Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 09, 2016 8:04 pm

Os conselheiros de "Cidade Nova", todos hussitas, haviam sido substituídos por fanáticos religiosos; as igrejas ocupadas por utraquistas tinham sido devolvidas aos católicos e as casas dos religiosos, ao clero anteriormente expulso.
Com sua habitual intolerância, o clero católico, imaginando estar com o poder totalmente em suas mãos, agira insolentemente e, com diversas opressões e ofensas, provocara o povo contra as medidas tomadas que, mesmo sem isso, já não agradavam à população.
O trovejar da ira popular, anunciando a tempestade que se aproximava, ouvia-se cada vez mais nitidamente.
Num grande grupo, composto em sua maioria por mulheres, estavam Marga Nakhodsky e Ana de Trotsnov; a primeira estava sentada com seus três filhos, enquanto a outra discursava entusiasticamente sobre uma pedra no centro do grupo que formara uma roda ao seu redor.
Sua antiga graça havia desaparecido:
as formas arredondadas femininas haviam-se alterado para uma magreza ascética, seu rosto magro estava pálido e, nos grandes e escuros olhos, luzia uma excitação fanática.
Trajava um vestido negro rigorosamente simples, um lenço de linho prendia seus cabelos e, numa correntinha de aço, trazia pendurada uma medalha de prata com a imagem de Huss.
Ana descrevia detalhadamente a morte do mestre.
- Foi assim, irmãs!
O Senhor me concedeu a graça de testemunhar os últimos minutos do mártir e ver o enviado dos céus que, por ordem divina, veio resgatar a alma do bem-aventurado Jan e levá-la à residência dos eleitos.
Esses crimes, entretanto, não ficarão impunes e o assassinato do justo provocará aqui na Terra uma terrível vingança.
Vamos, então, orar e defender a verdade!
Vamos permanecer fiéis até a morte ao "cálice" e ao Evangelho, para que o anjo destruidor, enviado para espalhar a ira divina, não nos atinja.
O rosto de Ana ficou vermelho, sua voz tornou-se profunda e sonora e o olhar extasiado dirigiu-se para o céu.
- Tempos difíceis se aproximam e os céus os anunciam com sinais visíveis e incompreensíveis a todos.
Lembrem-se do eclipse solar que aconteceu no dia em que Jan Huss compareceu diante do concilio - a escuridão foi tanta que a missa teve que ser realizada com lamparinas!
Tal evento anunciava, como as trombetas do Juízo Final, que Cristo - o sol da verdade - eclipsou-se ao ver tanta mentira e selvageria nos corações dos ímpios juízes.
E a chuva de sangue que caiu no terceiro ano e cobriu a neve?
E, finalmente, o último e recente sinal, o mais terrível de todos:
a cruz sangrenta que brilhou entre as nuvens e se transformou, à noite, em espada.
Somente surdos que não querem ouvir e cegos que não querem ver podem ficar indiferentes a isso!
Será que não está claro que a espada será desembainhada em defesa da cruz - símbolo de Cristo -, que a terra se cobrirá de sangue e que se aproximam terríveis desastres?
Então, na luta que se aproxima, vamos tentar estar do lado do Senhor e lutar pela santa verdade deixada para nós por Seu Filho Divino.
Para que o juízo celestial não nos lance no abismo de fogo onde, por todos os séculos, irão arder os impuros "padrecos" cobertos de sangue, maculados pela simonia, pelas crueldades e pela depravação!
Aqueles "padrecos" que, com sua mão sacrílega, assinam a sentença de morte de santos e nos proíbem daquilo que estabeleceu o próprio Salvador.
O corpo de Ana estremecia espasmodicamente e parecia que ela agarrava e asfixiava, com suas próprias mãos, os sacerdotes que odiava e sobre os quais falava naquele instante.
Seus sentimentos transmitiam-se aos ouvintes.
Em todos os rostos lia-se um terror supersticioso; algumas mulheres caíam em pranto, outras oravam em voz alta, persignando-se e batendo com a mão no próprio peito.
Outras ainda, mais aguerridas, juravam que não hesitariam diante de nada para defender o Evangelho e glorificar o mártir Jan Huss.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 09, 2016 8:04 pm

Próximos a esse grupo, junto a um toco de árvore que lhes servia de mesa, sentavam-se alguns homens em roda; restos de pão, carne e algumas bilhas vazias haviam sido colocados em cestos e postos de lado.
A conversa estava animada.
Lá havia alguns sacerdotes hussitas e, entre eles, Jan de Geliv - um monge premonstratense122 que abandonara a sua abadia e fora morar em Praga.
Seus explosivos sermões e sua fidelidade ao hussismo haviam conquistado rapidamente a simpatia do povo por ele.
À sua esquerda sentavam-se Milota Nakhodsky e mais um cavaleiro; à esquerda, Nikolai de Pista,123 administrador do castelo real de Hussinec, local de nascimento de Jan Huss.
Homem ilustrado, inteligente e com alto dom político, ele ocupara um alto posto junto a Venceslau, mas agora caíra em desgraça e fora expulso de Praga.
Perto dele, com os braços cruzados no peito e encostado a um carvalho, estava Jan "Zizka" de Trotsnov.
Sombrio, pensativo, ele pouco participava da conversa.
Falava Nikolai Huss.
Seu rosto corajoso e expressivo e seus olhos, que brilhavam com inteligência, demonstravam firmeza.
- É impossível que tudo continue como está, senão, a causa das verdades evangélicas estará perdida e, com ela, os direitos recentemente conquistados do nosso povo.
O rei está inteiramente sob a influência dos católicos e de Sigismundo; cada decreto seu é uma sangrenta ofensa a nós; os alemães já levantaram as cabeças e, se não nos opusermos agora a essa opressão, a grande Reforma deixada por Huss e marcada com seu sangue será esmagada.
Nós nos tornaremos alvo de impiedosa vingança por parte do clero católico.
O que podemos esperar deles está claro pelo que eles se permitem agora.
Gostaria de conversar com vocês, meus amigos, sobre as medidas que devem ser tomadas de nossa parte.
Jan de Geliv - que até aquele momento ouvira-o atentamente sentado no chão - levantou-se de repente e deu um murro na árvore.
- Que medidas?
Vou lhe dizer que medidas:
a violência deve ser respondida com violência e a guerra, com guerra!
Já temos mártires suficientes e suficiente sangue checo derramado!
Parece-me que já ficamos calados tempo demais e agora é preciso agir!
Basta que façamos as contas do quanto já sofremos e ainda suportamos.
Isso é suficiente para fazer com que pegue em armas todo checo, todo verdadeiro cristão que não pode ignorar que está ameaçado de perder as preciosas graças - o Evangelho e o mistério divino na forma que o próprio Cristo estabeleceu.
Não estamos sendo obrigados agora a nos reunir em campos, florestas e depósitos porque nos tomaram as nossas igrejas?
E, não satisfeitos com a nossa expulsão, os sacerdotes maometanos124 ainda nos provocam e ofendem de todos os modos.
Eis um exemplo - o pároco da igreja de São Estéfano!
Esse filho de Anticristo teve a ideia de benzer novamente a igreja e o altar, como se estes tivessem sido profanados pelos que lá realizaram os sagrados mistérios.
Eles jogaram fora os cálices e outros objectos sagrados dizendo-os contaminados e os substituíram por novos.
Fervo por dentro só de pensar sobre as calúnias e humilhações que os verdadeiros fiéis estão suportando e sobre a discórdia que esse ímpio clero semeia nas famílias!
Penso que, exactamente agora, chegou o momento de dar um verdadeiro basta a essa imundície!
- É verdade! Nada conseguiremos com submissão e pedidos!
Se a tentativa do senhor Nikolai levou à sua desgraça, com o que mais podemos contar? - Observou Milota.
- Do que você está falando?
Acabei de chegar da Morávia e não estou sabendo de nada. - Perguntou o sacerdote hussita.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 09, 2016 8:04 pm

