Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 11, 2016 7:35 pm

A Filha do Feiticeiro
Wera Krijanowskaia

J. W. Rochester

John Wilmot Rochester nasceu em 1º, ou 10 de abril de 1647 (não há registo da data precisa).
Filho de Henry Wilmot e Anne (viúva de Sir Francis Henry Lee), Rochester parecia-se com seu pai, no físico e no temperamento, dominador e orgulhoso.
Henry Wilmot havia recebido o título de Conde devido ao seu empenho em levantar dinheiro na Alemanha para ajudar o rei Carlos I a recuperar o trono, depois de ter sido obrigado a deixar a Inglaterra.
Quando seu pai morreu, Rochester tinha 11 anos e herdou o título de Conde, pouca herança e honrarias.
O jovem J.W. Rochester cresceu em Ditchley entre a bebida, as intrigas do teatro, as amizades artificiais com poetas profissionais, a luxúria, os bordéis de Whetstone Park e a amizade do rei, a quem ele desprezava.
Sua cultura, para a época, foi ampla:
dominava o latim e o grego, conhecia os clássicos, o francês e o italiano.
Em 1661, com 14 anos, saiu do Wadham College, em Oxford, com o título de Master of Arts.
Partiu, então, para o continente (França e Itália) e tornou-se uma figura interessante:
alto, esguio, atraente, inteligente, charmoso, brilhante, subtil, educado e modesto, características ideais para conquistar a frívola sociedade de seu tempo.
Quando ainda não contava com 20 anos, em janeiro de 1667, casa-se com Elizabeth Mallet.
Dez meses após, a bebida começa a afectar seu carácter.
Teve quatro filhos com Elizabeth, e uma filha, em 1677, com a actriz Elizabeth Barry.
Vivendo as mais diferentes experiências, desde combates à marinha holandesa em alto mar até envolvimento em crime de morte, a vida de Rochester seguiu por caminhos de desatinos, abusos sexuais, alcoólicos e charlatanismo, num período em que actuou como "médico".
Quando contava com 30 anos, Rochester escreve a um antigo companheiro de aventuras relatando estar quase cego, coxo e com poucas chances de rever Londres.
Em rápida recuperação, Rochester retorna a Londres.
Pouco tempo depois, agonizante, realiza sua última aventura:
chama o sacerdote Gilbert Burnet e dita-lhe suas memórias.
Em suas reflexões finais, Rochester reconhecia ter vivido uma existência iníqua, cujo fim lhe chegava lenta e penosamente em razão das doenças venéreas que lhe dominavam.
Conde de Rochester morreu em 26 de julho de 1680.
Depois de 200 anos, através da médium Wera Krijanowskaia, Rochester manifesta-se para ditar sua produção histórico-literária, testemunhando que a vida se desdobra ao infinito nas suas marcas indeléveis da memória espiritual, rumo à luz e ao caminho de Deus.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 11, 2016 7:35 pm

Mais um Texto Inconfundível de Rochester.

A Lúmen Editorial tem a satisfação de oferecer ao público mais um romance inédito do espírito John Wilmot Rochester.
Desta vez, apresentamos A Filha do Feiticeiro, uma obra cujo valor histórico remonta ao final do século XIX e início do XX, período em que o texto foi psicografado pela médium russa Wera Krijanowskaia.
De antemão, alertamos os leitores não se tratar de um romance propriamente espírita, no sentido clássico do termo, com ensinamentos sobre os postulados básicos do Espiritismo codificado por Allan Kardec. Trata-se, sim, de um romance mediúnico, cuja trama é repleta de suspense, presença de "forças ocultas", sobrenaturais, além da batalha final entre o bem e o mal para a "salvação" de uma alma perdida.
Tudo isso desenhado com o texto envolvente de Rochester, que prende nossa atenção da primeira até a última linha, deixando fluir sua mente imaginativa e talentosa capaz de lidar com as coisas do Céu e do Inferno com a mesma magnanimidade de um soberano absolutista de tempos remotos.
Por isso, a Lúmen Editorial pode até discordar de alguns conceitos emitidos por Rochester nesta obra, mas considera de fundamental importância dar esta contribuição para a História ao editar o romance tal qual foi psicografado no original em russo, resgatando uma obra perdida no tempo de um dos autores espirituais mais lidos em todo o mundo.
Daí nosso esforço em trazer o livro ao público leitor, independentemente de ser ou não uma obra marcadamente espírita, mas com certeza mediúnica.
Para que o trabalho se concretizasse de forma irretocável, novamente recorremos ao trabalho profissional de Dimitry Suhogusoff, um excepcional especialista no difícil idioma russo e, acima de tudo, um conhecedor profundo dos textos de Rochester.
Neste A Filha do Feiticeiro, mais uma vez a obra ficou intacta, conforme o original russo, graças ao trabalho de "garimpagem" de Dimitry, sempre buscando e pesquisando a melhor palavra em português para definir o sentimento e a emoção transmitida pelo autor espiritual.
Esta união de energias em cada área resultou em mais uma obra acabada.
Esperamos que os leitores apreciem o estilo e o texto rochesterianos aqui apresentados e possam tirar suas conclusões sobre a história de Ludmila, a verdadeira filha do feiticeiro Krassinsky.

O editor
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 11, 2016 7:35 pm

Parte 1
"La religion dit: croyez et vous comprendrez.
La science vient vous dire: comprenez et vous croirez."

J. de Maistre

— E então, Ivan Andréevitch, decididamente você resolveu nos deixar, não é?
Isso me deixa decepcionado, pois eu pensava tê-lo connosco pelo menos por mais um mês.
— Sim, Filipp Nikoláevitch, só passei aqui principalmente para convencê-los a saírem deste lugar nojento e assustador.
Ivan Andréevitch era um velho e respeitado homem do mar.
O rosto belo e enérgico emoldurava-lhe a barba esbranquiçada; nos grandes olhos cinza e nas pregas da boca, espreitava-se uma expressão de amargura, sinal de que sua vida ainda não se libertara das lutas e decepções.
— Oh, padrinho, fique, suplico-lhe!...
Veja como aqui é aprazível, que vista maravilhosa e ar puro e refrescante temos! - Interveio uma jovem, sentada perto.
Afastando o prato com morangos, ela aconchegou-se a ele e, com intimidade, fê-lo se virar para o panorama descortinado de facto pictórico.
A casa erguia-se num morro; em seus pés dormitava um lago, nele verdejando uma ilhota de mata densa e, através do frondoso verdor de árvores, entrevia-se o telhado pontiagudo de um prédio.
Uma floresta escura cingia quase todo o horizonte, salvo num lado, onde se divisava um povoado com a cúpula azul-celeste de sua igreja.
Tal conversa se passava num amplo terraço, guarnecido de flores e plantas.
Uma escada de dez lances conduzia ao jardim, de onde uma ladeira dava ao lago.
A mesa de ricos cristais e prataria, adornada por grande vaso de flores, sentavam-se o anfitrião, sua esposa, a filha Nádya, seu padrinho e um velho e venerado padre.
No jardim, aos pés da escada, um menino de uns treze anos e uma menina de sete brincavam de argola e vareta.
O anfitrião, Filipp Nikoláevitch Zamyátin, era o director de um importante banco em Kiev.
Ainda que passasse dos cinquenta, era um homem cheio de força.
Sua esposa, Zoya Ióssifovna, filha de um grande produtor de açúcar, trouxe-lhe de dote um belo património.
Desse modo, a hospitaleira casa do afável Filipp Nikoláevitch, conhecido por sua honestidade e bom acolhimento, era de bom grado frequentada pela melhor sociedade.
A propriedade, sob o nome de Gorki, onde estavam os Zamyátin, fora herdada por Filipp Nikoláevitch.
A casa do senhorio, até então vazia por muitos anos, foi totalmente reformada e, pouco mais de duas semanas antes, a família lá se instalou a fim de acompanhar os trabalhos de organização doméstica.
— E não tenho razão, padrinho?
Por acaso esta vista não merece sua presença?
E que dizer de suas concepções supersticiosas - estranhas, devo dizer - neste século iluminado?
Pois me diga então: por que um lugar haveria de ser mais funesto que outro? - provocou Nádya, fitando com um sorriso malicioso o almirante.
— Nádya está certa.
Você não deve dar crédito a esses contos de fada, espalhados por mulheres ociosas, Ivan Andréevitch - apoiou o pai.
— Entendo o quanto ainda o amargura o fim trágico de Marússya - prosseguiu ele.
Mas, ao invés de atribuí-lo a alguma força oculta, mais lógico seria explicar que Marússya tenha sido vítima de dois fortíssimos abalos espirituais, causados pela morte do noivo e o assombro de vê-lo vivo.
Ademais, a morte súbita daquele idiota Krassinsky teria se reflectido em sua natureza sensível.
— Se você visse o que vi e conhecesse todas as circunstâncias estranhas que acompanharam o fim de Marússya, mudaria seu ponto de vista.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 11, 2016 7:36 pm

Que o local é funesto e que aquela casa na ilha já presenciou muita coisa, sequer suspeitada pelos cientistas modernos, tudo pode ser confirmado pelo padre Tímon.
— Oh, padre, conte-nos, por favor, o que sabe daquela casa!
Quem a construiu e o que lá aconteceu?
Estou curiosa em visitá-la e assim que o barco ficar consertado, irei lá com Mikhail Dmítrievitch, pois os mistérios que ela guarda, com suas pequenas torres pontiagudas como as do castelo da "Bela Adormecida", me aguçam a curiosidade.
Nádya arrastou a cadeira para perto do padre e pôs-se a lhe pedir para compartilhar das informações sobre a casa mal-assombrada.
— Bem, terei o prazer em contar o que sei.
Devo dizer que o meu relato, infelizmente, irá confirmar a justa repulsa - e o padre olhou para o almirante - de Vossa Excelência, nutrida por toda esta localidade.
Ele se compenetrou por instantes e fixou o olhar na ilhota, destacada sobre o espelho do lago feito um buquê.
— Não conheci pessoalmente o construtor daquele castelo na ilha.
O meu antecessor, padre Porfírio, contou-me que o proprietário de Gorki havia iniciado a construção ao retornar de uma longa viagem ao estrangeiro.
Trouxera consigo um arquitecto - um italiano, conforme diziam.
Os operários falavam, ainda, ser este um feiticeiro, por estar sempre acompanhado por um cão negro de olhos humanos, temido por todos.
Havia, ademais, boatos de que o italiano tinha o "olho gordo" e se aquele homem moreno e de estatura baixa passasse por alguém e lhe lançasse um olhar com seus olhos argutos e cruéis, algum infortúnio era inevitável:
seus filhos adoeceriam, o gado morreria ou algo pegaria fogo.
Assim, não era fácil arregimentar operários; a simples visão do italiano fazia as pessoas debandarem para longe.
A má fama da propriedade teve início ao término da construção, quando o dono deixou de benzer a casa.
Depois, correu o boato da morte do italiano, cujo corpo foi enterrado na ilha.
Seguiram-se mexericos sobre a ocorrência de factos estranhos na ilha:
incêndios de árvores durante a noite, uivos alucinados de cães.
Resumindo:
o pânico tomou conta da aldeia.
Coisas estranhas aconteciam com o próprio proprietário; emagrecia a olhos vistos, evitava pessoas e, meio ano depois, ele foi encontrado morto no leito.
Instalou-se ali então seu filho, junto com a esposa e um menino de treze a catorze anos, filho deles.
Um pouco antes, eu fui designado para cá como padre titular e por várias vezes estive na casa de Pavel Pávloviteh Izótov.
No início ele era uma pessoa alegre e comunicativa; visitava os fazendeiros vizinhos, recebia em casa e caçava; depois, sem qualquer razão aparente, parou de sair de casa.
Diziam que ele passava dias e noites lendo livros e documentos do pai e, com a morte súbita de sua esposa, de infarto, mudou-se de vez para a ilha.
Meses mais tarde, ele viajou com o filho Nikolai ao exterior, e, desde então, eu nunca mais o vi.
Mais de quinze anos se passaram sem que algum dos proprietários aparecesse em Górki.
A casa, tapada com tábuas, era vigiada pelo velho mordomo Fomá e sua esposa.
Nenhum outro pé pisara a ilha.
Pavel Pávloviteh, antes de viajar, expediu ordens expressas de não se tocar em nada no castelo...
Era um dezembro friorento e a noite especialmente tempestuosa.
O vento silvava e uivava no campo, fustigando a neve contra as janelas; um frio de rachar marcava menos de vinte graus.
Eu morava, naquela época, na velha edícula da igreja - hoje inexistente - e acabava de enterrar minha esposa.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 11, 2016 7:36 pm

