LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 04, 2016 11:09 am

Capítulo XIII - A CONFISSÃO
Naquela tarde, dirigi-me ao velho cemitério onde descansavam o anjo chamado vovó Joana, além do meu amado pai, muitos amigos, e alguns dos meus filhos.
Andei de um lado para o outro, a solidão do campo santo me inspirava paz e, ao mesmo tempo, coragem.
Tocava na cova de cada ser amado, as lágrimas desciam saudosas, cada um deles era um pedaço de mim.
Já não guardava tanta revolta em meu coração, como no tempo de minha juventude; a vida, por mais dura e severa que seja com um filho de Deus, também ensina e ajuda cada um de nós a ser mais humilde e paciente.
Sentei-me ao lado da cova de vovó Joana e relembrei o seu rosto, seu sorriso, sua voz calma, lembrava de todos os seus conselhos.
Suspirei e falei em voz alta:
- Anjo de Deus, venha me acudir... eu preciso tanto dos seus conselhos.
O que fazer, meu Deus?
Sei que é chegada a hora, preciso encontrar o jeito certo de agir, não posso trazer mais infelicidade para o coração dessa menina.
Recostei-me no arbusto que agora recobria a cova da vovó Joana.
De olhos fechados, tentava imaginar o que aconteceria com Lucien.
Não temia o castigo que me poderia ser aplicado, pois o castigo e o peso maior já carregava em minha consciência, não poderia existir outro maior.
Dizia para mim mesmo:
"Estou pronto para receber qualquer castigo com humildade e resignação".
Tinha sido tão feliz nestes últimos tempos, recebi tantas bênçãos de Deus...
Agora podia praticar abertamente a minha fé, pois o senhorzinho concedia a tarde de sábado para todos os escravos cultivarem a sua religião.
De vez em quando, ele ia observar os trabalhos dos escravos e se mantinha numa posição de muito respeito.
Todas as entidades cumprimentavam-no respeitosamente, e não tinha um só negro naquela fazenda que não o amasse.
Todos os domingos vinha um sacerdote celebrar missa na capela da casa grande, o senhorzinho permitiu aos escravos que se sentassem no terreiro da casa grande para ouvir a pregação do sacerdote.
Eu não perdia uma missa e, comparando os ensinamentos do sacerdote, reparava que só mudava a linguagem, os ensinamentos eram muito parecidos.
Assim, encostado no arbusto, logo adormeci e comecei a sonhar que estava com meu pai, chegando em nossa aldeia.
Corri para ver a plantação de dendê e fiquei boquiaberto com a quantidade de palmeiras que tomavam conta da mata.
Tudo estava diferente, não reconheci nenhum dos homens que conversavam sentados embaixo de uma palmeira carregada de cocos amarelos da cor do ouro.
Fiquei parado, um nó me apertava a garganta, meu pai chegou mais perto e me disse:
- ...Meu filho, nós mudamos, eles também mudaram, mas somos os mesmos; vá, abrace seus irmãos!
Não procure os seus verdadeiros tesouros entre os homens, procure em seu coração.
Vamos, alegre-se!
Você sonhou tanto em vir até aqui, agora está em casa.
Vamos rever onde ficava nossa casa.
Nada mais restava no lugar da casa, a não ser poucos pés de palmeira e alguns destroços.
Meu pai, com o braço em torno dos meus ombros, disse-me:
- Aqui eu passei uma parte de minha vida, foi aqui que pude semear um pouco de mim mesmo.
O resultado foi que colhi muitos frutos bons, como você.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 04, 2016 11:10 am

Emocionado, não conseguia falar, apenas me perguntava:
"Onde está minha mãe?
Cadê meu avô e meus irmãos?"
Como se ouvisse minhas perguntas, meu pai me respondeu:
- Eles estão guardados em seu coração!
Tudo o que guardamos em nosso coração, no cofre da alma, fica em segurança, meu filho.
Um dia você vai poder se encontrar com todos eles.
De repente, já me via na senzala com a cabeça no colo da vovó Joana; chorava enquanto ela alisava minha testa e falava:
- Miguel, preste atenção mais uma vez no que vou lhe dizer:
nunca duvide de Deus, aproveite, meu filho, todas as chances que Ele lhe der.
O maior presente que você recebeu Dele foi sua vida, zele sempre por ela.
Deus, meu filho, prepara o nosso caminho de uma forma correta e justa.
Você está tendo uma grande oportunidade de reparar a única coisa errada que fez nesta vida, contando a verdade.
Conte toda a verdade para seus senhores, e tenho certeza de que eles saberão como agir para com a inocente menina.
Não carregue esse fardo para seu túmulo, meu filho.
Os pais da menina vivem sem conhecer uma verdade que somente você pode contar.
É chegada a hora de aplicar as lições da senzala, e Deus há-de ser misericordioso contigo, pois Ele é Luz e Verdade.
Acordei assustado.
Uma corrente de vento soprava no campo santo de um lado para o outro, e já anoitecia.
Passei a mão pela testa, estava suando frio, senti aquele cheiro de ervas misturado com flores - era o cheiro da vovó Joana.
Ela estava ali, lembrava-me do sonho e parecia ainda ouvir todas as suas palavras.
Meu pai estava a meu lado também, todos estavam ali.
Pediria a protecção das entidades e logo mais procuraria os senhores e faria a minha confissão.
Já estava escurecendo quando voltei à casa grande; o feitor veio ao meu encontro, dizendo:
- Homem de Deus, tem gente precisando dos seus remédios e você sumiu!
- Desculpe-me, senhor Ernesto, a minha falta de atenção.
Vou com o senhor agora mesmo ver os doentes.
Fiquei até as dez horas da noite limpando e tratando das feridas de alguns trabalhadores, usando unguentos nas picadas de insectos em outros trabalhadores da lavoura.
Terminada minha tarefa, saí andando lentamente, observando o céu estrelado, o sereno da noite sobre as plantas que exalavam um cheiro divino.
Pensava em meus irmãos que trabalhavam na lavoura e sabia o quanto aquilo era difícil para eles.
Na lavoura é comum as pessoas se machucarem e serem picadas até por cobras, escorpiões e outros bichos.
Eu tinha sempre à mão remédios preparados para essas emergências.
De vez em quando um feitor vinha me buscar às pressas para cuidar de picadas de cobras venenosas, graças a Deus, sempre dava tempo de acudir os irmãos; nunca deixei um "o negro morrer pela picada de nenhuma cascavel, o remédio estava ali, à mão.
Lembrava-me do dia em que, ainda muito jovem, acompanhei a avó Joana em busca de umas batatas para preparar remédios.
Presenciei de longe a luta entre uma cascavel e um teiú:
a cascavel picou o teiú na cabeça, o bicho saiu rápido e começou a cavar uma daquelas batatas.
Comeu uma certa quantia, e a avó Joana então me ensinou:
- Para combater veneno de cascavel, aquela batata é a indicada.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 04, 2016 11:10 am

Ensinou-me que precisamos andar pelas matas com muito cuidado e respeito, observar o comportamento de cada animal, da formiga às onças, pois cada ser tem o seu instinto natural de defesa.
Assim, aprendi a colher e preparar o antídoto contra venenos.
Cada cobra venenosa tem sempre uma batata, uma raiz ou uma erva que é o tratamento certo; é preciso conhecer tanto as cobras quanto os remédios.
Com todos esses pensamentos cheguei em frente ao barracão onde morava Jade, Ritinha e os filhos deles.
Encontrei Nalva, que saía de lá.
As duas eram amigas inseparáveis, não tinha uma noite que, após as tarefas, elas não ficassem conversando horas e horas a fio.
Brincava com elas, perguntando onde arrumavam tantos assuntos para ficar todos os dias conversando sem parar.
E eu sempre ouvia a mesma resposta:
- Amigos têm sempre o que falar um para o outro, e se não tiver um assunto bom, a gente inventa - e gargalhavam.
Apesar de cativos, todos os escravos guardavam o dom da alegria em seus corações.
Assim que Nalva me viu, correu até mim perguntando:
- Alguma coisa mais grave, Miguel?
Já é tarde e você ainda está com seus remédios aí nas mãos.
Suspirei e respondi:
- O doente em estado mais grave hoje sou eu, Nalva!
Assustada, Nalva me tomou pela mão e disse-me:
- Vamos lá em casa!
O que é que você está sentindo, Miguel?
Pelo amor de Deus, me fale!
Arrastou-me até o seu barraco, me fez sentar e, olhando-me, falou:
- Te conheço bastante para saber que alguma coisa não está certa.
Vou chamar a Ritinha, e nós três vamos conversar.
Sem esperar resposta, saiu correndo, voltando em seguida com Ritinha, que também estava assustada.
Nós três ficamos sentados perto do fogão a lenha, que ainda estava aceso.
Nalva pôs café em três canecos para tomarmos, os três se entreolhavam, e foi Ritinha quem falou:
- Miguel, pelo amor de Deus, o que está acontecendo?
Engoli o café e respondi:
- Vou esperar até sábado, falarei com uma das nossas entidades e aí vou procurar os nossos senhores e contar toda a história de Lucien.
Não posso mais carregar esse peso nos meus ombros.
Se Deus me concedeu esta chance, colocando a minha pequena Joana diante de mim, tenho por obrigação confessar o meu crime, contando-lhe toda a verdade sobre o seu nascimento.
Nalva e Ritinha arregalaram os olhos e as duas falaram ao mesmo tempo:
- Miguel, pelo amor de Deus, não!
Você não pode fazer isso!
O que poderá acontecer a você, e mesmo a Lucien?
Os pais dela são aqueles que ela conheceu.
Os filhos de quase todos os negros mundo afora por acaso sabem quem são os seus pais?
Ou onde estão os seus pais? - gritou Ritinha.
- Você mesmo, Miguel, viveu quase toda a sua vida longe dos seus pais!
Uma revelação dessas, agora, pode custar a sua vida.
Pelo amor de Deus, deixe as coisas como estão.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 04, 2016 11:10 am

