Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 17, 2016 8:22 pm

Como em nada acredita, deixe-a viver nessa ignorância.
Para que lhe constranger a paz?
É mulher boa, fez muito por você e a ama sinceramente e, portanto, devemos ser gratos a ela; sua mente limitada seria incapaz, de qualquer forma, de alcançar algo na ciência oculta ou sequer me entender.
Agora pegue este frasco! - prosseguiu Krassinsky, estendendo à filha um vidro oblongo escuro com tampo metálico que, retirado, revelou a existência de uma lâmina redonda perfurada tal qual de um saleiro.
— Toda vez que você precisar vir para cá, borrife o conteúdo deste frasco sobre o tapete no quarto de Ekaterina Aleksándrovna.
Essa essência tem efeito sonífero, mas é inofensiva para a saúde.
Dormindo, não irá perturbá-la com perguntas indiscretas, devido às suas ausências nocturnas:
da meia-noite até o primeiro canto de galos.
— Até o primeiro canto de galos? - repetiu meditativa Mila.
Coisas de um bruxo... - e ela ergueu os olhos para Krassinsky.
— Justamente. Um pouco bruxo, um pouco feiticeiro - revidou este com sorriso zombeteiro e piscando o olho.
— E é verdade que os bruxos frequentam os sabás?
Deve ser muito divertido.
— É verdade.
Você gostaria de ir a uma reunião?
— Muito, se for possível.
— Seu desejo é viável e apraz-me esse seu interesse.
Siga meus conselhos e tudo correrá bem.
Vou lhe ensinar bastante coisa, e mais tarde a apresentarei ao nosso líder.
Sua carreira estará assegurada, assim que você fizer o juramento.
Neste instante, ouviu-se o tilintar trémulo de um sino.
Krassinsky saltou da poltrona e projectou a mão sobre o rosto de Mila.
Ela sentiu-se atordoada, semi-inconsciente, ouviu as determinações do pai, levantou-se e feito sombra atravessou o corredor em direcção aos quartos de cima da casa.
Krassinsky acendeu apressado uma lanterna e saiu.
Ele sabia que aquele tilintar anunciava a vinda de alguém da irmandade, talvez em busca de abrigo ou para tratar de negócios.
Rapidamente cruzou a ala antiga do subterrâneo com as celas e a sala de suplícios e, ao alcançar o salão do tribunal, apertou uma mola, abrindo uma porta oculta num nicho.
Por longo e estreito corredor ele chegou à antiga câmara mortuária do monastério, onde ficavam os monumentos e as placas pétreas em bronze.
Atrás do mausoléu de um abade, em tamanho natural, Krassinsky abriu mais uma porta secreta, subiu a escada e levantou a janela de vigia.
Ao luar divisam-se as ruínas da velha igreja; a um passo, dois vultos aguardavam em capas pretas.
— Lúcifer - sussurrou Krassinsky.
— Cérber - responderam os forasteiros a palavra da senha.
Após apertarem a mão de Krassinsky, os três desceram; aporta se fechou e o anfitrião conduziu os visitantes à sua morada subterrânea.
Era de se supor a distinção daqueles irmãos ilustres, a julgar pela deferência a eles dispensada por Krassinsky.
— Não teria você, irmão Akham, algo para matar a fome? -perguntou um dos visitantes.
— Sem dúvida, irmão Uriel, mandarei servir o jantar imediatamente.
Ele fez soar uma placa metálica e de pronto um anão mirrado apresentou-se solícito.
Enquanto as visitas se acomodavam, conversando à meia voz, Krassinsky aproximou a mesa, cobriu-a com toalha e colocou duas garrafas de vinho - muito velho, por sinal, considerada a espessa camada de borra no fundo - e três taças de ouro com gravação de ceptro e mitra, aparentemente um espólio da abadia.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 17, 2016 8:22 pm

Krassinsky, ou o irmão Akham, como o denominavam as visitas, já concluía seu preparativos, quando adentrou o anão com grande cesto.
Dispôs os pratos, facas e garfos e serviu à mesa:
carne fria, ovos, legumes e geleia.
Não demorou muito para ali restarem os pratos vazios, retirados em seguida pelo anão.
Satisfeitos, os três ficaram a bebericar o vinho espesso feito mel.
— Agora, irmão - disse aquele que Krassinsky chamou de Uriel -, ouça só o motivo de nossa visita!
Viemos recorrer aos seus conhecimentos e ajuda.
— Como sabem, estou sempre à disposição de vocês.
— A irmandade sofreu uma grande perda:
morreu Baalberit - lamentou-se Uriel, suspirando.
Krassinsky levantou-se de sobressalto.
— Ele... morreu?..
Será possível?
Um homem de tantos saberes, um poderoso feiticeiro e evocador incomparável?
Não posso entender!
Não está nisso envolvido o maldito Johannes?
— Não, desta vez aquele patife não tem nada com isso.
O nosso desafortunado irmão foi vítima da própria imprudência.
Eis como aconteceu - prosseguiu Uriel.
Como você bem o sabe, Baalberit era famoso por sua beleza satânica - por assim se dizer - e gostava de seduzir mocinhas inocentes, que depois atraía à comunidade.
Bem, uma dessas raparigas verificou-se mais forte e o matou.
— Está brincando, Uriel! - não se conteve Krassinsky, incrédulo.
— Infelizmente não estou brincando.
A jovem era muito bonita e o irmão se apaixonou loucamente por ela.
É idiotice, mas acontece; ela era do tipo não-me-toques - o que incendiou ainda mais sua paixão.
Mas, o pior:
a moça era sobrinha de um velho monge mediúnico e, exercendo forte influência sobre ela, tornou-a uma religiosa fanática.
Tão logo ele percebeu com quem a sobrinha estava se relacionando, exigiu que ela rompesse com aquele feiticeiro e servidor do inferno.
Porém a moça também lhe nutria paixão louca e.... engendrou um plano audacioso de... salvar a alma do amado...
— Iniciou-se uma batalha cruenta:
Baalberit a arrastava para o inferno; ela - para os Céus.
Cego de paixão, o nosso irmão não imaginava o que amadurecia naquela alma fanática, ou seja, antes ela o veria morto, mas arrancado do diabo.
E, diga-se de passagem, escolheu uma arma terrífica:
um punhal previamente mergulhado em água benta.
— Depois de atrair Baalberit a uma casa afastada nos arredores da cidade, fincou-lhe o punhal no peito.
Ainda que o golpe fosse fraco e o ferimento por si só não fosse mortal, o contacto com a força contrária foi tão terrível que o seu astral, fulminado qual por um raio, precipitou-se fora do corpo físico tão bruscamente, que o fio vital rompeu-se e, arrastando ao espaço o espírito, não conseguiu mais voltar ao invólucro original.
A arma ficou cravada em seu peito por um dia e uma noite e só depois perdeu a força.
Pagamos um alto preço para recuperar o punhal cheio de sangue e conseguimos invocar o falecido na última missa negra.
Precisamos agora arrumar um novo corpo para Baalberit; ele nos é muito importante e não podemos deixá-lo no espaço, onde, aliás, se sente muito mal.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 17, 2016 8:23 pm

— É nesse caso dificílimo, lembramos de você, irmão Akham - manifestou-se o segundo visitante, até então mudo.
Conhecemos seus saberes na arte de avatar.
— Obrigado pela boa lembrança e opinião lisonjeira, irmão Bifru.
É verdade, eu estudei muito este tema e espero ajudar o infeliz Baalberit.
Digam-me de que precisam, afinal das contas?
— Queremos guarnecê-lo de um corpo jovem e forte, a fim de que ele possa suportar o terrífico abalo e, na medida do possível, o doador deve ser uma pessoa rica e bem relacionada na sociedade, para nos ser útil - manifestou-se aquele a quem chamavam de Bifru.
— Os requisitos não são dos mais fáceis...
Preciso pensar - ponderou pensativo Krassinsky.
Mas um minuto depois, ele ergueu os olhos radiante; um sorriso iluminava-lhe o rosto.
— Questão resolvida, meus amigos!
A pessoa, de quem pretendo confiscar o corpo a favor de Baalberit, chama-se conde Bélsky.
É um jovem de vinte e dois anos, forte tal qual touro e detém uma fortuna de pelo menos uns três milhões de rublos, sem contar as propriedades e casas em Kiev e Petersburgo.
Eu tenho uma filha aqui e, com o auxílio dela, a operação será fácil.
Daremos ao nosso irmão uma posição invejável.
— Maravilhoso, agradecemos sinceramente, irmão Akham! - animou-se Uriel.
— E quando podemos executar o plano? - perguntou Bifru.
— Precisaremos de algumas semanas para os preparativos.
Primeiro, devemos afastar para longe a mãe daquele mancebo e, depois, treinar minha filha.
Para a solenidade de seu juramento, podemos organizar um pequeno banquete nocturno nas ruínas.
Espero, amigos, que vocês fiquem no evento.
Como vêem estou bem instalado e aqui vocês poderão descansar e recuperar suas forças em segurança.
— Aceitamos com gratidão o convite.
As andanças pela América nos cansaram muito, some-se a isso todos os problemas com Baalberit - queixou-se Uriel.
— Então está resolvido; vocês são meus hóspedes.
O irmão Bifru parece precisar muito de repouso.
— Estou esgotado e não vejo a hora de retornar ao mundo invisível, mas não consigo achar um substituto - e Bifru suspirou.
_ Sim, a vida tem sido um fardo para mim e eu jamais pensei como seria difícil arrumar meu sucessor.
A partir dessa noite, o subterrâneo viu o início de uma vida diferente.
A noite não cessava o vaivém de pessoas.
Mila, não obstante suas visitas ao pai, não cruzava com mais ninguém.
Krassinsky começou a consagrá-la nos fundamentos do ocultismo e magia, demonstrava-lhe fenómenos variados de pequena importância mas interessantes, excitando a atenção e curiosidade da filha.
Numa ocasião, ela contou ao pai que o seu admirador, conde Bélsky, estava muito abalado com a moléstia da mãe.
A velha duquesa adoecera subitamente, sentia dores no coração e o médico lhe sugeriu passar uns dois ou três meses em Menton.
O conde prontificou-se a acompanhá-la, mas a duquesa, sabendo de sua paixão por Mila, julgou por bem não separar o filho do seu "ídolo" e viajou com sua dama de companhia.
Certa manhã, Mila encontrou na saleta a seguinte mensagem do pai:
"À meia-noite vá à biblioteca, vestindo uma capa, se fizer frio.
Todos estarão dormindo e ninguém a perturbará.
Não se esqueça de espalhar a essência no quarto da senhora Morel."
Curiosa, Mila esperou impaciente pela hora.
Após o almoço, ela cochilou para ficar mais esperta à noite.
Pretextando muito cansaço, recolheu-se mais cedo e cuidou de pulverizar o quarto de Ekaterina Aleksándrovna.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 17, 2016 8:23 pm

