LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 01, 2016 9:44 am

Não fuja, procure obedecer ao senhor, e só assim, o Senhor que está no Céu poderá acolhê-lo em sua casa, como um filho que realizou as suas tarefas".
Eu senti uma paz muito grande em meu coração.
Estava ali, consciente, acordado e via a minha avó tão meiga e bondosa como sempre.
E ela continuou:
"Estarei sempre com você, confie em Deus, meu amado.
Ele, e apenas Ele, poderá mudar o nosso destino!"
Percebi quando ela se afastou.
Abri os olhos e parecia ter tomado um dos seus remédios que acalmava.
Estava realmente calmo, tranquilo e conformado.
Levantei-me, olhei para o céu e disse com fervor - "Seja feita a Vossa vontade!"
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Ave sem Ninho

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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 01, 2016 9:44 am

Capítulo IX - A CAMA MALDITA
Eram aproximadamente dezanove horas quando um feitor chegou, chamando-me.
Levou-me até onde eles comiam, entregou-me um prato de arroz, feijão e carne cozida.
- Anda, coma logo!
Estou com inveja de você, negro.
Se precisar depois de uma mãozinha, procure-me - disse rindo.
Engoli a comida sem sentir o gosto.
Quando terminei, ele continuou:
- Não se preocupe, dê uma volta por aí... estamos de olho em você.
Qualquer passo em falso vai lhe custar caro.
Caminhei até à palmeira onde costumava ficar nas noites de lua cheia.
Apesar da escuridão da noite, senti-me confortado por ela.
Pensava em minha avó, pensava em minha mãe, guardava dela aquela imagem jovem, alegre e bonita.
Como estaria a minha mãe?
Estaria viva?
De olhos fechados, mentalizava o rosto do meu pai.
Como e onde ele estaria?
O silêncio da noite não podia me responder.
O feitor me chamou e eu estremeci.
- Vamos lá!
Está na hora de entrar para o seu novo quarto.
E, tentando desactivar os pensamentos, acompanhando mecanicamente o homem, entrei no quarto.
Então, tudo estava pronto, com cama forrada, um lençol branco e mais alguns pedaços de pano de saco, uma moringa de barro com água e uma caneca.
- Boa sorte! - Disse-me o feitor, saindo e fechando a porta.
Eu não sabia o que fazer... se me sentava no chão ou ficava em pé.
A janela do quarto estava fechada e eu não podia abrir.
Fiquei parado, olhando para a cama sem coragem de tocar nela.
Não sei quanto tempo fiquei assim.
Ouvi a porta se abrindo e uma mocinha de quinze anos sendo empurrada para dentro do quarto.
Atrás dela o senhor, que, dava para notar, já havia bebido muito.
Dirigindo-se em primeiro lugar à menina, ordenou:
- Tire toda a roupa!
E, virando-se para mim, continuou:
- Você pode ficar olhando, e depois que eu parar você continua: é o seu trabalho.
A menina, tremendo, me pedia socorro com os olhos.
Ele agarrou a moça pelo braço e puxou sua saia com tanta violência que rasgou a peça em duas partes.
- Você é surda?
Tire logo essa roupa!
A menina, de olhos arregalados, tirou a parte de cima, depois a outra, ficando, então, despida.
O senhor arrancou as calças e, jogando a moça na cama, foi para cima dela como um animal selvagem.
- Quieta, não vai durar muito tempo.
Abrindo as pernas da garota, que nem se mexeu ou gemeu, estuprou-a sem nenhum pudor.
Jogou todo o esperma no rosto da garota e, depois, pegando um pedaço de pano, secou-se; colocou a calça e, virando-se para mim, disse:
- Vamos lá, tire a roupa!
Vamos, sobe!
Quero ver se você aprendeu direito.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 01, 2016 9:44 am

E, mecanicamente, tirei toda a roupa, comecei a relação e fiz tudo maquinalmente.
A moça estava pálida, com o corpo tremendo e gelado.
Ele só saiu quando teve certeza de que eu havia ejaculado dentro da moça.
Sentei-me na beirada da cama e vi sangue no lençol.
Puxei a coberta, cobrindo a moça.
Enchi uma caneca de água e dei-lhe.
- Perdoe-me, Rosa, Deus sabe que eu não queria isso.
- Miguel, a minha dor e a minha ira não são por sua causa, mas por esse senhor.
Ele veio para desgraçar a nossa vida!
Levantou-se e pegou a roupa rasgada para se vestir.
Então me lembrei da ordem do senhor:
"A mulher que ficar com você só poderá sair de perto ao romper da aurora".
- Rosa, você não pode sair, são ordens do coronel.
E ficamos conversando sobre as nossas vidas.
Já era tarde quando Rosa adormeceu.
Eu fiquei acordado, não conseguia fechar os olhos, pensava como seria a minha vida dali em diante.
De manhã, bem cedinho, Rosa acordou e me perguntou humildemente:
- Posso ir ou você ainda quer fazer alguma coisa comigo?
- Pode ir, Rosa, vá cuidar um pouco de você.
Naquele dia, desejei ter morrido antes de vivenciar tudo aquilo sem poder fazer nada.
Cuidei dos meus afazeres e nadei desesperadamente no rio que dividia as montanhas da fazenda.
Ao voltar para a fazenda, os feitores cochichavam e riam, olhando para mim.
Já era noite quando o feitor me lembrou:
- Vá pegar o seu prato e andar para assentar a comida no corpo.
Você sabe o que lhe espera.
E, depois, falam que a vida de escravo é ruim!
Quem dera estar hoje à noite no seu lugar.
Fui pegar o prato de comida, que estava bem reforçado, depois fui ao refúgio da palmeira; ali era o meu confessionário.
O feitor apareceu dizendo:
- De hoje em diante, você espera aqui fora a vez de entrar.
Vi um feitor empurrando uma mocinha que chorava e se debatia.
Levantei-me, e o instinto humano de socorrer gritou dentro de mim.
Antes de pensar, levei uma cotovelada do feitor, que me fez parar.
A porta foi aberta e a mocinha empurrada para dentro.
O senhor saía tempos depois, e o feitor gritou:
- Entra, seu macaco sortudo!
Entrei no quarto e encontrei Nalva chorando, o lençol manchado de sangue.
Dei-lhe um pouco de água e me sentei ao seu lado.
Ela se deitou e, abrindo as pernas ainda ensanguentadas, disse:
- Vamos, ande logo com isso.
Eu estou cansada e com muita dor.
Puxei o lençol e cobri seu corpo e o seu desânimo!
- Durma, Nalva, descanse!
O monstro aqui é ele, não sou eu!
Ela se virou de bruços e começou a chorar.
Contou-me que namorava um dos rapazes - Roque - que trabalhava nos campos, um excelente rapaz.
Filho de escravos da casa, nasceu e cresceu na fazenda.
Estavam namorando às escondidas e esperavam uma oportunidade de obter dos senhores a permissão para o casamento.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 01, 2016 9:45 am

Os homens mais velhos amarraram o seu namorado e deram-lhe uma bebida para dormir.
Ele queria matar o senhor.
Ficou completamente fora de si quando soube que ela seria a próxima vítima.
Conversamos muito e choramos abraçados.
E Nalva então me perguntou se não tinha nenhuma erva que pudesse matar o senhor.
Eu lhe expliquei que matar o coronel não resolveria nada nas nossas vidas.
Ela adormeceu e fiquei acordado, olhando para aquela menina que estava apaixonada.
Quantos sonhos não morreram naquela maldita cama.
Sentado no chão e recostado na parede, cochilei.
Acordei com os galos cantando.
Nalva se remexeu na cama, virou-se para o outro lado e continuou dormindo.
O que fazer, meu Deus?
Eu combinaria com Nalva que ela tivesse relações com o namorado e tentasse engravidar.
Assim, o coronel pensaria que eu estava fazendo o papel de reprodutor.
Eu não poderia evitar vê-las sendo estupradas por ele, mas poderia poupá-las de alguma coisa.
Pensei em Ritinha.
Jamais teria coragem de tocar nela!
Era a minha irmã, preferia morrer a fazer isso com ela, pensava.
Abri a janela devagar, os primeiros raios da aurora apontavam no horizonte.
Nalva acordou, abriu os olhos e falou:
- Miguel, por favor, venha aqui.
Eu cheguei perto da cama, ela me pegou pela mão e disse:
- Eu fecharei os meus olhos e você também deve fechar os seus.
Deus sabe que estamos apenas cumprindo uma ordem.
Sabe, Miguel, prevendo que as moças se entregassem aos seus namorados, o senhor proibiu qualquer homem de entrar na senzala; eles vão dormir em barracões improvisados.
Nós estamos proibidas de andar por aí e eles de chegarem perto da casa.
Eu estremeci, então não haveria chance nenhuma de enganar o senhor.
Fizemos o que nenhum dos dois planeou, e assim nos entregamos um ao outro, com respeito.
Ela se levantou, vestiu-se e, antes de sair, ainda me disse:
- Miguel, você é muito bom, Deus conserve a sua alma!
Assim, tudo se repetia.
Todas as noites vinha uma menina diferente.
Numa dessas noites, o sangue me fugiu das veias, quando vi Ritinha sendo empurrada para a cama maldita.
Ela reclamava e pedia:
- Por favor, senhor, não faça isso comigo!
Eu já estava habituado com o tempo que ele ficava com cada garota.
Ele foi saindo dali, acendendo um charuto e andando, enquanto o feitor me indicava com a cabeça que eu deveria entrar.
Fiquei chocado ao encontrar Ritinha, ainda despida, os olhos arregalados de pavor.
Quando ela me viu, começou a gritar.
Aproximei-me e com um abraço, pedi que se acalmasse.
Falei que não lhe faria nenhum mal.
Entre soluços, ela me pediu:
- Miguel, pelo amor dos nossos pais, que nunca mais veremos, mate-me!
Eu não quero nunca mais passar por isso.
Se você me matar, os deuses vão lhe ajudar e eu lhe serei sempre grata.
- Ritinha, não temos o direito de tirar a vida de ninguém.
Você acha que a minha situação é melhor do que a de vocês?
Todos somos obrigados a cometer esta vergonha entre irmãos.
Não sei o que poderá acontecer a partir de agora.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 01, 2016 9:45 am