A amargura da perda corroía-me a alma e, para afugentar a saudade, trabalhava até as altas horas da noite.
Já passava da meia-noite, quando ouvi o tilintar dos sinos de uma sege ao lado da casa.
— Oh, meu Deus! - pensei - alguém vem me buscar para extrema-unção.
Seguiram-se batidas na porta do vestíbulo e logo ouvi o casal de empregados resmungando por terem sido perturbados àquela hora.
Saí e ordenei-lhes abrirem a porta, quando vejo diante de mim um cocheiro coberto de neve.
— O que lhe aconteceu na viagem, não consigo entender - começou a explicar o cocheiro.
Está vivo ou morto - não sei.
Com esse tempo tão ruim, não se vê nada.
Resolvi passar aqui, padre, buscando ajuda.
Iluminei o interior do coche e vi, recostado nas almofadas, um jovem esmaecido de olhos cerrados que, se ainda estivesse vivo, obviamente estava muito doente.
O patrão aparentemente era rico, a julgar pela peliça, pelo bauzinho luxuoso e dois sacos de viagem.
De qualquer forma, era claramente irrealizável levá-lo por dois quilómetros naquela nevasca.
Ordenei carregarem-no para o quarto da falecida, em desuso pelas tristes recordações.
O desconhecido foi deitado e eu lhe prestei o primeiro socorro.
Ele abriu os olhos, mas, de tão fraco, mal conseguia falar.
Por sua instrução, retirei de sua sacola um frasco, ministrei-lhe umas gotas e ele adormeceu.
Seu rosto, apesar de aparentar exaustão e aspecto doentio, pareceu-me familiar; todavia, não consegui me lembrar de onde o havia visto.
No dia seguinte, o enfermo recuperou-se o bastante para se explicar e eu, surpreso, soube tratar-se de Nikolai Pávlovitch Izótov - actual proprietário de Gorki, cujo pai falecera quatro anos antes.
Sua vontade era partir imediatamente para a propriedade.
Ponderei, no entanto, não se instalar numa casa há muito tempo desabitada; sugeri-lhe que eu fosse para lá antes, a fim de providenciar que os fogões a lenha fossem acesos e arrumados, e, com o auxílio do velho mordomo, dois ou três quartos.
Dispus-me a mandar também a cozinheira Marfa, irmã da minha empregada, pois sabia que a esposa de Fomá estava doente.
Nikolai Pávlovitch agradeceu, concordou com as minhas considerações e eu parti.
O velho mordomo ficou ansioso em rever o jovem patrão que carregara no colo e começou a agir.
Além de Marfa, levamos um casal de empregados e iniciamos as providências para deixar a casa em ordem.
Os fogões foram acesos, o pó foi retirado, as capas de protecção foram removidas dos móveis e dos quadros, tapetes foram estendidos e, algumas horas mais tarde, três cómodos estavam prontos.
Para Nikolai Pávlovitch, preparamos os aposentos de sua mãe falecida, saindo para o jardim. Fomá assegurou que tudo ali foi deixado do mesmo jeito desde o falecimento da patroa, pois o próprio Pavel Pávlovitch trancou os aposentos e, a partir de então, ninguém entrou lá, mudando-se o patrão para a ilha naquela mesma noite do enterro.
Quando eu retornei com a notícia de que tudo estava pronto, Nikolai Pávlovitch agradeceu-me calorosamente e Pediu que eu o acompanhasse para lá sem demora.
Com a visão da casa iluminada, o jovem foi tomado de aprazimento e até de emoção; conquanto ainda estivesse fraco, eu e Fomá tivemos de sustentá-lo pelos braços.
— E vocês ainda me preparam os aposentos da minha mãe!
- disse ele, comovido.
Porém, mal adentramos o dormitório, Nikolai Pávlovitch estacou feito paralisado e fixou o olhar na imagem de Nossa Senhora, pendurada, diante da qual Marfa havia acendido a lamparina.
Achávamos que ele iria se persignar, mas a sua boca torceu-se e nos olhos reflectiu-se um terror desvairado.
— Fora!... Fora!... - berrou, em voz que não parecia dele.
E, espumando pela boca, Nikolai Pávlovitch tombou inânime em nossos braços.
Nesse ínterim, o caixilho maciço do ícone despencou da parede e a lamparina se apagou, estalando.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 11, 2016 7:36 pm

Ficamos pasmos e paralisados de terror.
Nikolai Pávlovitch foi deitado na cama, e o ícone levado para um quarto distante.
Ao voltar junto ao enfermo, este já voltara a si.
Soerguendo-se nos travesseiros, ele lançou um olhar arisco para o canto vazio, onde apenas havia uma teia de aranha e, chamando-me com um gesto, sussurrou em voz quase inaudível:
— Mande levar... todos.... para a ala dos hóspedes...
Melhor ainda, leve tudo à igreja... Estou doando...
À custo dominando o terror que me assaltara com essas palavras, não pude me conter e observei:
— Graves devem ser os pecados em sua consciência, se apenas uma simples visão da Protectora Celeste lhe sugere pavor.
Jamais esquecerei aquela expressão de sofrimento e desespero que se instalou em seu rosto.
— Não posso...
Eu me sufoco quando A vejo - balbuciou.
Fiquei profundamente compadecido por aquele homem sozinho e doente e, aparentemente, infeliz.
Prometi atender ao seu desejo e levar os ícones.
Na despedida, ele me agarrou a mão, premeu-a convulsivamente e balbuciou em voz entrecortada:
— Se eu o chamar, padre Tímon, virá ao meu leito de morte para apoiar-me na difícil hora e talvez tentar salvar-me?
Apesar de tremer por dentro, prometi cumprir seu pedido e saí para juntar os ícones e levá-los de lá.
No vestíbulo, a criadagem, reunida à minha espera, anunciou uníssona que não ficaria naquela casa a serviço do "amaldiçoado".
Censurei-os e expliquei que era desumano abandonar uma pessoa doente, talvez com o juízo perdido.
Por fim, eles prometeram ficar.
Retornei junto de Nikolai Pávlovitch e comentei as inquietações dos empregados.
Ele mostrou-se consternado e, sem nada objectar, estendeu-me um maço de dinheiro para distribuir entre eles, o que eu fiz e em seguida voltei para casa.
Por três semanas nada se ouviu a respeito de Nikolai Pávlovitch - prosseguiu padre Tímon.
Certa tarde, voltando de uma missa nos arredores, vejo diante do portão um trenó parado; o cocheiro anunciou que tinha uma carta de Gorki.
Era de Nikolai Pávlovitch, lembrando-me da promessa e suplicando que eu fosse até ele, pois sentia a iminência da morte e queria conversar.
Com muita relutância, resolvi ir, na esperança de fazer o infeliz retornar a Deus.
Por não querer ir sozinho, chamei o diácono.
Partimos.
No caminho, notei, aborrecido e até alarmado, que não tomávamos a direcção da casa do senhorio; mas, pelo gelo, íamos rumo à ilha.
No vestíbulo, fomos recebidos por Marfa e Fomá, que explicaram que duas semanas antes o patrão se mudara para a casa amaldiçoada na ilha, onde o capeta praticava suas estrepolias.
A noite, ouviam-se barulhos estranhos, as portas se abriam sozinhas aos estrondos, sem qualquer causa aparente as luzes se apagavam e, ao lado da cama do patrão, escutava-se tilintar de louça, gargalhadas e canto selvagem.
Fomá afirmou que um preto tentou asfixiá-lo logo depois de uma daquelas bagunças, quando ele começou a recitar "E Cristo ressuscitará".
— Todos os dias ele nos dá dinheiro e pede para não abandoná-lo, mas não dá para suportar mais!
Oh, é de arrepiar!
Que Deus lhe dê uma morte rápida! - desejou Fomá, visivelmente amedrontado.
— E ele está mal? - perguntei.
— Sai da cama e fica andando, com a morte estampada no rosto - observou um dos empregados.
Pedi ao diácono aguardar e entrei no dormitório, onde Nikolai Pávlovitch estava sentado na poltrona perto da mesa, no meio do quarto.
Seu rosto lívido tal qual um cadáver, sem vivacidade, olhos afundados, convenceram-me estar diante de um moribundo.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 11, 2016 7:36 pm

Aparentemente, a escuridão o aterrorizava, pois em cima da mesa ardiam dois candelabros de cinco velas cada; num vaso grande com gelo, aparecia uma garrafa de champanhe e, sobre a mão, via-se uma taça pela metade.
— O que é isso?
O senhor pede ajuda à igreja, trago-lhe as dádivas eucarísticas para salvá-lo na hora da morte, e o senhor toma champanhe? - repreendi.
— É, meu padre, é para me dar um pouco de força e coragem, sufocar a angústia que me oprime - retrucou ele em voz baixa, esquadrinhando com o olhar assustado o ambiente.
Súbito, ele agarrou as minhas mãos e as premeu forte.
Não me deixe, padre Tímon - suplicou.
Sinto o fim próximo e não há quem me proteja do terrífico amo que escolhi... - e ele baixou a cabeça, desanimado.
Mas o senhor é servidor Daquele, cujo nome nem ouso pronunciar.
Ir a seu abrigo é que me levou o destino, quando vim para cá...
Talvez o senhor seja a minha âncora de salvação, meu único defensor.
Arranque a minha alma daquele!...
Nikolai Pávlovitch se calou e, respirando com dificuldade, continuou, visivelmente perturbado:
— Só não sei, meu padre, se terei forças e coragem suficientes para sustentar uma luta terrível contra o inferno.
São terríveis os meus pecados, e as forças do mal não vão querer me deixar...
Com a face desfigurada pelo medo e os olhos desvairados, Nikolai Pávlovitch esquadrinhava os cantos do cómodo, aterrorizado.
Eu tentei por todos os meios apaziguar aquela mente doente e insana, segundo imaginava, mas as palavras foram vãs e não encontraram eco naquela alma conturbada.
Decidi, então, ministrar-lhe a eucaristia, tentando livrar seu espírito das propaladas forças do mal, que, em verdade, achava eu ingenuamente serem frutos de sua imaginação.
Mal retirando os apetrechos sagrados de minha maleta e acercando-me do doente, senti um frio intenso percorrer-me as costas e um odor fétido invadir os aposentos.
Não consegui mais me locomover, como se fosse uma estátua de pedra.
Aterrorizado, pregado ao solo, percebi os olhos desmesuradamente abertos de Nikolai, injectados de sangue, e de sua boca escancarada a tentativa de um grito inumano congelado.
Entre Nikolai e mim, apareceram, no chão, linhas fosforescentes de um vermelho vivo que rodeavam completamente o pobre Nikolai.
Como raios de fogo, via-se o corpo dele ser traspassado por flechas ígneas que lhe tiravam o fluido vital, fazendo-o estremecer
convulsivamente na mesma cadeira em que o encontrei ao entrar.
A sua volta, eu via subirem vapores escuros simulando contornos de corpos tenebrosos e apavorantes, gritando obscenidades e dançando ao seu redor.
De repente, tudo se acalmou e desapareceu como se nada tivesse ocorrido.
O estado catatónico em que me encontrava se dissipou, porém meu íntimo estava tão alvoroçado e trémulo que mal podia trocar os passos.
Armei-me de coragem e corri para socorrer Nikolai que, como podem imaginar, estava morto, caído no chão, conservando no rosto aquela máscara horrenda de puro terror com os olhos esbugalhados e, do canto de sua boca, via-se um fio escuro e viscoso escorrendo. Jamais esquecerei o que presenciei naquele quarto, jamais.
Todos os empregados e inclusive o diácono, que a tudo ouviram sem nada poderem fazer, posteriormente disseram que não envidaram esforços para arrombar as portas do aposento, mas sem sucesso.
Enterramos o corpo de Nikolai num clima de presságio e mal-estar a custo contido, e, sobre a campa do infeliz, um belo monumento encimado por uma cruz.
Sendo já muito tarde, a contragosto, fomos todos obrigados a pernoitar na ilha para só no dia seguinte tomarmos o caminho de casa.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 11, 2016 7:37 pm

