Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 04, 2016 7:42 pm

- Para Ana, eu trouxe um brocado e mais algumas coisas, mas, no seu estado actual, esses enfeites não lhe darão prazer... - Observou ele, suspirando.
É melhor presenteá-la com a caixinha com relíquias religiosas que trouxe para a tia e o brocado ficará para você, Rugena.
- Mas que diabo!
Você deve estar rico para dar tais presentes!
Achou algum tesouro? - Riu Vok.
- Infelizmente, ainda não!
Mas Deus não me abandonou e concedeu-me uma situação respeitável e independente.
Sobre os presentes, nem vale a pena falar:
são parte do saque da batalha de Tannenberg e da tomada de Grunwald.97
- Você esteve em Tannenberg? - exclamou Vok, surpreso.
Seu sortudo! Como o invejo!
Eis onde eu gostaria de ter estado para dar uma boa surra nos alemães.
- Pois é. Você perdeu uma boa oportunidade para isso!
Lá eles receberam uma lição que não irão esquecer tão cedo.
Algum dia vou contar-lhe tudo em detalhes.
A chegada do conde Hinek, ausente em virtude dos negócios, interrompeu a conversa e o assunto mudou.
Ele também recebeu afavelmente o visitante e obteve dele a promessa de ficar mais tempo com eles.
Svetomir contou que, ao chegar à Cracóvia, uma feliz coincidência aproximara-o do senhor Zgibnev Olesnitsky, secretário do rei Jagellon, que o indicara a Jan Tarnovsky, chefe militar de Cracóvia.
Este admitira-o ao seu serviço e enviara-o como emissário à Lituânia, ao grande príncipe Vitovt e depois a lanush Mazovets.
A presteza, a rapidez e a agilidade com que Svetomir cumprira essas ordens haviam-lhe aberto um lugar na corte e, após a batalha de Grunwald (Tannenberg), o rei condecorara-o por serviços prestados elevando-o ao posto de cavaleiro e presenteando-o com uma bonita propriedade que, somada à sua parte do saque, com certeza garantiria inteiramente o seu futuro.
Na tarde do mesmo dia, Svetomir finalmente viu Ana e ficou espantado com sua mudança.
Mortalmente pálida, e olhando o tempo todo para o chão, ela limitou-se a murmurar uma saudação; somente depois de Svetomir ter beijado fervorosamente sua mão e dito algumas calorosas palavras, ela levantou os olhos, respondeu impulsivamente ao cumprimento e derramou-se em lágrimas.
Chegou o dia do aniversário de Vok e na casa dos Valdstein reuniram-se muitos convidados.
Mesmo que o luto não permitisse um banquete, os amigos de ambos os condes chegaram para cumprimentar Vok pelo aniversário e ficaram para jantar.
A reunião era exclusivamente masculina e Rugena deixou-os logo após o jantar.
Sentados à mesa os convidados bebiam vinho conversando sobre a guerra, política e questões religiosas.
Todos eram fanáticos partidários da Reforma e influentes membros do partido popular.
Lá estavam Tchenek de Vertenberg - prefeito de Praga -, Bozhek de Kunshtadt, laroslav de Shternberg, Milota Kravar, Vladislau de Dub, Jan de Khlum, Zdislav de Zvitetich e muitos outros.
A presença de Svetomir levantou o assunto sobre o rei polonês Jagellon e a guerra com a Ordem Teutónica.
Quando souberam que Svetomir Kryjanov participara da grande batalha - um golpe quase mortal sobre o poderio dos cavaleiros teutónicos -, todos começaram a pedir-lhe que contasse os detalhes daquele dia histórico.
Inicialmente, Svetomir tentou negar.
- Como vocês querem que um simples soldado, como eu, consiga descrever algo tão complicado e grandioso como foi aquela famosa batalha, cujos principais detalhes vocês devem conhecer de sobra.
- Não seja humilde, senhor Svetomir! - Gritou para ele Jan de Khlum, rindo.
Ficamos sabendo, de modo geral, que os cavaleiros foram arrasados, que o grão-mestre e os nobres da Ordem foram mortos, que foram tomadas muitas bandeiras etc.
Mas o que lhe pedimos é que nos conte o que aconteceu antes, durante e depois do combate, a descrição do lugar.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 04, 2016 7:42 pm

Em suma, aquilo que somente alguém que participou pessoalmente pode transmitir.
- Nesse caso, tentarei satisfazer o vosso desejo, mas peço um pouco de paciência... - Respondeu Svetomir, levantando-se.
Ele parou por um instante para pensar e, à medida que juntava as recordações, as sensações passadas iam revivendo novamente; seu rosto iluminou-se, os olhos brilharam e ele começou o seu relato.
- Antes de descrever a batalha, não posso deixar de falar um pouco sobre o plano de manobras militares, genialmente preparado pelo rei e pelo grande príncipe Vitovt, que foi cumprido com precisão jamais vista.
Ambos os exércitos, o nosso e o do príncipe, deveriam reunir-se na parte baixa do rio Vila e, numa força conjunta, dar um golpe decisivo no inimigo.
lakush Mazovetsky ordenou que se abrissem clareiras na floresta.
Tudo corria bem e estávamos nos movendo ao encontro um do outro, não como dois exércitos com armas e carroças mas como simples viajantes.
As tropas do senhor Tarnovsky, das quais eu fazia parte, e as nossas principais forças juntaram-se perto de Volborzh.
No dia 24 de junho chegou o rei e, logo após, a delegação da Hungria com Palatino, Nikolai de Gar e o conde Stibor de Stiborisz, que o grão-mestre da Ordem enviou para manter conversações de paz até 8 de
julho.
No dia seguinte, os nossos começaram a construir uma ponte sobre barcos através do Vila e o fizeram tão bem que, em 30 de junho, já tinha sido realizada com êxito a travessia das tropas com pesados morteiros e Vitovt seguiu-os.98
A nossa travessia do Vila e a junção com o grande príncipe lituano pareceram absolutamente impossíveis ao grão-mestre e ele nem queria acreditar nisso.
Um dos prisioneiros me contou que o grão-mestre inquiria sobre isso o Dobeslav Skoratchevsky, que estivera no acampamento polonês junto com a delegação húngara e vira, com seus próprios olhos, a ponte e a travessia das forças lituanas.
O grão-mestre ficou terrivelmente irado e achou o relato de Skoratchevsky uma mentira idiota.
Dizia ele que soubera por pessoas idóneas que o rei Jagellon tentara mas não conseguira atravessar Vila, que muitos poloneses haviam-se afogado no rio e que Vitovt também fora retido por Narev.
- Obviamente, essa travessia foi algo inédito, mas o egocentrismo alemão jamais consegue admitir que alguém, além deles, possa inventar algo novo, inteligente e prático. - acrescentou, sorrindo, Vladislau de Dub.
- Pois é. Eles se consideram um povo especial, criado por Deus exclusivamente para sugar e tiranizar os outros, ou rir-se deles.
Mas, em Grunwald, a raça teutónica recebeu uma grande lição. - Observou o conde Hinek.
- E espero que essa lição não seja a última e que o destino lhes prepare no futuro mais alguns dias do tipo de Tannenberg. - Acrescentou Vok.
Mas, prossiga, Svetomir.
- Então, no dia 9 de julho, atravessamos a fronteira prussiana.
O momento foi solene:
desfraldamos as bandeiras e cantamos a prece militar Santa Mãe de Deus99
No mesmo dia, o rei passou o comando principal ao senhor Zhindram de Myshkow, um homem respeitado por todos, inteligente, experiente e corajoso; essa indicação deu ainda maior confiança na vitória e inspirou as tropas.
O nosso primeiro acampamento nas terras do inimigo foi entre dois lagos perto de Lautenburgo.
Na segunda parada, montamos acampamento em frente à aldeia Kauernik, localizada em Dreventse.
Na margem oposta já se concentravam as tropas da Ordem e eu consegui ali a minha primeira presa, pois não participei da tomada de Lautenburgo.
Como voluntário no primeiro batalhão, fui enviado para verificar o local ao longo do rio.
De repente, nós deparamos com soldados da Ordem dando banho nos cavalos.
Eram cerca de 50 cabeças de óptimos cavalos.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 04, 2016 7:42 pm

Nós os atacamos imediatamente; uma parte dos soldados foi morta, outra parte afogou-se e os cavalos foram capturados.
A minha parte foi um maravilhoso corcel que acabei usando na batalha.
- Esse foi um grande sinal de bom agouro!
E ainda deixaram os alemães a pé! - Observou alguém.
- Também pensamos assim. - Respondeu Svetomir, alegremente.
Mas o resto da verificação não foi tão bom.
Descobrimos que o rio estava protegido por morteiros e bombardas e seu leito, cercado e intransponível.
O conselho militar real, aparentemente, julgou a travessia impossível e nós recuamos até Lauteburg e depois até Vinok.
A travessia foi extremamente difícil, as ordens foram para não parar sob nenhum pretexto e tivemos de deixar pelo caminho cavalos fracos, parte das carroças etc.
Entre os alemães correu o boato de que estávamos fugindo...
Ouviu-se a explosão de uma homérica gargalhada.
- Vocês, eslavos, fugindo?
Ah! Ah! Ah! E eles acreditaram nisso?
- Sei lá!
- Mas por que recuaram com tanta pressa? - Perguntou Jan de Khlum.
- Era necessário atravessar o mais rapidamente possível o terreno acidentado onde poderíamos ser emboscados.
Finalmente, no dia 13 de julho, montamos acampamento a uma distância de meia hora a pé de Grunwald, uma pequena mas bem fortificada cidade com cercas, aterros e fossos.
Ninguém nem pensava em tomá-la ou bloqueá-la devido ao iminente confronto com o inimigo, mas os próprios "cães alemães" nos obrigaram a isso.
Nossos soldados foram dar uma olhada nas defesas da cidade por simples curiosidade e saíram em grupos do acampamento.
Nesse momento, saiu da cidade uma guarnição e os atacou.
Alguns deles, entretanto, conseguiram se salvar.
Quando a notícia chegou até nós, todos as tropas se levantaram para tomar a cidade.
Dessa vez, acabei participando.
A velocidade do ataque foi tão grande que tomamos a cidadezinha de um só golpe e a arrasamos.
O resgate foi óptimo, pois toda a população dos arredores estava se escondendo lá com todos os seus pertences e havia grande stoque de géneros alimentícios.
No dia seguinte inteiro, o rei ficou ocupado somente com a divisão do saque e dos prisioneiros.
De noite caiu uma tempestade que nunca tinha visto antes.
Ninguém conseguia dormir, pois o vento virava as barracas, arrancava árvores com as raízes e arrasava tudo em seu caminho.
O vento rugia, uivava e assobiava como se milhares de vozes chorassem e gemessem entremeadas por um ribombar de gargalhadas selvagens...
- Talvez fossem os gemidos dos mortos e os gritos dos demónios arrastando os alemães para o inferno ou para o purgatório. - Observou alguém.
- Quem sabe? - Respondeu Svetomir, sério.
Mas a noite foi terrível e muitos velhos e experientes soldados diziam que aquelas eram as vozes dos habitantes de Grunwald gritando do além.
Diziam também que eles já tinham ouvido os mesmos lamentos em outras ocasiões após arrasarem uma cidade.
Pela manhã, a tempestade acalmou, mas o vento continuou a soprar com tal força que agitava para todos os lados o oratório de campanha do rei.
Ouvindo os conselhos do grande príncipe Vitovt, o rei concordou em adiar a missa que estava acostumado a ouvir antes de sair em marcha.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 04, 2016 7:43 pm