Eu não tenho coragem de tocar em você.
Prefiro morrer a fazer isso.
Mas o senhor, com toda a certeza venderá as que não apresentarem um filho no ventre.
Sabemos que nem todos os senhores são iguais, mas desconhecemos se os outros, aí fora, pensam e agem como os nossos antigos senhores, que nos tratavam com humanidade.
Eu não podia tocar na menina em quem eu via a minha irmã.
E sofria pensando no que poderia acontecer com ela.
Ela adormeceu encolhida, e eu chorava me lembrando da nossa viagem naquele maldito navio; e em como ficamos assustados ao ver as moças sendo levadas à força por aqueles homens brutos.
Agora, tanto eu quanto ela sabíamos como sofreram aquelas infelizes criaturas!
Deitei-me bem devagar ao lado dela e fiquei pensando...
O que poderia fazer para ajudá-la?
E, então, veio-me uma ideia, envolvendo o meu irmão de desgraça!
Sofríamos a mesma dor!
Sim, era este o único caminho para que Ritinha ficasse segura na fazenda.
No meio da noite, ela se mexia, gemendo de dor.
Toquei no seu ombro e ajudei-a a se banhar novamente.
Eu já deixava preparada a água com ervas cicatrizantes para as moças lavarem as suas partes feridas depois da violência do monstro.
Antes do amanhecer, conversei com Ritinha sobre o assunto.
Quando expus a minha ideia, ela cobriu o rosto com as duas mãos, dizendo-me:
- Miguel, eu preciso lhe confessar algo:
eu e o Jade namorávamos até o dia em que o senhor desgraçou a nossa vida.
- Olhe, Ritinha, se vocês se amam de verdade, encontrarão um pouco de felicidade no meio de tanta desgraça.
Neste momento, vocês terem um filho será como ter uma rosa nascida entre os pedregulhos.
- Mas como isso pode acontecer?
As suas mulheres estão separadas das dele.
Como eu vou poder chegar perto dele? - Chorando, Ritinha lembrou-me.
- Fique sossegada, eu vou pensar num jeito.
Farei com que vocês se encontrem.
Façam dos momentos que ficarem juntos um motivo para continuar vivendo.
Aconteça o que acontecer.
Pela primeira vez, desde aquela tortura, eu me senti bem.
Estava ajudando duas pessoas que se amavam e enganaria aquele monstro.
Eu só precisava pensar numa forma segura para que eles se encontrassem.
E, assim, a nossa vida de sofrimento continuava.
Todos os dias, um feitor verificava se realmente eu entrava com uma mulher diferente.
Deitado, sem sono e em desassossego, só pensava.
Um dia, enquanto Nalva ressonava, surgiu a ideia que tanto buscava:
Jade poderia se vestir com a roupa de Nalva, eles eram irmãos e eu confiava nela.
Eu passaria com Jade perto dos feitores, entraria no quarto, dando um tempo, e depois sairia, dizendo que ia buscar outra mulher.
(Poderia levar tantas quantas desejasse.)
Mas, e depois, como faria?
Não poderia sair do quarto, deixando os dois a sós, pois os feitores desconfiariam e poderiam invadir o lugar.
Portanto, a única saída era deixar os dois na cama e me deitar embaixo dela.
Conversei com Jade e Ritinha e os dois aceitaram.
Na noite seguinte, assim que escureceu, fui ao encontro de Jade, que estava vestido com a roupa de Nalva, com a cabeça coberta como andavam todas as escravas.
Passamos pelos feitores, que continuaram conversando e nada perceberam.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 02, 2016 10:13 am

Deixei correr cerca de quarenta minutos, conforme combinamos, e saí em direcção à senzala, quando um dos feitores me barrou:
- Aonde vai, negro?
Cadê a sua mula? - Perguntou, arrogante.
- Senhor feitor, eu vou buscar outra mulher, hoje eu quero garantir a produção do meu senhor.
- Vai lá, negro, pega as suas mulas e faz o que quiser com elas, mas fique atento ao prazo que o senhor deu.
Logo mais eu voltava com Ritinha.
Ainda pude ouvir um deles comentando:
- Até que essas negrinhas são jeitosas!
É só porque eu já tenho três mulheres, senão aproveitaria um pouco dessas mulas fogosas.
Apertei Ritinha contra o peito e falei baixinho:
- Não lhes dê atenção....
Entramos no quarto e lá estava Jade... os dois se abraçaram e choraram em silêncio.
- Eu já vou dormir e acho que, hoje, em cinco minutos estarei roncando.
E fui dormir numa esteira embaixo da cama, pois fazia tempo, não tinha aquela liberdade.
Ritinha então perguntou:
- Jade, como você fez para enganar os feitores?
Eles vigiam o seu quarto também!
- Nalva vestiu a minha roupa e entrou abraçada com a Macu; e eles pensam que estou dormindo com ela.
Para deixá-los à vontade, ainda na frente deles, coloquei dois pedaços de algodão nos ouvidos e me deitei.
Realmente, meia hora depois, eu estava dormindo e sonhando.
Estava na minha aldeia, e o meu avô me chamava:
"Filho, vem ver uma coisa!"
A nossa plantação de dendê estava repleta de cachos amarelos dos frutos de ouro.
E ele me abraçava...
"Filho, eu estou ao seu lado, Deus está ao nosso lado.
Sua mãe está bem.
Pena que ela não está mais aqui.
Miguel, quando você se encontrar com o seu pai, diga-lhe que nós o amamos muito.
E você, filho, lembre-se do que falei:
Nós somos idênticos àquelas sementes que você colheu".
Fomos ao rio, as suas águas serenas estavam do mesmo jeito.
O cheiro da comida feita pelas mulheres da aldeia enchia as minhas narinas.
Perguntei ao meu avô onde estava a minha mãe, e ele me respondeu:
"Está na colónia com a sua avó e outras pessoas da nossa família, inclusive a sua vovó Joana".
Eu contei para o meu avô que não sabia do paradeiro do meu pai desde o dia que nos separamos.
Ele me consolou:
"Procure ter calma, Miguel.
O seu pai está no mesmo plano que você, trabalhando e lutando pela vida".
Acordei com os galos cantando e continuei deitado, sem abrir os olhos.
E, por alguns segundos, pensei estar na minha esteira, na minha casa, na minha aldeia!
Logo, a razão me chamou à realidade.
Mas continuei de olhos fechados, pois precisava conservar cada imagem do meu sonho.
Sem perceber, as lágrimas me banhavam o rosto.
Há muito tempo não tinha um sonho tão lindo, tudo me parecia tão real.
Mas, no sonho, não vi a minha mãe.
Que pena!
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 02, 2016 10:13 am

