LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 11, 2016 11:20 am

Aumentava a inquietação entre os fazendeiros e doutores das cidades.
O senhor, um dia, conversando comigo me confidenciou um segredo:
- Miguel, eu particularmente acredito que a coroa não está mais aguentando as pressões dos movimentos pela libertação dos escravos.
Pode ter certeza de que não está longe o dia da libertação total e definitiva dos escravos brasileiros.
Ele me contou que pagava impostos altíssimos à coroa pelos escravos que possuía na sua fazenda; dependendo da situação, valia a pena pagar a indemnização à coroa e receber a carta de alforria do negro, ficando livre, isento dos impostos.
Tanto que para se conseguir dar uma carta de alforria a um negro era uma dor de cabeça.
Não era vantagem para a coroa ter negros libertos, era um imposto a menos e uma dor de cabeça a mais para eles.
- Agora está pior Miguel, está temporariamente suspenso qualquer pedido para se libertar um escravo.
Por outro lado, recebemos amnistia total dos impostos pagos pelos escravos.
Eles nos incentivam a manter nossos escravos e não nos desfazer deles por nada.
É uma forma de dificultar os movimentos contra a escravidão no Brasil.
Foi aí que eu comecei a entender que às vezes os coitados dos senhores brancos também sofriam demais nas mãos dos homens das leis.
Eu não sabia que os senhores pagavam impostos por nós!
Eu não imaginava que, para um senhor dar liberdade a um dos seus negros, tosse tão difícil e tão custoso para ele.
O tempo passou tão depressa que eu mal podia acreditar que já havia se passado quinze anos da minha chegada ao Brasil.
Ritinha andava muito cansada, as pernas inchadas, a vista curta, como dizia ela.
Eu brincava dizendo:
- São os janeiros, minha amiga, nós já estamos fazendo serão aqui em terra.
Eu já estava com 91 anos, cercado de netos e bisnetos e já tinha tataranetos.
Um dos meus bisnetos libertos formou-se como doutor e casou-se com uma moça branca de olhos azuis, lá da cidade.
Um dia, todo orgulhoso, me trouxe a moça para que eu conhecesse, brincando com ela, disse-lhe:
- Alice, se não fosse esse negro velho aqui, você não estaria com esse caboclo bonito aqui do seu lado!
Muito fina tão bonita que mais parecia uma santa, ela abaixou-se e, me abraçando respondeu:
- É verdade, se não fosse o seu bisavô Miguel, você não estaria aqui ao lado do meu Miguel.
Esse era o nome do meu bisneto.
O meu bisneto, brincalhão que só vendo, sentou-se perto de mim e disse:
- Vô, fale para Alice quantos filhos o senhor teve!
Se todos estivessem vivos, não caberiam nesta sala.
Ele então disse:
- Alice, como eu não tenho o fôlego do meu bisavô, me conformo com uns quinze, está bem?
Os dois gargalharam juntos, meu bisneto me abraçava cheio de orgulho e de felicidade.
Conversaram bastante tempo comigo, ele adorava ouvir as histórias de Angola e do meu passado.
Aliás, eu até já sentia falta quando não vinham aqueles estudantes me visitar, eram jovens que ficavam horas e horas ouvindo as minhas histórias de Angola, de como fui capturado, sobrevivi, de como foi a minha vida.
Pareciam sonhar e, conforme eu relatava a histona da minha vida, eles escreviam nos seus cadernos.
O meu bisneto chamava um deles de poeta.
Era um rapaz moço, franzino e muito educado.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 11, 2016 11:20 am

A fazenda agora era administrada pelo neto de Lucien.
O senhor faleceu, Lucien andava amparada por uma de suas acompanhantes, o reumatismo não a deixava andar sozinha.
Ritinha completou 93 anos num mês e no outro se foi.
Eu fiquei parado na sua cova, imaginando:
- Quando será a minha vez?
Os meus amigos estão partindo, tenho de me preparar para partir também a qualquer momento.
A cova da minha avó Joana era conservada, eu andava com muita dificuldade, agarrado a uma bengala, mesmo assim ia sempre ao cemitério visitar os meus entes amados.
Andava devagar pelo jardim da fazenda, ensinava a preparar remédios caseiros a um e a outro, ensinava isso e aquilo, tudo o que podia ensinar, ensinava.