Recebemos ordem de seguir adiante, mas não havíamos andado nem duas verstás100 quando Jagellon mandou que as tropas parassem e, enquanto o acampamento era montado, ordenou a instalação do oratório numa colina e a realização de uma missa.
Naquela hora ainda não sabíamos que já estávamos no campo escolhido por Deus para o mais terrível combate que o mundo já presenciou!
Vejam! - Acrescentou ele. - Vou desenhar o mapa do local e vocês entenderão melhor o andamento da batalha.
Vok, peça para trazerem um pedaço de giz!
O pajem correu imediatamente para cumprir a ordem.
Svetomir inclinou-se sobre a grande mesa de carvalho e começou a desenhar com grandes traços um mapa, bastante imperfeito do ponto de vista de algum oficial de quartel-general moderno, mas que ia obtendo total aprovação dos ouvintes à medida que o contador explicava o que estava desenhando.
- Vejam, este círculo é a colina onde estava o oratório - vou tomá-lo como ponto de partida.
Agora vocês estão vendo os lituanos, que iam na frente, enquanto mais para o oeste estavam os poloneses.
Como vêem, a curta distância do acampamento lituano localiza-se Ludvigedorf; a partir dele segue a estrada para a aldeia Grunwald, em cujo lado esquerdo existe uma floresta e depois, à direita, vem Tannenberg.
Ambos os acampamentos ainda estavam desorganizados e o rei ouvia a missa quando, de repente, do batalhão de guarda informaram que o inimigo estava saindo de Grunwald.
Svetomir parou por um instante.
- Muito do que vou contar agora não vi pessoalmente, pois, como entendem, não poderia estar em toda a parte; mas ouvi isso de testemunhas idóneas tais como os senhores Jyndram, Zguibnev, Olesnitsky e outros.
Além disso, por ter um bom cavalo, eu muitas vezes levava ordens dos comandantes antes e durante o combate.
Mas, voltando ao relato:
como ninguém tinha previsto um avanço tão rápido do inimigo, eu tinha ido ao acampamento lituano para visitar um dos ajudantes de Vitovt e acabei vendo pessoalmente o inimigo.
Sem vacilar um instante, montei no cavalo e corri para prevenir o rei.
Estava sendo celebrada a missa e o rei Jagellon, ajoelhado, nada respondeu ao meu informe.
Enquanto isso, todo o exército já estava em movimento.
A todo instante o príncipe enviava mensageiros ao rei com o pedido de ordenar o avanço; por fim, Vitovt foi pessoalmente falar com o rei.
Mas não adiantou.
Profundamente religioso, Jagellon não quis interromper a missa e, somente após ouvir duas missas, deu ordem para irmos à luta.
Como sinal combinado, cada soldado colocou no elmo ou chapéu um punhado de feno; o chamado para os poloneses era a palavra "Cracóvia" e para os lituanos "Vilnus".
O senhor Gyndram, sem perder tempo, colocou as tropas em posição de ataque.
Nesse ínterim, reuniu-se em volta do rei um grande número de nobres senhores, que ansiavam por receber o título de cavaleiros.
O rei achou impossível negar-lhes aquele pedido legal e desceu do cavalo.
Ele já estava iniciando a cerimónia, quando foi interrompido:
chegaram dois arautos do grande marechal da Ordem, Friedrich von-Villenrod, para entregar ao rei e a Vitovt duas espadas em sinal de desafio.
- Se os alemães fossem previdentes e pudessem imaginar o que os estava aguardando naquele dia, não seriam tão insolentes. - Observou Jan de Khlum.
- Talvez, mas naquele momento eles simplesmente sufocavam de orgulho e, com palavras pomposas, declararam que o grão-mestre estava enviando as espadas "para que elas nos sirvam na batalha" e oferecendo a escolha da hora e lugar.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 04, 2016 7:43 pm

O rei ouviu calmamente o discurso insolente e respondeu:
"Temos espadas suficientes, mas estas também servirão... para cortar cabeças demasiadamente duras!
Já a escolha do local e da hora, deixo por conta de Deus".
Em seguida, ele e Vitovt aceitaram as espadas.
Assim que os arautos foram embora, o rei dirigiu-se a todos os presentes com um discurso no qual citou todas as tramas da Ordem e expressou a certeza de que a Justiça Divina lhe daria a vitória sobre o nosso cruel e traiçoeiro inimigo.
Depois, deixei Jagellon e juntei-me ao meu grupo na ala direita do exército.
Lá estavam as tropas do rei comandadas por Andrei Tchilek de Zhelekhov e Jan de Sprov, da família dos Odrovatch.
O quadro era solene:
a garoa tinha parado e o sol, que aparecera por detrás das nuvens, brincava com seus raios sobre as brilhantes armaduras.
Os cavalos relinchavam, as bandeiras tremulavam sob uma leve brisa e todo o exército cantou Santa Mãe de Deus.
Quando nós nos movemos para a frente, os alemães já estavam em formação de combate, mas ocupavam uma posição muito melhor que a nossa, pois o local estava em declive para o nosso lado.
Além disso, sua ala direita estava bem coberta pela floresta.
Ambos os exércitos estavam frente a frente à distância de um tiro de besta e separados por um estreito e plano vale.
Não vou contar sobre o início do combate:
a acção dos atiradores e os duelos entre cavaleiros.
O verdadeiro combate começou quando ambos os exércitos com gritos ensurdecedores atiraram-se um contra o outro e desencadeou-se a luta corpo a corpo, terrível e sangrenta.
A terra tremia, as colinas vizinhas tremiam ao tropel das patas dos cavalos, gritos de guerra, tilintar das armas e gemidos dos feridos.
As lanças quebraram rapidamente, e a luta prosseguiu não só com as armas mas também com as mãos vazias; uns sufocavam na aglomeração geral, outros morriam sob as patas dos cavalos.
Os alemães começaram a dominar os lituanos, que lutavam do nosso lado direito e as primeiras fileiras caíram sobre as seguintes, provocando uma confusão na retaguarda.
Finalmente, eles tremeram e correram arrastando consigo os destacamentos de poloneses encostados neles.
O momento era terrível, a nossa ala direita ficou descoberta e, se os alemães nos atacassem por esse lado, a vitória seria deles.
Mas as corajosas tropas russas salvaram a situação.
Junto com o exército do príncipe lituano, além da horda de tártaros havia alguns destacamentos de Polotsk, Smolensk Vitebsk, Kiev, Minsk e outras cidades.101
Todos eles iam sob a bandeira de Smolensk.
Eu os via desde que os dois exércitos se juntaram - era um povo de aparência severa, mas inteligente e conhecedor da arte de guerra.
Não se podia deixar de admirá-los quando o grande príncipe treinava os seus exércitos e realizava manobras de tropas.
E foram eles que salvaram a situação.
Enquanto todos em volta corriam, eles lutavam muito bem e pararam teimosamente como uma parede contra a qual se quebravam todas as tentativas alemãs; essa resistência é que permitiu aos outros se recuperarem.
Finalmente Vitovt, que tudo via e estava presente em todos os lugares, conseguiu reunir parte do seu exército.
Animados com a perseguição, os alemães passaram por nós como um furacão, mas na volta os nossos pegaram-nos pela retaguarda e mataram uma parte e aprisionaram a outra.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 04, 2016 7:43 pm

O sucesso inicial inflamara o inimigo que, aproveitando sua posição privilegiada, caiu como uma avalanche sobre as tropas polonesas e atropelou os checos e morávios que lutavam nas primeiras fileiras dos nossos exércitos sob a bandeira de São Jorge.
Achando que nós estávamos em fuga - ou definitivamente batidos -, o grão-mestre decidiu que havia chegado a hora de accionar as 16 bandeiras de reserva que conduzira pessoalmente.
Do alto de onde estava até aquele momento ele, de repente, apareceu do nosso lado.
As principais forças que lutavam muito na frente não o notaram por causa da poeira e nós, as tropas do rei que estavam mais próximas dos alemães, tomamo-los por lituanos pela semelhança das lanças.
O movimento do grão-mestre ameaçava muito o rei que, guardado por somente 60 lanças (cerca de 120 homens), estava parado num pequeno bosque tão abertamente, que um dos cavaleiros teutónicos, percebendo isso, atirou-se sobre ele com espada em riste, mas foi detido por Zguibnev Olesnitsky e jogado no chão por uma lança.
Depois, o rei e os cavaleiros da corte acabaram de matá-lo.
Mais tarde disseram que aquele cavaleiro chamava-se Dippoldo von-Kektrits.
Os três momentos seguintes consolidaram nossa vitória.
Aqueles que corriam para o acampamento voltaram a atacar e golpearam o inimigo com tanta intensidade que os alemães foram amassados, recuaram e começaram a fugir em desordem; vendo isso, alguns destacamentos das tropas de von-Junguinguen, alugados da terra de Kholm (Kulmsk), também fugiram, em pânico.
Deus estava connosco naquele dia e inspirou Dobeslav Olesnitsky a fazer uma inspecção do local na nossa ala direita, o que possibilitou descobrir a presença do grão-mestre e o perigo que corria o rei.
Essa notícia correu as fileiras como um raio.
Os checos e morávios deixaram de perseguir os alemães que corriam em direcção à floresta e atacaram pelo lado direito as fileiras desarrumadas do exército do grão-mestre, enquanto nós e o resto das tropas polonesas golpeávamos pela frente.
Era o fim. Assolado por todos os lados, esmagado pela supremacia de nossas forças, o resto do exército alemão correu para o acampamento fortificado; o grão-mestre e os principais comandantes foram mortos, depois de desesperada defesa.
Nada poderia fazer-nos parar.
Caímos sobre o último abrigo do inimigo como uma torrente e todo o acampamento - com carroças, provisões e diversos bens - ficou para nós; todos os que ainda viviam foram mortos.
O sol poente iluminou o campo de batalha coberto com 40 mil mortos.
O enorme resgate - 51 bandeiras e 15 mil prisioneiros - coroou nossa vitória.
Agora, se a Ordem algum dia se recuperar, não será tão em breve!
Durante um certo tempo houve um silêncio na sala.
O relato causara uma profunda impressão sobre os ouvintes e cada um pensava na importância daqueles acontecimentos.
- Você acredita, Svetomir, que os alemães não se recuperarão tão cedo desse golpe?
Pois temo que eles, pelo contrário, recuperar-se-ão bem rapidamente!
É que os alemães são teimosos e, como a erva daninha, difíceis de exterminar! - Observou Tchenek de Vartenberg, balançando a cabeça.
- Em todo caso, eles receberam o que mereciam e o futuro só Deus sabe!
Se eles continuarem a ser tão brigões e teimosos, Deus lhes preparará um novo Tannenberg!
Na opinião de todos os comandantes, deveríamos continuar a perseguição e tomar Malborg (Marienburgo) onde naquela hora não havia nenhum soldado e só então os alemães estariam exterminados na raiz.
Mas o rei passou alguns dias festejando a vitória - na ocasião fui consagrado cavaleiro - e, quando nós nos aproximamos da cidade, ela já estava pronta para a defesa e não conseguimos tomá-la.
- E como eram esses russos que lutaram tão bravamente?
Pagãos como os lituanos?
- Que nada!
Cristãos como nós, mas cismáticos!102.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 04, 2016 7:44 pm

