Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 26, 2016 8:12 pm

Capítulo III

Já estava completamente escuro, quando os viajantes finalmente conseguiram chegar ao castelo Rabstein - uma respeitável fortaleza feudal - e bateram à porta.
Ao ouvir os nomes dos visitantes, o velho castelão deixou-os entrar sem delongas, apesar da ausência do dono e da hora.
Foram conduzidos ao refeitório e, enquanto os quartos para seu pernoite estavam sendo arrumados, foi servido o jantar.
O castelão contou que, dez dias atrás, o barão viajara a Praga, mas adoecera no caminho e fora levado a Pilsen por um bispo, seu conhecido.
- Pode ser que isso nem seja verdade, mas mesmo assim, a notícia da doença do barão nos deixa muito preocupados.
Encerrou o fiel servo, com lágrimas nos olhos.
De repente, a porta se abriu e na sala entrou correndo uma menina seguida por uma senhora de touca branca.
A criança era encantadora.
Alta, para os seus nove anos, esbelta, graciosa e vaporosa, ela dava a impressão de ser algo etérea.
O rostinho fino, agradável e pálido estava iluminado por grandes olhos azuis e escuros, quase negros, que olhavam pensativos por debaixo de espessos e luminosos cílios.
A menina trajava um longo vestido branco de lã, que se usava na época, e tinha na cabeça uma touca de veludo azul, por debaixo da qual saíam pequenas mechas de cabelos como uma cascata de ondas douradas.
Seus olhos estavam inchados e vermelhos e o rosto pálido reflectia a infelicidade que sentia.
Escapando dos braços da aia que tentava segurá-la e, sem prestar atenção a Jerónimo, a menina correu para Huss.
- Trouxe notícias de meu pai, mestre Jan?
Ele está melhor? - Perguntou ela, com preocupação na voz.
Um mascate disse-nos que ele estava muito doente e que foi levado numa liteira33.
Huss segurou solidariamente as mãos frias da criança.
- Querida Rugena, não estou vindo de Pilsen, mas indo para lá, e nada sei sobre a doença de teu pai.
Confie na misericórdia divina e acalme-se.
Rugena levantou os encantadores olhos, cheios de lágrimas.
- Você acha que Deus não irá permitir que meu pai morra, deixando-me sozinha?
E os soluços cortaram suas palavras.
- Ela chora sem parar, desde que recebeu a triste notícia.
Já nem sei o que fazer!
Assim que ouviu o som da trombeta no portão, tive de vesti-la imediatamente e traze-la para cá.
É como se qualquer pessoa soubesse o que aconteceu com o amo. - Observou tristemente a aia.
Sentindo a infelicidade da garota, Huss trouxe-a para perto de si e começou a consolá-la falando sobre a sabedoria e a bondade divinas e sobre os insondáveis caminhos de Deus, que o homem, em sua cegueira, muitas vezes não reconhece, mas que sempre conduzem ao bem, principalmente àquele que, com uma sólida fé, entrega sua vida e seu destino ao Criador.
A voz profunda e branda e a espiritualidade que emanava do jovem pregador agiram de forma benfazeja sobre a criança.
O rostinho desfigurado de Rugena clareou; ela juntou humildemente as mãos e repousou com confiança a cabecinha no ombro do seu consolador.
Naquele momento ela também notou a presença de Jerónimo e cumprimentou-o amigavelmente.
Satisfeito com a acção calmante das próprias palavras, Huss convenceu Rugena a ir dormir e a menina já se preparava para sair obediente quando, de repente, um ruído surdo veio do corredor vizinho.
Ouviram-se passos, gritos e lamentos.
Por fim, a porta se abriu e apareceu o velho escudeiro todo empoeirado e pálido; atrás dele vinha o velho castelão, emocionado e com o rosto cheio de lágrimas.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 26, 2016 8:12 pm

- Oh, reverendo mestre Jan! - Disse o castelão, com voz trémula.
Que desgraça, que terrível desgraça!
O nosso querido amo faleceu!
Vendo o escudeiro do pai, Rugena quis correr para ele, mas seu ar sombrio e abatido assustou-a e fê-la estancar.
Ao ouvir a notícia da morte do pai, Rugena fez um gesto indefeso com as mãos e emitiu um grito surdo, sua cabecinha caiu para trás e ela cairia no chão se a aia não a segurasse a tempo.
Os presentes correram para ajudá-la, mas Rugena havia desmaiado e foi levada assim para seu quarto.
Huss, profundamente comovido pelo trágico acontecimento, ordenou ao escudeiro Matias que lhe contasse todos os detalhes da inesperada morte do barão, que - pela idade e pela boa saúde - deveria ter ainda muitos anos de vida.
Matias descreveu detalhadamente as circunstâncias que haviam acompanhado o falecimento do seu senhor, contendo com dificuldade as lágrimas que o sufocavam.
Ao ouvir o nome de Brancassis, Jerónimo sobressaltou-se.
- Mas como?
Então, Brancassis, o sobrinho de Baltazar Cossa, está metido nessa história?
Isso quer dizer então que... - O olhar desaprovador de Huss fê-lo calar-se.
Conheço o bispo, mas sua presença aqui me surpreende.
Imaginei que ele estivesse na Itália. - Conteve-se Jerónimo, mudando de tom.
Um sorriso amargo passou momentaneamente pelos lábios do escudeiro.
Ele continuou sua história e, ao terminá-la, pediu licença para sair.
- O que você quis dizer com sua descuidada observação sobre Brancassis? - Perguntou Huss, quando eles ficaram a sós.
- Não pude me conter!
De repente, veio-me a ideia de que a repentina doença do barão seguida de morte não foi natural, e os intensivos cuidados dispensados pelo bispo ao paciente são muito suspeitos!
Durante a viagem à Itália eu soube sobre o Cossa, que na época era arcebispo, coisas incríveis, de arrepiar os cabelos.
Como, por exemplo, que ele era um pirata e abandonou a carreira para se tornar condotieri.
Não sei o que o obrigou a desertar e a tomar as vestes sacerdotais, mas se sabe que também nessas vestes ele continua na sua antiga actividade, ou seja, de roubo e devassidão.
Dizem que o sobrinho desse bandido é a sua mão direita.
Portanto, ele não visitaria nobres tchecos se não fosse para obter ali lucros vantajosos.
É mais estranho ainda que o Valdstein seja nomeado tutor, pois todos sabem que ele e o finado barão eram inimigos políticos.
Rabstein, como você sabe, era fervoroso partidário da "união dos senhores" e incitava Rosenberg a prender o rei em Beroun, enquanto seu irmão, Hinek Valdstein, é membro influente da corte de Venceslau.
Isso tudo só confirma as minhas suspeitas!
- Misericordioso Senhor, proteja a inocente órfã de todas essas infâmias... - Sussurrou Huss, persignando-se com devoção.
Em seguida, ajoelhando-se, recitou a prece nocturna e foi dormir, pois estava caindo de cansaço.
Ao chegar nas dependências da criadagem, Matias foi obrigado a repetir mais uma vez a história detalhada da morte do barão e, depois, conversou por longo tempo com o castelão.
Livrando-se disso, ele finalmente dirigiu-se aos aposentos de Rugena e, apesar da alta hora, bateu levemente na porta do quarto contíguo ao da menina.
A porta abriu-se imediatamente.
- Logo imaginei que viria aqui, Matias, e já o esperava. - Disse a aia, sussurrando.
- Queria falar-lhe sobre a desgraça que nos atingiu.
Como está a nossa pobre senhorita?
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 26, 2016 8:12 pm

- Dorme como um anjo!
O desespero e as lágrimas deixaram-na totalmente exausta.
No princípio, quando a trouxeram aqui para cima, pensei que ela tivesse perdido a razão, mas depois ela silenciou e acabou adormecendo no meu colo.
O escudeiro entrou e sentou-se junto à mesa, sobre a qual havia uma lamparina a óleo.
Iitka e Matias eram primos e amigos desde a infância.
Ambos haviam nascido e crescido no castelo, passando toda a vida a serviço da família Rabstein, à qual eram totalmente leais e devotados.
O finado barão Svetomir von-Rabstein percebera e valorizara aquela comprovada fidelidade; a confiança mútua que sentiam parecera sempre uma grande amizade.
O quarto ficou em silêncio.
Iitka chorava baixinho e Matias, encostando-se na mesa, ficou sentado, sombrio.
- Vamos, conte-me afinal como morreu o nosso querido amo.
Não consigo entender de onde apareceu essa doença, pois quando saiu daqui ele estava tão bem quanto um peixe dentro d'água.
- É por isso que estou convencido de que o barão foi vítima de uma torpe maldade... - Sussurrou Matias, inclinando-se para Iitka, que ficou pasmada com aquelas palavras.
- Maldade... que maldade?... - Sussurrou ela, com os lábios trémulos.
Quem mataria nosso bondoso senhor?
Quem lucraria com isso?
- Ah! Quem lucraria está óbvio!
Ouça, vou contar-lhe tudo, pois sei que guardará silêncio.
Depois, julgue por si mesma se as minhas suspeitas têm fundamento ou não.
Lembra-se quando não gostei nada da visita inesperada do bispo italiano?
Não confio nesses falsos, espertos e hipócritas estrangeiros:
parecem cães que rastejam até você para depois lhe darem uma mordida!
Então, às vésperas da viagem, ao ajudar o barão a despir-se, tentei sutilmente saber dele o que queria o italiano.
Nosso amo era bem esperto e imediatamente percebeu isso e riu.
Bateu-me no ombro e disse:
"Fique sabendo, velha raposa, que o bispo veio como enviado de meu irmão Hinek, para me tomar dinheiro e com a proposta de casar Rugena com seu filho, Vok.
Mas não pretendo me arruinar pelos Valdstein nem entregar minha filha ao seu filho pândego, o que acabei lhe dizendo.
Ele assumiu essas negociações por ser parente da própria condessa.
Agora vá, e durma tranquilo".
Durante a viagem, o barão estava absolutamente são até Pilsen.
A doença acometeu-o depois do jantar na estalagem "Bezerro de Ouro".
Já de manhã, quando nós nos pusemos a caminho, notei que o barão não estava bem e mal se segurava na sela.
Chegando na próxima estalagem, ele perdeu os sentidos.
Mandei imediatamente um de nossos homens de volta à cidade para buscar o médico; nesse ínterim, o barão já não reconhecia ninguém e ardia em febre.
No lugar do médico apareceram o próprio bispo e o seu tesoureiro.
O amo foi colocado numa liteira e levado à cidade, para a casa do conde Valdstein.
Tudo isso foi muito suspeito.
Não confio naquele bispo desde o dia em que descobri que um de seus pajens é uma mulher travestida.
- Que baixeza!
- Pois é! Você pode imaginar o quanto essa descoberta não aumentou em nada o meu respeito por ele...
Por isso, quando aquele safado mandou que todos nós saíssemos, dizendo que iria cuidar sozinho do paciente, senti uma tristeza tão grande que não consegui cerrar os olhos.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 26, 2016 8:12 pm