- Miguel, acho que está na hora de você levar as suas mulheres de volta ao barracão.
Os primeiros raios já aparecem no céu - alertou Jade.
- Eu dormi directo! - Falei.
Há muito tempo que não dormia tanto.
- Ritinha e eu não podemos dizer a mesma coisa, pois não fechamos os olhos a noite toda.
Mas foi a melhor noite de nossas vidas.
Muito obrigado Miguel!
Se um dia eu puder fazer alguma coisa por você, farei com todo o meu coração.
Ele se vestiu com a roupa de Nalva e cobriu a cabeça.
- Você está muito parecido com Nalva - brincou Ritinha, rindo.
Eu fui com eles até a senzala e, na chegada, nos deparamos com Nalva vestida de Jade, levando Macu de volta.
Eu voltei depressa e ele entrou com Nalva no barracão.
E, assim, várias noites Jade e Ritinha estiveram juntos.
Graças aos deuses, encontraram um momento de privacidade para amar - mesmo havendo um abismo amedrontando-nos.
Certa manhã, após me despedir de Jade e Ritinha, saí em busca das ervas.
No caminho, passei pelos vigilantes; fui ao barracão, peguei as ferramentas e saí para a colheita.
Um deles correu até mim, pedindo-me:
- Miguel, traga alguma coisa para os meus pés, acho que é frieira.
A única luminosidade era dos pequenos raios da aurora.
Em vez de entrar na estrada que me levava às montanhas, tomei o caminho do cemitério.
Entrei, tirei o chapéu e me ajoelhei ao lado da cova da minha avó Joana.
O cheiro das ervas e das flores era como um bálsamo para a minha alma.
Fechei os olhos e mentalizei o seu rosto, a sua voz tão querida dando-me conselhos.
"Oh! Minha avó, onde você estiver, peço-lhe que ore aos deuses por todos nós.
Graças a Deus você não está aqui, neste momento tão difícil para nós.
Eu não suportaria vê-la sofrer nas mãos desse monstro.
Os seus ensinamentos sustentam-me a alma, minha amada e querida avó".
E, ainda de olhos fechados, vi uma imensa luz que se levantava à minha frente.
Continuei parado, prendi a respiração...
Estaria vendo algo sobrenatural ou seria fruto da minha imaginação?
Ouvi aquela voz suave e animadora bem perto de mim:
"Filho, Deus está contigo, lembre-se, meu amado, do quanto Ele confia em seus bons princípios.
Não fuja das suas tarefas, não abandone aqueles que mais precisam de você.
Não reclame da sua sorte, acredite sempre no amanhã, e esse amanhã é Deus.
Tenha paciência com o senhorzinho, nunca deixe o seu pensamento se levantar contra ele".
Lembre-se dos conselhos do seu avô:
"Você é como aquela semente de dendê que um dia teve entre as suas mãos".
Imagine quantas riquezas poderá deixar neste solo brasileiro.
Deixará o fruto do seu amor, deixará o seu sangue, que correrá em muitas veias.
O seu sangue há de se misturar, a ponto de formar uma nova geração; e lembre-se, o senhorzinho é uma ferramenta na construção de tudo isso".
Abri os olhos devagar e, rodeada por uma luz azulada, vi nitidamente a imagem da minha avó Joana.
Agora, ela parecia uma santa, tinha o corpo envolto em um traje luminoso.
Senti vontade de dizer-lhe algo, queria tocá-la como antes, mas algo me impedia.
E aquele olhar doce foi se transformando em luz até desaparecer.
Só então dei-me conta e chorei de saudade e emoção.
Chorava, e os soluços sacudiam o meu corpo.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 02, 2016 10:14 am

Eu confiava em suas palavras!
Anjo de Deus, que me protegeu em vida e ainda agora me protege, mesmo estando no mundo dos espíritos.
Levantei-me, olhei em volta do campo santo e tudo estava silencioso.
Fiz o sinal-da-cruz e me retirei.
Subi a serra e fui às ervas para o preparo dos remédios, pois sempre havia muitas pessoas doentes e machucadas.
E com as ervas, desci a serra tranquilamente.
O sol batia em meu rosto, e sentia as gotas de suor escorrendo pelo pescoço.
Fiz os cálculos do tempo dado pelo senhor e faltavam apenas três dias.
Nesse meio tempo, tantas coisas haviam mudado em nossa vida!
Não tínhamos mais condições de falar com os nossos deuses, vivíamos amedrontados.
O senhor bebia demais, saía praticamente todos os dias, voltando pela madrugada e, muitas vezes, ouvíamos os gritos da sinhá; tudo indicava que ele batia nela.
Ela vivia ausente de tudo e de todos, não se envolvia com nada.
Notei, então, que ela estava com uma barriga imensa, naturalmente teria um filho, e pensei comigo:
tão diferente da nossa sinhá que partiu.
Mas, casada com um monstro, o que ela poderia fazer?!
Não posso julgar, não posso... e lembrando-me das palavras da avó Joana, aquietei o meu coração.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 02, 2016 10:14 am

Capítulo X - O PREÇO DE UMA VIDA
Num domingo, logo cedo, o feitor me chamou, dizendo que eu deveria me apresentar imediatamente ao senhor.
Saí com o coração disparando.
Diante dele, tirei o chapéu e fiquei de olhos baixos, aguardando a sua sentença.
Percebi que Jade, o meu amigo de infortúnio, estava ao meu lado.
O senhor, com um copo na mão e um charuto na outra, gritou:
- Levantem os olhos para mim, seus negros nojentos!
Como duas estátuas, levantamos os olhos para ele sem mexer um osso do lugar.
- Negro Miguel - gritou o senhor -, de hoje em diante o seu trabalho vai dobrar e tudo aqui vai mudar.
Esta fazenda poderia ser a maior e a melhor de todas, se o meu falecido cunhado, - que Deus o tenha -, não tivesse criado esse bando de negros vagabundos como vocês.
Mas eu vou consertar...
Ah, se vou!
Das mulas que lhe entreguei, a maioria está cheia; só três ou quatro ficaram para trás.
Pelo menos para isso você presta!
Doravante, será o único reprodutor da fazenda; os outros negros só poderão usar as imprestáveis para cria - ou as que já estiverem cheias por você.
Logo mais, você conhecerá as suas novas tarefas, além das que já executa.
Ai de você, se começar a fazer corpo mole.
Você já viu que esses troncos e as chibatas de couro cru funcionam, não é mesmo?
Fique de lado, que logo voltarei a lhe chamar.
E, apontando para o Jade, continuou gritando:
- Aproxime-se mais, negro imprestável. - disse com tanto ódio, que a sua boca tremia.
Levantou-se, jogando a bebida no rosto dele; desceu os degraus e esmurrou o rapaz no rosto até o sangue escorrer de sua boca.
E gritava, espumando:
- Se abrir a boca, arranco a sua língua com as minhas próprias unhas.
Depois, começou a chutar o ventre do infeliz até ele se contorcer de dor.
-Eu poderia castrar você agora mesmo, seu imprestável!
Onde já se viu um negro com o seu porte emprenhar só uma negra?
Tive um prejuízo incalculável por causa desse traste.
Dei comida boa, regalias e tudo o mais.
Sem contar que perdi praticamente três meses na reprodução!
Gritou pelo feitor, que logo estava aos seus pés.
- Vou passar a lista de nomes e você me traga logo esse bando, para que eu possa conferir o estado de cada um.
Mande vir já com os molambos prontos, serão vendidos e trocados ainda hoje.
Avise-os que vamos revistar mochila por mochila - e ai daquele que tentar levar o que não deve.
Jade retorcia-se no chão, o sangue escorrendo do canto de sua boca.
Por ordem do senhor, levaram-no a um coxo de água e lavaram suas feridas, entregaram roupa limpa e ele se trocou ali mesmo.
O senhor, furioso, falou:
- Você é o único que não vai levar nada além da roupa do corpo.
Abatidos, chegaram os meus irmãos, cada um com uma trouxa pequena na mão.
O senhor deu-lhes a ordem:
- Abram essas trouxas!
Feitores, revistem tudo!
Passado um tempo, continuou:
- Tudo bem, podem fechar suas tralhas.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 02, 2016 10:14 am

E, dirigindo-se aos feitores, disse - As carroças já estão prontas, vão acomodando a negrada.
Desesperado, vi todos os velhos da fazenda entrando nas carroças, inclusive Santino, que era como um médico.
Ele me olhou profundamente, encorajando-me a continuar cuidando dos que ficavam.
Algumas mulheres jovens partiram também, deixando os seus filhos e maridos para trás.
Alguns rapazes também deixavam os seus pais.
O último a subir foi o Jade.
Olhando-me, ele falou baixinho:
- Cuide dela e do meu f...!
A carroça arrancou, deixando uma imensa nuvem de pó que separava o desespero dos que iam do desespero dos que ficavam.
O senhor, em pé, batendo na manga da camisa para retirar o pó, passou a mão na barba rala e disse-me:
- De hoje em diante, você cuidará de todos os doentes.
Vai ajudar as suas crias a nascerem, continuar amansando os animais e cuidando dos arreios, além de outras coisas que pretendo fazer, usando você.
Por enquanto é só, pode se retirar.
O feitor chegava com o cavalo preparado para viagem.
Montando alazão preto, que eu amansei, o senhor disse ao feitor:
- Vou vender esse bando que já não serve para nada e ver se compro alguma coisa melhor.
O silêncio na senzala era geral, ninguém falava.
Todos miravam o vazio, talvez buscando uma porta de saída, sem encontrá-la.
Recostei na parede, sentado com a cabeça entre os joelhos.
Por mais que eu quisesse entender a vontade de Deus e conservar os conselhos da minha avó Joana, era difícil para um ser humano aceitar tudo isso e ainda ter fé.
Pensava nas palavras de Jade...
Será que Ritinha estaria grávida?
Se estivesse, eu cuidaria dela e do filho e faria o que fosse possível.
Já não tínhamos certeza do "ir ou ficar".
O que ainda estaria para acontecer?
Um pensamento me passou pela mente:
"Vou aproveitar os meus conhecimentos com as ervas, prepararei algo venenoso; tomamos e morremos; acabamos com todo o sofrimento".
Mas algo gritou dentro de mim:
"Em nada, meu filho, ajudaria, outros ocupariam os seus lugares, e o sofrimento não seria menor".
"Então, matarei o senhor", respondi aos meus pensamentos.
E logo ouvi nova resposta:
"Matar o Senhor seria atrasar a si mesmo e a outros nos deveres de suas tarefas em Terra".
O que fazer, então, meu Deus?
"Continue andando, siga adiante, o Grande Mestre Jesus veio antes de você e já abriu a estrada por onde você deverá passar com a sua cruz.
Siga, apenas siga e não perca a sua fé... e mesmo sem ver ou perceber, ao seu lado existe alguém que vela por você".
Alguém tocou em meu ombro.
Era Ritinha, magra, pálida tinha uma expressão de dor no olhar.
Estendendo-me as mãos, falou:
- Miguel, ainda estamos juntos!
Lembra-se, no navio, como nós todos encontrávamos um jeito para brincar e sorrir?
Temos de criar uma forma de continuar vivendo e descobrir um jeito de encontrar a felicidade.
Abracei a minha companheira de infância e, sim, ela estava certa.
Tínhamos que continuar vivendo e buscar um jeito de encontrar a felicidade.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 02, 2016 10:14 am