O meu neto que era pai do meu bisneto doutor, um dia chegou em minha casa com um grande sorriso e disse-me:
- Vô Miguel, o senhor promete que vai ficar bem sossegado com a surpresa que nós vamos trazer para o senhor?
- Que surpresa, José Carlos?
O que é vocês estão aprontando para mim?
Ele me deu um copo de água.
- Bebe, vô, é água de cacimba.
Os meus olhos turvos não me permitiam distinguir as feições de quem chegava, mas dava para ver uns vultos entrando na varanda.
Sentado na minha rede e atento a quem chegava, perguntei:
- José Carlos, filho, quem está aí?
- Sou eu, pai, quem está aqui - respondeu o meu filho Miguel, reconheci o seu sotaque.
Abracei o meu filho e chorei de emoção.
Meu neto, que deixei tão pequeno, estava homem feito e amadurecido e veio também me visitar.
- Pois é, pai, nós estamos aqui...
O mundo é pequeno, pai, quando o amor é grande.
Nunca deixamos de pensar no senhor e sempre tive vontade de conhecer a minha família.
Agora temos contacto directo com meus irmãos e sobrinhos e tudo ficou mais fácil.
Ano que vem pretendemos vir todo mundo lhe visitar, o mar ficou menor para nós.
Me trouxeram tantas coisas!
O meu filho Mário talhou em madeira um retrato da família e me enviou para que eu pudesse ver cada um deles.
Era tanta carinha nova, uma das minhas netas me fez chorar de emoção e saudades.
Ela era a cara da Dalva quando moça!
Naquela noite mal pude pegar no sono de tanta alegria.
Meu Deus, eu era o homem mais feliz deste mundo.
Onde já se viu tanta, mas tanta, felicidade!
Se um dia eu sofri, não havia como se comparar a tantas venturas e alegrias.
Deitado na minha cama podia ouvir os grilos cantando, dava para ouvir o farfalhar das folhas das palmeiras de dendê.
Podia ouvir o ressonar do meu filho e neto dormindo no outro quarto.
Levantei-me devagar, fui até a janela a abri bem devagar, para não fazer barulho.
Um vaga-lume passou bem pertinho de mim, fiquei olhando para ele, que se afastou rapidamente piscando.
Olhei para o céu e já não podia enxergar as constelações de estrelas como antes.
Fiquei assustado, eu não enxergava mais as estrelas!
Apenas enxergava vultos iluminados e sem forma.
Lembrei-me das palavras do pai João de Angola:
- Em vez de ficar procurando uma estrela no céu, repare no vaga-lume que está próximo a você.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 11, 2016 11:20 am

Era verdade, agora eu compreendia o que ele tentou me mostrar:
"Nunca é tarde para se perceber que uma pequena luz pode ser o seu guia, a sua direcção".
Uma pequena faísca de luz que encontramos na escuridão pode nos levar à saída.
Assim é a vida de um encarnado, buscar nas pequenas alegrias do seu dia-a-dia uma alternativa melhor.
Debruçado na janela, ouvindo os sons da noite e a música dos grandes cantores da natureza nocturna, corujas, sapos, grilos e outros seres da noite, revivia toda a trajectória de minha vida, cada passagem, cada pessoa.
Analisava a importância de cada uma delas no meu crescimento como homem e como espírito; todas elas foram importantes demais para mim.
Eu jamais poderia compreender os valores de uma vida sem a participação de cada um dos meus irmãos.
Eu não sofri nada, não perdi nada, recebi muito de cada um deles, como gostaria de poder falar o quanto era agradecido por tudo o que fizeram por mim.
Na minha cegueira, na minha loucura, na minha paixão pelo homem que habitava dentro das minhas carnes, eu só via e reconhecia a luz daqueles que eu acreditava que me fizeram bem, não percebi que todas as pessoas que se envolveram na minha caminhada deixaram uma faísca de luz à minha passagem.
Me lembrava do padre e dos seus ensinamentos:
ele, muitas e muitas vezes, dizia que Judas Iscariote foi um instrumento muito importante na missão de Jesus Cristo.
No meu íntimo jamais concordei com ele; Judas deveria ser condenado e destruído, onde já se viu um monstro daquele ter colaborado na missão de Jesus, que era um homem santo e correto?