Os ânimos dos empregados e demais pessoas da casa permaneciam em sobressalto como que se esperassem mais dissabores terríveis.
Após o chá, no entanto, resolvemos tentar descansar e recuperar a serenidade perdida; a casa voltou a ficar silenciosa.
Quando bateu meia-noite, fomos acordados por barulhos sinistros, gritos lancinantes, uivos de cães e uma tremenda explosão.
A casa ficou em alvoroço outra vez e, de todos os cantos, acorriam os empregados lívidos e aparvalhados; vimos, então, no escuro da noite, um clarão avermelhado justamente onde havíamos enterrado Nikolai Pávlovitch.
Mesmo apavorados, dirigimo-nos até o local e paramos estupefactos:
o belo monumento com a cruz que encimava a campa do morto estava estilhaçado, a cruz se partira em vários pedaços emoldurando uma figura difícil, naquela hora, de ser reconhecida.
No dia seguinte, ao raiar da manhã, voltamos novamente ao túmulo para decifrar o desenho estranho que havíamos vislumbrado durante a noite, percebendo, ao final, que as linhas formavam como que dois triângulos cruzados.
Mais tarde eu soube que tal sinal era um símbolo cabalístico.
Para os moradores circunvizinhos este acontecimento produziu uma forte impressão.
O que teria pensado Piotr Petróvitch - não sei -, mas sei que ele não reconstruiu o monumento e mandou apenas retirar os fragmentos da cruz...
Sobreveio um novo silêncio.
O relato do sacerdote aparentemente abismou a todos.
O almirante fitava pensativo o lago, do qual se alçava um nevoeiro esbranquiçado, a se condensar e se agitar com o vento.
— Vamos entrar, amigos, está ficando húmido - sugeriu ele.
Meu reumatismo não aguenta isso; não gosto de ficar aqui fora principalmente quando há um nevoeiro.
Tenho a impressão de ver a cabecinha loira de Marússya emergir da bruma cinzenta - o que me faz recordar de velhas e dolorosas lembranças, e depois do relato de hoje do padre Tímon, esta impressão ficou mais nítida ainda.
Ninguém se opôs e todos foram à sala de estar.
O padre logo depois se despediu e foi embora.
— Ivan Andréevitch, conte-nos a verdadeira história da pobre Marússya - pediu de chofre Zamyátina após minutos de silêncio.
Meu marido me disse que o noivo dela havia se afogado, mas o jovem médico, na tentativa de ressuscitá-lo, morreu de infarto.
Como me consta, a dupla desgraça abalou tanto a pobre mulher, que ela perdeu o juízo e se afogou em crise de insanidade.
Você deve estar à par dos detalhes desta triste história.
Gostaria de saber a verdade, pois não me entra na cabeça que este caso, por mais estranho que fosse, tivesse algo de sobrenatural.
Entretanto, você e o padre Tímon parecem pensar assim.
— A palavra "sobrenatural" é um tanto elástica, minha prima.
Cem anos atrás, a electricidade no convívio diário também pareceria sobrenatural.
Eu atenho-me à convicção de que existem ainda muitas leis da natureza desconhecidas, estudadas e aplicadas por alguns.
Ora, essas forças ignaras podem ser tanto benéficas, como maléficas, dependendo como são usadas; e isso é tudo.
Mas contarei de bom grado o que sei da história de Marússya, já que fui testemunha do principal episódio que envolveu o noivo dela.
Ao vir para cá, trouxe comigo as anotações daquela época.
Vou relê-las e, amanhã, descreverei os acontecimentos.
— Ah, obrigada, querido padrinho! - alegrou-se Nádya, dando-lhe um forte abraço.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 11, 2016 7:37 pm

Fiquei interessada por ela tão logo vi seu retrato.
Ela deve ter sido muito encantadora com aqueles cabelos prateados e maravilhosos olhos azuis.
— Sim, era uma moça fascinante.
A justiça divina não deixará impunes, é claro, os que criminosamente lhe destruíram a vida - vaticinou o almirante, pesaroso.
Bem, amanhã eu conto tudo - acrescentou.
Por enquanto deixemos esta triste história.
O assunto tomou novo rumo, contudo o relato do padre deixara uma impressão tão profunda, que a família se recolheu mais tarde do que de costume.
No dia seguinte, o tempo estava péssimo; chovia torrencialmente - o que impossibilitava alguém sair de casa.
Após o almoço, toda a família foi à saleta de estar.
Nádya estendeu a xícara com café ao padrinho, antes nela vertendo um cálice de conhaque.
— Para dar coragem - explicou maliciosamente.
O almirante lhe deu um leve tapinha na face.
— Você vai precisar dela mais que eu. Esteja pronta para ouvir coisas não só fora do comum, mas terríficas.
. — Tanto melhor, padrinho!
Adoro coisas assustadoras.
Ela foi buscar o bordado e acomodou-se ao lado do almirante que, pensativamente, folheava um caderno grosso.
Por fim, ele fechou o manuscrito e, após alguns instantes de silêncio, iniciou:
Conheci Gorki quando a propriedade pertencia a Piotr Petróvitch Khónin.
Eu era, então, um jovem oficial da Marinha, fogoso e céptico ao extremo, e mantinha uma estreita amizade com Piotr Petróvitch.
Ele era pai de Marússya, por quem eu estava enamorado perdidamente, mas, por força do destino, ela apaixonara-se pelo meu melhor amigo Vyatcheslav, homem sincero, bom e leal.
Calei, portanto, meu amor em favor do meu grande amigo e jamais o dei a entender a Marússya, que me tinha estima como a um irmão.
Sempre que chegava de uma de minhas missões marítimas, ia visitar meu amigo Piotr e a sua família em Gorki, onde geralmente me refazia de minhas extenuantes viagens.
Piotr Petróvitch, homem de imenso coração, criara e protegera desde menina Káti Tutenberg, filha de um amigo morto prematuramente e que, não tendo parentes que a cuidassem, ficou sob a sua responsabilidade e, depois, emancipou-se.
Assim, logo que voltei a Gorki, Piotr Petróvitch recebeu uma missiva de Káti, pedindo para que este a recebesse juntamente com seu noivo Casimiro Krassinsky.
A menção de tal nome, Piotr lembrou-se de uma velha história em que esse nome lhe vinha à memória.
Explicou-nos que, antigamente, as propriedades eram de nobres e ricos senhores que arrendavam terras para fazendeiros cultivarem ou criarem animais, e estes lhes pagavam com metade da produção ou serviam-lhes como empregados ou quase escravos, em troca das terras utilizadas.
Era comum e tornou-se um costume naquelas paragens tal procedimento.
Havia uma grande distância entre as famílias dos nobres e as dos fazendeiros, onde jamais a mistura fora permitida, pois pertencentes a castas diversas.
Era normal, também, naquela época, os patriarcas nobres decidirem sobre o futuro dos filhos, principalmente o das filhas, escolhendo para elas partidos aristocráticos e poderosos, visando ao matrimónio.
Parece uma aberração nos dias de hoje tal tradição. Eis o que ele mesmo contou sobre o assunto.
Naquela época, quando ainda estava vivo o famoso feiticeiro Tvardovsky, uma das filhas de um eminente e rico senhor apaixonou-se por um reles e devasso fazendeiro, chamado Krassinsky, que servia junto ao seu pai.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 11, 2016 7:37 pm

O progenitor da moça recusou - é óbvio - o pretendente e o enxotou de forma vexatória; tratou a filha com rigor e crueldade e a ameaçou trancar no monastério.
Mas a jovem era teimosa e arrojada.
Aproveitando a estada da família em Krakov, decidiu visitar o famigerado senhor Tvardovsky e pedir sua intercessão para quebrar a resistência do pai ao casamento com o homem amado.
Arranjar uma audiência com o terrível feiticeiro, diante do qual tremia todo o país, não foi fácil.
Porém, Úrsula não se intimidou e alcançou o objectivo:
Tvardovsky a recebeu. O que aconteceu depois - não se sabe.
Teria o feiticeiro se apaixonado pela belíssima polonesa, ou esse a sacrificou ao seu senhor Satã, a quem recebia, segundo a lenda, e com quem tinha um relacionamento constante; assim ou diferente, Úrsula sumiu por três dias.
Ao aparecer depois, ela afigurava-se uma sombra alquebrada da antiga jovem; seus cabelos negros estavam grisalhos.
Depois de uma conversa com a filha, o senhor fidalgo foi ficando macilento, entregou-se inteiramente à religião e logo depois permitiu à filha casar-se com o seu amado.
O matrimónio foi logo celebrado e o casal instalou-se numa propriedade - dote de Úrsula.
Lá ela deu à luz um menino que, para o espanto de Úrsula, possuía um rabo de cerca de duas polegadas.
Consumindo-se pela vergonha, a mãe educou o filho às escondidas e mais tarde o internou num monastério, cujo abade era parente de Krassinsky.
Tendo herdado o espírito de iniciativa da mãe, o jovem "capeta" destacou-se na guerra e acabou se casando com uma mulher rica.
O fruto desse enlace foi um desses Krassinsky, cujo último descendente se tornou o noivo de Káti Tutenberg.
— Meu Deus! Que gosto daquela moça em desposar um homem com rabo, um demónio! - exclamou Nádya, arrepiando-se.
— A lenda diz que se tratava de um belo rapaz- observou o almirante.
Sabe-se ainda que a mãe dele deixou-lhe em herança um anel mágico - presente de Tvardovsky - com poderes sobre os espíritos do inferno.
— Que pena ele não existir mais - lamentou-se Nádya.
— Engano seu: o anel existe, preservou-se na família de geração em geração, e Casimiro Krassinsky o tinha.
Conheço o anel e seus poderes; foi ele que me curou de meu cepticismo.
Convenci-me da existência do sobrenatural e das forças do mal; desde então evito qualificar como superstição ou crendice popular o que não entendo.
Mas, continue ouvindo!
O generoso e hospitaleiro Piotr Petróvitch Khónin respondeu imediatamente à sua ex-protegida que ela e seu noivo seriam hóspedes benquistos em Gorki.
Eu conhecia Káti Tutenberg desde meninota; ela não era bonita, porém viçosa e encorpada.
Ao atingir a maioridade, ela tinha ido estudar em Paris e o que lá fez - ninguém sabe.
Pelo visto, decidiu simplesmente que chegara a hora de arrumar a vida, pois já contava com vinte e oito anos.
No dia avençado, fomos buscar os noivos e eu achei que Káti mudara muito... para pior.
Descorada, estava mais magra e envelhecera; não gostei do seu prometido ao primeiro olhar.
O doutor Krassinsky era um homem de cerca de trinta anos, estatura mediana e magro; seu rosto de feições regulares não era feio; por outro lado, causavam-me repulsa os seus olhos e a boca.
A cada palavra ou sorriso, seus lábios finos, vermelhos tal qual sangue, escancaravam uma fileira de dentes brancos, compridos e afiados como de uma fera.
Algo de terrificamente enigmático havia em seus olhos.
Redondos e saltados, sombreavam-nos cílios densos e longos; quanto à cor, jamais consegui defini-la.
Por vezes me pareciam negros, outras vezes marrons ou então de um cinza azulado - cor de aço; mas, certo dia, eu os vi positivamente verdes e fosforescentes, como os de um gato.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 11, 2016 7:37 pm