Rosas desabrochavam entre pedras e espinhos, e nós deveríamos olhar o que havia de bom em nossa vida e tirar proveito disso.
Havia tanta beleza na terra, e eu ainda existia como indivíduo.
E, se o meu corpo era castigado, usado e desprezado, ao menos, ainda havia os meus sentimentos.
Precisava viver e ajudar os outros a continuarem vivos.
O ser humano se adapta bem a certas situações quando a prioridade é a vida.
Aos poucos, fomos nos unindo mais, éramos uma grande família.
A nossa união era tão grande que causava medo nos feitores.
Descobri que eles usavam um método cruel:
fazer com que os irmãos negros se odiassem.
Assim, não corriam o risco da união entre o nosso povo, porque um povo unido derruba qualquer obstáculo que lhe impeça a caminhada.
Assim, os feitores faziam de tudo para colocar negro contra negro.
A maioria dos nossos irmãos já não se olhava; eles ficavam sentados, lado a lado, sem trocar uma palavra.
Com calma e com ajuda de Ritinha e de outras mulheres da senzala, fui chamando a atenção dos nossos irmãos para a realidade que estava nos separando ainda mais.
Logo, formamos uma corrente de amor e união entre nós.
Fomos descobrindo fórmulas de felicidade.
Se não tínhamos direito a isso ou aquilo, ou em vez de ficarmos frustrados, inventávamos algo que substituía as nossas carências:
aos domingos, os senhores e feitores estavam na capela da fazenda assistindo à missa; em silêncio, nos reuníamos e celebrávamos os nossos deuses.
A felicidade era a mesma para todos nós, o mesmo Deus dos brancos entrava no nosso barracão.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 02, 2016 10:14 am

Capítulo XI - A NOVA GERAÇÃO
Foi uma sensação maravilhosa a maior colheita que já fiz até os dias de hoje:
a colheita da vida.
Meus filhos nasceram em minhas mãos, e, a cada um deles, eu derramava lágrimas de alegria misturadas ao temor do amanhã.
Cada um deles eu baptizava com as minhas lágrimas.
E, ali, cada um que nascia era parte de mim.
Era como a semente do dendê!
E eu havia plantado nesta terra várias sementes: os meus filhos.
Eles haveriam de se reproduzir e, espalhando-se pelo solo, formariam uma grande e forte nação.
Eu olhava para o rostinho inocente de cada um deles e não podia conter as lágrimas.
O que seria dessas crianças?
Tão inocentes, mal sabiam o que esperar do destino.
A minha luta era enorme, pois acumulei várias tarefas nas minhas atribuições.
Trabalhava desde os primeiros raios da aurora até as últimas horas do dia.
Já não tinha tempo para pensar em mim mesmo.
Acostumei-me a ver a saída e a chegada de vários irmãos, que eram comprados ou vendidos.
E a troca de feitores, algo constante naquela fazenda.
O senhor agora não só bebia como também jogava.
Semanalmente, chegavam outros fazendeiros que passavam a noite bebendo, jogando e divertindo-se no grande salão da fazenda.
E, com esses homens, algumas mulheres que passavam a noite com eles e eram pagas para servi-los.
A sinhá tinha um menino branco como algodão e já estava com uma barriga imensa novamente.
Pobre sinhá pensei, pois além de o marido sair praticamente todas as noites, ainda trazia mulheres para dentro de sua própria casa.
E, como bem dizia a minha avó Joana, "os brancos também sofrem demais!
E a sinhá é uma sofredora, vive só, não tem amigos e nem parentes por ela.
Certa noite, eu estava terminando de lubrificar os arreios quando vi dois feitores saindo às pressas e comentando:
- Vamos buscar o senhor.
Urgente! A sinhá vai dar à luz!
E, ali mesmo, onde eu estava, fiz uma oração por ela.
Eu sabia o quanto sofria uma mulher na hora do parto.
Negra ou branca, a dor era a mesma.
No outro dia, enquanto cuidava dos meus afazeres, fiquei sabendo que duas parteiras e um doutor branco lutavam ao lado da Sinhá, que parecia estar morrendo.
Ela já havia perdido as forças, e a criança não nascia.
Fiquei aflito, o instinto de caridade e de salvar uma vida mexia comigo.
Seria pela razão de as nossas vidas não terem valor para os brancos?
Cheguei a pensar nesta hipótese, mas logo caí em mim.
Claro que não era isso!
A vida não tem preço, a vida não é apenas um corpo, mas corpo e espírito e, assim, um todo!
E se eu me oferecesse para ajudar a sinhá?
Só podia estar louco!
O senhor era capaz de me deixar três dias no tronco sem água e sem comida.
Confortava-me, pensando que, decerto, um doutor branco é como um deus; se ele não puder ajudar, imagine eu.
Orei aos deuses e pedi que não desamparassem a sinhá.
Já era noite quando um feitor chegou ao barracão onde eu cuidava dos arreios.
- Negro, vai ao barracão das suas ervas, pegue o que tiver de pegar e venha depressa comigo à casa do senhor.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 02, 2016 10:15 am

Se conseguir salvar o filho dele, possivelmente morrerá de velho nesta fazenda.
Ande logo, se apresse!
Corri ao barracão, peguei todo o meu equipamento de trabalho, incluindo as ervas para banho, infusão e chá.
As ferramentas, eu mesmo havia confeccionado.
E pensei:
"Como é o destino!
Vou usar na branca sinhá as mesmas ferramentas que uso nas negras!
E que Deus me ajude a salvá-la!"
Ao chegar à porta da casa grande, encontrei o senhor completamente embriagado, que me falou com rispidez:
- Se deixar o meu filho morrer, não sairá inteiro daqui!
Entre com respeito, e só saia de lá deixando o meu filho vivo ao lado da mãe.
Leve-o ao quarto, negra, e ajude-o no que for preciso.
Atravessamos um corredor imenso e, chegando à porta, o médico e as duas mulheres de branco torceram o nariz, saindo sem dizer uma palavra.
A sinhá estava pálida e gelada e respirava com muita dificuldade.
Aproximei-me e tomei-lhe o pulso; era evidente, o seu coração estava fraco.
Pedi à negra Tíana que fizesse um chá de canela com pimenta da costa e trouxesse água quente, sabão, sal grosso, toalhas e uma lata de carvão em brasa.
Ao tocar no ventre da Sinhá, notei que tratavam-se de duas crianças, uma abraçada à outra.
E, possivelmente, uma delas estava morta.
Suspendi a cama com a ajuda das mulheres que serviam no quarto.
Comecei a ajustar as crianças, afastei as duas cabeças, que estavam unidas na posição de nascer.
Continuei animando-as com massagens suaves.
Além de fracas, estavam machucadas com a violência das parteiras e do doutor de branco.
Fiz com que a sinhá tomasse o chá, esfregamos em seu corpo ervas que activam a circulação, esquentei o ambiente, joguei resinas que ajudam na oxigenação sobre as brasas.
Ela reagia melhor.
Dei graças a Deus!
Meia hora de trabalho e a primeira cabeça surgia em minhas mãos, mostrando todo o corpinho.
Eu me tornei tão sensível diante da vida que, naquele momento, eu não via uma criança branca ou preta, apenas um pequeno ser inocente.
Tíana enxugava as lágrimas que desciam pelo meu rosto.
Entreguei o menino a Tíana, que se encarregou de limpá-lo, e continuei ajudando o outro a nascer.
Vi uma pequena cabeça surgindo e um corpinho tão roxo que mais parecia um negrinho.
Não chorou quando cortei o cordão umbilical.
Era uma menina e mal arquejava.
Estava semi-morta.
Com as pontas dos dedos, fiz massagens em seu pequeno coração; ela respirava com muita dificuldade.
O medo tomou conta de mim, eu me lembrava das palavras do senhor:
"... Se deixar o meu filho morrer, não sairá inteiro daqui!"
Apressadamente embrulhei o corpo da menina numa toalha e disse baixinho a Tíana:
- Leve-a daqui e a esconda no barracão.
Peça a Nalva para cuidar dela até a minha volta.
Corri para sinhá, reanimando-a, e, em poucos minutos, ela recobrava os sentidos.
O menino estava bem, e o senhor entrou acompanhado das parteiras e do médico.
- Pois é... às vezes, esses negros são capazes de fazer coisas impossíveis, principalmente as coisas ruins.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 02, 2016 10:15 am

