Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 28, 2016 7:38 pm

- Irmãos, indo ao templo de Sion. - Respondeu Broda.
Deixe-nos passar, Jost, e fique de olho nos cavalos.
Após alguns minutos, eles saíram da mata.
Diante deles havia uma pequena mas profunda depressão de terreno atravancado de rochas e em cujo fundo piscavam luzes aqui e ali.
- Este é o local de nossas reuniões.
Chegamos bem a tempo. - Disse Broda e começou a descer cuidadosamente por uma trilha serpenteante.
Na clareira, reuniam-se umas duzentas pessoas dos mais diferentes tipos, sexo e idade.
Eram em sua maioria camponeses, mas também havia senhores, artesãos e até mulheres.
Em todos os rostos transparecia a solenidade do momento.
Sobre uma grande pedra que se elevava acima do vale, fora instalado um altar e inúmeras tochas iluminavam uma grande cruz de prata, o Evangelho encadernado em ouro e a alta figura de um velho sacerdote.
Seu rosto magro transpirava inspiração e os olhos ardiam de excitação.
Broda e Vok atravessaram a multidão e postaram-se do lado direito do altar.
- Irmãos, chegaram tristes tempos... - Dizia naquela hora o pregador, e sua voz, sonora e profundamente sentida, espalhava-se pelo vale.
Sofremos um terrível jugo, já que os fiéis filhos de Cristo são obrigados a se reunir à noite como se fossem ladrões, para celebrar os mistérios divinos.
Mas não se desesperem!
Os primeiros cristãos suportaram bem mais do que nós e também se reuniam em subterrâneos e lugares escondidos, fugindo da ira dos impuros pagãos.
Fugimos da ira do Anticristo de três coroas e hipócrita que se despedaçou como um fruto podre, cuja metade está em Roma e outra está em Avignon.
Essas pessoas orgulhosas, prepotentes e dominadas pelas paixões ainda ousam encobrir as verdades evangélicas com suas próprias ideias!
Onde na palavra do Salvador está dito que a Sua leitura deve ser professada na língua que os ouvintes desconhecem?
Eles nos impõem a missa em latim e querem nos convencer de que a língua checa não é digna de ser proferida diante do altar.
Como se os povos e línguas não fossem iguais ante o Senhor!
Isso não é nada comparado com a sua insolência sacrílega quanto ao mais santo dos mistérios - a Sagrada Eucaristia -, ousando separar aquilo que o próprio Cristo uniu para sempre.
Ao quebrar o pão, Ele disse:
"Tomai e comei, pois este é o Meu corpo", e ofereceu o cálice com as palavras:
"Tomai e bebei, pois este é o Meu sangue do novo testamento".
Essas palavras de Cristo deveriam quebrar como uma rocha todas as vãs filosofias, todas as ideias humanas!
Infelizmente, na prática não acontece assim:
alguns, por fraqueza e ignorância, e outros, por baixeza e arrogância, permitem-se serem privados de tão precioso bem, como o cálice - esse receptor do sangue divino e inesgotável fonte de bens espirituais, da saúde da alma e do corpo.
Nós, contudo, permanecemos fiéis ao testamento do Cristo e nenhuma perseguição conseguirá impedir que nos reunamos e rezemos como o faziam nossos pais!
As palavras do pregador foram recebidas com um sussurro de aprovação.
A cerimónia foi celebrada e o sacerdote começou a dar a comunhão de ambas as formas46 aos presentes, que passavam em fila diante do cálice, tranquilos, concentrados, cheios de beatífica fé.
Iluminado somente pela luz das tochas, o quadro era indescritivelmente solene e tinha algo místico.
Vok foi levado pelo exemplo e pelo êxtase religioso dos presentes, contagiantes principalmente para a sua jovem e impetuosa alma.
Tremendo de emoção, entrou na fila e, pela primeira vez na vida, comungou.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 28, 2016 7:38 pm

A cerimónia religiosa encerrou-se, o altar e os objectos religiosos foram rapidamente retirados, acenderam-se fogueiras e todos se sentaram em grupos, na relva.
Tiraram de grandes cestos carne assada, vinho e pão e começaram uma refeição fraternal.
Quando a fome inicial foi saciada e as taças começaram a andar em rodízio, Broda levantou-se e todos os olhares dirigiram-se a ele.
- Amigos e irmãos em Cristo!
O prezado padre Nikolai acabou de reforçar a nossa alma com a comunhão e com suas sábias palavras.
Permitam a um velho soldado partilhar com vocês alguns pensamentos que a experiência de longa vida e o sermão que acabamos de ouvir fizeram surgir.
É verdade que nós nos reunimos às escondidas como ladrões para celebrar a cerimónia religiosa a qual cada cristão tem o direito de realizar à luz do dia.
E por quê?
Quem é a causa dessa injusta perseguição?
Os estrangeiros:
os papas italianos e os seus ajudantes infernais - os alemães!
Quando o imperador Carlos IV subiu ao trono, o cálice era oferecido sem restrições aos fiéis.
Ele próprio e a imperatriz Blanca47 comungaram de ambos os modos durante a coroação.
E agora?
A partir do momento em que abriram a universidade,48 os estrangeiros adquiriram tal poder que o alemão pôs o seu pé sobre as nossas cabeças e obrigou-nos até a negar os ensinamentos de Cristo!
Quem é que insiste e faz enorme esforço a favor da sacrílega novidade - a comunhão somente com pão?
Os professores e estudantes alemães estão expulsando os checos da universidade, como também os burgueses expulsam-nos das cidades e dos cargos, enquanto os colonos expulsam-nos das terras.
Isso não é o auge da insolência?
Será que não chegou a hora de dar um basta à humilhação do nosso povo?
Sim, meus irmãos e amigos, sinto que se aproxima a hora da luta decisiva e cada um de nós deve estar pronto para uma guerra sem compaixão, pois a paz entre os alemães e nós é a nossa morte!
Um inimigo secular é um inimigo terrível; ele usará de todos os meios para nos exterminar.
Nem a consciência, nem a honra, nem o humanitarismo irão detê-lo; violência, traição, vileza e mentira - tudo é permitido usar contra os checos.
Mas eles se esquecem de uma coisa - que somos aqueles mesmos checos que geraram heróis como o corajoso Zaboi e o ousado Benikh Hermanovitch.
No dia em que o país despertar, ele esmagará com seu calcanhar a cobra alemã!
E para esse momento, meus irmãos, vamos preparar soldados e comandantes.
Que cada um trabalhe na medida de suas forças, ajudando aqueles que vacilam e estimulando aqueles que lutam pela nossa língua, pelas nossas tradições e pelos nossos costumes!
Conquistemos o lugar que nos é devido!
O objectivo vale a pena:
a Boémia para os checos, a vida feliz e livre dos tempos antigos, sob a guarda das leis tradicionais e a expulsão dos estrangeiros!
Broda inspirara-se; seus olhos brilhavam com coragem e inspiração e sua poderosa mão apertava nervosamente o cabo da arma em sua cintura.
Sob a luz avermelhada da fogueira e das tochas, sua imponente e poderosa figura, de rosto característico, transpirando inteligência e força, parecia a encarnação viva daqueles heróis legendários cujos nomes ele fizera relembrar na memória dos ouvintes.
Ele também parecia a personificação do paciente e heróico povo checo, que 12 séculos de luta sem tréguas não haviam conseguido quebrar, e que até hoje permanece como valoroso e fiel sentinela, à guarda da raça eslava.
Não se sabe se os ouvintes de Broda sentiram instintivamente um forte ímpeto de amor à pátria e fé no futuro que provinha daquele futuro soldado do exército de Zizka, mas de todas as bocas, inclusive de mulheres, saiu em uníssono o grito:
- Viva a Boémia!
Morte aos alemães!
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 28, 2016 7:38 pm

Então, o velho sacerdote levantou-se.
- Nada acontece, meus irmãos, sem a vontade de Deus!
Roguemos ao Pai Celestial não a morte dos pecadores, mas a sua expulsão, lembrando as palavras do Senhor:
"A Minha vingança Eu próprio darei".
Ajoelhando-se, ele iniciou uma prece, que todos os presentes repetiram em coro:
- Pai Celestial!
Ouça o seu povo checo!
Atenda-nos e envie-nos dias felizes!49
Depois da prece, e combinando a reunião para a próxima primavera, conversaram por mais algum tempo e, jurando um ao outro lutar incansavelmente com o inimigo, começaram a dispersar-se aos poucos.
Tudo isso causou uma indelével e esmagadora impressão na natureza impressionável de Vok.
Na viagem de volta, ele ficou por muito tempo pensativo ao lado de Broda e, de repente, tomou-o pelo braço e, inclinando-se, da sela, até ele, sussurrou apaixonadamente:
- Broda, também vou trabalhar pela libertação da pátria e pela defesa da palavra de Cristo.
- Acredito, senhor conde, e aceito a promessa!
Se todas as pessoas nobres e ricas se juntarem a nós, venceremos...
Mas, lembre-se: tudo o que você viu e ouviu deve permanecer em segredo absoluto.
E depois, de manhã, teremos de caçar para não voltar para casa de mãos vazias e levantar suspeitas. - Respondeu Broda, sorrindo.
E o corajoso caçador cumpriu a palavra.
À tarde, ao voltar para o castelo, eles traziam no lombo dos cavalos a cabeça e os pernis de um grande javali.
Rugena aos poucos foi se acostumando ao novo ambiente.
O conde e a esposa esforçavam-se para agradar à garota, mimavam-na e submetiam-se a todos os seus caprichos.
Com o seu alegre e bondoso tutor, Rugena entrou rapidamente em acordo; mas a condessa, apesar de todo o seu carinho, permanecia-lhe antipática e nada conseguia vencer a aversão que a menina sentia por ela.
Vok também se relacionava amigavelmente e com cortesia com a sua pequena noiva, e até se orgulhava de sua crescente beleza, mas a grande diferença de idade impedia que tivessem um bom relacionamento.
Além disso, o carácter vivo e empreendedor do rapaz afastava-o da casa paterna, da vida enfadonha e repetitiva, mantendo-o por semanas e até meses longe deles.
O melhor amigo e inseparável companheiro de Rugena era Svetomir.
Sua vida mudara muito a partir da chegada da pequena benfeitora, cuja protecção estava sendo ainda mais substancial e influente do que a do jovem conde.
Com sua inteligência fina e observadora, Rugena entendera imediatamente que estava sendo protegida e cuidada.
Além disso, o conde era mais bondoso que a esposa, e ela lhe pedira que deixasse Svetomir sentar-se sempre à mesa com ela durante as refeições; quando seu amiguinho não estava no lugar, ela não comia nada.
Com a mesma teimosia, conseguira que ele aparecesse para brincar com ela, assim que as aulas haviam terminado.
E mais:
na primeira vez em que o padre Hilário ousara surrar o garoto com vara de marmelo, Rugena desandara a chorar e ficara em tal estado de choque que a condessa, assustada, pedira ao seu confessor que fosse mais cuidadoso em relação ao seu pupilo, que reduzisse o rigor e não provocasse conflitos com a sua futura nora por bobagens como a educação daquele "imbecil" Svetomir.
Assim, a vida no castelo Valdstein corria relativamente em paz.
Lá fora, entretanto, desencadeavam-se acontecimentos políticos de extrema importância, cobrindo a Boémia de sangue e horrores da guerra interna.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 28, 2016 7:39 pm