Seu olhar malicioso e fugaz nunca parava por longo tempo em alguém e, geralmente, estava baixado ou dirigido ao espaço.
Na alta-roda, porém, era um homem agradável, bem educado e um interlocutor interessante.
Arnim, como já disse, ele inspirava profunda antipatia.
Marússya também não gostava dele e chegou a me confiar, certo dia, que Krassinsky insinuava terror, e ela não entendia como Káti poderia se casar com um homem tão asqueroso.
Desde o primeiro dia, a ilhota cativou o interesse de Krassinsky.
Após visitá-la, pediu a Piotr Petróvitch instalar-se no castelo. O anfitrião concordou, não sem antes preveni-lo de que a ilha gozava de má fama e que o povo chamava o castelo de "Ninho do Diabo".
Krassinsky revidou, em tom de chiste, que aquele género de boatice incitava ainda mais a sua vontade de abrigar-se no "Ninho do Diabo", e a vizinhança com o senhor do inferno não o assustava, visto ambos serem aparentados.
A propósito, ele contou a crendice sobre Tvardovsky, do anel mágico e até o mostrou.
Era maciço, representava uma serpente mordendo sua cauda; um olho era de esmeralda, outro - de rubi.
Na cabeça estava incrustada uma estranha gema preta, luzindo feito brilhante.
O tempo sucedeu-se sem aventuras dignas de nota; em outras palavras: externamente tudo transcorria como de hábito, porém na surdina aconteciam factos estranhos de toda a espécie, aos quais não se dava, infelizmente, a devida importância.
Assim, Por exemplo, com a vinda de Krassinsky, fiquei dominado por um estado de desconforto.
Anteriormente, nunca me aconteceu, tal qual então, entrar num quarto escuro e ficar apossado do medo; eu experimentava a sensação de alguém estar me seguindo, bafejar-me com sopro gélido ou o meu rosto tocar em teias de aranha.
Mas eu era um céptico, quase ateísta, e do meu alto, além de possuir critérios científicos, considerava-me um "intelectual" e desdenhava profundamente superstições tolas dos tempos antigos.
Tudo que a mim acontecia de estranho eu atribuía ao meu estado espiritual perturbado ou aos nervos excitados, e me consolava com a ideia do casamento consumar-se logo, de eu retornar ao serviço na marinha, depois eu me acalmaria e todas as sensações anormais passariam com o tempo.
Seria natural, por exemplo, perceber que todos aqueles fenómenos deixassem a criadagem perturbada.
Disso eu não me dei conta, mesmo quando o meu velho mordomo me sussurrou um dia que o "duende estava raivoso".
Lembro-me de ter rido a valer.
A minha indagação do motivo de o "duende" expressar sua raiva, o velho confiou, meio a contragosto, que todas as noites os cavalos espumavam, as vacas mugiam e se chifravam mutuamente, o cão preso na corrente uivava e, eriçando o pêlo, escondia-se no canil.
— E todas essas diabruras tiveram início desde que o senhor Krassinsky se instalou na "maldita" casa da ilha - indignou-se o velho Terenty, desconsolado.
Isso ainda vai acabar mal...
O relato divertiu-me muito.
E quem iria comentar algo do género a Piotr Petróvitch, uma pessoa descrente de tudo e intolerante quanto aos criados.
Um acontecimento imprevisto me fez esquecer de tudo isso.
Certa vez, eu interceptei um olhar estranho de Krassinsky em Marússya; seus olhos ardiam de tal paixão incendida, que tive vontade de lhe aplicar uma bofetada.
Uma vez despertos meus ciúmes, comecei a vigiar cautelosamente Krassinsky, e me convenci de ele estar loucamente apaixonado pela noiva do meu amigo, ainda que se esforçasse para encobrir o facto.
Uma vez, cerca de duas semanas antes do casamento, eu e Marússya encontramo-nos no terraço.
Ela parecia nervosa e preocupada com algo; súbito ela divisou o barco que trazia Krassinsky da ilha.
— Vamos ao jardim, Ivan Andréevitch.
Não quero ver esse senhor.
Sequer posso exprimir o quanto ele me é repulsivo; em seus olhos espreita algo funesto e diabólico e, por vezes, ele me olha de modo muito estranho.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 11, 2016 7:37 pm

Eu me inclinei a ela e comentei em tom de brincadeira:
— Eu acho que ele não é o único a olhá-la deste jeito. A culpa é de sua beleza?!...
Marússya ruborizou-se e, aborrecida, balançou a cabeça.
— Não diga tolices, Ivan Andréevitch!
Qual a sua opinião sobre o senhor Krassinsky?
Eu o acho ele um homem maléfico e não fosse isso risível em nosso século, estaria propensa a acreditar que ele é um descendente directo de Lúcifer.
Sua presença me deprime e não me sai da cabeça que ele quer o mal a Vyatcheslav.
A noite tenho pesadelos; em meus sonhos o meu noivo aparece morto, o nosso noivado rompido e, o mais terrível:
vejo-me casada com um defunto e este, com suas mãos gélidas e ossudas, arrasta-me para o lago.
Obviamente, tratei de atribuir os sonhos dela ao seu estado de nervosismo, mas Marússya balançou negativamente a bela cabeça.
— Não, não, o senhor não me convence!
Algo de ruim está acontecendo.
Esta conversa me levou à conclusão de que os estranhos relatos da criadagem não eram tão tolos; de facto, algo de estranho se passava e atingia até pessoas esclarecidas como eu e Marússya.
Dias mais tarde, começaram a afluir os convidados para o casamento:
alguns amigos comuns meus e de Vyatcheslav, entre os demais convivas da cidade vizinha.
Com a chegada dos convidados, Vyatcheslav e seus dois amigos engenheiros resolveram organizar uma caçada e investigar a ilha, de facto selvagem e particularmente linda.
Em vão procuraram por Krassinsky para levá-lo junto.
Naquele dia eu estava com forte dor de cabeça e recusei o convite.
Da minha janela pude vê-los desatracando.
Vyatcheslav, de pé no barco, agitou o chapéu de palha para Marússya no balcão e assumiu o leme, enquanto os seus acompanhantes tomaram os remos.
Sentei-me e, querendo dar uma fumada, lembrei ter deixado a cigarreira no balcão...
Nisso o relato do almirante foi interrompido por Filipp Nikoláevitch.
— Nádya, abra a janela, está muito abafado.
Perdoe, meu amigo, interrompê-lo nesta parte interessante, mas, decididamente, estou sufocando.
Nádya se lançou para atender ao desejo do pai e, quando o fresco ar da noite irrompeu no quarto, todos o aspiraram aliviados.
O almirante, aproveitando o intervalo, folheou o seu diário para refrescar, na mente, o passado.
Por fim, ele se empertigou e continuou o relato.
— Então, quando ia descer até a porta do terraço, estaquei.
Junto aos pés da escada estava Krassinsky.
Numa mão ele empunhava um bastão preto e nodoso semelhante à raiz e, na outra - erguia alto sobre a cabeça o anel de Tvardovsky.
Com o bastão ele provavelmente desenhava no ar certos sinais cabalísticos e em voz cadenciada balbuciava coisas incompreensíveis.
Estava tão absorto no que fazia, que nem notou minha aproximação.
E então estendeu a mão com o anel na direcção do barco.
Meu coração sobressaltou-se no peito.
Voltei para o meu quarto angustiado, deixei-me cair na poltrona e agarrei a cabeça com as mãos.
Do ponto de vista do "bom senso", o que presenciei era inacreditável.
Significava que Krassinsky lidava com o mundo oculto e dispunha de poderes maléficos.
Neste caso, algum perigo misterioso ameaçava meu amigo.
— Oh, e justo agora que Piotr Petróvitch está fora! - assaltou-se em minha mente.
Esqueci de mencionar que o nosso afortunado anfitrião viajara à cidade para cuidar de certos assuntos e só deveria retornar no dia seguinte.
Quase instintivamente os meus olhos buscaram a imagem no canto - o ícone do São Nikolai.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 11, 2016 7:38 pm

Levantei e aproximei-me no intuito de orar ao santo para proteger o meu amigo e afastá-lo de qualquer mal ameaçador.
Mas, mal ergui a mão para persignar-me, caí batendo a cabeça no canto da mesa...
Soergui-me e sondei em volta. Reparei nas roupas espalhadas pelo chão. Concluí que, na queda, esbarrei no cabide e o derrubei com as roupas.
— Graças a Deus! - pensei - pelo menos este incidente não é obra do diabo - apliquei uma compressa de água fria sobre a cabeça machucada.
Abri a janela, pois quase me sufocava com o calor e o ar abafado.
Nesse ínterim, o tempo piorou:
nuvens plúmbeas cobriram o céu; a luz do dia foi substituída por penumbra esbranquiçada, ao longe retumbavam trovões e as rajadas de vento tempestuoso fustigavam a superfície do lago, erigindo enormes ondas cinza escuras, jamais vistas.
Estava por se desencadear uma forte tempestade.
Assaltado por um novo pressentimento, peguei o binóculo e comecei a observar a travessia de nossos caçadores.
Não havia nem sinal deles.
Achei que eles tinham alcançado a ilha e ali aguardavam pelo fim da tempestade; mesmo assim, não consegui me sossegar.
Fechei a janela e desci à sala de estar, justamente onde agora estamos.
Encontrei Marússya, toda em prantos, e Kátya - consolando.
As nossas palavras de consolo não produziam efeito:
tanto Marússya, como eu, parecia, estávamos com maus pressentimentos. Sem dar
importância à tempestade, saímos ao terraço; eu passei no quarto de Piotr Petróvitch para buscar os binóculos e nós nos pusemos a perscrutar o lago e a ilhota na esperança de encontrar qualquer indício de que os nossos amigos estavam em segurança.
A tempestade atingiu o ápice da fúria.
O vento assobiava, vergando as árvores, raios brilhantes rasgavam o céu cinza escuro e pavorosos abalos de trovão não davam trégua.
O lago ebulia feito caldeirão e reboava surdamente, enquanto os cinzentos vagalhões eriçados batiam fragorosamente sobre a margem.
Súbito divisei ao longe o barco, tentando alcançar a ilha.
As ondas espumosas jogavam-no de um lado a outro e ameaçavam a cada instante tragá-lo.
Um grito surdo de Marússya evidenciou que ela também o viu.
Fiquei torcendo para que a tempestade o empurrasse em direcção à ilha e, se o barco pudesse acostar, os viajantes estariam salvos.
Mas, nesse instante, o meu coração gelou, pois a embarcação divisada antes sobre a crista da onda desapareceu e, de súbito, ressurgiu já sem os passageiros, com a quilha assomada para o alto.
Um baque de corpo tombando no chão me fez voltar do pasmo.
Marússya desfalecera, deixando cair o binóculo.
Ergui e transportei-a para a sala e pedi a Kátya, lívida e abalada, para tomar conta da jovem.
A minha pergunta:
onde está Krassinsky? - ela respondeu que este havia ido à ilha e pretendia retornar antes do almoço.
Sem mais perder tempo, saí correndo para chamar os criados.
Logo um grupo se juntou na margem.
Mandei trazer outro barco, guardado sob cobertura, e dois homens se dispuseram a me acompanhar apesar do enorme perigo.
Ao afastarmos da margem, um dos meus acompanhantes disse:
— Se da ilha a catástrofe foi vista, com certeza Agafonov, um marinheiro experiente e corajoso, tentará salvá-los.
Ele tinha razão.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 11, 2016 7:38 pm

