Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 19, 2016 7:58 pm

Ordem e simplicidade - é o lema do grande Construtor, a Quem se dão muitos nomes, mas a Quem ainda ninguém conheceu e soube o nome verdadeiro.
Quanto mais ignorante o ser humano, mais complexo, mais difícil e confuso é o seu trabalho.
O caos interior atrapalha a execução de suas tarefas, feitas às apalpadelas; ele, é verdade, cria, mas que esforços terríveis despende e, invariavelmente, deixa de utilizar os atalhos, vagando por veredas sinuosas e difíceis.
O que destaca uma mente superior à da multidão?
É a clareza e a simplicidade de sua imaginação, a facilidade com que este a tudo assimila e aos outros ensina como lidar com coisas difíceis e confusas.
Um químico realiza milhares de experiências antes de encontrar a substância procurada; tivesse ele o dom da inspiração, bastar-lhe-ia, na maioria dos casos, uma única reacção para obter o desejado.
Como consequência, o discernimento arguto de um único espírito eleito derrama mais luz do que os esforços de uma centena de cientistas intermediários.
Mas o tempo passa e tudo se aperfeiçoa, tanto o cérebro humano, como os métodos da evolução.
Compare a rude carroça medieval, atrelada a búfalos, a nossos carros modernos.
Não há um abismo os separando? Futuramente, tudo será substituído por transporte aéreo, tornando obsoletas as vias férreas e as estradas mal conservadas - ou seja, tudo que demandar trabalho manual, já que a mão-de-obra ficará cara e escassa e, com o tempo, o homem optará por viver de trabalho mental.
Dos arquivos secretos do passado se buscará o arsenal dos conhecimentos até hoje inéditos, iniciando-se uma luta cruenta dos seres vivos contra a morte.
Os séculos vindouros serão marcados pela insurreição do homem contra a inevitável "sentença à morte", ceifando de modo covarde e indiscriminado seja uma criança, um jovem ou um velho.
E haverá um combate desesperado corpo-a-corpo contra a hidra que nos subtrai a vida.
Esta lei desumana, responsável por tantas lágrimas, não é uma lei natural; se o fosse, não existiriam excepções.
Por enquanto não temos a chave para esse mistério e, para vencer a morte, recorremos a expedientes complexos, astuciosos e não raro cruéis e arriscados.
Todavia, estou seguro de que um método mais simples e rápido será descoberto futuramente.
— E como você, papai, espera vencer esse estigma da humanidade, cujo sopro gélido transforma os seres vivos em massa inanimada, expulsando suas almas ao terrível mundo invisível.
— Tenho certeza de que se descobrirá uma substância que impedirá a destruição do corpo, o qual não passa de ajuntamento de substâncias químicas.
A matéria que forma as células e os glóbulos sanguíneos foi herdada dos três reinos, e todos os quatro elementos da natureza também nela se reproduzem.
Pela forma de desenvolvimento, tanto homem como animal se parecem com plantas evoluídas, o esqueleto calcário herdou-se do reino mineral, como tantos outros minerais, encontrados no organismo.
O corpo é uma combinação engenhosa de diversos elementos.
O principal problema é encontrar um meio de evitar a degradação dessa massa de células, pois a morte não é nada mais do que a extinção lenta ou inesperada de sua actividade; e este meio é o elixir da longa vida. Que ele existe, não faltam exemplos na natureza.
É o caso dos crustáceos, em particular o siri; se lhe retirarmos um membro, logo nasce o outro em substituição.
Como o crescimento das células humanas é baseado no corpo espiritual ou astral, na perda de mão ou pé apenas se perde a matéria acumulada, conquanto a forma que lhe serviu de alicerce permaneça íntegra.
Daí segue que, quando for encontrado um meio de juntar as partículas da nova matéria e fixá-las na estrutura astral, estes membros perdidos nascerão novamente, tal qual as pinças do siri.
A prova da existência dessa réplica invisível é o facto de que um inválido costuma sentir dores reumáticas nos membros amputados.
— Não acredito! - Como é possível sentir dores em mão inexistente? - Mila perguntou incrédula e rindo.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 19, 2016 7:58 pm

— Por mais que isso possa lhe parecer estranho, existem milhares de casos confirmando dores inexplicáveis e persistentes em membros amputados.
Posso lhe contar dois casos, um dos quais aconteceu comigo, e o outro eu ouvi de um cirurgião norte-americano, que testemunhou esse fenómeno em 1881 nas Montanhas Rochosas. Eis o seu relato:
"Eu estava visitando com amigos - dizia ele - uma serralharia mecanizada; um deles, por descuido, levantou o braço e a serra eléctrica o pegou na altura do cotovelo.
Foi preciso fazer amputação imediata, pois até a cidade era longe.
Após a operação, a parte amputada foi posta numa caixa com serragem e enterrada.
Algum tempo depois, já estando no processo de total recuperação, meu amigo começou a se queixar de dores na mão removida, dizendo que a sentia cheia de serragem e que um prego atravessava seu dedo.
Suas queixas de dores lancinantes continuaram e até para dormir era difícil.
Todos começaram a temer por sua saúde mental, e a mim de súbito ocorreu a ideia de visitar o local do acidente.
E imaginem:
quando depois de desenterrada eu limpava a mão da serragem, notei que um prego da caixa havia se cravado em seu dedo.
Mas isso não é tudo.
O enfermo, que se encontrava muitas milhas distante de mim, dizia naquela mesma hora a meus amigos:
"Estão despejando água no meu antebraço e tirando o prego do meu dedo.
Agora eu me sinto bem melhor..."
Simplesmente incrível! - sussurrou Mila.
E você, papai, o que viu?
Em Paris, eu conhecia um americano de nome Samuel Morgan, que trabalhava na fábrica de máquinas de costura Singer.
Em consequência de um acidente, amputaram-lhe o braço até os ombros, e eu o visitava amiúde.
Por diversas vezes ele se queixou de dor no ombro e convulsões nos dedos ausentes.
Então eu me lembrei do caso que acabei de lhe contar, e pedi ao médico de Morgan que ele ordenasse desenterrar o braço amputado.
O médico riu de mim e negou o pedido; porém, seu assistente, um médico jovem, conseguiu a caixa e nós a abrimos.
Verificou-se que o membro, enfiado numa caixa muito apertada, tinha sido dobrado numa posição que causaria, fosse ele vivo, uma sensação de dor, semelhante à de Morgan.
O assistente abismou-se daquilo e então eu lhe expliquei o fenómeno.
Por sua vez, ele me contou um caso que o deixou muito intrigado.
Ele mesmo presenciou um operário com uma perna amputada, mas que se sustentava em pé como se tivesse as duas pernas inteiras.
Disse-lhe que aquele homem provavelmente estivesse passando por uma forte emoção e apoiou-se inconscientemente na perna astral, momentaneamente solidificada pelo impulso da dor.
Tudo isso confirma de vez a existência do corpo astral, independente da carne que o envolve, e se tal forma estrutural existe, basta achar um método de nela recuperar a matéria faltante.
Bem, chega de conversas eruditas e vamos tratar de assuntos pessoais.
A senhora Morel quer ir embora daqui; não a segure mais e vão a Kiev, onde você terá o seu querido Michel.
Bem, já lhe disse tudo que queria.
— Obrigada, papai.
Não vejo a hora de vê-lo, embora receie enfrentar Nádya.
E isso será tanto mais difícil, sabendo que ele não me ama... sei disso.
Mila suspirou e crispou os punhos.
— Já sem isso Nádya terá muitas preocupações e não lhe sobrará tempo para entrar em disputa com você - observou com mofa Krassinsky.
Os negócios de Zamyátin andam mal e a derrocada da família é inevitável. Depois... ninguém sabe quanto tempo ainda tem o velho.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 19, 2016 7:58 pm

Seu amado Michel está endividado, e quem poderá tirá-lo do buraco excepto você? Há-há-há!
Massalítinov está endividado?
Como é possível?
Não o julgava tão inconsequente - surpreendeu-se Mila.
— Bem, é que com meu empurrãozinho ele se viciou em jogo.
Lembra da irmã Demência?
Ela costuma recebê-lo em casa, onde organizou uma jogatina.
Dei um jeito de atraí-lo para lá, onde, seduzido pelos atractivos da condessa, ele começou a apostar muito e acabou perdendo vultosas somas.
Presentemente, ele quer consertar a situação contando com o dote de Nádya, sem imaginar que daqui a algumas semanas ela vai virar uma mendiga.
Como o casamento vai se desfazer, basta-lhe acolher o noivo aposentado com todas as dívidas.
Mila nada disse e afundou-se em pensamentos.
Súbito ela se endireitou e perguntou:
— Diga-me, papai, por que o mal impera no mundo e qual a razão de ele ser tão poderoso?
Por que os homens cometem crimes, odeiam e tentam destruir um ao outro?
Krassinsky sorriu maliciosamente.
— O mal, minha criança, é uma coisa inevitável em nosso mundo, habitado por homens dominados por toda a espécie de paixões, e como eles encontram em seu caminho obstáculos à realização de seus desejos, tentam removê-los.
Estes actos - que você chama de crimes - não são nada mais do que recursos dos homens de obrigar o destino a atender aos seus anseios.
Conforme a lei universal, a força triunfa sobre a fraqueza, desencadeia um confronto eterno entre esses pólos:
o fraco, ou seja, o benevolente, investe contra o forte, ou seja, o adversário cruel ou criminoso.
Inseridos em cada ser vivo os desejos, a sede de saciá-los é constantemente sufocada na alma do justo, ou do mais fraco, sob a definição de pecado.
Se para alguns o pecado é algo permitido, para outros - não; e isso porque, se a natureza os fez todos iguais, as condições da vida geraram entre eles grandes abismos.
Então se inicia uma competição inevitável que ao fraco se proíbe ganhar, e ele normalmente é destruído pelo forte, que não se detém diante de nada e não se prende a detalhes que dificultam o seu caminho para alcançar os objectivos, cometendo actos que para o fraco, assustado pelo pecado, são actos criminosos.
Impotente por sua virtude, esse tolo perece e não há quem possa ajudá-lo, pois o forte - único que poderia fazê-lo - é visto como criminoso, um sedutor, quando não é o próprio diabo.
Ele busca a luz e foge das trevas, mas a luz está longe dele e só com esforço supremo ele talvez consiga fundir-se a ela por força de suas emanações, ou seja: através da prece.
O forte, ao contrário, prefere a escuridão e se orienta bem no meio dela, que lhe concorre e serve de refúgio.
Na hierarquia planetária, a nossa Terra ocupa um posição modesta e a sua imperfeição se reflecte em seus habitantes, que desde a origem do mundo se devoram uns a outros.
Esta é a sina da nossa mediocridade:
para existirmos, devemos alimentar em nós o fogo ardente dos desejos.
Um homem ordinário só busca o que lhe possa propiciar o gozo dos prazeres dos seus instintos sôfregos e, qualquer um que se lhe coloca no caminho é eliminado.
A inveja e a competição atingem todas as criaturas terrestres nos três reinos.
O desejo de usurpar o lugar de outro é a força motriz para a ascensão ao invisível, aguçada por todas as funções cerebrais.
Qual brocas, elas corroem e minam os muros, atrás dos quais se ocultam os mistérios do grande laboratório do saber absoluto.
A frase "esmagar um ao outro" parece cruel e indigna, entretanto isso se repete com todos nós.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 19, 2016 7:58 pm

Não esmagamos, por acaso, com os nossos pés milhares de insectos inocentes em sua existência pacífica?
Não obstante, permanecemos indiferentes a tais hecatombes...
— Sim, papai, mas eles são animais inferiores; não podemos é aniquilar os nossos semelhantes, a quem devemos amar - retrucou Mila.
— Amar? Hmm!
Na maioria das vezes, eu acho, só pensamos em salvar a nossa própria pele.
Não é que eu negue a força do amor, pois experimentei esta tirania pessoalmente.
Mas este estranho sentimento me parece antes algum eflúvio, emanado de uma essência que não só promove uma atracção entre os humanos, como nos faz afeiçoar até a objectos como, por exemplo, velhos móveis, roupas surradas e horrorosas, impregnadas com nossas emanações ao longo de seu uso.
E quando nos desfazemos dessas coisas, a separação deste eflúvio apegado nos causa uma sensação desagradável.
Bem, minha filha, o tema é muito interessante e o retomaremos num outro dia, quando também lhe falarei do mal, como nós o entendemos.
Adeus, querida! Logo nos veremos e não se preocupe:
tomarei conta de você.
Talvez, no início, o nosso encontro seja secreto, mas, quando eu tiver outro nome, iremos nos encontrar no mundo grande.
Quanto a você, desejo-lhe felicidade.
— Serei feliz, se eu despertar o amor de Michel; só não posso imaginar como Nádya, amando-o de paixão, irá me cedê-lo e como, acostumada a uma vida de luxo, suportará a pobreza.
Krassinsky sorriu enigmaticamente.
— Estou vendo que o destino dela a preocupa.
Esta é uma fraqueza a que você não pode se entregar.
Bem, não importa, vou lhe dizer o que a espera.
Provavelmente ela sucumbirá na luta extenuante justamente por suas virtudes.
Nádya ama seus familiares e lhe será difícil suportar o sofrimento deles, sem dizer que a pobreza e as humilhações são péssimos conselheiros.
Por fim, um desfecho irónico e cruel:
o amor e a lealdade - esses fundamentos do bem - darão um golpe final naquela alma.
Tal será, na minha opinião, o destino de Nádya.
Ela não tem vocação para sofrer como os mártires que, suportando resignados todos os infortúnios e torturas, conseguem transpor o que se conhece por portões celestes, conquanto os do inferno estejam bem escancarados, e o seu rei recompensa seus súbditos com todas as benesses terrenas sem nada exigir em troca, excepto o rompimento com o Céu e seus servidores...
Mila acordou em seu leito e ao seu lado, na cadeira, encontrava-se a caixa que o pai lhe dera.
Apesar de se sentir alquebrada, ela se levantou rápido, tomou algumas gotas da bebida tonificante e dirigiu-se ao refeitório para o desjejum.
Ekaterina Aleksándrovna já estava à mesa.
Indignava-a a teimosia de Mila em ainda continuar na ilha, quando já podiam estar em Kiev.
Não queria também admitir o motivo de sua impaciência em deixar a ilha:
um vergonhoso revés ao seu cepticismo, abalado por medo.
Durante as noites, ela escutava rajadas de vento varrendo o quarto e passos no corredor; no quarto vazio ao lado, ouvia-se o barulho de móveis sendo arrastados.
Mila, observando-a e sorvendo o leite, não pôde deixar de perguntar a razão do mau humor da mãe adoptiva.
— Estou possessa com sua teimosia.
A troco de que estamos aqui?
O tempo piorou, começaram as chuvas e já há três dias só chove.
E o pior: alguém tem a ousadia de praticar prestidigitações.
Não basta as pessoas espalharem asneiras, esta noite o fantasma de Bélsky me apareceu.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 19, 2016 7:59 pm

Não é engraçado?
Um fantasma do homem vivo!
Se eu apanhar este insolente enganador, ponho-o atrás das grades.
Agora é definitivo: não fico mais aqui.
Já comecei a arrumar as malas e lhe aconselho a fazer o mesmo, pois depois de amanhã nós viajamos.
Mila a custo conseguiu conter o riso.
Divertia sobremaneira o terror de Ekaterina Aleksándrovna, ela nada, porém, deixou transparecer e disse:
— Ó, mamãe querida, eu não achava que lhe era tão desagradável morar aqui.
Não dei qualquer importância ao falatório dos criados, pois decididamente nada vi.
Mas já que a insolência do prestidigitador atingiu até você, é melhor partirmos, já que vai ser difícil apanhá-lo; ele deve conhecer todos os cantos e becos desse ninho de coruja.
Irei imediatamente arrumar as malas.
Restabelecido o acordo, as damas ultimaram os preparativos e um dia depois deixavam a ilha.
Em Kiev, uma grata surpresa aguardava por Mila.
Com a ajuda de Zamyátin, Ekaterina Aleksándrovna já havia adquirido uma casa em Lipki, onde as duas logo se instalaram.
O prédio era maravilhoso - um verdadeiro palácio -, e os primeiros dias foram consagrados a guarnecê-lo de luxo refinado, visto planearem abrir a casa a bailes e serões.
Ao término dos trabalhos mais urgentes, elas se informaram se os Zamyátin haviam retornado da dacha e, ao saberem que os mesmos estavam na cidade, à noite foram lhes fazer uma visita.
Lá encontraram outras pessoas.
Aparentemente, nada havia mudado.
A casa sobejava de opulência tal qual em Gorki, se bem que, apurando os sentidos, percebia-se haver certa mudança com os anfitriões e uma atmosfera carregada entre os membros da família.
Zamyátin parecia mais velho vinte anos e estava abatido.
Nádya ficou mais pálida e magra, e sua mãe achava-se tristonha e apreensiva.
Até o relacionamento entre os noivos parecia tenso.
Massalítinov mal escondia seu nervosismo, enquanto a irritação de Nádya era patente.
Um sorriso de satisfação franziu o rosto de Mila:
as previsões do pai se confirmavam.
O terreno foi preparado - isso era visível - e a derradeira catástrofe não iria tardar.
Durante o chá vieram mais visitas e a conversa ganhou ânimo, ainda que forçado.
Mais tarde os velhos se sentaram à mesa de jogo e os jovens reuniram-se no quarto de Zoya Ióssifovna.
Mila apurou mordazmente os ouvidos quando a conversa começou a girar em torno do baile dali a uma semana, em homenagem ao aniversário de Zoya Ióssifovna.
— Esse será o seu último festejo, minha bela Nádya, depois você ficará na indigência - pensou Mila, ao interceptar com contentamento reprimido a troca de olhares entre os noivos.
No curso da conversa, alguém relatou o caso da abertura de um processo na América contra um suposto abuso da hipnose, e discutiu-se então o vasto campo de sua aplicação na criminalidade.
A senhora Morel, que optara pela companhia dos jovens, participava activamente da conversa e contou alguns casos curiosos por ela testemunhados em Paris, na clínica do professor Charcot.
Do hipnotismo passaram ao espiritismo, astrologia, quiromancia e outras ciências divinatórias e, finalmente, à leitura das cartas.
Um dos jovens relatou o caso de uma adivinha que acertou em cheio a morte de um parente seu, o recebimento de inesperada herança, sua posterior viagem com algumas aventuras no caminho.
— Foi incrível!
Desde então, eu acredito nas cartas - concluiu ele com convicção.
— Sinceramente, não acredito em charlatanices divinatórias, com pequena excepção às cartas - disse Ekaterina Aleksándrovna.
E isso porque Mila às vezes lê cartas com incrível precisão.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 19, 2016 7:59 pm

Talvez por ser ela uma pessoa altamente sensível.
Alguns dos presentes vieram com o pedido para Mila ler sua sorte, no que ela atendeu prontamente.
Naquela dia ela estava simplesmente encantadora.
Seu vestido azul esverdeado com suaves pregas ondulantes caía bem à figura alta e esbelta; o laço de veludo da mesma cor destacava seus cabelos dourados e a tez de brancura ofuscante.
Ao notar que os presentes se admiravam dos acertos de Mila, Nádya também se aproximou e pediu-lhe para prever o futuro.
Nisso, a atenção geral das moças se concentrou na discussão paralela sobre as sessões mediúnicas e a manifestação dos espíritos.
Nádya sentou-se defronte de Mila e, descansando a cabeça sobre os braços, acompanhou as cartas serem abertas.
— Arghh, que cartas horríveis!
Não vale a pena explicá-las - disse Mila, fazendo menção de embaralhá-las de novo, mas Nádya lhe segurou a mão.
— Diga-me, Mila, o que vê?
Talvez as cartas se enganem; de qualquer forma é melhor saber antes as desgraças que a mim aguardam.
— Que coisa, jamais vi tal conjugação! - vacilou Mila.
Um luto inesperado, falência financeira ou pelo menos grandes Perdas, uma mudança radical da situação e, aparentemente, o abandono desta casa.
— E o meu casamento? - inquietou-se Nádya, empalidecendo.
— Parece não se concretizar ou, talvez, será adiado por longo tempo... não sei dizer com precisão.
Mas tudo isso é besteira, não acredite em nada - acrescentou ela, embaralhando bruscamente as cartas.
Tornando a tirar do baralho mais dezasseis cartas, ela as embaralhou e, ao abri-las, disse em tom alegre:
— Está vendo?
Agora tudo é diferente.
Todas as desgraças estão para trás e eu a vejo casada e muito rica.
Pálida, Nádya ouviu as previsões, sem fazer qualquer comentário, apenas o seu olhar de expressão estranha parou momentaneamente no noivo, postado ao lado e tendo ouvido tudo.
Ela se levantou, agradeceu e saiu do quarto ao chamado da mãe.
Após breve hesitação, Massalítinov sentou-se na cadeira deixada pela noiva e, inclinando-se a Mila, pediu-lhe para ler a sorte.
Esta embaralhou calada as cartas e falou para ele cortar o baralho.
Após abrir as cartas, Mila pensou sobre elas e disse, balançando a cabeça:
— Suas cartas também não estão boas, Mikhail Dmítrievitch.
Vejo uma grande perda de dinheiro; olhe para a sua carta:
ela está cercada por naipes pretos.
São seus inimigos e toda a espécie de dissabores, como se a falência de sua noiva o levasse à desgraça.
Oh, o senhor estará muito perto de uma decisão sinistra, mas o amor de uma mulher o salvará.
Ela ergueu a cabeça, dirigindo o olhar lascivo de seus olhos esverdeados no jovem, de súbito empalidecido.
Massalítinov sentiu um tremor gélido lhe traspassando o corpo, o que lhe exigiu toda a força de vontade para ocultar a angústia que lhe invadira o coração e fingir-se calmo.
Ele agradeceu a Mila e brincou sobre as suas previsões trágicas.
A conversa tornou-se generalizada, porém Nádya e o seu noivo perderam a anterior tranquilidade.
Suas almas estavam oprimidas por terrível peso e, alegando uma enxaqueca, Massalítinov partiu antes do jantar.
Nádya o acompanhou até o vestíbulo; lágrimas brilharam em seus olhos, quando o noivo repetidamente, nervoso e abrupto, beijou-lhe as mãos.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 19, 2016 7:59 pm

Mila deu um sorriso mordaz.
"Chorem, chorem, meus amigos!
Cantem o canto do cisne!
Brevemente o destino implacável cuidará de separá-los, e cada um encontrará a felicidade que merece.
Tenho-lhe pena, Nádya, mas não cederei meu homem.
Para alcançar o objectivo esmagarei todos os insectos em meu caminho.
Sorte minha que esse asqueroso Gueorgui Lvóvitch não esteja em Kiev para atrapalhar os meus planos."
De facto, Vedrinsky havia viajado para acompanhar os trâmites - segundo disseram - da transferência da enorme herança que tinha recebido.
A notícia de sua partida deixou Mila aliviada. A presença daquele jovem austero e comedido, cujo olhar límpido e severo parecia ler sua alma, literalmente a esmagava.
Lúgubre, de cabeça pesada e coração opresso, retornou Massalítinov para casa.
As previsões assustadoras de Mila produziram nele impressão angustiosa.
Como ela chegou a saber que ele tinha dívidas de jogo?
E se os Zamyátin de facto viessem a perder tudo, ele acabaria numa situação tão desesperante que só lhe faltaria meter uma bala na testa.
Bem, quanto à mulher que supostamente iria salvá-lo, não restava dúvida que seria ela
- Mila; isso era patente em seus olhos, incandescidos de paixão.
E essa possibilidade fez sua alma inflamar-se novamente de aversão àquela criatura, apesar de sua beleza indiscutível.
Ele estremeceu ao lembrar de seus olhos de serpente fulgindo ódio, quando ela lhe antevia tantos infortúnios.
Se, com tudo isso, Massalítinov ainda tivesse dúvidas quanto aos poderes divinatórios de Mila, a crueldade dela em relação a Nádya havia se manifestado naquelas previsões nefastas.
Que criatura mais estranha e enigmática:
repulsiva e, ao mesmo tempo, perigosamente sedutora!
Que feitiço maléfico irradiava aquele corpo frágil e flexível, qual de cobra, e seus olhos fosforescentes!
A fragrância que exalava daquela "flor do abismo" parecia inebriá-lo de súbita paixão incontrolável.
Mergulhado nesses pensamentos sombrios, Massalítinov ficou andando pelo quarto, alheio ao facto de suas passadas diminuírem, até ser dominado por um torpor, quando, sem se dar conta, ele deixou-se cair na poltrona com a cabeça inclinada em seu encosto.
Minutos depois, abriu os olhos. Sentia-se mais revigorado.
Nisso estranhou um cheiro de perfume diferente no quarto.
De onde vinha?
Abriu a janela, mas o aroma não era de fora e, ao se aproximar da cama, Massalítinov sentiu o odor mais forte.
Então reparou no criado-mudo um montículo de cambraia fina.
Era um lenço. Levado ao nariz, ele convenceu-se de que uma fragrância entorpecente emanava dele.
Lembrou-se então de vê-lo com Mila, quando ela lia a sorte nas cartas; provavelmente ele o pegara sem querer.
Sem pensar muito, ele atirou o lenço pela janela.
Na manhã seguinte, ele acordou tarde e bem disposto, sentindo uma vontade incontrolável de visitar a senhora Morel.
Este desejo foi se tornando tão torturante, que só sentiu alívio quando estacionou o coche diante da casa de Mila.
Recebeu-o Ekaterina Aleksándrovna, com muita cordialidade, e um pouco depois chegou Mila, queixando-se de ter dormido mal a noite por causa da enxaqueca.
Apesar disso, estava animada e, dessa vez, Massalítinov não achou nela nada de desagradável; ao contrário, ela lhe parecia graciosa e cheia de beleza inocente.
As anfitriãs lhe mostraram a casa.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 19, 2016 7:59 pm

A mobília era chique, a sala e o jardim de inverno luxuosos, assim como o amplo gabinete, rica e originalmente mobiliado em estilo oriental.
Um tapete persa cobria o piso e, nas paredes, viam-se penduradas valiosas armas orientais.
— Que decoração maravilhosa e original para uma dama!
Terá Ludmila Aleksándrovna um espírito guerreiro? - perguntou o visitante.
— Não, sua índole é pacífica e não é para o que se destina esse gabinete - riu Ekaterina Aleksándrovna.
O cómodo não tinha aplicação concreta e guardava essas armas que o meu falecido coleccionou durante seu serviço na África, então eu resolvi destiná-lo ao futuro marido de Mila.
— Feliz o mortal que ocupar esse gabinete - observou Massalítinov com sorriso gentil e olhar admirado.
Realmente, naquele minuto, flexível e delicada feito borboleta e, ao mesmo tempo, tímida e humilde qual criança, Mila parecia-lhe até sedutora.
A investigação da casa levou muito tempo e, quando eles retornaram à sala de estar, Ekaterina Aleksándrovna convidou o visitante a ficar para almoçar - convite aceito prontamente, pois uma força vaga parecia atraí-lo cada vez mais àquele lugar.
Após o almoço, Mila sentou-se ao piano.
Sua voz era bem trabalhada, ela acompanhava e cantava com paixão e expressividade.
Massalítinov sempre foi mimado, gostava de luxo, de boa mesa, de vinhos caros e, assim, sentiu-se bem na atmosfera da casa onde tudo respirava riqueza e fartura.
Ainda quando ele acompanhou a mostra dos aposentos, em sua alma se havia agitado um sentimento misto de arrependimento, decepção e inveja.
Tinha consciência da paixão da anfitriã e poderia usufruir de todo aquele brilho não fosse... noivo de Nádya, cujo dote era bem modesto em comparação com a riqueza de Mila.
E mesmo modesto, poderia contar com ele?
Na cidade corriam boatos alarmantes sobre a situação dos Zamyátin.
A ambição e a sede intensa pelos prazeres, que dormitavam em sua alma, ou seja, tudo o que era pior nele agora aflorava à tona.
Da mesma forma ele se rendeu ao convite para o chá, seduzido pelos olhos verdes e esquecendo o olhar límpido da noiva.
A casa dos Zamyátin preparava-se activamente para o grande baile.
Em comparação com os anteriores, marcados por animação entre o senhorio e a criadagem, o clima deste parecia sobrecarregado por uma indefinida inquietação.
Nádya andava deprimida em meio a maus pressentimentos.
Com atenção lúgubre e infatigável, ela vigiava o pai e o noivo e, certos detalhes, a que antes não dera importância, alarmaram sua alma.
Assim, reparou que seu pai andava ultimamente muito inquieto, a toda hora mandando ou recebendo despachos e, sempre como que aguardando a vinda de alguém, que acabava não vindo.
Estranhava também o comportamento instável do noivo, sentindo instintivamente que nele se processara uma transformação.
Seu olhar já não era tão franco como antes; por vezes, ela tinha impressão de ele evitar olhá-la de frente, como que com medo de trair seus pensamentos.
Finalmente chegou o dia do aniversário da senhora Zamyátina.
Desde cedo e a toda hora lhe chegavam cestos com flores, caixas de bombons e presentes dos familiares e amigos.
Logo afluiu uma multidão para parabenizá-la.
Após o almoço entre a família, as damas foram descansar e cuidar da toalete.
Massalítinov segurou Nádya pelo braço e a levou ao seu boudoir.
Ele lhe notara nos olhos uma expressão triste, quase sofredora, e isso o deixou com remorsos.
— Nádya, por que está triste?
Por que esse aspecto extenuado?
Aconteceu algo desagradável? - perguntou, atraindo-a aos seus braços.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 19, 2016 7:59 pm

— Não, Mikhail Dmítrievitch, não aconteceu nada.
Só estou angustiada como se alguma desgraça nos aguardasse em breve.
Não sei dizer o que vai acontecer, mas sinto algo sinistro pairando no ar.
Uma dor indizível me oprime o coração.
Oh, é o maldito Gorki!
Tinha razão o meu padrinho!
A desgraça alcança todos que lá viveram.
Foi lá que tive um sonho horrível, pressagiando a desgraça que me subtrairá tudo, inclusive você, Michel.
E a sua voz foi abafada por choro contido.
Ela não reparou o rosto do noivo tingir-se febrilmente com as suas últimas palavras, quando ele tentou consolá-la, mas sem coragem de fitá-la nos olhos.
— Ah, minha querida!
Como pode ficar à mercê de seus nervos e imaginar Deus sabe o quê?
Por que sem nenhum motivo desabaria o nosso destino?
Gozaremos as alegrias do presente ao invés de criar fantasias agourentas.
Algo no tom e nas palavras do noivo desagradou Nádya.
Ela se desvencilhou de seus braços e mediu-o com olhar penetrante.
— Tem razão. Devemos espantar essas fantasias.
E agora, até logo.
Preciso me vestir - e saiu do quarto.
Com a chegada da noite, as salas foram se enchendo de convidados.
Encantadora em seu vestido de gaze com narcisos nos cabelos e na lateral do corpete, Nádya voejava entre a multidão festiva, ajudando a mãe a recepcionar as visitas.
Parecia feliz e apenas um rubor febril nas faces lhe traía o nervosismo.
Ela não perdia de vista o pai e, vigiando-o disfarçadamente, notou o mordomo lhe dizer algo, após o quê, ele retirou-se ao gabinete, para onde foi introduzido um funcionário do banco, cujo estado de agitação a deixou impressionada.
Contudo, seus deveres de filha da anfitriã, somados aos convites de dança, detiveram-na no salão, e só na hora do intervalo ela foi procurar por ele.
Não o tendo encontrado em nenhum lugar, ela correu até a mãe e perguntou:
— Sabe se o papai ainda está com Vitte?
Já há mais de uma hora eles não saem do gabinete.
— Provavelmente um assunto importante o está retendo.
Quem sabe se seu pai sumiu porque não quer juntar-se à mesa do carteado dos velhos.
De qualquer forma, Nádya, vá chamá-lo, pois logo será servido o jantar.
Nádya foi ao gabinete dele, bateu à porta e, não obtendo nenhuma resposta, abriu-a.
A sala estava vazia, significando que o pai estaria no outro anexo de trabalho no fim do corredor, para onde ela correu.
— Abra a porta por um minuto! - disse ela, dando pequenas pancadas na porta trancada.
Abra, por favor, ou pelo menos responda!
Mas nenhum som em resposta.
Com o coração gelado, ela grudou o ouvido à parede.
Tinha que saber o que ali estava acontecendo.
Mas como entraria? Súbito se lembrou que na saleta do secretário, ao lado do gabinete, havia uma entrada.
Nádya irrompeu no quarto do secretário, iluminado por lâmpada de tecto e ficou aliviada: a porta estava aberta.
Ao adentrar, admirou-se que ali estivesse tudo escuro.
Teria o pai ido embora? Com a mão trémula, buscou o interruptor junto à escrivaninha e uma luz viva inundou a sala.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 19, 2016 8:00 pm

Os papéis, cartas e telegramas espalhavam-se desordenadamente sobre a mesa; a poltrona estava vazia, porém, quando Nádya olhou para o lado, estremeceu gélida de horror.
Sobre o sofá estava o pai estendido, de cabeça virada para trás, sua gravata estava arrancada, o colete desabotoado e no tapete ao lado via-se um revólver.
Muda, Nádya estacou petrificada; um nó na garganta lhe sustou a respiração e os olhos esbugalhados pregaram-se no cadáver.
Se o corpo lhe parecia sem vida, os pensamentos dela trabalhavam com rapidez febril.
Eis a desgraça que ela já pressentira algum tempo atrás!
Feito um autómato, a jovem saiu do gabinete e atravessou o corredor, os dois quartos de serviço e adentrou a sala que servia de bufê, naquele instante com duas pessoas:
um médico e um funcionário da chancelaria do governador.
O médico olhou apreensivo para Nádya a caminhar em sua direcção em passos vacilantes, branca e com olhar parado.
Estremecida de súbito, ela estacou.
Do salão, ouvia-se a música de valsa, e esse som alegre nela ricocheteou feito golpes de punhal no coração...
Enquanto o seu pai jazia morto, aquela multidão se divertia...
— Nadejda Filippovna, o que há com a senhora? - assustou-se o médico, tomando-a pelo braço.
— O pai... - só conseguiu pronunciar.
— Está passando mal?
Onde ele está?
Leve-me lá!
Encorajada por um lampejo de esperança, Mila levou-o ao quarto.
O médico se inclinou sobre Zamyátin e se pôs a examiná-lo.
— Tudo está acabado! - sentenciou ele, erguendo-se.
Filipp não fazia nada pela metade - e, virando-se para o funcionário que se postara hesitante junto à porta, acrescentou:
- Adolf Kárlovitch, por gentileza, vá ao salão e peça, sem fazer alarde, que parem com a música e as danças.
Diga apenas que Filipp Nikoláevitch está passando mal; não há necessidade de que todos saibam desta desgraça em toda sua extensão.
O jovem oficial virou-se para a saída para cumprir o pedido do doutor, mas nisso apareceu Zoya Ióssifovna.
Bastou-lhe apenas um olhar para compreender tudo.
Soltando um grito surdo, ela correu em direcção ao sofá, mas cambaleou e tombou sem sentidos sobre o chão antes de alcançá-lo.
O louvável desejo do médico em ocultar por algum tempo a verdade não teve êxito; a notícia sobre o suicídio de Zamyátin espalhou-se rapidamente, instalando perplexidade entre a multidão festiva.
As danças pararam e as mesas de jogo se esvaziaram.
Algumas pessoas conversavam à meia voz junto ao cadáver.
— Está claro que os boatos sobre os problemas financeiros de Zamyátin tinham fundamento.
Se fosse possível uma saída, ele não teria se matado.
Que família infeliz! - disse um dos presentes.
Massalítinov recostou-se no parapeito da janela, sentindo a cabeça zonza.
A comoção entre os convidados prosseguia.
Algumas damas não escondiam o choro convulsivo; contudo quase todos se apressaram a deixar a casa, em que o anjo da morte abrira as suas asas negras.
Escondida atrás das palmeiras e lantânios, Mila observava trémula o morticínio.
Que erupção de infortúnios desabou sobre aquela família há pouco feliz e hospitaleira.
A morte, a vergonha e a desgraça em todas as suas formas...
E, naqueles fragmentos das vidas despedaçadas, divisava-se sua felicidade pessoal...
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 20, 2016 7:39 pm

— Ahá! Agora eu compreendo os diabólicos ardis do meu pai.
As lágrimas e as pragas de suas vítimas serão os meus cantos nupciais.
Quantos crimes ainda pesariam em sua consciência?
Mesmo sabendo de tudo que iria acontecer e dado seu consentimento, ela não imaginava o quanto isso lhe seria difícil.
Naquele momento, falava-lhe, na alma, aquela partícula sagrada que ela herdara da desafortunada mãe.
O medo e os remorsos se defrontavam em meio a satisfação e triunfo sobre a rival.
Apanhando seu manto, ela correu para a saída e só respirou aliviada dentro do coche.
Um pouco mais tarde, Ekaterina Aleksándrovna voltava da casa de Zamyátina e contou a Mila que a infeliz ainda estava inconsciente e sua saúde inspirava ao médico muita preocupação.
Mila ficou indiferente às lamentações da senhora Morel, pois a piedade lhe era proibida...
Uma escuridão impenetrável e silêncio mortal envolveram a casa fulminada pelo infortúnio.
No salão, onde algumas horas antes a multidão dançava com entusiasmo, junto ao corpo descansando mudo no catafalco choravam convulsivamente seus dois filhos menores e ouvia-se a voz monótona da monja a recitar os salmos.
No dormitório, atrás do cortinado de seda do leito, agitava-se em febre nervosa Zoya Ióssifovna; uma enfermeira mudava a toda hora os sacos com gelo, e aos pés da cama, branca feito lençol, estava sentada Nádya.
Nenhuma lágrima lhe rolou pela face do belo rostinho, congelado em expressão de desespero; ela expedia as devidas determinações em voz baixa da garganta comprimida.
Massalítinov, alegando muita dor de cabeça por causa dos acontecimentos, foi embora.
Na despedida, Nádya ouviu calada as explicações do noivo e mediu-o com olhar desaprovador.
"Até ele está debandando" - pensou e premeu as mãos contra o peito.
"Estou sozinha... totalmente sozinha...
E o fim de tudo!"
Seu olhar passeou pelas salas abandonadas e parou na mesa, da qual, sob a vigilância da administradora, os serviçais calados retiravam a prataria, as flores e os cristais.
Aquela mesa ninguém mais se sentaria. Fechavam-se-lhe as portas do banquete terreno, do qual ela nada usufruíra.
Dominada pela sensação de amargura e desespero, Nádya deu as costas e retirou-se; queria se trancar no quarto, mas se lembrou da mãe enferma e foi até ela.
Os dias seguintes foram horríveis, contudo serviram de teste para seu carácter, de súbito avolumado a tal nível de energia, que não se poderia supor naquela moça frágil e mimada desde a tenra idade.
Além da dor espiritual, de todos os lados se desencadearam sobre Nádya os reveses do destino.
Na cidade só se falava do suicídio do director do banco e de sua falência; os trabalhadores e gente de poucas posses que confiaram ao banco suas parcas economias foram tomados de pânico.
Diante da casa, reunia-se a multidão irada, assediando o escritório e seus funcionários.
Os gritos deles chegavam até a sala, onde o corpo era velado, e faziam Nádya estremecer.
Assim que veio o auditor para lacrar os livros de contabilidade, Nádya lhe comunicou que sua mãe e ela abriam mão, inclusive, de todo o seu património pessoal para saldar as dívidas junto aos credores, à medida do possível.
O enterro de Zamyátin foi simples e realizou-se bem cedo, de manhã, com poucas pessoas estranhas.
Nádya seguiu o carro fúnebre com os irmãos menores, e nenhuma lágrima deslizou de seus olhos cálidos e secos, fila parecia ter esgotado sua capacidade de chorar.
A senhora Morel e Mila também vieram acompanhar o féretro, mas a frieza hostil com que Nádya recebeu os pesares delas fê-las ficar à distância.
Massalítinov levou a noiva até em casa e despediu-se, alegando compromissos com o serviço.
À noite daquele dia do enterro, Mikhail Dmítrievitch estava sentado em seu gabinete, amassando nervosamente pilhas de cartas e documentos sobre a escrivaninha.
De tez pálida, lábios trémulos e cenho carregado, seu olhar sombrio parecia estar perdido no espaço.
O dia anterior lhe desferira um golpe imprevisível e assustador.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 20, 2016 7:39 pm

Assediado pelos credores, cujas cartas estavam ali na mesa, exigindo a quitação imediata dos compromissos sob penas judiciais, ele compreendia bem que aqueles chacais estavam até então quietos por contarem com o seu enlace com uma mulher rica.
Oh, como ele amaldiçoava o seu insano arrebatamento que o empurrou para o jogo!
Mas de que adianta o tardio e inútil arrependimento?...
Ele estava irremediavelmente perdido.
O futuro se lhe apresentava humilhante, cheio de privações, às quais não estava acostumado.
Ele gostava do luxo e seu orgulho não suportaria a simples ideia de ter que largar de modo vexatório o exército, despojar-se do uniforme, abandonar os palcos brilhantes de vida e mergulhar numa existência obscura de privações... - seus punhos se crisparam e dos lábios se soltaram maldições.
Não, é preferível a morte!...
Zamyátin não lhe teria mostrado o exemplo?
Uma bala na têmpora poria um termo tanto às dívidas, quanto à existência insuportável.
Massalítinov pôs-se de pé resoluto, chamou pelo ordenança e, após lhe mandar trazer duas garrafas de champanhe no balde de gelo, dispensou-o.
Mas antes de dar o passo definitivo, ainda lhe faltava organizar uns papéis e escrever algumas cartas de despedida com explicações.
Ele sentou-se na cadeira diante da escrivaninha e afundou-se em devaneios.
Sua alma sofria e estremecia de terror diante do abismo insondável em que ele se atiraria.
O jovem corpo, forte e cheio de vida, se insurgia contra a autodestruição.
Um tremor glacial o sacudia e pelo rosto escorria suor.
E qual seria seu assombro, se tivesse olhos para enxergar a turba invisível ao seu redor:
a comitiva nefasta de quem está por perpetrar uma acção criminosa contra sua própria vida!
Embora, normalmente, um suicida não os veja ou sequer suspeite da existência das asquerosas criaturas de contornos indefinidos em forma de massa gelatinosa, caras transfiguradas do ódio, que ao infeliz se grudam e o devoram com olhares cobiçosos, ele acaba cedendo à sugestão de consumar imediatamente o ato ignóbil diante das visões horripilantes da vergonha e pobreza inevitáveis.
Com impaciência febril, aguardam esses répteis o momento de saciar-se do sumo vital que jorraria em profusão do cadáver do suicida...
A inspiração maravilhosa dos antigos criara a imagem de Medusa, em cuja cabeça as serpentes simbolizam pensamentos malévolos e perigosos dos répteis verdadeiros...
Infeliz é o homem que der ouvidos a estas criaturas do espaço, conselheiros sinistros dos servidores das trevas!...
Sendo ateu, Massalítinov nem poderia pressupor uma influência oculta.
Obviamente, sua intenção de acabar com a vida só tinha relação com a sua última insensatez.
Febril e célere, ele agarrou a pena e pôs-se a escrever.
A alvorada não o encontraria mais com vida.
Naquela mesma noite, Mila preparava-se para deitar.
Ela dispensara a camareira, dizendo-lhe que iria ler um pouco e, depois, se despiria sozinha.
Desde o dia fatídico do baile, ela se encontrava no pior dos humores.
Seus remorsos pelo terrível infortúnio dos Zamyátin evaporaram-se dando lugar aos interesses próprios, acentuados pelos ciúmes.
Massalítinov não a visitava ultimamente e ela só o encontrou na missa do réquiem, conquanto no enterro ele mal falara com ela e parecia sombrio e preocupado.
Apreensiva e irada, ela não conseguia compreender como Michel poderia ser tão tolo, permanecendo fiel a Nádya e arriscando-se a ficar mendigo.
Mal ela acabou de tirar o penhoar, notou no criado-mudo uma carta, onde com a letra de Krassinsky estava escrito:
"Acuado pelos credores, Massalítinov pretende se matar.
Agora é sua chance de ir salvá-lo e ele será seu.
As portas do balcão e do jardim da casa dele estão abertas.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 20, 2016 7:39 pm

Pegue a carteira vermelha que eu lhe dei em Gorki e lhe dê os setenta e cinco mil rublos.
Coloque em seu pulso o bracelete de cobre com a cabeça de coruja e ninguém a notará lá.
Quando estiver com ele, ponha em seu dedo o anel com rubi e diamantes negros e, então, nenhuma força humana poderá tirá-lo de você.
Ao sair daqui, borrife a essência que você já usou antes, pois ninguém deverá suspeitar a sua ausência.
Mas apresse-se, antes que as larvas e os vampiros o dominem e empurrem para o suicídio.
Com as mãos trémulas, ela rasgou a carta em pedacinhos e vestiu rapidamente um traje negro de linho.
Envolvendo-se em capa escura com capuz, colocou o bracelete e o anel e, atravessando a casa, borrifou por todo o lugar o líquido entorpecente.
Um quarto de hora mais tarde, já estava na rua.
Conhecia a casa de Massalítinov, que morava perto.
A noite estava péssima:
soprava um vento gelado e chuviscava.
Sem dar atenção a isso, Mila esgueirou-se pelas ruas já desertas.
Massalítinov ocupava cinco quartos do andar inferior e jardim.
Conforme escrevera Krassinsky, o portão do jardim encontrava-se aberto.
Uma das janelas estava iluminada e a seu lado havia um terraço.
Sem hesitar, Mila galgou as escadas, girou a maçaneta e a porta se abriu silenciosamente; o caminho estava livre.
O coração da jovem batia acelerado, e não por causa do seu recato feminino ou vergonha de adentrar a casa de um homem estranho: torturava-a o temor de chegar atrasada.
Agilmente, esgueirando-se feito gato, ela atravessou o primeiro quarto e entreabriu devagarinho a porta do outro, onde se entrevia uma luz.
Junto à escrivaninha, viu Massalítinov sentado, mortalmente branco diante da mesa com envelopes e, no chão, havia uma garrafa vazia de champanhe.
Na mão crispada, ele segurava um revólver.
Mila feito flecha viu-se ao seu lado e lhe agarrou a mão.
— O que pretende fazer, infeliz? - sussurrou ela.
Despedir-se da vida que ainda poderá ser maravilhosa, cheia de felicidade, glória e riquezas?...
Soltando um grito rouco, Massalítinov se virou, deixando cair a arma.
Não estando em condições de dizer algo pela estupefacção, ele fitou a jovem que, a ponto de perder o homem amado, jamais lhe parecera tão linda e encantadora como naquele momento.
Seu lindo semblante corou levemente, e as madeixas cheias reverberavam em ouro no fundo escuro do capuz.
— Ludmila Vyatcheslávovna!
A senhora aqui?
O que significa? - pronunciou.
Mila ajoelhou-se junto à cadeira e tomou-lhe a mão.
— O senhor quer acabar com a vida, Mikhail Dmítrievitch?
Já que daqui a uma hora ela não mais lhe pertenceria, entregue para mim esse bem precioso - suplicou ela, erguendo para ele seus olhos de sereia.
Massalítinov a levantou apressado e enxugou a testa suada.
— Se eu quero acabar com a vida é porque ela já não me pode dar nada, excepto vergonha e pobreza - murmurou.
Sou um devedor inadimplente, Ludmila Vyatcheslávovna, que só poderá quitar as dívidas com o próprio sangue.
A mulher que me ama não posso dar ao menos um sobrenome honesto, pois ele está maculado.
— Sei de tudo isso - assegurou Mila -, e vim tirá-lo dessa situação.
— Sabe? - balbuciou Massalítinov, surpreso.
De que forma?
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 20, 2016 7:40 pm

— Que diferença faz?
Um coração apaixonado tem sexto sentido e eu o amo mais do que tudo no mundo.
Tentarei alindar-lhe a vida com felicidade e amor.
Pegue esta carteira, onde há setenta e cinco mil rublos.
Será suficiente para acertar suas contas.
Tudo que eu possuo lhe pertence e só tem valor se compartilhado.
— Mila, sua generosidade me embaraça.
Poderei dela usufruir? - balbuciou Massalítinov atónito e, feito ébrio, apoiou-se na escrivaninha.
— Generoso será se me der sua vida e romper com Nádya, o que, aliás, eu posso concluir pela carta, na mesa, a ela endereçada.
Mas, qualquer que seja sua decisão, não me negue uma coisa:
siga a vida, pegue o dinheiro e, de lembrança, também este anel.
Massalítinov não opôs nenhuma resistência, quando ela lhe enfiou no dedo o anel com rubi e diamantes negros.
Sobreveio silêncio momentâneo.
Os olhos de Massalítinov não conseguiam se despregar da encantadora criatura a suplicar-lhe o amor.
Feito própria sedução, personificando riquezas futuras com seus prazeres, uma onda cálida afluiu-lhe ao coração.
Uma sede irresistível à vida tomou conta dele.
Como poderia rejeitá-la?
Ela acabou de resgatá-lo do abismo do mundo incógnito e terrível.
A imagem de Nádya esmaeceu e, se pouco isso fosse, apresentava-se-lhe até como um obstáculo revoltante.
O que ele lhe poderia dar?
Não fosse Mila, antes mesmo de amanhecer ele seria um cadáver.
Quantos casamentos não deram certo por motivos ainda menos importantes?
Nádya era muito atraente e por certo encontraria outro homem.
Chega de indecisões!
Ele atraiu a si a jovem e lhe deu um beijo.
Mila retribuiu com outro, bem mais ardente.
A cabeça de Massalítinov tonteou.
Ele se esqueceu de tudo; esqueceu que um quarto de hora antes planeava acabar com a vida.
Ele só enxergava os olhos em brasa e os lábios súplices da bela mulher a se entregar para ele.
Com um grito surdo, atirou Mila sobre o sofá e rasgou-lhe o vestido...
Estava amanhecendo quando os amantes acordaram.
Mila foi a primeira e, sem incomodar Massalítinov, começou a se vestir com mãos trémulas e depois o acordou.
Ele ergueu-se de salto, sem nada entender, mas imediatamente se lembrou de tudo.
— O que eu fiz! - gritou, afundando a cabeça nas mãos.
Não pense em nada, querido, e lhe agradeço pela felicidade proporcionada.
Nesta hora solene, juro consagrar minha vida para torná-lo feliz.
Preciso correr para casa, mas, antes, prometo-lhe guardar discrição.
Nosso noivado ficará em segredo até que você esclareça definitivamente sua relação com Nádya.
Suponho que, nas atuais circunstâncias, ela mesma o isentará do compromisso.
Até mais tarde!
Venha às duas horas, pois minha mãe não estará em casa.
Alguns dias se passaram desde aquela noite memorável.
Na casa dos Zamyátin nada mudou.
Zoya lóssifovna permanecia entre a vida e a morte e, no escritório, fervia o trabalho das autoridades judiciais que examinavam as contas do banqueiro falecido.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 20, 2016 7:40 pm

Às vezes, vinham em visita amigos verdadeiros para se informar da saúde da viúva e dar seu apoio à órfã, sobre a qual desabara todo o peso da desgraça.
Nesses dias difíceis, Nádya revelou uma extraordinária força de espírito, que a todos surpreendeu.
Olhos secos e ardentes, olhar firme e lábios premidos, ela ficava de plantão junto à cabeceira da mãe, ou expedia as ordens para gerenciar a casa.
No dia seguinte ao enterro do pai, cuidou dos assuntos da casa e implantou novas ordens; toda a criadagem supérflua foi dispensada, o cozinheiro foi substituído por cozinheira, a governanta inglesa foi também despedida, ficando apenas sua auxiliar, uma russa que estava na casa desde a tenra idade de Nádya.
Perturbava-a, contudo, o comportamento de Massalítinov.
Tanto na missa de réquiem, como no enterro, ele estava frio e estranho e, nos últimos dias, sequer aparecia.
Sua mensagem de desculpas, alegando compromissos com o serviço e indisposição passageira, despertou em Nádya sentimento de amargura.
Certa manhã, a Nádya anunciou-se a vinda da senhora Morel.
Inicialmente ela não quis recebê-la, mas, pensando melhor, mandou que ela a esperasse na saleta de visitas.
Ekaterina Aleksándrovna parecia sem jeito.
Após indagar sobre a saúde da mãe e a situação das coisas, ofereceu à jovem uma ajuda monetária, de pronto recusada.
A senhora Morel balançou a cabeça.
— E uma tolice recusar a minha oferta, tendo em vista que tanto seu noivo como você estão numa situação lamentável.
Ele .está endividado e, se ninguém o ajudar, terá de largar o serviço...
Casar e manter uma família será impossível.
Talvez se conseguir uma reforma, ele possa arrumar um lugar na companhia ferroviária com minha ajuda.
Nádya a ouvia incrédula.
— Eu ignorava que Mikhail Dmítrievitch tivesse dívidas.
Poderia ter falado com papai e quem sabe ele encontraria alguma solução.
Provavelmente, a senhora ou Ludmila Vyatcheslávovna são mais dignas da confiança dele - e um sorriso amargo deslizou-lhe pelo rosto.
Agradeço-lhe as boas intenções, mas jamais aceitaria um sacrifício de Mikhail Dmítrievitch; ele não é uma pessoa que aceite privações.
Na minha condição de pobreza, está mais do que claro que o nosso casamento foi por água abaixo, assim eu lhe devolverei a liberdade e ficarei livre também, agora que terei de cuidar dos meus pequenos irmãos e não posso largar a minha mãe.
Quanto a Mikhail Dmítrievitch, ele não terá dificuldade de arrumar outra noiva.
Talvez mais rica do que fui.
— Nádya! Nádya!
Como pode ser tão injusta!
Está julgando Mikhail Dmítrievitch com muito rigor e não quer entender que "où il n'y a rien le roi perd son droit".
O pobre jovem tem a consciência da precariedade de sua situação e está totalmente desesperado.
— Sim, por outro lado, nos difíceis momentos por quais eu estou passando, uma palavra amiga me seria um consolo,
um apoio. Desde o primeiro minuto do nosso infortúnio, compreendi que o nosso casamento desmoronaria, mas alentava a esperança de que, nessas horas difíceis, ele confortaria e não deixaria de amar. Na pior das hipóteses, permaneceria meu amigo, um irmão, um conselheiro, sem qualquer obrigação. Tenha a bondade de tranquilizar Mikhail Dmítrievitch!
Ele está livre e eu jamais ficarei em seu caminho.
Nádya se levantou e, desculpando-se pela necessidade de ver a mãe, despediu-se friamente.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 20, 2016 7:40 pm

Precisava executar mais uma difícil formalidade e não queria perder tempo.
Sombria mas resoluta, pegou a grande caixa de madeira com incrustações em marfim e dela despejou todas as jóias, os badulaques e os presentes do noivo, inclusive retratos, excepto um, que há pouco pusera no álbum.
Em seguida, sentou-se à escrivaninha e escreveu uma carta:
"Apresso-me a tranquilizá-lo quanto a sua situação em relação a mim.
A aliança, dentro do envelope, falará por si que o senhor está livre e nada mais o prende a mim.
Tão logo vi o meu pai morto, compreendi que a filha de um suicida arruinado não poderia ser esposa de um homem tão brilhante como o senhor.
Mas de todos os reveses da vida, o golpe que mais me abalou foi a sua frieza, seu medo de se comprometer em expressar-me uma menor disposição, ou pelo menos dar mostras de lamentar a minha dor.
Foi doloroso me convencer de que a pessoa a quem eu amava poderia ter uma alma tão fria e vazia.
Aliás, esta desilusão talvez tenha um lado bom e irá cicatrizar minhas feridas, pois, onde não há respeito, vem o esquecimento.
Nádya"
Ela enfiou a aliança no envelope, colou-o, colocou na caixa e a mandou entregar.
Massalítinov acabara de retornar do serviço, quando lhe entregaram a encomenda.
A visão da caixa e, sobretudo seu conteúdo, perturbaram-no profundamente; seu coração foi estocado por uma dor aguda com a ideia de perder Nádya para sempre.
Instintivamente, ele sentia a justeza de suas palavras.
Milhares de dúvidas e suspeitas sombrias afluíram-lhe à mente ao relembrar a noite em que possuíra Mila e o seu compromisso de noivado; e um sentimento de repugnância jamais sentido dele se assomou.
Como poderia sair daquilo?
Toda a vez que ele estava perto dela, uma paixão inebriante dele se apossava.
E de repente, só de pensar nela, assaltava-o a vontade incontrolável de ver e beijá-la a noite inteira, como naquela ocasião.
Ele fechou apressado a caixa e se pôs a vestir para ir à casa de sua recente noiva.
Hoje ele lhe proporcionaria uma enorme satisfação com as palavras:
"Eu estou livre.
A própria Nádya livrou-me do compromisso...”
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 20, 2016 7:40 pm

Parte 2
Não podeis tomar do cálice do Senhor e do cálice do Satanás; não podeis participar no repasto com o Senhor e no repasto com o Satanás.

l. Romanos, X, 21

"Assim submetei-vos a Deus; oponham-se ao diabo e ele fugirá de vós".
Jacó, IV, 7.

Mais de quatro meses se passaram desde o passamento de Zamyátin.
Zoya Ióssifovna ainda residia com os filhos em sua antiga casa, já vendida; logo todos deveriam se mudar para uma pequena moradia num local afastado, que seria desocupada em uma semana.
Tão logo eles saíssem, haveria a venda pública de todos os seus bens móveis, dos quais Zamyátina abriu mão a favor dos credores.
Entre os amigos leais dos Zamyátin permaneciam o velho professor e a vizinha deles em Gorki - Maksákova, que estava passando o inverno em Kiev, onde o filho dela servia.
A cálida espontaneidade de Maksákova surpreendeu no início Nádya e sua mãe, já que elas não a conheciam bem, mas logo ambas se afeiçoaram àquela mulher que, obsequiosa e afável, ajudou-as muito nos problemas de casa.
Descorada e muito emagrecida, Zoya Ióssifovna vivia sentada na poltrona, recostada nas almofadas, depois de dois meses deitada na cama e cuja saúde se restabelecia assaz lentamente.
Numa cadeira junto à mãe, Nádya lia maquinalmente as Escrituras Sagradas, todavia seus pensamentos estavam distantes.
A jovem mudara muito:
sua tez rosada deu lugar à palidez diáfana, o lindo rostinho definhou-se um pouco, os olhos parecia se tornarem maiores e nos lábios miúdos apareceu uma prega de amargura e seriedade.
Ela e a mãe ainda estavam em profundo luto.
Esses últimos meses serviram a Nádya de dura escola.
Por semanas inteiras, ela se inquietou pela vida da mãe, e quando esta se deu conta de todo o horror da desgraça, por pouco não recaiu na enfermidade.
Mas Zoya Ióssifovna era uma mulher de muita fé, e esta, mais o seu amor materno, a sustentaram; ela precisava continuar a viver para não deixar totalmente sozinha sua filha valorosa que, com tanta firmeza, passava por aquela terrível provação.
De um modo geral, a força do espírito e o desprendimento material das duas mulheres despertaram na sociedade uma enorme empatia e admiração; ao mesmo tempo, o rompimento apressado de Massalítinov com a noiva e a notícia de seu noivado com outra comprometiam a sua reputação.
Nádya interrompeu a leitura para ministrar à mãe um remédio, quando a porta se abriu e entrou Maksákova.
— Ah, queridas amigas! - exclamou ela, antes de beijar as duas.
Finalmente, depois de tantas notícias más, quero lhes anunciar uma boa.
Ontem à noite houve uma reunião dos credores e eles abriram mão da dacha de vocês nos arredores da cidade, com todo o seu inventário.
Isso é justo, depois de tantos sacrifícios em prol dos vitimados.
O que mais os impressionou, foi o gesto magnânimo de Nádya renunciando Gorki com seus bens, que eram seu dote.
Ah, a propósito, sabem quem comprou Gorki?
Ludmila Vyatcheslávovna, e pagou um preço bom.
Nádya ergueu a cabeça e seus olhos chisparam.
— Esta, de facto, é a melhor notícia!
Eu teria pena de qualquer outro comprador, mas aquele lugar sinistro lhe é bem apropriado.
Faço votos que ela desfrute de todos os encantos que Gorki propicia a seus donos.
— Basta, basta, minha querida, não seja maldosa - observou Maksákova, abraçando-a.
Falemos de negócios; eu ainda não contei todas as notícias boas.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 20, 2016 7:40 pm

Nos últimos dias, Zoya Ióssifovna, os maiores credores, amigos de seu falecido, destinaram a seu favor um capital de 15 mil rublos.
Isso vai lhe assegurar uma razoável receita e, com a dacha, vocês ficam livres das preocupações quanto a moradia e poderão levar uma vida modesta mas boa.
Assim, aconselho-a, querida, a mudar para lá tão logo possível.
Espero que até amanhã vocês consigam arrumar as coisas e eu mandarei um coche para vocês.
Zoya Ióssifovna beijou a amiga e, emocionada, agradeceu-a pelo apoio.
Esta acrescentou, tentando dar um outro rumo à conversa:
— Quero lhes apresentar o meu projecto para Nádya.
Devemos afastá-la daqui, visto o noivado de Mila com aquele patife apenas agravar seu infortúnio e, longe daqui, ela esquecerá dele.
— Oh, se eu pudesse viajar! - exclamou Nádya.
— Só depende de você, queridinha.
Zoya Ióssifovna, você conhece Rostóvskaya?
— Eu a conheci no exterior.
— Pois bem, ela é uma pessoa maravilhosa, além de ser rica e independente.
Seu médico lhe aconselhou passar algum tempo num clima quente e, assim, ela pretende viajar ao exterior por uns sete ou oito meses e levar consigo uma dama de companhia jovem, de boa família, com formação sólida, que conheça um pouco de música.
Como Nádya canta e toca bem piano, pensei nela.
Rostóvskaya paga bem e eu garanto que Nádya se dará com ela como uma pessoa de casa.
Já conversei com Anna Nikoláevna e, se a mamãe e você, Nádya, concordarem, o assunto está resolvido.
Nádya corou levemente.
Parecia-lhe uma verdadeira salvação a possibilidade de não encontrar a cada passo os rostos conhecidos, sobretudo o do ex-noivo e de Mila.
— Eu gostaria muito de aceitar a oferta, mas como deixaria a mamãe?
Ela ainda está tão fraca - balbuciou ela, hesitante.
— Não, não se preocupe com isso!
Na nossa belíssima dacha, eu passarei muito bem, e você necessita de outro ambiente para recuperar o equilíbrio da alma e esquecer por completo o patife que agiu com você de modo tão torpe.
Lá você se distrairá.
Querida Aleksandra Pávlovna, transmita, por favor, à madame Rostóvskaya que eu aceito com gratidão sua oferta; Nádya vai com ela e espero que ela goste de minha filha.
— Sem dúvida.
Daqui eu voarei até a casa dela.
Eu sei que ela gosta de ser cercada de gente bonita e precisamos apenas resolver a questão dos trajes de Nádya.
Embora ela esteja de luto, deverá se vestir com elegância, pois Rostóvskaya se hospeda nos melhores hotéis, tem por toda a parte numerosos conhecidos e frequenta os melhores balneários marinhos da moda.
Além do mais, ela só viaja daqui a dez dias, portanto temos bastante tempo.
— Felizmente, ela não precisa comprar nada, já que seu enxoval estava pronto e, na certa, encontraremos trajes apropriados.
A nossa prata, as jóias e os demais utensílios caros nós entregamos à massa falida e tudo será vendido no leilão, enquanto que todo o vestuário ficou com ela.
— Excelente! Por enquanto, adeus, minhas amigas; estou voando à casa de Anna Petróvna - disse madame Maksákova, despedindo-se.
Quando mãe e filha viram-se sozinhas, Nádya abaixou-se nos joelhos da mãe e, ocultando o rosto no vestido dela, desabou em pranto.
Após a terrível catástrofe, eram suas primeiras lágrimas, aliviando o coração sofrido.
Zamyátina afagou-lhe carinhosamente a cabeça.
— Chore, chore, minha pobre criança!
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 20, 2016 7:41 pm

As lágrimas são uma dádiva celeste a arrastarem embora a infelicidade...
Assim que Nádya se acalmou um pouco, a mãe a puxou a si e beijou.
— Tenha esperança na misericórdia de Deus e acredite que as provações por Ele enviadas nos servirão para o bem.
Concordo que a nossa dor é enorme, mas ela ensinou-lhe muito, inspirou-lhe sabedoria e energia...
Tenho certeza de que chegará o tempo em que você abençoará essa hora de amargura que lhe desmascarou a pessoa amada em toda a sua monstruosidade moral, revelando seu coração e ambições torpes.
Você se esquecerá dele, você se apaixonará por outro e será feliz.
Agora enxugue as lágrimas e me dê as gotas e o vinho.
Preciso de forças para arrumar as coisas; quero sair daqui o mais rápido possível e, na dacha, ficarei mais calma.
— Mamãe, todo mês eu vou lhe mandar a metade do meu ordenado, pois estou preocupada como você se arranjará com recursos tão parcos.
Eu posso cuidar das coisas sozinha, já que não há muito o que arrumar.
— Não é preciso enviar-me o dinheiro, porque me arranjarei bem.
Seu pai pensou em tudo na dacha:
temos leitaria, aviário, pomar e horta; a casa está mobiliada e teremos todas as comodidades às quais estamos acostumadas.
Você sabe:
lá é quase uma fazenda.
O velho Afanássio, o caseiro, ficará a nosso dispor, e sua filha Dúnya é excelente cozinheira e ficará feliz em morar connosco e cuidar das crianças.
Ó, você vai ver como eu me arranjarei bem!
Por exemplo, a casa:
ela é bem espaçosa, eu ficarei com a parte de baixo, e os seis cómodos de cima poderei alugar no verão, junto com uma parte do jardim, que pode ser separado por cerca de madeira.
Temos o celeiro cheio de lenha, suficiente para um ano.
A boa Olga Ivánovna quer ficar connosco sem cobrar o ordenado e nós todas cuidaremos das crianças; terei tempo à vontade, pois não viajarei nem farei recepções.
Você vai ver: tudo vai dar certo.
Agora vá arrumar as malas, enquanto eu tiro uma soneca.
Faz tempo que não estou tão calma; depois eu a ajudo.
No dia seguinte tudo estava pronto para a partida.
Alguns baús e quinquilharias foram expedidos na carroça, acompanhada pela única camareira que ficaria.
Pela derradeira vez, Nádya rondou a luxuosa casa onde crescera.
Jamais ela iria rever os objectos tão queridos e familiares: o gabinete chinês, o cantinho preferido dela, a biblioteca onde o pai gostava de ler e fumar.
Um nó na garganta enrascou-lhe as convulsões de choro, porém ela não queria ceder à fraqueza e, dominando energicamente o nervosismo, virou-se e correu em direcção à mãe e irmãos.
Na dacha por elas esperava uma grata surpresa.
No refeitório, um cómodo aconchegante, preparava-se o desjejum; fervia o samovar e um cesto de flores, um bolo e uma caixa de bombons, enviados por amigos leais, estavam na mesa; o clima festivo exerceu um efeito benéfico sobre o humor dos novos moradores.
Mal todos se sentaram à mesa, chegou Maksákova em companhia de Rostóvskaya.
Imediatamente se encetou uma conversa agradável, as visitas buscando distrair a família dos pensamentos sombrios.
Rostóvskaya beijou Nádya e pôs-se a falar da viagem.
Era uma mulher de meia-idade, de estatura mediana e um tanto cheiinha - daquelas que nunca envelhecem.
Muito rica, livre, sem filhos ou sequer parentes próximos.
Anna Nikoláevna era de bondade surpreendente e com isso usufruía da afeição geral.
— Leve com você seus trajes de sair, querida.
Vou lhe arrumar um marido - brincou ela.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 20, 2016 7:41 pm

Mais tarde, despedindo-se de Zamyátina, ela a abraçou efusivamente e murmurou, premendo-lhe forte a mão:
— Fique tranquila, Zoya Ióssifovna, vou tomar conta de sua maravilhosa filha, como se ela fosse minha.
Os dias seguintes foram dedicados à arrumação da nova residência e aos preparativos da viagem de Nádya.
De seu maravilhoso enxoval, ela escolheu os trajes pretos e brancos, entre os quais de lã, seda, cambraia e rendados; pegou também dois vestidos cinza de meio luto, bem como o casaco e os chapéus que combinavam com os trajes.
Dois baús, inicialmente destinados à viagem nupcial, estavam lotados até a borda e, uma semana após a mudança para a dacha, Nádya encontrava-se no vagão que a levaria para uma nova vida...
Naquela mesma noite, Mikhail Dmítrievitch encontrava-se na casa da noiva.
Embora gozasse de boa saúde, parecia mais magro e pálido.
Os olhos esmeraldinos de Mila e suas carícias felinas decididamente o tinham seduzido, mantendo-o escravizado, e a ostentação da magnífica casa brincava com sua imaginação de brevemente ela ser sua.
Em outros momentos, ele era tomado por receios em vista da tempestuosa paixão da estranha mulher, e em seu coração se revolvia o amargo pesar da perda de Nádya.
Eles acabaram de tomar chá e estavam conversando num cantinho aconchegante do boudoir de Mila, revestido por seda com desenhos de rosas; Ekaterina Aleksándrovna bordava ouvindo.
Seu semblante carrancudo revelava algum desgosto.
Os jovens construíam seus planos para o futuro, quando Mila disse:
— Sabe, Michel, fiz uma aquisição que me proporcionou enorme prazer.
Ao notar a surpresa do noivo, adicionou:
- Comprei Gorki.
A propriedade era dote de Nádya.
Ainda bem que aquele almirante estouvado encheu a cabeça dela de baboseira e ela ofereceu o imóvel à venda.
Casualmente, eu soube disso e o comprei.
Pediram muito, mas eu... nem pechinchei, assim lhe sobra mais dinheiro para arrumar marido...
Ela se pôs a rir, o que deixou Massalítinov constrangido.
— Que fantasia estranha em comprar esse "ninho do capeta" - como ficou famoso.
De qualquer forma, aos Zamyátin esse Gorki só trouxe desgraça - completou.
— Ih, Michel, não sabia que era tão supersticioso.
É um absurdo acreditar que o lugar tão maravilhoso só traga desgraça.
— E verdade, o local é maravilhoso, mas eu o odeio.
Fiquei impressionado com tantos infortúnios que desabaram sobre todos os seus proprietários.
— Eu também não gostei da compra; aliás, todo dinheiro que Nádya apurou foi gasto para pagar os credores - observou Ekaterina Aleksándrovna.
A propósito, Nádya viajou de Kiev - acresceu.
— Como? Para onde? - surpreendeu-se Mila.
— Para onde, não sei, mas eu a vi partindo com os meus próprios olhos.
Você sabe, de manhã eu fui acompanhar a velha Franki na estação e eis que vejo Anna Pávlovna Maksákova com Zamyátina perto do vagão e, na janela, Nádya com uma mulher de meia-idade delas se despedindo.
Nesse minuto o trem partiu.
Ao aproximar-me para conversar, elas me receberam friamente e apressaram-se em ir embora.
Posso lhes garantir que o nosso relacionamento com os Maksákov não é dos melhores.
— Não importa, não precisamos deles - considerou Massalítinov, carregando o cenho.
Só não gostaria de passar a nossa lua-de-mel em Gorki.
- Já protesto de antemão.
Prefiro passar aqui, num lugar mais aprazível, ademais, o meu serviço me impede ficar muito tempo fora.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 20, 2016 7:41 pm

— Está bem, está bem, não iremos este ano ao "ninho do capeta", no restante o programa permanece igual.
Eu e minha mãe vamos cuidar do dote antes do casamento.
Quanto a Nádya, no mínimo ela arrumou uma vaga de "virgem de companhia".
Entendo que Zoya Ióssifovna está magoada com você por causa do nosso casamento, mas o que tem com isso Aleksandra Pávlovna?
E você, Michel, pare com esse sentimentalismo todo.
Naquela noite, Massalítinov voltou para casa mais cedo que de costume, sentindo necessidade de ficar sozinho, sua cabeça doía.
Vestido de robe, ele atirou-se no sofá e mergulhou em devaneios.
A conversa com Mila ressuscitou em sua memória a imagem pura e inocente de Nádya, seu amor humilde e leal, bem como os momentos da felicidade tranquila passados com ela.
Aquela bem-aventurada paz parecia ter desaparecido para sempre.
Apesar da incomparável beleza de Mila, de sua paixão a ela e o estranho feitiço sobre ele exercido, ele não era feliz.
Sua habitual jovialidade despreocupada desaparecera, e na alma se instalara uma angústia indefinida, subtraindo-lhe a paz, o sono e o apetite.
Na penumbra, quando ele se sentava ao lado da noiva que, num ímpeto de paixão lhe cingia o pescoço ou se lhe apertava com a cabeça ao peito, assaltava-o um verdadeiro pânico.
Quando os olhos verdes de Mila o fixavam perscrutadores e os lábios vermelhos sanguíneos lhe sorriam, ele tinha a impressão que ela lhe cravaria os pequenos e afiados dentes no pescoço para sugar todo o seu sangue.
Por vezes, ela parecia adivinhar seus temores, e uma chama cruel e zombeteira inflamava-se-lhe nos olhos esverdeados como se ela se deleitasse com a fraqueza interior dele.
Nesses minutos, ele tinha por aquela mulher enigmática um ódio indescritível mas impotente.
Durante o dia, todas estas impressões se apagavam, e ele acabava zombando de si mesmo ao atribuir aqueles pensamentos absurdos a seus nervos abalados.
Bem-humorada, enérgica e independente em questões financeiras, Rostóvskaya gostava de mudar de lugar.
Os meses do inverno e primavera, ela passou em Florença e Mónaco e, depois, parou em Hainstein.
Sua agradável companheira de viagem chamava muita atenção pela beleza e charme, e muitos a tomavam por filha de Rostóvskaya, de facto tratada como sua.
Nádya se sentia bem em novos ambientes.
Novos lugares, pessoas, obras de arte deslumbrantes - tudo a fazia esquecer os reveses sofridos, enquanto as cartas da mãe davam conta de ela estar bem na dacha e gozando de boa saúde.
Tudo isso, somado à boa disposição da protectora, contribuía para o bem-estar espiritual da jovem.
A imagem de Massalítinov embaçara-se significativamente e nem mesmo a notícia de seu casamento produziu nela alguma impressão forte.
No fim de julho, Rostóvskaya e Nádya achavam-se em Truvile.
Era uma maravilhosa noite de verão e Anna Nikoláevna com sua acompanhante, após um passeio de carruagem, foram ao jardim do cassino.
Havia um concerto a céu aberto, e elas se sentaram à mesinha para tomar sorvete.
Rostóvskaya esquadrinhou o público em volta e, súbito, exclamou alegre:
— Que surpresa, Adam Bélsky está aqui!
Eu conhecia bem a mãe deste jovem.
Pobre Leopoldina morreu de infarto há alguns meses.
Mas o que é isso?
Ele está olhando em nossa direcção e não se aproxima para cumprimentar.
Será que eu mudei tanto nos últimos dois anos?
Olhe, Nádya, ali à esquerda um jovem loiro está conversando com o senhor de bigodes pretos.
É aquele!
— Eu conheço o conde e encontrei-o várias vezes na casa dos Maksákov.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 20, 2016 7:41 pm

Naquele tempo, ele cortejava incansavelmente Ludmila Vyatcheslávovna, e todos achavam que ele se casaria com ela, mas, após a morte da mãe, ele viajou para o exterior.
De facto, o novo conde Adam estava em Truvile já alguns dias para falar com Krassinsky, também transformado em conde.
Os co-irmãos conversavam no momento da chegada de Rostóvskaya.
Como Adam não a conhecia, não poderia saber que ela foi grande amiga de sua mãe.
Para sua sorte, Krassinsky estudou em detalhes a biografia do "ressuscitado" e, imediatamente, forneceu a Bélsky as devidas informações.
Este, então, apressou-se em se aproximar das damas e lhes rendeu as reverências.
— Já estava achando, Adam, que você não queria falar comigo - censurou-o Anna Nikoláevna.
— Oh, como pôde imaginar semelhante coisa - disse ele com ar de indignação.
Jamais imaginaria encontrá-la aqui em Truvile e não a percebi no primeiro instante.
Estou tão feliz em ver a senhora e madame Zamyátina.
Se me permitirem, vou lhes fazer companhia, mas antes preciso me desculpar com meu amigo - conde Farkatch.
Um minuto depois, ele retornava e iniciou-se uma conversa agradável.
Ele se lembrou, simulando muita tristeza, da morte súbita da condessa Leopoldina e contou tudo o que soube de sua dama de companhia sobre a doença e os últimos minutos da mãe.
Durante a conversa, ele não parou de olhar para Nádya, cujo semblante encantador, pálido e tristonho, e grandes olhos sonhadores o pareciam enfeitiçar.
O conde falou de como largou o serviço militar com a intenção de dedicar-se à administração de seu enorme património.
Mas antes, ele planeava viajar e só retornar à Rússia depois de esquecer a dor da perda da adorada mãe.
— Você sempre foi um filho exemplar, Adam, e sua dor é natural - observou Anna Nikoláevna.
Para dar um outro rumo à conversa, ela acrescentou em tom de brincadeira:
- Sabe, meu amigo, você mudou muito:
está mais magro e pálido, a expressão de seus olhos ficou mais séria e profunda.
Não quero dizer com isso que a mudança foi para o pior; ao contrário, você está mais bonito e mais interessante.
O conde sorriu, beijou-lhe a mão e agradeceu pelo elogio.
A conversa continuou sobre outros assuntos, mas durante toda a noite ele não desgrudou das damas e as acompanhou até o hotel.
Apesar da amabilidade do conde, ele deixou em Nádya uma impressão desagradável.
Seria porque ele já fora apaixonado pela odiosa Mila ou por alguma outra razão, de qualquer forma, porém, seu antigo amor parecia esvaído por completo.
O comentário de Rostóvskaya sobre o casamento de Mila com Massalítinov não suscitou no conde muito interesse.
A partir desse dia, Bélsky tornou-se uma sombra de Rostóvskaya e de sua bela acompanhante.
Ele cortejava abertamente Nádya e não escondia sua admiração por ela.
Bélsky apresentou a ambas o seu amigo, conde Farkatch, cujas maneiras ir reprocháveis, conversa interessante e original cativaram Anna Nikoláevna.
O conde Farkatch era um homem de trinta a trinta e cinco anos, indiscutivelmente bonito, alto e esbelto, de cabelos densos encaracolados, olhos abrasantes e comprido bigode negro; toda a sua figura transpirava energia e força.
Ele se dizia um húngaro e, ao ter recentemente herdado um grande património de parente próximo, tinha a intenção de comprar uma casa em Kiev, onde queria passar o inverno.
Em Nádya, ele produziu uma impressão negativa, e ela até confessou a Rostóvskaya que a fisionomia cadavérica e os olhos fosforescentes do conde lhe inspiravam verdadeiro horror.
— Ele parece um cadáver.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 20, 2016 7:41 pm

