeu que a amo com toda a alma e que estou pronto a entregar por você até a última gota do meu sangue?
Rugena levantou-se, pálida.
Será que ouvira bem?
Seria possível que ele, o ídolo de toda a Praga, cujos conhecimentos superavam os de professores e cujas palavras encantavam multidões, poderia realmente estar apaixonado por ela?
Então percebeu, por seu olhar cheio de sentimentos, que ele dizia a verdade e que o ídolo dos sonhos infantis estava, naquele momento, a seus pés.
Se Rugena estivesse mais calma, talvez se assustasse com aquela confissão.
Mas o orgulho ferido e a raiva do marido indignavam todo o seu ser e o sentimento de vitória e embriagante felicidade acabou com qualquer vacilo, qualquer obstáculo.
- É verdade que me ama, Jerónimo? - Perguntou ela, inclinando-se para ele.
- Sim. Para minha desgraça, é verdade!
Desculpe-me, Rugena, por essa louca confissão que suas lágrimas provocaram e não me mande embora... - Murmurou Jerónimo, tentando se levantar.
Mas Rugena passou os braços em seu pescoço e, colocando a cabecinha em seu ombro, murmurou, com lábios trémulos:
- Nada tenho a perdoar.
Pela primeira vez na vida, sinto a verdadeira felicidade.
Eu também o amo há muito tempo, desde o dia em que o vi no castelo Rabstein.
Em poucas palavras, ela contou-lhe seus sonhos de menina nos quais ele era o ideal.
Embriagado pelo sucesso inesperado, Jerónimo puxou-a para si e encostou seus lábios nos dela.
Rugena pousou a cabeça em seu peito; uma sensação ainda desconhecida - uma mistura de beatitude, paz e amargura doentia - encheu sua alma.
Nesse momento, nas dobras da cortina do quarto, apareceu o rosto de Ana.
Inicialmente, ela ficou petrificada ao ver aquela cena de traição.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 31, 2016 8:49 pm

Depois, baixando a cortina, não se afastou, querendo proteger a fraqueza de sua amiga de algum olhar indiscreto.
Jerónimo recompôs-se primeiro.
Sentou-se ao lado de Rugena, ainda segurando sua mão.
- Querida! - Disse ele, olhando-a com paixão.
Se, algum dia, pudesse imaginar que um velho falcão passageiro, como eu, iria agradar a uma encantadora menina, que já naquele tempo prometia transformar-se numa bela mulher, ter-me-ia tornado caseiro e disputado você com o resto do mundo.
Mas agora, depois do que aconteceu, só me resta calçar as sandálias e fugir rapidamente, pois me tornei um criminoso em relação ao meu amigo.
Rugena empalideceu.
Estava acima de suas forças desistir da felicidade que acabara de conquistar; com isso, subiu-lhe o fel acumulado contra o marido.
- Criminoso contra aquele traidor?
Ele merece que o enganem.
Eu, pelo menos, não me sinto obrigada a permanecer fiel àquele depravado, que sem nenhum pudor anda pelas ruas em companhia de mulheres decaídas. - Disse ela, com desprezo.
Por causa dele, devemos nos separar? Nunca!
Não quero que você me deixe e, se for embora, vamos juntos!
Odeio esta casa; fugirei daqui e irei com você até o fim do mundo!
- Não me tente, Rugena, pois suas palavras me enlouquecem!
A consciência me diz que seria um crime juntar o seu destino ao meu e expô-la a toda sorte de desventuras da minha vida nómade e de eterna luta!
Um herege como eu pode até futuramente parar numa fogueira; como posso oferecer à mulher amada um lar seguro e uma existência pacífica?
Eu nem poderia morrer como se deve se soubesse que deixaria você numa situação ruim.
- Não quero que você morra!
Quero que viva e viva só para mim.
Se me ama realmente, encontrará um meio de me libertar e levar-me consigo! - Retrucou Rugena, calorosamente.
Jerónimo beijou-lhe as mãos, com amor.
- A partir deste momento, sou seu escravo!
Vou pensar em tudo e encontrarei um meio de salvá-la.
Dentro de alguns dias iremos embora.
Depois, estando em algum lugar seguro, iniciaremos a separação, pois você deve me pertencer diante de Deus e dos homens!
Agora preciso ir, mas amanhã virei novamente.
Nós fomos demasiado imprudentes hoje.
Ele inclinou-se, beijou-a novamente e, antes que Rugena pudesse entender o que se passava, já havia saído do quarto.
Estava anoitecendo e ele, ao sair, não percebeu Ana parada na escuridão.
Não encontrando ninguém pelo caminho, além de dois pajens que acendiam as velas dos candelabros, Jerónimo saiu para a rua e foi para casa.
Sua cabeça ardia e o coração batia fortemente.
O acontecido significava uma nova reviravolta em sua vida.
Talvez o céu, ao enviar-lhe aquela indescritível felicidade, estivesse lhe dando um sinal indicando que ele já trabalhara o suficiente para os outros e estava na hora de pensar em si próprio.
Para sua surpresa, ao chegar em casa encontrou Huss sentado à mesa, folheando um manuscrito.
- Saudações, Jan!
O que está fazendo aqui? - Perguntou Jerónimo distraidamente, jogando o chapéu e a capa sobre a cadeira.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 01, 2016 7:50 pm

- Bem, estava aguardando-o e lendo o seu tratado em defesa do "De Trinitate" de Wyclif.
Respondeu o padre, olhando-o surpreso.
- Vim dizer que recebi uma carta do Jan de Lessenits, de Bolonha, com detalhes muito interessantes sobre o meu processo e as conversações do doutor Nas com o santo trono.
- Oh! Isso é interessante... - Respondeu Jerónimo, num tom que revelava que seus pensamentos estavam longe e que ele ouvia somente com os ouvidos.
Huss pegou-o pela mão e fê-lo sentar-se.
- Bem, sente-se aqui e fale comigo. - Disse ele ao amigo.
Você está com uma aparência estranha, feliz e preocupada ao mesmo tempo.
Alguma coisa lhe aconteceu.
Você parece que perdeu a cabeça!
- Você está certo!
Dá mesmo para perder a cabeça... - Respondeu Jerónimo, passando as mãos pelos espessos cabelos.
E ao ver o olhar inquisidor do amigo, continuou:
- Jan! Se soubesse de onde vim e o que fiz, você me repreenderia muito.
Um sorriso triste passou pela pálida face de Huss.
- A consciência já é metade da culpa!
- Mas não desta vez.
E nesse assunto não estou sozinho!
Cometi um crime, perturbando um inocente coração. - Disse Jerónimo, levantando-se de sobressalto e começando a andar nervosamente pelo quarto.
- Você é incorrigível.
Será que nem os anos, nem a inteligência conseguem pôr um fim às suas aventuras amorosas? - Observou Huss, com desaprovação.
Sei que as mulheres o mimam, então pelo menos deixe as moças em paz.
Pense só, que tipo de marido você seria:
um nómade sem lar, como um "judeu errante", nunca encontrando sossego em lugar algum.
- Mas agora é diferente, Jan.
Chegou a hora de parar e deixar essa vida.
Você está certo:
eu me apaixonei muitas vezes, mas sempre superficialmente.
Agora, entretanto, meu coração foi entregue definitivamente.
A mulher, linda como um anjo e pura como o lírio, me ama.
Entenda, Jan, ela me ama abnegadamente e... sou seu escravo.
Um horror mortal reflectiu-se no rosto de Huss e ele olhou severamente nos olhos do amigo.
- Já entendi!
Essa mulher, linda como um arcanjo, é a esposa de Vok Valdstein, e sua pureza de lírio deve estar lhe incomodando tanto a vista que você quer manchá-la com a lama da vergonha.
Foi a vez de Jerónimo ficar pálido.
- Você adivinhou:
é Rugena!
Eu aceito que você, tendo vencido a carne e sobre quem as paixões não têm efeito, me critique como sacerdote e como amigo; mas existem situações que abrandam nossa culpa.
Vok trai a esposa da forma mais imperdoável e o orgulho feminino dela é diariamente ferido.
Então, não é de surpreender que ela tenha sede de amor e participação e anseie cortar os grilhões que a sufocam.
Estou pecando, mas sou homem e não consigo lutar contra a tentação quando uma mulher como Rugena me diz:
"Eu o amo e sempre amarei.
Leve-me daqui e o acompanharei até o fim do mundo".
O desejo dela para mim é uma ordem e eu irei embora com ela.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 01, 2016 7:50 pm

