Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 05, 2016 7:34 pm

Mas o que aconteceu depois sob a abóbada do templo foi, pode-se dizer assim, ainda mais grandioso!
Com a ajuda de um canónico amigo meu, arrumei um óptimo lugar de onde assisti a tudo.
Dentro da catedral tudo estava iluminado!
Construíram um magnífico trono para o imperador!
O próprio Papa rezou três missas, e Sigismundo - com a coroa na cabeça - fez a vez de diácono.
Vocês nem podem imaginar a impressão que aquela grandiosa cerimónia causou no púbico presente.
O Santo Padre parecia também estar nervoso:
quando o imperador começou a ler as palavras do Evangelho:
"Naquele tempo, veio a ordem de César Augusto..." -, todos perceberam que a mão do Papa tremeu, ele corou e empalideceu.
- Isso significa que ele pressentiu a aproximação do castigo celestial e temia que o imperador o obrigasse a renunciar ao trono. - Respondeu, sorrindo, o conde Hinek.
- Acho que não!
Depois da missa, o próprio Papa colocou uma espada na cintura do imperador, entregando-lhe simbolicamente uma arma para a defesa do concilio, e, enquanto isso, Sigismundo mostrava por ele um grande respeito.
- E o que isso prova?
Que duas raposas tentavam enganar uma à outra! - Continuou o conde, em tom de zombaria.
Deixando as damas conversando, ele dirigiu-se à casa do barão Jan de Khlum.
O valoroso cavaleiro Jan, corajoso e incansável defensor de Huss, estava sentado em seu quarto escrevendo uma carta aos senhores da Morávia, na qual protestava contra a prisão de Huss apesar do seu salvo-conduto.
A inesperada chegada do velho amigo alegrou o barão.
Ele imediatamente deixou a pena de lado, abraçou o conde e ordenou que trouxessem vinho.
A conversa começou pelas questões mais pungentes do momento:
a prisão de Huss e a fuga do Papa...
Para eles, checos e fiéis partidários de Huss e da Reforma na Igreja, a primeira questão era a mais importante e Jan de Khlum, com compreensível indignação, contou os detalhes da prisão do amigo.
- Entende, senhor Hinek, que fiquei fora de mim e não poupei expressões, declarando abertamente a eles tudo o que pensava dessa armadilha preparada?
Depois fui ao Papa e tentei convencê-lo a manter a sua promessa de defender Huss.
"O que você quer de mim?", respondeu-me ele, dando de ombros.
"Ele está sendo acusado por seus compatriotas!".
Depois, indicando com os olhos os cardeais e bispos, acrescentou, baixinho:
"Será que não percebe que eu também estou sendo preso por eles?".
- Pelo menos, ele confessou o seu pérfido plano de entregar uma inocente vítima ao clero, imaginando que com a captura de Huss atrairia os "padrecos" para o seu lado. - Observou, enojado, Valdstein.
- Dessa vez sua traição não trouxe lucros; mas, para o infeliz mestre Jan, as consequências foram desastrosas!
Ele caiu indefeso nas mãos de seus piores inimigos e estes o trataram da forma mais revoltante!
Jogaram-no na prisão do mosteiro dominicano:
uma cova mal-cheirosa, ao lado do esgoto, que realmente pode ser chamada in pace.
As paredes estão inteiramente húmidas e Jan adoeceu gravemente.
Mesmo assim, esses bárbaros continuaram a torturá-lo com interrogatórios, na esperança de que o moribundo caísse em contradição.
- E o Sigismundo?
O que ele disse contra tão insolente ofensa ao seu próprio salvo-conduto?
- No início, pareceu ficar indignado e ouviu com benevolência o nosso protesto.
Depois, desde que aqui chegou, aparentemente mudou de opinião e não deu um passo para libertar o infeliz que acreditou em sua palavra imperial...
Só Deus sabe o que vai acontecer com o concilio depois dessa fuga do Papa!
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 05, 2016 7:35 pm

- João XXIII deve ter colaboradores poderosos, senão não ousaria agir assim.
- Sem dúvida! Todos acham que esse colaborador é o duque da Áustria, cuja protecção o Papa comprou.
Para facilitar sua fuga, o duque Friedrich organizou um grande torneio.
Enquanto toda a cidade se distraía com isso, Cossa fugiu disfarçado e conseguiu chegar a Shafhausen, que pertence ao duque.
Agora que está livre e dono da situação, ele dará muito trabalho a Sigismundo.
Os amigos conversaram por longo tempo, pois as divergências religiosas e políticas preocupavam a ambos.
Por fim, o assunto passou para as coisas familiares e Valdstein lembrou-lhe de que viera junto com a nora.
- Aliás, você sabe que aqui também se encontra o seu ex-protegido Svetomir Kryjanov? - Perguntou o barão.
- Verdade? Como ele veio parar aqui?
- Ele está no séquito do senhor Zavicha, representante do rei Jagellon; já conversei várias vezes com ele.
Quer que mande algum de meus homens informá-lo de sua chegada?
- Eu ficaria muito agradecido!
Para Rugena será uma grande alegria rever o seu amigo de infância.
No dia seguinte, a condessa estava terminando de se vestir para dar um passeio com Túlia, sob a protecção de Broda, quando chegou o sorridente Svetomir.
Rugena, achando que ele estava em Cracóvia, ficou muito feliz em vê-lo e adiou o passeio.
Eles começaram a falar sobre a viagem e o concilio.
Rugena estava admirada com a animação reinante na cidade e falava do seu espanto diante da mistura de raças e trajes estrangeiros reunidos em Constança.
- É claro que por aqui há agora muitas curiosidades, e se você me permitir acompanhá-la, terei prazer em mostrar-lhe tudo, começando pela saída do séquito imperial para a missa no templo.
- Aceito, agradecida, a sua proposta.
Ainda mais que, com essa confusão nas ruas, será mais agradável estar acompanhada de um cavaleiro, pois se pode cair, sem querer, no meio de uma briga... - E ela contou como, ao chegarem, eles haviam tido que dar uma grande volta por causa de uma briga entre poloneses e teutónicos.
- Ouvi falar dessa história.
Um polonês e dois alemães saíram feridos...
- Que controle eficiente que existe aqui!
Vocês ficam sabendo de qualquer briga! - Observou Rugena, rindo.
- O controle não é tão bom como parece.
Na briga de ontem participaram os homens do castelão do senhor de Kalich, Ganush Tulikovsky.
Ele próprio contou sobre o ocorrido à noite na casa do senhor Zavish.
Mas tudo isso é bobagem e aqui acontecem coisas bem mais interessantes... - Riu Svetomir.
Num banquete, os arcebispos de Pisa e de Maints divergiram nas opiniões.
A conversa engrossou, eles passaram a ofender um ao outro e chegaram à luta corporal.
Os respeitáveis pastores da Igreja não tinham armas e, agarrados pelos cabelos, rolaram para debaixo da mesa, um tentando estrangular o outro.
Muitos dos padres presentes ficaram assustados e pularam pela janela.
- O espectáculo deve ter sido muito instrutivo... - Disse Rugena, às gargalhadas.
Depois, fizeram uma lista de tudo o que desejavam ver - inclusive a sacristia da catedral onde eram guardados muitos tesouros da vizinhança de Constança e a igreja da velha abadia beneditina com a cripta do imperador Carlos, o Gordo.
Ana, que estava presente à conversa, observou que gostaria de participar da visita aos mosteiros e lugares santos, mas se negou terminantemente a ver artistas mambembes, equilibristas e outros.
- A pobre Ana ainda não adquiriu a paz de espírito.
Seu coração continua a doer como antes. - Observou Svetomir, com tristeza, quando Ana saiu do quarto.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 05, 2016 7:35 pm

- Infelizmente. Parece que o seu mal é incurável. - Suspirou Rugena.
Às vezes ela fica tão estranha que me deixa assustada.
- O que acontece com ela?
- Ela, por exemplo, fica por horas sentada olhando para o vazio, sem perceber nada do que acontece à sua volta.
Ou, de repente, começa a falar coisas que ninguém saberia, como se fosse bruxa.
Quando estávamos em casa e nem imaginávamos a possibilidade de prisão de Jan, de repente, ela disse com expressão estranha:
"Recebeu alguma notícia de Huss?".
"Não", respondi, "mas a julgar por sua última carta, podemos esperar que tudo irá terminar bem".
"Mas eu o vi numa cela escura, húmida e malcheirosa e me pareceu que era uma prisão".
Na época, pensei que ela havia sonhado com isso, pois pela sua atracção fanática por Huss, ela pensa nele constantemente.
Ontem, o tio Hinek confirmou que o mestre Jan foi preso num buraco podre, onde adoeceu.
Isso me fez ficar assustada com Ana.
- Pelo amor de Deus, Rugena, instrua-a para ficar calada sobre essas coisas, senão pode ser presa como bruxa. - Observou Svetomir, persignando-se.
Após alguns segundos em silêncio, acrescentou:
- Ainda bem que vocês não chegaram antes, senão poderiam topar com Brancassis, e então Ana perderia completamente a cabeça.
- Deus do céu!
Brancassis está por aqui? - Perguntou a condessa, horrorizada e empalidecendo.
- Ele esteve aqui, acompanhando o Papa.
Três dias após a fuga de Cossa, ele foi embora de Constança e agora deve estar com o Papa em Shafhausen.
- Graças a Deus esse monstro não está aqui... - Suspirou Rugena, aliviada.
- Oh, mas como minhas mãos cocavam toda vez que o via!
Estou pronto a sacrificar um olho só para ter a oportunidade de enfiar um punhal em sua garganta! - Resmungou Svetomir, cerrando os punhos.
A conversa foi interrompida pela chegada do conde Hinek, visivelmente irritado com algo.
- Imaginem o que eu fiquei sabendo:
Huss não está mais em Constança! - Disse ele, jogando-se no sofá.
- Foi libertado? Fugiu? - Perguntaram juntos Rugena e Svetomir.
- Libertado? Acreditam que essas sanguessugas libertarão a vítima que perseguiram por tanto tempo? - Respondeu o conde, com raiva.
Não! Aconteceu o seguinte: após a fuga do Papa, Huss estava em poder do imperador e Khlum e todos os outros amigos do padre Jan queriam aproveitar aquela situação para libertá-lo.
De repente, o esperto Sigismundo colocou o infeliz à disposição do bispo de Constança - inimigo pessoal de Huss -, que, naturalmente, não o perdoou pela acusação directa que sofreu outrora.
Esta noite Otton von-Khokhberg transferiu-o para o seu castelo Gottliben, sob a guarda de 170 soldados.
Só isso já comprova que eles ainda temem o pobre e humilde sacerdote, armado unicamente com a sua bondade e a palavra divina.
- Meu Deus! Agora não será possível nem vê-lo nem ajudá-lo! - Observou Svetomir, num tom de tristeza.
- Então você visitava Huss na prisão? - Perguntou Rugena.
- Mas é claro!
Eu e outros amigos estivemos com ele, graças à colaboração dos carcereiros, que gostavam muito do humilde e paciente prisioneiro.
Um deles, Robert, e sua esposa - ambos óptimas pessoas - faziam o que podiam por ele.
- E eles tinham que levá-lo justamente quando chegamos aqui?!
- Disse Rugena, começando a chorar.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 05, 2016 7:35 pm