Comentou o doutor de branco, torcendo o nariz.
- Pode se retirar, o doutor agora cuidará deles. - Retrucou o senhor.
Eu saí quase correndo, o coração batendo acelerado.
A menina já devia estar morta e, à noite, eu cuidaria de enterrá-la, pensei.
Não cometi nenhum crime, não tive culpa alguma da sua morte.
Pensei nos meus filhos, que precisavam de mim.
Ao entrar no barracão, Nalva veio correndo ao meu encontro.
- Miguel, você ficou louco?!
O que vai fazer com a filha do senhor?
Antes que pudesse responder, ouvi o seu choro fraco, mas lutando pela vida.
Aproximei-me da rede e exclamei:
- Meu Deus, ela está viva!
Valham-me todos os deuses!
O que devo fazer agora?!
As mulheres cercavam a rede, admirando a pequena, que se mexia e choramingava.
E Ritinha disse-me, conciliadora:
- Pensaremos o que fazer com ela.
Tentarei fazê-la mamar.
Vamos manter a calma.
Vá descansar, Miguel, que eu cuidarei da menina.
Deitei-me sem conseguir sentir sono, as questões ferviam em minha cabeça.
Como faria para devolver a filha do senhor?
Como poderia mantê-la entre as nossas crianças negras?
Seria difícil convencer os senhores brancos de que ela era filha de uma negra.
Levantei-me e fui à rede em que Ritinha dormia com o seu filho e a pequena.
- Como ela está?
- Muito bem. Mamou, já fez xixi e respira normalmente.
- Ritinha, o que vou fazer agora?
Esta menina é a filha do senhor.
Imaginei que ela estivesse morta, por isso pedi a Tíana para escondê-la.
O senhor não sabia que eram duas crianças e ameaçou-me, dizendo que se eu deixasse o seu filho morrer, não sairia inteiro da casa.
Pensando que a menina não tivesse resistido, fiz o que fiz.
- Calma, Miguel, vá cuidar da lida e eu vou pensar num jeito de lhe ajudar.
Aquele dia foi o pior da minha vida na fazenda, pois me meti numa encrenca e não conseguia ver saída.
Passavam-me vários pensamentos:
se eu matar a menina?"
Deus, que pensamento horrível, eu jamais faria isso.
"E se desse um jeito de deixá-la à porta do senhor?"
Seria o meu fim.
E quem me garante que ele acreditaria na minha história?
Ficaríamos com a garota escondida entre os negros?
Podia ser uma saída, mas até quando?
A menina, certamente, seria tão branca quanto as nuvens, olhos tão azuis quanto o céu, e os cabelos amarelos como ouro.
Passei o dia fora, na esperança de que quando retornasse algo me sugerisse o que fazer.
Entrei devagar no barracão, Ritinha veio ao meu encontro, dizendo:
- Ela dorme como um anjo, mamou, tomou chá, fez xixi e cocô.
Tudo normal.
Olha, Miguel, conversando com todas as mulheres, chegamos a uma conclusão:
Vamos cuidar da menina e mantê-la aqui dentro do barracão.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 02, 2016 10:15 am

No decorrer do tempo, os nossos deuses mostrarão um caminho para a solução do impasse.
O que foi feito está feito, não temos como voltar atrás.
Vamos dar um nome a ela? Pense num nome.
- Vamos chamá-la Joana!
E assim foram-se passando os dias.
Joana era uma boneca, meiga, risonha, olhos azuis e cabelos loiros; apareceram os primeiros dentinhos, gatinhava por todos os lados, era o nosso xodó.
Numa tarde, vi a Sinhá com o menino nos braços e fiquei sem fôlego do susto que tomei.
O menino era idêntico à nossa Joana!
Comentei com Ritinha, que me fez lembrar:
- Miguel, se os dois são gémeos, o que você queria que acontecesse?
- Tem razão - pensei alto.
Via os meus filhos crescendo, gatinhando, caminhando, abrindo os braços para mim e sorrindo.
Marcelina, uma das minhas filhas, tinha os olhos e o sorriso da minha mãe.
Cada vez que ela me olhava sorrindo, eu derramava lágrimas de saudade.
Josué era a cara do meu pai; e os outros pareciam comigo.
E ali estava a minha família.
Eu já não podia dizer que me sentia só, pois os meus filhos me rodeavam e enchiam o meu coração de alegria.
Joana estava crescida, queria sair e brincar com as outras meninas e era difícil explicar a ela que não podia sair.
As meninas perguntavam por que ela era tão branca e tinha os cabelos amarelos e olhos azuis.
Era difícil explicar aos meus filhos pequenos a diferença entre eles.
Eu amava Joana tanto quanto os meus filhos.
Nas horas livres, sentava-me no chão com eles para contar histórias e mais histórias.
Certo dia, Nalva chamou-me num canto e falou:
- Miguel, veja o que fiz para passar nos cabelos de Joana.
Era uma lama negra com algumas cascas.
Aquilo tingia roupas e cabelos brancos.
Achei a ideia excelente!
- Joana com os cabelos tingidos de negro, poderá se disfarçar entre as nossas crianças e brincar fora do barracão.
E, de longe, os feitores não desconfiarão - argumentou Nalva.
Os cabelos loiros ficaram negros.
Nalva e Ritinha vestiram a menina com roupas compridas e colocavam um gorro na cabeça dela.
Joana brincava no pátio da senzala com as outras meninas sem correr riscos, mas sempre vigiada pelas mulheres.
E a vida, assim, seguia o seu rumo.
Ouvíamos muitos comentários por parte dos feitores, em especial que o senhor andava penhorando todos os seus bens no jogo.
Nunca mais o senhor comprou novos escravos, e todas as tarefas eram feitas pelos que restavam.
E, embora o trabalho fosse árduo, tínhamos um consolo, pois, como ele não trazia novos escravos, nunca mais vendeu nenhum dos nossos.
Numa tarde, o feitor levou-me ao senhor, que, sentado numa cadeira de balanço com um copo na mão, fez-me sinal para chegar mais perto.
- Negro Miguel, a coisa não está boa aqui na fazenda.
Temos muitas bocas para alimentar e pouca mão-de-obra.
Como você é um negro que sabe lidar com cavalos e remédios, vou alugar você aos fazendeiros da vizinhança para arrecadar o dinheiro de que necessito.
Preste bem atenção:
você vai ser levado por um dos nossos feitores, será entregue ao feitor da fazenda e lá vai prestar seus serviços.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 03, 2016 9:59 am

Entre de boca fechada e saia também do mesmo jeito.
À tarde, o feitor lhe pegará e trará você de volta.
Um passo em falso e você bem sabe o que posso fazer.
Amanhã cedo você vai começar numa fazenda próxima daqui.
Leve as suas tralhas de amansar cavalos e as ervas para as suas garrafadas.
Cuidado com o que vai fazer, não vou vendê-lo, vou alugá-lo.
Começou, então, uma nova etapa da minha vida.
De uma forma ou de outra, eu respirava o ar fora da fazenda.
Via coisas e pessoas diferentes.
A viagem até às fazendas trazia-me grandes recordações da minha vida passada.
Guardava, nitidamente, a imagem do meu pai e, em todos os lugares, ficava vendo os negros de meia-idade e procurando por ele.
Quem sabe ele estivesse ali, entre os outros negros, pensava.
A vida de Joana tomava-se cada vez mais difícil entre nós.
Ritinha propôs que eu levasse a menina comigo e a deixasse numa fazenda em que os senhores brancos, ou até mesmo um feitor, pudesse tomar conta dela.
- Como posso fazer isso, Ritinha?
A menina seria descoberta ainda na fazenda do nosso senhor.
- Você dá algo para ela beber, algo que a faça dormir por algumas horas, enrole-a num pano e coloque-a num saco.
Assim, você estará ajudando-a e livrando-nos de uma desgraça maior no futuro.
Pense no destino dos seus filhos!
- Vou pensar no assunto, Ritinha.
Comecei a analisar cada sinhá que eu conhecia e, mesmo sem conversar com elas, podia ver a alma de cada uma.
E foi a sinhá Luzia me chamou mais atenção, porque lembrava a nossa antiga sinhá.
Era calma e educada.
Observei-a, um dia, passando a mão carinhosamente na cabeça de um menino negro, e aquela atitude foi o suficiente para me convencer de que eu estava certo.
Desobedecendo às ordens do meu senhor, discretamente, informei-me e fiquei sabendo que a sinhá não tinha filhos e era uma santa para os seus escravos.
Eu era rentável para o meu senhor, pois era requisitado por todos os fazendeiros da região.
Tomei conhecimento das ofertas que o meu senhor recebia pelo seu escravo, no caso, eu.
Um mês depois, eu falava ao feitor da necessidade de haver panelas e tachos para preparar os remédios.
Naquele dia, entreguei a ele uma garrafa cheia de ervas amargas para os problemas do seu fígado.
Mal ele sabia que, no meio dos tachos, panelas de barro e ervas, havia um pequeno corpo adormecido.
Eu levava Joana comigo.
Quando cheguei à fazenda, o feitor trouxe um negro para ajudar a levar o material ao barracão.
Carreguei com cuidado o corpo adormecido de Joana e, assim que fiquei só, livrei-a dos panos, alisei o seu rostinho corado e chorei.
- Perdoe-me Joana, nunca pensei em fazer mal a ninguém, muito menos a você.
Eu a amo, do fundo do meu coração, mas não posso ficar com você.
Deus, que é o pastor de todas as ovelhas da Terra, guiará você melhor do que eu.
Andei em volta da casa grande, apanhando alguns gravetos secos; a sinhá colhia rosas no jardim e quando me viu sorriu e me chamou.
- Ah! Que bom vê-lo por aqui.
Isto é erva ou mato? - Perguntou-me, segurando uma planta.
- Isso é quebra-pedra, sinhá.
É um santo remédio para pedras nos rins.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 03, 2016 9:59 am