Agora eu entendia suas palavras:
nós precisamos de espíritos como Judas e de espíritos como Pedro para descobrir que temos afinidades espirituais com eles:
somos positivos e negativos, e para nos equilibrarmos é necessário conhecer o valor de cada um.
Fui dormir muito agradecido a Deus e aos nossos orixás, também compreendi o papel importante que cada um deles exerce em nossas vidas.
Os orixás são os nossos familiares que já foram graduados pela escola em que nós ainda estamos estudando e aprendendo.
Eles são os mestres, nós, os alunos, o mundo é a escola, a vida é o grande livro que nos ensina a conhecer quem é Deus, nosso Grande Pai.
Meu filho e meu neto partiram, deixando uma grande saudade dentro do meu coração.
Uma coisa me alegrava a alma:
os meus filhos formavam uma família.
Mesmo vivendo separados e em países diferentes, eles se amavam e se orgulhavam de mim.
As coisas estavam mudando, eu já não compreendia a linguagem dos jovens.
Espantava-me com o comportamento deles, não temiam tanto os seus senhores como nos nossos tempos.
Os jovens negros já conversavam e até brincavam com os jovens brancos!
Isso eu achava bonito, e sempre acreditei na bondade dos homens, independentemente da cor.
Eu mesmo fui muito beneficiado pela bondade dos brancos.
O tempo passava, eu estava tão sensível e tão frágil em minha natureza carnal que as pequenas coisas me trazia as lágrimas.
A morte de Lucien me abalou muito, pois eu me recordava do seu nascimento.
Em minhas mãos recebi aquela pequena e indefesa criatura.
Lutei tanto, menti tanto, me arrisquei tanto para salvar a sua vida; e agora fui castigado por Deus, vi o seu corpo sendo enterrado.
Dos meus antigos amigos já não havia mais ninguém, todos se foram.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 11, 2016 11:20 am

Deixaram para trás um corpo, uma vida, uma saudade.
Eu passava meus dias relembrando cada um deles, todos tiveram um papel muito importante em minha vida.
Sentia-me cansado e saudoso, sentia falta dos meus sonhos e das minhas aparições.
Sentado no meu canto, me perguntava:
- Será que Deus se esqueceu de mim?
E meus amigos, e avó Joana e Dalva, e meu pai?
Esqueceram de mim também?
Nem em sonho eles apareciam.
Os dias e as noites voltaram a não ter mais fim, custava tanto amanhecer, e o dia demorava tanto a passar.
O espírito cansado e desejoso de partir fica assim:
ansioso, aflito, nada estava bom para mim, não queria mais conversar nem brincar com ninguém.
Tudo me aborrecia, o que eu queria mesmo era caminhar, ter os meus olhos bons, poder trabalhar, encontrar meus amigos, correr pelas serras, tomar banho no rio, brincar com a avó Joana, passar horas conversando com o meu pai debaixo de uma palmeira, queria confidenciar meus segredos com a Ritinha e a Nalva.
O coração disparava de emoção ao pensar em vê-la de novo, a minha amada Dalva.
Enquanto a multidão de filhos, netos, bisnetos e tataranetos que seria impossível guardar todos os seus nomes e rostos se divertia comemorando os meus cem anos, eu estava longe, sonhando com o meu passado, quantas saudades... Interessante, só me lembrava das coisas boas; as más lembranças, o tempo apagou por completo, nenhum rosto inimigo, nenhuma mágoa, nenhuma culpa, via apenas rostos amigos, braços abertos, pessoas queridas e um desejo enorme:
estar com eles...
Aquela noite eu me lembro de ter pedido a um dos meus filhos para me levar até a janela.
Olhei para o céu e vi uma estrela mudando de lugar, fiquei radiante, eu consegui enxergar uma estrela no céu!
Logo mais um vaga-lume veio perto de mim.
Sorri encantado e disse ao meu filho:
- Fazia tempo que eu não via uma estrela mudando de lugar e um vaga-lume assim tão perto.
O meu filho respondeu-me:
- Hoje é seu aniversário, Deus lhe presenteou!
Abençoei meus filhos e me deitei feliz como uma criança que acaba de ganhar o presente dos seus sonhos.
Logo adormeci, fazia tempo que não dormia tão bem.
Acordei e, ainda de olhos fechados, via tudo à minha volta.