Capítulo III

Numa das ruas distantes do centro da cidade, havia uma ampla casa, cercada de dois lados por um jardim, com o terceiro lado saindo para um beco sem saída que a separava das casas vizinhas.
A casa parecia vazia, um verdadeiro milagre naquele tempo, quando cada quartinho em Constança custava uma fábula e os moradores ou abandonavam a cidade, ou passavam a morar no trabalho alugando suas casas aos ricos estrangeiros provenientes de todos os cantos do mundo.
Mas a casa parecia vazia só externamente.
Num dos quartos, cujas janelas saíam para o jardim, um homem andava de um canto a outro, agitado.
Seu rosto demonstrava preocupação, a testa apresentava profundas rugas e, esporadicamente, um forte palavrão italiano escapava-lhe da boca.
Esse homem era Brancassis, que todos pensavam ter viajado atrás do papa João XXIII, mas que voltara às escondidas para essa casa que já ocupara anteriormente.
Voltara com a intenção de manter contacto com diversos prelados que haviam permanecido fiéis ao papa fugitivo e, por meio deles, descobrir a disposição do concilio e do imperador.
Depois, se surgisse a oportunidade, salvaria a tiara papal para o tio a preço de ouro e outras tramóias.
Entretanto, os cálculos do Papa e seu enviado não se confirmaram.
Apesar de algumas artimanhas de sucesso do esperto Tomasso Brancassis - como, por exemplo, a ameaça da nacionalidade italiana113 de deixar Constança e não participar do concilio - e apesar da carta do Papa, escrita de próprio punho, ao rei da França, o jogo de João XXIII estava definitivamente perdido.
Nos últimos dois anos Brancassis mudara muito:
envelhecera e ficara obeso; a cor do seu rosto ficara amarelada e até cinzenta; seus olhos haviam-se tornado fundos e olhavam ferozmente de dentro das profundas órbitas.
O terrível golpe de Broda não o matara, mas deixara em seu organismo profundos sinais que se haviam feito sentir durante a viagem a Constança.
Uma insuportável dor nas costas obrigara-o até a usar liteira no caminho.
Essa viagem fora muito triste.
Baltazar Cossa (João XXIII) fora para o concilio, guardando um impotente rancor, e pressentindo que seu terrível protector, Sigismundo, insistiria em levá-lo à morte.
A tiara papal não alterara a vivacidade, a crueldade e a rebeldia do antigo bandido; seus insucessos, ele descontava nos subordinados, maldizendo as estradas ruins, o clima severo e o cansaço da difícil e longa viagem.
Perto de Arlsberg, a carruagem inclinara-se de repente e Cossa caíra na neve.
Naquele momento havia muita gente na estrada, multidões se juntavam para ver o Papa.
Sem dar importância à má impressão que poderia causar seu comportamento sobre aquelas pessoas, Sua Santidade explodira em maldições e palavrões e, ao criado que correra para saber se ele havia-se machucado, o Papa vociferara:
- Jaceo hic in nomine diabolil
Ele considerara a própria queda como um presságio de mau agouro.
- Eis a armadilha para capturar raposas! - Dissera ele a Brancassis, apontando a cidade que já aparecia ao longe.
Esse acidente veio à mente do cardeal.
O presságio cumprira-se literalmente.
As notícias que Brancassis recebera preocupavam-no demais.
Todos as suas cartas haviam sido batidas no confronto com a energia demonstrada pelo imperador.
No dia seguinte ao desaparecimento de Cossa, Sigismundo passara por toda a cidade precedido por arautos e corneteiros, anunciando a todos que a fuga do Papa não interromperia a acção do concilio.
Naquela manhã, Brancassis soubera que já estava pronto um respeitável exército para a deposição do duque da Áustria - declarado traidor do império e do concilio - e para a captura de Cossa à força, para ser julgado como pirata e criminoso, culpado de simonia e devassidão...
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 05, 2016 7:35 pm

Uma leve batida na porta afastou o cardeal de seus terríveis pensamentos.
No quarto entrou um monge e retirou o capuz que cobria sua cabeça.
- Trouxe uma notícia inesperada, reverendíssimo. - Disse ele.
O conde Valdstein chegou à cidade acompanhado pela condessa Rugena!
Brancassis estremeceu.
- Você não se enganou, Hilário?
Vok e a esposa estão em Constança?
-Não Vok, mas o conde Hinek.
Com ele vieram a jovem condessa, Ana de Trotsnov, Túlia, Broda, ou seja, todo aquele maldito bando!
À medida que ia ouvindo aqueles nomes, Brancassis ia ficando rubro e em seus olhos negros acendia-se uma feroz fagulha.
- Per Bacco! Que notícia valiosa, Hilário!
Devemos pensar um pouco para proporcionar uma recepção condizente às amáveis moças e ao corajoso Broda.
Conte-me em detalhes tudo o que soube a respeito deles; mas, primeiro, ordene ao Januário que me sirva uma caneca de vinho - estou cansado e a minha cabeça hoje está pesada.
Dez minutos depois, um velho monge de barba grisalha trouxe vinho, duas taças e uma torta de frango.
Brancassis sentou-se e indicou uma cadeira desmontável a Hilário, que se tornara seu secretário depois da morte do valoroso Bonaventura.
- Agora, conte-me tudo! - Disse o cardeal, enchendo com vinho as duas taças.
Não omita nenhum detalhe, pois cada um deles pode ser importante para mim.
- Depois de entregar sua mensagem ao reverendo secretário do cardeal Ursino, eu voltava pela praça da igreja.
De repente, vi diante da entrada da sacristia alguns cavalos de montaria ricamente enfeitados e seguros por pajens; num deles reconheci imediatamente laromir, o pajem preferido da condessa Rugena.
Colocando o capuz sobre o rosto, fiquei observando-os de longe.
Depois de algum tempo apareceu a condessa Valdstein de braço dado com um senhor polonês e atrás deles saíram Ana, toda de preto...
Ele foi interrompido pela louca gargalhada de Brancassis.
- Mas como?
A minha viúva ainda está de luto?
— Sim! Está tão magra e mudada que mal a reconheci.
Mas Túlia, pelo contrário, desabrochou como uma rosa e está mais bonita do que nunca.
- Ah, maldita delatora!
Agora pagará caro por suas proezas!
Ela está vindo directo para as minhas mãos! - Resmungou por entre os dentes Brancassis, cerrando os punhos.
- O último a sair foi Broda. - Continuou Hilário.
Eles montaram os cavalos, saíram devagar e eu os segui de longe.
Ao ver que eles entravam no quintal de uma casa, decidi saber se haviam ido visitar alguém ou se moravam lá.
Para isso entrei numa taberna próxima e, depois de uma caneca de vinho, descobri que a casa pertence à velha senhora Laufenstein, que é parente dos Valdstein, e que agora o conde Hinek e a sua nora estão hospedados lá.
- Obrigado, Hilário, por todas essas informações.
Mas para mim isso ainda é pouco e precisaria saber mais:
quanto tempo irão ficar aqui, onde costumam ir, a que horas saem de casa e retornam - em suma, descobrir tudo o que se refere a eles.
Depois, deveremos tentar estabelecer relações com alguém da casa.
Hilário empalideceu.
- Mas, como?
O senhor quer tentar de novo... chegar até Rugena?
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 06, 2016 9:01 pm

Brancassis mediu-o com um olhar de desprezo.
-Você é curioso demais, meu amiguinho!
Quando ordeno alguma coisa, você deve cumpri-la sem pensar, che diavolo\
Tenho a impressão de que pago generosamente por sua velha pele e para que você possa arriscá-la por mim!
Mas sei há muito tempo que você só é corajoso quando pode torturar um fraco ou enganar um bobo impunemente.
Por isso vou deixá-lo em paz com a sua covardia.
Se eu conseguir chegar até Rugena, não será em sua companhia.
Enfim, nem pretendo fazer isso:
quero vingança e não amor.
- Farei o possível para obter as informações que o senhor deseja.
Acredite-me: não é covardia, mas o perigo que me ameaça é que me obriga a ser prudente.
Isso porque, se alguém do séquito do conde me reconhecer, estou morto! - Respondeu Hilário, contraindo-se de medo.
- Faça como quiser!
Quero que, em três dias, me traga as informações de que preciso e que entre em contacto com alguém da casa! - Respondeu Brancassis, dispensando seu secretário com um aceno de mão.
Rugena - obviamente sem imaginar o perigo que a ameaçava e aos seus - estava absorta em outros assuntos.
Dois acontecimentos inesperados haviam alterado sua tranquilidade.
O primeiro referia-se a Huss.
Os senhores checos, indignados, haviam ficado sabendo de detalhes horríveis a respeito do tratamento que estava sendo dispensado ao infeliz:
ele não somente estava preso numa torre isolada e algemado com correntes nos pés, mas, à noite, algemavam-lhe também as mãos e prendiam-no à parede.
Nada parecia justificar tanto rigor com relação ao prisioneiro, cuja bondade e cuja encantadora humildade haviam desarmado de tal modo seus carcereiros em Constança, que estes lhe haviam feito algumas concessões - deixando, inclusive, que amigos o visitassem.
Agora, em Gottliben, Huss estava afastado do mundo, privado de qualquer ajuda humana e até religiosa, pois não lhe era permitido comungar.
Os terríveis sofrimentos causados ao homem respeitado por todos entristeciam profundamente Rugena e Svetomir.
Ana, surpreendentemente, não vertera uma única lágrima.
Em compensação, algumas palavras que dissera sobre isso continham tanto ódio ao clero e ao concilio, tanto desprezo pelo imperador e por todos os traidores checos, que a condessa, assustada, convencera-a a calar-se para não atrair sobre si alguma desgraça.
O segundo acontecimento que deixara Rugena preocupada dizia respeito a Jerónimo.
Por ele, em seu coração escondia-se um sentimento muito particular:
era dolorido e profundo, como um ferimento que se fechara externamente, mas que continuava a arder e vazar ao menor contacto.
Aquilo não lhe parecia amor no sentido comum dessa palavra.
Mesmo porque, a magnanimidade demonstrada por Vok quanto à sua confissão conquistara a amizade de Rugena.
Ela estava profundamente agradecida ao marido por ele não ter procurado briga com Jerónimo, o que já era um grande feito para o ciumento, impulsivo e mimado conde.
Tendo por base esse reconhecimento, nela desabrochara aos poucos um sentimento bom e caloroso por Vok.
Jerónimo, entretanto, continuara sendo um ideal.
Rugena preocupava-se com ele e rezava quando sentia que algum perigo o ameaçava - e, nesses momentos, a velha ferida se abria.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 06, 2016 9:01 pm

