LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Página 5 de 6 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 09, 2016 9:57 am

Uma tarde enquanto limpava os coxos dos porcos, Dalva me apareceu sorridente, parecia mais bonita do que antes.
Fiquei parado olhando a sua expressão de felicidade e pensei:
"Eu preciso fazer essa moça feliz.
Ela não merece o que eu estou fazendo com ela".
Me abraçando, ela disse baixinho:
- Luís, nós vamos ter um filho!
Eu deixei cair a cuia de água no chão; parece que suas palavras m anestesiaram a alma.
Fiquei parado, olhando para ela sem fala.
- Luís, você não diz nada? - gritou ela.
Trémulo, me aproximei dela e mal pude falar:
- Dalva, eu... eu... não sei nem o que te falar! - Abracei-me a ela e pus-me a chorar.
Mil pensamentos vieram à minha cabeça.
Sentamos debaixo de uma palmeira e ficamos olhando para o céu azul e límpido.
Foi Dalva quem falou primeiro:
- Luís, eu pensei que você fosse ficar feliz com a novidade, mas vejo que entristeci você com a notícia.
Abraçando minha mulher com ternura, disse-lhe:
- Dalva, por favor, não fique magoada, não fiquei triste com a notícia, apenas não esperava por ela.
Sabe Dalva, todos os meus filhos foram gerados com muito respeito para com suas mães, mas sem amor.
E eu amo a cada um deles, como se fossem pedacinhos da minha vida.
O filho que está no seu ventre, como meus outros filhos, é uma gota do meu sangue e foi gerado com muito amor.
Você sabe o quanto te amo, o quanto é diferente.
Logo a notícia se espalhou.
Meus irmãos me cobravam esquecer o passado.
"...Agora que você vai ter um filho entre nós", "...este é o seu legítimo e verdadeiro filho", "...procure esquecer os que ficaram para trás, nossos orixás cuidarão deles".
Eu assentia com a cabeça, mas, no coração, o grande desejo de poder revê-los; na alma, estava a dor da saudade.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 09, 2016 9:57 am

CAPITULO XIX - O TEMPO PASSOU..
Como de costume, todos os sábados íamos para o nosso culto, ouvíamos conselhos, recebíamos ajuda naquilo de que precisávamos.
Estranhei quando o nosso líder espiritual me chamou em particular.
Acompanhei o mestre em silêncio até um canto mais distante do barulho de alegria do nosso povo.
Olhando-me seriamente, ele me disse:
- Filho, quando as tormentas que encobrem o céu sossegarem, você vai poder sorrir outra vez.
Faça o melhor que puder na sua vida, lembre-se de que por aí vem uma luz que vai precisar de você.
Receba esse filho e faça dele um homem de verdade.
Deus é bom, justo e misericordioso, um dia você entenderá todas as vontades do Pai.
Agora, filho, tenho um pedido a lhe fazer:
gostaria que ajudasse o padre no que você puder; lembre-se do quanto ele ajudou você; agora é sua vez de retribuir.
Eu pensei:
"... Mas ajudar como?"
Ouvindo o meu pensamento, ele respondeu:
- Amanhã você saberá.
Ao sair dali estava mais tranquilo e reconfortado.
No outro dia de manhã, assim que terminou a missa, o padre nos chamou para uma reunião.
Tão logo chegamos à sala, vi que havia um baú de viagem e um saco ao lado do banco; todos os homens entreolham-se, mas sentamos em silêncio.
- Meus amigos - começou a falar o padre -, eu não posso mais continuar aqui.
Vou partir hoje mesmo, preciso da ajuda de vocês para chegar até a minha travessia.
Não posso continuar me escondendo, nem fugindo de uma situação na qual eu também estou comprometido.
Vou me juntar aos outros e lutar ao lado deles.
Estou partindo para a França, levarei notícias suas, Luís, à família da senhora Lucien.
Não prometo, mas se tudo correr bem, a nosso favor, se eu puder voltar um dia, voltarei com toda a certeza.
Aprendi a amar esta terra e a cada um de vocês.
Fiquem unidos; vocês são fortes e independentes, continuem atentos, permaneçam vigilantes.
Quanto aos cuidados espirituais de vocês, vou tranquilo, sei que sempre estiveram em boas mãos, protegidos pelos seus deuses...
Eu me levantei e pedi:
- Padre, posso ir até a minha casa buscar algo para lhe entregar enquanto os meus irmãos combinam a sua saída?
- Sim, Luís, se for algo que eu possa levar e se tiver à chance de chegar ao meu destino entregarei a sua encomenda.
Fui até a minha casa, peguei as minhas economias e, sem nenhum constrangimento, decidi:
entregaria tudo para o padre, ele precisaria delas mais do que eu.
Assim que retornei, as carroças já estavam sendo examinadas, os homens se preparavam para acompanhá-lo.
Chamei-o de lado e entreguei-lhe a bolsa dizendo-lhe:
- Padre, não é muito, mas é tudo o que posso lhe dar.
Sei que vai precisar, por favor aceite.
Ele abriu a bolsa e ficou pálido:
- Luís, isso não é justo, aqui está tudo o que você juntou com o seu trabalho todo esse tempo.
Você também vai precisar, Dalva se prepara para ter um filho seu.
Com muito custo convenci o padre a aceitar minha ajuda.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 09, 2016 9:58 am

Ele partiu acenando.
Sabíamos que outro padre não viria para nossa aldeia.
Aquele padre que dedicara sua vida a nós era perseguido e procurado como um infractor das leis.
Ao vê-lo desaparecer na estrada, senti um aperto no coração, tive o pressentimento de que jamais tornaria a vê-lo.
Pedi aos orixás que o protegessem, ele era um amigo de Deus e dos homens.
Dalva, quando soube do meu gesto, me abraçou, orgulhosa:
- Luís, desde o primeiro dia que te vi o amei por isso:
a grandeza do seu coração.
Você fez muito bem em ouvir os conselhos do nosso pai; sábado vou agradecer a ele, e você também deve ir até ele e agradecer.
Ficamos reunidos em frente à igreja, as crianças foram dormir e as mulheres ficaram conversando.
Os homens estavam preocupados e ansiosos com o retorno dos nossos companheiros.
A lua já estava alta no céu quando ouvimos o trotar dos animais.
Pusemo-nos em pé e pedimos às mulheres para entrarem nas casas.
Eram os nossos homens, ficamos aliviados, tudo havia corrido bem.
O padre precisou esperar três horas, mas conseguiu embarcar com alguns pescadores até a ilha onde ele buscaria ajuda para seguir viagem.
O inverno chegou com muita chuva, e trouxe também muitas doenças.
Eu, com a orientação dos guias preparava remédios para toda nossa comunidade.
Me preocupava com a Dalva, ela estava nos dias de dar à luz, e estava tossindo muito.
O frio estava muito forte, muitas chuvas e ventos.
O afluente do rio subiu muito, trazendo muitas cobras venenosas.
As estradas estavam cobertas de lama, nem montado dava para passar.
Os mais velhos comentavam que havia mais de trinta anos não tinham um inverno tão rigoroso quanto aquele.
Os dias eram curtos, e as noites, longas, o céu escuro e a neblina que fechava tudo me causava uma angústia muito grande.
Recordava-me dos invernos brasileiros.
Na fazenda do senhor, em pleno inverno, não usávamos roupas de frio e víamos estrelas no céu.
A minha irmã veio ficar connosco, só estávamos esperando a hora do nascimento do meu filho.
Separei a lenha seca, fiz um berço à moda do Brasil, enchi um colchão de junco seco e desfiado para o berço do nené.
Por outro lado, Dalva também preparou tudo de que precisaria nos primeiros dias.
Era sábado, Dalva estava ansiosa por não poder ir ao culto dos nossos guias.
Eu a tranquilizei dizendo:
- Nossos orixás sabem que você não aparece por lá porque não pode enfrentar as estradas cobertas de lama; eles vêm até aqui.
- Então vá você! - disse-me ela.
- Não, eu não posso deixá-la aqui nesse estado, essas coisas acontecem quando menos se espera, eu não vou, os orixás sabem que não é má vontade, mas cuidado.
Logo após o almoço, ela começou a andar de um lado para outro.
Eu, atento, perguntei-lhe:
- O que está sentindo, Dalva?
Antes que ela pudesse me responder, vi a água escorrendo por suas pernas.
- Dalva, pelo amor de Deus, a bolsa arrebentou!
Venha comigo.
- Não estou sentindo dores - disse-me ela.
É assim mesmo, algumas mulheres, quando a bolsa arrebenta, não sentem dores.
Preparei o banho, coloquei água para ferver, chamei minha irmã que cochilava um pouco e começamos a arrumar o quarto.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 09, 2016 9:58 am