Alguns meses depois da chegada de Rugena, o conde-pai viajou para a corte do rei, que aguardava a chegada do seu irmão Sigismundo, rei da Hungria.
Sigismundo era um homem falso, sem honra, que por toda a vida cobiçara a herança de Venceslau, e, quando podia, abusava de sua confiança.
Dessa vez, esperava aproveitar aquele encontro para assinar um acordo secreto contra o próprio irmão com a união dos senhores e duques austríacos.50
Conseguindo obter o assentimento de Venceslau em nomeá-lo tutor do reino, ele, na primeira oportunidade, prendeu o rei em seu próprio palácio.
Os dois anos seguintes foram tempos agitados e de guerra sem fim. Sigismundo pressionava o país com impostos e inundou-o com bandos de hostis magiares, cujas invasões dilapidavam a Boémia com saques e incêndios, como se fosse terra conquistada.
Tal comportamento de Sigismundo indignou o povo e trouxe a favor de Venceslau grande número de senhores.
Mas a ocupação do monte Kutná, do qual foi tomado um impiedoso resgate e de onde o rei da Hungria roubou os tesouros de Venceslau, desencadeou ainda mais a indignação geral51.
Em todos esses acontecimentos o conde Valdstein tomou parte activa, e na maioria das acções militares ele estava acompanhado pelo filho, que se destacava pela coragem em combate; a natureza quente e arisca de Vok parecia criada para aquele tipo de vida.
Seu castelo foi abastecido por forte guarnição e géneros alimentícios e a guarda foi entregue a Broda, cuja experiência e cuja fidelidade estavam acima de qualquer suspeita.
Às vezes o próprio conde voltava por uns dias para casa para ver os seus, verificar a guarda e dar as ordens correspondentes.
Numa dessas vindas, ele trouxe consigo uma menina, uns dois anos mais velha que Rugena, deixando-a perto da futura nora para lhe servir de amiga.
A menina chamava-se Ana e era irmã de um jovem nobre checo, Jan Zizka de Trotsnov, que combatera no partido do rei e era inimigo mortal de Henrique Rosemberg.
As grandes propriedades deste último cercavam por três lados a pequena propriedade de Jan e, por isso, ele sofrerá muitas pressões do poderoso vizinho.
Essa situação conquistara uma especial simpatia para ele do conde Valdstein, que tinha ódio de Rosemberg, não só como inimigo político, mas por causa dos boatos ofensivos que este soltava sobre a morte do barão Rabstein e o casamento de Rugena com Vok, que Rosenberg chamava sem pudor de "roubo de herança".
Durante a guerra fratricida que devastava a Boémia, o castelo de Trotsnov fora arrasado pelos soldados de Rosemberg.52
A velha parenta de Jan Zizka que lá vivia, fora morta e Ana e seu irmão haviam conseguido escapar com dificuldade.
Ao saber disso, Valdstein propusera a Jan tomar sua irmã aos seus cuidados para que esta crescesse junto com sua pupila até que a calma fosse restabelecida em todo o país e permitisse ao jovem rapaz arrumar-se de alguma outra forma.
A Boémia ansiava pelo retorno de Venceslau ao poder, mas o rei estava preso em Viena e, apesar de todas as homenagens aparentes, era muito bem guardado.
No outono de 1403, alguns senhores, incluindo Valdstein e Jan Liechtenstein, organizaram um plano para libertar o rei.53
Apesar de sua juventude, Vok desempenhou nesse caso um importante papel.
Disfarçado, ele infiltrou-se em Viena e conseguiu o apoio de Bogucha, um sacerdote da ordem maltesa, que tinha acesso a Venceslau.
O jovem conde soube por meio dele que naquele período a vigilância sobre o prisioneiro real diminuíra consideravelmente, porque o rei, aparentemente, havia se conformado com sua sina.
Aproveitando a ocasião, e com auxílio do mesmo sacerdote, Vok montou um simples mas ousado plano de fuga, que comunicou ao pai.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 28, 2016 7:39 pm

Tudo correu da melhor forma:
no dia 11 de novembro de 1403, depois do meio-dia, Venceslau, disfarçado, escapou de sua prisão e chegou sem qualquer obstáculo até as margens do rio Danúbio, onde Vok, vestido como se fosse um pescador, aguardava-o de barco.
Atravessando o rio, eles conseguiram chegar a Standau, onde os esperavam Liechstein e Valdstein com amigos e 50 soldados armados de bestas.
Antes de tudo, o rei correu para o palácio de Mikulov, na Morávia, depois para o monte Kutná, e de lá para Praga, onde entrou em triunfo.
Em todos os lugares foi recebido com entusiasmo pela população, como seu salvador, e renovou o juramento de fidelidade.
Todos estavam cansados das divergências, queriam a ordem e a paz que a volta do legítimo rei ao poder prometia.
Esse feliz acontecimento serviu para que ambos os condes Valdstein caíssem nas graças de Venceslau.
O rei gostou de Vok, tornando-o um dos preferidos, e este mudou-se para Praga, onde pretendia fazer um curso universitário de belas artes, que estava em moda na época e que deveria completar a educação do jovem nobre.

45 Essas disputas pelo poder entre o rei e a nobreza eram típicas das monarquias medievais, caracterizadas pela descentralização do poder político - Nota da editora.
46 Pelzel. Urkundenbuch zum erstentheile "Leben Kaisere Karl IV" - Carta de Carlos IV, confirmando que no país existem muitos hereges, que não querem ouvir as escrituras em latim - Nota do autor.
47 Pelzel, "Leben Kaisers Karl IV", parte l, p. 80 - Nota do autor.
48 Palmov, "A questão do cálice no movimento hussita " - Nota do autor.
49 Ernest Denis, p. 60
50 '' Palacky, "G v. B. ", parte III, p. 158 - Nota do autor.
51 Nid, p. 148- Nota do autor.
52 Tomek, "Jan Gichka " - Nota do autor.
53 Palacky, "G v. B. ", parte III, p. 158 - Nota do autor.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 28, 2016 7:40 pm

Capítulo VII

Era 25 de dezembro e, em Praga, comemorava-se o Natal.
Toda a cidade estava em movimento.
Nas praças, nas barracas de madeira montadas às pressas, vendiam-se doces, brinquedos, diversos objectos de culto etc.
Os artistas de rua ambulantes mostravam sua força e sua destreza; pela multidão circulavam quiromantes e um curandeiro em cima da carroça anunciava em altos brados diversos remédios de beleza, talismãs que provocavam paixões, pomadas que devolviam aos cabelos grisalhos a cor original, licores que curavam qualquer doença e dinheiro encantado que ajudava no comércio.
Rindo alegremente e aos empurrões, o povo consumia as guloseimas, ouvia as predições e comprava os mais diversos talismãs e ervas.
Mas um observador atento perceberia que a alegria e a despreocupação da turba eram mais aparentes do que reais e eram sinceras somente em mulheres e crianças.
Os homens, pelo contrário, reuniam-se em grupos e discutiam, em checo ou alemão, diversas questões sobre o papa Gregório XII, o rei, o conclave de Bizâncio, Huss e a divisão de línguas por nacionalidades na universidade.
Notemos que checos e alemães reuniam-se em grupos separados e os olhares hostis e as palavras de provocação que trocavam não prognosticavam nada de bom.
Dois homens em capas escuras passavam em silêncio pela grande praça da "Cidade Nova", sem se juntarem a nenhum dos grupos.
Um deles era Broda, professor de artes marciais do conde Valdstein.
O tempo parecia não passar para ele:
a alta e poderosa figura ainda era esbelta e esguia; ele continuava a transpirar uma auto-confiante e calma força, bem como uma saúde indestrutível, e seus olhos não haviam perdido o antigo brilho, vigiando severamente por baixo das espessas sobrancelhas.
Somente alguns fios grisalhos nos cabelos e as rugas nos cantos dos olhos indicavam que ele também estava sujeito ao ataque do tempo.
Seu companheiro era um jovem de uns 20 anos, alto e magro.
O rosto, pálido e delicado como de uma moça, era fino e recto:
cabelos loiros e cheios cobriam sua cabeça; os olhos, cinzentos e bondosos, brilhavam com inteligência.
Naquele instante, a tristeza embaçava sua vista e uma expressão de insatisfação parecia ter-se congelado nos seus róseos lábios.
Ocupados pelos próprios pensamentos, eles caminhavam em silêncio até o fundo da praça.
Lá havia uma taberna e pela porta escancarada via-se uma grande sala cheia de mesas e bancos, tendo ao fundo uma estante com bilhas e garrafas.
Sobre uma enorme lareira, giravam espetos assando caça e carne, e o odor saboroso do ar quente chegava até na rua.
Broda parou, sentiu o cheiro de comida e, dirigindo-se ao companheiro, disse:
- Vamos entrar, Svetomir!
Vamos comer um pouco de caça e tomar uma caneca de vinho!
Você nada comeu desde a manhã e isso é mau; diabos, você ainda não virou monge!
Barriga vazia não traz bons pensamentos.
O rapaz olhou para a sala e, depois, como se estivesse tentando se livrar de incómodos pensamentos, passou a mão no rosto:
- Está bem, vamos lá! - Respondeu.
Só que lá estão sentados muitos alemães e, aparentemente, bêbados.
- Deixe-os para lá. Ora essa!
Só faltava que nos privássemos de algo com medo de incomodá-los! - Disse Broda, em tom de zombaria, e entrou.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 28, 2016 7:40 pm