Por isso ela ficara muito inquieta quando Jan de Khlum chegara, certa vez, emocionado, para falar com o conde Hinek e contara-lhe que encontrara na véspera o mestre Jerónimo, que viera a Constança na esperança de ajudar seu amigo a defender sua causa.
Temendo o perigo que ameaçava Jerónimo, o barão Jan levara-o ao senhor Venceslau e eles mal haviam conseguido convencê-lo a sair rapidamente da cidade.
Jerónimo realmente saíra da cidade, mas só depois de pregar, naquela mesma manhã, nas portas das igrejas e da câmara municipal, uma declaração, na qual levava ao conhecimento de todos o objectivo de sua chegada e exigia do imperador e do concilio um verdadeiro salvo-conduto, para ter possibilidade de aparecer livremente diante deles.
Jan de Khlum e outros senhores checos e morávios, que já não esperavam nem a verdade nem favores do concilio, não haviam aprovado aquela medida.
Jerónimo, então, deixara Constança.
Rugena pôde, assim, acalmar-se um pouco.

113 O concilio dividia-se em quatro nacionalidades: italiana, francesa, alemã e tcheca - Nota do autor.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 06, 2016 9:01 pm

Capítulo IV

Chegara abril.
Certo dia, ao entardecer, a condessa ficou sozinha em casa.
O conde fora visitar o senhor Ganush Tulikovsky, a quem Svetomir lhe apresentara.
Túlia tinha ido visitar uma amiga de Bolonha que conhecia desde criança e que encontrara por acaso agora em Constança, casada com um médico italiano.
Ana rezava em seu quarto.
Aproveitando a privacidade, Rugena começou a escrever uma carta a Vok, descrevendo detalhadamente todas as suas impressões e tudo o que vira e ouvira naquele formigueiro humano.
Foi interrompida por laromir, que veio correndo com o pedido de Broda para que ela fosse até o quarto do conde.
Ele estava lá com um visitante desconhecido que chegara com um caso extremamente importante e inadiável.
Surpresa, a condessa levantou-se imediatamente e seguiu o pajem.
Junto à porta do quarto do sogro, Broda recebeu-a e sussurrou:
- O mestre Jerónimo chegou disfarçado para ver o barão Jan e, não o encontrando em casa, veio para cá.
Mantenha-o aqui, senhora, até a chegada do conde, e, se possível, convença-o a fugir, senão ele será um homem morto.
Vou ficar vigiando para que nenhum estranho entre aqui. - E, sem esperar resposta, saiu.
Rugena abriu apressadamente a porta do quarto do conde.
O ousado visitante estava parado diante da janela aberta, olhando, pensativo e sombrio, a nova e fresca folhagem primaveril do jardim.
Ele tinha deixado seu chapéu e a capa na cadeira e os raios do sol poente deslizavam carinhosamente pelo belo e corajoso rosto e pela branca e bonita mão que apertava nervosamente o cabo do punhal italiano em seu cinto.
Jerónimo quase não mudara; a mesma alegre auto-confiança brilhava em seus olhos escuros quando, ao ouvir o barulho da porta se abrindo, ele reconheceu Rugena, que parou, embaraçada.
O coração disparou no peito dela.
Depois daquele inesquecível encontro, quando eles haviam confessado mutuamente seus sentimentos, era a primeira vez que se encontravam a sós.
Ambos ficaram em silêncio, constrangidos pela lembrança daqueles doces, mas difíceis momentos...
Jerónimo refez-se primeiro.
- Perdoe-me por perturbá-la.
Eu contava encontrar aqui o conde e o senhor Jan.
- O senhor será sempre uma pessoa bem-vinda, mestre Jerónimo, e sabe muito bem disso.
Mesmo assim, devo criticá-lo por sua falta de cuidado. - Disse ela com um carinhoso sorriso, estendendo a mão que ele beijou.
- Eu solicitei um salvo-conduto ao concilio e não obtive resposta.
A clandestinidade e a falta de acção foram tão insuportáveis no ninho onde eu estava escondido que decidi vir buscar informações em Constança.
- Mas o senhor está arriscando a vida. - Disse Rugena, assustada.
Um triste sorriso moveu os seus lábios.
- Minha vida?
É preciso que um dia ela também tenha um fim... - Respondeu Jerónimo e uma profunda amargura soava em sua voz.
- Sim, um fim estabelecido por Deus e não provocado pela leviandade.
Jerónimo não respondeu às últimas palavras de Rugena; baixando a cabeça, ele ficou pensativo e em sua memória ressuscitou, como num panorama, toda a sua vida nómade, cheia de aventuras, perigos, lutas e sucessos, mas privada de felicidade e paz.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 06, 2016 9:02 pm

A verdadeira felicidade, aquela visão atraente do lar onde descansaria de corpo e alma, estava ali, ao lado dele, mas separada por um obstáculo intransponível.
Como por ironia, o destino caprichoso mostrara-lhe aquele tesouro e até permitira que o tocasse.
Depois, novamente tomara-o, dizendo:
"Afaste-se! Siga sozinho o caminho para o seu objectivo desconhecido!".
Naquele momento, Jerónimo sentiu que estava cansado de viver e foi tomado por uma terrível amargura.
Temendo que o seu longo silêncio pudesse ofender a jovem condessa, ele, com sua natural amabilidade de cavalheiro, já pretendia contornar a situação, quando seus olhos se encontraram com os olhos de Rugena.
Os assustados olhos dela brilhavam com amor e solidariedade.
Jerónimo compreendeu na hora que não fora totalmente esquecido e que no fundo daquela alma pura existia - talvez inconscientemente -um recanto onde ele reinava e onde para ele estava guardada alguma afeição. Seu rosto pálido inflamou-se com um leve rubor.
Agarrando a mão de Rugena, perguntou, baixinho:
- A senhora não quer que eu morra?
A mão de Rugena tremeu na sua.
- Não, não quero!
Quero que o senhor viva para a Boémia, para a sua causa e para... os amigos que o amam... - Disse ela, abafando a emoção de tal forma que se sentia um delicado carinho em seu rápido sussurrar.
Os olhos de Jerónimo brilharam com uma pacífica e calma alegria.
- Seu desejo para mim é uma ordem.
Hoje mesmo irei embora de volta à pátria.
- Oh! Fico-lhe muito grata! - Exclamou ela, alegremente.
E nada mais conseguiu dizer, pois as lágrimas já a sufocavam.
No quarto vizinho ouviram-se passos apressados, a porta se abriu ruidosamente e entrou o conde, acompanhado por Jan de Khlum.
Ambos estavam preocupados e, abraçando Jerónimo, não deixaram de criticá-lo pelo seu descuido.
Ele repetiu-lhes o que dissera a Rugena sobre sua impaciência na espera do salvo-conduto.
- O salvo-conduto está "perfeito"! - Observou o barão Jan, com indignação.
Pedro de Mladovitz conseguiu uma cópia dele e trouxe-me esta manhã.
Eis o que lá está escrito, além de outras coisas - disse ele, tirando do bolso uma folha de pergaminho e lendo:
"Nada virá mais em direcção aos nossos anseios, do que a captura das raposas que esvaziam o rebanho de Deus, e nós o convocamos para comparecer e justificar-se", e assim por diante.
Acho que você entendeu tudo! Mas o final é ainda melhor.
Ouça:
"Concedemos-lhe este salvo-conduto por ser isto de nossa competência, por estar de acordo com a justiça e não contrariar a fé.
No entanto, informamos que iremos julgá-lo, em sua presença ou à revelia, no prazo indicado".
Pode você imaginar o que lhe promete tal salvo-conduto se aquele que Huss recebeu do imperador não o protegeu...
Com você eles não terão tanto pudor.
- Pois é, mestre Jerónimo, fuja daqui o mais rapidamente possível.
Nós só ficaremos tranquilos quando soubermos que você está na nossa pátria. - Acrescentou o conde.
- Vocês me convenceram!
Vou imediatamente fugir daqui!
Assim que atravessar a fronteira da Boémia, notificarei vocês disso. - Respondeu Jerónimo, lançando um rápido olhar para Rugena.
Anoiteceu. Pela ruela escura que dava acesso à casa onde morava Brancassis, esgueiravam-se dois monges, com as cabeças cobertas com capuzes.
Por um pequeno portão escondido no muro, eles penetraram no jardim e depois para dentro de casa.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 06, 2016 9:02 pm