Alguns minutos antes da meia-noite, dirigiu-se à biblioteca e ali esperou pelo pai.
Exactamente na hora marcada, a porta no interior da lareira se abriu e avultou-se a figura de Krassinsky com lanterna na mão.
— Ah, você está aqui!
Parabéns pela pontualidade!
Venha rápido comigo!
Ele lhe tomou a mão e a conduziu pela escada e corredores à sala do antigo tribunal.
Para espanto de Mila, lá estavam reunidas cerca de trinta pessoas de ambos os sexos.
Todos trajavam longas capas escuras com capuzes baixados até os olhos.
Uma velha lâmpada a óleo no tecto iluminava o ambiente com luz sanguínea, projectando nas paredes nuas bizarras sombras.
Constrangida, Mila examinou assustada o derredor.
Os presentes formavam um círculo, em cujo centro se encontravam postados três homens em mantos vermelhos e faixas azuis com estrelas bordadas.
Mila observou o seu pai trajando uma malha negra em cima de camisa preta de veludo e de manga curta, da época medieval; no peito, numa corrente metálica, pendia um triângulo vermelho esmaltado, de ponta para baixo.
Um dos presentes estendeu-lhe uma capa púrpura a ser trocada pela preta em que ele viera.
Krassinsky tirou da caixa e colocou no pescoço da filha uma fita azul, da qual também pendia um triângulo vermelho com a ponta para baixo; em seguida, ele a pegou pela mão e a conduziu até uma mulher, cujo rosto era toldado por capuz.
— Fique perto da irmã Demência, pois não tenho tempo de cuidar de você.
Todos os presentes se armaram de tochas acesas e a procissão avançou, liderada por Krassinsky e as três pessoas em mantos vermelhos.
Ao passarem por diversos corredores sinuosos do labirinto subterrâneo e, deixando para trás a câmara mortuária, Krassinsky abriu uma porta oculta atrás da mesa pétrea nas ruínas da pequena capela do fundo do bosque. De lá, uma alameda conduzia à abadia.
Uma camada grossa de folhas secas e galhos crepitava sob os pés, enquanto a luz vermelha e fumacenta das tochas se perdia sob a abóbada impenetrável da densa folhagem dos carvalhos seculares.
Finalmente eles ganharam as ruínas; a procissão ainda prosseguiu abaixo das abóbadas preservadas do monastério.
Nas altas janelas sagitais não havia caixilhos e no interior assobiava o vento, turbilhonando as folhas a cobrirem o chão.
Ao passarem pela igreja abandonada e o cemitério, a procissão volteou o bosque denso, atrás do qual se descortinou um pequeno descampado, em cujo centro à luz fraca do luar de quarto minguante se divisava o dólmen.
Mila caminhava ao lado da acompanhante designada pelo pai.
Os preparativos para a cerimónia nocturna aguçavam-lhe a curiosidade.
Ela notou algumas pessoas destacando-se do grupo com rolos de papiro nas mãos e depositando-os junto ao monumento, enquanto dois outros homens arrastavam pelos chifres um bode preto.
As tochas foram fincadas em círculo no descampado entre as pedras previamente preparadas.
Toda a área e o monumento ficaram iluminados com luz avermelhada.
De um saco, os chefes tiraram uma trípode e um cesto com carvão; colocaram-no na trípode, acenderam-no e depois levaram a peça embaixo do dólmen; os três homens em mantos vermelhos atiraram ervas e pós sobre o carvão aceso e verteram algo sobre as chamas.
Levantou-se uma coluna de fumaça densa; o ar tornou-se acre e desagradável.
— Prostrem-se diante do senhor que os haure de tesouros terrenos, alegrias materiais e de todos os prazeres da vida - retumbou a voz de Krassinsky.
Todos se puseram de joelhos e inclinaram as cabeças rente ao chão; os homens de manto vermelho entoaram um canto estranho, ao mesmo tempo que o sino, acima do dólmen, soou por três vezes.
Então os presentes ergueram-se e tomaram-se às mãos, formando uma corrente em torno do monumento, e secundaram o canto dos homens de manto vermelho, postados no centro do círculo.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 17, 2016 8:23 pm

O coro era poderoso, ainda que pouco harmónico.
Um tremor gélido percorreu o corpo de Mila ao ver o pai degolando o bode preto, cuja parte de sangue se esgotava para uma enorme taça larga, e outra - para uma bacia funda abaixo do dólmen.
— Venham irmãos e irmãs, e compartilhem da taça, cheia do sumo vital.
Este os unirá para sempre um a outro - pronunciou em voz alta Krassinsky, erguendo a taça.
Sucedendo um ao outro, cada um se aproximou e tomou o sangue quente.
A corrente tornou a se cerrar em volta do dólmen e, então, iniciou-se uma tresloucada dança de roda, acompanhada por gritos e pulos selvagens.
Mila tomou o sangue como todos; o barulho, o canto e o ambiente místico deixaram-na embriagada.
Ela não conseguia despregar os olhos da figura de Bafamet, sentado de cócoras no dólmen, cujos olhos pareciam vivos; dos lábios semi-abertos do demónio brilhavam dentes brancos e afiados.
A dança geral terminou pelos beijos mútuos dos presentes, após o que se iniciou uma nova cerimónia.
Foi trazida uma outra trípode de tamanho menor, sendo posta diante do dólmen e, quando nela foi aceso o carvão com as ervas aromáticas, Uriel, Bifru e Krassinsky se colocaram nos três lados da trípode fumegante, formando um triângulo.
Então a irmã Demência pegou a mão de Mila, pálida e constrangida, e a levou até os homens de manto vermelho.
— Esta jovem é minha filha - pronunciou Krassinsky.
Ela deseja ingressar na confraria, já reverenciou o nosso senhor e agora fará o juramento.
Ainda que não seja digna da "grande iniciação", servirá à irmandade à medida de suas forças e, zelosamente, se utilizará daqueles meios que nós deixaremos à sua disposição.
E agora, minha filha, repita comigo:
— Juro servir à irmandade com diligência e humildade e ajudar, na medida de minhas forças, todos os meus irmãos e irmãs em Lúcifer.
Tal qual electrizada pelo cheiro vindo da trípode e a bafejar-lhe o rosto, Mila pronunciou o juramento em voz decidida.
— Muito bem! - aprovou Uriel.
A irmandade a aceita em seu seio.
A partir de agora o seu nome será Lilita e constará na relação da Ordem.
E agora, irmã Lilita, coloque suas mãos nas nossas.
E eles sustentaram as mãos sobre a trípode formando um triângulo, com as palmas para cima.
Mal Mila depositou as mãos nas deles, um grito reprimido soltou-se-lhe do peito; ela sentiu como se suas mãos tivessem tocado ferro em brasa, mas a dor passou tão rápido como a atingira.
— Você recebeu o selo da Ordem - prosseguiu Bifru - e a confraria, em troca da fidelidade e obediência, doar-lhe-á riqueza, prazeres, amor cego de todos os homens que desejar e uma vida repleta de alegrias e vantagens sobre outras mulheres.
Seu pai lhe será o mestre e educador.
Ao término da cerimónia, todos retornaram à velha abadia destruída, levando consigo as trípodes e a bacia com sangue.
A igreja semi-destruída iluminou-se pelas chamas das tochas.
A mesa pétrea foi coberta por uma toalha carmesim com sinais cabalísticos pretos bordados; a estátua de Bafamet e o castiçal de sete braços com velas negras foram postos sobre a mesa, sobre a qual se colocou também o velho livro, encadernado em couro.
A todos os presentes foram distribuídas velas negras e nas trípodes tornaram a fumegar os incensos entorpecentes.
A bacia foi colocada diante da mesa, as trípodes foram acesas e todos se agruparam em volta. Então Bifru galgou os degraus e, virando-se para os presentes, disse em voz sonora:
— Amigos, um de nossos irmãos foi arrancado de seu invólucro terreno em consequência de uma traição torpe.
Sua alma valorosa, ávida por actividade, está sofrendo e, ao nos chamar, exige ajuda.
E de nossa responsabilidade invocá-lo e prestar-lhe o consolo devido.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 18, 2016 7:25 pm

Faremos os nossos rituais e depois o irmão Akham iniciará a invocação.
Dois homens trouxeram as vestimentas sacerdotais e a mitra, que foram colocadas em Bifru; foi lhe dado o bastão e os dois se postaram perto.
Pela grossura do brocado, urdido a fios de ouro, era possível inferir de sua antiguidade e de que essas pertenciam à sacristia do mosteiro.
Iniciou-se a solenidade.
Era algo a lembrar uma missa fúnebre.
O canto selvagem e monótono acompanhava o ritual e até a própria natureza parecia secundar o coro desafinado.
Levantou-se um forte vento vergando as árvores, cujas rajadas glaciais turbilhonavam sob as abóbadas; ao longe retumbavam trovões, e os relâmpagos em ziguezagues ígneos rasgavam o ar.
Enquanto a tempestade enfurecia, Krassinsky postou-se diante da bacia com sangue, degolou três galos pretos e o mesmo número de morcegos e fez vazar o sangue na bacia.
Ato contínuo, ele tirou da cinta o punhal manchado de sangue e com ele desenhou um círculo no ar.
— E com o seu próprio sangue que eu desenho este círculo mágico e o esconjuro a aparecer entre nós. Baalberit!
Baalberit! Baalberit! - bradou ele em voz ríspida que cobriu o som do canto.
E então ele reverenciou os quatro pontos cardeais.
— Auxiliem, espíritos elementares, e sejam benevolentes connosco e com o espírito que aqui quer se apresentar.
Permitam-lhe ficar visível e expressar seu desejo. Fogo, água, terra e ar, prestem este serviço a nossos senhores!
Espíritos das forças da natureza, tragam e ajudem o espírito de Baalberit!
Acrescidas mais algumas esconjurações, ele se inclinou e cravou o punhal na terra.
No mesmo instante, do solo nos limites do círculo ígneo brotaram figuras nebulosas:
vermelhas, cinza, azuladas e esverdeadas, pondo-se essas falanges nevoentas a dançarem ao derredor da bacia, ora se agrupando, ora se alçando em espiral.
E, então, acima do vaso assomou-se uma nuvem preta, salpicada de faíscas, que turbilhonou por algum tempo como açoitada por vento e dela veio a se destacar uma figura viva de homem, indubitavelmente belo, em cujo rosto cadavérico parecia ter se congelado uma expressão de terror, conquanto seu olhar embaçado vagasse errante.
Ele estava nu e, no local do plexo solar, via-se um ferimento.
— Dêem-me um corpo vivo, devolvam-me o poder de gozar a vida.
Vocês me devem isso pelo que já servi à irmandade, e nada mais pedirei.
Eu quero viver, não suporto sofrer mais, sufocado nessa atmosfera que me comprime e calcina - ciciou ele em voz surda.
— Sua vontade será atendida.
Acalme-se e conte connosco! - assegurou Krassinsky.
A visão se derreteu e tudo se desanuviou.
Os objectos foram desmontados e escondidos.
Todos se dirigiram à parte do subterrâneo onde antigamente se localizava a loja maçónica; no refeitório, um banquete aguardava por eles.
As mesas luziam de prata e cristais entre a profusão de tortas salgadas, pratos frios de carne e peixe, frutas, bombons e verdadeiras baterias de vinhos envelhecidos em garrafas musguentas.
Mila parecia tal qual num sonho.
Tudo nela se enfrentava:
de um lado - assaltava o medo do futuro; de outro - a expectativa de ver satisfeitos os seus anseios.
Mas, provavelmente, não era de interesse ser ela consagrada em todos os mistérios da irmandade, visto durante o jantar ela ter repentinamente adormecido.
Teria sido o efeito do vinho e do cansaço, ou uma consequência da vontade de Krassinsky, mas seus olhos se fecharam.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 18, 2016 7:25 pm