O salão estava lotado e quase todas as mesas estavam ocupadas por alemães - burgueses, estudantes e monges.
Somente no fundo, perto da lareira, havia alguns grupos de checos, conversando à meia-voz:
eram em sua maioria trabalhadores e artesãos.
Broda e Svetomir ocuparam lugares vagos à mesa, onde já se sentavam outros dois - um gordo comerciante e um estudante; eles olharam para os recém-chegados com ar de poucos amigos e em seguida continuaram a conversar em voz alta com as pessoas das mesas vizinhas.
Falavam em alemão e discutiam os principais assuntos do dia:
a separação dos dois papas - ao que o concilio dos cardeais em Pisa deveria pôr um fim - e a distribuição de votos na universidade.
O estudante contava que, alguns dias atrás, na sala do reitor Henrique von-Baltengagem, acontecera uma grande reunião - à qual haviam estado presentes representantes do arcebispo -, ao término da qual, depois de animadas discussões e um maravilhoso discurso de mestre Gubner, a maioria votara que o clero e a universidade deveriam permanecer fiéis ao papa Gregório XII.
- Decisão inteligente e justa!
Os cristãos não podem brincar com a consciência de acordo com a hora, e mudar de papas como se estes fossem maçãs e não chefes da Igreja cristã! - Exclamou um burguês bem-vestido e de cara vermelha.
- Você está certo, Gothold!
Nós todos permaneceremos fiéis ao papa Gregório XII.
O rei, diante de tão respeitável grupo, obviamente não irá ceder aos adeptos de Wyclif e não dará seu consentimento aos cardeais. - Acrescentou o outro alemão.
- Vamos esperar que assim seja.
Pois já estava na hora de acabar com as hereges opiniões desses sectários.
Por causa deles, toda a Boémia está suspeita de heresia e envergonhada diante do mundo cristão.
Voltou a falar o primeiro burguês, acrescentando algumas palavras de baixo calão sobre o partido checo nacional e suas tentativas de restabelecer os direitos de seu povo.
- Eles nada vão conseguir, pois somos a cabeça e as mãos do país!
O que seria desses selvagens bobos sem nós?
Ficariam como gado, estagnados na ignorância, se nós, alemães, não tivéssemos introduzido aqui nossa ciência e nossa indústria, nossas leis e nossos costumes, que os transformaram em seres humanos! - Falou o estudante, vangloriando-se.
Olhando de lado para Svetomir, cujo rosto ficava ora pálido ora vermelho com suas insolentes palavras, ele continuou, num tom irónico:
- Repito: eles nada conseguirão, pois nós somos o povo dos senhores, criado para comandar raças inferiores.
Mas, para evitar agitações inúteis, e para cortar pela raiz suas exigências ridículas, é necessário cortar a língua de alguns tagarelas perigosos como Jerónimo e Jan Huss, que, em vez de pregar a fé, pregam e incitam o ódio.
Atiram-se como cães em cima de altos funcionários do clero e ficam felizes de enlameá-los diante de sapateiros, criadores de porcos e de toda a plebe que os ouve.
Broda parecia não prestar a mínima atenção ao discurso provocador dos vizinhos: deglutia com apetite um pedaço de ganso e bebia vinho; de tempos em tempos, olhava de soslaio para o burguês gordo, cujo rosto redondo, gordo e vermelho iluminava-se de arrogância.
Mas, ao ouvir pronunciarem o nome de Huss, ele empurrou o prato e, voltando-se aos alemães, deu um soco na mesa e gritou:
- Chega, senhores!
Aconselharia a todos que deixassem o pregador de Belém em paz!
Quem mais poderia açoitar os vícios, senão ele - o exemplo de todas as virtudes cristãs?
- O que você tem a ver com isso, imbecil? - Interrompeu-o, irado, o estudante.
Esse seu exemplo de benfeitor é um herege que o rei um dia mandará queimar!
Ele prometeu isso há pouco tempo.
O canalha, agora, adoeceu de medo, e dizem que está morrendo.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 28, 2016 7:40 pm

- Não vale a pena se exaltar, Gothold!
Não vamos ligar para um vagabundo checo qualquer! - Observou o alemão gordo, com um riso de desprezo.
Ele deve ser um dos criadores de porcos de que você falava há pouco.
- Você está certo, bêbado alemão! - Urrou Broda.
Sou criador de porcos e veja o que eu faço com porcos estrangeiros quando eles ousam atacar o meu rebanho.
Dizendo isso, levantou-se ameaçadoramente em toda a sua altura e, num instante, antes que alguém pudesse entender o que se passava, apareceu diante do burguês.
Agarrando-o com uma mão pelo cinto e com a outra pelo cangote, levantou-o no ar como a uma criança e jogou-o para fora do salão.
O burguês passou como uma pedra sobre as mesas, derrubando, em sua passagem, alguns pedestres e se esborrachou na calçada.
Lá fora começou um barulho, mas no salão, no primeiro instante, fez-se um silêncio sepulcral.
De repente, os alemães todos se levantaram com gritos e blasfémias; em suas mãos brilhavam armas e sobre as cabeças começaram a voar bilhas e canecas, apesar dos ardentes protestos do proprietário do estabelecimento.
Naquele momento, o burguês que havia sido jogado para fora apareceu na porta, todo cheio de lama, com o rosto ensanguentado e, espumando de raiva, correu para Broda.
Mas este, junto com Svetomir, desembainhou a espada e defendeu-se tranquilamente dos atacantes; todos os checos presentes no salão juntaram-se a eles e começou uma briga geral.
Gritos horrorosos, barulho e som de pratos, mesas e bancos quebrando - toda essa balbúrdia reuniu uma multidão na porta de entrada e o povo, senão com acções, com palavras, participava da confusão.
Broda e Svetomir conseguiram chegar até a saída, abrindo caminho com as armas; mal atingiram a rua, chegou ao local da batalha um destacamento da guarda policial, chamado por algum cidadão.
Mas a maioria dos espectadores estava do lado de Broda, cujo ato heróico passava de boca em boca; a multidão abriu-se e protegeu o mestre-de-armas e Svetomir com uma parede humana.
Assim, ambos já haviam desaparecido numa das ruelas antes que o chefe da guarda se desse conta do que tinha acontecido.
- Você ensinou uma boa lição àquele alemão presunçoso! - Disse Svetomir rindo e andando atrás de Broda.
- Por muito tempo ele não vai poder empinar o narigão que arrebentou na calçada!
Vamos à casa de Zizka, pois preciso contar-lhe a nossa aventura; ele vai se divertir com isso! - Respondeu Broda, alegremente.
E eles atravessaram, com passo animado, a famosa ponte sobre o rio Vltava, construída por Carlos IV, e viraram por uma vazia e serpenteante ruela na "Cidade Antiga".
Já tinha anoitecido quando pararam diante de uma casinha de aparência pobre e tiveram de subir às apalpadelas por uma estreita e íngreme escada.
Finalmente, bateram à porta, por cuja fresta via-se uma faixa de luz.
No quarto amplo, mas decorado com simplicidade, havia uma cama larga com cortinas de lã.
No centro, em volta da mesa iluminada por uma lamparina, sentavam-se três pessoas:
uma velhinha, descascando maçãs e tomando conta da pequena garotinha de cinco anos que brincava ali mesmo com um carneirinho de madeira, e um homem jovem, de uns 30 anos, com um rosto inteligente e ousado.
Seus olhos brilhavam severamente debaixo de espessas sobrancelhas; tinha uma boca grande, encimada por bigodes ruivos; os cabelos cortados como escova e uma curta barba emolduravam seu rosto.
Sentia-se nele uma misteriosa e enorme força pedindo para sair; transparecia naquele homem uma estranha mistura de natural severidade, nobreza e até magnanimidade.
Zizka usava traje de corte polonês, como Broda.
Ele estava sentado escrevendo, mas, com a chegada dos visitantes, levantou-se para cumprimentá-los.
Dirigindo-se à velhinha, que trocava apertos de mão com os recém-chegados, disse:
- Querida tia, leve a criança daqui e traga-nos vinho.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 28, 2016 7:41 pm

- A sua menina está linda e cresceu bem! - Observou Broda, enquanto sentavam-se à mesa.
- Ela parece demais com a minha falecida esposa, e a tia olha-a com se fosse sua própria filha. - Respondeu Zizka, enchendo de vinho as canecas de cobre trazidas pela velhinha.
Broda começou a contar o caso da taberna num tom de satisfação e por vezes de raiva.
Zizka, por sua vez, descreveu o audacioso assalto que empreendera alguns meses antes contra Rosemberg, durante o qual, chefiando um grupo de corajosos companheiros, arrasara as propriedades dos seus poderosos inimigos e conseguira um resgate por eles.54
Svetomir não participava da conversa e estava novamente perdido em pensamentos sombrios, sem nada ver ou ouvir.
- O que está acontecendo com Svetomir, que hoje está tão estranho? - Perguntou Zizka, sempre observando o jovem.
- Ontem à noite, o pobre coitado recebeu péssimas notícias e nem sei como ajudá-lo. - Respondeu Broda, suspirando.
O caso é o seguinte:
você talvez saiba que a condessa Valdstein quer, sabe-se lá por quê, fazer de Svetomir um padre, apesar de ele detestar isso.
Eu sempre suspeitei de que o principal culpado disso é o patife Hilário, que odeia o pobre rapaz.
Sempre impedi o quanto pude a realização desse plano; para ganhar tempo, com a ajuda de Vok, convenci o conde Valdstein a autorizar Svetomir a fazer um curso de teologia na universidade, antes de receber a tonsura.
Como ele tinha ainda dois anos pela frente, estávamos absolutamente tranquilos.
De repente, ontem veio a ordem para que ele se apresente no mosteiro de Brevnov para ser recebido como noviço.
- Não entendo quem deu a ordem ou por incumbência de quem. - Interrompeu-o Zizka.
Você disse que a condessa está no estrangeiro, junto com seu confessor.
Então, quem poderia ter dado tal ordem?
- Realmente, a condessa viajou para a Itália há seis meses para vender as terras que recebeu de herança.
Agora a venda foi concluída e ela viajou a Bolonha, a fim de visitar o seu primo, bispo Brancassis, e o cardeal-legado Baltazar Cossa, que também é parente seu.
Lá eles encontraram o abade do mosteiro de Brevnov e apressaram-se a entregar Svetomir a ele para iniciação.
E o miserável Hilário correu para dar a boa nova ao pobre coitado que odeia a batina.
Eu até entenderia se eles decidissem enviá-lo para o clero branco, e poderiam comprar-lhe uma paróquia e, em outras palavras, garantir-lhe o futuro.
Mas, fazer dele um monge?!...
- Não quero ser nada disso!
Antes de ser tonsado, eu me jogarei no rio Vltava! - Disse Svetomir decididamente e com voz trémula de emoção.
- Ora, ora!
Já que não preza a vida, então pelo menos poderia sacrificá-la por algo mais nobre e útil... - Disse Zizka.
Tive uma ideia.
Por estes dias viajo a Cracóvia, onde tenho amigos entre os nobres poloneses.
Venha comigo e entre para o serviço do rei Jagellon!
Um jovem guerreiro sempre será bem-vindo e penso que poderei ajudá-lo nisso, conseguindo a autorização da alta cúpula dos senhores.
Você quer?
O rosto de Svetomir iluminou-se de felicidade.
- É claro que quero! - Exclamou ele, alegremente, estendendo ambas as mãos a Zizka.
Leve-me com você, Jan, e juro que não irei decepcioná-lo!
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 28, 2016 7:41 pm