Ritinha ajoelhou-se, chorando, e pediu entre lágrimas:
- Miguel, pelo amor dos nossos pais, não faça isso!
O que você fez foi dar a vida a ela; se fosse outro, a teria matado naquele dia.
No entanto, você arriscou a sua vida para salvá-la.
Deixe tudo como está.
- Ritinha e Nalva, e os ensinamentos de nossas entidades?
Eles não valem nada? - respondi.
Eu recebi a confirmação da minha decisão hoje; dormi no cemitério e sonhei com a avó Joana me pedindo para fazer a revelação aos senhores.
Mesmo assim, vou esperar até sábado, conversarei com um dos nossos mentores; sei que eles vão me ajudar.
Estou pronto para qualquer castigo que me couber no corpo, porque tenho a certeza de que me libertarei na alma.
Não fiquem preocupadas, nenhuma de vocês será citada nessa história, o único responsável sou eu.
Assim transcorreram os dias da semana, que me pareceram uma eternidade.
A lua iluminava o terreiro, que estava todo enfeitado de flores e ervas colhidas das plantações em volta dos nossos barracões.
Os senhores estavam com visitas, que quiseram acompanhar de perto os nossos trabalhos.
Sentados em suas cadeiras de balanço, eles observavam e comentavam entre si o desenvolvimento dos trabalhos.
Todas as entidades ali eram maravilhosas, jamais poderíamos dizer que existia uma melhor que outra.
Os médiuns (ou cavalos, como eram chamados naquele tempo - pois o cavalo representava o transporte, e o guia precisa de um transporte para chegar até nós) eram confiáveis.
Ninguém ali precisava aumentar, inventar ou criar ilusões espirituais.
Naquele tempo não havia tantas mistificações, como vemos nos tempos de hoje.
Naquela época, os escravos temiam mentir para os senhores, facilitando para os guias um médium saudável e confiável espiritualmente.
A chegada, naquela noite, foram dois irmãos africanos (pretos velhos hoje).
Antes de me dirigir a um deles, fui chamado pelo pai João de Angola.
Quem incorporava a entidade era a Ritinha.
Ele me recebeu sorridente, pediu que me sentasse à sua frente, pois tínhamos muitas coisas para conversar.
Começou a falar comigo assim:
- Pai João de Angola, meu filho, não está aqui para lhe mostrar o que você deve ou não fazer de sua vida.
Eu estou aqui para ajudar você naquilo que deseja fazer de sua vida.
Deus já lhe mostrou o caminho e o que você deve fazer.
Eu o ajudarei a chegar até o seu caminho, mas a decisão será sua.
Os seus afazeres são suas obrigações, não dos outros.
Ninguém jamais poderá desfazer aquilo que você fez, a não ser você mesmo.
Nisso, eu já estava chorando, e ele me acalmou, dizendo:
- Um homem foi levado à cruz para nos salvar sem ter pecado algum e você deve sustentar a sua cruz para salvar a si mesmo por seus pecados.
Pedi forças e coragem para começar a preparar o caminho a ser percorrido, o caminho da verdade.
Recebi muitos conselhos.
Interessante que, aos pés dele, me enchi de tanta coragem que não via a hora de poder contar para meus senhores tudo o que aconteceu no dia do nascimento de Lucien.
Fui orientado como proceder nas minhas revelações.
Voltei ao barracão, Ritinha e Nalva foram atrás de mim.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 04, 2016 11:10 am

Elas tinham esperança de que eles tivessem me aconselhado a silenciar o meu erro, no entanto, foi o contrário.
Eu estava em paz; não importava o que os senhores fizessem, eu não seria abalado espiritualmente.
Desabafei para as duas:
- Não vejo a hora de chegar amanhã.
Vou pedir ao nosso feitor, assim que terminar a missa dos senhores, para falar com eles.
Não vejo a hora de tirar este peso do meu coração.
As duas mulheres choravam e balançavam a cabeça.
Eu as animei, dizendo-lhes:
- Tenho certeza de que tudo var sair melhor do que eu penso.
Naquela noite dormi tranquilo, me senti leve e digno.
No raiar da aurora eu já estava de pé, cuidando dos meus afazeres.
Fui colher as ervas e preparar um remédio para uma criança que estava com febre e diarreia.
O sol já apontava no céu quando o feitor veio até a mim.
Então, aproveitei a sorte e pedi:
- Senhor Ernesto, gostaria de lhe pedir um grande favor.
- Fale, Miguel, se estiver ao meu alcance... - respondeu-me ele.
- Eu preciso falar com os nossos senhores após a missa.
É muito importante, senhor.
Sei que hoje é o único dia da semana que eles costumam ouvir os pedidos dos negros.
- Mas por que os dois senhores?
Um não basta, Miguel?
- Senhor Ernesto, é que o assunto é muito delicado e muito pessoal, tem de ser com os dois.
- Hum! - respondeu o senhor Ernesto, batendo de leve nas minhas costas.
Acho que deve ser algum pedido de casamento.
Se for isso, já era tempo, Miguel, vou falar com eles.
Fiquei esfregando as mãos, Ritinha e Nalva me cercaram.
Ritinha antecipou-se, dizendo:
- Miguel, ainda é tempo de voltar atrás, sei que os nossos Orixás não erram nunca, mas nós erramos, Miguel.
Pense bem antes de tomar essa decisão, nós tememos por você.
Para mim, você é meu irmão querido.
Você pode imaginar o que estou sentindo, Miguel?
Abracei Ritinha e disse-lhe:
- Você é a minha irmã querida, e sei que me quer muito bem.
Por isso mesmo, me deixe fazer o que é certo, só assim me sentirei em paz.
Naquele dia, o sermão do sacerdote foi muito bonito.
Ele falou do reino de Deus, que na casa do Pai havia muitas moradas para todos nós.
Acrescentou que Jesus não via a cor da pele, mas a cor da alma, que poderia haver entre os negros da senzala espíritos iluminados, que a nossa diferença era apenas a missão.
Assim que terminou a missa, o sacerdote e os senhores da casa tomaram café com bolos, pães e outras guloseimas feitas pelas negras da casa grande - elas faziam tudo aquilo com muito gosto e orgulho.
Fiquei por ali mexendo nos arreios e esperando ser chamado pelo feitor.
Vi o sacerdote subindo na carruagem que o levava de volta à sua igreja na cidade, e os dois senhores ao lado das sinhazinhas.
Os sinhozinhos sentaram-se na varanda da casa em suas cadeiras de balanço forradas com couro de carneiro, e vi quando o mais velho deu sinal para o feitor, e este gritou pelo meu nome, dizendo:
- Miguel, pode vir falar com os senhores.
As duas sinhazinhas se retiraram, e eles estavam sorridentes.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 04, 2016 11:10 am

- Ande, Miguel, venha até aqui.
Sente-se aí - me falou o senhor apontando um banco.
Eu estava suando e tremendo, apesar de toda a minha preparação para enfrentar aquele momento.
O senhor caçula, rindo, falou:
- Miguel, homem de Deus, que tremedeira é essa?
Parece que viu um fantasma!
Peça logo o que você deseja, é se casar?
Sentei-me no banco e, olhando para o meu senhor mais velho, disse.
- Senhor, eu estou aqui para fazer uma grande confissão.
Os dois se entreolharam, sérios.
O senhor tossiu nervosamente e me respondeu:
- Seja o que for, Miguel, você é um escravo de muita confiança por isso sei que tudo o que vem de você é verdadeiro.
- O que tenho a revelar é uma história longa, porém verdadeira.
Sei que vou causar um grande desgosto para os senhores, mas é chegada a hora de falar.
E, como se estivesse vivendo tudo novamente, fui relatando os acontecimentos do passado.
Eles me ouviam em silêncio.
Após ter confessado todo o meu segredo, levantei a cabeça.
O senhor mais velho estava pálido e tremia um pouco os lábios.
O senhor mais jovem pegou um copo de água, oferecendo a ele, mas também estava pálido.
O senhorzinho mais novo veio na minha direcção e deu-me um soco com tanta violência que deslocou o osso do maxilar do meu rosto.
- Miguel, seu porco nojento, porque fez isso?
O senhor mais velho levantou-se, segurando o irmão e pedindo ao feitor para me levar dali.
O feitor estava apavorado com o que havia presenciado.
Naturalmente ele não tinha ouvido a minha revelação, mas de longe viu a reacção que provoquei nos meus senhores.
O feitor, senhor Ernesto, também estava pálido, e comentou:
- Nunca vi o senhorzinho agredir ninguém.
E fez isso justo a você, que é considerado um escravo-modelo!
Miguel, por Nosso Senhor Jesus Cristo, o que você foi pedir aos senhores para deixá-los assim?
Não posso acreditar no que acabo de ver - acrescentou ele.
Saí chorando, nada respondi.
Chorava não pela minha dor, mas pela dor que causei àqueles dois bons senhores.
Ritinha e Nalva ficaram apavoradas quando me viram sangrando e com o queixo caído.
Correram para preparar os remédios.
Deitei-me numa rede no barracão da Ritinha.
Ali também me preparava para assumir todas as consequências do meu acto covarde.
Sabia que daquele dia em diante a minha vida passaria por uma nova mudança, o castigo que viesse ainda era pouco para o que eu tinha feito àquela família.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 04, 2016 11:11 am