Feito um autómato, ela adentrou o seu quarto, deixando de assistir a orgia selvagem em que culminou aquele banquete...
Uns dez ou doze dias se passaram desde a reunião satânica descrita no capítulo anterior e, na casa da ilha, nada de especial sucedeu.
Quase todas as noites Mila se encontrava com o pai e passava com ele cerca de duas horas no subterrâneo, mais e mais se impregnando de convicções e ideias de Krassinsky, cuja influência sobre ela era quase ilimitada.
O jovem conde Bélsky visitava-a amiúde, sempre lhe trazendo flores e bombons.
Sua paixão por Mila chegou ao apogeu.
O jovem andava desconsolado com as cartas da mãe e não conseguia explicar - o que comentou até com Ekaterina Aleksándrovna - como ela, uma mulher até então com saúde perfeita, tinha problemas cardíacos.
Caso não viessem logo notícias animadoras, ele viajaria até lá.
Naquela mesma noite, Krassinsky disse a Mila:
— Bélsky virá para cá depois de amanhã e, nesse dia, uma forte tempestade impedirá sua volta para casa e irá pernoitar aqui.
— Como sabe, papai, que o conde vem nesse dia, se ele mesmo me disse esperá-lo daqui a três dias?
E como tem certeza de que haverá uma tempestade? - surpreendeu-se Mila.
Krassinsky sorriu.
— Que astrólogo eu seria se não previsse coisas tão banais?!
Bem, a questão é outra.
Diga-me: você ama o conde?
— Não, nem um pouco.
Amo Massalítinov e daria tudo pelo amor dele.
Mas por que está falando do conde? - alvoroçou-se Mila.
— Fique tranquila, sua tolinha!
O que eu digo é tão certo como depois da noite sucede o dia.
Massalítinov cairá de amor por você, você se casará com ele e será feliz.
Disso nem se fala; só queria saber se você nutre pelo conde algum sentimento de afeição e não irá lamentar se algo desagradável lhe acontecer.
— Não, absolutamente.
Ele me é indiferente e não me importo se algo lhe acontecer.
— Muito bem, minha criança.
Então nada impedirá a realização da magia pretendida.
Agora ouça atentamente as minhas instruções.
Amanhã não nos veremos, pois estarei em outro lugar; mas, depois de amanhã, borrife o sonífero no quarto de Ekaterina Aleksándrovna e dos criados; a casa inteira deverá estar dormindo um sono pesado - e Krassinsky sorriu significativo.
Krassinsky foi ao quarto contíguo e trouxe de lá uma caixa da qual tirou um pacote.
— Está vendo este penhoar rendado?
Use-o depois de amanhã à noite, mas antes esfregue o corpo com a essência do frasco que está no fundo da caixa.
Depois vá à biblioteca e bata três vezes na placa dentro da lareira.
Será a senha de que você está pronta e espera por mim.
Uma última instrução:
quando o conde chegar, seja especialmente gentil com ele e faça-o acreditar que você o ama.
Entendeu-me bem?
— Eu entendi, papai, o que você quer de mim e seguirei exactamente as suas ordens - assegurou Mila, despedindo-se.
E chegou aquele dia: o calor sufocante parecia de julho, não de meados de setembro.
Perto das quatro horas, acostou o barco com o conde e Mila recebeu o jovem com carinho e alegria inusitados.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 18, 2016 7:25 pm

O tempo passou rápido, os jovens passearam de barco e jogaram ténis.
Jamais Mila prodigalizara tanta amabilidade como naquele dia, respondendo singelamente aos flertes do jovem conde.
Almoçaram no terraço e, quando já terminavam o café, súbito a senhora Morel ergueu a cabeça e observou preocupada:
— Essas nuvens negras não prenunciam coisa boa!
—Talvez tenhamos uma tempestade, pois o dia foi excepcionalmente quente hoje - disse Bélsky, esquadrinhando o céu.
As nuvens plúmbeas iam embrulhando o firmamento, a água no lago escureceu e borbulhava sinistra.
Desde aquela memorável tempestade, quando Vyatcheslav quase se afogou e sua salvação custou a vida de Krassinsky, a antiga Kátya Tutenberg pegou ódio dos temporais e ali, na ilha, assustava-a em particular.
— Vamos para casa - sugeriu ela, erguendo-se preocupada.
Mandarei acender as luzes e baixar as cortinas.
Mal eles se acomodaram na sala, rolaram os primeiros trovões e imediatamente se desencadeou uma tempestade furiosa.
O vento zunia e uivava, as árvores se vergavam e estalavam, os trovões sacudiam a casa até os alicerces e o lago enegreceu totalmente e parecia ferver, erguendo vagalhões altos a se quebrarem aos estrondos na praia, inundando-a por longa extensão.
Apesar das cortinas baixadas, a luz da lâmpada ficava empalidecida diante dos relâmpagos, ziguezagueando fora.
— O senhor terá de aproveitar a nossa hospitalidade, Adam Vitoldovitch e pernoitar na ilha.
Viajar nesse tempo é simplesmente impossível - observou Ekaterina Aleksándrovna.
O conde fez menção de protestar, dizendo não querer causar-lhes incómodo, argumentando que a tempestade não iria durar a noite inteira e que na casa dos Zamyátin, no outro lado, havia gente por ele esperando; contudo, diante das súplicas de Mila, aparentando sincera preocupação com sua segurança, ele se rendeu.
O temporal, entrementes, não dava trégua e quando, por fim, amainaram os relâmpagos e os trovões, iniciou-se uma chuva torrencial.
Ekaterina Aleksándrovna chamou a camareira e ambas saíram para fazer a cama do hóspede, que iria dormir no sofá, no antigo gabinete de Vyatcheslav.
Mila aproveitou o momento e percorreu os quartos da senhora Morel e dos criados para borrifar a essência com leve e agradável cheiro de lírio-do-vale.
Todos se separaram cedo, logo após o chá, pois o tempo permanecia péssimo e as anfitriãs e o hóspede sentiam-se exaustos.
Depois das onze, toda a casa dormia um sono mortal, menos Mila que iniciou sua toalete.
O penhoar de antigas rendas principescas de Bruxelas era de crepe macio e leve, do qual recendia forte cheiro de rosas.
Após esfregar o corpo com a essência de um frasco chato encontrado no fundo da caixa, Mila vestiu a provocante peça rendada e mirou-se no espelho.
A veste macia envolvia graciosamente sua figura esbelta; o corpete aberto e as mangas longas e largas deixavam entrever o colo de brancura de madrepérola e os braços.
Ao soltar seus cabelos, que se espalharam em massa ondeante sobre os ombros, ela não pôde se conter de admiração:
— Meu Deus, como estou bela! - murmurou, suspendendo a cabeleira sedosa com fita preta.
Se Michel me visse assim! - e uma chama maliciosa brilhou em seus olhos esverdeados.
Neste ínterim, o pequeno relógio sobre o toucador bateu onze e quarenta e cinco e era necessário se apressar.
Ela pegou uma vela acesa diante do espelho, apagou as outras e saiu correndo pelo corredor que levava à biblioteca.
A vela na mão iluminava tenuemente o caminho comprido e escuro.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 18, 2016 7:25 pm

Lá fora, a tempestade parecia aumentar, conquanto no interior da casa coisas sinistras também se verificassem.
As paredes crepitavam e nos velhos entalhes de madeira ouviam-se batidas surdas.
Um terror angustiante se apossou de Mila e ela apressou os passos.
A porta da biblioteca se abriu ruidosamente e no umbral surgiu Krassinsky.
Mila recuou e se recostou à parede.
— Pai - gritou -, não vou fazer o que me pede.
Não quero, não quero...
Deixe-me sair daqui!...
Uma gargalhada sonora veio-lhe em resposta.
— Tola! Esqueceu do juramento à irmandade?
Você não tem outro querer, excepto o da Ordem, e eu a esmagarei feito verme, se ousar opor-se a mim.
Sua mão pousou sobre a cabeça da jovem, fazendo-a se arquear sob seu peso.
Num átimo, ela se endireitou, olhos esbugalhados e olhar parado.
— Vá até o balcão envidraçado; ele está lá.
Mostre-se meiga e apaixonada, aceite os beijos dele e deixe-se levar ao seu quarto - ordenou Krassinsky com sua voz metálica, destacando cada palavra e dando-lhe de cheirar uma essência do frasco, tirado do bolso.
— Agora acorde e faça o que mandei.
Um tremor nervoso percorreu o corpo de Mila.
Ela abriu os olhos e fitou o pai com olhar surpreso e vago; aparentemente ela não se lembrava do sucedido antes.
— Eu o fiz esperar? - perguntou.
— Não, não!
Vá tomar um pouco de ar fresco, a tempestade diminuiu.
Mila virou-se e caminhou ao terraço. Postado em pé, o jovem conde contemplava meditativo através das vidraças as ondas tempestuosas e espumadas do lago.
O farfalhar do vestido fê-lo se virar.
— Ludmila Vyatcheslávovna? - surpreendeu-se ele.
Não consegue dormir ou está com medo da tempestade?
A senhora está gelada - acrescentou ele, tomando-lhe a mão e levando aos lábios.
— Estou sozinha; todos dormem.
Estava muito abafado e vim tomar ar fresco no terraço - explicou em voz baixa.
— Eu entendo. A noite está pavorosa - observou o conde.
Apesar de eu ser uma pessoa calma e sem superstições, não me lembro de estar tão perturbado como hoje.
Não consegui ler por causa do vento uivando na lareira, sombras escuras pairavam no meu quarto.
Vim para cá, pois não aguentava mais ficar sozinho naquele gabinete assustador.
Não esperava por esta felicidade de encontrá-la aqui.
Por alguns instantes ambos ficaram calados.
À luz fraca da vela, o conde parecia devorar com os olhos aquela visão celeste, jamais apresentada tão bela.
O aroma dela exalado o entorpecia e o coração estava prestes a explodir do intenso palpitar e do sangue afluído em torrente ígnea; o olhar que lhe interceptou, fez tontear sua cabeça.
Mila, apesar de estar visivelmente acanhada, não resistiu quando o conde lhe cingiu o corpo e a atraiu a si, sussurrando em voz trémula de paixão:
— Mila!... Eu a amo loucamente e deposito aos seus pés o meu coração e a vida...
Diga, minha adorada, você aceita o meu amor?
Darei tudo no mundo só para ouvir uma palavra de esperança... uma resposta positiva.
A jovem ergueu a cabeça e fitou-o.
Sua tez permanecia lívida, só os lábios avermelharam-se, adquirindo um matiz sanguíneo; os olhos largamente abertos pousaram no conde seu olhar fosfórico, enigmático.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 18, 2016 7:25 pm