Quero ser feliz e fazê-la feliz!
A paixão e a irredutível decisão sentiam-se em suas palavras, em seus gestos e no brilho de seu olhar.
O rosto de Huss explodiu e ele levantou-se.
- Você pretende raptar Rugena? Seu louco!
Já não lhe basta atrapalhar a sua inocente alma com um amor proibido e você ainda quer rebaixá-la, transformando-a em refém e arrastando consigo aquele ser delicado, acostumado a mimo e luxo, para as vicissitudes da sua vida nómade?
- Calma, Jan, não me ofenda sem motivo.
Quero levar Rugena comigo e escondê-la, mas somente até o divórcio e para que ela possa estar ao meu lado diante do altar.
- Você quer que ela se divorcie?
E para qual dos papas você pretende apelar para o divórcio? - Sorriu Huss, zombeteiro.
Vai ver o Gregório XII, em Rimini?82
Mas você negou abertamente obediência a ele, e isso não vai ajudá-lo.
João XXIII,83 em Roma, também não gosta de você, por tê-lo chamado de Anticristo.
O Bonifácio84 está longe demais daqui e o seu poder é reconhecido somente em Aragão.
Se pelo menos um deles conceder o divórcio a Rugena, os outros dois dirão que é uma decisão ilegal.
Pense um pouco, Jerónimo, ouça a voz do bom senso e da honra e fuja, enquanto ainda não fez um mal irreparável e enquanto sobre a sua cabeça não pesa um crime triplo:
contra Deus, contra o homem que o considera seu amigo e contra a fraca mulher que o ama e confia cegamente em você!
Jerónimo ficou confuso e baixou a cabeça em silêncio.
Ele percebia que Huss estava certo:
suas esperanças eram impossíveis e sua consciência dizia o mesmo.
Entretanto, estava acima de suas forças descartar a felicidade.
- Jan, você exige de mim um sacrifício desumano.
Você quer que me castigue duplamente; vou perder não somente o ser mais adorável que poderia ser dado a um homem, mas também Rugena vai me odiar se a deixar depois do que houve entre nós dois.
- É melhor que ela o odeie e não despreze.
O coração humano é leviano.
Quem sabe se a felicidade que sonham pode, com o tempo, tornar-se pesada para ambos?
Pessoalmente, nada exijo de você; mas como sacerdote indico-lhe as palavras do mandamento:
"Não desejar a mulher do próximo".
E, como amigo, digo:
tenha pena da mulher que você diz amar, não a aniquile moralmente e não tire dela a possibilidade de voltar ao verdadeiro caminho.
A embriaguez da paixão é rápida e passageira; o arrependimento é terrível e longo.
Para concluir, quero lembrar-lhe da nossa nacionalidade e da luta religiosa que ambos apoiamos.
Sua honra vai permitir-lhe fugir do campo de batalha justamente no momento em que sua palavra e sua sapiência devem pertencer integralmente à pátria?
Jerónimo tapou o rosto com as mãos; uma grande luta acontecia dentro dele.
Após um longo silêncio, ele levantou-se pálido, mas decidido; o reflexo do abalo moral que passara naquele instante sentia-se em sua voz e em seu olhar apagado.
- Você venceu, Jan. - Disse ele, surdamente.
Abdico da felicidade pessoal e vou embora o mais depressa possível sem ver Rugena.
Que esse sacrifício sirva para você como medida do meu amor por ela; não quero ser culpado por sua decadência.
O futuro dirá se eu tinha o direito de fazer isso e se agi correctamente transformando-me, ao mesmo tempo, em seu algoz, pois a vida dela com Vok é uma completa desgraça.
- Enquanto o homem cumpre a sua obrigação, não pode estar infeliz; a consciência tranquila lhe servirá de apoio. - Respondeu Huss, duramente.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 01, 2016 7:50 pm

Dê-me sua mão, amigo!
Cumprimento-o pela vitória!
Acredite-me:
algum dia Rugena também irá agradecer-lhe por você não abusar de sua inexperiência.
- Prometi encontrá-la amanhã.
Vá em meu lugar e transmita o meu "me perdoe"; explique-lhe as razões que me levam a fugir dela. - Disse Jerónimo, com voz baixa.
Depois, apanhando o chapéu e a capa, saiu precipitadamente do quarto; Huss saiu em seguida.
Após a saída de Jerónimo, Rugena trancara-se no quarto; seu estado emocional resultará em rios de lágrimas.
Vok, felizmente, não voltou à noite e, na manhã seguinte, ela acordou tarde.
Depois de um profundo sono, Rugena tomava consciência exacta do que acontecera na véspera e relembrava, num misto de terror e enlevo, todos os detalhes.
A recordação das palavras de amor e dos beijos que trocara com Jerónimo fazia todo o seu ser tremer de felicidade, mas a vergonha e a dor na consciência já se manifestavam em sua alma.
Ela era por demais honesta e pura para, de uma hora para outra, livrar-se de toda a sua base moral.
O dia para ela alongava-se demasiadamente e quando seu sogro - Vok ainda não havia voltado -, espantado com seu ar desanimado, perguntou amigavelmente o que estava acontecendo, ela quase desmaiou.
Sua preocupação crescia a cada instante; Jerónimo provavelmente marcaria a hora e iria combinar os detalhes da fuga que ela própria exigira. Rugena, agora, sentia-se atemorizada em dar aquele passo decisivo.
Mas em vez de Jerónimo chegou Huss e pediu-lhe para conversar em particular.
O olhar severo e triste de seu confessor fez a esposa de Vok estremecer e enrubescer.
Ela seguiu-o, cabisbaixa, ajoelhou-se diante do facistol.
- Você aguardava uma outra pessoa, cujas palavras seriam mais agradáveis do que as minhas. - Disse Huss, depois de um curto silêncio.
Mas, para cumprir a minha promessa, vim aqui para lhe transmitir o "adeus" de Jerónimo.
Ele irá embora amanhã e não voltará enquanto não estiver em condições de vê-la sem corar.
Rugena soltou um grito surdo.
- Ele está me abandonando?
Ele não me ama?
- Ele a ama demais para querer aniquilá-la e rebaixá-la ao nível das mulheres de... outro tipo.
Acorde, Rugena, e envergonhe-se por ter esquecido tão completamente o seu dever! - Observou Huss, severo.
Entretanto, o golpe recebido fora forte demais.
A perda do homem amado apagou de vez a sua discrição e, exaltada, ela começou a contar todas as ofensas e traições do marido, tirando de si qualquer obrigação de permanecer fiel a ele.
Huss não a interrompeu até que o pranto abafou sua voz.
- Declare isso tudo abertamente e depois vá embora! - Observou o sacerdote.
- Mas, será que posso fazer isso? - Murmurou ela, olhando-o, surpresa.
- O certo é que você não pode!
Mas pretende fugir à noite, às escondidas?
Acredite-me, minha filha, tudo que tem receio da luz, qualquer coisa que se esconde na escuridão - é má!
Sabe disso tão bem quanto eu e, por isso, sente vergonha e se esconde do olhar do povo que, em comparação com o olho de Deus, não é nada assustador.
Você acusa o seu marido e afirma que odeia Vok por suas ofensas, mas desde quando os pecados alheios servem de desculpa para os nossos?
E a sua consciência está tranquila?
E Huss foi descrevendo, severamente, toda a vida de Rugena depois que se casara.
Ela, por acaso, tentara apaixonar-se por Vok e atraí-lo com, indulgência e docilidade?
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 01, 2016 7:51 pm

Ela, por acaso, não o afastara
com sua indiferença, com sua frieza e com suas palavras duras e ofensivas
Depois, Huss passou a falar sobre o dever que, por mais pesado que seja, a pessoa deve cumprir para não se esquivar da provação da vida e não sofrer as consequências da dor de consciência e do medo da condenação.
Nunca, talvez, o pregador fora tão eloquente como naquele momento; ele preenchia a confusa alma arrependida de Rugena com toda a sua viva fé e seu ardente ímpeto ao bem.
Quando Huss finalmente foi embora, Rugena, completamente quebrada pelos argumentos do padre, decidiu dedicar-se inteiramente ao cumprimento do dever, e entregar a Deus o próprio destino.

80 O nome era Zaits Zbinek. Zaits em tcheco significa "lebre " - Nota do tradutor.
81 Pelzel, p. 570 - Nota do autor.
82 Rimini: cidade onde morava Gregório XII, o papa da dissidência italiana, que não reconhecera a decisão do concilio de Pisa - Nota da editora.
83 Papa substituto de Alexandre V, eleito pelo concilio de Pisa de 1409 - Nota da editora.
84 Bonifácio, o terceiro papa da dissidência francesa, d’Avignon, também não reconhecera as decisões do concilio de Pisa, refugiando-se em Aragão, na Espanha - Nota da editora.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 01, 2016 7:51 pm