Capítulo XIV - A SURPRESA
Fui tratado pelas duas mulheres, que choravam sem parar.
O feitor veio saber como eu estava e, olhando para mim, disse-me:
- Eu não posso imaginar o que você falou aos nossos senhores.
Só estranho que logo você, Miguel, que não tem boca para ofender ninguém, tenha deixado os dois senhores naquela situação.
No fim da tarde, o feitor veio me buscar; os senhores queriam falar comigo.
Fui levado até o paiol de milho, os senhores pediram para o feitor se retirar e me deixar a sós com eles.
O senhorzinho mais velho começou a falar:
- Miguel, se você nos contou mesmo a verdade, e é o que vamos procurar saber, a mãe de Lucien possivelmente é nossa irmã por parte de pai.
Sabe o que isso quer dizer?
Você desgraçou muitas vidas e fez com que o tio e a sobrinha se unissem num casamento pecaminoso.
Amanhã você vai nos acompanhar até a fazenda dos pais de Lucien, vai confirmar toda essa história na frente deles e, se a mãe de Lucien confirmar que tudo isso realmente aconteceu, teremos de tomar outras decisões, inclusive no que diz respeito a você.
Eu não acreditava no que acabara de ouvir, meus Orixás e meu Deus!
Não era possível.
O que eu ouvia não podia ser verdade!
Eu tirei Lucien da sua família e, agora, destruí a vida dela novamente, pois pelas leis de Deus e dos nossos orixás um tio não pode se unir a uma sobrinha, é um incesto!
O senhorzinho marido de Lucien estava abatido, encontrei nos seus olhos um brilho de ódio, sabia que a vontade dele era me matar.
O senhor mais velho também estava abatido, decepcionado e triste, eu pude ler isso em seus olhos.
No outro dia logo cedo as carruagens partiram, os feitores e os escravos da casa estavam assustados.
Eu, com o queixo enfaixado sentei-me cabisbaixo ao lado do cocheiro.
Ouvi um dos negros comentando baixinho com o outro:
- Será que vão vender o Miguel?
O outro respondeu:
- Ninguém está entendendo nada, justo o Miguel!
Andamos pelas estradas, que estavam floridas.
Era primavera, muitos pássaros voavam de um lado para o outro; eu, encolhido, observava a paisagem como se estivesse dormindo.
Tudo me parecia um sonho, ou melhor, um pesadelo.
Chegamos à fazenda dos pais de Lucien.
Eles receberam os senhores com muita alegria, a mãe ficou procurando por Lucien e, assim que se certificou de que ela não tinha vindo ficou calada, pude ver lágrimas disfarçadas em seus olhos.
O senhor ordenou ao feitor que me vigiasse até a sua volta.
Fiquei sentado num tronco de árvore, e o senhor Ernesto, num tom amigável, me perguntou:
- Miguel, por Deus me conte o que você fez para irritar tanto assim os senhores?
Me fale, quem sabe eu posso te ajudar, posso intervir a seu favor junto aos senhores.
Começo a desconfiar que fizeram alguma intriga contra você e que agora você está pagando por algo que não merece.
Nunca vi esses senhores tomarem uma atitude dessa nem com um animal, ou com o pior escravo da fazenda.
Agora, justo com você, que é fiel como um cão... não consigo entender.
- Senhor Ernesto - respondi -, não se preocupe comigo.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 04, 2016 11:11 am

Eu não estou sendo vítima de ninguém a não ser de mim mesmo.
Pode ficar sossegado, ninguém naquela fazenda fez nada contra mim.
Após umas duas horas de espera fui chamado até a varanda da casa grande, a sinhazinha me olhou de cima a baixo e, por fim, disse:
- Realmente este negro cuidava dos cavalos e dos remédios dos nossos escravos uma vez por semana.
Sem dúvida nenhuma é ele mesmo; e realmente no dia em que a menina apareceu na porta da minha casa ele estava no barracão, cuidando das ervas.
A mulher chorava, o senhor marido dela estava com o rosto em brasas e levantou-se, gritando em minha direcção:
- Por que não matamos esse porco de uma vez?
O senhorzinho, então, respondeu-lhe:
- Ainda temos de confirmar com o meu suposto cunhado se realmente o que ele nos contou é verdadeiro sobre o parto da minha suposta irmã.
Só quando tivermos certeza absoluta de que a mãe de Lucien é nossa irmã vamos decidir o destino dele!
Nunca procurei descobrir as aventuras do nosso pai, mas agora a situação é outra.
Ele continuava falando:
- Comprei aquelas terras do meu suposto cunhado a fim de ajudar a sua mulher e as crianças.
Ele me disse que voltariam para a França, como de facto voltaram; e lá ela tem parentes que sei que olham um pouco por ela.
Aqui ele a maltratava muito, bebia demais e perdia tudo no jogo e com mulheres, estava arruinado financeiramente.
As últimas notícias dele, obtivemos antes de o meu irmão vir para o Brasil.
Soubemos que ele parou de beber e que mudou muito.
A mãe de Lucien é filha de uma viúva bem situada em Paris, e soubemos há poucos anos que ela teve um caso com o nosso falecido pai, e que desse romance havia nascido uma criança, que tememos ser a mãe de Lucien.
E o senhorzinho começou a falar do passado, que eu tanto conhecia:
- A irmã desse meu suposto cunhado é uma mulher maravilhosa, viveu nestas terras como uma heroína, moça fidalga, deixou todo conforto para trás acompanhando o esposo para o Brasil, um país estranho, onde não tinham parentes ou amigos.
Fui colega de faculdade do marido dela, um sujeito extraordinário, com um coração grande.
Ele teve alguns problemas na França, fazia parte de um movimento não reconhecido pelas leis daquele país.
Conheci a esposa dele quando ainda estavam noivos; fui a seu casamento e lamentei muito a sua saída tão repentina para o Brasil.
Mal sabia eu que também chegaria a minha hora de sair da França.
Hoje estou vivendo nas mesmas terras onde ele viveu, e sei que foram muito felizes aqui.
Pena que meu amigo morreu tão jovem, não deixando nenhum herdeiro.
Reencontrei a sua esposa em Paris, ela me contou que o irmão e a cunhada estavam vivendo no Brasil em sua fazenda e que o lugar era uma paraíso, tirando os sofrimentos dos escravos das redondezas.
Na época em que a encontrei, ela já estava conformada com a viuvez, estava até de casamento marcado com um próspero fazendeiro da região.
Cinco meses mais tarde fui convidado para o seu segundo casamento.
Foi no casamento dela que conheci a minha esposa.
- Cinco meses depois eu recebi uma intimação para depor num processo com o qual jamais estive envolvido.
Consegui por intermédio da nossa amiga embarcar para o Brasil e me livrar do processo injurioso contra a minha pessoa.
Foi assim que conheci o irmão dela.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 04, 2016 11:11 am

Já vim com esse propósito:
comprar as suas terras e ajudá-lo a retornar à França
- Meu irmão contou-me que ela teve um casal de gémeos, após tantos anos de espera por um filho.
Ganhar dois filhos de uma só vez é uma bênção dos céus.
Eu ouvia os senhores conversando e mesmo de cabeça baixa observava o senhorzinho caçula.
Ele estava abatido, revoltado, fora de si; eu daria a minha vida para não ver aquela tristeza tomando conta dele.
Casado há tão pouco tempo, feliz da vida com esposa a quem amava loucamente e, de repente, receber um golpe como esse.
Eu me sentia um monstro e, ali naquele canto, encolhido, remexia na minha consciência:
os negros falam dos brancos, mas não sabem quanto mal já fizeram ou estão fazendo a eles.
Como pude, meu Deus, ser tão perverso, tão mesquinho com uma criança?
O senhor dono da casa levantou-se e, aproximando-se do senhorzinho caçula, disse-lhe:
- Eu irei com vocês investigar toda essa história.
Será que não estamos fazendo tempestade num copo d'água?
Pode ser que Lucien não seja sua sobrinha, e aí nada tem de errado o casamento de vocês.
O senhorzinho, com os olhos vermelhos, respondeu gritando:
- Mas e se for?
Me fale o senhor o que devo fazer?
A mãe de Lucien chorava debruçada num canto da mesa; a situação era de facto muito delicada.
Ficou resolvido que viajariam dentro de quinze dias, que a mãe de Lucien ficaria na fazenda com as duas sinhazinhas até eles retornarem da França.
O senhor mais velho, olhando para mim, disse num tom ríspido e magoado:
- Levante-se traidor ingrato! Vamos seguir.
Combinaram que voltariam a se encontrar para acertar os detalhes da viagem.
Subi na carruagem ao lado do feitor e me sentia um pouco morto por dentro, a fala não saía, a minha boca queimava.
O feitor me olhou de cima abaixo e balançou a cabeça, entristecido e penalizado com a minha situação - ele era um homem de bom coração.
Fizemos todo o percurso em silêncio, na minha cabeça vinha a imagem da minha bondosa sinhá.
Então ela tivera gémeos também, era coisa de família.
Veio-me a lembrança do pai de Lucien:
era um homem violento e sem coração.
Haveria mudado? Foi o que escutei.
Ele espalhou tantas desgraças entre nós, era tão diferente de sua irmã... seria possível uma pessoa como ele mudar?
Chegando à fazenda, fui directo ao barracão.
Ritinha e Nalva vieram correndo até mim:
- Miguel, pelo amor dos nossos pais, nos fale o que aconteceu?
Estávamos aqui desesperadas, todo mundo está falando que os senhores iam vender você.
Fale, Miguel, o que houve?
Eu me sentia cansado, exausto, e com muita dor.
Calmamente respondi para as duas:
- Por favor, me dêem alguma coisa para tirar esta dor, me deixem descansar um pouco.
Ainda não aconteceu nada do que precisa ser feito, quando estiver melhor e podendo falar, falo com vocês.
No outro dia, eu cuidava das minhas obrigações quando Lucien apareceu repentinamente.
Estava com as faces coradas e tinha os olhos marejados.
Pegando-me pelos braços, ela suplicava:
- Miguel, por Deus me fale a verdade, não minta para mim!
Foi o meu marido que fez isso com você?
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 04, 2016 11:11 am