Anna Nikoláevna riu da jovem e disse com leve censura:
— Você está injusta, Nádya.
O conde não tem culpa da brancura de sua tez, além do mais a cor acetinada lhe cai bem.
E uma pessoa finíssima, altamente instruída e de educação ímpar.
Assim se passaram algumas semanas e, finalmente, Anna Nikoláevna anunciou que iria por dois ou três meses para a ilha da Madeira, onde nunca esteve antes.
Desta forma, a companhia logo se desfez.
Farkatch viajou a negócios, não sem antes de obter a permissão das damas de visitá-las em Kiev, no inverno.
Bélsky acompanhou-as até a cidade portuária, onde elas tomaram um navio, e participou-lhes o desejo de visitá-las em Madeira, obviamente se Anna Nikoláevna o permitisse, no que esta aquiesceu prazerosa.
Rostóvskaya alugou uma pequena vila perto da praia.
A casa era em estilo italiano, cercada por amplo jardim e tinha uma bela vista para o mar.
Nádya se sentia calma e feliz e, enquanto Anna Nikoláevna repousava após o almoço, a jovem sonhava no terraço, balançando-se na rede e admirando o mar.
Bélsky não deixava de enviar cartas e cartões, sempre se interessando pela saúde das damas.
Certa noite, após ler a carta que acabara de chegar de Bélsky, Rostóvskaya chamou Nádya, que colocava um buque de flores no vaso e, fazendo-a sentar ao lado, disse:
— Acabei de receber uma carta do conde, anunciando sua breve vinda.
Eu queria conversar seriamente com você, minha querida.
Você conhece minha afeição por você e eu ficaria feliz em deixá-la comigo até o fim dos meus dias, pois a considero como minha filha por cuidar tanto de mim.
Por outro lado, isso seria um egoísmo puro da minha parte, visto o destino lhe reservar um partido brilhante.
Tão bem quanto eu, você sabe que o conde está apaixonado por você e irá pedi-la em casamento.
Você deve pensar seriamente na resposta e escrever para sua mãe, caso se decida.
Nádya lançou um olhar desalentado para a protectora.
— Oh, Anna Nikoláevna, ele não me agrada.
Não sei a razão, mas ele não me sugere simpatia, para não dizer mais.
Rostóvskaya balançou a cabeça.
— Você está errada, minha pequena.
É porque você ainda sente algo por Massalítinov, o que deve ser arrancado pela raiz.
A bem da verdade, ele era mais simpático quando sua mãe estava viva, mas isso são pormenores.
Pense bem, minha querida, antes de tomar uma decisão.
Terá você o direito de recusar um partido tão brilhante?
Adam é bem apessoado, extremamente cortês e instruído, sem dizer que é milionário.
Com o casamento você resgatará tudo que foi perdido, não só por você, mas também pela sua mãe.
Generoso e bom, ele vai assegurar o futuro de seus irmãos.
Considere tudo isso, Nádya.
Falar da pobreza e de trabalho honrado é fácil, mas vá ganhar o pão de cada dia!
Quanto esforço!
E se você precisar comprar um par de sapatos ou luvas, como o faria com o preço que estão?
Labutar sem retomar o fôlego, atormentar-se com o pensamento constante de arranjar dinheiro para alguma quinquilharia e garantir o sustento... é simplesmente uma tortura.
Sim, ser escravo do trabalho envelhece antes do tempo, assa em fogo lento, esgota as forças, envenena a felicidade de viver, paralisa todos os anseios e transforma uma pessoa inteligente num autómato, incapaz de voar alto, pois suas asas foram cortadas.
Eu conheci muita gente laboriosa:
pintores, músicos, literatos, pessoas dotadas; e eles sempre acabavam odiando seus talentos e mergulhavam no marasmo já que tinham de viver desse talento.
Não me olhe tão espantada, Nádya, o que digo é uma verdade amarga.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 20, 2016 7:42 pm

Permutar o talento por uns trocados pelas necessidades diárias, que a toda hora apoquentam feito fantasmas nojentos e destroem as pessoas talentosas - é terrível.
E quando uma pessoa assim não consegue mais trabalhar?
As multidões são indiferentes e cruéis, minha criança!
Elas admiram embevecidas aquelas obras-primas e não imaginam quanto suor e sangue estas custaram, não suspeitam das tempestades internas e das esperanças frustradas do seu criador, e sequer lhes ocorre que talvez este precise de sua ajuda e apoio.
Falo assim, Nádya, porque eu experimentei tudo na minha própria carne.
Antes de me tornar rica, eu era muito pobre e trabalhava para ganhar a côdea de pão de cada dia.
O meu pai, professor de música e canto, homem humilde, honesto e bom, não teve a sorte de juntar os tostões para os dias negros e morreu na indigência, ainda jovem.
Eu tinha dezassete anos e era a mais velha na família, assim recaiu em mim toda a responsabilidade de sustentar a mãe doente e dois irmãos menores.
Eu tinha uma bela voz, que meu pai trabalhou, desenvolvendo ao mesmo tempo o meu talento para música.
Tentei ingressar na ópera, mas por falta de protector não consegui colocação e tive de me contentar com aulas de música e canto.
De sol a sol, sob chuva torrencial, calor ou frio, eu percorria a cidade, voltando irritada com sentimento de ódio e horror aos meus dotes artísticos.
Por onze anos duraram estes sofrimentos.
Não vou aqui enumerar quantas insinuações maliciosas, olhares prepotentes, desapreço, insolências e ofensas de toda a espécie que tive de engolir.
Pagavam-me mal, quando pagavam...
Eu contava com vinte e oito anos e fui cantar num evento beneficente - de graça, é claro - e então fui notada pelo velho Rostóvsky.
Ele se encantou com a minha voz e me fez proposta de casamento.
Ele tinha cinquenta e oito anos e era longe de ser o meu herói, contudo me amava e era muito rico.
O casamento com ele me livraria das preocupações com casa, guarda-roupa e, sobretudo, da necessidade de ouvir, qualquer que fosse o tempo, os uivos dos meus alunos.
Foi o que fiz e não me arrependi disso; vivemos em paz e ele me deixou tudo.
Você está em situação semelhante, Nádya, talvez pior, pois cresceu no luxo.
Agora pergunto:
quanto tempo você aguentaria trabalhando dia e noite?
Nádya ouvia cabisbaixa, de olhos marejados.
Ela compreendia a justeza das palavras da protectora, sugeridas por amarga experiência própria.
Arruinada, ela sabia o que era pobreza.
Não amava Bélsky, é verdade, talvez por ainda sentir algum resquício de amor a Michel.
Por outro lado, quem sabe se ela não acabaria se afeiçoando a um homem que lhe proporcionaria uma vida cómoda e posição brilhante na alta-roda e melhor futuro para seus familiares.
Ajoelhando-se diante de Rostóvskaya, ela lhe beijou a mão e murmurou:
— Agradeço-lhe a bondade e os conselhos maternos, e decidi segui-los.
Entendo cada palavra sua.
Amanhã vou escrever para a mamãe e, se o conde me fizer a proposta, eu direi "sim" e Deus queira que algum dia eu venha a amá-lo.
— Eis a decisão correta, minha querida criança! - disse Anna Nikoláevna, atraindo a si a jovem e beijando-a.
Por certo, Adam saberá ser amado, e uma moça bonita e inteligente como você, com a ajuda de Deus, não terá a dificuldade de orientar o futuro marido.
No luxuoso gabinete do hotel do conde Bélsky em Paris estavam sentados o seu mais recente proprietário e Krassinsky, transformado em conde Farkatch.
Diante deles sobre a escrivaninha repousava, encadernado em couro, um livro antigo.
Os dois conversavam, fumando.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 20, 2016 7:42 pm

— Como já lhe disse, irmão Akham, minha memória anda fraca; sinto-me um idiota completo e, em muita coisa, preciso me actualizar.
Em meu cérebro se revolvem ideias não vividas, impressões e conceitos que tiranizam minha mente.
Quanto a Bélsky, por exemplo.
Ele era profundamente religioso, e todo o seu sangue deve ter sido saturado de emanações benéficas e de preces e, às vezes, sou obrigado a passar e superar humores espirituais estranhos; em tais ocasiões, eu me dilacero com a duplicidade do meu cérebro material e astral.
Instalei-me num corpo cheio de forças e, já por diversas vezes, pareceu-me que seus eflúvios estariam me subjugando.
Apesar da regularidade com que eu observo o rigoroso regime prescrito por você, sinto-me frequentemente com mal-estar, e o meu trabalho quanto à domesticação da carne nova avança assaz lentamente.
Nunca pensei que o avatar fosse uma operação tão difícil e isso, mais uma vez, demonstra que a melhor teoria não vale nada diante da experiência própria - discorreu Bélsky suspirando, pondo-se a meditar, recostado no espaldar da poltrona.
— Entendo-o perfeitamente, pois passei por tudo isso - observou Krassinsky.
O meu próprio corpo se desgastou devido ao trabalho e vida bastante agitada; eu sabia que a qualquer momento eu poderia sofrer um ataque cardíaco e então decidi experimentar o avatar.
Escolhi Vyatcheslav Turaev, um animal forte como Bélsky, mas não tão religioso quanto Adam, sendo que o cérebro do primeiro era impregnado por banalidades.
Mesmo assim, passei por sofrimentos iguais aos seus e não foi à toa o meu isolamento por vinte e tantos anos no subsolo da ilha, onde levei vida de asceta para, em silêncio, recuperar todos os meus conhecimentos e os poderes perdidos.
Agora este trabalho está concluído, e tudo que fora gravado no cérebro astral foi transcrito para o novo, o material, cujo dono sou agora.
Ele se ergueu, endireitou os braços e as pernas flexíveis; um sorriso de contentamento soberbo contraiu-lhe os lábios.
Ao sentar-se novamente, acrescentou:
— Aliás, você está plenamente certo:
o avatar é uma operação difícil de digerir.
— Com certeza, meus sofrimentos serão bem mais longos, pois, ao invés do isolamento, pretendo me casar.
Aliás, você também começou assim - riu Bélsky.
— Infelizmente cometi essa tolice.
E será com Nádya?
Então se esqueceu de sua bela Gretchen?
— Segui o seu conselho de evitar aquela estouvada; ademais, apaixonei-me por Nádya.
O meu organismo enfraquecido precisa relacionar-se com uma criatura jovem, sadia e maravilhosa como ela, para se fortalecer.
O antigo Bélsky era um boa-vida, cujo sangue era impregnado por desejos carnais, muito singelos e tolos para o meu gosto.
Minha predilecção é por perversões requintadas que me proporcionam satisfação espiritual.
Por mais que possa parecer absurdo, prefiro incendiar paixões nos olhos claros de moças puras e inocentes, do que em quaisquer beldades experientes.
Os dois riram a valer.
— Desejo-lhe uma esposa mais cordata do que foi a minha, e que suas virtudes sejam menos firmes, caso contrário, ela não durará dois anos.
— Não pretendo consagrá-la tão rápido e cuidarei para que dure mais.
Krassinsky nada comentou; sombrio, ele mergulhou em seus devaneios.
A conversa foi retomada em outro rumo e, pouco depois, os amigos se separaram.
Três dias mais tarde, Bélsky deixava Paris e viajava para a Madeira.
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