No quarto já descrito acima, um deles acendeu as velas nos castiçais e o outro, colocando na mesa a barba grisalha postiça, começou a tirar a batina.
Era Brancassis e o seu secretário.
O rosto gordo e escamoso de Hilário brilhava com maléfica satisfação e, trazendo ao cardeal um traje caseiro de seda, ele observou, maliciosamente:
- Não nos enganamos, reverendíssimo!
O desprezível Jerónimo realmente ousou aparecer aqui.
- O que lhe falou a moça que aguardávamos na esquina?
- O que já sabíamos:
que Jerónimo chegara.
Ela somente acrescentou que a condessa disse a Ana que aquele sacrílego está fugindo directo para Boémia.
Será lamentável se ele escapar do justo castigo.
- Sem dúvida! E só pelo facto de ter ousado jogar você pela janela, ele já merece a fogueira! - Zombou Brancassis, com o característico tom de desprezo que adoptava com relação a Hilário.
Este ocupara o lugar, mas não substituíra o seu ágil e esperto Bonaventura.
- Mas não haverá um jeito de agarrá-lo ou traí-lo?
Ou seja, de atrapalhar sua fuga? - Acrescentou ele.
- Só o demónio sabe o caminho que ele vai seguir e, além disso, irá a toda velocidade!
Mas, se eu tivesse dinheiro, poderia tentar enviar um mensageiro ao pároco de Guirschauss.
Ele certamente deverá passar por lá, pois a paróquia fica na fronteira da Boémia... - Disse Hilário, com segundas intenções.
- Envie o mensageiro, que eu pago as despesas!
Você merece essa satisfação por seus leais serviços... - Sorriu Brancassis, maldosamente, dispensando o secretário.
Ficando sozinho, o cardeal mergulhou em sombrios pensamentos.
Por instantes uma raiva diabólica desfigurou seu rosto - e ele tinha muitos motivos para isso.
A situação de Baltazar Cossa piorava cada vez mais.
Seu protector, Friedrich da Áustria, assustado com as consequências dos seus actos, submetera-se ao imperador, e o Papa fugitivo, abandonado por seus partidários, vagava agora de cidade em cidade.
A queda do tio e benfeitor preocupava Brancassis quase tanto quanto o plano de vingança contra os Valdstein.
Hilário cumpriu com precisão as ordens recebidas e entrou em contacto com uma das criadas, que lhe informava sobre tudo o que acontecia na casa.
O próprio Brancassis, disfarçado de monge, rondava a casa e já vira Rugena, Ana e Túlia.
A beleza da condessa despertara no cardeal a velha e ardente paixão.
Entretanto, em sua sombria alma, agora esse sentimento colorira-se de ódio e ele ansiava não tanto por possuir Rugena quanto por matá-la.
Já que ela não lhe pertencia, então deveria pertencer somente ao túmulo, decidira ele.
Com esse objectivo, ele conseguiu obter um veneno - cujo segredo ensinara-lhe seu tio - que matava vagarosamente, debilitando aos poucos o organismo; restava somente encontrar uma oportunidade para aplicá-lo na vítima.
Brancassis também fervia de raiva de Túlia, cuja traição acabara com ele a um passo do sucesso.
A traidora deveria pagar com sofrimento infernal, e queria capturá-la viva, para se deliciar depois com o seu sofrimento.
Ana parecera-lhe por demais feia e boba em suas vestes negras, com rosto pálido e um olhar estranho e selvagem.
Na alma degenerada de Brancassis nunca houvera um instante de piedade para com aquela jovem, cuja vida ele destruíra por nada.
Ele somente lamentava o tempo que perdera com ela, e lamentava também não tê-la matado naquela hora.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 06, 2016 9:02 pm

Deliciando-se antecipadamente com o prazer dos sofrimentos e das lágrimas que traria a todos os que haviam ousado ficar em seu caminho, ele esquecera seus insucessos políticos e até a aguda dor nas costas que, a cada movimento brusco, lembrava-lhe que era mortal.
Rugena aguardava com impaciência a notícia sobre o sucesso da chegada de Jerónimo à Boémia.
De repente, correu pela cidade o boato de que Jerónimo fora detido em Guirshauss, no dia 24 de abril.
Após ter sido reconhecido pelo sacerdote local, que comunicara o facto às autoridades, ele fora preso por oficiais do príncipe palatino lohann da Bavária, e confinado em Zultsbakh, aguardando novas ordens do concilio.
Os checos e morávios que estavam em Constança ficaram profundamente constrangidos com a notícia.
Felizmente, Rugena soube disso por Ana, que lhe transmitiu a triste novidade quando estavam a sós, e a fiel amiga foi a única testemunha de suas lágrimas e de seu desespero.
O perigo mortal que ameaçava Jerónimo despertou o amor que ainda cochilava no coração da condessa e que ela sinceramente considerava como amizade.
Entretanto, o terrível destino que provavelmente aguardava aquele encantador e genial homem - orgulho de toda a Boémia - foi motivo suficiente para despertar sua calorosa paixão por ele.
Se Vok estivesse ali talvez adivinhasse os verdadeiros sentimentos da esposa, percebendo-lhe a palidez, o estado de nervos e o ostensivo sofrimento, mas o conde Hinek, naquele momento, prestava pouca atenção à nora.
Como a maioria dos seus amigos reunidos em Constança, Valdstein estava completamente absorto, acompanhando a teimosa luta do Papa com o imperador.
A impiedosa severidade com que era julgado o Sumo-sacerdote de Roma agitava todo o mundo cristão.
Derrotado e disposto a tudo para conseguir o perdão, Friedrich da Áustria chegou a Constança e, num dos banquetes, prostrou-se publicamente aos pés de Sigismundo pedindo-lhe perdão e oferecendo-lhe suas propriedades em Elzas e Tirol.
O imperador devolveu-lhe essas terras em troca de juramento de fidelidade e, a partir daquele momento, Baltazar Cossa perdeu seu último protector.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 06, 2016 9:02 pm

Capítulo V

O fim de maio caiu num lindo dia.
Chegando à casa dos Valdstein, Svetomir contou ter visitado na véspera uma adivinha, que não somente descrevera em detalhes o seu passado mas também lhe predissera um futuro brilhante.
E começou a convencer as damas a ir consultá-la, oferecendo-se como acompanhante.
A tristeza e a apatia de Rugena preocupavam Svetomir e ele inventara aquele passeio para distrair a condessa.
Há dias ela não vinha se sentindo bem, queixando-se de tonturas e dor no peito.
Na véspera da visita de Svetomir, após beber um copo de leite, ela vomitara e tivera um longo desmaio.
A conselho de Túlia, o marido de sua amiga, um jovem médico italiano que fazia parte do séquito do cardeal Ursino, fora chamado.
Depois de cuidadoso exame da paciente, Kosimo Benelli prescrevera-lhe um remédio que provocara mais vómitos, após o que a condessa adormecera.
No dia seguinte, Rugena parecia completamente recuperada e até recebeu amavelmente Svetomir.
A vontade de entreabrir a cortina que oculta o futuro é inata no ser humano.
Rugena estava disposta a ir e Túlia, italiana supersticiosa, mais ainda.
O ambiente feliz e tranquilo de sua nova vida havia-lhe devolvido a juvenil alegria de viver e a proposta de Svetomir motivara-a a querer saber o que o destino lhe reservava.
Rugena esperava saber o resultado dos processos de Huss e Jerónimo, e, com relação a si, se Deus lhe enviaria o filho que Vok tanto queria.
A visita à adivinha ficou definitivamente acertada e todos começaram a se preparar, com excepção de Ana, que disse não ter futuro e por isso não ter nada para ser adivinhado.
O conde, perguntado sobre isso, aprovou, rindo, a vontade dos jovens, com a condição de que Broda os acompanhasse, pois nas frequentes desordens daqueles últimos tempos, duas espadas seriam melhores do que uma para defender as damas.
O tempo estava bom e eles resolveram ir a pé, apesar de a adivinha morar em outro lado da cidade.
Ninguém notou que, junto à saída da casa, dois monges observavam-nos insistentemente a uma certa distância.
Somente Broda, que ia ao lado de Túlia e atrás da condessa e de Svetomir, percebeu-os e ficou vigiando.
Eles, entretanto, desapareceram na multidão e ele logo os esqueceu, pois monges das mais diversas ordens corriam por todos os cantos da cidade.
O grupo já se aproximava do objectivo do passeio quando, de repente, do fim da rua à frente deles ouviu-se o ruído de uma multidão se aproximando e que lotou a rua em toda a sua largura.
O povo cercava algo que estava difícil de enxergar e somente as lanças e bestas da guarda municipal brilhavam sobre as cabeças.
Para evitar o empurra-empurra, Svetomir começou a procurar em volta um local para se abrigar e aguardar a passagem da multidão.
Mas, naquele instante, das casas vizinhas começaram a sair pessoas atraídas pelo barulho e Rugena e ele foram imediatamente cercados pela massa excitada e curiosa.
Inicialmente ambos ficaram prensados à parede, depois foram por acaso empurrados para a frente e viram-se na primeira fileira dos espectadores.
Dali dava para ver soldados que cercavam uma carroça levando um homem amarrado e acorrentado.
Svetomir empalideceu, reconhecendo Jerónimo no prisioneiro.
Este parecia tranquilo, seu pálido e orgulhoso rosto estava sombrio e concentrado.
Rugena também o reconheceu e, no primeiro momento, emudeceu, olhando-o com olhos arregalados; depois soltou um grito lancinante e caiu sem sentidos.
Apesar do barulho, aquele grito cortante alcançou os ouvidos de Jerónimo, que olhou em sua direcção e também reconheceu Rugena.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 06, 2016 9:02 pm

Ele estremeceu, endireitou-se e suas correntes tilintaram; tentou pular para o chão, mas todos os seus esforços foram em vão.
Sem nada conseguir, ele voltou a sentar-se e uma expressão de indignação, raiva e desespero desfigurou seu rosto.
Com a ajuda de um cidadão prestativo e com grande dificuldade, Svetomir conseguiu atravessar a multidão e levar Rugena até os degraus da casa vizinha.
A carroça com o prisioneiro já estava longe, mas a multidão que a acompanhava continuava a mover-se e lotar a estreita rua.
De repente, o fluxo da massa parou, começou uma confusão e ouviram-se estridentes gritos de mulher e depois uma alta voz gritou:
- Segurem, segurem-no!
Então, tudo se misturou novamente, pois os que chegavam empurravam os que estavam à sua frente.
Svetomir ficou alerta.
Aquele grito poderoso parecia a voz de Broda.
Todavia, era impossível distinguir algo na multidão; as pessoas à sua volta estavam muito tensas, gritando e agitando os braços.
À pergunta de Svetomir uma cidadã, pálida e emocionada, respondeu de passagem:
- Mataram alguém.
Naquele instante, abriu-se uma clareira na multidão e apareceram alguns homens carregando uma mulher que ele reconheceu com horror ser Túlia.
Ela estava imóvel como morta e foi colocada no chão a alguns passos de Rugena, que ainda não tinha voltado a si.
Svetomir ficou perdido sem saber o que fazer, não ousando deixar a condessa para chamar uma condução para Túlia.
De repente, para sua grande felicidade, notou dois soldados poloneses do séquito do senhor Tarnovsky.
Chamando-os, ele deixou-os guardando Rugena e, aproximando-se rapidamente do grupo de pessoas que comentavam o ocorrido, perguntou como tudo acontecera.
- Vi tudo e, mesmo assim, não entendi nada! - Respondeu um dos cidadãos.
Ela estava próxima de mim e parecia querer sair do aperto da multidão, o que era difícil pois havia muita gente.
Eu estava um pouco mais adiante e não lhe prestava atenção, quando o meu vizinho me cutucou com o cotovelo e disse:
"Veja! O monge quer levar consigo a sua amante.
Como são insolentes esses homens de batina preta!".
Olhei para trás e vi um monge arrastando uma bonita mulher enquanto outro companheiro seu ia abrindo caminho para ele na multidão.
Inicialmente, a mulher ficou muda de susto ou de vergonha e não reagiu.
Depois, passou a debater-se e gritou chamando pela ajuda de algum amigo, porque um soldado de meia-idade, mas ágil e forte como um touro, começou a tentar chegar até ela.
Os monges também o perceberam; um disse algo para o outro em língua estrangeira; alguma coisa brilhou na mão desse outro e ambos desapareceram na multidão.
A mulher ficou por instantes parada como se nada tivesse acontecido e, depois, abrindo os braços, caiu no chão.
Nós nos aproximamos e vi-mos um punhal em seu peito.
Então a trouxemos para cá, enquanto aquele soldado desapareceu junto com os monges!
Svetomir inclinou-se e examinou Túlia.
Ele notou que o ferimento não era mortal mas de qualquer modo perigoso, pois o estilete penetrara até o cabo.
O coração ainda batia fracamente e, se ela recuperasse os sentidos, talvez pudesse indicar o assassino.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 06, 2016 9:03 pm

Avisando aos presentes que a vítima pertencia ao séquito da condessa Valdstein - que estava ao lado, desmaiada, com o susto do empurra-empurra da multidão -, Svetomir pediu ajuda para levar a ambas para casa e prometeu uma boa recompensa.
O pedido teve rápida aceitação e um dos cidadãos ofereceu-se para chamar o médico Benelli.
Naquele momento, a multidão praticamente havia-se dispersado e Rugena abriu os olhos.
Para não assustá-la, Svetomir disse-lhe que Túlia perdera os sentidos em virtude do aperto da multidão e que ele já chamara o médico.
A jovem condessa estava demasiadamente fraca para voltar a pé; para ela e Túlia foram providenciadas liteiras.
O triste séquito seguiu seu caminho acompanhado por Svetomir, irritado com o desaparecimento de Broda.
O médico chegou quase junto com eles.
Como Rugena estava caindo de fraqueza, Benelli mandou que a colocassem na cama avisando que iria examiná-la assim que fizesse o curativo na ferida.
Túlia estava deitada e não recobrava os sentidos.
Ana, pálida e emocionada, aplicava compressas de água em sua testa e em mãos.
- Ela respira, senhor Benelli, mas continua sem sentidos.
Temo despi-la, pois o traje grudou no ferimento. - Disse ela, cedendo seu lugar ao médico.
Ele cortou cuidadosamente o corpete e, desnudando o peito da vítima, examinou-o.
- O ferimento é mortal.
Ela morrerá se retirarmos a arma. - Disse ele a Svetomir.
- Mas não seria possível fazê-la voltar a si?
Talvez ela nos diga algo que possa esclarecer esse estranho atentado. - Observou Svetomir, olhando com compaixão o rosto sem vida de Túlia.
- Vou tentar!
Tenha a bondade de levantar um pouco a paciente enquanto eu a faço cheirar um excitante.
Benelli retirou dois frascos da sacola que trouxera; com o conteúdo de um deles, umedeceu as mãos e as têmporas de Túlia e o outro levou até seu nariz.
Alguns minutos depois, um tremor passou pelo corpo da paciente, ouviu-se um gemido de dor, seus olhos abriram-se e olharam para os presentes com um olhar apagado e vítreo.
Ela, aparentemente, reconheceu-os e seu olhar brilhou.
- Brancassis me matou... - Disse, com voz rouca e sibilante.
Ele e Hilário tentaram me raptar...
Ela perdeu as forças e calou-se.
Depois, recuperando-se, continuou, num sussurro:
- Está escurecendo em volta... adeus... obrigado a todos e à senhora Rugena... pelo bem que fizeram à pobre Túlia...
Vou rezar por vocês todos e vou... vingar-me... daqueles miseráveis...
As últimas palavras ela proferiu inesperadamente alto e um ódio selvagem brilhou em seu olhar moribundo; mas esse esforço pareceu cortar o último fio de vida.
A cabeça de Túlia caiu para trás, o sangue correu pela boca, o corpo agitou-se em convulsões e parou.
- Está tudo acabado... - disse Benelli, com voz trémula.
Antes disso, ao ouvir Túlia dizer que seu assassino fora Brancassis, o jovem médico estremeceu e ficou pálido.
O nome do cardeal caiu como um trovão sobre Ana e Svetomir e ambos estancaram diante da cama completamente pasmados.
Nesse instante, a porta abriu-se e entrou o conde Hinek, agitado.
Ele tinha acabado de chegar em casa e soubera do triste acontecimento, vindo perguntar os detalhes a Svetomir.
O velho conde ouviu, indignado, o relato sobre o assassinato e as últimas palavras de Túlia.
Incumbindo Svetomir de organizar os funerais, ele já ia sair, quando Benelli se aproximou e pediu-lhe alguns minutos para falar a sós.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 06, 2016 9:03 pm

O conde, surpreso, conduziu o médico ao seu quarto.
Quando ficaram sozinhos, Benelli, visivelmente preocupado, disse:
- Senhor conde, considero meu dever preveni-lo de que o estado de saúde de sua nora é extremamente perigoso.
A condessa Rugena foi envenenada e...
- O senhor deve estar enganado, doutor Kosimo!
Como Rugena pode estar envenenada?
Por quem? Isso é impossível, o senhor está enganado! - Interrompeu-o o conde, com irritação.
- Gostaria muito de estar enganado, mas infelizmente tudo o que digo é a triste verdade!
Antes de ontem, quando fui chamado para atender a jovem condessa, alguns sintomas levantaram as minhas suspeitas de envenenamento.
Para mim, isso também parecia improvável e decidi não falar nada até estar completamente convencido.
O remédio prescrito por mim provocou imediatamente o vómito, parte do qual levei comigo para pesquisar por um método que conheço.
Hoje de manhã, obtive a prova positiva de que a condessa ingeriu um veneno tão perigoso que não posso responder por sua vida.
Eu já me preparava para vir aqui com essa informação, quando vieram buscar-me.
O conde empalideceu e estancou ouvindo o relato do jovem médico, cujo tom sério não deixava dúvidas sobre a veracidade de suas conclusões.
- O que devemos fazer? - Perguntou o conde, indefeso.
- Lutar com todas as nossas forças e confiar na ajuda divina.
Acredito que já consegui estabelecer que tipo de veneno foi dado à condessa.
Inúmeros casos de envenenamento em nossos dias fizeram com que eu me dedicasse ao estudo de venenos.
Vou tomar as medidas necessárias que, previno desde já, podem não ser suficientes.
Pode-se imaginar como o conde ficou desolado.
O nome de Brancassis vinculado ao assassinato de Túlia despertara nele uma sombria suspeita e ele implorava ao médico que salvasse a vida de sua nora.
Benelli foi ver Rugena enquanto o conde mandou chamar Svetomir para lhe contar tudo o que soubera e de suas suspeitas.
Este também ficou estarrecido, mas nem por um instante duvidou da triste verdade.
Brancassis era perfeitamente capaz de envenenar a mulher que não conseguira ter.
Svetomir já se preparava para ir comprar um lugar para o túmulo de Túlia e encomendar o caixão, quando Broda voltou, nitidamente cansado e irritado.
Svetomir perguntou-lhe por que ele desaparecera e Broda contou que, reconhecendo Hilário num dos monges, ele correra atrás dele, mas a multidão atrapalhara e ele não conseguira agarrar o miserável.
Mesmo assim, seguira-o até um beco sem saída onde o monge desaparecera sem deixar rastro.
Pelas informações que recolhera, soubera que na casa vazia, cujo jardim se estendia ao longo daquele beco, residira antes Brancassis e que o cardeal permanecia como inquilino da casa, pois pagara adiantado o aluguel de muitos meses.
- Isso significa que encontrei o covil dos bandidos.
Juro pelos céus que não descansarei enquanto esses dois miseráveis não receberem o merecido castigo.
O conde Hinek quis imediatamente avisar Vok sobre o envenenamento da esposa.
Entretanto, ao ver que no dia seguinte Rugena levantou-se bem e começou a participar activamente da preparação do funeral, ele acalmou-se, esperando que o perigo já tivesse passado graças às medidas tomadas a tempo pelo médico.
O conde acabou nada escrevendo ao filho para não perturbá-lo.
Naquele ínterim, na cidade desencadearam-se importantes acontecimentos que absorveram toda a atenção dos contemporâneos e atraíram os olhares de toda a cristandade para a pequena cidade alemã, onde se reunira o concilio.
Dois dias depois, no momento em que descia para o túmulo a inocente vítima de Brancassis, o concilio de Constança, em solene reunião, julgava João XXIII à revelia, retirando dele todos os atributos; 37 testemunhas, entre elas 12 bispos, apresentaram contra ele 63 acusações.114
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 06, 2016 9:03 pm

Da longa lista de crimes atribuídos ao representante de Cristo, o concilio, por respeito ao trono apostólico e ao cargo de cardeal, excluiu 13, deixando-os em segredo.
Contudo, é suficiente citar alguns dos outras 50 que permaneceram e que foram promulgados publicamente, para se ter uma certa ideia de que consistiam as acusações que o concilio ocultou.
Assim, considerava-se provado que Cossa envenenara seu predecessor Alexandre V, comercializara desavergonhadamente imóveis e bens da Igreja, praticara o banditismo, assaltara e matara durante a sua estada em Bolonha, mantivera ligação criminosa com sua nora, desonrara 300 freiras nomeando-as depois madres superioras de mosteiros e muitos outros desmandos.
Concluindo, o concilio reconheceu que aquele monstro era inadequado para o cargo e retirou da cristandade o juramento de fidelidade a ele, recomendando quebrar o seu brasão e o selo papal apresentados.
Essa decisão, assim como o próprio acto de renúncia, foi levada por cinco cardeais ao castelo de Rudolftsel, para ser assinada por Cossa - que fora preso lá pelo próprio duque da Áustria que agora se tornara seu carcereiro.
O papa João XXIII, transformado simplesmente em Baltazar Cossa, foi encarcerado no mesmo castelo Gottliben onde sofria a sua inocente vítima - Jan Huss.
Enquanto corriam esses acontecimentos importantes, o destino de Jerónimo preocupava e entristecia a todos os checos.
Depois do primeiro interrogatório, o prisioneiro fora deixado a cargo de lohann von-Vallenrod, o arcebispo de Riga de triste memória.
O sacerdote católico e alemão, com o ódio e a raiva disfarçados, submetera Jerónimo directamente ao regime de inquisição por sua origem eslava, amor à pátria e predisposição à Igreja ortodoxa.
À noite, Jerónimo fora transferido para a torre no cemitério de São Paulo onde o tinham trancafiado numa escura e fedorenta cela, acorrentando-o de tal forma que ambas as mãos acima da cabeça pressionavam o pescoço e impediam-no até de sentar.
Somente dois dias depois é que seus amigos ficaram sabendo do que lhe acontecera e tomaram medidas para aliviar o seu destino.
Mas, em decorrência da tortura, Jerónimo adoeceu.
Durante o tempo em que ele lutava contra a morte, Huss foi transferido para um mosteiro francês.
O conde Valdstein, após uma calma temporária, era vítima de uma nova preocupação:
a melhoria na saúde de Rugena alterara-se para uma enorme fraqueza e frequentes desmaios.
O conde, inicialmente, atribuíra aqueles sintomas preocupantes à emoção e às lágrimas pela trágica morte de Túlia - pois até então não haviam contado a Rugena que ela fora envenenada.
Benelli, no entanto, confessou ao conde que o veneno continuava destruindo-a aos poucos e que a situação da condessa era extremamente grave.
O conde ficou desesperado e não tardou em comunicar a Vok a triste verdade, convocando-o sem demora a Constança.
O ambiente na casa ficou sombrio e intranquilo.
Ana e Svetomir disfarçavam com dificuldade o seu desespero e cercavam a paciente com o maior cuidado e carinho, às vezes recuperando o ânimo e as esperanças quando Rugena melhorava e às vezes caindo em desânimo a cada novo desmaio, que era acompanhado geralmente por uma longa fraqueza.
Em Svetomir e Broda, o temor pela vida da jovem condessa mesclava-se com o desejo de castigar o traiçoeiro assassino.
Com esse objectivo, Broda, disfarçado, rondava assiduamente pela cidade e pelas cercanias, procurando o rastro de Brancassis e seu cúmplice, mas sem resultado.
Certa vez, Svetomir, voltando da casa dos Valdstein, estava triste e preocupado quando, de repente, entrou Broda, disfarçado de cocheiro.
Sua aparência era severa mas satisfeita e ele, sem perder tempo, informou que conseguira achar Hilário de modo absolutamente inesperado.
- Eu tinha certeza de que a casa onde morou Brancassis e que ainda lhe pertence servia de refúgio para eles, e por isso rondava em volta daquele local.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Hoje, depois de muito andar, fiquei exausto e entrei para descansar na taberna em frente à casa onde mora o cardeal Ursino.
Fiquei por lá sentado quando vi sair do portão um monge mendicante.
Como por aqui existem muitos deles, eu nem teria prestado atenção naquele.
Mas, quando ele jogou às costas a sua sacola, a manga larga da batina desnudou o seu braço e percebi em seu cotovelo uma grande cicatriz, que foi para mim uma verdadeira declaração.
Era a mesma cicatriz que Hilário ganhou em uma caçada na qual um javali rasgou o seu braço.
Reconhecendo-o no disfarce, saí da taberna e comecei a segui-lo.
Ele, aparentemente, não me notou e ninguém prestaria atenção a um cocheiro qualquer.
O miserável foi directo à casa de Brancassis.
Entrando no beco sem saída e retirando uma chave do bolso, ele abriu um portão no muro, mas não deixei que ele o fechasse e empurrei a porta com tal força que ele caiu de costas da pancada.
Então, amarrei-o, tapei-lhe a boca e arrastei-o para dentro de casa, certificando-me antes de que estava vazia.
Esse covarde, que Deus me perdoe, perdeu os sentidos de susto e, por mais que eu o chacoalhasse, não dava sinais de vida.
Agora em dois, nós o faremos falar.
Svetomir vestiu imediatamente a capa e as armas e ambos, quase correndo, foram ver o prisioneiro.
Encontraram Hilário do jeito que Broda o deixara, mas o monge tinha voltado a si e estava deitado com os olhos esbugalhados.
Destapando sua boca, Svetomir mandou-o dizer onde estava Brancassis e o que ele sabia sobre o envenenamento de Rugena.
Por sua torpeza natural, Hilário acreditou que também daquela vez compraria a sua liberdade com uma confissão completa.
Pálido de terror, ele murmurou que o cardeal estava agora a caminho da Itália, para onde ele também deveria ir, assim que entregasse a mensagem secreta ao secretário do cardeal Ursino.
Com absoluta sinceridade, revelou como Brancassis, ansiando por vingança, decidira envenenar Rugena e castigar a traidora Túlia, raptando-a e torturando-a até a morte.
Na casa dos Valdstein, com a ajuda de um monge amigo, fora subornada uma criada que dera o veneno à condessa.
Rugena, porém, tomara somente uma parte daquele veneno, e o atentado não pudera ser repetido pois a senhora von-Laufenstein viajara para visitar a irmã que morava em outra cidade e levara a cúmplice deles consigo.
Como Túlia saía raramente e nunca sozinha, não havia como raptá-la; o cardeal estava fora de si e rondava diariamente a casa de suas vítimas.
Naquele dia fatal, ambos haviam seguido a condessa e seus acompanhantes; percebendo que Túlia ficara um pouco para trás do grupo e perdera-se na multidão, Brancassis achara que aquela era a hora de agarrá-la.
Ele realmente a agarrara e começara a arrastá-la consigo enquanto Hilário abria caminho.
Ao reconhecer o cardeal, Túlia assustara-se e não conseguira pronunciar uma palavra; o povo, em volta, rira e fizera piadas sobre eles.
Quando ela começara a gritar e a debater-se, alguns homens haviam tentado defendê-la, mas o cardeal gritara-lhes que ela era uma freira fugida e que ele a estava levando para as autoridades, o que fizera com que eles os deixassem em paz.
Ele, provavelmente, teria conseguido levá-la embora se Broda não os tivesse notado, o que os obrigara a fugir correndo.
Furioso por seus planos não terem dado certo, Brancassis apunhalara Túlia para não deixá-la escapar viva.
- Até agora ele não se conforma de as coisas não terem saído como ele queria... - Concluiu Hilário, cansado, olhando atemorizado para seus ouvintes.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 06, 2016 9:04 pm

Depois, caiu de joelhos e começou a implorar perdão.
Mas Broda, sem prestar atenção aos seus pedidos, tapou-lhe a boca novamente, soltou suas pernas e mandou-o segui-lo, se não quisesse experimentar o gosto do seu punhal.
No dia seguinte, os vizinhos ficaram assustados com um terrível quadro.
No gancho de ferro preso sobre a porta de entrada, em vez do lampião, balançava o cadáver de um monge.
Quando o corpo foi retirado do laço, reconheceram no enforcado o padre Hilário, secretário do cardeal italiano que tinha morado naquela casa.
O culpado pelo assassinato nunca foi descoberto e, na confusão dos acontecimentos extraordinários que se sucediam e agitavam a cidade, esse facto foi esquecido rapidamente.

114 ' Bonnehose, pp. 142-143 - Nota do autor.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 06, 2016 9:04 pm

Capítulo VI

A última informação que Huss recebeu, ainda no castelo de Gottliben, foi a de que seu ferrenho inimigo João XXIII - agora Baltazar Cossa - virará seu colega de desgraça e encontrava-se preso entre as mesmas paredes.
A qualquer outro, tal castigo do destino proporcionaria satisfação, mas em sua alma sem maldade não havia lugar para sentimentos de vingança.
"O deus terreno caiu e geme, acorrentado", escrevia Huss aos amigos.
"O concilio o depôs por comercializar com indulgências, bispados e postos lucrativos.
Ele foi condenado por aqueles que eram seus clientes e também comercializavam com isso.
Mas que raça esperta!
Por que não remover a tora do próprio olho?
Parece-me que se o Senhor Jesus dissesse ao concilio:
quem de vocês não tiver o pecado de comercializar coisas sacras que condene o papa João, não sobraria um único...".
A transferência de Huss para Constança, onde seria instaurado o processo, despertou as esperanças de todos os seus inúmeros amigos; eles não tinham dúvidas de que, se lhe dessem oportunidade para se defender, ele certamente rebateria todas as acusações que pesavam sobre a sua pessoa.
Contudo, logo na primeira reunião, eles ficaram desiludidos ao descobrir que os respeitáveis padres do concílio não pretendiam fazer justiça.
Na manhã de 5 de julho, no grande refeitório dos franciscanos, reuniram-se cardeais, bispos, prelados, mestres, doutores e outros membros do concilio; entre estes últimos estavam Pedro de Mladenovits e Ulrich, um jovem sacerdote, seu amigo.
A reunião estava agitada.
Antes mesmo de ser trazido o réu, foi feita a leitura do acto de acusação e tiveram início os depoimentos de testemunhas.
Um dos presentes até propôs passar directo para o estudo dos artigos de acusação e para a votação cujo resultado seria informado a Huss.
Durante a discussão dessa proposta, o supracitado Ulrich, que se encontrava atrás do orador dos depoimentos de testemunhas, deu uma olhada nos actos, soltou um silencioso grito e empalideceu.
Ele apressou-se para chegar até o seu amigo e sussurrou-lhe ao ouvido:
- Acabei de ver, entre os papéis, a sentença pronta de Huss.
Não menos surpreso, Pedro de Mladenovitz foi correndo avisar sobre isso a Jan de Khlum e Venceslau de Dub.
Estes dirigiram-se a Sigismundo e conseguiram obter dele a interrupção de tal arbitrariedade; os prelados não ousaram contrariá-lo e Huss teve de ser convocado.
Tal começo de julgamento não prometia boa coisa.
Sério, concentrado e cheio de dignidade, Huss apareceu diante dos seus inimigos em cujas primeiras fileiras estavam Paletch e Miguel de Causis, ambos fervendo de ódio e zombando dele insolentemente.
Teve início a leitura de algumas acusações; em seguida, foi feita a enumeração dos depoimentos de testemunhas que as comprovavam.
Quando Huss tentou responder e dar a sua versão, a raiva mal contida dos presentes derramou-se sobre ele numa torrente de palavrões e ofensas que abafaram a voz do acusado.
Os gritos e o barulho eram tantos que Lutero, em uma de suas obras e com ousadas palavras, caracterizava assim essa cena revoltante:
"Todos se agitavam como porcos selvagens, eriçando-se, rangendo os dentes e afiando suas garras contra Huss.
Só ele permaneceu calmo na tempestade, olhando com tristeza para aquelas pessoas nas quais esperava encontrar juízes imparciais, mas encontrou somente inimigos".
Quando a agitação amainou, Huss observou, sem raiva:
- Realmente, eu pensava que neste concilio tudo correria de forma mais limpa, melhor e ordenada do que esta!
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 06, 2016 9:04 pm