Fiz o banho de assento em Dalva, brincava com ela para deixá-la tranquila, vesti-a com uma bata larga e curta, comecei a fazer algumas massagens em seu corpo e exercitava suas pernas para ajudar na circulação.
Uma hora depois, Dalva gemia e suava frio, eu a animava, massageava o seu ventre ajudando meu filho a ter forças para nascer.
Minha irmã corria com os panos quentes e as panelas com água fervendo; o frio era forte, e eu pedia:
- Vamos manter o quarto aquecido.
Eu, acostumado a ajudar tantas crianças a virem ao mundo, olhava para Dalva e tremia, não de frio, mas de medo de perdê-la.
No meu íntimo pedia com toda a fé aos nossos orixás que viessem nos ajudar.
Pedia a minha avó Joana, que onde quer que estivesse, me ouvisse; eu precisava ajudar meu filho a nascer.
Precisava salvar aquela que me dava forças para continuar vivendo.
Lá por volta das nove horas da noite, minha irmã sustentava a cabeça da Dalva, eu massageava na altura do seu estômago com uma mão e com a outra sustentava a cabeça do meu filho, já via o seu rosto, mas ainda não sabia se era menino ou menina.
Alguns minutos e lá estava o meu filho, era um lindo e forte garoto.
Cortei o cordão umbilical fazendo todo o ritual dos ensinamentos espirituais que havia aprendido com a avó Joana, e como até hoje é feito entre aqueles que fazem parte da nossa religião.
Mostrei a Dalva o nosso filho; nós dois chorávamos de alegria e de emoção.
Agasalhamos mãe e filho na nossa cama, eu e minha irmã fomos cuidar da limpeza e da arrumação da casa.
Conforme combinei com meus irmãos, assim que o meu filho nascesse, eu acenderia uma tocha de fogo bem no alto e eles de lá saberiam.
Combinamos que, se fosse menino, eu acenderia do lado esquerdo, se menina, do lado direito - e assim fiz.
Passei a noite em claro, vigiando as duas pessoas que eram a razão do meu viver.
Chovia sem parar, não se ouvia nem um barulho, a não ser da chuva caindo sobre as folhas.
Com muito sacrifício por causa das chuvas, todos os meus familiares vieram nos visitar, todos trouxeram presentes para o meu filho, era manta de lã, casaquinho, sapatinho, touca etc.
A minha irmã, então, perguntou-me:
- Luís, como vai se chamar o filho de vocês?
Eu olhei para Dalva, esperei me falar alguma coisa; ela entendeu o meu apelo e então respondeu:
- Se fosse menina, eu gostaria de chamá-la Joana, mas como é menino, eu vou deixar o pai escolher um bonito nome para ele.
Fiquei pensando e tentando me lembrar dos nomes de todos os meus filhos; sinceramente, não me lembrava.
Lembrava dos seus rostos, do nascimento de cada um deles, mas não lembrava do nome de todos.
Lembrei-me do meu pai, da avó Joana...
Ela me chamou de Miguel porque gostava desse nome, disse-me que era o nome de um anjo muito poderoso.
Me veio a pergunta:
"E se eu chamasse o nosso filho de Miguel?"
- Dalva - falei -, você concordaria em colocarmos o nome do nosso filho de Miguel?
Ela ficou pensativa e respondeu-me:
- Se você deseja, eu concordo.
Miguel é um nome bonito.
A minha irmã gritou:
- Luís! Miguel não era o nome que lhes chamavam no cativeiro?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 09, 2016 9:58 am

- Sim, mas não era o nome que me fazia escravo, aliás, esse nome quem me deu foi um anjo; e, em memória a ela, como eu voltei a ser Luís, vou chamar o meu filho de Miguel.
Assim foi escolhido o nome do meu filho com Dalva: Miguel.
O inverno foi duro, mas tivemos uma boa colheita.
As estradas estavam secando, o sol voltou a brilhar e nuvens brancas vagavam pelo céu.
A noite, eu ficava observando as estrelas mudando de lugar, cruzando para lá e para cá.
A lua clareava os arredores da nossa casa, os nossos animais misturados pastavam fartamente.
Dalva dormia agarrada ao nosso filho, eu ficava sonhando com as estrelas no céu - o coração de um homem é mais emoção que razão.
Por mais que tentasse me enganar, dizendo que esqueci, as minhas lembranças estavam vivas dentro de mim.
Ficava matutando... e matutando, enquanto acendia o meu cigarro de palha me perguntava:
- Como estariam todos?
Onde estaria o padre?
Teria ele chegado ao seu destino?
Será que Lucien recobrou os sentidos?
E o senhor Silvério?
Oh! Deus, Deus e Orixás!
Se eu não podia esquecer toda essa trajectória de minha vida, que eu pudesse aceitar o meu passado sem tantos sofrimentos.
Que a minha vida agora era outra, eu era outra pessoa: Luís Fernando.
Aos poucos, Miguel crescia e enchia a nossa casa de alegria; ele era meigo, inteligente e muito esperto.
Brincava ao redor da casa dando os seus primeiros passos.
Eu chorei no dia em que ele, trocando as letras, me chamou de "PAPA".
Sentei-me na calçada da nossa casa e chorei como criança; era a primeira vez que eu ouvia um filho meu me chamando de "papa".
Abracei e apertei Miguel contra o meu peito, eu tinha muito que agradecer a Deus por tamanha felicidade.
Nosso rebanho aumentou, nossa lavoura rendeu, aumentamos e melhoramos a nossa casa, compramos coisas novas para casa e para nós.
Miguel já estava com um ano e sete meses, Dalva me abraçou novamente como naquele dia.
Antes de ela me dizer qualquer coisa, eu me virei rindo e disse:
- Não negue!
Você vai ter agora uma menina!
Ela gargalhou:
- Como você desconfiou?
- Eu não desconfiei, eu acertei!
- Bem, se você advinha mesmo então desta vez vem a nossa Joana.
O tempo passava, vivíamos em paz e distantes dos envolvimentos políticos que sabíamos que o mundo se envolvia.
Nunca mais tivemos notícias de fora, perguntamos a um dos nossos mestres pelo padre, e ele nos respondeu:
- Preocupem-se em cuidar dos filhos de vocês, Deus cuida de cada um dos filhos dele.
Não vejo motivos para vocês estarem se preocupando tanto, rezem por ele e pelo resto do mundo, é só isso o que podem fazer.
O amor e o companheirismo de uma mulher ajuda o homem a seguir adiante.
Eu já não tocava no assunto da minha vida passada com a Dalva, tínhamos uma vida a cuidar, tínhamos filhos para criar e não tínhamos uma rotina dolorosa, pois a cada dia nós criávamos algo diferente para a família e para a comunidade.
Acabamos de colher o arroz, foi uma fartura.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 09, 2016 9:58 am

Contente, Dalva me lembrava:
- Precisamos vender uns trinta sacos e caiar a igreja e o terreiro dos nossos protectores.
Eu concordei com ela respondendo:
- Hoje mesmo vamos nos reunir para tratar desses assuntos, mas eu quero mesmo é experimentar aquela galinha que você preparou, estou morto de fome!
Saímos correndo abraçados e os nossos filhos também correram para ver quem chegava primeiro e ganhava o pedaço melhor.
Após o almoço, deitei-me numa esteira e dormi; comecei a sonhar que estava na casa grande com Ritinha, falávamos de muitas coisas.
Eu perguntei pela Nalva três vezes e ela não me respondia, mudava de assunto.
Estava tudo mudado, eu perguntei por meus senhores e ela me apontava a estrada.
Foi um sonho confuso; acordei angustiado, nunca mais havia sonhado com ninguém do meu passado.
Acordei e fiquei olhando para o céu, o crepúsculo avermelhado anunciava chuvas, um vento norte arremessava as folhas das palmeiras, as crianças corriam em volta da casa, brincando de cavalos de pau.
Ouvi Nalva cantando na cozinha, senti tantas saudades de Ritinha, parecia-me vê-la do jeito que a deixei.
Já fazia dez anos que deixei o Brasil, que deixei de ser Miguel para reencontrar-me como Luís.
Eu tinha envelhecido, Ritinha por certo também estava diferente.
Será que a Nalva havia morrido?
E os meus senhores?
E os meus filhos? Meu Deus!
Já não ficava mais na janela sonhando com as estrelas que cruzavam o céu, agora eu brincava com meus filhos, ensinava-lhes a montar, tirar leite etc.
Ao lado dos meus cinco filhos eu havia esquecido um pouco a dor que sentia por estar livre e meus filhos continuarem cativos.
O ser humano, apesar de todos os momentos de carência, é uma criança diante do Pai Maior; adapta-se ao sofrimento, esquece a tristeza e consegue encontrar felicidade nas pequeninas coisas da vida.
O tempo apaga as lembranças, ameniza a saudade, compensa com outras coisas o remorso pelo que deixamos para trás.
Enfim, o tempo é um grande sábio na cura das enfermidades da alma.
Esses dez anos fora do Brasil me pareciam um século deixado para trás.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 09, 2016 9:58 am

CAPÍTULO XX - A VOLTA
Era uma bonita tarde de verão, eu calculava com outros homens da comunidade o lucro que tivemos com a venda do azeite, do inhame, do algodão e da lã.
Foi o maior lucro dos últimos dez anos, dizia o meu irmão mais novo.
A nossa comunidade sempre foi muito unida:
o que um fazia para si, ajudava os outros a fazer também.
Pintamos todas as casas e a igreja de cal branca.
Tudo estava muito bonito, a minha casa, lá no alto, aumentada do jeito que fora, parecia ao longe um palacete para mim.
Bebíamos um vinho de banana feito por minha mulher, e que eu a ensinei a preparar; todos apreciavam a bebida com prazer, quando Miguel com outros meninos apareceram correndo:
- Papai, papai - gritava Miguel -, estão chegando duas carruagens de luxo, trazendo gente branca.
As mulheres arrastaram as crianças para dentro de casa, os homens se armaram e se colocaram a postos.
A medida que as carruagens se aproximavam devagar, percebíamos nas feições de cada um a tensão e o medo.
As carruagens pararam em frente da igreja, os cocheiros eram dois negros desconhecidos da nossa comunidade.
Um deles levantou a mão e falou em tom amigável:
- Ei! Amigos posso descer e falar com vocês?
Todos os homens se entreolharam e, de uma vez, todos assentiram com a cabeça que sim.
Ele se apresentou dizendo que fazia transportes por indicação e que as pessoas que estavam ali na carruagem vinha por indicação, especialmente para falar com Luís ou Miguel - que eram a mesma pessoa.
Estremeci. Meu Deus, o que seria agora?
Ele abriu a porta de uma carruagem, desceu um senhor branco, gordo, de cabelos e barba brancos; o senhor ajudou uma senhora de meia-idade a descer.
Vi que ela se apoiava em uma bengala, tinha os cabelos alvos e presos num coque.
Junto com eles um rapaz alto, bem alinhado e que me recordava alguém de quem eu não conseguia me lembrar bem.
Da outra carruagem desceu um rapazote, uma moça bem-vestida, tipo as sinhazinhas, com um chapéu florido na cabeça.
Atrás dela desceu outro rapaz, que quando eu vi perdi a fala: o irmão de Lucien.
Fiquei parado, engoli em seco, a moça se aproximou e, abrindo os braços, gritava cheia de alegria:
- Miguel! Miguel!
Sou eu, Lucien!
Ela agarrou-se ao meu pescoço chorando, ficamos abraçados por um tempo.
Chorando, ela me apresentou:
- Este é meu filho, este é meu irmão, que você já conhece, mas a surpresa maior está por vir.
Miguel olhe bem para esta senhora e repare se você não se lembra dela!
Meu Deus, pus a mão no coração.
Aquela senhora era a minha benfeitora, foi ela quem me comprou no mercado do sofrimento; com algum sacrifício pelo uso da bengala, ela se aproximou de mim e, abrindo os braços, disse-me:
- Miguel, me dê aquele abraço que eu sempre quis receber de você!
Esqueci-me que um dia fui o escravo Miguel, abracei-me a ela como se fosse minha mãe.
Ficamos olhando um para o outro sem dizer nada, tínhamos os olhos cheios de lágrimas.
Ela me apresentou o filho, que agora me fazia lembrar o meu senhor, o irmão dela.
Lucien continuava a meu lado, apertando a minha mão.
Dalva e toda comunidade olhava para aquela gente sem entender nada.
Convidei-os para virem sentar-se à sombra e beber água fresca.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 09, 2016 9:59 am