E o seu príncipe, Iuri Lutvenievitch, é um verdadeiro herói; ele, com suas tropas, é que decidiu a vitória.103
Para entender isso, olhem mais uma vez no meu mapa:
aqui está os exércitos lituano e polonês formando uma linha, com o centro um pouco destacado; atrás da linha polonesa estavam os tártaros.
Os alemães precisavam quebrar essa linha, pois contorná-la pelo comprimento seria difícil.
Os russos ocupavam uma importante posição no meio do exército; o mais forte golpe do inimigo foi direccionado em cima deles e, quando os lituanos correram levando consigo parte dos nossos, os soldados da Ordem estavam tão crentes na vitória que começaram a cantar Cristo Ressuscitou.
Mas, como já falei, as valorosas tropas do príncipe Iuri permaneceram firmes como rocha e Vitovt, percebendo a importância do momento, enviou-lhes ajuda.
Esse grande príncipe mostrou naquele dia uma incomparável capacidade militar e coragem!
- Pois é. Você falou dele tanto no começo quanto no fim do relato.
Mas o que fazia o rei?
Parece que ele nem tomou parte? - Perguntou Zviretich.
Svetomir riu, maliciosamente, e cocou a orelha.
- Pare de esconder as coisas!
Somos todos amigos e pessoas honestas! - Exclamou Vok, impaciente.
Você não tem culpa se Jagellon não é um herói.
- Não, o rei é um bom rapaz, mas os "padrecos" abusam de sua religiosidade; se ele cometeu alguns enganos foi por causa dos tonsados, que sussurram muita bobagem em seus ouvidos.
Estou zombando deles - e Vok deve saber bem como eu os odeio.
Aliás, posso dizer que soube muita coisa interessante sobre os russos cismáticos.
Padre Hilário falava deles espumando pela boca, considerando-os piores que pagãos.
Mas, na minha opinião, eles estão mais perto da verdade do que nós, católicos.
Percebi tudo isso pelas conversas que tive com Iuri Lugvenievitch, que gostava de mim; fiquei muito amigo de um de seus comandantes e até prometi visitá-lo um dia, o que com certeza farei assim que retornar à Polónia.
- Mesmo assim - acrescentou Vok, pensativo -, ao lembrar novamente a grande batalha, onde deitaram seus ossos tantos de nossos irmãos e correu tanto sangue eslavo, chega-se à conclusão de que o príncipe Konrad Mazovetsky tomou uma decisão errada convidando os alemães a defender suas terras.
Eles inicialmente acabaram com os fracos prussianos104 e depois resolveram acabar com os poloneses e lituanos.
É verdade que Konrad tinha dificuldade para se defender dos prussianos, mas se defender dos alemães é muito mais difícil!
- Sim! - Interrompeu-o o conde Hinek.
O certo é que deixaram lobos guardando rebanho de ovelhas.
Esses acordos com os alemães nunca levam a boa coisa!
O prussiano é um selvagem, mas também o alemão é um bárbaro.
E isto, nós, checos, sabemos melhor do que ninguém!
Eles mantêm com mão-de-ferro as regiões sob seu domínio e engolem uma a uma as tribos.
Os poloneses pagarão muito caro o erro do príncipe Mazovetsky!
A conversa passou, aos poucos, para as questões religiosas e provocou uma nova explosão de indignação sobre as indulgências, a interdição e a expulsão de Huss.

96 Uma pequena localidade (Kosi Bradec), onde mais tarde surgiu o famoso Tabor - Nota do autor.
97 Em 1410, os exércitos conjuntos da Lituânia e da Polónia, reforçados por russos e tártaros, liderados pelo rei Jagellon, derrotaram os cavaleiros teutónicos alemães na batalha de Tannemberg - Nota da editora.
98 G. Kõbler, "Die Entwikelung dês Kriegswesens und der Kriegfiihrung in der Ritterzelt", B. II, p. 704 (Evolução da guerra na época dos cavaleiros Teutónicos) - Nota do autor.
99 Antiga canção muito popular, composta - conforme a tradição -por São Voitekh, que era cantada pelos soldados antes das batalhas - Nota do autor.
100 Verstsá.1 medida igual a l, 06 km - Nota do tradutor.
101 Soloviov, "História da Rússia dos tempos arcaicos", tomo IV, p. 1.044 - Nota do autor.
102 Cismáticos - Essa denominação surgiu com o cisma que dividiu a Igreja cristã, no século XI, entre Igreja Latina, seguidores do Papa, e Igreja Ortodoxa Grega.
Essa separação definitiva deu-se após uma série de divergências a respeito do dogma, da liturgia, das práticas religiosas e de disputas políticas entre os papas e os patriarcas de Constantinopla, culminando no rompimento definitivo, em 25 de julho de 1054.
Os russos foram os principais seguidores dos gregos no rompimento com o papado e, apesar de não serem chamados de heréticos, eram odiados e tratados da mesma forma pela Igreja Romana - Nota da editora.
103 Koslovitch, "Batalha de Grunwald", p. 9 - Nota do autor.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 04, 2016 7:44 pm

Capítulo XII

O tempo transcorria calmamente na família dos Valdstein.
Svetomir renovara a amizade com os antigos companheiros e professores, embora também passasse muito tempo em casa conversando com Rugena e Vok ou com o velho amigo Broda.
Este o abarrotava de perguntas sobre a guerra com os alemães, a batalha de Tannenberg e adorava ouvir detalhes da derrota da Ordem Teutónica.
Somente Ana mantinha-se afastada.
Ela não chegava a evitar Svetomir, mas a amizade que permanecera entre ela e Rugena não se estendia a ele.
Em conversas com a jovem condessa, Svetomir sempre expressava sua profunda pena sobre o estado de espírito de sua amiga de infância.
- Pois é. A partir daquela noite fatídica, alguma coisa se quebrou dentro dela.
Ela tornou-se uma outra e muito estranha pessoa.
Eu sonhava tanto com um outro destino para Ana... - dizia Rugena, naquela tarde, enxugando uma lágrima.
- Lembro-me de que você queria que eu me casasse com ela.
Confesso sinceramente que seu plano me agrada e ficarei feliz se puder levá-la comigo à Polónia.
- Mas, como?
Você concorda em se casar com ela mesmo depois de... de tudo aquilo que aconteceu?
Oh! Como você é bom e magnânimo, Svetomir!
Eu te amo por isso! - Exclamou Rugena, explodindo de felicidade.
Pegando a sua cabeça com as mãos, ela deu-lhe um forte beijo na testa.
- O prémio supera o favor. - Respondeu ele, rindo e beijando as mãos dela.
- Você se apaixonou por ela?
- Realmente, não sei o que dizer.
Provavelmente, não!
Mas ela me transmite um respeito tão sincero e uma pena tão profunda que tudo isso, aliado à nossa velha amizade, me motiva a tirá-la daqui para que, num novo ambiente e com novas obrigações, ela esqueça sua desgraça.
Pelo martírio que salvou você - minha benfeitora -, a boa, bela e honesta Ana é para mim duplamente cara.
Eu não encontraria uma esposa melhor e espero que o amor logo complete a nossa felicidade.
Só que pediria a você, querida Rugena, que transmitisse a Ana a minha proposta.
A pobrezinha está tão preocupada e assustada que eu não consigo achar uma oportunidade de falar com ela.
- Com muito prazer!
Falarei com ela hoje mesmo.
E amanhã, se Deus quiser, festejaremos o noivado de vocês! - Respondeu Rugena, alegremente.
Ana passara o dia todo com uma insuportável dor de cabeça.
Abatida, ela estava sentada em seu quarto, lendo uma oração.
As vestes pretas e largas e os cabelos negros destacavam ainda mais a palidez de cera do rosto e das mãos que descansavam no colo.
Já era tarde e Ana surpreendeu-se ao ver Rugena entrando, principalmente porque o rosto da condessa iluminava-se, com inusitada alegria.
- Pare de rezar, Ana!
Trago-lhe uma notícia que irá reavivar sua vida e alterar seu destino. - Disse ela alegremente, beijando-a.
Ana deu um sorriso doentio em resposta.
Mas, quando Rugena expôs a proposta de Svetomir, ela estremeceu e um rubor febril apareceu em seu rosto.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 04, 2016 7:44 pm

Contudo, aquilo foi só por um instante; depois, sua cabeça baixou de novo tristemente sobre o peito.
Espantada com o silêncio, Rugena pegou-a pela mão.
- Você não está feliz, Ana?
Então espere, pois amanhã o nosso querido Svetomir irá beijá-la como noivo e você perceberá que o passado morreu e, para você, abrir-se-á um lindo futuro.
Ana levantou a cabeça, endireitou-se e passou a mão pelo rosto.
- Agradeça ao Svetomir por mim.
Diga que lhe serei eternamente grata por essa proposta, que me honra e me eleva aos meus próprios olhos, mas que não posso aceitá-la.
Rugena ficou estupefacta.
- Você ficou louca? - Exclamou ela, indignada.
Um jovem bom, bonito e rico se propõe a lhe dar o seu nome e o seu amor, promete-lhe uma vida brilhante e feliz e você o rejeita?
Isso é uma bobagem e você está sendo mal-agradecida!
Nem quero ouvir tamanho absurdo!
- Respeito demais todas as vantagens da proposta de Svetomir, mas é exactamente pelo facto de não poder fazê-lo feliz que rejeito a proposta.
Algo se quebrou em minha alma.
Eu morri para as alegrias da vida e o meu querido e magnânimo amigo merece uma esposa melhor do que eu, quebrada de corpo e espírito.
- Mas Svetomir gosta de você e sua afeição a curará.
E já pensou como irá entristecê-lo e ofendê-lo com essa rejeição?
- Tenho certeza de que na proposta de Svetomir existe tanto amor quanto pena; o coração de uma mulher não se engana em tais casos.
Se ele se ofender agora, chegará um tempo quando me agradecerá por deixá-lo em liberdade.
Também não desejo me amarrar.
Tudo o que restou do meu coração, depois da catástrofe que quebrou a minha vida, pertence a um outro...
Rugena estremeceu.
- Você se apaixonou por outro, Ana?
Mas, por quem, meu Deus?
- Por quem mais me apaixonaria senão por aquele que me ajudou durante a minha provação, que me arrancou do desespero sem saída e me salvou do suicídio?
- Você ama o mestre Jan?
Não está brincando, Ana? - Surpreendeu-se Rugena.
Mas pense só:
você está amando um sacerdote e isso é pecado!
Ana olhou-a nos olhos e um forte rubor cobriu sua face.
- Você não me entendeu, Rugena!
O que sinto por padre Jan em nada se parece com amor carnal.
Eu o amo! Mas amo como a terra ama o fresco orvalho que satisfaz a sua sede, como a grama ama o sol que a aquece e ilumina.
Eu o adoro com devoção, como a um bom génio!
Ouvir seus sermões, ser conduzida por ele ao caminho dos céus do qual ele é o enviado, ver seu dócil olhar dirigido a mim com aprovação - eis tudo o que mais desejo no mundo.
- Eu entendo, Ana.
Mas, por melhor que seja esse sentimento, duvido que ele possa preencher sua vida.
Você é jovem e chegará um momento em que a realidade acima dos sonhos reclamará os seus direitos.
- Não! Eu envelheci de alma e o sentimento que tenho por esse santo homem - sim, porque o padre Jan é um santo! - nunca poderá apagar-se!
Você se surpreende?
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 04, 2016 7:44 pm

Você negaria que eleja possui o dom de curar?
A voz dele não agia de forma calmante, melhor que qualquer remédio, sobre os ataques de loucura da condessa Iana?
Quando eu estava com terríveis dores de cabeça e me parecia que o crânio ia estourar, bastava ele pôr sua mão na minha testa para parar o sofrimento.
Nesses momentos eu vi - ouviu, Rugena? - eu vi que durante sua oração uma auréola dourada iluminava sua cabeça, e de seus dedos emanava uma luz espalhando calor por todo o meu corpo.
Eu ficava tomada por uma indescritível beatitude e a alma elevava-se até Deus enquanto o sono benfazejo não me cerrava os olhos.
Rugena ouvia-a, surpresa.
A exaltada adoração de Ana convenceu-a de que Huss era realmente um ser elevado, e a firme certeza que soava na voz da amiga contagiava-a também.
- Vejo que sua decisão é inabalável; vou transmitir a sua resposta ao Svetomir. - Disse ela, após um momento de silêncio.
- Prefiro falar com ele pessoalmente.
Diga a Svetomir que venha visitar-me amanhã.
No dia seguinte houve uma longa conversa entre Ana e Svetomir.
Por fim, eles trocaram juras de amizade e confiança, mas o jovem saiu preocupado, emocionado e triste.
A partir daquele dia o recato de Ana em relação a ele mudou para uma calorosa relação de irmã.
Jerónimo, que viajara pela Morávia, voltou finalmente a Praga na companhia de um dos parentes do senhor Vartenberg e foi desagradavelmente surpreendido pela caricatura que Vok deixara em sua mesa, cujo sentido entendeu.
Ele não imaginava como o conde ficara sabendo do caso e a ideia de encontrar-se com Valdstein não lhe agradava.
Mas Jerónimo era incapaz de recuar diante do perigo e, desejando esclarecer suas relações com Vok, mandou-lhe um bilhete dizendo:
"Se o dono do fardo de feno não está satisfeito com a fuga do burro e deseja explicações mais decisivas, este irá aguardá-lo amanhã o dia todo para as devidas satisfações".
Mesmo que não houvesse assinatura, o conde entendeu imediatamente que o seu oponente estava contando com um duelo.
Vok, entretanto, não sentia raiva alguma dele e Rugena nunca fora tão boa, nem parecera tão apaixonada quanto depois da sua confissão.
E ele foi visitar Jerónimo.
- Você foi suficientemente castigado por suas façanhas com a sua magnânima negação da mulher amada que eu admiro, mas não conseguiria imitar. - Disse o conde, benevolentemente, dando-lhe a mão.
Com mil diabos!
Se uma mulher como Rugena declarasse estar apaixonada por mim e concordasse em me acompanhar, eu fugiria com ela sem olhar para trás deixando que o mundo se danasse!
Mas... do ponto de vista do marido desta mesma Rugena, só posso agradecer a você por ser... burro!
Apesar do restabelecimento das boas relações, Jerónimo raramente visitava os Valdstein.
Porém, gostava muito de Svetomir, interessando-se pelo destino do jovem e visitando-o quase diariamente.
Em suas longas conversas, seus assuntos frequentemente abordavam Huss; assim, quando Jerónimo disse ao amigo que pretendia visitar o padre no exílio, Svetomir pediu-lhe, pelo amor de Deus, que o levasse consigo.
Numa linda manhã, eles seguiram em direcção ao castelo de Kozigradek, onde vivia Huss.
Ao chegarem lá, souberam, pelo senhor Usti, que seu convidado viajara pelas cidades e aldeias, pregando a palavra divina em campo aberto, ou seja, nos lugares onde se reunia o povo.
Jerónimo e Svetomir decidiram achá-lo e, na manhã do dia seguinte, seguiram adiante.
O primeiro camponês que encontraram indicou o povoado onde, naquela hora, encontrava-se Huss.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 04, 2016 7:45 pm

À medida que se aproximavam do local, percebiam que crescia o número de pessoas apressadas para ouvir o famoso pregador.
Finalmente, chegaram ao objectivo de sua viagem.
Numa colina, entre Bekhina e Bernartits, aglomerava-se uma multidão de pelo menos duas mil pessoas, composta principalmente de camponeses, homens, mulheres e crianças.
Havia também trabalhadores urbanos e até alguns senhores.
Em todos os rostos liam-se uma profunda humildade e muita concentração.
No centro formado pelos ouvintes, sobre o tronco de uma grande árvore derrubada, servindo-lhe de púlpito, estava Huss.
Sua voz sonora ouvia-se ao longe dado o profundo silêncio que reinava à sua volta, pois o povo reunido temia perder uma única palavra do sermão.
Jerónimo e Svetomir amarraram os cavalos a uma árvore e abriram caminho na multidão para se aproximar do pregador.
A grandiosa simplicidade daquela cena, que lembrava um quadro dos tempos evangélicos, deixou-os espantados.
Da mesma forma Cristo pregara a Sua palavra sagrada aos humildes e desgraçados, preferencialmente com o céu azul servindo de cúpula para o templo da verdade que construía.
Com o rosto inspirado e ligeiramente bronzeado, Huss falava do Evangelho, explicando aos ouvintes que a clareza da verdade divina não podia ser obscurecida por ideias humanas e que somente as escrituras eram o verdadeiro condutor para os homens no caminho da salvação.
Ao fim do sermão, a multidão começou a dispersar-se.
Jerónimo e seu companheiro puderam finalmente aproximar-se de Huss.
O sacerdote ficou muito contente ao reconhecê-los e levou-os imediatamente para a aldeia vizinha, onde vivia já há alguns dias.
O casebre era pobre, sem qualquer conforto, mas a expressão feliz dos donos indicava claramente como eles estavam orgulhosos e satisfeitos de abrigar sob o seu tecto de palha um homem respeitável que consideravam como um novo apóstolo.
Huss ofereceu aos visitantes uma refeição que consistia de leite, pão e queijo.
- Desculpem-me, queridos amigos, por esta parca refeição à qual, obviamente, não estão acostumados; mas me sinto muito bem por aqui.
A simplicidade da aldeia lembra a minha infância.
Aqui me vejo novamente como filho de camponês.
Entre essas humildes e bondosas pessoas, compreendo com maior clareza a que balbúrdia mundana eu me acostumei em Praga.
Agora, vamos conversar.
Vamos sentar lá, naquele banco debaixo do grande carvalho.
Como vêem, o dia primaveril está maravilhoso e ninguém irá incomodar-nos!
Você, Jerónimo, informar-me-á sobre as últimas novidades da capital, enquanto Svetomir vai contar-me suas aventuras no estrangeiro.
Jerónimo trouxera uma recente e muito importante notícia sobre a expulsão de Estéfano Paletch, Stanislav e Pedro de Znoim e Jan Elias.
Depois que o sínodo, convocado em Praga com o objectivo de restabelecer a paz na Igreja checa, não vingara, o próprio rei nomeara uma missão composta pelo arcebispo Albino e três membros, dando-lhes o poder de tomar todas as medidas que achassem necessárias para restabelecer a ordem.
Essa comissão, presidida por Zdenk Lobaun, reunira-se durante alguns dias na casa de um de seus membros, Cristiano Prakhatitsky, pároco da igreja de São Miguel.
Mas, apesar de todos os esforços, não obtivera nenhum resultado.
Os quatro professores supracitados, membros do partido católico, haviam-se revelado difíceis de dialogar - depois de acusarem a comissão de ser fraca e parcial, simplesmente haviam deixado de comparecer às reuniões.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 04, 2016 7:45 pm

Percebendo que a última medida visando acertar as questões religiosas não dera certo, Venceslau, enfurecido, destituíra aqueles teimosos de seus cargos e, em fevereiro, expulsara-os do país, proibindo-os de algum dia recolocarem o pé na Boémia.
Huss ficou profundamente triste com o severo castigo imposto aos seus antigos amigos, que antigamente haviam sido fiéis partidários na luta pelos votos na universidade.
— Vejam até que ponto pode levar o medo do Papa:
ao rebaixamento e à negação das próprias convicções! - Disse ele, tristemente.
Lamento por eles de todo o coração.
Para desanuviar o ambiente pesado provocado pelas notícias que trouxera, Jerónimo passou a palavra a Svetomir.
Huss começou a perguntar ao jovem sobre a sua vida nesse tempo que passara.
Svetomir descreveu, com animação e humor, seus primeiros passos na nova pátria e as diversas bobagens que cometera durante sua aprendizagem na arte da guerra.
O facto de o checo ser a língua usada na corte de Cracóvia facilitara sobremaneira a sua situação.
Mas a antiga posição anti-clerical não desaparecera do coração de Svetomir.
Ele descreveu de forma contida, mas sem qualquer recato - a influência funesta do clero, com sua cega e obtusa impaciência, sobre o rei e o governo do país.
Ele atribuía àquela má influência a inimizade que se espalhara pela Polónia contra a Boémia como país herege.
A influência do clero incitara, no devido tempo, os príncipes Mazovets a pedir ajuda aos alemães.
O ninho de bandidos chamado Ordem Teutónica criara fortes raízes - sugava o sangue de seus subordinados eslavos e crescia numa força que ameaçava destruir completamente seus antigos benfeitores.
- Os malditos instalaram-se como uma gigantesca aranha na terra eslava, tecendo por todos os lados a sua teia, semeando conflitos em todos os lugares e aniquilando tribos inteiras sob o pretexto de convertê-las ao cristianismo.
A Polónia foi obrigada a se unir à Lituânia e Rússia, convocar milhares de checos e até os ímpios tártaros pagãos para esmagar essa hidra em Tannenberg.
Em compensação, lá nós acertamos as nossas contas! - Acrescentou Svetomir, com entusiasmo.
E, tomado por exaltadas lembranças sobre a grande batalha, ele começou a contar sobre ela a Huss, desenhando a imagem simpática do valoroso príncipe Iuri Lugvenievitch e suas corajosas tropas, decisivas no resultado do combate.
- Eles são cismáticos gregos, certo? - Perguntou Huss, ouvindo atentamente.
- Sim, mas juro, padre Jan, que são bons cristãos!
Sua fé em Deus Salvador e no Evangelho é tão profunda e verossímil quanto a nossa!
Não sei, realmente, de que consiste o "cisma" que nos separa deles, mas posso testemunhar que são pessoas honestas e tementes a Deus. - Concluiu Svetomir, com convicção.
- Não duvido disso, meu filho. - Sorriu Huss.
E dirigindo-se a Jerónimo, acrescentou:
- Sinto um grande interesse pelo rito oriental, que foi o primeiro a iluminar com a luz evangélica a nossa terra checa.
Recentemente, passaram por aqui alguns mercadores de Bizâncio que se dirigiam a Praga, e conversei longamente com eles.
Tudo o que ouvi deles convenceu-me de que a Igreja cristã oriental, que o nosso Papa chama de herege, manteve numa pureza incomparavelmente maior que a nossa - as tradições dos primeiros séculos do cristianismo.
Somente em alguns lugares ainda temos o costume da Igreja ancestral de comungar com o corpo e o sangue.
Lá, essa lei de Cristo é sacramentada como indicado no Evangelho e nas epístolas de Paulo!
Além disso, o exemplo dessa mesma Igreja oriental indica claramente que o papado não tem princípio divino, pois Cristo não obrigou os fiéis espalhados pelo universo a apelar ao Papa e aos cardeais - que muitas vezes se maculam com a mentira e o pecado.
Deus me livre de achar que os cristãos orientais devem ser julgados por isso!
Infelizmente, todas essas informações são esparsas e, para julgar com consciência, seria necessário conversar com um teólogo que vivesse nos locais onde vive esse povo e que estivesse familiarizado com os seus ensinamentos e a vida cotidiana.
Mas onde encontrá-lo?

104 Essa separação entre alemães e prussianos só tem sentido nesse período, quando a Prússia era um Estado aparte, com uma população de origem tanto germânica quanto eslava; posteriormente, a Prússia tornou-se a principal região alemã, tendo liderado a unificação imperial no século XIX - Nota da editora.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 04, 2016 7:45 pm

Capítulo XIII

Passou-se um ano agitado e angustiante.
Grandes acontecimentos amadureciam na vida da sociedade da Idade Média; as pungentes questões religiosas e políticas exigiam solução inadiável.
O projecto do concilio - que tinha sido discutido durante o ano anterior e que poria um fim às desordens da Igreja - fora posto em execução.
O imperador Sigismundo assumira a causa e conduzira-a energicamente a um bom resultado.
No famoso encontro com João XXIII, em Lodi, o local escolhido para o concilio fora a cidade imperial de Constança, e o Papa, com dor no coração, tivera que concordar.
A Nêmesis105 celestial punha arreios no criminoso João XXIII e obrigava-o a comparecer àquele concilio - extremamente perigoso para ele - e não existia outra saída.
Se, de um lado, ele estava sendo ameaçado pelo rei napolitano - que o odiava e que agora era o vencedor e mandante de Roma -, de outro lado, seu único protector, o traiçoeiro Sigismundo, convocava-o a Constança para acabar com as divergências na Igreja - e isso somente poderia prejudicar o Papa, desvendando a sua vida particular.
João XXIII tentara em vão escapar da corda em seu pescoço, mas todos os seus esforços haviam-se quebrado contra a vontade férrea de Sigismundo.
No dia 30 de outubro de 1413 fora promulgado um edital pelo qual o imperador, num acordo com o Papa, convocava todos os governantes cristãos, todos os príncipes da Igreja e todos aqueles cujos nomes e conhecimento eram famosos no mundo cristão a comparecer à cidade de Constança, no dia 1° de novembro de 1414, para discutir as reformas na Igreja e acabar com a heresia.
Este último item referia-se directamente a Boémia.
Lá vivia um corajoso pregador, cuja palavra inspirada e cuja vida imaculada serviam de viva crítica ao criminoso e devasso clero.
Esse homem era Jan Huss - a imagem viva do protesto no cristianismo.
Sobre ele concentrava-se toda a raiva; ele deveria pagar por todos os inovadores que haviam exigido dos sacerdotes castidade e moralidade.
Já condenado por seus inimigos, Huss fora convocado ao concilio para se defender das acusações de heresia.
Com sua natural obediência e sua característica firmeza de carácter, ele atendeu imediatamente à convocação, sem se iludir sobre o perigo que corria por pregar sua verdade evangélica.
Numa linda noite de setembro, alguns homens reuniram-se num pequeno e toscamente mobiliado quarto numa casa da "Cidade Antiga".
As janelas saíam para o quintal e um longo e escuro corredor separava o quarto da outra parte da casa, escondendo seu ocupante de qualquer vizinhança indiscreta.
Era Jan Huss, que havia chegado a Praga para se preparar para a longa viagem e despedir-se dos amigos antes de sua partida para Constança.
O clero de Praga fingia ignorar sua chegada e, dessa vez, não o oprimia.
Neste momento, encontramo-lo no discreto abrigo, cercado de amigos que discutem com ele a viagem marcada.
Lá estão Jan de lesenits, Prokop de Pilsen, Pedro de Mladenovits, lakubek de Stribr, o substituto de Huss na capela de Belém, mestre Gavlik e Jerónimo de Praga, que acabara de retornar de sua viagem à Lituânia.
- Meus amigos, não se torturem com exageradas preocupações.
O imperador me concede um salvo-conduto que me garante toda a liberdade para defender e demonstrar que estou certo. - Dizia Huss, naquele instante.
- Não duvido da boa vontade de Sigismundo de protegê-lo.
Mas lá em Constança você irá se confrontar com Paletch e outros inimigos que o odeiam. - Objectou Jan de lesenits.
- Eu também não fico divagando e sei que me aguardam grandes provações.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 04, 2016 7:45 pm

Mas creio na protecção de Cristo e, qualquer que seja o destino que me espera, eu abençoo a vontade divina!
Creio firmemente no sucesso do nosso empreendimento e estou convencido de que, se eu morrer, no lugar do fraco e indefeso ganso106 a verdade enviará a Praga outras águias e falcões, cujo olhar veloz supera o dos outros bípedes.
Eles, com a graça de Deus, voarão alto, capturando outras aves para Jesus Cristo, que reforçará e confirmará todos os Seus fiéis...
Nesse instante alguém bateu à porta e entrou Vok Valdstein.
Ele parecia estar contente com algo e cumprimentou a todos, alegremente.
- Tenho boas notícias, mestre Jan! - Disse, feliz.
O rei indicou três senhores para acompanhá-lo a Constança, cujos nomes por si sós já garantem a sua segurança.
Eles são: Jan de Khlum, Vladislau de Dub e Henrique Khlum de Latsenbok.
- O rei é bondoso demais para comigo e não sei como agradecer a Sua Alteza. - Disse Huss, comovido.
Nem imaginava ter protectores tão poderosos, e, principalmente, favoráveis a mim.
- Será que alguém pode não gostar de você depois de conhecê-lo?
E, estando sob essa forte guarda, espero que os abutres do concilio retirem todas as confabulações de Paletch e outros traidores checos.
Além disso, graças ao Zmirzlik, o bispo de Nazaré expediu um documento atestando que você não é culpado de nenhuma heresia e até o arcebispo Konrad deverá declarar, por insistência dos barões, que o considera um bom católico.
Tudo isso e mais o salvo-conduto do imperador fazem você praticamente invulnerável.
Os amigos, um atrás do outro, tentavam tranquilizar Huss e a conversa tornou-se mais alegre.
De repente, Vok, dirigindo-se a Jerónimo, perguntou se este ficara satisfeito com a viagem à Lituânia.
- Não pude perguntar-lhe isso antes, pois não me encontrava em Praga.
- Oh! A viagem foi extremamente interessante!
Algum dia vou contar-lhe muita coisa curiosa.
Mas não hoje, pois a maioria presente já ouviu sobre isso.
- Nada disso!
Eu não ouvi nada! - Replicou Prokop.
- Eu também não! - Acrescentou lakubek.
- Notícias úteis e agradáveis podem ser ouvidas duas vezes... - Observou Jan de lesenits, dando risada.
- Bem, como vê, o auditório está formado!
E um grande orador como você saberá dar um novo colorido até a algo já conhecido... - Disse Vok, maliciosamente.
- Tentarei justificar as suas palavras.
Antes, quero dizer que a ideia da viagem foi-me incutida parcialmente pelo desejo do nosso amigo Jan, de saber detalhes sobre a Igreja greco-oriental, à qual, como vocês sabem, pertenciam os missionários eslavos Cirilo e Metódio...
- Eis o que Broda me ensinou na infância:
"Ele pediu uma cruz ao príncipe da Morávia.
E ao Metódio, arcebispo de Velegrad.
E aquele Metódio era russo.
E rezava a missa em eslavo".107 - Acrescentou Vok, citando versos da crónica de Dalimil.
- Por outro lado - continuou Jerónimo -, o principado lituano-russo sempre me atraiu como terra-irmã, e eu viajei, como devem lembrar-se, junto com o vosso amigo Svetomir.
Não vou contar sobre a nossa curta estada em Cracóvia que nada teve de especial.
- Essa não!
Mas que humildade! - Interrompeu-o Vok, novamente.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 04, 2016 7:46 pm

Meus amigos, saibam vocês que recebi uma carta de Svetomir na qual ele descreve que esse humilde senhor apresentou-se à corte do rei Jagellon, vestido como um príncipe encantado de conto de fadas, num maravilhoso traje púrpura e com uma epantcha108 revestida de pele cinzenta.
Com sua aparência e seus discursos, ele causou um rebuliço:
todas as mulheres perderam o coração e os "padrecos", a tranquilidade!
- Pare com isso!
Lá houve mais fumaça do que fogo... - Sorriu Jerónimo.
Svetomir exagera um pouco as minhas conquistas.
Quanto ao clero, é verdade que os deixei fora de si, mas já estou acostumado a esse sucesso.
Então, voltemos ao relato.
Junto com a corte de Vitovt que retornava à Lituânia, consegui chegar a Vilnus com o máximo conforto.
Uma enorme multidão e todo o clero saíram ao encontro do grande príncipe e eu vi, pela primeira vez, uma procissão dos cismáticos.
Estou chamando-os assim para os distinguir dos católicos na sequência do relato.
Essa fonte histórica indicando que o ilustrador da Boémia era de origem russa - encerra, entretanto, dados históricos muito importantes:
a indicação escrita na crónica de Dalimil é uma prova incontestável de que, no fim do século XIII e no início do século XIV, os checos acreditavam que a sua religião original era a mesma professada pelos russos - na qual a missa é rezada na língua eslava.
Vocês perceberão que os considero tão bons cristãos quanto nós.
A primeira impressão foi muito agradável.
A procissão do arcebispo - com seus canónicos e monges franciscanos, minoritas e outros - era talvez mais pomposa.
Mas os russos, em seus longos trajes orientais, entusiasmaram-me com a grandeza e a solenidade da procissão e eu, involuntariamente, ajoelhei-me juntando-me aos outros.
Depois, essa primeira impressão reforçou-se quando vi do outro lado do rio a própria cidade coberta de jardins.
Sobre aquele mar verde destacavam-se cúpulas multi-coloridas coroadas por cruzes de ouro que brilhavam ao sol.
Parecia que, naquele frio país nórdico, abria-se diante de mim um recanto oriental.
Tudo o que observei em seguida me deixou cada vez mais surpreso e extasiado.
Vilnus é uma cidade absolutamente russa, tanto pela população como pelo comércio.
No resto do principado, três quartos da terra são habitados pelo povo russo - que já possuía uma brilhante história dos tempos de Kiev - e somente um quarto dessa terra é ocupado pelos lituanos com o seu moribundo paganismo.
A língua russa é a língua do governo e da sociedade.
"A Lituânia floresce com o russismo", diziam-me.
Quase todas as famílias de príncipes e de nobres da Lituânia e da Rússia são ortodoxas; por exemplo: de Ostrog, de Glinsk, de Sluts, de Sapega, de Khodkevitch e outros.
Depois que estive em Vitebek, Polotsk e Pskov, consegui perceber a influência produtiva de uma Igreja verdadeiramente nacional sobre o povo.
Uma Igreja que nasceu na terra pátria, uniu-se à população e vive com seus interesses.
Agora ficou totalmente claro para mim que, para a independência de um reino eslavo, é necessário, antes de tudo, ter uma Igreja eslava; que com um clero estrangeiro não dá nem para pensar na liberdade popular, e que a missa em latim não traz benefícios ao povo que não a entende.
Na Rússia, o governo, a Igreja e o povo estão unidos e essa participação do rebanho nos empreendimentos da Igreja cria não somente uma vigilância sobre a sua propriedade, mas também sobre a actividade do próprio clero.
Sob a influência da força unida da Igreja popular, a Rússia adquiriu um espírito forte e agora consegue resistir aos alemães, que são obrigados a respeitar o seu poder como país...
- E os costumes e a moral deles são muito diferentes dos nossos? - Perguntou Vok.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 05, 2016 7:32 pm

- Os costumes do povo são diferentes.
As cidades não estão separadas do campo como aqui e não cortaram o contacto com a terra e a agricultura.
A situação dos camponeses também é diferente; eles conservaram as bases tradicionais:
liberdade pessoal, sistema comunal, auto-gestão, juízo equino etc. - e tudo isso a Lituânia recebeu de herança da Rússia.
Mas a partir do casamento de Jagellon com a rainha polonesa Hedwiges, sopraram outros ares e começou a influência polonesa.
Na Polónia, os camponeses perderam seus direitos e são súbditos da terra do proprietário e não do rei.
Em geral, o sistema de governo polonês - favorecendo as altas classes - e particularmente a sua criação preferida - os schliakhty109 - oprimem a população rural.
Ao contrário da grande Rússia, que recebe as forças do povo, a Polónia, sob a influência do seu inspirador e dirigente de Roma, ignora as bases mais importantes do modo de vida eslavo.
Eles emprestam os conhecimentos científicos e materiais dos nossos próprios inimigos: os alemães.
Esse sistema, que surgiu por circunstâncias especiais e é estranho ao país, deforma o seu organismo e o distancia dos outros países de mesma raça.
A fatal dependência de Roma dos governantes lituanos e poloneses fornece um excepcional poder ao clero fanático que se apoderou completamente do rei Jagellon e adquiriu uma influência maléfica sobre a Lituânia e a Rússia.
Lá, já começaram as divergências:
a luta dos princípios opostos entre russos ortodoxos e poloneses católicos e a população demonstra insatisfação com o governo, temor pela fé e pelos direitos do povo.
Mas a Roma isso não importa!
O catolicismo não reconhece o bem-estar do povo e trabalha somente ad majorem pape gloriaml.
Os missionários católicos começaram a impor a sua fé com tanta insistência que em Zhmud, por exemplo, eles foram expulsos por ordem de Vitovt, assustado pela fuga em massa da população que esses missionários provocaram.
Na Lituânia, a Igreja oriental já teve seus mártires.
- E você não vai nos contar nada sobre os nossos amigos alemães? - Perguntou Vok, rindo.
- Sobre eles não há muito o que falar e vocês os conhecem bem!
O quadro da barbárie teutónica estará muito claro para vocês, quando lhes contar o que ainda lembro do teor da carta enviada aos jmudins110 queixando-se da Ordem:
"Ouçam-nos, príncipes espirituais e mundanos!
A Ordem não está procurando as nossas almas para Deus mas as nossas terras para si e nos levou ao ponto de sermos obrigados a pedir esmolas ou assaltar para viver.
Prelados, padres e outros semelhantes tiram de nós lã e leite e não nos ensinam o cristianismo.
Depois disso, como eles ousam dizer-se irmãos, como ousam persignar-se?
Quem quer banhar os outros deve antes estar limpo!".
Como vêem, o papismo está de mãos dadas com os alemães e se faz sentir aqui!
- E que impressão teve da missa oriental?
Você deve ter visitado seus templos... - Perguntou Gavlik.
- Visitei igrejas de diversas cidades, mas a missa que me deixou mais impressionado foi a que presenciei em Pleskov.
O seu canto, eu juro, tocou-me no mais profundo da alma.
Uma grade dourada, enfeitada com imagens de santos, oculta o altar dos olhos dos fiéis e abre-se somente em determinados momentos da missa.
Toda a missa é tão solene que parece envolver a alma e elevá-la ao céu.
Tive a impressão de estar numa reunião dos primeiros cristãos e orei de todo o coração naquela igreja onde a missa é rezada numa língua que todos entendem.
- E os padres católicos?
Como reagiram à sua visita às igrejas russas?
Não acredito que aceitaram isso pacificamente! - Perguntou Vok, rindo.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 05, 2016 7:32 pm

- É claro que a preferência que demonstrei pelo rito oriental não passou despercebida pelo clero católico, que me culpou disso.
Fui convocado à presença do arcebispo de Vilnus que me deu uma severa reprimenda.
Entretanto, a grossa intolerância do bispo declarando que os russos não são cristãos, que as imagens que enfeitam seus templos são falsas e que a comunhão de dois tipos (pão e vinho) é uma ignóbil heresia não só não me comoveu como me revoltou!
Mais tarde, eu expressei a minha opinião sincera ao próprio Vitovt.
- Mas é claro! - Interrompeu-o Lakubek.
Pode-se, pelo contrário, afirmar com certeza que o próprio Jesus Cristo instituiu a comunhão com pão e vinho e a Igreja sempre esteve de acordo com esse costume até que os papas introduziram essa novidade, privando os leigos do cálice.
- Vivendo entre nossos longínquos irmãos - continuou Jerónimo - e mergulhando novamente na fé dos nossos antepassados, deixada por Metódio e Cirilo na nossa querida Boémia, eu me senti outra pessoa...
Por vezes, grandiosos pensamentos se apoderavam de mim e me perguntava:
será que não existe algum remédio contra o mal?
Seria possível ressuscitar as tradições da nossa antiga fé popular que, pelo testemunho de muitos, ainda deixou em nós profundas lembranças e raízes vivas?
Há muito tempo que nós, checos, lutamos contra a opressão da latinidade protegida pelos alemães!
Então eu imaginava como seria grande o nosso poderio se enfrentássemos a Igreja alemã com a Igreja eslava que reuniria sob a sua égide checos, russos, poloneses e todos os povos ligados pela mesma origem e que estariam unidos pela fé.
A batalha de Tannenberg já mostrou o que podemos quando nos unimos contra o inimigo secular que anseia pela nossa derrota!
Jerónimo calou-se.
Sua voz tremia de emoção; o poderoso tórax aprumou-se e seu olhar aquilino dirigia-se para o vazio, esquecendo tudo ao seu redor, absorto pela grandiosa visão que se descortinava à sua frente!
Com o olhar profético de sua mente genial, antecipando os acontecimentos futuros, ele parecia prever que, para os alemães, a religião serviria sempre como arma política e que, conforme a exigência do momento, seu grito de guerra seria: Hin nach Rom! - para a separação dos eslavos - e Los von Rom! - para a integração do mundo alemão...
No quarto reinava o silêncio.
Todos estavam impressionados com o relato de Jerónimo.
Finalmente, ouviu-se a voz de Huss.
- O quadro que você pinta do futuro é belo e atraente; mas para a realização dos seus desejos somente forças humanas não serão suficientes.
Seria bom se cada um cumprisse o seu dever até a morte, deixando o resto Àquele que dirige os destinos dos homens e dos povos.
A conversa aos poucos se animou com um outro tema que, naquele momento, ocupava todo o mundo cristão, ou seja, o concilio.
Depois, os amigos se despediram.
O tempo que se seguiu foi passado em reuniões para a preparação da viagem. Como Huss viajaria a Constança por seus próprios meios, todos os seus amigos tentavam aliviar suas necessidades materiais. Inúmeros presentes em dinheiro e objectos chegavam de todas as partes. O barão Bozhek Rabstein, parente de Rugena, presenteou-o com um lindo cavalo; Vok e o pai, com um traje completo de tecido de flandres preto; Rugena deu-lhe uma grande soma em dinheiro.
Finalmente, no dia 11 de outubro, após uma comovida despedida dos amigos e principalmente de Jerónimo - que o acompanhou por algumas milhas fora da cidade -, Huss deixou Praga.
- Querido mestre - disse Jerónimo, ao despedir-se e dando um forte abraço em Huss -, seja firme na luta que se aproxima; se correr qualquer perigo, irei voando para ajudá-lo.
Nada, entretanto, parecia confirmar as suspeitas dos amigos e os sombrios pressentimentos do próprio Huss.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 05, 2016 7:33 pm

A viagem transcorria tranquila e pelo caminho o sacerdote era sempre recebido com honras e grande amabilidade.
Na casa dos Valdstein houve uma verdadeira festa quando chegou carta de Huss com selo de Nuremberga, cheia de curiosos detalhes.
O padre descrevia - com alegre surpresa - que, em vez do ódio que esperava encontrar da parte dos alemães, o povo saíra em multidões ao seu encontro e pessoas importantes e até sacerdotes haviam ido conversar com ele e tinham mesmo elogiado seus ensinamentos.
Na realidade, a viagem de Huss foi uma procissão triunfal para o... martírio.
Mas a carta mostrava também outra coisa: o quanto aquela inesperada popularidade surpreendia Huss, demonstrando que ele, em seu humilde e infantilmente puro espírito, dava pouca importância à grandeza de seu papel.

105 Deusa da vingança na Grécia antiga - Nota do tradutor.
106 Huss, em tcheco, significa "ganso " - Nota do tradutor.
107 "Prosi Krsta od Svatopluka Moravskébo. A od Methodye arcibiskupa Velehradskébo Tem arcibiskup Russin bese Msu svou slovansky sluzese" - Nota do autor.
108 Capa curta e redonda, sem mangas - Nota do tradutor.
109 Nobres, pequenos proprietários na Polónia - Nota do tradutor.
110 O povo lituano se dividia em lituanos e jmudins - Nota do tradutor.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 05, 2016 7:33 pm

Terceira Parte

Vallenstein
"... E aquela nação, Boémia, pela qual lutamos, é completamente estranha de alma ao governante que foi dado a ela pela sorte das armas e não por livre escolha.
- E ela suporta com rancor a tirania da religião!
O poder do mais forte conseguiu quebrá-la mas não lhe trouxe paz!
A memória dos horrores realizados em suas terras, e a flamejante sede de vingança ainda estão vivas por aqui...
Pode um filho esquecer que usavam cães para obrigar seu pai a entrar na igreja?
Um povo, colocado em tal situação, é terrível - quando se vinga ou quando é obrigado a suportar isso."


Shiller
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 05, 2016 7:33 pm

Capítulo I

Na tarde de 3 de novembro de 1414 o povo lotou as margens da estrada que levava a Constança para ver o viajante que todos queriam conhecer, tão grande era o interesse que despertavam sua personalidade, sua sabedoria e a coragem com que desmascarava os abusos do clero.
Já escurecia quando, finalmente, ouviu-se o tropel de muitos cavalos.
Os olhares de todos dirigiram-se para o grande grupo de cavaleiros que aparecera na curva da estrada vindo em sua direcção.
Na frente, entre dois cavaleiros em ricas armaduras, ia um clérigo Vestido de preto.
Atrás deles seguia em fileira a guarda armada, cavalariços, pajens e alguns cavalos de carga.
- Veja, veja! - Dizia um cidadão, cutucando o seu vizinho com o cotovelo.
Aquele, entre os dois cavaleiros, deve ser Huss.
- Mas quem são os cavaleiros? - Perguntou o outro.
- Vamos agora perguntar ao velho Sogradk; ele é de Praga e deve saber.
Correndo atrás dos cavaleiros, eles alcançaram um velho alto que conversava com seus conterrâneos do séquito.
Ele respondeu às suas perguntas, dizendo que os cavaleiros eram o barão Jan de Khlum e o senhor Henrich de Latsenbok.
Os que iam atrás eram:
o secretário do barão, Pedro de Mladenovits, e Jan Kardinalis de Reinstein, pároco da igreja de Lanovitch, de propriedade do senhor barão.
À medida que os recém-chegados seguiam pelas ruas, a multidão crescia.
Finalmente, os cavaleiros pararam na rua de São Paulo, diante da casa onde deveria morar Huss.
Na porta já os esperava a dona, a viúva Fides, que recebeu amavelmente o querido visitante.
- Pronto, mestre Huss, chegamos ao nosso destino!
Deus queira que tenhamos a mesma sorte ao voltar para Praga, onde nos espera uma recepção ainda mais pomposa. - Disse Jan de Khlum, sorrindo alegremente.
Em seguida, despedindo-se de Huss, dirigiu-se para sua própria residência.
No dia seguinte, recuperado por uma boa noite de sono e após recitar a missa num dos quartos, Huss começou a se instalar.
Terminando a distribuição das coisas que trouxera consigo, ele sentou-se à janela e começou a observar o vaivém da animada multidão na rua.
Naquele momento, chegaram seus dois protectores e Huss, preocupado, saiu ao seu encontro.
Seus rostos felizes tranquilizaram-no imediatamente e no coração de Huss nasceu um fio de esperança.
- Temos boas novas, querido mestre! - Disse o barão Jan, apertando-lhe a mão.
Viemos contar os detalhes do nosso encontro com o Papa.
Nós o informamos de sua chegada e pedimos a sua protecção.
Sua Santidade recebeu-nos amavelmente e ao nosso pedido respondeu:
"Mesmo que Huss tivesse matado o meu próprio irmão, eu usaria de todos os meios à minha disposição para protegê-lo de qualquer violência em Constança".
Quando soube que o imperador concedera ao senhor um salvo-conduto e o tomara sob sua protecção, ele prometeu retirar a interdição que pesa sobre a sua pessoa.
Isso permitirá ao senhor andar livremente pela cidade e frequentar igrejas.
- Contudo, mestre Jan, sugiro ao senhor que tenha maior cautela, evite conflitos, não dê quaisquer motivo para críticas e, principalmente, não apareça nas grandes comemorações religiosas. - Acrescentou Henrich de Latsenbok.
- Seguirei seu conselho, nobre senhor, e evitarei aparecer em público. - Respondeu Huss.
Ele realmente trancou-se dentro de casa e lá ficou.
Manteve esse comportamento mesmo quando Venceslau de Dub trouxe-lhe o salvo-conduto e o Papa e os cardeais informaram-no oficialmente de que a interdição estava temporariamente suspensa.
Huss passou a levar uma vida de ermitão.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 05, 2016 7:33 pm

Passava os dias trabalhando nos sermões e nos discursos que tinha esperanças que lhe permitissem proferir, ou discutindo diversas questões teológicas com seus inúmeros visitantes.
Mas, enquanto ele estava absorto no trabalho e não abandonava a sua clausura voluntária, seus inimigos não cochilavam e faziam extraordinários esforços, sem esquecer nenhum detalhe, para colocar contra ele os membros do concilio e a opinião pública.
Os mais renhidos eram Ventsel Tim, que vendia indulgências em Praga, Paletch e Miguel da vau Alemã, ou de Causis.
O primeiro não esquecera como Huss estragara seu negócio; o segundo não o perdoava pela expulsão de Praga; o terceiro odiava-o pelo rigor com que Huss desmascarava a corrupção do clero, cujo maior exemplo era ele próprio.
Todos eles sentiam que havia chegado o momento da vingança e corriam incansavelmente por toda a cidade mostrando aos cardeais trechos alterados de obras de Huss, colando cartazes que o expunham como herege excomungado pela Igreja e espalhando, sem a menor vergonha, a calúnia de que Huss tentara fugir escondido numa carroça de feno.
A consequência desses seus esforços foi a decisão de prender o perigoso pregador.
No dia 28 de novembro, a bondosa Fides - apelidada por Huss como "viúva de Sarepts" - estava na porta de casa tagarelando com a vizinha que acabara de voltar do mercado sobre o alto preço dos mantimentos.
De repente, sua atenção foi chamada por destacamentos da guarda municipal que apareceram nas duas extremidades da rua e ocuparam silenciosamente as casas vizinhas.
- O que será isso? - Perguntou Fides, preocupada.
Será que estão tramando algo contra o bom mestre?
- É melhor avisá-lo. - Aconselhou a vizinha.
- Não queria incomodá-lo.
Ele está com o nobre cavaleiro Khlum. - Respondeu Fides, indecisa.
Naquele instante, quatro cavaleiros e um cavalariço pararam diante da casa.
Um deles, em tom imperativo, perguntou se o mestre Huss estava em casa.
- Sim, senhor burgomestre. - Respondeu Fides, fazendo uma profunda reverência.
Os recém-chegados apearam dos cavalos e entraram na casa.
As mulheres ficaram sabendo pelo cavalariço - que ficara segurando os cavalos - quem eram os companheiros do burgomestre.
- São os bispos de Augsburg e de Trento, e o cavaleiro lohann Baden. - Respondeu aquele.
Huss e Khlum conversavam tranquilamente quando a porta se abriu e os visitantes entraram no quarto.
Depois da troca de cumprimentos, um dos bispos declarou que eles tinham sido enviados pelo Papa e seus cardeais para convidar o mestre Jan a acompanhá-los para que expusesse seus ensinamentos, o que ele tantas vezes tentara conseguir.
O rosto corajoso de Khlum inflamou-se ao ouvir aquelas palavras.
Perspicaz e experiente, ele suspeitou imediatamente do objectivo da visita e mal conteve sua ira.
- O que significa isso?
Os senhores se esquecem de que o mestre Jan encontra-se sob protecção especial do imperador, que proibiu o início do processo até a chegada de Sua Majestade?
Estou encarregado da protecção de Huss e, em nome do imperador, protesto contra qualquer medida precipitada.
Advirto-os, senhores, de que estão arriscando a honra do império!
- Acalme-se, senhor barão! - Falou o bispo de Trento, pacificamente.
O senhor está enganado e nós viemos com boas intenções.
Nesse instante, Huss intrometeu-se e disse, calmamente, que viera a Constança para defender suas ideias publicamente diante de todo o concilio, mas que não se opunha a comparecer diante do Papa se ele e os cardeais estivessem exigindo que ele expusesse essas ideias exclusivamente a eles.
- Essa sábia decisão será útil à sua causa, mestre Huss. - Observou o burgomestre.
Apanhe então a sua capa e nos acompanhe sem receio!
- Por força do meu dever, vou acompanhar Huss. - Disse Jan de Khlum.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 05, 2016 7:33 pm