Ela cingiu-lhe o pescoço e murmurou:
— Eu o amo - e grudou os lábios aos dele.
Extasiado, o conde pôs-se a cobrir o rosto, o pescoço e o colo com beijos loucos e, cada vez mais ébrio de paixão, rasgou seu penhoar rendado e a camisola.
Ele sentia-se invadido por felicidade indescritível e, simultaneamente, por uma fraqueza incompreensível, acompanhada de transpiração abundante.
Cada beijo dela o esgotava tanto, quanto o faria uma série de relações sexuais com uma mulher fogosa.
Ambos nem notaram a intensificação da tempestade.
Os trovões retumbaram com nova força, iniciou-se chuva de granizo e, de fortes rajadas do vento enfurecido, os caixilhos das janelas estremeceram, os vidros se espatifaram aos pedacinhos, o terraço foi invadido por torrentes de água e granizo; o penhoar rasgado e a camisola leve de Mila deslizaram aos pés dela.
Quase fora de si, o conde ergueu a jovem nua e levou-a ao quarto. Em meio à forte excitação, ele a deitou no sofá, mas, do peso plúmbeo que se apoderara de seu corpo, deixou-se cair qual ébrio no sofá, ao lado dela.
E novamente, os braços esguios pálidos cingiram-lhe o pescoço, e os lábios púrpuros premeram-se aos seus feito ferro a ímã.
Nessa hora, ainda que ele quisesse, não teria forças de desenvencilhar-se da criatura funesta e sedutora, cujos beijos parecia sugarem-lhe a vida.
Seus esforços débeis de romper as peias mágicas que o aprisionavam foram inúteis.
De súbito, sua vista turvou-se, tudo turbilhonou, a cabeça pendeu para trás e os olhos se fecharam.
Mila parecia nada perceber.
Inteiramente embevecida pela respiração vivifica e correntes cálidas que se espalharam em suas veias, ela prosseguia o seu acto homicida de sugar até a última gota de vida do infeliz.
Nisso, no limiar da porta oculta sob o drapejado assomou-se Krassinsky com uma bacia cheia de substância escura soltando vapor, que foi colocada no centro do quarto.
Feito sombra, ele esgueirou-se no corredor e retornou com o livro dos esconjuros, a trípode e o castiçal de sete braços com velas negras.
Estava de malha negra e sua cabeça envolta em gorro; à cintura trazia uma espada e do pescoço pendia um triângulo na corrente metálica.
Tirando a espada, em cuja lâmina se viam sinais cabalísticos, desenhou com ela um círculo mágico, inserindo no mesmo a bacia com sangue e a mesa com o castiçal.
Após reverenciar os quatro pontos cardeais, ele pôs-se a entoar um canto em tom cadenciado, girando a espada sobre a cabeça.
A tempestade parecia cada vez mais furiosa.
Então, na ponta da espada mágica do evocador esbraseou-se chama esverdeada, vindo a se desprender do fio e projectar-se para o alto, acendendo todas as sete velas, o carvão e as ervas da trípode.
O ambiente ficou repleto de fumaça e odor entorpecente.
— Espíritos da natureza - instou ele -, saúdo e conclamo-os para me ajudar!
Formem o círculo intransponível das forças cósmicas do caos, impedindo qualquer penetração de luz do lado das forças hostis.
Ajudem-me, sustem-me na realização deste acto da magia superior, que propiciará ao espírito útil e merecedor um novo instrumento para a sua actividade.
Baalberit! Baalberit! Baalberit!
Venha ao meu chamado!
Pálido, olhos incendidos, Krassinsky leu as fórmulas da feitiçaria do livro e mergulhou a espada mágica no líquido quente.
Um estrondo sacudiu as paredes, e da bacia com sangue avolumou-se uma criatura humana de beleza horripilante.
Era a mesma pessoa que fora invocada durante a cerimónia nocturna da última reunião.
Seu corpo tremia e se agitava como fustigado por vento; era visível que aquele vulto aparentemente compacto era apenas uma massa mole e gelatinosa.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 18, 2016 7:26 pm

Krassinsky enxugou o suor da testa.
— Logo você poderá tomar posse de sua nova "residência".
Só preciso agora acabar com o seu anterior inquilino.
Deixando o círculo, ele se aproximou do sofá com o conde deitado, de cabeça pensa no encosto e com a boca ainda presa aos lábios de Mila, cujo corpo nu era envolto por denso retículo fosfórico.
E, pronunciado outra vez um esconjuro tonitruante, Krassinsky desenhou sobre ela um sinal cabalístico.
Mila de imediato se endireitou e afastou-se do sofá; seu rosto estava vermelho tirante a azul e os olhos vagavam.
O retículo luminoso que a envolvia deslizou e serpenteou para o alto e, feito uma névoa avermelhada, pairou sobre o corpo do jovem Bélsky, unindo-se a ele com um fio ígneo.
Proferindo um novo esconjuro, Krassinsky cortou com o golpe do punhal aquele elo ígneo; este se enrodilhou e misturou-se com a nuvem púrpura.
No mesmo instante, ouviu-se o rouco estertor do moribundo; uma massa límpida avermelhada foi-se densificando rapidamente e, entre Mila e o corpo inerte, em cujo plexo solar se divisava um ferimento aberto, levantou-se o espectro do corpo astral de Bélsky.
Seus olhos expressavam um terror tresloucado, o rosto era transfigurado por sofrimento indescritível e o olhar, pregado em Mila, parecia censurá-la.
De repente, uma rajada de vento vinda do espaço capturou o espectro, arrastando-o já deslustrado para cima.
Então teve início o último acto.
Atraído feito ímã, o espectro de Baalberit movimentou-se até o corpo de Bélsky; a massa gelatinosa comprimiu-se e deslizou para dentro da boca aberta do corpo ainda quente, nele desaparecendo, enquanto Krassinsky lia os esconjuros do livro.
Em meio às convulsões selvagens, o corpo de Bélsky rolou do sofá para o chão e da boca verteu-se uma saliva escura, misturada com espuma esverdeada.
Krassinsky pegou o lençol vermelho com sinais cabalísticos, cobriu o corpo e o borrifou com essência aromática e tonificante.
Mila parecia petrificada.
Seu coração batia disparado, a cabeça pesava, a alma estava oprimida por sentimento angustioso - misto de medo, asco e arrependimento.
Ela ainda estava no limiar do cruel e pecaminoso caminho obrigada a trilhar.
Dominada por tremor gélido, ela deu as costas e partiu em carreira para o seu quarto.
Krassinsky a acompanhou com um olhar de zombie.
Após trancar a porta do gabinete à chave, ele levou a bacia e os demais materiais por caminho secreto e, depois, trouxe outros objectos, colocando-os junto ao corpo.
Suas convulsões haviam diminuído e, retirando o lençol, ele olhou para o homem que simplesmente parecia desfalecido ou dormia um sono profundo.
Krassinsky o despiu por completo, esfregou-lhe o corpo com unguento de odor forte de fósforo e abriu a caixa contendo um aparelho, aplicando uma corrente eléctrica no local do plexo solar e depois na cabeça.
Um quarto de hora mais tarde, os olhos daquele homem adormecido se abriram, sondaram com o olhar embaciado e imoto o ambiente e cerraram-se de novo.
Krassinsky pôs-se a aplicar-lhe sucessivas batidas no corpo, até que um fraco gemido anunciou-lhe que o novo astral reconheceu o seu novo invólucro carnal.
Feitas mais algumas aplicações eléctricas, o novo Bélsky adormeceu um sono profundo e reparador.
Krassinsky o vestiu, ergueu-o com uma força difícil de ser nele imaginada, e transportou-o para o leito arrumado.
Após abrir a janela para dissipar do quarto o desagradável odor, ele olhou para o relógio.
— Duas horas; às seis estou de volta - balbuciou, cobrindo com zelo o homem deitado.
A tempestade tinha ido embora, apenas caía uma chuva fina; o ar estava quente e húmido.
Quando o relógio bateu seis horas, a porta secreta tornou a se abrir.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 18, 2016 7:26 pm

Era Krassinsky, trazendo num fundo prato de porcelana pelo menos dois litros de sangue morno.
Bélsky ainda dormia.
Acordado por sacudidelas, ele se ergueu estremecido.
— Bom dia, meu querido conde Bélsky!
Como está se sentindo?
Antes de mais nada, tome esta pequena porção de sumo vital - disse em tom meio debochado.
O novo conde agarrou o prato, avidamente lhe sorveu o conteúdo e depois tomou o líquido aromático e denso feito mel do frasco que lhe estendera Krassinsky.
Levantando-se, ele se espreguiçou, deu uma volta pelo quarto e fechou a janela.
— Bem! Até aqui tudo em ordem.
O novo "traje", ainda que não me caia bem, é bem melhor que eu imaginava - comentou em voz surda.
— Logo você se acostumará. Lembra de tudo? - interessou-se Krassinsky.
— Sim, do meu próprio passado, sim; agora, a vida daquele infelizmente, está obscura para mim.
— Bem, aqui você tem o caderno com a biografia detalhada do falecido conde Adam.
Servir-lhe-á de fio condutor.
Ademais, você encontrará no castelo um diário por ele mantido, sem falar da numerosa correspondência que lhe será útil.
Com pequeno esforço, você descobrirá tudo.
Amanhã, você vai receber um telegrama, anunciando a morte da duquesa por infarto, e irá depois ao seu enterro.
Fique no exterior até se familiarizar por completo com a nova situação.
Agora, o mais importante: preciso lhe passar as ordens do nosso chefe.
— Obedeço-as de pronto.
Enquanto o seu co-irmão satânico falava, Bélsky lavou-se.
— Dê uma boa olhada em mim, Akham, e diga se há algum perigo de alguém perceber a diferença operada no conde?
Krassinsky examinou-o longamente.
As feições do rosto quase não mudaram, a não ser os gestos, o sorriso e, principalmente, a expressão dos olhos.
O olhar outrora franco e alegre era agora frio e penetrante, bem como a cor dos olhos - indefinida e mais escura do que a anterior.
— Sim! - anunciou ele um minuto depois.
Um observador bem atento poderia perceber, é claro, uma mudança na personalidade do conde Bélsky, mas você não tem nada a temer.
Ninguém dessa manada estúpida irá supor ou sequer suspeitar da possibilidade da troca.
Diante desses simplórios, você será a mesma personalidade e, mesmo que alguém perceba alguma diferença, atribuirá isso a causas simples e naturais.
E Krassinsky desfechou uma gargalhada de escárnio.
— Obrigado, irmão Akham! - agradeceu o pseudo Bélsky.
Você me tranquilizou.
E agora, quais são as ordens e o que afinal de mim se exige?
— O que tenho a lhe dizer, pode ser dividido em duas partes:
questões de ordem material e moral.
Começarei com as questões morais, já que são poucas.
Você desistirá de todas e quaisquer relações externas com a igreja:
nenhuma missa católica, nenhum tipo de rito religioso jamais deve acontecer em seu castelo.
Eu sei que este ponto é o mais difícil para ser atendido, pois o falecido Adam era uma pessoa religiosa; mas você bem o entende, cruzar o limiar da catedral para você é um risco de vida.
Você deve inventar uma desculpa para explicar essa mudança de suas "convicções religiosas".
— Oh, disso eu dou conta.
Quem vai me impedir de eu ser um liberal e livre-pensador?
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 18, 2016 7:26 pm

— Isso é com você.
Falemos agora dos aspectos materiais.
Antes de tudo, você deverá transferir à irmandade um milhão de rublos em moeda soante, retirada do banco.
Vão lhe sobrar uns dois milhões, sem contar as esplêndidas propriedades e cinco ou seis casas em Kiev e Petersburgo.
Como vê, as exigências da irmandade são modestas.
Para mim pessoalmente, em pagamento a serviços prestados, quero trezentos mil rublos e uma casa em Petersburgo, à minha escolha.
Persigo uma nova posição e vou reaparecer na sociedade com novo nome.
Finalmente, eu suponho você achar justo brindar à minha filha uma parte de brilhantes... de sua mãe.
Há-há-há! Você não precisa deles, enquanto à pobre menina esta aventura custou catalepsia, cujos efeitos serão longos.
- Com todo o prazer, irmão Akham!
Escolha o que achar digno de sua filha.
Nem bem sei do que disponho, mas, com certeza, a essa encantadora criatura, que eu vi à noite, tudo será bonito.
Mas a questão é saber onde a condessa guarda seus brilhantes?
Não ficaria bem eu sair perguntando isso...
— Não se preocupe, eu descobrirei as jóias.
À noite vou até sua casa e a gente dá um jeito em tudo.
A propósito, avise os criados que você receberá seu encarregado de negócios, devendo este pernoitar no castelo.
Faltam apenas algumas instruções importantes quanto à sua dieta bastante rígida.
Todos os dias sangue fresco, muito leite, no mínimo dois litros por dia, comida com sal; enfim, alimentação reforçada.
Só assim você poderá atar molecularmente o seu corpo astral ao novo organismo.
Também precisa movimentar-se muito, andar a pé e a cavalo, tomar banhos de imersão com água fosfórica, cuja receita fornecerei depois.
— Sinto que terei um apetite danado.
Imagine, ainda estou com fome depois de tudo que comi!
— Eis para você uma pequena iguaria! - disse Krassinsky, estendendo-lhe um bom pedaço de carne crua, imediatamente devorada.
Agora se deite e durma.
Depois de acordar, despeça-se da senhora Morel.
Mila não está passando bem, assim vá para casa.
À noite, a gente se encontra.
Krassinsky fez um gesto de despedida e retirou-se pelo caminho secreto.
O novo conde adormeceu praticamente de imediato.
Acordou bem tarde e, receoso, desceu para o desjejum ao chamado da senhora Morel.
Por sorte, a boníssima Ekaterina Aleksándrovna não notou nada de anormal em seu hóspede, sentia-se apenas preocupada com a indisposição de Mila - de que participou ao conde.
Meia hora após o desjejum, o jovem conde retornava à casa, onde estava passando suas férias.
Ao chegar em casa, foi recebido pelo mordomo, que atribuiu o aspecto sombrio e taciturno do patrão ao seu possível fracasso amoroso com a bela jovem de Górki.
O novo conde estava preocupado em não cometer nenhum erro até assumir o seu papel definitivamente.
Após trocar de roupa, ele se pôs, sem perder tempo, a estudar o caderno dado por Krassinsky - o fio condutor de seu comportamento na nova posição.
Além da biografia do conde, de sua mãe e da lista dos parentes e companheiros de exército, bem como da planta da casa com a disposição dos quartos, havia ainda uma relação completa da criadagem com a indicação de seus nomes e funções; sequer foram esquecidos os nomes da égua favorita e do seu cão - um Newfaundland.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 18, 2016 7:26 pm

Decerto os humanos eram cegos e apenas enxergavam o invólucro externo, mas o instinto infalível do animal sentiu a troca e não engoliu o engodo.
Quando o conde entrou no gabinete, o cão acordou, ergueu a cabeça e correu até o dono, mas imediatamente recuou rosnando.
Seu pêlo eriçou-se e, pondo o rabo entre as pernas, fugiu em desabalada carreira do quarto.
À hora do almoço, o criado notou o conde lançar olhares curiosos em volta, sem suspeitar que ele estava estudando o novo ambiente.
— Vossa Excelência está procurando Perun?
Não sei o há hoje com ele.
Não consegui fazê-lo vir comigo e, quando quis trazê-lo à força, ele me mostrou os dentes.
— Mande vir o veterinário, talvez o cão esteja doente - disse o conde, sentando-se à mesa.
Após um almoço lauto, o conde se retirou para tirar uma soneca, previamente instruindo levarem chá e jantar à saleta azul, anexa ao gabinete, e deixarem arrumado um quarto com cama para o encarregado que viria à noite e partiria ao alvorecer.
Tendo dormido por algumas horas, ele se levantou, foi ao gabinete e iniciou o exame da escrivaninha, cuja chave encontrou no bolso.
Escrupulosamente verificou uma vasta correspondência, avaliou o património de seu antecessor e examinou seus documentos.
Encontrou também um molho de chaves, ignorando de onde eram, perguntando-se no íntimo se uma delas não guardava os brilhantes da condessa.
Perto das nove horas, um homem veio a cavalo, garridamente vestido, recepcionado de braços abertos pelo dono da casa.
Tomando o chá, conversaram de negócios só para os ouvidos da criadagem.
Foi expedida uma ordem para acrescentar ao jantar uma garrafa de champanhe num balde de gelo.
Feito isso, Bélsky dispensou os criados.
— Ficaremos até tarde tratando de negócios e nos trocaremos sozinhos - disse ele ao seu mordomo.
Meu amigo planeia partir com o clarear do dia e o chamará para selar o cavalo - acrescentou.
Por fim a sós, os satanistas se acomodaram no gabinete.
Krassinsky tirou de seu nécessaire dois frascos graúdos e instruiu Bélsky como ele usaria os remédios neles contidos para seus banhos e fricções.
— Magnífico lugar - disse ele após agradecer a gentileza do amigo e guardar os frascos.
Gosto mais daqui do que da minha antiga residência.
Obrigado pela bela instalação da minha pessoa.
Sinto falta apenas de uma coisa do meu passado:
da biblioteca, difícil de achar uma igual - suspirou ele.
Um sorriso de mofa franziu levemente o rosto de Krassinsky, quando este lhe agradeceu pela bela instalação.
— Não fique aborrecido com a perda da biblioteca.
Os exemplares mais valiosos foram resguardados e lhe serão devolvidos.
Você poderá trazê-los do estrangeiro como se comprados.
— Obrigado, obrigado!
Vocês realmente pensam em tudo.
Bem, eu gostaria de entregar à sua bela filha as preciosidades da minha... mãe, porém não sei onde elas se encontram - e soltou uma sonora gargalhada.
— Até nisso eu posso ajudar.
Sei exactamente onde está guardado o porta-jóias da condessa.
Há uma passagem secreta no dormitório dela e, de lá, deve existir entrada para o corredor escondido.
— Você é um feiticeiro fantástico!
Conhece este castelo melhor do que sua própria casa, ainda que nunca tenha estado aqui antes - surpreendeu-se Bélsky.
— Oh, não há nada de fantástico nisso! - redarguiu Krassinsky.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 18, 2016 7:26 pm

Devo lhe dizer que, nos subterrâneos da ilha, tenho um arquivo deveras interessante e antigo.
Lá, os antigos abades guardavam seus papéis e documentos com medo dos olhos indiscretos, contendo os de muitos crimes e aventuras, dos quais ninguém do mundo sequer suspeita.
Examinei-os todos e pude acompanhar a história particular e íntima de todas as famílias nobres do país.
Uma vez que os Bélsky eram os mais ricos entre os aristocratas, tudo que se referia a seus hábitos foi diligentemente marcado por mim.
Existem também numerosas plantas, como a que me referi, de muitos outros castelos, alguns deles com 300 anos de idade.
Assim, estudei sua localização e conheço bem os mistérios deste velho ninho melhor do que o Bélsky genuíno seu antecessor.
Do mesmo modo, descobri que, no início do século XVIII, a condessa Agnessa Bélskaya tinha um jovem guia espiritual, muito belo, aliás, para a infelicidade tanto dela, como do seu marido - conde Casimiro, mais velho que a esposa.
Talvez a virtude dela tivesse desmoronado fragorosamente devido aos encantos do guia espiritual, que habitava justamente este quarto em que estamos.
Nas visitas à penitente em horas suspeitas, ou para recebê-la aqui, eles se utilizavam do corredor secreto, que passava pelo subterrâneo; uma das portas está aqui, a segunda - no quarto da condessa Agnessa, ocupado pela condessa Bélskaya actual.
Que drama se desenrolou neste local, afinal de contas, nem os manuscritos informam, mas há um relato de que a condessa Agnessa e o padre Bonifácio desapareceram sem deixar vestígios naquele dia, ou melhor, naquela noite, e nunca mais alguém soube deles.
Conservou-se apenas, num manuscrito, o desenho de uma cruz e a frase:
"Descansem em paz!"
Estou certo que eles foram assassinados ou talvez emparedados vivos pelo marido que, alguns dias após o desaparecimento de sua bela esposa, morreu de apoplexia devido à dor, como todos acharam.
— Então é por essa trilha dos apaixonados que iremos procurar os brilhantes! - riu Bélsky.
— Justamente.
Eu vou verificar se a mola ainda está funcionando bem.
Ele foi até o armário de aparência antiga, embutido na parede, cuja porta era ricamente cinzelada feito renda.
Krassinsky ficou um tempo procurando algo e deteve-se na maçaneta cinzelada, representando a cabeça de um cão, girou e pressionou-a forte.
Ouviu-se um estalido, o armário afastou-se da parede e escancarou uma porta estreita dando para um corredor escuro.
— Tudo bem até aqui!
Pelo visto, os sucessores do seu bisavô não conheciam a passagem.
E não é de surpreender.
O filho de Agnessa mal completou dez anos, quando morreram os seus pais; ele odiou o castelo e jamais quis morar nele e, assim, o segredo permaneceu.
Antes vamos comer para juntarmos as forças, sobretudo necessárias para você e, em seguida, realizaremos a busca.
Espero que a entrada do quarto da condessa também esteja acessível.
Após se servirem do jantar apetitoso, acompanhado com vários copos de champanhe tomados tal qual água, os satanistas se prepararam para a expedição.
Tomando o cuidado de trancar a porta do gabinete por dentro e assegurar que o armário não se fechasse sozinho, os dois se armaram de lanternas e adentraram o corredor estreito, findando em escada íngreme e longa, cujo último degrau saía no corredor revestido por piso pétreo e coberto por camada densa de poeira.
— É evidente que este caminho não é utilizado há muito tempo - observou Krassinsky, levantando a lanterna e examinando as paredes nuas, porém ainda conservadas.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 18, 2016 7:27 pm

O ar pesado de cheiro acre e desagradável enchia o subterrâneo.
— Provavelmente, somos os pioneiros dos últimos cem anos - acrescentou, apontando para a grossa camada de poeira a cobrir o chão.
Eles caminharam por alguns minutos.
Subitamente Krassinsky, liderando a expedição, parou.
Na parede espessa da passagem divisou-se uma porta entreaberta que, se estivesse fechada, dificilmente seria percebida.
— Vamos ver o que há atrás dela.
Os subterrâneos dos castelos possuem mistérios desconhecidos até das crónicas - elucidou Krassinsky, convidando com um sinal o seu companheiro para segui-lo.
Dirigindo suas lanternas para frente, eles entraram numa saleta circular.
O tecto baixo sustentava-se por coluna de tijolos e, à esquerda, via-se um leito.
No centro, prataria, cristais e dois grandes candelabros com velas estavam sobre a mesa.
Krassinsky tirou do bolso a caixa de fósforos e acendeu as velas, consumidas pela metade.
— Aqui é palco de algum drama - comentou Krassinsky, examinando os restos do jantar ao lado do cesto aberto.
Bélsky pegou um dos candelabros e ergueu-o com uma das mãos; com a outra segurou a lanterna - o que bastou para iluminar bem o outro canto do cómodo.
Ali, na altura de dois degraus, abrigava-se um leito sob baldaquino, revestido com brocado rosa e rendas, o quanto se podia entrever sob a camada de poeira.
— Veja, Akham, eis a chave do enigma!
Aqui estão as personagens do jantar, cujas sobras acabamos de ver - gritou Bélsky, a gargalhadas.
Krassinsky aproximou-se apressado com o segundo candelabro.
— Ah - exclamou.
Eis o paradeiro da condessa e seu garboso guia espiritual!
De qualquer forma, ele não mais esbanja sua famigerada beleza - acresceu ele, inclinando-se para examinar melhor o corpo do homem, jazendo de bruços nos degraus.
Estava de batina, e das costas ressaltava o cabo do punhal.
Enorme mancha negra em torno do corpo testemunhava que ele se esvaíra em sangue.
Nas almofadas do leito, de braços bem abertos, jazia uma mulher, provavelmente asfixiada; as pontas de um cordão vermelho de seda, que lhe cingiam o pescoço, pendiam rente à basta e comprida trança.
O corpo encolhido, a boca totalmente escancarada e as mãos crispadas convulsivamente indicavam que a agonia fora medonha.
Os cadáveres, por estranha circunstância, não estavam decompostos, mas se transformaram em múmias horripilantes.
O punho da mulher trazia um bracelete e, nos dedos enegrecidos, brilhavam anéis; do pescoço pendiam dois fios de pérolas.
— O conde Casimiro fez justiça.
Mas essa coisa de abandonar aqui as belíssimas peças, com as quais a pobrezinha se enfeitava para o seu digníssimo guia, foi grande tolice! - avaliou Krassinsky -, tanto mais que para certos ritos de feitiçaria estes objectos dos que pereceram de morte violenta têm um valor incalculável, meu amigo Baalberit, se é que você não se esqueceu disso.
— Absolutamente e, apesar dos direitos inalienáveis ao espólio da minha bisavó, concordo em apenas conservar o punhal nas costas do padre e deixar-lhe o resto.
— Está bem - concordou Krassinsky, retirando sem qualquer asco as pérolas, o bracelete e os anéis dos dedos retorcidos do cadáver; estes últimos ainda tiveram que ser quebrados para facilitar a retirada das jóias.
Aqui estão! Agora pegue o seu espólio, meu amigo Baalberit - acrescentou, colocando no bolso seus despojos.
Este se inclinou e arrancou o punhal.
A arma era certamente de origem oriental.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 18, 2016 7:27 pm

Sangue coagulado encrostava-lhe a lâmina fina; o cabo em madrepérola era cravejado por esmeraldas e rubis.
Baalberit chutou o corpo dos degraus, virou-o e examinou-lhe as mãos enegrecidas de sangue, e percebeu num dos dedos um anel com enorme solitário que, arrancado, foi estendido a Krassinsky.
Terminado aquele acto hediondo, os satanistas retornaram à sala redonda.
— Esta velha casamata foi transformada num ninho bem aconchegante, porém o destino o converteu em câmara mortuária dos amantes - riu Krassinsky.
Está vendo aqueles bancos em torno da coluna e dois anéis metálicos chumbados na parede?
Foi ali que os prisioneiros ficaram acorrentados.
Oh, o amor é péssimo conselheiro!
Você sabe disso pela própria experiência, não é?
— Sim, ela era a própria sedução personificada.
Quem sabe nos encontraremos e, então, acertarei as contas - e o rosto de Baalberit se transfigurou de uma expressão estranha de paixão e ódio.
Krassinsky ergueu significativamente o dedo.
— Deixe de bobagens!
Não se meta nisso pela segunda vez, pois a mulher é mais forte que você.
Nem pense que eu vou ficar a toda hora lhe arrumando novos corpos!
Agora vamos terminar o assunto que nos trouxe para cá.
Eles saíram, trancaram a porta que se embutiu na parede, sem deixar vestígios para o olho de alguém não-iniciado no mistério e continuaram o caminho.
A segunda saída, também oculta atrás de armário embutido na parede, levou-os ao quarto da condessa, trancado desde sua partida.
Ela guardava seus valores em cofre-forte e, feitas algumas tentativas, Krassinsky conseguiu abri-lo.
— Não vejo aqui todas as jóias dos Bélsky.
Provavelmente a condessa deve tê-los escondido em outro lugar.
Não estão aqui, por exemplo, os velhos rubis da família, o colar de brilhantes rosa e várias outras coisas de valor inestimável - resmungou Krassinsky, examinando os porta-jóias.
Eleitos para Mila um rico adereço de turquesa, um outro com brilhantes e esmeraldas e um colar de pérolas rosa, ele investigou as caixas de cartolina com vestidos, optando pelos mais caros, entre estes um véu point d'Angleterre e antigas peças rendadas de Veneza; para si escolheu um alfinete para gravata com grande solitário e alguns berloques não menos valiosos.
Isso feito, eles trancaram o cofre e retornaram ao quarto do conde.
Ao entrar no gabinete, Krassinsky comentou satisfeito:
— Fizemos um belo serviço!
Amanhã você será o dono de tudo e ninguém lhe pedirá satisfação.
Agora, adeus!
Vou descansar um pouco e partirei antes da alvorada.
Cuide-se bem e siga rigorosamente as minhas instruções.
Você ainda está pálido, mas isso será atribuído à sua tristeza pela morte da mãe.
Baalberit tornou a lhe expressar o seu reconhecimento e satisfação por ter assumido um lugar de tanto destaque na sociedade.
Eles combinaram de se encontrar no exterior no inverno e, após efusivos abraços, se despediram.
Krassinsky foi ao quarto a ele reservado e guardou os objectos preciosos, mas ao invés de descansar, ele ordenou selar o cavalo e foi embora para a casa na ilha, onde transcorria a sua existência obscura...
Em passos ébrios, retornou Mila ao seu quarto após ter fugido do gabinete, deixou-se cair na cadeira e fechou os olhos com a mão.
O estado de torpor, anteriormente experimentado logo ao despertar de seu esquecimento, substituiu-se pela sensação do cansaço.
As cenas vividas apresentavam-se em sua memória em toda a sua verdade cruel.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 18, 2016 7:27 pm

Afluiu-lhe à lembrança a chegada do pai, surgido qual nuvem negra, bafejando brisa gelada e impondo-lhe sua vontade para a destruição de Bélsky.
Não lhe tinha simpatia; ao contrário, até certa aversão.
Mila estremeceu ao se recordar do momento em que os seus lábios se grudaram aos dele.
Depois, quais lapsos costurados, veio a lembrança do conde, branco feito máscara de cera, desfalecendo em seus braços, agonizante, sem que ela lhe desejasse a morte, e dele ela não conseguia se afastar sozinha, mergulhando lenta em estado de inconsciência.
Mais tarde, sobreveio a consumação do terrível acto do drama e a apavorante criatura, seja lá humana ou seu espectro, usurpando o corpo inânime.
E o que significava aquele cordão púrpuro, cortado pelo pai?
Talvez fosse o fio vital do desafortunado Bélsky?
E sua imagem projectou-se diante dela, lançando-lhe um olhar assustador...
Sim, não existia dúvida:
consumou-se um crime torpe e ela foi a arma do homicídio...
Ah, por que tinha nascido uma criatura diferente, funesta e letal a todos a quem com ela se envolviam?
Nesta hora, tinha nojo de si mesma.
Com um gemido surdo, ela agarrou a cabeça, mas imediatamente saltou do lugar, assaltada por sensação de asco.
Seus cabelos soltos pareciam cobertos por algo pegajoso e só então sentiu o odor de cadáver putrefacto deles emanando.
Com as mãos trémulas, arrancou de si o robe de flanela e correu para o quarto de banho.
Sempre havia água quente.
Após encher rapidamente a banheira, Mila despejou nela o conteúdo do frasco com a essência aromática e, com sentimento de bem-aventurança e de alívio, afundou-se na água de cabeça.
Revigorada pelo banho, deitou-se na cama.
Mas seu coração batia forte.
O que significava tudo aquilo?
Apesar de atribuir seus pesadelos à tensão nervosa, Mila herdara significativa dose de cepticismo de sua mãe adoptiva; mas ali, a evidência do mundo oculto repleto de mistérios sombrios saltava aos olhos e, talvez, a má fama da ilha tivesse fundamento.
E o que lhe guardaria o futuro?
Como seria esse novo conde Bélsky?
Ela não sabia em que pensar.
Nisso, um toldo negro como que desceu diante de seus olhos e, tomada de fraqueza indescritível, perdeu os sentidos.
Ekaterina Aleksándrovna acordou tarde, de cabeça pesada e pés incertos.
Como na casa havia um hóspede, fez um grande esforço sobre si e ocupou-se de ordens administrativas.
Eram mais de onze, e nada de Mila.
Ela se dirigiu ao quarto dela e inclinou-se sobre a jovem dormindo; foi quando verificou estar a pobrezinha com nova crise de catalepsia, que costumava acontecer.
Ela sabia que nenhuma ajuda médica adiantava.
O único expediente nestes casos "de desmaio, que podiam durar vários dias, era a colocação na cama de porquinhos-da-índia, sempre substituídos por outros tão logo os primeiros tivessem enrijecido.
Ekaterina Aleksándrovna comumente tinha à mão esses bichos e dispunha de alguns deles na estrebaria, de modo que decidiu mandar trazê-los.
Envolvendo com o cobertor a jovem pálida e deitada imóvel, ela saiu do quarto, proibindo a entrada de qualquer um que fosse.
De tão preocupada naquela hora, quase não deu atenção ao jovem conde durante o desjejum, e ficou feliz quando este foi embora.
Ao retornar do castelo de Bélsky, Krassinsky, ao entardecer, dirigiu-se ao quarto da filha pela passagem só de ambos conhecida.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 18, 2016 7:27 pm

Ele estava com remorsos de ter dispensado a jovem, sem antes purificá-la dos fluidos de decomposição e correntes venenosas com as quais ela ficou impregnada.
Absorto na realização da arriscada operação, ele se esqueceu destas circunstâncias e então quis se certificar de que sua negligência não acarretou más consequências.
Mila ainda jazia em estado de catalepsia, quando o pai se inclinou sobre ela, branca feito cadáver e visivelmente extenuada.
Krassinsky tirou do bolso um estojo com frascos, pôs água num cálice que estava no criado-mudo e verteu algumas gotas de líquido vermelho.
A água borbulhou.
Então, mediante alguns passes magnéticos, ele acordou Mila e deu-lhe de beber o conteúdo do cálice.
As faces da jovem coraram quase instantaneamente; seus olhos tornaram a se cerrar e ela adormeceu de imediato.
Tendo-a magnetizado por mais algum tempo, Krassinsky foi embora.
Mila acordou revigorada e bem de saúde, lembrando-se vagamente de ter visto o pai dando-lhe um remédio.
Para deixar feliz Ekaterina Aleksándrovna, Mila se vestiu e foi ao refeitório e, quando alguns minutos mais tarde nele adentrou a senhora Morel, esta encontrou a jovem alegre e bem disposta.
— Estou feliz por vê-la recuperada, minha querida criança - não cabia em si Ekaterina Aleksándrovna, abraçando Mila.
Talvez fosse o efeito da tempestade tê-la deixado assim; você é tão impressionável.
Realmente, a noite foi terrível.
Fiquei com dor de cabeça e os meus pés pareciam de chumbo.
Parreando alegre, a senhora Morel contou que Bélsky foi embora preocupado com a saúde dela.
Mais tarde chegaram visitas e o dia passou alegre.
Após ter acompanhado as visitas, Mila e Ekaterina Aleksándrovna permaneceram no refeitório, arrumando na caixa o caríssimo jogo de chá de porcelana da Sérvia.
Eram cerca de onze e meia, quando um grito surdo e abafado pela distância fez as duas estremecerem.
— É no gabinete - assegurou a copeira que arrumava a louça na cristaleira, saindo rápido do quarto.
Um minuto depois, esta retornava branca feito lençol.
— Foi o conde Bélsky que estava gritando - balbuciou.
Ele deve estar doente, pois agitava os braços tal qual moinho de vento e sufocava-se.
— Você deve ter bebido, Akulina, ou perdeu de vez o juízo - admoestou Ekaterina Aleksándrovna.
Como pode ser o conde no gabinete, se ele foi embora depois das duas, logo após o desjejum e, ao que me consta, não retornou.
— Continuo dizendo que era ele, pois o vi como estou vendo as senhoras - insistia a copeira.
Mila empalideceu e agarrou-se à poltrona para não cair.
Seus lábios tremelicavam e a testa estava molhada de suor frio.
Ela sabia que a copeira estava certa:
o espírito do infeliz estaria vagando pelo local do malefício contra ele praticado.
Ao notar seu nervosismo e a palidez cadavérica, a senhora Morel alarmou-se.
Brincou de sua crendice fácil e para acalmar definitivamente a jovem, mandou chamar o vigia - o velho marinheiro -, e acompanhada dele vasculhou toda a dacha para verificar se não entrara algum ladrão.
Ekaterina Aleksándrovna não admitia de forma alguma a existência do mundo do além com suas leis e mistérios, embora não pudesse encontrar uma explicação lógica ao grito ouvido.
Finalmente todos os cantos da dacha foram vasculhados.
— Permita-me perguntar, senhora, é verdade que o conde Bélsky está vivo? - perguntou o marinheiro, coçando a nuca.
— É claro que sim, ontem mesmo ele esteve aqui e foi embora depois de ter desjejuado comigo.
Por que o senhor faz essa pergunta tola?
— Pois nesse dia, aproximadamente à meia-noite, rondei a casa e ouvi um grito, como se alguém estivesse sendo morto.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 18, 2016 7:28 pm

Fiquei perplexo mas pronto a agir, quando vi o jovem conde correndo do terraço, de cabelos em pé, todo desarrumado, branco e apavorado.
Fiz o sinal-da-cruz, e pensei comigo:
de onde ele teria surgido? -quando, de súbito, ele como que se afundou na terra.
E hoje Akulina o viu também e, depois, todos o ouviram berrar.
É um mau sinal:
caso ele ainda viva, está correndo um grande perigo.
Ekaterina Aleksándrovna nada comentou e dispensou o vigia.
Só Mila sabia que a alma aflita do desafortunado, repentinamente arrancada do corpo cheio de vida e forças, buscava em vão um alívio para o seu estado de sofrimento.
Medo e angústia a assaltavam.
Era preciso pedir ao pai expulsar aquele espírito, despojado do invólucro carnal.
Bruxo como ele era, saberia fazê-lo.
Mas até que ela conseguisse encontrá-lo, o espírito errante poderia aparecer-lhe também... e isso a apavorava.
Torturada por esta possibilidade, Mila pediu à senhora Morel passar a noite no quarto dela, onde havia um sofá turco.
Esta de pronto acedeu e, após trocarem algumas palavras, ambas se deitaram.
Ekaterina Aleksándrovna adormeceu rápido.
Mila ficou muito tempo se revirando sem conseguir dormir e, quando já passava da meia-noite, mergulhou em sonolência — uma espécie de modorra pesada.
Logo, pareceu-lhe ter despertado e, estremecida, ela sentiu seus cabelos se mexerem na cabeça.
Ouviu-se um grito no quarto vizinho e a porta de chofre se abriu, deixando passar uma lufada de vento glacial, bafejando-lhe o rosto, e a alguns passos dela avultou-se a figura horripilante de Bélsky.
Envolto por uma auréola avermelhada de matiz esverdeado, seu rosto de palidez cadavérica estava desfigurado e, nos olhos esbugalhados, fixos em Mila, ardia tanto ódio e desespero que Mila quis fugir, ensandecida de pavor, mas seus pés pareciam de chumbo e recusavam-se a servi-la.
— Devolva-me a vida...
Devolva tudo que me usurpou, criatura desprezível!... - gritou ele em voz comprimida e investiu contra a jovem; e mãos gélidas do espectro agarraram-lhe o pescoço.
Mila se debatia, gemendo surdamente, e tentou acordar Ekaterina Aleksándrovna, porém esta dormia um sono mortal.
As mãos glaciais do espectro comprimiam-lhe a garganta feito tenazes de ferro e seu peito parecia pressionado por um bloco enorme de pedra; ela achava que já ia morrer...
— Papai, salve-me! - pensou mentalmente.
Acordou-a um leve contacto de mão.
Ela se apoiou no cotovelo e reconheceu o pai, inclinado.
— Papai, salve-me! - repetiu e, ao cingir-lhe o pescoço, perdeu a consciência.
Krassinsky a ergueu feito uma pluma e desapareceu com a carga na biblioteca.
Voltando a si, Mila se viu no laboratório do pai.
Este lhe esfregava as têmporas e as mãos com essência e dava-lhe de beber um líquido aromático.
Ela se sentiu melhor e mais calma; o medo desapareceu.
— Obrigada, papai! Suplico-lhe que o expulse! - ciciou ela, empertigando-se.
— Acalme-se, minha criança.
Não tenha medo, ele não mais se aproximará de você - assegurou Krassinsky, passando a mão na testa dela.
Eu vou lhe buscar um talismã que irá protegê-la.
Minuto depois, ele trazia um disco metálico, colocando-o no chão como se fosse tapete.
Mila constatou nele gravados estranhos sinais pretos e vermelhos.
O pai ordenou-lhe postar-se em cima do disco, empunhou um pequeno triângulo negro pendurado na corrente, dirigiu sua ponta em Mila e entoou em ritmo cadenciado os esconjuras em língua estranha.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 19, 2016 7:57 pm

Conforme cantava, a ponta do triângulo avermelhava-se feito incandescida por fogo e, quando o triângulo ficou todo abrasado, Krassinsky desenhou com ele três círculos e o pendurou no colo da filha.
Feito isso, cobriu-lhe a cabeça com pedaço de pano vermelho e sobre o mesmo acendeu três esferinhas que, crepitando, inflamaram-se em todas as cores de arco-íris, difundindo um aroma agradável e vivifico.
Ao sair do disco metálico, Mila sentiu-se invadida por sensação de força serena e energia.
— Oh, papai, como me sinto bem! - suspirou ela, com o peito cheio.
Até o medo acabou.
Se Bélsky me aparecer agora, nem piscarei um olho.
Mesmo assim, prefiro que ele não apareça.
Krassinsky não pôde conter o riso diante de tal asserção.
— Tome mais isso - disse ele, entregando à filha um pedaço de cartolina e, nele, escritas três palavras em letras graúdas.
Decore estas palavras - e ele as pronunciou alto e em tom marcante, sendo secundado por Mila.
Se ele ou outro alguém lhe aparecer, basta pronunciá-las.
É uma espécie de senha, pela qual os espíritos do inferno reconhecem que a pessoa pertence ao mundo oculto.
Nenhum espectro nosso ousará desobedecer.
Aos espíritos de outra tribo, não disponho de poderes para ordenar ou proibir que lhe apareçam, contudo eles também não podem exercer qualquer poder sobre você.
Mila agradeceu.
Como estava apenas de camisola de cambraia e o frio se fazia sentir, Krassinsky trouxe-lhe um roupão macio.
— Aqueça-se, pequenina, e sente na poltrona.
Tenho algo mais a tratar com você - acresceu, estendendo-lhe pantufas.
Enquanto Mila se agasalhava, Krassinsky foi buscar uma caixa de madeira entalhada.
— Aqui está sua recompensa pelos serviços prestados e a compensação por tudo que passou esta noite - disse ele, jovialmente, abrindo a caixa e de lá tirando vários estojos.
Este adorno de turquesa ficará bem com as suas madeixas douradas.
Este outro, de brilhantes e esmeraldas, também vai bem para seu tipo de feições.
Aqui está o mais bonito.
Veja:
um colar de pérolas rosa com fecho de brilhantes também em rosa. É um objecto valiosíssimo.
A visão das jóias fez Mila esquecer de tudo; neste minuto, ela era apenas uma mulher.
O céu e o inferno perderam-lhe qualquer interesse, e a felicidade de possuir aquelas coisas maravilhosas obscureceu tudo o mais.
— Pena, papai, que você não tenha um espelho -lamuriou-se.
— Como não?
Tenho o meu espelho de barba - sustentou Krassinsky.
Instantes depois, ele retornava com um espelho redondo, diante do qual ela se pôs a mirar, experimentando as jóias com visível satisfação.
O pai ficou-a observando meditativo, e em seu rosto pálido perpassou uma expressão triste e amarga.
Quem poderia prever um sentimento bom, revolvendo-se na alma do lúgubre feiticeiro, aprazido com a felicidade inocente e ingénua de outrem?...
— O da turquesa fica melhor em mim - concluiu Mila, fechando os estojos.
E o que mais há na caixa? - interessou-se ela.
— Vestidos - respondeu Krassinsky, tirando uma peça de trabalho veneziano.
Também é um objecto caro; e estes vestidos e o véu franceses não têm preço para um conhecedor.
Serão os seus trajes de noiva.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 19, 2016 7:57 pm

— Como você é bom e generoso, papai! - exclamou Mila, abraçando e beijando-o calorosamente.
Você diz que é um vestido de noiva, mas quem será o meu noivo?
Não desposarei ninguém, excepto Massalítinov.
Infelizmente, Nádya jamais mo cederá - lastimou-se ela, com misto de ira e tristeza.
— Cederá, por certo cederá, e vai ser breve.
Você nem imagina os eventos iminentes que mudarão a vida e o futuro de Nádya de forma radical!
— E você vai me dar alguma poção para impedir que Michel acabe morto devido ao meu amor fatal?
Eu o amo e não quero perdê-lo.
— Vou lhe fornecer um bálsamo e gotas; use-os sempre que sentir o esgotamento perigoso de suas energias.
— Obrigada, papai.
E se Nádya aprontar um escândalo?
Eu não gostaria de me comprometer abertamente, tirando-lhe o noivo.
— Fique tranquila: tudo se resolverá do modo como quer.
Ademais, espero ficar perto de você, sempre pronto para ajudá-la.
A propósito, se me encontrar na alta-roda sob outro nome, jamais revele quem sou para você e muito menos diga ter me visto antes.
Também, com relação ao conde Bélsky, nunca dê a entender que o corpo dele é animado por outra alma.
— Que terrível e impenetrável mistério guarda esta troca - disse Mila, estremecendo.
No fim das contas, cometeu-se um homicídio — um acto cruel e criminoso.
Reconheço que isso pesa em minha consciência - acrescentou ela, baixando a voz ao perceber o pai de cenho carregado.
— Você aborda questões que não entende.
A luta pela sobrevivência é cruel e inevitável, sendo que o mistério da morte ainda não proferiu sua última palavra.
Ninguém quer morrer, é claro, e a aquisição de um novo corpo é o recurso mais seguro para prolongar a existência.
Senão veja:
todos os corpos são criados segundo modelo único, tal qual o mecanismo de relógio.
Pegue um milhar de relógios; todos andarão identicamente desde que lhes dêem corda.
E por que então uma alma, após sair do corpo gasto e se alojado num novo, não pode aproveitar o organismo, tal qual uma máquina a vapor, consertada e posta em movimento.
Hoje, a técnica de gerar avatar é um mistério da magia negra, cruelmente açoitada pela branca, mas chegará o tempo - e ele não está tão longe como parece - em que este método era decifrado pelos eleitos.
Os ricos caquécticos irão comprar corpos jovens e fortes, ou seja, vão abandonar suas residências antigas e se mudar para as novas.
Casos como o do homicídio de Bélsky serão frequentes e sua investigação muito difícil, já que o olhar rude de um profano será incapaz de descobrir a eventual troca de alma.
— Assim, papai, conforme você diz, no futuro o número desses homicídios aumentará? - alarmou-se Mila.
— De certo modo.
Agora, se para você e os demais profanos eles podem parecer medonhos, é porque vocês não entendem como o avatar é feito.
— Tudo isso é muito interessante, papai, e eu gostaria de entender mais esta ciência misteriosa, mas tenho pavor de forças desconhecidas.
— O medo, minha filha, é um cadeado a trancar os portões do mundo oculto diante do profano.
Os medrosos jamais cruzarão os limites do invisível.
Lá se encontra o Dragão do Medo, montando a guarda tanto dos portões límpidos, como os do inferno, assim chamados por homens.
A principal virtude de um discípulo da ciência é ter um coração audaz, capaz de superar o medo a intimidá-lo de todos os lados.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 19, 2016 7:57 pm

— Papai, ensine-me a superá-lo!
Krassinsky sorriu.
— Não é uma tarefa fácil, é preciso ter muita energia para o autodomínio e não pode faltar firmeza.
Uma coisa posso lhe dizer agora:
para vencer todas as suas fraquezas, é indispensável ser uma pessoa acima da comum e possuir grande capacidade de concentração extasiada.
Tem-se por certo que, sob uma intensa perturbação, os seres humanos esquecem o medo, e todas as trivialidades de sua vida empalidecem e se aplacam.
As forças incorpóreas trabalham sozinhas e, nesta hora, o homem se torna intrépido e despreza quaisquer perigos; sua energia interna o move adiante. Conhecem-se inúmeros casos quando, diante de um perigo, todo o seu organismo corpóreo trabalha com força incrível, podendo sua agilidade às vezes superar a de um acrobata; seu poder multiplica-se por centena de vezes, e a destreza de pensamento torna-se mais rápida que um relâmpago.
Ao voltar ao estado normal, o homem se pergunta trémulo:
como é que pôde ter realizado tudo aquilo e por que a sua cabeça não tonteou à beira daqueles abismos?
Que milagre o fez atravessar aqueles caminhos assustadores ou erguer pesos capazes de esmagá-lo?
Já houve casos em que frágeis mãos femininas quebraram grades de ferro sob o efeito daquele estado no qual o astral se assenhora da carne, esmaga e modela o que lhe aprouver.
Esta concentração suprema ocorre com maior frequência e intensidade com pessoas emotivas, tidas fracas, e não com as que parece personificarem a própria força, visto nestes últimos seu astral ser dominado pela matéria.
Uma das principais condições para alcançar esse estado superior é o isolamento, ou seja, a ausência de outros seres vivos a derramarem ao derredor o seu fluido animal; socializando-se, o homem a toda hora topa com auras contagiosas.
E quanto mais o homem se exercita seja no bem, seja no mal, sua aura evolui, se expande e se abastece de força dinâmica.
Todos os iniciados em magia branca ou negra normalmente evitam multidões, posto ela inibir o trabalho mental deles ou de qualquer cientista autêntico.
— Então para se alcançar esse estado supremo deve-se evitar o convívio social?
— É um dos melhores métodos, mas não o único.
Para dominar em si o homem carnal e conferir maior plasticidade ao corpo astral, existem vários meios de eliminar a gordura epidérmica inútil para que ele se separe e produza actos mágicos.
Os contos de fada, minha criança, por exemplo, o "Mil e uma noites", não são absolutamente simples besteira como se pensa.
E uma recriação oriental dos actos mágicos, realizáveis por quem lhes conhece o segredo.
Eu mesmo usufruí dos efeitos benéficos do isolamento.
Já há mais de vinte anos que eu moro neste subterrâneo, passo nele a maior parte do tempo e, sinceramente, não sei o que é tédio.
Estudei, remexi os tesouros intelectuais aqui acumulados e me inteirei de muitas anotações antigas, dignas de um romance.
Feito num panorama mágico, ressuscitaram diante de mim os acontecimentos dos velhos subterrâneos povoados desde as épocas remotas.
Ruínas sepulcrais e câmaras mortuárias conversaram em minha presença, revelando amores e ódios, crimes e sofrimentos.
E a ciência, minha filha, seja ela do mal, quantos horizontes descortina e que forças maravilhosas nos propicia!
O tempo passou feito um sonho.
E você vê, Mila, nem os anos nem o trabalho exauriram-me o corpo, pois eu o hauri de substâncias essenciais e quem diria que eu tenho tantos anos?
Krassinsky levantou-se sorrindo; Mila o fitava com admiração.
Alto e distinto, ele se parecia com um homem na flor da idade.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 19, 2016 7:57 pm

Em seguida, ele a instruiu sobre a explicação plausível que ela deveria dar à senhora Morel quanto às jóias que acabara de ganhar.
No dormitório dela, antigo quarto de Marússya, havia um cofre secreto - e Krassinsky falou como localizá-lo e abrir -, era ali que ela deveria guardar a caixa e depois contar da sua descoberta ocasional junto com os objectos preciosos.
— Tornaremos a nos ver só daqui a uma semana, porque estarei viajando para resolver uma questão inadiável - adicionou ele.
Faça de tudo para estar aqui antes da minha viagem, pois precisamos ainda discutir alguns aspectos.
Mila prometeu seguir as ordens.
— Pesada como está, eu levarei a caixa até a biblioteca.
Não tenha medo do fantasma de Bélsky mesmo que ele apareça - disse Krassinsky.
Ele não tem mais poder sobre você, nem poderá causar-lhe algum mal.
Pessoalmente, não posso proibi-lo de vagar por aqui.
Ele vem para haurir forças nas emanações humanas e delas se utilizará até que o seu corpo astral, ainda sobrecarregado de fluidos vitais, não se depure o suficiente para se elevar à segunda camada, mais pura que a primeira, e acessível aos espíritos dos mortos, embora inicialmente sua permanência entre os vivos seja imprescindível.
Diante da porta da biblioteca eles se despediram.
No dia seguinte, um mensageiro de Bélsky trouxe uma carta a Ekaterina Aleksándrovna, informando-a do falecimento repentino de sua mãe, vítima de enfarte, conforme a dama de companhia da condessa lhe noticiara em telegrama.
Na missiva, ele também dizia de sua viagem imediata ao estrangeiro e desculpava-se por sua eventual impossibilidade de não vir se despedir delas antes de irem a Kiev, mas onde ele as esperava rever tão logo pudesse. Junto à carta, foram enviados dois lindos buquês de flores.
— Pobre rapaz! - disse a senhora Morel.
Ele gostava tanto da mãe.
Foi um golpe duríssimo para ele perdê-la tão inesperadamente.
Quem poderia imaginar que, quando vimos a condessa no baile dos Maksákov, essa bonita e ainda jovem mulher só tinha algumas semanas de vida.
Ao notar Mila pensativa e muda, ela adicionou:
- Ouça, minha criança, apaixonado que está, tenho certeza de que o conde logo irá a Kiev para pedir sua mão.
Sugiro aceitar tal proposta, visto ele ser um partido brilhante.
Ele é jovem, bonito, muito rico e lhe assegurará uma vida feliz.
O que melhor se pode desejar?
— Não digo "não", mas vou aguardar seu pedido e, depois, veremos como ficarão as coisas.
Os aparecimentos do fantasma de Bélsky continuaram a assustar pessoas.
Ekaterina Aleksándrovna, apesar de seu cepticismo e presunção de livre-pensadora, passou a se sentir incomodada, incapaz de se libertar da sensação angustiante e supersticiosa.
Todas as noites, sempre à mesma hora, se ouviam gritos abafados no gabinete, sem que alguém conseguisse descobrir sua exacta origem e pudesse explicar tal facto num quarto vazio, trancado à chave.
Sua vontade era de ir embora dali não fosse o inexplicável e excêntrico capricho de Mila em ficar, zombando de sua credulidade de dar ouvidos às tolas tagarelices.
Afirmando nada ter visto ou ouvido, Mila dizia, sorrindo, não ter coisa alguma a temer e, tampouco querer abandonar a ilha, que lhe era tão aprazível.
Debalde a senhora Morel sustentava que todos os vizinhos estavam debandando em consequência do tempo húmido e frio.
Elas acabariam sozinhas na ilha, dizia Ekaterina Aleksándrovna, pois a criadagem atemorizada relutava em ficar; a arrumadeira e a cozinheira já haviam anunciado sua decisão de não trabalhar numa casa onde o "capeta estava à solta".
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 19, 2016 7:57 pm

Só mediante muitas persuasões e um salário dobrado, estas finalmente foram convencidas do contrário.
Para fazer Ekaterina Aleksándrovna esquecer de sua ideia de partir, Mila mostrou-lhe a caixa com as jóias, supostamente encontrada no armário secreto.
Nela também foram encontradas algumas cartas de Vyatcheslav, bem como diversos objectos femininos, reconhecidos por Ekaterina Aleksándrovna como terem sido de Marússya.
O conteúdo do porta-jóias deixou-a simplesmente extasiada.
— Sua mãe jamais me mostrou estas coisas maravilhosas e estes vestidos ricos.
0 vestido inglês sem dúvida lhe servirá para a cerimónia nupcial - decidiu ela.
Mila aguardava o encontro com o pai com impaciência febril conquanto, no íntimo, também não visse a hora de partir.
Em Kiev, ela reencontraria Michel; ademais, o fantasma de Bélsky, visto por diversas vezes, envenenava-lhe a estada na ilha.
O espectro, é verdade, não se aproximou dela e só a ficou observando de longe com olhar penetrante e assustador, cheio de ódio mortal, fazendo Mila gelar até os ossos.
Finalmente, certa manhã, ela encontrou debaixo do travesseiro uma mensagem embrulhada no lenço, chamando-a ao subterrâneo.
Krassinsky estava de partida e parecia muito ocupado.
Seu plano era mudar radicalmente a vida: deixar a ilha e retornar à sociedade com outro nome.
Até os mais íntimos de Vyatcheslav de nada suspeitariam, uma vez que Turaev estaria então com mais de cinquenta anos, enquanto que Krassinsky era jovem, aparentando menos de trinta.
Planejava, primeiramente, passar em Paris, depois viajar para Áustria para ali comprar um nome e título e, em seguida, fixar residência em Petersburgo.
Sendo grande cientista, um verdadeiro feiticeiro, ali poderia realizar curas maravilhosas e até "ressuscitar" os mortos, neles instalando larvas.
Os mistérios atraem a multidão feito luz a mariposas incautas, assim o sucesso estaria garantido.
Ademais, na alta-roda, ele contava com seus coirmãos, sendo que alguns eram seus subordinados.
Era de sua vontade também dedicar-se a Mila e observá-la, pois a ela se afeiçoara tanto quanto permitia sua alma lúgubre e fria.
Ela ainda era jovem, em cujo ser se enfrentavam sentimentos contraditórios, consequência do sangue rebelde da mãe - uma mulher outrora apaixonada por ele, mas que se lhe opôs com obstinação insuperável.
Quando Mila chegou, Krassinsky estava dispondo na caixa frascos, potes com pós e saquinhos numerados.
O pai lhe explicou então como seria usada cada uma daquelas poções e apontou-lhe o caderno, onde se traziam as instruções.
— Nesta caixa há um fundo falso e lá se encontra um outro caderno e preparados especiais para casos extremos, mas consulte-me antes de usá-los.
— Sem dúvida, são coisas para um especialista.
— O que você não sabe ou jamais viu antes pode lhe parecer coisa extraordinária.
Imagine um homem ressuscitado depois de duzentos anos e você lhe mostra uma máquina fotográfica, um telex, uma máquina a vapor ou lâmpada eléctrica.
Por certo ele diria que aquilo é feitiçaria, coisa de diabo e assim por diante.
A humanidade ainda verá descobertas colossais.
Nós e aqueles egoístas do Himalaia já utilizamos muitos inventos inéditos aos profanos, que simplificam as operações magísticas.
Sim, minha criança, a máquina do Universo, aparentemente complexo, na verdade funciona com base em princípios muito simples.
De facto, fico cismado quando me convenço da simplicidade das coisas em relação à diversidade dos fins.
Toda a genialidade humana se concentra exclusivamente na descoberta de uma simples máquina motriz que movimenta essas forças gigantescas.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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