Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 02, 2016 8:00 pm

É mais seguro receber ordens dele.
Vamos deixar que ele veja onde estão caídos os dois patifes, para que não caia sobre nós nenhuma suspeita.
Antes de ir acordar o conde, Broda passou pelo próprio quarto para informar Túlia sobre tudo o que acontecera.
- Ah! Ele está morto!
Finalmente sua alma voltou ao inferno de onde saiu! - Exclamou ela, alegremente.
- Meus senhores irão recompensá-la por esta ajuda! - Respondeu Broda, apertando a sua mão amigavelmente.
O conde Hinek e a esposa ocupavam a parte oposta da casa; Broda irrompeu como um furacão e começou a contar os detalhes do que acontecera.
Inicialmente, o conde não acreditou nos próprios ouvidos e a condessa entendeu somente que Brancassis e Bonaventura estavam mortos.
Essa situação parecia-lhe tão monstruosa que ela desandou a gritar, prantear, xingar e quase pulou no pescoço de Broda para matá-lo.
Somente depois que o conde conseguiu explicar-lhe que Broda salvara a vida de Vok - que o monge tentara sufocar -, ela pulou da cama e, descalça, correu para os aposentos do filho.
Ao ver Bonaventura deitado numa poça de sangue e ainda segurando a acusadora almofada na mão enregelada, e após se certificar de que Vok estava deitado como morto, a condessa desmaiou e foi levada embora.
Mal Matias e Broda saíram do quarto de Rugena, lá entrou sorrateiramente, pálido e emocionado, padre Hilário.
Ajoelhando-se ao lado de Brancassis, ele apalpou-o com as mãos trémulas; ao colocar o ouvido no peito do cardeal, estremeceu e endireitou-se - pareceu-lhe que o coração batia, mesmo fracamente.
Sem vacilar, embrulhou Tomasso em sua capa e, agarrando-o pelos ombros, arrastou-o para fora do quarto.
Já estava perto da porta quando entrou Iitka, que havia deixado Ana aos cuidados de outras criadas.
Ela, entretanto, somente o deixou passar, com desprezo.
Hilário arrastou o corpo para o seu quarto, trancou a porta por fora, e saiu rapidamente de casa.
Voltou logo, acompanhado de alguns monges do mosteiro vizinho.
Os corpos de Brancassis e Bonaventura foram colocados numa liteira e levados imediatamente ao arcebispado.
Ao saber de Iitka que o corpo do cardeal e o do padre haviam sido levados por Hilário, o velho Valdstein somente sorriu, zombeteiro; talvez assim fosse melhor, senão aquele triste acontecimento faria
muito barulho na cidade.
Ao ver Ana deitada e sem sentidos, o coração do conde encheu-se de raiva e pena.
Rugena acordou tarde e sentindo-se mal.
A cabeça parecia estar cheia de chumbo e os pés e mãos pareciam congelados; sentia-se tão fraca que tinha dificuldade para pensar e entender.
Apesar disso, quando Iitka trouxe-lhe leite, ela percebeu imediatamente o ar desolado de sua aia e perguntou, preocupada, se acontecera algo na casa.
- Conte-me toda a verdade.
Quero saber de tudo! - Gritou ela, imperiosamente, vendo que Iitka não se decidia a responder às suas perguntas.
A simples Iitka não ousou desobedecer e começou a contar tudo, evitando inicialmente alguns detalhes.
Aos poucos, entusiasmando-se, contou a incrível aventura nocturna.
Rugena ficava vermelha e pálida ao saber do perigo que correra e que fora evitado por puro acaso e, mesmo assim, mediante o alto preço da desonra da amiga.
- Oh! Mas que patife!
Só um patife pode decidir-se por tal crime!
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 02, 2016 8:00 pm

Fui salva por Deus, mas Ana, minha querida Ana, quase morreu em meu lugar e foi desonrada para sempre!
Por que Broda não chegou a tempo de evitar essa desgraça?
O que Ana está fazendo?
Como ela está?
Quero vê-la! - Dizia Rugena, por entre as lágrimas.
- Acalme-se, senhora!
A pobrezinha agora está dormindo.
O médico já esteve aqui e deu-lhe um remédio para dormir, temendo por sua saúde mental, pois quando Ana voltou a si, começou a se portar como louca.
- Quero vê-la!
- Espere, a senhora também está ainda muito fraca, e junto dela está agora Marga Nakhodsky, que eu mandei chamar.
Quando Iitka começou a contar o perigo que Vok também correra, Rugena cortou-a de repente; dentro dela explodiu toda a ira contra Vok e o velho conde.
Se os desprezíveis assassinos de seu pai tivessem morrido, isso somente seria justo.
Em sua excitação nervosa, Rugena não percebia que um patife como Brancassis poderia perfeitamente ter mentido; sua convicção até reforçou-se quando ela viu que litka ficou confusa e empalideceu ao ouvir suas palavras:
- Nunca mais me lembre o nome desse malfeitor, contra o qual clama o sangue de meu pai!
Iitka! - Acrescentou ela, fora de si.
Se você sabe algo sobre esse crime, conte-me.
Como ousou esconder de mim por tanto tempo essa verdade?
Como permitiu a realização desse casamento criminoso?
- Não sei de nada... - Murmurava a velhinha, confusa.
Mas Matias acha que o testamento foi falso.
Naquele instante, abriu-se a porta e no quarto entraram ambos os condes.
O pálido Vok estava com um ar perdido e apoiava-se no braço do pai.
As frias compressas e as massagens mal haviam conseguido tirá-lo do pesado torpor.
A história do acontecimento nocturno chocara-o e, em seguida, provocara tal explosão de fúria que o pai tivera dificuldade para acalmá-lo, convencendo-o de que os culpados estavam mortos e, consequentemente, já teriam recebido o castigo merecido.
Reforçando-se com uma taça de vinho, Vok desejou ver a esposa.
Nunca antes ele a amara tão profunda e sinceramente como naquele momento em que um milagre devolvera-a incólume, a salvo da terrível profanação.
Ao ver Rugena pálida, abalada e com os olhos inchados de lágrimas que ainda corriam por suas faces, ele correu para ela de braços abertos.
- Acalme-se, querida! - Exclamou ele e quis puxá-la para si.
Então Rugena não conseguiu mais se segurar.
As palavras de Litka sobre o falso testamento ainda soavam em seus ouvidos e confirmavam a acusação de Brancassis.
Todos os seus nervos tremiam e, em sua imaginação inflamada, a sombra de seu pai pairava entre ela e o marido.
- Não me toque! - Gritou ela, recuando com tanto horror ostensivo que Vok, confuso, parou e baixou os braços.
- Rugena, volte a si.
Você está delirando!
- Não! Acabou somente a minha cegueira.
Deixe-me ir a Rabstein.
Não posso ficar mais um instante sob o seu tecto.
Os condes entreolhavam-se, surpresos.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 02, 2016 8:01 pm

Ficou claro que eles estavam imaginando que ela enlouquecera; Rugena percebeu isso, o que provocou uma nova explosão em sua alma dolorida.
- Ah, não! Ainda não estou louca!
Só que, agora, sei de toda a verdade sobre a morte de meu pai e não quero mais permanecer esposa do homem que incitou o próprio pai a matar o meu! - Gritou ela, tempestuosamente.
No primeiro momento o conde e o filho ficaram pasmados.
Em seguida, Vok explodiu e, agarrando o braço de Rugena, apertou-o até doer.
- Como você ousa acusar-nos disso? - Disse ele, com voz surda.
Prove! Tais acusações devem ser confirmadas.
- A prova incontestável - a confissão de sua ex-amante Eulália - ainda não está em minhas mãos.
Mas para você é suficiente saber que ela confessou todos os detalhes do envenenamento que executou por sua ordem.
Vok ficou mortalmente pálido e largou seu braço.
- Providenciarei para que se faça uma minuciosa busca para explicar todas as circunstâncias da morte do barão Rabstein! - Disse ele, com voz trémula de fúria e medindo a esposa com olhar irado.
Deus é testemunha de que não a reterei na casa de assassinos.
Pode ir embora livremente e viver em qualquer de seus castelos.
Mas o facto de me considerar capaz de tal maldade é uma profunda ofensa para mim e exigirei a sua retractação assim que a verdade for restabelecida.
Ele pegou pela mão o velho conde - que também ouvira, indignado, a acusação - e levou-o consigo do quarto, dizendo:
- Vamos, pai!
Não temos mais nada a fazer aqui.

89 Espécie de dossel, sustido por colunas e com cortinados pendentes, usado para adornar andares, leitos e tronos - Nota da editora.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 02, 2016 8:01 pm

Capítulo VII

Ficando só, Rugena desabou na poltrona, e seu terrível estado nervoso derramou-se em lágrimas.
A surpresa e a indignação do marido haviam soado tão sinceras que, dentro dela, a certeza de sua culpa ficara involuntariamente abalada.
Mas o crime fora sem dúvida cometido por alguém...
Quando se acalmou um pouco e as lágrimas secaram, ela - apesar de toda fraqueza - quis ver Ana.
Mas não teve tempo de sair do quarto, pois a criada veio informar que Jan Huss chegara.
- Oh, padre Jan!
O próprio Deus enviou-o hoje aqui para me iluminar e ajudar na confusão que está em minha mente. - Falou Rugena, animadamente, estendendo ambas as mãos ao seu confessor, que também parecia preocupado.
- Broda esteve em minha casa e contou o que houve aqui. - Disse ele, sentando-se ao lado de Rugena.
Depois, passando a mão pelo próprio rosto, acrescentou, tristemente:
- De que patifarias são capazes esses servidores de altar!
Mas fale, minha filha!
Vou tentar acalmar a sua alma.
Com a voz trémula de emoção, Rugena narrou tudo o que Brancassis lhe contara sobre o assassinato do pai, e não escondeu que a indignação do marido e do sogro, ao serem acusados de envenenamento, parecera-lhe sincera.
- Em quem e em que devo acreditar?
Estou perdida nesse emaranhado de mentiras e crimes... - Concluiu Rugena, em lágrimas.
Huss ouvia-a, preocupado.
Então, veio-lhe a lembrança da suspeita de Jerónimo naquele dia ao saber da inesperada e estranha morte do barão Svetomir.
- Neste momento, só posso lhe dizer que é bom duvidar de uma fonte tão imunda como Brancassis. - Disse ele, depois de pensar um pouco.
A paixão dele por você, confirmada por esse acto criminoso, explica sua intenção de provocar o rompimento entre Vok e você por meio de calúnias.
Portanto, é pouco provável a culpa de ambos os condes; apesar de todas as suas fraquezas puramente humanas, eles são pessoas nobres e cristãs.
Temo que você tenha agido precipitadamente acusando seu marido de tão terrível crime!
É uma grave ofensa, principalmente se imerecida.
Mas não se preocupe. - Acrescentou ele, vendo a jovem condessa empalidecer.
Esse ato ignóbil irá certamente ser desvendado e Deus ajudará a encontrar os verdadeiros culpados.
Mas, por enquanto, reze, minha filha!
Creia-me: numa alma com fé não há lugar para escuridão e rancor; a verdadeira prece sai do coração, como um brilhante raio de luz, que ilumina o abismo das dúvidas e indica o caminho do dever.
Eu agora vou visitar a pobre Ana e tentar acalmá-la.
- Deixe-me ir contigo, padre Jan!
Ainda não vi Ana hoje.
Deus sabe que lhe devo gratidão eterna.
- Vamos, minha filha.
A pobre moça precisa mais do que nunca de caloroso afecto.
No quarto de Ana, ao lado de uma grande cama com cortinas verdes de lã, estava sentada Marga.
Toda em lágrimas, ela tentava acalmar a paciente.
Ana, com o rosto em fogo febril e um olhar imóvel e inchado, tentava pular da cama, gritando selvagemente:
- Deixe-me, Marga!
Quero pôr um fim a esta existência sem honra, terrível e inútil.
Não me fale de Deus!
Ele me abandonou e esqueceu de mim, senão eu não teria sido desonrada...
Tomada por um acesso de fúria, ela de repente empurrou Marga com tanta força que esta quase caiu no chão.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 02, 2016 8:01 pm