- Então, vamos deixá-lo crescer.
Pode cuidar de seu serviço, não quero atrapalhá-lo.
Adoro cultivar rosas.
Aqui no Brasil, o clima desta época do ano é excelente para as roseiras.
Nunca vi rosas tão belas e perfumadas.
Afastou-se, levando uma braçada de rosas coloridas.
Os arredores da casa estavam desertos.
O feitor foi buscar os animais ao campo para serem atrelados.
Os escravos estavam ocupados em suas tarefas.
Aquele era o momento!
Corri para o barracão onde deixei Joana.
Tirei a sua roupa de escrava que joguei na fogueira onde ferviam as minhas ervas.
Embrulhei-a em um lençol, pois ninguém poderia desconfiar de mim.
Levei a menina, que suava adormecida, e coloquei-a na soleira da porta da casa grande.
Voltei ao barracão e continuei mexendo o tacho, com lágrimas pingando dos olhos.
O sol estava no meio do céu, era meio-dia, quando ouvi o corre-corre lá fora.
Ouvi o choro da menina, que já estava acordada.
De longe, acompanhando tudo, eu também chorava.
A sinhá entrou em sua casa com Joana nos braços.
Agora, Joana estava no lugar certo, dentro da casa dos senhores.
Ela não nasceu na senzala, era uma sinhazinha.
O feitor chegava com os animais.
A sinhá, com a menina nos braços, perguntava em voz alta:
- Manoel, você não viu ninguém estranho entrando aqui?
- Senhora, se entrou, foi na hora que eu fui buscar os animais; mas não vi nenhum movimento diferente na estrada.
O feitor dirigiu-se a mim, que fingia estar com os olhos vermelhos da fumaça.
- Miguel, sei que você esteve envolvido com os seus remédios, mas mesmo assim me diga:
você viu alguém entrando aqui com uma menina nos braços?
- Não, senhor, eu não vi nada.
E, para dizer que não saí daqui, fui próximo ao jardim catar alguns gravetos, quando a sinhá, apanhando rosas, consultou-me sobre uma erva, mas logo voltei.
- É...! Existem coisas que não se explicam.
Essa menina deve ser filha do próprio senhor com alguma dessas mulheres que ele anda por aí.
Bem, a sinhá não tem filhos, pode criar uma do marido.
O pior é que vai sobrar para mim!
O senhor vai achar que foi descuido meu e, decerto, me mandará para os campos.
Naquele dia, eu voltei à fazenda tendo a sensação de que um pedaço do meu coração ficou para trás.
Lembrava-me de Joana, de seu doce rostinho, os olhos azuis brilhando quando via uma fruta à sua frente.
Enfim, Joana estava amparada, mas a minha consciência doía.
Como eu podia julgar os brancos que tiravam os filhos dos braços de sua mãe?
Eu tirei Joana de sua mãe, de sua casa.
Passaram-se dois anos, e eu ficava ansioso para voltar àquela fazenda, e de longe, observar Joana ao lado da sinhá.
Bem-vestida, cabelos em tranças até a cintura, brincos de ouro na orelha, os olhos azuis enfeitando o rosto corado, parecia um anjo de Deus.
Na fazenda, as coisas pioravam.
O senhor parecia louco, gritando com a sinhá na presença dos feitores e escravos.
Os campos de lavoura acabavam-se; os escravos estavam usando trapos, e a maioria andava sem calçados; a senzala estava sem esteiras e precisando de reparos, começou a faltar comida, já não sabíamos mais o que inventar para alimentar as crianças.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 03, 2016 9:59 am

O feitor chamou todos ao pátio, onde estava o nosso senhor ao lado de um jovem.
Então, fomos comunicados que, doravante, este seria o nosso novo senhor.
Dentro de uma semana ele estaria assumindo a fazenda e a nós.
O novo senhor, então, apontando para mim, disse:
- A única mudança, desde já, é que o escravo Miguel não sairá mais daqui para trabalhar em outras fazendas.
Informaram-me que você sai praticamente todos os dias para prestar serviços.
A partir de hoje, você vai trabalhar apenas em minha fazenda.
Em vez de alegrar-me, pensei:
"Meu Deus, nunca mais verei Joana!
Os deuses castigam-me e carregarei um peso na minha consciência pelo resto da vida.
Mil vidas eu tivesse, daria todas em troca da vida dela!"
E recordava-me de tudo o que ouvi das entidades:
"mais cedo ou mais tarde, a sua própria consciência será o seu juiz".
Disseram-me que eu havia cometido um crime, tirando Joana dos seus pais.
Que existia a Lei do Retorno e um dia eu teria de reparar esse mal.
Uma semana depois, ajudei a carregar os baús de viagem dos meus senhores.
Vi os dois meninos subirem na carroça e sentarem-se ao lado da mãe.
A sinhá saiu silenciosa, do mesmo jeito que chegou.
Eles partiam para terras distantes, disseram-me que o lugar se chamava França.
Eles se foram, mas nós guardávamos um grande segredo: Joana.
Ela, por certo, jamais conheceria os seus pais verdadeiros.
E eles jamais saberiam que eram os pais de um anjo tão belo.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 03, 2016 9:59 am

Capítulo XII - O ENCONTRO
O nosso novo senhor chegou, e a primeira coisa que mandou fazer foi vestir e calçar os escravos.
Depois, abasteceu as despensas com muita comida.
Mandou arrancar todos os troncos e varrer o terreiro.
Reformou todos os barracões.
Pintou a casa grande de branco e mandou fazer um jardim em volta dela.
A casa parecia outra.
Muitos bois, cavalos, negros e sementes foram trazidos para a fazenda.
Em poucos meses, os campos estavam cobertos de lavoura.
Eu fiquei livre da obrigação como reprodutor.
Cada homem deveria escolher a sua mulher, pois o senhor consentia a união entre ambos.
Voltei a me sentir gente outra vez.
Trabalhava com amor, via os meus filhos fortes e bem tratados e era tudo o que eu poderia querer de Deus.
Certo dia, o senhor perguntou-me:
- Miguel, eu sei que você era obrigado a gerar filhos, tanto que todas as crianças aqui têm a sua cara.
Mas tudo isso já passou.
Você é o melhor negro desta fazenda, e quero que você arrume uma esposa, porque não é justo viver sozinho.
Sabe, Miguel, nestes próximos seis meses me casarei.
Cecília não é apenas uma mulher... é um anjo.
Quero que ela seja muito feliz nesta fazenda.
Quero ver os meus escravos felizes também, esqueça o que passou e arrume uma noiva para se casar.
Fiquei sem fala, respirando fundo, e respondi baixo:
- Senhor, no momento eu me sinto tão feliz de poder dormir e acordar sem medo, que receio me envolver com uma mulher.
- Está bem, Miguel, mas caso mude de ideia, venha falar comigo.
Comentei com Nalva e Ritinha que o senhor em breve se casaria e que teríamos uma nova sinhazinha em nossas vidas.
Ele me disse que ela era santa, e agora a paz reinava entre nós.
- Vamos rezar para ser verdade - comentou Ritinha.
Ficamos satisfeitos com a chegada da sinhá, que tinha os olhos da cor de mel e os cabelos negros e lisos.
Bem diferente das outras sinhás.
À noite, a ouvíamos tocar o seu piano; era a coisa mais linda de nossas vidas.
Um belo dia fomos chamados ao pátio da casa grande e deparamos com a sinhá de mãos dadas com senhor.
E isso nos deu uma segurança muito grande.
O senhor, olhando para a sinhá e depois para nós, falou:
- A sinhá de vocês observou que faltam homens e mulheres de meia-idade por aqui.
Ela acha que as pessoas mais vividas têm muito que ensinar.
Vou adquirir alguns avós para os filhos de vocês.
Pessoas que possam lhes ajudar com as suas experiências de vida.
Entreolhamo-nos admirados, parecia um sonho ou uma brincadeira.
Quinze dias mais tarde, Ritinha e Nalva receberam as instruções.
Os barracões construídos ao lado do das mulheres deveriam ser preparados para receber novas mulheres; e outro barracão, ao lado dos homens, para receber os novos escravos.
Numa certa manhã, um feitor acompanhou os senhores ao mercado, onde haveria um leilão de escravos.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 03, 2016 10:00 am