Ao ouvir passos e vozes no quarto do barão, eu, por via das dúvidas, esgueirei-me para o depósito que havia ao lado do quarto, e fiquei ouvindo.
Eles falavam baixo, mas consegui entender que o nosso amo ditava o testamento, que o bispo depois releu.
Não ouvi tudo, mas me lembro claramente de que Rosenberg era nomeado o tutor de Rugena e de que ela deveria ser educada na casa dele até se casar.
Imagine como me senti quando ontem, após colocarem o finado no caixão e levarem-no para a igreja, o conde Valdstein reuniu-nos e leu o testamento que o nomeava tutor e administrador da herança de Rugena até o casamento dela com seu filho Vok e que dizia que, por vontade do falecido, o noivado deles deveria ser realizado o mais brevemente possível.
- Mas isso é uma descarada trama!
O testamento é falso e é preciso dar queixa e desmascará-los! - Exclamou Iitka, fora de si.
- Queixar-se? - Ele sorriu, amargamente.
A quem? Quem acreditará nas acusações de um pobretão qualquer, como eu?
Qualquer pessoa diria que é uma calúnia!
O testamento foi assinado pelo barão à vista de todos; mas o texto lido pelo bispo não era o que ele escreveu.
E como prová-lo?
Não, Iitka, pode ser que, algum dia, nós revelemos toda a verdade à criança, mas por enquanto temos que nos calar.
O que me entristece é que logo começarão a roubar os bens do nosso amo.
O barão guarda no baú muito dinheiro e só as jóias da falecida baronesa já valem uma fortuna.
- Não poderíamos guardá-los em algum esconderijo na torre?
Valdstein nunca esteve aqui e não vai achá-los.
- Boa ideia!
A chave do baú está comigo; eu a escondi quando vi chegando o bispo com a liteira.
Amanhã à noite faremos isso!
Depois de acertar os detalhes do plano, eles se separaram.
No dia seguinte, antes de sair do castelo, Huss e Jerónimo quiseram ver Rugena, para expressar os pêsames e despedirem-se.
A aparência pálida e emagrecida da menina, decorrente da noite agitada, consternou-os profundamente.
Com lágrimas nos olhos, Huss trouxe Rugena para perto de si, beijou-a na testa, abençoou-a e conversou longamente com ela, tentando despertar em seu pobre coraçãozinho a submissão à vontade divina, convencê-la de que aquela separação do pai não seria para sempre e de que, na vida futura, ela voltaria a encontrá-lo se merecesse isso com sua devoção e suas boas acções.
Assim, seu pai, lá no céu, cuidaria dela e seria seu representante diante do altar de Deus.
A fé fervorosa que inspirava Huss e que nunca o abandonou até a morte agiu beneficamente sobre a pura e sugestionável alma da menina.
O desespero de Rugena alterou-se gradativamente para uma profunda e calma tristeza e lágrimas que a aliviaram.
Ela olhou com confiança e amor nos olhos claros e tristes do seu consolador e, abraçando o pescoço dele com suas mãozinhas, sussurrou:
- Você é bom, mestre Jan.
Gosto muito de você!
Fique aqui comigo.
- Gostaria muito, minha criança, mas tenho coisas a resolver em Praga.
Mas todo dia rezarei por você e pelo seu pai.
E, se Deus quiser, nos veremos muito em breve!
- Eu também, como você mandou, vou rezar a Deus de manhã e de noite, pensando no papai e olhando o céu para onde ele foi.
Assim, ele vai perceber que penso sempre nele!
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 26, 2016 8:12 pm

- Pobre e infeliz criança, vítima inocente da maldade e da avidez humana... - Observou Huss, balançando tristemente a cabeça, quando ele e seu companheiro já estavam na estrada.
- Pois é! Ela precisará de muita protecção.
Rugena vai se transformar numa linda mulher.
Com sua grande herança, será uma caça cobiçada e à sua volta fervilharão todas as más paixões! - Confirmou Jerónimo, suspirando solidariamente.
À noite, Iitka e Matias entraram no quarto do falecido e o escudeiro abriu o grande baú de ferro, chumbado na parede.
De lá eles tiraram apressadamente duas grandes e pesadas caixas e alguns sacos de ouro; fecharam o baú e levaram os objectos retirados para a biblioteca, onde estavam guardados muitos pergaminhos antigos e documentos da família.
Numa parte da parede, coberta por uma prateleira, o apertar de um botão abria uma passagem para um quarto bastante amplo, que tinha uma saída disfarçada para a floresta.
O barão mostrara aquela passagem e o quarto secreto ao fiel Matias para que ele, em caso de assalto ao castelo, pudesse usá-la e salvar as jóias, como também fugir com a criança se fosse necessário.
Lá, os fiéis criados guardaram sacos com dinheiro, caixas com diversos objectos de ouro e a caríssima prataria.
— Aqui tudo irá ficar guardado a salvo até a emancipação de Rugena.
As jóias de sua mãe não irão parar nos bolsos de farsantes italianos! - Disse Matias, satisfeito.
Iitka, você deve contar à menina onde estão escondidos os seus bens para o caso de nossa morte.
É preciso que ela mesma entregue ao conde a chave do baú.
Valdstein não deve nem suspeitar de que ele passou por nossas mãos.
No dia seguinte, Iitka teve uma conversa com Rugena sobre os seus futuros tutores e falou sobre a suspeita de sua avidez, convencendo habilmente a menina da necessidade de esconder parte dos bens se ela não quisesse que outros os roubassem.
Rugena não estava apenas mais crescida para a idade.
Também possuía aquela mente observadora que cedo se desenvolve em crianças que crescem sozinhas entre adultos.
Ela entendeu imediatamente que seus tutores eram inimigos em quem não devia confiar e, sem hesitar, disse:
- Vamos guardar o que for mais valioso!
Então, Iitka mostrou-lhe o quarto secreto e tudo o que ela e Matias haviam guardado lá.
Depois, entregou-lhe a chave do baú.
- Não se preocupe. - Disse-lhe a menina com firmeza na voz.
Não vou traí-los, nem entregar os objectos da mamãe; e vou entregar a chave do baú de forma que nenhuma suspeita recairá em Matias.
O lindo rostinho da criança mostrou naquele momento tanta esperteza e decisão que deixou a aia desconcertada.
Na grande sala da casa dos Valdstein, o corpo do falecido barão Rabstein estava exposto num alto cadafalso cercado de velas e o próprio Brancassis, acompanhado pelos padres Bonaventura e Hilário, executava a cerimónia fúnebre.
Naquela ocasião o conde Hinek já tinha retornado de viagem e havia sido terrivelmente surpreendido pelo defunto na própria casa e pelas notícias inesperadas.
O conde já passava dos 40 anos:
era um homem alto, bem eslavo, bonito e esbelto.
Despreocupado por natureza e amante da boa vida, ele havia gastado grande parte da sua fortuna, apesar de as guerras e divergências daqueles tempos difíceis terem colaborado nisso.
Ele, entretanto, nunca apelaria para o crime para se livrar de situações difíceis.
A inesperada morte do primo em sua própria casa e de forma tão conveniente despertou nele sentimentos desagradáveis.
Ao final da cerimónia ele ouviu, em silêncio e com o cenho franzido, a história da esposa, olhando-a fixamente.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 27, 2016 8:01 pm

- Espero que você e seus "padrecos", eternamente sentados debaixo da sua saia, nada tenham a ver com a morte de Svetomir exactamente quando nós mais precisávamos!
Não quero nada com assassinatos, você me entende?
O rosto pálido e maldoso da condessa ficou verde.
- Imagino que você perdeu o juízo ousando atirar tal acusação na própria esposa!
Ordene as investigações sobre a morte do barão já que quer tanto a vergonha.
Pelo jeito, as suas terras e os seus castelos estão lhe pesando demais e você prefere ser um pequeno senhor!
Por que rejeitar a felicidade enviada pela Providência, ao menos por amor ao seu filho que não tem culpa de viver na miséria e na vergonha que o aguardam?
Ela virou as costas para ele e saiu irritada, enquanto o conde, sentando-se na poltrona, ficou pensativo.
Aos poucos, sua despreocupação natural vingou:
Svetomir provavelmente morrera de morte natural e seria irracional rejeitar o bem-estar que caíra do céu.
Tal pensamento acalmou-o.
Após alguns dias, o conde chegou com o corpo do barão ao castelo do falecido para sepultá-lo no jazigo familiar.
Rugena recebeu o féretro nos portões do castelo, acompanhada de Iitka e toda a criadagem.
O vestido negro e o chapeuzinho com longo véu destacavam ainda mais seu rosto pálido e seus cabelos dourados.
Ao ver o caixão, ela foi tomada por tal desespero que quiseram retirá-la de lá, mas isso pareceu lhe dar forças.
Ela se recompôs e, mesmo chorando copiosamente, ficou até o fim do enterro. Entretanto, quando a porta do jazigo fechou-se atrás do corpo do pai, ela não aguentou mais e sofreu um terrível ataque de nervos.
A rara beleza da menina espantou o conde, e o seu desespero e as incontidas lágrimas causaram-lhe terrível impressão; algo como pena ou remorso mexia-se em seu fútil coração.
Com esses sentimentos, ele pegou a criança no colo e, beijando-a carinhosamente, disse que seria para ela um segundo pai.
Rugena recebeu friamente suas palavras e seus carinhos, olhou-o com hostilidade e desconfiança e recusou-se terminantemente a participar do banquete em memória do falecido, retirando-se para os seus aposentos, acompanhada por Iitka.
No dia seguinte, por ordem do conde, toda a criadagem reuniu-se no grande salão e ele próprio leu diante deles o testamento do falecido barão, que o nomeava tutor de Rugena e entregava aos seus cuidados toda a herança da menina até o seu casamento com Vok von-Valdstein, declarado seu noivo.
Depois, o conde disse que, assim que concluísse o espólio dos bens e se inteirasse de todos os negócios, levaria a tutelada ao seu castelo onde prosseguiria a sua educação.
Naquele mesmo dia, Valdstein começou a trabalhar energicamente e logo deu pela falta da chave do baú chumbado na parede.
Debalde inquiriu toda a criadagem que, naturalmente, nada sabia sobre isso.
Intrigado, o conde resolveu perguntar a Rugena se ela sabia onde estava a chave.
- Sim, sei onde está, mas meu pai disse para não contar isso a ninguém. - Respondeu a menina, decisivamente.
Valdstein precisou de muito tempo para convencê-la de que ele agora estava substituindo seu pai e de que, para defesa dos próprios interesses dela, precisava tomar conhecimento dos documentos que o baú continha.
Rugena finalmente cedeu, exigindo que todos, inclusive Iitka, saíssem dos aposentos.
Depois, levou o tutor para os aposentos do pai, onde retirou a chave de um lugar secreto.
Quando, dois dias depois, o conde perguntou a Rugena se ela sabia onde estavam as jóias de sua mãe, ela respondeu que não sabia de nada com tanta convicção, que ele finalmente acreditou.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 27, 2016 8:01 pm

Isso inspirou a Iitka e Matias um respeito que chegava quase à veneração pela inteligência da criança.
A viagem deles ao castelo dos Valdstein foi marcada para dali a uma semana.
O conde, querendo manter boas relações com a futura nora, perguntou o que ela gostaria de levar consigo.
- Vai permitir levar tudo o que eu quiser? - Perguntou Rugena.
- É claro, minha criança, a não ser que queira levar consigo todo o castelo, ou uma de suas torres, o que seria bem difícil... - Riu ele.
- Nesse caso, quero levar a minha aia e o Matias para me servirem e também Perun, o cão de caça predilecto do meu pai.
- Autorizo e com muito prazer, porque já havia pensado nisso também.
No dia marcado, sentada na liteira junto com Iitka e tendo Perun a seus pés, Rugena deixou o castelo de seus ancestrais, viajando sob a guarda de Matias, que cavalgava a seu lado.
Com olhos marejados de lágrimas e uma expressão séria no rosto, nada condizente com a idade, ela se despedia do seu ninho.
Quando o castelo desapareceu definitivamente de vista na curva da estrada, ela desandou a chorar, escondendo o rosto no ombro da fiel aia.