Estou pronto a lutar e morrer honrosamente pelo rei.
Em compensação, estarei livre das correntes que querem me pôr em troca de um tecto e de um pedaço de pão.
Zizka respondeu calorosamente ao seu aperto de mão.
- Então, está combinado!
Por enquanto, finja obedecer, e depois, em vez de Brevnov, você tomará o caminho de Cracóvia.
E viva a espada em vez do aspersório!
- Viva! - Svetomir levantou a caneca para brindar e, de repente, empalideceu.
Esqueci de uma coisa... - Disse, com voz cortada.
Não tenho nada, nem dinheiro, nem equipamento.
Como vou viajar sem isso?
- Acharemos o necessário; dar-lhe-ei um cavalo e uma espada e o resto você irá receber lá, no serviço. - Tranquilizou-o Broda.
- Vamos, não fique triste!
Vou levá-lo a Cracóvia e instalá-lo lá - isso está decidido!
E iremos para lá após o Ano-Novo.
Só preciso ir até o castelo Rabstein, despedir-me de minha irmã, Ana. - Disse Zizka.
- Também vou para lá!
Também preciso despedir-me de Rugena, antes de viajar ao estrangeiro, talvez para sempre. - Observou o jovem, animado.
E para evitar suspeitas, hoje mesmo vou escrever ao abade do mosteiro, avisando-o de minha breve chegada como o mais dedicado e humilde dos noviços... - Concluiu Svetomir, rindo.
Após acertar mais alguns detalhes daquele inesperado plano, os amigos despediram-se.
Perto do templo de Tyn, do outro lado da rua na "Cidade Antiga", que actualmente tem o nome de Shtupartova, havia uma grande e bonita casa com um alto e pontiagudo telhado, molduras na porta de entrada e vidros coloridos.
A casa pertencia ao professor Lohann Gubner, e tudo nela respirava a subtil "alegria" alemã.
Numa ampla e ricamente mobiliada sala - que, a julgar pelo número de prateleiras de livros e pergaminhos, servia de gabinete de trabalho -, seu proprietário estava sentado diante da mesa numa poltrona de encosto alto e junto à janela.
Professor Gubner era um homem de uns 50 anos, alto, magro, mas disposto.
O rosto magro, de maxilares proeminentes, transpirava presunção; a testa baixa e o queixo pontudo indicavam sua natureza teimosa e de baixos instintos.
Naquele momento, seus pequeninos, claros e desbotados olhos brilhavam maldosamente.
Diante dele sentava um homem gordo, vestindo um traje rico de tecido escuro e com uma corrente de ouro no pescoço.
Algum acidente estragara tanto sua gorda e arrogante fisionomia que era difícil imaginar sua aparência anterior:
um inchaço azul-púrpura descia da testa à bochecha; sob o olho inchado e semi-fechado via-se uma equimose; seu nariz estava coberto por uma bandagem e no lábio superior havia uma cicatriz com sangue coagulado.
- É simplesmente incrível o que lhe aconteceu, mestre Kunts!
Fico surpreso por terem deixado escapar o patife checo que ousou atacar um dos mais respeitáveis cidadãos e quase o matou.
- O miserável desapareceu na multidão, mas vou achá-lo e ele não perde por esperar o troco por essa ofensa! - Resmungava o burguês, cerrando os punhos.
- Mas era um verdadeiro Hércules?
- Suponhamos que ele era grande de altura e ombros, mas eu não acreditaria que pudesse existir um homem que conseguisse me levantar e me arremessar como a uma bola.
E digo mais:
nunca imaginei que um checo ousasse atacar publicamente a mim, Leinhardt, o maior mercador de toda a Praga.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 29, 2016 7:27 pm

Esses cães ficaram demasiado ousados!
Felizmente, o incitador Huss está nas últimas:
ele não conseguiu digerir o doce que o rei lhe ofereceu sobre a questão dos votos.
Aliás, caro professor, o senhor ainda não me contou os detalhes da recepção no palácio.
A minha ausência e depois esse infeliz acidente - que me deixou dez dias de cama - privaram-me do prazer de visitá-lo.
Só fiquei sabendo que suas justas exigências quanto a direitos nacionais foram completamente satisfeitas.
- Perfeitamente!
E confesso que nem contava com esse resultado feliz.
O senhor sabe, mestre Leinhardt, como o rei protege os checos e a influência que Huss exerce sobre ele e a rainha.
Então, o reitor, eu e os outros chegamos a Kutemberg55 com um peso no coração.
Na sala para onde fomos conduzidos já estava a delegação de Huss e Jerónimo; eles nos olharam com desprezo, quando paramos num canto, e sua arrogância deixou-nos ainda mais preocupados.
Depois de algum tempo, entrou o rei.
Ele visivelmente não estava de bom humor, o que também prometia nos desfavorecer, por isso ficamos pasmados quando, aproximando-se de nós, ele ouviu gentilmente o meu discurso, disse-nos que concordava com tudo e prometeu apoiar todos os nossos direitos.
Enquanto o rei falava, eu via, com satisfação, a desilusão e a preocupação dos checos; mal Huss começou a expor as suas exigências, o rei ficou vermelho, interrompeu o seu discurso e gritou-lhe:
"Cale-se! Você e seu amigo Jerónimo são agitadores!
Estou cansado de suas queixas e ideias que envergonham a Boémia diante de todo o mundo cristão e levantam sobre ela a suspeita de heresia.
Se aqueles que têm por obrigação restabelecer a ordem não o fizerem, vou mandar a ambos para a fogueira".56
Os dois tagarelas, Huss e Jerónimo, ficaram totalmente chocados com as palavras do rei e saíram sem nada dizer.
Mas a partir daí todo o covil checo se agitou.
Durante todo dia na casa de Zmirzlik57 aconteceram reuniões - vi isso daqui da janela.
Olhe lá, mais três estão saindo da casa em frente; eles confabularam durante mais de duas horas.
O burguês inclinou-se curioso para a janela e viu três homens que naquele momento passavam perto da casa de Gubner.
- Um deles é Nikolai Lobkovitz, o outro é Simon Tichkov, mas quem é aquele bonito jovem de capa azul?
- E o jovem conde Vok von-Valdstein.
Ele fez uma viagem ao estrangeiro e retornou logo antes da viagem do rei à Silésia.
Mas vamos voltar ao nosso assunto. - Respondeu Gubner, voltando a sentar-se na poltrona.
O senhor disse ao entrar, caro mestre Kunts, que o trouxe aqui um assunto importante, mas depois nos distraímos.
Agora estou inteiramente à sua disposição e quero muito lhe ser útil.
Kunts Leinhardt assumiu uma pose pomposa e, após esvaziar a taça de vinho posta à sua frente, disse:
- Sim, caríssimo mestre Gubner, vim tratar de um assunto importante.
Estou aqui como enviado de meu filho Guints para pedir a mão de sua encantadora sobrinha Marga.
Meu menino está loucamente apaixonado por ela e, se o senhor não tiver nada contra a união de nossas famílias, então suponho que ficará satisfeito com o que estou preparando ao Guints e à sua jovem esposa.
Comprei para eles a usina de cerveja do velho Kloper, e pretendo dar o matadouro ao meu filho caçula, Jacob.
E agora, digníssimo mestre, diga-me o que acha disso.
Gubner estendeu-lhe a mão.
- Digo que aceito com alegria a sua proposta, e não tenho dúvidas de que Marga ficará orgulhosa e satisfeita em tornar-se esposa de tão bom e rico rapaz como o seu Guints.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 29, 2016 7:27 pm

Diga a ele que venha amanhã mesmo para o beijo de noivado!
E nós, velhos, em homenagem aos noivos, beberemos uma barrica de vinho envelhecido.
Eles se abraçaram e depois de discutir questões relacionadas a dote, dia do casamento, noivado oficial e outros detalhes, despediram-se muito satisfeitos um com o outro.
Assim que Kunts saiu, Gubner ordenou imediatamente ao criado que chamasse ao seu gabinete a cunhada com a filha.
- Não sei se elas já voltaram da cidade. - Respondeu o criado, indo executar a ordem.
Meia hora depois, a cunhada e a sobrinha entravam no gabinete de Gubner.
A cunhada era uma mulher de meia-idade, com um rosto triste e dócil; a sobrinha, uma jovem alemã de uns 18 anos, alta, esbelta e muito bonita.
Seu rosto fresco com faces róseas, iluminadas por um par de grandes olhos azuis, respirava saúde e despreocupada alegria.
Duas pesadas trancas louras desciam até abaixo dos joelhos.
Ela aproximou-se de Gubner, rindo e mostrando o embrulho que segurava na mão:
-Veja, tio Lohann, que lindo tecido comprei com aquele dinheiro que você me presenteou no Natal.
O professor apalpou o tecido e beliscou carinhosamente a aveludada face da moça.
- Maravilhoso!
E tenho motivos para aprovar a sua escolha, Marga, pois você logo precisará vestir-se de modo especial.
Tenho uma agradável novidade, minha pequena, e também para você, minha querida Luiza!
O seu coraçãozinho não lhe diz nada, sua fingidinha?
E, semicerrando um olho, olhou-a maliciosamente.
O rosto de Marga avermelhou e o tecido caiu de suas mãos.
- Milota esteve aqui? - Sussurrou ela, indecisa.
Gubner recuou um passo para trás, franziu o cenho, e olhou severamente para a sobrinha.
- Que Milota?
Do que você está falando?
Kunts Leinhardt esteve aqui para pedir a sua mão para o seu filho Guints, ao qual ele comprou a maravilhosa usina de cerveja do Kloper, e eu concordei.
Nem poderíamos esperar um partido melhor do que esse jovem e rico rapaz!
Marga empalideceu e encostou-se ao espaldar da cadeira.
Um tremor nervoso passou por seu corpo e em seus olhos bem abertos lia-se o horror.
A mãe correu para ela e fê-la sentar-se.
- Mas, Lohann, como pôde dar tal notícia a uma moça? - Perguntou ela, com repreensão.
Imagino que antes deveria perguntar a Marga se ela gosta de Guints Leinhardt.
- Verdade? Como não pude prever que na cabeça de sua filha existe um Milota qualquer e que a minha cunhada iria desdenhar um dos mais nobres burgueses de Praga? - Sibilou Gubner, acidamente.
Chega de besteira! - Prosseguiu ele, severamente.
Vou perguntar-lhe com toda a seriedade:
que relação tem o casamento da minha sobrinha com esse maldito nome eslavo?
Quem é esse Milota, e como você pôde encobrir a ligação amorosa desta imbecil com um checo?
Luiza Gubner endireitou-se com dignidade.
- Você deveria perceber que eu nunca encobriria uma ligação amorosa. - Disse ela, sublinhando as palavras.
Mas sei que Marga ama um jovem cavaleiro:
Milota Nakhodsky, sobrinho do burgo-mestre Zmirzlik, e que seu amor é correspondido.
Não vejo por que um jovem nobre, bonito e rico não possa ser partido para sua sobrinha ou pelo menos tão aceitável e querido como o filho do açougueiro Leinhardt.
- E eu lhe digo que, para mim, qualquer limpador de chaminés alemão está acima de qualquer cavaleiro checo.
Eu nunca, ouça bem, nunca vou admitir que algum desses miseráveis eslavos entrem para a minha família!
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 29, 2016 7:28 pm

Você se esqueceu de que é viúva de Luts Gubner, assassinado por checos, e agora está pronta para entregar sua filha a um deles?
- Não me esqueci de nada!
Mas não posso odiar um inocente por um crime cometido por algum patife e sacrificar por esse ódio a felicidade de minha filha. - Disse ela, acariciando a cabeça de Marga, que se achegou a ela.
- Chega de falar besteira!
Marga irá se casar com Guints Leinhardt a quem já dei a minha palavra; e um noivo rico facilmente a fará esquecer o Milota de bolso furado.
Amanhã à tarde, toda a família Leinhardt estará aqui para comemorar o noivado.
Portanto, tenha a bondade de providenciar a recepção adequada.
E você, Marga, não ouse fazer careta quando Guints for beijá-la como noivo:
é o direito dele.
Estas são as minhas ordens!
Marga pulou como se tivesse sido mordida.
- Nunca! Nunca na vida vou deixar aquele grosso e repugnante Guints me beijar!
Tenho nojo dele! - Exclamou ela, fora de si.
O rosto de Gubner ficou roxo, as veias da testa saltaram e os olhos agitaram-se de raiva.
Ele saltou como um gavião sobre Marga, agarrou seu braço e apertou com tanta força que ela gritou.
- Se você não me obedecer - sibilava ele por entre os dentes, agitando seu braço com toda a força - e envergonhar-me diante dos Leinhardt, vou surrá-la diante de todos e você irá morrer de vergonha, garota imprestável!
É assim que me paga tudo que fiz por você?
Com desonra e aventuras amorosas com o nosso inimigo?
Tome cuidado e não me faça chegar a extremos!
Se amanhã você não receber bem o Guints e não permitir que ele a beije, então você e sua mãe vão lamentar muito.
Agora vá e lembre-se do que eu disse.
Deus é testemunha que a minha vontade é inabalável.
Marga nada respondeu, completamente muda de pavor, e a mãe levou-a embora.