- O senhor está livre para fazer o que quiser, senhor barão. - Responderam os emissários do Papa.
Quando Huss vestiu-se e saiu com os cavaleiros, a bondosa Fides, que o aguardava no saguão, aproximou-se para tomar a bênção.
- Está havendo uma conspiração contra o senhor!
Todas as casas vizinhas estão ocupadas por soldados. - Conseguiu sussurrar ela, em lágrimas.
Huss empalideceu, mas se conteve.
Abençoou-a, depois saiu, montou no cavalo e o séquito seguiu em direcção à residência do Papa.
Numa das salas do palácio estavam reunidos os cardeais.
Quando entraram Huss e Khlum, o chefe da reunião convidou Huss a se explicar, pois ele estava sendo acusado de pregar perigosas mentiras e semear torpes heresias na Boémia.
- Saibam, respeitáveis padres, que estou pronto a morrer antes de optar por quaisquer mentiras contrárias às verdades evangélicas.
Cheguei voluntariamente a Constança e estou disposto a submeter-me ao castigo pela falsa pregação de que estão me acusando. - Respondeu ele, com voz emocionada.
- Sábia resposta!
Nesse caso, nós sairemos para discutir as perguntas que lhe faremos. - Responderam os cardeais, saindo da sala.
Quando eles se retiraram, a guarda armada imediatamente ocupou todas as saídas, o que fez Khlum ficar mais preocupado e só confirmou suas suspeitas.
Sua preocupação aumentou ainda mais quando, em seguida, apareceu um monge e, com uma série de perguntas maliciosas, tentou pegar Huss em alguma palavra mal pensada, mas não conseguiu.
- Essas víboras querem pegar o senhor desprevenido, para depois acusá-lo livremente de heresia. - Observou o cavaleiro, com desprezo.
- A verdade da sagrada escritura é a minha força e por isso não temo ninguém. - Respondeu Huss, com convicção.
Passaram-se horas e já eram cerca das três da tarde quando entrou de repente Paletch.
Seu rosto emagrecido respirava orgulhosa jactância.
- Finalmente você caiu em nossas mãos, seu herege imprestável! - Disse ele ao ex-amigo, com desprezo.
Agora, você não escapará enquanto não pagar até o último tostão.
Huss nada respondeu e deu-lhe as costas.
Khlum, entretanto, tomou-lhe as dores.
Todo vermelho de raiva, começou a passar uma descompostura em Paletch por sua traição à pátria.
A discussão aumentou quando apareceu Miguel de Causis - não menos satisfeito que Paletch - e, com expressões venenosas, começou a criticar Huss, dizendo que ele arruinara a universidade de Praga e provocara o afastamento de professores e estudantes alemães, mas que a hora da vingança havia chegado.
Vendo que Huss nada respondia e que o cavaleiro não disfarçava o desprezo pelos inimigos do reformador, a respeitável dupla achou por bem retirar-se.
Anoiteceu.
Finalmente chegou o camareiro do Papa e declarou ao barão que ele estava livre e que o mestre Huss, por decisão dos cardeais, ficaria detido.
Apesar de todos os acontecimentos do dia apontarem para tal desfecho, uma explosão de fúria tomou conta do nobre Khlum.
- Isso foi uma vil armadilha! - Gritou ele.
Vou queixar-me ao imperador da violência sobre o homem que ele tem sob protecção!
É desonesto esconder-se por trás da mentira e agir traiçoeiramente contra um santo e justo!
O Papa não tem o direito de agir assim.
Exijo imediatamente o cumprimento de sua promessa de não atacar Huss! - Gritou ele, fora de si, e saiu rapidamente da sala.
Enquanto isso, um destacamento de soldados levou Huss para a casa do cónego da catedral de Constança, onde ele passou uma semana sob severa vigilância.
Depois, lohann von-Vallenrod, o arcebispo de Riga, ordenou sua transferência para o mosteiro dominicano, situado às margens do rio Reno.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 05, 2016 7:34 pm

Era dia 6 de dezembro.
O tempo estava gelado e o prisioneiro tremia de frio na cela em que o haviam deixado - um húmido e escuro subterrâneo.
Somente o ruído das ondas que se quebravam nas paredes do mosteiro rompia o silêncio reinante, e o mau cheiro do esgoto que passava ao lado envenenava o ar.
A alma de Huss, branda e até fraca diante da desgraça do próximo, revelava-se como se feita de aço ante os próprios sofrimentos.
Inabalável em sua fé e em sua humildade, ele submetia-se sem rancor às horríveis condições de sua prisão.
Todavia, se o espírito era forte, a carne revelou-se fraca e Huss adoeceu gravemente.
Nesse ínterim, houve em Praga um acontecimento de extrema importância.
Lakubek e, depois dele, mais alguns sacerdotes começaram a pregar abertamente a necessidade do retorno aos postulados do início da Igreja apostólica e à comunhão com pão e vinho.
Depois dos sermões vieram as aplicações práticas desses ensinamentos e lakubek foi o primeiro a oferecer o cálice aos fiéis.
Isso provocou uma cisão entre a população:
a maioria dos checos aderiu aos utraquistas,111 mas o alto clero e, principalmente, a burguesia alemã permaneceram fiéis ao rito romano.
Em meio à agitação e à discórdia provocadas pela modificação do maior dos mistérios cristãos, todos ficaram aturdidos com a notícia da prisão de Huss.
A Boémia tremeu de ira.
Realizaram-se reuniões de senhores para protestar contra tal arbitrariedade e o conde Hinek resolveu ir pessoalmente a Constança para discutir no local com os barões checos os meios necessários para libertar o querido pregador.
Ao saber de suas intenções, Rugena pediu ao conde que a levasse consigo.
Além da grande e profunda solidariedade que sentia pelo destino de seu confessor e amigo, a jovem condessa queria ver o brilho da corte imperial e do Papa, a aristocracia clerical e mundana e os sábios famosos, provenientes de todos os cantos do mundo.
Entretanto, foi difícil conseguir a anuência de ambos os condes; o conde Hinek expôs, como último obstáculo, a dificuldade de encontrar uma residência em Constança, dizendo que somente aceitaria levá-la consigo se uma das parentas da condessa, residentes por lá, concordasse em recebê-los.
Mas, pelo jeito, cê quefemme veut Dieu lê vout (o que a mulher impõe Deus dispõe).
O mensageiro enviado a Constança trouxe a notícia de que a casa estaria à disposição e que os Valdstein eram aguardados ansiosamente.
Assim foi removido o último obstáculo e Rugena começou a preparar-se para a viagem.
Junto com ela iriam Ana, Túlia e Litka.
Vok, para própria insatisfação, não recebeu licença imediata do rei e foi obrigado a ficar provisoriamente em Praga.
Decidiram então que ele juntar-se-ia à família assim que a situação o permitisse.
Quem visita hoje a pacífica cidade de Constança não pode imaginar o que acontecia dentro de seus muros durante o famoso concilio de 1414.
Parecia que ali se havia reunido toda a cristandade:
30 cardeais, 20 arcebispos, 150 bispos, prelados e doutores, mais de 1.800 simples sacerdotes; cufiurstas, duques da Bavária e da Áustria e um incontável número de príncipes, condes, barões e nobres de todas as nacionalidades.
As grandes personalidades traziam consigo enormes séquitos (conforme as crónicas da época, até 30 mil cavalos).
Todos esses, somados a estrangeiros curiosos, mercadores, artistas mambembes etc., atingiam a respeitável cifra de 100 mil pessoas.
A pequena cidade ficou superlotada e os atrasados foram obrigados a acampar nas proximidades.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 05, 2016 7:34 pm

Constança parecia uma enorme feira, onde corria ruidosa diversão; a importância das questões discutidas não atrapalhava os dignos padres do concilio de frequentarem comemorações, banquetes e torneios. Tagarelando muito sobre a Reforma da Igreja, os fogosos cardeais, bispos e prelados nem pensavam em mudar seus costumes devassos.
Sem se envergonharem, haviam trazido consigo suas amantes e revelavam maior ousadia do que a juventude mundana, divertindo-se abertamente com as 1.500 prostitutas que se haviam juntado em Constança.
A indecência era tanta, que Huss escrevia aos amigos:
"Se vocês viessem para ver este concilio que se auto-denomina santo e sem pecado, só veriam uma grande tentação.
Os suevos112 dizem que serão necessários 30 anos para limpar a cidade das indecências que a emporcalharam".

111 Utraquistas - Calistinos — Aqueles que comungavam sob as duas espécies fsub utraque speciej, isto é, pela hóstia e pelo cálice, simbolizando o pão e o vinho, o corpo e o sangue de Cristo - Nota da editora.
112 Originários da Suábia, sul da actual Alemanha, região da Bavária onde fica Constança - Nota da editora.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 05, 2016 7:34 pm

Capítulo II

No dia 26 de março, uma segunda-feira, o velho conde Valdstein, junto com a nora e o seu cortejo, chegou a Constança.
Apesar de ser a semana da Paixão (antes da Páscoa), as ruas estavam apinhadas de gente e no ar havia uma inimaginável gritaria e muito barulho.
Rugena, que cavalgava ao lado do conde, não sabia para onde olhar, pois tudo à sua volta era colorido, novo e fervilhante de vida e movimento.
Para chegar até a casa de sua parenta, era preciso passar por toda a cidade.
Eles tiveram que parar a cada passo, para atravessar pelas multidões que se reuniam em volta de algum mercador, cantor de rua etc., ou fechar fileiras e dar passagem a pomposos cortejos de prelados em magníficas vestes, montando cavalos luxuosamente equipados e que olhavam com indiferença as pessoas que os cercavam.
Grupos de soldados dos mais diferentes tipos andavam por todos os lados:
os italianos, morenos com olhos flamejantes, os arrogantes e volumosos ingleses, os magros e elegantes franceses que exageravam na rebuscada moda da época, os robustos eslavos com olhar de inocência infantil.
Tudo reunido, como num caleidoscópio que atrapalhava a visão e fazia a cabeça girar.
Num certo momento, eles tiveram que fazer um contorno para evitar passar perto de uma briga de rua:
os servos de um dos emissários poloneses desentendiam-se com o séquito de um cavaleiro teutónico.
Finalmente, conseguiram chegar até a casa de Brigitte von-Laufenstein, viúva de um nobre alemão; ela recebeu amavelmente os parentes checos e separou-lhes um grande e confortável recinto, um verdadeiro achado naquela confusão.
Rugena conquistou imediatamente o coração da velhinha, que prometeu mostrar à jovem condessa todas as curiosidades da cidade, começando pelo imperador e pela imperatriz, graças aos seus contactos na corte.
- Se vocês tivessem chegado um pouco antes, teriam visto o Papa.
Mas, imaginem só, ele desapareceu na semana passada e isso agitou toda a cidade! - contava Brigitte, com ar preocupado.
Na manhã seguinte, quando a notícia de sua fuga espalhou-se, todos perderam a cabeça:
os mercadores começaram a fechar suas barracas, os carregadores esconderam-se, temendo assaltos.
Realmente, o povo atirou-se sobre muitas casas abandonadas pelos prelados que seguiram o Papa, saqueando-as.
O burgomestre até convocou os cidadãos para pegarem em armas.
Parecia o dia do Juízo Final!
- E ninguém sabe onde se escondeu o papa? - Perguntou o conde.
- Supõe-se que foi em Shafhausen. Meu Deus!
Quem poderia imaginar que o caso chegaria a tal ponto, quando Sua Santidade chegou triunfalmente à cidade, cercado de cardeais, bispos e pomposo séquito? - Observou a velhinha, com tristeza.
- Mas imagino que a chegada do imperador não tenha sido menos triunfal... - Inquiriu Rugena.
- Ah, sim! Aquela foi uma visão inigualável - Disse Brigitte, entusiasmada.
Fiquei a noite inteira na rua e até me resfriei, mas não lamento nem um pouco as três semanas que passei na cama.
Aconteceu, querida condessa, que o imperador chegou à noite, no dia 25 de dezembro.
A cidade não dormia, aguardando-o. Então, tantas tochas, tantos barris com piche foram acesos, e tantos fogos foram queimados, que tudo ficou claro como dia.
O imperador vinha a cavalo sob um baldaquim de tecido de ouro levado por quatro senadores da cidade; ele estava magnífico e respondia amavelmente às alegres saudações do povo.
Debaixo de outro baldaquim vinha a imperatriz Bárbara, toda envolta em pele de arminho.
Atrás deles seguiam príncipes, cavaleiros e damas nobres, numa fileira interminável.
A grande quantidade de ouro, tecidos brilhantes e pedras preciosas fazia a vista doer.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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