Um lugar lindo, tudo tão branco, tão claro, comecei a rir e pensei:
- Estou sonhando...
Imagine se eu conheço esse lugar?
Nem poderia estar vendo tão bem assim!
Quase não enxergo nada.
Vou continuar de olhos fechados e quem sabe vejo alguém conhecido no meu sonho.
Senti uma mão tocando no meu rosto e o cheiro de flores e ervas, aquele cheiro que me acalmava.
Suspirei fundo e pensei "É ela, avó Joana".
Aquela voz nítida e tão querida me respondeu:
- Sim, sou eu, meu filho, abra os olhos.
Não tenha medo, você já pode ver tudo novamente!
O sonho acabou, você está de volta à vida.
Abri os olhos devagar, ela estava ali, alisando o meu rosto e sorrindo para mim.
- Vovó Joana, é você mesma?
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 11, 2016 11:21 am

- Sim, filho, sou eu mesma.
Repare no lugar bonito que você está!
Olhando para os arredores do aposento, reparei que era um quarto de senhor, e dos mais finos!
Fiz menção de levantar-me da cama grã-fina, mas ela me fez voltar a deitar dizendo:
- Fique quietinho, descanse mais um pouco.
Ainda é cedo para levantar-se.
Era uma mobília rica, lençóis brancos e finos, flores espalhadas em vasos por todos os cantos do enorme quarto.
Flores lindas, que eu jamais tinha visto antes.
Uma enorme janela aberta mostrava uma belíssima paisagem lá fora.
E eu não estava sonhando?
Então o que era aquilo?
Beijando a minha testa, ela falou:
- Vou avisar o pessoal que você está consciente.
Todos nós estávamos ansiosos por este momento.
Graças a Deus você retornou!
Volto logo, fique quietinho.
Ela saiu pela enorme porta, eu, cismado, me perguntava:
- Mas que sonho esquisito.
É um sonho que parece não ser sonho!
Deve ser pela minha velhice.
Antes de terminar os meus pensamentos a respeito do meu sonho, vi entrando meu pai, Ritinha, o meu primeiro senhor de braço dado com a minha primeira sinhazinha, Nalva, o avô Sebastião, o pai de Lucien ao lado dela, o meu avô de Angola, a minha mãe, e Dalva!
Eles foram se aproximando de mim.
Foram tantos abraços, tantas lágrimas de alegria, tanta felicidade que eu me esqueci que estava sonhando.
Não parava mais de chegar gente.
Eram tantas pessoas queridas, tantos amigos que parecia não ter mais fim.
Abraçada comigo, Dalva disse-me:
- Graças a Deus você conseguiu terminar sua jornada com muita dignidade.
Este é o dia mais feliz das nossas vidas.
Agora podemos dizer: juntos para sempre!
Todos conversavam, riam, era uma festa.
Puxei Dalva para o lado e perguntei baixinho ao ouvido dela:
- Dalva, o que está acontecendo?
Ela me respondeu séria:
- Você desencarnou, meu querido, está entre nós.
No começo é assim mesmo para algumas pessoas; quando acordam, ainda têm a impressão de estar no corpo carnal.
Logo, logo, você vai se reintegrando com o seu novo corpo e retomando a sua consciência espiritual por completo.
- Dalva, você quer dizer que eu morri?
- O seu corpo carnal, sim, foi enterrado na terra por todo sempre.
Você está vivo, esqueceu-se que a morte não existe?
Por enquanto, você ainda vai ter a sensação do corpo físico que lhe serviu de veículo para chegar até aqui; aos poucos, você mesmo vai poder modelar o seu corpo espiritual, do jeito que você se sinta bem e possa desenvolver a obra de Deus da melhor forma possível.
Cada um de nós, segundo nossos créditos espirituais, pode modelar a nossa aparência de várias formas:
criança, jovem, meia-idade, velho, com a cor da pele, cabelos e aparência que melhor se adaptar à nossa evolução.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 12, 2016 9:48 am

Os encarnados e os recém-desencarnados nos enxergam como eles se enxergam:
com a aparência registada na mente deles.
Por exemplo:
aqui não precisamos de espelho para nos vermos por inteiro, e quando você puder se ver por completo, também vai poder me ver por completo!
Nesse momento eu já estava convencido de que havia de facto morrido.
Todos olhavam bondosamente para mim.
