Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 07, 2016 7:33 pm

Naquele instante, com os olhos fechados e a boca semi-aberta, Rugena parecia morta - mas estava linda como sempre, de uma beleza etérea e não terrena.
- O malfeitor Brancassis a envenenou e agora nenhum remédio consegue ajudá-la... - Sussurrou apressadamente Ana, molhando a testa e as têmporas de Rugena com água da caneca.
A condessa logo abriu os olhos e, encontrando o olhar de Huss, que reflectia claramente preocupação e pena, caiu em prantos.
- Padre Jan! - Exclamou ela, agarrando com ambas as mãos a mão de Huss.
O senhor também percebeu que a minha morte está próxima?
Sinto que ela já pôs a sua mão gélida sobre mim e tenho medo, tenho muito medo de morrer!
Eu quero viver!
O pranto abafou suas palavras.
A comiseração tomou conta do coração de Huss.
- Não deve entregar-se a pensamentos negativos e achar que a sua fraqueza passageira é um prenuncio da morte, minha filha! - Disse ele, compadecido, inclinando-se para ela.
A juventude possui uma inesgotável reserva de forças e acredito firmemente que você irá se curar.
Além disso, não se deve considerar a morte como um algoz.
Ela é um bom génio que vem do céu para saciar os sofrimentos e levar as nossas almas de volta à sua pátria celestial.
A morte é terrível somente aos pecadores cuja alma, comprometida pelos tropeços, aparecerá envergonhada e nua diante do Tribunal Divino.
A esses, os portões do paraíso estarão fechados enquanto não pagarem sua culpa com terríveis sofrimentos!
Você é jovem, inocente, pura e acredita em Deus; então, não tem que temer o outro mundo onde na porta a estará aguardando seu querido pai.
Reze somente com vontade e fé e o Senhor fará tudo para seu bem e sua felicidade.
Nesse instante, a porta entreabriu e ouviu-se a voz do carcereiro:
- O tempo passou, caras senhoras!
- Agora mesmo, bom Roberto, elas já irão sair. - Respondeu Huss, levantando-se.
Virando-se para Ana, ele colocou a mão sobre sua cabeça.
- Adeus, minha filha!
Agradeço a sua dedicação, que me serve de doce consolo.
Seja firme na vida e permaneça a amada irmã de Rugena.
Ele inclinou-se para ela, abençoou-a e beijou-a na testa.
Depois, virou-se para a condessa, que o olhava com lágrimas nos olhos.
A amargura da despedida para todo o sempre pesava no coração de Rugena.
O pensamento de que estava vendo pela última vez o olhar límpido e bondoso de Huss e de que nunca mais ouviria a voz do amigo tão querido - que desde a infância a apoiara e aconselhara nos momentos difíceis da vida - era insuportável para a jovem condessa.
Era como se perdesse novamente um pai.
Ela caiu em pranto convulsivo e, abraçando Huss, encostou a cabecinha de cabelos dourados em seu ombro.
O coração de Huss bateu forte.
Ele também sofria com a despedida da única mulher que lhe inspirara um sentimento que, mesmo puro e desinteressado, o lembrava de que ele era um ser humano.
Naquele instante, a Natureza, que controla os mundos e os seres, despertou dentro dele e suas pálidas faces cobriram-se com um leve rubor.
O olhar de Huss descansava com amor em Rugena.
Depois, num ímpeto, ele abraçou-a e, levantando a sua cabecinha, olhou-a longa e pensativamente, como se quisesse gravar seus traços para sempre na memória.
A vontade férrea já vencera a momentânea fraqueza.
Ele encostou os lábios trémulos na testa de Rugena, recuou um passo para trás e levantou a mão como se a benzesse.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 07, 2016 7:34 pm

- Agora, vão, minhas filhas!
Deus as abençoará, apoiará e aconselhará.
A pálida Ana, também mal se sustentando em pé, pegou Rugena pela mão e levou-a para fora da cela.
Svetomir, preocupado com a longa demora de ambas, encontrou-as no corredor - e bem na hora, pois a condessa desmaiou e ele quase não teve tempo de segurá-la.
Quando a liteira tomou o caminho de volta, Ana inclinou-se para Rugena, que estava deitada, inerte.
- Felizarda! - Murmurou ela, com lábios trémulos.
O Criador a fez para ser amada por todos; até no coração dele você ocupou o primeiro lugar.
Ficando só, Huss sentou-se no banco e tapou o rosto com as mãos; a emoção experimentada estava ainda viva dentro dele.
- Homo sum. - Murmurou ele, numa mescla de tristeza e de enlevo.
- Seria essa a última provação em vida - perguntava-se ele, involuntariamente - ou uma dádiva de Deus, que lhe enviara aquela mulher moribunda, colhida pela mão criminosa no auge de sua juventude e de sua beleza?
A dedicação que Rugena e Ana haviam demonstrado indo vê-lo na prisão era realmente uma dádiva celestial.
A consciência de que tantos corações sofriam por ele servia-lhe de consolo.
Deus, sem dúvida, perdoaria seus sentimentos por Rugena, desprovidos de qualquer sombra de egoísmo e envoltos em preocupações pelo bem-estar dela.
Aos poucos, a calma retornava à sua sofrida alma; parecia-lhe que tinha sido cortada a última ligação com a Terra e que ele se livrava da carne e elevava-se nas iluminadas regiões do mundo do além.
De repente, lembrou-se da maravilhosa visão que tivera na véspera do casamento de Rugena e cujo sentido tornava-se agora absolutamente claro.
A furiosa multidão que fervilhava no abismo, arremessando-lhe pedras e lama, eram os seus inimigos reunidos no concilio; a nuvem flamejante que o elevara era a chama da fogueira que talvez já no dia seguinte consumiria seu corpo.
Sim, agora tudo estava claro:
ele deveria marcar com o próprio sangue a verdade que pregava.
Restava-lhe somente pedir a Deus que o ajudasse nos sofrimentos que viriam.
Então, ajoelhou-se e concentrou-se em fervorosa prece, que imperceptivelmente transformou-se em êxtase.
Num impulso beatífico, sua alma elevou-se sobre a crosta terrestre e voou para as longínquas regiões onde reina eternamente a harmonia e onde as almas mergulham na própria fonte da inesgotável misericórdia divina.
Mas o corajoso voo em direcção ao Pai Celestial esgota o espírito humano enquanto sobre ele pesa o rude invólucro carnal e ele acaba caindo de uma altura acima das estrelas, debilitado pela tensão.
Ao retornar ao mundo terreno, Huss sentiu ir-se apagando a luminosa claridade do outro mundo e à sua volta foram reaparecendo as paredes da prisão, restando somente a paz que o envolvera.
Suspirando profundamente, ele endireitou-se e, tacteando - pois a lâmpada já tinha apagado nesse ínterim -, arrastou-se até o seu catre.
Repentinamente, sua atenção foi atraída por um leve crepitar e, surpreso, percebeu a alguns passos à sua frente uma nuvem esbranquiçada, crepitando em faíscas, que formava um redemoinho, aumentava e se espalhava, iluminando a cela com uma brilhante e azulada luz, preenchendo o ambiente com um sopro delicado e fresco.
Sobre aquele fundo iluminado surgiu gradativamente a figura alta de um homem em trajes clericais bizantinos trazendo nas mãos uma cruz e um Evangelho.
O rosto da aparição era solene e severo, mas seus olhos olhavam com brandura e amor.
Toda a imagem era consistente e viva.
Esquecendo que o estranho poderia ser somente um visitante do outro mundo, Huss sussurrou:
- Quem é você, respeitável ancião?
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 07, 2016 7:34 pm

Uma voz profunda, como se vinda de longe, ecoou:
- Sou aquele que primeiro trouxe a luz divina do Evangelho à sua pátria e cujos restos descansam em Velegrad.
Cada filho desta terra - que é minha filha espiritual - está em meu coração.
A você, que está morrendo pela verdade e pela palavra de Deus, vim dizer:
seja firme e não tema nem as desgraças terrenas nem os sofrimentos corporais.
A passagem para a nova vida é dolorosa, mas curta; em compensação, o prémio é doce.
Minha presença e minha prece irão ajudá-lo.
A visão começou a rarear e derreter, desaparecendo finalmente.
Huss, entretanto, não viu como se apagou a luz e, em volta, restabeleceu-se a escuridão - ele orava com o rosto no chão, agradecendo a Deus e ao apóstolo de sua nação pela revelação recebida.
Em sua alma não havia mais confusão nem medo; ele sentia-se animado e armado de coragem para a grande e última provação...
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 07, 2016 7:34 pm

Capítulo VIII

No dia 6 de julho, um sábado, o povo se aglomerava desde a manhã em volta do templo de Constança.
Ali, ocorreria uma solenidade por certo notável e que por isso reunia grande massa de curiosos - seria proferida a sentença de Huss.
A espera justificou-se.
Bispos e até simples prelados chegavam em luxuosos trajes; atrás deles, seguiam cardeais vestindo púrpura e montando cavalos ricamente enfeitados, cercados de cavaleiros, pajens e corte clerical.
Seguiam-se depois representantes de diversos povos, príncipes, duques e outras personalidades.
Por fim, chegou Sigismundo, acompanhado por altos funcionários do Império.
O interior do templo tinha uma aparência solene.
Sobre o trono elevado e portando a manta imperial, sentava Sigismundo.
À sua volta estavam em pé:
o "curfiurista" Ludovico da Bavária - com a derjava116 na mão; o prefeito de Nuremberga, Frederico - com o cero; o duque Henrique da Bavária - com a coroa; e um magnata húngaro - com a espada.
A multidão de prelados, nobres e cavaleiros em roupagens pomposas e multicoloridas formava uma moldura brilhante e colorida em volta do trono.
No centro do templo fora construído um palanque de madeira.
Em cima dele, num poste, havia uma vestimenta sacerdotal completa.
Durante a missa, os guardas trouxeram Huss, mas o mantiveram perto da entrada, para que a presença do "torpe" herege não contaminasse o sagrado ofício, ao fim do qual o bispo de Lodi subiu ao púlpito.
Somente então fizeram o prisioneiro entrar e colocaram-no perto do palanque.
Huss caiu de joelhos e rezou em silêncio durante o sermão que versava sobre as palavras do apóstolo Paulo "que se elimine o corpo pecaminoso" e que se destacava pela extraordinária crueldade.
O orador convocava o imperador a terminar a sua missão e eliminar, sem piedade, a heresia e os hereges.
Depois desse discurso "puramente cristão", o bispo recitou a decisão do concilio convocado e inspirado pelo Espírito Santo - que obrigava a todos os presentes, sob pena de maldição e prisão, a não interromper o silêncio com quaisquer expressões de sentimentos, palavras, aplausos, ou qualquer outro movimento corporal.
Em seguida, levantou-se Henrique Piron, o síndico do concilio, e exigiu, em nome deste, a condenação de Huss e seus ensinamentos.
O infeliz acusado foi então conduzido para cima do palanque e colocado à vista de todos.
Começou a leitura do acto de acusação, contendo os artigos criminosos de Wyclif ou outros, extraídos das obras de Huss, assim como os depoimentos de testemunhas, sem esquecer a acusação imbecil de que Huss dizia-se a quarta pessoa da Santíssima Trindade.
Ao ouvir aquela mistura de mentiras, ideias deturpadas e calúnias que transpiravam ódio, o infeliz ficou desesperado, quis protestar, justificar-se.
Mas o cardeal Zabarella interrompeu-o e ordenou-lhe severamente que se calasse.
Huss, então, ajoelhou-se e começou a orar em voz alta pelos inimigos, entregando o seu destino ao Juiz Celestial, o que provocou nos presentes somente riso e zombaria.
Quando finalmente chegou ao fim a longa lista de acusações, os bispos, designados para realizar a cerimónia de retirar a tonsura de Huss, propuseram-lhe renunciar aos seus ensinamentos.
Ele respondeu humildemente, mas com firmeza, que estaria sempre pronto a renunciar a enganos desde que estes fossem provados pelas Escrituras e que, por se considerar inocente de heresias, comparecera ao concilio acreditando estar protegido pela promessa do imperador de defendê-lo.
Naquele instante, seu olhar dirigiu-se com repreensão a Sigismundo e a tradição conta que o imperador baixou os olhos e corou de vergonha.
Entretanto, alguns historiadores alemães acham que essa tradição é uma invenção e nós concordamos com essa opinião.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 07, 2016 7:34 pm