32 Tomek, Dejepís mesta Prahy – Nota do autor.
33 Liteira: Veículo que consiste em uma espécie de cadeira fechada, suspensa por dois varais e carregada por dois homens ou atrelada a dois animais, um à frente e outro atrás. - Nota da editora.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 27, 2016 8:01 pm

Capítulo IV

Poucas são as cidades da Europa que possuem uma localização tão surpreendente quanto Praga34 - antiga capital da Boémia.
Aquele que teve a oportunidade de apreciá-la das alturas de Petrin, Vyshegrad ou Gradtchan certamente jamais esquecerá esse maravilhoso quadro.
Sobre a verde planície, cercada por altas colinas e cortada pelo rio Vltava, estende-se uma majestosa cidade. Sobre o azul-claro do céu, esguios templos e torres destacam-se da massa geral de belas casas de formas simples.
Existe algo inexplicavelmente grandioso nessa espantosa harmonia de lindos contornos e cores.
Tudo é claro e atraente, transpirando aquela envolvente e pura tranquilidade que a natureza, às vezes, espalha sobre seus lugares preferidos, presenteando-os generosamente com seus dons.
Como por ironia, esse recanto de paraíso terrestre foi escolhido pelo destino para servir de palco a guerras sangrentas, como arena de uma luta sem tréguas entre duas raças pela hegemonia da Boémia.
O destino também reservou um lugar entre os muros dessa mesma Praga para acender uma chama de pensamento livre, que com sua luz iluminou as trevas da Idade Média e desferiu sobre a poderosa Roma o primeiro mas decisivo golpe.
Por longos séculos, o povo tcheco ocupa um lugar à frente de toda a raça eslava e fica encravado como um forcado num dos lados do germanismo, o que faz da Boémia um lugar de permanente opressão do inimigo.
Com a teimosia própria da raça teutónica, os alemães tentaram todos os meios de coacção e perfídia - sem qualquer sucesso - para superar esse obstáculo ou, pelo menos, anulá-lo.
O ataque começou com a mais perigosa das armas - a fé.
A Boémia foi cristianizada pelos santos eslavos Cirilo e Metódio, na segunda metade do século IX.
O rito oriental lançou raízes muito profundas no espírito e no coração do povo checo.
As tradições dessa fé ancestral, mesmo enfraquecendo aos poucos, mantiveram-se por séculos e, apesar dos esforços dos papas, não desapareceram até o século XIV, quando a eles se juntou o movimento hussita, ou de "Huss".
Talvez o hussismo até fizesse os tchecos retornarem à igreja ortodoxa, pois uma delegação do povo tcheco levou esse pedido a Constantino Paleólogo e ao patriarca Gennady.
Contudo, Muhamed II tomou Constantinopla em 1453, as relações com Bizâncio foram interrompidas e a batalha junto ao monte Branco eclodiu como um raio sobre o país, abafando por longo tempo a vida religiosa e o desenvolvimento nacional.
A partir dos séculos X e XI, atrás dos missionários católicos (alemães), vieram os colonos alemães, e a Boémia perdeu alguns dos seus postos avançados como, por exemplo, a região de Cheb, que permaneceu germanizada até hoje.
No fim do século XII, a invasão teutónica ameaçou com um perigo sério:
por todos os lugares fundaram-se mosteiros e neles, assim como nas cidades, instalaram-se monges e clero alemães, trazendo consigo milhares de camponeses, cidadãos e artesãos.
A política antipopular dos últimos reis da casa dos Pchemys-lovitsy favorecia essa colonização, concedendo aos estrangeiros privilégios tão amplos que estes fizeram surgir e desenvolver-se uma nova classe social - a burguesia, que não reconhecia outro direito além do alemão, tornando-se um cego motor do germanismo.
As razões que obrigaram Venceslau I, Otakar II e Venceslau II a conceder tantos direitos e tantas liberdades aos estrangeiros alemães objectivavam elevar o poder real sobre as pretensões feudais da aristocracia, criando regiões burguesas dependentes directamente do rei.
O espírito de igualdade de direitos, próprio dos costumes dos antigos eslavos, não servia ao desenvolvimento do regime feudal, que era estranho ao povo.
Por isso, as classes altas facilmente se encantaram com o modo de vida germânico - seus privilégios especiais - e acostumaram-se aos modos estrangeiros - direitos, costumes e língua -, transformando-se paulatinamente de senhores tchecos em algo semelhante aos senhores feudais alemães.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 27, 2016 8:01 pm

Nas cidades, os alemães apropriaram-se de todos os cargos públicos.
Expulsos do controle regional, os tchecos eram explorados pelo clero amoral cada vez mais rico e perdiam até as suas terras, apesar de serem a maioria no país.
Quando Henrique, duque de Korutan, subiu ao trono da Boémia, a vitória do germanismo parecia garantida:
todas as cidades pareciam ilhas alemãs no meio do mar da população tcheca, sendo completamente controladas por uma burguesia insolente que já não entendia a língua tcheca.
Essa língua estava sendo relegada gradativamente à condição de ser falada somente por camponeses.
Na massa popular existia a convicção de que os reis planeavam eliminar todos os eslavos para reforçar o poderio alemão.
Entretanto, em seus cálculos, os vencedores esqueceram-se de uma coisa: o ódio popular aos alemães, que passa como um filete de sangue por toda a história do povo checo.
Esse ódio era revivido e fomentado pela surda e cotidiana luta - sem descanso nem trégua - do camponês checo contra o invasor que lhe tomara a terra, a liberdade e a língua.
O espírito popular vivo ardia por debaixo das cinzas e, finalmente, levantou-se poderoso no momento que menos se esperava.
As explosões de energia e indignação popular ainda não tinham um sistema nem uma consciência necessários para a luta contra a enorme e rigidamente organizada força da germanização.
De repente, eis que a famosa crónica de Dalimil35 dá o primeiro sinal de despertar do amor à pátria, ressuscitando a gloriosa história do povo tcheco e reavivando para a luta as forças e o espírito dos conterrâneos.
A partir daí, a luta prossegue sob todas as formas com coragem crescente e, dessa vez, obtém sucesso.
As cidades enchem-se de população autóctone, a língua checa é restabelecida com honras e até a corte, percebendo o ameaçador perigo da germanização, torna-se defensora do povo e inimiga das pretensões de estrangeiros que inundaram a Boémia.
Um inusitado trabalho intelectual começa a fervilhar no país, atacando e minando instituições que serviam de esteio ao poder estrangeiro.
Contudo, os motivos básicos para o início da luta foram a desordem da Igreja e o descalabro moral do clero.
A aristocracia dos princípios hierárquicos romanos - assim como o sistema feudal alemão - era estranha à Boémia, amante da liberdade, que ainda recordava as bases populares do rito oriental que tornavam possível o oferecimento de escritos em língua nacional e, consequentemente, um desenvolvimento puramente nacional.
A Igreja romana - sempre estranha aos povos subordinados a ela - com seu jugo matava neles a vida espiritual autónoma.
Surgiram pessoas de destaque, talentosas e patriotas fervorosas - que por vezes sequer tinham consciência da grandeza e da importância do papel político que desempenhavam - que se dedicaram ao trabalho de transformação da Igreja.
Isso levaria inevitavelmente a Huss e às guerras hussitas que libertaram a Boémia do jugo estrangeiro.
Entretanto, o primeiro que se decidiu a atacar o poderio de Roma foi um alemão: Conrad de Waldhayusem.
Ele pregava contra os monges mendicantes, os vícios do clero e da sociedade, mas na língua alemã.
Seu sucessor e seguidor foi Milic de Kromeriz, que pregava em tcheco e, com isso, despertava no povo a atenção para a desordem na Igreja, abalada pela disputa de dois papas (um em Avignon e outro em Roma) que declaravam pretensões sobre o mundo cristão e duelavam entre si com excomunhões e bulas instantâneas.
Depois de Milic, veio Mathias de Janow36.
Com uma coragem nunca antes vista, ele acusa o alto escalão do catolicismo - papas, cardeais e bispos - como fontes de todos os descalabros e abusos.
Para ele, o chefe da Igreja e intermediário entre Deus e os seres humanos era somente Cristo; a única instrução de fé - as escrituras sagradas; a regra de vida - a pobreza e a falta de cobiça dos primeiros cristãos.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 27, 2016 8:02 pm