Chamei Dalva e os meus filhos e os apresentei a elas.
Eu estava abalado, mas vi que Dalva tremia dos pés a cabeça.
- Miguel, será que nós não vamos incomodar vocês? - perguntou Lucien.
- De forma alguma, apenas não temos o mesmo conforto a que vocês estão acostumados - respondi.
Lucien suspirou fundo e disse-me:
- Sonhei tanto com esse dia, que continuo achando que é um sonho vê-lo novamente.
Temos muitas coisas para lhe contar, algumas notícias alegres e outras tristes, mas, enfim, estamos aqui.
- Miguel - disse Lucien -, faz três meses que vim do Brasil, aconteceram muitas coisas por lá.
Graças a Deus, meu marido e meu pai agora estão livres; eles estiveram presos por três anos.
O senhor Silvério foi preso e deportado, juntamente com outros homens.
O meu cunhado, apesar de todas as acusações, conseguiu ficar livre, foi a nossa sorte.
Ele cuidou da fazenda e da nossa família, a minha tia cuidou da minha mãe e o meu tio ajudou meu irmão nos negócios do nosso pai.
Passei momentos amargos em minha vida, não tinha notícias da minha família, ficamos incomunicáveis, foi por isso que não voltamos para buscá-lo, conforme combinamos.
Eu sei que você está aflito por notícias dos seus amigos e dos seus filhos, não é mesmo?
Bem, os seus filhos continuam na fazenda, estão todos crescidos e fortes, mas o Josué e a Marcela faleceram, apesar de todos os cuidados que meu cunhado prestou a eles; foi uma febre que deu por lá.
A Nalva também faleceu, Miguel, da mesma moléstia, Ritinha cuidou de tudo.
O padre Artur foi enviado para o Brasil, ele é acusado de conspirar contra a coroa portuguesa; a organização luta para libertá-lo das acusações, só Deus sabe o que vai acontecer a ele.
Com a saída do senhor Silvério e dos outros homens da organização, parece-me que deixaram um pouco de lado a perseguição, talvez o padre seja libertado.
Recebemos a licença de poder viajar e de receber e trazer pessoas e parentes de outros países, desde que tenhamos a permissão, por isso, antes de virmos até aqui, já conseguimos a autorização para você regressar connosco ao Brasil.
A minha antiga sinhá brincava com meu filho de sete anos; chamou-me atenção dizendo:
- Ele tem a sua carinha quando chegou em nossa casa.
Olho pra ele e é o mesmo que ver você pequeno.
Ela prosseguiu falando:
- Vejo, Lucien, que Miguel é o mesmo de sempre, ele sabe espalhar felicidade por onde passa, formou uma bonita família.
Acomodamos todos nas casas dos nossos irmãos, voltei para casa acompanhado de Lucien, seu filho e seu irmão.
Dalva mantinha-se em silêncio em todo o trajecto.
Em casa tratou de fazer o melhor para as visitas, ferveu água para o banho deles, arrumou lençóis limpos, caprichou na arrumação da mesa e da comida.
Após o jantar, ela me pediu:
- Luís, leve as visitas para a sala, acredito que a moça tem muitas coisas para lhe falar.
Eu vou cuidar das crianças e arrumar a cozinha.
O rapazote, filho de Lucien e o tio foram deitar-se, estavam cansados da viagem, eu fiquei sentado com Lucien, ela numa rede e eu em outra.
O céu estrelado e a brisa da noite me traziam o passado de volta.
Lucien estava ali na minha frente, minha pequena e doce criança.
Ela me relatava pessoas, lugares, objectos e acontecimentos, eu me via em cada história por ela contada.
Já era tarde quando entramos para dormir.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 09, 2016 9:59 am

Dalva me esperava acordada e, assim que me viu, foi me perguntando:
- Eles vieram te buscar, não é mesmo?
Se fosse alguns anos atrás, eu seguia com você, mas agora temos cinco filhos, não posso levá-los nem deixá-los, Luís.
Abracei Dalva e respondi com serenidade na voz:
- Não deixaria você e os nossos filhos por nada neste mundo.
Fique tranquila, eu não vou embora com eles.
A minha vida está aqui, eu sou Luís, como você bem sabe.
O Miguel que eles buscam não está aqui, ficou lá no Brasil em cada gota e sangue dos meus pobres filhos.
Já conversei com Lucien.
Se eles desejam me ajudar, que façam alguma coisa por meus filhos e irmãos de sorte, como a Ritinha, que continua lá no cativeiro.
Dalva suspirou fundo, me abraçou e reparei que duas lágrimas desciam dos olhos dela.
Três dias depois, Lucien me abraçava com os olhos cheios de lágrimas; ela prometeu pelo menos uma vez por ano mandar notícias suas e do meu povo, e levar para o Brasil as minhas notícias também.
Além de muitas coisas, entre sementes de flores, pequenas peças esculpidas em madeira, também levou as minhas cartas, cartas que ia ditando e ela escrevendo.
Mandei para meus filhos a seguinte mensagem:
"Meus filhos, eu estou longe de vocês, fisicamente sou livre, vocês podem até pensar:
nosso pai nos abandonou, nos deixou no cativeiro.
A minha alma continua cativa pela saudade que sinto de vocês; me sinto algemado, pois nada posso fazer para libertá-los dessa cadeia humana.
Daria gota por gota do meu sangue, se pudesse salvá-los.
Só Deus nos livrará, meus filhos, desse poço de sofrimento cavado pelas mãos dos homens; somente Deus, e Nele devemos ter fé.
"No entanto, meus filhos, eu me conformo em saber que dos senhores que conheci no cativeiro, além daquele anjo que Deus levou para o céu, esse senhor a quem vocês pertence é um bom homem.
Vê vocês como gente, sei disso porque ele foi e será sempre o meu senhor, pois cada um de vocês que ele alimenta e ampara é a mim que ele está amparando.
"Eu amo vocês, quero que saibam disso, não é a liberdade que nos ensina a amar, é o coração.
Digo a vocês:
no cativeiro, sonhava com a minha terra, com o meu povo, com a minha liberdade.
Na minha terra, no meio do meu povo, com a minha carta de alforria nas mãos, sendo um homem livre, eu implorei a Deus e a nossos orixás:
daria tudo para voltar ao cativeiro e permanecer ao lado de vocês.
"O tempo passou, meus filhos, e eu me senti tão só que fiz muitas besteiras na vida, cheguei a beber a ponto de cair, mas como Deus não abandona nenhum dos seus filhos; eu conheci uma moça chamada Dalva, ela realmente lembra a estrela Dalva na beleza e no brilho do coração.
Ela me deu forças e eu me levantei, consegui superar muitas coisas."
"Temos cinco filhos, que são os seus irmãos:
Miguel, Joana, Luiza, Mário e Silvério.
Em cada um de seus irmãos eu vejo vocês.
Quem sabe um dia, mais adiante, a gente não venha a se encontrar?
Vamos rezar, eu fiquei mais de 35 anos para reencontrar o meu pai, quem sabe se ainda não nos veremos?
"Mas, se isso não acontecer, lembrem-se de que aqui vocês têm uma casa, terra para trabalhar e irmãos para ajudá-los.
Façam o melhor possível nas suas tarefas, sejam correctos, honestos e pacientes.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 09, 2016 9:59 am

Se Deus permitir e vocês adquirirem a liberdade, podem vir viver connosco, vamos esperar pela vontade de Deus.
"Ah! Não deixem de acreditar em Deus, vão à missa e também obedeçam os conselhos dos nossos guias mestres; o homem só se mantém em pé pela força que recebe de Deus.
"Jamais vou esquecê-los; cada um de vocês é uma gota do meu sangue que alimenta outros corações.
Abençoo todos vocês, vivo em cada um de vocês."
Carta que enviei para Ritinha:
"Minha querida irmã, minha companheira de sofrimentos e alegrias, como gostaria de lhe dizer isto pessoalmente!
"Ritinha, uma parte de nossa vida se foi, para viver outra história de vida, e tenho fé de que ela já faz parte de uma família livre e feliz.
Como senti a morte de Nalva!
Deus sabe como eu a estimava...
Fico imaginando como você sentiu e continua sentindo a falta dela.
Procure abrigo para sua dor nos conselhos dos nossos guias de luz.
"Depois de tanto anos, quando não acreditava mais ver ninguém do meu passado, eis que me surge a nossa boneca de louça, trazendo tantas alegrias e algumas tristezas.
"Vou contar para você em poucas palavras o que tenho feito da minha vida:
assim que cheguei, vi que nada era como antes, tudo havia mudado, as casas, o povo, e até os nossos costumes antigos.
"Encontrei novos irmãos, a minha mãe casou-se novamente - viveu o resto da sua vida acreditando que o meu pai havia morrido, como disseram a ela.
Sei que sofreu muito, pena que só pude tocar em seu túmulo, ela não pôde me esperar.
Conheci seu marido, um homem bondoso, honesto e muito justo, que ajudou a criar meus irmãos.
"Foi maravilhoso ir encontrando os parentes.
Fiquei na nossa aldeia com a promessa de seis meses depois o meu senhor passar e me levar de volta.
Mas, como nem sempre é feito conforme a nossa vontade, mas a vontade do Pai Maior, tudo mudou em meu destino.
"Juro, Ritinha, eu daria tudo, tudo e tudo para voltar ao Brasil, a minha vontade era morrer para sair do tormento que arrastava a minha alma.
"Estava livre, tinha uma família, tinha posses e me faltava tudo, me faltava vocês.
Sei que dei um bocado de trabalho aos meus irmãos, comecei a beber e a fazer besteiras, até um dia que conheci uma luz enviada por Deus para me salvar da escuridão onde estava.
"Dalva, esse é o nome dela, sei que você gostaria muito dela se pudesse conhecê-la.
É dedicada, doce e muito bela.
Eu que jamais havia me entregado ao amor de uma mulher, me entreguei de corpo e alma a ela.
Encontrei forças para viver e lutar, confesso que aos poucos fui até me distanciando das lembranças que vivi como Miguel.
Voltei a ser quem eu era: Luís Fernando.
"Temos cinco filhos:
Miguel, o meu filho mais velho com Dalva, em memória a nossa avó Joana.
Joana, a minha segunda filha, também em memória dela.
Luiza, a terceira, foi Dalva quem escolheu o nome, era o da mãe dela.
Mário, o nome do nosso senhor que sempre foi muito bom com a gente, e Silvério, um rapaz que me ajudou muito.
Ele chorou por mim, sei que foi condenado aí no Brasil.
Jamais poderei esquecer a sua imagem forte e serena, em sua pele clara ele via os negros da sua cor.
"Tenho uma boa casa, animais, terras onde planto e colho todos os anos.
Hoje, minha querida irmã, apesar do meu coração estar dividido ao meio, eu não posso partir deixando para trás aqueles que são pedaços de mim.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 10, 2016 10:10 am