Sigismundo não era homem de corar diante de traição, ainda mais em relação a um simples e pobre sacerdote que ousara dizer:
"Se o rei cometeu um pecado mortal, então diante de Deus ele não é um verdadeiro governante".
Do que Sigismundo era capaz mostra a opinião geral de seus contemporâneos sobre ele ter envenenado seu irmão Jan Herlitsky.
Em todo caso, se ele teve dor de consciência, esta não foi suficiente para despertar nele o sentimento de justiça e humanitarismo.
Permaneceu sentado em silêncio durante a leitura da sentença injusta e vergonhosa que condenava Huss à perda da tonsura e à fogueira.
A triste cerimónia começou imediatamente.
Os bispos vestiram os paramentos clericais em Huss e puseram em suas mãos um cálice como se ele fosse rezar uma missa; em seguida, pela última vez, mandaram-no renunciar.
O infeliz, com lágrimas nos olhos, respondeu que a sua consciência não lhe permitia postar-se como mentiroso diante do altar de Deus.
Depois disso, o cálice foi arrancado de suas mãos e retiraram-lhe os paramentos clericais, pronunciando exorcismos.
Finalmente, iniciaram a tonsura e discutiram entre si se deviam cortar seus cabelos com navalha ou tesoura.
Huss, mais uma vez, dirigiu-se ao imperador:
- Acalme-os, Alteza - disse ele, sorrindo -, pois não conseguem se decidir como concluir a minha vexação!
Por fim, decidiram utilizar a tesoura.
Depois disso, colocaram sobre a cabeça de Huss uma carapuça de papel que tinha demónios pintados e na qual estava escrito, em letras garrafais: Haeresiarcha (heresiarca).
- O Senhor usou por mim uma coroa de espinhos e, por amor a Ele, ficarei feliz em usar este chapéu vexatório. - Respondeu Huss, humildemente, àquele escárnio.
A cerimónia foi concluída com as palavras do arcebispo de Milão:
- A partir de agora, a Igreja nada tem em comum com você:
ela entrega seu corpo ao poder mundano e sua alma - ao diabo!
Conforme o zertsalo117 da Suábia, os hereges deveriam ser entregues às autoridades civis e por isso os bispos dirigiram-se ao imperador.
- O santo concilio de Constança entrega ao poder civil Jan Huss "detonsurado" e expulso da Igreja.
O imperador transmitiu-o a Ludovico, o "curfiursta" da Bavária.
- Caro duque!
Pegue este homem e, em meu nome, execute-o conforme deve ser feito com os hereges.
Ludovico, por sua vez, entregou-o aos carrascos:
- Peguem Jan Huss, que - por decisão do nosso todo-misericordioso governante rei de Roma e por minha ordem - deve ser queimado.
Com as mãos amarradas, cercado por quatro guardas, sob uma escolta de 800 homens armados e acompanhado por enorme multidão, Huss dirigiu-se ao local da execução.
Seu rosto magro estava pálido mas tranquilo e os olhos cheios de fé estavam voltados para o céu.
Ele continuou a orar em voz alta e o povo, comovido pela força de seu espírito e por sua beatitude, expressava-lhe abertamente a sua solidariedade:
- Não conhecemos a sua culpa, mas ele reza como um verdadeiro justo.
Quando Huss passava perto do palácio do bispo e viu no quintal uma fogueira acesa que queimava suas obras, somente sorriu:
ele sabia que o fogo não iria eliminar as verdades anunciadas por ele.
O local de execução foi escolhido no campo entre o arrabalde e os jardins do castelo de Gottliben.
Ao ver a fogueira montada, Huss hesitou.
Será que o corpo impotente tremeu antecipando o sofrimento e a destruição?
Entretanto, a hesitação durou um único instante:
o corajoso espírito do mártir venceu novamente.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 07, 2016 7:34 pm

Ajoelhando-se, ele elevou as mãos amarradas aos céus e disse, com fervor:
- Senhor Jesus, meu Mestre Divino!
Por Seu Evangelho, pela verdade que preguei, aceito com alegria e documente este sofrimento.
Não me deixe nesta grande hora e me ajude até o fim.
Entre os espectadores que presenciavam na igreja a condenação de Huss estavam Ana e Svetomir.
Este, sabendo de antemão o que estava sendo preparado para aquele dia, informara tudo a Ana e ambos haviam decidido ir à igreja.
Eles nada tinham dito a Rugena.
A jovem condessa estava passando muito mal e os amigos resolveram ocultar-lhe inclusive que o destino de seu confessor já estava inexoravelmente decidido.
Svetomir observava com raiva e indignação todos os detalhes da ignóbil paródia de julgamento desempenhada diante deles e que fora coroada por uma condenação injusta.
Absorto pelo que acontecia diante de seus olhos, ele momentaneamente se esqueceu de sua acompanhante.
Quando, de repente, olhou para Ana, estremeceu diante da ameaçadora e até terrível aparência da moça.
Todo o sangue parecia ter abandonado o rosto de Ana, que estava branco como uma máscara de cera; somente os olhos pareciam vivos e neles reflectiam-se alternadamente um indescritível desespero e uma explosão de ódio e desprezo quando seu olhar se dirigia ao clero, que discutia a questão da tonsura do condenado.
Naquele instante, Ana estava incrivelmente parecida com seu irmão Jan Zizka:
a mesma severidade no olhar e a mesma fria crueldade na expressão da boca.
Apesar de sua terrível emoção, ela não despejou uma única lágrima.
Quando Huss, entregue aos carrascos, foi levado para fora do templo, ela disse surdamente a Svetomir:
- Vamos atrás dele até o fim.
- Não é melhor voltar para casa, Ana?
A visão da execução será demasiadamente terrível para você. - Disse ele, compadecido, inclinando-se para ela.
- Se ele deve suportá-la, então eu também posso pelo menos vê-la e rezar a Deus pelo inocente sofredor. - Respondeu ela, firmemente.
Svetomir não discutiu mais e, pegando-a pela mão, misturou-se na multidão que acompanhava o condenado.
As ondas de massa humana rolavam lentamente e com frequentes paradas pelas sinuosas ruas da cidade e, ao chegar ao local da execução, espalhavam-se num largo círculo em volta da fogueira.
Svetomir e Ana tentavam energicamente passar para a frente e as fechadas fileiras da multidão abriam-se quase com medo supersticioso diante daquela mulher trajando pesado luto, com um olhar de brilho sombrio.
Enquanto eles tentavam alcançar as primeiras fileiras, um monge entrou a cavalo no meio da multidão e começou a abrir caminho sem nenhuma cerimónia.
Svetomir aproveitou e seguiu atrás do cavaleiro que abria uma brecha na multidão.
Desse modo eles saíram bem na frente, perto de Huss, que, naquele instante, pensava na última confissão que o povo propunha ao condenado e à qual se opunha um sacerdote de capa verde e brilhante, que gritava:
- Um herege não pode se confessar nem confessar ninguém.
Um outro sacerdote gritava com o mesmo entusiasmo que se Huss desejava confessar-se então devia antes renunciar à heresia.
A voz tranquila e clara do condenado soou em resposta:
- Sou inocente de qualquer pecado mortal!
E, no momento em que me preparo para aparecer diante do Senhor, não irei pagar meus pecados com um falso juramento.
Não prestando mais atenção aos sacerdotes, Huss pediu permissão para se despedir de seus carcereiros; recebendo a autorização, abraçou-os e beijou-os, agradecendo tanta bondade para com ele.
Depois, quis falar algumas palavras ao povo, mas Palatin opôs-se a isso e ordenou que apressassem a execução.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 07, 2016 7:35 pm

- Senhor Jesus, receba o meu espírito em Suas mãos e perdoe a todos os meus inimigos! - Orava Huss, elevando os olhos para o céu.
A carapuça de papel caiu no chão e um dos soldados vestiu-a nele novamente, exclamando:
- Que ela queime junto com os demónios aos quais você serviu tão bem!
O olhar de Huss, que passava tristemente pelas fileiras da multidão à sua volta, parou de repente em Svetomir e Ana e um sorriso de alegria apareceu em sua face; ele inclinou-lhes a cabeça em sinal de despedida e voltou-se, pois o carrasco e seus ajudantes começaram a arrancar suas roupas.
Prenderam suas mãos nas costas com corda molhada, amarraram-no ao poste e passaram uma corrente untada com fuligem em volta de seu pescoço.
Depois, começaram a colocar à sua volta, lenha untada com piche entremeada por tufos de feno.
Durante essa preparação lúgubre ele permaneceu calmo; talvez nunca antes o seu espírito heróico esteve tão firme e ao mesmo tempo dócil e cheio de fé.
Evitando olhar para a cruel multidão que exigia que ele fosse colocado de frente para o ocidente - pois, conforme diziam, um herege não pode olhar para o oriente -, Huss olhou para o céu e o seu olhar, de repente, acendeu-se de radiante felicidade.
Por cima da fogueira ele viu a grandiosa imagem do primeiro mestre da Boémia; seus profundos e severos olhos olhavam o mártir com amor e, com a cruz que segurava na mão, ele apontava para o céu.
Absorto pela visão, Huss não percebia que havia sido rodeado pela lenha até o pescoço.
De repente, a voz de alguém arrancou-o do esquecimento.
Era o grande marechal do Império, conde Pappenheim, que chegara, em nome de Sigismundo, tentando pela última vez convencê-lo a renunciar para salvar a vida.
- Para que o senhor vem constranger a grande paz da minha alma?
A nada tenho que renunciar, pois nunca professei nem ensinei as heresias de que me acusaram mentirosamente.
Ficarei feliz em marcar com o próprio sangue as verdades evangélicas que ensinei oralmente e por escrito. - Respondeu Huss, com brandura mas firmemente.
Ana acompanhava a execução com os olhos bem abertos e o corpo inteiro tremendo; quando o fogo começou a crepitar, ela balançou e fechou os olhos.
Svetomir, imaginando que ela iria desmaiar, abraçou-a para que não caísse.
Ana, entretanto, já estava refeita e, com o olhar brilhando febrilmente, olhava para a fogueira quando, naquele instante, ouviu-se das chamas uma voz sonora cantando uma oração.
Aquele canto, em meio ao horrível sofrimento, anunciando a vitória do espírito sobre a carne, agiu de forma deprimente sobre a multidão, que estancou, muda de surpresa.
Os olhares de todos estavam fixos sobre a coluna de fumaça e fogo de onde não se ouviam nem gemidos, nem lamentos, nem gritos.
Somente a melódica invocação ao Pai celestial.118
De repente, a voz do mártir calou-se - a fumaça soprou sobre o seu rosto.
Durante um certo tempo dava para ver que seus lábios se mexiam, em seguida a cabeça pendeu sem vida.
Ana caiu de joelhos e tapou o rosto com as mãos.
- Vamos embora, está tudo acabado. - Sussurrou Svetomir, tentando levantá-la.
Ana, imediatamente, levantou-se sozinha em silêncio e, de cabeça baixa, seguiu seu acompanhante; pelo rosto másculo de Svetomir caíam lágrimas.
- Um sopro de vento salvador pôs um fim aos seus sofrimentos. - Disse ele, com voz surda e emocionada quando eles saíram da multidão.
Ana parou e apertou firmemente a sua mão.
- Sim, aquele sopro de vento nesta calmaria foi um verdadeiro milagre... - Sussurrou ela, com lábios trémulos.
Um enviado celestial veio para resgatar a alma da vítima dessa revoltante mentira.
No momento em que Huss cantava, eu vi acima da fogueira um solene ancião com uma cruz na mão e um anjo de luz; e foi esse anjo que, com o agitar de suas poderosas asas, jogou fumaça sobre o rosto do bem-aventurado mártir e depois recebeu a sua alma.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 07, 2016 7:35 pm