As ideias do protestantismo - as bases da Reforma - surgiram dessa maneira.
O último dos que precederam Huss foi o cavaleiro andante Tomás de Stitné, que transferiu o problema para o campo científico-teológico e com seus estudos, notáveis tanto pela força do pensamento como pela palavra, conseguiu incutir em todo o povo o interesse por essas ideias abstractas.
E, agora, estamos no limiar daquela revolução que, cem anos mais tarde, deveria resultar na destruição da unidade do catolicismo.
A longa gestação da Reforma estava concluída, todas as instituições medievais estavam minadas na base - restava juntar as questões teológicas à questão nacional e começar a guerra...
Em linhas gerais, esse era o movimento intelectual e essa era a luta do povo tcheco.
Vejamos agora como eram os acontecimentos políticos externos.
Em 1378, com a morte do rei tcheco e imperador Carlos IV, o mais notável e famoso governante da dinastia de Luxemburgo, o trono da Boémia e a coroa imperial passaram para o seu filho, Venceslau IV.
A história e, principalmente, os alemães - que não perdoaram seu apoio aos tchecos - condenaram-no severamente.
Ele, entretanto, tinha óptimas ideias e considerava realmente como objectivo de sua vida a felicidade do país a ele confiado.
Gostava da verdade, era acessível e até andava entre o povo para ouvir os comentários, controlar os comerciantes e castigar os abusos.
Era bastante erudito para o seu tempo:
falava e escrevia tanto em tcheco como em alemão, estudava latim e tinha noções sobre questões de direito.
Numa outra situação, Venceslau teria sido um óptimo rei, mas a luta que o destino lhe reservou foi demais para suas forças.
As diferenças nacionais e religiosas dilaceravam o reino; seus sobrinhos e irmãos, principalmente Sigismundo, eram seus inimigos, ansiando por tirar-lhe o poder.
Atormentado e desanimado, Venceslau caiu na bebedeira e em outros excessos.
Certa vez, em 1393, foi preso por nobres indignados, que depois lhe devolveram a liberdade, mas não a paz.
As intrigas de seu irmão e a insatisfação dos altos barões continuaram a agitar o país.
A isso veio se juntar a luta com o novo imperador do Sacro Império Romano-Germânico, Ruprecht Palatino, eleito em 1400 no lugar de Venceslau.
Para Huss e Jerónimo, esses acontecimentos eram vivificantes e tema inesgotável de conversas durante sua longa viagem de Pilsen a Praga.
Tendo ficado ausente por mais de dois anos, Jerónimo acumulara um bocado de perguntas, pois a correspondência na época era difícil e as novidades locais chegavam a outro país somente por acaso.
Por isso, a conversa não cessava e eles tinham acabado de comentar as mudanças ocorridas entre os professores e estudantes da universidade quando seus cavalos estancaram diante dos portões da cidade.
Naquela época, Huss morava na "Cidade Nova" e, apesar de Jerónimo ter uma residência fixa na casa de uma parenta na "Margem Pequena", eles decidiram passar juntos aquela primeira noite.
Quando passavam pelas ruas, a conversa era interrompida a cada minuto:
Huss ou respondia a profundas reverências ou trocava cumprimentos amigáveis com passantes das mais diversas classes da população.
- Vejo com satisfação que está muito popular, mestre Jan.
Os barões e cavaleiros o recebem com a mesma amabilidade que os artesãos e até o simples povo. - Observou Jerónimo, sorrindo.
- É verdade. Eles me mimam com uma amabilidade e um amor que não mereço.
Pregando a palavra de Deus, somente cumpro a minha obrigação e é muito natural que eu ame o nosso pobre povo, insultado, oprimido e odiado pelos estrangeiros!
Jamais esqueço que sou filho de camponeses e devo compartilhar o saber que me foi dado com os irmãos, que procuram a luz da verdade nestes tempos agitados.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 27, 2016 8:02 pm

Veja, lá vêm nossos amigos, que você também ficará feliz em ver:
Estéfano Paletch e lakubek!
As pessoas apontadas por Huss aparentemente perceberam os recém-chegados e dirigiram-se ao seu encontro.
Paletch era um homem de meia-idade, de aparência calma e equilibrada.
Seus traços faciais eram pouco agradáveis:
havia em seus olhos algo cruel e fanático.
Seu companheiro, lakubek de Stribro, era o oposto:
pequeno e vivo, nitidamente se tratava de um homem de acção, entusiasta e apaixonado.
Enquanto Paletch cumprimentava amavelmente a Huss, lakubek apertava amigavelmente a mão de Jerónimo.
- Finalmente você voltou, cheio de ciência estrangeira e muitas novidades políticas e outras que demorariam a chegar aqui por via normal. - Disse ele, alegremente.
- Bem, quanto às novidades, aqui vocês têm de sobra.
Mas, adivinhou.
Tenho algo interessante para você e para o prezado mestre Paletch:
dois trabalhos inéditos de Wyclif.
- Filosóficos? - Perguntou aquele.
- Não, teológicos:
Dialogus et trialogus37 muito curiosos!
- É preciso antes provar o quanto eles são úteis e o quanto são interessantes. - Observou, azedamente, Paletch.
As convicções religiosas de Wyclif foram condenadas por autoridades religiosas, e o cristão deve andar com extremo cuidado nesse terreno pantanoso.
- Sem dúvida!
Mas o senhor mesmo irá julgar quando ler os tratados.
Dentro de alguns dias estarei instalado no velho endereço e espero ter a honra de recebê-los.
- Aceito com prazer seu convite. - Respondeu Paletch, sorrindo.
E prosseguiu:
- Mas vamos indo, lakubek!
O senhor Zmirzlik está nos aguardando para o jantar e os viajantes devem ir descansar.
- Então, até logo!
Transmitam minhas recomendações ao Zmirzlik e à sua prezada senhora. - concluiu Huss, despedindo-se.
Alguns dias depois, no amplo e arejado quarto de Jerónimo reuniram-se seus amigos.
Eles sentavam junto à janela, em volta de uma mesa, sobre a qual estavam espalhadas folhas manuscritas.
Os rostos vermelhos indicavam que discutiam algo com aquela paixão que caracterizava as discussões religiosas daquele tempo e que aconteciam sempre, mais ou menos, no terreno das questões nacionais.
Paletch dirigia-se a Jerónimo gritando e agitando seus grandes, longos e magros braços.
- Tudo o que você leu para nós do triálogo de Wyclif somente confirma a minha primeira impressão.
Essas obras têm muitas coisas boas, suas intenções são puras, mas a sua coragem o leva demasiado longe.
Atingir, como ele o faz, todos os conceitos da Igreja, criticar toda a hierarquia episcopal, ousar dizer que toda a história da sociedade cristã resume-se na luta do reino de Anticristo com o reino de Cristo, renegar o direito do trono apostólico de unir e perdoar e, finalmente, desejar submeter esse trono ao poder mundano, isso, isso... já passa a ser uma heresia!
- Espere ai! - Interrompeu-o lakubek, excitado.
A nação também existe por direito divino, e Nosso Senhor Jesus Cristo, com as palavras "dai a César o que é de César", indicou o seu lugar.
Mas a manutenção da ordem, tanto entre o clero quanto entre o povo, é um direito incontestável do alto poder mundano, ao qual a Igreja deve se submeter.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 27, 2016 8:02 pm

Os papas, confirmando a independência do clero e suas propriedades do governo, criam uma fonte inesgotável para abusos e desordens.
Concordo inteiramente com Wyclif quando ele diz que o poder de unir e perdoar é exclusivo de Deus e que, ao apropriar-se dele por cobiça de poder, o papado comete o sacrilégio e semeia no mundo tentações e mentiras.
Não foi isso que gerou a excomunhão da qual os papas tanto abusam?
- Mas o que é isso, mestre Iakubek?
Quando você se anima, parece galopar como um cavalo sem freio! - Intrometeu-se na conversa um terceiro interlocutor que ficara em silêncio até então.
Você deve concordar que as malversações não fazem um objecto ser ruim se ele por si mesmo é bom; pode-se malversar com qualquer coisa, tal é a fraqueza humana.
Mas, inicialmente, a Igreja precisa tanto de castigos quanto o governo!
A excomunhão é um castigo espiritual, como a forca e a fogueira são castigos mundanos.
Estes e aqueles têm idêntico direito à existência!
- Certo, mestre Elias, mas ninguém enforca ou queima na fogueira pessoas por elas terem espirrado fora de hora, ou por terem almoçado bem demais.
As excomunhões são muitas vezes motivadas por alguns barris de cerveja38, ou uma outra ofensa contra a personalidade ou o bolso do padre. - Disse Jerónimo, rindo.
- O caso que você lembrou confirma somente as palavras de Wyclif sobre os prazeres terrenos serem a infelicidade e a morte da Igreja. - Observou Huss.
O Senhor proibiu a cobiça aos seus apóstolos, mas Suas santas palavras soam como ironia a partir do momento em que o imperador Constantino, 300 anos após, presenteou o Papa com um reino.
Naquele dia ouviu-se uma voz do céu:
"Envenenaram a Igreja de Deus".
Toda a Igreja cristã foi corrompida pela riqueza.
De onde surgiram as guerras, as excomunhões e todas as brigas entre papas, bispos e outros membros do clero?
Os cães brigam pelo osso:
tire o osso e a paz voltará.
De onde provêm a simonia e a cobiça do clero?
Tudo provém do mesmo veneno - a riqueza!39
- Então, você quer dizer que as propriedades da Igreja são inúteis e as doações feitas pelos fiéis para a glória de Deus e para a salvação da alma são um engano? - Perguntou, rispidamente, Paletch.
- Sim, estou profundamente convencido de que o homem engana-se tristemente quando imagina que, construindo uma igreja, obterá mais facilmente o perdão do Senhor.
Acredito que é melhor dar esmola aos necessitados quando em vida, do que presentear o clero após a própria morte construindo para si uma escada de ouro para o céu.
É melhor suportar humildemente um castigo e perdoar o inimigo do que se auto-flagelar e quebrar sobre as próprias costas florestas inteiras de varas de marmelo.40 - Respondeu Huss, com ardor.
Ele também estava inspirado e seus olhos, normalmente calmos e dóceis, brilhavam de indignação.
Assim, continuou:
- Acredite-me, Paletch.
Somente fazendo a Igreja voltar à sua pobreza inicial, nós lhe devolveremos a pureza e a faremos a imaculada noiva de Cristo.
- Entendi muito bem, Jan, e no geral concordo com você.
Todavia, a crítica aos estatutos, criados sob inspiração do Espírito Santo, consagrados pelas tradições e aprovados pelos pais da Igreja, é algo perigoso. - Observou Stanislau de Znoim.
Só posso aconselhar a vocês, meus amigos Jan e Jerónimo, e também a você, impetuoso lakubek, que sejam precavidos e estudem Wyclif com certas restrições.
Não foi à toa que o conselho de Londres e o arcebispo de Canterburry julgaram como hereges, 24 trechos escolhidos de suas obras.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 27, 2016 8:02 pm