Não se sabe se seus juízes, cegos pelo espírito do ódio partidário, sentiram a acusação que havia nas simples palavras do humilde sacerdote que eles queriam eliminar, mas o facto é que o cardeal-chefe (supremus cardinalis) de Camberra, Pedro de Alliaco, gritou:
- Como ousa falar assim?
No castelo, você falava com mais discernimento!
- No castelo ninguém gritou contra mim.
Agora, todos vocês gritam ao mesmo tempo. - Respondeu Huss.
Sua resposta provocou uma nova explosão de ira e ofensas.
Percebendo que a excitação dos respeitáveis padres não levaria a resultado algum, o presidente fechou a reunião.
Os barões checos, indignados, queixaram-se a Sigismundo e este prometeu estar presente na segunda reunião, marcada para 7 de julho.
Infelizmente, os limites desta obra não nos permitem expor uma sequência detalhada da revoltante paródia de julgamento que espezinhava todas as leis até da forma mais primitiva da Justiça.
O processo era comandado por inimigos declarados de Huss; somente os depoimentos deles eram levados em consideração; a Huss era negado o direito à palavra e retirada, assim, qualquer possibilidade de defesa.
Queriam obrigá-lo a negar aquilo que ele nunca dissera - como, por exemplo, a ridícula acusação de declarar-se a quarta pessoa da Santíssima Trindade, de não acreditar em Deus etc.
Julgavam-no por defender e pregar as doutrinas de Wyclif - inclusive aquelas que ele próprio rejeitava.
Podia-se supor que o concilio - que se mostrara mais conivente em relação aos ensinamentos de Jan Neti, muito mais perigosos e criminosos que a doutrina do filósofo inglês - castigava Huss nem tanto pela heresia, mas por sua coragem em desmascarar os vícios e desmandos do clero.
Huss apareceu diante do concilio por quatro vezes:
três vezes para o interrogatório e suposta defesa e a quarta vez para a condenação e a anulação de sua tonsura.
A segunda reunião aconteceu no dia 7 de julho, e a presença do imperador - que ameaçara expulsar da sala qualquer um que ousasse exceder-se - incutiu uma certa moderação aos presentes.
O pior inimigo do réu, Miguel de Causis, lia o acto de acusação e o cardeal de Camberra, que presidia a reunião, impôs a Huss um rigoroso interrogatório com o objectivo de estabelecer se ele era cristão ou não.
Depois, veio à luz uma das denúncias que provocavam mais ódio contra o sacerdote:
a de que ele seria o culpado pela saída dos alemães de Praga.
Essa acusação serviu de motivo para outras ainda mais ferozes e foi-lhe permitido se justificar em dois pontos.
Essa permissão e as palavras de Huss fizeram renascer a esperança de um final feliz, mas... a ilusão durou pouco tempo.
O terceiro interrogatório começou com a leitura de diversos trechos do livro de Huss De Eclésia e de outras obras que confirmavam as acusações de Paletch de que Huss negava o poder do Papa, no caso de este cometer um crime.
Perguntado sobre isso, o sacerdote respondeu calorosamente, declarando que o costume de dar o título de santíssimo a um papa indigno e criminoso era algo nefasto e protestando contra muitas das opiniões atribuídas a ele, que na verdade ele nunca expressara, e também contra as interpretações erradas e as críticas parciais de suas ideias.
Foi interrompido e a discussão foi abafada por diversas expressões ofensivas e maldosas indirectas de Paletch e de Causis.
A reunião ficou agitada e, por fim, Pedro de Alliaco exigiu que Huss se submetesse à decisão do concilio, que declarasse estar errado nas obras que haviam sido apresentadas no julgamento, que as negasse publicamente e que, a partir daquele dia, pregasse e escrevesse o oposto do que dizia até aquela data.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 07, 2016 7:32 pm

Apesar do perigo que pairava sobre sua cabeça, Huss permaneceu fiel às suas convicções.
Negando aos representantes da Igreja presentes no concilio o poder de obrigá-lo a acções que ele considerava vergonhosas, o corajoso lutador pela liberdade de consciência contra o autoritarismo da Igreja romana não percebia, por sua humildade natural, a grandeza de sua histórica missão e não tinha consciência de que, naquele momento, lutava pela liberdade do mundo ocidental do jugo opressor.
Ele simplesmente respondeu que estava pronto a obedecer ao concilio e abdicar das ideias que defendia se lhe provassem pelas Escrituras que elas eram falsas.
Também pediu aos seus juízes que não exigissem dele a renúncia de doutrinas que nunca pregara, pois sua consciência não lhe permitiria tais mentiras.
Os arcebispos de Florença e de Camberra tentaram em vão convencê-lo a submeter-se incondicionalmente.
- Ouça, Huss! - Disse o imperador, querendo atenuar o caso.
Por que você não renuncia a todas as ideias erradas sobre as quais você diz que as testemunhas lhe acusaram injustamente?
Eu próprio estaria pronto a renunciar a quaisquer enganos e jurar que não iria mais cometê-los.
Isso não quer dizer que eu os cometia antes!
- Meu rei! A palavra "renunciar" não tem esse significado.
Vendo que lhe propunham um jogo de palavras para, salvando-o, conservar a autoridade do concilio, ele permaneceu firme.
Seu caso estava claramente perdido, mas ele não queria salvar a vida renunciando às próprias convicções.
Até Estéfano Paletch amansou diante da firmeza de uma única pessoa contra toda a Igreja cristã.
Talvez por pena, talvez por dor de consciência pelo papel traiçoeiro que desempenhava, Paletch afirmou que achava importante declarar que, pessoalmente, nada tinha contra Huss e que somente o interesse pelo cristianismo o obrigava a exigir a sua condenação.
E os padres do concilio aparentemente acreditaram nessa declaração de imparcialidade de Estéfano, pois o elogiaram por sua continência e filantropia.
Mas se era possível admitir que Paletch - um sábio, conterrâneo e ex-amigo de Huss - envergonhara-se e lamentara o facto de ter de agir assim, a situação ficou risível quando Miguel de Causis aderiu à sua opinião.
Aquele filho de mineiro alemão, salafrário e mentiroso, inimigo mortal do pregador da capela de Belém, começou, de repente, a falar sobre a voz da consciência, o bem geral e a fé cristã.
Huss só respondeu:
- Deus os julgará.
Sigismundo encerrou a reunião com as seguintes palavras ao réu:
- Eu lhe prometi a minha protecção durante a viagem e na chegada aqui, para que você não sofresse a mínima ofensa e para que pudesse expor livremente suas opiniões e responder sobre suas crenças diante de todo o concilio.
Você próprio está vendo com que consciência e condescendência os cardeais e bispos cumpriram a minha promessa, pelo que lhes estou grato.115
Depois disso, o bispo lohann von-Vallenrod, incumbido de guardar o acusado, ordenou que o levassem e colocassem-no de volta na prisão.
No mesmo dia, na parte da tarde, o conde Hinek estava sentado perto de Rugena, que de manhã tivera outra vez um longo desmaio.
O conde, preocupado, nem fora ao concilio, mesmo sabendo que naquele dia Huss apareceria.
Depois de tomar o remédio, Rugena sentiu-se melhor e quis respirar um pouco de ar puro.
A jovem condessa foi levada ao jardim e colocada na sombra, enquanto Valdstein e Ana tentavam distraí-la conversando.
Naquela hora, informaram da chegada do senhor Jan de Khlum, que desejava vê-lo.
- Ele provavelmente veio contar o que aconteceu hoje no concilio. - Disse o conde, levantando-se.
Mas Rugena parou-o.
- Receba-o aqui, pai!
Também quero saber como vai o processo do nosso mestre Jan.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 07, 2016 7:32 pm

- Com prazer, minha filha. - Respondeu o conde e ordenou que conduzissem o visitante ao jardim.
Após alguns instantes, no fundo da alameda, apareceu o barão Jan acompanhado de seu secretário, Pedro de Mladenovitz.
O rosto afobado e o passo apressado do bravo cavaleiro indicavam que ele estava preocupado e aborrecido com algo.
Depois de cumprimentá-los, o conde imediatamente perguntou como fora o processo de Huss e essa pergunta provocou uma explosão de indignação no barão Jan.
- Chama aquilo de um processo?
Será que aquilo é a justiça que deve ser prestada a qualquer cristão, por pior criminoso que ele seja? - Exclamou Khlum.
Você próprio viu que os inimigos de Huss não permitem que ele abra a boca, impedindo-o que se justifique.
Mas o que aconteceu hoje foi muito pior!
Por mais que falassem de Sigismundo antes, eu nunca esperava dele tamanha baixeza.
Pediram ao barão que explicasse aquilo melhor e ele contou em detalhes todo o andamento da reunião.
- Os presentes já começavam a sair - acrescentou ele -, mas o imperador continuava sentado, e como eu queria conversar com ele em defesa de Huss, fiquei aguardando-o junto com Mladenovitz.
Juntaram-se a nós Jan de Dub e Kryjanov e nós nos afastamos até o parapeito da janela conversando justamente sobre a revoltante insistência do concilio em obrigar o homem, por todos os meios, a renunciar a algo que ele nunca expressara.
Naquele instante, Sigismundo, cercado por um grande grupo de cardeais, bispos e prelado, parou por perto.
Sem perceber a nossa presença, ele falou alto, sublinhando as palavras:
"Vocês ouviram as heresias que Huss confessou e foi apanhado?
Se ele não renunciar a elas, que seja queimado, ou então, ajam com ele com todo o rigor da lei.
Aliás, mesmo que ele renuncie, não acreditem nele.
Assim que voltar a Boémia e estiver entre seus partidários, ele recomeçará a pregar as mesmas mentiras e sua maldade será ainda pior.
Ele precisa ser totalmente proibido de pregar e os seus artigos condenados pelo concilio devem ser encaminhados ao meu irmão em Praga e para a Polónia, por todos os lugares onde Huss tem partidários e amigos.
Que todos aqueles que partilharem seus ensinamentos sejam rigorosamente perseguidos pelo bispo".
Depois, ele acrescentou:
"Eu logo vou deixar Constança.
Quero que vocês sejam rápidos neste caso e acabem logo com os alunos desse herege, principalmente com aquele que já está na cadeia... como é mesmo o nome dele?".
"Jerónimo", servilmente sugeriram algumas pessoas.
"Oh! Com esse nós não teremos nenhum problema", observou um dos bispos.
"Assim que resolvermos o caso com o seu mestre, acabaremos com Jerónimo rapidamente".
- Que baixeza! - Exclamou Rugena, indignada.
Não bastava esse inútil entregar pessoalmente a Huss um salvo-conduto que o levou a essa armadilha por acreditar na palavra imperial, agora ele ainda incita os seus carrascos, provavelmente temendo que eles sejam misericordiosos com o réu.
Isso é injusto! Deus o castigará!
- Seria bom se assim fosse, senhora Rugena!
Em todo caso, vou escrever sobre isso a todos os nossos amigos de Boémia e Morávia, para que todos saibam antes que tipo de confiança merece o nosso futuro rei, como ele defende os nossos interesses e como protege o homem que todos nós respeitamos! - Concluiu Jan de Khlum, com raiva.
Dessa vez, a vingança realmente esperava o rei traidor:
"As palavras pronunciadas num canto do refeitório dos minoritas descalços" - escreveu Palacky - "repercutiram rapidamente por toda a Boémia e lhe valeram, nem mais nem menos, a coroa checa".
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 07, 2016 7:33 pm