Svetomir estremeceu e persignou-se, não duvidando nem por um instante da veracidade da visão de sua companheira.
Tendo ficado sozinha em casa, pois o conde Hinek estava ausente, Rugena repentinamente foi tomada por uma grande ansiedade e não conseguia se acalmar.
A fiel litka tentava sem sucesso distraí-la; dizia que logo chegaria o conde Vok, convidava-a para descer ao jardim ou ir dormir, mas nada funcionava.
Nem no jardim, nem na cama, a condessa encontrava paz.
Quanto à chegada do marido, ela respondia, com impaciência, que Vok demoraria a chegar e que, em sua última carta, ele queixara-se de não conseguir receber a dispensa.
Por fim, Rugena sentou-se junto à janela aberta e cochilou; sentada a seus pés, litka olhava o rosto pálido e emagrecido de sua pupila e engolia as lágrimas.
De repente, Rugena endireitou-se e olhou fixamente para o nada, como se visse diante de si algo terrível.
Seus lábios entreabriram-se e os braços esticaram-se como se implorassem por algo.
A velha aia olhou-a com horror.
- Fogo! Fogo!
E no meio das chamas arde o padre Jan! - Pronunciou a condessa, com a voz embargada, levando uma mão ao peito.
- Você está delirando, minha querida!
Não há nada no jardim! - Disse litka, com voz trémula.
- É ele! Vejo que ele está queimando, amarrado ao poste... - Sussurrou Rugena, caindo sobre o espaldar da poltrona e desmaiando.
Naquele instante, alguns cavaleiros com capas empoeiradas e cavalos fatigados e cobertos de espuma pararam diante da casa.
Era Vok que chegava com o seu séquito.
Apeando do cavalo, ele começou a bater com impaciência no portão da casa, mas teve de esperar muito para que abrissem, pois quase toda a criadagem da casa tinha ido assistir à execução.
Irritado, o jovem conde continuou a bater incessantemente no portão até que este finalmente foi aberto por uma velha criada que balbuciava desculpas das quais ele somente entendeu que seu pai não se encontrava em casa.
Ordenando que o seu séquito fosse alojado e alimentado, ele mandou que o conduzissem aos aposentos da esposa.
Rugena estava desmaiada na poltrona e litka massageava suas mãos e seu rosto com ervas aromáticas.
Naquele instante a porta se abriu, Vok entrou e parou como uma estátua.
Olhou para a esposa com mudo horror, depois correu para ela, caiu de joelhos e apertou junto ao seu peito o frágil e imóvel corpo, cobrindo de beijos seu rosto e suas mãos.
- Ela morreu! Morreu!
Cheguei tarde demais! - Murmurava ele, com lágrimas na voz.
- Mas não, meu bom senhor, ela somente perdeu os sentidos!
E agora que o senhor chegou, com a graça de Deus, tudo irá melhorar! - Exclamou litka, beijando a mão de Vok, com lágrimas de felicidade nos olhos.
Ela contou-lhe que o desmaio fora provocado por uma horrível visão e Vok sentiu como se um enorme peso caísse de seus ombros.
Todavia, a terrível mudança na aparência da esposa deixou-o muito preocupado.
Quando Rugena abriu os olhos e reconheceu o marido inclinado sobre ela, sorriu e ficou ruborizada.
Percebendo as lágrimas nos olhos e a tristeza no rosto do alegre e pândego Vok, ela abraçou seu pescoço e encostou a cabeça em seu peito.
- Você está chorando a nossa próxima despedida? - Sussurrou ela.
Então você me ama e tem pena de mim?
- Se eu a amo? - Retrucou Vok, abraçando a esposa apaixonadamente.
Não me fale de separação!
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 07, 2016 7:35 pm

Você vai sarar, pois eu desejo isso! - E, dominando a própria emoção, começou a falar de outra coisa.
Esse dia, entretanto, ainda guardava muitas notícias ruins para o jovem conde.
Seu pai, Svetomir e Ana retornaram e contaram-lhe os detalhes do ignóbil julgamento de Huss e de sua terrível morte.
Vok lamentou profundamente a própria chegada tardia que o privara da possibilidade de ver pela última vez o amigo que tanto respeitava.
À noite, quando Rugena foi dormir, os condes e Svetomir reuniram-se no quarto de Hinek para discutir os acontecimentos do dia.
Broda, ao retornar mais tarde, contou-lhes alguns episódios que os indignaram profundamente.
Querendo guardar um pouco das cinzas do santo mártir, ele permanecera no local da execução e fora testemunha de um espectáculo repugnante.
Quando a lenha queimara e aparecera o corpo carbonizado do executado, os carrascos haviam derrubado o poste junto com o cadáver e começado a cortá-lo em pedaços.
Tinham quebrado o crânio e acendido uma nova fogueira para eliminar mais rapidamente os restos do infeliz.
O coração do mártir, que não fora atingido, os bárbaros inicialmente haviam chicoteado com varas, depois furado e assado.
Até as roupas de Huss haviam sido queimadas por ordem de Palatino; as cinzas, os carvões e tudo o que restara haviam sido jogados no rio Reno.
Vok, o velho conde, Svetomir e Broda decidiram ir, naquela mesma noite, até o local de execução e pegar de lá pelo menos um punhado da terra consagrada pelo sangue do mártir, para levá-lo a Boémia.
Eles conseguiram seu intento e puderam guardar aquela recordação tão cara para eles antes que os insaciáveis inimigos de Huss, zombando da sagrada memória do grande defensor da verdade, tivessem enterrado carniça naquele mesmo local.

116 Derjava: uma esfera encimada com uma cruz, simbolizando a nação- Nota do tradutor.
117 Zertsalo: nome arcaico de colectânea de obras morais, que ditava os costumes a serem seguidos em certas situações - Nota do tradutor.
118 Alguns historiadores afirmam que ele cantava um canto litúrgico, o Kyrie Eleison - Nota da editora.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 07, 2016 7:35 pm

Capítulo IX

Nos primeiros dias de sua chegada, Vok ficou envolvido em duas circunstâncias:
a primeira foi a partida do conde Hinek de Constança, motivada pelas notícias que ele próprio havia trazido e que exigiam a volta do velho Valdstein à pátria; a segunda circunstância foi a inesperada melhora na saúde de Rugena.
A forte vontade do marido pareceu tê-la preenchido com uma torrente de nova vida; ela recuperou as forças, as faces ficaram mais roscas e os olhos voltaram a brilhar.
Vok não cabia em si de felicidade; Ana e Svetomir também se animaram.
Somente doutor Benelli permanecia sombrio, observando a paciente com preocupação.
Nesses dias alegres e cheios de esperança, estabeleceu-se entre o casal uma afeição mais calorosa e completa.
Vok dedicou-se inteiramente à esposa, como se esquecesse a diversão e as tentações que abundavam em Constança.
Comovida e feliz com tal mudança, Rugena, vendo nos olhos do marido aquele amor profundo de entrega total pelo qual ansiara por todo o seu tempo de casada, não sabia como lhe expressar seu reconhecimento.
Mas uma nova recaída em seu estado de saúde outra vez levou todos ao desânimo.
Certo dia, durante uma alegre conversa, Rugena sofreu um desmaio que durou algumas horas e, a partir daí, sua saúde começou a piorar rapidamente.
Ela se desvanecia como cera e não havia mais esperanças - aproximava-se o fim.
Arrancado de seus sonhos de felicidade, Vok perdeu o controle e, por sua natureza impulsiva, ora ficava completamente desesperado e sombriamente apático, ora explodia em fúria enlouquecida.
Rugena sofria com tais mudanças que aguçavam ainda mais a amargura de despedir-se da vida.
Ela procurava apoio na fé e na prece e tentava carinhosamente dirigir a fogosa alma do marido para a fonte divina da qual a humanidade obtém paciência, humildade e esperança.
Setembro chegou.
Certo dia, de manhã, Rugena sentia-se melhor e quis respirar ar puro.
Vok levou-a ao jardim, onde logo chegou Svetomir, que passava diariamente algumas horas junto ao leito de sua amiga de infância, distraindo-a com as novidades da cidade.
Dessa vez, durante a conversa, ele observou ter ouvido comentários dando conta de que Jerónimo estava sofrendo muito na prisão e que até adoecera.
Vok olhou preocupado para a esposa, em cujo rosto apareceram preocupação e profunda pena.
- Deus queira que o infeliz morra antes que seus inimigos o submetam à mesma terrível execução do padre Jan. - Disse Rugena.
Se algum de vocês tiver a oportunidade de ver Jerónimo, transmita-lhe o meu último desculpe e a promessa de que rezarei para que o Senhor dirija-o e ajude-o na difícil provação. - Acrescentou ela, após um momento de silêncio.
Depois dessas palavras, Vok passou o dia inteiro preocupado e pensativo.
A emoção de Rugena, ao ser citado o nome de Jerónimo, despertara nele um ciúme passageiro que mudara rapidamente para um sentimento mais nobre e magnânimo.
Durante as horas difíceis, quando a torturante dor da próxima separação superava todos os outros sentimentos, Vok criticava-se amargamente pelas loucuras passadas e pelo tempo que perdera com mulheres decaídas.
Naquele dia, ele dizia para si mesmo, envergonhado, que se não tivesse sido tão devasso, se não tivesse abandonado Rugena e ofendido seu legítimo orgulho, a atracção infantil da esposa por Jerónimo nunca se teria transformado em amor.
À noite, a sós com Rugena no quarto, Vok sentou-se na poltrona à cabeceira da cama e, inclinando-se para ela, perguntou de repente:
- Você gostaria de ver Jerónimo uma última vez, se ele for condenado à morte?
Quanto à sua doença, estou absolutamente convencido de que você irá sarar.
E acho que você não deveria ter tais pensamentos ruins.
Ela olhou-o com surpresa e um sorriso triste iluminou seu rosto.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 08, 2016 7:31 pm