Connosco ficou um outro feitor, que era mais amigo que feitor.
Estávamos ansiosos!
Ritinha brincou comigo:
- Quem sabe venha alguma nova moça e você se apaixone por ela.
Você precisa se casar!
O sol já baixava no horizonte quando avistamos as carroças apontando na estrada de terra.
O feitor me chamou para ajudar a receber as mercadorias.
Retiramos os caixotes de compras, ferramentas para lavoura, sementes, querosene, mel e outras coisas para a fazenda.
Encostaram mais duas carroças, mas, nelas, as mercadorias eram pessoas.
Ajudando as mulheres a descerem de seus assentos, qual foi o meu espanto:
Eram as nossas negras velhas que voltavam!
Comecei a chorar ali mesmo, elas também não continham as lágrimas.
Continuei, então, ajudando os demais, que iam saltando da carroça, como Santino, Sebastião e outros negros que foram vendidos anos antes.
E mais uma grande surpresa!
Avistei um homem magro, sem os dentes e com muitas cicatrizes nos braços; mas estava ali, vivo e de volta, Jade!
Finalmente, Ritinha poderia se casar e ser feliz.
O último velho a descer da carroça era manco, tinha cabelos brancos, rosto magro que mostrava a marca dos sofrimentos passados; e não era escravo de nossa fazenda.
Ajudei a levá-los ao barracão dos homens e tratei de acomodá-los.
Entreguei roupas limpas, indicando onde deveriam fazer suas necessidades e banhar-se.
Depois, voltei ao pátio e comentei baixinho com a Ritinha que o Jade havia voltado.
Ela gritava, mordendo as próprias mãos, segurava a manga da minha camisa, perguntando-me se eu não estava enganado.
- Não pode ser verdade! - repetia, querendo correr ao barracão, mas não a deixei sair.
- Ritinha, escute, você já esperou tanto tempo, espere um pouquinho mais, logo poderá estar com ele e apresentar-lhe o filho de vocês.
Nalva entrou, com os olhos cheios de lágrimas:
- Miguel, as coitadas das avós têm veias inchadas e feridas nos pés, acho que você vai ter de preparar muitos remédios.
No meio dos negros velhos conhecidos, vieram duas negras e um negro velho que não faziam parte da nossa história na fazenda.
Eram as avós Carolina, Marcelina e o avô Firmino.
As pretas velhas, além de ensinarem as mulheres a fazer comida, bordado, costura e panelas, contavam histórias para as nossas crianças e benziam todos nós, com a ordem do senhor.
Passamos a fazer as nossas reuniões uma vez por semana e, ao ar livre da noite, falávamos com os nossos deuses - as entidades.
Os pretos velhos ensinavam muitos segredos, como tirar o leite das vacas, rachar lenha, pescar, plantar e chocar ovos de galinha na lua certa.
O negro que mancava usava um chapéu de palha e falava pouco, ele fazia pilões, gamelas, consertava tudo na casa grande e fazia brinquedos para as crianças.
Observando-o talhar a madeira de um pilão, falei:
- Firmino, vendo você fazer isso, lembrei-me do meu pai.
Ele era mestre em fazer pilões, canoas e outras tantas coisas.
Sem levantar os olhos, perguntou:
- O seu pai já morreu?
- Não sei, Firmino.
Quando nos separamos eu ainda era um menino.
- Quer um conselho, filho?
Faça do seu presente o caminho que o trará àqueles que ama.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 03, 2016 10:00 am

Esqueça o que deixou para trás.
A nossa história não teve começo nesta vida, e tudo o que possa ter acontecido com você já estava programado pelo Pai Maior.
- Tem razão, Firmino, vamos mudar de assunto.
Passando-se quase um ano da chegada de Firmino na fazenda, já havia aprendido com ele muitas coisas boas.
Ele sempre tinha uma palavra de conforto para quem o procurava.
Falava pouco, mas as suas palavras eram sábias - e eu me apeguei demais a ele.
Ele nos contou que ficou manco da perna depois de passar uma semana no tronco debaixo do sol e do sereno, por um castigo que ele não quis revelar.
O nervo encolheu e nunca mais voltou ao normal.
Mas isso não era motivo para revolta.
"O corpo é feito de barro e vai ficar para trás.
Uma alma sadia é tudo que precisamos para seguir adiante", ele dizia.
Numa noite de lua cheia, sentado embaixo da mesma palmeira, amiga das minhas horas de agonia, uma das entidades que chegava para nos acalentar disse-me:
"Filho, você vive buscando uma estrela no céu e não percebe que tem um vaga-lume tão perto de você.
Às vezes, meu filho, não percebemos que o nosso sonho também amadurece e modifica-se.
Não procure no céu o que você pode achar aqui na terra.
Olhe mais para o presente e pare de pensar num passado que já não existe.
Nem para você nem para aqueles que ainda habitam os seus sonhos".
Ouvi tantas coisas bonitas, mas não compreendia o porquê das palavras do amigo.
Passei a noite em claro, lembrando-me dos conselhos e das palavras da entidade que se chamava pai João de Aruanda.
Num sábado à noite, o feitor veio trazer anzol e barbante para todos os homens, alertando-nos que, na manhã seguinte, faríamos uma pescaria no açude da fazenda.
O peixe apanhado seria mostrado ao senhor, e ele decidiria o que fazer.
Aquilo parecia um sonho, todos os homens juntos, pescando e brincando, longe dos problemas raciais que nos separavam do mundo.
Passamos metade da noite amarrando os anzóis nas linhas que tecemos.
Preparamos o facão para o corte dos bambus, a enxada para cavar a terra e apanhar as minhocas, o balaio para guardar o peixe.
As mulheres estavam animadas, pois o senhor era generoso demais, e, certamente, comeríamos uma boa peixada.
Elas já preparavam as panelas e a farinha para fazer o pirão e tudo o mais.
Fiquei ao lado de Firmino à beira do açude, e ele me ensinava como lançar a vara e fisgar o peixe.
Não demorou muito, o nosso balaio já tinha uma quantidade razoável de peixes.
Puxei conversa com ele sobre o que ouvi do pai João de Aruanda.
- Eu acho, filho, que você deve esquecer todo o seu passado e procurar ver as coisas boas que o Pai Maior oferece.
Este dia por exemplo é uma bênção de Deus!
Não veja só com um olho, repare para os dois lados.
Quando você começar e enxergar com os dois olhos - o do corpo e o do espírito -, vai descobrir que tudo o que passamos nesta vida vale a pena.
- Fui castigado na alma, Firmino, será justo pagar por aquilo que não fiz? - falei com ressentimento.
- Pergunte a Deus, filho:
"Estarei devendo muito Senhor, por tudo aquilo que fiz?" - respondeu-me Firmino.
- Além de todas as coisas que sofri, também fui obrigado a ser o reprodutor da fazenda.
A maioria das crianças, entre cinco e seis anos, é de filhos meus, Firmino.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 03, 2016 10:00 am