"Lucien me prometeu pelo menos uma vez por ano trazer e levar notícias.
Continue vivendo, Ritinha, lute pela sua felicidade, continuamos juntos nos pensamentos e nos corações.
"Por favor, peça permissão ao nosso senhor para que todos os meus filhos escutem o que escrevi a eles.
Lucien me prometeu que vai ler as cartas para vocês.
Guardem essas cartas, um dia elas poderão ajudar meus netos, bisnetos, tataranetos e adiante.
Aqui eu vou lutar muito, quero juntar alguma coisa para deixar para os meus filhos e seus filhos.
Quem sabe no dia em que for dada a liberdade para todos os escravos, muitos dos meus parentes não possam vir para cá?
E, vindo para cá, eles vão ter onde plantar, morar e viver em paz.
"Com o coração ardendo de saudades eu mando lembranças aos meus irmãos de cor.
Ficarei olhando as estrelas se cruzarem no céu e imaginando que elas estão indo para o Brasil.
As noites daqui são parecidas com as do Brasil, os vaga-lumes passam pela gente, mas nossos olhos vão mais longe.
"De qualquer forma, Ritinha, quero que saiba que estou bem, muito bem, tenho os meus momentos de tristeza, mas também momentos de muitas alegrias.
"Deus abençoe você, receba um forte abraço desse irmão que te quer muito bem.
"Ah! Não deixe de cuidar do túmulo da vovó Joana e do meu pai.
Deus te recompense por isso."
A minha antiga sinhá, tão bondosa como sempre, fez questão de presentear Dalva e meus filhos; nos abraçamos com os olhos cheios de lágrimas, senti naquele momento que jamais tornaria a vê-la; no seu abraço, senti um adeus.
Eles partiram e eu fiquei com um aperto no coração.
Pensava:
"Será que as minhas cartas chegariam até o Brasil?"
Que felicidade, Deus.
Só de pensar que os meus filhos saberiam de mim aliviava a minha alma do remorso.
Eu precisava andar um pouco, chamei o meu filho Miguel e disse-lhe:
- Avise sua mãe que vou até o cemitério olhar o túmulo da minha mãe - e assim fiz.
Sentei-me lá num cantinho e fiquei pensando na vida:
"Meu Deus! Um homem precisa ser muito forte para resistir a tantas coisas nesta vida".
Me lembrava das palavras da avó Joana:
"Filho, é o espírito que anima o corpo a viver, nós não suportaríamos viver sendo castigados, humilhados, desprezados se não houvesse a força do espírito sobre nós, por isso jamais desanime de andar".
"Com todo o sofrimento e toda a provação que tivermos de enfrentar nesta vida, temos de alimentar bem nosso espírito com muitas orações, a fim de fortalecer e preparar o corpo físico para a luta do dia-a-dia."
Eu tentei me afastar do passado, tentei esquecer aqueles que ficaram para trás, mas a própria vida me trazia de volta todas as lembranças, e as lembranças agora me enchiam de saudades.
Eu não queria admitir, mas no fundo, se pudesse, iria correndo para o Brasil me entregar à vida como Miguel.
Lembrava-me do sonho que tive com a minha avó Joana, eu agora era um pássaro, precisava ficar no ninho, alimentando e protegendo os meus filhotes e sua mãe.
Se essa era a vontade de Deus, que fosse feita a Sua vontade e não a minha.
Levantei-me, ajoelhei-me na cova da minha mãe e do meu avô, pedi perdão em pensamentos a eles dois.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 10, 2016 10:10 am

Pensei comigo:
"Um homem não pode e não deve correr atrás dos mortos nas horas que precisa resolver seus próprios problemas; eles tiveram tantos ou mais problemas do que eu".
Voltei mais tranquilo para casa, meus filhos brincavam correndo em volta da nossa casa e Dalva costurava nossas roupas; fiquei observando de longe e prometi:
"Eles merecem ser felizes e eu tenho obrigação de fazer isso por eles".
Fui até onde estava Dalva, abracei-a sorrindo; logo meus filhos estavam pulando à minha volta, todos falando de uma só vez.
Ali estava a minha vida, ao lado deles terminaria meus dias.
Dalva me olhou preocupada e perguntou:
- Está tudo bem, Luís?
- Sim, está tudo bem, Dalva.
A nossa vida continua, você é o meu presente, e como dizem nossos guias:
"Devemos amar e valorizar o nosso presente, pois ele é a certeza do que já passamos pelo passado; é o nosso presente que nos estimula para um amanhã melhor".
Assim continuamos nossa conversa, falamos dos amigos que se foram, da esperança de voltar a reencontrá-los e receber notícias dos meus filhos brasileiros.
Já escurecia, os garotos foram se banhar a mando da mãe, e ela levantou-se, dizendo:
- Vou preparar nossa comida, você também se banhe para vir comer e descansar.
Nesses últimos dias, você não tem parado um minuto, Luís.
Fiquei sentado observando o crepúsculo.
A primeira estrela apareceu no céu, fechei os olhos e fiquei relembrando os tempos na fazenda do senhor, via a imagem de avó Joana chegando da mata, enquanto eu arrumava os arreios dos animais ou preparava as minhas ferramentas. Lembrei-me de quando estive na fazenda do pai adoptivo de Lucien, enquanto eu rachava angico aquela estrela vinha brilhando com os últimos raios do sol.
Os anos haviam se passado tão depressa!
Eu já estava ficando velho e cansado.
Os meus amigos estavam morrendo...
Nalva havia morrido, uma criatura iluminada e bondosa, foi mais que uma irmã para mim me ajudou tanto, tanto.
Ela teve um filho meu, aquele gerado sob o chicote do senhor que me deu liberdade e que me ajudou a voltar para casa...
Como essa vida era misteriosa, meu bom senhor de hoje foi o meu maior algoz do passado.
"Pois é... o diabo de ontem poderá ser o anjo de amanhã", assim diziam nossos guias mestres.
Eu podia atestar isso como sendo verdadeiro, pois aquele senhor que me tornou um ser infeliz, agora trocava a sua vida pela minha felicidade.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 10, 2016 10:10 am

Capítulo XXI - ALEGRIA
Já fazia mais de dez meses desde que Lucien tinha ido embora levando minhas cartas.
As estradas já estavam secando, fazíamos as nossas farinhadas.
Era tempo de festas - no inverno ficávamos tão isolados que me fazia lembrar pássaros no ninho chocando.
Abria o sol, começavam secar as estradas e homens, mulheres e crianças queriam se divertir, brincar em todos os dias livres e nas noites enluaradas.
Era um domingo ensolarado, estávamos reunidos na frente da igreja comendo nossos bolos e beijus de mandioca e bebendo nossa aguardente de cana quando os garotos que brincavam nos arredores voltaram correndo e ofegantes.
- Está chegando uma carroça de aluguer!
Paramos nossa brincadeira e nos preparamos para receber quem quer que fosse que estivesse chegando.
Fiquei curioso e ao mesmo tempo tenso, imaginando se não era Lucien ou outra pessoa da parte dela.
A carroça parou e vimos descer um homem vestido com simplicidade, barba grisalha e comprida, chapéu preto na cabeça e um pequeno baú na mão.
Aproximou-se mais de nós e falou alto:
- Não me reconhecem mais?
- Meu Deus!
É o padre - gritaram as mulheres.
Os homens, tanto quanto eu, estávamos surpresos com a aparência do nosso antigo padre; seria ele mesmo?
Demonstrando cansaço, ele sentou-se no chão, tirou o chapéu, colocando-o à altura do coração e, reparando em direcção da pequena capela, disse em voz alta:
- A casa do meu Pai está mais bonita do que quando a deixei!
Meus irmãos em Cristo, muito obrigado por terem zelado pelo santuário do nosso Pai.
Se vocês me deixarem ficar aqui, eu volto a zelar por ela e por vocês em nome Dele.
Vocês não imaginam como sonhei com este dia.
Na prisão, perdi toda e qualquer esperança de tornar a vê-los, e no entanto, pela vontade do Pai eu estou aqui...
Sim, eu estou aqui, obrigado Deus, obrigado meus irmãos.
Recebemos o nosso padre com todo carinho e respeito, pois ele sempre respeitou nossas leis e costumes religiosos.
Ele nunca disse a ninguém: a sua fé está errada!
A nós, ele dizia:
"Deus é Pai em qualquer lugar.
O que diferencia nossos louvores a Deus é apenas a nossa cultura".
Ele nos revelou toda sua agonia, a morte dos seus companheiros, as traições que sofreram entre eles.
Me fez lembrar que no nosso meio também os negros traíam os outros negros.
O branco não era diferente, também traía seu irmão.
Nos mostrou algumas cicatrizes espalhadas pelo corpo, que o Brasil parecia estar em guerra a qualquer momento.
Explodiria uma catástrofe.
Falou-nos da situação em que viviam os escravos, brigas, lutas e muitas fugas entre eles.
Eles começavam a se libertar sem a carta de alforria, fugiam em grupo e fundavam quilombos espalhados aqui e ali.
Os senhores estavam perdendo o controle da situação, existiam fazendas inteiras que eram povoadas por irmãos, ou seja:
quase todos os filhos eram do mesmo pai (o reprodutor); eles estavam se rebelando e os senhores perdendo força, a população negra ultrapassava a branca.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 10, 2016 10:11 am