54 Tomek, "Jan Gichka " - Nota do autor.
55 Palácio no monte Kutná - Nota do tradutor.
56 Palacky, "G. v. B. ", parte III, p. 230 - Nota do autor.
57 Gelfert, "Huss und Hieronymus ", p. 103 - Nota do autor.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 29, 2016 7:28 pm

Capítulo VIII

Em 1391,58 o rico parisiense Kryj e o cavaleiro Jan de Malgeim, preferido de Venceslau, fundaram na "Cidade Antiga", perto do colegiado de Lázaro, a capela de Belém, destinada exclusivamente a pregações na língua tcheca.
A capela59 era um grande e arqueado prédio de alvenaria e poderia ser chamada de igreja, por comportar até três mil pessoas, mas isso não era suficiente para a imensa multidão, que ansiava por ouvir os famosos pregadores.
Seu primeiro capelão foi Jan Prakhatitsky, o segundo, Estéfano Kolinsky, e, a partir de 1402, esse importante posto foi ocupado por Jan Huss.
Seus sermões inflamados, somados à sua grande popularidade, fizeram da capela de Belém o centro do movimento popular e religioso da Boémia.
Os sermões de Huss despertaram o coração e a consciência do povo e moldaram uma ligação moral inquebrantável entre eles.
A força dessa união entre Huss e o povo levantou toda a Boémia para vingar a execução de seu preferido.
O púlpito de onde o famoso orador - que marcou a verdade das suas pregações com o martírio - arrasava os vícios do clero e da sociedade do seu tempo era quadrado, simples, feito de tábuas de pinho.
Era impossível subir nele pelo lado dos ouvintes, mas somente pelo lado de dentro, passando pela sacristia, onde ficavam guardados os paramentos e um jazigo que, conforme a tradição, continha os restos de uma das crianças inocentes mortas por Herodes.
Atrás da sacristia, havia uma escada que levava ao corredor onde ficava a entrada do púlpito e, do lado esquerdo dessa entrada, havia um banco de madeira onde o pregador costumava sentar antes de aparecer diante dos ouvintes.
No fundo do corredor, uma outra escada, estreita e íngreme, levava ao andar seguinte, a um quarto ou, mais exactamente, à cela de Huss.
Naquela cela absolutamente monástica, iluminada por um par de diminutas janelas, havia poucos móveis, mas as pilhas de livros e manuscritos sobre a mesa indicavam que seu dono era um trabalhador incansável.
Naquele momento a pena descansava e Huss estava deitado na cama, gravemente enfermo e com a cabeça enfaixada.
Não fosse a magreza, provocada pela doença, ele pouco mudara nos últimos tempos.
Seu rosto fino e pálido, com a costumeira expressão triste, emagrecera em decorrência do trabalho e da vida de asceta; os grandes olhos, sempre pensativos enquanto neles não se acendia o fogo da indignação sagrada e da adoração religiosa, olhavam com docilidade, como de costume.
No mesmo dia de janeiro em que ocorreu a triste cena entre o professor Gubner e sua sobrinha, na cela de Huss, junto à sua cama, reuniram-se três amigos.
Um deles, sentado à cabeceira, trocando as compressas de tempos em tempos, era Jerónimo; o outro era Nikolai Lobkovitz, o principal tabelião da directoria de minas da Boémia.
O terceiro era Vok von-Valdstein.
- Querido mestre Jan - dizia Lobkovitz a Huss, que o ouvia com atenção -, não leve ao coração as severas palavras do rei.
Juro que a ira dele passou completamente e a sua causa não está indo mal.
- A rainha está muito triste por perder o seu confessor e até me incumbiu de trazer-lhe alguns potes do melhor vinho.
Vou mandar entregar-lhe hoje à tarde. - Confirmou Vok, com um sorriso.
- Senhor conde, agradeça a Sua Alteza sua permanente atenção à minha pessoa e transmita-lhe que me sinto melhor e espero, com a ajuda de Deus, logo voltar ao seu serviço.
Respondeu o paciente, com voz fraca.
- Com bons desejos tudo irá bem, mestre Jan!
E agora, ouça as novidades que lhe trouxe! - Começou novamente Lobkovitz.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 29, 2016 7:28 pm

Já lhe contei que a raiva do rei amainou rapidamente e sei, de fonte fidedigna, que o sucesso e o triunfo de que os alemães se gabam insolentemente, bem como a resistência deles no caso de obediência a Gregório XII, provocaram a insatisfação do rei.
E a nossa causa, ainda por cima, recebeu fortes e ciosos adeptos vindos da embaixada da França, com cujo chefe conversei ontem.
O Prior Solon60 disse-me que as exigências dos checos são absolutamente justas, pois o imperador Carlos IV deu à nossa universidade estatutos idênticos aos parisienses.
Lá, os naturais possuem três votos contra um estrangeiro.
- Mas é claro!
E não somente os costumes, mas também as leis canónicas e civis concordam que, num reinado checo, os checos devem estar em primeiro lugar, assim como os franceses na França e os alemães em suas terras.
Animou-se Huss, levantando-se e sentando na cama.
- Que utilidade teria um checo que não soubesse a língua alemã, como um pároco ou bispo na Alemanha?
Na verdade, ele seria tão útil como um cão mudo para um rebanho de ovelhas.
E que direito os alemães têm de mandar em nós?
Ou eles contam com o nosso eterno silêncio e a nossa eterna submissão?
Sei que me culpam pelo ódio a eles.
Deus é testemunha de que isso não é verdade e de que prefiro um alemão honesto a um checo patife, nem que este seja meu irmão!
Mas o meu sentimento de justiça se indigna quando vejo os filhos naturais do país serem obrigados a juntar migalhas que caem da mesma mesa onde eles deveriam estar sentados como senhores.
Ele parou e deixou-se cair sem forças no travesseiro.
- Mas não se exalte dessa maneira! - Tentava convencê-lo Jerónimo, apertando-lhe a mão.
Sabemos que a sua alma odeia o vício.
Já aos alemães que se gabam de ser nossos professores e de ter trazido para nós a sua ciência, eu irei um dia relembrar as últimas palavras aos Gaiatas:
"O herdeiro, enquanto na infância, em nada difere do servo, mesmo sendo senhor de tudo.
Ele se submete aos tutores e curadores até o prazo estabelecido pelo pai".
Isso significa que, quando chegar a hora, todos devem se submeter a ele por ser o filho e herdeiro pela lei divina.
E o prazo estabelecido chegou:
os checos deixaram de ser crianças irracionais.
Fora, tutores que procuram somente o próprio lucro!
Dêem lugar aos "filhos desta casa"!
- Você poderia acrescentar também o que disse Cristo:
"Não se deve tomar o pão de crianças e jogá-lo aos cães". - Observou Valdstein, com ímpeto.
Odeio esses alemães insolentes e sem honra que, para atingir seus objectivos, abusam da liberdade dada aos estudantes.
Todos eles que vêm a Praga a negócios, comerciantes ou clientes, inscrevem-se na universidade somente para aproveitar as isenções que facilitam sua estada aqui!
- Penso que é hora de irmos embora.
O nosso prezado mestre precisa descansar. - Disse Lobkovitz, levantando-se e apertando a mão do paciente.
Estejam tranquilos e não percam as esperanças!
Não esquecerei as indicações que o senhor me passou e, se conseguirmos obter do rei os três votos dos checos, irei comunicar-lhes imediatamente.
Huss agradeceu-lhe calorosamente e, em seguida, os visitantes se despediram, saindo acompanhados por Jerónimo, que prometeu ao paciente voltar em uma ou duas horas.
Passou cerca de meia hora.
Huss estava sozinho e cochilando quando, de repente, a porta abriu-se silenciosamente e na entrada apareceu Svetomir.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 29, 2016 7:28 pm

Mas o apurado ouvido do paciente percebeu o ruído e ele, abrindo os olhos, perguntou:
- Quem está aí?
- Sou eu, padre Jan, Svetomir Kryjanov. - Respondeu o jovem, aproximando-se e beijando a mão estendida para ele.
- Bem-vindo, meu filho!
Que bons ventos o trazem aqui hoje?
- Vim para lhe comunicar uma importante decisão que tomei.
Enquanto o senhor não aprová-la, o meu coração e a minha consciência não me deixarão em paz.
- Conte-me e lhe responderei dentro das minhas limitações.
Svetomir empurrou o banco até à cama, sentou-se e em poucas palavras contou as circunstâncias que o obrigavam a fugir do país e pôr-se a serviço da Polónia.
- Amanhã, ao amanhecer, Zizka e eu deixaremos Praga e seria terrível eu ir embora com o pensamento de que o senhor, padre Jan, iria me considerar um desertor do exército divino. - Concluiu ele, indeciso.
- Pensou errado, meu rapaz!
Pelo contrário, aprovo a sua atitude.
Seria um crime de sua parte fazer algo sem ter vocação para isso.
Já temos um suficiente número de maus sacerdotes e age com sabedoria aquele que, sentindo-se sem forças para se tornar um bom pastor, torna-se um corajoso guerreiro.
Vá sem medo, meu filho, pelo seu novo caminho de vida e lembre-se de que em qualquer cargo pode-se fazer o bem, ser honesto, humano e cumprir os mandamentos de Deus.
- Obrigado pelo bom conselho.
Ninguém entende as fraquezas humanas como o senhor, um verdadeiro servo de Deus. - Sussurrou Svetomir, comovido, ajoelhando-se diante do leito do paciente.
Abençoe-me, padre, para que o Senhor me conceda forças para enfrentar todas as provações que me prepara o destino.
Huss colocou ambas as mãos sobre a sua cabeça e concentrou-se numa fervorosa prece.
- Deus te abençoe, meu filho, conduza-o pelo caminho do bem e da verdade e lhe dê apoio nos momentos de tristeza e desespero, para que a sua fé nunca vacile e, se tudo o mais lhe abandonar, que ela sozinha lhe dê forças e o conduza ao bom refúgio.
Ambos estavam emocionados.
Conversaram mais um pouco, Svetomir contou-lhe seus planos de futuro e, por fim, despediu-se e foi embora.
Após longos anos de abandono e silêncio, o velho castelo Rabstein acolhera novamente sob seu tecto a sua jovem dona.
Já fazia seis meses que Rugena mudara-se novamente para o ninho paterno junto com sua amiga Ana e os fiéis Iitka e Matias.
Ela vivia em completa solidão; raramente saía do castelo e não recebia ninguém.
Todo esse tempo que passara, ela vivera no castelo Valdstein, com excepção de dois invernos, que os tutores haviam passado em Praga.
Absorta na sua exagerada religiosidade e muito calculista, a condessa evitava a sociedade; além disso, ela não desejava mostrar Rugena ao mundo enquanto a menina não se casasse com seu filho, temendo - e com razão - que a bonita e rica herdeira pudesse encontrar um admirador que seria um perigoso rival para Vok.
Ela até olhava com desconfiança a amizade infantil de Rugena por Svetomir e não sossegou enquanto não o enviou a Praga para se preparar para a universidade.
A separação do amigo de infância deixara Rugena muito infeliz e seu estado de espírito deprimido favorecera a doença que aparecera após um forte resfriado que apanhara numa caçada onde a tinham levado a fim de distraí-la.
Alguns meses após a saída de Svetomir, ela ficara tão gravemente doente que chegaram a temer por sua vida.
Desde então a saúde de Rugena ficara abalada e o médico insistira para que o casamento fosse adiado por um ano ou dois.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 29, 2016 7:29 pm

Para isso, aguardava-se somente a volta de Vok da França, onde o jovem fora passear e divertir-se.
Então, repentinamente, a condessa recebera a notícia de uma herança recebida na Itália e resolvera viajar para lá imediatamente.
Ela quisera levar Rugena consigo, mas esse plano não agradara à moça.
Desde que a vira pela primeira vez, a condessa deixara nela uma má impressão, e nem o tempo, nem a atenção, nem o carinho haviam conseguido vencer aquela instintiva repulsa à mãe de Vok.
E como os parentes italianos que às vezes visitavam a Boémia eram por demais repulsivos a Rugena, ela não quisera usar de sua hospitalidade e de sua companhia durante aqueles meses.
Por isso, declarara que, na ausência da condessa, gostaria de se mudar para o castelo de seus pais, que não via desde a morte do pai, para rezar na sua sepultura e passar em isolamento os últimos meses de sua virgindade.
O tutor dera a autorização sem problemas:
o país naquele tempo estava relativamente calmo, o castelo era bem protegido e equipado com suficiente guarda e, além disso, localizava-se perto de Praga e o conde podia passar por lá nas horas vagas do seu serviço na corte.
Rugena ficara feliz ao rever novamente os lugares onde passara os dias mais felizes de sua vida, onde cada objecto lembrava-lhe o adorado pai.
Numa clara, mas fria manhã de janeiro, no mesmo quarto que um dia servira de gabinete de trabalho do finado barão Rabstein, duas amigas estavam sentadas perto da janela.
Ana trabalhava com afinco numa branca toalha de seda para o altar, bordando com seda colorida um galho de videira.
Era uma moça graciosa, jovem, fresca e em pleno desabrochar; seus cabelos negros estavam entrelaçados em duas espessas trancas e desciam até os joelhos.
O pequeno nariz aquilino e a enérgica expressão da boca faziam-na parecer com o irmão, mas os grandes olhos escuros, felizes e dóceis, nada tinham do olhar severo e sombrio de Zizka.
Rugena não fazia nada; sentada, encostada no alto espaldar de sua poltrona, olhava pensativamente pela janela o quadro invernal que se estendia ao longe.
Ela comprovara as expectativas e tornara-se uma bonita e encantadora moça, alta e esbelta, com o rosto pálido, lindíssimos, lânguidos e enormes olhos azuis, e com um ousado levantar das sobrancelhas.
Suas grossas trancas haviam mantido desde a infância sua cor dourada e destacavam-se bem, tendo como fundo o seu vestido azul-escuro.
Sua jovem e esbelta figura, o rosto pálido e liso como porcelana, os cabelos ondulados e cheios e o olhar luminoso lembravam aquelas imagens etéreas e inspiradas criadas pelo pincel genial de fra-Angélico.
Na cadeira ao lado, deitado sobre a colcha, estava seu cãozinho predilecto, que era acariciado maquinalmente pela linda mãozinha de Rugena, que parecia esculpida a cinzel.
De repente o olhar sonhador da menina despertou e ela endireitou-se.
- Dois cavaleiros se aproximam do castelo.
Veja, Ana, quem serão eles? - Perguntou Rugena, olhando pela janela.
A amiga deixou de lado as agulhas e também se aproximou da janela.
- Eles estão longe e tão enrolados nas capas que é difícil distinguir.
Talvez o teu noivo esteja te enviando uma carta por mensageiro especial.
- Duvido que Vok perca tempo com isso... - Zombou, Rugena.
Ele agora está na corte e nem pensa nisso.
Aliás, isso não me deixa nem um pouco magoada; nem anseio por vê-lo ou por ter notícias dele.
Estou tão feliz aqui e gostaria de ficar. E você, Ana?
- Para mim, está bom onde você estiver; sinceramente, desejo nunca me separar de você. - Respondeu Ana, beijando carinhosamente a amiga.
Os cavaleiros desapareceram na curva da estrada e, alguns minutos depois, o chamado da trombeta nos portões anunciava a chegada de visitantes.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 29, 2016 7:29 pm

Mesmo interessadas em saber quem chegara, Rugena e Ana aguardaram até que o pequeno pajem chegasse correndo e, ofegante, anunciasse os senhores Jan de Trotsnov(Zizka) e Svetomir Kryjanov.
Imediatamente, elas correram ao encontro dos recém-chegados.
Ana jogou-se nos braços do irmão e Rugena quase seguiu o seu exemplo com Svetomir.
Mas os três anos de separação haviam mudado tanto o seu amigo de infância que ela parou, embaraçada, e, finalmente, esticou-lhe ambas as mãos, que o jovem levou inúmeras vezes aos lábios.
- Meu Deus, como estou feliz em vê-lo!
Tenho tanto para falar e perguntar a você.
Espere, querido! - Disse ela com um sorriso e libertando as mãos.
Devo ainda cumprimentar o seu companheiro!
Após os cumprimentos, Rugena dirigiu-se à amiga:
- Cuide do seu irmão, Ana!
Ordene que preparem os quartos para ele e Svetomir e que sirvam aos viajantes algo para comer, e não se esqueça de acrescentar algo mais substancial para o almoço.
Vamos, vamos passar para o refeitório.
Depois de um reforçado almoço, as jovens anfitriãs e os visitantes separaram-se em pares.
Ana queria ter uma conversa de despedida com o irmão e Rugena queria falar com Svetomir.
Como na infância, ela levou-o aos seus aposentos e fê-lo sentar-se próximo à lareira.
Aquela primeira impressão de estranhar uma pessoa querida que não via há muito tempo desvanecia-se aos poucos.
Percebendo o olhar de indisfarçada admiração de Svetomir, ela perguntou:
- O que é que você está olhando tanto?
- É que não consigo parar de admirar você.
Meu Deus, como você está bonita, Rugena!
Parece um perfeito anjo e estou só procurando ver as asas.
Rugena soltou uma gargalhada.
- Além dessas besteiras, você não tem nada melhor para mim?
Para não ficar atrás nas suas amabilidades, também direi que você cresceu, ficou mais bonito e que a penugem dos futuros bigodes cai bem em você.
Mas vamos falar de outra coisa!
Conte-me como veio parar aqui, junto com Jan.
Então Svetomir contou o motivo que o estava obrigando a fugir para a Polónia.
- E aproveitei a oportunidade para me despedir de você, para sempre.
Quem sabe o que espera um pobre soldado?
O que você acha do meu plano?
Durante o seu relato, o rosto expressivo de Rugena reflectia a emoção que ela sentia, por mais que tentasse se conter.
- Porque falar de separação eterna? - Começou ela, tentando dar um tom alegre à própria voz.
Cracóvia não está nos confins do mundo e nem todos morrem na guerra.
Estou profundamente convencida de que nós ainda nos veremos, e quero acrescentar que compartilho de sua decisão.
Não vale a pena tornar-se um sacerdote, como o padre Hilário, e acho que você nunca se tornaria alguém como o padre Jan.
- Você está absolutamente certa!
Só o pensamento de competir com ele já me parece um sacrilégio. - Replicou Svetomir, ardentemente.
O mestre Jan é um santo, cujos conhecimentos equivalem às suas boas acções!
Todos os pobres, sofredores e infelizes de Praga correm para ele e a cada um ele consegue ajudar e consolar.
A rainha o admira, os nobres o respeitam e veneram.
E pensa que ele se orgulha disso?
Nem um pouco!
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 29, 2016 7:29 pm

Ele é humilde, dócil, acessível a todos e trata os pobres e ricos da mesma forma.
E que pregador!
Seus discursos emocionam e inflamam; ouvindo-o, a consciência estremece, a pessoa envergonha-se de sua miséria espiritual e tenta melhorar com todas as forças.
E quando ele começa a arrasar com os vícios humanos, sem distinção de classe, aí então é um deus-nos-acuda!
Até parece o próprio Arcanjo Miguel descendo do céu pronto para abater os demónios!
Broda e eu não perdíamos nenhum sermão, e até a rainha vai assiduamente à capela de Belém.
- Amo e respeito o mestre Jan de todo o coração.
Naqueles invernos que passamos em Praga, ele me ensinava o catecismo e a minha primeira comunhão foi com ele.
Meu tutor e Vok também o veneram e dizem que ele é o bom génio da Boémia.
- Sem dúvida! Ele consegue despertar na alma o amor à pátria!
E agora o mestre Jan está trabalhando no melhoramento das regras de ortografia da língua tcheca,61 para que o nosso idioma seja tão gracioso e versátil como o latim, e os alemães já não falam que ele é um jargão bárbaro.
Caindo nesse tema, Svetomir contou o andamento da luta dos checos na universidade.
Assim, o tempo transcorreu imperceptivelmente até o jantar, após o qual cada um foi para o seu quarto.
Mas Rugena, antes de dormir, chamou Matias e incumbiu-o de preparar para Svetomir um par de cavalos de montaria e um conjunto completo de armas, que ela mesma escolheria das coisas do falecido pai.
Em seguida, foi com ele para a sala secreta, perto da biblioteca, onde estavam guardados os tesouros escondidos outrora.
Ela ordenou a Matias que enchesse de dinheiro dois alforjes, e começou a escolher entre as armas e os objectos de ouro, separando para Svetomir um punhal com o cabo incrustado de pedras preciosas, uma espada com a lâmina italiana e uma taça de prata ricamente trabalhada.
Quando abriram as caixas com jóias de sua mãe e, sob a luz da tocha de Matias, os brilhantes, rubis e esmeraldas acenderam-se em miríades de luzes, Rugena riu baixinho.
- Como o meu tutor e especialmente a condessa lamentaram o desaparecimento destas caixas!
Quanto tempo eles perderam procurando-as!
Ela pegava e deixava escorrer entre os dedos os alvíssimos e longos fios de pérolas.
- E, se não fosse o meu previdente e fiel Matias, estas jóias certamente estariam enfeitando agora o reverendíssimo bispo Brancassis ou o cardeal Cossa (futuro papa João XXIII). - Disse ela com um sorriso.
Escolhendo uma pesada corrente de ouro, enfeitada de pedras preciosas, uma fivela para o chapéu e um anel de safira, ela saiu do esconderijo, e Matias, radiante de felicidade, fechou-o novamente.
No dia seguinte, Rugena e Ana prepararam uma mala para Svetomir, que encheram de roupa de baixo, trajes das reservas do falecido barão e outras quinquilharias.
A outra parte do dia passou alegremente em conversas e planos para o futuro, assim que Svetomir voltasse como herói.
Após o jantar servido mais cedo, Ana levou consigo o irmão para lhe entregar os presentes de Rugena, enquanto a anfitriã levava Svetomir para seus aposentos onde o esperava uma grata surpresa.
Feliz e emocionado pela atenção, ele examinava o armamento, os trajes, as jóias e os pesados alforjes, que lhe tiravam qualquer preocupação quanto aos meios de sobrevivência; depois, ajoelhando-se diante de Rugena, ele beijou-lhe a mão, com devoção.
- Como vou lhe agradecer por essa sua magnanimidade, vindo em meu auxílio, cercando-me de tudo e facilitando o meu caminho na vida? - Sussurrou ele, com lágrimas nos olhos.
- Agindo na vida sempre conforme os mandamentos de Deus e as leis da honra!
Ambos somos órfãos; se Deus me abençoou com a riqueza, fico feliz em poder ajudar um amigo e companheiro de infância em dificuldades.
Não quero que você, Svetomir, esteja pior que os outros e sei que as pessoas respeitá-lo-ão mais se estiver bem-vestido e tiver dinheiro no bolso.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 29, 2016 7:29 pm