- Vamos esperar que eu esteja errada sobre a minha saúde, mas não quero ver Jerónimo, pois isso será muito difícil para você!
Agradeço a sua magnânima proposta, mas não desejo obscurecer a nossa felicidade que, receio, será demasiadamente curta.
Vendo os olhos do marido encherem-se de lágrimas e seus lábios tremerem, Rugena atraiu-o carinhosamente para si e beijou-o.
- Não vamos falar do passado do qual me envergonho... - Sussurrou ela.
- Eu é que devo envergonhar-me do passado e não você!
Não pense, Rugena, que tive ciúme imbecil do infeliz Jerónimo.
Seria perfeitamente natural se você quisesse vê-lo para dizer algumas palavras de solidariedade a esse destacado homem que foi o herói dos seus sonhos de infância e cuja magnânima renúncia a você me inspira somente respeito e agradecimento.
- É verdade que Jerónimo desempenhou na minha vida o papel de uma grande tentação - e bendito seja o mestre Jan que, com mão paternal, afastou-a.
Apesar disso, não nego que seu destino me interessa muito e que, se ele estivesse em liberdade, eu iria, sim, querer me despedir dele.
Contudo, sua rigorosa prisão impede isso.
Assim sendo, imploro-lhe, Vok, se você me ama, desista dessa loucura que pode prejudicar-nos sem nenhuma necessidade.
O conde nada respondeu, mas, em pensamento, decidiu ver Jerónimo e traze-lo para sua casa por uma ou duas horas, se isso fosse humanamente possível.
Ele queria, de qualquer forma, dar à esposa essa demonstração de confiança e amor.
Dois dias depois dessa conversa, Vok, enrolado numa capa preta e com um largo chapéu na cabeça, dirigiu-se à noite ao cemitério de São Paulo, junto ao qual estava a torre da prisão de Jerónimo.
O ouro generosamente distribuído abriu o caminho ao conde; o carcereiro já o aguardava e conduziu-o imediatamente para dentro.
Assim que a porta se abriu, um sopro de ar frio, húmido e fedorento bateu-lhe no rosto e pelo corpo de Vok correu um tremor de repugnância.
Quando eles entraram na casamata escura e contaminada por miasmas, onde há seis meses penava seu infeliz amigo, uma indescritível pena tomou conta da alma de Vok.
Despertado pela repentina luz da lanterna, Jerónimo levantou-se em seu catre e olhou, surpreso, o visitante que não reconheceu à primeira vista.
Ao sinal do conde o carcereiro saiu.
Então Vok tirou a capa e estendeu os braços ao prisioneiro que os agarrou, feliz.
- Vok! Com que milagre você conseguiu chegar até aqui?
Sou vigiado atentamente como se fosse um perigosíssimo criminoso. - Disse ele, emocionado.
- A boa vontade e o ouro abrem qualquer cadeado... - Respondeu Vok, puxando um banco e sentando-se.
Como você consegue viver nesta cloaca?
Pobre Jerónimo! Estou aqui há menos de dez minutos e já me sinto sufocado!
- Oh! O ser humano é um animal resistente!
Um búfalo no meu lugar já teria morrido há muito tempo enquanto eu, como vê, ainda estou vivo mesmo com as pernas cobertas de úlceras que acredito serem incuráveis...
Estou apodrecendo vivo... - Notava-se uma profunda amargura na voz de Jerónimo.
Depois, ele contou as terríveis torturas a que fora submetido no início de sua prisão, quando chegara a pensar que iria enlouquecer.
Sua saúde, sempre tão resistente, em poucos dias havia sido destruída e ele estivera por um fio, à beira da morte.
A conversa passou a versar sobre o cruel e injusto processo que tramitava contra ele e o ódio insaciável de Estéfano Paletch e Miguel de Causis, que queriam eliminá-lo da mesma forma como haviam eliminado Huss.
- Bem, chega de falar de mim. - Disse Jerónimo, depois de um pequeno silêncio.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 08, 2016 7:31 pm

Conte-me as novidades do mundo lá fora.
O que fazem seu pai e a condessa?
- Rugena está morrendo... - Disse Vok, ficando sombrio e baixando a cabeça.
Vim lhe contar sobre isso.
Um grito surdo escapou de Jerónimo e ele olhou o conde com horror.
- Vok! Você deve estar brincando!
Uma mulher jovem, linda e cheia de vida está morrendo?
Mas por quê? - Balbuciou ele.
- É a triste verdade. - Respondeu o conde e, ao descrever o crime de Brancassis, cujas consequências nenhum remédio poderia impedir, em sua voz soavam a tristeza e a raiva.
Jerónimo ouviu-o, respirando fundo e tremendo com todo o corpo.
- Meu Deus!
Quando terão um fim as maldades desse patife?
Quando a mão de Deus irá abatê-lo? - Gemeu ele, indignado.
- Pois é. Esta longa espera por vezes nos obriga a duvidar da justiça divina... - Sorriu Vok, amargamente.
Na verdade, Jerónimo, o principal objectivo da minha visita é combinarmos como tirá-lo daqui numa noite por, pelo menos, uma hora.
Sei que Rugena gostaria de vê-lo para se despedir de você e farei de tudo para lhe oferecer esse minuto de felicidade!
Agora, vendo em que situação você se encontra, e após conversar com seus carcereiros, percebo que os meus sonhos evaporaram-se.
Jerónimo permaneceu calado.
Apertando a cabeça com as mãos, ele mergulhou em pensamentos, aparentemente agitados, pois seu rosto pálido e magro cobriu-se de um febril rubor e, nos cansados e apagados olhos, acendeu-se a outrora firme vontade.
- Vou conseguir, a qualquer preço, essa hora para o encontro que você me propõe e que é valiosíssimo para mim. - Disse ele, decidido.
Já achei o meio:
vou renunciar e me submeter ao concilio.
- Seu louco!
Você, Jerónimo, amigo e correligionário de Huss, vai renunciar às verdades que ele professou?
Você manchará o próprio nome e dará um pernicioso exemplo com essa renúncia! - Exclamou Vok, indignado.
Um sorriso enigmático passou pelo rosto do prisioneiro e seus olhos brilharam.
Naquele momento, ele voltou a ser o antigo Jerónimo:
corajoso e ousado, não se detendo diante de nada.
- Calma, Vok! Eu conseguirei pagar essa fraqueza mais tarde e pagarei com a vida por essa hora de liberdade, mas preciso ver Rugena!
Você entenderá, e espero que me desculpe por ter-lhe confessado que a amei como a nenhuma outra mulher na vida, mas com um sentimento diferente, que somente ela conseguiu me passar...
- Nada tenho a lhe perdoar.
Eu, infelizmente, percebi tarde demais o tesouro que Deus me concedeu e ao qual você teve suficiente coragem para renunciar!
E não será diante do leito de morte do pobre anjo, ao qual ambos amamos, que ficarei enciumado. - Respondeu Vok, triste e abatido.
Faça o que lhe ditar o coração.
Acredito em você, Jerónimo, e sei que saberá defender a sua honra!
Broda e Svetomir entrarão em contacto com o seu carcereiro e, se você conseguir ficar em liberdade por algumas horas antes da morte de Rugena, que está extremamente fraca, um deles virá buscá-lo.
Acertando mais alguns detalhes, os amigos separaram-se, emocionados e tristes.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 08, 2016 7:32 pm

Passados alguns dias, correu pela cidade a notícia de que Jerónimo de Praga, cedendo às insistências dos cardeais, renunciara aos seus "enganos professados" e até assinara um acto no qual reconhecera todas as decisões do concilio e a ele submetera-se.
Na verdade, mesmo tendo criticado os artigos de Wyclif pregados por Huss, Jerónimo acabou fazendo algumas omissões que comprovam o que custou ao infeliz a sua decisão.
Assim, ele continuou a afirmar que ambos pregavam muitas verdades sagradas e que sempre gostara de Huss; notava-se claramente que, ao criticar "os enganos" do amigo, mantinha um sincero respeito por sua pessoa.
Entretanto, apesar dessas omissões, o concilio parecia estar completamente satisfeito com a vitória e a submissão do famoso sábio.
Então, em 23 de setembro, quando Jerónimo repetiu solenemente a sua renúncia em audiência pública, declarando que nunca mais iria professar aquilo a que renunciara, sua situação foi um pouco abrandada:
a vigilância sobre ele diminuiu e correu o boato de que iriam pô-lo em liberdade.
Mas Jerónimo passava por um momento difícil.
Sua orgulhosa alma torturava-se e sofria sob o jugo da humilhação de ter renunciado publicamente ao motivo de sua vida.
Seu coração sofria com os entraves e as infindáveis dificuldades para obter aquelas poucas horas de liberdade que lhe custavam tão caro...
O temor e o desespero corroíam-no por dentro ao pensar que seu sacrifício poderia ser em vão e que o olhar - onde certa vez lera tanto amor - e os adorados lábios de Rugena - que o haviam inebriado com suas palavras - poderiam fechar-se para sempre antes que ele conseguisse, pela última vez, ver aqueles olhos cintilantes e ouvir o último "adeus".
Svetomir e Broda visitaram-no e disseram que Rugena estava definhando rapidamente.
A tortura espiritual do infeliz atingiu seu apogeu quando, numa noite no final de setembro, Svetomir entrou na sua cela, acompanhado pelo carcereiro que trazia um embrulho.
O amigo de infância de Rugena estava pálido e nitidamente emocionado.
- Trouxe-lhe um traje, mestre Jerónimo!
Vista-se rapidamente e acompanhe-me!
Este bom homem irá deixá-lo sair.
- Sim! Este senhor cavaleiro tentou-me com uma quantia de dinheiro que, para um pobre como eu, representa uma herança.
Mas me prometa, mestre Jerónimo, que vai voltar!
Mesmo que já falem sobre a sua libertação, não ouso libertá-lo e posso pagar com a vida por esta minha fraqueza.
Não acabe comigo, minha pobre mulher e meus seis filhos! - Implorou o carcereiro.
- Dê-me sua espada, Svetomir. - Disse Jerónimo.
E continuou, pondo a mão sobre o cabo da espada em forma de cruz:
- Pelo sinal de nossa redenção, que é sagrado para mim, juro retornar à prisão antes do amanhecer.
E que a ira de Deus recaia sobre mim se eu faltar à minha palavra!
O carcereiro, mais calmo, ajudou-o a vestir o traje de veludo negro e enrolou-o numa larga capa com capuz que cobria o seu rosto.
Depois conduziu Jerónimo e Svetomir para fora e disse que iria aguardar no portão a volta do prisioneiro.
Vendo-se em liberdade, Jerónimo encheu o peito com o fresco e aromático ar nocturno.
Após tantos meses passados na escura e fedorenta prisão, sua cabeça começou a girar e ele balançou.
Superando energicamente a fraqueza e o sofrimento que lhe causavam as pernas doentes, ele caminhou rapidamente ao lado de Svetomir, agradecendo-lhe o favor prestado.
- Era extremamente necessário tirá-lo daquele buraco hoje, senão você não veria Rugena.
Vok disse que ela deseja ver todos os amigos pela última vez.
- O que você está dizendo?
A condessa está tão mal? - Perguntou Jerónimo, estremecendo.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 08, 2016 7:32 pm