Capítulo III

Era domingo de fim de maio de 1412.
Apesar de ainda ser madrugada, as ruas de Praga já estavam cheias de gente.
Uns apressavam-se para a missa, outros corriam para fazer compras nas inúmeras barracas-carroças que apareciam nos dias de feira vendendo diversas provisões trazidas das regiões vizinhas.
Na praça, diante da igreja de Tyn, havia uma grande aglomeração de pessoas e a massa compacta cercava dois tablados de madeira.
Em cima de cada um dos tablados havia um monge que falava ao povo.
Sons de trombetas e tambores que soavam de tempos em tempos atraíam cada vez mais curiosos.
Na multidão estavam Broda e Matias; um escutava com desaprovação e cenho franzido os pitorescos discursos dos monges enquanto o outro zombava deles com desprezo.
- Irmãos! - Gritava um dos pregadores.
Minhas palavras são insuficientes para descrever toda a felicidade celestial que vocês poderão receber, garantindo-se com as indulgências que Sua Santidade, o papa João XXIII, ofereceu aos fiéis com a sua inesgotável generosidade de pai aos seus filhos pródigos.
Quem de nós não tem um pecado manchando a consciência?
Quem não tremerá diante do julgamento divino ou não começará a implorar aos céus o perdão aos caros falecidos que suportam terríveis sofrimentos no inferno?
E quem de nós não receia por suas crianças, que talvez tenham de passar pela eterna maldição?
Agora, vocês podem evitar todos esses sofrimentos, somente adquirindo as indulgências...
Temos indulgências de todos os tipos e para todos os fins:
completas e parciais, para 500, 300 e 200 anos; temos autorizações para pecados futuros e temos também as que cancelam os sofrimentos do purgatório.
Temos indulgências para altos senhores e para os pobres, pois todos podem evitar os sofrimentos do outro mundo.
Até aqueles que já estão a caminho da morte podem tranquilamente aparecer diante dos portões do céu e São Pedro, ao ler suas indulgências, nem vai lhes perguntar sobre seus pecados, abrindo-lhes simplesmente as portas do céu.
E lá, sobre nuvens douradas e prateadas, está o Deus Pai, junto com Seu Filho, cercado de plêiades de arcanjos e anjos, querubins e serafins.
O pecador, em sua devoção, cairá de bruços diante do altar do Supremo; mas os anjos, ao verem a indulgência em suas mãos, irão mostrá-la a Deus e Cristo dirá:
"O que meu representante perdoou na terra, será perdoado no céu.
Vá, meu filho, e cante glórias a mim".
E os anjos levarão o bem-aventurado às nuvens e mostrar-lhe-ão todas as belezas do paraíso; ele descansará sob a sombra da árvore da ciência do bem e do mal, e poderá comer, sem receio, aqueles mesmos frutos que um dia foram a perdição de Adão...
O monge, cansado, parou para tomar fôlego.
Seu discurso provocava sentimentos bastante diversos nos ouvintes.
Alguns riam e vaiavam em tom de zombaria; de todos os lados da multidão provinham apelidos nada lisonjeiros ao Papa e seus enviados.
Mas também se ouviam gritos de protesto contra os valentões:
- Calem a boca, seus infiéis!
Sejam amaldiçoados, mas não confundam os outros.
- Padre, é verdade o que o senhor acabou de dizer? - Gritou uma mulher, toda em lágrimas de beatitude religiosa.
- A mais santa verdade. - Disse o monge.
Todos vocês estarão duplamente salvos, se pararem de ouvir os servos de satanás, que estão indignados vendo que o inferno se esvazia.
Então, não percam tempo, irmãos:
lá na igreja vos aguardam as preciosas chaves do céu.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 01, 2016 7:51 pm

Apressem-se enquanto os lugares no céu não foram totalmente preenchidos!
Apesar de o céu ser grande, existem mais homens na terra do que ele pode comportar.
Muitas pessoas da multidão correram para a igreja, mas Broda, rindo às gargalhadas, puxou Matias de lado.
- Sorria, meu velho!
Esse estelionatário de batina não conseguirá arrancar nada de nossos bolsos. - Disse ele.
- Mas, em compensação, quantos idiotas entregar-lhe-ão seus últimos centavos por um pedaço de pergaminho no qual cada palavra é uma mentira e blasfémia? - Indignava-se Matias.
- Essa imundície acontece já há três semanas. - Respondeu Broda.
Você esteve doente e não viu o início desse sacrilégio.
Eu estive na própria catedral durante a leitura das duas bulas e, mesmo sendo soldado, quase caí.
A igreja estava às escuras e era iluminada somente com velas que o clero trazia nas mãos; depois, trouxeram a bula da excomunhão, todas as velas foram imediatamente apagadas e jogadas no chão e os sinos começaram a tocar como num funeral.
Então, passaram a anunciar que o rei napolitano é um inimigo da Igreja, por crime de perjúrio e heresia, e é excomungado pela Igreja por todos os seus crimes e com todos os seus descendentes até a terceira geração, e que idêntico castigo espera por seus amigos e partidários.
Disseram também que quem ousar sepultar o rei de Nápoles, ou um de seus partidários, de modo cristão também será excomungado e não receberá a absolvição até que desenterre os cadáveres com as suas próprias mãos.85
- Que horror! - E Broda deu uma cusparada no chão.
- Isso é uma falta de vergonha, é uma monstruosidade!
Como um servo de Deus pode receitar tais horrores? - Indignava-se Matias, persignando-se.
- Infelizmente, só mostra a decadência da Igreja.
O próprio Papa diz tais torpezas e prega uma cruzada contra um rei cristão por causas leigas.
E, para que os novos cruzados ajudem o Papa com a espada e o ouro, eles prometem-lhes todos esses milagres que acabamos de ouvir.
- Ainda bem que o mestre Huss abre os olhos desses idiotas e mostra o verdadeiro valor das bulas e indulgências.
Não é culpa dele se, mesmo assim, aparecem umas ovelhas que se deixam tosar.
- Certo. Ele luta como um leão pela verdade:
prega, desmente e cola em todas as esquinas os seus cartazes com desmentidos.
Jerónimo, desde que retornou a Praga, voltou a ajudá-lo.
Mas, que homem! - Prosseguiu Broda, entusiasmado.
Deus presenteou-o com todos os dons!
Você viu, Matias, o quadro que ele pintou recentemente na parede?
- Não.
- Venha comigo, vou mostrar-lhe.
- Mas não vamos nos atrasar para o sermão na capela de Belém?
- Claro que não!
Depois, aceleramos o passo e chegaremos a tempo. - Respondeu Broda, arrastando o companheiro.
Perto da capela, diante de uma parede completamente rebocada, também havia uma multidão de curiosos, por meio da qual Broda e Matias começaram a passar, abrindo caminho a cotoveladas.
Finalmente, viram-se diante de um quadro de gigantescas dimensões.
De um lado estava a imagem de Cristo, dócil e descalço, sentado num burrico e cercado de apóstolos, também descalços e com cajados nas mãos.
Do lado directamente oposto do Filho de Deus estava uma imagem do Papa, de tiara na cabeça, montando um cavalo coberto com sobreanca bordada a ouro; à sua frente iam os arautos e corneteiros e atrás seguia uma magnífica corte de cardeais, trajando púrpura, ladeados por cavaleiros em armaduras.
As observações e piadas que se ouviam da multidão comprovavam que o objectivo do artista havia sido plenamente atingido.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 01, 2016 7:52 pm

Broda e Matias não ficaram olhando o quadro por muito tempo e, apressadamente, foram ouvir o sermão para o qual, apesar da insistência de Broda, acabaram chegando atrasados.
Uma incontável multidão preenchia não só o interior do templo mas também todo o prédio em volta, obrigando Broda a usar a sua gigantesca força para abrir caminho.
Mesmo assim, não conseguiram passar além da porta; mas, sendo ambos de altura privilegiada, podiam ver por cima das cabeças o que se passava na capela.
Huss estava no púlpito e seu rosto emocionado reflectia a ardente convicção que o inspirava.
A distância abafava algumas palavras do pregador.
Somente quando ele, em seu ímpeto, elevava a voz, partes do discurso chegavam até Broda e Matias.
- Irmãos! - Dizia Huss naquele instante.
Não considerem o que falei como uma negação do poder do santo trono.
Ninguém se submete mais documente do que eu à autoridade que Deus deu ao Papa.
Estou somente protestando contra o abuso de poder, principalmente neste caso.
A consciência me obriga a prevenir a todos vocês contra tal fraude que deforma as próprias palavras de Cristo.
O Papa prega uma cruzada contra um rei cristão e incita povos uns contra os outros para garantir seus interesses de propriedade.
E, aos que derramarem o sangue cristão, ele promete indulgências e vende abertamente os preciosíssimos bens espirituais.
O Senhor, quando estava na cruz, rezava por seus algozes e criticou Pedro por levantar a espada em sua defesa, enquanto esse chefe da Igreja, dizendo-se representante de Cristo, somente vomita maldições, ameaças e condenações à morte...
Pior, ele ordena desenterrar os mortos das covas para profanação, só por eles terem sido fiéis ao seu rei.
A voz do pregador sumiu por um tempo, mas logo novamente foi ouvida:
- Tenham cuidado, irmãos, para não acreditar nas indulgências que são ditadas pelo ódio!
Cada palavra escrita nelas é blasfémia contra a verdade evangélica.
Evitem comprar as falsas indulgências, que medem com ouro a misericórdia divina e os consolam com mentirosas esperanças de perdoar seus actos maus com algo mais que um sincero e profundo arrependimento e boas acções!
Quando o sermão terminou, a multidão começou a dispersar-se aos poucos.
Entre os presentes apareceram, à entrada do templo, o velho conde Valdstein, Vok, Rugena e Ana.
Eles pararam perto da porta, aguardando que o povo saísse, e comentavam o que tinham ouvido.
Nesse instante, da segunda porta que conduzia à sacristia e à cela de Huss, surgiu Jerónimo.
Parecendo não notar os Valdstein, ele passou adiante e misturou-se na multidão; mas Vok correu atrás dele e segurou-o pela capa.
- Por que está correndo, Jerónimo?
Ou você propositadamente não quer notar os amigos?
- Mas que ideia!
Não sabia que você estava na igreja, pois ouvi o sermão sentado atrás do púlpito.
- Estamos aqui, eu, meu pai, Rugena e Ana.
Venha, eles vão ficar muito contentes de vê-lo.
E pretendo passar-lhe um sabão por voltar a Praga há tanto tempo e nem visitar-nos.
- Já me preparava para visitá-los e expressar os meus respeitos à condessa, mas tinha tantas coisas para resolver que simplesmente me perdi.
E passei as últimas duas semanas em Voikovitz.
Conversando, eles se aproximaram do velho conde e das damas.
Com a sua natural elegância de cavaleiro, Jerónimo beijou a mão de Rugena, e pareceu não notar o tremor de seus dedos - o único sinal de sua emoção.
Jerónimo parecia calmo e loquaz como de costume, mas seu bonito rosto estava particularmente severo, o que nunca acontecera antes.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 01, 2016 7:52 pm

O velho conde convidou-o a ir até sua casa e ele imediatamente aceitou o convite.
Assim, todos se dirigiram à casa dos Valdstein.
- O que você estava fazendo em Voikovitz, quando por aqui acontecem factos tão importantes? - Perguntou Vok.
- Precisava colocar em ordem velhas contas e negócios.
Mas, além disso, me diverti bastante, fazendo uma brincadeira com os reverendos vendedores de "ingressos para o céu".
Eles andam por todos os lugares ao som de tambores e vendem a sua maldita mercadoria nas cidades e aldeias.
E quando um pobre e bobo camponês não tem dinheiro suficiente, os monge aceitam vacas, ovelhas e outros animais como pagamento.
Se, por acaso, eu não estivesse em Voikovitz, eles roubariam todos os meus camponeses.
- Vou seguir o seu sábio conselho e tomar as devidas medidas para pôr um fim aos esforços dos reverendos padres nas minhas propriedades próximas de Praga... - Disse Vok, rindo.
- É um caso nunca visto de roubo de toda uma nação e em nome de Deus. - Observou o velho conde, balançando a cabeça.
- Pois é.
Judas vendeu Cristo por 30 dinares enquanto os nossos servos da Igreja vendem-no cem vezes ao dia, e não por 30 mas por 100 e por 1.000.
- Ah! Esses nossos bispos! "Nonprelati, sedpilati"86 - Confirmou Jerónimo, tristemente.
- E o próprio herdeiro de São Pedro, em vez de almas humanas, prefere captar ouro em suas redes. - Sorriu Vok, zombeteiro.
A condessa Iana não compareceu ao almoço, alegando sentir-se mal.
Na verdade ela tinha brigado com o marido e o filho desde a hora em que chegara à cidade o emissário do Papa, Ventsel Tini, para vender indulgências e pregar a cruzada nas paróquias de Salzburgo, Magdeburgo e de Praga.
O apoio às teorias de Wyclif e o bom relacionamento com Huss - claramente expressos pelos condes Hinek e Vok - nunca haviam sido do gosto da condessa Iana que, pelo seu estreito fanatismo, considerava a ambos hereges.
Mas o impetuoso carácter do marido e a cega adoração do filho continham-na e, por algum período, foi mantida uma certa paz na família.
Por fim, as inúmeras zombarias sobre indulgências e a afirmação de que estas não tinham nenhum valor e não podiam resgatar a alma do merecido castigo acabaram provocando na condessa um ataque de ira.
Ela começara a defender com tanto ardor o direito do "santo trono" de perdoar na terra e no céu que chegara até a confundir os dois condes.
A partir desse dia, a condessa ficara amuada.
Jejuava e orava fervorosamente, trancando-se no quarto toda vez que apareciam em sua casa alguns dos adeptos de Huss ou ele próprio.
As relações entre Rugena e o marido haviam melhorado.
Sob a pressão da dor de consciência e querendo apagar a culpa, a jovem mulher ficara menos rígida e tentara atrair Vok com condescendência e docilidade.
Inicialmente, ele espantara-se.
Depois, ficara sensibilizado e por realmente adorar a esposa, desistira das escandalosas aventuras, para não ofendê-la.
Mesmo assim, o terrível choque nervoso pelo qual Rugena passara reflectira-se bastante na sua delicada natureza, e a silenciosa mas dura luta contra o sentimento de amor a Jerónimo - que insistia em não ceder - esgotara-a definitivamente.
Ela adoecera gravemente e, por duas semanas, sua vida estivera por um fio.
O medo de perder a esposa fizera Vok voltar a si e trouxera-o, arrependido, à cabeceira da cama da paciente.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 01, 2016 7:52 pm

Quando Rugena começou a melhorar, ele realmente tentou corrigir-se e seu arrependimento foi tão apaixonado e barulhento quanto suas loucuras amorosas.
Rugena parecia bondosa e amorosa e quando, de tempos em tempos, o explosivo carácter de Vok arrastava-o para alguma aventura, ela permanecia sempre condescendente.
Contudo, após a doença, ela fechara-se, ficara séria, pouco sociável e uma tristeza oculta tomara conta do seu ser.
Ana continuou vivendo na casa dos Valdstein apesar de aparecerem alguns pretendentes bem vantajosos e até das insistências do irmão para que se mudasse para a casa dele.
Rugena brincava dizendo que ela estava esperando Svetomir, mas, no fundo, estava feliz por ter a fiel amiga a seu lado - a única que conhecia sua fraqueza.
Ana havia-lhe confessado ter sido testemunha da cena entre ela e Jerónimo.
O almoço transcorreu em clima de alegria.
Rugena estava muito nervosa no início, mas a calma desenvoltura de Jerónimo ajudou-a a manter as aparências.
Ela até participou da conversa que girava, principalmente, em torno do grande debate a respeito da questão das indulgências que aconteceria na universidade.
Para tanto, Huss convocara professores e estudantes.
- Quanto a isso, tenho um pequeno projecto e gostaria de conversar com você sobre alguns detalhes.
Irei também a esse debate. - Disse Vok, quando Jerónimo preparava-se para sair.
- Mas isso não vai custar caro?
Seus projectos costumam ser bastante arriscados... - Respondeu o amigo, sorrindo.
- Mas não!
É um negócio absolutamente inofensivo e a corte não se oporá.
- Então, se você já se garantiu com a anuência do rei...
- Nem tanto, mas creia-me:
ele irá se divertir com essa minha ideia.

85 E. de Bonnechome, p. 53 - Nota do autor.
86 "Não são prelados, mas sim Pilotos " - Nota do autor
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 01, 2016 7:52 pm

Capítulo IV

Alguns dias depois, pelas ruas da "Margem Pequena", localizada na margem esquerda do rio, passavam alguns cavaleiros.
Um deles, que ia na frente e com a viseira do elmo fechada, estava trajando armadura leve; atrás dele vinham um padre, um pajem, um cavalariço e quatro homens armados guardando cavalos carregados com bagagem.
À medida que se aproximavam do mercado, o caminho ficava cada vez mais difícil, pois o povo enchia as ruas; de longe ouviam-se cantos, gritos e ruído de multidão se aproximando.
Saindo na praça, o cavaleiro foi obrigado a manter-se mais perto das casas e, finalmente, teve que parar.
Por todos os lados estendia-se um mar de cabeças; em frente ao palácio do arcebispo, havia uma alta carruagem.
Mas, por causa da multidão, era difícil enxergar os detalhes.
De repente, a massa afastou-se, abrindo passagem para uma procissão que passou bem próxima aos viajantes.
Músicos, tamborileiros e corneteiros, tocando a plenos pulmões, seguiam diante de uma grande carroça na qual se encontravam duas mulheres com expressões insolentes e aparência vulgar, trazendo no pescoço duas bulas papais.
Dos lados e atrás da carroça seguiam monges cantando hinos nada sagrados e bastante jocosos, zombando das indulgências, do Papa e de sua cruzada.
O povo aplaudia, cantava junto com os monges e trocava piadas sobre o clero.
Por fim, a multidão desapareceu atrás da esquina da rua.
O cavaleiro permaneceu todo aquele tempo parado; somente a mão que segurava as rédeas tremia levemente, enquanto a outra apertava febrilmente o cabo do punhal que levava na cintura.
Percebendo um escrivão que passava por perto, ele parou-o e perguntou em latim o que significava aquela procissão.
- Estão levando triunfalmente as bulas do "Anticristo de Roma" para queimá-las sob o cadafalso na "Cidade Nova". - Respondeu o homem, com jeito de preocupado e apressado para alcançar a procissão.87
Finalmente, os cavaleiros conseguiram seguir adiante.
Dirigiram-se apressadamente à casa do arcebispo e entraram no pátio após trocarem algumas palavras com a guarda do portão.
À tarde do mesmo dia, encontramos aquele cavaleiro nos aposentos do arcebispo, que haviam sido separados para ele logo após uma conversa com Albino, vice de Zbinek Zaits na paróquia de Praga.
Ele estava sentado na poltrona, agasalhando-se numa larga manta de seda, de cor violeta; duas velas em candelabros de prata iluminavam com luz bruxuleante o rosto característico do nosso velho conhecido Brancassis.
Ele pouco mudara nesse tempo e permanecia o mesmo homem forte e bonito, de cabelos negros como piche.
Atrás de sua poltrona estava em pé o padre Bonaventura e diante dele, numa cadeira desmontável, sentava-se Hilário, que - com aparência de adoração - ouvia as palavras do prelado.
- Vim para ver pessoalmente o que acontece na Boémia e depois relatar tudo ao Santo Padre.
Mas, para estar livre para agir, não quero desempenhar um papel oficial.
Minha presença aqui deve ser, na medida do possível, conhecida de poucos.
O senhor, padre Hilário, provavelmente, está bem informado de tudo e poderá explicar bastante.
Estou muito interessado em conhecer os detalhes da cerimónia sacrílega que presenciei hoje.
- Sim, reverendíssirno!
Sacrilégios por aqui acontecem todos os dias e o que a alma cristã é obrigada a suportar, ouvindo zombarias e ofensas a tudo que é santo, nem dá para descrever!
Mas, com sua autorização, tentarei descrever em todos os detalhes as bacanais realizadas pelos hereges durante a estada do digníssimo Vetsel Tim por aqui.
E, com frases cheias de fel, começou a descrever cenas de violência que teriam acompanhado as vendas de indulgências, atribuindo todo o mal à maldita e criminosa actividade de Jan Huss e Jerónimo.
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- Esses dois hereges, criados pelo próprio inferno, contaminaram toda a Boémia!
Deus sabe a que ponto isso pode chegar se o Santo Padre não tomar a tempo medidas severas contra esses revoltosos, que ousam cuspir naquilo que deveriam respeitar.
Ninguém do clero pode garantir a própria segurança! - Exclamou Hilário, com o rosto vermelho de indignação.
- É preciso calar a boca desse homem blasfemo chamado Huss e proibi-lo de pregar:
ele ousa publicamente envergonhar o Papa, negar o poder de suas indulgências e, com seus discursos, agita a população.
Ainda ontem, por sua iniciativa, houve um debate na universidade e um dos professores chamou-lhe a atenção diante dos outros, dizendo:
"Você também é um sacerdote e ofende o clero.
O pássaro que suja o próprio ninho não presta".
Então, todos começaram a zombar desse professor e Jerónimo pronunciou um discurso tão inflamado que os estudantes carregaram-no nos ombros.
Quanto à procissão achincalhada que o reverendíssirno teve a infelicidade de presenciar, ela foi ideia do conde Vok Valdstein, que perdeu completamente a cabeça na heresia e na devassidão.
Só posso atribuir à loucura ou à possessão diabólica a insolência de conduzir pela cidade mulheres vadias vestindo bulas papais.
E, meu Deus, tantas coisas mais eles fizeram!
Sobre o fosso da "Cidade Nova", eles colocaram um cadafalso; embaixo dele, acenderam uma fogueira na qual queimaram bulas; por zombaria, colocaram por perto uma caixa semelhante àquelas onde os fiéis colocam o dinheiro pelas indulgências, e começaram a jogar imundícies dentro dela.
O povo ficou tão excitado que quando eu e o irmão Bojek, do mosteiro de Strakhov, voltávamos para a "Cidade Velha", a multidão gritava em nossa direcção:
"Pega! Pega os monges!".
- Que canalhas!
Espero que mais de um desses queime na fogueira no lugar das bulas! - Murmurou, irado, Brancassis.
- Oh! No dia em que queimarem Huss e Jerónimo, cantarei aleluias desde manhã até a noite! - Sibilava Hilário, e os seus pequeninos e anuviados olhos brilhavam maléficos.
- Primeiramente - observou Brancassis -, o arcebispo deve queixar-se ao rei e Vok Valdstein deve ser excomungado.
- Isso não vai levar a nada, reverendíssimo!
Ninguém liga para as ordens do arcebispo e os hereges tanto convenceram o rei de que os enviados do Papa estariam roubando e arrasando o país, que este até escreveu uma carta mal-educada ao santíssimo.
O conde Vok ainda ontem se gabava disso e lia a carta ao Huss.
Ela começa assim - anotei o que pude:
"Santíssimo padre!
Para nossa profunda surpresa, soubemos com que ousadia, ganância e insolência agem os emissários do vosso Santo Padre, que pregam uma cruzada no nosso reino da Boémia.
Aos que pagam, eles prometem o reino dos céus que, entretanto, pelo nosso entendimento, se consegue somente com boas ações"88
... Por esse início, o senhor pode imaginar o resto! - Concluiu Hilário.
Depois de longas confabulações, durante as quais o cardeal inquiriu cuidadosamente Hilário sobre Vok Valdstein, seu pai e outros senhores, partidários de Huss, ele dispensou o monge, ordenando-lhe que avisasse a condessa Iana que iria visitá-la dentro de dois dias, para não encontrar os dois condes que viajariam por uns dias a Totchnik, onde estava a corte.
Nenhum dos eminentes interlocutores percebeu que o pajem de Brancassis, que fora por ele mandado dormir, escondera-se na cortina e não perdera uma palavra daquela conversa.
Quando Hilário começou a se despedir, ele desapareceu como uma sombra e, esticando-se no seu catre, fingiu dormir.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 01, 2016 7:53 pm

Era um bonito jovem, de altura média e muito esbelto, até magro; o rosto pálido era emoldurado por cabelos loiro-ruivos de cor quase metálica; os olhos castanhos, bonitos e lânguidos olhavam sombriamente, principalmente quando, enrolando-se no cobertor, ele sussurrou:
- Com quantos malefícios e lágrimas de sangue cobrirá o seu caminho esse bando de patifes!
Dois dias depois, encontramos Brancassis em companhia de sua prima, no palácio dos Valdstein.
A condessa estava sentava com os olhos cheios de lágrimas; ela havia contado ao cardeal a sua desgraça quanto à ostensiva heresia do marido e do filho e, preocupada, tentava obter dele a informação se a indulgência que possuía seria suficiente para pagar a apostasia dos dois.
Brancassis acalmou-a sobre isso, mas, mesmo assim, aconselhou-a, por garantia, a adquirir uma indulgência especial daquelas que a generosidade do Santo Padre oferecia agora aos fiéis.
A recusa de Brancassis em instalar-se em sua casa custou à condessa ainda mais lágrimas.
- Entenda, madonna Iana - disse o cardeal, comovido pelo seu desespero -, que um príncipe da Igreja não pode utilizar a hospitalidade de hereges, que ofendem o que é sagrado para ele.
Mas virei visitá-la assiduamente e espero que ambos os condes, em respeito a mim como parente e à minha posição, evitem me ofender abertamente.
O cardeal perguntou, então, se a heresia afectara igualmente a Rugena.
- Infelizmente, sim!
Seu confessor é Huss e isso explica tudo.
Seu comportamento, entretanto, é irrepreensível.
Gostaria de vê-la, primo Tomasso?
Ela foi acompanhar o meu marido e Vok, mas deve voltar a qualquer momento.
Parece que já chegou, pois ouço o tropel de cava-los.
Brancassis aproximou-se da janela e levantou a ponta da cortina abaixada.
Seus olhos abriram-se de espanto quando viu Rugena, que chegava com Ana, Broda e Matias.
Ela montava um belo cavalo branco, coberto por uma rica manta, e manejava-o habilmente.
A rápida corrida cobrira de um tom róseo suas normalmente pálidas faces; o vestido de veludo, negro e justo, destacava sua esbelta figura, e mechas de cabelos dourados, desarrumados pelo vento, brilhavam ao sol.
Um rubor cobriu repentinamente o rosto do cardeal e seus olhos negros acenderam-se.
Todavia, Brancassis era mestre em esconder sentimentos e, quando se afastou da janela, seu rosto já tinha assumido uma expressão indiferente.
- A mulher confirmou o que a criança prometia. - Observou ele, paternalmente.
A condessa Rugena é encantadora e ficarei feliz em ser reapresentado a ela.
Aceito o seu convite, madonna Giovanna, e fico para almoçar com a senhora e sua querida nora.
Rugena recebeu Brancassis com contenção, mas respeitosamente; a maneira dele de se comportar e sua noção de alta posição incutiam-lhe o devido respeito.
Apesar do livre-pensar dela, o respeito natural ao clero, reinante no espírito da época, não podia deixar de afectá-la.
No entanto, quando o amável cardeal começou a conversar amigavelmente com ela sobre o passado e lembrou-lhe do pai, a desconfiança de Rugena desapareceu completamente.
As palavras de Brancassis reviveram suas recordações da infância, e ela lembrou que o havia visto no castelo dos Rabstein, na véspera do dia fatal quando o barão Svetomir fora embora e voltara num caixão.
Na época, o pai parecia ter relações amigáveis com o prelado, e fora ele a receber seu último suspiro.
Todas aquelas circunstâncias favoreciam a Brancassis e, ao despedir-se, Rugena, inocentemente, pediu-lhe a bênção.
A partir daquele dia, o cardeal tornou-se um assíduo visitante do palácio dos Valdstein, e o mais surpreendente é que era bem-recebido tanto pela jovem quanto pela velha condessa.
Vok, descontente com aquelas visitas, brigava com elas; estava plenamente convencido de que Brancassis era um estelionatário, como a maioria do clero.
Mas a fiel esposa acalmava-o e ele já não tinha vontade de discutir com a mãe.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 01, 2016 7:53 pm