- Então, ouça.
Foi um caso surpreendente!
O senhor Nikolai achava que se ele, tendo a alta confiança do rei, reunisse o povo checo e fizesse um pedido directo a Venceslau, este cancelaria as medidas injustas e restabeleceria a liberdade de comunhão nas duas formas.
Para isso, foi escolhido um dia quando o rei e a rainha, acompanhados por toda a corte, dirigiam-se à igreja de São Apolinário para a missa.
De repente, uma grande multidão de homens e mulheres cercou o séquito real.
Então, o próprio senhor Nikolai expôs o desejo do povo e, com lágrimas nos olhos, começou a implorar ao rei.
A bondosa rainha ficou comovida até o mais profundo da alma.
O próprio rei pareceu assustar-se, depois se ofendeu, ficou irado e respondeu ao nosso respeitoso pedido com a prisão do senhor Nikolai.
Deus sabe se o nosso amigo não pagaria com a cabeça se os conselheiros da "Cidade Nova", temendo a agitação que tomou conta da população, não saíssem em sua defesa.
Venceslau, então, limitou-se a expulsá-lo da cidade.
- Isso foi para o bem da nossa santa causa.
Agora, o senhor Nikolai trabalha com as pessoas dos arredores, convencendo-as a não se desviarem do caminho da salvação. - Observou Jan de Geliv, com uma grande risada.
- Estou certo de que triunfaremos se não ficarmos esperando feito bobos que eles nos dizimem.
- O irmão Jan falava agora mesmo sobre as discórdias que os "maometanos" semeiam nas famílias e sobre as calúnias que espalham.
Então é verdade que eles nos atribuem diversas maldades? - Perguntou o sacerdote morávio Vinok.
- Se é verdade? - Exclamou Jan de Geliv.
Todo o país foi inundado com escritos onde eles expõem abertamente que nós levamos connosco a comunhão em bilhas, que baptizamos nossos filhos em poças d'água ou fossos e que nos dedicamos a repugnantes orgias.
Os apelidos do tipo: "cobras venenosas", "cães sarnentos" e "lobos raivosos" são os mais doces que eles nos dão.
Quanto à discórdia que semeiam, é um deus-nos-acuda!
Em qualquer casa, onde qualquer um desses impuros enfia sua cara de raposa, começa a discórdia.
- Infelizmente, isso é verdade!
Você está certíssimo, Jan, e na minha família tenho dois tristes exemplos do mal que os católicos semeiam. - Observou, suspirando, o cavaleiro sentado ao lado de Milota.
Um de meus irmãos é um fervoroso cristão e dedica-se de corpo e alma aos ensinamentos de Huss.
Mas sua esposa está sob a influência de seu confessor - o pároco da igreja de São Pedro.
Ele mexeu tanto com a cabeça daquela imbecil e de seus dois filhos, que todos os três fugiram do meu irmão como se fugissem da peste.
O infeliz ficou abatido, mas a desgraça não acabou por aí...
Não sei se o senhor sabe, irmão Vinok, mas, em Praga, em cada uma das igrejas - de quase todas elas - abriram-se agora duas escolas paroquiais...
- Ouvi falar sobre isso, mas não sei a causa nem os detalhes.
- A causa é simples!
Todas as paróquias estão sob o patronato real e Venceslau pode usá-las à vontade; as escolas são mantidas com o dinheiro de cidadãos, mas estes se negam a entregá-lo aos católicos.
Então, os sacerdotes abriram escolas utraquistas nos campanários e adendos das igrejas.
Essas duas escolas existem na igreja de São Pedro.
Os confrontos e conflitos entre os alunos são constantes; há alguns dias, houve uma verdadeira batalha.
Os alunos da escola utraquista — esqueci de lhe falar que fomos apelidados de hussitas e utraquistas - saíam após as aulas, quando foram atacados pelos alunos católicos obviamente atiçados pelo seu mestre espiritual.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 09, 2016 8:04 pm

No começo, a molecada somente trocava insultos.
Depois, passaram a socos; alguém teve a ideia de tocar o sinal de alarme e a população começou a participar da briga.
Os atacantes, assustados, bateram em retirada; entre eles estava Danek, filho de meu irmão, que também começou a fugir.
Enquanto isso, a multidão aumentava.
O colega de Danek, correndo à sua frente, perdeu a cabeça de susto e, pensando que estava sendo perseguido, olhou para trás e, tomando o amigo por um perseguidor, deu-lhe uma punhalada na garganta, matando-o.
O povo enfureceu-se e, percebendo quem fora o mentor do acontecimento, atirou-se sobre a casa paroquial.
A mãe de Danek, ao ver o cadáver do filho, ficou possessa e foi a primeira a jogar uma pedra em seu "querido" confessor.
O digníssimo pároco conseguiu fugir, senão certamente o teriam esmagado.
- Esses confrontos sangrentos profanam a Igreja. - Acrescentou Milota.
Na igreja de São Miguel, o sacerdote católico matou um hussita.
Os nossos, naturalmente, não ficam atrás e cometem excessos.
- Não são excessos, mas uma justa vingança! - Gritou Jan de Geliv.
Já temos muitos mártires.
Mas, por enquanto, nenhum guerreiro que defenda corajosamente o cálice e o Evangelho de insultos e os seus adeptos da calúnia e da violência.
O que pensa de tudo isso, senhor Jan? - Dirigiu-se ele a Zizka, que praticamente não abrira a boca durante a conversa.
Este, levantando a cabeça, deu um sorriso enigmático.
- Ouvi tudo e compartilho inteiramente de sua opinião!
Existem momentos em que um bom golpe de machado, ou simplesmente de um chicote, é melhor do que qualquer sermão erudito.
Deus mandou liquidar os filisteus e outros inimigos do povo eleito por Ele.
A nossa luta com o Anticristo e seus seguidores é ainda mais justa!
Mas para aniquilar o monstro é necessário escolher o momento certo e a acção correta.
E, observando daqui o monte Tabor e os bravos rapazes que aqui se reuniram, imaginei o seguinte:
este local não lhes parece uma fortaleza criada pelo próprio Senhor? - Ele apontou com a mão ao seu redor.
As profundas fendas por onde correm as águas de Luzhnits defendem-na pelos três lados melhor do que quaisquer fossos, e esta estreita faixa de terra, que conduz para baixo, é uma ponte natural facílima de defender!
E o povo que aqui se reuniu?! - Zizka apontou para a multidão de camponeses e cidadãos que se encontrava por perto.
Vejam aqueles rostos corajosos, punhos de ferro e olhos brilhando de entusiasmo!
Dêem-lhes armas, indiquem o alvo e a motivação, e teremos um exército imbatível.
- Muito bem pensado e muito bem dito, meu amigo! - Elogiou-o o senhor Nikolai.
Estou convencido de que, no momento certo, Deus irá inspirá-lo como O fez quando Venceslau ordenou desarmar os habitantes de Praga!
Zizka soltou uma forte gargalhada.
- Pois é. Aquela brincadeira foi óptima!
Os cidadãos ficaram perdidos e não sabiam, naquele tempo, o que fazer.
Assim, minha sugestão de armarem-se e seguirem-me até o rei foi muito bem-recebida.
Nunca esquecerei a cara do velho quando cheguei com o meu exército e declarei que os fiéis cidadãos de Praga estavam à sua disposição e prontos a sacrificar sua vida e suas posses, bastando para isso que ele ordenasse e indicasse a quem deveríamos atacar.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 09, 2016 8:05 pm

- Ah! Ah! Ah!
Se isso acontecesse comigo, eu indicaria os cartesianos em Smikhov!
É lá que se esconde o ninho de cobras alemão... - Resmungou Jan de Geliv, com ódio e cerrando os dentes.
- O velho Venceslau limitou-se a agradecer, elogiou o esforço e ordenou que retornássemos o mais rapidamente possível à cidade.
A prova de que ele teve medo de nós foi a sua precipitada viagem a Kunratitska.
Bem, está na hora de terminar a nossa conversa; lá vêm as mulheres com a colecta. - Concluiu Zizka.
- Senhor Jan, dia 30 de julho pretendo organizar uma procissão e gostaria de conversar com o senhor em particular... - Sussurrou-lhe Jan de Geliv, rapidamente.
Aquele só teve tempo de aquiescer com a cabeça, pois se aproximou um grupo de mulheres, encabeçado por Ana e Marga, portando bandejas onde os presentes depositaram seus donativos.

121 Tabor, em checo, significa barraca.
Mais tarde, a esse nome foi associada a imagem do monte bíblico Thabor - Nota do autor.
122 Ordem monástica - Nota do tradutor.
123 Mais conhecido pelo nome de Nikolai Huss - Nota do autor.
124 Apelido dado ao clero católico - Nota do autor.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 09, 2016 8:05 pm