Foi ele quem te bateu, Miguel?
Eu, me soltando de suas delicadas mãos, respondi serenamente:
- Sinhazinha Lucien, eu juro pelos meus orixás, seu marido nada fez contra mim.
Por favor, não escute o que falam os escravos; eles às vezes falam demais.
Eu saí com os senhores, e eles já estavam comentando que iam me vender, tudo isso é boato.
Suspirando, ela respondeu:
- Bem, isso é verdade.
Eles estavam comentando que você seria vendido, eu não acreditei, conheço o meu marido e o meu cunhado, você é o escravo favorito da fazenda, eles jamais fariam nada contra você.
Meu cunhado já falou diversas vezes que você é o braço direito desta fazenda.
Me fale a verdade:
o que aconteceu com o seu rosto, que está inchado?
- Foi o coice de um cavalo, sinhá, apenas isso.
- O que você foi fazer com o meu marido e o meu cunhado na fazenda dos meus pais?
Me fale, eu fiquei triste em não poder acompanhá-los.
Estou morrendo de saudades dos meus pais.
- Eles foram tratar de negócios, sinhá, me levaram como reserva se precisassem de mim para arrumar uma carroça ou um arreio pelos caminhos.
As estradas ainda estão muito ruins, é o começo da primavera, ainda tem lugar que não secou bem.
Torcendo as mãos e de cabeça baixa, ela falou:
- Eu queria tanto ver meus pais e fiquei triste de não ter acompanhado meu marido.
Nisso o senhorzinho vinha em nossa direcção, chamando por ela.
- Eu só estava conversando com Miguel um pouquinho, meu amor.
- Vamos para casa que está escurecendo.
Vai indo que já lhe acompanho, vou só falar um pouquinho com Miguel.
Assim que Lucien afastou-se, o senhor, com os olhos crispados de ódio, me pegou pela gola do camisão e disse-me:
- Seu negro traiçoeiro, se pegar você mais uma vez conversando com Lucien lhe corto a língua em pedaços.
Fique longe dela!
De hoje em diante, até segunda ordem, você vai para o campo todos os dias.
E quando estiver na fazenda, fica proibido de circular perto dela.
E ai de você se pensar em fugir.
Baixei a cabeça e apenas respondi:
- Sim, senhor.
No outro dia cedo já estava no meio dos negros que iam para os campos da lavoura.
O feitor, senhor Ernesto, que tomava conta dos afazeres da fazenda, ficou cismado com a decisão dos senhores.
Para os dois feitores da lavoura, o senhor recomendou:
- Ele será mais útil lá com vocês; qualquer reclamação a respeito dele, comunique e não o deixe escapar do meio de vocês.
Até segunda ordem, ele vai acompanhá-los na lavoura.
Um dos feitores, montado em seu cavalo, chegou perto de mim e perguntou-me:
- Miguel, sei que você está na fazenda desde menino e nunca pisou na lavoura, sei que foi reprodutor, é curandeiro, amansador de cavalo, parteiro e outras coisas mais.
O que aconteceu agora que, de uma hora para outra, os senhores te empurram para a lavoura?
- Senhor feitor - respondi -, eu sou apenas um escravo da fazenda.
Os meus senhores têm toda liberdade de me colocar em qualquer tarefa.
- Bom, se é assim o que você pensa, acho que vamos nos dar bem, pior se você estivesse revoltado como alguns que não querem vir para a lavoura.
Pensando bem, vai ser muito bom para a saúde da negrada, não precisarem esperar tanto tempo para serem curados de suas feridas.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 05, 2016 10:16 am

A partir de amanhã, traga toda a sua tralha de curativos, isso vai ajudar a todos nós.
Eu não estava acostumado com o trabalho do campo, e no fim do dia mal conseguia me manter em pé.
Assim que terminamos de limpar e guardar as ferramentas, o feitor me chamou, dizendo:
- Vamos seguir para a fazenda, depois do jantar você vai cuidar dos doentes.
Essa foi a ordem que recebi do senhor quando passou aqui esta tarde.
E recomendou que amanhã cedinho você se levante e vá colher as ervas e adiantar o preparo dos remédios, antes de seguir para o campo.
Sinto muito, Miguel - acrescentou o feitor - infelizmente, apenas obedeço ordens.
Sei que você está cansado, tanto quanto os outros, mas a ordem do senhor deve ser respeitada, eu não posso fazer nada por você.
De cabeça baixa, respondi:
- Não se lastime por mim, os senhores estão certos, os doentes precisam ser curados.
Quando terminei minhas tarefas com os doentes já era mais de meia-noite.
Deitei-me na minha rede e caí num sono pesado, parecia estar vivendo novamente no navio negreiro, o sentimento de medo pelo porvir era o mesmo.
Com o cantar dos galos me levantei e fui catar as ervas; retornei com os primeiros raios do dia.
Uns quarenta minutos depois ouvi o toque de levantar.
Saí do barracão levando os meus remédios, encontrei Ritinha com uma caneca de café e um pão de milho:
- Miguel, beba e coma isso.
Engoli o café rápido e coloquei o pão no bolso do camisão:
- Não posso me atrasar - respondi.
Ela ficou parada, e ainda vi as lágrimas descendo pelo seu rosto.
Seguimos nosso trajecto, os feitores montados em seus cavalos, algumas mulas que transportavam o nosso material de trabalho, água para os negros beberem e outras coisas usadas no campo.
Alguns negros cantavam pelo caminho, outros iam rindo e conversando.
Os mais jovens faziam planos para o sábado à tarde.
Eu ia calado, levando o meu material nas costas.
O feitor veio até a mim e pegou o saco, colocando nas costas da mula e falando bem alto:
- Guarde suas forças para trabalhar no chão, para a mula não custa nada levar esse peso.
Mesmo falando grosseiramente como deviam falar os feitores com os escravos, eu sabia que ele queria me ajudar, falava alto para mostrar a sua autoridade entre os negros.
No campo, tive oportunidade de conhecer a união e a força que tem um povo quando luta pelos mesmos objectivos ou está andando numa mesma trilha:
é um estendendo a mão para o outro.
Apesar do trabalho árduo, pesado e cansativo, aqueles homens brincavam, tiravam versos uns com os outros, dividiam suas cuias de água, um levantava o outro quando caía.
Se um estava triste, o outro logo animava com palavras de esperança e de consolo.
Na hora do almoço, assim que chegava a carroça trazendo a nossa comida, parecia uma festa.
Todos se sentavam juntos, comiam fazendo brincadeiras uns com os outros.
No final do almoço, todos agradeciam a Deus fazendo o sinal-da-cruz.
Assim se passou a primeira semana da minha nova jornada de trabalho.
Só ia dormir após ter cuidado de preparar todos os remédios e atender os doentes.
No sábado, antes de retornarmos do campo, o feitor me chamou e deu a seguinte ordem:
- Miguel, eu sou o seu feitor, obedeço ordens e passo as ordens dos senhores.
Recebi a ordem de que você não retorne directo para a fazenda, mas vá apanhar as ervas para usar na semana, sem desviar-se um metro do limite autorizado por eles.
E acrescentou:
- Até segunda ordem, todos vocês estão proibidos de tocar seus tambores no terreiro da casa grande.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 05, 2016 10:16 am

Os demais negros podem continuar ouvindo a missa aos domingos, menos você.
Imagino que eles não privaram os negros de ouvir missa para não intrigar o sacerdote.
Não imagino o que tenha acontecido de tão grave para os senhores estarem castigando você dessa maneira, Miguel - continuou o feitor. -
Bem, por fim, a ordem é:
você não deve mais circular em volta da casa grande, até segunda ordem dos senhores, e, por favor, não nos traga problemas.
Apesar de tudo, eu gosto do seu jeito, negro Miguel, não gostaria de ser obrigado a castigá-lo.
- Fique tranquilo senhor feitor, jamais desobedeci nenhuma ordem dos meus senhores e, se Deus quiser, jamais vou decepcioná-lo.
Me afastei com lágrimas nos olhos; o meu castigo estava sendo mais difícil do que eu imaginara.
Ficar isolado como um bicho, sem poder receber as bênçãos dos nossos guias e sem poder ouvir as palavras do sacerdote.
Quando a ordem foi dada para todos os meus irmãos fiéis e devotos dos nossos orixás, vi a revolta nos olhos deles.
Ouvi alguém comentando:
- ...Isso é culpa do Miguel, ele aborreceu os senhores, e agora todos nós pagaremos pelo seu erro.
Um outro irmão contestou:
- ...Não fique julgando sem saber o que fala!
Eu não acredito que essa ordem seja por causa do Miguel.
Se fosse assim, seríamos proibidos de ouvir a missa também.
- É, você tem razão, mas que tem alguma coisa errada - ah! - isso tem!
O sol já estava baixinho quando retornamos do campo.
Na entrada da mata avisei para todos em voz alta:
- Vou colher as minhas ervas, sigam com Deus, não se preocupe, feitor, antes do anoitecer estarei de volta ao meu barracão.
Entrei na mata e, ali sim, senti o gosto da liberdade.
Senti saudade da minha infância e juventude ao lado da avó Joana.
Mas, apesar de todo o sofrimento do momento, eu me sentia em paz comigo mesmo.
Estava escurecendo quando retornei.
Passei pelos feitores e me encaminhei ao barracão; Ritinha, Nalva e outras mulheres mais velhas estavam lá, sentadas à minha espera.
Ao me ver entrar, Ritinha correu até a mim, chorando:
- Miguel, por que nós não podemos mais receber os nossos orixás?
- Ritinha - disse eu -, ninguém proibiu você de receber os nossos orixás, simplesmente não podemos ir até o terreiro da casa grande.
Os nossos orixás estão aqui do nosso lado, você sabe disso.
O porquê de os nossos senhores tomarem essa decisão de não mais permitir a manifestação dos guias no terreiro da casa grande, só Deus é quem poderá nos dizer.
As outras mulheres foram para seus barracões, menos Ritinha e Nalva e, notei que elas queriam falar comigo a sós.
Nalva, então, começou:
- Miguel, não tivemos mais tempo de conversar, sei que alguma coisa muito mais séria aconteceu na fazenda do pai da sinhazinha.
Essa semana os pais dela vieram aqui, os senhores se trancaram toda a tarde, deixando a sinhazinha de fora.
O marido da sinhá Lucien está completamente mudado depois que você revelou a origem do nascimento dela.
Ele anda ríspido e bruto com ela, essa semana ela foi correndo até a senzala te procurar.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 05, 2016 10:17 am

Inventamos que você agora acompanha os negros na lavoura para facilitar o trabalho de cura deles.
Sabemos que isso não é verdade, mas o que poderíamos dizer e ela?
- As sinhás estão arrumando as roupas dos senhores, ouvi dizer que viajam nestes três próximos dias.
Vão os nossos dois senhores, ficando aqui o pai da sinhá Lucien cuidando das fazendas e dos negócios deles.
Diante da preocupação das duas mulheres, achei justo lhes contar o que ouvi na casa do pai da sinhá Lucien sobre a possibilidade de eles serem tio e sobrinha.
As duas ficaram sérias, mas logo Nalva respondeu:
- Entre nós, negros, até pai com filha se deitam sem saber.
Por que os brancos também não podem?
Ritinha logo entrou na conversa, dizendo para Nalva:
- Mulher, pare de falar bobagens!
Você não percebe a gravidade do caso?
Estávamos conversando baixinho quando ouvimos batidas à porta.
Abri, era o feitor com a seguinte ordem:
- Amanhã de manhã você deve deixar em ordem as duas carruagens mais novas dos senhores, eles vão viajar.
Preste atenção, Miguel:
amanhã, logo após o término da missa, os senhores vão até o celeiro para falar com você, esteja lá.
É só isso por enquanto, durma bem.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 05, 2016 10:17 am