O Brasil estava oferecendo vantagens e mais vantagens a qualquer estrangeiro branco que desejasse tentar a sorte.
Os pais negociavam casamento para seus filhos com as moças estrangeiras.
O comércio de escravos diminuiu, e os brancos perdiam forças.
Havia organizações secretas em que brancos e negros libertos se reuniam para negociar a vida dos escravos.
O movimento crescia dia a dia, as autoridades estavam perdendo o controle, os negros avançavam; na previsão do padre, a escravidão estava com seus dias contados.
Virando-se para mim, disse:
- Luís, eu fui ajudado por seus antigos senhores.
Esses senhores, que hoje são os braços fortes do movimento de libertação dos escravos.
Assim que fui absolvido, já embarquei imediatamente, não para fugir e me esconder, mas fazer o intercâmbio entre os negros e brancos nesse movimento de libertação.
Como dizem os deuses de vocês, eu devo ter sangue de negro, não descansarei um só minuto de lutar por igualdade e justiça entre os homens.
Não vejo um Deus branco e outro Deus negro, vejo apenas um Deus para todos nós.
Não pude trazer cartas escritas para você, Luís, mas sou uma carta falada.
Eu não poderia sair deixando suspeitas sobre o meu paradeiro até aqui junto a vocês.
Muitas coisas mudaram por lá, a fazenda já não está produzindo tanto como no seu tempo.
Os escravos foram reduzidos, ou seja:
foram morrendo, envelhecendo e não podendo mais trabalhar; não houve reposição.
Todos seus filhos continuam lá, servindo aos senhores; para alguns deles os senhores arrumaram casamentos, e disse-me Ritinha que você já é avô, por parte do seu filho com Nalva.
- Como está Ritinha? - perguntei.
- Me pareceu bem, uma senhora franzina que começa a pintar os cabelos de branco.
Ela me disse que guarda suas cartas a sete chaves, mas que todos os dias toca nelas e reza por você.
Os seus filhos todos ouviram as suas palavras, todos eles se orgulham de você.
Se orgulham de saber que o pai é um homem livre, um homem que soube viver e lutar; você é um herói para eles.
Ritinha também mandou lhe dizer que ela cuida do cemitério onde repousam os seus.
Disse-me que, nas noites de lua clara, fica sentada embaixo daquela palmeira, olhando para as estrelas no céu e observando os vaga-lumes que passam por perto dela e pensa em você.
- Agora, vamos aos recados de Lucien:
ela lhe prometeu que faria todo o possível para não perder o contacto com você, mas as coisas não são como a gente quer.
O filho dela, aquele garoto forte e inteligente que você chegou a conhecer, caiu tuberculoso.
Ela trata dele dia e noite, nesses dois anos foi impossível ela viajar até a França.
Mas vamos fazer o possível para não perdermos o contacto, mesmo que demore um pouco para as notícias chegarem.
Ela está bem, só muito preocupada com o filho, e o pai dela, o seu antigo senhor, agora faz morada definitiva no Brasil.
Disse já estar velho e cansado e por isso não aguenta mais fazer essas viagens longas.
Mandou muitas lembranças e também um presente que está guardado no meu baú.
Aliás, me arrisquei, mas trouxe os presentes que Lucien, Ritinha e o senhor lhe mandaram.
Puxou o baú e abriu; na sua lateral havia um estojo de veludo vermelho que jamais sonhei ter em mãos e mais dois embrulhos.
- Pode abrir - disse o padre.
O estojo vermelho continha uma navalha talhada em ouro e prata.
Era do meu antigo senhor, fiquei pasmo, pois eu conhecia aquela peça.
O padre, então, disse:
- Ele disse já não fazer mais barba, agora tem a barba longa e branca então resolveu dar a você de presente.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 10, 2016 10:11 am

Lucien enviou-me uma camisa toda feita e bordada à mão, uma relíquia.
Ritinha me enviou um punhado de sementes de cravos e flores variadas que eu espalhei por nossa aldeia; até os dias de hoje as sementes enviadas por ela enfeitam e embelezam a nossa terra, alimentam pássaros, borboletas e abelhas. Mandou-me também uns panos bordados a ponto-cruz representando os frutos, pássaros e flores.
Fiquei alegre por receber tantas coisas boas, e a notícia de ser avô!
Só fiquei triste por saber da situação do filho de Lucien.
O padre reassumiu a vida na igreja, nós ganhamos com a sua volta, pois ele nos ensinava muitas coisas novas a respeito do cultivo da terra.
Falava de suas experiências com Deus e nos animava com suas palavras de esperança.
Andava incansavelmente pelas redondezas instruindo e incentivando nosso povo.
Desde que retornou, todos os sábados ele ia assistir a nossos trabalhos, era um orgulho para nós.
E aos domingos íamos assistir à sua missa; do mais velho ao mais novo da aldeia tinha um compromisso marcado no domingo: a missa.
Assim passaram-se três anos:
recebi notícias do Brasil duas vezes nesse período.
Meus filhos crescidos, Miguel estava um rapazinho, Joana já despontava como um botão de rosa entre menina e moça.
Enterrei mais dois membros da minha família, mas o consolo sempre vinha com as palavras dos guias e do nosso padre - esse me parecia muito cansado.
Nos últimos dias notei que ele andava arquejando, preparei-lhe algumas ervas e recomendei que ele tomasse direitinho, mas não vi muita melhora.
Como tudo o que está escrito por Deus, nós não podemos apagar, dois meses depois o nosso padre caiu de cama e não se levantou mais.
Fizemos de tudo por ele, mas não adiantou.
Ele foi escolhido por Deus e nós choramos muito a sua falta.
Com a morte do padre, o contacto com o mundo exterior acabou para nós.
Entrava o inverno e vinha o verão e nunca mais recebi notícias daqueles que faziam parte da minha vida.
Miguel casou-se, construiu uma casa perto da nossa; Joana e Luiza também casaram-se e foram morar em outra aldeia, vizinha à nossa.
Mário se preparava para casar e Silvério era quem cuidava de tudo; ele sempre teve muito jeito para tocar os negócios.
Eu passava a maior parte do dia andando entre o pomar e a horta, preparava alguns remédios para os doentes e andava devagar, as forças já não me ajudavam a fazer esforços físicos.
Os cabelos estavam quase todos brancos, deixei a barba também crescer, mas ainda guardava como uma relíquia o estojo vermelho com a navalha, presente do meu senhor, e a camisa bordada à mão que ganhei de Lucien.
As flores de Ritinha, como ficou conhecida entre nós, cobriam toda a aldeia.
Eu me orgulhava de tudo isso.
Um dia eu enfeitei e enriqueci a nossa aldeia com os frutos do dendê, agora a nossa aldeia se enfeitava com as flores de Ritinha.
Como eu gostaria de mandar dizer isso a ela.
Ela ficou famosa em nossa aldeia, as mais lindas flores da aldeia eram as flores de Ritinha.
Nasceu o meu primeiro neto, filho de Miguel.
Dalva, toda orgulhosa, o colocava em meus braços e dizia:
- Olha, Luís, que menino lindo!
Não parece o nosso Miguel quando nasceu?
Eu olhava para meu neto e não podia conter as lágrimas; pensava em quantos netos eu devia ter sem poder tocar, nem mesmo vê-los.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 10, 2016 10:11 am

Dalva, entendendo o que se passava comigo, bateu nas minhas costas e disse-me:
- Não chore, Luís, Deus lhe deu este para você abraçar.
E dentro do seu coração ame a todos aqueles que estão longe...
Os dias e as noites pareciam longos demais para mim, já não sonhava como antes.
Dificilmente descia o morro para festejar com a nossa comunidade - as festas que continuavam sendo feitas segundo nossos costumes.
As pernas já não ajudavam.
Quando ia à praça da igreja era sempre montado numa mula.
A igreja agora era cuidada por nossas mulheres, elas rezavam seus rosários, faziam suas penitências, continuava sendo um lugar sagrado, tanto quanto o terreiro dos nossos orixás.
Eu fiz as contas, já haviam se passado mais de trinta anos que tinha deixado o Brasil, com certeza eu já tinha sido esquecido por todos.
Será que a fazenda ainda pertencia aos senhores?
Será que meus filhos e meus netos foram vendidos?
Será que Ritinha ainda vivia?
Quem me dera pelo menos sonhar com ela.
Se estivesse viva deveria estar como eu, velha de cabelos brancos e cansada.
Engraçado, eu não conseguia imaginá-la velha, guardava a fisionomia dela como moça.
Silvério também casou-se, cada um dos meus filhos homens fez a sua casa perto de mim; eu falei para Dalva:
- Pois é, minha amada, estamos novamente os dois sozinhos, do jeito que começamos a nossa vida.
Dalva apertou a minha mão e respondeu-me:
- Nós somos felizes, e quem é feliz resiste e supera a tudo.
Vamos superar a falta dos nossos filhos vivendo um para o outro.
No ano seguinte, uma noite em pleno inverno, Dalva acordou com febre alta, dor de cabeça e tonturas.
Corri a lhe preparar um chá com erva e raízes apropriadas para tal fim.
A febre baixou, ela dormiu um pouco eu me aquietei dando graças a Deus.
Só de pensar que pudesse acontecer alguma coisa a ela, doía por dentro; pedi a Deus de todo o meu coração:
- Senhor, por favor não tire a Dalva antes de mim, me leve primeiro.
Eu suportei tudo nesta vida, fiquei longe daqueles a quem amei e resisti por causa dela, mas sem ela eu não iria suportar viver.
Horas mais tarde, ela acordou delirando, a febre tinha voltado mais alta.
Passei o resto da noite pelejando com ela.
Nossos filhos chegaram, toda comunidade veio nos ajudar, nossos guias cuidavam dela e de mim.
Eu chorava debruçado na cama, não queria comer, não queria nada, eu precisava salvar a minha vida, que era a Dalva.
"Deus não pode fazer isto comigo", explodi em voz alta.
Os meus filhos me amparavam, me animavam pedindo calma e fé.
Assim lutamos com a doença oito dias e, por fim, a morte venceu.
Dalva faleceu ali na minha frente sem que eu pudesse fazer nada!
Nem sei dizer como me senti naquele dia, até hoje não encontrei palavras que pudesse descrever meus sentimentos de tristeza e desespero.
- Deus levou a minha alma, o meu coração, por que não me levou de vez?
O que sobrou de mim foi apenas a consciência do que ainda estava num corpo vivo que não queria viver.
Eu não tinha mais vontade de nada, tudo o que eu queria era morrer e acabar de vez com todo o sofrimento chamado vida.
Tentava rezar, mas uma dor invadia a minha alma.
Deus não tinha misericórdia de mim, superei todas as perdas e injustiças da minha vida, mas perder Dalva foi a maior de todas elas.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 10, 2016 10:11 am