Capítulo XII

A noite de 28 para 29 de julho descera sobre Praga.
A cidade estava silenciosa e tudo parecia dormir.
As ruas estavam vazias e não havia uma única luz nas janelas.
Entretanto, a cidade adormecida não dava a impressão de paz e descanso.
Destacamentos da guarda municipal faziam rondas com maior frequência do que o habitual.
Mas, depois que eles passavam, das escuras esquinas surgiam sombras que, deslizando pelas paredes, desapareciam dentro de casas onde já eram esperadas, pois, ao sinal combinado, a porta se abria e, imediatamente, fechava-se atrás deles.
Esse movimento também acontecia na vizinhança da casa dos Valdstein.
O enorme edifício parecia dormir, mas, pela escura e estreita viela de um dos lados do prédio, passavam sorrateiramente pessoas envoltas em capas escuras e, depois de bater por três vezes na pequena porta oculta na parede, desapareciam dentro da casa.
Aquela era a mesma porta por onde Túlia entrara para avisar sobre o atentado do cardeal.
Agora, o mesmo Broda deixava entrar e acompanhava os visitantes.
Mas, em vez de subir as escadas para os aposentos dos donos, os visitantes nocturnos passavam por um estreito corredor no fim do qual havia uma escada de pedra que conduzia ao porão.
Numa baixa e abobadada sala, com barricas e toneis instalados pelas paredes, reuniam-se algumas pessoas.
Em volta da longa mesa de carvalho, que servia ao adegueiro para encher garrafas e jarras de vinho - sobre a qual havia alguns candelabros com velas -, os convidados sentavam-se nos bancos de madeira.
Após trazer o último dos visitantes, Broda também se sentou à mesa, fechando previamente a resistente porta do andar superior.
No centro da mesa, encontrava-se o conde Hinek; ao lado direito do velho Valdstein, Nikolai Huss, Jan Zizka, Milota Nakhodsky e mais três senhores; à sua esquerda, o sacerdote Jan de Geliv e um cidadão de rosto moreno e inteligente.
Vok encontrava-se sentado em frente ao pai e falava calorosamente.
O jovem conde emagrecera demais nesse ínterim; os grandes olhos negros haviam perdido a alegria e a expressão zombeteira; a boca perdera o sorriso de desprezo.
Sua aparência era corajosa como antes, mas sombria e até severa.
- As notícias que trouxe não prometem nada de bom e, parece-me, exigem uma imediata decisão.
O rei está tão indisposto connosco que só podemos esperar medidas radicais.
Percebia-se um tom zombeteiro em sua voz.
- Os senhores sabem que estamos cercados de espiões que se imiscuem em nossas reuniões, observam nossas acções e informam tudo em detalhes ao rei e nem sempre dizem a verdade.
Nos últimos tempos, Venceslau estava tão preocupado, assustado e suspeitando de tudo, que ficar perto dele era um verdadeiro castigo!
Eu soube, por acaso, que sua ira foi provocada pela informação que recebeu de que há uma confabulação para lhe tirar o trono e substituí-lo pelo senhor Nikolai ou por você, Zizka, que supostamente também quer enfeitar a cabeça com a coroa da Boémia.
Um sorriso malicioso surgiu no rosto inteligente e expressivo de Nikolai Huss.
- O que faz os medrosos é a consciência suja e o medo... - Disse ele.
- Você está absolutamente certo:
o medo exagera o tamanho das coisas. - Confirmou Zizka, rindo alto.
Mas eu, de qualquer modo, abdico voluntariamente da coroa real em favor do senhor Nikolai que, sem dúvida, irá usá-la com maior dignidade que Venceslau, pois é um fiel filho da nossa terra e checo natural!
Exaltando-se cada vez mais, ele continuou:
- Ai do país cujo rei é um estrangeiro!
No fundo de sua alma sempre estarão ocultos o apego pela tribo de onde saiu e uma disfarçada mas inata antipatia para o povo, cuja coroa ele usa!
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 09, 2016 8:05 pm

Venceslau, um alemão de Luxemburgo, é a prova directa disso!
Ele não é realmente um homem mau e foi, às vezes, até justo.
Mas, mesmo assim, ele é estranho ao povo checo, a suas glórias e a seus interesses.
Está sempre entrelaçado com Sigismundo e o seu sangue teutónico o atrai aos alemães que caíram sobre a nossa pátria como revoada de gafanhotos, enrolaram-nos como serpentes por todos os lados e nos oprimem retirando de nós o pão de cada dia, a terra sob os nossos pés, a nossa língua, a nossa fé e a nossa liberdade!
Ele está sendo ingrato com o país que lhe dá poder, riqueza e honrarias.
Em troca, ele oferece suas vantagens aos estrangeiros e permite a morte de seus mais famosos filhos, como Huss e Jerónimo!
Se em seu peito pulsasse um coração checo, ele estaria do nosso lado e nos apoiaria em vez de nos oprimir.
Ele sabe muito bem que a verdade evangélica está do nosso lado e que lutamos pela liberdade da terra pátria; ele sabe que os "padrecos" católicos são serventes do Anticristo romano e que são o mais seguro apoio dos assaltantes alemães que eles mesmos trouxeram consigo e que queriam atrelar-nos como bois e escravos à sua biga triunfal!
E o que acontece?
Venceslau continua a apadrinhar os imprestáveis "padrecos" e priva de suas graças pessoas como Nikolai!
O único olho de Zizka brilhou maldosamente e ele cerrou os punhos.
Jan de Geliv enrubesceu.
- Vamos acabar com o jugo alemão e o traidor Venceslau, que bárbaros! - Gritou ele, com voz surda de indignação.
- Acalmem-se! Tudo o que estão dizendo é a pura verdade.
Venceslau não tem e não pode ter um sentimento paternal para connosco!
Ele está contra nós da mesma forma que esteve contra os poloneses e lituanos a favor da Ordem Teutónica!
Ele sempre sacrificará cem checos por um alemão!
Mesmo assim, não devemos agir contra ele, pois Sigismundo é mil vezes pior.
Até o povo está acostumado ao velho rei, pelas migalhas de justiça e aparente disposição que ele às vezes lhe joga. - Observou Nikolai Huss, calmamente.
Assim, não devemos privá-lo do trono.
Somente vamos obrigá-lo a mudar sua política e retirar católicos do seu conselho, substituindo-os por pessoas fiéis à nossa santa causa.
Podemos fazer muito para isso:
todos os camponeses do reino estão connosco!
Entretanto, para atrapalhar os planos de Venceslau é necessário conhecê-los.
Portanto, meu conde, prossiga e conte-nos tudo o que conseguiu saber.
- Em Kunratitska estão com receio de mim e, por sua actual disposição, o rei não confia em ninguém, nem mesmo na nossa bondosa rainha.
Por isso não está nada fácil ficar sabendo de tudo. - Começou Vok.
Mesmo assim, soube de fonte fidedigna que Venceslau recebeu uma carta do irmão, após a qual conversou longamente com seu podkomornik125 Jan Lazan e decidiu mudar os conselhos municipais da "Velha" e da "Pequena Cidade", da mesma forma como foi feito na "Nova Cidade", isto é, substituindo os nossos por "maometanos".
- Para essa informação do conde, posso dar algumas explicações. - Interrompeu o cidadão que permanecia calado até então.
Um de meus amigos trabalha como escrevente de Lazan e me contou que a mudança dos conselhos municipais está realmente sendo entregues aos católicos; agora, seremos proibidos de realizar procissões púbicas e quaisquer reuniões religiosas, enquanto os alemães...
- Como? Vão nos proibir as procissões?
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 09, 2016 8:05 pm

Se o tentarem, vão arrepender-se amargamente!
Convoquei uma procissão para domingo e ela irá se realizar, eu juro! - Não aguentou Jan de Geliv, enfurecido.
- Calma, calma, padre Jan!
Esteja certo de que sua procissão irá se realizar e deixe Peter Kuss terminar de contar o que sabe sobre os alemães. - Interrompeu-o, impacientemente, o conde Hinek.
- Sei que os Leinhardt estão incitando os seus para provocar um confronto no domingo. - Prosseguiu Kuss, um rico mercador de carne e fiel hussita.
Os cidadãos alemães já fizeram as suas reuniões; os açougueiros e cervejeiros já concordaram em provocar a desordem.
Aquele velho cão, Kunts, mantém relações com o juiz Niklashko, que - como um verdadeiro católico - não quer saber de nada além de Roma e propicia as denúncias dos traidores checos que estão sentados entre nós nos conselhos municipais.
O que vim lhes prevenir é de que o dia de domingo será muito agitado.
- Obrigado pelas preciosas informações. - Disse Zizka.
Tomaremos as medidas necessárias e os conspiradores não nos pegarão de surpresa!
Meus irmãos, proponho que todos os nossos estejam armados e prontos a se defender.
Para mostrar que não temos medo do inimigo, iremos ao prefeito e exigiremos do conselho municipal a libertação daqueles infelizes que eles prenderam alguns dias atrás sob a alegação de que provocavam desordens.
- Certo, certo!
Uma grande ideia, Zizka! - Apoiou Vok.
Entre aqueles presos está o meu pobre Matias e quero libertar o fiel servo de minha falecida esposa que foi preso somente por defender um dos nossos de um grupo de servos da catedral.
- Nós o libertaremos!
E agora, amigos, vamos discutir as medidas necessárias; existe muito a fazer e só temos o dia de amanhã. - Animou-se Zizka, que estava transformado e inspirado pela sede de acção.
Todos se juntaram em volta dele e continuaram a confabular à meia-voz.
Uma hora depois, quando os chefes do movimento hussita se separaram, já tinham elaborado um detalhado plano de acção.
O domingo de 30 de julho era um dia claro e calorento.
Muito antes do início da missa, fileiras de fiéis seguiam em direcção à igreja da Virgem Maria Imaculada, designada aos utraquistas por decreto real.
Um observador atento talvez se surpreendesse com o pequeno número de mulheres naquela multidão e com o ar sombrio e preocupado de cidadãos e artesãos, todos, sem excepção, armados:
uns com espadas e punhais; outros com dardos e lanças; outros ainda com simples porretes de madeira.
O interior da igreja logo foi completamente tomado.
Mas a multidão continuava a chegar, lotando o pátio, a rua e até a travessa vizinha.
Ao término da missa, Jan de Geliv subiu ao púlpito e começou o seu costumeiro e exaltado sermão.
Dessa vez ele estava particularmente excitado.
Sua voz trovejante era ouvida até na rua através das portas escancaradas; cada palavra sua calava fundo no coração dos ouvintes.
Ele falava das desgraças dos tempos que estavam passando e das perseguições que suportavam os verdadeiros servos de Cristo.
- Sim, meus irmãos, os nossos sofrimentos são grandes!
Mas não vamos nos desesperar nem desanimar, pois tudo o que acontece já está escrito nas Escrituras e o apóstolo João viu tudo isso como num espelho.
Nem poderíamos duvidar, mesmo por um instante, da visão profética do aluno de Cristo, descrita no Apocalipse:
"E olhei, e eis um cavalo pálido, e o que estava assentado sobre ele tinha por nome Morte; e o inferno o seguia; e foi-lhe dado o poder para matar a quarta parte da terra com espada e com fome, e com peste, e com as feras da terra!".
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 09, 2016 8:06 pm