- Juro que não a desapontarei.
Sua iluminada imagem será a minha estrela-guia, e se eu morrer em combate, meu último pensamento será para você.
Rezarei todos os dias por sua felicidade e pela de Vok, para que Deus abençoe a vossa união.
Rugena ouvia-o, pensativa, mas as últimas palavras do amigo fizeram-na sorrir; puxando a poltrona, indicou-a a Svetomir para que se sentasse.
- Quanta bobagem!
Você, melhor do que ninguém, sabe que meu casamento com Vok não será por amor mas por entendimentos familiares.
Em sua voz havia uma entonação de frustração ou zombaria.
Ela prosseguiu:
- Vok não me ama, e eu também nada sinto por ele.
Dizem que o amor é uma dádiva divina.
Mas, até hoje, nenhum homem fez-me sentir isso e tenho fortes dúvidas quanto a Vok despertar esse sentimento em mim.
- Mas por quê?
Ele é bonito, encantador e nobre como um cavaleiro, e não há nem sombra de dúvida que ele te ama.
Quem poderia olhar para você sem se encantar?
Principalmente ele, a quem você vai pertencer.
Como poderia ele não se orgulhar nem se apaixonar, quando em toda a Praga não existe uma única mulher que possa competir com você?
Rugena riu. Mesmo que soubesse que era bonita, por sua própria inocência e discrição, ela nem imaginava que pudesse parecer uma dádiva divina.
Agora, divertia-se com a apaixonada adoração que ouvia de Svetomir e que via nos olhos de seu amigo de infância.
Ela pôs as mãos sobre os ombros do jovem e olhou-o maliciosamente nos olhos.
- Tá, tá, tá!
Será que você não se apaixonou por mim e está me cantando esses hinos? - Perguntou, zombeteira.
- Não zombe de mim, Rugena!
Como um pobre rapaz como eu pode sequer ousar olhar para você? - Respondeu Svetomir, ruborizando.
- Não por ser pobre, mas porque tal amor seria para você uma pesada carga e um empecilho na vida!
Mas, felizmente, nada disso existe. - Observou Rugena, voltando a ficar séria.
Conserve para mim, Svetomir, o seu afecto de irmão, assim como eu serei sempre sua dedicada irmã.
Lembre-se de que aqui você tem uma verdadeira amiga, a quem poderá sempre recorrer nos momentos difíceis e em quem sempre encontrará consolo, conselhos e, se necessário, ajuda material.
Mas, se após alguns anos, você voltar para me ver e seu coração estiver livre, repare bem em Ana, a doce amiga de nossa infância, e pode ser que você queira recebê-la, de minhas mãos, como noiva.
O jovem ficou espantado e confuso, permanecendo em silêncio por um certo tempo.
Por fim, falou, decididamente:
- Tudo o que provém de você me promete felicidade.
Se voltar a Praga, vou me esforçar para amar a quem você escolher para minha esposa.
- Vamos esperar que o futuro traga felicidade a nós dois.
E agora, vá descansar, que amanhã lhe espera uma longa viagem.
Como despedida, antes da longa separação, dê-me um abraço como o fazia outrora, quando éramos crianças. - Concluiu, emocionada, Rugena, beijando-o.
Pela manhã, os viajantes se foram.
Svetomir montou agilmente no fabuloso cavalo que Matias lhe entregou, experimentou-o no pátio e ficou muito satisfeito.
Ao se despedir, olhou atentamente para Ana e achou-a realmente bonita, mas longe de se comparar com Rugena.
E da mesma janela de onde haviam visto a chegada dos cavaleiros, Ana e Rugena acompanharam a saída de seus visitantes, com um longo olhar de despedida até eles desaparecerem ao longe.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 29, 2016 7:29 pm

Ana voltou, em silêncio, ao trabalho manual e Rugena pegou o breviário, mas não lia e observava disfarçadamente a amiga entristecida trabalhando distraída e enxugando furtivamente as lágrimas.
- Por que está chorando, Ana?
Seu irmão logo vai voltar... - Disse Rugena, inesperadamente.
Ana estremeceu.
- Temo por Jan, pois as estradas são perigosas... - Respondeu, embaraçada.
Rugena inclinou-se e puxou-a carinhosamente pela orelha.
- Você não se envergonha de mentir?
O senhor Jan nada tem a ver com as lágrimas que está derramando pela separação com Svetomir!
Percebo há muito tempo que ele lhe agrada, mas como se preparava para a tonsura, não havia nada o que dizer.
Agora tudo mudou!
Ele é um guerreiro!
Quando voltar para casa, por que não poderia gostar de uma linda moça como você?
Eu lhe darei um dote e vocês se casarão.
- Oh, nem me fale, Rugena! - Explodiu Ana.
Quando Svetomir voltar como herói, haverá por aqui tantas moças bonitas, ricas e apaixonadas por ele, que nem vai se lembrar de mim.
Além disso, sabe perfeitamente que ele gosta é de você!
- Você está com ciúmes!
Quando ele voltar, vou estar casada com Vok.
Para que Svetomir vai querer um amor assim?
Não sou uma imagem de Nossa Senhora para que as pessoas se satisfaçam com uma silenciosa adoração.
Você é que deve tomar cuidado, pois algum rico senhor de Praga pode, de repente, resolver casar com a bela Ana de Trotsnov e aí não vai sobrar nada para o coitado do Svetomir!
- Não há perigo!
Svetomir é bonito demais e bom demais para ser esquecido.
Não me diga que ele não lhe agrada?
Ou você acha Vok mais bonito?
Vok é orgulhoso e invocado.
Quando está com raiva, seus olhos ficam tão maus e penetrantes como espadas.
Br-r-r-r! Tenho medo dele!
E você, não tem medo de ser sua esposa?
Rugena recostou sua linda cabecinha no espaldar da poltrona e ficou pensativa.
Sua vida na casa dos Valdstein passava como um panorama diante de seus olhos, ressuscitando na mente suas relações com o noivo.
Entre eles nunca houvera um pleno entendimento, proximidade e carinho.
Tanto a diferença de idade quanto o carácter do rapaz distanciavam-nos constantemente.
Ele era bom e atencioso com sua pequena noiva, enchia-a de presentes e até brincava com ela, mas Rugena sentia que ele se sujeitava àquilo, que aquelas brincadeiras eram tediosas para ele, e que ele não era tão companheiro como Svetomir.
Depois, as circunstâncias separavam-nos por meses inteiros; agora, já fazia dois anos que não se viam.
Mas as lembranças do noivo não a emocionavam e ela não tinha nenhum desejo de vê-lo.
Depois de algum silêncio, ela se endireitou.
- Sabe de uma coisa, Ana?
Não tenho medo de Vok e também não o amo, como também a Svetomir!
Um é demasiado doce, demasiado querubim...
O outro é demasiado imprudente e insignificante.
Não consigo explicar-lhe, mas acho que a ambos falta algo para ser o homem que eu amaria.
- Deus do céu! Afinal, o que quer?
Que ideal inatingível você criou para si! - Surpreendeu-se Ana.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 29, 2016 7:30 pm

- Não criei nada.
O homem dos meus sonhos existe.
Eu o vi há muito tempo, mas a memória dele em mim é indelével.
- Mas quem é ele?
Você nunca me falou desse homem! - Disse Ana, curiosa.
- Quem é? Não sei nem quero saber.
Para quê? Simplesmente comparo-o com os outros e, a cada vez, sou obrigada a reconhecer que ninguém pode competir com ele:
a encarnação do cavalheirismo, da hombridade, da bondade e de grande inteligência.
- Mas onde você encontrou tal perfeição? - Inquiria Ana, incrédula e quase rindo.
- Encontrei-o duas vezes na minha vida.
A primeira vez foi no terrível dia quando soube da morte de meu pai.
O mestre Huss estava aqui de passagem e esse desconhecido senhor o acompanhava.
Na manhã seguinte, antes de prosseguirem viagem, eles foram prestar condolências a mim pela grande perda.
O mestre Jan ficou muito tempo me consolando, enquanto o outro disse somente:
"pobre criança" e carinhosamente passou a mão na minha cabeça.
Nunca vou esquecer o olhar e o som de sua voz.
Desde aquela época a imagem dele ficou em minha memória.
- E como ele é?
- Ele é alto, magro, com uma barbicha preta e grandes olhos negros.
Mas sua beleza não é somente externa.
Tudo nele é maravilhoso:
seu olhar, profundo, abrasador e carinhoso e um sorriso cativante e encantador...
A segunda vez foi na véspera de nossa volta de Praga, quando estivemos lá pela segunda vez.
Eu estava perto da janela e o vi passando pela rua a cavalo, acompanhado de outros senhores.
Ele parecia ir a alguma festa, pois usava um traje de veludo lilás e, entre os outros, parecia um príncipe ou um rei.
Ele conversava animadamente, ria e sua alegria fazia-o duplamente atraente.
Parece-me que quando ele quer, consegue encantar a todos; e os seus companheiros pareciam estar sob seu encanto e o ouviam com admiração.
Os cavaleiros passaram rapidamente, mas a lembrança do maravilhoso desconhecido renasceu novamente em mim.
- Então, precisamos saber quem é ele!
Talvez alguém do castelo ainda lembre com quem Huss chegou naquele dia!
- Não! Não quero nem procurar, nem saber quem é ele! - Interrompeu-a Rugena, com impaciência.
Já disse que ele é somente uma visão, um sonho, e deixe que continue assim.
Não quero sofrer desilusões.
E se, de repente, me contarem que ele é casado e tem sete filhos, ou que ele não é um cavaleiro mas um rico tecelão ou padeiro? - E Rugena riu das próprias suposições.