- Deixe-me, estou lhe dizendo!
Não posso viver com tal humilhação, nem posso suportar nenhum olhar puro...
Rugena, que seguia atrás de Huss, ficou petrificada ao ver tal desespero.
O rosto desfigurado da amiga e as manchas escuras em seu pescoço perturbaram tanto Rugena, que ela quase perdeu a consciência.
- Senhora Marga!
Leve daqui a condessa.
Ela poderá vir depois, quando melhorar.
Enquanto isso, vou ficar aqui com a paciente. - Disse Huss.
E Marga levou embora a definitivamente enfraquecida Rugena.
Ao ouvir a voz do pregador adorado por todos, Ana soltou um selvagem grito e enterrou o rosto no travesseiro.
Huss sentou-se junto à cama e pegou-a pelas mãos; todo o corpo de Ana estremecia em prantos.
- Minha filha, você não tem nada para esconder de mim. - Disse ele, amigavelmente.
Aos meus olhos, tanto quanto aos olhos de qualquer homem honesto e justo, você sempre será a inocente vítima de um crime.
Todavia, por mais duro que seja o seu destino, como pode imaginar por um instante que Deus a tenha esquecido e abandonado?
Ele lhe concedeu uma provação e você deve ter fé, pois tudo o que Ele lhe mandar é para o bem.
Você deve submeter-se à vontade divina, não blasfemar nem procurar consolo no suicídio.
Somente Deus Todo-Poderoso, que traça os destinos humanos, sabe o motivo de todos os motivos e já condenou o seu carrasco, convocando-o diante do Seu trono.
Ana imediatamente endireitou-se.
- Ele morreu?
- Sim, conforme me disseram.
- Oh, por que ele morreu?
Quem ousou matá-lo antes que eu o estrangulasse com as próprias mãos e me satisfizesse com o sofrimento de sua agonia?
Com as mãos firmemente apertadas, olhos injectados de sangue e um sorriso selvagem que arreganhava seus dentes brancos, ela estava realmente terrível..
Huss apertou a sua mão e olhou com severidade nos olhos febrilmente acesos da paciente.
- "A minha vingança será terrível", disse o Senhor, e Seu julgamento é mais terrível que o julgamento humano.
Cristo perdoou os inimigos e rezou por Seus algozes.
Como você ousaria agora, com o coração cheio de ódio e sede de vingança, cair de joelhos diante da cruz do Senhor e pedir-lhe misericórdia? - Disse Huss, com severidade.
Ana estremeceu e, como se quebrada pelo ataque de fúria, caiu sem forças nas almofadas.
Huss ajoelhou-se à cabeceira da cama e colocou as mãos sobre a testa febril de Ana.
Dirigindo seu olhar para o crucifixo pendurado na parede, começou a orar fervorosamente e de suas mãos parecia emanar uma força revigorante.
A excitação da paciente acalmou-se aos poucos e somente lágrimas amargas caíam por suas faces pálidas.
Finalmente, as lágrimas secaram e ela caiu em sono profundo.
Certificando-se de que a pobrezinha adormecera, Huss levantou-se, orou mentalmente mais uma vez e saiu silenciosamente.
No quarto contíguo, Marga aguardava-o.
- E então? - Perguntou ela, preocupada.
- Ela dorme e espero que acorde mais calma e dócil.
Diga-lhe que amanhã, após o almoço, virei visitá-la.
Ele dirigiu-se para a saída onde um pajem o alcançou e pediu para acompanhá-lo aos aposentos do jovem conde.
Quando Huss entrou, Vok andava pelo quarto com ar sombrio, enquanto o conde Hinek, também com ar preocupado, estava sentado junto à janela.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 02, 2016 8:01 pm

O velho conde lembrava-se, naquele instante, da suspeita que tivera ao saber da inesperada morte do primo.
Ele tinha consciência de estar inocente de qualquer participação no crime, se é que realmente houvera algum.
- Gostaria de pedir-lhe um conselho, mestre Huss, sobre um caso muito difícil. - Disse Vok, cumprimentando-o com a mão.
- Posso adivinhar do que se trata!
A senhora Rugena contou-me a diabólica história inventada por Brancassis que a confundiu completamente.
- Mas é preciso desvendar esse caso!
O que disse a ela aquele patife? - Interrompeu o conde Hinek.
Huss relatou-lhes detalhadamente tudo o que ouvira de Rugena.
- Se querem ouvir meu conselho - acrescentou ele -, perguntem ao Matias.
Penso que ele pode lhes dar algumas pistas.
- Vou imediatamente mandar chamá-lo.
O pior é que Eulália foi realmente minha amante.
Todo o resto é uma insolente mentira!
E precisava Brancassis morrer bem no momento mais necessário, sem desenvencilhar a própria teia?
Mas Vok estava enganado. Brancassis não morrera.
É claro que a força descomunal de Broda tê-lo-ia matado na hora, se o previdente italiano não estivesse usando sob a roupa uma cota de malha fina.
O golpe, entretanto, fora tão forte que, mesmo quebrando a lâmina, a malha de aço entrara profundamente no corpo.
A dor fora intensa e Brancassis perdera os sentidos temporariamente, fazendo Broda acreditar que ele estivesse morto.
No arcebispado ficaram com medo de mantê-lo e por isso o transferiram imediatamente para o mosteiro de Strakhov.
Lá, ele finalmente voltou a si e o abade do mosteiro, condescendente com as aventuras amorosas do cardeal, cercou seu ilustre visitante de todos os cuidados.
Bonaventura morrera mesmo e acabou sendo enterrado às escondidas.
Quando Matias chegou e o conde ordenou-lhe que contasse, sem omitir nada, tudo o que sabia sobre a morte de seu senhor, o velho assustou-se e ficou calado e confuso até os condes o convencerem do quanto precisavam saber da verdade.
Somente então ele abriu a boca, expressando a suspeita de que o barão Svetomir fora envenenado durante o jantar que lhe havia servido uma desconhecida servente da estalagem.
- A servente antiga adoeceu de repente e o estalajadeiro disse que a nova servente fora recomendada por um padre de Pilsen.
Ela trabalhou lá por uma semana e depois foi embora, sumindo sem dar notícias...
- Aparentemente, já descobrimos a mão criminosa; resta saber quem a dirigiu. - Observou Huss.
- Tenho uma suposição quanto a isso. - Disse Matias e hesitou.
- Fale, homem! Fale logo! - Exclamaram ao mesmo tempo ambos os condes.
- Quando me mudei para o vosso castelo, num dia do primeiro mês, eu voltava de uma aldeia vizinha quando, perto do moinho do velho Khvala, ouvi vozes por entre arbustos.
Uma delas me pareceu a voz de padre Hilário e eu, curioso, aproximei-me sorrateiramente e espiei.
Era ele na companhia da mesma moça que reconheci como servente da estalagem e que serviu o jantar ao senhor barão.
Depois disso, nunca mais a vi.
Vok olhou sombrio para o pai.
- Se o Hilário está implicado nesse crime, então por trás dele esconde-se minha mãe.
Mas eu espero, pai, que isso não vá impedi-lo de seguir em busca da verdade!
- De modo algum!
Eu próprio quero saber a verdade, e se Iana for culpada, vou obrigá-la a confessar.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 02, 2016 8:01 pm

- É difícil obrigar mamãe a alguma coisa, principalmente agora que, como me disseram, ela está doente.
Não poderíamos tentar ouvir em segredo as suas conversas com o monge?
Talvez, depois do que houve, eles acabem falando alguma coisa que nos indique como agir.
- É ruim espiar os outros. - Observou Huss.
- Certo, padre Jan, é ruim.
Mas é muito pior ser acusado injustamente de assassinato!
Qualquer meio é válido para provar a minha inocência. - Respondeu Vok, num tom de insatisfação.
- Talvez eu possa arranjar o que você quer. - Disse o velho conde, depois de pensar um pouco.
Perto do oratório de sua mãe existe um esconderijo secreto de onde se pode ouvir e ver tudo o que se passa ali e até entrar no oratório, se necessário.
Esse esconderijo foi construído por meu avô, e meu pai mostrou-o a mim no dia do meu casamento com Iana.
Nunca o utilizei - não é do meu carácter - e nunca imaginei que esse esconderijo nos seria útil em circunstâncias tão tristes... - Concluiu ele, suspirando profundamente.
Mas tudo vem para melhor!
Vá, Matias, verifique se Hilário está em casa ou com a condessa e volte aqui para nos contar.
Passou-se um quarto de hora.
Os condes e Huss continuaram conversando sobre tudo o que acontecera e o que ainda poderia acontecer, quando Matias voltou e informou que Hilário havia saído de casa desde que retirara "sua carniça", mas que acabara de voltar e estava com a condessa Iana.
- Então, não podemos perder tempo.
Venha connosco, padre Jan.
Quero que o senhor seja testemunha.
E você, Vok, traga Rugena aqui.
Rugena estava semi-deitada na poltrona, com a cabeça pesada; sentia-se física e moralmente destruída.
Ela tinha ido visitar Ana e o encontro com a infeliz amiga abalara-a definitivamente.
A chegada do marido quebrou sua tranquilidade; ao vê-lo, ela levantou-se vagarosamente.
- Siga-me! Talvez saibamos agora quem são os verdadeiros assassinos do seu pai! - Disse Vok, secamente.
Mas, vendo que ela balançava a cabeça negativamente, ele agarrou-a pelo braço.
- Você vai comigo agora mesmo!
Se acreditou, sem reflectir, nas histórias do pérfido patife a ponto de acusar a meu pai e a mim de assassinato, então agora, queira ou não, terá que ir até o fim! Entendeu?
Rugena levantou-se calada e, mesmo com tonturas, seguiu Vok até onde estava o velho conde.
Ali, a presença de Huss teve o dom de acalmá-la.
Os quatro entraram no gabinete de trabalho de Hinek e este apertou uma alavanca na parede; uma porta, disfarçada por um grande baú metálico, abriu-se imediatamente.
Por um longo e estreito corredor, feito provavelmente dentro da parede, eles entraram num pequeno recinto, que tinha numa de suas paredes vários pontos brilhantes.
O velho Valdstein distribuiu cuidadosamente Rugena, Huss e o filho entre aqueles pontos, que eram, nem mais nem menos, orifícios na parede encobertos do outro lado por entalhes da moldura de um quadro pendurado no próprio oratório.
De lá, ouviam-se nitidamente as vozes da condessa e de seu confessor.
Tremendo de emoção, Rugena colou o olho no orifício e percebeu que daria para ver e ouvir tudo.
O oratório era um quarto amplo; nele havia um facistol, colocado em frente ao traiçoeiro quadro, duas cadeiras desmontáveis, uma poltrona e uma mesa com gavetas, de finíssimo acabamento.
No fundo da sala via-se uma lareira.
Perto dela estava sentada a condessa, aquecendo-se enrolada numa manta já que se sentira mal por ter-se resfriado à noite ao correr descalça para os aposentos do filho.
Seu rosto amarelado revelava preocupação.
Hilário estava parado diante dela, com as mãos nas costas.
Ele também parecia um pouco emagrecido e encurvado e seus pequenos olhos corriam de preocupação.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 02, 2016 8:02 pm

