Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 21, 2016 7:30 pm

Rostóvskaya recebeu-o com habitual amabilidade, tratando-o por "filho" em memória à amiga falecida.
Moderada e discreta por natureza, Nádya foi gentil e não se esquivou dos galanteios do conde.
Adam tornou-se visita diária na vila e sua paixão à jovem crescia a cada dia; Nádya a percebia e esforçava-se para se acostumar à ideia de um dia sentir algo por ele.
Por vezes, sua conversa até a agradava, o que lhe acenava a possibilidade de se apaixonar por ele.
Mas, quando o olhar dele, acendido de paixão, nela se pregava, um sentimento de repulsa a ela assaltava e calafrios percorriam-lhe o corpo.
Certa noite, após o chá, Bélsky a convidou para dar uma volta no jardim.
Como durante o dia fez um calor sufocante, a ideia de tomar um ar marítimo fresco era aprazível.
Anna Nikoláevna preferiu ficar no terraço e Nádya aceitou o convite.
O coração lhe palpitava, ciente da hora próxima e decisiva; o olhar incandescente de paixão de Bélsky também não deixava dúvidas quanto a isso.
Mas uma coisa quanto à estranha mudança nele operada, depois daquele baile em que ele cortejava Mila, deixava Nádya muito cismada.
O rosto outrora viçoso, rosado e cheio do jovem cavalheiro, o olhar franco e límpido da figura forte, respirando saúde - tudo se diferenciava daquele Bélsky, magro e flexível, de tez pálida, magra, olhos afundados a mudarem de matiz a todo estado emocional novo.
Nádya estremeceu sob a impressão dessas diferenças, mas o afluxo de outros sentimentos mudou o rumo de seus pensamentos.
Bélsky lhe ofereceu o braço e o jovem casal caminhou pelo jardim em direcção à praia.
Lá havia um caramanchão em forma de templo grego com colunas ao longo da margem e, daquela altura, abria-se uma maravilhosa vista para o oceano, iluminado pelo luar.
Bélsky dirigiu sua acompanhante directo à colunada e, lá, subitamente parou, tomou a mão dela e sussurrou em voz surda de paixão:
— Nádya, eu a amo mais que a vida!
Faça-me o mais feliz dos homens e seja minha esposa.
Farei de sua vida um mar de rosas e todos seus desejos serão atendidos.
Apenas não me atormente com a incerteza, adorada Nádya; dê o seu "sim"!
Qual enfeitiçada, a jovem ergueu os olhos para o conde e murmurou:
— Eu o amo e aceito.
Bélsky a premeu fortemente ao peito e a beijou nos lábios.
A cabeça da jovem pendeu zonza e ela desmaiou.
O conde continuava abraçando o corpo frágil da jovem, beijando-lhe o rosto e o pescoço, quando percebeu seu desfalecimento.
Tirando do bolso pequeno frasco de cristal, impregnou o lenço com a essência e fez Nádya aspirar seu aroma.
Imediatamente, ela abriu os olhos, aparentemente sem se dar conta de seu esquecimento.
Aliás, o conde não lhe deu tempo de se recuperar.
— Nádya, minha querida, repita as palavras que farão minha felicidade; diga mais uma vez que me ama, como acabou de dizer - disse, atraindo-a a si novamente.
Nádya se sentia qual ébria e sequer protestou, quando ele a tomou pela cintura e a levou para casa.
— Tia Anna, mande servir o champanhe; vamos comemorar o meu noivado - disse ele, alegre.
A senhora foi a melhor amiga da minha falecida mãe e será a primeira a nos cumprimentar.
Emocionada, Anna Nikoláevna beijou os noivos.
Todos se sentaram à mesa para jantar em clima de alegria.
Bélsky estava radiante, ao contrário de Nádya, que não conseguia definir o que passava em sua alma.
Pela primeira vez, o conde não lhe era repulsivo.
No dia seguinte de manhã, o conde enviou flores e bombons e, quando mais tarde veio para o desjejum, colocou com sorriso nos lábios sobre os joelhos de Nádya um porta-jóias em prata e turquesa.
Curiosa, Nádya abriu a caixa e soltou um grito de admiração.
Sobre o fundo de veludo negro havia um colar de pérolas, cada uma entremeada por solitário graúdo.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 21, 2016 7:30 pm

Como a qualquer mulher, a visão das jóias a deixou fascinada.
Com as faces incendidas, ela agradeceu pelo presente.
Os dias seguintes passaram alegres.
Adam era carinhoso e enamorado, cercava a noiva de atenção, cobria-a de presentes e, pelo visto, tinha pressa de se casar.
Certa manhã, cerca de uma semana após o noivado, ele mostrou a Nádya uma carta e um documento, pedindo que os lesse.
A carta estava endereçada ao seu mandatário em Kiev, em que ele pedia legalizar uma doação vitalícia a Zoya Ióssifovna Zamyátina de 3000 rublos; a cada irmão de Nádya, ele destinava também uma soma que o mandatário iria depositar a favor deles no Banco Estatal, rendendo juros até a sua maioridade.
Os olhos de Nádya encheram-se de lágrimas de felicidade.
No ímpeto da profunda gratidão, ela abraçou o noivo e, pela primeira vez, brindou-o com um beijo ardente, desapercebida do seu olhar triunfante.
Dias mais tarde, o conde tornou a falar do casamento, que queria celebrar seis semanas depois.
— Querida tia Anya, ajude-me nisso, antes de voltarmos para a Rússia.
Eu quero casar na Florença, na igreja do consulado, e passar a lua-de-mel numa vila nos arredores.
Não gostaria de ficar os primeiros meses da minha felicidade em lugares que me trazem tantas lembranças da saudosa mamãe.
Zoya Ióssifovna poderá vir para a cerimónia com os filhos; por minha conta, é claro.
— Isso é uma fantasia de homem apaixonado, porém tentarei atendê-la - respondeu Rostóvskaya, rindo.
Nádya não protestou contra a vontade do noivo, pois, no íntimo, queria voltar a Kiev, onde encontraria Massalítinov, já casada e acostumada com a nova posição.
Logo Rostóvskaya e Nádya deixaram a ilha da Madeira e, após uma breve parada em Paris, viajaram a Florença.
O conde comprou para a noiva outro enxoval, afirmando ser-lhe odioso tudo o que se referia ao seu noivado com Massalítinov, e pediu a Nádya que despachasse o antigo para a mãe.
Zamyátina, porém, não pôde vir ao casamento.
Ainda em convalescença, doíam-lhe os pés, ela não se recuperara por completo do seu choque nervoso e não podia, segundo o médico, arriscar a saúde com viagem longa, sujeita a inevitáveis excitações.
Zoya Ióssifovna, assim, limitou-se a escrever uma gentil carta ao seu futuro genro, desculpando-se por não poder abandonar seu abrigo seguro e pediu que Anna Nikoláevna a substituísse na cerimónia.
Em Florença, Rostóvskaya e Nádya se hospedaram num dos melhores hotéis da cidade.
Bélsky residia perto, na luxuosa vila, onde, segundo suas palavras, ultimavam-se os preparativos para a recepção da jovem esposa.
A vila era ampla, magnificamente mobiliada e possuía enorme jardim.
Na verdade, ela não pertencia a Bélsky, mas à confraria secreta, sendo que qualquer dos seus membros poderia morar ali, se quisesse e durante a permanência a propriedade era considerada como sua.
Sendo assim, a Bélsky foram dispensadas as honrarias habituais e ele foi ali recebido por numerosa criadagem, alheia ao facto de o conde não ser o verdadeiro dono, tal qual todos os hóspedes da vila eram tratados.
O administrador da vila, também um membro da confraria, pagava e contratava novos funcionários, dispensava-os quando era o caso da suposta transferência da propriedade para novos donos.
Sentado em seu gabinete luxuoso, Bélsky olhava distraído para o jardim sombreado, onde, por entre o verde e a piscina de mármore, branquejavam as estátuas de tritões, espargindo as náiades jactos de água para o alto que, à luz do sol poente, reverberavam em cores múltiplas.
A alguns passos do conde, estava sentado Krassinsky à escrivaninha.
— Você tem certeza, Adam, de não esquecer tudo o que deve fazer durante a cerimónia:
repetir com blasfémia as palavras do ritual, invocar a ajuda dos demónios e o seu senhor?
Mas não se preocupe, estarei perto para ajudá-lo, embora exista uma circunstância que vai lhe facilitar a vida na igreja.
O seu corpo de Bélsky ainda está saturado do fluido beato e não sentirá as agulhadas da corrente contrária, que normalmente acontece.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 21, 2016 7:31 pm

E não deixe de fazer uma coisa:
retire-lhe a cruz do pescoço.
Não se preocupe, não vou esquecer.
Também já combinei com a nossa camareira, que ficará junto com Nádya, para afastar tudo que possa nos prejudicar.
Bem, está na hora de eu me trocar para ir até minha noiva.
Então, até mais, meu amigo!
Conto com sua ajuda - acrescentou, apertando a mão de Krassinsky.
Ao ficar a sós, Krassinsky acotovelou-se sobre a mesa e, com uma estranha expressão nos olhos, fixou o retrato de Nádya.
— Eis uma mulher que me agrada!
Sua expressão de rosto me lembra a esposa - pensou ele e riu baixinho.
E este idiota imagina ser ele o único janota capaz de se recompor em contacto com pureza.
Há-há-há! Também compartilho de seu gosto.
Não consigno entender esse enigma do coração humano.
A mim também cativa o cheiro da inocência de uma virgem e o sorriso cândido dos olhos claros.
Tudo isso você tem, minha bela donzela!
Por quase um quarto do século da minha viuvez celibatária, abstive-me dos prazeres carnais.
As provações já terminaram, e você pertencerá só a mim!...
E Bélsky?... Ah, Bélsky L.
Para começar, ele está em minhas mãos e por muito tempo... e depois, deve-me tantos favores.
Por acaso não lhe sou o pai pelo avatar?
Não fui eu quem lhe deu a vida?
Não o brindei com a partícula da minha própria vitalidade para encarná-lo?
Com certeza, eu mereço sua gratidão.
Só preciso assegurar que ele responsabilize seu avatar precário por seus percalços na vida conjugal.
Na manhã do dia da cerimónia de casamento, Anna Nikoláevna adentrou o quarto de Nádya para conversar.
Já alguns dias antes e, principalmente naquele dia na hora de desjejum, esta andava triste e calada.
Nádya, mergulhada em devaneios e sentada perto da janela, não notou a chegada de Rostóvskaya.
Ao lado dela, sobre o sofá, jazia seu traje de noiva.
Rostóvskaya sentou-se ao lado e a tomou pela mão.
— Está tão descorada e meditativa, Nádya, quando todas as amarguras terminaram e a aguarda um futuro feliz e tranquilo.
A jovem estremeceu e, com os olhos umedecidos, fixou a protectora.
— Querida, Anna Nikoláevna, Adam é tão estranho...
— O que há de estranho nele?
Para mim, ele é apenas o mais gentil dos homens, cuja generosidade de assegurar o futuro de toda sua família está acima de qualquer elogio.
— Oh, sou-lhe grata de toda a alma e posso até dizer que começo a me afeiçoar a ele, mas existem momentos, quando ele me dá medo...
— Não deveria, a causa são seus nervos abalados.
É uma reacção aos terríveis abalos espirituais por que passou.
Domine isso pela razão e força de vontade, e não permita que as fantasias bobas estraguem a felicidade por Deus enviada.
Sim, minha querida, afugente os maus pensamentos, criados por seus nervos doentios; pense antes como será gostoso voltar a Kiev como condessa e milionária, reencontrar a mãe tranquilizada pelo futuro dos filhos e, finalmente, mostrar ao seu ex-noivo que você deu a volta por cima.
Nádya riu, abraçou Anna Nikoláevna e, aparentemente, recuperou o seu bom humor.
Às seis horas da tarde, na igreja do consulado iniciou-se a cerimónia.
Durante o ritual, o conde estava lívido qual cera; ao colocar a aliança em Nádya de traje riquíssimo, suas mãos não pararam de tremer.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 21, 2016 7:31 pm

Quando os recém-casados tomaram os assentos na carruagem para ir à vila, ao conde retornou o bom humor.
Na vila, o jovem casal foi recepcionado por Velhos amigos do conde, membros da confraria secreta, vindos para o banquete do irmão.
A noite findou com jantar magnífico.
Sentado a duas cadeiras de Nádya, o conde Farkatch ora deitava seus olhares árdegos nela, ora os lançava zombeteiros em Bélsky.
Ao término do jantar, Nádya, de súbito, sentiu o peito comprimido e as pernas e os braços pesados.
Alegando muito cansaço, pediu a Rostóvskaya acompanhá-la ao seu dormitório e dela se despediu.
A camareira a despiu das vestes.
Mal a cabeça de Nádya tocou o travesseiro, adormeceu um sono forte e pesado.
Tendo acompanhado os últimos convidados e se despedido de Krassinsky, que ocupava um apartamento de hóspedes na vila, Bélsky foi ao banheiro.
Vestido em robe de pelúcia azul, ele sentou-se diante do espelho e emborcou a última taça do champanhe, preparando-se para ir ao dormitório, já que passava da meia-noite.
Nisso, por trás das pregas do reposteiro, estendeu-se uma mão, em cuja palma reluzia uma chama amarelada fumegante.
A ténue fumaça foi em direcção do conde e serpenteou em torno de sua cabeça.
Bélsky amareleceu, levou a mão à testa e, tremelicando, esmoreceu na cadeira.
O reposteiro escancarou-se e junto ao conde avolumou-se a figura felina de Krassinsky.
Ele vestia uma capa negra longa e carregava um escrínio de ébano cinzelado.
Aproximando a mesinha ao lado, ele depositou o escrínio sobre ela, tirou um defumador e acendeu-o.
Uma coluna de fumaça alçou-se ao ar e envolveu o conde.
Erguendo as mãos, Krassinsky recitou pausadamente os esconjuros, tirou da cintura seu bastão e desenhou no ar sinais cabalísticos.
A fumaça formou uma alta e larga coluna de matiz roxo e, no cómodo, sentiu-se um forte aroma de rosas, lírios-do-vale e sândalo.
E nessa nuvem começou a se desenhar rapidamente uma figura humana, vindo a formar uma mulher de branco, com as feições de Nádya, só destoando dela pela expressão lasciva de uma bacante, cabelos soltos negros fosforescentes e movimentos felinos e maliciosos do corpo esguio, lembrando pantera.
A ilusão, aliás, era completa: ali estava Nádya.
Krassinsky baixou o bastão, e seu rosto pálido iluminou-se de sorriso orgulhoso.
— O que os profanos não dariam por esta ambrosia da magia negra! - sussurrou ele, fitando a mulher, instada do espaço e que permanecia imóvel, aguardando as ordens.
Bem, o que é um prazer?
É uma expectativa do júbilo vindouro e a recordação inebriante do que se experimentou.
O presente é fugidio e mal existe de facto.
Qual pensamento, que mal acaba de ser expresso, já pertence ao passado.
Sim, sim. O mais importante no prazer é sua lembrança, e você, meu caro Bélsky, guardará na memória esta felicidade conjugal.
Ele depositou a mão sobre a testa do amigo e, destacando cada palavra, ordenou-lhe desfrutar da felicidade, disso sempre se lembrando, retornar ao quarto só ao alvorecer e dormir, jamais ser assaltado por qualquer dúvida ou suspeita e imediatamente esquecer tudo que possa provocá-las.
Em seguida, ele se virou ao espectro larval e ordenou:
— Vá e sacie-se enquanto se mantiver esta fumaça, e desfaça-se qual ela ao consumar!
Krassinsky colocou o defumador num canto escuro e saiu; pelo reposteiro ele viu a larva esgueirar-se até o conde e cingir-lhe o pescoço.
Bélsky se endireitou e atraiu a si aquela criatura, cobrindo-a de beijos apaixonados.
— Sua arteira!
Você não aguentou me esperar no quarto.
Uma chispa de ódio brilhou nos olhos de Krassinsky.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 21, 2016 7:31 pm

Ele estendeu a mão em direcção de Bélsky e resmungou:
— Seja feliz!
E tal qual sombra, dirigiu-se sorrateiro ao dormitório - um amplo cómodo mobiliado com luxo imperial.
As paredes eram revestidas de seda branca, bordada a prata, os móveis e os reposteiros - também de seda branca e veludo azul; ao lado da penteadeira, sobre um tamborete, descansavam a grinalda e o véu de noiva.
Uma cortina larga de veludo azul-celeste, com forro de cetim branco, e meio levantada, separava os dois leitos sob o baldaquino cinzelado com brasões.
Junto à cortina, sobre pedestal, via-se a estátua de Eros em mármore branco, cuja mão segurava uma lâmpada meio toldada por manta de seda, propiciando ao aposento penumbra azul-celeste.
Krassinsky aproximou-se do leito de Nádya, congelando seu olhar lascivo na cabeça dela, repousada nos travesseiros.
Pela respiração pesada era certo que a jovem dormia um sono profundo.
Após deslumbrá-la silenciosamente por algum tempo, Krassinsky ergueu a mão com a intenção de fazer a sua vítima mergulhar no sono hipnótico, mas nisso aconteceu algo inesperado.
Nádya abriu os olhos, soergueu-se no leito, persignou-se e gritou:
"Jesus ressuscitará e se dispersarão Seus inimigos!"
Tal qual fulminado por um projéctil e, abrindo os braços na frente, Krassinsky cambaleou e retrocedeu.
Aquela não era Nádya, mas sua esposa falecida, que, erguendo-se da cama, avançou sobre ele, cumulando-o com os sinais-da-cruz.
Vendo-se acuado, ele se virou e saiu em desabalada carreira do quarto até seu aposento, onde tombou inânime sobre o tapete.
Nesse ínterim, Bélsky se regalava no banheiro com a larva, tão engenhosamente criada pelo feiticeiro.
Ao primeiro canto do galo, a fumaça violeta se dissipou e a larva se desfez nos braços do conde, alçando-se ao espaço em forma de um leve vapor e extinguindo-se na cerração do novo dia.
De cabeça pesada e olhar cismado, o conde foi ao quarto.
Passou-se bastante tempo até Krassinsky se recuperar da síncope.
Com muito esforço ele se ergueu, mas fraquejado deixou-se cair na cadeira.
Sua cabeça estava zonza.
Um minuto depois, conseguiu se levantar, pegou um lápis vermelho do criado-mudo, desenhou no chão uma cruz e, aos impropérios, pôs-se a pisoteá-la.
Retirando do armário um frasco, ele encheu o copo com um denso líquido roxo e tomou-o avidamente.
Depois, abriu a janela e aspirou o ar fresco e cheiroso do jardim; sentou-se na poltrona e fixou o olhar sombrio e meditativo no horizonte, iluminado pelos primeiros raios do sol ascendente.
Uma torrente de pensamentos inquietantes afluiu ao feiticeiro e, num crescendo, sua testa cumulou-se de pregas profundas.
Ele se gabava de seus poderes e da "ciência do Mal", que dominava magistralmente; conhecia mistérios terríficos, comandava entes inferiores e legiões de demónios e podia, se quisesse, ordenar-lhes pôr fogo na cidade, afundar navios ou instar uma tempestade.
Seu poder maléfico era enorme e ele detinha força hercúlea, não obstante, uma jovem rebelde, que falecera sem mudar sua crença, o desarmara com aquele símbolo, reduziu-o a nada, interpondo-se no caminho à sua presa desejada.
Ele se via impotente ao se confrontar com a arma celeste, diante da qual treme e sobressalta o inferno e, por todo o lugar, onde aparece a cruz radiosa - esse símbolo sagrado de todos os tempos -, os exércitos de Satanás fraquejam e recuam por mais numerosos que sejam.
Nenhum demónio, mesmo da hierarquia superior, conseguiu vencer este símbolo misterioso, ou criar um outro bastante forte para se contrapor à cruz.
— Ninguém conseguiu, mas eu vou!
Juro por Satanás que aquela mulher será minha! - bradou ele, saltando da poltrona com punhos crispados e gesto ameaçador em direcção a algo invisível.
Mais tarde, já acalmado, Krassinsky foi até o banheiro de Bélsky, pegou o defumador e voltou ao quarto para dormir.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 21, 2016 7:31 pm

No dia seguinte, à hora do desjejum, Krassinsky encontrou o conde fumando sorridente no terraço.
"Sorria, sorria!", pensou Krassinsky, apertando a mão dele.
— Ah, meu amigo, ela é a mais maravilhosa das mulheres.
Achava-a fria, tímida e sem sentimentos; mas ela é a própria personificação do amor e paixão, e eu o mais feliz dos mortais - jactou-se Bélsky, alheio ao sorriso jocoso de Krassinsky.
— Que bom que seja assim!
Você tem uma verdadeira pérola.
Bem, acabo de receber uma carta que me obriga a viajar hoje mesmo a Paris e, de lá, vou para a Rússia.
Vim me despedir de vocês.
— Nádya já vem.
É uma pena que esteja partindo.
Bem, nós nos encontraremos em Kiev, para onde vou daqui umas três ou quatro semanas.
Minha esposa não vê a hora de ver os seus e você entende que o desejo dela para mim é uma ordem.
A notícia do casamento do jovem milionário Bélsky com a filha de Zamyátin arruinado causou muitos comentários em Kiev.
Ekaterina Aleksándrovna soube da novidade na casa de Maksákova.
De volta ao lar, ela mal conseguia disfarçar sua raiva.
Bastava Mila estender a mão para ter aquele partido brilhante; mas não, esposou um homem sem título e posição no mundo grande - um pobretão, cujas dívidas ainda tiveram que ser pagas.
Após o almoço, tomando café, ela transmitiu em pormenores as novidades, contando como o conde encontrou Anna Nikoláevna em Truvile e apaixonou-se perdidamente por Nádya.
Citou também que a casa de Bélsky estava se preparando para a recepção da jovem condessa.
— Muitos já foram cumprimentar Zoya Ióssifovna, ao passo que nós até ignorávamos tudo isso - observou Ekaterina Aleksándrovna amuada.
As faces de Massalítinov se afoguearam, e sua mão, segurando a xícara, tremeu levemente.
Os olhos esverdeados de Mila observavam zelosos cada movimento dele e, ao notar o seu nervosismo, uma chama maldosa brilhou em seu olhar felino.
Estava claro que, se a notícia do casamento mexeu com ele, sua ex-noiva não lhe era indiferente.
— Bem esperta, essa Nádya - observou Mila, mordaz.
Nem esperou que Michel rompesse primeiro com ela; no mínimo já contava em arrumar um homem mais rico com aquela sua cara marota.
Mas nisso, ela se lembrou de que o verdadeiro Bélsky foi assassinado por seu pai para nele alojar um homem... e Nádya por certo ignorava que seu marido era um forasteiro do outro mundo.
O facto lhe parecia tão engraçado, que ela pôs-se a rir por dentro com desdém.
Pego pelo ponto dolorido, Massalítinov sentiu-se ofendido, mas nada respondeu às duas, que pareciam vigiar sua reacção com olhar hostil.
Mila já estava casada havia sete meses e preparava-se para ser mãe.
Durante o tempo da gravidez, sentia-se indisposta e muito fraca; ao invés de engordar, ela emagreceu e ficou ainda mais pálida e diáfana.
A toda hora era atormentada por sede constante, tomava quantidades enormes de sangue fresco, devorava porções incríveis de carne, mas parecia nunca se saciar.
Com Massalítinov também se operaram mudanças.
Ficou visivelmente mais descorado, emagreceu e parecia esgotado; sua fraqueza acentuou-se após o casamento.
Seu estado, porém, não o preocupava tanto, como certas coisas estranhas que aconteciam com sua esposa.
Não sendo mais tão céptico como antes, formou-se-lhe a convicção de que Mila não era uma mulher normal.
Ocorria, por vezes, ele encontrá-la deitada sem vida no leito, logo como que ressuscitando com respiração rouca.
Outros acontecimentos, frequentes ultimamente, instalaram nele um verdadeiro horror supersticioso.
Sem qualquer razão aparente, Mila começou a gostar de crianças.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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No início, foi com o menino de cinco anos, filho do porteiro, e a filha da lavadeira.
Ela mandava trazer as duas crianças, distribuía-lhes guloseimas e presentes e as ficava acariciando; estas, depois, começaram a adoecer e, então, ela concentrou sua atenção na filha da costureira, uma menina de oito anos, que também logo adoeceu.
E o mais terrível:
em apenas alguns meses, todas as três crianças morreram de subnutrição e esgotamento das forças vitais, que os médicos não conseguiam explicar.
As três mortes abalaram Massalítinov.
Ele se recordou também de suas crises de fraqueza inexplicável sempre que ficava perto de Mila e, principalmente, daquele caso, quando ele quase morreu de esgotamento.
Passaram-se algumas semanas sem acontecimentos especiais, e as apreensões de Massalítinov parecia esmaecerem, quando um novo acontecimento agitou a casa.
A copeira deles, Várya, era uma campesina jovem, viçosa, saudável e forte.
Ela dormia no mesmo quarto da camareira Ksenya, sua parenta e certa manhã encontrou a moça moribunda.
Aos prantos, a camareira contou que, quando Várya foi dormir, parecia bem de saúde.
— Eu estava com muito sono e adormeci logo, mas acordei com os gemidos.
Pulei da cama, fui até Várya e perguntei o que estava acontecendo.
Ela me sussurrou:
"Uma serpente com asas e olhos verdes está sugando minha vida."
Logo depois, Várya mergulhou em esquecimento - disse a camareira.
O médico, imediatamente chamado, já não a encontrou em vida, nem conseguiu dar alguma explicação da morte inesperada.
A autópsia também não revelou muita coisa, a não ser o facto de que o estado do coração era estranho, parecia amassado feito um saco vazio, mas não apresentava nenhuma lesão.
A causa da morte não ficou estabelecida.
A fala da falecida sobre a "serpente com asas", o homem de ciência não deu nenhuma atenção - é claro.
Na cozinha, comentava-se que a pobre Várya tinha descrito sua própria morte.
Massalítinov, abalado com o sucedido, começou a comparar os fenómenos estranhos.
Por várias vezes ele viu Mila acordar agitada à noite, levantar-se da cama de olhos esbugalhados, peito empinado e agitando os braços, depois deixar-se cair no leito qual morta.
No início ele se assustava, mas depois percebeu que de manhã ela acordava mais enérgica e alegre.
A última crise aconteceu exactamente na noite da morte de Várya e, tal circunstância, deixava Massalítinov apreensivo.
Aliás, ele não conseguia definir exactamente o tipo de sentimento por ela nutrido.
Não poderia ser amor, já que, de quando em quando, tinha-lhe repulsa física e, em tais momentos, até ficava aterrorizado com a impressão de estar ao lado de um cadáver.
Em vão, afugentava ele tais pensamentos insanos, mas não conseguia evitar seus cabelos se arrepiarem e o corpo se cobrir de suor gelado.
E, de modo inverso, amiúde ela lhe excitava uma paixão cálida, cega e obstinada, atraindo-o qual o vinho atrai o ébrio.
Estes sentimentos controversos torturavam-no, e ele se sentia sempre melhor fora de casa, apesar de seu luxo e conforto.
Ele não via hora do nascimento da criança, na qual concentraria seu amor.
Uma vez que a saúde de Mila estava melhorando, Massalítinov começou a organizar em casa pequenas reuniões que distraíam a esposa.
Um dos assuntos mais comentados na cidade era a vinda a Kiev de um conde estrangeiro, supostamente italiano ou húngaro, que adquiriu de Bélsky uma de suas propriedades.
O conde seria riquíssimo, pois teria transformado a casa num verdadeiro palácio, luxuoso e original.
E este príncipe de contos de fada — um homem jovem ou velho, feio ou bonito -, do qual nada se sabia, era aguardado na alta-roda com grande ansiedade.
Mila também se interessou pelo estrangeiro, vindo sem alarde e com pequeno número de criados.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 21, 2016 7:32 pm

Mais tarde, espalhou-se a notícia de que o conde era uma pessoa muito excêntrica, gostava de isolamento, era extremamente rico e erudito, mexia com Astrologia e magnetismo e, como médico, realizava curas miraculosas.
Ao saberem que ele era um jovem belíssimo, a curiosidade atingiu seu clímax.
Apenas Mila tinha o conhecimento de que atrás da máscara daquele conde Farkatch, estava o seu pai, cujo aparecimento a deixou mais tranquila em vista de seus temores quanto aos estranhos casos de mortes em casa, pois ele, certamente, encontraria outros meios menos arriscados de provê-la com fontes de energia.
Por fim, a curiosidade geral foi atendida.
Anna Nikoláevna retornou a Kiev, onde planeava passar o inverno e, uma vez que o conde Farkatch foi imediatamente à casa dela, nos seus salões, a alta-roda da cidade pôde conhecer o jovem estrangeiro por quem todos se apaixonaram.
No pictórico vale oculto por altas montanhas, ergue-se o palácio de Manarma nos jardins verdejantes.
Qual ninho de águia, solitário e misterioso, ele paira sobre o mundo, distante das amarguras humanas, hostilidades e crimes; abaixo daquele abrigo da luz e paz, bem no fundo, fervilha o inferno terrestre com sua atmosfera densa e malcheirosa, criada por vícios, emanações impuras e hostilidade fratricida - um mundo dos mortais ceifados pela morte, palco de luta entre demónios e seres humanos, disputando entre si migalhas de prazer carnal e o talismã diabólico - o ouro; não o metal extraído do subsolo, mas aquele, emporcalhado por garras diabólicas, suor de trabalho homicídios, luxúria e ambição.
E a atmosfera maléfica e contaminada, à semelhança da água infestada de bacilos mortíferos, afecta os homens puros e sufoca os buscadores da luz, inclusive os magos.
Por esta razão, os grandes hermecistas escondem-se da turba e do caos terreno; suas necessidades reduzem-se ao mínimo; seus luxos são o isolamento e a beleza natural.
O palácio de Manarma atende a todos esses requisitos.
Ao seu derredor, estende-se vegetação luxuriante e, do alto dos balcões e terraços, abrem-se vistas feéricas, e só o murmurar dos chafarizes e o gorgolar da cascata distante lhe quebra o silêncio profundo; pelos bosques florescidos voejam beija-flores - esses diamantes vivos da natureza e, pelos prados e aleias desfilam em sua plumagem magnifica os pavões.
Nas salas, decoradas em estilo oriental, mal se vêem os escassos criados, apenas suficientes para as modestas necessidades do mago, que qual sombras se deslocam céleres e mudos pelas salas silenciosas do palácio; aquelas pessoas de tez brônzea, sempre descalças, apenas se dedicam a manter as defumações nas trípodes e servir um repasto frugal ao homem da ciência.
Manarma está com visitas: dois discípulos seus, a quem ama e ensina os fundamentos da ciência hermética; um - jovem, outro - de idade madura. Condescendente mas atento e cauteloso, avaliava ele as doses de conhecimento daqueles discípulos de espírito ainda instável.
Um deles, ex-almirante, já passara pelo primeiro estágio da iniciação; o outro, Gueorgui Lvóvitch Vedrinsky, mesmo neófito, conquistara o coração do cientista hindu com sua pureza, obediência e dedicação apaixonada.
Cravando no mestre os olhos brilhantes e sôfregos por saber, Vedrinsky sorvia-lhe as palavras qual enfeitiçado; os horizontes novos a se descortinarem diante dele deixavam-no embevecido, embora não tivesse consciência, em toda a sua plenitude, do que representava aquela ciência terrível e perigosa, em cujo primeiro degrau se encontrava.
Alguns dias depois, os três estavam sentados no amplo salão circular abobadado de Manarma; nas prateleiras de cedro maciço viam-se colecções de papiros e rolos tão antigos quanto o mundo, bem como livros, tanto de épocas velhas como das mais modernas.
Aqui e acolá, havia instrumentos estranhos e desconhecidos aos profanos.
Junto à larga janela com maravilhosa vista para os arredores, acotovelado sobre a mesa de sândalo estava sentado Manarma e seus dois discípulos.
O almirante estava sério e pensativo; Vedrinsky parecia apreensivo, e seus lábios tremeram levemente quando ele perguntou:
— Então nós deveremos deixá-lo, mestre? Manarma inclinou-se e perquiriu os olhos do jovem.
— Sim, eu os envio por pouco tempo à Europa, meu filho; mas vocês não devem ver nisso um desterro.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 21, 2016 7:32 pm

Ao contrário, considerem isso como a primeira provação e uma importante tarefa.
Sua missão é resgatar as pessoas dignas e indefesas, e, principalmente, deter a criatura satânica que abusa de conhecimentos e semeia crimes e mortes.
— Ah, por que os homens dignos cedem fácil a tentações diabólicas, quando poderiam se defender usando os princípios do bem e as orações? - indignou-se Vedrinsky, visivelmente lutando contra a ira interior.
Manarma sorriu enigmático.
— Eles cedem às tentações porque são fracos, indisciplinados e pessimamente educados, habitando uma atmosfera empestada, onde só os mais resistentes conseguem sobreviver ao seu contágio.
O quanto é poderoso o mal, que feito gangrena se espalha pelo cérebro, difundindo ímpetos viciosos, disso você já deve ter se convencido!
Qual alguém vitimado por tifo, bebe água sem parar, a fim de saciar a sede que o consome, tal um doente moral é ávido por prazeres, riqueza e luxúria; ou seja: tudo que excite e satisfaça suas paixões animais, vícios antinaturais e crimes, avigorando os nervos esgotados e a imaginação bestificada.
E quando esses insanos estão soltos, são como tochas andantes, prestes a incendiarem o mundo inteiro; seus actos e pensamentos geram atmosfera tóxica que contamina a todos e desencadeia doenças epidémicas, físicas e psíquicas, arrastando a humanidade ao abismo.
Um exemplo disso é a epidemia de suicídios medrando nos dias de hoje.
Jamais, talvez, esses predadores diabólicos têm trabalhado com tanta obstinação e desgraçado daquele que ficar em seu caminho ou tentar parar a turba bestificada com as palavras:
"Parem! Vocês estão indo ao abismo!..."
Reserva-se a eles a sina de Orfeu, dilacerado pelas bacantes, por ter pregado as verdades.
Todavia, glória à razão intemerata que decide pronunciar aos homens a verdade e a luz no meio do caos e trevas!
— Mestre! - exclamou Vedrinsky, a ouvi-lo atentamente, olhos brilhantes.
Eu compreendo que um homem ordinário não tem condições de empreender-se num combate desigual; mas, por que vocês, tão sábios e poderosos, não anunciam uma guerra ao inferno?
Com certeza, seu triunfo é garantido, pois a luz deverá, por fim, vencer as trevas.
— Meu filho, já me foi feita frequentemente esta pergunta, aliás, até em tom de censura por aqueles que conhecem ou suspeitam de nossa existência, tida pela maioria como invencionice, aliás, como tudo que se ouve sobre nós.
Mas já que tocou no assunto, explicarei mais uma vez e quem sabe você transmita isso a outros.
Você acha, como muitos outros, que podemos alcançar triunfo sobre as incursões diabólicas que subjugam o mundo e cobriram a terra com crimes e sangue?
Sim, nossa força é enorme, o poder é significativo e, em alguns casos isolados, nós realmente lutamos e vencemos...
Todavia, somos demasiadamente poucos para um combate abrangente e decisivo contra o inferno e teríamos apoio insignificante por parte das massas pelas quais lutaríamos.
Três quartos do género humano, ou mais, dão preferência ao inferno e aos prazeres por ele instigados, em contrapartida à disciplina rigorosa para enfrentar os demónios; além do mais, eles nem acreditam em mundo invisível.
As nossas forças purificadas também necessitam apoio material em tais confrontos e, ademais, o nosso principal papel é totalmente outro.
Mas disso falaremos depois.
Os que acreditam em nossa existência nos têm por feiticeiros ou bruxos, cujos conhecimentos deveriam obrigatoriamente servir para operar milagres, como, por exemplo:
assegurar uma copiosa colheita no local onde há fome, instar as chuva nas estiagens, multiplicar o pão e alimento entre os famélicos.
Como nada disso fazemos, no entendimento deles somos indolentes, vivemos nababescamente em palácios luxuosos, amealhando ouro, prata e tesouros em nossos cofres, supostamente suficientes para encher os bolsos de todos ou subsidiar qualquer projecto, por mais absurdo que fosse.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 21, 2016 7:33 pm

Chega-se ao cúmulo de nos exigirem colocar em circulação o suposto ouro que teríamos, ao invés de guardá-lo em nossos subterrâneos.
Embora tenhamos vastíssimos conhecimentos e gozemos da bem-aventurança de nosso trabalho sem nos preocuparmos com os aspectos materiais, a nossa difícil e abstracta actividade requer muita paz e harmonia.
São poucas pessoas que se contentariam com o que nos é suficiente.
O nosso luxo consiste na pureza virginal das vestes de linho, um punhado de arroz ou frutos de campos e pomares; as nossas únicas distracções são os minutos de repouso, ouvindo o canto das esferas e deslumbrando as paisagens naturais.
Nosso conhecimento arduamente acumulado servirá para conduzir gerações inteiras da humanidade nos séculos vindouros.
O cabedal de conhecimentos e as obras dos Hermes e Zoroastros, bem como de outros luminares da antiguidade, serviram de alicerce às culturas iniciais, e seus princípios orientaram e apoiaram a humanidade no decorrer de milénios.
Mas a poeira de longos séculos encobriu vários ramos do colossal conhecimento dos primeiros legisladores:
assim, a nossa tarefa é recuperar esses mistérios científicos.
Toda a vez que redescobrimos algo no hermetismo, ampliamos os horizontes maravilhosos, o que nos proporciona um prazer espiritual difícil de ser compreendido por um leigo.
O buscador da verdade esquece-se no tempo, a passar ao largo, e nem o percebe.
Agora, diga-me: seria ele capaz de consagrar-se serenamente ao seu trabalho, tendo que acompanhar apreensivo as vicissitudes mundanas e tentar, a toda hora, aliviar os sofrimentos de homens responsáveis pelas desgraças desabadas?
Haveria no mundo tantos infortúnios, se entre os seres humanos reinasse probidade e misericórdia autêntica?...
Tomemos a saúde do corpo; não depende ela basicamente do próprio homem?
Os que levam vida calma, sem excessos e paixões animais perniciosas, os que preservam suas forças físicas, permanecem por longo tempo jovens; suas auras se expandem, tornando-se mais claras e transparentes, e os feixes da luz pura espiritual os impregnam e acalentam.
Tais homens são pouco sujeitos aos contágios, pois a pureza de suas emanações os isola.
Oh, se os homens tivessem a consciência de quanta força e luz eles emanam durante um trabalho espiritual dignificador!
O trabalho mental gera composição química especial, reproduzindo seu pensamento.
E essa substância fluídica alça-se em espiral e envolve o trabalhador, banhando-o qual chafariz.
Conquanto emane pensamentos puros e altaneiros, criando quadros que falam do ideal, esses eflúvios são tépidos, claros e vivíficos; inversamente, os eflúvios serão negros, frios e excitativos, do mesmo modo quando um escritor busca imagens obscenas para provocar instintos baixos e despertar a fera no homem.
Vocês entendem, meus amigos, que importantíssimo papel, deste ponto de vista, desempenha o ambiente para os homens, a sociedade e o seu alimento espiritual.
Até alguém com as melhores aspirações dispensará o dobro de sua energia para sair-se vencedor num ambiente devasso, já que terá de ficar imune ao amálgama químico a impregná-lo.
Somente triunfam os indivíduos cuja energia é capaz de gerar corrente contrária; homens de índole frágil e hesitante perdem o controle sobre si e, na maioria das vezes, se rendem aos desenfreios ou mergulham em depressão, suicidando-se não raras vezes.
Entenderam o que eu disse?
— Sim, mestre, eu entendo:
as paixões vis como a hostilidade, inveja, ambição e luxúria geram uma atmosfera contagiosa que atrai turba fraca, arrasta-a e ainda excita os arrebatamentos mais dissolutos.
Um eleito, através da purificação espiritual, sente esses flúvios maléficos e caóticos e deles se afasta, gerando uma corrente contrária que lhe protege a aura fluídica, ou seja, o glóbulo astral que envolve o ser humano contra a invasão das emanações contagiosas.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 21, 2016 7:33 pm

— Justamente, meu jovem amigo.
Eis um dos motivos por que eu lhe dou a oportunidade de gerar os fluidos puros, que lhe servirão de escudo em sua missão na Europa.
O olhar límpido do jovem anuviou-se.
— Oh, mestre, eu não tenho e nem poderia ter outra vontade além da sua, mas reconheço que é uma prova árdua.
Levo aqui uma vida bem-aventurada em meio ao silêncio profundo da natureza divinamente bela e regalo-me com a felicidade de ouvir seus ensinamentos, de modo que não consigo imaginar como eu retornaria àquela sociedade nojenta com suas sujeiras, sem-vergonhice e rancores - àquele turbilhão de convenções mesquinhas e enfadonhas e distracções levianas.
— Estou feliz, meu filho, que o austero trabalho da mente e o isolamento são-lhe mais caros do que a vida mundana com os seus prazeres; mas, no primeiro degrau de sua iniciação, você não deve se enclausurar no egoísmo de sua tranquilidade.
Eu os armo e os envio para proteger os inocentes, ameaçados por seres devassos e demoníacos perigosos.
Seu amigo sabe que estou falando do mago negro, o qual está exorbitando de seus conhecimentos.
Feito um chacal nocturno, esse espírito criminoso ataca suas presas e as subjuga.
Como já falei, ele é mestre em avatares, mas chegou a hora de pôr um termo em sua actividade maléfica, expulsá-lo do mundo dos vivos para a esfera das trevas, onde é o lugar dele.
— Você havia dito, mestre, que Krassinsky agora se encontra em Kiev sob nome fictício. Tudo que eu soube da carta recebida me abalou muito - observou o almirante, visivelmente nervoso.
Pobre Filipp, tão honesto e bondoso, acabou se matando depois da falência, aliás, muito estranha.
Maldito Gorki!
Eu pressentia que esse lugar traria desgraça - acrescentou, enxugando uma lágrima involuntária.
— Posso lhe fornecer notícias mais frescas.
O local sinistro do qual me falou aguçou-me a curiosidade e um de nossos co-irmãos, que se encontra actualmente em missão pelo mundo, juntou algumas informações a meu pedido e enviou-as para mim.
Lembra-se do conde Bélsky, apaixonado por Mila?
Agora ela está casada com o ex-noivo de sua afilhada Nádya.
O conde foi vítima do crime, que não pode ser julgado por homens.
Com a cumplicidade de Mila, Krassinsky arrancou-lhe o corpo astral, rompendo o fio vital do pobre jovem e, engenhosamente, instalou o espírito de um satanista morto no seu corpo físico.
Este "novo" conde Bélsky encontrou-se no exterior com a sua afilhada, por quem se apaixonou, e acabou por desposá-la.
A desafortunada jovem acha-se casada com Bélsky, que na verdade é uma larva.
— Isso é terrível!
Pobre Nádya! tão pura e inocente, atada àquele monstro! - exclamou enfurecido o almirante.
Vedrinsky também não conseguia conter a ira.
— Nós a resgataremos - tranquilizou-os Manarma.
É essencial acabarmos com Krassinsky, instalado sob o nome de conde Farkatch em Kiev, onde pretende desempenhar o papel do feiticeiro Cagliostro.
Agora, amigos, depois das devidas instruções eu os armarei de tudo que precisarem para esta difícil e perigosa empreitada.
Não percam tempo e partam o mais rápido possível...
Mal serenou a sensação provocada pela vinda a Kiev do conde Farkatch, um novo assunto para as fofocas ocupou as línguas ociosas das comadres, tão invejosas, indiscretas e maldosas nos círculos da alta-roda, como nos da gentalha.
O motivo disso foi a chegada do conde Bélsky com a jovem esposa, que se instalaram numa casa luxuosa, e todos impacientemente aguardavam a visita deles.
A jovem condessa foi vista pela primeira vez na casa de Rostóvskaya.
Nádya, ainda mais encantadora que antes, comportou-se fria e discretamente com os velhos conhecidos.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 21, 2016 7:33 pm

Sua frieza, entretanto, não inibiu gente sem cerimónia, que pouco antes lhe virou o rosto por ficarem os Zamyátin arruinados, e dispensou a mais calorosa atenção à jovem milionária, disputando a honra de sua visita em casa.
Assim, o jovem casal fez as necessárias honras e abriu também as portas dos próprios salões, aos quais compareceu o conde Farkatch na qualidade de amigo do anfitrião.
Mila, devido à gravidez, não aparecia muito na sociedade, mas recebia em casa.
Numa pequena reunião na casa da parenta do marido, ela "conheceu" o conde Farkatch, quando então ele prometeu fazer-lhe uma visita.
Mila ficou muito feliz em reencontrar o pai e abrigar-se sob sua protecção.
Longe dele, ela sentia-se desamparada e, às vezes, muito infeliz, já que o relacionamento conjugal deixava a desejar com o sonhado, sem dizer que a atormentava o facto de sugerir medo e aversão ao marido.
Num dos saraus, ao qual não pôde deixar de comparecer, Massalítinov viu a condessa, a quem deveria cumprimentar.
Pálido feito espectro, ele lhe rendeu reverência e, ao interceptar-lhe o olhar indiferente e gélido, seu corpo foi percorrido por tremor nervoso.
Nádya sabendo, por sua vez, que o encontro com o ex-noivo seria difícil, observou prazerosa as mudanças nele operadas, cujo aspecto era desanimado e doente.
Não era o antigo Massalítinov, vivaz, alegre, esbanjando saúde; era pálido, calado e o olhar sombrio e cansado.
"Ele é infeliz" — pensou e, no bondoso coração, o ódio foi substituído por pena.
Com que rapidez Némesis alcançara o traidor!
Deus o julgou e puniu...
Alguns dias depois, Massalítinov retornou tarde da casa de um amigo.
Mila após o habitual banho estava deitada na cama.
Branca feito lençol, seus enormes olhos brilhavam fosfóricos qual gato.
Ela pregou o olhar devorador no marido.
Ao notar a esposa acordada, Mikhail Dmítrievitch inclinou-se para lhe dar um beijo.
Nisso, esta lhe cingiu o pescoço, atraiu-o junto a si feito ímã e grudou seus lábios aos dele.
O beijo foi tão brusco que o deixou tonto, acelerando os batimentos cardíacos.
Faltava-lhe o ar e, durasse tal estado mais um pouco, ele achou que tombaria morto.
Ele concentrou todas as suas forças para se desenvencilhar das mãos tenazes a cingirem qual serpente sua presa.
Mila parecia dotada nesses momentos de força sobre-humana e seus lábios tornaram a se unir com os dele.
Iniciou-se uma luta, silenciosa mas desesperada.
Fora de si, ele tentava escapar aos empurrões; debalde, pois aquela mulher frágil parecia de ferro.
A cabeça dele anuviou-se e os ouvidos zumbiam, na vista projectavam-se círculos ígneos.
"Salve-me, ó, Deus" - fulgiu-lhe o pedido na consciência moribunda e, num esforço supremo, ele se atirou para trás.
As mãos de Mila se soltaram e Massalítinov, feito ébrio, tombou sobre o tapete.
Pouco depois, ele se ergueu, deu dois passos e, sentindo mais uma vez tontura, deixou-se cair na poltrona.
Estendendo com esforço a mão, tocou a campainha que se comunicava com o quarto de Ekaterina Aleksándrovna.
Minutos após, a senhora Morel entrou de robe, surpresa e apreensiva.
Ao ver Massalítinov na poltrona, olhos cerrados, sufocando-se e com as mãos premidas ao peito, aproximou-se rapidamente.
Bastou um olhar lançado a Mila, deitada inconsciente e com os lábios roxos, dedos entortados e unhas preitejadas, para compreender o sucedido.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 21, 2016 7:33 pm

A senhora Morel estava familiarizada com as crises estranhas na infância de Mila, quando a menina investia sobre ela, sobre as babás ou as governantas, grudava-se feito sanguessuga em sua vítima e, finalmente, quando conseguiam afastá-la, Mila ficava inconsciente durante algumas horas com o corpo todo azulado.
Ekaterina Aleksándrovna pegou do criado-mudo um copo de vinho, levantou a cabeça de Massalítinov, cujos dentes tremelicavam feito em febre, e deu-lhe de beber; na sequência, ela molhou uma toalha e com ela enxugou-lhe o rosto cadavérico.
Pouco depois, este se levantou recuperado; estava muito fraco mas bem consciente.
Seu olhar meio perdido pousou desdenhoso em Mila e virando-se para a senhora Morel, perguntou em voz rouca:
— A senhora não parece surpresa com o sucedido.
Mila sempre tem estes ataques de loucura?
— Sim. Na infância as crises eram frequentes, mas já há alguns anos não se repetem, eu até achei que ela estava curada.
Desde que o senhor casou, este é o primeiro caso?
— Graças a Deus, espero ser o último.
— Pobrezinha! - suspirou a senhora Morel.
Agora durante dois ou três dias ela não vai reconhecer ninguém e precisará tomar remédios.
Peço-lhe, Mikhail Dmítrievitch, deixar-nos a sós.
Cambaleante e suando frio, ele foi ao gabinete, chamou o criado e ordenou trazer-lhe ovos frescos, carne fria, leite e champanhe.
Acendendo todas as lâmpadas, abriu a janela, apesar do frio.
Necessitava de ar e luminosidade.
Após servir-se de bebida e comida, Massalítinov dispensou o criado, fechou a janela, deitou-se no sofá e pôs-se a reflectir.
Mila sugeria-lhe uma repulsa que beirava o ódio.
Esse acontecimento deixou-o deprimido e, depois daquele dia, toda vez que se aproximava da esposa no leito, acometia-o tremor nervoso.
Quando, dias depois, Mila se levantou melancólica, dela mesma partiu a sugestão que ele dormisse no quarto ao lado do seu gabinete, até a recuperação completa dela.
Tal solução parecia tê-lo agradado tanto, que Mila mordeu os lábios.
Ao sair com ar de satisfação do dormitório, não percebeu o olhar sombrio com que o acompanhou a esposa.
Massalítinov se sentia infeliz e deprimido.
Que futuro tinha com aquela criatura estranha e perigosa?
Um pressentimento sugeria-lhe que a vida conjugal não duraria muito e até sua segurança corria perigo.
Sinceramente grato à senhora Morel pelos cuidados dispensados à esposa, ele lhe era gentil e prevenido, pois ela o livrava de muitos problemas.
O conde Farkatch tornou-se visita constante.
Mila parecia gostar da companhia interessante dele, cuja conversa parecia distrair e animá-la, de modo que Mikhail Dmítrievitch recebia bem o conde, embora no íntimo não simpatizasse com ele.
Certo dia, estando Mikhail Dmítrievitch de serviço e a senhora Morel fazendo compras, veio o conde Farkatch.
Mila recebeu-o no boudoir e mandou servir o chá.
Tão logo o serviçal saiu, a jovem inclinou-se ao conde e lhe falou em italiano, com lágrimas nos olhos:
— Papai, ajude-me! Sou tão infeliz.
Eu meto medo em Michel.
Não sei o que há comigo; sinto faltar-me a vitalidade e então fico qual louca.
Ela falou dos casos com as três crianças, com a camareira e do seu último ataque ao marido, a partir do qual ele mal disfarçava seu medo a ela.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 21, 2016 7:33 pm

Krassinsky ficou pensativo.
Apesar de todos os seus conhecimentos, ele não podia mudar a natureza da filha — uma criatura vampírica, que requeria o dobro de energias vitais em se comparando ao ser normal, e cujos instintos ele não conseguia aplacar.
— Não se preocupe!
Vou lhe arrumar um preparado para recuperar as forças e cuidar para que Michel não lhe tenha mais medo.
Não deixe de tomar a erva deixada por mim na última vez.
Vai ficar tudo bem e prometo garantir sua felicidade.
— Ah, minha felicidade! - suspirou Mila.
Ela é bem duvidosa...
Nádya está aqui, bonita, rica e amada; Michel ainda não se esqueceu dela, tenho certeza.
— Não tenha medo da concorrência dela.
Prometo torná-la inofensiva - assegurou Krassinsky, com sorriso malicioso.
Bem, a senhora Morel deve ter retornado, e você sabe como ela me odeia - acrescentou ele, em despedida.
De facto, a única pessoa que não escondia a antipatia por Farkatch, por quem suspiravam todas as damas da cidade, era Ekaterina Aleksándrovna.
— Ele parece, tal qual duas gotas de água, com aquele miserável Turaev, responsável pela morte do meu pobre Casimiro, e que fez infeliz a minha querida Marússya, desaparecendo depois de praticar aqueles malefícios - dizia ela a Mila.
Aliás, como dissemos, só a senhora Morel tinha essa opinião; a alta-roda achava o conde encantador.
O interesse por ele aumentava a cada dia, sobretudo ao descobrirem ser aquele gentil cavalheiro um mestre em magnetismo notável, um ocultista e "mago" capaz de operar fenómenos incríveis.
Numa ocasião, na tentativa de confortar uma pobre senhora, cujo filho pôs termo à própria vida, ele invocou o espírito do jovem à presença da mãe e de diversas pessoas estranhas, e forneceu provas irrefutáveis quanto à identidade dele.
Após esse caso o conde viu-se assediado por pedidos de realizar tais tipos de sessões; sem relutância, o "mago" aquiesceu.
A segunda apresentação teve sucesso estrondoso.
Mãos invisíveis tocaram flauta e piano; numa caixa fechada apareceram mensagens; pelo salão voou um passarinho, de cujo ovo, após quinze minutos, saiu seu filhote.
Todos se despediram atónitos e admirados, e o interesse geral por ele aumentou ainda mais.
Todos queriam participar de suas sessões, mas devido ao enorme número de interessados era difícil receber convite.
Entrementes, o conde anunciou aos seus admiradores mais ardorosos sua vontade de apresentar experimentos mágicos bem mais interessantes e complexos, com a condição de que isso seria realizado num círculo mais íntimo.
E, quando os felizes eleitos se reuniram pela primeira vez, viram o salão mobiliado de forma diferente: sobre a mesa, rodeada por cadeiras, havia uma caixa cinzelada com um círculo em giz ao lado, bem como trípodes com ervas e uma espécie de pedestal.
O conde trajava malha, do pescoço pendia um bastão.
Após todos se acomodarem, a luz foi apagada e, nesse minuto, numa das trípodes surgiu uma chama vermelha, iluminando a sala.
Depois dos devidos esconjures, o conde realizou uma série de fenómenos interessantes.
Do tecto precipitavam-se echarpes orientais e quinquilharias, seguiram-se miragens.
De repente, no lugar das paredes do salão abriram-se quadros tão vivos, que se podia escutar o rumorejo dos chafarizes no pátio do palácio hindu, ou o farfalhar das folhas da floresta tropical virgem.
Boquiabertos, os presentes se entreolhavam.
Cada um se perguntava se aquilo era miragem ou realidade.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 21, 2016 7:34 pm

Quais autómatos, os espectadores seguiram o conde até o refeitório, onde um lauto jantar por eles esperava, tomado de assalto e voracidade sem precedentes.
Ninguém atentou a Farkatch, sorrindo com desdém.
0 sucesso da sessão espalhou-se rapidamente.
Incapazes de alcançar com a mente as prestidigitações engenhosas do feiticeiro, a próxima sessão era aguardada com impaciência por todos.
Decidido a saciar sua paixão impura, Krassinsky-Farkatch intentava atrair Nádya para participar daquele círculo diabólico, visto, até então, a jovem parecer estar imune aos feitiços do mago.
Embora Nádya não se achasse infeliz, porque o marido lhe era bom e parecia loucamente apaixonado por ela, em seu espírito se instalou uma apreensão pelo comportamento estranho dele.
No início, a pureza e a ingenuidade da jovem acercaram-na das suspeições; mas seus sentidos femininos fizeram-na finalmente compreender a artificialidade da vida conjugal e, no íntimo, alegrava-a o facto de não sentir nada por Bélsky, ao contrário, tinha-lhe um medo inexplicável e, então, resolveu descobrir os motivos disso.
Observando-o atentamente, convenceu-se de seu comportamento no mínimo estranho.
Sempre que o conde adentrava o dormitório à noite, feito um autómato, aproximava-se da esposa, deitava-lhe por algum tempo o olhar perdido e, em seguida, ia se deitar, adormecendo imediatamente.
Não é que a Nádya afrontava a indiferença dele; ao contrário, preocupavam-na outros factos, não menos anormais.
Chamou sua atenção o extravio de sua cruz baptismal e, logo depois, desapareceram dois outros crucifixos.
Alegando não crer em Deus, Adam mandou retirar todos os ícones do aposento e determinou que a esposa não frequentasse igreja em sua ausência.
Estranhavam a Nádya, também, as constantes viagens do conde ora a uma, ora a outra propriedade.
Ainda que o conde Farkatch fosse amigo íntimo do marido e suas visitas eram frequentes, Nádya nutria-lhe antipatia e, quando ele a convidou para a sessão de ocultismo, a jovem rejeitou a ideia, alegando seu pavor a tudo sobrenatural.
Bélsky tentou convencê-la, mas diante de sua firmeza desistiu.
Porém, ao perceber que sua recusa magoara o marido, pediu-lhe para arrumar alguns livros de ocultismo para ter algumas noções sobre o assunto antes de ir à sessão.
Os livros, trazidos pessoalmente por Farkatch, incitaram-lhe a curiosidade e ela acabou cedendo aos argumentos de Adam de evitar que seu amigo ficasse magoado.
Nádya, ainda que contrafeita, aceitou participar da sessão a se realizar em breve.
Dois meses antes, um evento aguardado deu-se na família dos Massalítinov:
Mila deu à luz um filho, e a recuperação da mãe foi mais rápida que se imaginava.
Mikhail Dmítrievitch adorava crianças e sentiu-se no sétimo céu, quando lhe trouxeram a criança tão impacientemente esperada.
O filho nasceu sadio, ainda que antes do prazo.
Mas ao sentimento de bem-aventurança e amor do pai, de chofre, seguiu-se um outro, beirando repulsa e medo supersticioso.
Vindo a luz à noite, o pequerrucho envolto em rendas sobre o travesseiro de seda não produziu inicialmente sobre o pai nenhuma impressão especial.
De manhã, quando ele se inclinou sobre o berço, ficou estremecido com o olhar dos enormes olhos negros, a encararem-no curiosos e penetrantes; aquele olhar nem de longe parecia o de um recém-nascido.
Quando Massalítinov afastou instintivamente a cabeça, nos lábios do nascituro deslizou um sorriso de zomba.
Duas horas mais tarde, ao receber do padre a bênção e o nome de Vladimir, o bebé entrou em convulsão e foi necessário chamar o médico.
Sombrio, Mikhail Dmítrievitch retirou-se ao gabinete, perturbado com a conscientização de que seu filho era uma criança enigmática, tal como a mãe.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 22, 2016 7:32 pm

Nas semanas seguintes, diversos acontecimentos desagradáveis pareciam não dar trégua.
A começar pelas amas-de-leite:
em duas semanas três delas foram substituídas.
Da primeira, em alguns dias, o leite secou; a segunda teve crises epilépticas, e a terceira morreu de ataque cardíaco.
Ekaterina Aleksándrovna, dedicada aos cuidados da mãe e criança, estava desesperada.
A quarta ama-de-leite durou mais, contudo o leite se lhe esgotou e ela pediu as contas.
Ekaterina Aleksándrovna decidiu contratar uma ama-seca e alimentar a criança com leite de cabra.
De manhã, na hora do desjejum, quando ela comentou seus planos, Massalítinov observou em tom de ironia:
— De facto, Volódya é um flagelo das amas-de-leite.
A senhora não acha, querida titia, que é o caso de convidar aquele famoso pastor bretão que curou Mila?
Talvez ele possa explicar tudo isso...
Ekaterina Aleksándrovna enrubesceu.
— Deus o perdoe!
O senhor quer dizer que o seu filho é uma criatura diabólica?
Bem que venho notando o senhor indiferente com ele!
Não tem pena dele? É seu filho.
Massalítinov levantou-se para se certificar de estarem sozinhos, aproximou-se dela e disse em voz trémula:
— Não sei se a senhora faz de conta que não enxerga nada, ou então diante de nós, profanos, ocorrem fenómenos sinistros e incompreensíveis.
Eu era um céptico incorrigível, e pode me chamar de louco, se quiser, mas agora não há como negar as evidências de que esta criança tem algo de errado.
A senhora já percebeu o olhar dele?
Ekaterina Aleksándrovna baixou os olhos.
— É impressão sua; ele é apenas uma criança de índole nervosa.
Mas pela expressão do rosto, a senhora Morel não parecia muito convicta de suas palavras.
— A continuar assim, eu largo tudo e saio de casa; não aguento mais viver aqui.
— O senhor está com os nervos abalados, Michel, e sofre de alucinações.
Precisa se tratar.
Graças a Deus, estamos no fim de fevereiro e daqui a umas três semanas, quando Mila se restabelecer por completo, ficaremos em Gorki até o outono.
O clima lá é excelente e fará bem tanto à mãe como ao filho.
Sugiro que o senhor faça o mesmo para tratar dos nervos.
Massalítinov nada respondeu, mas a perspectiva da viagem da esposa proporcionou-lhe satisfação.
Restabelecida inteiramente, Mila expressou vontade de participar da grande recepção com baile na casa de Farkatch; Mikhail Dmítrievitch aquiesceu a contragosto.
Até então ele sempre se esquivara dos convites, pretextando sua condição de herege e de ser "mal recebido no círculo além-túmulo".
Na véspera, Massalítinov havia visitado seu colega de farda - um jovem oficial, pândego e farrista, e visita contumaz das sessões do conde Farkatch.
— Você vai amanhã com a esposa à casa do conde? - perguntou ele.
— Infelizmente. Diga-me:
o que você acha dele e por que ultimamente parou de frequentar a casa dele? - respondeu, com outra pergunta, Massalítinov.
— Não espalhe!
Vi coisas lá realmente diabólicas e estranhas.
O relato dos fenómenos sobrenaturais vistos pelo amigo deixaram forte impressão em Massalítinov, e convenceram-no de que o conde era um sujeito perigoso.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 22, 2016 7:33 pm

— Fique atento e cuide da esposa - preveniu o amigo.
— Obrigado. Vou ficar de olho - assegurou, apertando-lhe a mão.
Já em casa, ele ficou por muito tempo cogitando como se prevenir de quaisquer problemas e, nisso, lembrou-se do tio de seu pai, um monge em Atenas por mais de quarenta anos.
Estando certa ocasião a mãe de Mikhail Dmítrievitch seriamente adoecida logo depois de se casar, o monge remeteu a ela uma pequena cruz de cipreste com partícula de santa relíquia.
Após se recuperar, Massalítinova carregava sempre consigo aquela cruz e lhe atribuía força miraculosa.
Sendo descrente em Deus, Mikhail Dmítrievitch guardava o objecto apenas como lembrança da querida mãe; então, lembrando-se da relíquia familiar antes do baile, ele a tirou do porta-jóias.
Era um pequeno medalhão de ouro e tampinha de vidro; no interior abrigava-se cruz miúda de madeira com a imagem do santo, e embaixo se encontrava a partícula da relíquia.
Massalítinov colocou-o no pescoço.
Nos salões iluminados da magnífica residência do conde Farkatch, festivos e numerosos convidados se apinhavam.
Como depois da sessão ocultista haveria as danças, as damas, engalanadas em trajes para a ocasião, rivalizavam-se em charme e jóias, contando serem notadas pelo gentil anfitrião - solteiro, belo, rico e de vastos saberes.
Duas jovens viúvas de boa aparência e bastante decididas eram as que mais se desmanchavam em seu coquetismo, no entanto, por mais gentil que fosse o conde, não dava preferência a nenhuma delas.
As rainhas do baile, pela beleza e luxo dos trajes, sem dúvida eram Mila e Nádya.
A primeira estava de vestido verde, urdido de prata, guarnecido de rendas maravilhosas, adorno de esmeraldas e pérolas rosa de valor inestimável.
Nádya trajava um deslumbrante conjunto inglês todo branco; seu adorno de cabeça, que consistia de pérolas e brilhantes, era um verdadeiro património, o botão de rosa nos cabelos negros destacava-se-lhe sobre o traje de brancura nívea.
Ambas trocaram reverências frias.
A sessão foi muito interessante.
Surgiam flores e demais miudezas; houve visões do passado, representando o comércio de mulheres na Babilónia; mostrou-se um combate medieval; a execução de Maria Antonieta e outros quadros que deixaram os espectadores atónitos.
Quando todos passaram ao salão anexo ao jardim de inverno, os convidados foram surpreendidos com a chegada de um desconhecido grupo de mulheres e homens que, saudados por Farkatch, foram apresentados a todos como seus amigos de Paris; em viagem à Rússia, eles passaram em Kiev só para vê-lo.
Ao saberem que o conde tinha organizado uma recepção, eles vieram sem avisar, a fim de lhe fazer uma surpresa.
Os recém-chegados parecia pertencerem à nata da sociedade e estavam elegantemente trajados.
Fora Farkatch, apenas Bélsky conhecia os visitantes; ele beijou as mãos das damas e trocou apertos de mão com os cavalheiros e lhes apresentou a esposa.
Iniciaram-se as danças e tudo em volta se animou.
Massalítinov não quis dançar e se sentou no vão da janela, pondo-se a observar Nádya.
Esta parecia-lhe especialmente encantadora.
Ao olhar casualmente para Mila, sentada por perto, ele viu um dos estranhos cavalheiros convidando-a para dançar; esta como que estremeceu, declinou o corpo para trás, mas logo se levantou e, valsando, perdeu-se na multidão.
Nenhuma sombra de ciúme assaltava-lhe a alma e sequer lhe passou pela mente seguir a esposa, pondo-a a salvo do cavalheiro aparentemente antipático; toda a sua atenção concentrava-se em Nádya, cercada por multidão de fãs.
Nisso, o conde Farkatch aproximou-se dela, a fim de tirá-la para dançar.
Como que movido por sentimento inexplicável, Massalítinov saiu de seu abrigo e ficou observando-a.
Por alguns instantes, ele a perdeu de vista na multidão, mas, depois, viu-a de esguelha saindo com o seu cavalheiro para o jardim de inverno.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 22, 2016 7:33 pm

Sem razão aparente, ele sentiu uma enorme apreensão pela jovem que poderia correr grande
perigo em companhia daquele homem perigoso. Seu dever era protegê-la e Massalítinov foi abrindo caminho entre os convidados.
Em sua pressa de alcançar o jardim de inverno, cruzou no caminho com Bélsky, que se dirigia ao bufê com alguns senhores.
O jardim, iluminado por lâmpadas eléctricas encobertas, difundindo penumbra misteriosa, era grande e abrigava numerosas plantas tropicais; para a sua construção foram unidas, numa só, diversas salas.
No centro do jardim, um chafariz espargia suas águas e, nas duas laterais, entre os arbustos, perfilavam-se caramanchões com bancos revestidos de veludo.
O jardim findava numa gruta levemente iluminada por lâmpada violeta.
Massalítinov parou indeciso.
Nádya não estava à vista.
Nesse ínterim, a ele chegou o som de flauta longínqua, cuja melodia monótona, selvagem e dissonante nele produziu sensação de angústia.
Quem poderia estar tocando?
Cuidadosamente ele se embrenhou pelos arbustos e divisou na gruta o conde Farkatch.
Era ele que tocava a alguns passos de Nádya, pálida, olhar parado e bruxuleante na entrada da gruta.
Parecia estar hipnotizada e movia-se lentamente para dentro da gruta até ficar ao lado do conde.
Nisso, ele parou de tocar, enfiou a flauta no bolso e, agarrando a jovem, puxou-a a si.
Sem muito pensar, Massalítinov arrancou do peito o medalhão, tirou o crucifixo, correu para a gruta e projectou-o em direcção a Farkatch; este soltou um grito rouco e soltou Nádya.
Com o rosto transfigurado e espumando pela boca, ele soltou um grito desatinado:
— O que é isso? O que é isso?
Infeliz, onde arrumou esse símbolo?
Solte-o ou eu a estrangulo!...
Mas Mikhail Dmítrievitch, num pulo, já se achava ao lado de Nádya com a cruz erguida.
Furioso, Farkatch desapareceu por entre a vegetação.
Nádya permanecia feito estátua.
— Volte a si, você está salva! - sussurrou Massalítinov, tocando-lhe a testa com a cruz, cujo poder ele acabava de conhecer.
Esta estremeceu.
Seus olhos fixaram-no conscientes e com a mão trémula ela enxugou a testa.
— Eu não estava dormindo, estava?
Senti-me paralisada, sem poder oferecer qualquer resistência.
Mas o que o fez vir em meu socorro, Mikhail Dmítrievitch?
Por acaso já sabia que aquele homem era um bruxo?
— Sim, Nadejda Filíppovna, felizmente não sou mais aquele céptico, e hoje compreendo mais coisas.
Permita-me dizer mais uma coisa.
Reconheço que você tem motivos de desprezar-me, mas não me julgue com precipitação.
Uma terrível fatalidade do destino nos separou; algo terrível e sinistro ocorre em nossa volta e, se puder, perdoe-me o que fiz, pois já fui cruelmente punido.
Sou o mais infeliz dos homens e pressinto meu fim medonho.
Ore por mim e jamais fique perto de Gorki, desse ninho diabólico onde os nossos infortúnios começaram.
Ele agarrou e apertou convulsivo a mão de Nádya.
Esta ergueu os olhos e, ao notar-lhe o desespero no rosto e as lágrimas fulgindo nos olhos, sentiu uma enorme pena do homem que outrora amara e seu ódio desapareceu.
— Suplicarei a Deus para que lhe restitua a paz e o resguarde de todo o mal - balbuciou ela.
Súbito, ouviram-se gritos e ambos saíram correndo da gruta.
Abismados, eles viram ao lado do chafariz Mila de joelhos, debatendo-se contra Bélsky fardado, que tentava estrangulá-la.
A jovem gritava, tentando afastar as mãos do homem enfurecido, a apertar-lhe o pescoço.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 22, 2016 7:33 pm

— Devolva-me a vida, sua sanguessuga diabólica! - urrava ele.
Massalítinov viu-se rapidamente junto a Mila para defendê-la do agressor; porém nesse instante todas as luzes se apagaram, a música e a dança pararam e ouviu-se a voz de Farkatch:
— Um minuto de paciência, mes dames et messieurs!
Houve um problema no fio eléctrico e vamos iluminar a casa à moda antiga.
Logo acorreram os criados, trazendo candelabros.
Mila estava deitada no chão, seu marido lhe sustentava a cabeça e Bélsky havia desaparecido.
A multidão curiosa afluiu ao jardim de inverno.
Enquanto Massalítinov levava a esposa para um quarto nos fundos da casa, de todos os lados choviam perguntas sobre o acontecido.
— Madame Massalítinova sofreu um atentado.
O agressor tem incrível semelhança com o meu marido, quando era oficial - explicava Nádya, desolada.
Mas o conde, como podem ver, está em trajes civis.
O conde Adam aproximou-se, visivelmente perturbado.
— Que história desagradável'. - exclamou ele - o mordomo me disse que acabaram de deter na saída um oficial, procurado desde a manhã pelos funcionários do manicómio do doutor Vurstenzon.
Abandonado pela esposa infiel, ele enlouqueceu e procura por ela para matá-la.
Está preso agora.
Acalme-se, querida! - adicionou o conde, meigamente.
— Quero voltar para casa - disse Nádya.
Estou muito cansada.
Você, Adam, pode ficar aqui.
Nisso aproximou-se Farkatch e anunciou que o demente já tinha sido levado, mas que muitas damas, assustadas com a falta de luz, tinham ido embora.
— Que decepção!
A festa foi estragada.
Maldito doido! - indignava-se Farkatch.
A senhora também vai nos deixar, condessa?
— Sim, mas o marido ficará aqui - respondeu friamente Nádya.
— Eu também vou me despedir.
O senhor entende:
Mila, depois desta história toda, precisa de repouso - disse Massalítinov, ao se aproximar.
Sem trocarem uma palavra, Massalítinov e a esposa dirigiram-se de coche para casa.
Mila tremia febril, enrolada na peliça.
Ao invés de ter por ela um sentimento de afecto, sua figura lhe sugeria medo e repulsa e, à penumbra da carruagem, seus olhos esverdeados e penetrantes parecia brilharem de chama hostil.
Seu coração se comprimiu doloroso:
aquela mulher estranha não lhe pressagiava um final feliz.
No dia seguinte, Massalítinov saiu como de costume para o serviço.
No meio do caminho, ele verificou ter esquecido a pasta e decidiu voltar.
Perto da casa, notou o coche do conde Farkatch e soube do criado que Mila o recebeu em seu boudoir e pediu o chá.
Ciente de ter a senhora Morel levado o seu filho para o parque, sua esposa estaria a sós com o feiticeiro, vindo talvez para se inteirar da saúde dela.
Movido mais por curiosidade do que por ciúme em descobrir o que eles estariam conversando sem testemunhas, ele cruzou o longo corredor e foi ao seu quarto, separado do boudoir apenas por uma divisória de madeira.
Ali, atrás de algumas de papelão havia pequena janela, toldada por cortina de missangas, que dava para o boudoir.
Ele subiu num baú e olhou.
Mila sentada no sofá chorava.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 22, 2016 7:33 pm

Defronte dela, recostado na lareira, estava Farkatch, sombrio e preocupado.
— Repito-lhe: - dizia Mila por entre as lágrimas - não posso suportar mais esta terrível existência.
Faça algo para eu não meter medo em Michel.
Você conhece meu amor por ele e eu sofro ao perceber em seu olhar terror e ódio por mim.
Eu não suporto mais esta casa, fervilhando de larvas, íncubos e toda a espécie de monstros do mundo invisível!
Vocês são tão cruéis e injustos comigo!
E o meu filho?
Ele não é igual ao resto das crianças.
Até seu pai já percebeu isso e não quer saber dele.
Ela agarrou a cabeça com as mãos e em desespero gritou:
— Pai, devolva a alma do meu filho!
Expurgue-lhe o espírito diabólico!...
— Acalme-se e aguente. Eu...
— Não! - interrompeu-o Mila.
Minha paciência se esgotou.
Ázima me persegue e suga minha vida; Bélsky, a quem armei cilada para você arrancar-lhe a alma, tenta me matar.
Eu lhe servi conforme suas exigências, papai, e suportei tudo sem nada revelar; agora, peço-lhe dar um jeito nessa situação, pois, caso contrário, pedirei auxílio à minha mãe e que o Céu me proteja, já que o inferno não o consegue!
Massalítinov ouvia tudo, assombrado.
Quem seria aquele homem, a quem Mila chamava de pai e suplicava-lhe a ajuda?
Nesse instante, o conde estremeceu e os seus olhos escuros e profundos, qual sumidouro, de súbito fixaram-se na janelinha.
— Silêncio, insana! - ciciou ele, erguendo o braço.
Atrás da divisória, o seu marido está ouvindo tudo.
Vou acabar com ele!
Soltando um grito rouco, Mila saltou do sofá, correu até a divisória e colou-lhe o ouvido.
— Não ouse tocá-lo!
Só por cima do meu cadáver!
E se você usar sua maldita ciência para tirá-lo de mim, não respondo mais por nada.
Você não imagina de que eu sou capaz e, embora você seja um feiticeiro poderoso, tem o seu calcanhar de Aquiles.
Não me desafie, pai!
Farkatch aproximou-se dela e a fez sentar-se.
— Você enlouqueceu por completo.
Tem sorte de eu ser seu pai e, nessa condição, ainda que seja minha fraqueza, não vou destruir seu marido, a quem ama.
Somente cuidarei para que ele não se lembre de nada.
Ele ergueu a mão, fixando o olhar na janela.
Massalítinov ficou tonto e quase caiu do baú.
Com muita dificuldade, desceu ao chão e, cambaleando, dirigiu-se ao gabinete, deixou-se cair no sofá e adormeceu sono pesado.
No dia seguinte, na cidade correu a notícia sobre a viagem repentina do conde Farkatch ao estrangeiro.
Cerca de um mês se passou desde aquele baile memorável.
O conde Farkatch ainda estava fora.
Bélsky, atarefado com assuntos importantes, não parava em casa, e Nádya sentia-se feliz por ficar sozinha.
Frequentemente, ela reflectia sobre o seu ex-noivo e o marido.
A mágoa por Massalítinov desapareceu após o encontro no baile, quando percebeu em seu olhar o quanto ele era infeliz.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 22, 2016 7:33 pm

No íntimo, por várias evidências, ela tinha certeza de que o destino de ambos tomou uma direcção sinistra por interferência de forças malignas.
Assim, sentia muita pena dele, e a imagem de Mikhail Dmítrievitch foi ocupando o coração da jovem.
Quanto ao marido, estranhava-a sua relação com ele e, mais ainda, assombrou e enojou-a o relato da mãe de um menino que trabalhava na cozinha de Bélsky, sobrinho da camareira dele.
O conde possuía um apetite estranho:
todas as manhãs um novilho ou um galo era sacrificado e, ao banheiro dele, levavam um copo cheio de sangue quente e bife cru com sal.
Fora isso, antes de dormir ele tomava um suco de carne e comia meia dúzia de ovos crus.
Surpreendeu a Nádya tamanha voracidade, tanto mais que Adam sempre comia bem no almoço e jantar com ela.
Certa tarde, a jovem recebeu um bilhete da mãe, chamando-a em casa naquela mesma noite.
Estaria a mãe doente?
Mas Zoya Ióssifovna a recebeu alegre e, após beijá-la, sussurrou no ouvido:
— Tenho uma grande surpresa, mas é segredo.
— Surpresa com segredo?
Onde está escondida?
— Vá ao gabinete do seu pai para ver.
O gabinete de Zamyátin e os dois quartos a ele anexos permaneciam intocáveis e sempre trancados; Zoya Ióssifovna cuidava de sua ordem pessoalmente.
Sobre a escrivaninha permaneciam seus livros, papéis e cartas, tal qual o marido os deixara.
Ansiosa, Nádya adentrou o gabinete e, surpresa, viu dois homens levantando-se do sofá.
Ao reconhecer num deles o almirante, soltou um grito de alegria, atirou-se-lhe nos braços, soluçando de emoção e repetindo:
— Padrinho, padrinho!
Como estou feliz por ter voltado!
Minha alma está despedaçada.
Quanta coisa preciso lhe contar!
Ao perceber então Vedrinsky, ela lhe estendeu a mão e desculpou-se por não tê-lo reconhecido.
— Acalme-se, minha criança, estamos aqui para livrá-la de dois patifes - informou meigamente o almirante.
Nádya estremeceu.
— Foi Deus que os enviou para cá, padrinho.
Coisas sinistras e terríveis estão acontecendo aqui e quem sabe você nos possa dizer algo.
Não é verdade?
Vedrinsky desculpou-se e foi para o outro quarto; Ivan Andréevitch fez Nádya sentar-se ao seu lado no sofá e disse, premendo-lhe forte a mão:
—. Agora, minha criança, conte-me tudo o que a perturba.
Conhecendo seus problemas, vou-lhe explicar outras coisas e você terá de se armar de muita coragem.
Nádya fez um relato sucinto de como conheceu Bélsky no estrangeiro e, em seguida, corando, falou de seu estranho relacionamento com o conde, o qual não exigia qualquer direito sobre ela.
Contou também alguns detalhes estranhos do último baile.
O almirante só a interrompeu depois das últimas palavras dela, perguntando se o conde não lhe lembrava alguém.
Nádya pensou um pouco e, súbito, disse agitada.
— Sim, agora me lembro, e como não percebi isso antes?
Farkatch é cópia fiel do retrato de Turaev em Gorki, ao lado de Marússya.
Neste caso, Farkatch...
Agora começo a entender...
— Sim, minha criança, você adivinhou e então vem o mais difícil.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 22, 2016 7:34 pm

O nosso sábio mestre hindu, além de nos instruir como acabar com esse homem, veio pessoalmente à Europa para ajudar-nos a exterminar as criaturas satânicas.
Vamos reparar a morte de Marússya, a do meu amigo Vyatcheslav, a da pobre Bélskaya, a vida arruinada de seu pai e de Mikhail Dmítrievitch.
E longa a lista de suas vítimas...
Krassinsky e Bélsky são criaturas perigosas e devem ser destruídas fisicamente.
Embora tudo isso possa parecer um absurdo aos simplórios, os ocultistas do Himalaia sabem da gravidade da situação.
Mas, querida Nádya, terá você bastante coragem de participar dessa grandiosa luta, sem levantar suspeitas de Bélsky por tudo o que você já sabe?
Nádya, ao cerrar por instantes os olhos juntando as ideias, endireitou-se energicamente.
— Não tema, padrinho, Adam não desconfiará de nada, além do mais agora sei que você me protegerá.
Mas o que devo fazer?
— Bravo! Agora escute!
Tenho motivos de achar que Krassinsky está informado da minha vinda e do perigo que o ameaça; porém, dificilmente ele imagina a presença do mago Manarma.
O nosso inimigo tentará se esconder em sua fortaleza, onde ele é forte, ou seja:
na ilha perto de Gorki.
Como Mila é uma de suas armas, vai mandá-la para lá com o filho e Ekaterina Aleksándrovna.
Ainda não sabemos se Farkatch levará uma vida incógnita ou aberta.
Não se exclui a possibilidade de Bélsky ficar junto ao seu coirmão e oferecer o seu castelo, localizado na vizinhança.
Sua presença lá, minha criança, é indispensável.
Eu e Gueorgui Lvóvitch ficaremos escondidos na circunvizinhança e tentaremos eliminar um dos dois, quando o outro estiver longe.
— Serei forte, padrinho, contem com a minha ajuda!
Como é medonho esse mundo invisível!
Até o próprio Redentor foi tentado por Satanás.
Se Ele expulsava os demónios, significa que eles existem.
Em todos os tempos e culturas fala-se desse mundo oculto.
Ali e acolá, ocorrem fenómenos estranhos, que os homens, em sua ignorância, atribuem à superstição.
— Sim, minha querida, estamos cercados por monstros, à espreita de arrancar alguém do nosso meio, ora lhe infundindo demência, ora suicídio...
— Ah, padrinho! - interrompeu-o Nádya.
Esqueci de mencionar alguns factos, no mínimo uma obra das criaturas do inferno que se instalaram em casa.
Primeiro, eu vivo perdendo meus crucifixos; quase não consigo orar dentro da casa e, quando regresso da igreja, passo mal.
Adam quase desmaiou na missa de réquiem e o cheiro de ládano o faz vomitar.
Ainda bem, padrinho, que você está aqui.
Alguns dias se sucederam.
Num dos aposentos mais distantes da casa de Farkatch estava o próprio anfitrião e Bélsky.
Ambos pareciam apreensivos.
— Como já lhe disse, estamos correndo grande perigo, do qual o próprio mestre nos avisou.
— E quem poderia nos ameaçar? - balbuciou Bélsky.
Krassinsky desfechou sonora gargalhada.
— Ameaçar? Conheço esse alguém de longo tempo.
O maldito surripiou-me Marússya, e suas flechas quase me mataram.
Mas agora será diferente; vou lhe sugar a vida até o último suspiro.
Não estou mais sozinho, além de você, pedirei reforços na irmandade.
Uriel, Bifru e Ázima virão me ajudar.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 22, 2016 7:34 pm

O iminente confronto exigirá de mim todas as forças, de modo que irei a Gorki, onde vocês me encontrarão.
Lá, em meu laboratório, eu cuidarei de recuperar minha máxima energia.
Mandarei Mila para lá com o filho, pois sua ajuda será necessária.
Reservei a vila na ilha por todo o período de verão, onde posso me instalar abertamente quando quiser, mas, no início, ficarei incógnito.
Você e sua esposa viajam ao seu castelo, para eu poder atrair a Gorki o meu inimigo.
Depois de levar a condessa, você irá buscar os nossos irmãos, enquanto vou me preparar para o combate decisivo.
Após discutirem mais alguns detalhes, os amigos se separaram.
Um dia após essa conversa, Mila anunciou ao marido durante o jantar sua intenção de ir a Gorki com Ekaterina Aleksándrovna para aproveitar os maravilhosos dias da primavera e recuperar-se do esgotamento físico e mental.
— Como sei que você não gosta da vila, decidi ficar na antiga casa dos Zamyátin, onde se sentirá mais à vontade.
Quanto à vila na ilha, o conde Farkatch pediu-me que eu a arrendasse para ele durante todo o verão.
Aquelas bizarras lendas que a envolvem o deixaram curioso e ele pretende fazer uma investigação.
Dei-lhe o meu consentimento, visto não existir nenhuma razão em negar-lhe uma coisa tão simples - adicionou Mila.
— Excelente, vá quando quiser; eu viajarei assim que o serviço permitir - disse Massalítinov com frieza, tornada habitual ultimamente.
Tendo retornado da viagem a negócios, Bélsky sentou-se no sofá ao lado de Nádya, beijou-a e disse em tom meigo:
— Está muito pálida, minha querida.
Não acha que lhe fará bem tomar ares puros?
Quero lhe propor algo neste sentido.
Eu recebi uma carta do administrador da minha propriedade em Belkovitchi; você sabe... fica perto de Gorki.
Ali se acumularam muitos assuntos pendentes e o administrador insiste na minha presença.
Eu preciso ir, mas queria levá-la junto.
O castelo é confortável e tem um parque magnífico e, acredito, você ficará muito bem lá.
Gostaria de ir comigo?
— Claro, você se antecipou ao meu desejo, querido Adam.
— Agradeço, querida.
Quanto tempo precisa para se aprontar?
Eu pretendo sair daqui a três dias.
— Dá tempo. Mandarei a camareira fazer as malas.
Quero também me despedir da mamãe, de Rostóvskaya, de Massákova e de outras amigas mais chegadas, mas para isso um dia será suficiente.
No outro dia, Nádya foi à casa da mãe e combinou com o almirante que, se o conde fosse viajar, ela o informaria disso por carta a Zoya Ióssifovna, usando código ajustado, após o que ele e Vedrinsky iriam ao castelo, disfarçados em especialistas para organizar sua biblioteca.
O mago hindu ficaria em Kiev e se uniria aos amigos em caso de extrema necessidade e perigo.
Esperando pelo chamado deles, ele ficaria num mosteiro em Kiev, estudando suas grutas.
O castelo agradou a Nádya; o parque, em sua decoração primaveril, deixou-a extasiada em seus passeios.
Ela poderia até se sentir feliz nos aposentos luxuosos da rica casa, não lhe assaltassem contínuos receios do futuro e a presença do sinistro marido, cuja aproximação ou menor carícia a faziam se arrepiar por dentro.
Porém, externamente, ela não deixava transparecer nada e parecia grata a suas meiguices e cuidados.
E essa constante simulação a esgotava.
O telegrama, chamando o conde por três ou quatro semanas para o exterior, foi verdadeiro alívio.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 22, 2016 7:34 pm

Adam parecia desgostoso em deixar a esposa adorada, mas Nádya o confortou e prometeu não sair do castelo até o seu retorno.
O conde viajou, e dias depois ao castelo chegou um velho senhor bibliotecário com seu auxiliar, para catalogar, supostamente a pedido de Bélsky, os livros e documentos.
O almirante e Vedrinsky estavam tão bem disfarçados que nem mesmo Nádya os reconheceu de início.
Ela mandou hospedá-los nos dois aposentos ao lado da torre, onde se encontrava o arquivo, e ninguém na rica e hospitaleira casa sequer suspeitou dos recém-chegados a trabalharem com afinco na biblioteca, para onde lhes eram levados o almoço e o desjejum.
Krassinsky estava em Gorki, no subterrâneo.
Da conversa com Bélsky, soube que a jovem condessa ficaria sozinha e, consequentemente, indefesa, e então decidiu aproveitar a ausência do amigo para pôr em execução o seu plano de possuí-la.
Nádya lia um livro sobre ocultismo no boudoir e não se deu conta quando um peso plúmbeo paralisou seus membros e ela recostou-se no espaldar da poltrona.
Qual imobilizada, quis gritar ao ver a porta do quarto se abrir silenciosamente e assomar-se um alto homem de branco, cujo rosto brônzeo parecia exprimir vontade inabalável.
O forasteiro dela se aproximou, inclinou-se e começou a desabotoar-lhe o penhoar; em sua mão brilhava um objecto que ele deitou sobre o peito desnudado da jovem.
A jovem sentiu forte dor, lancinando-a qual ferro em brasa, e gritou.
E como que acordando, verificou tudo ter voltado ao normal, a não ser o seu penhoar de crepe chinês semi-aberto e uma sensação de algo a lhe queimar o peito, mas na pele acetinada não parecia haver qualquer marca.
"Que sonho estranho!"- pensou ela e tocou a campainha para chamar a criada, a fim de que esta a ajudasse a se trocar.
Qual foi sua surpresa, quando de manhã notou tatuada no peito uma pequena cruz vermelha.
Fosse o que fosse, sonho ou visão, aquela marca deveria ter algum sentido.
Talvez ela corresse perigo, e o símbolo sagrado a protegeria.
Ela experimentou uma doce sensação de tranquilidade, pois não estava sozinha; alguém, sempre em vigília, deveria estar protegendo-a.
Dois dias após a visão estranha, o quarto do almirante e Vedrinsky era palco de preparativos misteriosos.
Armando-se de disco metálico escuro com sinais cabalísticos, bastão de sete nós e punhal mágico, tirados do baú, os dois foram ao boudoir de Nádya, localizado ao lado do dormitório dela.
A jovem dormia sono profundo.
Era cerca da meia-noite.
O almirante depositou o disco no limiar do dormitório, desenhou no ar, com o bastão, sinais mágicos e os dois se esconderam atrás do pesado reposteiro de veludo.
Mal o velho relógio bateu meia-noite, na saleta que dava para o jardim se ouviu leve barulho de passos e, à luz fraca do luar a se infiltrar por cortina rendada, eles avistaram Krassinsky, esgueirando-se célere ao dormitório através do boudoir.
Mas ao pisar na soleira, soltou um grito desatinado, ao se ver preso ao disco metálico.
Em meio a impropérios e espumando pela boca, seu esforço de sair do lugar era inútil, pois os pés patinavam pelo metal.
O almirante deixou o esconderijo, e postando-se diante do feiticeiro, disse em tom de desprezo:
— Saúdo-o, sanguessuga!
A hora da justiça bateu finalmente; agora você não tem onde se esconder e vai voltar ao inferno, onde é o seu lugar.
Krassinsky se empertigou e, por sua vez, mediu o inimigo com olhar irado.
Aparentemente a serenidade lhe retornara.
— Sim, caí numa cilada, mas ainda não fui vencido, do que se convencerá, seu gabola impertinente - e ergueu a mão com o famigerado anel de Tvardovsky.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 22, 2016 7:34 pm

— Ó, mestre, venha me ajudar!
O castelo, até os alicerces, sacudiu-se do trovejar e o disco escorregou dos pés de Krassinsky e voou para o outro canto do quarto.
Uma coluna de fumaça envolveu o almirante, caído no chão.
— Que azar! - lamentou-se o almirante, quando Vedrinsky ajudou-o a se erguer.
O monstro parece invulnerável.
Agora, meu amigo, precisamos tomar muito cuidado.
Esse patife fará de tudo para destruir-nos.
"O almirante acordou Nádya, contou-lhe sobre o sucedido e disse a ela para ficar em vigília e orar por mais que isso fosse difícil.
A moça prometeu cumprir as ordens e acrescentou que, desde o aparecimento da límpida visão que gravara a cruz em seu peito, ela nada mais parecia temer.
Os dois voltaram ao aposentos, mas ficaram no quarto do almirante.
Enquanto um dormia, o outro lia fórmulas e mantinha as defumações prescritas.
Contudo, a noite passou tranquila.
De manhã, o almirante enviou telegrama ao mago, pedindo sua rápida vinda.
Os dois dias seguintes estenderam-se na expectativa angustiosa do iminente ataque de Krassinsky.
Nádya parecia no domínio de si e orava com ardor comovente.
A noite do terceiro dia, o mago hindu ainda não tinha chegado; o coche estava na estação dois dias antes.
Vedrinsky estava dormindo.
— Acorde, amigo, vamos nos preparar!
— Vamos até Nádya? - perguntou Vedrinsky.
— Não, ficaremos no seu quarto, que é maior e só tem uma única entrada.
O outro cómodo, ocupado por Vedrinsky, tinha poucos móveis; suas paredes eram pintadas a óleo de cor branca, larga veneziana saía para o jardim.
Auxiliado por Gueorgui Lvóvitch, o almirante tirou de lá todos os móveis de fácil transporte e desenhou no chão, no meio do recinto, um grande círculo com giz vermelho.
Ambos vestiram longas túnicas brancas, cingidas com faixa de seda.
O almirante pendurou no colo sua corneta de ouro e enfiou na cintura a espada, cuja lâmina era coberta por sinais mágicos.
Ao postar-se no centro do círculo, Gueorgui Lvóvitch começou a recitar os esconjuros, espargindo água benta do frasco aos quatro pontos cardeais, enquanto o almirante desenhava símbolos cabalísticos com a espada.
Nessa mesma noite, Krassinsky também ultimava seus preparativos no laboratório subterrâneo, colocando sete trípodes com carvão e ramos resinosos em cima de um disco metálico ao lado da mesa.
Estava sombrio e preocupado; seus olhos de profundeza abismal cintilavam de ira e ódio.
— Preciso me livrar dele, caso contrário minha existência será insuportável e vou acabar apodrecendo aqui - resmungava ele.
O inimigo está mais forte que antes.
Eu sinto isso.
Engalanando-se em malha preta e colocando sua insígnia peitoral em forma de triângulo emborcado, ele se postou em cima do disco e, erguendo o bastão, iniciou o ritual do exorcismo.
Na ponta do bastão cintilou chama esverdeada, projectando-se e acendendo as sete trípodes, e enchendo o recinto com fumaça.
Explosões sucederam sobre as trípodes e, das nuvens de fumaça, desprenderam-se seis criaturas, que foram se agrupando em torno da sétima trípode, onde fervilhava uma massa incandescida.
Então uma explosão mais forte fez estremecer as paredes do laboratório e, da massa vermelha enfumaçada, assomou-se um demónio.
Krassinsky prostrou-se diante dele e, desconsolado, expôs-lhe todas as agruras, suplicando-lhe ajuda.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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