Capítulo XV - A MUDANÇA
Com os primeiros raios da aurora, eu já estava polindo e lubrificando as rodas e os eixos das carroças.
Enquanto trabalhava, não podia deixar de pensar no que ainda estava por vir.
Quando ouvi o canto de encerramento da missa, corri para o celeiro e fiquei meio escondido entre os sacos de milho.
Vi a carruagem do sacerdote se afastando e, logo após, Lucien descendo as escadas da varanda.
Olhava de um lado para o outro, como se procurasse por alguém.
Meus olhos se encheram de lágrimas ao vê-la sofrendo daquele jeito.
Como eu a amava, meu Deus!
Será que fiz bem em confessar a verdade aos senhores?
A minha menina sofria, estava sendo castigada por algo que não tinha culpa.
O que eu poderia fazer?
Logo atrás dela veio o senhorzinho, ele pegou seu braço e a levou para dentro.
Os escravos se afastaram, os feitores, discretamente em seus postos, observavam de longe o que se passava.
Os senhorzinhos entraram no celeiro e logo me descobriram encolhido num canto.
O senhor mais velho, muito sério e desviando o olhar, começou a falar:
- Negro Miguel, nós somos obrigados a ir até a França tentar reparar um mal que você nos causou.
Reze para que o pai e a mãe de Lucien estejam vivos, reze mais ainda para que eles entendam o que você fez.
Mas todas as suas orações devem mesmo se concentrar no sentido de que Lucien não seja a minha sobrinha.
Não levarei em consideração toda a sua vida de trabalho e dedicação à fazenda.
Usarei a minha própria justiça com você.
A fim de evitar futuros problemas, na nossa ausência você ficará sob os cuidados do pai de Lucien, permanecendo na fazenda dele, até que regressemos com seu destino.
Arrume suas tralhas, pois ainda hoje você deve ir embora.
Esteja pronto logo após a almoço de vocês.
Os feitores vão conduzi-lo até lá, e não quero nada de falatórios com quem quer que seja.
Arrume suas coisas em silêncio e não deixe que ninguém perceba.
Antes de sair, o senhorzinho, marido de Lucien, olhou-me como se eu fosse um verme dos mais nojentos.
"Meu Deus!" - Caí de joelhos - "Como posso deixar os meus filhos, os meus irmãos e os restos mortais do meu pai e da minha querida avó Joana?
Deus, o que será de mim?"
O sol já cortava o meio do céu (depois do meio-dia) quando o senhor Ernesto chegou no meu barracão e me chamou, dizendo:
- Vamos lá, Miguel, temos de seguir viagem.
Até levar você e retornar vai estar escurecendo, e as estradas ainda estão ruins.
Saí discretamente, não levei quase nada, pois não tinha muita coisa a levar.
Sentado ao lado do feitor, observava em silêncio as flores que se abriam com a chegada da primavera.
O feitor parecia incomodado com a situação e, após uma meia hora de silêncio, falou:
- Miguel, seja o que for o que você tenha feito aos senhores, eu quero que saiba, nada tenho contra você e, pelo contrário, só lhe devo favores.
Quantos remédios você já preparou para a minha família?
Eu já me preocupo como vamos ficar sem você e sem os remédios.
Sinceramente, espero que você volte logo para a fazenda, e que tudo seja esclarecido.
Eu, particularmente, não acredito que você tenha feito nada de errado.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 05, 2016 10:17 am

Caso os senhores venham me perguntar algo sobre você, minhas informações serão:
"Miguel é o melhor e o mais correto negro desta fazenda, e tenho certeza de que todos os feitores e todos os negros pensam a mesma coisa, por isso não consigo entender o que está acontecendo".
Engraçado como uma palavra amiga ajuda as pessoas a se sentirem bem; as palavras amigas do feitor me deram forças, me consolaram ao saber que alguém via alguma coisa boa em mim.
De cabeça baixa agradeci ao feitor, deixando as lágrimas caírem dos meus olhos.
Ao chegarmos à fazenda, fui recebido pelo feitor de lá, que já me conhecia de vista.
- Desce, negro Miguel, e me acompanhe.
Vou te levar até o barracão que você vai dividir com os outros negros, a sua nova casa.
Olhei para o senhor Ernesto e vi que ele estava contristado em me deixar ali.
Acompanhei o feitor e logo entrava no barracão, que cheirava a mofo e a suor.
Haviam várias redes armadas dentro do barracão.
Ele me apontou uma no canto de uma janela e disse-me:
- Você vai ficar ali.
Fique aí e espere as ordens do seu novo senhor.
Assim que ele me passar as ordens, volto para comunicá-las a você.
Coloquei o saco no canto da parede e vi que alguns negros dormiam, alguns roncavam dentro de suas redes.
Aos domingos, o negro trabalhador do campo podia dormir à tarde.
Um deles me observava em silêncio, eu não sabia se falava com ele ou se esperava ele falar comigo.
Sentei-me na rede e fiquei parado.
O negro, então, se virando, perguntou-me:
- Você vem emprestado desta vez ou foi vendido?
Ao que eu respondi:
- Sinceramente, ainda não sei se fui emprestado ou vendido.
Vou aguardar para saber o que me espera.
- Eu me lembro de você quando vinha amansar os cavalos e preparar remédios aqui na fazenda.
Eu tinha uma sarna danada, me curei com aquela pomada que você preparou.
Nunca esqueci do bem que você me fez, só não esperava vê-lo aqui no meio de nós.
Você chama-se Miguel, não é verdade?
- Sim, eu me chamo Miguel.
Não me lembro de tê-lo visto por aqui.
- Eu ainda era um pivete - respondeu ele.
Me chamo Artur, este barracão aqui é onde ficam os negros que racham lenha e puxam a roda.
É o serviço mais pesado da fazenda, eu só estou admirado por que quem faz isso são os jovens e vejo que você já não é tão jovem assim.
Conte comigo, Miguel, no que puder te ajudar, farei com todo gosto.
Agradeci ao meu novo companheiro de sina a gentileza dele.
Fiquei pensando e matutando o que é a vida:
se você faz o bem, quem recebe esse bem às vezes esquece, mas se você faz o mal, quem o recebe dificilmente esquece, pois o mal é mais lembrado que o bem.
Que bom que esse jovem não havia se esquecido de mim.
Era noitinha quando o feitor veio me buscar.
Fui levado à presença do senhor, que me tratou como se eu fosse um animal selvagem.
Na minha frente, deu a seguinte ordem para o feitor:
- Se esse negro não rachar uma carrada de lenha até o meio-dia, fica sem o almoço.
Se ele não puxar seis cargas de mandioca na roda, fica sem o jantar.
Quero que você fique atento a todos os movimentos dele.
Esse negro tem parte com o demónio, ele age como as serpentes, em silêncio.
Aqui ele vai aprender a dar valor à vida.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 05, 2016 10:17 am

Aproximando-se mais de mim, olhou-me com desdém e falou:
- Se você tentar qualquer coisa aqui na minha fazenda, te cortarei um braço e uma perna e jogarei para os urubus comerem na sua frente!
Experimente me aborrecer ou me desafiar!
Mandarei buscar a sua ninhada (ele se referia aos meus filhos) e lhe mostrarei o que sou capaz de fazer.
Até a volta dos seus senhores, você será meu escravo, vou lhe ensinar o que significa respeito.
Sem que eu estivesse esperando, ele me deu uma bofetada com tanta força que o meu queixo tornou a cair.
O sangue começou a jorrar do meu nariz, o meu camisolão ficou empapado.
O senhor gritou para o feitor:
- Tire esse verme nojento da minha frente, amanhã ele começa no trabalho.
Fui lavar a minha ferida e tentar colocar o queixo no lugar antes que inchasse muito; a dor foi horrível.
Quando retornei ao barracão, Artur me olhou assustado.
- O que houve, Miguel?
Deus do céu, você está sangrando!
A dor era tão forte que eu mal podia falar, mas mesmo assim respondi:
- Não se preocupe, Artur, está tudo bem.
Para mudar de assunto, continuei falando:
- Você tinha razão, Artur, vou rachar lenha com vocês e puxar a roda também.
Mas fique tranquilo, eu estou acostumado com serviços pesados; ultimamente estava trabalhando no campo.
A noite foi servido para os negros uma espécie de angu de milho com carne-seca, eu mal pude engolir umas colheradas, comi porque sabia que precisava armazenar forças para o trabalho do outro dia.
Os galos começaram a cantar, anunciavam o alvorecer.
Os negros se levantavam e corriam para o mato, era lá no que se chamava de "munturo" (um pedaço de terra com algumas árvores baixas, formando moitas) que os negros faziam as suas necessidades fisiológicas.
Esse local ficava sempre atrás da senzala; todos os dias um negro se encarregava de cavar o chão e cobrir de terra as fezes ali depositadas.
Uma vez por semana, essa terra era misturada com palha de bananeira seca e queimada.
Eu amarrei um pedaço de pano no alto da cabeça, prendendo o queixo, entrei na fila com os demais negros.
Peguei uma caneca de barro cheia de café com leite e um pão de milho.
Após engolirmos o nosso café, cada negro recebeu o seu machado, pois todos os dias, após o trabalho, eles eram recolhidos pelos feitores, como precaução, pois os negros não tinham armas em seus barracões - além disso, os feitores faziam uma vistoria nestes locais uma vez por semana.
Cada negro fazia a sua marca no machado, os feitores já conheciam a ferramenta de cada um.
Recebi o meu machado, com a seguinte recomendação:
"o machado está bem afiado, se deseja almoçar antes de começar na roda, é bom saber usá-lo".
A lenha a ser rachada por mim era angico, madeira com casca grossa e deslizante.
É necessário dar três a quatro machadadas para atingir a madeira, que é dura como pedra.
Os outros negros me olhavam com certa pena; depois fiquei sabendo que com o angico, meia carrada era considerado uma, exactamente pela dificuldade que a madeira oferece.
Era quase hora do almoço e ainda me restava uma boa parte de madeira.
O feitor foi chamado para receber algumas instruções do senhor.
Artur já tinha terminado a sua carrada, correu para junto de mim e começou a rachar a lenha comigo, mais dois negros, que também haviam terminado, correram a me ajudar.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 05, 2016 10:17 am