Mas, decepcionado por não ter participado do meu próprio funeral, disse:
- Morri esta noite depois da festa de cem anos, bem que eu desconfiei.
Vi uma estrela mudando de lugar e um vaga-lume perto de mim.
Avó Joana, me abraçando, respondeu:
- Filho, faz meses terrenos que você está connosco; naquela noite, você se deitou e já estava rodeado de socorristas à sua espera.
Foi muito rápido o seu desencarne, sem dor e sem sofrimento, o seu corpo foi enterrado junto ao meu.
Esse era o seu desejo, e seus filhos cumpriram.
Hoje começa uma nova vida para você e para todos nós.
A partir de agora, vamos fechar a nossa corrente de trabalho.
Só estávamos esperando por você para dar início a uma nova caminhada em terra.
Vamos resolver a sua primeira questão nesta nova vida:
de que nome podemos chamá-lo?
Tem uma lista de nomes que lhe pertenceram, cabe sempre ao usuário, na condição que você se encontra, livre, decidir o nome que será espiritualmente baptizado e confirmado.
Pensei bastante e respondi:
- Eu quero ser chamado, baptizado e reconhecido como:
Pai Miguel de Angola, para não confundir com os Migueis do Brasil! - Foi um riso só.
Emocionado, lembrei-me do quanto fui amado, doutrinado, preparado e como fui feliz como Miguel, e ainda por cima havia deixado em Angola um filho chamado Miguel, netos, bisnetos, e tantas outras crianças que orgulhosamente seus pais lhe deram esse nome, exactamente porque admiravam o meu carácter, a minha coragem e a minha dignidade como homem.
Em pouco tempo eu já havia recobrado meus sentidos; retomei meus afazeres na colónia.
Como pesquisador do retardamento da alma para chegar à luz, me propus a fazer uma pesquisa dolorosa na carne, passar os tormentos da escravidão humana.
Eu havia detectado que tínhamos muitos casos de retardamento espiritual exactamente entre espíritos escravizados na carne.
Para desenvolver e aplicar qualquer tratamento para esses casos era necessário conhecer de perto as consequências.
Recebi autorização e consegui alcançar meus objectivos.
Um grupo de amigos uniu-se ao meu projecto:
todos meus amigos espirituais eram aqueles que fizeram parte da minha vida carnal.
A minha querida avó Joana sempre fora a minha luz, Ritinha, minha irmãzinha, Dalva a minha inseparável companheira.
Meus ex-senhores e muitos familiares carnais:
meus colegas de trabalho na pesquisa.
Meus pais e avós: meus assistentes.
Uma legião de outros espíritos amigos ligados e nossa causa, entre eles, Silvério e o padre.
Estávamos juntos novamente, o nosso trabalho foi um sucesso!
Meus descendentes carnais que deixei em terra, cada um deles, receberam incumbência muito grande.
Muitos conquistaram a sua liberdade, outros ainda terão de lutar muito por ela:
quando falo em liberdade, é a volta para a verdadeira vida, é retornar ao convívio familiar na esfera espiritual.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 12, 2016 9:49 am

Ainda estava na fase em que precisamos receber um tratamento adequado para recobrarmos os sentidos, quando Joana me disse:
- Miguel, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos.
Lembre-se de que fui na frente de todos, fui a primeira a me despedir de você aqui na colónia e a primeira a recebê-lo de volta.
Prometa-me que vai pedir ao nosso coordenador para me levar com você em todas as suas pesquisas em terra!
- Joana (ela também quis continuar como Joana), a minha missão em terra não será tão fácil quanto possa parecer.
Como Luís ou Miguel de Angola, recebi um corpo em terra, desta feita, vou tomar emprestado vários corpos carnais por algum tempo.
Repare a minha responsabilidade em preparar, instruir e incentivar tantas pessoas, algumas delas doentes na alma, com sintomas variados entre luxúria, vaidade, ganância, espíritos vingativos, rancorosos etc.
Se eu conseguir ajustar alguns, por intermédio deles vou trabalhar para equilibrar outros encarnados.
- Quero tentar.
Do seu lado sei que posso desenvolver muitas coisas - disse Joana.
Ali, no pátio da varanda da nossa colónia, olhando para o céu e vendo as estrelas cruzando de um lado para o outro, concordei em pedir ao nosso superior em levar Joana comigo nos novos trabalhos em terra.