Em meu estado de nervosismo, esqueci completamente daquele marinheiro aposentado, com o qual eu já havia navegado na juventude, e que à pedido de Vyatcheslav foi contratado por Piotr Petróvitch.
Era um homem de coragem testada, de boa índole e esperto, e sua habilidade de nadar poderia ser muito útil.
O vento estava amainando, de modo que nós avançávamos bastante rápido.
Não longe da ilha, avistamos uma canoa vinda em nossa direcção com um remador a bordo.
Era Agafonov.
De suas roupas escorria profusamente a água, e no rosto assustado lia-se tristeza.
Ele se aproximou de nós e balbuciou em voz abatida:
— Que desgraça, Vossa Excelência!
— Eles pereceram?
Você os viu afogando-se? - gritei.
— Não. Nós conseguimos tirar os três da água; os dois engenheiros estão vivos, mas Vyatcheslav Ivánovitch parece estar morto.
— Onde ele está? - perguntei, dominado por tremor nervoso.
— Na casa da ilha. Os engenheiros me ajudaram a transportá-lo para lá, e o doutor o está reanimando.
Como ele pôde se afogar tão rápido?
Nadava tal qual um peixe.
Não consigo atinar... - acresceu o marinheiro, enxugando os olhos com a manga da camisa.
Minutos após acostamos à margem.
Saltei à terra e em desabalada carreira entrei na casa.
Jamais aquele castelo imundo me causara uma impressão tão sinistra como naquele dia.
A entrada, com degraus em mármore preto, assemelhava-se mais ao portão de uma câmara mortuária do que a um prédio residencial.
No vestíbulo topei com o criado de Krassinsky - um homenzinho atarracado de cara nojenta tal qual do patrão.
Ele carregava umas roupas e uma bacia com água, e prontificou-se a me conduzir ao quarto onde estava o corpo de meu amigo.
Era um salão abobadado, iluminado por altas janelas, estreitas e sagitadas.
A mobília era formada de cadeiras com espaldares altos, reposteiros negros em veludo; o lusco-fusco a penetrar das janelas produzia uma impressão deprimente e lúgubre.
No centro, numa enorme mesa, jazia Vyatcheslav e junto dele, de mangas arregaçadas e com escova na mão, empenhava-se, em seu afã, Krassinsky em companhia de um jovem engenheiro.
O doutor, de rosto afogueado, parecia ter chegado à exaustão na tentativa ressuscitar meu pobre amigo.
Como já vi muita gente afogada, compreendi imediatamente que era o fim.
— Que desgraça terrível!
Que golpe para Maria Petrovna! - lamentou-se o engenheiro Avilov, que ajudava Krassinsky.
Krassinsky soprou na boca de Vyatcheslav e se aprumou, enxugando o suor a escorrer-lhe da testa.
— Não dê uma de urubu, eu ainda não perdi as esperanças.
— Ele está morto - justifiquei eu, tomando a mão enrijecida do amigo de minha infância.
E lágrimas me espargiram copiosas.
— Parece estar morto, mas não necessariamente, pois pode encontrar-se num estado cataléptico - observou Krassinsky.
- Dois anos atrás eu vi em Havre um caso parecido.
Um pescador foi tirado da água sem vida e levado ao hospital para autópsia.
A história é longa, só digo que eu suspeitei estar ele em catalepsia e empreguei alguns recursos, por mim inventados, e a experiência deu certo:
o homem ressuscitou.
Gostaria de fazer o mesmo com Vyatcheslav Ivánovitch e espero obter êxito.
Procurem apenas não revelar nada até amanhã a Maria Petrovna sobre o estado do noivo dela.
— E que recursos são esses? - perguntei.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 11, 2016 7:38 pm

Eu tinha uma profunda e insuperável desconfiança àquele homem.
Indubitavelmente ele estava apaixonado por Marússya; ademais, um pouco antes, flagrei-o em manipulações enigmáticas e então, repentinamente, a todo custo ele queria salvar o seu rival...
— Meu método não se explica em poucas palavras; só posso dizer que o magnetismo animal desempenha no caso um importante papel e, fora isso..., se quiserem, há uma pitada de magia - observou Krassinsky, rindo.
Para um descendente do diabo, um pouco de bruxaria é até necessário.
Iniciarei imediatamente os meus preparativos e caso os senhores queiram, podem assistir a eles.
Ele se pôs a dar passes sobre o corpo, sobretudo acima da cabeça e, minutos mais tarde, os supercílios do cadáver desceram sobre os olhos, até então semi-abertos e vitrificados.
— Vitória! Jamais duvidei da justeza de minhas hipóteses - anunciou Krassinsky, contente.
Ao ver que eu me apressei a deitar o ouvido no coração de Vyatcheslav, ele adicionou:
— O senhor se precipita.
O palpitar do coração obviamente existe, mas só pode ser percebido com o auxílio de um instrumento que, por infelicidade, não está comigo...
Na sequência, ele magnetizou alguns pedaços de tecido vermelho, depositou-os na testa, ventre, costas e palmas das mãos; depois, ordenando transportar o corpo para um colchão, toldou-o com cobertor e convidou todos a saírem do recinto.
— Devemos deixá-lo por algumas horas em repouso absoluto, a fim de ele absorver os fluidos, e só então eu tentarei o recurso decisivo.
Resolvemos ficar na ilha esperando pelos resultados.
Eu estava muito tenso, não obstante escrevi para Marússya, informando estarem todos em segurança, ainda que fracos e resfriados e, por ordem do doutor Krassinsky, iríamos repousar até o dia seguinte.
Para acalmar a jovem, acrescentei que cuidaria pessoalmente de seu noivo.
A noitinha, o tempo melhorou e o nosso mensageiro trouxe de Kátya um cesto com vinho, provisões e uma carta a Krassinsky.
Ela comunicava ao noivo do desmaio de Marússya e de sua recuperação horas depois.
A notícia de que todos estavam bem a reanimou visivelmente, ela se deitou e deveria estar dormindo.
A noite se dilatava angustiosa.
Krassinsky foi tirar uma soneca para redobrar as forças - conforme disse - para empreender uma difícil e trabalhosa experiência, enquanto nós jantamos em três, preocupados.
O infortúnio inesperado exercia sobre nós uma impressão deprimente, acentuada pela atmosfera lúgubre da casa.
Em tudo se estampava o selo de algo sinistro e demoníaco.
O relógio de parede na sala de estar, por exemplo, era decorado com a cabeça de Mefistófeles em capuz vermelho e em tamanho natural, cujos olhos se reviravam ao marcar os segundos.
Perto das onze horas chegou Krassinsky, aparentando bom humor.
Ele recusou o repasto, sorveu alguns copos de vinho, e todos nós retornamos à sala onde jazia Vyatcheslav.
Fiquei longamente examinando seu rosto cadavérico, iluminado por dois candelabros de três velas, acesos na cabeceira pelo doutor.
"Infelizmente, está morto" - pensei.
"E este ordinário quer nos fazer crer que Vyatcheslav se encontra em estado de letargia.
Não, aqui nenhuma ciência humana pode ajudar".
— E agora, senhores, peço-lhes se retirarem ao quarto vizinho - disse Krassinsky.
Preciso estar sozinho para poder me concentrar.
Aguentem por uma ou duas horas.
Se a experiência der certo, no que acredito, eu os chamarei.
Ao nos dirigirmos à saída, vimos pela porta semi-aberta esgueirando-se um gato; seus olhos verdes brilhavam fosforescentes.
— Fora, criatura nojenta! - gritou Avilov, erguendo o braço em ameaça.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 12, 2016 7:23 pm

— Encontrei-o aqui, habitando a ilha; como sou eu que o alimento, ele se afeiçoou muito a mim - explicou Krassinsky.
-Vá dormir, Tutu! - gritou, batendo o pé.
O gato arqueou o dorso e arrastou-se para um canto escuro perto da lareira.
Sentados, nós apuramos os ouvidos aos acontecimentos no quarto vizinho.
Ouvimos Krassinsky andar e mover os móveis e, depois, tudo silenciou.
Aos poucos foi-me dando uma soneira; resisti o quanto pude, mas em vão.
Meus colegas já estavam dormindo nas poltronas, quando peguei no sono.
Fui acordado por um forte barulho.
O relógio batia meia-noite e meia.
Meus companheiros também acordaram.
— O que é isso? Ouviram?
Parece um barulho! - perguntou um deles.
Eu estava com sono terrível e todo o meu corpo pesava tanto que não consegui me levantar.
— Acho que sonhamos - balbuciei e tornei a cerrar os olhos aderentes.
Quando finalmente acordei, o relógio mostrava sete horas.
O torpor a me dominar à noite toda passou, mas a cabeça ainda estava pesada e zunia.
Meus companheiros dormiam ainda um sono agitado. Eu os acordei.
— Ouçam, senhores! Dormimos a noite toda e Krassinsky não veio nos chamar. Isso não prenuncia coisa boa - alarmei-me.
— Por certo não conseguiu realizar o milagre de ressuscitar o falecido e não quis nos acordar para anunciar o fracasso - sustentou Avilov.
— De qualquer forma, vamos ver o que está acontecendo - sugeri.
O quarto estava trancado por dentro e, após infrutíferas batidas, chamamos por Krassinsky.
Não havia qualquer resposta, e nisso Avilov ouviu do quarto um fraco gemido.
Decidimos entrar a qualquer custo, porém não conseguimos arrombar a porta maciça de carvalho.
Chamamos Agafonov e o criado de Krassinsky e, finalmente, após muito esforço, a fechadura cedeu e a porta foi aberta.
Paramos indecisos e embaraçados no umbral.
Os candelabros ainda ardiam sobre a mesa; as velas brancas foram substituídas pelas negras e no meio havia um castiçal com sétima vela, também negra.
Embaixo da mesa, assomava uma massa enegrecida de dentro de uma bacia metálica, semelhante a sangue coagulado.
Aliás, naquele minuto, os pormenores não nos interessavam e a atenção de todos centrou-se em Krassinsky, deitado junto à mesa de braços abertos.
Recuperados do susto que nos assaltou no primeiro instante, corremos a ele e o erguemos.
Aparentemente estava morto.
Lívidos de terror, olhávamos mudos para o cadáver, quando do meu peito se soltou um grito involuntário.
Ao pousar um olhar em Vyatcheslav, reparei que ele estava respirando.
Seu rosto estava azulado, os olhos cerrados, mas o peito arfava regularmente.
Krassinsky efectuou um milagre e pagou com sua própria vida.
Seu corpo foi retirado, e Vyatcheslav foi transferido para o sofá no quarto vizinho, para não se assustar ao acordar no meio da desconcertante mobília do outro quarto.
Após expedir as devidas ordens de chamar o médico e avisar as autoridades, sentei-me ao lado do amigo, esperando o seu despertar.
Com curiosidade inquietante, pus-me a examinar-lhe o rosto.
Sem dúvida, ele estava vivo, já que uma respiração quase imperceptível desprendia-se de sua boca e, por vezes, ele se mexia de leve.
Obviamente ele estava muito exaurido e ainda levaria muito tempo para se recuperar.
Súbito, notei em seu dedo o anel mágico de Tvardovsky, e esta circunstância dirigiu meu pensamento a Krassinsky.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 12, 2016 7:23 pm

De que ele morrera? Comecei a revolver na mente todos os detalhes do acontecido.
Era fácil atribuir sua morte ao gigantesco esgotamento pelo esforço da vontade, causando a congestão do cérebro ou parada cardíaca.
De imediato, porém, descartei tal explicação.
Uma voz misteriosa sussurrava-me que a causa da morte era outra, oculta; não seria uma parada cardíaca, e, sim, uma experiência mágica malsucedida, redundando em morte da criatura diabólica.
Lembrei presenciá-lo no terraço com o anel no alto.
O que ele planejava ao realizar aquela experiência bizarra?
Quisesse destruir o rival, para que gastaria tanta energia para salvá-lo?...
Naquela época eu era um ignorante completo nessas questões e decidi comigo que Krassinsky fora vítima de sua própria ignorância.
Provavelmente, ele fora seduzido pelo experimento, cujos detalhes lhe escaparam, tendo accionado, forças poderosas que não pôde controlar, e essas o mataram.
Posteriormente, estudei muito este enigma, e obtive muitas explicações aos fenómenos, para mim então, inexplicáveis.
E claro, continuo ainda ignorante em mistérios complexos da magia negra superior, mas estremeço ao ver vocês aqui em poder de um destino sinistro - acrescentou o almirante, suspirando pesado.
Os Zamyátin entreolharam-se pasmos.
Uma involuntária, vaga e inconsciente inquietação assaltou-os.
Ivan Andréevitch retomou a leitura, folheando seu caderno e, minutos depois, prosseguiu o relato.
— Duas horas após, vieram Marússya e Kátya; a primeira para visitar o noivo ressuscitado, outra - para chorar o defunto.
Marússya inclinou-se ansiosa sobre Vyatcheslav, mas, num átimo, compreendendo a necessidade do enfermo permanecer em repouso absoluto, foi embora; ademais, uma nova inquietação dela se apoderara.
Piotr Petróvitch não retornou de manhã como prometera.
Seu coche voltou sem ninguém da estação e do pai não havia nem carta nem telegrama.
Ela me pediu que, se até a hora de almoço não houvesse dele qualquer notícia, eu fosse à cidade para descobrir o que estava acontecendo.
Eu concordei, e nós fomos até Kátya que, ajoelhada ao lado do cadáver de Krassinsky, mergulhara ao mais inconsolável desespero.
Ambos tentamos acalmar e consolá-la; sem nos querer ouvir, a jovem repetia jamais se conformar com a perda da pessoa tão maravilhosa e magnânima, que sacrificara a vida para salvar a outra.
No íntimo, eu estava convicto de que Krassinsky não era daqueles que se sacrificariam por outrem e que a dor de Kátya com certeza se extinguiria, soubesse ela que o noivo pérfido nutria amor por outra, mais jovem e bela.
Mas me contive para não aumentar seu sofrimento.
Pouco depois veio o médico e, após o exame, anunciou que a causa da morte de Krassinsky fora um infarto, provavelmente devido a uma grande tensão emocional.
Seguiram-no as autoridades, que registraram a ocorrência.
Com a ausência do dono da casa e a debilidade de seu futuro genro, minha presença ali foi indispensável.
À noite viajei para a cidade e encontrei Piotr Petróvitch muito deprimido no hotel.
Ele teve uma forte crise de gota que o segurou lá e, uma vez que a dor não passava, havia enviado à filha uma carta que não chegou a tempo.
O meu relato sobre os acontecimentos abalou-o muito, sobretudo no que se referia à saúde de Vyatcheslav.
— Minha pobre Marússya não teria suportado a perda dele, tanto mais quando faltam apenas alguns dias antes do casamento - disse ele.
E óbvio que nada mencionei sobre os fenómenos ocultos por- mim presenciados.
A morte de Krassinsky ele aceitou com bastante frieza.
— Não sei por que, mas esse senhor sempre me foi odioso.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 12, 2016 7:23 pm

Reparei que ele se interessava por Marússya mais do que deveria, tratando-se da noiva de outro.
Que a terra lhe seja leve!...
Deus sabe que consequências duras poderiam sobrevir; até para Kátya, a morte dele é afortunada.
O criado, vindo anunciar que o chá estava pronto, interrompeu o almirante e todos passaram à sala de jantar.
Após o chá, o almirante sugeriu transferir para o dia seguinte a continuação de sua narrativa.
A sugestão foi veementemente combatida pelos Zamyátin e sua filha.
Nádya cingiu o pescoço do padrinho, beijou-lhe a face e suplicou para ele terminar a emocionante aventura naquele mesmo dia.
— Não me estrangule, pequenina, senão acabará sem saber o fim - ria o almirante.
Se for para terminar logo, teremos de ficar até a madrugada.
— Não faz mal, padrinho!
De qualquer forma eu não conseguiria dormir.
Estas histórias misteriosas me deixam de cabelo em pé, mas estou literalmente enfeitiçada.
Estou com tanta pena de Marússya!...
Que casualidade inaudita e sinistra encontrar em nossa época um bruxo, descendente do diabo, como é Krassinsky.
Isso que é má sorte!
O almirante ficou sério.
— Engana-se, Nadyucha, achando que hoje não existam pessoas sabendo utilizar a força do mal e, tenho certeza:
há muita gente que se torna vítima das forças desconhecidas e terríficas, de cuja existência sequer suspeitamos.
Todos retornaram à sala de estar e o almirante retomou o relato.
Nádya tornou-se séria e pensativa, largou o bordado e sentou-se ao lado do padrinho.
— Bem, volto ao momento, quando me encontrava na cidade com Piotr Petróvitch, acometido por crise de gota.
Passei em alguns lugares para acertar alguns negócios dele, fiz compras e fiquei no hotel até ele estar em condições de voltar para Gorki.
Ao voltarmos, Marússya comunicou que Vyatcheslav, apesar da fraqueza, havia partido na véspera após ter recebido um telegrama da mãe, gravemente adoecida.
Uma semana depois, chegou uma carta dele, relatando sucintamente o passamento da senhora Turaeva e a necessidade de Vyatcheslav em protelar seu retorno por pelo menos três semanas, a fim de pôr os negócios em dia, dessa forma adiando o casamento.
O tempo que se seguiu transcorreu calmo, sem incidências; a morte de Turaeva e o luto de Kátya sustaram quaisquer recepções e festejos.
Vyatcheslav enviava continuamente presentes e telegramas, desculpando-se em não escrever mais por estar ocupado, ultimando os negócios pendentes, e assegurando estar desejoso de retornar logo à noiva adorada.
Num dos seus telegramas, estranhou-me sobremaneira o seu pedido a Marússya e Piotr Petróvitch, em deixar arrumada a casa na ilha para ali passar alguns dias com a jovem esposa, visto aquele local tornar-se-lhe caro pela maravilhosa ressurreição e magnanimidade do homem que se sacrificou para o salvar.
Usei de todos os argumentos para persuadir Piotr Petróvitch a rejeitar tal fantasia e impedir que o jovem casal passasse mesmo apenas uma noite naquele lugar assombrado.
Mac Khónin - como já disse - era um céptico convicto.
Ele riu das minhas palavras e censurou que era vergonhoso a um marinheiro dar ouvidos a "contos de carochinha", sem falar que aquele pequeno castelo na ilhota era extraordinário, por isso o desejo de Vyatcheslav em habitá-lo era bem natural.
Marússya nem protestou, enquanto Kátya tomou a minha resistência como uma afronta à lembrança do desafortunado Krassinsky.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 12, 2016 7:23 pm

— Jamais imaginei que o senhor fosse tão atrasado e tão... ingrato, Ivan Andréevitch.
Considerava-o mais sensato e acima de todas essas histórias tolas sobre os fantasmas, que habitam apenas na cozinha e na cabeça estouvada de uma campesina - alfinetou ela.
Eu me contive em dar resposta, mas não tomei parte na arrumação da casa na ilha.
Vyatcheslav era esperado na manhã do dia do casamento; sua vinda antes era impossível e a transferência do enlace não lhe era de desejo.
Chegou finalmente o dia da cerimónia.
Ao acordar, o criado Enunciou-me a chegada do noivo algumas horas antes do imperado, ao amanhecer.
Esgotado pela longa viagem, ele fora dormir.
Não o encontrei na hora do desjejum, e só uma hora depois, quando eu estava arrumando as malas, pois planeava partir no dia seguinte.
Vyatcheslav entrou no quarto.
Nós nos abraçamos calorosamente e eu, segurando-lhe a mão, retrocedi um passo para examinar o amigo.
Efectivamente, o episódio com ele influiu em seu aspecto.
Sua tez anteriormente viçosa substituíra-se pela enorme lividez, e os lábios tornaram-se mais rubros.
— Você ainda está muito pálido - observei - e parece fraco...
Assaltado por nervosismo, fiquei sem palavras para continuar.
Interceptei-lhe então um olhar que fez a minha espinha gelar.
Soltei sua mão, e fitei o rosto tão familiar do amigo, a quem amava feito irmão.
E encararam-me, é claro, aqueles grandes olhos cinzentos de Vyatcheslav, não como os antigos:
francos, límpidos e sorridentes, mas maliciosos e, ao mesmo tempo, cruéis e terríficos, lembrando-me os de... Krassinsky.
— O que há Ványa, está passando mal? - perguntou.
— Não é nada. Estou bem...
Só estou um pouco nervoso ao revê-lo depois daquele dia em que você quase morreu - balbuciei, enxugando o suor da testa.
Ele riu e, mais uma vez, não foi um riso de Vyatcheslav.
— Entendo. Fui resgatado do "mundo do além" - o que afectou profundamente o meu organismo.
Ainda estou meio fraco, sofro de enxaqueca e sou incapaz de explicar lapsos de memória.
Espero que no ambiente tranquilo da vida conjugal com a adorada esposa todos esses fenómenos mórbidos desapareçam.
Conversamos ainda um pouco, depois ele se retirou para descansar antes de se vestir para a cerimónia.
Ao ficar sozinho, sentei-me à janela e comecei a reflectir.
Estaria eu perdendo o juízo?
Não havia dúvida ter estado diante do amigo de infância; não era ele, os olhos não eram dele, e sim daquele homem que não inspirava confiança, aquele defunto misterioso...
Tentei convencer-me de que tudo não tinha nenhum fundamento, mas ao relembrar o sinistro olhar há pouco me cravando, um tremor gélido estremecia todo o meu ser.
Súbito lembrei de Marússya.
Ela, uma mulher apaixonada, por certo seria mais sensível à estranha transformação do noivo, perceberia em seu olhar a alma do outro e descobriria a verdade.
Com impaciência febril eu esperava a hora de vê-los juntos.
Devido ao luto de Vyatcheslav pela mãe, a cerimónia se realizaria sem qualquer pompa e apenas um número reduzido de amigos foi convidado.
No dia seguinte, o jovem casal viajaria por duas semanas a Kiev e seus arredores.
Para a minha sincera decepção e um lúgubre pressentimento, vim à saber que a noite nupcial deles se passaria na casa da ilha.
O casamento deu-se na igreja rural, visível do nosso terraço e oficiou-o o padre Tímon.
Mais tarde, ele me confessou jamais ter realizado um sacramento com tanto peso no coração.
Por todo o tempo ele se sentiu mal e uma dor lancinante no corpo o atormentava tanto, que suas mãos tremiam e a cabeça girava.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 12, 2016 7:23 pm

Desconsolado, eu fiquei observando a noiva.
Ela estava esplêndida e seus olhos límpidos revelavam uma felicidade serena, o que me convenceu de que ela de nada suspeitava.
Vyatcheslav, mortalmente pálido, de quando em quando franzia o rosto em convulsão nervosa.
Toda espécie de maus agouros anuviaram a celebração.
A aliança escapou da mão do noivo na hora de ele colocá-la no dedo da noiva, e caiu no chão; o véu da jovem pegou fogo e teve de ser arrancado; por fim, ao voltarem da igreja, à luz do dia, no caminho cruzou um lobo.
Os cavalos jogaram-se assustados para o lado e por pouco não emborcaram a carruagem.
A ocorrência de todos esses incidentes sinistros não abalou a felicidade de Marússya.
Findo o almoço, nós acompanhamos o casal até a margem do lago, onde por eles esperava um barco decorado de flores, tapetes e lâmpadas acesas.
Marússya embarcou radiante e feliz.
Foi a última vez que eu a via assim ao lado do seu descorado marido.
A ilhota estava iluminada. Lâmpadas multicores cintilavam em meio ao verdor da ilha, que nesta hora, tal qual uma gema preciosa, reverberava com todas as cores de arco-íris, à luz de fogos de bengala, sobre a superfície lisa do lago.
Eu parti naquela mesma noite.
Meu destino de súbito tomou um novo rumo.
Ao invés de ter de alcançar a esquadra, enviaram-me a Sevastópol, de onde eu devia ir a Petersburgo para servir temporariamente no quartel-general da Marinha.
Despedindo-me de Piotr Petróvilch, com o qual eu tinha uma relação muito amigável, empenhei a minha palavra de que ao voltar à capital eu passaria em Gorki por uns dois dias.
Não vou contar aqui sobre o mês que fiquei fora.
A suspeita que ia se enfurnando em minha alma quanto à "substituição" da identidade do meu amigo não se desfez, ao contrário - aumentou.
Vyatcheslav deixou de ser para mim um amigo e irmão.
Não recebi dele sequer uma carta, confiando-me como antigamente qualquer detalhe tolo de sua vida, qualquer arroubo espiritual.
Entre nós se interpôs e solidificou-se um muro invisível.
De volta para esta casa bastante tarde, o criado me informou estar o patrão já deitado, com nova crise de gota, e o jovem casal estaria na ilha.
Adiei o encontro até o dia seguinte e fui dormir.
Vyatcheslav costumava acordar cedo e, assim, no dia seguinte, sem esperar Piotr Petróvitch se levantar, peguei o barco e atravessei o lago.
O mordomo explicou que o jovem patrão ainda não havia saído do toalete, o que me surpreendeu um pouco.
Eu fui ao gabinete do amigo e sentei-me à sua escrivaninha junto à janela aberta.
Cartas e papéis ali se espalhavam, e diante de mim havia um envelope endereçado a um homem de negócios, e uma carta pronta, ainda não dobrada.
Nós jamais tínhamos segredos um com o outro; a identidade do destinatário apontava se tratar da venda de uma propriedade, há longo tempo interditada e cuja história eu conhecia.
Sem qualquer segunda intenção, peguei a carta para inteirar-me de seu teor e, à medida que a lia, assaltava-me a perturbação.
A letra era de Vyatcheslav, mas parecia forjada e copiada; por baixo da escrita como que se sobressaía uma outra escrita e, em alguns trechos, bem nítida.
A assinatura também parecia com a de Vyatcheslav, mas o traço característico era diferente.
Onde eu o havia visto? Com Krassinsky?
Se Vyatcheslav tinha os olhos do outro, não herdara também sua letra?...
Comecei a revirar a minha carteira, onde se encontrava uma velha carta do amigo, assim como um bilhete de Krassinsky, pedindo emprestado um livro.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 12, 2016 7:24 pm

Ao encontrar ambos os papéis, eu os coloquei diante de mim e comecei a compará-los, e logo cheguei à convicção de que a carta com a assinatura de Vyatcheslav fora escrita pelo polonês.
Feito ébrio, coberto de suor frio, guardei as cartas e, recostando-me no espaldar da poltrona, fechei os olhos.
Minha razão positivista, tornada céptica pela educação, negava-se a admitir um facto tão bizarro, ainda que confirmado por provas irrefutáveis.
— Ó Deus Todo-Poderoso, ajude-me e me ilumine neste emaranhado de enigmas - supliquei no íntimo.
Nisso abri os olhos estremecido ao ouvir um miado colérico e o arranhar das garras.
A distância do meu braço, esticando as patas elásticas e arqueando o dorso, estava o gato por mim visto naquela noite terrível.
— Deus está comigo! Chô!
Fora daqui, criatura imunda! - soltou-se de mim involuntariamente.
Mas o animal, de um lance, pulou no meu peito e tentou me morder.
Soltei um grito surdo e tentei desvencilhar-me dele.
Suas garras afiadas parecia estarem a ponto de me rasgar a pele, quando uma mão agarrou o animal pelo cangote e o atirou pela janela ao jardim.
Era Vyatcheslav.
— Que diabos! O que há com ele?
Você o provocou? - perguntou.
Recostei-me à mesa, recuperando o fôlego.
— O que tem essa criatura diabólica?
Como você pode manter tal víbora.
Ainda meto uma bala nesse animal raivoso, se encontrá-lo de novo! - exclamei ríspido.
Vyatcheslav deu uma risada forçada e seca.
— Não se irrite!
Ainda não é hora de matar um pobre animal.
Também não gosto dele e não o quero mais aqui...
— E uma criatura perigosa; pode assustar sua esposa - interrompi.
— O gato raramente aparece.
Deve se esconder em algum buraco nesta ilhota.
O falecido Krassinsky acolheu e o alimentou desde o começo, assim ele vem em busca da comida, não se sabe de onde.
Você tem razão: ele pode assustar Marússya e é preciso me livrar dele.
Bem, vamos tomar chá, pois Marússya nos espera no terraço.
Já estávamos à porta, quando ele disse:
— Você sabe o caminho.
Vá sozinho, enquanto isso eu vou acertar as contas com o jardineiro.
Era fim de setembro, mas o tempo estava maravilhoso e quente como no verão.
No terraço, à mesa de chá sentava-se Marússya, encantadora em sua saia de musselina.
Ao me ver, ela se levantou ligeiro e me estendeu ambas as mãos.
Meu coração apertou-se ao fixar o meu olhar abismado sobre o rosto querido, pálido e emagrecido, repleto de profunda desilusão; no olhar a mim dirigido lia-se desespero.
Eu tinha por Marússya um amor tão puro, que em meu coração não havia nem uma sombra de sentimento vil de ciúme; ao contrário, de toda a alma eu lhe desejava a felicidade com o homem a quem considerava um irmão. Ela, porém, era infeliz -nisso não havia dúvida.
Lampejou-me na mente a ideia de que, loucamente apaixonada por Vyatcheslav, Marússya descobriu o avatar e tal suspeita da "troca" inaudita a estaria atormentando.
Trocamos os nossos olhares, mais eloquentes do que quaisquer palavras, pois, às vezes, os pensamentos se expressam melhor pelos olhos.
Resumindo: nós entendemos um ao outro e, profundamente perturbados, baixamos a vista.
Eu, emudecido, premi aos lábios as suas mãos frias, sentei-me e, calado, comecei a mexer o açúcar no copo.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 12, 2016 7:24 pm

Neste instante entrou Vyatcheslav.
Notei Marússya estremecendo ao lhe estender o chá.
Sentada, sem falar nada, ela ficou mordiscando distraidamente uma torrada.
Contei a Vyatcheslav os detalhes da minha viagem a serviço a Sevastópol; ele falou-me de sua viagem de núpcias.
A toda hora, o seu olhar frio, sinistro e ameaçador - não o de meu amigo mas de Krassinsky - pregava-se em mim, acompanhando todos os meus movimentos e causando-me calafrios.
Mas eu era um jovem intrépido e essa sensação de ansiedade, jamais antes experimentada, originária da angústia e medo pela presença daquele homem enigmático - decididamente deixava-me possesso.
— Sua viagem de núpcias foi um tanto curta - observei, sem muito pensar.
Por que não leva Marússya à Crimeia ou Itália?
Isso a distrairia.
Esta ilha me parece por demais isolada e enfadonha para uma mulher jovem; além do mais é um lugar sinistro.
Aqui Krassinsky pereceu de morte misteriosa, pretendendo aparentar-se com o inferno.
Quem sabe se a sua alma satânica não esteja vagando aqui em companhia de seu gato imundo.
De qualquer forma, você deveria mandar rezar uma missa e benzer a casa.
Nisso, eu vi rastejando embaixo do corrimão a criatura da qual acabara de falar.
— Sim, sim!
Vocês devem chamar um padre e expulsar as forças demoníacas que se nidificaram aqui.
Você sabe:
"Quem habita sob o tecto do Salvador, tem o amparo do Todo-Poderoso".
Mal acabei de falar, à nossa volta ouviu-se barulho de tijolos se despencando e vidros quebrando.
Eu me ergui assustado e, neste ínterim, percebi o gato, preparando-se para um bote.
Dessa vez eu estava prevenido.
Agarrei pelo pescoço a criatura diabólica e quase aos berros:
"E Cristo ressuscita!" - atirei o animal com tanta força, que este bateu sobre a balaustrada e espatifou-se no chão, estendendo as patas feito morto.
Ao me virar, vi Marússya recostada na cadeira em desmaio; Vyatcheslav havia sumido...
Em vão eu procurei o motivo do barulho ouvido; todos os vidros estavam inteiros e não se viam tampouco pedras ou tijolos.
Enquanto socorria a pobre jovem, Vyatcheslav retornou, segurando uma pequena espingarda Monte Cristo.
— Desabou o monte de pedras destinadas para a construção da estufa e seus vidros quebraram - explicou ele, ajudando-me a sustentar Marússya.
A pobrezinha deve ter se assustado... - acresceu ele.
Ele chamou a camareira e levamos Marússya ao aposento; ela abriu os olhos, mas o seu aspecto inspirava cuidados.
Ao retornarmos, ele se aproximou da balaustrada e chutou o cadáver do gato para o jardim.
— Eu ia dar um tiro naquele animal, mas vejo que você já deu cabo dele - disse, rindo.
Surpreende-me assaz você ter se tornado tão supersticioso, Ványa.
Antigamente você era um céptico arraigado e corajoso; hoje tem medo de tudo:
desse gato infeliz, do fantasma de Krassinsky, deste belo palacete e até do ar que respira.
Simplesmente não o compreendo.
De propósito ou não, você berra esconjuros, o que colaborou para o susto de Marússya.
E ele desabou numa gargalhada tão selvagem e desagradável, que nada tinha em comum com o riso franco, alegre e contagioso do verdadeiro Vyatcheslav.
— De facto, este mundo está às avessas - redargui, não sem ironia.
Sua esposa, de alegre e viçosa, tornou-se descorada, magra e triste; eu me tornei supersticioso, e você... mudou tanto que se pode imaginar que foi trocado.
Ele tomou as minhas palavras como um chiste, se bem que em seus olhos faiscou uma chama maldosa.
Agarrei-me ao primeiro pretexto para ir embora, e ele não me segurou.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 12, 2016 7:24 pm

A despedida foi fria. Durante todo o tempo do caminho de volta eu repetia as orações para proteger-me contra os maus espíritos.
Piotr Petróvitch estava me aguardando.
Disse-lhe estar retornando da casa do jovem casal, onde o desmoronamento do monte de pedras acabou assustando Marússya, mas que ela então já estava recuperada.
Nada comentei - é claro - sobre o incidente satânico ou de minhas suspeitas, temendo amargurar o enfermo que, de qualquer forma, em nada poderia ajudar, nem entender os acontecimentos devido à sua total descrença. Piotr Petróvitch ouviu-me com ar preocupado e, depois de algum silêncio, disse:
— A pobre Marússya anda muito nervosa e impressionável; aliás, não estou gostando nada de seu aspecto.
Pensei que, casando, ela estaria no sétimo céu, ao invés disso está cada vez mais pálida, magra e entediada, como se algo a oprimisse.
Ele se calou por instantes e, depois prosseguiu:
- Ivan Andréevitch, o senhor percebeu a mudança estranha que se operou em Vyatcheslav após aquele terrível acidente no lago? É como se ele fosse um outro.
Antes era tão simpático, um homem de alma aberta, e agora não entendo por que não consigo suportá-lo.
Saí-me por algumas frases genéricas, sem arriscar a dizer a nua verdade e tratei de dar um novo rumo àquela conversa.
Pretextando a necessidade inadiável de retornar a Petersburgo, passei em Gorki só mais um dia. Os recém-casados almoçaram na casa do pai e, aparentemente, tudo corria normal, se bem que uma desarmonia interna era patente.
Instalei-me em Petersburgo.
As recordações sobre os acontecimentos estranhos e incompreensíveis, cuja testemunha fui, perseguiam-me tal qual pesadelo, aos quais não conseguia achar explicação...
Ajudou-me um acaso inesperado, se é que é possível dizer que o "acaso" existe.
Num serão na casa de meu chefe, conheci um coronel aposentado que me inspirou grande simpatia, sobretudo quando eu soube que ele se interessava por espiritualismo e ciências ocultas, tendo inclusive uma grande biblioteca que tratava desses assuntos.
Tornei-me uma visita frequente na casa do coronel Vrótsky, li numerosos livros de sua biblioteca, e muitas questões obscuras do mundo do além começaram a ser iluminadas com uma nova e inesperada luz; entretanto eu não consegui encontrar nem explicações, nem confirmações dos fenómenos que mais me interessavam.
Tornei-me um grande amigo do coronel.
Certa noite, quando estávamos sozinhos em seu gabinete, contei a Nikolai Andréevitch sobre os estranhos factos observados em Gorki e lhe confiei as inverosímeis suspeitas a me perseguirem. Vrótsky me ouviu sério e pensativo.
— O que me contou é bem possível e, infelizmente - disse ele, quando terminei o relato - nos livros de ocultismo, aquela operação é chamada de "avatar", sendo praticada na magia negra superior.
Deitando sua mão no meu ombro, ele acrescentou:
— O inferno é um domínio terrível, meu jovem amigo.
Se os homens soubessem até que ponto eles estão cercados pelas forças do mal, ririam menos e rezariam mais.
Em todas as épocas, a partir das mais remotas, a igreja sempre conduziu uma luta atroz contra as forças diabólicas.
O nosso Salvador, Jesus Cristo, não foi por acidente que incluiu na oração divina o seguinte trecho ao Pai Celeste:
"Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal".
E a oração - pode observar - é o único escudo de todos contra o inferno.
Agora, voltando ao seu caso, eis a minha opinião: seu pobre amigo caiu vítima do homicídio oculto e sua alma, sem dúvida, abandonou o invólucro mortal.
O homem nefasto, envolvido com o inferno, realizou um avatar e alojou-se no corpo de Turaev para apoderar-se da mulher, a quem desejava.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 12, 2016 7:24 pm

Mas o mais terrível é que considero essa pobre jovem inevitavelmente perdida...
Ao notar o meu palor e a aflição que se reflectiu em meus olhos, ele tentou me consolar:
— Meu pobre amigo! Vejo que esta triste história o amargura e oprime mais do que pensei.
De qualquer modo, acredito que é melhor saber a verdade, e ela é a seguinte:
quem se entrega ao poder do inferno, perece, se - evidentemente - não dispõe de uma extraordinária força espiritual e de conhecimentos poderosos.
A ignorância, nesses casos, leva à destruição mais frequente do que se pensa, e os profanos, desconhecendo o abecedário da magia negra e suas leis terríveis, accionam levianamente as forças ignotas, pagando com a saúde, a felicidade e até com a vida.
Para edificação de seus conhecimentos, contar-lhe-ei, a propósito, uma triste história de um dos meus amigos - um homem belo e instruído que teve uma morte violenta por sua falta de experiência e leviandade criminosa, quando por brincadeira mexeu com uma lei terrífica da magia negra, sem saber nem a primeira palavra dela.
Não se pode brincar com o inferno; é um divertimento perigoso e o meu pobre amigo, kammerherr Boresko, entendeu isso na própria pele.
Na época, a história teve muita repercussão na alta-roda de
Petersburgo.
O simpático Konstantin Aleksándrovitch interessava-se, é verdade, por ciências ocultas, mas esse interesse era com aquela despreocupação de um grande fidalgo que gostava apenas de "se divertir", e por descuido ou preguiça não se dava ao trabalho de estudar seriamente as prescrições sábias desta ciência a nós obscura.
Konstantin Aleksándrovitch gostava de reunir em torno da "mesa giratória" a companhia alegre e despreocupada de mulheres bonitas e famosas para invocar os espíritos.
Ninguém, evidentemente, esforçou-se por confirmar se o rótulo correspondia ao conteúdo; os seres invisíveis estariam ali, presumidamente, para "distrair" aquela companhia e mostrar truques do além.
Por exemplo, considerava-se bem natural que "Copérnico" se manifestasse movendo cadeiras ou trouxesse, para a mesa, batata podre; que o suposto "Lamartine" ou o próprio "Pushkin"* recitasse poesias tolas, fazendo corar de vergonha, pela incoerência, até os nossos simbolistas decadentes, futuristas e tal...
Nessas reuniões vulgares de pessoas ociosas se esquece uma observação justa mas cáustica de Kardec**:
"Experimentem invocar um rochedo e ele lhes responderá" e, desta forma recebem, sob a máscara de grandes personalidades ou santos, até os espíritos inferiores.
Mas voltarei ao caso trágico que custou ávida de meu amigo.
Konstantin Aleksándrovitch tinha um filho constantemente doente, ainda que na infância fosse forte, sadio e robusto externamente.
A doença do jovem, entretanto, tinha um fundo oculto.
Ele era obsidiado por um espírito impuro que o atormentava, ou melhor, lentamente o destruía.
É óbvio que a obsessão se enraizara desde a existência passada do jovem e os elos, a nós ignotos, uniam o obsidiado com o obsessor.
O começo dessa história confirmou a minha convicção.
O jovem encontrou, certa vez no bolso do colete, a fotografia de uma mulher nua, a ele desconhecida, e a partir do dia daquele achado começou a obsessão.
A mulher começou a aparecer-lhe em sonho e atirava-se sobre ele, causando a sensação de sugar-lhe o sangue.
Ele perdia a consciência e, ao acordar, sempre se sentia alquebrado.
Por vezes, o vampiro ameaçava-o ou dele zombava.
Os médicos - como não podia deixar de ser - afirmaram que o jovem sofria de neurastenia e alucinações.
Está claro que nenhum remédio surtia efeito, e eis que Konstantin Aleksándrovitch veio ter comigo para se aconselhar.
Naquele tempo eu dispunha de uma boa vidente - a minha sobrinha.
Eu a fiz adormecer e ela revelou que o jovem era uma vítima de forte obsessão, mas não pôde indicar um meio de cura, pois a questão era muito complexa e, para um desfecho favorável, ela teria de ter conhecimentos especiais e forças ocultas, com as quais não contava.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 12, 2016 7:25 pm

Inutilmente Konstantin Aleksándrovitch insistiu para que ela tentasse uma cura; minha sobrinha recusou-se peremptoriamente e ele saiu aborrecido.
Isso foi na primavera e, no verão, todos viajaram e eu não mais tive notícias do meu amigo.
Tendo passado como hóspede o outono e a metade do inverno na casa do meu irmão no Cáucaso, somente perto do Natal retornei a Petersburgo.
Nas festas, Konstantin Aleksándrovitch passou em casa e, todo radiante, anunciou que o seu filho estava curado.
— Verificou-se que tudo eram tolices e sua vidente simplesmente não queria me ajudar e fez da mosca um elefante.
Fiquei surpreso.
A meu pedido, ele contou ter passado o verão em sua propriedade e lá, como de hábito, "organizava sessões espíritas", encontrando na pessoa de uma simpática dama, sua vizinha, uma médium ímpar.
— Através de seus lábios falava o próprio Nostradamus e eu, é claro, aproveitei a oportunidade para perguntar ao alquimista sobre a doença do filho e meios de curá-lo da obsessão, caso esta existisse de facto.
— Não há nada mais fácil - respondeu o bravo Nostradamus.
- Pegue a foto dessa miserável do além-túmulo, faça certas manipulações mágicas - e ele prescreveu uma defumação e algo mais, o que exactamente eu agora esqueci - e, depois, com um canivete corte o pescoço dessa mocinha e jogue a foto no fogo.
O jovem, evidentemente, não deveria saber de nada.
Entusiasmado com essa experiência, Konstantin Aleksándrovitch executou exactamente, no mesmo dia, as prescrições do suposto Nostradamus.
— Imagine! - dizia ele - meu filho revelou-me hoje de manhã ter visto em sonho aquela mulher.
Ela parecia uma Fúria* e em seu pescoço havia um profundo ferimento, do qual jorrava sangue em torrente.
Tudo isso produziu no jovem uma forte impressão, e ele começou a procurar por todo o lugar a fotografia que, evidentemente, não achou.
— Desde então ele está bem de saúde e não mais viu o monstro - concluiu em tom satisfeito o meu amigo.
Reconheço, eu fiquei desapontado.
— Teria - pensei - a minha sobrinha simplesmente se feito de rogada?
Ou ela se equivocou?
Decidimos inquiri-la de imediato.
— O senhor cometeu um erro imperdoável ao mexer com forças que não compreende - censurou ela -, e corre um grande perigo.
Tome cuidado para não pagar com o próprio pescoço pela imprudente "cirurgia" da larva.
Essas palavras fizeram-me reflectir.
À medida que o meu amigo falava, percebi ele estar rouco, e perguntei-lhe do motivo.
— Devo ter-me resfriado.
Já há algumas semanas estou com esta rouquidão.
Tenho de me cuidar, pois começo a ficar irritado por crocitar feito um corvo - queixou-se ele com certa displicência.
Quando o reencontrei, ele confiou-me ter o seu médico achado um tumor na garganta e sugerido uma operação.
Seu aspecto não era dos melhores, estava abalado e perdida uma parte substancial de sua presunção.
Pediu-me para se aconselhar com a vidente.
Atendi ao seu desejo.
Minha sobrinha o recebeu e, depois de algum tempo calada, pronunciou-se:
— Aconteceu o previsto.
Agora ouça o seguinte:
sob nenhuma hipótese faça a operação.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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