E assim, vivendo por viver, todos os dias ia ao cemitério e ficava lá horas e horas olhando o vazio e ouvindo apenas o eco do vento.
Passou-se um ano desde a morte da Dalva.
Uma tarde eu estava sentado na minha rede, meu filho, minha nora e os dois netos tentavam me alegrar com suas brincadeiras.
O meu neto mais velho gritou:
- Olha pai, olha vô, tá chegando um povo!
O meu filho virou-se e disse:
- É verdade, pai, ainda estão longe, mas dá para ver.
São dois homens brancos e três negros.
- Eu não estou gostando nada dessa história de brancos estarem vindo tanto aqui na nossa aldeia, toda semana agora é isto!
Falam que vêm comprar nossos tecidos, eu não sei não... - comentou a minha nora, desconfiada.
- Ora, Lúcia, vamos esperar para ver o que eles querem - Respondeu meu filho.
Ficamos em silêncio, eu já não enxergava de longe, minha vista estava fraca.
Meu neto correu e entrou na rede, ficando abraçado comigo.
Os homens chegaram e deram boa tarde; um deles perguntou ao meu filho:
- O senhor Miguel, está?
Meu filho respondeu:
- Eu sou Miguel.
- Perdão, eu queria dizer, o senhor Luís Fernando - disse o homem branco.
- Luís Fernando é o meu pai, esse senhor que está na rede - disse o meu filho Miguel.
- Bem, Miguel, o que me trouxe até aqui são questões de família.
Faz uma semana que cheguei do Brasil, sou o filho de Lucien e esse é o meu tio.
Conhecemos o seu pai quando éramos muito jovens, mas ainda me recordo de alguma coisa em suas feições.
Como se uma força misteriosa tomasse conta de mim, me ergui de uma vez!
- Meu Deus, o filho de Lucien está aqui?
Ela está bem? Onde ela está?
O moço aproximou-se de mim e me abraçou dizendo:
- Minha mãe está bem, ficou no Brasil.
Acho que depois da morte de Dalva foi a primeira vez que sorri.
Olhando para o irmão de Lucien, me recordei do casaco que ele me deu.
Ele me abraçou sorrindo.
Olhei para aqueles três negros e senti um aperto no coração.
Quem seriam?
Eles me lembravam rostos conhecidos e queridos.
- Eu trouxe uma surpresa para o senhor, mas não é para ficar emocionado demais.
Pegou um copo de água que a minha nora ofereceu a ele e deu-me para beber.
- Não precisa ficar nervoso, esses três rapazes aí são seus filhos.
Não precisei perguntar nada, o coração de pai não se engana, abracei meus três filhos de uma vez, chorei com tamanha alegria, que somente quem passa por um momento desses pode entender o que é chorar de alegria.
Eles choravam agarrados a mim.
Quando nos separamos, eu sentei na rede e eles se ajoelharam perto de mim.
Eu olhava o rosto de cada um deles, meus filhos, meus filhos...
- Miguel, meu filho, abrace seus irmãos.
Tome a bênção dos seus tios - gritei para o meu neto.
Chamem os outros! - gritava para a minha nora.
- Os meus filhos estão aqui!
Os meus filhos estão aqui!
Eu não parava de gritar em voz alta.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 10, 2016 10:12 am

- Pai - chamou-me um deles - o senhor nem perguntou os nossos nomes!
- É verdade, filho, estou tão emocionado que nem me lembrei de perguntar o nome de vocês.
Apontando para um, ele disse:
- Esse é o Pedro, filho de Nara; Carlos, o filho de Macu; e eu sou João, o filho de Nalva.
Pai, de cada um dos seus filhos e dos seus netos eu trouxe um recado.
Nós três ganhamos liberdade, pai!
Somos homens livres.
Trabalhando e recebendo ajuda dos amigos das organizações que ajudam a libertar os escravos, já conseguimos carta de alforria para dez dos nossos irmãos.
- Nossos filhos, pai, já nascem livres.
Em breve nós vamos estar com toda a nossa família junta.
Hoje, os que continuam na fazenda do senhor, vivem praticamente em liberdade.
Trabalham para ele, mas são bem tratados e respeitados.
Passam todos os domingos connosco, eles e seus filhos.
As minhas horas, que eram tão demoradas, agora voavam, corriam, já anoitecia e eu não queria largar meus filhos.
Eu precisava saber de tudo e, em poucas horas, já sabia o que eles faziam.
Um era ferreiro, trabalhava para o senhor, o outro era capataz da fazenda do senhor, o outro era vaqueiro do senhor - enfim, eles eram livres, embora todos trabalhassem para o senhor.
A tia Rita, como eles a chamavam, também estava livre.
Fizeram uma casinha para ela no alto da colina que ela gostava; ela criava galinhas, porcos, cabra e fazia doces e salgados.
As sinhazinhas compravam tudo o que ela fazia, por isso a tia Rita tinha de tudo.
Estava de cabelos brancos, mas andava bastante e tinha boa saúde.
O filho de Lucien me disse que ela e o marido eram os novos donos da fazenda.
Ele e a esposa ficavam mais na cidade do que na fazenda, Lucien cobrava muito a sua presença diante dos negócios, mas ele tinha um compromisso de honra com o "Tratado de libertação" e trabalhava na organização, na qual ocupava um alto posto.
À noite, minha casa estava cheia.
Eram filhos, noras, genros, netos, sobrinhos, amigos, todos queriam ver de perto os meus filhos brasileiros.
Os irmãos se abraçavam, se emocionavam, nunca pensei que o sangue tivesse uma força tão grande.
Observando o encontro dos meus filhos descobri isso, mesmo os irmãos de mães diferentes e criados separados, quando se encontram o sangue flui em suas veias.
"Ah! Deus", pensei, "se a Dalva estivesse aqui, como ficaria contente de conhecer os meus filhos e ver a alegria dos irmãos se abraçando pela primeira vez".
No outro dia, meus filhos andaram pelos arredores; os irmãos levaram-nos para conhecer todas as nossas terras, mostraram o local onde eu e o avô deles fomos capturados.
Eles ficaram emocionados ao ver o pilão que meu pai não chegou a fazer, mas deixou o tronco no chão.
O tempo voava para nós, fui com eles até o cemitério onde descansavam nossos parentes mortos, mostrei a eles a cova da minha mãe, do meu avô, irmãos, tios, e por fim, chorando, mostrei onde tinha enterrado Dalva.
- Foi ela, meus filhos, que me ajudou a viver, estou aqui porque recebi dela muita força, e muita luz para caminhar.
Ela foi, é e será para todo o sempre o grande amor da minha vida.
Ela é a minha estrela Dalva.
Meu filho com Nalva ajoelhou-se na cova de Dalva e falou em voz alta:
- Não te conheci em pessoa, mas posso te sentir no coração, é só olhar para o meu pai, para saber quem foi a senhora na vida dele.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 10, 2016 10:12 am

Muito obrigado pela felicidade que deu ao nosso pai, graças à senhora encontramos um homem lúcido, amoroso, que ainda consegue chorar por amor.
Como disse a tia Rita, os anjos descem e sobem em qualquer lugar.
O meu pai encontrou anjos na infância, anjos na juventude, anjos por toda parte por onde passou, mas o anjo no qual ele abriu o coração como homem foi com a senhora, Deus a tenha sempre na luz.
Fiquei orgulhoso de ouvir as palavras do meu filho.
Ele tinha puxado a Nalva, ela era sábia, bondosa e amiga.
Os outros dois tocaram as pontas dos dedos no chão da cova e se benzeram em sinal de respeito.
À noite, em volta da mesa que meu pai havia talhado, nós admirávamos a peça.
O filho de Lucien falou:
- Bem, Miguel - perdão, Luís -, é que a minha mãe só te chama de Miguel!
Ligo você a Miguel e nunca a Luís.
Viemos até aqui com um propósito:
gostaríamos de levá-lo para o Brasil a fim de dar um passeio, conhecer os seus filhos, conhecer os seus netos e matar as saudades dos seus amigos.
Pensávamos encontrar a sua esposa ainda viva, já havíamos planeado levá-la também, mas infelizmente ela já não está mais aqui, então vamos levar o senhor!
O percurso está mais curto, hoje levamos a metade do tempo para chegarmos ao Brasil.
O navio bem equipado oferece toda a segurança e todo o conforto.
As coisas por lá avançaram tanto que o senhor não vai reconhecer mais é nada!
A população aumentou demais, têm gente de várias partes do mundo casas construídas com todo o rigor.
O luxo e o conforto já fazem parte do modo de vida brasileiro.
Eu balancei a cabeça negativamente e disse:
- Meus filhos, o que vou fazer no Brasil?
Estou velho, não consigo mais caminhar como antes, vou ficar aqui esperando Deus me chamar para o lado dos meus que já se foram.
Vou morrer feliz.
Conheci os meus filhos, sei que os outros filhos estão se encaminhando para a liberdade; se morresse hoje iria feliz, muito feliz.
- Pai, o senhor pode ir connosco sem medo, as coisas mudaram muito, já não precisamos esperar anos a fio para obter uma licença.
As investigações secretas acabaram, o Brasil tem um tratado de paz com Portugal e abriu as portas para a França.
Semanalmente vão e vêm navios lotados de estudantes, turistas e comerciantes da França directamente para o Brasil, já não é preciso dar toda aquela volta às cidades de Portugal.
Os meus filhos angolanos, os meus irmãos e amigos me convenceram seguir viagem com os meus filhos brasileiros.
Ao mesmo tempo que temia ir, o coração parecia gritar dentro de mim:
"Vai! Vai!"
Recomendando isso e aquilo aos meus filhos, arrumei o meu baú, coloquei a minha camisa bordada na mala - ela já não me servia, pois engordei, mas levava para mostrar a Lucien.
Peguei a minha navalha e examinei-a nas mãos.
Num instinto, raspei a minha barba branca.
Quando Miguel entrou e me viu, soltou um assobio de espanto:
- Pai, o senhor remoçou dez anos!
Todos me elogiavam, eu me animei em ir com eles.
Colocamos os nossos baús de viagem, eu carregava os rostos de toda a família talhada em madeira, o meu filho Mário puxou ao meu pai, era artista em talhar qualquer obra em madeira.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 10, 2016 10:12 am