- Pois é, meu filho, mesmo os seus filhos não sendo livres entre as leis dos brancos, você os têm livres diante dos seus olhos.
Muitos, como eu, tivemos os nossos filhos em liberdade e os perdemos para sempre nesta vida.
Mesmo assim, eu não reclamo com o Senhor que está no céu, porque sei que um dia os terei de volta.
- Então, o senhor teve filhos?
- Tive liberdade, casa, esposa e filhos.
- De onde o senhor veio?
Antes de Firmino responder, o feitor nos chamou, mostrando um peixe de mais ou menos um quilo e meio que ele havia fisgado.
Foi uma festa e todo mundo queria ver o peixe!
Voltamos ao nosso lugar e logo eu estava insistindo com Firmino para falarmos das nossas vidas.
Algo me unia a ele, eu gostava de sua companhia e ele me transmitia muita paz.
Já passando de onze horas da manhã, falamos de muitos assuntos, e as palavras de Firmino eram como um bálsamo para o meu coração.
Ficamos alguns minutos em silêncio e, depois, foi Firmino quem falou:
- Fale-me um pouco de você, Miguel.
Nasceu aqui mesmo na fazenda?
- Não, eu não nasci aqui, Firmino.
Cheguei com sete anos e alguns meses.
Fui comprado por alguns senhores que eram bondosos connosco tanto quanto os atuais senhores.
Fui raptado juntamente com o meu pai.
Nasci numa aldeia nas proximidades de Angola, acho que fica do outro lado do mundo.
Digo isso pelo tempo da viagem até aqui.
Viemos num navio negreiro.
Meu pai foi vendido e levado embora.
Eu continuei no mercado e como já falei, fui comprado pelos bondosos senhores.
Foi a última vez que vi o meu pai.
Sonho demais com ele e daria tudo para saber se ainda está vivo.
Andei por essas fazendas, no tempo em que o nosso antigo senhor alugava-me para prestar outros serviços.
Prestava atenção em cada negro que achava ter idade para ser o meu pai.
Mas foi tudo apenas ilusão.
Não consigo me conformar em pensar que nunca mais verei o que deixei para trás, a minha mãe, o meu pai.
A minha mãe ficou lá, não sei o que pode ter acontecido, mas ainda lhe restavam filhos, pais e amigos.
Meu pai e eu perdemos tudo e todos.
Se, pelo menos, estivéssemos juntos, a nossa vida não seria tão triste.
Continuei falando de mim, da minha querida avó Joana, dos meus sofrimentos e revoltas, das aparições no cemitério e dos sonhos com o meu avô.
Quando parei de falar, notei que Firmino segurava a vara, tremendo.
E grossas lágrimas escorriam pela barba branca.
- Desculpe-me, Firmino, eu não queria deixá-lo triste com as minhas histórias.
- Não, filho, você não me deixou triste com as suas histórias.
Você me deu a maior alegria que um homem pode receber em toda a sua vida!
Diga-me uma coisa, Miguel, como era o seu nome em Angola?
- Meu nome em Angola era Luís Fernando.
- E o nome do seu pai?
- Meu pai se chamava José Joaquim
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 03, 2016 10:00 am

- E o nome de sua mãe?
- Minha mãe se chamava Marluce.
Mas por que o senhor me faz todas essas perguntas?
- Porque o meu nome é José Joaquim, fui casado com Marluce, tive três filhos com ela.
O mais velho se chamava Luís Fernando.
Fomos raptados na mata enquanto recolhíamos um tronco de árvore.
Luís, a sua história é a minha história!
Inacreditável!
O destino, então, nos reaproximou.
Esquecemos que estávamos pescando, esquecemos que éramos dois escravos, esquecemos todo o sofrimento, caindo nos braços um do outro.
Chorando, ficamos abraçados não sei por quanto tempo.
O feitor e todos os homens, em silêncio, observavam o nosso reencontro.
Muitos entenderam o que descobrimos ali, com o balanço das águas.
As nossas lágrimas se misturavam e nos olhávamos bem dentro dos olhos.
- Meu amado pai!
Então, os deuses estavam certos.
Buscava algo distante, que era o seu amor, e o senhor tão perto de mim, como um vaga-lume, seguindo-me e iluminando meu caminho!
Imediatamente, o senhor ficou sabendo da nossa descoberta e ordenou que fizéssemos uma festa com os peixes, ofertando uma garrafa de aguardente para brindarmos o acontecimento.
Recebemos também a ordem do senhor para que todos os trabalhos com as nossas entidades, guias, deuses - ou como quiséssemos chamá-los - deveriam ser feitos no terreiro da casa grande.
Ele queria assistir aos trabalhos e entender como esses mensageiros tão humildes e tão sábios eram capazes de ajudar qualquer pessoa.
Ali, embaixo das estrelas, sob a luz da lua cheia e diante dos olhos dos nossos senhores, começamos a tocar o nosso tambor, a cantar os nossos pontos e a louvar os nossos guias, nossos deuses.
Vivi com o meu pai os melhores anos da minha vida!
Após doze anos do nosso encontro, ele se foi.
Enterrei-o ao lado da cova da minha avó Joana.
E posso dizer que nada mais queria de Deus.
Via os meus filhos crescendo e recordava todos os momentos com o meu pai.
Lembrava-me da felicidade nos olhos dele por ter tantos netos.
Sem o meu pai, eu me sentia solitário, angustiado e saudoso.
Já não pensava mais em retornar para Angola, me questionava:
"Se houvesse uma oportunidade de retornar à sua aldeia, partiria?"
E a resposta que vinha de dentro de mim era "não".
Meus filhos já eram moços e moças, os nossos senhores estavam com saúde e continuavam com muita bondade no coração.
O senhor brincava sempre comigo, dizendo:
- Miguel, arruma uma noiva!
E eu sempre lhe respondia a mesma coisa:
- Sou feliz como estou, senhor.
Três anos após a morte do meu pai, eu ajudava a levar os móveis para o quarto da sinhazinha Lucien, filha de um fazendeiro da vizinhança.
O irmão mais moço do nosso senhor era idêntico a ele, em sabedoria e bondade.
Moço estudioso e fino tratava os negros como gente.
Ele acabara de se casar com a sinhazinha Lucien e morariam na fazenda do nosso senhor.
Fui requisitado para ajudar na mudança da nova sinhá, e fiquei surpreso quando descobri que a fazenda era a mesma da que eu havia deixado Joana.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 03, 2016 10:00 am

Fiquei mais surpreso quando soube que a sinhá Lucien era a própria Joana!
Continuava linda como um anjo do céu, e meiga, como sempre.
Ao chegar perto da carruagem que eu conduzia, ela me olhou e disse, sorrindo ao senhorzinho:
- Engraçado, eu tenho a impressão de conhecer esse senhor.
- O Miguel? Impossível, faz mais de quinze anos que ele não sai da fazenda.
E, que eu saiba, é a primeira vez que você vem à nossa fazenda ou não é?
- Sim, é a primeira vez... - respondeu pensativa.
Na fazenda, ela olhava em direcção à senzala e olhava-me, como se no fundo de sua alma estivesse reconhecendo alguma coisa naquele lugar.
À noite, chamei Ritinha e Nalva e contei que Joana era a nova sinhá.
Surpresas e alegres, as duas se abraçaram, chorando.
Ritinha falou:
- Só pode ser coisa de Deus!
Temos a nossa boneca de louça junto a nós outra vez.
Todos os dias, Joana ficava horas observando o meu trabalho e falando coisas de sua vida na fazenda dos seus pais.
Ela os amava e falava da bondade de sua mãe e da saudade que sentia.
Eu rezava e agradecia aos deuses por saber que ela foi bem cuidada e agora tinha o futuro seguro com aquele jovem senhor.
Um dia, eu limpava as feridas de um animal, enquanto Joana, observando-me, disse:
- Miguel, vou confessar uma coisa:
Tenho a nítida impressão de que já vivi nesta fazenda e que conheço você não sei de onde.
Sinto-me tão bem na senzala, parece que já morei lá.
É uma sensação de felicidade e de saudade.
Olho para você e sinto saudade de algo que não me lembro.
Não conte isso a ninguém, senão vão pensar que eu estou louca, mas é isso que sinto, Miguel.
- Seja como for, sinhá, esta casa é sua, e eu sou seu servo.
Pode contar comigo para qualquer coisa e não se acanhe de gostar da senzala.
Todos os escravos desta fazenda, eu sei, amam a senhora.
E eu também vou confessar algo para a sinhá:
amo-a como a uma filha verdadeira.
Jogando as trancas loiras, ela se levantou, rindo.
- Miguel, vou à senzala conversar com tia Rita e tia Nalva.
Se você encontrar goiabas vermelhas, pode trazer algumas para mim?
As frutas que você colhe, não sei por que, são diferentes das outras.
Ela saiu com o seu jeito de menina, e eu, com o chapéu na mão, agradecia a Deus pela felicidade de Joana.
Nunca lhe poderia contar a verdade. Ou poderia?
Sim, talvez Deus estivesse me dando a oportunidade de reparar o mal que fiz àquela menina, separando-a dos seus verdadeiros pais.
Eu já havia aprendido com os guias e mensageiros de Deus o que é a Lei do Retorno.
Eu estava tendo uma chance de aplicar essa lei.
Só não tinha pensado ainda em como fazer.
Os pais de Joana certamente viviam ainda no tal lugar chamado França.
Ela me contou que o senhorzinho, antes de vir ao Brasil e casar-se com ela, morava e estudava na França.
- Miguel, o que se passa, homem de Deus? - Gritava o senhor junto a mim.
Virei-me para o senhor, ajeitando o chapéu na cabeça.
- Perdão, senhor, eu não o vi chegando.
- Chamei-o três vezes, mas você parecia uma estátua.
O que se passa?
Conheço-o e sei que você deve estar com um problema muito sério.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 03, 2016 10:01 am

- Senhor, a França fica muito longe daqui?
Rindo, o senhor respondeu:
- De navio, hoje, vinte e poucos dias.
E até já sei por que você me perguntou isso.
A Lucien deve ter comentado que pretendo levá-la para conhecer a França no próximo ano, não foi isso?
Fique tranquilo, eu levo e trago a sua sinhá, Miguel.
E batendo nas minhas costas, o senhor afastou-se, rindo.
Não importa o que possa me acontecer, chegou a hora de aplicar as lições da senzala.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

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