- Infelizmente, sim!
Hoje pela manhã, o médico disse a Vok que ela não passaria desta noite.
O pobre conde está agindo como um demente.
Apesar disso, lembrou de você e pediu-me para traze-lo de qualquer maneira. - Respondeu baixinho Svetomir e, cerrando os punhos, amaldiçoou Brancassis, desejando fazer com o assassino traiçoeiro o que fora feito com Hilário.
Jerónimo não sabia da morte de Hilário, e Svetomir, com especial satisfação, começou a contar-lhe todos os detalhes do enforcamento do imprestável monge.
Naquele dia, pela manhã, Benelli achara por bem avisar Vok de que a condessa só tinha algumas horas de vida.
Mesmo que esse final infeliz já estivesse previsto, a notícia do inevitável fim caíra sobre Vok como um raio e ele não tivera forças para conter sua explosão de infelicidade.
Entretanto, essa fraqueza fora passageira:
ele imediatamente convencera-se de que era sua obrigação não perturbar os últimos momentos da moribunda; pelo contrário, ele deveria, isso sim, cercá-la de atenção e paz.
Então lembrara-se, por acaso, de Jerónimo e pedira a Svetomir que o trouxesse a qualquer preço.
Depois, ele sentara-se à cabeceira de Rugena decidido a não deixá-la nem por um instante até o fim.
Após um profundo e pesado sono, a jovem condessa acordara terrivelmente fraca; a essa fraqueza juntara-se depois uma sensação estranha e pesada, nunca antes sentida.
Um frio percorrera suas veias, fazendo-a tremer.
Parecera, a Rugena, que algo se rasgava em todo o seu ser; por instantes sentira libertar-se do corpo e, então, uma negra cortina cobrira momentaneamente sua visão.
"A morte se aproxima", pensara ela, tristemente.
Rugena quisera contar a Vok o que sentia, mas, ao ver o temeroso e desesperado olhar do marido, desistira.
Ela fechara os olhos e começara a rezar pedindo a Deus que amenizasse sua iminente e difícil passagem para a outra vida, invocando, com toda a sua alma, seu querido pai e o adorado amigo Huss, para que a recebessem à entrada do insondável e terrível outro mundo...
A prece devolvera-lhe a calma, e o resto do dia passara sem maiores problemas.
A noite chegou.
Rugena, dominada por um temor crescente, começou a agitar-se no leito.
Ana e Vok observavam, com desespero, a expressão de sofrimento do rosto quase transparente da paciente e os movimentos bruscos de suas mãos pelo cobertor.
Perto das 23h30, esse estado agravou-se.
- Levantem-me... Estou sufocando... - Balbuciou ela, tentando sentar-se.
Ana trouxe imediatamente um largo traje de seda nocturno e vestiu-a.
Vok tomou Rugena nos braços como a uma criança, colocou-a numa poltrona e cercou-a de almofadas enquanto Litka cobriu-a com cobertor.
- Sente-se melhor, querida? - Perguntou Vok, ajoelhando-se diante dela e amparando a esposa, cuja cabeça caía sem forças sobre seu ombro.
- Sim... - Respondeu Rugena, fracamente.
Mas onde está Svetomir?
Por que ele não veio hoje?
Chame-o... Chame também o Broda...
Quero me despedir de todos.
- Svetomir já vai chegar e pode ser que traga mais alguém que você vai gostar de ver.
Vá, querida Ana, e ordene que Broda venha para cá assim que Svetomir chegar com seu acompanhante.
Os olhos de Rugena brilharam de alegria e, a todo instante, dirigiam-se para a porta de entrada.
Não precisou esperar muito:
dez minutos depois, soaram passos no quarto vizinho e entrou Ana, seguida por Jerónimo, Svetomir e Broda.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 08, 2016 7:32 pm

No quarto de Broda, Jerónimo pôs em ordem o seu traje e o seu rosto pálido e magro aparentava ainda mais sofrimento.
Ao entrar no quarto, ele estancou, abismado:
nunca teria imaginado a terrível mudança que ocorrera com Rugena e as palavras não lhe saíam.
Recobrando-se rapidamente, ele aproximou-se da paciente, ajoelhou-se e, em silêncio, levou aos lábios a sua magra e pálida mão.
Rugena também olhava para ele, espantada.
- Meu Deus!
Como o senhor deve ter sofrido, mestre Jerónimo... - Sussurrou ela.
Mas... o que se há se fazer?
Estou muito feliz em vê-lo pela última vez.
Sentindo suas lágrimas na mão, ela libertou-a delicadamente e carinhosamente passou-a pela cabeça inclinada diante dela.
- Não chore, Jerónimo!
A infelicidade de Vok e a sua tornam a minha morte ainda mais pesada e afastam a grande felicidade que Deus me enviou de juntar ao meu redor todos os que me são tão caros...
A fraqueza não deixou que ela terminasse a frase; ela fechou os olhos.
Vok e Jerónimo soltaram um grito ao mesmo tempo.
Ao ouvi-los, Rugena, com um esforço da vontade, venceu a fraqueza e endireitou-se.
- Isso não foi nada!
Uma pequena fraqueza que já passou... - Sussurrou ela, em tom de desculpas.
Aproximem-se... Ana, Svetomir, Broda...
Eu quero me despedir de vocês.
Amparada por Vok e Jerónimo, ela abraçou seus amigos de infância e agradeceu a Broda por sua imutável e abnegada fidelidade.
Depois, beijou Jerónimo na testa e lançou-lhe um longo olhar de amor e despedida.
Vok apertou-a convulsivamente contra o peito e, não conseguindo mais se segurar, cobriu-a de beijos e lágrimas amargas.
A coragem abandonou Rugena de vez e ela, com surdo pranto, desfaleceu nos braços do marido.
O conde estremeceu e ficou ouvindo, temeroso, se ela ainda respirava.
De repente, Rugena endireitou-se e levantou-se; seus olhos bem abertos dirigidos para o nada brilhavam de felicidade e emoção.
Vok voltou-se, involuntariamente, para onde Rugena olhava e estancou, estupefacto.
No fundo do quarto, iluminado por um círculo de uma ofuscante e azulada luz estava... Jan Huss.
Ele vestia as mesmas roupas do dia de sua execução, mas em vez de negro, seu traje era alvo e cintilava à sua volta e nas dobras.
Seu rosto, rejuvenescido e belíssimo, respirava paz, e seus olhos, profundos e brilhantes, olhavam com infinito carinho para Rugena.
A visão, leve como névoa e completamente real, aproximava-se da moribunda, chamando-a ao mesmo tempo com a mão e com o sorriso.
- Padre Jan!
Você veio me buscar?
Estou pronta! - Sussurrou Rugena e moveu-se em sua direcção.
Naquele instante, a visão desapareceu e o corpo de Rugena caiu pesadamente no chão...
Por alguns instantes o quarto ficou num silêncio mortal.
Todos viram e reconheceram o amigo que lhes acabara de dar uma brilhante prova de que as amizades terrenas permanecem também no "outro" mundo...
Mas, por mais respeitado e caro que lhes fosse o misterioso visitante, sua aparição deixou-os em pânico e aterrorizados.
Jerónimo foi o primeiro a se recompor:
persignando-se, ele olhou em volta sem saber o que fazer.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 08, 2016 7:32 pm

Ana estava de joelhos e parecia não ver nada do que se passava ao seu redor; em seus olhos ardia uma estranha e fantástica excitação.
Vok caiu na poltrona e desmaiou.
Ele desconhecia o medo quando se tratava de pessoas vivas, mas seus nervos não aguentaram a aparição.
Quando Jerónimo resolveu ajudá-lo, Svetomir e Broda, refeitos do susto, já estavam levantando o conde.
Então, o discípulo de Huss inclinou-se para Rugena.
Vendo que ela estava morta, pegou nos braços seu corpo ainda quente e, apertando-o contra o peito, colocou-o cuidadosamente na cama, fechou-lhe os olhos e cobriu-lhe os pés com um cobertor.
Inclinado sobre o corpo, com os olhos cheios de lágrimas, Jerónimo ficou admirando por muito tempo o maravilhoso rosto da falecida no qual permanecera a expressão de surpresa e felicidade.
Depois, ajoelhou-se e começou a orar fervorosamente.
Vok voltou a si rapidamente.
No primeiro momento, a vergonha por ter sido acometido por uma fraqueza puramente feminina superou todos os outros sentimentos.
Mas a consciência da perda que acabara de suportar tomou conta dele de imediato e sua terrível tensão nervosa explodiu em pranto convulsivo.
Jerónimo parecia calmo externamente.
Após conversar um pouco com Svetomir e Broda sobre a estranha visão, ele quis voltar para a cadeia, pois sentia necessidade de ficar só.
- O meu caro carcereiro ficará feliz em me ver de volta e eu preciso ficar sozinho para meditar e orar. - Disse ele, com voz cansada.
Dispensando a companhia de Svetomir e Broda, pois conhecia o caminho de volta, Jerónimo pediu somente que lhe dessem uma espada.
Despediu-se mais uma vez da falecida, abraçou os amigos agradecendo o inestimável favor que lhe haviam prestado e apertou a mão de Ana, que estava parada em silêncio num canto, pálida e com o olhar errante, como se tivesse despertado de um sonho.
Em seguida, Jerónimo enrolou-se na capa e saiu com Broda, que o acompanhou até o portão.
Uma semana mais tarde, um cortejo fúnebre deixava Constança.
Sobre a carroça puxada por um par de cavalos ia um pesado caixão de carvalho com o corpo de Rugena, cuidadosamente embalsamado pelo doutor Benelli; atrás iam a cavalo Vok, Ana, Broda e Svetomir, que acompanharia os amigos até a primeira parada e depois voltaria para a cidade.
Chegando lá, os amigos despediram-se fraternalmente e o séquito seguiu adiante.
Pela dificuldade do trajecto, era preciso ir devagar e a viagem transcorria muito lentamente.
Aquela dura inactividade e a constante visão do caixão inflamavam a ferida no coração de Vok e agiam deprimentemente sobre a natureza nervosa e agitada do conde.
Sombrio e abatido, há dias ele viajava calado.
Broda, que o observava, verificou que se tal situação continuasse, Vok sem dúvida adoeceria pelo caminho.
Numa das paradas para pernoitar em uma estalagem, Broda começou a conversar com o conde, tentando convencê-lo a se apressar para chegar a Praga, onde certamente tinham lugar, naquele momento, importantes acontecimentos políticos.
- Senhor Vok, sua cabeça e sua espada podem ser necessárias por lá, enquanto por aqui o senhor em nada pode ajudar.
- Isso provavelmente é verdade, Broda, mas como posso deixar os restos mortais tão caros para mim sem acompanhá-los até o túmulo? - Observou o conde, tristemente.
- A senhora Rugena era um anjo - senão o santo mártir não teria vindo do céu para buscá-la -, e os anjos não dão valor aos costumes terrenos. - Disse Broda, num tom convincente.
De qualquer forma, ela vê o seu coração e a sua solidariedade.
A honra de acompanhar seu corpo, o senhor pode deixar sob a minha comprovada fidelidade.
Todos os outros argumentos do conde também foram refutados.
Então eles combinaram que, no dia seguinte, Vok seguiria adiante com alguns homens e levaria consigo Ana, se ela assim o quisesse; Broda, com o resto do séquito, ficaria para levar o corpo e a bagagem.
Ana, entretanto, não quis viajar com o conde, preferindo acompanhar a falecida.
- E melhor eu ficar com Rugena!
Não tenho pressa de chegar a Praga, que se esvaziou de tudo o que amei.
Se for consigo, conde, eu só iria atrapalhar. - Replicou ela.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 08, 2016 7:32 pm