Em seguida, veio a explicação que via no cavaleiro apocalíptico o Papa trazendo atrás de si o inferno na pessoa do viciado, maldoso e sequioso clero - verdadeiro exército satânico.
O pregador descrevia todas as desgraças que o Anticristo romano e seus partidários despejavam sobre a Boémia:
guerras, ataques de assaltantes estrangeiros, rios de sangue derramado e o martírio de inocentes por uma causa sagrada, entre os quais, os principais eram o santo Jan Huss e Jerónimo de Praga!
- Todas essas vítimas, cujo sangue clama aos céus por vingança, o profeta viu e suas palavras abrem diante de nós o segredo do mundo de além-túmulo, quando diz:
"E quando ele retirou o quinto selo, eu vi debaixo do altar as almas dos que foram mortos por amor da palavra de Deus e por amor do testemunho que deram.
E estes clamavam com grande voz, dizendo:
'Até quando, ó verdadeiro e santo Senhor, não julgas e vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?'".
As explicações que acompanharam esse trecho convenceram os ouvintes de que São João referia-se aos mártires checos, mortos injustamente pelo concilio, e mostrava o caminho que deveriam seguir para ser o instrumento da ira divina.
- Ouçam só as palavras do apóstolo e vocês não mais duvidarão da missão que o Senhor está lhes incumbindo:
"E iraram-se os pagãos, e veio a Tua ira e o tempo de julgar os mortos e vingar aos Seus servos, profetas e santos e tementes de Seu nome, pequenos e grandes e destruir os destruidores da terra".
Pois, preparem-se todos para serem executores da vontade divina!
E difícil descrever o efeito que surtiu esse sermão sobre a excitada e fanática multidão que lotava o templo.
As palavras explosivas do ex-monge premonstratense conseguiram preparar a massa para a luta.
Externamente, tudo parecia calmo.
Mesmo que os rostos estivessem vermelhos e as mãos apertassem corajosamente as armas, os lábios cantavam hinos e a procissão seguiu atrás de Jan que, paramentado, ia à frente segurando o cálice.
Um rio de seres humanos corria lentamente pelas ruas da "Cidade Nova", mas estancou de repente, ao atingir o templo de São Estéfano.
As portas da igreja estavam fechadas por ordem do sacerdote que, com isso, queria expressar sua desaprovação aos hussitas.
A escolha do momento para tal desafio fora bastante inoportuna.
Inicialmente, ouviu-se entre o povo um baixo murmúrio que rapidamente se transformou em rugido; a turba arremeteu para a frente e, num instante, as pesadas portas estavam quebradas.
Se o próprio pároco caísse nas mãos da massa enfurecida já estaria morto; mas, para sua própria felicidade, ele escondeu-se e a multidão, satisfeita com sua primeira vitória, seguiu adiante.
A casa de Milota Nakhodsky situava-se numa grande praça da Nova Cidade, em frente à prefeitura.
No dia 30 de julho, de manhã, no quarto cujas janelas saíam para a praça, estavam Marga e Ana.
Depois da morte de Rugena, a irmã de Zizka mudara-se para a casa da amiga, ajudando-a nos afazeres domésticos e, ao mesmo tempo, participando activamente no grande movimento nacional-religioso que incendiara toda a Boémia.
Pálidas e emocionadas, ambas olhavam pela janela, observando, temerosas, o que se passava na praça.
Os conselheiros municipais reuniram-se na prefeitura; um destacamento da guarda policial perfilou-se contra uma das ruas, com o visível objectivo de impedir a passagem da procissão quando esta chegasse ao mercado.
Marga estava particularmente temerosa; o marido proibira a ela e a Ana de irem naquele dia à igreja, e a ordem de preparar muitos curativos e pomadas convenceram-na de que Milota e Zizka previam um confronto sangrento.
Por isso, ainda na véspera, ela mandara as crianças para os Zmerzlik e, agora, aguardava ansiosamente os acontecimentos.
Ana, externamente, parecia calma e observava a rua com olhar severo e perspicaz.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 09, 2016 8:06 pm

- Veja! - Disse ela, cutucando a amiga.
Os Leinhardt, com um grupo de alemães, dirigem-se à prefeitura; isso não promete nada de bom.
- Mas, claro!
Esses dois patifes dirigem toda a confusão de Praga.
Em seu ódio aos checos, eles procuram qualquer motivo para provocar derramamento de sangue.
Respondeu Marga e, benzendo-se, murmurou:
- Meu Senhor!
Guarde Milota e faça-o retornar para mim inteiro e incólume.
Naquele instante, ouviu-se de longe um surdo ruído.
Em seguida, cada vez mais claramente ouviu-se um canto - misturado aos gritos e palavrões dos guardas, em sua inútil tentativa de conter a multidão que, esmagando-os, instantaneamente se espalhou pela praça.
Jan de Geliv, que seguia na frente, parou diante do prédio da prefeitura.
Ana abriu a janela, impacientemente, e pôs a cabeça para fora.
Do andar superior ela via tudo muito bem.
A voz sonora do padre Jan distinguia-se perfeitamente do ruído da multidão e chegava até ela.
Ele exigia dos conselheiros municipais - que naquele instante apareceram nas janelas - a imediata libertação das pessoas presas injustamente alguns dias antes.
- Veja lá, na janela à esquerda, atrás do juiz Niklashek está Guints Leinhardt! - Observou Ana.
- Nem quero olhar para ele! - Respondeu Marga, afastando-se da janela.
Sinto-me mal só de passar perto dele.
Mas Ana já não a ouvia; toda a sua atenção estava tomada pela conversação que se realizava diante da prefeitura.
A resposta do prefeito ao pedido de Jan de Geliv foi abafada pelo surdo rumor que correu pelas compactas fileiras da multidão, mas pelo gesto de sua mão dava para perceber que ele ousara dar uma resposta negativa aos hussitas.
De repente Ana soltou um grito e empalideceu mortalmente.
- Meu Deus, o que houve? - Balbuciou Marga, assustada, correndo para ela.
- Guints jogou uma pedra no cálice e parece que o atingiu!
Eu vi o padre Jan balançar! - Disse Ana, com voz entrecortada.
Marga pôs as mãos na cabeça.
- O cálice foi atingido?
O sangue de Cristo foi jogado por terra?
Oh! Que sacrilégio!
E o fogo dos céus não o matou! - Sussurrou ela, fora de si, e também colocou a cabeça para fora da janela.
A pedra atirada pela insolente mão atingira o cálice e, realmente, quase o arrancara das mãos do sacerdote.
Ao ver tão inusitada insolência, a turba emudeceu.
Depois, um urro selvagem escapou de milhares de peitos.
Parecia que um vento tempestuoso agitara aquele mar de cabeças, e a massa popular atirou-se à frente, atacando a prefeitura.
Todas as portas e entradas do prédio estavam previamente bloqueadas e a guarda municipal defendia-se corajosamente, mas nada podia fazer contra a avalanche que arremetia cegamente para a frente, derrubando todos os obstáculos.
Broda combatia nas primeiras fileiras.
Ele trabalhava ardorosamente com o machado como um jovem e, sob seus poderosos golpes, a porta de carvalho partiu-se em pedaços.
Foi o primeiro a entrar no prédio, deixando atrás de si uma trilha de sangue de enlouquecidos defensores; atrás dele, atendendo ao poderoso chamado de Zizka, ondas de atacantes avançaram aos gritos.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 09, 2016 8:06 pm

Toda a resistência foi quebrada; pisoteando e derrubando tudo pelo caminho, o povo, finalmente, irrompeu na sala onde se encontravam os conselheiros.
Alguns fugiram, ou se esconderam, mas sete deles foram agarrados e jogados pela janela.126
Entre os que não conseguiram fugir estavam os dois Leinhardt.
Guints, de costas para a janela, defendia-se desesperadamente.
O pai fora derrubado pelos que fugiam e, por sua excessiva obesidade, não conseguia levantar-se.
Broda, ao irromper na sala, tropeçou nele e soltou um palavrão.
Depois, passando por cima, gritou aos que o seguiam:
- Vamos lá, irmãos!
Furem esta barrica alemã e libertem o sangue e o suor checo que o fizeram engordar.
Um cidadão, um enorme botchar, gargalhando, enfiou a lança na barriga de Leinhardt e este uivou de dor, debatendo-se em agonia.
Nesse ínterim, Broda atacou Guints e, entre eles, começou uma desesperada luta.
Ágil e conhecedor das artes marciais, Broda decepou o braço do oponente junto com a espada e, em seguida, agarrou o enfraquecido Guints pelo cangote e jogou-o pela janela.
- Peguem-no! - Gritou ele aos que estavam embaixo.
Foi ele que atirou a pedra no cálice!
A praça transformou-se num terrível espectáculo.
As pessoas jogadas de cima eram recebidas por uma floresta de lanças e dardos.
Não satisfeito com isso, o povo jogava no chão os corpos deformados e ensanguentados e matava impiedosamente os que ainda respiravam.
A turba tratou Guints de modo especial e seu cadáver deformado logo se transformou num pedaço de carne sangrenta.
Ana e Marga observavam com ansiedade a revolta que se desenrolava à sua frente.
Ao verem os conselheiros sendo jogados pelas janelas, Marga caiu de joelhos, chorando e rezando.
Ana não se moveu; ela não tirava seu brilhante olhar do cenário e somente o tique nervoso das finas narinas indicava sua emoção.
O desfecho sangrento parecia não assustá-la - pelo contrário, provocava nela uma selvagem exaltação.
Das casas e ruas corriam pessoas armadas; todas as igrejas da cidade começaram a tocar o alarme e os sinos dobravam em triste acompanhamento ao rugido do mar humano, cuja disposição era tão ameaçadora que Jan Jasan, que chegara com 300 cavaleiros para dispersar o levante, achou por bem bater em retirada.
Fortes pancadas na porta de entrada chamaram a atenção de Ana:
ela debruçou-se na janela e viu um pequeno grupo de pessoas, entre as quais teve tempo de distinguir Vok e Broda, que seguravam um homem ensanguentado.
- Trouxeram um ferido! - Gritou ela, correndo para baixo pela escada.
Mas Marga chegou antes; a ideia de que o ferido podia ser Milota dera-lhe asas.
O ferido era Matias, que foi deitado sobre um banco num quarto do andar térreo.
- Ana, traga água! - Ordenou Zizka, que ajudou, com Kuss, Vok e Broda, a transportar o velho.
Este tinha dois ferimentos profundos, um no lado do corpo e outro na cabeça.
Examinando o ferimento, Zizka balançou a cabeça.
- O velho está acabado.
Aquele cão alemão feriu-o mortalmente.
Nós deveríamos ter esperado para salvá-lo depois, quando tudo tivesse se acalmado.
Acordado com água fria, Matias logo abriu os olhos e seu olhar turvo brilhou de alegria quando reconheceu os que o cercavam.
- Estou morrendo... - sussurrou ele fracamente - mas morro feliz!
Meu bom senhor e você, Broda, não esqueceram do velho... libertaram-no e não o abandonaram em seus últimos momentos...
Logo encontrarei a querida senhora condessa e seu pai... e lhes direi que a Boémia está se levantando para... vingá-los dos malditos "padrecos"...
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 09, 2016 8:06 pm

Naquele instante, Matias percebeu Zizka, semi-cerrou os olhos e começou a olhá-lo fixamente.
Algo estranho acontecia com ele.
Levantou-se de repente, com inesperada força; seus olhos, agora bem abertos, estavam dirigidos para algo invisível aos presentes.
- Tome da espada, Jan "Zizka" de Trotsnov...
Deus o inspirará, dar-lhe-á sorte e fará de você um guerreiro invencível pela santa verdade, pela qual morreram Huss e Jerónimo.
Coloque o cálice na sua bandeira e você nunca será derrotado!
Como um flagelo de Deus, você cairá sobre os nossos inimigos...
Glória e sucesso à nossa causa!
Sua voz repentinamente se apagou.
Esse esforço pareceu cortar sua última ligação com a vida.
Matias desabou, seu corpo esticou-se e o braço levantado caiu inerte.
Profundamente impressionados com o acontecido, os presentes ficaram um tempo em silêncio.
Zizka foi o primeiro a se recuperar.
- Que se cumpram as palavras de Matias!
Não por mim, pois não sou ambicioso nem anseio fama pessoal, mas pela nossa querida pátria, a quem desejo felicidade e liberdade. - Disse ele, com comoção, persignando-se.
Entretanto, para que os acontecimentos de hoje não passem em vão, não podemos ficar de braços cruzados!
Deixemos as mulheres cuidando do bom velho e voltemos à prefeitura.
É necessário dar um prosseguimento correto ao movimento popular e tomar medidas defensivas que nos permitam possuir a cidade.
Assim que nos cercarmos, o rei perceberá o que lhe resta fazer.
- Vou levar-lhe a notícia do que aconteceu aqui. - Disse Vok.
Após rezarem em silêncio em volta do corpo, todos eles saíram.
O castelo Ventselstein - a nova residência real - fora recentemente construído por Venceslau, perto do povoado de Kunratitska.
Desde o momento em que Zizka colocara diante do rei um exército de praguenses armados, este deixara de se sentir seguro na capital.
Agora - verão de 1419 -, Venceslau residia no novo castelo.
Sentado junto à janela e cercado por alguns favoritos, o rei ouvia a leitura de um livro sobre caçadas, sem prestar atenção.
Seus olhos passeavam em volta distraidamente e com ar de insatisfação – ele, às vezes, abria-os por completo e ficava olhando estupidamente diante de si; outras vezes, semi-cerrava-os e mexia estranhamente com as sobrancelhas descabeladas.
Sua mão apalpava nervosamente o cabo dourado do estilete que trazia à cintura.
Venceslau chegara aos 60 anos.
A vida turbulenta e o abuso do vinho haviam deixado marcas em sua face outrora bonita e atraente.
Seu rosto definhara e sua cor tornara-se rubro-cinzenta; o lábio inferior caíra e os olhos - inchados e opacos de ancião, com a parte branca agora amarelada - enchiam-se de sangue à menor emoção; uma maldosa zombaria pronunciava-se em todos os seus traços.
O carácter do rei mudara tanto quanto sua aparência.
Sua benevolência - por vezes, maliciosa -, o sentimento da verdade, a alegria, a franqueza no falar e o gosto por histórias picantes haviam-se alterado para uma sombria desconfiança que frequentemente se transformava em fúria.
Sua desconfiança, aliás, não poupava ninguém, nem mesmo sua submissa e religiosa esposa, a quem ele grosseiramente acusava de heresia e de agir em conjunto com seus inimigos.
A rainha Sofia suportava sem rancor as atitudes do marido, sofrendo em silêncio.
Somente a prece lhe dava forças para suportar até o fim o amargo destino.
De manhã, acontecera uma triste cena, que magoara muito a rainha - ainda mais por ter sido presenciada por alguns cortesãos.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 09, 2016 8:07 pm

Profundamente ofendida, Sofia retirara-se para seus aposentos e, engolindo as lágrimas, tentava distrair-se bordando uma toalha para o altar da capela do castelo.
Com ela estava uma jovem dama da corte, sobrinha do senhor Vartenberg.
Percebendo o estado de espírito da rainha, ela não se decidia a quebrar o silêncio e observava o que acontecia no pátio do castelo.
- Majestade! - Exclamou ela, de repente.
O conde Valdstein acabou de chegar.
Aparentemente, veio com muita pressa, pois está todo empoeirado e seu cavalo está coberto de espuma.
A rainha levantou a cabeça, olhou fixamente para a jovem e um triste sorriso passou por seus lábios.
- Percebo, querida Maria, que a chegada do conde deixou-a muito emocionada.
Talvez o motivo da pressa dele seja alguém que ele quer logo ver, alguém que lhe agrada e atrai em Ventselstein.
A jovem corou e balançou negativamente a cabeça.
- Não, não!
Nada aqui atrai o conde Vok.
Ele ainda não esqueceu sua falecida esposa.
E, no momento, está com um ar sombrio e preocupado.
Provavelmente esteja trazendo uma importante novidade.
A rainha empalideceu.
- Oh, meu Deus!
Será que aconteceu algo em Praga? - Balbuciou ela, à meia-voz.
Isso irá novamente perturbar o rei, que está doente.
O médico proibiu-lhe qualquer emoção!
Depois de pensar por um momento, Sofia levantou-se e, segurando a ponta do seu longo vestido de veludo, dirigiu-se às pressas aos aposentos do marido.
Maria seguiu-a como uma sombra.
Sem entrar no quarto onde se encontrava o rei, a rainha parou atrás da cortina abaixada.
Um pajem interrompeu a leitura, informando que o conde Valdstein solicitava permissão para ver o rei imediatamente.
- Que entre! - Ordenou Venceslau.
Ele já não é mais o Vok de antigamente, mas mesmo assim poderá nos divertir com algo e desanuviar este tédio mortal.
Depois de alguns instantes, entrou o jovem Valdstein.
Ao ver seu traje empoeirado e seu ar sombrio, o rei franziu o cenho.
- Meu amigo, você está com uma triste aparência.
Parece-me que, em vez de me divertir, irá somente me zangar!
Mas o que quer que seja, diga logo as más notícias.
Pelos seus trajes, concluo que se apressou muito para trazê-las.
- O senhor está absolutamente certo.
O que devo informar a Vossa Majestade é muito triste...
- Ah! Ah! Ah! - Riu, de repente, Venceslau.
Será que os praguenses elegeram Nikolai Huss para ser rei da Boémia em meu lugar?
Seus olhos em órbitas profundas acenderam-se de raiva.
- Sua Majestade deve estar brincando!
A ideia de tal eleição somente poderia originar-se da cabeça de algum delator excessivamente prestativo.
De qualquer modo, não seria eu a lhe trazer semelhante notícia. - Respondeu Vok, ficando levemente emburrado.
- Que maravilha!
Estou encantado com as provas de fidelidade de todos os que me cercam.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 09, 2016 8:07 pm

E, como ainda sou rei, ordeno-lhe que me diga com o que me alegraram desta vez os meus fiéis praguenses... - Resmungou Venceslau, raivosamente.
Com todo o respeito, mas não omitindo nem abrandando nada, Vok descreveu o terrível acontecimento de 30 de julho.
À medida que ia contando, o rosto do rei ia ficando rubro-lilás, para surpresa e horror dos cortesãos presentes, também perplexos com a narrativa de Vok.
Quando o conde contou sobre os conselheiros municipais que haviam sido jogados pelas janelas e mortos, a ira do rei explodiu.
Ele estremeceu como em febre e seus olhos injectaram-se de sangue.
- Ah! Esses patifes subversivos! - Rugiu, selvagemente, cerrando os punhos.
Eles ousaram me desobedecer e matar os conselheiros que eu próprio designei!
Mas, desta vez, esses malditos revoltosos pagarão caro a sua insolência!
Vou mostrar quem sou e arrancar-lhes para sempre a vontade de ignorar as minhas ordens!
Conheço os traiçoeiros mentores de todos esses assassinatos e confusões:
lakubek, Jan de lessenits, Nikolai Huss, Jan de Geliv e outros cães sarnentos!
A minha paciência finalmente esgotou!
Vou acabar com esse ninho de hereges!
Vou enforcar todos...
Vou esquartejar... Empalar...
Ele sufocava e não conseguia mais falar.
As últimas palavras do rei fizeram Vok melindrar-se e a ira de Venceslau de repente desabou inteira sobre ele.
- Você também pertence a esse bando, junto com seu pai!
Ambos estavam de corpo e alma ao lado do imprestável e blasfemo Huss, que provocou tantas desgraças na Boémia!
Por ele e pelo tagarela Jerónimo vocês sempre sacrificaram meus interesses e minha paz!
Vok endireitou-se e olhou sombriamente para o rei.
- Meu rei!
Sou checo e estou pronto a defender com sangue a sagrada memória dos mais notáveis filhos de minha pátria!
A vergonha e a desgraça da Boémia não foram provocadas nem pelos puros e elevados ensinamentos de Huss, nem pelo apego de seus seguidores às verdades evangélicas!
Os estrangeiros e o clero devasso - que se sente impedido de cair no vício e que agora se vinga introduzindo a discórdia no país e incitando irmão contra irmão -, esses, sim, são os verdadeiros culpados!
Aliás, tudo o que aconteceu poderia ter sido previsto antes.
Sua Majestade acendeu com as próprias mãos a tocha do levante ao impor, ao povo, dirigentes inimigos de sua fé, que inevitavelmente provocaram a explosão de indignação geral...
Ele não conseguiu terminar a frase, pois Venceslau, que inicialmente o ouvia parado como uma estátua, caiu sobre ele aos gritos:
- Traidor! Rebelde!
Você ainda ousa ofender-me! - Sibilou o rei, sufocando de raiva.
Vok, que não esperava o ataque, foi agarrado pelo pescoço e derrubado no chão pelo rei.
Os presentes ficaram atónitos e a pálida rainha saiu do seu esconderijo gritando, assustada:
- Separem-nos!
Os cortesãos correram para segurar Venceslau que, naquele instante, havia sacado do estilete e se preparava para matar Vok, semi-asfixiado e desmaiado no chão.
O rei debatia-se para se livrar das mãos que o seguravam e rugia selvagemente.
Então, de repente, seu rosto ficou ainda mais vermelho, deformou-se numa convulsão e, abatido por um choque apopléctico, ele desabou como morto.
Venceslau foi cuidadosamente levantado e levado embora.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 09, 2016 8:07 pm

Enquanto os médicos - chamados imediatamente - atendiam-no, a rainha entrou no quarto para onde fora levado o jovem conde.
Parado junto à janela, Vok estava mortalmente pálido e pronto para ir embora; já tinha vestido a capa, o chapéu e calçava as luvas, afastando de si uma taça de vinho que lhe fora oferecida por um dos favoritos do rei.
Ao ver a rainha, ele tirou o chapéu e fez-lhe uma respeitosa reverência.
- Deixe-nos a sós. - Ordenou Sofia ao cortesão.
Assim que aquele saiu pela porta, ela aproximou-se do conde e estendeu-lhe a mão, dizendo:
- O senhor está indo embora, conde?
Já se recuperou o suficiente para andar a cavalo?
Vok dobrou um joelho diante dela e beijou-lhe a mão:
- Agradeço Vossa Majestade pela bondosa atenção para com minha pessoa, mas me sinto bem e gostaria, com a sua permissão, de voltar para Praga.
- Mesmo lamentando a sua saída, não vou retê-lo.
Somente gostaria de lhe dizer que lamento profundamente o acontecido, mas o rei está fora de si.
Ultimamente ele está sempre doente e muito irritadiço; a emoção de hoje pode ter-lhe custado a vida... - Ela parou para enxugar uma lágrima.
Sofia da Bavária era amada pelos checos.
Por intervir sempre em defesa deles e por sua predisposição a Huss e à causa nacional, ela era muito popular.
Ao vê-la chorar, Vok perdeu a metade da raiva.
- Queira Deus que os seus pressentimentos não se realizem. - Apressou-se ele em acalmá-la.
Espero que o rei se recupere.
Nunca me esqueço de que foi ele que assinou o famoso decreto de 18 de janeiro de 1409.
Por isso, não quero guardar nenhuma raiva contra a sua pessoa pela ofensa de que fui vítima hoje.
Como fiel súbdito de Vossa Majestade, considero meu dever avisá-la de que os episódios de Praga exigem do rei grande cuidado - isso se ele não quiser que esses acontecimentos se transformem em terrível tempestade!
- Infelizmente, tenho muito medo de medidas impensadas da parte de Venceslau e eu própria agora nada posso fazer, pois com a sua desconfiança doentia ele não confia nem em mim.
- Converse com os conselheiros de Sua Majestade; talvez o rei os ouça.
- Tentarei agir nessa direcção.
Mas, diga-me, conde:
como acabou a confusão na cidade?
A explosão insana de Venceslau não lhe permitiu terminar o relato.
- Aquilo não foi uma simples confusão, Majestade, foi quase uma insurreição!
O poder entregue aos católicos e as suas atitudes provocativas que chegaram até a profanação do sangue de Cristo indignaram o povo.
De agora em diante, a população decidiu defender firmemente sua fé e sua liberdade com as armas.
Quando eu saía da cidade, a prefeitura estava ocupada pela guarda da população.
Foram eleitos quatro comandantes, que formaram um governo temporário, e todos os habitantes, sob pena de morte ou expulsão, foram convocados para pegar em armas.
A senhora entende que os chefes do movimento não se arriscariam a tomar tais atitudes se não tivessem apoio de outras cidades, como também dos camponeses de todo o reino?
A rainha empalideceu.
- Estou percebendo o perigo da situação e aproveitarei o seu conselho!
Adeus, conde, e não se esqueça:
não importa o que acontecer, o senhor terá sempre o meu apoio amigável.
A rainha, confusa e cabisbaixa, foi aos aposentos do marido, enquanto Vok, montando o cavalo, seguiu o caminho de Praga.
Vok não levantou a cabeça e por isso não viu, à janela do quarto de Sofia, o rostinho pálido e preocupado da jovem dama da corte que o acompanhava com olhar triste, enevoado de lágrimas.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 10, 2016 8:11 pm

Graças à assistência que recebeu a tempo, Venceslau recobrou os sentidos e, além de uma leve paralisia do lado esquerdo do corpo, aparentemente, recuperou-se.
Mas seu estado espiritual estava terrível.
Não confiava mais em ninguém que o cercava e via em cada pessoa um traidor ou rebelde.
Os acessos de sombria tristeza e desespero alteravam-se com explosões de fúria e medo febril.
Acreditando, assim, que só tinha o irmão com quem contar, o rei enviou um mensageiro para lhe pedir ajuda, esquecendo-se de que não tinha inimigo pior que Sigismundo.
Naquele meio tempo o conselho real, por sugestão da rainha, mantinha conversações com os praguenses.
Estes haviam concordado em submeter-se e pedir perdão, com a condição de que os conselheiros municipais fossem escolhidos pelo povo.
O pedido foi aceite, Venceslau confirmou novas eleições e Peter Kuss foi eleito como burgomestre, o que foi uma ofensa ao rei, que o detestava.
Na manhã de 17 de agosto, uma quinta-feira, Ana de Trotsnov estava sentada sozinha no seu quarto, costurando um vestidinho infantil e murmurando um salmo de arrependimento.
Um forte barulho de porta se abrindo interrompeu seu trabalho e ela voltou-se, irritada.
Ao ver a amiga que chegava apressada, pálida e emocionada, Ana perguntou, preocupada:
- Aconteceu algo?
- Sim, e muito importante:
o rei morreu. - Respondeu Marga, caindo na poltrona.
Ana persignou-se, devotadamente.
- Deus misericordioso acalmará a sua alma e lhe perdoará muitos pecados.
Quando ele morreu e quem lhe contou isso?
- Vok. Ele está lá embaixo contando isso a Milota, com todos os detalhes.
Há alguns dias a rainha convocou Vok para comparecer em Kunratitska, pois o rei, de repente, tornara-o novamente um dos favoritos e exigia a presença dele.
No castelo, o conde soube que o rei, após ter sido obrigado a confirmar Peter Kuss no cargo, ficara possesso.
Passara a sofrer de frequentes ânsias de vómito e dor no braço esquerdo.
Apesar disso, na manhã do dia 15, ele sentia-se melhor e a rainha aproveitou para fazê-lo comungar.
Vok chegou bem no momento que antecedia a cerimónia.
O rei, doente, ainda lhe disse algumas palavras amáveis.
Depois, confessou devotadamente, mas não conseguiu comungar, pois a repentina ânsia de vómito aumentou.
Ontem à noite, ele teve outro ataque.
O conde esteve presente até o seu final e está chocado de horror com os últimos momentos do rei.
Venceslau gritava selvagemente e seus berros eram ouvidos por todo o castelo.
Foi assim, rugindo, que ele soltou o último suspiro.
Vok correu imediatamente para avisar seu pai e agora veio trazer-nos a notícia.
Mas parece que a triste nova já se espalhou pela cidade e está provocando uma terrível agitação, pois o conde, ao vir para cá, encontrou muita gente nas ruas.
Parece que na praça já está reunida uma multidão.
Vamos lá ver?
Quando Ana e Marga entraram no quarto - de onde duas semanas antes haviam estado observando os membros do conselho municipal serem jogados pelas janelas da prefeitura-, encontraram Vok e Milota à janela.
- Hoje não passará sem conflitos. - Dizia o conde naquele instante.
E, realmente, a visão da grande praça não sugeria nada de bom.
Cidadãos armados corriam em todas as direcções, enquanto o resto do povo, inclusive muitas mulheres e crianças, reunia-se em grupos, gritando desesperadamente e agitando os braços.
A multidão movia-se, agitando ameaçadoramente os punhos no ar, e o som de milhares de vozes transformava-se em terrível e surdo rugido.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 10, 2016 8:11 pm