Qualquer bom católico teria a mesma opinião, ao ler seus tratados sobre a comunhão, a predestinação, a Mãe de Deus e os santos.
Não posso acreditar, mestre Jan, que você aprove tais coisas!
- Deus está vendo - e Huss persignou-se, com veneração - que não aprovo nada disso e lamento que uma mente tão elevada como a desse teólogo inglês tenha se deixado levar de modo a cometer tão tristes enganos.41
Vou sempre permanecer um pacato e obediente filho da Igreja Católica.
Sou atraído para Wyclif pela fama que goza entre o bom clero na universidade de Oxford e entre o povo em geral, e não entre os maus, cobiçosos, pomposos e depravados prelados.
Sou atraído por seu amor à lei de Cristo para a qual ele tenta, com todas as suas forças, atrair as pessoas.
Contudo, o que mais atraiu minha atenção a Wyclif foi o facto de seus ensinamentos serem muito parecidos com os de Mathias de Janow, nosso famoso pregador que, como Wyclif, reconhecia Cristo como o único e legítimo chefe da Igreja e as sagradas escrituras como perfeitas instruções para a humanidade.
A Igreja perdeu o espírito evangélico e afundou-se na confusão das ideias humanas, das formas mortas, dos pequenos detalhes e fórmulas de direito canónico nos quais qualquer teólogo se perderia e dos quais um simples leigo nada iria entender.
Mathias de Janow e Wyclif concordam que, para ressuscitar a fé e conduzir a Igreja a uma unificação e à paz, é preciso retornar à iluminada simplicidade da palavra divina e do espírito vivo da sagrada escritura, pregando continuamente em todos os lugares numa língua que todos entendam.
Pois, repito, foi essa semelhança de opiniões com o venerado Mathias que me atraiu ao filósofo inglês.
- Bem, já que falamos de Mathias, estou plenamente de acordo com você. - Disse Stanislau, entusiasmado.
Nós, por direito, podemos nos orgulhar de Mathias e de seu mestre Milic - valorosos lutadores não só pela fé de Cristo mas também pelos direitos do nosso povo.
- Eles lutavam pela verdadeira Igreja, contra a alemã com seus indignos representantes, e pela liberdade do povo tcheco contra as pretensões dos estrangeiros!
Então, caros amigos, como chegamos agora a um consenso, pedirei para guardarmos as discussões para mais tarde e reforçarmo-nos com uma taça de vinho e um pedaço de caça.
Observou Jerónimo, alegremente, levantando-se.
Todos seguiram seu exemplo e sentaram-se em volta da mesa, sobre a qual havia uma jarra de vinho, uma torta, caça fria e presunto.
Durante a refeição, a conversa prosseguiu com o mesmo entusiasmo, mas sobre um outro tema que girava em torno da vida universitária e dos inúmeros acontecimentos que haviam ocorrido durante a estada de Jerónimo fora do país e desconhecidos para ele.
Naqueles tempos agitados de discórdias políticas e religiosas, a universidade de Praga desempenhava um papel primordial.
Fundada pelo imperador Carlos IV, pai de Venceslau, nos moldes da universidade de Paris, ricamente dotada e cercada de amplos privilégios, a universidade de Praga desenvolvia-se rapidamente e contava no período de 1372-1389 com até 12 mil alunos e mestres.
Todavia, essa calma e brilhante aparência já ocultava o início da discórdia; aquele ódio popular, que na época rondava por toda a Boémia, fartava-se nas próprias instalações universitárias.
Da mesma forma que o protótipo de Paris, a alma mater de Praga dividia-se em raças:
saxónica, bavária, polonesa e checa.
Em teoria, essa divisão representava nas eleições universitárias dois votos aos alemães e dois aos eslavos; mas, na prática, a facção polonesa era eslava somente no nome, pois a ela pertenciam algumas províncias alemãs.
Por isso, a supremacia estava do lado dos alemães, que tinham três votos contra um checo.
Essa situação era insuportável ao orgulho e ao interesse do povo.
Em 1384, aconteceram grandes desordens.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 27, 2016 8:02 pm

Os checos protestaram contra a apropriação por parte dos alemães de todas as cátedras de professores e de todos os cargos de reitores e decanos, contra a injusta entrega aos estrangeiros de todas as prebendas42 e de todos os postos bem localizados que davam melhores lucros e grande influência sobre o povo.
A ostensiva discórdia explodiu por motivo das eleições para um dos mais ricos colegiados, mais exactamente o colegiado de Carlos, que os checos não suportariam ver como de exclusividade dos alemães.
A discussão saiu da universidade e tomou conta de toda a Praga; aconteceram combates sangrentos e o reitor Konrad Soltou - um alemão - foi agarrado e espancado impiedosamente por uma multidão de jovens checos mascarados.
Quando ele ordenou que fossem suspensos as aulas e os exames, esperando com essa medida extraordinária forçar o inimigo a retroceder, os estudantes checos, bem armados, reuniram-se na universidade e seus mestres e bacharéis continuaram as aulas.
O rei e o arcebispo de Praga, Jan de Jenstein, ficaram do lado dos checos e este último decretou que todas as cadeiras do colegiado de Carlos deveriam ser, doravante, ocupadas por checos.
Os alemães tentaram reagir, mas depois acabaram cedendo e assinando esse compromisso.
Essa paz, entretanto, foi só aparente e a inimizade continuou, por vezes oculta, por vezes ostensiva.
Esses acontecimentos, ilustrando a eterna luta do povo por sua sobrevivência, foram contados a Jerónimo pelos amigos reunidos naquele dia em sua casa.
O orador principal foi o impetuoso lakubek, que - com sua característica espirituosidade - descrevia o confronto ocorrido no ano anterior, provocado por intrigas de professores alemães do colegiado "Todos os Santos", que haviam tentado impedir um checo de ocupar uma vaga aberta.
- Você devia ver como todos ficaram furiosos com o sucesso dessa intriga.
Tinham raiva especialmente do mestre Gubner, o mentor da trama.
Esse empertigado cão alemão está sempre pronto a dilacerar qualquer checo; aquele seu sucesso transbordava como a espuma da caneca de cerveja e ele ironizava abertamente a nossa derrota.
Estéfano de Colónia respondeu-lhe do púlpito da capela de Belém, com um discurso tão forte que o sermão agitou a população.
Acendeu-se a insatisfação contra os alemães e Gubner, ao voltar para casa à noite, foi ferido na cabeça por uma pedrada, conseguindo escapar só com um arranhão...
- Que pena!... - Observou Jerónimo.
- Pois é!
Mas, ao sarar, isso não o impediu de proferir um inflamado discurso na reunião das raças germânicas contra a capela de Belém e contra o "ímpio clero que, criminosamente, ousava pregar no bárbaro jargão checo, próprio da plebe e indigno da Igreja, semeando a discórdia e excitando paixões".
Como consequência do seu discurso, no domingo seguinte, uma multidão de cidadãos, encabeçada pelo rico açougueiro Kunts Leinhardt, reuniu-se diante da capela, começou a ofender os fiéis que lá entravam e tentou ele próprio entrar, para provocar a desordem.
Rechaçados à força, os alemães começaram a briga, que terminou muito mal para eles, pois éramos em maior número.
Além disso, a guarda da cidade também interferiu.
Houve, entretanto, mortos e feridos, inclusive algumas mulheres que não tiveram tempo de se salvar na correria e foram pisoteadas.
Os oponentes se separaram, ruminando ódio um contra o outro.
À noite, quando Gubner e seu irmão Lutz voltavam para casa, foram atacados por uma turba de mascarados que os surrou impiedosamente.
Lutz Gubner recebeu uma facada e, em consequência disso, morreu alguns dias depois.
Por isso, o bando de Gubner foi se queixar ao rei, que na época vivia no monte Kutná, mas receberam uma bofetada...
Ah! Ah! Ah! - E lakubek desandou a rir.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 27, 2016 8:03 pm

Naquele momento Venceslau tinha acabado de receber a notícia de que os dignatários imperiais haviam tirado dele o título de imperador, acusando-o de não ajudar a promover a paz na Igreja e com isso reduzir a importância do Império, de não cumprir a paz latifundiária e de executar inúmeros actos de crueldade e violência.
Isso, entretanto, deixou o povo substancialmente aliviado dos impostos e agora se pode andar por toda a Boémia com um saco de dinheiro na cabeça sem nenhum perigo.
Bem, o rei estava tão irado por ser substituído por Ruprecht Palatino, que tinha cólicas só de ouvir falar a palavra alemão.
Imagine quão amavelmente ele recebeu a delegação.
O sobrinho do senhor Zmirzlik, presente à recepção, contava que o rei ficou tremendo de raiva e nem quis ouvir os queixosos.
Aos gritos, ele disse estar saturado das indignações e das insolentes exigências dos alemães.
Disse também que, se eles mais uma vez ousassem discutir com seus fiéis súbditos checos, provocar agitações e interferir no que acontece na capela de Belém e na língua em que é feita a pregação, ele iria presenteá-los com o mesmo que Jan de Nepomuceno e seus companheiros receberam e ainda lhes proporcionaria um banho no rio Vltava.
A delegação voltou assustada e, depois disso, amansou; mas fazem de conta que estão do lado de Ruprecht.
Uma explosão de riso acompanhou as palavras de lakubek.
- Pois é. A nossa capela de Belém é um cisco em seu olho. - Observou Huss.
Mas para o nosso povo ela é a fonte de luz, fé e força.
- Benditos aqueles que abriram essa fonte!
Honra, saúde e longa vida aos magnânimos patriotas:
o cavaleiro Hanuch de Mülhein e o mercador Krenz! - Exclamou Jerónimo, levantando a taça.
- Salve a Boémia e a sua liberdade! - Bradaram todos, levantando as taças e bebendo.

34 No decorrer dos séculos, Praga foi celebrada por sua beleza.
Referindo-se à beleza da cidade, Goethe chamou-a de "uma pedra preciosa na coroa de pedra da Boémia " - Nota da editora.
35 Famoso patriota checo dos tempos do rei Jan de Luxemburgo (séc. XIV) que escreveu a história da Boémia em versos rimados - Nota do autor.
36 M. Janow, autor de Regras do Antigo e do Novo Testamento, pregava a salvação gratuita em Cristo - Nota da editora.
37 Ernest Denis - Nota do autor.
38 Caso em Breslau, em 1381 - Grünhagen, "Kõnig Wenzel und er Pfaffenkrieg in Breslau " - Nota do autor.
39 Sebranè spisy (Colectânea de documentos). II, 305, III, 147 - Nota do autor.
40 Sebranè spisy (Colectânea de documentos). II, 305, III, 147 - Nota do autor.
41 "Pierre Chaunu, em obra citada na bibliografia da introdução histórica, confirma as diferenças entre os dois pensadores.
Seleccionamos um trecho: "Wyclif é sistemático, Huss é pastoral.
Huss mantém uma concepção dos sacramentos em que rejeita a tentação wyclifiana que fazia depender a validade dos sacramentos da dignidade do padre.
Sobretudo, Huss permanece fiel à concepção medieval tradicional do sacramento da consagração.
Sua piedade eucarística defendia o realismo da presença divina, aponto de estimular um movimento que acabou por se definir por uma fidelidade ao cálice.
Mantinha-se firme na transubstanciação " (Chaunu 1975, p. 237) - Nota da editora.
42 Pagamentos ao clero por realização de cultos religiosos - Nota do autor.


