LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 06, 2016 9:43 am

Pelos dados que tenho em mãos, não será difícil chegarmos até a sua aldeia.
Rezo para que você encontre a sua família.
Em tudo o que for possível fazer, não pouparei esforços para te ajudar.
E nem assim estarei pagando um terço das minhas dívidas para com você, Miguel.
Quero lhe confessar algo:
tenho alguns amigos influentes em Portugal, hoje eu faço parte de um movimento sigiloso, onde há planos de implantarmos uma revolução geral, envolvendo a França, Portugal e membros da nova terra, que é o Brasil.
Sabe, Miguel, apesar de todos os conflitos que vivemos na actualidade, estamos começando a enxergar que o homem não tem o direito de aprisionar outro homem simplesmente pela cor de sua pele.
Vamos nos encontrar em Portugal com esses amigos, e por intermédio deles, chegaremos até a sua terra.
Confie em Deus e junte-se a nós nesta causa tão nobre.
Você poderá lutar e ajudar e salvar os seus filhos do cativeiro brasileiro.
Indo para Angola e retornando como cidadão angolano, você poderá usufruir da Nova Lei que dá direito aos pais de outros países a retirar os filhos do cativeiro brasileiro.
Arrumaremos um bom advogado, que entrará com um pedido de resgate dos seus filhos.
Não se preocupe, pagarei à coroa a quantia que cada um dos seus filhos for avaliado e vamos trazê-los com você.
Reze, reze muito para os seus orixás, e que eles nos iluminem até onde desejamos chegar.
Fiquei estarrecido, as minhas pernas tremiam, naquela ocasião eu não podia entender o que me falava o senhor.
Apesar de todo conforto a bordo, os dias me pareceram intermináveis.
Me sentia cansado, deprimido e sem vontade de recomeçar uma outra vida.
Sonhei a vida inteira com aquela oportunidade, e agora que ela se aproximava de mim percebi que não a queria tanto assim.
A minha vida mudou, os meus valores mudaram, descobri naquele navio luxuoso que o passado, bom ou ruim, fica para trás.
Descobri que o presente transforma, empurra o homem para frente, não tem como retornar.
Olhava para a imensidão das águas do oceano e me lembrava da minha primeira viagem sobre as ondas do mar.
De repente, a saudade do meu pai veio forte.
Daria tudo, passaria por tudo novamente só para tê-lo ao meu lado.
Do menino do navio negreiro, de Luís Fernando, nada mais restava a não ser a saudade das pessoas amadas que a gente guarda no coração.
Ali estava um homem que precisava aceitar a si mesmo, antes de mais nada.
Luís Fernando foi enterrado dentro de mim; realmente eu era Miguel, pai dos meus filhos brasileiros.
E assim prosseguia o nosso roteiro, todos os dias o senhor me contava uma nova descoberta.
Naquele navio tinha muitas pessoas importantes, foi o que me falou o senhor.
Antes de desembarcarmos, passamos por uma inspecção rigorosa, os brancos passavam tranquilos, os negros eram revistados - por precaução, era o que se falava.
Tudo isso era aceite com naturalidade pelos negros, e sei que até os dias de hoje continua assim.
Os negros são os primeiros suspeitos quando se trata de malfeitos em alguns locais dentro da sociedade.
O que o homem precisa aprender é que brancos e negros são capazes de fazer tanto coisas boas quanto más.
O cérebro do negro não é preto, e nem do branco é branco.
Observei que Lucien estava séria e não brincava mais comigo.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 06, 2016 9:43 am

Criando coragem, perguntei-lhe:
- A minha sinhá está zangada comigo?
Ela me respondeu:
- Zangada, não, estou preocupada.
Sei que você vai ao encontro da sua terra, temo que nunca mais você queira voltar para o Brasil.
Agora que conheci a minha família, vejo o quanto perdi longe deles.
Posso imaginar o que você sente, e agora, tendo essa oportunidade, é um direito seu nunca mais querer voltar para o lugar onde foi escravizado.
Emocionado, respondi a Lucien:
- No Brasil eu sofri muito, mas sendo justo e sincero comigo mesmo, a minha felicidade foi bem maior que todo o meu sofrimento.
Conheci tantas pessoas bondosas, recebi tanto amor... eu seria um ingrato se lhe dissesse que só conheci o infortúnio.
Quanto a voltar para o Brasil, eu retornaria hoje, agora.
Os meus filhos estão lá, sinhá, a minha vida ficou lá.
A noite, naquele mesmo dia, os meus senhores me chamaram a uma sala fechada.
O meu antigo senhor então disse-me:
- Miguel, arrume todas as suas coisas, amanhã partiremos para Portugal.
Contactei os meus amigos portugueses, está tudo certo para o nosso embarque.
O meu senhorzinho recomendou-me que fosse sem medo, pois o seu sogro cuidaria de tudo o que fosse necessário para me levar e me trazer de volta.
Disse que ele e Lucien não voltariam ao Brasil sem mim.
No outro dia logo cedo estávamos nos despedindo da família.
O irmão de Lucien estendeu-me um casaco elegante, dizendo-me:
- Leve com você, pode esfriar e esse casaco dá conta de muito frio.
Fiquei com receio de pegar, mas ele, rindo, disse-me:
- O casaco é seu, pegue.
Vi lágrimas nos olhos de Lucien, ela olhava para o pai e para mim.
Antes que cruzássemos a porta de saída, ela correu e se atirou em meus braços, soluçando e falando:
- Miguel, me perdoe se fui rude com você, no fundo da minha alma as melhores lembranças da minha infância estão ligadas a você.
Por favor, me perdoe e volte para mim.
Não encontrei palavras, toquei o seu rosto como nos tempos em que ela era um bebé.
Senti um aperto na minha garganta, e, segurando as lágrimas, acompanhei o senhor sem falar nada.
Embarcamos num navio pequeno que eles chamavam de vapor; havia muitos homens brancos, todos simpáticos e me tratavam com delicadeza.
O sol baixava no céu quando o senhor me disse:
- Estamos chegando a Portugal.
Vamos descansar hoje, mas amanhã logo cedo estaremos cruzando o outro lado do mar, rumo à sua terra.
Alguns homens já estavam esperando por nós, nos levaram até uma casa onde ficamos acomodados.
Eu não saí do meu abrigo aquela noite, mas sei que meu senhor se reuniria com outros homens para tratar da tal revolução pela liberdade.
Quando o dia clareava, eu já estava em pé; cresci com esse relógio biológico dentro de mim.
O meu senhor bateu à porta me chamando pelo nome, peguei o meu saco de viagem, o casaco que eu exibia com orgulho, e o segui.
A mulher da casa me ofereceu um copo cheio de leite e um pão caseiro, que comi com gosto.
Os senhores que acompanhavam o meu senhor me trataram como se eu fosse um branco.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 06, 2016 9:43 am

Um deles, chamado senhor Silvério, bateu nas minhas costas e disse-me:
- Vamos lá, Miguel, se Deus quiser, muitas coisas vão mudar na sua vida e na vida de outros homens que estão na sua condição.
Enquanto andávamos, ele falava:
- Se tudo correr conforme nós estamos planeando, eu vou ao Brasil em breve com alguns companheiros e vamos mudar a história daquele país.
Ele suspirou fundo e continuou falando:
- A nossa luta não vem sendo fácil, mas nós estamos confiantes.
Acreditamos que, se não podemos mudar o mundo, pelo menos podemos mudar os pensamento dos homens.
O maior exemplo é o meu amigo aí - disse apontando para o meu antigo senhor.
Realmente, aquele homem era outra pessoa, bem diferente do senhor que conheci.
Agia com simplicidade, já nem parecia um branco, me fazia lembrar o meu primeiro bom senhor, que Deus o estivesse sustentando nos braços, eu pedia em pensamento.
Ele e a sinhá sua esposa foram dois anjos em minha vida.
Enquanto o senhor Silvério falava, eu pensava:
"Me falaram que a minha sinhá casou-se outra vez e teve filhos gémeos.
Ah! Se eu pudesse revê-la... será que ela morava naquela tal França?", me perguntava.
Chegamos a um local onde já estavam entrando algumas pessoas, num vapor azul e branco.
Entramos e pude verificar que havia negros entre os brancos, sentados juntos; achei muito estranho.
O sol já atravessava o meio do céu quando chegamos a um local onde havia muitas palmeiras e uma praia com areia branca e fina.
Do outro lado da margem haviam umas carroças cobertas, atreladas a belos cavalos e alguns negros em volta delas.
Um dos amigos do senhor foi lá conversar com um deles e me apontou; o negro, sorrindo, aproximou-se de mim e apertou a minha mão.
Nos dividimos nas duas carroças, eu fiquei ao lado do senhor Silvério.
Seguimos por uma estrada de terra, a poeira cobria tudo.
Chegando a um determinado ponto do caminho, pude perceber que, até onde os meus olhos podiam alcançar, era uma plantação da palmeira de dendê.
Tentava puxar da memória alguma coisa naquele caminho que me lembrasse do dia da minha saída, infelizmente nada me lembrava a minha aldeia.
O sol já estava se pondo quando chegamos perto de um rio, andamos seguindo a sua margem por um bom tempo; alguns negros puxavam as suas canoas enquanto nos observavam, curiosos.
Chegamos num pequeno povoado.
Eram várias casas pintadas de branco, outras de azul, e uma igrejinha no meio.
O padre estava todo vestido de preto na porta da capela, algumas mulheres com lenços coloridos amarrados na cabeça, muitas crianças brincavam em volta de algumas palmeiras.
O meu senhor virou-se e disse-me:
- Miguel, pelo levantamento que fizemos sobre suas origens, este é o local onde você nasceu.
Você guarda em suas lembranças como era a sua aldeia?
Com o passar dos anos, as pessoas mudaram e o lugar também.
Venha, vamos conversar com o senhor vigário, ele nos espera.
O padre nos recebeu abençoando-nos, e fomos conduzidos até uma pequena sala no fundo da igreja.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 06, 2016 9:43 am

CAPÍTULO XVII - MINHA NOVA FAMÍLIA
Após os cumprimentos de praxe, o sacerdote pegou uma pasta de uma gaveta, entregando ao senhor Silvério e dizendo:
- Aqui estão todas as informações que pude obter neste caso.
Os senhores leram, e foi o meu senhor quem falou primeiro, olhando para mim:
- Miguel, com certeza você está em casa, esta é a sua terra.
No meu coração, eu dizia para mim mesmo, "todos estão enganados, esta não é a minha aldeia!"
O senhor Silvério me chamou à realidade me pedindo que prestasse bem atenção em tudo o que ele leria e que eu tentasse me lembrar de algumas coisas.
Começou lendo a história do meu rapto.
Falou o nome dos meus pais, irmãos e de alguns parentes próximos que eu já nem me recordava.
Comentou que um dos negros que participou do nosso rapto ainda vivia e foi por intermédio dele que eles foram juntando informações até chegarem à minha origem.
Falou o nome de alguns negros que trabalhavam no navio negreiro, contou detalhes de como eles eram, de como agiram connosco, alguns detalhes pessoais sobre o meu comportamento, tudo batia.
O sacerdote pediu ao menino que lhe ajudava na igreja que fosse chamar Luzia e todos os irmãos dela.
Esse era o nome da minha irmã mais velha!
O sacerdote acrescentou:
que viessem todos até a igreja, era um assunto muito importante.
Dali a meia hora entrava três mulheres e dois homens, um deles eu de cara reconheci pela semelhança com meu pai.
As mulheres não me lembravam ninguém.
O padre então me apresentou para eles, dizendo-lhes:
- Graças ao trabalho desses filhos de Deus, acredito que vocês estão diante do vosso irmão, Luís Fernando.
Todos eles se acercaram de mim chorando, a minha irmã Luzia precisou sentar-se e tomar um copo de água com açúcar.
Eu, ainda sem poder acreditar que eles eram os meus irmãos, lembrei-me que eu tinha três irmãos; não cinco!
Os meus cinco irmãos conversavam com os senhores e com o sacerdote, eu não entendia bem o que eles falavam.
Por fim, o meu senhor pondo o braço nos meus ombros, disse:
- Miguel, agora você vai ficar com a sua família, reatar os laços familiares que ficaram para trás.
Vamos deixá-lo com sua família, mas o nosso amigo e colaborador nesta grande obra de Deus, que é a liberdade vai ajudá-lo em tudo o que for preciso.
Ele trará notícias nossas para você e levará notícias suas para nós.
Não precisa ficar com medo, nós vamos estar em contacto com você.
Criando coragem, falei ao senhor:
- Eu estou confuso e com medo de estar me enganando e enganando outras pessoas.
Eu não tive cinco irmãos.
Nós éramos três, e vejo que aqui tem cinco pessoas dizendo que são meus irmãos!
O senhor, então, disse-me:
- Miguel, você está no meio dos seus irmãos.
Você vai conhecer toda a história de sua família e entender o que aconteceu.
Luzia me abraçou e me perguntou se eu ainda gostava de "xerém" (milho branco socado no pilão, cozido com leite de vaca e sal).
Antes que eu pudesse responder, ela acrescentou à sua pergunta:
"... E as sementes do dendê que você deixou plantadas, hoje são a fonte de sobrevivência da nossa aldeia.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 06, 2016 9:44 am

Você é muito conhecido entre o nosso povo, exactamente por ter nos deixado essa herança".
Fiquei emocionado e comecei a enxergar alguns traços de minha mãe no rosto dela.
Comecei a chorar e perguntei, entre soluços:
- Onde está a nossa mãe?
- Nossa mãe está com Zambi (Deus) faz mais de 25 anos.
Ela jamais te esqueceu, morreu sonhando com este momento que nós estamos vivendo agora.
Queria vê-lo, queria saber notícias suas.
Nós sabíamos que você vivia, os nossos mestres confirmavam a sua presença ligada à família, mas não tínhamos esperança de reencontrá-lo.
Luís, nós temos muitas coisas para conversar.
A nossa mãe, mesmo com todo sofrimento em seu coração, se uniu a outro bom homem, exactamente para nos defender.
Ela teve nossos dois irmãos caçulas, Bento e Beatriz.
Eles sorriam para mim com bondade, vi que Beatriz tinha o mesmo sorriso de minha mãe.
Os senhores despediram-se de mim.
Senhor Silvério, um jovem magnífico, apertou minha mão, dizendo:
- Coragem, meu amigo, permaneça firme na luta.
Vamos tentar fazer algo mais por você.
O meu senhor entregou uma bolsinha cheia de moedas ao sacerdote, recomendando:
- Aí tem o suficiente para Miguel recomeçar a sua vida.
Compre-lhe um bom pedaço de terra, sementes, ferramentas e alguns animais, o resto ele sabe fazer melhor que ninguém.
O sacerdote, apertando a mão dele, respondeu:
- Fique tranquilo, Frederico, farei o que me pede.
Logo entraremos em contado com vocês.
O meu senhor disse-lhe:
- Qualquer novidade, você será informado.
Pela primeira vez vi lágrimas nos olhos de um branco fidalgo na hora da despedida de um negro.
Ele ficou uns segundos me olhando, os olhos cheios de lágrimas, me puxou num abraço, e com palavras entrecortadas pela emoção, falou:
- Miguel, Deus te abençoe.
Cuide-se bem, daqui a seis meses eu volto para te apanhar, mas antes disso nós vamos ter notícias um do outro.
Saiu sem olhar para trás.
Eu fiquei parado sem saber o que pensar senti um aperto no coração, tive a mesma sensação de abandono.
Estava novamente sozinho, sem pai, sem mãe e sem amigos.
Mas, enfim, se Deus me preparou aquele caminho, eu deveria ir até o fim.
Após ouvir todas as recomendações do padre, saí da capela acompanhado por meus irmãos.
Eles estavam alegres e, emocionados, me apresentavam para toda a comunidade, que me cercava por todos os lados.
Chegamos em frente a uma casa, uma senhora de cabelos brancos apoiada num cajado de madeira e amparada por uma mocinha, abria os braços para mim.
Chorando, gritava:
- Meu filho, é você mesmo!
Luís, meu filho.
Ah! Orixás, a minha irmã precisava estar aqui nesta hora, a nossa felicidade é grande demais.
Eu continuava olhando aquele rosto marcado pelo tempo, tentava me lembrar de onde a conhecia.
A minha irmã antecipou-se, dizendo:
- Luís, essa é a nossa tia Anita, irmã da nossa mãe.
Não se lembra dela?
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 07, 2016 11:06 am

Como se despertasse de um sono de infância, reconheci nos traços de minha tia a imagem de minha mãe.
Abracei-me a ela chorando.
Sim, eu me recordava quando ela estourava pipocas com mel para crianças.
Lembrava-me de que ela e minha mãe estavam sempre juntas cuidando das crianças.
Olhei para o seu rosto e não podia conter a emoção e a saudade da felicidade que conheci ao lado dela.
Chegou o restante da família, sobrinhos, cunhados, primos, tios e o meu padrasto.
Um senhor de cabelos brancos, barba cheia e branca como algodão.
Com os olhos serenos e um sorriso bondoso apertou a minha mão, dizendo-me:
- Luís, você não se lembra de mim, mas eu o conheço desde o dia em que nasceu.
Ao lado de sua mãe, sonhávamos com este dia de hoje.
Infelizmente, ela não está aqui para dividir connosco esta felicidade.
Quero, meu filho, que você primeiro converse com os seus irmãos e toda a família para ficar sabendo de tudo o que aconteceu nesses anos de separação.
A sua mãe sofreu demais, todos nós sofremos muito.
Vamos ter muito tempo para conversar.
Eu olhava para ele e imaginava:
"Se a minha mãe sonhou com este dia, como pôde ter esquecido meu pai?"
Meu pobre pai, se ele tivesse voltado comigo, o que seria dele?
Passei a minha vida inteira sonhando em voltar para casa e, ao retornar, encontro novos irmãos e um padrasto...
Como se sentiria o meu pobre pai?
Viveu toda sua vida no sofrimento do cativeiro e alimentava-se das saudades e das lembranças da esposa amada...
Não respondi nada ao meu padrasto, a minha cabeça rodava, estava cansado, exausto pela viagem e pelas emoções dos últimos tempos.
Minha irmã notou a minha fadiga e pediu:
- Vamos deixar Luís descansar.
Amanhã teremos todo o dia e depois todos os dias para ficar com ele.
Aquele nome me soava tão estranho: Luís...
Eu não me sentia o mesmo, começava a sentir falta de ouvir alguém me chamando de Miguel!
Fui levado até o fundo da casa e pude respirar o ar puro e cheiroso que só aquela terra tem!
As palmeiras de dendê se estendiam a perder de vista, me banhei e troquei de roupa, voltando para dentro de casa.
Na cozinha, minha irmã havia preparado uma cuia com leite de cabra, um prato cheio de mandioca frita na banha de porco, queijo assado na brasa e tapioca com coco.
Rindo, ela me perguntou:
- Ainda gosta desta comida, Luís?
Era a sua preferida quando garoto - acrescentou.
- Tantas coisas mudaram, Luzia, perdi tantas coisas boas nesta vida, mas conheci outras tantas coisas boas que já não posso dizer que minha vida toda foi de sofrimento.
Sonhei demais com este momento, nunca imaginei que um dia eu pudesse estar aqui novamente.
Mas agora percebo que o tempo passou e tudo mudou, nós mudamos...
Enquanto eu comia ela me observava, de repente me abraçou em silêncio e choramos juntos.
Havia tantas coisas a serem ditas um para o outro!
Ela me levou até um quarto e me disse:
- Você vai ficar neste quarto, era do meu último filho, que se casou há pouco tempo.
Você fica comigo, também estou só.
Fiquei viúva e meus filhos estão todos casados, graças a Deus.
Descanse um pouco, já esperamos tantos anos por este dia que nada nos custa esperar até amanhã para começarmos a falar de nossas aflições e alegrias.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 07, 2016 11:06 am

Me deitei, e ela me cobriu como se eu ainda fosse aquele menino.
Eu não podia esperar até o outro dia para saber como a nossa mãe pôde se casar novamente e ter filhos, sabendo que estávamos no cativeiro brasileiro.
- Luzia, eu não entendo como a nossa mãe pôde se casar novamente, sabendo da nossa infelicidade...
Luzia enxugou os olhos e disse-me:
- Luís, a notícia que nos chegou aqui foi de que nosso pai havia morrido antes de chegar ao destino, e que você foi entregue a uma família que lhe adoptou.
Até nos trouxeram alguns pertences do nosso pai, que foram entregues à nossa mãe.
Depois você vai reconhecer a machadinha que ele deixou, as botas de couro e o chapéu.
Tínhamos um traidor entre nós:
Juvenal nos traiu, ele apontou o caminho da nossa aldeia para aqueles brancos.
Depois que foi descoberto, ele desapareceu, nunca mais soubemos notícias dele.
Somente há pouco tempo ficamos sabendo que você estava vivo e que o nosso pai faleceu no cativeiro ao seu lado.
Ainda bem, Luís, que a nossa mãe não sofreu mais esse golpe.
Ela jamais se esqueceu do nosso pai nem de você.
O tio Benedito casou-se com nossa mãe.
Foi um pai para nós, amparou nossa mãe.
Por isso eu lhe peço, Luís, olhe para esse negro velho e procure gostar dele.
Ele fez por nós o que um pai teria feito.
Sempre nos respeitou e amou nossa mãe verdadeiramente, até os últimos dias de sua vida.
Eu nem sei lhe dizer, meu irmão, se não fosse o tio Benedito o que teria sido de nós.
Nosso avô, com a partida de vocês caiu de cama e nunca mais se levantou.
Só saiu de casa para ir ao cemitério.
Descanse meu irmão, amanhã falaremos sobre isso.
Deitado, olhava para o tecto, lembrava-me dos meus filhos, da Ritinha, de Nalva, tão amigas e tão irmãs!
Sentia falta de tudo e de todos.
Pensava em Lucien e no senhorzinho seu marido, as lágrimas desciam do meu rosto, sentia um aperto no coração, a minha vontade era de sair correndo para a senzala.
Ali estava a minha vida, ali estavam as pessoas mais queridas e necessárias da minha vida.
Sonhei tanto em retornar para casa e agora estava ali, me sentindo perdido como um pássaro que perde o seu rumo.
Deitado na cama de palha quente, coberto com uma colcha de retalhos, eu começava a entender que os desígnios de Deus são bem diferentes dos nossos.
A ansiedade tomava conta de mim, mal tinha chegado e ansiava por voltar.
Daria tudo naquele momento para retornar para o Brasil, para a senzala, para meus filhos e amigos.
Demorei a conciliar o sono, o silêncio da noite era quebrado pelo canto dos grilos.
Fechei os olhos e pensei:
"Eles cantam na mesma língua falam a mesma coisa, tanto aqui quanto no Brasil".
E, assim, ouvindo o canto dos grilos e os latidos dos cachorros, que me pareciam tão iguais aos da casa grande, adormeci.
Comecei a sonhar que estava no cemitério e via a minha avó Joana conversando com o meu pai.
Corri até eles e gritei:
"Graças a Deus que eu voltei!
Veja só, vovó, o que eu estava sonhando:
que viajei para a França e fui até Angola e, que havia encontrado meus irmãos, minha tia Anita e dois novos irmãos!
Imagine que sonho louco!"
"Não, filho, você não sonhou, tudo isso é verdade", respondeu o meu pai olhando sério para mim.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 07, 2016 11:06 am

"Você está com os seus irmãos, está em nossa terra, e eu estou aqui para lhe pedir uma coisa:
trate bem o senhor Benedito e ame os seus irmãos igualmente.
Nós devemos muito ao senhor Benedito, ele fez o meu papel de pai para os seus irmãos, cuidou da mulher que nós amamos, sua mãe.
Nós só temos de agradecer a ele.
Agora é a sua vez de demonstrar a nossa gratidão a ele.
Cuide bem dele, meu filho, aprenda a gostar dele".
Minha avó Joana me abraçou, dizendo:
"Miguel, meu filho, lembra-se das sementes de dendê?
Elas vingam e se multiplicam para novas vidas.
Deus confia a cada um de nós muitas tarefas, meu filho.
Procure cumprir bem as suas tarefas, conforme eu te ensinei:
com paciência e humildade.
Nunca queira saber mais que o seu Pai Criador, ele sabe o que é melhor para cada um dos seus filhos.
Tenha obediência e respeito para com o seu Pai Criador."
Meu pai tornou a falar:
"Nós estamos do seu lado, filho, você não está sozinho, jamais sinta-se abandonado, pois nós estamos aqui, em Angola, do seu lado.
Você não está sonhando, nos procurou tão longe, filho, correndo para o Brasil em busca de alento, esquecendo-se que é só chamar por Deus e acreditar na força do amor.
Durma, descanse, filho.
Amanhã cedo você se sentirá melhor e mais seguro.
Não se esqueça dos velhos ensinamentos dos nossos orixás:
não fique sonhando com as estrelas no céu, enquanto os vaga-lumes lhe clareiam a passagem na Terra."
Engoli seco, me lembrando que a minha mãe casou-se com outro homem e meu pai me pedia para cuidar dele!
Me revoltava saber que ele amou tanto e que ela havia se casado com outro, esquecendo-se dele.
Minha avó, me abraçando, pediu-me:
"Miguel, pare de julgar, meu filho, você esqueceu-se que eu também te amei e que foi esse amor que te ajudou a sobreviver?
Ah! Miguel... não faça comparações, meu filho.
Deus colocou Benedito na vida de sua mãe da mesma forma que me colocou em seu caminho, filho.
Seja justo, não seja ingrato com aqueles que estenderam as mãos para os seus entes amados."
"Perdão, minha avó, às vezes sou egoísta e não percebo que isso fere as pessoas.
Me perdoe, por favor, me ajude a cumprir esta nova missão; me sinto fraco e desprotegido."
Acordei com o canto de mulheres numa língua estranha.
Abri os olhos devagar e me dei conta de onde estava.
Me recordei do sonho, e percebi que nisso a minha aldeia em nada mudou:
os homens levantavam-se cedo para as suas tarefas.
Ergui-me da cama, ajeitei as cobertas, calcei uma sandália de couro que havia ganhado do senhor Ernesto na minha saída, fui até a cozinha e senti o cheiro de lenha queimando.
Luzia já tinha acendido o fogão, colocado batata-doce para cozinhar; assim que me viu abriu um sorriso e disse-me:
- Levantei-me para olhar você dormindo, parecia sonhar.
Mas por que acordou tão cedo?
Devia ter descansado um pouco mais, Luís.
Sente-se aí e espere que eu vou preparar algo bem gostoso para comermos.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 07, 2016 11:06 am

Um garoto chegou com um pote de barro cheio de leite e disse:
- Meu pai encheu o pote e disse que o tio precisa comer bastante para ficar forte, pois está muito magro.
Veio até a mim, tomou a bênção e beijou a minha mão, os mesmos costumes do meu tempo, beijou também a mão da avó - era neto da minha irmã.
Aquele garoto simpático e sorridente me fazia lembrar de mim mesmo quando alimentava os meus sonhos ao lado do meu pai.
Alisei os seus cabelos pensando em meus filhos.
Como podia, Deus, no mesmo mundo, no mesmo tempo, existir crianças cativas, crianças que não tinham o direito de sonhar?
Após o nosso café, minha irmã convidou-me para irmos até o centro da vila.
Toda a família aproveitaria aquele sábado para conversar comigo e, logo mais, à tarde, deveríamos ir até o templo dos nossos orixás receber uma bênção, ouvir os seus conselhos e fazer nossos agradecimentos.
Sentei-me embaixo de uma palmeira carregada de cocos de dendê e avistei os urubus sobrevoando as redondezas; comecei a sorrir lembrando dos meus sonhos e da inveja que sentia deles em poder voar levar e trazer coisas.
Os meus irmãos sentaram-se próximos, e toda família foi se apresentando - era muita gente!
Muitos amigos da minha infância estavam ali, envelhecidos como eu.
Fiquei sabendo que mais negros foram levados da nossa aldeia.
Pelos nomes tentava me lembrar, mas as imagens me fugiam do pensamento.
Meus irmãos me falaram do trabalho do padre e da grande ajuda que ele dava para a nossa aldeia.
Todos davam graças a Deus porque foi proibido o tráfico de negros, mesmo assim, de vez em quando se ouviam notícias de negros que desapareciam sem deixar pistas.
Na nossa aldeia nenhum homem se afastava sozinho, quando tinham de comprar ou vender mercadorias, o padre sempre acompanhava os homens, e por intermédio dele haviam muitos homens brancos trabalhando para trazer de volta os negros que foram raptados.
Nesses últimos anos, já haviam recolhido dez negros da nossa aldeia, eu e meu pai fomos os primeiros a ser levados - muitos negros da nossa comunidade desapareceram sem deixar rastros.
Tempos depois foi descoberto um traidor entre o nosso povo.
Isso me fez lembrar as pregações do padre na capela da casa do senhor:
"Jesus foi traído por um dos seus discípulos e toda comunidade, independentemente de raça ou cor, pode ter um traidor".
Em pouco tempo narrei toda a trajectória da minha vida, a separação com o nosso pai, a sorte que tive com o meu primeiro senhorzinho, a protecção da minha avó Joana.
A desgraça que se abateu sobre nós com a morte do senhor e a partida da sinhá... enfim, contei-lhes tudo.
Falei dos meus filhos, que eram tantos, da recente carta de alforria que recebi do meu senhor.
Da minha chegada até ali e da minha intenção de retornar ao Brasil dali a seis meses.
Ao parar de falar, os meus irmãos choravam em silêncio.
O meu irmão caçula, filho da minha mãe com o senhor Benedito, falou:
- Meu irmão, esta é sua casa, a sua família, você sofreu tanto...
Por que deseja voltar ao sofrimento do cativeiro?
Ver os seus filhos sofrendo e você sem poder fazer nada?
Fique connosco, vamos lutar para libertar seus filhos do cativeiro e trazê-los para a nossa aldeia.
Esses senhores que lhe trouxeram até aqui, estão preparando um grande trabalho para trazer de volta todos os filhos da África que estão escravizados em outros países.
Não vai ser fácil, mas nós temos de ajudá-los.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 07, 2016 11:07 am

Um amigo meu de infância, ouvindo a história de Ritinha, comentou:
- Eu tenho quase certeza de que essa menina era a filha do senhor Pedro e da dona Maria.
Ela desapareceu no mesmo dia que você e, pelo que falou sobre a menina, é ela mesma.
Pena que eles já se foram dessa vida, pois eu acho que ela era a filha deles.
Senti uma alegria tão grande dentro de mim!
Se fosse verdade, eu lutaria com todas as minhas forças para voltar ao Brasil e levar notícias para Ritinha sobre sua família.
Já passava do meio-dia quando Luzia pediu para encerrar a nossa reunião, deixando para outro dia o nosso novo encontro.
Ali, embaixo daquela palmeira, dei um abraço sincero no senhor Benedito, fiquei conhecendo toda a história dele com a minha mãe.
Não somente ela, mas todos acreditavam que meu pai estivesse morto, o senhor Benedito fez para os meus irmãos a mesma coisa que a minha avó Joana havia feito por mim: os adoptou.
Cuidou da minha mãe e sempre respeitou a memória do meu pai.
Só agora eu percebi que ele tremia muito e arquejava ao falar, lembrei-me do pedido do meu pai: cuide dele.
Prometi a mim mesmo, "cuidarei dele como meu pai me pediu".
Luzia me preparou um banho com muitas sementes e raízes.
Ela me disse:
- Você voltou às suas raízes, é uma boa semente da terra, precisa apresentar-se aos orixás limpo e bem tratado.
O sol já estava baixando no horizonte quando nos encaminhamos para lá; entramos no enorme terreiro de terra batida, era igualzinho a como quando o deixei.
Meus olhos viram e as minhas lembranças voltaram.
Logo mais, com muita emoção, vi os guias se manifestando em seus médiuns de uma forma singela, clara e pura.
Fui agraciado por todos eles, que me ofertavam flores, ervas, frutas e vinho, esqueci-me por completo do sofrimento e dos temores do porvir.
Por ouvir tanto tempo o francês e o português com sotaques diversos, eu entendia mais as línguas estrangeiras que o meu próprio dialecto.
Tive algumas dificuldades nos primeiros tempos em entender todas as palavras, mas aos poucos fui me acostumando; naquele primeiro dia de trabalho com os deuses confesso que pouco entendi as suas palavras.
Naquele dia dormi cedo, estava completamente relaxado, o corpo pedia cama.
Acordei no outro dia mais calmo e esperançoso, começava a me integrar novamente ao meu povo.
O meu coração estava no Brasil, eu tinha uma ideia fixa: voltar!
Enquanto tomava minha cuia de leite de cabra, já estava pronto para ir assistir à missa.
Todos os negros da nossa comunidade participavam da missa aos domingos, o padre não proibia o nosso culto, mas pedia a presença de todos na igreja.
Enquanto eu relembrava do padre que celebrava a missa na capela da casa grande do meu senhor brasileiro, um dos netos da minha irmã entrou correndo na cozinha falando:
- Tio, o padre pediu que o senhor vá conversar com ele depois da missa.
É muito importante.
Assenti com a cabeça, agradecendo ao garoto e lhe oferecendo um pedaço de queijo de cabra, que ele rindo aceitou.
Bem sei que fez isso mais para me agradar, não que estivesse com fome.
Eu e minha irmã nos dirigimos à igreja um ao lado do outro, ela era só sorrisos; fui recebido por todos com muito carinho e respeito.
Todos me cumprimentavam, as crianças me tomavam bênção, as moças me olhavam admiradas e os rapazes me tratavam com muita atenção.
No decorrer da cerimónia, eu fechei os olhos e tentei acompanhar as palavras proferidas pelo padre.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 07, 2016 11:07 am

Sem poder controlar a minha emoção, senti que as lágrimas banhavam meu rosto.
As lembranças me machucavam.
Me perguntava:
"Será que meus filhos estão bem?
Será que eles um dia vão me perdoar por ter aceitado a minha liberdade, deixando-os no cativeiro?"
Implorava a Deus por misericórdia, me sentia culpado de estar ali em liberdade deixando para trás meus filhos e amigos.
A minha vontade era de retornar o mais rápido possível.
Sonhei tanto em retornar à minha terra e reencontrar a minha família, agora estava ali, saudoso, angustiado e ansioso...
Tudo havia mudado, os meus sonhos de menino não eram reais.
O homem que sonhou tanto em retornar ao seu passado deparou-se com uma realidade bem diferente.
Baixinho, implorava aos nossos orixás que me ajudassem, que esses seis meses passassem rápido.
Pensava em meu pai, na avó Joana e, com um aperto no coração, lembrava-me da minha mãe.
Olhando para os rostos familiares, eu formava uma ideia de seu rosto, imaginava o eco de sua voz.
O padre estava dando as bênçãos finais, eu já havia tomado uma decisão:
conheceria a cova da minha mãe naquele mesmo dia, assim que falasse com o padre; pediria aos meus irmãos que me levassem até o cemitério, queria tocar a terra onde estavam minha mãe e meu avô.
O pessoal começou a sair se cumprimentando e despedindo, alguns membros da comunidade se agrupavam num canto; eu fui convidado a ficar entre eles.
Me senti um tanto confortado, pois os meus irmãos estavam ali.
O padre fechou a porta principal da capela, só então fomos para a sala dos fundos da igreja.
Logo mais, chegou o padre sem a batina preta, vestido como um homem comum e, sentando-se entre nós, começou a falar:
- Luís, você é uma peça muito valiosa para nossa organização.
Você pode nos ajudar muito, precisamos de todas as informações possíveis que você possa nos fornecer.
Mesmo sabendo que você foi cativo no Brasil, sabemos também que conhece bem a cultura e os procedimentos do povo que toma conta daquela terra.
Eu jamais imaginava que, naquela pequena mesa, tão longe do cativeiro, houvesse uma corrente de mãos tão fortes que mais tarde viria a quebrar todas as correntes do cativeiro brasileiro.
Quando saímos de lá já era tarde, confesso que até me esqueci do cemitério.
A minha esperança agora reinava nos pensamentos de libertação criados entre a França e Portugal, envolvendo alguns filhos de estrangeiros já nascidos no Brasil, jovens que estavam lutando por uma pátria livre, pela formação de um novo país.
Segundo o que me foi passado, a ideia não era arrancar as pessoas do Brasil, mas torná-las livres.
Assumi um compromisso com o movimento, lutaria ao lado deles e, assim que pudesse retornar ao Brasil, levaria um projecto de esperança.
Eu começaria a preparar o nosso povo para aprender a viver fora do cativeiro.
Como já disse anteriormente, os negros que recebiam liberdade morriam mais depressa, não tinham como sobreviver só com a liberdade.
Alguns senhores mal-intencionados já usavam esse método como estratégia, libertavam um negro que não tinha condições psicológicas de sobreviver e amedrontavam os outros negros, dizendo-lhes:
"Vocês não podem ficar livres por aí, nós os protegemos.
Enquanto estiverem cativos terão casa, comida e nenhum outro senhor tocará em vocês".
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 07, 2016 11:07 am

O padre mantinha contacto com todos os membros da organização, sem causar suspeitas aos países que defendiam a manutenção da escravidão.
Dois dias depois do meu primeiro encontro com a organização, o padre me chamou e disse que as terras onde estavam plantadas as primeiras palmeiras de dendê agora eram minhas.
O senhor deixou o suficiente para que ele adquirisse uma boa terra, uma vaca leiteira, uma cabra, um porco e algumas galinhas; eu deveria começar a cuidar da minha terra e dos meus animais.
Lá havia uma casa, não era grande, mas daria para me amparar com dignidade.
Na frente de três testemunhas me foi passado um papel confirmando que aquelas terras me pertenciam.
Eu ainda não acreditava que aquilo pudesse ser real.
Eu tinha uma casa, animais e terra para plantar!
Eu seria o meu próprio senhor!
Ficando a sós comigo, o padre falou-me baixinho:
- Luís, eu viajo depois de amanhã, vou me encontrar com um grupo de jovens que fazem parte do nosso movimento.
Esse grupo é liderado pelo senhor Silvério, aquele amigo que encontrou a sua família e lhe ajudou a chegar até aqui.
Com as informações que você me forneceu, tenho certeza de que ele vai conseguir muitas coisas lá no Brasil.
Desta vez eu não vou com eles, mas quem sabe quando você retornar ao Brasil, daqui a seis meses, eu possa embarcar com você?
Trarei notícias da França.
Que recado quer mandar para os seus amigos na França?
E que mensagem quer enviar para o Brasil?
Acredito que o Silvério, em contacto com os membros brasileiros, leve até a sua gente o seu recado, ou até mesmo uma pequena peça sua provando que estás em segurança e que as informações são verdadeiras.
Estremeci de emoção.
- Padre, será que posso mesmo enviar alguma coisa para o Brasil?
- Sim, tenho certeza de que Silvério pessoalmente se encarregará de fazer chegar ao destino.
Ele lhe tem muito apreço.
- Eu vou mandar esta pulseira velha de couro que eu sempre usei; tem um desenho feito nela, foi eu mesmo que fiz.
Ritinha conhece muito bem essa pulseira, ela vai acreditar e passar notícias minhas aos outros.
Pedi ao padre que se possível pedisse ao moço para falar sobre a possibilidade da Ritinha ser filha dos nossos vizinhos.
Eu investigaria mais o assunto, ainda não tínhamos certeza, mas havia uma chance de ser ela mesma.
O padre escreveu num papel tudo o que eu falava, e disse-me que entregaria ao moço branco de Portugal, com todas as minhas recomendações.
Enviei uma mensagem de agradecimento aos meus senhores e um pedido à minha sinhazinha Lucien:
que ela não voltasse ao Brasil sem mim.
Acrescentei que estava muito feliz, mas desejoso de regressar ao convívio dos meus filhos e amigos.
Me despedi do padre, desejando-lhe boa viagem.
Ele me recomendou:
- Vá cuidar de sua nova casa, os animais precisam de cuidados, assim que eu voltar vamos nos reunir para que todos saibam dos avanços dos nossos projectos.
Saí com os olhos cheios de lágrimas.
Só de pensar que alguém levaria notícias minhas para os meus filhos e amigos, minha alma se alegrava.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 07, 2016 11:07 am

Encontrei meu irmão caçula no caminho e pedi-lhe para que fôssemos até o cemitério, pois gostaria de tocar na cova da nossa mãe.
Emocionado, ele me respondeu balançando a cabeça afirmativamente.
Chegamos e pedimos licença antes de entrar; aprendemos com os nossos mestres que toda casa e todo ponto da natureza têm os seus donos.
Observei as árvores frondosas e floridas que enfeitavam o campo santo.
Ao lado da cova da minha mãe havia uma palmeira de dendê.
Olhei para cima, ela estava carregada de frutos.
Meu irmão comentou:
- Nossa mãe pedia sempre que na cova dela tivesse uma palmeira de dendê, assim ela estaria ligada a você.
Pois foi você o descobridor da palmeira que hoje é a nossa riqueza por aqui.
Ajoelhei-me e chorei como uma criança; o pranto, contido por tanto tempo, cessou, e a voz saiu:
- Minha mãe, eu estou aqui, eu estou em casa!
Quantas coisas eu gostaria de lhe falar, mas vejo que agora é tarde.
Onde estiver, por favor ouça-me:
o seu menino continua triste sentindo a sua falta.
Visitei as covas de todos os familiares, meu irmão ia me apontando cada cova e falando os nomes dos mortos.
Interessante como nós guardamos tantas lembranças que, quando são necessárias, voltam como se fossem fotografias guardadas na memória, eu ia me lembrando de cada um, pessoas que eu havia esquecido; de repente, as lembranças dos seus rostos vinham claramente dentro de mim.
Terminamos de visitar todos os túmulos e eu aproveitei a ocasião e convidei meu irmão para me acompanhar até a minha nova casa.
Passamos na nossa vila, os outros irmãos e sobrinhos nos acompanharam até lá, era uma beleza.
As velhas palmeiras balançavam, estavam todas carregadas de frutos.
Os animais circulavam livremente de um lado para o outro.
A casa caiada, coberta com telhas de barro, era um verdadeiro luxo para mim.
Meus irmãos me abraçaram, comovidos, e falavam ao mesmo tempo:
- Você merece, Luís.
De todos nós, quem mais faz jus a esta casa e a esta terra é você.
Entrei na casa e fiquei deslumbrado!
Ela estava toda prontinha mobiliada e bem limpinha.
- Venha cá, Luís, veja este pilão aqui - olhei e não entendi nada.
Esse pilão foi feito com aquela tora de madeira que o nosso pai deixou na saída de vocês.
Este pilão foi feito porque os nossos guias nos disseram que um dia ele seria útil para todos nós; guardamos ele esperando por você e pelo nosso pai.
Abracei o pilão e chorei.
Ninguém mais do que eu para saber o que aconteceu diante daquela tora de madeira.
Aos poucos fui reconhecendo pertences da minha mãe, do meu avô e do meu pai.
As minhas sobrinhas, duas moças bonitas - uma delas lembrava a minha mãe -, dentes fortes, alvos e bem-feitos, muito sorridente, me puxaram pela mão, dizendo-me:
- Venha, tio Luís.
Hoje é dia de alegria, não de tristeza.
Venha ver o que lhe preparamos!
Havia sobre a mesa um verdadeiro banquete:
bolo, doces e salgados à vontade, sucos, aguardente e licores variados.
Foi realmente um grande dia para todos nós.
Enquanto as mulheres riam e conversavam entre si, os homens também discutiam novos planos.
Os meus irmãos discutiam o plano do padre, que era não de tirar os nossos filhos de sua terra natal, mas torná-los livres.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 07, 2016 11:07 am

Os meus filhos brasileiros e cativos mal poderiam saber que tantas pessoas do outro lado do mundo estudavam uma forma de libertá-los do cativeiro.
Ouvindo cada um deles, pude perceber o quanto fui egoísta a vida inteira em só pensar na minha dor, nas minhas perdas.
Jamais imaginei a luta e o sofrimento deles em sentirem-se impotentes diante do mundo.
A verdade é que a minha família sofreu tanto quanto eu a dor da separação.
O nosso rapto foi transmitido de pai para filho todo esse tempo; eles choravam e sofriam com a nossa ausência.
Já era noite, e eles vieram se despedir de mim.
Abracei cada um dos meus irmãos com verdadeiro sentimento, pedi desculpas a eles e prometi a mim mesmo que faria de tudo para entender a vontade de Deus para connosco.
Naquela noite, sozinho na minha nova casa, deitado sobre o meu colchão de junco, ouvia o cantar dos grilos e das corujas; o meu pensamento corria para o Brasil.
Nunca imaginei que fosse sentir tantas saudades assim; que falta, Deus, eu sentia dos meus filhos e dos meus amigos que se tornaram a minha família.
Não consegui conciliar o sono, levantei-me, tomei um copo de água, tirei a tranca da janela e me debrucei sobre ela.
Fiquei observando as estrelas que cruzavam o céu, sonhava acordado:
"Um dia eu vou fazer como essas estrelas... elas cruzam o céu!
Eu vou cruzar o mar!
Não sei até onde elas chegam, mas eu sei aonde quero ir:
ao Brasil..."
Enquanto voava com meus pensamentos, um vaga-lume chegou perto de mim.
Lembrei-me das palavras do avô João de Angola:
"Não fique sonhando com as estrelas no céu, repare nos vaga-lumes que estão ao seu lado em terra".
Peguei o vaga-lume na mão e agradeci a Deus, eu sabia que tudo o que estava acontecendo comigo tinha um grande propósito divino.
Não sei quanto tempo fiquei ali debruçado na janela; o silêncio da noite traz muitas respostas para as perguntas que fazemos com a consciência.
Meditei bastante, não sei o que seria de mim dali pra frente, pois mesmo no seio da minha verdadeira família eu me sentia só.
Tinha liberdade e uma grande solidão:
"...Deus, o homem nunca está realmente satisfeito com o que tem", dizia para mim mesmo.
Olhando para o infinito sem encontrar o caminho que buscava, decidi que me empenharia em cuidar daquela terra, faria o melhor possível, plantaria de tudo, inclusive muitas flores e ervas em volta da minha casa.
Pararia de contar os dias, deixaria nas mãos de Deus e dos nossos orixás o meu destino dali por diante.
Fechei a janela, deitei-me, fechei os olhos e dormi.
Acordei no outro dia com a minha sobrinha me chamando à porta, trazia cuscuz de milho, leite de cabra e beiju de mandioca.
Sorrindo, ela me preparava a mesa:
- Trouxe para o senhor, tio Luís, é para comer tudo.
O seu almoço tem gente brigando para fazer - falou rindo.
Não é para o senhor se preocupar em fazer comida, nós fazemos com muito gosto.
Hoje é o primeiro dia que o senhor abriu a porta da sua casa para dar um bom dia para alguém; neste dia que amanheceu para todos nós, começa uma nova história em sua vida.
Eu, sinceramente, desejo, meu tio, que o senhor possa encontrar um pouco de paz aqui entre nós.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 07, 2016 11:08 am

Todos nós te amamos muito, crescemos ouvindo o seu nome e aprendemos a respeitá-lo, do jeito que o senhor merece.
Sou privilegiada por ser a primeira pessoa que bate à sua porta, e ela se abre para mim.
Conte comigo para tudo o que o senhor precisar.
Fiquei emocionado com tanta demonstração de carinho e amor que recebia daqueles que sempre estiveram ligados a mim pela corrente do verdadeiro amor.
Abracei minha sobrinha e beijei sua fronte.
- Muito obrigado, minha filha, você não imagina como me sinto feliz em poder ouvir tudo isso de você.
Mas agora sente-se e me faça companhia!
Está tudo tão cheiroso, e depois de todo esse dengo, fiquei com fome de leão.
Assim foi no almoço, à tarde e à noite, todos os dias.
Por mais que eu pedisse para não se preocuparem comigo, as minhas sobrinhas, cunhadas e outros membros da família me traziam guloseimas diferentes todos os dias.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 08, 2016 8:44 am

Capítulo XVIII - A ESPERA
Entreguei-me ao trabalho de sol a sol e, numa semana, já havia limpado e plantado muitas coisas.
A lua estava cheia, as minhas irmãs trouxeram-me ovos e galinhas para chocar.
Todo dia me traziam algo novo.
Eram sementes disso e daquilo, plantei milho, mandioca, batata-doce, inhame.
As plantas já começavam a brotar; a chuva fina que caía do céu parecia que foi encomendada para tal.
Assim passaram-se os dias, e eu aflito pela chegada do padre com as notícias.
Uma tarde eu estava amarrando uma cerca quando avistei de longe o padre, com sua batina preta.
Corri, lavei as mãos, o coração disparou; minha ansiedade era tanta que não esperei o padre chegar, corri a seu encontro, estendendo-lhe as mãos.
O padre sentou-se na pequena varanda da minha casa, ofereci uma caneca de água.
Ele respirou fundo e disse:
- Essa subida até aqui mata a gente.
Realmente a minha casa ficava num alto, tinha uma vista bonita, era bem localizada.
- Luís - disse o padre -, graças a Deus, deu tudo certo.
O que tenho a lhe dizer certamente vai lhe agradar.
Acredito que nestes três dias o nosso pessoal esteja desembarcando no Brasil.
Silvério levou sua carta e a pulseira, e leva a recomendação que só deve entregar nas mãos da Ritinha, sua amiga.
Da França, trago uma novidade para você!
Vou ler o que está escrito nesta missiva, posso?
- Por favor, padre, leia, leia.
"Olá Miguel, tudo bem?
Como você está se sentindo entre os seus?
Bem, eu posso imaginar...
Tiro por mim, é só felicidade, não é mesmo?
Apesar de toda falta que sinto de todos que deixei no Brasil, sou a pessoa mais feliz do mundo, aproveito cada minuto de minha vida ao lado dos meus pais, marido e irmão.
Miguel, eu vou ser mãe!
Estamos num grande dilema:
nos preocupa a viagem de volta e os perigos que eu possa correr dentro de um navio.
Por outro lado, quanto tempo precisamos esperar até podermos viajar com o bebé?
Bem, já discutimos uma outra possibilidade:
meu marido volta ao Brasil no tempo combinado, e eu fico com meus pais.
Mas não se preocupe, se você realmente deseja retornar ao Brasil, meu marido levará você de volta.
Estou com muita saudade de você, fiquei contente em saber que você está óptimo, cuide-se bem.
Ah! A minha tia (a sua antiga sinhá) ficou emocionada, as lágrimas, ao conhecer toda a história da minha vida.
Meu pai reconheceu os erros dele e falou-lhe que você salvou a minha vida.
Ela também tem filhos gémeos, hoje uma moça e um rapaz, ela lhe envia lembranças e ficou feliz em saber que você retornou para casa."
Enquanto o padre lia a carta, as lágrimas rolavam pelo meu rosto, a lembrança da minha antiga sinhá, tão bela e tão generosa!
Parecia ver o rosto do meu senhor, o marido dela, aquele homem era um verdadeiro anjo de Deus.
Então a minha menina ia ser mãe!
Ela, que nasceu nas minhas mãos... a menina que dormia agarrada no meu pescoço... a minha boneca de louça ia ter um filho!
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 08, 2016 8:44 am

Quem me dera poder ajudá-la.
Ela me chamava de Miguel, eu era Miguel, sim, Luís Fernando foi o menino que morreu dentro de mim.
Após conversar alguns minutos com o padre sobre a sua viagem, ele levantou-se e ficou admirando o meu trabalho.
- Luís, em tão pouco tempo você fez tudo isso?
- Sim, padre, eu quero fazer muito mais.
Parei em frente do padre.
- Preciso lhe fazer uma confissão padre:
eu me sinto tão estranho quando ouço alguém me chamar de Luís.
- Mas o seu nome é Luís! - falou o padre.
Eu sei que você passou a vida toda ouvindo as pessoas te chamando de Miguel.
Mas, veja bem:
é muito importante que você assuma a sua verdadeira identidade.
É necessário você se reencontrar, deixando para trás o cativo Miguel para descobrir na liberdade o verdadeiro Luís Fernando.
O padre foi embora me avisando do encontro para o outro dia à tarde com todos os homens envolvidos no movimento de libertação.
À noite eu fiquei com a carta entre os dedos, invejava os nobres que sabiam ler e escrever; como era bonito ver as pessoas com uma pena desenhando formas e riscos e outros lendo e entendendo o que estava desenhado.
Devia ser mesmo uma coisa de Deus aprender a ler e a escrever.
Algo me dizia que eu não voltaria para o Brasil dentro de seis meses; as coisas estavam mudando de rumo.
Um pressentimento de medo apertava o meu coração:
"Será que o senhor se lembraria de mim?"
E, assim, trabalhando, trocando ideias, aprendendo e ensinando o meu povo, os dias foram se passando.
O padre recebeu um chamado para apresentar-se na França.
Ficamos empolgados, talvez fossem notícias trazidas do Brasil pelo senhor Silvério.
Nesse ínterim já haviam se passado quatro meses.
O padre partiu, levando uma carta minha que ele mesmo escreveu:
minhas plantações estavam lindas e viçosas, meu terreiro lotado de frangos e pintinhos, todos os ovos vingaram, dava gosto ver a ninhada ao redor da mãe.
Eu me empenhava em trabalhar, os meus irmãos me chamavam atenção dizendo que eu agora era Luís e não Miguel, o escravo.
Para que trabalhar tanto daquele jeito?
Era a forma de me acalmar, assim eu não contava os dias que passavam tão devagar.
Fazia um mês que o padre tinha viajado e nada de ele voltar com notícias da França nem do Brasil.
Eu já planeava deixar a minha casa e toda a plantação para os meus irmãos colherem, logo, logo eu deveria estar me preparando para viajar.
Ainda bem que eu zelava bem pelo casaco e pelo chapéu novos que havia ganhado.
Nisso aí eu estava despreocupado, poderia enfrentar o frio muito bem.
O tempo se arrastava, os dias passavam, e nada do padre voltar.
A minha roça com todo milho em espigas, feijão em tempo de virar, batata, inhame que já podiam ser consumidos.
Os pintinhos agora capões (frangos castrados) e galinhas que lotavam os balaios de ovos.
Nas minhas contas, os seis meses já haviam se passado, não tínhamos notícias do padre, o medo começou a tomar conta dos homens, que consultavam os guias na esperança de respostas para as nossas inquietações.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 08, 2016 8:44 am

Um mentor espiritual veio até nós e nos avisou:
"Mantenham-se cautelosos e estarão seguros.
Não saiam de sua aldeia para buscar o que não poderá ser dado no momento a vocês.
Esperem com paciência a volta do homem de saia, ele voltará, as coisas nem sempre acontecem do jeito que nós planeamos."
Eu não me aguentava mais de ansiedade, mesmo sabendo que poderia receber uma resposta correctiva, me arrisquei e perguntei:
- Senhor, por favor, só me responda uma coisa com toda sinceridade:
o senhor acredita que eu ainda vá retornar ao Brasil?
O irmão me olhou com um olhar de reprovação e respondeu-me:
- Você já ouviu dizer que quem faz um balaio, faz cem?
Você já saiu daqui para lá e de lá para cá, não vejo impedimento nenhum em você fazer o mesmo caminho de volta.
Pare de contar nos dedos, pare de exigir do tempo uma resposta que ele não pode te dar!
Em qualquer lugar deste mundo todos os meninos crescem e tornam-se homens, você, no entanto, luta em querer sentir-se um menino que deixou de ser há muito tempo.
Em vez de ficar contando os dias que passam, comece a contar para você mesmo o que ainda pode fazer de bom por você e pelo outros.
Deixe de ser egoísta!
Pare de se fazer de vítima!
Faça outras pessoas felizes, e você mesmo provará dessa felicidade.
Baixei a cabeça, envergonhado.
O tempo corria lento, na angústia em que eu estava, fugia de tudo e de todos, começava a perder a fé e a esperança em Deus.
Nem sonhar mais eu sonhava, rezava e pedia aos orixás que pelo menos em sonho me mostrassem os meus entes amados, chamava pela minha amada avó Joana e nada, todos me esqueceram; eu de facto me encontrava muito triste.
Já não tinha vontade de comer nem de fazer mais nada!
Deixei a barba e os cabelos crespos crescerem, me olhava nas águas do rio e via a imagem de um velho enlouquecido pelas lembranças de uma vida emprestada:
"... Miguel, ali naquele corpo estava os restos de Miguel".
Comecei a tomar aguardente todos os dias, à noite.
Eu precisava dormir e esquecer que estava vivo; enquanto engolia a aguardente, desejava nunca mais acordar.
Como seria bom dormir e nunca mais abrir os olhos ou lembrar de nada!
Eu temia o suicídio por conhecer as leis dos espíritos.
Nas vezes que me passou pela cabeça matar-me, imediatamente as palavras da minha avó Joana soavam firme dentro de mim:
"A vida pertence a Deus".
Eu esperaria lentamente a minha morte natural (mal sabia eu que as pessoas que ingerem bebidas ou outras drogas, seja qual for o intuito, também estão cometendo suicídio; eu tentava me matar com a aguardente).
Meus irmãos faziam de tudo por mim, a minha irmã mais velha chorava e fazia tudo o que as entidades lhes ensinavam; coitada, pensava eu, nem eles mais se incomodavam comigo, algumas vezes que fui levado ao terreiro fiquei sentado esperando que um deles viesse me consolar, para minha decepção apenas me abençoavam (como se numa bênção o abençoado não recebesse tudo, eu me sentia injustiçado!).
Ficava deitado no banco da minha varanda e matutando:
a minha vida não valia mais nada, eu fui feliz como escravo, no sofrimento sempre encontrei uma saída para me alegrar; agora eu era livre, tinha tudo, mas me faltava o mais importante: vontade de viver.
Apesar de todo o desânimo que me afligia a alma, estava em mim o dever do trabalho; junto com meus irmãos eu dava conta de todas as minhas obrigações.
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Ave sem Ninho

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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 08, 2016 8:44 am

A mandioca estava no ponto de ser trabalhada, nós programamos arrancar toda mandioca de uma só vez, virar dia e noite, mas fazer toda a farinha.
Essas ocasiões eram uma festa, convidávamos os nossos vizinhos mais próximos para participarem connosco e, no final, todos eles levavam farinha e outros produtos da mandioca.
Era uma quarta-feira.
Antes de os primeiros raios do sol aparecerem no céu, todos os homens já estavam na plantação de mandioca.
As mulheres preparavam a comida para os homens e logo mais todas elas estariam na lida, raspando aquele tubérculo, cantando e brincando alegremente.
O sol cruzava do outro lado do céu quando nós terminamos de arrancar toda a mandioca, agora era hora de nos banharmos e irmos comer.
A tarde, a casa de farinha estava lotada de homens, mulheres e crianças, todos cantavam e brincavam.
Fui apresentado aos nossos vizinhos que ainda não conhecia.
Entre eles estava Dalva, uma moça bonita que era a cara da Ritinha.
Inexplicavelmente meus olhos não se desprendiam mais dela.
Ela me olhava e sorria, fiquei com vergonha da minha aparência - eu devia estar horrível com aquela barba e com aquele cabelo cheio, pensei.
Acho que deixei escapar aos outros o meu interesse por Dalva, pois o meu irmão caçula discretamente me soprou ao ouvido:
- Ela não tem namorado, é prendada e filha de gente boa.
A noite, vamos virar brincando aqui na casa de farinha.
Que tal você ir em casa tomar um banho, fazer essa barba e convidar a Dalva para sentar-se perto de você?
Corei de vergonha, ao descobrir que os outros tinham notado o meu interesse por ela.
Mas, à noitinha, corri para casa e foi exactamente o que fiz:
cortei o cabelo com muito cuidado, raspei a barba com a minha navalha, presente que ganhei do meu senhor.
Coloquei uma camisa nova e desci todo faceiro.
Quando entrei na casa de farinha foi um grito só de alegria de todos que estavam lá:
- Luís! Que bom!
É assim que nós queremos vê-lo - acrescentou minha irmã.
Quando Dalva chegou, notei que ela me procurava e ficou alguns minutos parada me olhando, os seus olhos brilhavam, nunca vi moça mais bonita que aquela, pensei.
No meio da noite, eu e Dalva estávamos sentados embaixo de uma palmeira conversando como se já nos conhecêssemos há muito tempo.
Tinha a impressão de que estive apenas longe dela, nossos olhos diziam o que sentíamos.
Em apenas um encontro eu descobri em Dalva aquilo que jamais havia conhecido em toda a minha vida:
o verdadeiro amor de uma mulher.
Dalva me deu uma nova esperança de vida, apesar da nossa diferença de idade, que era grande.
Tínhamos os mesmos gostos, aprendi a sorrir e a brincar ao lado dela.
Me sentia um novo homem, dizia para mim mesmo:
"Eu sou Luís, O menino que cresceu e encontrou a sua vida: Dalva".
Enquanto nos preparávamos para o casamento segundo os nossos costumes, poderíamos nos conhecer espiritualmente e fisicamente.
De mãos dadas com Dalva, eu ia pouco a pouco abrindo o meu coração, conforme ia falando sobre todas as passagens de minha vida, parecia-me surgir outra pessoa dentro de mim.
Miguel morria ali diante de Dalva, que chamava Luís para si; e eu queria mais do que nunca o seu amor e a sua companhia, ela era a minha própria vida.
Aos poucos fui apagando Miguel da minha vida, assumi por total Luís Fernando, o homem que se preparava para ser o marido de Dalva.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 08, 2016 8:45 am

Nosso casamento estava marcado para a primeira lua cheia de março.
A alegria tomou conta da nossa comunidade, nosso casamento seria celebrado por pai Benedito, um antigo sacerdote da nossa aldeia.
Agora ele vinha como espírito, incorporava no meu padrasto, tinha muita sabedoria, casava, baptizava, aconselhava a comunidade a manter-se em paz.
Chegou o grande dia, e eu não cabia de felicidade.
Confesso que já não pensava mais em voltar para o Brasil, e as pessoas que deixei para trás me pareciam figuras de um sonho que despertei, como Luís que estava retomando sua vida com Dalva.
Eu estava olhando os últimos detalhes da casa, queria receber a minha esposa como uma verdadeira deusa.
Fui informado que o terreiro estava todo enfeitado com flores, ervas e fitas coloridas.
Muitas aves, porcos, doces, salgados e muito vinho de jabotá e aguardente com mel estavam preparados para comemorarmos a festa do casamento.
Me senti jovem... a beleza e a juventude de Dalva me davam muitas forças, estava eufórico e ansioso para chegar logo a hora da cerimónia.
Segundo nossos costumes, a noiva, um dia antes do casamento, entrava para o terreiro onde seria preparada e apresentada à entidade da fertilidade (Iemanjá).
De cada orixá ela recebia um conselho, um presente, uma instrução.
A noiva dormia no altar dos orixás; no outro dia cedo era banhada por outras mulheres da comunidade com o banho das ervas sagradas e só comia o que fosse autorizado pelos orixás.
Duas horas antes do matrimónio recebia outro banho, com essências das flores indicadas pelos guias.
Vestia-se nas cores dos seus orixás e ficava esperando ser chamada pelo sacerdote.
O noivo, por sua vez, deveria dormir (não na cama do casal) sozinho na casa onde o casal fosse morar.
A meia-noite, deveria abrir as janelas deixar que o vento penetrasse por toda a casa.
Às seis da manhã (com os primeiros raios do sol), o noivo deveria banhar-se com as essências das ervas indicadas pelos orixás.
Ele deveria verificar se tudo estava em ordem - a casa deveria ter muitas frutas, verduras, legumes, hortaliças e batatas.
A cama devia estar pronta, com lençol novo, a mesa com toalha nova e o fogão devia ter brasas acesas.
Uma hora antes do casamento, o noivo era banhado com água perfumada e logo após vestido pelos padrinhos, que eram sempre os homens mais velhos da comunidade, geralmente tínhamos sete padrinhos, e a noiva, sete madrinhas.
Os padrinhos acompanhavam o noivo até o terreiro, cada um levava um ramo de louro e colocava aos pés do sacerdote.
A noiva era trazida pelas madrinhas, vinha toda coberta, não mostrava o rosto; cada mulher trazia um buquê de açucena branca e juntava com os ramos de louro aos pés do sacerdote.
Após ouvir todos os conselhos do sacerdote, a noiva era interrogada se ainda desejava casar-se, e se a resposta fosse afirmativa, aí o pai da noiva ou o irmão mais velho descobria seu rosto.
Todos batiam palmas, os noivos ficavam frente a frente, com uma certa distância entre eles.
As palavras do sacerdote eram lindas e marcantes na vida do casal e dos assistentes.
Terminando a cerimónia, o noivo beijava a noiva na testa, quando então as alianças eram riscadas no chão pelo sacerdote (ele riscava dois círculos unidos um ao outro, colocava os noivos neste círculo e fazia a consagração da união dos corpos e dos espíritos).
Era muito bonito, sincero e seguro o casamento dos nossos antigos costumes.
Hoje, tudo é muito bonito, mas já não se respeita a determinação de levar-se a sério o juramento.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 08, 2016 8:45 am

Terminando a cerimónia, todos deveriam aproveitar a festa, comer, dançar, brincar e fazer planos.
Lá pelas onze horas da noite, o noivo deveria seguir acompanhado pelos padrinhos e familiares para verificar se tudo estava em ordem em sua nova morada.
Os padrinhos deixavam o noivo esperando a noiva na porta de casa e voltavam para vir acompanhando a noiva.
Toda comunidade vinha junto quando entregavam a noiva e se retiravam imediatamente, brincando e gritando votos de felicidades ao casal.
Enquanto era ajudado a me vestir pelos meus padrinhos, pensava em como Dalva devia estar bonita.
Fomos para o terreiro, deu-se início a todo processo que eu já conhecia; logo em seguida, vi-me diante da mulher mais linda que os meus olhos já viram.
Estávamos dançando no meio do terreiro a céu aberto, quando alguém me chamou a atenção.
Avistei uma carruagem se aproximando, os atabaques pararam, ficamos esperando para ver quem era.
Saltou da carruagem o padre, que reconheci por causa da batina preta; estava magro e pálido, parecia envelhecido.
Corremos até ele, dos seus olhos fundos desciam lágrimas, me abraçou e disse-me:
- Tantas coisas aconteceram...
Vejo que hoje é um grande dia para você, receba a minha bênção em nome de Deus, não se preocupe, teremos muito tempo para conversar.
Perdi a voz, o meu passado voltava justamente no dia em que eu nascia para uma outra vida.
Não pude me conter e perguntei:
- Por que demorou tanto a voltar?
Ele cabisbaixo, respondeu-me:
- Coisas de Deus, que temos de aceitar.
Está tudo bem, não deixe que a minha volta atrapalhe a sua alegria, você fez muito bem em casar-se, os seus orixás te amam porque eles amam a Deus tanto quanto amam a você.
Teremos tempo para conversar com bastante calma; o senhor Silvério não retornou do Brasil, não tenho nenhuma notícia de lá, muitas coisas mudaram em nossos projectos, temos de esperar as coisas se acalmarem.
A entrada e saída para o Brasil estão fechadas, nada trouxe de novo para você.
Dalva se aproximou de mim, ela estava tensa.
Eu abracei minha esposa e disse-lhe:
- Fique tranquila, está tudo bem.
- Temi que ele tivesse vindo buscá-lo para levá-lo ao Brasil -, disse-me ela.
- Não, Dalva, ele apenas retornou para a nossa comunidade depois de um ano e meio de ausência.
E preste atenção - disse-lhe olhando-a nos olhos -, sem você eu não acompanharia nem um anjo para o céu, porque a minha vida sem você, no melhor lugar que Deus tenha criado, não teria sentido nenhum.
Amo você, Dalva.
Imagine que o meu amor por você seja assim:
juntando todo amor que senti pelas pessoas a quem amei e continuo amando, você é todos eles.
Depois que te conheci, não posso amar mais ninguém sem que você não esteja nesse alguém.
Se já amava aquelas pessoas de quem te falei, hoje as amo muito mais porque tenho em você a força do amor verdadeiro.
Dalva me abraçou e achegou-se a mim.
- Eu também te amo desse mesmo jeito.
Amo a todos a quem você ama, porque eu estou em você da mesma forma que você está em mim.
Ficamos uma semana em plena lua-de-mel, parecíamos duas crianças brincando, um correndo atrás do outro e logo depois ficávamos sérios e fazíamos planos e mais planos.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 08, 2016 8:45 am

No domingo, eu convidei a minha esposa para assistirmos à missa dominical.
Ela ficou um tanto indecisa, mas, por fim, disse-me:
- Confio em você, se me diz que é bom, eu vou.
Ao chegarmos, fomos recepcionados por toda a comunidade, sorridentes, e com muita sinceridade todos nos desejavam felicidades.
Senti muita tristeza na voz do padre, em suas preces ele se dirigia a Deus como uma criança fragilizada.
Senti pena dele e me perguntava se estaria doente.
Seria esse o motivo de ter ficado tanto tempo ausente?
Bem, fosse o que fosse, eu já havia escolhido o meu caminho, nada mais me interessava do Brasil ou da França, eu agora era Luís Fernando o esposo da Dalva, e se um dia me obrigaram a ser Miguel, este estava morto e enterrado dentro de mim.
Após a cerimónia, enquanto as mulheres conversavam sobre receitas novas de doces, salgados, costuras etc., os homens se juntaram num canto; o padre nos convidou para uma reunião logo após o almoço, com o que todos concordaram.
O padre olhou para mim e falou:
- Luís, por favor, venha.
É muito importante, preciso falar-lhe.
Nos despedimos dizendo "até à tarde".
No caminho, Dalva me disse:
- Luís, como todos os outros homens que cuidam da nossa comunidade, você deve ir a essa reunião, mas por favor não tenha uma recaída.
Talvez o padre lhe fale coisas que venham a lhe entristecer; procure lembrar-se de nós dois; o que ficou para trás não pode afectar a nossa vida.
Abraçando minha mulher, respondi:
- Eu prometo e volto a lembrar:
nada é mais importante em minha vida que você, por isso, fique tranquila.
O sol já pendia dois palmos para o lado sul (mais ao menos duas horas da tarde) quando descemos para nos encontrar com os outros homens.
Deixei Dalva na casa da minha irmã junto com as outras mulheres e fomos até a sala que ficava nos fundos da igreja.
Sentamos em volta da mesa rústica feita de madeira de umbaúba preta e, enquanto esperávamos pelo padre, fiquei observando os detalhes da mesa e do ambiente em si.
Eu estava ali mais por obrigação que por vontade própria.
O padre chegou, sentou-se à cabeceira da mesa, abriu uma pasta e nos mostrou vários papéis.
Ficamos olhando para ele em silêncio, então nos disse:
- Perdão, vou ler para vocês:
"Uma organização ligada à coroa de Portugal havia descoberto a nossa organização e todos os envolvidos estão sendo investigados.
Prenderam o senhor Silvério e mais 21 membros de nossa organização".
E o padre contou-nos que meus senhores franceses estavam sendo observados; o senhorzinho foi levado de volta ao Brasil sob custódia da coroa de Portugal, por isso ele não veio me buscar.
A sinhá Lucien, juntamente com seu filho, continuava na França; ela estava doente, todos achavam que ela havia enlouquecido, pois passava as noites de um lado para o outro e não se importava com o filho.
De vez em quando ela chegava até a janela e gritava por Miguel, pedia socorro dizendo que só Miguel poderia salvá-la.
Ele nos disse ter ficado longe todo aquele tempo para não despertar suspeitas entre o próprio clero.
Com as lágrimas descendo dos olhos cansados, disse-nos:
- Eu vos amo, daria minha vida para salvar cada um de vocês.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 08, 2016 8:45 am

Olhando para mim, soluçando, repetiu:
- Daria tudo, Luís, para libertar os seus filhos e trazer de volta pessoas como você e Ritinha ao convívio das suas famílias.
Após muita discussão sobre os riscos que corríamos e as precauções que devíamos ter dali para frente, o padre nos prometeu dali a três meses tentar ir buscar notícias do que estava acontecendo com os nossos irmãos lutadores.
Saí dali triste e pensativo.
Se existia uma pessoa que não merecia estar detida era o senhor Silvério!
Meu Deus, um rapaz nobre, jovem, com uma vida toda pela frente ser aprisionado como um criminoso... tentando nos salvar, tentando libertar nossos filhos do cativeiro!
Não, não seria justo que os orixás permitissem tamanha ingratidão.
Enquanto me dirigia ao encontro de Dalva, lembrava-me da energia daquele moço fino que me tratava como se eu fosse um branco.
Lembrava-me de que ele foi o primeiro homem branco a me abraçar com lágrimas nos olhos e me chamar de irmão.
Naquele momento compreendi que, mesmo amando Dalva como a Deus, eu daria a minha vida para salvar aquele homem, pois ele era cada um de nós.
Ele havia me dado a vida e a esperança; se eu pudesse retribuir isso a ele, faria de bom gosto, não me importando se custaria a minha vida.
Dalva me perguntou assim que me viu:
- Luís Fernando, tudo bem?
Quando ela estava preocupada ou falava sério comigo, me chamava de Luís Fernando, então respondi:
- Sim, Dalva, está tudo bem.
Naquela noite, enquanto Dalva dormia eu me levantei, abri a janela da sala, me debrucei sobre ela e fiquei olhando as estrelas que cruzavam o céu.
Lembrava-me do rostinho de Lucien sorrindo para mim com tanta inocência.
Os olhos azuis da cor do céu que tanto me emocionaram.
Ela estava agora doente e chamando por mim.
Meu Deus, o que fazer?
Mesmo dizendo que Miguel havia morrido, eu não era um monstro, e as saudades me machucavam a alma.
Oh! Senhor de todos os orixás olhai por ela.
Oh! Orixás dos pequeninos olhai por ela e por todos nós.
As lembranças de Ritinha, Nalva e dos meus filhos correndo de um lado para o outro vinham até mim como a me cobrar a vida boa que eu estava tendo enquanto eles continuavam cativos.
Deus! Como estão meus filhos?
Oh! Criador do universo cuide deles, me perdoe, Senhor.
Fiquei debruçado na janela chorando e falando com Deus por muito tempo.
Voltei para cama com medo de que Dalva sentisse a minha falta e acordasse.
Deitado ao lado dela, meus sentimentos se misturavam, amava-a mais que tudo em minha vida, mas o passado mexia demais comigo, não podia esquecer os meus filhos - filho é uma gota de sangue que pinga do nosso coração e cresce em outro corpo, não dá para esquecer.
Em silêncio, eu chorava, parecia rever o sorriso de cada um deles.
Lembrava-me dos seus nascimentos, mesmo sendo cativos, cada um deles que eu recebia em minhas mãos eu chorava de emoção; não existe sentimento maior que a emoção de um pai tocando pela primeira vez seu filho.
Os galos já cantavam quando adormeci, depois de tanto tempo e de tanta espera eu sonhei com a minha amada avó Joana.
Sonhei que estava na casa grande, ela me chamava:
"Miguel, filho, vem até aqui!".
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 08, 2016 8:46 am

Eu saía correndo atrás dela, íamos até a mata e lá ela me mostrava um pássaro todo colorido e me perguntava:
"Miguel, qual é o nome daquele pássaro?"
Eu olhava e olhava, nunca tinha visto nada parecido.
Ele era encantador, cantava, batia as asas.
Eu fiquei maravilhado e então respondi:
- Ele é muito bonito, amo este pássaro!
Mas eu não sei o seu nome!
Ela me respondeu amorosamente:
- Eu te amei assim que te vi, não sabia o seu nome, mas vi muita beleza em você, vi a luz do seu coração.
Em silêncio, fiquei olhando o pássaro, ele juntava galhos e fazia um ninho, enquanto corria a recolher os galhos secos, cantava alegremente, trabalhava com alegria.
- E então, Miguel? - perguntou a avó Joana.
Cantando ele fez um ninho, agora está deitado dentro dele quietinho, de olhos fechados.
- Miguel, meu filho, esse pássaro é você!
O seu nome pouco importa, meu filho!
Você alegrou muitos corações, ajudou e ensinou tantas coisas boas aos filhos do Pai Maior.
Você é um pássaro que bateu asas e voou, alegremente trabalhou e construiu o seu ninho, agora é hora de ficar quietinho dentro dele sem se preocupar com nada.
Deixe o tempo encarregar-se de chamá-lo novamente a voar, pare de chamar sofrimento para a sua alma, pois o sofrimento da matéria deixamos na Terra, mas o sofrimento da alma é o nosso fardo.
Enquanto ela falava, o seu rosto iluminava-se, parecia flutuar.
Tentei tocá-la, ela afastou-se e disse-me:
- Volte para o seu ninho e fique quietinho ao lado da Dalva.
Elevando-se no ar ainda pude ouvir as suas últimas palavras...
- Deus te abençoe, meu filho.
Acordei suando, sentindo aquele cheiro tão conhecido, ervas e rosas, não pude conter a emoção, os olhos estava marejados de lágrimas, o coração batendo forte.
Nisso, Dalva acordou e, olhando-me, perguntou:
- Está sentindo este cheiro?
Devem ser as rosas que começaram a abrir.
Virando-se, ela continuou falando:
- Eu sonhei que estava num lugar lindo, imagine que eu ganhava um pássaro!
Era todo colorido lindo, lindo! lindo!
Só em sonho mesmo para acontecer essas coisas!
Eu nunca vi por essas terras nenhum pássaro igual àquele.
Sem prestar atenção nas lágrimas que eu secava às escondidas, ela me abraçou, dizendo:
- O dia está clareando, daqui a pouco temos de levantar e cuidar da nossa lida.
Os bezerros já estão berrando para mamar (nós prendíamos os bezerros à noitinha para tirarmos o leite das vacas de manhã cedinho, antes da primeira mamada).
Saí para ordenha, soltei o primeiro bezerro, deixei ele mamar uns dois minutos, então afastei-o e comecei a tirar o leite.
Esse era o método que usávamos:
a primeira mamada era do bezerro, ajudava na ordenha.
Enquanto cuidava da ordenha das vacas, ouvia Dalva cantando na cozinha, a fumaça saía pela chaminé do nosso fogão de barro.
A lenha seca pegava fogo fácil, senti o cheiro bom da refeição que ela preparava para nós.
Eu me lembrava do sonho que tive com a avó Joana, pensava em todas as palavras do padre a respeito de Lucien, do senhor Silvério e dos meus senhorzinhos.
Imaginava o rostinho do filho de Lucien, pensava nela, pobre anjo, estava doente e precisando de mim.
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Re: LIÇÕES DA SENZALA - LUÍS FERNANDO / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 08, 2016 8:46 am

O que fazer? Por mais que acreditemos ter domínios sobre os nossos sentimentos, é impossível dominá-los.
O desejo do espírito é muito mais forte que todos os desejos carnais.
O homem nunca pode jurar ser capaz ou incapaz de fazer isso ou aquilo, pois a capacidade de amar ou odiar é desconhecida em todos os indivíduos de carne e osso.
Sentei-me à mesa de carvalho e me pus e observá-la, ela foi talhada pelo meu avô.
Quantas histórias haviam se passado sobre ela!
Agora eu estava ali, sentado diante daquela mesa, dividido, triste e cheio de remorsos.
Dalva pegou um prato de cerâmica e encheu-o de comida, eu mexi e remexi a comida, mas não conseguia engolir, um nó me apertava a garganta.
- O que está acontecendo, Luís Fernando? - perguntou-me Dalva.
- Não estou com fome, é só isso.
A sua comida, como sempre, está óptima.
Eu é que não estou bem.
Ela levantou-se preocupada, veio até a mim, pôs a mão sobre a minha testa.
Delicadamente beijei-lhe as mãos e, olhando nos olhos dela, disse:
- Dalva, a minha doença não é no corpo, mas na alma.
Ela, com os olhos cabisbaixos, respondeu-me:
- Eu não sei o que aconteceu, mas desde o dia do nosso casamento, com a chegada do padre, você perdeu a paz.
Eu não posso te ajudar, Luís? Fale comigo!
Sou a sua mulher, quem sabe juntos pensaremos em algo que venha ajudar.
Ela continuou falando.
- Nunca tivemos segredos um com o outro, me sinto triste em perceber que você esconde alguma coisa séria de mim.
Antes que pudesse responder alguma coisa, as lágrimas já desciam pelo meu rosto.
Dalva tinha razão, ela era a minha mulher, minha amiga minha companheira fiel e leal, eu contei tudo para ela.
Ficamos um bom tempo abraçados e em silêncio.
Foi ela quem falou primeiro:
- Luís, vamos falar com o nosso Pai Espiritual, vamos pedir uma orientação e manter a calma.
Agora que você já dividiu comigo esse fardo, ele ficará mais leve na sua alma.
Quero que saiba de uma coisa:
se você tiver de voltar ao Brasil, eu vou estar ao seu lado, não importa o que possa me acontecer, irei com você.
Fiquei emocionado e senti um grande alívio no coração, só o facto de não estar escondendo nada daquela que era a minha razão de existir já me tranquilizava um pouco o coração.
Realmente eu precisava me acalmar, ou enlouqueceria.
Me entreguei ao trabalho.
Enquanto cuidava das minhas tarefas, pensava:
"Graças a Deus que o trabalho faz o homem sentir-se útil para alguma coisa".
Todos os membros da comunidade estavam preocupados e em estado de alerta.
Ninguém mais dormia em paz.
Montamos um esquema de guarda entre nossos homens.
Dia e noite, a entrada e a saída da nossa aldeia era vigiada.
O padre andava na aldeia para cima e para baixo, parecia ter perdido a noção do tempo.
Fazia mais de dois meses que ele rezava a missa chorando; estava magro, pálido e envelhecido.
Por mais que eu tentasse tirar dos pensamentos a figura de Lucien, do senhor Silvério, de meu senhorzinho, Ritinha...
E meus filhos? Eu não podia morrer sem saber deles...
Dalva fazia de tudo para me alegrar, e eu me esforçava para não vê-la triste.
Às vezes, até forçava um sorriso para agradá-la.
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