58 Monument. Univers. Prag. - Nota do autor.
59 Ernest Denis, p. 62 - Nota do autor.
60 Ernest Denis, p. 84 - Nota do autor.
61 Ernest Denis, p. 67, obs. I-Nota do autor.
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 29, 2016 7:30 pm

Capítulo IX

Ao voltar da Silésia, Venceslau instalara-se com toda a sua corte no Monte Kutná e já estava lá havia três meses.
O rei gostava daquela cidade, e a população local sempre lhe expressara uma constante lealdade.
Era 17 de janeiro de 1409.
Estava frio e a neve caía em grandes flocos.
Na grande sala do palácio real, onde se encontrava naquele instante o próprio augusto proprietário, reinava um agradável calor, e toda a luxuosa decoração respirava calma e aconchego.
As paredes e o tecto eram revestidos em madeira de carvalho escuro; as altas janelas com seleiras tinham vidros coloridos, mas àquela hora estavam fechadas por pesadas cortinas, como também as portas; na grande lareira de mármore cinza, ardia um fogo alto; perto dali, junto à mesa, estavam sentados dois homens jogando dados.
Na grande poltrona de espaldar alto e enfeitado com o brasão real, sentava-se o próprio Venceslau.
Preocupado com algo, com o cotovelo apoiado na mesa, bebia distraidamente da taça de ouro que tinha ao seu lado.
O rei era um homem de uns 48 anos, de rija compleição.
Como o seu irmão Sigismundo, ele era bonito, mas os grandes problemas do seu reinado e os excessos a que se permitia (diziam que o rei tinha sido envenenado) tinham-no envelhecido prematuramente e haviam coberto seu rosto de rugas.
Mesmo assim, apesar da cor avermelhada do rosto e do inchaço das faces, a aparência de Venceslau, no geral, era atraente.
Percebia-se em seu olhar e em seu sorriso uma sinceridade e uma bondade naturais - isso quando os vapores alcoólicos não anuviavam sua vista cansada, as provações de sua vida não distorciam sua boca com um sorriso amargo, e os ataques de raiva insana, terríveis aos que o cercavam, não tiravam seu auto-controle e não apagavam nele a consciência da própria dignidade.
Do outro lado da mesa, numa cadeira desmontável, sentava-se Vok Valdstein, também parecendo sombrio e jogando em silêncio.
O rei, de repente, endireitou-se e agitou a cabeça, como se quisesse livrar-se de pensamentos incómodos.
Bebendo um gole de vinho, olhou fixamente para o sisudo rosto do seu calado parceiro.
O conde era o preferido de Venceslau não só porque este guardava a grata memória da coragem e da argúcia que ele demonstrara na sua fuga de Viena, mas também porque sua companhia muito lhe agradava.
Empreendedor e ousado, grande admirador de mulheres e amante de aventuras, Vok sabia como ninguém distrair e alegrar o rei, contando-lhe as mais incríveis histórias e anedotas tão engraçadas que dissipavam as negras nuvens sobre a cabeça de Venceslau, substituindo-as pelo bom humor e pelas altas gargalhadas.
O jovem sentia-se à vontade diante do rei, permitindo-se impunemente palavras mais ousadas, ou, às vezes, até impertinências que custariam caro a qualquer outro.
Seu teimoso silêncio dava a entender ao rei que estava zangado, e o cuidado com que evitava olhá-lo indicava que a raiva de Vok era dirigida nem mais nem menos para a sua augusta pessoa.
Venceslau, pela bondade inerente ao seu carácter, passou a imaginar o que fizera de errado ao seu mimado, mas não conseguia lembrar-se de nada.
- O que está havendo, Vok?
Hoje você está calado como um peixe e irado como uma cobra pisada no rabo.
- Não é nada, majestade!
Gostaria de pedir a Sua Alteza férias de algumas semanas para acertar negócios familiares que exigem a minha imediata presença. - Respondeu, fria e respeitosamente, Vok.
Venceslau olhou-o desconfiado, depois colocou sobre a mesa os dados que segurava na mão, e disse, meio sério, meio brincando:
- Que besteira é essa?
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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 29, 2016 7:30 pm

Você não tem nenhum problema familiar para cuidar, mas percebo que ousa ter raiva de mim.
Vamos, confesse:
o que você quer?
Talvez eu tenha me esquecido de cumprir alguma promessa...
-Não, majestade!
Entre tantas promessas que não foram cumpridas por Vossa Alteza, eu poderia me perder e não saberia indicar a qual exactamente o senhor quer se referir.
Simplesmente tenho receio de ficar aqui e gostaria de ir embora.
- Está com medo?
Você parece zombar de mim!
Então, ordeno-lhe que diga imediatamente do que está se ressentindo e o que receia.
- Temo ser queimado vivo e entregue aos alemães como carne assada.
O rei soltou uma longa gargalhada.
- Ah! Então é isso?
Quer dizer que uma palavra mais dura dita a Huss e Jerónimo estragou o seu humor.
Não seja bobo, Vok!
Que lhe importa o que eu diga às delegações que me irritam com suas pressões sem conteúdo?
- Mas como não me importar?
Majestade, o senhor se esquece de que sou checo e de que não posso ficar indiferente quando meu rei ameaça queimar dois dos meus amigos e não deseja reconhecer os direitos do meu povo, que sempre foi fiel e dedicado servo de sua coroa?
O jovem conde, tentando convencer o rei de suas razões, passou a argumentar sobre o quanto os checos estavam certos ao exigirem para si o primeiro lugar na própria pátria e o quão natural era o facto de eles estarem indignados com a injustiça da situação actual.
O rei, sem qualquer irritação, ouviu atentamente o apaixonado sermão do seu preferido.
- Em todo caso, se estou negligente com os direitos dos checos, estes não cochilam e os defendem... - Riu Venceslau, bondosamente.
Depois daquela malfadada recepção, estou sendo assediado por todos os lados.
Lobkovit, ao me ver, fica zunindo como um besouro nos meus ouvidos e me enche de provas convincentes de que ele está certo e os alemães não; a rainha chora cascatas de lágrimas dizendo que seu confessor adoeceu por minha causa; e até você me ofende e ameaça ir embora.
A situação chegou ao ponto de o abade Solon62 e membros da embaixada da França tentarem me convencer de que tenho obrigação de dar três votos aos checos.
Fica claro que não posso mais viver em paz enquanto não decidir esse caso.
Mas, agora preciso dormir! Boa-noite, Vok!
Não estou com raiva de sua impertinência causada pela febre patriótica!
Mas amanhã, quero você com outro semblante, e prepare alguma história bem engraçada que você sempre tem no seu stock.
Ele se levantou, despediu-se amigavelmente e retirou-se da sala para o interior dos seus aposentos.
Uma lâmpada de prata suspensa no tecto e duas velas acesas na estante iluminavam o quarto onde entrara o rei.
A rainha orava, ajoelhada e com o breviário nas mãos, não percebendo a chegada do marido.
Sofia da Bavária, filha do duque Johann de Munique, era a segunda esposa de Venceslau.
A primeira, Joanna, morrera tragicamente, sufocada por um grande cão de caça que o rei sempre colocava à noite perto de sua cama e que atacara a rainha quando ela levantara-se da cama na madrugada.63
Para grande decepção do rei, a segunda união, assim como a primeira, não trouxera filhos.
Sofia era uma mulher bondosa e dócil; suportava calada todas as infidelidades, todos os caprichos e todos os problemas criados pelas desordenadas paixões do marido; graças a essa paciência, conseguira uma certa influência sobre ele.
Sofia aproveitava essa influência para fazer o bem e proteger o povo checo a quem tanto amava; por toda sua vida, foi dedicada defensora dos direitos desse povo.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - OS LUMINARES CHECOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 29, 2016 7:31 pm

Para grande desgosto do clero alemão que a cercava, escolhera Jan Huss para seu confessor64 e frequentava assiduamente a capela de Belém.
Essa ostensiva preferência pelos checos trazia-lhe problemas com os parentes da Bavária, a ponto de seu irmão e os tios, duques Estéfano e Friedrich, não comparecerem à sua coroação.
Já os alemães de Praga chamavam-na de herética e "belemista".65
- Que grave pecado você cometeu hoje, Sofia, para orar com tanta sofreguidão? - Perguntou o rei, percebendo que ela insistia em não notá-lo.
- Nenhum! Orava por você, pedindo a Deus que ilumine seu coração e a mente, incutindo-lhe a neutralidade e a justiça, que devem inspirar o rei...
- E que eu devo demonstrar satisfazendo as exigências dos checos?
Já ouvi essa canção antes, e não quero ouvi-la na cama. - Disse ele, em tom de quase brincadeira.
A rainha levantou, aproximou-se do marido e beijou a sua mão.
- Ainda não lhe falei sobre isso, mas esse caso mexe comigo até o fundo do coração e, na minha opinião, é muito justo.
- É injusto, pois os estatutos, os costumes e a vontade de meu falecido pai deram a primazia aos alemães. - Interrompeu-a o rei, calmamente.
Não me sinto capaz de julgar uma questão tão importante, mas, na opinião de Lobkovitz e do abade Solon, o finado imperador Carlos deu à nossa universidade os mesmos direitos que têm as universidades de Paris e Bolonha, que dão a primazia aos naturais do país.
Não seria sua obrigação proibir a prática reconhecidamente injusta?
E somente para seu interesse, gostaria de lhe dizer algumas palavras.
A quem você defende meu rei e marido?
Quem você quer ajudar em primeiro lugar, prejudicando os fiéis checos?
Os seus piores inimigos!
Existe ainda alguma traição ou ofensa que os alemães ainda não lhe fizeram?
Não foram eles que, em favor dos próprios interesses, semearam a discórdia entre você e seu irmão Sigismundo?
E os insolentes e revoltados vassalos66 não titubearam em tirar-lhe o império, roubando-lhe todos os seus direitos, somente porque a grande parte dos "curfiurstas"67 era-lhe fiel?
São os mesmos alemães!
Em sua insolência, eles ousam criticar as suas decisões e opor-se à sua vontade; eles gostariam, que Deus me perdoe, de controlá-lo da mesma forma como controlam tudo na universidade!
Lembre que, ainda recentemente, eles declararam que não abandonarão a "obediência" ao papa Gregório XII, enquanto os checos submeteram-se às suas ordens, sem vacilar.
É por esses espertos estrangeiros que você quer sacrificar os legítimos direitos do seu povo?
Enquanto a rainha falava, a cor da ira espalhava-se pelo rosto de Venceslau e em seus olhos acendeu-se a raiva.
A repentina lembrança das ofensas suportadas despertou o ódio e o fel que guardava dentro de si.
Em sua alma instável e apaixonada, houve uma reviravolta que derrubou todas as conclusões a favor dos alemães e decidiu a vitória dos checos.
- Tem razão, Sofia!
Não vejo motivos para não acreditar no meu sábio e fiel servo Nikolai Lobkovitz.
Ele afirma, com razão, que o rei da Boémia tem obrigação de proteger e defender os direitos do seu povo e não oferecê-lo em sacrifício aos estrangeiros!
Amanhã mesmo ordenarei a preparação de um decreto que concede aos checos aqueles três votos que eles tanto querem.
Feliz com a inesperada vitória, a rainha jogou-se nos braços do marido.
No dia seguinte, Nikolai Lobkovitz, convocado pelo rei, apresentou-lhe o decreto, cujo texto já tinha preparado havia muito tempo.
Após uma séria deliberação, Venceslau aprovou e assinou aquele importantíssimo acto que acabava com a vantagem dos alemães e teria consequências decisivas na história do povo checo.
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