Hoje, desenvolvemos em várias partes do mundo, em línguas diversas, o nosso trabalho de amparo e incentivo a muitas criaturas necessitadas.
Encontramos muitas dificuldades em estabelecer um contacto directo com os chamados médiuns.
Alguns se acham privilegiados, outros sofredores, alguns indecisos.
Muitos filhos esquecidos de Deus fazem do seu "dom" um meio de ganhar a vida, valendo-se do nome dos espíritos para vender falsidades.
Nós jamais usamos um médium para tirar recursos nem de ricos nem de pobres.
A caridade não é vendida ou negociada.
Mas, com a graça de Deus, temos os nossos fiéis médiuns, aqueles que se lapidam e trabalham para a transmissão das obras de Deus.
São tantos médiuns bons, confiáveis, que nos sentimos recompensados por tudo.
Eu sempre brinco com meus filhos na Terra, quando digo:
- Vocês vivem cercados por muitos Judas, mas têm o triplo de Pedros que os auxiliam a passar as boas-novas do Pai Maior.
No Brasil, eu me sinto muito à vontade, volto a ser o menino Miguel, em especial quando me encontro no meio dos meus descendentes em carne, sangue, osso e fé:
a emoção é forte demais.
Às vezes, sentado no meu canto, fico olhando aquelas moças e rapazes bonitos, brancos de olhos verdes, azuis, cabelos lisos, cacheados; nem de longe eles sonham serem meus descendentes.
Fico rindo e achando graça da sabedoria de Deus.
O sangue brasileiro é uma mistura de fés, nasceu do amor e da união entre brancos e negros.
Em respeito aos filhos encontrados nesta terra, os índios, eles são os padrinhos do Brasil, quero expressar minha gratidão a todos os seus descendestes.
Faço parte integrante de uma organização espiritual que cresce como uma palmeira de dendê: muito depressa!
Logo, logo, os seus frutos serão levados aos quatro cantos do mundo.
Nós formamos uma grande legião de trabalhadores voluntários, que, se depender de nós, será tão gigante quanto é o nosso querido Brasil.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 12, 2016 9:49 am

A vocês, meus amados filhos, quero dizer nas minhas simples e humildes palavras (palavras de um preto velho):
Tenham fé, tenham esperança, procurem a saída na luz de um vaga-lume, lutem com perseverança e coragem, mas usem sempre dignidade e respeito para com o seu próximo.
Antes de julgar, pesquise; antes de condenar, analise.
Lembrem-se das sementes de dendê, nós também somos semelhantes a elas.
Reflictam nas comparações entre as estrelas e os vaga-lumes.
Pensem em como foi vantajoso todo o meu sofrimento na carne, o quanto aprendi!
O facto de ter aprendido tanto em terra é o que me possibilita voltar a ela ensinando.
Eu afirmo:
Cada gota de sangue que corre nas veias de vocês é, para mim, um prémio da vida.
Vocês me representam no corpo, eu os represento na alma...
Acreditem, meus amados filhos, a Lei do Retorno existe para todos nós.
Eu fui à Terra numa condição bem diferente da que me encontro hoje, fui como aluno e aprendi.
Hoje, como mestre, ensino; e todo mestre aprende mais do que na verdade ensina: eu aprendo todos os dias.
Fui cativo na carne, mas livre no espírito, por isso eu gostaria que vocês aí, meus filhos brancos e meus filhos negros lessem com bastante atenção a minha história de vida como Luís Fernando ou Miguel, e comparassem as minhas dificuldades naquele tempo com as suas dificuldades nos dias de hoje.
Meus filhos tomem cuidado com a liberdade que receberam de Deus!
A vida física é só uma passagem breve, tudo se acaba, tudo vira esquecimento e pó, mas o espírito retorna à sua pátria, e sem luz ele jamais vai encontrar o caminho de volta.
A vida é mistério muito grande.
Mesmo aqueles que não gostam da vida e não desejam viver não podem destruir este segredo de Deus.
Nós não podemos destruí-la, mas devemos ampará-la e conservá-la para a alegria do Pai.
A minha bênção, em nome de Deus, para todos vocês, filhos e filhas do meu amado Brasil e outras terras distantes.

FIM

§.§.§- Ave sem Ninho
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