Capítulo X

Depois de uma rápida viagem, dando aos homens e cavalos um mínimo de descanso, Vok chegou finalmente a Praga.
Aquela louca e cansativa corrida distraíra seus pensamentos da infelicidade que o assolara e de algum modo devolvera-lhe um certo equilíbrio mental.
Para calar de vez a dor da sangrenta ferida com o trabalho, o jovem conde mergulhou de cabeça no redemoinho da actividade política que, na época, havia tomado conta de seus compatriotas.
Chegou à pátria bem a tempo.
Nunca antes as mentes haviam estado tão exaltadas e já se ouvia o primeiro trovejar da tempestade popular que iria se desencadear quatro anos depois.
Quando Vok chegou, o conde Hinek não estava em Praga.
Evitando a casa vazia, onde cada objecto lembrava-lhe Rugena, naquela mesma noite o jovem conde foi à casa de Milota Nakhodsky.
Marga e o marido receberam-no, como sempre, de braços abertos e a notícia da tragédia que o acometera provocou em ambos lágrimas de solidariedade.
Percebendo como era difícil para Vok falar sobre a esposa falecida, Milota mudou o assunto da conversa para outro tema e começou a perguntar sobre os detalhes do martírio de Huss e o destino de Jerónimo.
- Muito provavelmente ele vai parar na fogueira como o mestre Jan.
Os abutres do concilio e os traidores checos estão descontando neles o golpe que aplicamos nos alemães em 1409. - Respondeu Vok, tristemente, e começou a descrever em detalhes o revoltante julgamento e a morte heróica de Huss.
- Vejo que estávamos certos ao considerá-lo um santo.
Ainda bem que o povo por aqui vingou com justiça a sua execução. - Observou Milota, que ouvia atentamente o conde.
- Ainda não sei o que aconteceu, mas, na minha opinião, qualquer violência contra os padres sem-vergonha, que somente denigrem a classe com sua indignidade, é uma causa justa e santa!
- Nesse caso, você ficaria satisfeito se visse o que aconteceu por aqui quando chegou a notícia da morte de Huss. - Interferiu Marga.
- Mas me contem!
Contem o que aconteceu por aqui!
Cheguei hoje pela manhã e ainda não sei de nada.
- Deus do céu, aqueles foram dias terríveis! - Começou Marga, estremecendo só de lembrar.
A cidade inteira agitou-se; o povo saía em massa para as ruas e, em altos brados, acusava o clero como o principal culpado da injusta condenação do adorado pregador e da desonra resultante disso que caiu como uma mancha sobre toda a Boémia.
Mas não ficaram somente nas palavras.
A turba exaltada caiu sobre as casas dos sacerdotes, inimigos declarados do mestre Jan, e fez por lá muitos estragos...
- Fui testemunha do terrível espectáculo. - Disse Milota, interrompendo a esposa.
Depois, sorrindo, continuou:
- Marga tinha medo de sair de casa para não cair no empurra-empurra.
Muitas pessoas do clero fugiram da cidade, e os que não foram tão previdentes sofreram muito:
suas casas foram saqueadas e até incendiadas e eles próprios foram xingados e surrados.
Na minha frente, dois monges feridos e surrados quase até a morte foram jogados no rio Vltava...
- Conte a Vok sobre o cerco ao arcebispado! - Interrompeu Marga.
- Mas como?
Cercaram Konrad Vekht? - Perguntou, sorrindo, Vok.
- Pois é! Um verdadeiro cerco.
Ele, com grande dificuldade, conseguiu fugir, senão seu rebanho o massacrava.
- Contem-me como receberam por aqui Jan Zhelezny e as medidas leoninas que o concilio incumbiu-o de promover.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 08, 2016 7:33 pm

- Não podiam ter feito escolha pior!
Acredito que em toda a Boémia não existe homem mais odiado do que o bispo de Litomyshl.
Ele é considerado o principal acusador de Huss no concilio por parte do clero checo e o maior culpado de sua morte!
Só a cara dele despertava tal raiva que ele não ousava aparecer na rua e, quando ia visitar o rei, exigia um salvo-conduto especial.
Devo confessar que também na corte ele não era bem recebido.
A rainha, que está fora de si pela morte do seu respeitadíssimo confessor, glorifica abertamente o padre Jan como um santo mártir, e com ela estão a viúva de Henrich Rosenberg, Ana Zmirzlikov e Ana de Mokhov.
- Isso não impediu o arcebispo Jan de tomar as medidas que ele considerava necessárias para segurar a Boémia e, desde ontem, Praga está sob nova interdição.
Mas agora o nosso povo não está tão submisso e receio que tudo isso acabará muito mal. - Acrescentou Marga, levantando-se para mandar servir o jantar.
Dois dias depois, Vok foi apresentar-se ao rei que, na época, residia na "Cidade Alta".
Ele queria pedir uma prorrogação da licença ou simplesmente livrar-se o quanto possível do serviço de Venceslau.
O conde não tinha mais disposição para divertir o rei contando aventuras e anedotas picantes e ansiava por calar a dor do seu coração com uma agitada actividade política.
Venceslau, como constatou, estava ocupado com Séneca de Vartenberg, e Vok aguardava a sua vez, conversando com outros senhores que haviam chegado para a recepção real.
De repente, apareceu um pajem da rainha e transmitiu ao conde que Sua Majestade soubera de sua chegada e desejava vê-lo.
Quando Vok entrou, a rainha Sofia não estava só; com ela havia três damas da alta-nobreza checa:
Elizabeth, viúva de Henrich Rosenberg; Ana de Mokhov, senhora Usti; e a esposa do prefeito Pedro Zmirzlikov, Ana Zmirzlikov - todas as três dedicadas à causa da Reforma da Igreja e apaixonadas admiradoras de Huss.
- O senhor veio directamente de Constança e pode nos fornecer informações frescas sobre o que aconteceu por lá. - Disse a rainha, esticando a mão para o beijo do conde.
Como está a condessa Rugena?
Seu pai disse que ela estava muito doente.
Vok empalideceu.
- Rugena caiu, vítima de insolente crime de um daqueles sacerdotes emporcalhados em vícios que também mataram o mestre Jan por ele ter ousado desvendar abertamente os seus pecados. — Respondeu ele, surdamente.
- Ela morreu?! - Exclamaram a uma voz Sofia e suas damas.
Mas como?! - E a rainha começou a perguntar-lhe tudo, querendo saber todos os detalhes do triste acontecimento.
Embalado pelo ódio que sentia de Brancassis, Vok descreveu sem rodeios os principais malefícios do cardeal, a começar pelo atentado nocturno em Praga e terminando com o envenenamento em Constança.
- Meu Deus!
E esse malfeitor ainda usa o título de cardeal!
Uma mulher tão jovem, bela e bondosa - morta!
Pobre e infeliz Rugena! - Disse a rainha, compadecidamente, persignando-se.
- Pois é! Esse tipo de gente condena santos, mata inocentes e ainda ousa tocar com suas mãos manchadas de sangue os mistérios instituídos por Cristo; e, quando os verdadeiros cristãos protestam, eles os chamam de hereges! - Observou Vok, com amargura.
- O senhor obviamente está se referindo à comunhão com pão e vinho?
Devo confessar-lhe, conde, que essa questão atormenta e perturba minha alma. - Intrometeu-se Elizabeth Rosenberg.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 08, 2016 7:33 pm

- Será possível vacilar entre a palavra de Cristo e as ideias humanas? - Indignou-se Vok.
- Sou a favor da Reforma, mas não consigo tratar com tanta coragem os mandamentos da Igreja que, além do mais, são sustentados e defendidos por pessoas de alta sabedoria e por benfeitores que respeito muito, apesar de nossa divergência de opiniões. - Respondeu Elizabeth.
Em seguida, mexendo em sua bolsinha, retirou de lá um pergaminho, abriu-o e prosseguiu:
- Tenho em mãos a carta que me mandou o mestre Maurício Rvatchek, que conhece a minha propensão à Reforma e teme que eu recaia no utraquismo.119
Com a permissão de Sua Majestade, vou ler o que ele me escreve.
- Leia, leia!
A opinião de Maurício merece ser ouvida.
Autorizou a rainha, que tratava com extremo cuidado aquela que era a mais importante questão da época.
Leu a senhora Rosenberg:
- "Antes de tudo rezo fervorosamente pela senhora.
Receie, como ao inferno, beber do cálice!
A maçã do Paraíso também era boa como maçã, mas como fruto proibido tornou-se um veneno.
Respeite as indicações da Igreja e os costumes dos ancestrais e tudo estará bem!
Estudei essa questão e acrescento à presente a minha dissertação aprovada pelo Papa e pelo imperador, com os quais devemos concordar!
Acredite: a comunhão com o cálice é equivalente à expulsão do Paraíso, como foi expulsa Eva.
Esteja certa:
essa novidade foi incutida aos homens por satanás.
Até o que não é pecado transforma-se em pecado assim que é proibido.
Portanto, permaneça obediente e não seja como Eva.
Lembre-se do que escrevo:
é melhor morrer do que comungar com o cálice."
Depois de ler as palavras taxativas de Maurício Rvatchek, Elizabeth concluiu:
- Eis as principais partes da carta.
Não lhes parece que isso pode atrapalhar completamente a consciência dos fiéis?
- Tem razão! E como o falecido mestre Jan nunca me disse para desobedecer à Igreja, irei seguir seus ensinamentos, não participando da nova ordem das coisas. - Disse Sofia, perturbada com aquela conversa.
Naquele instante, dois pajens levantaram as cortinas anunciando a chegada do rei.
Venceslau, ao entrar, cumprimentou animadamente as damas.
- Ah! Finalmente você está aqui! - Disse ele, estendendo amigavelmente a mão ao conde.
Mas como está pálido e magro!
O que lhe fizeram lá em Constança para voltar assim, quase morto?
- O conde acabou de nos contar coisas tão terríveis que explicam inteiramente a sua mudança. - Disse a rainha, consternada.
A pedido de Venceslau, Vok repetiu a história da morte de sua esposa.
Seu relato provocou uma explosão de indignação no rei, que começou, em seguida, a inquirir o conde sobre os detalhes da morte de Huss e do provável resultado do julgamento de Jerónimo.
A firmeza heróica do mártir e a ostensiva injustiça revelada pelo concilio com relação a ele deixaram Venceslau ainda mais indignado.
- Pobre padre Jan...
Estou muito triste com o seu destino.
Se, por vezes, ficava irritado com ele por causa de problemas que aconteciam por sua culpa, agora lhe perdoo tudo de bom grado.
Ele pagou caro por seu excessivo amor à pátria:
os alemães não o perdoaram pelo caso dos votos e do meu decreto forçado pelas artimanhas dos checos.
Agora, o Sigismundo exagerou!
Trair a própria palavra dada e, sem ligar para o próprio salvo-conduto, permitir que mestre Jan fosse queimado na fogueira foi uma vil traição!
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 08, 2016 7:33 pm