Diversos vagabundos, que em tempos normais nunca eram vistos, emergiam da massa popular como prenunciadores de tempestade e proferiam discursos.
O nome de Venceslau e impiedosas ameaças ao clero católico chegaram aos ouvidos dos espectadores da casa de Milota.
- Precisamos ir ver o que está acontecendo e conversar com Jan e o burgomestre. - Disse Valdstein, pegando o chapéu.
Vem comigo, Milota?
- É claro! Vou só pegar a espada e a capa.
Veja, conde, a multidão está correndo para todos os lados!
- Se vocês vão até o Zizka, então me levem junto!
Preciso ver minha tia que está doente.
- Mas que ideia, Ana!
Para que ficar correndo pela cidade nesta hora tão agitada?
A velha não vai morrer se você for visitá-la outro dia.
- Mas quem vai me garantir que amanhã tudo estará mais calmo?
Não posso deixar a tia sozinha, pois ela tem horror às desordens na cidade.
E nada tenho a temer, principalmente sob a vossa guarda!
Vocês estão vendo as ruas cheias de mulheres e entre os nossos sou bastante conhecida.
Não vão mexer comigo!
Quanto aos católicos - e em sua voz percebia-se o desprezo -, eles provavelmente estarão ocupados demais hoje para prestar atenção em mim!
Sem ligar para os pedidos e apelos de Marga, Ana foi buscar sua capa e seguiu atrás de Vok e Milota.
Este somente sorriu e deu de ombros ao seu pedido; ele sabia que Ana era tão teimosa quanto seu irmão Jan Zizka.
Enquanto isso, uma multidão reunia-se novamente diante da prefeitura.
Passando por entre o povo, Ana e seus companheiros ouviam relatos nada lisonjeiros sobre a morte do rei e discursos cheios de ódio aos papistas.
Numa das ruas próximas, bem diante da igreja pertencente ao clero católico, um ajuntamento popular impediu a sua passagem.
Fora e dentro do templo ocorria um ensurdecedor barulho:
ouviam-se gritos estridentes, palavrões e gargalhadas, golpes de machado e estalos de portas sendo derrubadas.
- O que está acontecendo aqui? - Perguntou Vok a um dos cidadãos.
- Isso é uma vingança aos "maometanos" pela ofensa.
Eles jogaram fora os objectos religiosos do templo que foram usados pelos nossos como se estes fossem contaminados.
Agora, nós destruímos e quebramos tudo o que é deles.
Felizmente, o rei - o maior protector dos malditos "padrecos" e dos alemães - entregou a alma ao diabo e não precisamos temer mais ninguém. - Respondeu este, taciturno.
Naquele instante, no púlpito estavam quebrando a estátua de um santo e pela janela quebrada voavam pedaços de um órgão.
Vok e seus companheiros, cabisbaixos, seguiram o seu caminho.
Mas em todos os lugares por onde passavam que houvesse uma igreja ou mosteiro, idênticos quadros os esperavam.
A massa popular, em sua fúria, atacava as odiadas construções católicas, destruindo altares e objectos de culto com uma barbárie nunca antes vista nos cidadãos de Praga.
A terrível ira popular e a sede de vingança haviam explodido finalmente e, como um furacão, arrasavam tudo em seu caminho.
Num dos lugares, o ajuntamento era tanto que Ana foi separada dos companheiros, o que não a assustou nem um pouco.
Desde os tempos das reuniões no monte Tabor, a irmã de Zizka era por demais conhecida e amada pelos hussitas.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 10, 2016 8:11 pm

E, apesar da confusão, o povo sempre abria caminho diante daquela alta figura em trajes de luto.
Já os católicos estavam escondidos e assustados naquele dia e não ousavam atacar ninguém abertamente.
Tentando atravessar a multidão até a casa do irmão, Ana viu-se perto da igreja de São Estéfano, cujo pároco era particularmente detestado pelos praguenses por sua revoltante intolerância.
A devastação da igreja já parecia ter terminado, pois o povo saía de dentro do templo dando gritos de alegria, assobios e vaias e aplaudindo os que carregavam paramentos sacerdotais e rasgavam em pedaços o valioso brocado bordado.
Um dos cidadãos reconheceu Ana, que parara perto do pátio.
- Veja o que nós fazemos com os "maometanos" por caluniar as verdades evangélicas e pelo santo mártir de Constança! - Gritou ele.
Você acha que ele, lá no céu, está vendo tudo e aprovando as nossas acções?
Ana balançou negativamente a cabeça.
- Penso que a alma angelical de Huss é incapaz de vinganças.
Ele próprio nunca pregou nada além de amor e perdão e, obviamente, não elogiaria desmandos em lugar sacro.
Se vocês pretendem restabelecer a justiça e o reinado de bondade, temos por aí muitos ninhos de perdição que somente envergonham a cidade e que devem ser destruídos.
A multidão que a cercava calou-se por um instante.
Depois, o mesmo cidadão gritou:
- Que nada!
Essa história de que Jan Huss nos critica é pura bobagem e mexerico de mulher que nada entende de causas nobres.
A Bíblia diz:
"olho por olho, dente por dente", e nós seguimos a Escritura.
Agora, quanto ao que você disse sobre "locais de perdição", onde os imprestáveis "padrecos" bebem e se depravam para a vergonha dos verdadeiros cristãos, é uma causa óptima e trataremos dela agora mesmo.
Vamos lá, irmãos!
Vamos arrasar os covis de satã!
Vamos lá, depenar as avezinhas do paraíso!
A multidão rugiu concordando e moveu-se para o novo objectivo.
Ana encostou-se no portão da casa vizinha para não ser esmagada.
Depois, aproveitando o momento em que a rua esvaziou, dirigiu-se sem obstáculos para a casa do irmão.
Pelas ruas reinava a desordem.
Depois do saque às igrejas, teve início a depredação das casas alegres que o povo atacou com furor, depredando todas elas até a base, tanto na "Cidade Velha" quanto na "Nova".
Quando desceu a noite, a confusão maior aquietou-se, mas as paixões desencadeadas não conseguiam acalmar-se de vez.
Alguém apontou para o mosteiro cartesiano de Smikhov, como um ninho de alemães que era necessário destruir - e essas palavras caíram bem ao gosto da multidão.
Eram cerca de dez da noite quando a incontável massa cercou a abadia.
Os portões foram instantaneamente quebrados e os atacantes jorraram para dentro.
A irmandade escondeu-se no refeitório, onde o povo ficou zombando de sua covardia, assustando-os ao brandir armas sobre suas cabeças, vaiando-os e cobrindo-os de escárnio.
Entretanto, apesar da excitação da turba, não houve mortos nem feridos.
Os hussitas limitaram-se à destruição de livros, géneros alimentícios, utensílios domésticos, objectos monásticos e da adega, quebrando barricas e toneis e derramando por terra o precioso líquido.127
O mérito dessa condescendência pode ser atribuído a Broda, que - mesmo tendo tomado parte nos acontecimentos daquele dia e até dirigido o ataque aos cartesianos - não deixava matar os indefesos.
Todo o ódio e a raiva do velho guerreiro haviam sido jogados contra o próprio mosteiro.
Os prédios foram incendiados somente quando os monges foram retirados do refeitório e conduzidos, sob guarda de confiança, para a cidade.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 10, 2016 8:12 pm

A construção maciça e encantadora ardeu de vez por todos os lados como uma enorme fogueira, jogando fagulhas ao vento e cobrindo o céu com uma auréola sangrenta.
Enquanto esse prólogo das guerras hussitas terminava com fogo e destruição - uma terrível vingança dos checos pela opressão secular -, o corpo de Venceslau era embalsamado às pressas e transportado em segredo de Ventselstein para a "Cidade Alta".
Com a desordem que agitava a cidade, não fora possível realizar um pomposo funeral real.
Então, no mosteiro de Zbraslavsk, foi discretamente sepultado aquele mesmo rei, cujo berço tinha sido cercado de tantas esperanças, fama e grandeza e que, após 56 anos de reinado, morrera infeliz e abandonado.
A indignada Boémia preparava-se para a revolta, sob o comando do seu genial e invencível líder Zizka.
Pela primeira vez, a Boémia iria surpreender o mundo com a visão grandiosa de um povo que se uniu e pegou em armas para lutar pela fé e pela liberdade...
Essa guerra, uma das mais terríveis que algum dia cobriu de sangue a Terra, receberia o nome de um pacífico e humilde mártir de Constança.
De uma ponta a outra de sua pátria, as igrejas e os mosteiros arderam para vingar a sua fogueira...

A Primeira Defenestração de Praga
Sob a bandeira do Cálice, símbolo da igualdade entre o clero e os crentes, Zizka conduz os taboritas à vitória (Códice hussita da época)
Jan Huss
Jan Huss é levado à fogueira.
Na cabeça puseram-lhe um chapéu com demónios, símbolo de heresia.

125 Nobres com cargo de juízes, nas cortes eslavas da época - Nota do tradutor.
126 Esse episódio ficou conhecido como "Primeira defenestração de Praga " - Nota da editora.
127 Palacky, "Urkundliche Beitrige zur Geschichie dês Hussitenkrieges, I (Carta ao abade do mosteiro cartesiano em Nuremberga) - Antiga análise das guerras hussitas - Nota do autor.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 10, 2016 8:12 pm

Epílogo

Descera uma linda noite de julho, quente e perfumada.
No véu negro do céu, luziam brilhantes estrelas e a lua cobria a terra com sua luz amena e sonolenta.
O rio, coberto por reflexos prateados, serpenteava como uma larga faixa.
Em suas duas margens, estendia-se uma grande cidade, com esguias construções de igrejas, campanários e torres, que encantavam pela beleza de sua arquitectura.
Por entre belos prédios contemporâneos, apareciam antigas edificações, com paredes enegrecidas pelo tempo - grandiosos monumentos, cobertos de mistério e tradições, testemunhas de um passado glorioso ou sangrento, enfim, envoltos naquele encanto místico que somente séculos são capazes de proporcionar às frágeis obras humanas.
Essa cidade é Praga tcheca, a beldade, a Praga Dourada.
Ela cresceu e desenvolveu-se nas centenas de anos que se passaram desde que nela residiram e lutaram pela pátria e pela fé Huss e Jerónimo.
Mas a alma da cidade não se alterou.
Da mesma forma como nos tempos passados, aqui ainda bate o coração, trabalha a mente e ferve o génio da velha terra tcheca.
Mas nessa encantadora noite de verão, acontecia algo inusitado.
Nas alturas circundantes, estão acesos fogos; apesar da hora tardia, a cidade ferve de vida.
E, até no ar, puro e translúcido, invisível ao olho humano, acontece algo misterioso.
Sobre a terra voa vagarosamente um ser estranho, de contornos indistintos e nebulosos.
Somente a cabeça parece viva, com grandes, sérios, profundos e indiferentes olhos; é uma cabeça de ancião - a julgar pelas rugas e pela amarga decepção que expressa sua boca de finos e apertados lábios; é uma cabeça de jovem - a julgar pela energia que emana dela, uma poderosa vivacidade e uma profunda consciência de sua força.
Os cabelos branco-prateados da cabeça e da barba perdem-se nas dobras do traje que o cobre como uma névoa, alongando-se para trás como um enorme lençol que cinge o horizonte e perde-se no infinito.
Passando vagarosamente pelo ar, a visão atingiu a margem do rio e parou.
Diante dela, descortinava-se uma parte de parede desmoronada, um resto mal perceptível de uma edificação outrora existente.
Sobre os escombros estava sentada uma maravilhosa e imponente mulher, de cabelos escuros e grandes olhos nos quais brilhavam a inteligência e a poderosa vontade.
Ela vestia um alvíssimo traje; sobre sua cabeça, uma tiara dourada sustentava o véu transparente que a envolvia.
- Saudações, senhor Tempo! - Disse ela, levantando os olhos ao ancião.
Há muito não via o seu rosto; somente sentia a sua passagem.
- Eis que a encontro novamente em seu posto, minha pobre Liubuche!128 - Respondeu ele.
Quando, afinal, você irá descansar?
- Como descansar, se o meu querido povo ainda sofre e luta?
O cruel inimigo mortal129 está cada vez mais insolente e ganancioso, querendo exterminá-lo, e estraçalha seu corpo com suas garras.
- E você continua a chorar e a desesperar-se?
A cabeça de Liubuche endireitou-se, orgulhosamente.
- Pelo contrário!
Rezo e espero, porque o meu povo é sábio e forte, paciente e insistente e não esquece o seu glorioso passado.
Ela levantou o braço transparente e apontou para os fogos que ardiam nos morros.
- Vê aquelas fogueiras?
Elas foram acesas por tchecos fiéis à memória de Jan Huss e Jerónimo, em homenagem ao dia de sua horrível morte.
Hoje é dia 6 de julho, aniversário da vergonhosa condenação dos grandes mártires de Constança.
O amor e a veneração de milhões de corações trazem para cá as almas de Huss e de seu amigo.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 10, 2016 8:12 pm

Veja! Está vendo aqueles feixes de fagulhas que o vento leva para todos os lados?
São as cinzas revividas dos dois mártires heróis!
As fagulhas, impregnadas com seu pensamento, voam e caem como um vivo orvalho no coração do povo, acendendo nele um inextinguível amor à pátria e uma coragem que o faz invencível.
Ao longe, ouviu-se um barulho surdo, que aumentou gradativamente e transformou-se no ruído confuso de uma multidão que se aproximava; em seguida, apareceram rápidas e inúmeras sombras.
Sem dúvida, estava vindo um exército.
Com passos pesados e medidos, ele se aproximava cada vez mais; agora, ouviam-se nitidamente o tilintar das armas e correntes, o rangido das rodas e o relinchar dos cavalos.
Na frente ia um velho alto portando uma bandeira na qual brilhava um cálice de ouro.
Atrás dele seguiam guerreiros armados de lanças, foices, correntes e maças, machados, espadas e bestas; a maioria vestia roupas de camponês, mas os rostos severos transpareciam tal confiança no poderio de sua força indestrutível, tal desprezo pela morte e tão calorosa fé em sua santa causa, que qualquer obstáculo deveria cair diante deles.
Como uma incontrolável força da natureza, devagar mas inexoravelmente seguia a avalanche humana.
Atrás deles vinham as pesadas carroças, cobertas com ferro e equipadas com correntes - as ameaçadoras e móveis defesas dos exércitos hussitas.
- Quem são esses guerreiros que saem das dobras do meu manto, onde descansa o passado de todos os povos? - Perguntou o Tempo.
- São os intrépidos soldados de Zizka, que ele conduziu de vitória em vitória e que fizeram tremer os seus inimigos mortais. - Respondeu Liubuche, com orgulho.
Nesta noite sagrada, a velha terra checa revive, impregnada de sangue e semeada de ossos desses fortes que deram sua vida pela pátria e pelo cálice.
Está ouvindo?
Eles estão cantando a sua canção de guerra:
Não esqueçam o regulamento:
Obedeçam ao seu chefe,
Ajudem um ao outro,
E mantenha-se no seu grupo!
- Para onde estão indo?
- Para o monte Blanik, perto de Tabor.
Lá dorme Zizka, com seus comandantes.
Ele aguarda a voz do povo, convocando-o para a batalha decisiva pelo destino de sua pátria.
Eles estão indo acordá-lo:
"Chegou a hora! Levante, Zizka!
O hussismo ainda não disse a última palavra!"...
Liubuche calou-se, acompanhando com os olhos as sombras dos guerreiros, e apurou os ouvidos.
De longe se ouviam as palavras:
Peguem em armas, Gritem:
"Deus é nosso rei!",
Abatam o inimigo sem piedade,
Arrasem tudo!130
Em seguida, sua imagem começou a empalidecer e, finalmente, dissipou-se no ar, como uma leve névoa soprada ao vento...

São Petersburgo, 1912.

Fim

128 Liubuche - conforme a tradição, princesa que fundou a primeira dinastia de Przemysl, os primeiros reis da Boémia - Nota do tradutor.
129 Graves conflitos entre os tchecos e os alemães - "o cruel inimigo mortal" - voltaram a ocorrer no século XX.
Este livro foi finalizado em 1912; dois anos depois - 1914 - estourou a Primeira Guerra.
Mas foi principalmente sob a Alemanha expansionista de Hitler que os conflitos recrudesceram.
Em 1938, os alemães ocuparam os Sudetos, região tcheca de população alemã, marcharam sobre Praga em março de 1939 e menos de seis meses depois iniciaram a Segunda Guerra Mundial.
Praga só foi libertada em 1945 - Nota da editora.
130 Canção de Zizka "Kdotjste Bozi Bojovnici" — Nota do autor.

§.§.§- O-canto-da-ave
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