Havia entre os negros solidariedade quando era possível.
Quando o feitor apareceu, me restavam três estacas.
Os negros sentados fingiam rir de mim.
Quando terminei de rachar as três estacas, meu corpo tremia; estava molhado de suor.
O feitor me observou e falou em voz alta:
- Hum! O senhor não vai acreditar quando souber que você realmente conseguiu fazer isso.
É o primeiro negro que racha uma carrada de angico em meio dia de serviço.
Após o almoço fomos puxar as rodas.
Eu ia puxar água, para abastecer a fazenda.
Fiquei sabendo que dois negros faziam aquilo, e não apenas um, mas consegui com muito esforço dar conta do trabalho.
Naquela fazenda começava uma nova história em minha vida.
Todos os dias o feitor me trazia uma ordem diferente.
Fiz de tudo naquela fazenda.
Num mês que eu estava lá, emagreci tanto que dava para contar todas as minhas costelas.
Dificilmente eu almoçava e jantava no mesmo dia, estava sempre recebendo um castigo por serviços que humanamente dois homens fariam com muito sacrifício.
O trabalho era passado para mim já com o alerta:
perderia o almoço ou o jantar.
A noite, estirado na minha rede, o corpo doía, mas a minha consciência doía mais ainda.
Ficava imaginando como estava Lucien, os meus filhos e meus amigos que ficaram na fazenda.
Me perguntava:
"O que será que os senhores estavam resolvendo na França?"
Só me restava orar, orar muito.
Seis meses se passaram, acho que envelheci mais de vinte anos.
Podia me ver nos reflexos das águas e me assustava com a minha própria aparência.
Devido aos golpes no meu queixo, fiquei com um lado do rosto um tanto alto.
O meu corpo era só couro e osso, as minhas mãos estavam calejadas e enrugadas, à noite as pernas me doíam muito, tinha dia que eu amanhecia em claro de tanta dor.
Uma tarde eu estava puxando a roda de moer (moía cana-de-açúcar para tirar o melado) quando o feitor veio me buscar, dizendo:
- Miguel, aparece lá no terreiro da casa grande.
Parece que tem novidade para você.
Estremeci... "o que seria agora?".
Lá estavam os meus três senhores, sentados em cadeiras de balanço.
Ao me aproximar, percebi o susto que o meu senhor levou ao me ver.
Perguntou para o dono da casa se eu estava doente.
Este lhe respondeu:
- Que me consta, não.
A magreza dele deve ser a falta da mordomia que você sempre lhe deu.
Aqui ele trabalha como os outros; ou melhor, um pouquinho mais que os outros.
Os senhorzinhos me pareceram mais calmos, as suas feições estavam tranquilas.
Agradeci intimamente a Deus, acho que eles não eram tios de Lucien.
O meu senhor mais velho, disse-me, calmamente:
- Miguel, vá arrumar suas coisas, você vai voltar para a fazenda.
Os pais de Lucien estão lá te esperando, e você vai ter a grande chance de contar pessoalmente a eles o que você fez aquela noite.
O senhor, pai adoptivo de Lucien, gritou:
- Mexa-se, negro!
Anda, vai arrumar as suas tralhas.
Quem sabe você volta no verão para puxar água.
Vamos precisar do dobro que usamos hoje.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 05, 2016 10:18 am

Fui correndo ao barracão, peguei o saco com as minhas poucas coisas, lamentei não poder me despedir dos meus amigos, especialmente de Artur, que nos últimos tempos era um filho para mim.
Sinceramente, só não morri porque ele me ajudou a viver.
Antes de partir, notei que até o senhor pai de Lucien estava mais calmo.
Entrei na carruagem e me encolhi num banco, ao lado do senhor Ernesto, que arregalou os olhos ao me ver.
Durante toda a viagem não trocamos nenhuma palavra, mas quando chegamos à fazenda, assim que os senhores desceram, ele me puxou pelo braço e me perguntou:
- Está doente?
O que você tem?
Eu não reconheci você, o que foi isso no seu rosto, que está deformado?
- A roda escapou e bateu em meu rosto, senhor Ernesto, pequei uma febre e emagreci muito, mas logo vou me recuperar, não é nada sério.
Ao chegar no barracão, todos me abraçavam chorando.
Ninguém falava claramente o susto que a minha aparência causava, mas eu notava na expressão de cada um o sentimento de dor e de piedade.
Não pude conter as minhas lágrimas ao ver que tinha tantos amigos ao meu lado.
A minha vontade era de ir correndo ao cemitério visitar a cova dos meus entes queridos, mas me contive, pois perdi a confiança e a liberdade de andar livremente pela fazenda.
À noite, o feitor veio me buscar.
Na varanda da casa grande, ao lado do senhor mais velho, as sinhás da casa e o marido de Lucien não estavam presentes.
As minhas mãos suavam frio, o meu antigo senhor estava bem diferente, cabelos grisalhos, bigode, e bem mais gordo.
A sinhá, no entanto, me parecia muito bem.
O meu senhor ordenou ao feitor que se retirasse e me deixasse a sós com eles.
O pai de Lucien, sem sair de sua cadeira, me olhava sem piscar.
- Miguel - disse o meu senhor -, agora você vai repetir toda a história que você nos contou a respeito do nascimento de Lucien.
Mas, antes, quero dizer que você teve sorte.
Lucien não é minha sobrinha.
Ela continua sendo apenas a esposa do meu irmão.
Nos conte novamente aquela história do dia do nascimento de Lucien.
Agradecendo a Deus por não ter destruído a vida de Lucien com o senhor, me enchi de uma força estranha e comecei a relatar todos os factos ocorridos naquela noite.
Falei do medo que senti de morrer e deixar os meus filhos, não tinha como segurar as lágrimas enquanto falava, elas desciam pelo meu rosto.
Quando terminei de contar tudo, fiquei em silêncio, esperando a minha sentença.
O senhor pai de Lucien permaneceu em silêncio, no entanto, a sinhá sua esposa soluçava.
Após alguns minutos de espera, que me pareceram uma eternidade, ele levantou-se e começou andar de um lado para o outro da varanda, a sua voz estava embargada pelas lágrimas.
- Eu nunca poderia imaginar que tivesse deixado uma filha aqui no Brasil - dizia ele.
O irmão gémeo dela morreu aos sete anos de idade.
Meu pobre filho foi tomado por uma febre misteriosa, não houve remédio que o curasse.
Numa semana vi o meu filho morrer, até hoje não aceito e não acredito na sua morte, jamais imaginei que ele tivesse uma irmã gémea, que eu tivesse uma filha...
Se fosse alguns anos atrás, certamente não estaria andando nesta varanda conversando, mas hoje, eu já consigo ver o mundo de uma outra forma.
Só me dói ter ficado tanto tempo longe de minha filha, sem saber de sua existência.
Conheci a minha filha e, no entanto, não pude chamá-la de filha.
Miguel, eu te perdoo, e quero que você me perdoe.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 05, 2016 10:18 am

Você salvou a vida dos meus filhos e da minha esposa.
Naquele dia, se você fosse um monstro, poderia ter matado Lucien, e nós jamais ficaríamos sabendo de sua existência.
No entanto, você arriscou a sua vida por ela, demonstrando que tem uma alma pura e limpa.
Desta vez, arriscou novamente a sua vida para ajudá-la.
Sabe, Miguel, o homem só é cego até o dia em que ele enxerga a verdadeira luz da vida.
Cometi tantos desatinos com as almas dos inocentes e comigo mesmo.
Hoje, tento encontrar em Deus um pouco da paz para a minha vida, tento me regenerar das barbaridades cometidas com os seus filhos.
- Aquele senhor que você conheceu, Miguel, está tentando olhar um pouco mais para dentro de si mesmo.
Vim até aqui com os seus senhores para preparar a minha filha para a grande revelação, e também para te agradecer por ter salvo a vida dela.
Quero que esteja presente em nossa vida, quero que ela entenda que você não destruiu a vida dela, mas a livrou da morte.
Sossega o seu coração, a minha esposa não é irmã dos seus senhores, portanto Lucien e o esposo estão unidos pela bênção de Deus, são legitimamente marido e mulher.
O meu senhor me ouvia de cabeça baixa, sem intervir na conversa.
Assim que o senhor terminou de falar, o senhorzinho acrescentou:
- Vai, Miguel, para o seu barracão, cuide da sua saúde, alimente-se bem, vá atrás das suas ervas, vá limpar e zelar pelo cemitério dos negros.
Ah! Avise o seu povo que, de hoje em diante, estão autorizados a receber os seus orixás no terreiro da casa grande, nas mesmas condições de antes.
Levantei-me, obedecendo às ordens do meu senhor, e pensei estar sonhando.
Ainda não acreditando no que acabara de ouvir, me perguntava:
"O que aconteceu com o meu antigo senhor?"
Ao regressar ao barracão, Ritinha e Nalva me esperavam.
Ritinha, com um olhar aflito, esperava que eu falasse alguma coisa.
Eu dei as boas novas para ela e Nalva, que estavam de olhos arregalados, sem acreditar no que ouviam.
Esperavam tudo do antigo senhor, menos bondade em sua alma.
Pedi às duas que comunicassem aos demais o prémio que estávamos recebendo do senhor.
A volta do nosso culto em plena liberdade.
Saí andando feito criança, me sentia leve e em paz.
A lua começava a aparecer no céu, iluminando a paisagem.
Fui até a minha antiga amiga e conselheira: a palmeira.
Sentei-me e fiquei ouvindo os grilos cantarem, a brisa da noite balançava as folhas da árvore fazendo-a cantar.
Revia toda trajectória da minha vida, a minha infância, a minha aldeia, a separação do meu pai naquele mercado onde fomos vendidos, a bondade dos meus benfeitores naquele dia.
Elevei o meu pensamento a Deus ao lembrar-me dele, aquele senhor de facto foi um anjo de Deus em terra.
Não segurei as lágrimas ao lembrar da minha amada avó Joana, ela foi tudo na minha vida, ela foi à prova maior da existência e da bondade de Deus para connosco.
Revivia os momentos felizes da minha vida - foram muitos! - e lembrei-me do reencontro com meu pai.
Eu tinha tantos filhos na fazenda do meu senhor, filhos que aprendi a amar, os filhos que não estavam na minha programação de vida.
Os filhos gerados com medo, filhos gerados para a escravidão...
Lembrava-me dos meses que passei na fazenda do senhor que adoptou Lucien, nas noites que eu não conseguia dormir com dores nas pernas e ficava olhando para o tecto coberto de palhas e tentando me lembrar dos rostos dos meus filhos.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 05, 2016 10:18 am

Eu tive 53 filhos, nove deles morreram ainda bebés, os demais estavam vivos, muitos deles tinham dias ou pouco meses de diferença de um para o outro.
Fiquei sentado ali no chão não sei por quanto tempo, sei que já era muito tarde.
Assustei-me quando uma mão tocou-me no ombro.
Virei-me e deparei com o meu antigo senhor.
- Eu também estou sem sono, Miguel, posso sentar-me ao seu lado?
Acho que balancei a cabeça, pois me faltou a fala.
Ele sentou-se ao meu lado e começou a falar:
- É a primeira vez que observo como este lugar é bonito.
Às vezes, passamos pela vida e não nos apercebemos dela.
Aqui eu tive tudo para ser feliz e, no entanto, estava muito cego e distante de Deus para compreender certas coisas.
Quando deixei o Brasil, me instalei numa fazenda lá França, que é a minha terra natal.
Lá, dobrei a quantidade de bebidas ingeridas, joguei tudo o que tinha fora no jogo e nas farras.
Perdi tudo, não passamos fome porque a sua antiga sinhá, que é minha irmã, ou melhor, um anjo que Deus colocou nos nossos caminhos, amparou a minha família.
- Quando o meu filho morreu, pensei ter enlouquecido, comecei a ver coisas à minha volta, pessoas que me amavam, pessoas que me odiavam.
Muitas e muitas vezes, quando eu estava caído na minha bebedeira uma moça com rosto de anjo me aparecia, me ajudava, limpava o meu corpo, colocava água em minha boca.
Esse anjo me falava tantas coisas bonitas, me dizia que o meu filho não morrera, e que eu é que estava me matando, que estava perdendo a grande oportunidade de ser feliz ao lado das pessoas que me amavam.
Aos poucos, fui me afastando da bebida e das más companhias; já não podia mais viver sem os conselhos daquele anjo que me ajudou a voltar para casa e a reaver a minha família.
Muito tempo depois, esse anjo me disse que eu estava pronto para perdoar, pois já havia me perdoado quando encontrei o meu verdadeiro "eu", que era o meu equilíbrio espiritual e emocional.
Hoje, Miguel, eu sou capaz de compreender os seus sentimentos e vê-lo como você verdadeiramente é:
um filho de Deus, o meu irmão que nasceu com uma cor diferente da minha, apenas isso.
Foi uma grande surpresa para nós a visita dos seus senhores, a inquietude do meu genro em pensar ser tio da minha filha.
Graças a Deus que tudo foi esclarecido, a minha sogra antes de falecer revelou o nome verdadeiro do pai de minha mulher.
Foi até um grande choque para nós, pois se tratava de uma pessoa pública muito importante.
Ela nos deixou uma considerável herança, estamos financeiramente muito bem, graças a essa fortuna.
- Eu estou te falando isso porque tenho uma proposta a lhe fazer.
Vou negociar com o meu amigo, e agora parente:
falo do seu senhor.
Vou pagar a sua carta de alforria, quero oferecer a você o que de direito você merece: a liberdade!
Estou lhe convidando para nos acompanhar até a França.
Com certeza, Lucien vai ficar muito feliz ao saber o que você foi e fez por ela.
O meu genro está envergonhado de tratá-lo tão estupidamente, mas com certeza todos nós vamos tentar reparar um pouco a nossa falta para com você.
Vamos contar para ela toda a verdade, e já acertamos com o meu genro que os dois passarão pelo menos um ano connosco.
É o mínimo que um pai e uma mãe, depois de tanto tempo sem ter a sua filha, desejam:
um pouquinho da presença dela.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 06, 2016 9:42 am

Ela tem um irmão, meu filho mais velho, ele ficou tocando os nossos negócios, mas ansioso em conhecer a irmã.
- E sabe por que eu desejo que você vá connosco, Miguel?
Ouça o que tenho para lhe dizer:
vou fazer o possível para levá-lo até a sua terra.
Da França para Portugal são dois pulos, se comparando com distância até o Brasil.
De Portugal até Angola é outro pulo.
Para compensar todo o seu sofrimento, e por você ter salvo a minha filha, eu quero levá-lo para reencontrar a sua gente.
Sei que não vai ser fácil, mas nós vamos procurar a sua terra, e você poderá reencontrar seus irmãos e a sua própria identidade.
Suspirei profundamente antes de responder.
- Senhor, por Jesus Cristo, Nosso Senhor, por todos os anjos que nos iluminam os passos, eu lhe agradeço do fundo do meu coração toda a sua bondade.
Sinceramente, voltei hoje da fazenda do pai da sinhazinha Lucien - perdão, senhor pai dela é o senhor - imaginando que a minha sentença já estava definida e, ao lhe ver, não tive dúvida que era o fim da minha vida.
No entanto, o senhor está aqui, me oferecendo o mundo da liberdade.
Não será um sonho, tudo isso?
- Não, Miguel, isso chama-se a mão de Deus.
Amanhã mesmo vamos conversar com Lucien, contar-lhe toda a verdade.
Gostaria que você amparasse a minha filha, pois tenho certeza de que ela vai correr para os seus braços.
Ficamos conversando até altas horas, os feitores passaram e nos viram juntos, mas não interferiram em nada, eles não estavam entendo nada!
O que acontecia debaixo daquela palmeira só Deus podia ouvir e compreender.
De repente, eu já não me via diante do meu algoz, me sentia ao lado de um ente muito querido, já não havia rancor entre nós, apertamos nossas mãos, dando boa-noite e até amanhã, esquecidos que éramos escravo e senhor.
Deitei-me e fiquei parado no tempo, parecia um sonho que eu estava vivendo.
Imaginei-me viajando novamente de navio, mas dessa vez sem o meu pai, sem Ritinha e sem os outros.
Dessa vez não como um prisioneiro, não iria no porão do navio, mas seria um passageiro - foi o que disse o meu senhor.
Imaginei-me pisando novamente em minha terra...
Será que os meus irmãos ainda estavam por lá?
Será que a minha mãe estava viva?
Algo me dizia que não...
Será que eu teria coragem de retornar?
O que faria por lá agora?
Nada mais me restava, a minha vida se resumia à fazenda do senhor.
O ser humano guarda por muito tempo lembranças e sofre com elas; eu sonhava em voltar, mas temia o que encontraria.
Será que eu queria ser livre?
O que faria com a minha liberdade?
Não tinha nada.
Teria coragem de obter a minha liberdade deixando os meus filhos escravizados?
Tudo isso me martirizava.
Não conseguia fechar os olhos, os primeiros raios de luz entravam no barracão, os galos cantavam, anunciando a chegada de mais um dia.
Me levantei devagar, as costas me doíam um pouco devido à minha magreza.
Abri a porta do barracão, os primeiros raios do dia enfeitavam o horizonte.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 06, 2016 9:42 am

Com o coração batendo forte, me dirigi ao cemitério, o meu sentimento naquele momento era como se a minha avó Joana estivesse viva e me esperando.
Aumentei os passos, queria chegar logo, empurrei a pequena porteira feita de madeira, entrei abraçando o ipê branco que estava todo florido.
A cova da minha avó estava coberta de flores brancas, me abaixei e beijei o chão.
Gritei:
- Avó Joana, eu estou aqui!
Sou eu mesmo, minha vovó.
Estou magro e adoentado, mas vou ficar bom logo, logo, a senhora vai ver!
Quanta saudade da senhora, minha avó amada.
Saindo fora de mim mesmo, como num transe, revia a doçura com que ela cuidou de mim.
Foi a minha mãe, sim, ela foi a minha mãe...
Foi a minha avó...
Foi tudo o que de melhor eu tive na vida!
- Eu preciso dos seus conselhos, venha me ajudar...
O que faço, vovó?
A senhora sabe o que o senhor me prometeu? Liberdade!
Fui até a cova do meu pai e chorei.
- Pai, o senhor está me ouvindo?
Ouça o que tenho para lhe contar:
o mesmo senhor que me obrigou a fazer filhos para a escravidão me oferece a liberdade.
Se você estivesse aqui, eu pediria a ele que fosse o senhor no meu lugar.
O que faço, pai?
Voltei e me sentei, encostado no troco do Ipê.
Fui me envolvendo pelo cheiro das flores e das ervas que exalavam o seu perfume misturado ao sereno da manhã.
Senti um sono, uma brisa morna passava por mim.
De olhos fechados pude ver uma moça de branco, o seu cheiro era o mesmo, ervas e flores....
- Miguel, filho querido!
Como Deus é maravilhoso - disse-me ela.
Do fundo do seu coração perdoe o seu senhor, perdoe, meu filho, aquele que lhe acolheu nesses últimos dias.
Sem saber, meu filho, ele ajudou você a caminhar um pouco mais adiante.
Meu filho querido, hoje mesmo o seu coração lhe dirá se deve ou não partir.
Lembre-se, meu filho, da história dos cocos de dendê.
Onde o Pai precisar de você, meu amado, não negue a sua presença.
Não esqueça que estarei sempre ao seu lado.
Mesmo quando você não percebe, eu estou ao seu lado, acompanho os seus passos.
Senti uma onda de calor me tocando, me senti leve, feliz e em paz; as minhas lágrimas eram de felicidade e, meio dormindo e meio acordado, sentia as suas mãos tocando o meu rosto, sentia o seu perfume no ar.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 06, 2016 9:42 am

Capítulo XVI - A GRANDE VIAGEM
Eram mais ou menos onze horas da manhã, e eu estava olhando os arreios dos animais quando vi Lucien passar correndo em direcção à senzala.
Larguei os arreios e corri atrás dela.
Ao me ver, ela levantava os braços e gritava:
- Conte-me a verdade, Miguel!
Me falaram uma história que eu não posso acreditar!
Que os meus pais são aqueles dois senhores que estão lá dentro?
Você fez isso comigo, Miguel?
Diga que não é verdade!
Sentei Lucien num banco, Nalva já estava com uma água adoçada na mão, tentando fazer com que Lucien bebesse.
- Sinhá, acalme-se e ouça-me...
Ritinha também se aproximou, a vontade de todos nós era de abraçá-la, mas temíamos fazer isso; ela era nossa sinhá.
- Conte-me, Miguel, toda a verdade - pediu Lucien.
Ela já estava mais calma, então contei toda a sua vida de criança até a saída da fazenda.
Falei da minha dor ao ter de deixá-la longe de nós.
Da minha alegria ao reencontrá-la.
Da nossa felicidade em tê-la de volta entre nós.
E da minha decisão em revelar toda a verdade sobre o seu nascimento.
Então, silenciei, pois estava muito emocionado.
Ritinha lhe falava de como ela era engraçadinha quando bebé, do carinho que todos tínhamos por ela e da nossa dor quando ela foi embora.
Aos poucos ela foi se acalmando...
- Então é por isso que eu gosto tanto desse lugar, eu já morei na senzala.
Tenho um sentimento de felicidade quando estou com vocês.
Levantou-se e me deu um abraço apertado.
- Miguel, você foi o meu primeiro pai, ninguém colhe goiabas como as suas.
Meu pai tem razão, você salvou a minha vida, obrigada por tudo.
Desde o primeiro dia em que te vi, algo dentro de mim me dizia que eu conhecia você de algum lugar.
Eu amo os pais que me criaram, eles foram os melhores pais do mundo, mas agora que conheço toda a verdade, preciso aprender a amar os meus verdadeiros pais; tenho um irmão e quero conhecê-lo.
Os meus pais nos convidaram, a mim e ao meu marido, para irmos passar um ano na França, e o convite se estende a você também.
Eu gostaria muito que você viesse.
Meu pai está negociando a sua carta de alforria!
Ele quer te levar, e eu só vou se você for.
Sentou-se junto de mim e começou a fazer planos.
- Nós vamos até a sua terra, se você encontrar os seus parentes, fica por lá uns meses, e, na volta, a gente te pega.
Que tal? Lá você não vai ficar!
De jeito nenhum!
Tia Nalva e tia Rita, nem se preocupem, porque ele volta connosco, só vai dar um passeio.
A paz voltou a reinar na fazenda, eu fui me recuperando aos poucos, o meu antigo senhor me entregou uma carta de alforria dizendo-me:
- Você não é mais um escravo, é meu protegido.
Vá cuidar da sua saúde, comer bem e descansar bastante, porque a viagem é longa.
Mas fique tranquilo, que é muito confortável.
Após um mês e meio, os senhores estavam se preparando para partir.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 06, 2016 9:42 am

Ritinha chorava só de pensar que eu colocaria os pés novamente em nossa terra.
Ela me pedia:
- Traga um pouco de terra, algumas folhas, tudo o que me fizer lembrar o cheiro da nossa terra.
Procure falar de mim, quem sabe você encontra os meus parentes por lá.
Chegou a dia da partida, o feitor, senhor Ernesto, tocou no meu ombro e me disse:
- Miguel, a coisa mais justa que o senhor fez aqui foi lhe conceder essa carta de alforria.
Eu desejo, sinceramente, que você encontre os seus familiares.
Graças a Deus o comércio de escravos por navios negreiros está proibido.
E olha, Miguel, eu acredito que nós nem venhamos a alcançar este tempo, mas chegará o dia que não haverá mais escravos por aqui.
Alguém tem de mudar essas leis e, um dia, os brancos e os negros terão os mesmos direitos.
Quem sabe os nossos netos, bisnetos ou tataranetos?
Tenho fé de que um dia tudo isso vai acabar.
Seja muito feliz, lhe desejo de coração.
O senhor me arrumou um pequeno baú, com roupas de homem livre, pois os escravos libertos usavam roupas diferentes das dos brancos e também das dos escravos.
Me despedi dos meus filhos e de suas mães.
Daria tudo para ver meus filhos tão livres quanto eu.
Após a longa caminhada na carruagem dos senhores, desembarcamos numa hospedaria; o senhor recomendou ao atendente da casa que colocasse num quarto com banho e toda regalia de um homem livre, apresentou ao mesmo a minha carta de alforria.
Eu nunca estive num lugar daqueles, o rapaz precisou me ensinar como funcionava cada coisa, pois eu não tinha conhecimento.
Foi a primeira vez que tomei banho dentro de uma banheira.
No jantar, o senhor me colocou sentado à mesa próximo dele.
Eu insistia com o senhor que queria comer lá dentro, mas ele me disse:
- De hoje em diante, você vai ter de ir se acostumando com uma porção de coisas novas.
Não se esqueça de que agora você é um homem livre.
Começou a me ensinar a conhecer dinheiro e o seu valor, e eu aprendia rapidamente.
Lucien estava feliz da vida com o marido, ele fazia de tudo para me agradar.
No outro dia chegamos ao porto, entramos nos barcos que nos levariam ao navio, avistei o monstro que se balançava nas águas azuis do mar.
Estremeci ao me lembrar da primeira vez que vi o mar e dos dias sem fim que passamos dentro do navio negreiro.
Quanto sofrimento, quanta dor, a doença e a morte todos os dias estavam presentes entre nós.
Meninas sendo estupradas, homens amarrados, tratados como animais.
Agora eu estava novamente entrando num navio, que possivelmente me levaria de volta à minha terra.
Lembrei-me do sonho no qual eu estava com meu pai em nossa aldeia, comecei a tremer e a sentir calafrios.
O senhor, batendo em minhas costas, disse-me:
- Acalme-se, Miguel, desta vez a sua viagem será bem diferente.
Desde o primeiro instante que entramos no navio, vi que tudo ali era um luxo só.
Fiquei num quarto com dois rapazes negros libertos, eles também acompanhavam os seus senhores em suas excursões, pois todos os negros libertos daquela época continuavam servindo os seus senhores por livre escolha.
Não havia outra alternativa, não tínhamos recursos, não poderíamos sobreviver sem os senhores.
Os homens se assemelham aos pássaros:
livres, voam longe; presos, perdem a direcção de suas próprias vidas.
Dependem dos outros para tudo.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 06, 2016 9:43 am

No quarto haviam camas, garrafas com água, muito luxo.
Logo me entrosei com os rapazes, todos iam rumo à França.
Cada um contava a sua história de vida.
Eles nasceram no Brasil, eu era o único que tinha recordações da minha terra, da minha gente.
Eles contavam as histórias de suas mães, falavam dos seus pais.
Estes eram sempre apontados pela mãe, quando se tratava de algum reprodutor da fazenda.
Havia muitos negros que eram filhos dos senhores ou dos feitores; aí, a mãe evitava falar a verdade para o filho ou acabaria por gerar mais revolta no pobre infeliz.
Os rapazes continuavam eufóricos, contando as suas façanhas e fazendo planos para o futuro.
Suas mães continuavam cativas, eles receberam a carta de alforria por bom comportamento com a aprovação delas.
Mãe é mãe em qualquer tempo e em qualquer lugar, mãe sempre dá a vida pelos filhos, e muitas mães cediam aos filhos a liberdade a elas concedida.
Foram muitos os casos de filhos de muitas negras que ganharam a liberdade, deixando irmãos, mãe e pai no cativeiro.
O meu caso, por exemplo:
eu ganhei uma carta de alforria que me concedia liberdade, mas meus filhos continuaram todos cativos.
Eu não sei dizer qual seria o maior sofrimento, se era continuar cativo ou deixar os meus entes amados escravizados.
A maioria dos negros que recebia liberdade dificilmente usufruía dela, pois não tínhamos condições de sobreviver por conta própria.
Vi muitos irmãos negros pulando de alegria por ter ganhado a liberdade e, depois, não duravam dois meses vivos.
Ao sentir o gosto da liberdade, metiam-se em querer beber e provocar algum feitor, ou até mesmo algum senhor de engenho; aí o resultado era um só: a morte.
Sei que existem levantamentos dos negros que receberam a sua carta de alforria, mas, por outro lado, também sei que não existe um levantamento mostrando quanto tempo eles ficaram vivos para usufruir "essa tão sonhada liberdade".
Os rapazes falavam, eu apenas ouvia; um deles me chamou atenção:
- Ei! Você não fala nada?
Conte para gente como ganhou a sua liberdade e o que vai fazer daqui pra frente?
Naquele momento, eu já me perguntava:
"O que estou fazendo aqui, meu Deus?
Não estou cometendo outro crime, aceitando esse luxo todo enquanto deixei o meu sangue correndo nos corpos de tantos filhos cativos?
Olhando para o jovem e pensando nos meus filhos, respondi:
- O que vou fazer com essa minha liberdade, eu não sei.
Para lhe falar a verdade, busco mesmo é a liberdade da minha consciência.
Perdi minha identidade logo cedo, recebi essa chance de reavê-la, mas, no fundo, já estou arrependido de ter me afastado dos meus filhos e amigos de sorte.
Continuamos a conversar até altas horas da noite, na verdade, nenhum de nós tinha sono, cada qual levava um peso na consciência:
do que me vale estar livre se aqueles que amo continuam lá?
No outro dia cedo corremos a ajudar os nossos senhores em suas necessidades.
O meu antigo senhor me chamou num canto e disse-me:
- Acho que descobri onde fica a sua terra!
Conversando com um magnata especialista em navios negreiros, obtive muitas informações importantes que podem nos levar até lá.
Assim que chegarmos à França, deixo a minha família e sigo com você até Portugal.
Em Lisboa, vou procurar ajuda com alguns amigos que tenho por lá.
Vou tentar chegar até Angola com você.
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