O estado de espírito dos amigos de Huss estava desolador; eles aguardavam a condenação a qualquer minuto.
O próprio preso supunha que havia chegado sua hora e, em comoventes cartas, que desvendavam a sua alma elevada, despedia-se dos amigos, alunos e ouvintes, sem esquecer de ninguém.
Os membros do concilio, aparentemente, vacilavam e pareciam procurar uma saída, torturando o paciente prisioneiro com propostas de diversas formas de renúncia, ou tentando convencê-lo a renunciar para salvar a própria vida.
Tentavam convencê-lo de que a responsabilidade pela renúncia recairia sobre o concilio, que era "sem pecado" e possuía o "inquestionável direito" de ditar suas convicções.
Um dos teólogos, num ímpeto de erudição, até lhe jogou a seguinte e surpreendente frase:
- Se o concilio estabelecer que você só tem um olho, e você tem dois, você será obrigado a acreditar nisso.
- Enquanto Deus deixar-me a inteligência, abster-me-ei de afirmar algo semelhante, mesmo que o mundo inteiro queira me obrigar a isso. - Respondeu Huss, inabalável.
Duas semanas depois do último interrogatório de Huss, Rugena estava sentada na poltrona junto à janela, sombria e pensativa; Ana, sentada à sua frente, lia um livro e observava disfarçadamente a amiga.
- Em que está pensando, Rugena?
Vejo pela expressão do seu rosto que em sua cabeça rondam tristes pensamentos e isso não é bom! - Observou ela, inclinando-se para a amiga.
Rugena estremeceu e endireitou-se.
- E difícil estar alegre quando se sente que está morrendo na minha idade... - Disse ela, tristemente.
E levantando a mão em protesto, continuou:
- Não me desminta, Ana!
Estou sentindo que uma doença me consome, que um veneno ronda pelas minhas veias e extrai as minhas forças.
Hoje estou com uma irresistível vontade de ver o padre Jan.
Abrir-lhe a minha alma e pedir emprestado um pouco da coragem dele, pois sinto que estou sendo dominada pelo medo e pelo desespero.
Ela parou e algumas pequenas lágrimas correram por suas faces.
Ana mal continha as lágrimas que a sufocavam.
- Acho que o seu desejo pode ser cumprido. - Respondeu ela, indecisa.
Sei que o barão Jan, Svetomir e outros amigos já o visitaram, graças aos carcereiros que são todos boas pessoas.
Mas precisamos conversar sobre isso com o conde.
Dois dias depois, Svetomir veio informar à amiga de infância que seu desejo de encontrar-se com Huss seria realizado naquela mesma noite e que ele e Broda iriam acompanhá-la.
Rugena resolveu levar Ana consigo - além de não ter segredos para com a fiel amiga, a jovem condessa sabia perfeitamente que Ana também ansiava ver, talvez pela última vez, o homem que adorava e que considerava um ser superior.

115 "Se não se tratasse de um assunto muito sério, não diríamos que o imperador zombava dos cardeais e, ao mesmo tempo, insultava a miséria de Jan Huss, escreveu o historiador francês do concilio de Constança - Nota do autor.
Obs.: - no original russo este texto está em francês.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 07, 2016 7:33 pm

Capítulo VII

Na escura e húmida prisão do mosteiro franciscano, que estava destinado a abandonar somente na hora de ir para a morte, Huss lia o Evangelho, sob a fraca luz da lamparina a óleo - um luxo que o prisioneiro agradecia aos amigos.
Estava muito magro; seu rosto encovado pela doença, pelas privações e pelos sofrimentos físicos e morais parecia de cera.
Entretanto, nos grandes, tristes e sonhadores olhos ardia o mesmo orgulhoso e inquebrantável espírito.
Ele não estava acorrentado à sua cama, como em Gottliben, mas tinha correntes nas mãos e nos pés.
Finalmente, fechou o livro e, debruçando-se sobre a mesa, ficou pensativo.
Naquele dia, ele passara terríveis momentos, e muitos sentimentos que considerava vencidos e extintos haviam despertado novamente e agora atormentavam sua alma.
Durante os longos meses daquela agonia moral, todo o seu ser transformara-se completamente - purificara-se e inspirara-se; as fraquezas terrenas deixavam-no aos poucos; todo desejo humano desaparecia na extasiada fé em Deus, a Quem ele entregava sua vida e seu destino.
Alguns dias antes, os bispos haviam-lhe perguntado se desejava confessar-se e ele aceitara com alegria a proposta.
Com a humildade e a bondade de verdadeiro cristão que o destacaram mesmo entre as gloriosas multidões de mártires de ideias, ele escolhera Estéfano Paletch para seu confessor.
- É o meu pior inimigo. - Dissera Huss.
Quero confessar-me com ele.
Até Paletch ficara comovido com a grandeza da alma de sua vítima.
Inicialmente, ele rejeitara a pesada incumbência de perdoar os pecados do homem a quem ele próprio causava tanto mal.
Depois, vencido talvez pela dor de consciência, acabara indo visitar o ex-amigo na prisão com o objectivo de convencê-lo a renunciar.
O encontro fora comovente.
Huss pedira ao seu algoz que o perdoasse se diante do concilio escapara-lhe alguma palavra ofensiva; mas, aos argumentos de Paletch, respondera:
- O que faria você se o obrigassem a renunciar a heresias que você nunca pregou?
- Isso realmente seria difícil. - Respondera Paletch e caíra em prantos.
- Como pôde você dizer que não creio em Deus - continuara Huss - e que desde o nascimento de Cristo não houve um herege mais perigoso do que eu?
Paletch tentara negar isso e, numa nova investida, implorara-lhe para que renunciasse a suas convicções.
Huss negara-se terminantemente e acrescentara:
- Porque você me fez tanto mal?
Paletch fora embora, chorando.
O prisioneiro ainda estava impressionado com aquela visita quando, depois do meio-dia, aparecera Miguel de Causis para ofendê-lo e, com maldosa alegria, informá-lo do próximo martírio.
A amargura da desilusão com as pessoas, a amizade enganosa, a insatisfação com o imperador que, em vez da prometida protecção, incitara traiçoeiramente os juízes contra ele e a indignação pela injusta crueldade para com a sua pessoa - tudo isso abalara a resistente alma de Huss.
Dentro dele tudo doía e tremia.
Lamentava profundamente deixar a causa não levada a efeito, o fiel rebanho e a capela de Belém.
Seu corpo estremecia diante do horror dos sofrimentos que o aguardavam...
Eram momentos de luta do espírito perturbado e da fraqueza humana, que frequentemente visitam os eleitos de Deus.
Huss procurava em vão no Evangelho o apoio, a força e a tranquilidade que estava acostumado a extrair de lá.
Tentou rezar, mas o ímpeto de extasiada renúncia à Terra e seus amargores não vinha.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 07, 2016 7:33 pm

O barulho do trinco da porta da cela se abrindo interrompeu seus pensamentos.
"Deve ser algum dos amigos vindo visitar-me, e o carcereiro vem me avisar", - pensou Huss.
Para sua surpresa, viu entrarem duas mulheres envoltas em capas.
Uma delas segurava a outra que, visivelmente, não conseguia se sustentar em pé, e que depois caiu de joelhos diante de Huss e, com a mão trémula, levantou o véu.
- Rugena! - Escapou-lhe a exclamação de surpresa, na qual se percebiam alegria e tristeza.
Minhas caras crianças!
Como lhes agradecer por não se terem esquecido deste pobre prisioneiro e por me alegrarem com este encontro?
Nem tenho onde acomodá-las nesta pobre cela!
- Para Rugena, que está doente, tem um lugar ao seu lado, padre Jan; quanto a mim, deixe-me ficar aos seus pés, onde me sentirei melhor do que em qualquer outro lugar... - Disse Ana, levantando a amiga e ajudando-a a sentar-se.
A emoção enfraquecera tanto Rugena, que Huss teve que vir em seu auxílio e segurá-la.
Ela estremeceu ouvindo o tilintar de suas correntes.
- O senhor está acorrentado, padre Jan?
Mas que monstros!
Como eles podem tratar assim a um santo e ao mais justo dos homens?
Huss balançou a cabeça com desaprovação.
- Não fale assim, minha filha, e não compare um grande pecador como eu com os eleitos de Deus!
- Mas como?
Que pecados o senhor tem e quando os cometeu? - Retrucou Rugena.
Huss sorriu tristemente.
- Todos os pecados humanos, minha filha!
Na juventude, eu adorava a sociedade, trajes, jogos de xadrez, vanglorias sobre sucessos nas ciências, e tinha tendência para a irritação.
Oh! A lista de meus enganos é muito longa e a provação que Deus me enviou é inteiramente merecida!
- Mas o senhor já pagou tudo isso com seus sofrimentos!
Ana, Svetomir e eu estamos planeando sua fuga, senão seus inimigos o matarão.
Huss balançou a cabeça negativamente.
- Agradeço a dedicação, meus filhos.
Saibam que mesmo que as portas da prisão estivessem abertas - mesmo assim, eu não sairia enquanto não me justificasse diante de todos.
Nunca vou trair a verdade para salvar o meu desprezível corpo e não darei aos meus irmãos um mau exemplo fugindo diante do perigo.
O que faria depois com a minha vida manchada, desonrada e inútil?
- Mas eles irão entregá-lo a uma horrível morte!
Todos o traem e perseguem! - Não aguentou Ana, com lágrimas nos olhos.
- Sei que o imperador me condenou antes mesmo dos meus juízes!
Mas, se a minha morte puder servir de exemplo aos irmãos, sacrifico-me de boa vontade.
- Oh! Por que não existe a verdade no mundo? - Gemeu Rugena.
- Será que, alguma vez, a calúnia e a mentira foram perseguidas?
Que importância tem a minha morte se Jesus morreu na cruz?
E quanto consolo me concede a misericórdia divina!
Deus me apoia, envia-me amigos que não se envergonham de nada - como, por exemplo, o senhor Jan de Khlum, que veio aqui apertar a mão do infeliz herege, abandonado e desprezado por todos.
Hoje chegaram vocês...
Ele parou, percebendo que Rugena empalidecera e, sem torças, encostara a cabeça no seu ombro.
Desde o primeiro olhar para a condessa Huss ficara impressionado com a terrível mudança que nela ocorrera - sua palidez mortal, o brilho febril dos olhos e aquele ar inexplicável de pessoa envolta pelo sopro da morte.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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