Ele fez um quadro no qual eu ficava no meio, e todos os meus filhos em volta, até o próprio rosto dele, ele talhou com perfeição.
Eu embrulhei e levava para mostrar aos outros como era cada um dos meus filhos.
Levava sementes de algumas plantações novas, tal como flor de beijos dobrados e tecidos coloridos, feitos pelas mulheres da nossa comunidade.
Abracei meus filhos, meus netos, olhei tudo à minha volta:
era uma despedida, eu saía por livre e espontânea vontade, já não era um menino amedrontado.
Cruzaria novamente o oceano, pisaria novamente no solo brasileiro; ia tocar a cova da avó Joana, ver o túmulo de Nalva, abraçar Ritinha.
O trotar das mulas pela estrada me lembrava o dia em que eu e meu pai fomos colocados em carroças diferentes; eu, amedrontado, não sabia o que estava acontecendo - meu pobre pai, desde o primeiro minuto já sabia qual seria o nosso destino.
Ele com certeza sofreu mais do que eu naquele dia.
O filho de Lucien, batendo na palma da minha mão, disse sorrindo:
- Alegria, meu velho!
Pense que daqui a alguns dias o senhor estará debaixo daquela palmeira:
a palmeira de Miguel, como é conhecida, vendo os vaga-lumes brincando de noite e as estrelas cruzando o céu do Brasil para a África.
É assim que a minha mãe nos fala do seu romantismo.
A minha mãe já preparou um quarto para o senhor na nossa casa, mas acho que vai dar briga, sei que outra pessoa também preparou um quarto na casa dela para o senhor, a tia Rita!
João entrou na conversa:
- E na nossa casa o senhor tem um cantinho preparado, mas não se preocupe, pai, o senhor vai ter tempo para ficar com todos nós.
A viagem foi óptima, eu era tratado como se fosse um fidalgo.
Os meus filhos também eram bem tratados, comiam e bebiam junto aos senhores brancos.
Realmente as coisas mudaram, pensava eu, observando eles bebendo, rindo e conversando amigavelmente.
Chegamos ao porto e já tinha uma embarcação à nossa espera.
Fomos levados até a beira-mar com nossas coisas.
Entramos numa carruagem de luxo, eu fiquei espantado, e perguntei ao meu filho João:
- Que lugar é esse, filho?
- O senhor já passou por aqui, não reconhece mais nada?
- Não, filho, não reconheço nada neste lugar.
Eram casas e mais casas, cada uma mais bonita que a outra.
Gente andando de lá para cá, carruagens cruzando de um lado a outro.
Paramos em frente de um portão todo branco.
Olhei de um lado para o outro e reconheci a montanha...
Então era a fazenda onde passei toda a minha vida como Miguel.
Estava diferente, até as árvores eram outras.
Chegando mais perto, reconheci a minha palmeira, ela se balançava ao vento, como se estivesse a me dar boas-vindas.
Olhei para o lado onde ficava o cemitério, agora era um lençol verde, o jardim da casa grande estava coberto de flores, o perfume se espalhava no ar.
Avistei muita gente em frente da casa, minhas vistas cansadas já não permitiam enxergar de longe.
Ao parar as duas carruagens, meus filhos desceram, depois os senhores e, por fim, eu.
Ainda inibido, fui ajudado por meus filhos a descer da carruagem, olhei para um lado e para o outro - estava cercado de gente por toda parte.
Reconheci Lucien.
Com os olhos cheios de lágrimas ela me abraçou, o marido dela, o senhor que empregava e cuidava de todos os meus filhos e netos, estendeu-me a mão dizendo:
- Bem-vindo, Miguel, esta casa é sua.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 11, 2016 11:19 am

Lucien, segurando minha mão, apontou-me:
- Aí estão seus filhos, netos, noras e genros.
São tantos que você precisa sentar-se para não se cansar.
Mas antes de tudo tem uma pessoa aqui presente que espera o seu abraço.
O meu coração saltou de alegria:
era Ritinha, eu a reconheci logo, seus olhos eram os mesmos.
Nos abraçamos e ficamos chorando um tempo.
Agora era a vez de abraçar meus filhos e meus netos.
Foi uma tarde cheia de emoções e de surpresas.
Ritinha pegou o meu baú e chamou meu filho João, dizendo:
- Pode pedir licença à sinhá Lucien e prepare uma mula para levar Miguel até a nossa casa.
É lá que ele deve ficar; desde criança sempre ficamos juntos, não seria justo nos separarmos agora que ficamos velhos, não é mesmo, Miguel?
Aquele nome soava tão bem dentro de mim; parecia que nunca tinha saído dali.
Estava em casa, o cheiro da tarde, o céu avermelhado, o vento forte, tudo me era familiar.
Eu também quis ficar com Ritinha.
Montado numa mula atravessei o lençol verde que encobria o cemitério dos escravos.
Paramos lá em frente e Ritinha disse-me:
- Está tudo muito limpo e bonito, temos uma capela dentro do cemitério, a sinhá e o senhor mandaram construir para os nossos antepassados.
Senti o cheiro das ervas e uma grande saudade do meu pai e daquela que foi um anjo na minha vida: avó Joana.
- Hoje já está tarde, mas amanhã você vai estar mais descansado e a gente pode vir até aqui com bastante calma.
- Não precisa se apressar mais para nada, eu é que preciso ter certeza de que não estou sonhando.
Na casa de Ritinha, me senti plenamente à vontade.
Estirei-me no colchão de folhas de bananeira seca e ela me trouxe um preparado para tirar dor e cansaço das pernas.
Como dois irmãos, ficamos conversando noite adentro; os galos já cantavam quando ela me disse:
- Tente dormir e não se apresse em acordar amanhã.
Vamos ter todo o tempo do mundo para continuar a nossa conversa.
Demorei um pouco a dormir, fiquei ouvindo os galos cantarem, as corujas se comunicavam com seus cantos tristes.
Vencido pelo cansaço, acabei dormindo.
Logo estava sonhando que encontrava meu pai; ele estava muito bem disposto, vinha ao meu encontro sorridente e me dizia:
- Filho, você não pode reclamar de sua sorte.
Se há homens felizes neste mundo, você é um deles.
Então, filho, achou muita diferença no lugar?
Eu e sua mãe estamos muito felizes por você.
Eu perguntei a ele:
- Onde está minha mãe?
Eu preciso vê-la!
Ele me apontava uma moça meiga, com um sorriso franco.
Ela abria os braços para mim e dizia-me:
- Luís, meu filho, que alegria poder abraçá-lo.
Meu pai me chamou, e quando eu me virei, lá estava ela!
A minha querida, a minha vida, o meu amor: Dalva...
Ela me abraçava, eu a beijava e perguntava:
- Dalva, por que você me deixou sozinho?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 11, 2016 11:19 am

- Eu não deixei você, Luís, é por isso que eu estou aqui.
Continuo te amando como sempre te amei.
Estou muito feliz por você; a sua felicidade é minha alegria.
Aproveite todos os momentos de sua vida e fique ao lado dos seus filhos brasileiros, assim como você ficou ao lado dos nossos filhos angolanos.
Não se preocupe, nossos filhos estão bem, muito bem, você sabe disso.
Meu amor, eu gostaria de ficar muito mais com você, mas não posso ser egoísta, tem outras pessoas que querem te ver.
Eu me agarrei a ela, implorando:
- Dalva, por favor, fique, não me deixe!
Ela me beijou no rosto e foi se afastando com um sorriso doce.
Estava desesperado, mas ouvi uma voz terna e muito conhecida que me chamava por Miguel, era avó Joana.
- Miguel, meu filho, não seja ingrato para com Deus!
Repare, filho, que presente maravilhoso você acaba de receber Dele.
Voltou para a terra que viu o seu coração de homem crescer.
Está no meio dos seus filhos, ao lado da menina que lhe transmitiu esperança: Ritinha.
Encontrou-se com o seu pai e com a sua mulher, tudo isso, Miguel, é motivo para agradecer, e não para chorar.
Corri ao seu encontro, me abracei a ela como uma criança que está perdida e encontra alguém muito amado.
- Perdoe-me a minha fraqueza, meu anjo de luz, a senhora tem razão, vê-la me enche o coração de alegria e de paz.
Por que a senhora me abandonou por tanto tempo?
Eu a busquei tanto, chamei tanto, pensei que nunca mais a veria
- Eu sempre estive ao seu lado, meu filho, você não me via porque estava encoberto pelas nuvens de tristezas e de mágoas.
Hoje você pôde me ver porque se libertou da cortina de tristeza e de mágoas.
Miguel, meu filho, nós nunca abandonamos aqueles a quem amamos; o que acontece muitas vezes é que as pessoas a quem amamos não nos permitem chegar perto delas.
A nossa vibração, filho, é de luz, paz, calma, esperança, fé, amor e confiança.
Para enxergar a Deus precisamos de tudo isso dentro de nós, pois Ele é assim, e nós fomos criados à Sua semelhança.
Na tristeza, na mágoa e na revolta não há Deus.
Deus está no amor, no perdão, na prece, na luz e na esperança.
É assim que você deve se comportar diante da missão que Deus lhe confiou: a sua vida.
Ela me abraçou, beijou a minha testa, e disse-me:
- Durma e, quando acordar, pense em cada um de nós, procure animar-se para a vida.
Nós te amamos, e por isso queremos vê-lo sorrir novamente.
Ela foi se afastando de mim devagar, parecia uma santa rodeada de luz com uma expressão serena e bela.
No outro dia acordei devagar, sem abrir os olhos, me lembrava do sonho.
Fiquei quieto, não queria abrir os olhos.
Quem sabe poderia continuar sonhando?
Desde que Dalva morreu nunca havia sonhando com ela.
Foi maravilhoso num só sonho reunir pessoas tão amadas; realmente, o meu sonho foi uma bênção de Deus.
Senti o cheiro de café e abri os olhos, só então me dei conta de onde estava, meu Deus!
Eu estava no Brasil, ainda não estava convencido disso, mas era real.
Levantei-me e tossi.
Ritinha veio até o quarto e, sorrindo, me perguntou:
- Dormiu bem, Miguel?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 11, 2016 11:19 am