- Mais tarde terei tempo de responder a todas as suas perguntas, minha filha.
Agora, precisamos acertar uma situação extremamente importante, que é preciosíssima para nós.
Eu soube disso ainda ontem, mas já era muito tarde para falar com a senhora, e os acontecimentos nocturnos mantiveram-me fora de casa até agora.
Para resumir, direi somente que o cardeal contou a Rugena o segredo da morte forçada do seu pai.
- Isso é impossível! - Exclamou a condessa, empalidecendo.
- Eu soube disso pelo Bonaventura e pela Maria, a criada da jovem condessa; ela gosta de mim e conta tudo o que pode me interessar!
O facto por si só é incontestável; mas na história, o cardeal colocou como mandantes e executores do crime seu marido e seu filho.
- Para que tantas mentiras?
Naquela hora Hinek estava em Praga, Vok estava no castelo Valdstein e ambos nada sabiam da nossa decisão final.
Provavelmente Brancassis deve ter perdido a cabeça, ao jogar sobre o nosso pescoço essa velha história que há muito tinha sido esquecida e que, na época, foi realizada com tanta maestria que nunca ninguém teve a mínima suspeita.
E isso foi muita maldade da parte dele, pois para o perdão desse pecado eu lhe paguei generosamente.
- Que o caso foi muito bem executado, é certo!
Mas o demónio jogou sobre o cardeal Tomasso uma malfadada paixão por vossa nora que o levou a revelar-lhe a verdade - uma verdade deturpada, com o claro intuito de separá-la do marido.
E esse mesmo demónio também pode nos aprontar alguma coisa!
- Eu, sinceramente, não sei o que os homens vêem naquela cara pálida de Rugena!
Quanto ao caso Rabstein, penso que o senhor, padre Hilário, está preocupado por nada.
Não há nenhuma prova.
O cardeal me confirmou que o veneno não deixa rastros e depois, ninguém viu...
- Deus viu! - Trovejou nesse instante uma voz ameaçadora.
A moldura com o quadro afastou-se do lugar e descobriu o esconderijo de onde Vok saiu, pulou em cima de Hilário e, jogando-o de bruços no chão, colocou um punhal em sua garganta.
A condessa gritou.
O aparecimento inesperado do filho surpreendera-a tanto que ela não percebera a porta que se abrira na parede.
Pulando em cima do filho, ela tentava tirar a arma de suas mãos.
- Você enlouqueceu?
Como ousa atacar o meu confessor e quebrar a minha privacidade? - Gritava ela.
Mas o conde Hinek arrancou-a de Vok e empurrou-a para a parede.
- Nós ouvimos o que você discutia em sua privacidade.
- Fale, seu cão imundo!
Confesse o seu crime, senão lhe furo os olhos! - Dizia Vok e sua lâmina dançava diante do rosto mortificado do monge.
Mas Huss correu até ele e segurou sua mão.
- É melhor prometer-lhe a vida, para ele confessar tudo.
Não suje as suas mãos com seu desprezível sangue! - Observou ele.
- Tem razão, padre Jan!
Que ele vá para o inferno, desde que confesse tudo! - Interrompeu o velho conde.
Deixe-o, Vok, para que ele possa falar.
Hilário ficou de joelhos, tremendo de medo e com os olhos esbugalhados.
- Vocês prometem que não vão me tocar se eu contar tudo? - Murmurou o monge.
— Tem a nossa palavra! - Responderam a uma voz os condes.
Então Hilário contou, com voz entrecortada, todos os detalhes do envenenamento do barão Svetomir.
Depois, contou também tudo o que sabia sobre o plano de Brancassis - que tentava Rugena com a esperança de divórcio a fim de atraí-la para a Itália.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 02, 2016 8:02 pm

Bonaventura, entretanto, tomara uma decisão diferente; suspeitando de que Vok fora o culpado por seu açoitamento com varas de marmelo, ele repentinamente resolvera aproveitar o retorno inesperado do jovem conde para matá-lo.
Ele tinha à mão não um veneno, mas um soporífero que havia preparado a mando de Brancassis.
Por ordem de Hilário, a criada Maria colocara-o na refeição servida no jantar do conde.
"Em vez de divorciar-se, ela enviuvará", observara Bonaventura naquela hora.
Mas a presença de Ana no quarto de Rugena arruinara o plano tão bem idealizado.
- Muito bem! - Disse o conde, quando o monge acabou a sua história e enxugou o suor da testa.
Agora saia daqui, seu patife!
Que seus pés nunca mais pisem a soleira de minha casa.
E não ouse aproximar-se de minhas propriedades, senão os meus homens irão enforcá-lo como a um cão!
Hilário levantou-se com tal agilidade que faria os presentes rirem numa hora diferente, e desapareceu pela porta.
Durante o longo depoimento do seu confessor, a condessa ficara petrificada, mas pelo jeito já havia recuperado seu sangue-frio:
não tirava o olhar sombrio, cheio de ódio, de Rugena, que caíra em prantos durante a terrível história de Hilário.
Quando o monge saiu, o conde Hinek aproximou-se da esposa e, medindo-a com um olhar de desprezo, disse:
- Já livrei a minha casa de um monstro.
O que devo fazer com você, sua inútil, que ousava se aproximar de mim ou beijar o seu inocente filho sendo culpada de assassinato duplamente terrível, pois se tratava de um parente próximo?
Você não tem nem vergonha nem dor de consciência?
Você não teme ter de responder por isso após a sua morte?
Não treme ao imaginar como aparecerá diante do Senhor com as mãos manchadas com o inocente sangue do pobre Barão Svetomir?
A condessa levantou a cabeça, orgulhosa.
- Não me arrependo de nada! - Disse ela, desafiadora.
O que fiz foi com amor de mãe, para garantir ao meu filho um futuro brilhante!
Estou tranquila, pois a minha consciência está calada e posso aparecer sem medo diante do trono do Altíssimo...
- Ou você enlouqueceu ou, definitivamente, perdeu qualquer noção sobre Deus e Suas leis. - Interrompeu-a o conde.
- Não, não estou louca, e a minha fé me salvará!
A indulgência do representante de Cristo, que tem o poder de juntar e perdoar na terra, perdoou o meu pecado e me abriu as portas do céu.
Veja! - Ela correu até a mesa e, abrindo a gaveta com a chave que trazia pendurada no cinto, retirou de lá uma folha dobrada de pergaminho que entregou ao marido.
- Leia, infiel! Esta é uma indulgência completa não só para mim mas também para você, seu ingrato, e até para os meus descendentes.
Entende agora toda a injustiça de suas acusações?
Os presentes olhavam com horror para a condessa e ela encarava-os, calma e desafiadoramente.
-Ah! Você tem uma indulgência!?
Mas como pude me esquecer desse escudo por trás do qual se esconde tanta maldade?
Sorriu, amargamente, o conde, abrindo o pergaminho e lendo seu teor, sublinhando, zombeteiro, cada palavra.
Sufocando de raiva, ele arremessou o pergaminho na lareira acesa, dizendo:
- Este é o valor que eu dou a esse acordo diabólico, firmado entre o Anticristo e o satanás para arruinar almas e obrigar idiotas a cometerem crimes!
A condessa gritou selvagemente e segurou a cabeça com as mãos.
No primeiro instante ela ficou parada e boquiaberta, olhando com horror para as chamas onde o pergaminho enegrecia e enrugava; depois correu para a lareira e meteu a mão no fogo.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 02, 2016 8:02 pm

Ela tentava salvar o precioso documento, sem ligar para o perigo e as queimaduras, pois para ela aquele papel garantia-lhe completa segurança.
As mangas largas da roupa da condessa incendiaram-se imediatamente e Vok e Huss correram para afastá-la do fogo e apagar o traje que queimava.
Ela parecia nada ver nem entender, olhando fixamente para o rolo em chamas.
Quando o último pedaço transformou-se em cinzas, a condessa jogou-se no chão e, urrando, começou a rolar em terríveis convulsões.
Sua força era tanta que os três homens não puderam com ela e tiveram de chamar Broda.
Com a ajuda do mestre-de-armas, conseguiram retirar a condessa Iana de lá - os gritos estridentes da mulher podiam ser ouvidos por toda a casa.
Rugena, horrorizada, procurou a protecção de Huss.
Este, também profundamente chocado, tentava acalmá-la.
O velho conde e Vok, estupefactos, permaneciam em silêncio.
- Meu Deus! - Suspirou Huss, persignando-se.
Que terrível exemplo da maléfica influência das indulgências tivemos aqui!
Não é o dever de qualquer pessoa honesta lutar na medida de suas forças contra o abuso da fé simples do ser humano?
A pobre condessa, cega pelo fanatismo, não suportou ver a destruição desse pedaço de pergaminho cheio de mentiras.
Nenhum desses enganados se pergunta por que Cristo nunca disse nada sobre tão importantes documentos, se eles realmente têm algum significado no céu?
- Tais ilusões são terríveis! - Confirmou, suspirando, o conde Hinek.
E dirigindo-se a Rugena, disse, com amargor:
- Você percebe que Vok e eu somos inocentes na morte de seu pai?
Infelizmente, não podemos consertar todas as consequências do crime.
- Desculpe, pai, a minha injusta ofensa, mas eu fiquei por demais chocada, e tudo estava contra vocês... - Respondeu ela, baixinho.
- Mas é claro!
Quem precisa de provas se um exemplo de bondade, como Brancassis, acusa dois malfeitores como meu pai e eu?
Não dá para não acreditar... - Observou Vok, venenosamente.
E, sem olhar para a esposa, saiu do quarto.
Rugena enrubesceu, mas não teve tempo de responder.
Chegou Broda e, aproveitando o intervalo, lembrou aos presentes sobre a infeliz Túlia, que prestara aos Valdstein tão inestimáveis préstimos.
- É verdade! Quase me esqueci dela.
É claro que estamos muito agradecidos à pobre moça. - Disse o conde.
Converse com ela, Rugena, e diga-lhe que se ela deseja retornar à Itália, eu me incumbirei de enviá-la para lá sob forte protecção e ainda vou garantir o seu futuro.
Mas, se ela preferir ficar connosco, minha casa será o seu lar até a morte.
Túlia estava sentada, triste e pensativa, quando entrou Rugena querendo decidir o destino da jovem mulher, antes que alguém da casa a visse.
Ao ver a condessa, Túlia sobressaltou-se e ajoelhou-se diante dela; mas esta abraçou-a afectuosamente e, com frases carinhosas, transmitiu-lhe os agradecimentos de toda a família e a oferta do conde.
- Permita-me ficar com vocês, senhora!
Não tenho ninguém na minha pátria.
Creia-me, vou servir-lhes fielmente. - Respondeu Túlia, com lágrimas nos olhos.
- Minha querida, fique connosco não como criada mas como amiga. - Respondeu amavelmente Rugena.
Venha, vou arranjar-lhe um lugar para ficar e um vestido.
Jogue fora estes trajes junto com o seu horrível passado.
O Senhor, em Sua infinita bondade, talvez ainda lhe envie um destino feliz e pacífico.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 03, 2016 8:01 pm

Capítulo VIII

Uma nova infelicidade desabou sobre a família Valdstein.
Depois de horas de gritos lancinantes e desmaios, a condessa Iana caiu em total prostração, seguida de um pesado e profundo sono.
Um velho médico judeu, muito famoso na cidade, foi chamado imediatamente e achou que aquele era um bom sinal e que o descanso poderia restabelecer o equilíbrio do organismo excitado.
Mas, na manhã do dia seguinte, gritos terríveis vindos dos aposentos da condessa acordaram toda a casa.
Quando o conde chegou lá, viu com horror que a esposa corria confusa pelo quarto, escondendo-se por trás dos móveis e cortinas, tentando ocultar-se de alguém que somente ela via e cuja presença deixava-a louca de medo.
- Devolva-me a indulgência!
Devolva já! - Implorava ela ao marido.
Estou agora sob o poder dos demónios.
Rabstein saiu do túmulo e, vendo-me indefesa, persegue-me por todos os lugares.
Não! Não me toque! - Gritava ela, olhando para o nada.
- Foi Tomasso que me aconselhou a liquidar você.
Ai! Ai! Ele está me agarrando com suas mãos geladas como pinças.
Ela pulava para todos os lados como uma gata, defendendo-se do inimigo invisível e, por fim, correu para o oratório.
Lá, abriu a gaveta da mesa e começou a revirar tudo o que havia dentro à procura da indulgência que a livraria da perseguição de sua vítima.
A partir desse dia, apesar de todo tipo de tratamento, a condessa não mais recuperou a razão.
Ela via o falecido barão em cada sombra, em cada canto, por trás de cada objecto; ele aguardava-a nas dobras das cortinas, zombava dela das chamas da lareira ou da alcova da cama, punha sua mão sobre todo alimento que serviam a ela, e espezinhava-a mostrando e escondendo a indulgência que agora estava em suas mãos.
A infeliz tentava, aos gritos, esconder-se do fantasma, ou começava a procurar desesperadamente o talismã perdido, rasgando almofadas, arrancando cortinas e cobertores, quebrando caixas e porta-jóias até que seu ataque de violência a levava ao completo desfalecimento.
Enquanto essa sombria tragédia desencadeava-se na casa dos Valdstein, as divergências político-religiosas em Praga cresciam a cada dia, aguçando o ódio entre partidos e inflamando a turba, que já lamentava e homenageava seus primeiros mártires.
Estes eram três homens do povo:
Martin Kridhilko, Jan Khudek e Stasek Polak,90 que haviam sido presos por protestar abertamente em diferentes igrejas contra a venda de indulgências e por chamar de mentirosos os sacerdotes que ofendiam Huss.
Os membros do conselho da cidade haviam condenado Kridhilko, Khudek e Polak à morte por decapitação; então, mais de dois mil estudantes armados tinham-se reunido diante da câmara municipal, demonstrando sua insatisfação com aquela decisão.
O próprio Huss intercedera em favor dos condenados e declarara ser ele o único culpado e estar pronto a assumir a culpa.
Assustado com a agitação que tomara conta da cidade, o conselho prometera tudo o que dele fora exigido.
Mas, quando o povo dispersara-se, os membros do conselho - com uma perfídia puramente alemã - haviam mandado executar imediatamente os jovens presos.
Quando eles foram levados ao local da execução, durante o caminho reuniu-se novamente uma multidão ameaçadora que não expressava abertamente seus sentimentos.
Apesar disso, o conselho achou necessário executar a sentença, para terminar de vez com o caso e para que este servisse de lição.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 03, 2016 8:02 pm

A multidão, reconhecendo os executados como mártires e cantando a oração Isti sunt sancti, levou os corpos para a capela de Belém, onde foi realizada uma solene e geral oração pelas almas das vítimas e pelo povo.91
Eram tempos difíceis para o corajoso reformador, que sofria muito ao ver que, entre seus piores inimigos, estavam pessoas que ele considerava como dedicados amigos.
O mais feroz entre eles era Estéfano Paletch, que na época era decano da faculdade de teologia.
É difícil dizer o que levou aquele homem a perseguir o seu ex-amigo:
se foi inveja ou fanatismo.
O facto é que foi por sua causa que as perseguições aos ensinamentos de Wyclif renovaram-se com novo ímpeto.
Aos artigos já condenados juntavam-se outros, novos.
Eles chegaram até a pedir ao rei para simplesmente proibir Huss de fazer o seu sermão.
Concomitantemente, o clero e o partido católico da universidade enviaram ao Papa terríveis acusações contra Huss - "esse ímpio, que desdenha o poder do santo altar e que contamina com heresia todo o povo" -, pedindo, além disso, que fossem convocados alguns nobres, incluindo Vok Valdstein, Henrich Lefl Lazal e Jan Sadio de Smikhv, como os maiores partidários do padre "herege" e blasfemos da Igreja.
O alemão Miguel de Causis92 levou ao papa João XXIII essa acusação.
A todos os ataques e perseguições Huss respondia com uma tranquila e inabalável dureza; ao arcebispo e aos magistrados universitários ele sempre dizia:
- Não estou protestando contra o poder do Papa, mas contra o abuso desse poder; e se vocês me provarem pelas sagradas escrituras que estou errado e confuso, serei o primeiro a reconhecê-lo e me submeter.
Não posso deixar de pregar, pois o primeiro dever do sacerdote é divulgar a palavra divina.
Os inimigos de Huss utilizavam todos os recursos junto ao papa para liquidá-lo.
O partido do clero e dos doutores de Praga achou, na pessoa de Miguel de Causis, seu verdadeiro representante.
Filho de pobres mineiros, homem de reputação duvidosa, ele, como pároco da Cidade Nova - e graças a conhecidos especiais -, conseguira obter do rei a incumbência de introduzir melhoramentos no trabalho de minas.
Após algumas experiências frustradas, fugira com o dinheiro que lhe fora confiado.93
Miguel punha à disposição de seus mandantes uma enorme insolência, um profundo conhecimento da viciada corte do Papa e uma absoluta falta de escrúpulos no manuseio de recursos; a soma de todos esses predicados satisfazia inteiramente ao clero.
O cardeal de Santo Anjo proferiu contra Huss uma grandiosa ex-comunhão, convocando os fiéis a agarrá-lo e levá-lo ao arcebispo para julgamento e morte na fogueira, e a destruir a capela de Belém.
A notícia dessas medidas contra um homem puro e bom, que a maioria da população amava e respeitava, provocou uma agitação em Praga.
Na casa dos Valdstein - onde, após os tristes acontecimentos descritos acima, a afeição e a confiança ao respeitável pregador haviam aumentado muito -, essa notícia provocou uma explosão de indignação.
Huss tinha uma influência benéfica principalmente sobre Ana.
Durante todo o período de sua doença, ele diariamente a visitara e, com suas longas conversas, despertara a fé e a docilidade na alma sofredora da infeliz.
A partir daí Ana parecera conformar-se com seu destino, procurando apoio e consolo na oração.
Houvera uma cena terrível entre ela e seu irmão.
Ao saber que Ana fora desonrada, Zizka ficara tão furioso que, no primeiro instante, quase a matara.
Ela, entretanto, não tremera quando o punhal de Jan Zizka de Trotsnov brilhara sobre sua cabeça e, provavelmente, esse frio desdém à vida é que a salvara.
Recompondo-se, ele abraçara a irmã, pedira para esquecer a sua louca explosão e jurara vingar-se impiedosamente por ela.
Mas, para sua grande surpresa, Ana respondera:
- Jan, deixe Deus castigar o criminoso!
O Senhor sabe o que faz e não seremos nós, cegos, a levantarmo-nos contra as Suas determinações.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 03, 2016 8:02 pm

Mas Zizka não era daqueles que se acalmam com facilidade.
Se Brancassis aparecesse à sua frente, matá-lo-ia como a um cão.
E quando, depois de longa procura, Zizka finalmente descobriu que Tomasso estava escondido no mosteiro de Strakhov, o cardeal já tinha ido embora em surdina para a Itália.
A vingança imediata teve de ser adiada.
Mas, em sua alma, Jan Zizka guardou um impiedoso ódio contra o clero, o qual nem suspeitava da terrível vingança que o esperava da parte de um simples palaciano da rainha.
Dois meses havia se passado desde que Túlia fora morar na casa dos Valdstein.
Ela adaptara-se perfeitamente ao novo modo de vida e, por seu bom carácter e sua amabilidade, conseguira a afeição geral.
Ela sentia-se muito feliz.
Sua relação com a família do conde, com Ana e com Huss havia elevado seu amor-próprio, devolvendo-lhe a auto-estima e a esperança no futuro.
A afeição por ela aumentou ainda mais quando ficou conhecida a sua triste história.
Certa noite, Ana, ainda não completamente refeita, deitou-se.
Rugena sentou-se à cabeceira da cama e Túlia instalou-se numa almofada aos seus pés.
De repente, Ana perguntou-lhe por que odiava Brancassis e como se tornara sua amante.
Túlia estremeceu e ficou pálida com a lembrança do passado que iria recordar agora.
Comovidas com sua reacção, Rugena e Ana disseram-lhe que não precisava contar nada, mas a própria Túlia sentiu necessidade de extravasar o que guardava na alma e contar a sua curta mas agitada vida.
Ela era a filha mais velha de um ourives de Bolonha; seu pai era viúvo e uma velha tia educava-a e à sua irmã.
A vida corria feliz e tranquila.
Ela tinha 15 anos quando a infelicidade caíra sobre sua família.
Certa manhã, sua tia mandara-a levar um recado ao pai, que trabalhava em sua oficina, onde geralmente recebia os clientes importantes e visitantes.
Naquele dia, ele estava recebendo a visita de prelado de alto posto, que fora encomendar um precioso cálice para o cardeal legado de Bolonha, Baltazar Cossa.
O cliente, que era Brancassis, não tirava os olhos da bela Túlia e, desde aquele dia, ela não podia dar um passo sem encontrar o bispo em seu caminho.
Certo dia, uma mulher desconhecida aproximara-se dela na rua e começara a falar sobre a paixão de um nobre clérigo, fermentando as suas doces palavras com diversas promessas, se Túlia concordasse em tornar-se sua amante.
Túlia negara-se com repugnância, mas isso não esfriara a mulher.
Esta continuara a incomodá-la com as suas propostas indecentes até em sua própria casa, aproveitando a ausência da tia.
Um dia, finalmente, o próprio pai flagrara tal cena, dera uma forte surra na sedutora e jogara-a na rua.
Algumas semanas depois, numa manhã, aparecera a guarda municipal e levara o artesão sob a acusação de ter colocado pedras falsas no cálice encomendado, em lugar das verdadeiras que tinham sido entregues a ele.
Ao chegar a essa parte do seu relato, Túlia ficou muito emocionada e parou para tomar fôlego.
- Como posso descrever-lhes o meu desespero quando vi meu pai ser jogado na cadeia, apesar de jurar inocência?
Em seguida, veio a queda financeira, pois todos os nossos bens foram confiscados para pagar as pedras preciosas supostamente roubadas.
Certa vez, ao sair da prisão onde tentava sem sucesso conseguir um encontro com meu pai, vi aquela mesma mulher.
Ela, rindo insolentemente, observou que eu "não estava batendo na porta certa", dando a entender que somente a influência de Brancassis junto ao cardeal legado poderia ajudar a salvar meu pai.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 03, 2016 8:02 pm

Por muito tempo eu não tive coragem para ir implorar ajuda àquele homem, que suspeitava, sem saber o porquê, ter sido o principal culpado da nossa desgraça.
Mas, infelizmente, fui obrigada a isso.
Nós estávamos na miséria e minha tia e minha irmãzinha até haviam adoecido de tristeza e privações.
Brancassis recebeu-me amistosamente, mas ao meu pedido respondeu, sorrindo:
"Uma mão lava a outra!
Aceite o meu amor e eu salvo o velho ladrão".
"Ele não é ladrão, e entregou os verdadeiros brilhantes!
Sabe Deus onde eles foram trocados!", respondi, indignada.
"Minha filha, se pode provar isso, então para que veio aqui pedir minha ajuda?
Mas, apresse-se, pois a previno de que seu pai, primeiramente, será submetido à tortura para obter a sua confissão e depois... será enforcado".
Naquele instante, pensei que iria enlouquecer e me pareceu sem importância sacrificar a minha vida para a felicidade de minha família.
Respondi que aceitava sua oferta, mas exigi garantias de que ele não me enganaria e não executaria meu pai.
Ele riu e elogiou a minha sagacidade dizendo que iniciaria os meus serviços somente depois que o culpado estivesse livre.
Alguns dias depois, eu soube que meu pai fugira da prisão e, na realidade, passara a morar numa outra cidade sob nome falso.
Minha tia e minha irmã foram morar com ele e eu passei a trabalhar como pajem de Brancassis.
O cardeal me avisou, desde o início, que não perderia de vista a minha família e que ao menor problema comigo faria meu infeliz pai voltar para a cadeia e ser castigado duplamente:
por roubo e fuga.
Eu carreguei pacientemente a minha cruz e ele brincava comigo como gato brinca com rato.
Ele divertia-se com as minhas tentativas de esconder o nojo que tinha por ele.
Depois, aconteceu algo que transformou esse nojo em indescritível ódio...
Eu me preparava para ser mãe.
Isso o deixou furioso, mas ele não queria arriscar a minha saúde, pois eu lhe agradava.
Quando o meu estado não mais permitiu desempenhar o papel de pajem, ele enviou-me para uma vila nos arredores, onde vivi com uma velha criada e onde dei à luz o meu filho.
Eu me afeiçoei ao menino e a criada, que gostava de mim, prometia mandá-lo para a casa de meu pai.
A velha Núcia contou-me muitas coisas sobre Brancassis e as minhas predecessoras, que sempre desapareciam misteriosamente, e ninguém nunca ficava sabendo o que era feito delas.
Certa vez, Núcia e eu estávamos sentadas junto à lareira, conversando.
De repente, Brancassis chegou inesperadamente e, ao ver a criança no meu colo, ficou furioso.
"Núcia, sua velha estúpida!
Você enlouqueceu em deixar viver esta criatura que pode nos dar tanto trabalho!
Eu já não lhe falei que não a quero?"
E sem que eu tivesse tempo para entender o que se passava, ele arrancou a criança das minhas mãos e jogou-a na lareira acesa.
Vendo as róseas mãozinhas e perninhas agitando-se desamparadas entre as chamas, perdi a capacidade de gritar e meu coração e minha mente pareciam prontos a explodir...
Perdi os sentidos e por algumas semanas estive entre a loucura e a morte...
Depois, acabei recobrando a saúde bem lentamente e, infelizmente, a beleza...
Não há palavras para descrever o ódio que sentia por Brancassis, mas, consciente de minha impotência, escondi os meus sentimentos aguardando o momento de vingar-me dele...
O resto vocês sabem. - Concluiu Túlia, enxugando as lágrimas que lhe caíam pela face.
Rugena e Ana ouviram o relato em completo silêncio, por vezes interrompido pelo pranto de Túlia.
- Meu Deus! - Exclamou Rugena, quando Túlia terminou sua terrível história.
E esse monstro ainda ousa realizar os mistérios divinos com aquelas mãos criminosas!
Como um raio não o mata diante do altar?
- É melhor dizer: como ousam, o clero do tipo Brancassis e papas como João XXIII - patife e bandido -, excomungar um santo como o mestre Jan? - Observou Ana, indignada.

90 Palaky, ///, p. 279 - Nota do autor.
91 Kobler, "Johannes Huss der Reformatar dês XV Jahuruhunderis " — Nota do autor
92 Miguel da vau Alemã, o mais fervoroso perseguidor de Huss, ex-sacerdote da igreja de São Adalberto, da cidade de Praga, foi nomeado pelo Papa como procurador da fé (procurador de causis fidel), provindo daí o nome pelo qual ficou mais conhecido. (Bilbassov, "O tcheco Jan Huss de Hussinits ") - Nota do autor.
93 Conto de Peter Mladenovitch. Palacky, documento 246 - Nota do autor
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 03, 2016 8:03 pm

Capítulo IX

A notícia de que o Papa mandara impor sobre Huss uma solene excomunhão - se ele não se submetesse, no prazo de 20 dias, às ordens apostólicas - deixara seus inimigos felizes e, como o rei não contestara abertamente as medidas severas do santíssimo trono, a ousadia deles crescera ainda mais.
Na época, o conselho da "Cidade Velha" era constituído, em sua maioria, por alemães; sob seu patrocínio, aconteceu uma assembleia de cidadãos também alemães, na qual ficou decidido que realizariam um ataque armado à capela de Belém mesmo sem esperar a promulgação da interdição, dispersando à força os fiéis e prendendo o próprio pregador.
Chegou o dia 2 de outubro, feriado religioso em Praga.
Uma respeitável multidão de burgueses armados reuniu-se pela manhã.
Era chefiada pelo traidor checo Bernard Khotek e por Guints Leinhardt - o próprio mentor do ataque planeado.
Em seu insano ódio aos checos, o filho do açougueiro ansiava por arrancar deles o homem amado por aquele povo e que parecia a própria encarnação da ideia do seu renascimento nacional.
A capela de Belém estava lotada de fiéis, que ouviam o sermão de Huss com aquela fé entusiasmada que ele 'sabia despertar nos corações dos ouvintes.
De repente, alguns homens irromperam pela porta, aos gritos:
- Os alemães cercaram a capela e estão perseguindo os nossos com lanças e bestas!
No primeiro momento, os presentes ficaram mudos de espanto.
Em seguida, tudo se agitou e lá de fora já se ouviam gritos, palavrões e o tilintar das armas dos atacantes, tentando penetrar no templo.
Antes que acontecesse o pânico geral, alguns cavaleiros e senhores, inclusive Vok Valdstein, subiram nos bancos e gritaram:
- Crianças e mulheres, fiquem onde estão!
Os homens todos vão para frente em defesa da capela e, se possível, sem derramamento de sangue!
Todos os checos sãos correram para a saída.
Os alemães, que já haviam conseguido tomar o pátio, foram rechaçados e diante deles cresceu uma fileira de defensores do santo lugar, parados em silêncio, mas frios e determinados.
Vendo que a tentativa do ataque de surpresa não vingara, os alemães, confusos com a ameaçadora calma dos inimigos, recuaram.
Guints, espumando pela boca, tentava convencê-los a atacar e conquistar o templo, mas Khotek e a maioria dos burgueses temiam o combate na igreja e voltaram ruidosamente para a câmara municipal.
O conselho da cidade reuniu-se e, após agitadas discussões, resolveu destruir pelo menos a própria capela, conforme ordens de Roma.
Na tarde do mesmo dia, Huss esteve na casa dos Valdstein.
Até a sua dócil alma estava indignada com o insolente ataque matinal e ele não conseguia se conter:
- Vejam - dizia ele - a amostra da insolência alemã!
Eles não destruiriam o fogão do vizinho sem a anuência do rei, mas ousaram atentar contra o templo do Senhor!
- Oh! Mas nós defenderemos a capela!
Se os alemães quiserem conhecer o sabor dos nossos punhos, que tentem isso mais uma vez! - Exclamou Vok, fervendo de raiva.
Eu só receio pelo senhor, mestre Jan, pois os sórdidos "padrecos" passarão agora a persegui-lo sem piedade.
- Já fui convocado à presença do bispo para dizer se me submeto às ordens apostólicas.
- E o que o senhor respondeu? - Perguntou Rugena, preocupada.
Um triste sorriso passou pelo rosto de Huss.
- Respondi, de todo o coração...
E, percebendo a curiosidade geral, ele continuou:
- Considero como apostólicos os mandamentos dos apóstolos de Cristo e estou pronto a obedecer ao Papa na medida em que suas ordens estejam de acordo com os ensinamentos do Salvador.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 03, 2016 8:03 pm

Mas se essas ordens contradizem esses ensinamentos, não irei obedecê-las mesmo que me ameacem com a fogueira.94
- Caro mestre, o senhor está se arriscando demais. - Observou Rugena, apertando-lhe a mão, solidária.
- Tudo acontecerá pela vontade do Senhor, minha filha, mas penso que ainda não chegou a minha hora!
Cristo ainda não concluiu a acção que pôs sobre os meus ombros e de meus irmãos, e não arrancou ainda da boca do hipopótamo todos os predestinados à salvação pelo Senhor.
Ele dará forças aos portadores de boas novas, até que estes esmaguem a cabeça do hipopótamo!
Quero isso de todo o coração e, por essa causa, aceitarei até a morte...
- Uma vida assim faz o senhor merecedor de uma coroa de justo. - Disse Ana, e o seu olhar, apagado e indiferente desde o infeliz acidente, acendeu-se repentinamente com fanática excitação.
- Minha filha, abstenha-se no uso de tão fortes palavras e, principalmente, não transfira levianamente para um humilde servo de Deus os agradecimentos que devemos a Ele, que nos dirige e ajuda. - Observou Huss, severamente.
Apesar da grande vontade, os alemães tiveram de desistir da destruição da capela de Belém.
O povo passou a guardar dia e noite o seu precioso local de oração, e o ânimo da turba era tão ameaçador e ostensivo que eles já não ousavam atacar abertamente.
Então, para compensar, apressaram-se a promulgar a excomunhão e aplicá-la com todo o rigor.
Em todas as igrejas de Praga foi solenemente anunciado que as missas estariam canceladas enquanto Huss permanecesse na cidade.
Também estava proibido a qualquer cristão, sob pena de uma excomunhão idêntica, conversar com Huss, supri-lo de alimento e bebida, abrigá-lo, sepultá-lo etc.
Uma nuvem de tempestade parecia pairar sobre a velha capital da Boémia; o ambiente era lúgubre, triste, como se a cidade estivesse passando por uma terrível desgraça.
Os sinos não mais repicavam, as igrejas fecharam e não realizavam missas; negava-se a extrema-unção aos moribundos, o baptismo aos recém-nascidos, a bênção divina aos noivos e um enterro cristão aos mortos.
Apesar disso, a maioria da população não tremeu diante do terrível castigo, nem seu amor por Huss ficou abalado.
A insatisfação geral desabou sobre o clero que, no entendimento do povo, era invejoso e mau e estava se vingando do pregador querido por todos, por ele desmascarar corajosamente suas façanhas, sua ganância e sua corrupção.
Durante essa provação, Huss deu uma demonstração de uma dócil e resignada determinação, que era um dos principais traços de seu carácter.
Sobre o castigo injusto que o atingira, ele apelou somente a Jesus Cristo, como o único verdadeiro chefe da Igreja.95
No restante, continuou sua vida rotineira, visitando doentes e necessitados, pregando as verdades evangélicas e demonstrando, em todos os casos, aquela ardorosa fé e aquela comovedora abnegação que haviam conquistado os corações de todos os seus contemporâneos e criado um dos mais fascinantes personagens históricos para os descendentes.
Percebendo a desgraça pela qual a família dos Valdstein passava, Huss passou a visitar mais a sua casa, pois o terrível estado da condessa Iana deixava a todos assustados.
Na época não existia a ciência de tratamento de doenças mentais e a loucura era frequentemente atribuída à possessão diabólica.
No caso da condessa Iana, tal suposição já era esperada.
Estava claro para todos que o crime realizado invocara o espírito do mal e que este jogara sobre a culpada o início dos sofrimentos que com certeza a aguardariam mais tarde no inferno.
Tal convicção aumentava ainda mais o horror que a infeliz mulher provocava; até o velho conde e Vok estremeciam, supersticiosos, quando ela começava a correr pelos quartos perseguida pelo fantasma de sua vítima.
Huss visitava-a com assiduidade e sua voz tinha um efeito calmante sobre ela; por isso, cada vez que ele ia à casa dos Valdstein, o conde pedia-lhe que ficasse um pouco com sua esposa.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 03, 2016 8:03 pm

Numa tarde, ao chegar, Huss soube que a condessa passara o dia inteiro correndo e que sua raiva era tanta que até haviam tentado amarrá-la, mas sem resultado - ela revelava tamanha força que ninguém conseguira dominá-la, nem Broda.
Ao aproximar-se dos aposentos da paciente, Huss ouviu urros e gritos estridentes.
O quarto estava mal-iluminado, pois não acendiam a luz temendo incêndios, mas o frio os obrigara a acender a lareira junto à qual estava sentada uma criada.
Nos primeiros instantes, Huss não conseguiu ver a condessa.
Por fim, percebeu-a sentada de cócoras junto à poltrona, com o pescoço esticado e parecendo vigiar alguém.
Com a doença, ela mudara demais:
ficara terrivelmente magra, com os cabelos completamente brancos e caindo desordenadamente em longas mechas.
Seus olhos, bem abertos, selvagens e sempre fixos num único ponto, causavam uma terrível impressão.
Ela estava de camisola e com uma saia rasgada em diversos lugares; um véu em pedaços, com restos de bordados de ouro, caía em trapos de seus ombros.
Huss aproximou-se e chamou a condessa pelo nome.
Depois, começou a conversar com ela, dizendo-lhe que Deus a perdoara e que Cristo, em Sua infinita misericórdia, estava próximo de qualquer necessitado, recebendo o pecador arrependido como ao filho pródigo.
A voz sonora de Huss teve o efeito habitual:
os gritos e urros cessaram e o olhar apagado e malicioso da paciente voltou-se para ele.
É difícil dizer se a louca entendia o sentido das palavras de Huss ou se simplesmente a vibração harmónica do seu discurso acalmava agradavelmente os seus nervos abalados.
Após um quarto de hora, ela levantou-se em silêncio e foi vagarosamente em sua direcção.
De repente, soltou um grito agudo e deu um pulo para trás, percebendo no chão a sombra de Huss.
- É ele! É ele!
Ele me aponta o dedo e zomba de mim por que estou em seu poder, depois de tantos anos de tranquilidade! - Gritou ela, selvagemente.
Huss percebeu a causa do susto e virou o corpo de modo que sua sombra deixasse de ser visível.
- Calma, ele desapareceu!
Ordenei-lhe que voltasse ao túmulo.
Venha, senhora, sente aqui na poltrona e não tenha medo.
Uma luz de alegria e calma passou pelo rosto da doente.
Aproximando-se dele, ela segredou:
- Você é poderoso e conseguiu espantá-lo.
Então, por favor, me ajude!
Já que ele obedece a você, então pegue do Barão Svetomir a indulgência que ele roubou e me devolva.
Não consigo obter outra para mim, pois Tomasso morreu.
Pagarei generosamente os seus serviços:
dar-lhe-ei todas as minhas jóias, os dois porta-jóias, as pérolas e todo o dinheiro que juntei, mas... consiga-me a indulgência!
Ela se inclinava cada vez mais e Huss involuntariamente recuou, ao ver de perto o rosto deformado pela careta e o olhar brilhante e esperto.
De repente, notando a ponta de um pergaminho que aparecia do bolso de Huss, ela rapidamente pulou em cima dele e agilmente agarrou o rolo.
- Ah! Seu esperto e corrupto "padreco", como todos da sua raça!
Você já a tinha e ficou calado!
Mas agora, está tudo bem, ela é minha! É minha!
Já tenho a minha indulgência e o caminho do céu está aberto para mim!
Correndo até a mesa, ela abriu ruidosamente o tampo e, pegando punhados de pedras preciosas, objectos de ouro, pedaços de gaze e tecidos, jogou-os para Huss.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 03, 2016 8:03 pm

- Tome! É seu! - Gritou ela.
Depois, com gritos de alegria, começou a girar e dançar pelo quarto, agitando o pergaminho sobre a cabeça.
Naquele instante a porta se abriu e entrou o conde Hinek.
Ao vê-lo, a louca estancou, mas aparentemente não reconheceu o marido.
- Não se aproxime, Barão Svetomir, volte ao seu túmulo!
O seu poder acabou!
Veja, tenho uma indulgência! - E, acenando com o pergaminho à sua frente, ela começou a recuar em direcção à lareira.
- Pare, pare!
Não se aproxime do fogo! - Gritou o conde, e correu para segurar a mulher.
Esse movimento foi a causa de sua destruição.
Ela deu o seu costumeiro rápido pulo para trás, tropeçou e caiu dentro do enorme buraco da lareira, batendo com a cabeça em seu beirai de pedra.
Os trapos de gaze e a saia de lã incendiaram-se instantaneamente.
A infeliz, coberta de chamas, rolava no chão, gritando horrivelmente.
A criada fugiu, horrorizada.
O conde e Huss arrancaram os cobertores da cama e, embrulhando neles a condessa, apagaram com dificuldade o fogo de suas roupas.
Os gritos da criada atraíram outras pessoas, inclusive Vok, que tinha acabado de voltar da visita ao rei no castelo de Gebrak.
Eles conseguiram debelar o princípio de incêndio, pois o fogo já se espalhava pelas cortinas.
Coberta por terríveis queimaduras, a condessa foi levada desacordada para outro quarto, onde lhe prestaram os primeiros socorros; mas seu organismo debilitado não suportou aquele novo choque.
O resfriado - ocasionado pela água fria - e o sofrimento - causado pelos ferimentos que cobriam todo o seu corpo - resultaram em febre.
Após uma grave agonia de uma semana, torturada por terríveis visões, a condessa morreu.
Em Praga, naquele período de interdição, era difícil para um cristão morrer.
O conde e seu filho sentiram duplamente a desgraça que os afligia, não podendo sacramentar com uma missa o funeral da condessa, que no entendimento de ambos precisava mais do que ninguém de orações.
E foram obrigados a enterrá-la sem sacerdote nem rezas, do mesmo modo que morrera sem confissão nem comunhão.
"Talvez Deus, irado com a maldade de Giovanna, tenha-lhe negado a Sua misericórdia", concluíram.
Se não bastasse tudo isso, o corpo da falecida começou a decompor-se rapidamente e o conde teve de seguir o costume estabelecido durante a época de promulgação da interdição, ou seja, enterrar a mulher à noite.
Quando o corpo foi colocado no caixão, o conde jogou por cima dele um punhado de terra santa trazida de Jerusalém por um de seus antepassados e que era guardado na família como objecto sagrado, borrifou-a com água benta e colocou um crucifixo em suas mãos.
- Cristo, em Sua infinita bondade, ajudará e dirigirá sua alma, será seu defensor e dar-lhe-á tudo o que lhe faltou neste funeral não-cristão. - Disse ele, com lágrimas nos olhos.
Perto da meia-noite, a triste procissão, iluminada somente por algumas tochas que os criados levavam, dirigiu-se para o cemitério.
Os Valdstein possuíam um jazigo da família num dos mosteiros.
Mas lá não estavam fazendo sepultamentos e a nenhum membro da família claramente partidária de Huss era permitido entrar sob o tecto sagrado.
Geralmente, àquela hora tardia, toda a Praga dormia e as ruas ficavam completamente vazias.
Entretanto, naqueles tempos agitados havia movimento em alguns lugares.
Outros defuntos, também privados de funerais cristãos, eram levados secretamente ao cemitério.
Enterros de pessoas das mais diversas classes sociais aos poucos se juntaram à procissão e a multidão que os acompanhava expressava alto a sua insatisfação.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 03, 2016 8:04 pm

Entre os defuntos havia também dois alemães católicos.
Seus parentes começaram a xingar os outros presentes, principalmente os checos, atribuindo à sua ostensiva "heresia" e à sua adoração ao "criminoso inimigo da Igreja" a desonra que afligia os seus entes falecidos.
Iniciou-se a discussão e os checos não ficaram atrás, acusando por sua vez o clero e seu Papa - o "Anticristo" - de terem feito tudo aquilo para se vingar pelo desmascaramento de seus crimes e de sua devassidão.
O trajecto passava por uma igreja.
Alguém propôs obrigar o clero daquela igreja a abençoar os falecidos e essa sugestão foi imediatamente aceita pela multidão excitada.
O povo atacou a casa paroquial e arrombou a porta; fez o pároco e seu ajudante levantarem-se da cama, vestindo-os à força com os paramentos e, com ameaças e pescoções, arrastaram-nos para a rua e obrigaram-nos a ir à frente de uma grande fileira de caixões.
A turba enfurecida já não ligava para a interdição papal, e os assustados sacerdotes, temendo serem mortos a qualquer instante, foram obrigados a ler as orações sobre os túmulos, depois do que a multidão dispersou-se rapidamente.
No dia seguinte, profundamente chocado com isso, Huss deixou a cidade querendo com isso prevenir o surgimento de novas explosões de insatisfação popular e retirar dos cidadãos de Praga a severa interdição.

94 Palaky, "G. v. B. ", III, p. 287. Obs.: 387 - Nota do autor.
95 Ideo ad caput ecclesise Dominium Jesus Cristum ultimo appelavi - Nota do autor.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 03, 2016 8:04 pm

Capítulo X

Com a morte da condessa e a viagem do adorado pregador, um ambiente pesado tomou conta da casa dos Valdstein.
Toda a família ainda estava sob o terrível choque dos últimos acontecimentos e até os criados, percebendo a sisudez dos senhores, sentiam-se inquietos e deprimidos.
O velho conde e seu filho Vok passavam a maior parte do tempo com o rei no castelo de Gebrak, enquanto Rugena e Ana ficavam sozinhas e quase não saíam de casa por luto e por estarem predispostas ao recolhimento.
Ana ainda não se recuperara totalmente do ataque que sofrera.
Ela se sentia bem fisicamente - só ocasionalmente era vítima de uma terrível dor de cabeça -, mas em sua aparência e em carácter ocorrera uma profunda e impressionante mudança.
Ela emagrecera demais, o bonito rosto alongara-se e seu frescor mudara para palidez; os grandes olhos, antes brilhantes e alegres, haviam-se apagado e enchido de tristeza - só de vez em quando se acendiam repentinamente, com uma certa excitação selvagem.
A alegria sincera, o bom relacionamento e o humor haviam desaparecido completamente, sendo substituídos por uma rígida e silenciosa sisudez.
Sempre usando trajes pretos, de corte quase monástico, ela passava longas horas em oração, evitava as pessoas e nada a convencia a sair de seu quarto quando havia visitas na casa.
Rugena e o marido permaneciam em desentendimento desde aquela infeliz manhã após o atentado de Brancassis.
Vok, mortalmente ofendido pela acusação de assassinato, não perdoara a esposa por ela ter suspeitado dele.
O "castigo divino" que atingira sua mãe e depois sua terrível morte também o haviam deixado profundamente impressionado.
Ele perdera o gosto por aventuras e estava sempre sisudo, calado e irritadiço, procurando briga com Rugena a qualquer pretexto ou insistindo em evitá-la.
Para Vok, o distanciamento da esposa, mantido pela própria teimosia e pelo ego ferido, era muito duro e fazia-o sofrer.
Apesar de todas as distracções e aventuras, ele continuava a amar Rugena profundamente e sua beleza continuava a encantá-lo.
Ele ficara particularmente indignado por Rugena ter pedido desculpas a seu pai, e a ele não haver dirigido nem ao menos uma palavra de desculpas.
A própria Rugena sabia perfeitamente que estava errada e que a grave acusação absolutamente imerecida deveria ser reparada.
Mas ela era por demais teimosa e orgulhosa para pedir perdão.
Essa era a situação durante a viagem de Huss.
Em sua última conversa com Rugena, quando o assunto fora o desentendimento da moça com o marido, Huss severamente desvendara a disposição de sua alma e até perguntara se o motivo de sua crueldade para com Vok não seria seu amor criminoso por Jerónimo.
- Desisti para sempre de qualquer amor terreno para com ele. - Respondera ela.
Mas nunca deixarei de admirá-lo como um sábio, um patriota e um cavalheiro!
Vou compartilhar de longe sua vida e rezar por ele.
Deus não considerará isso como pecado!
Terminando, ela prometera desculpar-se com Vok.
Depois disso, duas semanas haviam-se passado.
Quando Huss retornou a Praga, movido pela dor de consciência - pois lhe parecia que havia abandonado a cidade obedecendo ao conselho diabólico e temendo pela própria vida -, o casal ainda não havia feito as pazes.
A interdição foi novamente restabelecida com o mesmo rigor, a insatisfação popular aumentou e podia, a qualquer momento, explodir em sangrentas desordens.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 03, 2016 8:04 pm

Certa noite, Rugena passou mais tempo no quarto da amiga.
Ambos os condes estavam ausentes e aquela noite na cidade a agitação era maior.
Algumas procissões fúnebres passaram pela casa.
Na multidão que as acompanhava os palavrões misturavam-se ao pranto e até o encobriam.
Grupos de homens armados andavam pelas ruas; parecia haver algo lúgubre no ar.
Rugena, sentindo isso, abandonou seu quarto e instalou-se no quarto de Ana, onde o barulho da rua não chegava, pois a janela dava para o quintal.
Quando os sinos da abadia bateram uma hora da madrugada, Rugena resolveu voltar aos seus aposentos; não tinha sono, mas se sentia cansada.
Passando pelos longos corredores, ela viu o marido subindo a escada que levava para o andar inferior, acompanhado por seu escudeiro, que trazia uma vela.
Vok estava pálido e, aparentemente, cansado.
Seu rosto estava com a costumeira expressão dos últimos tempos - sombrio e irritado.
Vendo a esposa, o conde parou, surpreso.
- Você ainda não está dormindo a esta hora?
Porquê? - Perguntou ele, friamente, olhando-a desconfiado.
- Estive conversando com Ana e nem percebemos que já era tão tarde. - Respondeu Rugena.
Você quer jantar? - Perguntou ela, depois de um certo silêncio.
Ninguém o esperava hoje e a criadagem já está dormindo, mas no meu quarto tenho alguns frios preparados que ainda estão intocados.
- Essa longa corrida a cavalo realmente me deu fome e gostaria de comer, se isso não lhe incomodar. - Disse Vok, indeciso.
- Incomodar por quê?
Nem um pouco!
Vamos, enquanto Zimovit retira a sua armadura, eu acendo o fogo.
Eles entraram na pequena sala contígua ao dormitório de Rugena; ali, o escudeiro retirou a armadura do conde e saiu.
No dormitório, sobre a mesa estava preparada uma travessa de caça fria, pastéis e leite.
Rugena tirou do armário mais uma caneca de vinho e acendeu os candelabros.
Vok sentou-se à mesa e primeiro cortou um pedaço de caça para a esposa e depois para si.
Eles comeram em silêncio; havia um certo desconforto entre eles e a conversa não saía.
Apesar da fome e da sede, Vok comeu pouco; bebendo uma caneca de vinho, ele colocou a faca na mesa, enxugou as mãos e levantou-se.
- Boa-noite e obrigado!
Você esteve muito tempo com Ana e não quero atrapalhar seu descanso.
- Tive medo de ir dormir no meu quarto; o barulho da rua está interminável hoje... - Respondeu Rugena, baixinho.
Vok nada disse e dirigiu-se para a porta.
No rosto de Rugena havia uma expressão de luta interior e, no momento em que o conde estava pronto para sair pela porta, ela chamou-o, indecisa.
- Vok!
Ele parou imediatamente, voltou-se e ficou olhando para a confusa Rugena com um olhar sombrio e pensativo.
- O que você quer? - Perguntou o conde, com voz surda.
Ela correu para ele e pegou-o pela mão.
- Perdoe-me por ofendê-lo injustamente com aquela torpe suspeita.
Mas naquele horrível dia minha alma cobria-se de sangue.
A ideia de ser a esposa do homem que ajudara a matar meu pai era tão insuportável que perdi a cabeça.
Seu maravilhoso rosto empalidecia e enrubescia e os radiantes olhos, cheios de lágrimas, olhavam para o marido com ar de culpa.
A raiva de Vok desapareceu imediatamente.
Ele puxou-a impetuosamente para si e deu um apaixonado beijo em seus lábios trémulos.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 03, 2016 8:04 pm

-Sua nervosinha!
E não teve remorsos de segurar por tanto tempo a sua confissão?
Será que era tão difícil falar ao marido:
"Desculpe por considerá-lo um patife"?
Abraçando-a pela cintura, ele levou-a para um banco coberto de almofadas e fê-la sentar-se ao seu lado.
-Você quis me castigar pelas peripécias passadas. - Disse ele, ficando de bom humor.
Confesso que, por vezes, fui um marido detestável.
Mas, de agora em diante, juro que lhe serei fiel e ficarei em casa como uma marmota na toca.
Rugena não pôde conter o riso.
- Isso não vai parecer você mesmo:
ser um marido exemplar e, principalmente, ficar como uma marmota na toca!
- É claro que não vai ser fácil.
O diabo é poderoso e encherá de tentações o nosso caminho.
Mas você não entenderia isso porque a sua alma pura é imune às tentações; fechada em sua inquestionável lealdade, você é uma juíza rigorosa e tem todo o direito a isso!
As últimas palavras do marido fizeram Rugena estremecer e um rubor de vergonha cobriu seu rosto.
Ela lembrou os criminosos beijos que trocara com Jerónimo e que estivera tão próxima da queda, da fuga da casa do marido e da traição de sua obrigação; a dor de consciência moveu-se em sua alma.
Essa sua emoção foi tão visível que Vok não pôde deixar de reparar e, estupefacto, perguntou:
- O que você tem, querida?
Rugena livrou-se calmamente de seu abraço.
Agora ela estava pálida como o vestido branco que usava.
- Não mereço a sua boa opinião e o seu amor. - Disse ela, decidida.
Não quero mais mentiras entre nós!
Pode ser que você me mate, depois do que vou lhe contar, mas não importa, pois minha consciência estará tranquila.
Vok não acreditava nos próprios ouvidos; as últimas palavras de Rugena fizeram-no soltar um grito surdo e seus olhos acenderam-se com a ira comum à sua natureza apaixonada, diante da qual todos tremiam.
Rugena imaginava que tinha chegado a sua hora.
Entretanto, contra todos os seus prognósticos, não houve tempestade e Vok controlou-se com terrível esforço.
Com a mão trémula, ele enxugou a testa e disse, surdamente:
- Você está delirando Rugena, ou estive cego?
Como poderia você, cujo olhar reflecte a pureza do céu, cometer um crime que mereça a morte?
Mas não importa o que você confesse.
Fale! Quero saber de tudo e tentarei ser condescendente.
Ele sentou-se no banco e tapou o rosto com as mãos.
Durante certo tempo o quarto esteve em silêncio.
Finalmente, Rugena começou a sua confissão, falando baixinho e parando constantemente.
Ela falou da indignação, do amor-próprio e do orgulho feridos pela infidelidade do marido.
Falou sobre a impressão que Jerónimo provocara nela na infância e como depois se tornara seu herói quando, ao encontrá-lo no dia do casamento, transformara seu sonho em realidade.
Descreveu, com impiedosa franqueza, sua admiração pelo genial orador, que crescia ante seus olhos à medida que aumentavam as façanhas e o desprezo de Vok para com ela.
Contou como ficara furiosa quando o encontrara com a vadia sentada na anca do seu cavalo.
Falou sobre a visita inesperada de Jerónimo, que culminara em declarações de amor e plano de fuga impedidos por Huss, que lembrara a ambos os seus deveres.
Contou também como, depois disso, Jerónimo desistira de seu amor para com ela e fora embora sem se despedir.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 03, 2016 8:05 pm

Durante o relato da esposa, o rosto ágil do jovem conde reflectia todos os seus sentimentos de surpresa e ciúme, raiva e indignação.
Ao ouvir o nome de Jerónimo, Vok teve até um sobressalto e, inclinando-se para frente, ouvia, temeroso, cada palavra de Rugena.
Quando ela terminou o relato e, sob o peso da culpa, baixou tristemente a cabeça, um sorriso de alegria maliciosa apareceu no rosto de Vok e um suspiro de alívio escapou de seu peito.
Com um olhar meio zangado e alegre, ele mediu-a de cima abaixo e, sentando-se ao seu lado, pegou-a pelas mãos com que ela tapava o rosto.
- Então você deixou aquele miserável beijá-la e ainda correspondeu aos beijos dele? - Perguntou ele.
- Sim... - Respondeu ela, num sussurro.
- E jura que além dos beijos nada houve entre vocês?
Um forte rubor cobriu o rosto pálido de Rugena.
- Vok! O que você está pensando?
Eu não abandonei a sua casa!
Não sou uma dançarina de rua qualquer para me entregar imediatamente a um homem, mesmo que o ame.
- Nesse caso, estou pronto a esquecer tudo isso!
E você promete não sonhar mais com fugas?
- Eu juro! Só se você me enxotar de sua casa, como bem o mereço... - Balbuciou Rugena e caiu em prantos.
- Não sou idiota para enxotar uma esposa tão maravilhosa que conta os próprios pecados antes mesmo que lhe perguntem.
Mas, pare de chorar, senão acaba ficando doente!
Já disse que perdoo seus beijos e está dito.
Ele lhe deu um copo de leite para beber e começou a acalmá-la; mas Rugena não conseguia controlar seus nervos e as lágrimas continuavam caindo.
- Essas mulheres têm um reservatório de lágrimas que mais parece um chafariz... - Disse Vok, balançando a cabeça.
Se você se derreteu assim diante de Jerónimo não é de admirar que ele também tenha se derretido como um pedaço de sabão!
Mas saiba, Rugena, que você nada ganharia com a troca.
Ele é mulherengo e seduziu mais mulheres do que eu, pois atua na batalha do amor há muito mais tempo.
Que ele é muito mais inteligente do que eu - isso é certo.
E tem mais sorte, pois até as meninas se apaixonam por ele.
Mas, quanto à sua bondade... Fi-u-u!
Nisso posso até apostar.
A história dele com você somente prova que ele está envelhecendo e ficando bobo!
Se estivesse no lugar dele, nem Deus me convenceria a desistir de tal sorte!
Um fraco e envergonhado sorriso apareceu no rosto de Rugena.
Então Vok inclinou-se para a esposa e olhou-a bem nos olhos.
- Você entregou o seu coração inteiro ao seu homem ideal ou ainda restou pelo menos um pedacinho de afeição, a partir do qual poderíamos acender novamente o fogo do nosso amor que está quase se extinguindo? - Perguntou ele, com triste sorriso.
Rugena, agradecida, abraçou-o e colocou sua maravilhosa cabecinha no peito do marido.
- Como não amar você, quando demonstra tanta magnanimidade?
Prometo fazer de tudo para merecer o seu amor.
- Então, graças a Deus!
Da minha parte, prometo ser virtuoso, pelo menos o suficiente para não carregar mulheres em cima do meu cavalo.
Isso posso prometer!
Ele abraçou a esposa e, levantando-a no ar como a uma pluma, beijou-a.
- A paz está concluída e firmada!
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 03, 2016 8:05 pm

No dia seguinte, Vok foi visitar Jerónimo.
Agora ele entendia por que o amigo deixara de frequentar sua casa.
Chegando à casa de Jerónimo, disseram-lhe que ele havia saído, pois fora convidado para caçar num dos castelos do senhor Vartenberg.
Vendo sobre a mesa uma folha de pergaminho em branco, Vok agarrou a pena, sentou-se e começou a desenhar.
Desenhou um estreito caminho para o céu, íngreme e cheio de espinhos, que levava ao portão, onde sentava o apóstolo Pedro.
Pelo caminho corria um burro de rabo levantado e com a cabeça de Jerónimo.
Atrás dele, aparecia um maravilhoso fardo de feno.
"O que você veio fazer aqui?", perguntava o apóstolo ao burro.
"Todos os dias maridos chifrudos, moças abandonadas e amantes desiludidas vêm queixar-se de você".
"Eu me regenerei, e uma vez fui até virtuoso.
Entretanto, em vez de asas, recebi orelhas de burro", respondia Jerónimo, numa longa trilha que saía de sua boca.
"Bem, não vou me esforçar em abrir os pesados portões do céu para você só por um único caso de virtude.
Então, cai fora daqui!
Nesta pele de burro ninguém reconhecerá Jerónimo de Praga e nenhum marido precisará mais tomar cuidado contigo!"
Terminando a caricatura, Vok dobrou o pergaminho, escreveu a quem este era destinado e, muito satisfeito consigo mesmo, foi visitar Huss.
Encontrou-o sentado triste em sua cela, lendo.
O conde quase o sufocou em seus abraços, beijando-o em ambas as faces.
- Tem boas novas para mim, Vok?
Por que está tão alegre? - Perguntou Huss, sorrindo.
- Vim aqui, padre Jan, para agradecer o favor que o senhor me prestou não deixando minha esposa fugir com Jerónimo.
Isso, certamente, me obrigaria a cortar a garganta de um amigo.
- Mas como?
Você sabe de tudo? - Surpreendeu-se Huss.
- Sim, Rugena confessou tudo.
Eu a perdoei e estamos em paz.
- Graças a Deus!
Era minha obrigação não deixar que aqueles dois cabeças-duras fizessem o que eles mesmos se arrependeriam mais tarde.
Naquele instante Vok percebeu no chão uma mala e dois embrulhos.
- O que significa isso, mestre Jan?
O senhor pretende deixar-nos novamente?
- Infelizmente, sim, meu amigo!
Não posso mais ver o povo sofrendo com essa interdição; e o próprio rei deseja que me vá.
Amanhã de manhã saio de Praga.
- E para onde o senhor vai? - Perguntou Vok, com tristeza.
- Por enquanto, ao castelo de Kozigradek,96 onde o senhor Usti me ofereceu abrigo.
Depois, Deus saberá me indicar o caminho. - Disse Huss, documente.
Conversando mais um pouco e conseguindo de Huss a promessa de almoçar com eles e despedir-se antes da viagem, Vok apertou sua mão e foi embora.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 03, 2016 8:05 pm

Capítulo XI

Duas semanas haviam-se passado desde a partida de Huss.
Praga readquirira sua aparência de costume - as igrejas estavam abertas e externamente tudo estava calmo.
Nessa calmaria, porém, amadurecia uma tempestade.
Rugena, sentada próxima à janela, bordava, enquanto esperava o marido para o almoço.
Ela estava entretida no trabalho e trocava frases esporádicas com Ana, sentada à sua frente.
De repente, o tropel de cavalos chamou sua atenção.
Olhando pela janela, ela viu chegar um senhor em rico traje polonês, acompanhado de cavalariços que conduziam pelas rédeas dois maravilhosos cavalos de guerra e alguns cavalos de carga.
- Chegaram visitas e Vok ainda não voltou. - Observou Rugena, com insatisfação.
Ana também olhou distraidamente para a rua.
- É Svetomir! - Murmurou ela, empalidecendo e voltando-se, pronta para sair; Rugena, porém, segurou-a.
- Não me diga que vai fugir de Svetomir?
- Acabarei tendo que vê-lo de algum modo, mas agora não tenho forças para recebê-lo... - Sussurrou Ana, puxando seu vestido das mãos da amiga e fugindo.
Rugena acompanhou-a com ar de desaprovação e, deixando o bordado de lado, foi verificar se aquele era realmente o seu amigo de infância.
Era mesmo. Svetomir chegara, mas estava tão mudado desde a última vez, que Rugena teve que olhá-lo por um certo tempo para o reconhecer.
O magro e pálido jovem amadurecera e tornara-se um homem bonito e forte, de porte militar e um olhar calmo e seguro de si.
- Seus presentes trouxeram-me sorte e o meu futuro está garantido. - Disse ele, baixinho, cumprimentando Rugena.
Vim para lhe dizer isso pessoalmente.
Logo chegou Vok e recebeu o velho amigo de braços abertos.
- Mas você está simplesmente magnífico, Svetomir! - Disse ele, beijando-o.
Quem reconheceria em você aquele pobre menino que o patife do Hilário torturava?
Mas, antes, vamos jantar e depois você me conta todas as suas aventuras.
Voltou para ficar?
- Não! Agora estou servindo em Cracóvia.
Mas se vocês me aceitarem aqui por algumas semanas...
- Mas que bobagem!
Nem pense que vamos soltá-lo antes de alguns meses.
E Cracóvia conseguirá sobreviver sem você! - Interrompeu Vok, afavelmente, levando-o ao refeitório.
À mesa, Svetomir perguntou sobre Ana e se ela se casara.
- Ainda não.
Ela não está se sentindo bem hoje, mas você irá vê-la depois. - Disse Rugena, de passagem.
Quando ficaram a sós, o casal contou ao amigo a terrível tragédia que acontecera na casa.
A história do crime impressionou Svetomir e entristeceu-o demais.
- Que Deus tenha piedade da infeliz alma da tia Iana!
Que terrível pecado provocou a sua extrema confiança nesses sórdidos "padrecos"! - Disse ele, persignando-se.
Percebo agora que Ana me evita de vergonha, mas a minha amiga de infância, em sua desgraça, é para mim duas vezes mais cara. - Concluiu ele, com voz trémula de emoção.
A conversa sobre aquele triste acontecimento alongou-se tanto que Svetomir conseguiu falar pouco sobre a sua vida no exterior.
Percebendo seu cansaço, Vok apressou-o a ir dormir.
Na manhã seguinte, Svetomir distribuiu os presentes que trouxera:
para Rugena, um tecido de seda, bordado com prata; para Vok, algumas peles de marta; para o conde Hinek, um magnífico punhal com cabo incrustado de ametistas.
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Ave sem Ninho

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