Última edição por Ave sem Ninho em Sab Ago 27, 2016 8:04 pm, editado 1 vez(es)
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 27, 2016 8:03 pm

Capítulo V

Eram cerca de sete horas da noite e no castelo Valdstein preparavam-se para jantar.
Na grande sala de jantar, toda em madeira de carvalho trabalhada, estava posta uma mesa com rica prataria e cristal veneziano; a condessa, o bispo Brancassis e o padre Bonaventura entraram, sentaram-se à mesa, e os pajens, que estavam em pé atrás deles, começaram a servi-los.
A condessa, aparentando um certo descontentamento, estava distraída e a cada minuto olhava para a porta de entrada ou para o lugar vazio do outro lado da mesa.
- Não entendo essa ausência de Vok!
Ele deveria ter voltado há meia hora e isso é uma imperdoável desatenção de sua parte! - Disse ela, severamente.
- Não vale a pena se enervar, cara prima. - Sorriu o bispo, tentando acalmá-la.
Seu filho, provavelmente, atrasou-se na caçada ou com algum amigo.
A despreocupação, própria da idade dele, e não a desatenção à senhora, deve ser a causa de sua ausência.
O padre Hilário também não veio; ele adoeceu?
- Não! O padre Hilário foi visitar um paciente e provavelmente se atrasou pelo caminho. - Explicou Bonaventura.
Naquele instante, do quarto vizinho ouviram-se passos e na porta apareceu um jovem de 16 anos, cuja presença fez o rosto da condessa desanuviar-se imediatamente.
O jovem conde Valdstein era um rapaz muito bonito; alto para a idade, esbelto e bem-formado.
O rosto levemente bronzeado respirava coragem e até ousadia; nos grandes olhos negros herdados da mãe, cintilava uma alma orgulhosa e apaixonada.
Aproximando-se da condessa, beijou-lhe a mão, desculpou-se pelo atraso e, em seguida, cumprimentou o bispo de forma educada mas fria.
A julgar o amor e o orgulho com que a condessa acompanhava cada movimento seu, percebia-se que adorava o filho.
O jovem sentou-se e começou a comer, mas repentinamente, olhando em volta, franziu o cenho.
- Onde está Svetomir? - Perguntou.
- Onde estaria aquele glutão bobo, senão na penitência? - Respondeu com desprezo a condessa e, dirigindo-se a Brancassis, acrescentou:
- Nem posso expressar o desgosto que esse inútil moleque está me causando!
Para o padre Hilário é um verdadeiro castigo ensinar-lhe latim e ciências; ele é tão preguiçoso que nem os salmos consegue saber de cor!
- E qual foi o crime que ele cometeu hoje?
- O padre Hilário pegou-o comendo presunto!
Isso, num dia de jejum!
Ele ainda mentiu dizendo que a mulher do zelador tinha lhe dado o presunto.
- Percebo que Svetomir é bastante culpado!
E onde está o digníssimo padre?
Castiga o criminoso oferecendo-lhe sermões em vez do jantar e serve ele próprio de exemplo de abstenção e jejum? - Perguntou, sarcasticamente, Vok.
A condessa corou.
- Vok! - Disse ela, num tom de insatisfação.
Você novamente está se permitindo piadas não condizentes com o ambiente e esquecendo dos presentes!
Você tem obrigação de respeitar o meu confessor!
Saiba que o bom padre Hilário foi visitar um paciente.
Vok nada respondeu e sorriu, sarcasticamente.
Brancassis - que o observava atentamente - tentou evitar o confronto e passou a falar da notícia recebida pela manhã sobre a chegada do conde trazendo Rugena dentro de dois dias.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 27, 2016 8:03 pm

Passaram a falar sobre o falecido barão Rabstein e o seu papel na união dos senhores, juntamente com Rosenberg, Gradetski, Landstein e outros.
Por fim, todos saíram da mesa.
Deixando a mãe e o bispo passarem adiante, Vok parou à porta e com um sinal chamou um dos pajens, sussurrando-lhe algo no ouvido.
O pajem aquiesceu com a cabeça e correu para cumprir a ordem.
Alguns minutos depois, voltou com uma cesta nas mãos e começou a enchê-la com o resto de comida que havia sobrado nas travessas da mesa:
peixe, carne assada, pastéis e frutas.
- Bogomil! Seu moleque sem-vergonha!
Como ousa roubar da mesa?
Coloque imediatamente tudo no lugar, senão lhe arranco as orelhas! - Gritou com ele o irado mordomo, agarrando-o pelo cangote.
Mas o pajem, feito cobra, escorregou de suas mãos.
- O conde Vok ordenou que levasse para os seus aposentos comida para os cães.
O senhor pode perguntar-lhe! - Respondeu o menino, em tom de desafio.
Em seguida, desapareceu pela porta levando do bufê um pedaço de queijo.
- Mas que absurdo!
Alimentar cães com peixe assado, pastéis e frutas! - Resmungava o mordomo, que contava deliciar-se ele próprio com aqueles restos.
Alegando cansaço do longo passeio a cavalo, Vok foi para seus aposentos, despedindo-se da mãe e do prelado.
Seus dois quartos estavam mobiliados com todo o luxo daquele tempo.
Já escurecia, pois pelas estreitas janelas abertas nas grossas paredes passava pouca luz e o criado acendeu as velas nos castiçais de cobre.
Naquele instante, o pequeno pajem Bogomil preparava a mesa e colocava sobre ela a provisão que trouxera.
Vok deu-lhe um pastel de prémio e mandou-o sair, proibindo-o de perturbá-lo sem ser chamado.
Reflectindo um pouco, Vok voltou-se e saiu para o corredor, no fim do qual havia uma porta trancada.
Tentou abri-la sem sucesso e, finalmente, dando um soco, gritou:
- Svetomir, seu bobão!
Você está dormindo ou morreu de fome?
Responda!
- Estou trancado aqui desde a manhã, Vok, e não posso nem sair nem abrir para você. - Respondeu do outro lado uma fraca voz infantil, entremeada de lágrimas.
No expressivo rosto do jovem Valdstein apareceu um ar de piedade e compreensão.
- Então me aguarde e abra a janela, que vou buscá-lo. - Respondeu ele e correu de volta pelo corredor.
Pela escada em caracol, ele desceu para o jardim que se estendia em volta do castelo e aproximou-se da torre, em cuja janela aberta via-se uma ténue figura infantil.
- Estou aqui, Vok!
Mas como vou descer desta altura? - Soou a vozinha, tristemente.
- O quê? Chama isso de altura?
Se estivesse em seu lugar eu já estaria em liberdade há muito tempo, mesmo que fosse somente para apertar o nariz daquele demónio tonsado que o tiraniza!
Você é um galinha-morta!
Veja, vou mostrar-lhe o caminho.
A torre estava envolvida por uma espessa hera de escura folhagem; Vok, aproveitando os poderosos galhos, subiu corajosamente, com rapidez e facilidade, até a janela que realmente não estava muito alta.
Foi, então, parar num quarto redondo, cujas paredes nuas e cuja pobre mobília contrastavam radicalmente com o luxo e o conforto dos seus aposentos.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 27, 2016 8:03 pm

A luz bruxuleante da lamparina colocada diante da imagem sacra iluminava uma cama simples, uma mesa, alguns bancos de madeira e uma estante num canto.
Sobre a mesa, perto de um monte de livros, havia uma caneca de água e alguns pedaços de pão.
- Pronto, cheguei!
E descer não é mais difícil do que subir. - Disse Vok, rindo satisfeito.
Você prefere se enfurnar aqui e esperar a volta do bravo Hilário ou ir ao meu quarto, jantar bem e ganhar um presente? Escolha!
- É claro que prefiro ir jantar!
Estou com muita fome.
Mas não sei se consigo descer como você.
- Bah! A necessidade gera heróis!
Tenha coragem, eu o ajudo a descer da janela.
Veja aquele galho grosso que parece um degrau.
Segure com as mãos e não solte até que esteja firme em pé.
Ele ajudou Svetomir a sair pela janela e segurou-o até ele dizer que estava firme.
- Coragem e não tenha medo!
Você não pesa mais do que um gato esfomeado.
Eu desço depois para não quebrar a hera.
A descida foi tranquila e, cinco minutos depois, eles já estavam no quarto de Vok, que imediatamente trancou a porta.
- Coma bem para recuperar as forças. - Disse, apontando para a mesa posta.
Depois do sagrado jejum de padre Hilário você está com péssima aparência.
- Obrigado, Vok!
De toda a casa você é o único que tem pena de mim. - Respondeu o garoto faminto, sentando à mesa e começando a engolir rapidamente o jantar preparado.
Agora, no quarto iluminado, dava para enxergar Svetomir.
Era um garoto magrinho, de uns 13 anos, com longos, espessos, louros e crespos cabelos e grandes e claros olhos de cor verde-cinza.
Seu rosto fino e atraente era transparente como se fosse de cera; nos lábios pálidos passeava um triste, amargo e dócil sorriso.
O traje velho, puído e largo demais não conseguia esconder a esbeltez e a graça natural da sua aparência dócil e infantil.
Quando finalmente a torta foi engolida até a última migalha, e depois da torta desapareceu o pedaço de queijo, Svetomir correu para lavar o rosto e as mãos e sentou-se perto de Vok que todo o tempo ficara observando-o calado.
- Puxa, como comi bem! - Disse ele, com um suspiro de satisfação.
Estou muito grato a você, Vok, por sua bondade para comigo.
- Pobre bobão! - Respondeu Vok, com simpatia, acariciando com ternura a cabecinha cacheada.
Por que fica calado diante daquele patife que lhe judia tanto?
- Mas como quer que eu o enfrente, se ele é mais forte e a tia está do lado dele?
Faz quatro dias que ele voltou e já me surrou três vezes e eu nenhuma vez almocei nem jantei sob a alegação de que um futuro padre deve acostumar-se a jejuar e mortificar a carne e não encher o estômago.
Ainda hoje, por causa do pedaço de presunto que me deu a bondosa Martina, ele me deu chibatadas até sangrar e decidiu manter-me trancado por uma semana a pão e água.
O garoto calou-se porque as lágrimas começaram a sufocá-lo.
- Patife! - Murmurou Vok por entre os dentes.
- Sim, ele é um homem mau e eu o odeio, assim como a todos os padres!
Prefiro afogar-me a vestir uma batina! - Exclamou Svetomir energicamente, cerrando os punhos e com brilho nos olhos por debaixo dos longos cílios.
- Até que enfim!
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 27, 2016 8:03 pm