Além disso, o jovem conde era por demais despreocupado para ficar por longo tempo com pensamentos sombrios e, durante as suas frequentes e prolongadas ausências, provocadas pelo serviço ao rei, ele se distraía tanto que por vezes até se esquecia da existência do "espião do Papa" como ele apelidara Brancassis.
Vok nem suspeitava da ameaça que pairava sobre sua cabeça, ardilosamente preparada pelo esperto italiano que o odiava duplamente por ser sacrílego e por ser marido de Rugena.
Este segundo motivo era até maior, pois a grande beleza da mulher e a sua pureza espiritual eram uma isca especial para um cínico como Brancassis, cansado de tudo na vida.
Na negra alma do cardeal acendera-se uma ameaçadora paixão que crescia a cada dia.
Amoral por natureza, sem restrições às suas vontades, ele ansiava por possuir Rugena de qualquer jeito - por esperteza ou força.
A mente maléfica, então, imaginou um plano diabólico no qual, antes de tudo, era preciso separar o casal para sempre.
Era necessário penetrar na confiança de Rugena e ele conseguiu comprá-la com a fingida bondade e com a misericórdia cristã com que se referia aos acontecimentos.
E quando Rugena tomou coragem para falar de seu confessor, tentando justificá-lo em face das acusações que caíam sobre ele, Brancassis ouviu-a com falsa condescendência.
Mesmo rejeitando o convite para um encontro pessoal com Huss, prometeu usar de sua influência junto ao Papa para pôr um fim ao processo contra ele, como se estivesse convencido de que Huss era, na verdade, um dedicado filho da Igreja que se encontrava confuso pelo esforço exagerado em busca da verdade.

87 "Um dos favoritos do rei, o Sr. Vok von Valdstein, organizou, juntamente com o Sr. Jerónimo de Praga e outros dotados dos mesmos princípios, um confrontamento de natureza de sátira como paródia do que aconteceu dois anos antes do incêndio das padarias, etc... " - Palacky, "G.v.B. ", III, pp. 277-278 - Nota do autor.
Obs.: no original russo esse texto está em alemão.
88 Pelzel, p. 622 - Nota do autor.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 01, 2016 7:53 pm

Capítulo V

Matias acompanhava com crescente desconfiança e preocupação as frequentes visitas de Brancassis e a amabilidade com que a jovem condessa o recebia.
O velho não esquecera do papel suspeito e talvez criminoso desempenhado pelo italiano na morte do barão Svetomir, que na opinião do fiel servo fora assassinado.
A ideia de que Brancassis podia ser perigoso para Rugena perseguia-o insistentemente e ele resolveu compartilhar sua preocupação com Broda, de quem se tornara muito amigo.
Mas mesmo a ele não contou toda a verdade; simplesmente observou que lhe repugnava ver as longas conversas da jovem condessa com o cardeal italiano, pois o considerava um patife e um devasso - e como prova disso contou que o vira em Pilsen com uma mulher disfarçada de seu pajem.
- Aposto que o pajem Túlio, que o acompanha agora, também é alguma Túlia.
Essa observação não foi em vão.
Broda passou a reparar e depois seguir o pajem que aparecia frequentemente na casa, acompanhando o próprio cardeal ou cumprindo alguma ordem dele.
Ele logo percebeu que, em primeiro lugar, Túlio era com certeza uma mulher e, em segundo lugar, que essa mulher odiava Brancassis; o olhar do pajem era sombrio e em seu amargo sorriso aparecia um terrível sofrimento.
Broda então suspeitou de que ela era uma vítima do cardeal; decidido a descobrir esse segredo, passou a seguir o pajem com maior atenção, vigiando-o nas suas saídas da casa do arcebispo.
Qual não foi seu espanto ao ver, certa vez, o pajem - envolto numa capa com capuz - esgueirar-se até a capela de Belém para ouvir o sermão de Huss com notória humildade e lágrimas nos olhos.
Broda seguiu-o e viu quando, num beco escuro, ele tirou a capa e foi directamente ao palácio do arcebispo.
Perto do mercado, Broda alcançou o pajem, cumprimentou-o e convidou-o a entrar com ele na taberna para tomar uma caneca de vinho. Túlio olhou-o com desconfiança.
- Obrigado. - Respondeu, friamente.
Mas acho que o senhor não gosta do meu amo e... como fiel servo, não acho decente beber contigo.
- Muito bem dito, jovem.
Mas se você não acha necessário ser sempre inimigo de todos os que não gostam do cardeal, então aceite meu convite.
Pode ser que nossa conversa lhe agrade.
O pajem olhou fixamente para os olhos sinceros de Broda.
- Esta bem. Uma taça de vinho não compromete ninguém. - Respondeu ele.
Vamos lá, signore!
Broda levou seu jovem acompanhante a uma taberna conhecida e soprou no ouvido do dono para que lhe abrisse uma sala separada e servisse vinho, frutas e pastéis de mel.
Quando o taberneiro saiu, fechando a porta atrás de si, Túlio desandou a rir.
- Pastéis de mel? - Observou ele, sorrindo maliciosamente.
O senhor parece que está convidando a sua amada.
- Em todo caso, uma bonita mulher, querida Túlia! - Respondeu Broda, colocando sua mão sobre o ombro do pajem.
Este empalideceu e recuou.
- É mentira! - Gritou ele, com voz estranha e sacando um punhal.
- Deixe esse brinquedo de lado, querida!
Ele de nada vale diante da minha espada.
Além disso, juro que não tenho nenhuma má intenção para com você.
Eu só queria dizer, minha senhora, que conheço há muito tempo o costume de Brancassis de trazer consigo mulheres disfarçadas.
Percebi, entretanto, que a senhora não gosta muito do prezado Tomasso; e se uma mulher jovem e bonita como você sujeita-se a fazer esse papel ridículo para um homem que detesta, isso só pode significar que é obrigada a fazer tal coisa e, portanto, merece compaixão e ajuda de qualquer homem honesto.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 01, 2016 7:54 pm

Essa ajuda, se você a quiser, eu lhe ofereço sem tentar desvendar seus segredos.
Se não a quiser, juro por esta espada - e ele levantou o cabo cruciforme da espada - esquecer esta nossa conversa e deixá-la seguir o seu caminho.
Túlio ou Túlia ouvia-o, com olhar perdido, respirando com dificuldade e, de repente, deixou-se cair na cadeira.
- É verdade!
Sou mulher... - Sussurrou ela, com desânimo na voz.
Suporto esta vergonha e não posso defender-me, pois esta vergonha é obrigatória para salvar aqueles que me eram caros.
É uma longa história, mas, acredite-me signore: não sou vadia!
- Se eu pensasse assim, nem falaria com você.
Então, é uma pobre vítima do amor sujo daquele monge porco!
Túlia endireitou-se e seus olhos brilharam com um ódio selvagem.
- Amor? Como poderia ele amar mesmo com amor impuro? - Gritou ela.
Não, esse patife só conhece a vulgar paixão animal.
Oh! Não tenho palavras para expressar o asco que sinto por ele! - E ela apertou ambas as mãos contra o peito.
Se não fugi dele até hoje e se não procurei a salvação na morte, foi porque antes quero vingar-me dele.
Vigio cada passo seu e já destruí alguns de seus planos e ele nem suspeita de onde veio o golpe; só estou aguardando uma oportunidade para acabar com ele definitivamente, enquanto ele não me levar para onde levou as que me precederam.
Ela tremia como em febre e Broda tentava de todas as maneiras acalmá-la.
Eles tornaram-se amigos e Túlia informou-lhe de que alguma coisa estava sendo confabulada contra os Valdstein, prometendo avisá-lo assim que soubesse de algo mais concreto.
Eles saíram da taberna cada um por uma porta diferente.
Brancassis realmente pensava em liquidar Vok, o mais corajoso e ousado sacrílego; ele deveria pagar caro por ousar organizar a procissão bufa, assaltar mosteiros e tripudiar o clero.
O cardeal tinha em Hilário e em Bonaventura dois fidelíssimos comparsas.
Este último alimentava um particular ódio pelo jovem conde, após um facto que ocorrera com ele e cujo mentor ele acreditava ter sido Vok.
Certa vez, ao voltar da "Cidade Nova" para o palácio do arcebispo, o padre Bonaventura fora capturado por um bando de desconhecidos que o haviam arrastado para o quintal de uma casa, aplicando-lhe, sem dó, um correctivo.
Depois, os malfeitores haviam fugido levando consigo sua batina e os calçados, obrigando-o a voltar para casa só de camisola.
Mas, antes de ser atacado, o monge ouvira uma voz que gritara:
"É ele!" - e essa voz parecera-lhe ser do jovem conde Valdstein.
A paixão de Brancassis aumentava a cada dia, em decorrência da própria impossibilidade de satisfazê-la.
Por vezes, ele mal tinha forças para ocultá-la e, com a insolente ousadia que lhe incutiam a longa impunidade e a devassidão moral daquele tempo, ele resolveu apressar o desfecho.
Certa vez, após o meio-dia, Brancassis apareceu na casa dos Valdstein antes do horário normal e, dirigindo-se directamente para Rugena, declarou que, em virtude de sua partida que se aproximava, trouxera-lhe uma lembrança.
Então ele retirou, de um pequeno estojo, um medalhão em forma de coração, enfeitado de rubis e brilhantes.
- Trouxeram-me isto de Roma, há alguns dias.
Ele contém em seu interior uma pequena parte da Cruz do Cristo e a unha de uma santa mártir cujos restos foram descobertos recentemente nas catacumbas.
Pareceu-me que não poderia agir melhor do que entregando estes sagrados objectos em suas inocentes mãos.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 02, 2016 7:59 pm