- O rei Sigismundo se esquece frequentemente de que ele é o próximo herdeiro da coroa checa. - Observou Vok, venenosamente.
O rei levantou o dedo.
- Contenha sua língua, Vok!
Você está se referindo ao meu irmão!
Saiba que se eu culpo Sigismundo e o conselho pelo destino de Huss, aprovo-os totalmente quanto a Jerónimo!
O clero é visivelmente formado de patifes, mas Jerónimo é um agitador perigoso, que sempre semeou a discórdia e gabou-se abertamente de ser renegado da fé, dizendo que preferia os malditos cismáticos aos verdadeiros cristãos.
Deixe que o queimem, pois ele fez por merecer isso inteiramente.
Vok enrubesceu.
- Meu rei! Jerónimo não é um renegado da fé somente porque considera os cismáticos cristãos como nós.
Aliás, nada tenho com teologia, mas nunca deixarei de defender Jerónimo como a um bom checo que sempre cumpriu sacramente sua obrigação, levantando-se onde podia contra a insolência dos alemães e contra aquela devassidão com que eles contaminaram a nossa terra.
- Na parte da insolência, caro Vok, os checos nada ficam a dever aos alemães!
Depois da morte de Huss, eles, como cães raivosos, estão arreganhando os dentes para, por vezes, tornam-se um espinho na minha garganta, com suas eternas exigências, insolências e discussões! - Sentenciou o rei.
- Nesses momentos, Sua Majestade provavelmente se esquece de que usa na cabeça a coroa de São Venceslau.
De outra forma, os interesses dos checos nunca seriam um espinho em sua garganta!
- Como ousa falar assim comigo, seu inútil pândego?
Não me diga que pretende me ensinar a governar? - Exclamou o rei, fora de si.
Uns me criticam pela condescendência para com os alemães e outros, pela preferência pelos checos!
Estou cansado de tudo isso!
Quero paz e logo vou mandar todos vocês para o inferno.
Então a rainha e Ana Usti - que, conforme se dizia, tinham grande influência sobre o rei interferiram e começaram a acalmar Venceslau.
Este, por fim, declarou que perdoava o jovem insensato levando em consideração a infelicidade que o atingira e que, provavelmente, afectara sua cabeça.
Vok aproveitou aquele momento de calma da ira real para pedir uma licença:
- Vá! Essa sua cara de enterro, em vez de me divertir, só me provocaria cólicas! - Respondeu o rei, zombeteiro.
Mas, veja lá, não pense em cometer bobagens para satisfazer a sua infelicidade!
E quando o convocar, quero vê-lo alegre e com grande reserva de histórias divertidas.
Três meses são suficientes para chorar a morte de qualquer mulher.
Mas por se tratar de uma pérola como a condessa Rugena, que podia tentar ao mais ascético eremita, dou-lhe o dobro do tempo.
O rosto de Venceslau iluminara-se definitivamente.
Vok fez uma reverência ao casal real e, feliz por conseguir fugir da corte, retornou a Praga.
Assim como o pai, o jovem conde tornou-se membro da União dos Senhores checos e Morávios, formada em setembro para a defesa do ensinamento religioso puro de Huss.
O primeiro acto dessa entidade foi o envio a Constança de um corajoso protesto contra a execução de Huss, a prisão de Jerónimo e as injustas calúnias contra a pátria deles.
Além disso, a União dos Senhores checos e Morávios - sob a direcção de três nobres eleitos:
Séneca de Vartenberg, Latchek de Kravarja e Botchek de Podiebrad - declarava que dava liberdade de pregar a palavra divina em suas terras, concedia à faculdade de teologia de Praga o direito de decidir questões religiosas na base das Escrituras e, basicamente, decidia submeter-se dali em diante somente às ordens de bispos nacionais, considerando nulas todas as excomunhões e proibições pronunciadas pelo clero estrangeiro.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 08, 2016 7:33 pm

Era uma declaração de guerra à Igreja romana e a pedra fundamental da Igreja nacional.
Surgiu o movimento patriótico; os adeptos de Huss e do cálice120 tornaram-se um partido ainda mais forte e perigoso porque, dessa vez, também os camponeses seguiam os senhores contra o rei e o catolicismo, cuja rígida impaciência e cuja crueldade perturbavam as cabeças.
A interdição era aplicada com toda a rigidez.
Em Praga, reinava uma excitação febril.
Jan de lessenits, excomungado pelo Papa havia seis anos, fora expulso de lá e o partido católico preparava-se para uma luta decisiva.
Entretanto, agora os tempos eram outros:
a paciência popular esgotara-se e o número de partidários do cálice crescia.
Os praguenses responderam com violência ao fechamento dos cemitérios, à proibição da comunhão e aos sermões ofensivos contra a Boémia.
Aos gritos de:
"Quem não trabalha não é digno de alimentar-se!", o povo atacou os mosteiros e as casas do clero que tinham parado a execução de ritos religiosos, expulsou os sacerdotes que lá moravam e substituiu-os pelos utraquistas.
Da capital, a agitação passou para as províncias e culminou com um ataque da multidão armada ao mosteiro de Opatovits, que foi tomado de assalto, teve seus monges expulsos e seu abade torturado até a morte.
Com o ímpeto do seu carácter agitado, Vok tinha participação activa nesse movimento político, estando à frente em todos os lugares onde se decidiam acções corajosas ou se tomavam medidas severas.
O jovem conde tornara-se agora muito amigo de Jan Zizka de Trotsnov, o irmão de Ana.
O ódio de ambos ao clero católico unia-os, apesar de suas radicais diferenças de carácter:
Zizka era calado, previdente e fechado, enquanto Vok era sincero, imprudente e sempre pronto para qualquer acto tresloucado - se bem que, nos últimos tempos, o jovem conde mudara muito; a perda de Rugena abalara-o mais profundamente do que se podia supor e as emoções que sofrerá haviam-lhe afectado a saúde.
Durante algumas semanas o trabalho agitado manteve-o excitado, mas, depois, a doença incubada derrubou-o de repente...
Antes de morrer, Rugena expressara o desejo de ser enterrada em Rabstein, ao lado de seus antepassados.
Após uma longa e penosa viagem, Broda finalmente trouxe o corpo ao velho castelo, mas o mensageiro que enviara para anunciar a sua chegada encontrara Vok com febre e entre a vida e a morte.
Chegou a primavera, a natureza renascia e, dos campos enfeitados com tapetes de flores, soprava uma pura, tonificante e jovem força.
Na capela do castelo Rabstein realizava-se o acto fúnebre.
O grupo reunido era pequeno; Vok não quisera convidar estranhos para aquela triste cerimónia.
Ao lado do caixão, inteiramente coberto de flores, estavam com ele somente o pai, Ana, seu irmão Zizka e os fiéis criados:
Broda, Matias e litka.
Lágrimas amargas foram derramadas por aquele ser puro e encantador, que fora levado prematuramente ao túmulo por uma mão criminosa.
Quando o caixão foi levado à cripta e colocado ao lado do ataúde do barão Svetomir, todos reverenciaram-no pela última vez e saíram, excepto Vok, que ficou para orar pela falecida.
O conde permaneceu por muito tempo ajoelhado, com a cabeça encostada no caixão de sua amada, mas não rezava, pensando febrilmente em algo e respirando pesadamente.
Quando levantou, seu rosto demonstrava uma sombria decisão.
- Acredito que você me vê e me ouve, querida Rugena. - Disse ele, baixinho mas nitidamente, pondo a mão sobre o caixão.
Então, receba de mim a promessa de vingar você e seu pai.
Ambos caíram vítimas do mesmo malfeitor e juro que ele pagará caro por seu crime.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 08, 2016 7:33 pm

Naquele instante, uma sombra apareceu do fundo da cripta e a mão de alguém pousou sobre o ombro de Vok.
Espantado, ele voltou-se, irritado, mas as palavras congelaram em seus lábios, pois reconheceu Jan Zizka.
Em seu rosto via-se uma fria e impiedosa severidade e seu único olho ardia com um ódio tão indefensável que paralisou Vok.
- Quero fazer o mesmo juramento! - Disse Zizka, com voz surda.
Esquecido na oração, por acaso, fiquei aqui.
Mas, senhor Vok, é preciso vingar-se não de um "padreco", mas de todos aqueles patifes!
Somente com o sangue desses filhos do inferno conseguiremos lavar a honra das moças violadas por eles e a vida dos infelizes que eles liquidaram com suas calúnias, seus venenos e seus punhais!
Vamos tirá-los de suas tocas com fogo e com incêndios reverenciaremos a memória do justo que eles desumanamente executaram.
Eles nos ensinaram a ser impiedosos e eu juro que, na primeira oportunidade, provarei ser um bom aluno!
Vok apertou sua mão solidariamente.
Ele não previa que o momento da sangrenta vingança estava próximo e que diante dele estava o futuro grande comandante e o mais terrível vingador que o mundo conheceu...
Enquanto isso, em Constança, acontecia o último acto da sombria tragédia, posta pelo catolicismo no cenário da história universal sob o nome de "processos de Huss e Jerónimo de Praga".
Os juízes mais previdentes e políticos - cardeais Ursino, de Camberra e de Florença - estavam a favor da libertação de Jerónimo.
Na opinião deles, se Jerónimo submetera-se ao concilio, então a justiça e a prudência propunham a cessação da perseguição que somente aumentaria a agitação na Boémia.
Contra essa sábia decisão levantavam-se os vingativos e ruins Paletch e Miguel de Causis.
Eles haviam convocado monges de Praga, constituído novas falsas testemunhas contra Jerónimo e conseguido atrair para o seu lado o voto do doutor Nazo, uma pessoa tão limitada e fanática que, diante do concilio reunido, não vacilou em acusar os cardeais que estavam a favor da libertação de Jerónimo de estarem sendo subornados pelo rei da Boémia e seus dignos subordinados - tão hereges quanto ele.
Diante de tal ofensa, os cardeais declararam imediatamente que abandonavam a comissão julgadora e o concilio designou novos juízes entre os quais estavam dois inimigos mortais de Jerónimo e de Huss:
João Rocca e o patriarca de Constantinopla.
No dia seguinte após essa reunião que indicou claramente o destino que esperava o prisioneiro, Svetomir teve um encontro com Jerónimo e, indignado, contou tudo o que acontecera.
Jerónimo ouviu-o calmamente e quase sorrindo.
- Então, o digníssimo Nazo acabou me fazendo um favor. - Disse ele, alegremente.
Ele me deu a oportunidade de voltar atrás na minha renúncia e declarar publicamente todas as minhas irrefutáveis convicções.
Às dúvidas do assustado Svetomir, ele respondeu, firmemente:
- Quero a morte, pois somente com ela poderei resgatar a minha fraqueza e apagar a vergonha que me cobriu por renunciar à verdade e ao meu santo mestre e amigo Jan.
Por força dessa decisão, Jerónimo negou-se a responder aos seus novos juízes e exigiu ser ouvido publicamente.
Seu desejo foi satisfeito e, no dia 23 de maio de 1416, quando se completava exactamente um ano da sua detenção, ele apareceu diante do concilio.
As discussões, que ocuparam duas sessões - em 23 e 26 de maio -, foram indubitavelmente a mais gloriosa conquista de Jerónimo.
Às 107 acusações que lhe foram apresentadas, ele respondeu com tal presença de espírito e sequência de raciocínio que foram quebradas as falsas e traiçoeiras redes de seus inimigos e desnudados os verdadeiros motivos do ódio que o perseguia.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 08, 2016 7:34 pm