É assim que eu gosto de vê-lo e, como prémio, vou dar-lhe o presente prometido.
O jovem conde retirou debaixo da camisola um rolo de pergaminho e abriu-o sobre a mesa.
- Veja, Svetomir.
Esta é uma indulgência para todos os pecados corporais, assinada verdadeiramente pelo arcebispo de Praga.
O nome do possuidor ainda não foi preenchido e eu já o vejo:
Svetomir Kryjanov.
Depois disso você poderá comer presunto debaixo do nariz do Hilário e ele não ousará lhe dizer nada.
Se você, mentalmente, dar-lhe um bofetão, mesmo assim os portões do céu estarão abertos para você. - Explicava Vok, rindo.
Svetomir correu para o quarto vizinho e trouxe de lá a pena e o tinteiro.
- Onde conseguiu essa preciosidade? - Perguntou, feliz, enquanto Vok escrevia no pergaminho.
- Comprei-a de um monge mendicante que cambaleava bêbado na estrada.
Ele, pelo jeito, roubou-a de alguém, pois me vendeu barato:
por um dobrão de ouro.
Mas o documento, como uma chave para o céu, nada perde com isso.
Bem, parece que o padre Hilário voltou de sua filantrópica viagem.
Realmente, no corredor soavam pesados e rápidos passos.
Svetomir estremeceu e ficou pálido.
- O que ele vai dizer quando não me encontrar no meu quarto? - Sussurrou ele, apavorado e com voz abatida.
- Isso nós vamos ver!
Eu me entendo com ele aqui e colocarei uns arreios em sua intenção de transformá-lo num santo.
Disse Vok, abrindo de supetão a porta para o corredor, no fundo do qual apareceu Hilário, vermelho de raiva,
- Se o senhor procura o Svetomir, reverendo padre, ele está aqui comigo!
Gritou-lhe Vok, convidando-o a entrar com um gesto.
- Por que o senhor o esconde em seus aposentos?
Aguarde-me, miserável, sobre esta molecagem nós conversaremos depois!
Disse ele, dirigindo-se com ar ameaçador ao garotinho, mudo de medo e agarrado à mesa.
- Desculpe, reverendo padre, mas quero que o senhor se explique com Svetomir agora e na minha presença, pois fui eu que o trouxe aqui.
O senhor deveria se envergonhar de tratar com tanta desumanidade uma criança que não tem ninguém para protegê-la.
A cor da ira espalhou-se pelo rosto redondo e gordo de Hilário.
- Como ousa, garoto insolente, me ditar sermões?
Vou queixar-me à sua mãe por este desrespeito, e ao miserável, colocado aos meus cuidados, vou extenuar à minha maneira por abstenção e jejum, fazendo dele um digno servidor de altar. - Sibilou ele, irado.
Vok empalideceu.
Então, agarrando-se ao cabo do punhal e com ar ameaçador, deu um passo na direcção do monge.
- Nesse caso, antes de fazer de Svetomir um digno servidor da Igreja, comece por si mesmo e não judie da criança, acostumando-a a mentiras e fingimento.
Saiba o senhor, digníssimo Hilário Shwartz, que conheço o motivo de suas viagens filantrópicas:
o paciente que o senhor visita nada mais é do que a filha do carvoeiro Miguel, que o senhor seduziu ainda na primavera passada e agora obriga a ela e ao pai permanecerem calados sob a ameaça de perder o posto.
Se eu contar isso ao meu pai, o senhor terá muitos problemas, pois ele não gosta que os confessores de mamãe se divirtam tão alegremente em suas terras.
Fique com a sua boa influência sobre a condessa, que é suficientemente cega para não ver as suas conquistas, mas se prive do mau tratamento dispensado a Svetomir que, além do mais, possui uma indulgência que o libera da necessidade de jejuar!
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 27, 2016 8:04 pm

Finalizou Vok, sarcasticamente, apontando para o pergaminho aberto sobre a mesa.
O monge nem o olhou.
Sufocado pela raiva, sem dizer palavra, ele se voltou e saiu rapidamente do quarto, batendo a porta.
- Maldito! Você ainda irá me pagar por isso! - Sibilava ele por entre os dentes, correndo como um furacão pelo corredor.
A ira impotente do confessor da mãe deixou o jovem conde bastante alegre.
Ele caiu na poltrona gargalhando, e somente quando passou o primeiro ataque de riso, dirigiu-se a Svetomir, que continuava parado e calado junto à mesa.
- Não tenha medo!
Você não vai pagar nada por essa nossa conversa.
Se ele ousar lhe bater, venha queixar-se a mim.
Saberei amordaçar esse cão alemão.
Entretanto, hoje você vai dormir aqui.
Deixe que a raiva dele passe antes de encontrá-lo novamente.
Enquanto o criado, por ordem do jovem conde, fazia a cama de Svetomir, Vok subiu pela escada em caracol para o andar superior da torre onde morava o pequeno Kryjanov.
O ambiente lá também era muito simples e somente um grande número de espadas, punhais, lanças, maças, bestas e outras armas davam à sala uma aparência militar.
À mesa estava sentado um homem de compleição fortíssima que, sob a luz de uma lamparina a óleo, lia o Evangelho.
Esse homem era Anton Broda - professor de artes marciais do castelo.
O velho conde e Vok, principalmente, tinham por ele um respeito especial, pois ele fora o "mestre-de-armas" do garoto, ensinando-o a arte do combate.
Ao ver entrar o jovem Valdstein, ele se levantou; mas Vok fez um gesto para ele sentar-se e, empurrando o banco, sentou-se ao seu lado.
- Broda! - Falou, alegremente, o jovem.
Preciso contar o meu confronto com Hilário.
Ele quase estourou de raiva quando soube que conheço a história dele com a filha do velho Miguel.
Você aprontou-lhe uma boa, contando-me as suas aventuras.
E relatou-lhe a conversa com Svetomir, a compra da indulgência e o confronto com o monge.
- Está vendo, Anton?
Cumpri a minha palavra e tomei Svetomir sob a minha protecção. - Finalizou o jovem, com satisfação.
- Deus lhe pague, senhor conde, pela boa acção!
Já não suportava mais o choro e os gritos da infeliz criança quando aquele cão alemão a judiava.
O patife, sem-vergonha e depravado ainda ousa portar o título de padre!
- Agora ele está em minhas mãos!
Mas devo lembrar-lhe, Broda, que cumpri o que prometi e você ainda não me levou nos encontros secretos sobre os quais me contou.
Quero muito participar deles.
Broda encostou-se na mesa e pensou em pouco.
- Eu não me decidia por não saber se seu pai aprovaria isso, senhor Vok.
Mas se o quer tanto, por que não?
Não é nenhum crime.
Nós nos reunimos para rezar como rezavam nossos pais e para conversar sobre as desgraças da pátria, que nenhum checo consegue ver sem dor no coração.
Então, iremos no próximo sábado.
Sei que você não irá me trair...
- Juro por Cristo!
- Acredito, acredito, meu senhor!
Tenha paciência, pois de qualquer modo você não poderá se ausentar até a chegada de seu pai.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 28, 2016 7:37 pm

Depois de conversar mais um pouco, o conde voltou aos seus aposentos e Anton prosseguiu a sua leitura do Evangelho.
Broda era uma pessoa surpreendente:
sombrio, sério e pouco sociável.
Toda a criadagem, mesmo temendo-o, gostava dele e respeitava-o por seu senso de justiça, por seu desinteresse e também pelo facto de ele utilizar sua grande influência sobre o jovem conde para salvar pessoas em dificuldade ou para livrá-los da ira do administrador alemão, protegido da condessa.
Sua vida fora agitada e cheia de aventuras.
Naqueles difíceis tempos, a vida fora dura para a família de seu pai, um senhor da baixa nobreza, que tinha uma pequena propriedade perto do mosteiro de Kladbur.
As desavenças do senhor Nikolai com o clero quanto ao cumprimento das obrigações religiosas haviam levantado suspeitas de que a família pertencia à "antiga crença", considerada heresia no país, e de que comungava em ambas as formas (corpo e sangue).
Essas acusações infundadas haviam provocado a indisposição do pároco e não era segredo para ninguém que o abade desejava fervorosamente limpar o seu rebanho de ovelhas gafadas43 que poderiam contaminá-lo.
Apesar das dificuldades, o senhor Nikolai agarrava-se ao seu pedacinho de terra e era respeitado pelos camponeses vizinhos.
Mas seu ponto fraco era a pobreza.
Num momento difícil, ele acabara sendo obrigado a pegar emprestado dinheiro em condições desfavoráveis, de um cidadão alemão.
Dois anos depois, ao viajar para visitar seu credor, ele desaparecera sem deixar pistas.
Mais tarde, aquele alemão exigira da família o ressarcimento da dívida.
O montante revelara-se tão grande que toda a pequena propriedade passara a pertencer-lhe.
A viúva e os dois filhos, Martin e Anton, haviam ido parar na rua.
Ela logo morrera, levando para o túmulo a convicção de que, no dia do desaparecimento, seu marido estava levando o dinheiro para pagar a dívida, cujo valor, conforme suas palavras, era muito menor.
Ele fora morto por incumbência de seu credor, com o objectivo de tomar as terras, onde depois passara a morar um sobrinho do agiota alemão.
Órfãos e sem um tostão, Martin e Anton, um com 18 anos e outro com 16, haviam sido obrigados a levar uma vida errante.
Destacando-se pela rara beleza e pelo físico privilegiado, Anton abraçara o ofício de "soldado mercenário", guerreando em muitos lugares, inicialmente na pátria e depois até na Itália, no exército do conde de Mantuá.
Todavia, apesar de todas as mudanças de sua vida agitada, dois sentimentos haviam permanecido guardados em sua alma:
o amor à pátria e uma fervorosa e insuperável repugnância por tudo o que fosse alemão.
O acaso levara-o ao conde Valdstein, que lhe oferecera o lugar de mestre-de-armas; esse honroso e bem-remunerado cargo agradara a Broda.
Durante a longa estada do conde em Praga, Broda tornara-se um assíduo ouvinte dos sermões de Mathias de Janow.
Como, no entender de Broda, o alemão e o catolicismo eram coisas inseparáveis — e por isso odiadas -, ele tornara-se um fervoroso defensor da Reforma.
Despertara nele a antiga forma de religião, levando-o de corpo e alma ao rito grego dos seus antepassados, cujos adeptos continuavam a existir em segredo.44
Alguns anos depois de entrar para o serviço do conde, Broda salvara a vida do pequeno Vok, então com cinco anos, que quase fora morto por um touro enfurecido.
Esse acontecimento não somente concedera-lhe as graças dos seus senhores mas também criara uma amizade entre a criança e seu salvador.
O carácter explosivo e corajoso de Vok agradara ao velho guerreiro, enquanto o pequeno conde adorava os contos sobre caçadas e guerras de Broda e as sagas dos antigos heróis checos.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 28, 2016 7:37 pm

Todas as crónicas de Dalimil haviam sido transmitidas ao menino:
as imagens de Zavich Rosemberg, na auréola do amor que o povo nutria por ele, e o seu martírio pela pátria, ou do barão checo Hinek de Dub, cujo nome as mães alemãs usavam para assustar seus filhos e cujo poderoso braço não conhecera outro inimigo senão os alemães, desde cedo haviam impressionado a imaginação da criança.
O velho conde nunca se opusera àquela aproximação:
ele sabia que nas veias de Broda corria sangue nobre, que ele amava o seu filho e que faria dele um mestre das artes de cavaleiro, tão valiosas naquele tempo.
Aproveitando a liberdade oferecida, Broda mantinha em seu pupilo o amor à grandeza passada da Boémia e aos príncipes, parentes de sangue e representantes do povo.
Ele contava, com belas palavras, as tradições sobre a pregação evangélica de Cirilo e Metódio, nos tempos do príncipe Borzivoi, e sobre a desgraça que representara a chegada dos colonos estrangeiros, trazidos pelos enviados do Papa.
Esses enviados do Papa, narrava Broda, haviam tomado o ouro e as terras, depravando o clero local e deturpando, com suas ideias, os puros ensinamentos evangélicos.
Enquanto isso, os colonos haviam inundado o país como uma nuvem de gafanhotos, sugando o sangue e o suor e judiando dos tchecos, oprimindo seus direitos e costumes e, aos poucos, escravizando os legítimos filhos do país.
Anton enchia o coração do jovem conde com todo o fel e o ódio selvagem por tudo o que fosse alemão e com o absoluto desprezo pelo clero depravado e fiel aos estrangeiros.
Suas conversas sempre terminavam com a entrada de Vok num relacionamento com os adeptos da velha fé e a promessa de frequência de suas reuniões secretas.