Sentida com a atenção do cardeal, Rugena agradeceu de coração.
- Que isto lhe traga sorte! - Concluiu ele, parecendo compadecer-se.
Parece-me, minha filha, que você é infeliz, mesmo que nunca confiasse a mim o que se passa em seu coração.
- Eu não ousaria abusar do senhor, reverendíssimo. - Respondeu ela, confusa.
- Mas devia, minha filha!
Creia-me: tenho um sentimento paternal por você e motivos para saber o que se passa em sua alma.
Contudo, preferiria conversar com você no oratório.
Rugena olhou-o com surpresa, mas lhe pareceu impossível recusar um pedido tão simples a um prelado e ainda de tão alto posto, como Brancassis e, além do mais, ela estava curiosa.
Então, levantou-se imediatamente e conduziu o cardeal ao oratório onde lhe indicou a poltrona e ajoelhou-se ao seu lado no facistol.
- Não, minha filha, não pretendo tomar a sua confissão.
Você já tem um confessor de sua consciência e não quero tirar-lhe o direito.
Gostaria que você simplesmente me contasse, como amigo e sacerdote, se ama e respeita o seu marido e se é feliz com ele.
O tom e o olhar de Brancassis eram tão severos que Rugena murmurou, envergonhada:
- Eu tento por dever amar Vok...
Mas ele me traiu e ofendeu inúmeras vezes, nossas características não combinam e eu, às vezes, sinto-me muito infeliz.
- Você nunca sentiu vontade de livrar-se desses grilhões?... - Ele parou, percebendo que Rugena ficara bem corada.
Seu rosto já me deu uma clara resposta e mostra como devo agir para me livrar da dor de consciência.
Pois eu, involuntariamente, provoquei essa desgraça.
- Não estou entendendo.
- Já explico. Mas você conseguiria ficar calada até o momento certo?
- É claro, se for necessário... - Respondeu ela, com preocupação na voz.
Brancassis levantou-se e olhou atrás da porta do quarto vizinho.
Certificando-se de que lá não havia ninguém, ele voltou ao seu lugar e inclinou-se para Rugena.
- Prometo-lhe que receberá a possibilidade de procurar a felicidade com um outro que mereça o seu amor e que a Igreja desamarrará os laços que a mantêm unida a um homem que você nem tem obrigação de amar, pois ele conquistou-a de forma criminosa.
- O que o senhor está dizendo?
Que crime? - Exclamou Rugena, surdamente.
- O assassinato de seu pai!
Percebendo que Rugena cambaleava e estava quase desmaiando, ele tirou do bolso um frasco e deu-lhe para cheirar.
- Tenha forças, minha filha, para ouvir o que vou lhe revelar.
Rugena apertou a cabeça com as mãos.
Parecia-lhe que caía num abismo; mas queria saber toda a verdade de qualquer jeito e, com desesperada força de vontade, venceu a própria fraqueza.
- Pode falar, estou ouvindo!
- Você provavelmente se lembra de Eulália, uma criada italiana da condessa que casou em Bolonha no mesmo ano que você...
- Sim.
- Essa mulher morreu algumas semanas antes de minha viagem para cá.
Antes de morrer, na confissão, ela transmitiu-me todos os detalhes dessa maldade, deixando-me usar esse conhecimento como bem entendesse.
Eis o que eu soube:
no ano em que morreu seu pai, o conde Vok fez 16 anos e Eulália era sua amante.
Os Valdstein na época estavam quase arruinados em virtude das gastanças do velho conde e o único meio de sair da grave situação era tomar a enorme fortuna do barão Svetomir, fazendo você casar com Vok.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 02, 2016 7:59 pm

Então, começaram as conversações e seu pai consentiu no projecto, pois gostava do primo e eles só divergiam nas opiniões políticas.
Eu, pessoalmente, conversei com ele sobre isso quando estive em Rabstein e viajamos juntos a Praga, onde o barão deveria acertar essa questão com o conde.
Seu marido, mesmo sendo muito jovem na época, conhecia o valor do dinheiro e não queria esperar longos anos para utilizar a sua enorme fortuna - ou talvez tenha sido instruído pelo pai.
Enfim, eis o que eles planearam.
Eulália, apaixonada como uma gata por Vok, tagarelou-lhe um dia que sua mãe havia-lhe ensinado o segredo de um veneno que matava sem deixar vestígios - não imediatamente mas depois de um certo tempo, dependendo da dose.
Fazendo-a jurar silêncio, Vok ordenou-lhe que preparasse o veneno e separasse uma dose suficiente para que tivesse efeito somente após algumas horas e que não matasse antes de dois dias.
Numa estalagem de Pilsen, onde se hospedou seu pai, esse veneno foi colocado em sua bebida por uma criada comprada por não sei quem.
O crime aconteceu e o barão foi trazido moribundo para a casa do seu primo.
Sem nada desconfiar, e comovido pelo tratamento que lhe estavam dispensando, ele ditou o testamento que você conhece.
Rugena emudeceu.
Teve dificuldade de respirar, a cabeça girava e o coração doía no peito.
Seu adorado pai fora traiçoeiramente assassinado e o criminoso era o seu marido.
- Recomponha-se, minha filha. - Disse Brancassis, preocupado com sua aparência.
Entendo o seu horror de estar ligada a tal homem, mas, repito novamente:
prometo libertá-la dele!
- Agradeço-lhe, meu padre, por me ter aberto os olhos... - Sussurrou Rugena, surdamente.
- Temo que você não terá forças para ocultar a verdade.
Isso, entretanto, é necessário até eu enviar-lhe da Itália os documentos que confirmem o depoimento de Eulália, que possuo, com testemunhas.
Rugena jogou com as mãos os cabelos para trás e endireitou-se; ela estava terrivelmente pálida, mas seus olhos brilhavam, sombrios.
- Sim, vou guardar silêncio e esconder tudo, pois quero que o culpado seja acusado pelo assassinato e castigado com todos os rigores da lei. - Disse ela, baixinho.
- E isso é justo.
O sangue de seu pai clama por vingança do túmulo prematuro.
O desespero e a infelicidade que atormentavam a alma de Rugena foram suficientes para que não rejeitasse com repugnância aquele servidor da Igreja de Cristo que pregava o ódio e a vingança em vez da misericórdia.
Naquele momento, ela havia perdido qualquer capacidade de raciocínio e discernimento.
- Meu pai será vingado; e terei tempo de me recuperar, pois Vok só volta depois de amanhã.
Aparentando calma, ela foi à sala onde geralmente se reunia a família.
Lá fora chovia a cântaros e ela fez o cardeal ficar para jantar.
Brancassis apresentava um óptimo humor; mas o olhar atento de Ana percebeu que os olhos da amiga brilhavam febrilmente e que seus pensamentos estavam longe.
À sua pergunta, Rugena respondeu que estava com dor de cabeça, e Ana saiu da sala para lhe buscar um remédio.
Durante sua ausência, Brancassis, disfarçadamente, colocou na taça da jovem condessa o conteúdo de um minúsculo frasco que trazia escondido na mão.
Depois do jantar, o cardeal despediu-se imediatamente e foi embora, enquanto Rugena, alegando dor de cabeça, disse que estava indo dormir; na verdade ela sentia uma necessidade premente de ficar sozinha.
Despiu-se rapidamente e mandou dispensar a todos, inclusive Ana, e começou a andar febrilmente pelo quarto de um canto a outro.
Ela pensava no pai...
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 02, 2016 7:59 pm

Lembrava-se dele bonito e saudável, do jeito como era quando deixara o castelo.
De repente, uma raiva insana apoderou-se dela.
Por causa daquele malfeitor que ousara dar-lhe a mão assassina, ela fora obrigada a desistir de Jerónimo, suportando uma terrível luta moral interior somente para esquecer o homem amado e cumprir honestamente aquilo que considerava seu dever!
Naquele momento, ela sentiu uma tontura e um mal-estar.
"Estou nervosa demais!
Preciso deitar logo na cama!", pensou Rugena.
Com enorme dificuldade, pois suas pernas quase não a obedeciam, ela se arrastou até a cama e, ao deitar, adormeceu profundamente.
Os condes retornaram inesperadamente na mesma noite para casa.
Ao saber que a esposa estava doente, Vok não quis perturbá-la e foi para o seu dormitório onde lhe serviram o jantar, após o qual ele também se apressou em ir dormir, sentindo-se cansado.
Já era quase meia-noite e, na casa dos Valdstein, todos dormiam.
Somente Broda mantinha-se acordado e, como de costume, estava imerso na leitura da sagrada escritura.
De repente, uma pedrinha bateu na sua janela, depois outra e mais outra.
Broda sobressaltou-se.
Era o sinal nocturno combinado entre ele e Túlia, para o caso de ela precisar comunicar-lhe algo importante e inadiável.
Correu para a porta de entrada, cuja chave guardava consigo, e deixou entrar o pálido e ofegante pajem.
- Sua jovem senhora está correndo algum perigo! - Disse Túlia, apressadamente.
Hoje à noite, ao voltar daqui, Tomasso ordenou que Bonaventura viesse imediatamente para cá, trazendo consigo padre Hilário, ficasse aqui a noite toda e fosse, à meia-noite, abrir-lhe a porta lateral.
Você entende que o canalha pretende invadir a vossa casa com más intenções, ainda mais na ausência do jovem conde?
Não consegui ouvir tudo, mas eles falavam algo sobre um remédio soporífero, para que ninguém pudesse atrapalhá-los.
- O conde Vok voltou para casa sem ser esperado.
- Melhor ainda!
Talvez Bonaventura consiga avisar o cardeal, pois ele já deve estar aqui; consegui adiantar-me a ele em somente alguns minutos.
- Aguarde aqui que vou olhar o que está acontecendo por lá.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 02, 2016 7:59 pm

Capítulo VI

Sacando o punhal, Broda saiu correndo em direcção ao quarto de Vok.
O jovem conde dormia profundamente.
Ainda mais apreensivo ao perceber que Rugena estava sozinha em seus aposentos, o mestre-de-armas tentou acordar o adormecido para avisá-lo de que na casa havia uma visita inesperada, mas suas tentativas foram vãs:
o conde não se movia!
Não fosse sua respiração, poderia ser considerado morto.
Broda, preocupado, parou para pensar como agir quando, de repente, ouviu-se um som vindo do quarto vizinho, como se alguém tropeçasse num móvel.
Ele correu imediatamente para o fundo do quarto e escondeu-se nas dobras da cortina da cama.
Quase naquele instante uma pequena e insidiosa figura apareceu na porta e, como uma sombra, aproximou-se da cama - era Bonaventura.
Os minúsculos olhinhos, inteligentes e maliciosos, examinavam, receosos, todo o quarto, e o magro rosto de raposa do monge respirava uma raiva diabólica.
Inclinando-se sobre o adormecido, ele ouviu atentamente sua respiração, depois levantou um dos braços do conde e deixou-o cair inerte no cobertor.
Então, agarrou uma almofada de seda da poltrona ao lado da cama e colocou-a sobre o rosto de Vok, que gemeu fracamente.
Naquele instante, Broda agarrou o monge pelo pescoço, dobrou-o para trás e enfiou-lhe o punhal na garganta.
Bonaventura desabou nos degraus do baldaquim89 sem soltar um grito e segurando a almofada na mão.
Sem olhar para ele, Broda retirou a arma do ferimento e, sem vacilar, correu para os aposentos de Rugena.
Dissemos anteriormente que Ana notara a excitação anormal de Rugena e ficara observando-a, preocupada.
A rispidez estranha com que a condessa a mandara dormir inicialmente a ofendera.
Ana fora, então, para seu quarto e começara a despir-se.
Mas o amor à amiga e a preocupação haviam prevalecido e ela, agasalhando-se num largo traje nocturno, insinuara-se silenciosamente até o quarto de Rugena.
Pelo vão da cortina, Ana vira a amiga andando nervosamente pelo quarto, depois a vira arrastar-se lentamente até a cama e deitar-se, desfalecida.
Após aguardar por mais um quarto de hora, Ana entrara silenciosamente e aproximara-se dela; a condessa dormia, respirando com dificuldade, e seu rosto ardia, mesmo estando mortalmente pálido.
- Meu Deus! Tomara que ela não tenha adoecido de novo! - Murmurara Ana, apalpando, assustada, a húmida e fria mão da amiga, desfalecida sobre o cobertor.
"Seria bom chamar um médico, mas onde achá-lo a esta hora?", pensara ela.
Decidira, então, passar a noite à cabeceira da amiga para, no caso de aparecerem novos sintomas preocupantes, acordar Matias para que ele fosse buscar o doutor.
Ana ajeitara-se na poltrona junto à cama e, apoiando a cabeça no braço, começara a pensar no passado, no futuro e em Svetomir - que havia dois anos que não dava notícias.
O campanário vizinho batera meia-noite e isso fizera Ana sair do devaneio.
"Já está tarde", pensara ela.
"Mas não importa; fico mais um pouco e depois chamo litka para me substituir".
Menos de um quarto de hora depois, Ana cochilara.
Inesperadamente, um leve ruído fizera-a abrir os olhos.
Surpresa, ela aguçara o ouvido e ouvira claramente, pela segunda vez, o ranger de botas no corredor vizinho, que levava ao depósito de trajes, cheio de armários e baús.
Ela começara a imaginar o que seria aquele barulho, quando a porta que dava para o corredor se abrira e um homem alto, envolto numa capa escura, entrara sorrateiramente no quarto.
Ana ficara espantada ao ver o desconhecido que retirava a capa com agilidade e encaminhava-se directamente para a cama.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 02, 2016 8:00 pm

Então, ela o reconhecera:
era Brancassis!
Ele estava em trajes leigos e trazia um punhal na cintura; em seu rosto estava estampada tal paixão animal que a moça começara a tremer.
Mas Ana era corajosa por natureza e a emoção dera-lhe uma coragem ainda maior.
Com ar decidido, ela postara-se à frente do cardeal.
- O que o senhor faz aqui, num quarto onde não deveria entrar e ainda mais a esta hora?
Saia daqui ou vou chamar ajuda!
E ela começara a sacudir Rugena, gritando:
- Acorde Rugena! Acorde!
Inicialmente, Brancassis recuara, soltando um forte palavrão.
A presença de uma testemunha no momento em que estava tão próximo do seu objectivo enfurecera-o.
- Fora daqui, sua cobra!
Não ouse ficar no meu caminho, senão a esmagarei! - Sibilara ele, com voz surda de raiva.
Vendo as frustradas tentativas de Ana para acordar Rugena, ele rira, zombeteiro.
- Não se esforce à toa, cara Ana, pois não vai conseguir acordá-la!
Mas, como o próprio diabo a trouxe aqui, então você pagará o seu tributo.
Em sua cabeça acendera-se de repente a monstruosa ideia de desonrar Ana e, depois, matá-la ali mesmo para se certificar do seu silêncio, pois, além dela, ninguém poderia revelar sua maldade, tão habilmente tramada.
Segurando Ana, ele arrancara-a da cama onde ela se agarrara e tentara derrubá-la no chão, mas a moça defendera-se desesperadamente e só não conseguira gritar porque o horror fechara sua garganta.
Seus gritos não saíam, mas suas forças pareciam dobrar, e Brancassis fora obrigado a usar de toda a sua agilidade.
Fora de si, com raiva, o cardeal tentara puxar o punhal, sem soltar a jovem; sua respiração quente batia no rosto dela e ela mordera-o na face.
A terrível dor fizera-o perder o controle.
Brancassis rugira surdamente e, enlouquecido pela fúria, agarrara Ana pelo pescoço.
Semi-sufocada, ela começara a desfalecer.
Parecia-lhe que o cérebro rasgava-se em pedaços; a consciência do horror do crime que sofria fora engolida por uma dor insuportável e ela desfalecera...
Nesse instante a porta abriu-se e Broda irrompeu no quarto.
Um olhar foi o suficiente para que ele entendesse o que acontecera.
Com um rugido selvagem, ele caiu sobre Brancassis e cravou o punhal em suas costas.
Indefeso, o cardeal abriu os braços e caiu, inerte.
Então Broda afastou-o com o pé e inclinou-se sobre Ana, caída como morta.
- Meu Deus! O que aconteceu?
Ouviu-se a voz de Litka, que entrou correndo no quarto com a vela na mão, semi-vestida e com o cabelo desarrumado.
Ao ver e perceber tudo o que acontecera, ela deixou cair o candelabro e tapou o rosto com as mãos.
- Mais tarde você terá tempo para gritar, Litka. - Disse Broda, levantando a vela e colocando-a na mesa.
Corra e acorde Matias.
Chame-o aqui rapidamente para levarmos a pobrezinha e jogar fora este animal.
Depois, é preciso ajudar a jovem senhora, que dorme um sono suspeito.
Acrescentou ele, aproximando-se da cama e examinando atentamente o rosto pálido de Rugena, que continuava a dormir sem perceber o que se passava à sua volta.
- Pobrezinha! Acho que o espírito de seu pai protegeu-a. - Murmurou ele.
Após alguns minutos, apareceu Matias, também semi-vestido.
Ana foi, então, levada para seu quarto, ficando sob os cuidados de Litka.
- Agora - disse Broda -, vou acordar o velho conde.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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