Os presentes ficaram perturbados e não conseguiam entender como, após ter passado um ano inteiro de sofrimentos e privações numa fossa escura, ele ainda podia falar e defender-se com tal liberdade de pensamento e humor como se tivesse dedicado todo aquele tempo ao estudo do próprio caso e, naquele instante, estivesse no púlpito e não no banco dos réus.
Talvez Jerónimo nunca tenha sido um orador tão brilhante como o foi naqueles dias; armado até os dentes com a erudição científica, discursos inflamantes e com a força de sua personalidade genial, ele defendia a própria causa mesmo sabendo perfeitamente que esta estava perdida e que pagaria com a vida.
Os ouvintes, todos seus inimigos, foram arrasados, vencidos e já estavam quase a ponto de inocentá-lo.
Jerónimo, entretanto, parecia não desejar a vitória.
Depois da auto-defesa, passou a elogiar Huss, dizendo que este, como o profeta Elias, subira aos céus numa carruagem de fogo para convocar seus indignos juízes e os que o odiavam, ao terrível julgamento de Cristo.
Suas palavras provocaram alvoroço na reunião.
Enquanto uns gritavam e jogavam-lhe ofensas, outros, que queriam salvar aquele homem notável, tentavam calá-lo.
Ele não se alterou.
- Vocês imaginam que tenho medo da morte? - Perguntou, com desprezo.
Mesmo daquela terrível morte preparada para mim pelos meus inimigos e falsas testemunhas, que hão-de responder a Deus por suas mentiras?
Vocês próprios não estão me tratando com uma barbárie imperdoável a cristãos, deixando-me apodrecer vivo um ano inteiro na cadeia?
Nunca me queixei, pois considero as queixas abaixo da minha dignidade.
Não quero comprar a minha vida com mentiras e reconheço aqui que, de todos os pecados que algum dia cometi, o maior e o mais imperdoável foi a minha traiçoeira renúncia, a minha vergonhosa fraqueza de renegar os ensinamentos de um justo que foi meu mestre e amigo.
Vocês condenaram Huss e Wyclif não porque eles, supostamente, alteraram os ensinamentos das Escrituras, mas porque eles desnudaram o orgulho, a corrupção e todos os vícios do clero.
Essas acusações não foram rebatidas e eu os denuncio como eles o fizeram!
É impossível descrever a cena agitada que se seguiu.
A testemunha desse acontecimento, o famoso italiano Poggio, escreve em suas memórias:
"No meio daquela tempestade, Jerónimo permaneceu calmo, pálido, mas estóico e orgulhoso.
Ele claramente desprezava a morte e até a chamava para si.
Interrompido pelas calúnias que partiam sobre ele de todos os lados, ele respondia a cada um, obrigando alguns a enrubescer e outros a calarem-se!".
Acompanhado pelos gritos de:
"Ele próprio se condenou!", Jerónimo foi levado para a cadeia e posto a ferros.
Cinco dias depois, em 30 de maio, após novas tentativas para convencê-lo a renunciar novamente, foi condenado à fogueira.
Ele permaneceu fiel ao seu corajoso e firme carácter até o fim.
Quando leram sua condenação, jogou seu chapéu aos presentes e colocou sobre a própria cabeça a carapuça enfeitada com demónios, destinada aos hereges; no local da execução, despiu-se sozinho e, quando o carrasco, por compaixão, quis acender o fogo às suas costas, ele lhe gritou:
- Tenha coragem!
Acenda na minha frente!
Se eu tivesse medo da fogueira, não estaria aqui!
Depois, voltando-se para o povo, ele começou a recitar alto o Credo e acrescentou:
- O que acabei de recitar é a confissão da minha fé, conforme os ensinamentos da Igreja Católica.
Estou morrendo somente porque não quis reconhecer como justa a condenação de Huss.
Quando o fogo passou a envolvê-lo, ele - como seu mestre entoou uma prece e somente a fumaça calou sua voz.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Acreditamos que a melhor forma de transmitir a impressão que causou sobre os contemporâneos a morte heróica dos dois mártires checos é transcrevendo as palavras de um dos membros do concilio.
Um fervoroso católico, Éneas Sílvio Picollomini, o futuro papa Pio II, escreveu:
"Huss e Jerónimo suportaram corajosamente a morte; eles foram para a execução como se fossem convidados a uma festa e nem com uma única palavra demonstraram a menor fraqueza.
Quando começaram a arder, entoaram hinos que foram cobertos pelas chamas e pela força do fogo.
Nenhum filósofo enfrentou a morte com a coragem com que eles enfrentaram a fogueira".
O concilio, com grande presteza, tomou as medidas necessárias para eliminar as mínimas lembranças de suas vítimas; tudo que lhes pertencia foi queimado e as cinzas foram jogadas no rio Reno.
Mas, os digníssimos e bondosos padres logo se convenceriam de que não é suficiente, baseando-se na lei, matar duas pessoas para exterminar as ideias que pregam, e que as cinzas de mártires são sementes perigosas que nem a água nem o fogo apagam.
Indestrutíveis, como o pensamento que lhes deu vida, essas cinzas pairam no ar por anos ou séculos para germinar e amadurecer a seu tempo.
Os injustos juízes veriam ainda em vida, e com os seus próprios olhos, a primeira colheita de sangue...

119 Comunhão de ambas as formas (corpo e sangue), cujos seguidores receberam o nome de podoboy ou utraquistas - Nota do autor.
120 Daí provém o nome calicistas, para se referir aos que são adeptos da comunhão pelo corpo e o sangue de Cristo, ou seja, pela hóstia e pelo vinho servido no cálice - Nota da editora.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Capítulo XI

Três anos haviam-se passado desde a morte de Jerónimo.
Chegara o dia 22 de julho de 1419 - dia de Maria Madalena - e os primeiros raios do sol iluminavam o monte nas cercanias de Usti, onde outrora pregara Huss, durante sua expulsão de Praga.
O local mudara consideravelmente de aparência e até recebera um novo nome, chamando-se agora monte bíblico de Tabor,121 em vez de morro Luzhitsky.
Nas barracas montadas à sua volta haviam-se instalado sacerdotes utraquistas, expulsos pela recente revolução católica da própria cidade de Usti e de outras localidades.
Em tempos normais havia muitos visitantes - os camponeses vizinhos reuniam-se em multidões para ouvir os sermões e comungar com o corpo e o sangue de Cristo.
Naquele dia, entretanto, no monte havia uma agitação nunca antes vista e os habitantes de Tabor andavam para todos os lados com ares de importância e preocupação.
Os olhares que dirigiam para as estradas que se espalhavam para todos os lados indicavam que aguardavam alguém.
Finalmente, ouviram-se cantos e, ao longe, apareceu uma grande procissão de homens, mulheres e crianças.
Era encabeçada por um sacerdote que trazia nas mãos um cálice e inúmeros estandartes agitavam-se ao puro vento matinal.
Os visitantes foram recebidos com gritos de alegria e colocados em volta de uma clareira no centro da qual elevava-se um altar.
Logo se ouviram mais cantos e, de todos os lados, começaram a chegar mais e mais multidões de fiéis.
A cada minuto crescia o número de visitantes.
Parecia estar acontecendo uma migração do povo e, naquela massa superior a 40 mil pessoas, reinava absoluta ordem.
Na multidão prevaleciam os trajes camponeses e as vestimentas simples de cidadãos.
As mãos que produziam o alimento - vermelhas e rudes -, os rostos magros e sisudos e aquela particular curvatura das costas provocada pelo longo trabalho acima das próprias forças indicavam que uma força estranha arrancara aquelas pessoas da luta diária pelo pão de cada dia e as atraíra irresistivelmente para lá.
A ideia de uma outra vida melhor iluminara-as e concedera-lhes um sentimento de superioridade, fé em si próprias e na própria força que transparecia na expressão de seus rostos, andar e movimentos.
O povo reuniu-se em volta do sacerdote:
uns ouviam com devoção o sermão, outros confessavam-se e terceiros comungavam entusiasticamente com o corpo e o sangue de Cristo.
Ao término da missa, os peregrinos sentaram-se na relva para ingerir as provisões que haviam trazido de casa; existia uma sensível unanimidade entre eles, lembrando as refeições irmanais dos primeiros cristãos.
Estavam unidas todas as classes sociais:
o cavaleiro e o camponês partilhavam amigavelmente do vinho e da caça; certa nobre senhora - em trajes de seda - e uma cidadã - num vestido barato, com um simples lenço de linho amarrado na cabeça - conversavam sobre crianças e afazeres de casa.
No monte Tabor, todos era realmente irmãos e irmãs.
A relação calorosa e amigável e o elevado sentimento religioso selavam-nos com algo indescritivelmente grandioso:
um ímpeto de amor e fé reunia os corações e elevava espíritos.
Ao terminar a refeição, todos separaram-se em grupos; uns passeavam pela clareira, outros sentavam-se em um canto e discutiam entre si as diferentes questões políticas e religiosas que os interessavam.
A partir da morte de Huss, as divergências internas na Boémia nunca mais haviam cessado; a excitação crescia constantemente, principalmente durante os últimos meses, quando a repentina mudança de opinião do rei - própria de Venceslau - não fora em favor dos hussitas.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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