43 Ovelhas gafadas: doentes, contaminadas - Nota da editora.
44 Stransky, "República Boémia ", cap. VI, 6 - Nota do autor.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 28, 2016 7:37 pm

Capítulo VI

Finalmente, o conde retornou ao castelo trazendo Rugena.
Vok recebeu-os no pátio e, fazendo uma reverência à sua pequena noiva, ajudou-a a descer da liteira.
Examinando-a com olhar orgulhoso, ele pareceu ficar satisfeito e conduziu-a até a condessa.
Mas Rugena olhou para o noivo com um olhar pouco amigável, quase hostil, e até tentou retirar sua mão da dele.
A condessa Valdstein desagradou-lhe demais; em resposta aos seus beijos e abraços, Rugena fez somente uma reverência.
Parecendo não notar a frieza hostil da futura nora, a condessa conduziu-a amavelmente aos novos e luxuosos aposentos destinados à rica herdeira, e sugeriu que descansasse até a tarde.
Meia hora antes do jantar, a condessa voltou novamente e, ordenando a Htka que as acompanhasse, conduziu Rugena ao grande salão onde estavam sendo aguardadas pelo bispo, pelos condes - pai e filho -, pelos dois padres e pelos principais criados do castelo, encabeçados por Anton Broda e o castelão.
Quando todos se reuniram, o conde Hinek anunciou solenemente que, no cumprimento da vontade de seu falecido primo, e em total correspondência aos seus próprios desejos, ele realizaria o noivado de Rugena Rabstein com seu filho Vok, conde de Valdstein.
A festa de comemoração daquela feliz circunstância estava adiada até o fim do luto pela grande perda na família.
O casamento seria realizado quando a noiva completasse 16 anos.
Apesar de ainda ser criança, Rugena sentiu instintivamente a importância daquele momento e empalideceu.
Quando o conde-pai quis juntar as mãos dos noivos, ela arrancou-a dele e recuou.
- Eu não quero... - Sussurrou ela.
- Rugena! Não imaginei que estaria contra a vontade de seu falecido pai! - Observou o conde, severamente.
O senhor bispo estava presente nos seus últimos momentos e pode confirmar a sua vontade.
O reverendíssimo, em sua bondade, expressou o desejo de abençoar o vosso noivado.
Agora você, de repente, comporta-se como uma menina manhosa e mal-educada.
Rugena fora criada sob rígido respeito à Igreja e a seus servidores; além disso, ela havia visto Brancassis em relações amigáveis com o pai durante a última visita deste ao seu castelo.
Diante de tal autoridade, sua teimosia infantil desapareceu imediatamente.
Sem mais resistir, ela estendeu a mãozinha ao bispo, que a colocou na mão de Vok e pôs um anel com uma esmeralda em seu dedo.
Uma tristeza repentina tomou conta do coração da menina quando, levantando os olhos para o seu noivo, viu seu olhar sombrio brilhando de descontentamento e teve de conter as lágrimas que brotaram em seus olhos.
Durante o jantar, os noivos ocuparam lugares de honra e, quando os presentes levantaram um brinde à sua saúde, Brancassis fez um discurso sobre a importância dos laços de amor e dever que os uniam.
Rugena, observadora e desenvolvida acima da idade, notou que as palavras do bispo provocavam um sorriso de desdém no rosto de Vok.
Esse desrespeito à alta autoridade do orador espantou-a e ofendeu-a.
Quando por fim Rugena se viu novamente em seus aposentos e a sós com a aia que a despia, chorou convulsivamente.
- Iitka, por que devo casar com Vok?
Nunca o vi antes...
Meu pai nunca falou dele... - Balbuciava ela, soluçando, abraçada ao pescoço da aia.
- O jovem conde é muito bonito, rico e um verdadeiro nobre que merece você!
Obviamente, o falecido barão tinha seus motivos para escolhê-lo para seu marido.
Rugena, você é ainda muito pequena para administrar a sua enorme herança e precisa de um protector e padrinho.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 28, 2016 7:38 pm

Portanto, não chore.
Quando conhecer melhor seu noivo e acostumar-se a ele, irá amá-lo e vocês serão felizes. - Consolava-a Iitka, enxugando as lágrimas que corriam pela face da menina.
Mas Rugena não se conformava.
- Ele tem olhos maus e não quero amá-lo!
A mãe dele é má! - Declarou ela, enterrando o rosto nos travesseiros.
No dia seguinte, Rugena acordou mais calma.
Uma grande caixa com brinquedos e doces, enviada pelo noivo, abrandou-a um pouco; depois ela se distraiu desempacotando as coisas que trouxera de casa e, finalmente, foi ao jardim brincar com Perun.
Correndo atrás do cão pelas sombrosas alamedas, lembrou-se dos passeios que fazia com o pai.
A alegria desapareceu imediatamente; um sentimento de abandono apertou seu coração; lágrimas surgiram em seus olhos e ela, cabisbaixa, foi sentar-se num banco, com Perun deitando-se aos seus pés.
De repente, ela viu, através das lágrimas, um menino sentado debaixo de uma árvore perto dali, com um livro nas mãos e que a olhava com curiosidade.
Seu jeito, o rosto pálido com grandes e tristes olhos fizeram Rugena esquecer os maus pensamentos.
- Quem é você?
O que faz aqui? - Perguntou ela.
- Sou Svetomir e estou estudando a lição de latim. - Respondeu o menino, indeciso.
- Você se chama Svetomir, como o meu pai?
Venha já até aqui e me conte onde mora e quem é você.
Mas o menino não se mexeu.
Então, ela correu até ele, pegou-o pela mão e levou-o até o banco.
- Como você é bonita!
É a noiva de Vok? - Perguntou Svetomir, examinando-a com admiração.
- Sim, mas gostaria de não ser sua noiva.
Ele é mau! - Disse ela.
- Não é verdade!
Vok é bom, amável e me defende! - Retrucou Svetomir com tanta ênfase que Rugena ficou confusa.
- Quem é você que precisa ser defendido e de quem? - Perguntou ela, num misto de surpresa e desdém.
- Sou órfão!
O conde Valdstein pegou-me para criar por mera bondade.
Chamo-me Svetomir Kryjanov.
- Sigismundo Kryjanov visitava muito meu pai em Praga, mas aquele era um rico senhor. - Interrompeu-o Rugena.
- Ele é meu tio em segundo grau.
- E por que você não vive com ele?
- Ele e seu irmão eram inimigos de meu pai não sei por quê.
Quando meu pai foi morto na última guerra dos senhores contra o rei, eles nem quiseram saber de mim.
Nós ficamos sem nada:
nossa casa queimou e as terras foram arrasadas durante a luta do duque Jan Herlitsky contra a união dos senhores pela libertação do rei da prisão45.
O conde Valdstein, que era amigo de meu pai, acolheu-me e já faz sete anos que vivo aqui.
Quando crescer, vou ser padre, mesmo que não tenha nenhuma vontade. - Disse Svetomir, dando um profundo suspiro.
- Se Vok o protege, ele não permitirá que lhe vistam a batina à força.
- Ele não tem tanto poder.
É sua mãe que quer que eu seja padre de qualquer jeito.
Quando o confessor da condessa me bate e me faz jejuar até eu não saber mais o que fazer de fome, Vok me alimenta em segredo.
Ele até me comprou uma indulgência que me livra dos dias de jejum.
Recentemente ele teve até um terrível confronto com o padre Hilário e este agora já não me judia como antes. - Concluiu o garoto, entusiasmado.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 28, 2016 7:38 pm

- Agora vou ter uma opinião melhor sobre Vok.
Mas você não vai mais passar fome.
Vá aos meus aposentos e coma quanto quiser.
Eu direi à condessa que você é meu amigo e que o seu professor deverá deixá-lo brincar comigo quando eu quiser.
A conversa tornou-se cada vez mais amigável.
A situação de orfandade de ambos atraía-os.
Também pela idade e pelo carácter, Svetomir estava muito mais próximo de Rugena do que Vok, um jovem quase adulto.
Eles se beijaram na despedida e prometeram um ao outro encontrar-se mais vezes para brincar.
Na manhã de sábado, Vok obteve do pai a autorização para uma caçada que poderia durar até a noite do dia seguinte.
O conde também era um inveterado caçador e concordou com isso, considerando que o filho estava bem seguro sob a guarda de Broda.
Reforçados com um bom desjejum e fortemente armados tanto para a caça como também para a autodefesa, em caso de ataque inesperado, eles deixaram o castelo.
O conde acompanhou pela janela a sua saída, vendo com orgulho o porte bonito e esbelto do filho e a compleição avantajada e robusta do Broda, montando um enorme cavalo murzelo; ninguém diria que aquele mestre-de-armas tinha 50 anos, tão flexível era seu poderoso corpo e tão ágeis eram seus movimentos.
Não havia nenhum fio de cabelo grisalho nos cabelos nem na barba, negros como asa de corvo.
No olhar aquilino, severo e pensativo, nos olhos sombreados por espessas sobrancelhas, brilhavam a firmeza e a força.
Como a maioria dos checos da pequena nobreza, Broda desprezava trajes ocidentais - a "libre alemã" como ele dizia - e usava trajes de corte polonês, seus contemporâneos.
Vestia um largo casaco com cordões no peito, fechado com botões metálicos e longas mangas, jogadas nas costas, por cujos vãos via-se a roupa de baixo.
Durante a viagem, Broda contou ao jovem conde como seu pai sofrerá por ser adepto das antigas tradições e como, ainda na juventude, durante o reinado de Jan, ele ouvira os sermões de Jan Moravan.
- Naquela época ainda não perseguiam com tanto rigor as pessoas que quisessem permanecer fiéis aos puros ensinamentos do Evangelho.
Os padres, entretanto, já os odiavam como inimigos da vontade dos senhores e não perdiam oportunidades para prejudicá-los.
A prova disso é o meu pai. - Concluiu Broda.
À tarde, entraram numa densa floresta.
O local era montanhoso, entrecortado por profundos desfiladeiros e rochas, parcialmente cobertas pela floresta e parcialmente desnudas e enegrecidas.
Saíram da estrada e foram directo pela charneca, orientando-se pelo sol poente.
O vento soprava os cumes das árvores e na floresta havia um indefinido e arrepiante zumbido.
Tudo em volta era selvagem, e a escuridão que se aproximava dava aos arredores um aspecto ainda mais sombrio. Finalmente, Broda estancou seu cavalo.
- Desça, senhor!
Teremos de deixar os cavalos aqui e fazer o resto do caminho a pé. - Disse ele.
- E como vamos encontrá-los depois, no escuro? - Perguntou Vok, preocupado.
- Não tema.
Conheço bem estes lugares. - Acalmou-o Broda, apeando do cavalo.
Tiraram as selas, amarraram os cavalos e Broda, pegando seu pupilo pela mão, conduziu-o para dentro da mata.
Mas mal haviam dado alguns passos, quando de trás da árvore surgiu a figura de um homem com espada na mão, obstruindo a passagem.
- Quem vem lá? - Perguntou a figura.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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