- Até demais, Ritinha, e tive um sonho maravilhoso.
- Que bom que você está feliz!
Vem, vamos tomar o nosso café.
Enquanto tomávamos café falamos do meu encontro com os nossos familiares.
Ritinha baixou a cabeça e me respondeu:
- Miguel, eu aprendi com você a ser feliz.
Lembra-se no navio de como você inventava brincadeiras para nós?
Lembra-se da época da chegada do senhor, pai de Lucien?
Você arrumava um jeito de a gente inventar felicidade, assim eu consegui ser feliz.
Hoje eu tenho tudo, liberdade, tranquilidade, tenho até regalias!
Tenho filhos e netos livres.
Por que vou reclamar com Deus por alguma coisa que Ele me tirou, se Ele me deu outras tantas coisas maravilhosas?
Sabe, Miguel, às vezes nós somos egoístas com Deus, nós só queremos receber e nunca queremos doar nada.
E tudo o que nos é dado por Deus não se perde, está seguro, está bem guardado; no tempo certo, na hora certa, Deus coloca de volta em nossas mãos.
Eu acredito em Deus e em nossos orixás.
Sei que um dia, que já está mais perto do que ontem e muito mais perto do que os anos que ficaram para trás, eu vou rever os meus entes queridos, é só uma questão de saber esperar e ter confiança na palavra do Pai.
Ficamos trocando ideias sobre a nossa vida presente e o quanto éramos felizes se comparássemos com os sofrimentos dos primeiros negros chegados ao Brasil.
Relembramos os nossos sofrimentos e como resistimos a tudo, acreditando exactamente no que estava acontecendo:
felicidade, mudanças nas leis para os nossos filhos.
Ritinha me disse que morreu muita gente por causa dessas revoluções pela liberdade e que os movimentos pegavam força a cada dia que passava.
Tinha até mulheres brancas e negras se unindo ao movimento.
Ela disse ter ouvido alguns boatos que estava para acontecer uma reforma no país, e que os grupos que lideravam as organizações de libertação da escravatura pretendiam pouco a pouco ir acabando com o cativeiro.
Os engenhos de muitas regiões já estavam proibidos de usar troncos e ferros para castigar os negros.
Os castigos haviam diminuído em sessenta por cento, e quarenta por cento dos negros eram filhos da terra, possuíam um saber diferente dos negros vindos da África.
Isso preocupava os fidalgos, pois havia notícia de muitos povoados espalhados por todo Brasil.
Os negros libertos formavam quilombos e mais quilombos e, entre eles, estava a maioria dos negros fugitivos.
Começava uma guerra entre os brancos senhores e os negros independentes.
Ritinha acrescentava:
- Graças a Deus e aos orixás da nossa gente, aqui, nós ainda conseguimos controlar a situação.
Se bem que já tem gente pensando em fugir para longe da fazenda e tornar-se livre à força.
Nós, os mais velhos, e os nossos guias estamos sempre chamando atenção dos mais moços, abrindo os olhos deles que aqui ninguém é maltratado, aqui vivemos decentemente, que seria injusto com o nosso senhor e com certeza eles enfrentariam muitos sofrimentos.
Os jovens se empolgam demais com a palavra "liberdade".
Eu não sei, meu velho amigo, o que pensam os jovens de hoje!
Eles têm tudo e mesmo assim vivem inconformados.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 11, 2016 11:19 am

Eu respondi:
- Eu acho que posso entender o que pensam os nossos jovens Ritinha.
O sentimento deles não é apenas pela sua vida, é muito mais que isso, eles sonham com um futuro livre em que todos os homens sejam respeitados sem distinção de cor.
Eu não concordo com os meios que estão sendo usados por algumas organizações, usando a revolta dos negros, incentivando os mesmos a rebelar-se contra a escravatura.
Na verdade, essas organizações tentam ganhar partido na frente das outras organizações.
As organizações formadas com bom senso agem com bom senso, jamais usam os escravos para elevar-se politicamente, tudo isso eu aprendi com o padre da nossa terra, homem de muita sabedoria e bondade.
Eu participei de algumas reuniões entre brancos e negros e aprendi muitas coisas boas com todos eles.
Começo a pensar que Deus me trouxe até aqui com alguns propósitos.
- O meu sangue está correndo nas veias de muitos negros desta fazenda e eu não vou permitir que os meus filhos e netos saiam por aí fazendo asneiras.
Vou ensiná-los a encontrar paz e tranquilidade no trabalho, na família e no respeito.
Eu sou livre, nem por isso sou o homem mais feliz do mundo.
Devemos semear com dignidade, força e determinação as sementes da liberdade para a nossa futura geração, e não usar da violência, pois esta só traz mais discórdias e sofrimentos.
Ritinha me ouvia em silêncio.
Assim que parei de falar, ela suspirou fundo e disse:
- Pois é, Miguel, reparo que você de facto aprendeu muitas coisas novas nestes anos todos, mas uma coisa vejo que você conserva: o carácter.
É isso que você deve mostrar aos nossos jovens:
dignidade, respeito e fidelidade aos nossos antigos costumes.
A sua vinda para cá vai ajudar muito.
Eu receio que nossos senhores, além de apreciar a sua pessoa, também têm esperança de que você possa acalmar as rebeliões que constantemente vêm acontecendo por aqui.
Ritinha parou de falar, ficamos em silêncio por alguns minutos, e eu retomei a palavra:
- O mundo mudou demais, Ritinha, as pessoas se espalham por toda parte.
Repare o que acontece hoje com a gente:
eu sou livre, você é livre, quando é que nós pensamos estar gozando de toda essa liberdade naqueles tempos de sofrimento?
Passei a minha vida toda sonhando em me tornar livre e voltar para a minha terra, o meu sonho realizou-se, mas eu me sinto hoje mais cativo do que antes.
Me fale, Ritinha, mudou alguma coisa dentro de você depois que recebeu a sua carta de alforria?
Ela balançou a cabeça em sinal negativo:
- Nada, nada mudou.
Para ser sincera, sinto falta da senzala, da casa grande e dos senhores.
Você tem razão, Miguel, não é uma carta de alforria que traz liberdade para a nossa alma.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 11, 2016 11:20 am

CAPÍTULO XXII - A RECOMPENSA
Os dias foram passando e eu fui me reintegrando novamente entre os meus.
Lucien e os senhores me tratavam como gente da família.
Tudo foi colocado à minha disposição.
Ganhei uma mula, vaca de leite, porcos, galinhas e um bom pedaço de terra do outro lado do cemitério.
O senhor mandou construir uma casa para mim e, apesar dos protestos de Ritinha, eu fui morar na minha casa.
Meus filhos me visitavam todos os dias, a minha casa ficava cheia dia e noite.
Lucien não me deixava cozinhar, todos os dias ela me mandava o café da manhã, almoço e jantar.
Minhas filhas, noras e netas limpavam a minha casa.
Tinha tudo o que alguém pensa em receber nesta vida.
Muitas vezes, cheguei a comentar com a Ritinha:
- Pois é, de escravo agora passei a ser rei!
Não sei qual é a necessidade de tanto luxo para um negro velho como eu.
A varanda da minha casa era grande e bem ventilada, e ali, deitado na minha rede ou sentado no meu banco, coloquei muitas verdades na cabeça dos meus filhos e netos.
Aos poucos fui conscientizando cada um deles o que era lutar com dignidade, e não guerrear impondo a violência para tornar seus sonhos realidade.
Recebi muitas e muitas lembranças dos meus filhos de Angola.
Enviei muitas cartas e muitas lembranças do Brasil para cada um deles.
Meu filho Miguel mandava me perguntar sempre:
- Quando é que o senhor volta, pai?
Sentimos a sua falta, tudo aqui está óptimo, só falta o senhor. Volte logo.
Quando Lucien lia essas cartas, eu chorava e sentia até remorso em reconhecer o que sentia dentro de mim:
"Fui feliz ao lado de Dalva, amei aquela mulher como jamais havia imaginado poder amar alguém, mas a minha vida estava fincada no solo brasileiro, eu cresci como homem e como espírito no chão do Brasil, a minha alma estava envolvida na esfera brasileira".
Lucien leu as cartas para nós.
Quando terminou de ler, ela ficou em silêncio.
Notei que me observava e, chegando mais perto de mim, me abraçou e perguntou:
- Pai Miguel, quer ir visitar seus filhos em Angola?
Meu irmão vai viajar daqui a um mês, o senhor pode ir com ele, e o João, seu filho, pode acompanhá-lo.
Abraçando-a, respondi-lhe:
- Não, minha filha, eu não quero ir.
Meus filhos de Angola, eu os tenho guardado dentro do meu coração.
Recebendo notícias deles, sabendo que eles estão bem, já é tudo para mim.
Desejo voltar para Angola, se Deus me permitir quando me tornar livre por completo, quando puder atravessar o mar sem me molhar.
Aí eu volto, porque sei que o caminho vai ser mais curto para eu ir e voltar depressa ao Brasil.
Meus filhos riram, eles se orgulhavam demais do meu amor pelo Brasil.
É incrível como todas as pessoas nascidas ou criadas nesta santa terra se apegam a ela.
Hoje eu digo com toda a certeza:
o Brasil é um dos lugares mais lindo do planeta, sem deixar de lembrar que há muitas coisas no Brasil que não existem em qualquer outra parte do mundo.
Ouvíamos falar demais em rebeliões e nos conflitos entre brancos e negros.
O resultado era sempre o mesmo:
muitas mortes, em especial de negros, que não tinham armas.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 5 de 6 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum