Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 22, 2016 7:34 pm

— Suas queixas são legítimas.
Abandone seu astral e vingue-se.
Fique tranquilo, montarei guarda a seu corpo físico!
Seu inimigo o está aguardando, mas não tem chance contra nós.
Krassinsky agradeceu, tirou da cintura um frasco chato e abriu-o.
0 líquido vermelho de odor forte, mas agradável se espalhou pelo laboratório.
Vertendo para fora o seu conteúdo, ele começou a rodopiar sobre si mesmo à velocidade crescente.
Do local de seu plexo solar, foi se desprendendo um vapor denso e avermelhado que o envolveu por completo e, ao se densificar, distanciou-se do corpo inânime e azulado, jazendo no chão.
Pairando fora do círculo, a nuvem púrpura se compactou e tomou o aspecto do corpo desfalecido; era Krassinsky, qual moldado de metal fundido e atado por fio ígneo ao corpo material.
Passado um minuto, o corpo astral do feiticeiro como que penetrou na parede e desapareceu.
Cerca de uma hora se passou; o almirante e Vedrinsky estavam a seus postos.
Repentinamente, um forte odor de enxofre irrompeu no quarto, deixando-os entorpecidos.
Assombrados, eles viram dos cantos escuros rastejarem em direcção do círculo mágico seres animalescos, encarando-os com olhos ameaçadores.
Nisso, na parede branca, delineou-se uma grande mancha avermelhada, rapidamente se compactando.
Vedrinsky retomou trémulo a recitação das fórmulas, mas quando foi borrifar o ar com a água benta, foi atingido por golpe com uma rajada de cheiro fétido que lhe tonteou a cabeça e sustou a respiração.
O livro e o aspersório deslizaram de suas mãos, a vista turvou-se e ele derribou ao chão.
O desfalecimento do jovem neófito foi acompanhado por gargalhada sonora de escárnio do vulto avermelhado, já com aspecto humano, cujos braços ora se contraíam, ora se estendiam.
Dominado por torpor pesado, o almirante viu duas enormes mãos qual garras estendendo-se na direcção do círculo.
Num esforço supremo da vontade, prestes a se extinguir, ele levou a corneta à boca; um som agudo ecoou para longe.
Ouviu-se um sibilo, estilhaçando os vidros da janela, fazendo com que as garras diabólicas no início retrocedessem, mas, em seguida, se projectaram na tentativa de alcançar Ivan Andréevitch atrás do círculo.
Nisso, na janela surgiu o vulto de Manarma.
Um feixe luminoso envolvia a cabeça do mago, empunhando cruz fulgente.
Corrente de ar vivifico bafejou o almirante, restituindo-lhe as energias.
A réplica do feiticeiro recostou-se ágil à parede de onde viera, porém o mago hindu ali o alcançou e o estocou com a espada mágica.
Um líquido púrpuro espargiu-se na parede; um pavoroso trovão estremeceu a casa com tanta força que, com o impacto, o almirante e Vedrinsky foram jogados contra a parede esmorecidos.
Manarma havia partido ao encalço de Krassinsky.
Violento furacão tempestuava fora.
Rajadas furiosas de vento arrancavam árvores e levantavam colunas de areia, derrubando tudo em seu caminho.
No subterrâneo, nada parecia ter mudado:
nas trípodes ainda ardiam crepitando as ervas resinosas, e os espíritos continuavam a zelar o corpo que jazia no centro do disco metálico.
Ouviu-se um rolar longínquo e, no círculo, assomou-se a figura do mago hindu, postada entre o corpo inerte e sua réplica ferida.
Qual flecha, esta tentou voltar ao cadáver caído, mas nisso um feixe luminoso, projectando-se da mão do mago, decepou o fio ígneo que unia o feiticeiro ao corpo.
Um grito soou agonizante, sobreveio silêncio e instalou-se escuridão completa.
Mais de uma hora depois do terrificante drama nocturno, pelo lago deslizava rapidamente um barco na direcção da casa na ilha.
O navegador amarrou a embarcação ao arbusto, caminhou apressado em direcção às ruínas do monastério e deu sinal de sua chegada.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 22, 2016 7:35 pm

Quando, finalmente, abriu-se a porta secreta, foi recebido pelo pálido e desolado corcunda.
— Por que demorou tanto para abrir?
Akham sabe da minha vinda - resmungou o forasteiro.
— Oh, senhor Bifru! - balbuciou o criado.
O mestre Akham oficiava um grande exorcismo, até o chefe apareceu, mas deu algo errado.
Falko e eu estávamos atrás da porta, recitando as fórmulas, quando as paredes estremeceram e tudo parecia vir abaixo; ouviram-se explosões, trovões, gritos e depois tudo silenciou.
O mestre Akham não dá sinal de vida e eu não tenho autorização para entrar - concluiu o corcunda, tremendo todo.
Apreensivo, Bifru deteve-se por instantes diante da porta maciça de carvalho do laboratório, rachada em toda a sua altura, depois a empurrou com força e olhou para a sala escura.
— Vá buscar a luz! - ordenou ele ao criado.
Segurando alto o candelabro, a devastação do laboratório deixou Bifru atónito.
No chão espalhavam-se partes quebradas de móveis e instrumentos, pedaços de livros e roupas; o disco metálico estava partido em três partes; na parede, ao lado de um enorme buraco havia manchas vermelhas e negras.
No meio de toda aquela bagunça, ele viu o corpo desnudado de Krassinsky, cujos membros estavam enegrecidos, como que calcinados.
Em seu plexo solar, em cima de larga mancha negra havia uma marca de sinal cabalístico, com desenho da cruz no alto, cuja visão fez Bifru, inclinado sobre o cadáver, retroceder rapidamente.
— É o sinal de mago!
Ele foi atingido por espada de um mago! - balbuciou Bifru, recostando-se à parede.
Recompondo-se um pouco, ele enxugou a testa.
— Não sei agora... se chamo os irmãos da Ordem, ou o enterro sozinho - resmungou.
É uma pena... uma pena!
Vai ser difícil encontrar um cientista assim...
Suspirando, ele pensou um pouco e acrescentou à meia voz:
— Vou cuidar para que o corpo não se decomponha.
Os irmãos depois acharão alguma solução.
Um homem prevenido como Akham por certo tem à mão todos os apetrechos necessários.
Ele chamou o corcunda, e ambos se puseram a trabalhar.
Depois de trazido o caixão de ébano, o criado indicou a localização das poções de Krassinsky, trouxe do pátio um saco de terra, uma gaiola com ratos e um gato preto.
Após misturar a terra com fósforo e diversas substância de odor forte, Bifru sacrificou o gato e os roedores, regou com sangue a mistura e, com ela, untou o corpo de Krassinsky, excepto a boca, as narinas e os olhos.
Na sequência, embrulhou o cadáver num pano de linho e colocou-o no caixão, revestido por chapas metálicas.
Antes de descer no corpo a tampa com orifícios, ele o polvilhou com pó e, com a ajuda de dois criados, o caixão foi transportado à saleta, onde se encontrava a estátua de Lúcifer.
Em torno do ataúde coberto por pano, foram então dispostos candelabros com velas pretas e sete trípodes com carvão.
Bifru ordenou aos corcundas se revezarem na manutenção das brasas, queimando o incenso, e na leitura dos conjuros.
Anunciando que ele ficaria nos aposentos de Akham, aguardando a vinda de outros irmãos, ele se retirou.
O almirante e seu amigo só recuperaram a consciência ao amanhecer.
Notaram então a parede manchada de sangue.
O almirante persignou-se e soltou suspiro de alívio.
— Krassinsky está morto.
Não viesse Manarma em nosso auxílio, também estaríamos.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 22, 2016 7:35 pm

— Ainda bem que você teve tempo de tocar a corneta.
— Não acredito.
Manarma sabia que não daríamos conta do feiticeiro.
Está vendo aquela rosa?
Eu a vi antes do ataque daquele demónio.
Ele pegou o botão da flor e colocou-o no bolso.
Precisavam achar uma maneira de tirar a mancha vermelha na parede por causa dos criados.
Então o almirante lembrou-se da tinta a óleo, de secagem rápida, da qual se munira por ordem estranha de Manarma.
Aplicando uma demão sobre a parede, a mancha quase desapareceu, excepto por leve nódoa rosada, à qual dificilmente alguém daria atenção face aos maiores estragos do vidro quebrado e bagunça no jardim.
Cerca de duas semanas após os acontecimentos descritos, Mila e a senhora Morel estavam justamente na mesma saleta, ao lado do terraço, onde, ao iniciarmos a nossa narrativa, estava reunida a família dos Zamyátin.
O tempo estava frio e chovia.
Uma cerração densa envolvia a ilha e o lago.
As damas estavam sozinhas.
Ekaterina Aleksándrovna tricotava e, de soslaio, observava Mila, enrolada em manta de pelúcia perto da lareira.
— O que há com você ultimamente?
Seu aspecto deixa a desejar:
emagreceu, anda nervosa e estremece com qualquer barulho.
Diga o que está acontecendo?
— Nem mesmo eu sei.
Uma angústia me assalta como se algo de ruim estivesse por acontecer.
Não consigo entender - acrescentou -, num momento não vejo a hora de Michel vir, minuto depois, não quero que ele volte.
Ele odeia Gorki, e até eu começo a odiar este lugar.
Por certo não ficarei aqui até o fim do outono!
Acredite, titia, não sou uma pessoa pusilânime, mas meus nervos estão à flor da pele.
A noite, quando abro a porta de Volódya, só me acalmo se ouvir o ronco da ama-seca estremecendo as paredes.
Não é estranho?
A senhora Morel acotovelou-se meditativa, remexendo nervosamente a corrente do relógio; parecia preocupada.
— Já é tarde.
Você precisa dormir.
— Não, não, tia. Não quero dormir.
Se você não estiver cansada, fique comigo para conversar.
— Com muito prazer, querida, conversar é comigo mesmo, mas antes deixe eu passar algumas ordens para Ksenya.
Mudando de assunto - acrescentou ela, levantando-se e enrolando o tricô -, você não acha que Nádya está sendo indelicada?
Mais de um mês na cidade, ela ainda não se dignou a visitá-la.
— Tanto melhor; não quero vê-la.
Deixada a sós, Mila recostou-se na poltrona, meditativa.
Algo que não podia confiar a Ekaterina Aleksándrovna estava deixando-a preocupada.
Assim que ela chegou a Gorki, seu pai comunicou-lhe que ele se refugiaria no subterrâneo e, mais tarde, apareceria oficialmente como conde Farkatch.
Mas desde então, ela não teve dele qualquer notícia e não entendia a razão do seu silêncio.
Soou meia-noite.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 22, 2016 7:35 pm

Súbito a atenção de Mila foi atraída por estranho estalido.
Nesse instante, a porta do terraço entreabriu-se e no limiar apareceu o corcunda.
Mila olhou para ele com asco.
— O que você quer?
— Seu pai morreu, mas não por muito tempo.
Foi vítima de uma terrível cilada, mas logo arrumará um corpo novo.
Só que agora ele se tornou um vampiro.
O corcunda virou-se e como que se derreteu no ar.
Mila afundou-se na poltrona.
Seu pai estava... morto... seu pai era... um vampiro - uma criatura medonha que suga as forças vitais de pessoas saudáveis.
O quanto era maléfico aquele ser vampírico, ela sabia por experiência própria, e seu marido e filho corriam grande perigo.
Mila enxugou o suor gelado, sua vista embaciou e a cabeça pendeu.
Sentiu a senhora Morel esfregando-lhe as têmporas com água-de-colónia e dando-lhe sais para cheirar.
— Não posso deixá-la sozinha nem por cinco minutos.
Pode me dizer por que a porta do balcão está aberta com esse frio e você estava qual desmaiada?
— Não sei, tia.
Estes meus nervos nojentos... - balbuciou, abraçando-se à senhora Morel e rompendo num pranto convulsivo.
No dia que se seguiu ao descrito, o almirante foi conversar com Nádya.
A jovem, após o encontro, dispensou a camareira e deitou-se mais cedo, alegando dor de cabeça.
Uma hora mais tarde, o conde retornou da viagem muito cansado.
Ao saber da indisposição da condessa, não quis perturbá-la e mandou arrumar a cama no outro quarto.
Bateu a meia-noite e no enorme castelo tudo dormia.
O almirante entrou silenciosamente no quarto do conde e esgueirou-se até seu leito.
Bélsky jazia em estado cataléptico, corpo hirto, boca aberta.
Ivan Andréevitch saiu apressado e logo depois retornou com Vedrinsky, trazendo uma bacia, hissope e lençol; Nádya segurava uma vela acesa, o almirante transportava uma bandeja de prata com uma hóstia consagrada e vinho.
— Ele abandonou o corpo usurpado, assim vamos lhe cortar o caminho de volta - disse o almirante.
Ele mandou Nádya postar-se aos pés e vedrinsky à cabeceira do conde; em seguida benzeu o corpo e após recitar orações de réquiem repetiu por vezes:
— Adam Bélsky!
Em nome do nosso Senhor Jesus Cristo, cuja fé professou até o último suspiro, purifico o corpo animado por sua alma do contacto com o espírito impuro que o possui.
Ponho o corpo e o sangue do Senhor nosso em sua boca para livrá-lo do mal.
Colocada a hóstia e vertidas algumas gotas de vinho na boca aberta, o almirante enfiou na mão enrijecida a vela acesa, cobriu-lhe o corpo com lençol, com crucifixo e sinais cabalísticos bordados, e sobre os lábios dele depositou uma pequena cruz.
Vedrinsky e Nádya saíram; o almirante se pôs de joelhos junto à cabeceira e iniciou orações de réquiem.
Passados poucos minutos, a janela escancarou-se; um vulto humano arremessou-se ao corpo, preso a ele por fino fio ígneo então visível.
A um passo do leito, o espectro estacou no ar e retrocedeu, soltando grito surdo.
O elo ígneo espichou e, rompendo-se, lançou o espectro rodopiando no ar pela janela.
O almirante tirou o lençol, apagou a vela e saiu do quarto, deixando apenas a pequena cruz de ouro a lhe cerrar os lábios.
— Mais um demónio que encontra a casa trancada - gracejou Ivan Andréevitch, satisfeito.
Sentado no chão diante da estátua de Lúcifer, o corcunda recitava lamentoso os esconjuros diante do cadáver de Krassinsky.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 22, 2016 7:35 pm

O relógio bateu meia-noite; de chofre, pela sala sinistramente iluminada por quatro velas em candelabros de prata soprou uma lufada gélida.
A tampa do caixão se soergueu e ante o corcunda emergiu o rosto cadavérico de Krassinsky, cujos olhos afundados ardiam qual duas brasas.
Agilmente, ele saltou para o chão, pegou da mesa junto à estátua o anel de Tvardovsky e saiu em busca de um novo corpo.
Qual nuvem negra, voejava vertiginosamente o ser maligno e misterioso, envolto em manto fumacento.
Os vivos não o enxergavam; as aves se dispersavam em pânico.
O voo dele era dirigido ao castelo de Bélsky.
Ele sabia que o conde já retornara da viagem, pois tinha ido falar com Bifru no subterrâneo, informando que Uriel e Ázima, profundamente abalados com a morte de Akham, só apareceriam alguns dias depois.
O objectivo da ida de Krassinsky ao castelo era para surripiar de Baalberit o corpo a ele gentilmente cedido.
A pretendida nova "residência" do inquilino Bélsky era mais próxima e mais apropriada pela precariedade de sua relação com a larva devido ao enfraquecimento de Baalberit, que não fincou raízes fundas em seu novo invólucro.
Por certo, ao ir dormir, muito esgotado pela viagem, o astral do conde abandonaria seu corpo, o que possibilitaria a Krassinsky aproveitar sua ausência e, com seus conhecimentos e força vampírica, ocupar o lugar de Baalberit.
Um sorriso cruel torceu os lábios do espectro -, ele teria por direito a posse de Nádya, tornando-a sua esposa legal...
Entrar no velho castelo foi fácil.
Diante do quarto de Bélsky, o espectro ergueu levemente o reposteiro.
O instinto o levava directo ao objectivo.
Mas, súbito, ele estacou abismado.
— Maldição, cheguei tarde! - berrou o espírito das trevas e sumiu pela janela.
Na manhã do dia seguinte, o castelo de Bélsky estava em polvorosa.
Preocupado por não ter sido chamado pelo patrão até hora tardia, o mordomo foi ao seu quarto e encontrou o conde deitado sem vida e corpo frio.
Mandou acordar rapidamente a condessa e enviou um mensageiro a cavalo para buscar o médico.
Quando este chegou, horas depois, constatou que o conde, tal qual sua mãe, morreu de infarto.
Nádya ordenou que fosse trazido um padre católico e trancafiou-se em seu quarto.
A jovem estava realmente pasma com os últimos acontecimentos, envolvendo o reino satânico, oculto à maioria dos olhos cegos, quando amiúde o homem torna-se sua presa, se não for cercado por oração e amparo dos seres superiores a quem chamamos de santos.
Naquela mesma noite à hora do chá, a Gorki veio a notícia da morte súbita de Bélsky - o que deixou Mila apreensiva.
Ela intuíra de imediato que a provável tentativa do pai em se apossar do corpo do conde não dera certo por alguma razão desconhecida.
— O que tem, Mila?
A morte de Bélsky parece tê-la abalado! - preocupou-se a senhora Morel, cuidando para ministrar-lhe algumas gotas de calmante.
Desde o dia do ataque daquele desvairado, parecido com Bélsky, você anda muito nervosa.
Mila nada respondeu.
Suando frio, mãos trémulas, assaltava-a um pensamento terrível, causando-lhe uma dor quase física.
Maquinalmente, ela tomou as gotas e, alegando fraqueza e cansaço, disse que iria deitar.
Antes, porém, foi ao quarto do filho, liberou a ama-seca para o jantar e sentou-se junto ao berço.
O pequerrucho não estava dormindo; havia acabado de comer sua papinha com leite e estava entretido com os brinquedos espalhados no colchão.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 23, 2016 7:34 pm

Volódya Massalítinov destacava-se pela beleza ímpar, conjugando os traços correctos do tipo oriental do pai com as madeixas douradas e cheias da mãe, a contornarem o rostinho miúdo de brancura de alabastro, excepto seus lábios vermelho sanguíneos.
Contava então com sete meses, mas seu crescimento não correspondia à idade.
Os enormes e bonitos olhos esverdeados, de fulgor fosforescente, tinham expressão estranha.
Certos momentos fascinavam a mãe, sobretudo quando, como naquela hora, erguendo-se no berço em sua blusinha de cambraia de gola larga rendada, ele lhe sorriu, estendendo as mãozinhas fofas de querubim.
Mila não seria mãe, se naquele minuto não se esquecesse de todos os seus medos.
Ela meigamente apertou a criança e cobriu de beijos suas mãozinhas, pezinhos e todo o corpo.
Logo retornou a babá - uma jovem forte de vinte e cinco anos -, e ambas ficaram brincando com o pequerrucho até ele pegar no sono.
Ao sair do quarto, Mila topou com a senhora Morel que viera lhe entregar um telegrama de Massalítinov, anunciando sua chegada dali a um dia, no trem nocturno.
Essa notícia talvez numa outra hora teria lhe proporcionado alegria, mas naquele momento a deixou até apreensiva.
O marido e o filho eram presas potenciais do terrível vampiro.
— Querida tia, tenho-lhe um grande pedido - disse Mila, tomando-lhe a mão.
Estou com pressentimento que Volódya corre perigo; estou muito cansada, além do mais sua ama-seca tem sono pesado, de modo que eu lhe peço passar esta noite com ele.
— Claro, se isso deixá-la mais sossegada, minha querida.
Tirei uma boa soneca depois do almoço, e não vejo dificuldade em passar a noite em vigília.
Só vou pegar um livro e o meu tricô.
— Pegue o Evangelho, tia.
— Oh, começo a achar que você se tornou uma carola, Mila - e sorriu.
Até atenderia ao seu desejo, mas onde vou arrumar um Evangelho?
— Vi um no antigo quarto do almirante.
Vamos até lá - propôs Mila, arrastando-a consigo.
Ao ficar sozinha, Mila pegou do toucador o retrato da mãe e olhou fixamente para ela, premendo os lábios.
— Mamãe, mamãe, proteja-me! - sussurrou, soluçando.
Não tenho culpa por meu pai ser um feiticeiro e eu tão estranha.
Ajude-me, sou tão infeliz!
Michel tem medo de nós dois e, provavelmente, nem quer ficar connosco neste maldito lugar.
Eu vou vender esta propriedade que só traz tragédias.
Por longo tempo ela chorou ainda, depois adormeceu de cansaço com o retrato da mãe no peito.
A senhora Morel acomodou-se junto ao berço de Volódya, o qual dormia tão tranquilo como a babá, meio vestida para o caso da criança acordar.
Ekaterina Aleksándrovna tricotou por algum tempo, depois largou o trabalho e pôs-se a folhear o Evangelho.
Era uma edição encadernada em couro, em cuja capa estava gravado um crucifixo.
Porém, quando bateu a meia-noite, uma sonolência foi dominando-a.
Inutilmente lutou contra isso; seus membros foram ficando pesados, as mãos caíram nos joelhos e o esforço para manter os olhos abertos causava dor quase física.
Instintivamente, pegou o Evangelho e o depositou sobre o cobertor.
De chofre, pareceu-lhe estar postada uma figura humana junto ao berço.
No vulto retrocedido ela reconheceu o conde Farkatch, encarando-a com olhar flâmeo.
Sem conseguir se mover e feito enfeitiçada, olhava a senhora Morel para o visitante inesperado.
Nisso, ele deu as costas e dirigiu-se, parecia, ao leito da ama-seca.
Contudo, nesse minuto, Ekaterina Aleksándrovna parecia estar inconsciente.
Seu retorno à realidade foi causado pela sensação de água fria no rosto e o cheiro de sal inglês.
Estremecida, ela se endireitou e esquadrinhou com o olhar perdido em volta.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 23, 2016 7:34 pm

Viu então, no meio do quarto, Mila com o filho chorando em seu colo, ao lado da cama da ama-seca, onde também se encontrava a camareira e a velha administradora, as duas muito agitadas.
— O que aconteceu? - perguntou assustada a senhora Morel.
Mila fez menção de responder, mas os seus lábios trémulos não obedeciam; ela apontou para a cama onde, poucas horas antes, estava deitada a outrora mulher jovem, viçosa e forte, que gemia fracamente; de tão branca, parecia não haver sequer uma gota de sangue em seu corpo.
Arrepiando-se, Ekaterina Aleksándrovna lembrou ter visto Farkatch indo na direcção da babá.
— Ela não durará até a chegada do médico - assegurou a camareira.
— Não é do médico que ela precisa, mas de um sacerdote.
Não vêem a marca da mordida de vampiro? - e a velha administradora apontou para um pequeno ferimento no pescoço.
Felizmente o padre Tímon veio à vila para dar comunhão ao pastor Yakov, e eu já mandei chamá-lo.
E a velha pôs-se a recitar em voz alta a oração dos últimos sacramentos.
Logo chegou o padre.
A senhora Morel deixou o quarto com Mila, carregando o filho, debatendo-se convulsivamente no colo da mãe.
Quando, com o auxílio da segunda camareira, o pequerrucho foi acalmado e deitado no berço, transferido ao quarto da mãe, Ekaterina Aleksándrovna contou a Mila a estranha visão.
— Se não tivesse visto Farkatch com os próprios olhos, não teria acreditado.
Onde estará se escondendo esse monstro?
Não é à toa que o chamam de perigoso feiticeiro, e com razão.
Mila compreendia a gravidade do acontecido; em sua cabeça rodopiava um verdadeiro turbilhão de pensamentos caóticos.
Sem resistir, ela tomou calmante e sugeriu à senhora Morel ir descansar.
Tendo expedido ainda algumas determinações quanto à defunta, Mila retirou-se ao seu boudoir e trancou a porta.
Enrodilhando-se no sofá, a jovem tentou se acalmar e, aos poucos, em sua mente delineou-se com clareza um projecto de ficar livre da criatura hedionda que ameaçava a vida de seu filho.
Não só era necessário defender a todos; o importante era destruir o perigosíssimo vampiro.
Mila já não era tão ignorante como da primeira vez em que encontrara o pai, o qual a consagrou em muitos mistérios e ensinou a interpretar livros esotéricos.
Sendo mulher inteligente e obstinada, seu aprendizado surpreendera até seu pai.
Quem iria imaginar que suas leituras na biblioteca subterrânea sobre temas de magia e vampirismo iriam servir um dia para combater o próprio mestre.
À medida que os seus pensamentos se concentravam no projecto, sua decisão ia se fortalecendo.
Ela teria de ler um livro específico sobre os vampiros e dele haurir as informações indispensáveis.
Era preciso encontrá-lo a todo custo e, então, lembrou-se em que armário estava escondido.
Mila conhecia a passagem secreta na galeria embaixo do lago.
Krassinsky a havia revelado antes de sua ida a Gorki.
Resolveu, sem adiar ir àquela biblioteca.
Retornando ao dormitório, Mila lavou o rosto com a essência, tomou as gotas tonificantes deixadas pelo pai e, envolvendo-se em capa preta, foi ao quarto em que se encontrava a entrada do subterrâneo.
Célere, a jovem alcançou a longa galeria e os aposentos subterrâneos de Krassinsky.
Tudo estava vazio e quieto, ainda que em alguns lugares houvesse luz, o que apontava que alguém precisava dela.
Atravessando um pequeno corredor lateral, de súbito ela ouviu uma voz recitando esconjuros.
Mila deteve-se em prontidão, depois, avançou cuidadosamente e viu-se diante da porta toldada com cortina de couro, e espiou para dentro.
No fundo da sala circular, divisou a estátua de Lúcifer, a cuja frente, de cócoras, um corcunda realizava defumações, outro lia fórmulas.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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No centro do recinto, no caixão aberto, jazia o corpo de seu pai, cujo rosto com os olhos esbugalhados tinha expressão grotesca e pavorosa; seus lábios pareciam crestados de sangue.
"Ah, eis onde se esconde o monstro do inferno!" — pensou Mila, dando um passo para trás.
Em passos largos, a jovem ganhou o gabinete do pai e logo encontrou na prateleira o livro procurado.
Era um grosso volume, encadernado em couro, em cuja capa estava gravado um morcego com cara humana e asas abertas, cravando seus dentes no colo de mulher desnudada, cuja cabeça pendia inânime.
Mila escondeu o livro sob a capa e caminhou de volta.
Ainda que se sentisse cansada, a leitura do antigo livro a envolveu sobremaneira, descortinando-lhe quadros assombrosos do medonho mistério que o reino invisível escondia dos mortais comuns, com suas leis ocultas.
O livro indicava também a forma de preservar a umbrosa existência do cadáver, unido à alma pecaminosa, os métodos para evitar a acção dos fluidos da decomposição e os perigos que poderiam ameaçar vampiros.
Ensinava, entre outras coisas, que o maior perigo à sua existência era o golpe com punhal mágico aplicado no plexo solar do vampiro, ou uma estocada de álamo em suas costas.
Terminada a leitura, Mila recostou-se na poltrona em cogitações.
Muitos dos fenómenos descritos ela já havia vivenciado:
suas viagens nocturnas, a sede por sangue, as inúmeras mortes estranhas ao seu redor...
Estremecida de repulsa, de rosto afogueado, ela se empertigou.
Ocorreu-lhe a possibilidade, caso pudesse destruir o vampiro, de também conseguir romper o elo que a ligava ao seu pai...
Então ficaria livre, podendo levar uma vida normal e tranquila, estando salva toda sua família.
"Por acaso não sou também uma criatura vampírica?
O Céu por certo me elegeu para livrar a Terra desse monstro e eu o farei antes da chegada de Michel.
Oh, se ele atrasasse pelo menos por um dia!
Sua vida aqui corre perigo.
Além de precisar diariamente de sangue fresco, meu pai está desesperado por corpo novo, para prosseguir impunemente com sua existência criminosa..." - pensava ela.
Repassando na mente os detalhes de seu plano, ocorreu-lhe então um aspecto importante:
onde encontraria a arma que se requeria?
Krassinsky dispunha sem dúvida de formidável arsenal mágico, mas o livro ensinava ser necessária uma arma da magia branca e esta, com certeza, não seria encontrada com um mago negro.
Lembrou-se de uma de suas conversas nocturnas, quando seu pai lhe mostrou o punhal consagrado, com que foi destruído Baalberit.
Um sorriso de satisfação iluminou o rosto de Mila.
Ela usaria a arma que o pai lhe mostrara, sem imaginar que a mesma iria destruir a ele mesmo.
Feita a justiça, ela abandonaria Gorki e venderia a propriedade sinistra.
Estava amanhecendo, quando Mila fechou o livro, deitou-se e adormeceu de imediato.
Ao acordar tarde, ainda se sentia fraca, e receou que tal estado poderia atrapalhar seus planos.
Para seu êxito, precisava contar com todas suas forças físicas e espirituais, sem dizer que o dia seria difícil, pois estaria ocupada por formalidades inevitáveis devido à morte da babá.
Eram dez horas da noite, quando o trem de Massalítinov chegou à estação, onde por ele aguardava um coche para levá-lo a Gorki.
Mila havia instruído o cocheiro e o mordomo para não comentarem nada sobre a morte da babá, a fim de resguardá-lo de preocupações.
Já sem isso, Massalítinov parecia triste; remoía-o a vaga lembrança da conversa entre Mila e Farkatch, quando ela o tratou por pai.
Era mais um enigma, tão estranho como todos os outros que diziam respeito a Mila.
Seu espírito se insurgia contra a mulher que o separou de Nádya, apoderou-se dele em circunstâncias trágicas e, além de tudo, sugeria-lhe medo e repulsa.
Mais do que de costume, a imagem da criatura pura e encantadora de Nádya ocupava o espaço de seu coração.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 23, 2016 7:34 pm

Que ela ainda tinha algo por ele, disso ele se convenceu ao ler os olhos límpidos dela em seu encontro no baile de Farkatch.
Para ele, Nádya estava perdida, mas quem sabe ele poderia pelo menos recuperar a liberdade...
A decisão de se separar de Mila, custasse o que custasse, nele amadurecia rapidamente.
Esses pensamentos o absorviam tanto que sequer notou a chuva a fustigar as janelas do coche.
As estrebarias em Gorki tinham excelentes cavalos, e o par dos jovens corcéis fogosos galopava velozmente pela estrada mal conservada; o cocheiro era experiente e merecia toda a confiança.
Quando eles adentraram o bosque, cujas árvores escureceram de vez o caminho, o cocheiro quis conter os cavalos, quando estes, de súbito, lançaram-se para o lado, empinando-se.
Repentinamente tirado de seus devaneios, Massalítinov endireitou-se e baixando o vidro quis perguntar o que estava acontecendo, quando, à luz avermelhada do lampião do coche, viu a figura alta de um homem, qual brotado do acostamento.
— Poderia me ceder um lugarzinho em seu veículo?
Estou perdido na floresta - soou uma voz familiar, já ao lado do coche.
— Ah, é o senhor, Mikhail Dmítrievitch!
Sou o conde Farkatch.
Ao ouvir o nome, Massalítinov ficou constrangido.
Por pouco ele não perguntou o que este fazia num tempo chuvoso e sozinho na floresta; mas fosse qual fosse o motivo, ele não lhe daria o direito de dizer:
"Saia daqui, não o quero no meu coche, pois não gosto do senhor já que o considero um bruxo".
Por mera educação, era preciso concordar, e o conde já previa isso, e sem esperar pela resposta, abriu a porta e acomodou-se no assento.
O cocheiro parecia ter dificuldade em segurar os cavalos a se empinarem, mas tão logo a porta foi fechada, eles dispararam em desabalada carreira.
Ao se virar para o conde no intuito de expressar-lhe a estranheza da situação, ficou estremecido ao ver que o conde Farkatch projectava em sua direcção as mãos cadavéricas em passes magnéticos; um peso plúmbeo e frio glacial dele se apoderaram, imobilizando-lhe os movimentos.
Uma dor lancinante feria-lhe o coração e a respiração sustada fê-lo desfalecer.
Os cavalos, em carreira enfurecida, finalmente levaram o coche para fora do bosque, quando o cocheiro divisou na penumbra as silhuetas de dois cavaleiros.
Um dos cavalos atirou-se para o lado e resvalou no barranco.
Por sorte, uma árvore no acostamento segurou o coche e impediu que tanto ele como o segundo cavalo despencassem do barranco.
Com o impacto, o cocheiro e o mordomo foram atirados para fora do veículo.
Os cavaleiros se aproximaram do local do desastre e apearam; eram o almirante e Vedrinsky.
O primeiro correu até o coche, enquanto Ivan Andréevitch tentava erguer o cocheiro.
Mal Gueorgui Lvóvitch escancarou a portinhola, retrocedeu assustado:
do interior do veículo pulou um vulto, que desapareceu na escuridão.
Vyatcheslav iluminou com lampião o interior do coche e viu Massalítinov recostado inconsciente no banco.
Nisso aproximou-se o almirante.
— O cocheiro está seriamente ferido - comentou, ajudando a tirar Massalítinov para fora.
Ivan Andréevitch impregnou seu lenço com líquido do frasco tirado do bolso, e molhou o rosto e as mãos de Mikhail Dmítrievitch; depois, cingiu-lhe o pescoço com crucifixo e pronunciou conjurações.
Vedrinsky ainda ajudava o mordomo, que nada sofrera, a cortar os arreios do primeiro cavalo, sem sinal de vida, e depois puxaram o cavalo que caiu no barranco.
— Foi o próprio demónio que entrou no coche e assustou os pobres animais.
Jamais vi algo assim na vida - dizia o mordomo, persignando-se - um homem forte e destemido, que servira na guarda imperial e costumava sair sozinho para caçar ursos.
Um gemido surdo de Massalítinov fez Jorj se aproximar dele.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 23, 2016 7:35 pm

— Farkatch quis me estrangular... - balbuciou, enxugando o suor escorrendo.
Foi Deus que os enviou para cá! - acrescentou.
Agora vou a pé, não quero mais pôr os pés nesse maldito coche.
Avaliou-se a situação.
Um dos cavalos estava morto, o cocheiro quebrou a perna e, além de tudo, na confusão eles haviam se desviado do caminho a Gorki; estavam mais próximos do castelo de Bélsky.
Decidiram deixar o cocheiro ferido sob os cuidados do mordomo até lhes ser enviado o socorro do castelo.
Massalítinov montou o cavalo de Vedrinsky, e este ficou com o do coche.
No caminho, a notícia dada pelo almirante sobre a morte de Bélsky deixou Massalítinov prazeroso em vista de que Nádya estava novamente livre.
Naquela manhã, horas antes da chegada de Massalítinov, realizou-se o enterro do conde no cemitério vizinho.
A noite, o almirante e Vedrinsky saíram para passear a cavalo, e eis que voltavam com Mikhail Dmítrievitch.
Nádya o recepcionou bem e assombrou-se com o acontecido.
A espera do jantar, o almirante foi ao quarto a fim de escrever para seu protector.
Nádya e o hóspede inesperado ficaram sozinhos.
Depois de algum silêncio, Nádya sugeriu:
— Não seria melhor avisar Ludmila Nikoláevna sobre o que lhe aconteceu, se não ela vai ficar preocupada com seu atraso?
— Tem razão, mas hoje não estou em condições de ir a Gorki.
Eu posso lhe escrever algumas palavras, e se você puder mandar alguém...
— Claro. Vá ao meu boudoir e escreva um bilhete, enquanto mandarei o mensageiro selar o cavalo.
Em seu bilhete, Massalítinov citou apenas o acidente com o coche, omitindo o ataque de Farkatch.
Depois de entregar a mensagem a Nádya, ele se acotovelou sobre a mesa e entregou-se a sombrios pensamentos.
Sentia-se a tal ponto infeliz que parecia impossível continuar vivendo.
Um onda de ódio nele se insurgia contra a mulher e o filho que lhe sugeriam terror.
"Não, não, era preciso largar tudo e, de algum modo, pôr um termo à vida destruída e insuportável".
Um suspiro qual gemido soltou-se-lhe do peito.
Nádya, cuja volta não percebera, observava-o com sentimento de pena e amor.
Aproximando-se dele, ela descansou a mão em seu ombro.
— Não se desespere, Mikhail Dmítrievitch, ore e tenha fé; por certo Deus o salvaguardará da armadilha infernal.
Massalítinov ergueu-se, tomou-lhe as mãos e levou-as aos lábios.
— Sim, Nádya, fomos vítimas das artimanhas diabólicas e, uma vez que o destino me propiciou a felicidade de falar-lhe, permita-me explicar tudo ou, ao menos, justificar meus actos odiosos quanto a você.
E ele lhe contou tudo que lhe aconteceu, adicionando:
- Caímos numa trama ardilosa:
primeiro, a ruína estranha de sua família, depois - a minha incompreensível paixão por jogo, que terminou tão súbito como começou.
Jamais, Nádya, eu me interessei antes por jogo.
Eu estava com a corda no pescoço; Mila arrancou o revólver da minha mão, e depois me atei a ela com a promessa de desposá-la.
Não suporto mais esta fantasmagoria infernal e tenho a sensação de que o meu fim será triste.
— É preciso lutar e, com o auxílio de Deus, buscar a salvação sem se entregar ao desespero - animou-o Nádya.
Massalítinov esboçou um sorriso irónico.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 23, 2016 7:35 pm

— Para lutar é preciso ter um objectivo, uma esperança que me sustente.
A única esperança é você, Nádya.
Se você puder me perdoar e em seu coração sobrou algo por mim, se eu tiver a mínima esperança de reconquistá-la, agora que você está livre, vou lutar e farei de tudo para destruir o monstro que me suga a vida.
Se você não me ama mais, eu acabarei com a minha existência miserável; e para que ela servia, se até de minha esposa e meu filho tenho medo e aversão?
Quem são aquelas criaturas nojentas, vindas das trevas, perseguindo-me?
Quem é essa filha de Farkatch, vinda do inferno para me destruir?
Suplico-lhe, Nádya:
salve-me de mim mesmo, caso contrário vou ficar louco ou me mato; é preferível morrer de bala do que dos dentes de vampiro...
Sua agitação crescia e em meio ao tremor do corpo, nos olhos vagantes e flâmeos, lia-se de facto algo insano.
Apreensiva e emocionada, Nádya o levou até o sofá e ali o acomodou.
Seu amor por ele parecia ressuscitar à vista dos seus sofrimentos.
Suavemente, como tratando de uma criança doente, ela premeu-lhe a mão.
— Acalme-se, Michel!
Eu já o perdoei há muito tempo.
Chega, ouviu?
Eu o amo e se você reconquistar a liberdade, quem sabe ainda poderemos ser felizes esquecendo todos esses pesadelos.
Massalítinov pôs-se de joelhos, depositou a cabeça nos joelhos dela e começou a chorar convulsivamente.
A agressão tenebrosa do vampiro abalara por completo seus nervos doentios.
Nádya, esquecida de tudo, ergueu-lhe a cabeça caída e beijou-lhe a testa em brasa.
— Misha, Misha, recompõe-se!
Eu o amo, vou rezar por você e pedirei a ajuda ao meu protector - meu padrinho.
Ele é bom e forte e o colocará a salvo.
Mikhail Dmítrievitch a atraiu a si e beijou-lhe os lábios trémulos.
Nisso, o Newfaundland, cão que crescera na família dos Zamyátim, deitado no tapete, ergueu-se eriçado farejando algo e olhou em direcção à janela.
Nádya e Massalítinov viraram-se também e ficaram atónitos.
Através do vidro escuro fulgia um par de olhos verdes, pregados nos jovens.
Massalítinov ficou lívido.
— São os olhos de Mila! - gritou ele, correndo em direcção à porta, onde, atingido por golpe invisível, caiu desfalecido.
Nádya tocou a campainha e achegou-se a ele.
Acorreram o almirante, Vedrinsky e os criados.
A Mikhail Dmítrievitch foram dispensados urgentes socorros e, quando este abriu os olhos, foi levado ao quarto a ele reservado, onde Gueorgui Lvóvitch deitou o amigo na cama e ficou ao seu lado.
Nádya relatou ao padrinho a visão dos dois olhos verdes; como os avistou pessoalmente com muita clareza - o que excluía a possibilidade de alucinação por parte de Massalítinov devido a seu estado de excitação.
Após ouvi-la, Ivan Andréevitch balançou a cabeça.
— Deus queira que o pobre Mikhail Dmítrievitch possa superar tudo isso!
Oh, só quando temos de enfrentar forças malignas é que nos conscientizamos de nossa fraqueza e ignorância!
Naquela noite, Mila estava muito preocupada com a vinda inoportuna do marido, justamente quando ela ia pôr em prática seu plano de destruir seu pai para resguardar Michel e o filho do provável ataque do feiticeiro em busca de novo corpo.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 23, 2016 7:35 pm

Quando, por volta de onze horas, o coche não havia retornado, suas preocupações aumentaram.
Sentada no boudoir, ela aguçava temerosa os ouvidos a cada barulho, mas, por fim, esgotada por tantas aflições e problemas, mergulhou em sonolência cataléptica.
Algum tempo depois, saindo do torpor, sua alma inundou-se de ira colérica, ao vir-lhe claramente à memória ter estado no castelo, onde presenciou Michel de joelhos diante de Nádya.
— Ah, seu imprestável!
Você quer me largar?
Não, não, você sempre será meu e pagará caro por essa traição!
Lívida qual espectro, olhos flamejando de ódio, ela levantou-se decidida.
— Primeiro destruirei o monstro que me usou para seus crimes e afugentou-me o marido.
Olhou para o relógio:
faltavam vinte minutos para a meia-noite - ainda tinha tempo.
Vestiu depressa a capa preta com capuz sobre o vestido; o subterrâneo era frio e húmido.
Entreabrindo a porta do quarto do filho, certificou-se de que a senhora Morel lia junto ao berço e, tranquilizada, ganhou a biblioteca, de onde, com a lanterna na mão, desceu ao subterrâneo.
Um silêncio sinistro pairava na galeria, quebrado apenas por sua respiração ofegante.
Determinada, atravessou quase em carreira a galeria e penetrou no gabinete de Krassinsky.
Com a mão trémula tirou da gaveta da escrivaninha a chave do armário secreto, onde seu pai guardava os instrumentos mais importantes.
Pouco depois, já estava segurando a caixa oblonga, em cujo interior encontrou o célebre punhal embrulhado em pano de veludo.
A arma ainda continha sinais de sangue escurecido.
"Aqui está!
Que glória a sua:
é pela segunda vez que você irá tirar a vida de um satanista" - pensou, sorrindo com escárnio e guardando o punhal atrás da capa.
Antes de sair, ela pegou da prateleira o frasco com a essência narcótica com a qual costumava fazer dormir a senhora Morel, e foi para a sala do ataúde do pai, da qual chegavam as vozes asquerosas dos corcundas.
Cuidadosamente, erguendo uma das pontas do reposteiro, Mila despejou o conteúdo do frasco e recolheu-se trémula num nicho, em expectativa.
Um minuto depois, o palrear dos criados ficou mais fraco e, finalmente, tudo silenciou.
Mila tampou o nariz e a boca com lenço molhado e entrou.
Os corcundas dormiam.
Célere acercada do caixão destampado, com misto de terror e curiosidade mórbida, ela olhou para o cadáver.
Seus olhos vítreos estavam abertos, tal qual a boca, sôfrega de ar; a mortalha, posta de lado, revelava o corpo nu.
No dedo anular da mão esquerda, rutilava o misterioso anel de Tvardovsky, cuja força era conhecida e, com certeza, útil para subjugar Michel e aniquilar Nádya.
Agilmente, Mila arrancou-o do dedo enegrecido, enfiou-o em seu anular e, erguendo alto o punhal, cravou-o até o cabo na cavidade abdominal do feiticeiro...
Um sangue negro brotou aos borbotões do ferimento e, o que se seguiu, fê-la recuar aterrorizada.
Tudo em volta começou a ruir; os castiçais voaram, as velas se extinguiram, o caixão de madeira estalou como que quebrando.
Instintivamente, ela ergueu o anel na direcção do ataúde e disparou em carreira ao seu quarto.
Na galeria, sentiu as forças infernais em seu encalço.
Já não corria, mas voava, inundada de suor gelado, e só ao divisar a escada para cima parou para retomar o fôlego.
Suas têmporas latejavam; círculos ígneos ofuscavam-lhe a vista.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 23, 2016 7:35 pm

Feito flecha, atravessou a biblioteca e, ao se ver em seu boudoir, deixou-se cair na poltrona quase desfalecida.
Sentada imóvel com as mãos no peito, de repente lembrou do filho.
Levantou-se angustiada e, ao passar pelo espelho, mirou-se nele.
Era ela aquele espectro transfigurado e de rosto lívido, envolto por cabeleira ruiva desgrenhada?
E estas manchas negras e pegajosas em seu corpo seriam o sangue de seu pai?...
Seus pensamentos voltaram ao filho.
Dominada por pressentimentos sinistros, correu ao quarto dele, estacando diante do quadro medonho atrás do limiar da porta.
A senhora Morel jazia no tapete, ao lado do berço do filho acordado; os pequenos olhos esverdeados do pequerrucho pareciam contemplar com uma expressão zombeteira a mulher desfalecida.
De um pulo, Mila se viu diante dele e o perscrutou com olhar ansioso.
Estremecida, pareceu-lhe, ao interceptar aquele olhar cruel e zombeteiro, não ser de seu filho... mas de Krassinsky.
Fúria descontrolada irrompeu-se-lhe na alma.
Então o monstro usurpou o corpo de seu filho para assegurar sua sobrevivência?
— Não! Jamais usufruirá deste avatar!
Se expulsou a alma do meu filho, eu o expulsarei do corpo usurpado...
Olhos injectados de sangue, rosto transfigurado, ela agarrou a criança pelo pescoço e começou a estrangulá-la.
Iniciou-se luta medonha.
A criatura miúda opunha resistência incrível, mas os dedos afilados de Mila eram qual tenazes.
Alheia a tudo em volta, Mila não percebera nem os criados que acorreram, nem parecia ouvir os gritos desatinados da camareira, que se esforçava em arrancar-lhe a vítima se debatendo.
Só depois que a criatura miúda ficou roxa e suas mãozinhas caíram inânimes, Mila recostou-se ao espaldar da poltrona, retomando o fôlego.
De olhar turvo e corpo em tremor convulsivo, ela parecia nada enxergar.
Mas nisso, mudos de pavor, os criados viram-na debater-se desesperada, como que tentando se livrar das mãos invisíveis a lhe agarrarem o pescoço, puxando-a em direcção à porta.
E qual arrastada para fora, ela tentava inutilmente se agarrar no reposteiro.
Os criados mais corajosos, bem como o mordomo e a camareira, deixaram o quarto e correram no encalço da jovem, vendo-a correr em direcção ao terraço, descer a escada e pular no lago, desaparecendo na água qual saco cheio de pedras.
Em alguns minutos, toda a casa estava em pé.
Alguns criados saíram de barco com tochas e lanternas nas mãos, vasculhando com ganchos o lago; porém era em vão.
Findas várias horas, o corpo não foi encontrado e as buscas teriam de ser deixadas para o dia seguinte.
Nesse ínterim, a senhora Morel foi trazida à consciência.
De rosto lívido, olhos vagantes como uma desvairada, Ekaterina Aleksándrovna ouviu desolada o relato caótico dos empregados.
A visão do corpo mutilado da criança fê-la desmaiar de novo e, quando voltou a si, seu pranto copioso aliviou-lhe a alma.
De tudo, o episódio mais insólito revelara seu aspecto sinistro ao desabar semelhante drama misterioso, que envolveu a mãe de Mila, afogada nas águas daquele mesmo lago.
A chegada do portador da carta de Michel para Mila fez Ekaterina Aleksándrovna voltar à realidade.
Aproveitando o mensageiro, ela escreveu um bilhete a Massalítinov, resumindo os tristes acontecimentos e instando sua rápida presença.
Eram cerca de sete horas da manhã, quando o mensageiro retornou ao castelo de Bélsky.
Mikhail Dmítrievitch ainda estava dormindo, conquanto o almirante e Vedrinsky, acostumados a acordar cedo, tomavam chá no terraço.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 23, 2016 7:35 pm

O mensageiro entregou-lhes a carta e falou dos terríveis acontecimentos em Gorki.
— Pobre patroa, ela deve ter perdido o juízo; estrangulou o próprio filho - concluiu o mensageiro.
Ivan Andréevitch e Gueorgui Lvóvitch ficaram abismados e decidiram acompanhar o amigo, para lhe dar apoio nos difíceis dias do porvir.
Enquanto eles discutiam o assunto, entrou Nádya.
Ela ouviu a conversa e ficou muito preocupada com Misha.
O facto de o padrinho acompanhá-lo a Gorki deixou-a mais tranquila.
O almirante acordou Mikhail Dmítrievitch, entregou-lhe a carta da senhora Morel e insistiu em sua urgente necessidade de ir a Gorki, em vista das formalidades geradas pela ocorrência de duas mortes.
Mikhail Dmítrievitch se vestiu sombrio e desceu ao refeitório.
Enquanto os cavalos eram atrelados, ele tomou uma xícara de chá e, aproveitando a ausência do almirante que fora ao quarto de Vedrinsky empacotar algumas coisas, levou Nádya ao boudoir dela.
A sós, ele a abraçou e sussurrou nervoso:
— Ore por mim, Nádya, e não me esqueça, se eu não voltar daquele maldito ninho.
Agora repita que você me perdoou totalmente.
Nádya devolveu o beijo com lágrimas nos olhos.
— Como pode ainda achar que estou brava com você, vendo-o tão infeliz?
Nada lhe acontecerá com a ajuda de Deus.
Meu padrinho assegurou-me que o próprio Manarma irá protegê-lo.
Ore e seja firme, meu querido; nosso Senhor estará ao seu lado para você reconquistar a nossa felicidade.
Gratificado, Massalítinov beijou as mãos de Nádya.
Eles voltaram à sala e, dez minutos depois, o coche os levava a Gorki.
Estava quente, embora o céu estivesse encoberto por nuvens negras; ao longe ouviam-se rolares da tempestade, e uma cerração densa cobria de manto esbranquiçado o lago, toldando completamente a ilha.
Na sala, onde outrora jazia o corpo de Marússya, estava o de seu neto, vestido em conjunto rendado.
O rosto roxo e transfigurado era coberto por um lenço de gaze.
A governanta depositou no peito do menino, cercado por buquês de flores, a imagem do Salvador.
Apesar do odor forte de rosas, jasmins e demais plantas de estufa, o cheiro do cadáver se fazia sentir e sua rápida decomposição não era normal.
Ao chegar, Massalítinov foi directo ver o corpo do filho, cujo aspecto mutilado o perturbou tanto, que Vedrinsky teve de levá-lo para fora do recinto.
O encontro com a senhora Morel foi difícil.
Ekaterina Aleksándrovna envelhecera por cerca de vinte anos, não parava de chorar, desconsolada pela perda de Mila, a quem educara e por quem tinha amor como se fosse a própria filha.
A consciência de sua morte terrível e estranha, quando nem seu corpo se conseguia encontrar, cumulava seu desespero.
Uma outro suplício para Massalítinov foi a chegada do comissário da polícia rural, que redigiu a ocorrência com base nos depoimentos das testemunhas, durante os quais ele devia estar presente.
A camareira Masha afirmou estar acordada, aguardando a vinda do patrão.
Casualmente, ela viu a patroa saindo do boudoir e dirigindo-se aos aposentos vazios de hóspedes.
Surpresa em ver a patroa vestida em capa preta e com lanterna na mão, a camareira a seguiu por curiosidade e viu-a entrar no depósito de móveis.
Segui-la adiante, ela já não teve coragem.
Algum tempo depois, o quanto - ela não sabia dizer -, ouviu a patroa correndo de volta endoidecida:
seus cabelos estavam desgrenhados e toda ela parecia salpicada de sujeira.
Mais tarde, Masha viu Mila entrando no quarto de Volódya, ouviu seus gritos e viu a patroa estrangulando o filho.
Tentou inutilmente arrancá-lo da mãe.
Os demais criados foram uníssonos no relato do assassínio do bebé, bem como a patroa ter saído de costas do quarto, aos gritos e debatendo-se, agarrando-se no reposteiro como se alguém a puxasse.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 23, 2016 7:36 pm

Os que correram atrás confirmaram que ela se lançou no lago.
Ekaterina Aleksándrovna ratificou ter desmaiado, assim nada mais sabia a respeito.
Mais tarde, quando o comissário foi embora, ela revelou a Massalítinov que estava lendo junto ao berço e, de súbito, viu o conde Farkatch, inclinado sobre a criança.
Atónita ela exclamara:
"Deus meu, Jesus Cristo!"
Então o conde investiu sobre ela, tentando asfixiá-la e, nessa hora, ela percebeu que aquele não era Farkatch, mas seu ex-noivo Krassinsky.
Ela já sentia no pescoço seus dedos gélidos, quando perdeu os sentidos.
O tempo piorava a cada momento.
Chovia a cântaros e a continuação das buscas do corpo de Mila era impossível.
Após o almoço, o qual Massalítinov nem tocou, ele se dedicou aos devidos preparativos para o enterro e outros tantos, inadiáveis.
O almirante e Vedrinsky foram investigar os aposentos de Mila, quando encontraram um livro aberto na página que falava da técnica de exterminação de vampiros.
— Ah, a coitada sabia onde aquele monstro se escondia e, certamente, queria matá-lo - observou o almirante.
Deus sabe lá o que lhe aconteceu no subterrâneo, do qual ela saiu esfrangalhada e coberta de manchas de sangue.
Se tiver a necessária coragem, Gueorgui Lvóvitch, venha comigo.
Quero examinar o ninho satânico e descobrir se ela conseguiu aniquilar o vampiro.
Após acolchetar no peito as insígnias magísticas de Manarma, ambos desceram ao subterrâneo.
Ali estava tudo quieto e vazio.
Logo eles encontraram a cripta mortuária, de onde exalava odor putrefacto.
Um quadro medonho ali se divisava.
Entre os castiçais derrubados e folhas do livro rasgadas, jaziam os corpos mutilados dos corcundas.
No abdómen de Krassinsky estava enterrado, até a empunhadura, um punhal.
— Desta vez ele está bem morto - pronunciou Ivan Andréevitch, erguendo a cruz e recitando fórmulas.
Ambos abandonaram o quarto, andando de costas.
À noite, depois da missa de réquiem, Massalítinov foi ao gabinete de Zamyátin para ali passar a noite, pois por nada nesse mundo ele dormiria no aposento do casal.
Não estava com sono e, assim, sentado na poltrona junto à mesa sobre a qual estava uma garrafa de champanhe, ele reflectia, tentando afugentar com pensamentos alegres a angústia que se instalara na alma sofrida.
A tempestade aumentava fora; trovões e relâmpagos pareciam enfurecidos, o vento uivava nas chaminés.
Os pensamentos de Massalítinov se embaralharam de tanto barulho e não o deixavam se concentrar na imagem de Nádya, invocada para protegê-lo.
Bateu meia-noite e, nisso, ele ouviu passos no quarto contíguo, como se alguém se aproximasse arrastando peso.
Ele se endireitou apreensivo; seu coração parecia ter sustado os batimentos e, como aprisionado por um peso à poltrona, olhou para a porta.
Uma mão transparente soergueu o reposteiro.
De capa negra e envolta feito em véu por cabelos dourados soltos, dele se aproximou Mila.
De sua cabeleira e trajes escorria água e, no pétreo rosto imóvel, rutilavam grandes olhos esmeraldinos.
Dominado pelo terror, Massalítinov fitava-a sem condições de compreender:
era viva aquela pessoa ou simples espectro?
Paralisado e incapaz de mover o braço, ele não podia apertar a campainha.
Inclinando-se sobre ele, ela ciciou com lábios roxos:
— Você quer se separar de mim, seu traidor?
Não conte com isso!
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 23, 2016 7:36 pm

Você é meu e sempre o será!
Seu rosto, de monumental beleza sinistra, já tocava nele; os olhos esverdeados fitavam-no com ódio e zomba e as mãos cingiam-lhe o pescoço.
— Jesus Cristo, acolha a minha alma - projectou-se qual raio no cérebro de Massalítinov e, soltando um grito abafado, ele tombou no tapete.
Com o barulho da queda acorreu o serviçal.
Foi chamado o almirante e a Massalítinov prestou-se o devido socorro.
Muito tempo se passou, porém, nas tentativas de reanimá-lo; já amanhecia, quando finalmente ele abriu os olhos.
Estava fraco, como de longa convalescença.
Ivan Andréevitch deu-lhe calmante e este adormeceu um sono agitado.
Ainda exaustos, Vedrinsky e o almirante estavam desjejuando, quando entrou correndo um criado e relatou que o jardineiro havia encontrado o corpo da patroa.
— Onde? Tiraram do lago? - perguntou Vedrinsky, largando a xícara de chá e levantando-se junto com o almirante.
— Não! - replicou o criado, tremendo feito vara verde.
- A patroa está deitada na escada que leva ao lago.
— Impossível! - exclamou Gueorgui Lvóvitch, pondo-se a correr ao local indicado.
Embaixo da escada e no terraço já se juntavam todos os criados, olhando para o cadáver estendido a uns dez degraus abaixo do terraço, com cabeça caída para trás e braços abertos.
A posição do corpo dava a impressão de que Mila estava descendo pela escada, mas tinha desmaiado no caminho.
De seu penhoar de rendas rasgado escorria água, estando sujo de lodo e coberto por manchas de sangue; no rosto roxo e inchado congelara-se uma expressão de sofrimento e ódio.
Mas mesmo morta ela permanecia bela.
Entristecidos, o almirante e Vedrinsky se inclinaram sobre o cadáver da pobre mulher.
A muito custo Ivan Andréevitch conseguiu convencer os criados a transferirem a falecida para dentro da casa.
Eles tinham verdadeiro pavor do cadáver que, segundo suas palavras, só o próprio demónio poderia ter levado para a escadaria.
E apenas quando os distintos senhores foram erguê-lo, alguns acorreram, envergonhados, para ajudar no transporte.
As mesmas cenas tristes se repetiram no dormitório de Mila.
As criadas se recusaram a iniciar a ablução e vestir a falecida, ficando a cargo da governanta empreender esse ritual triste e, quando ela despiu a afogada, descobriu no corpo dela as mesmas manchas negras que outrora reparou em Marússya.
Massalítinov acordou tarde e febril.
A notícia de que o corpo de Mila fora encontrado na escada do terraço deixou-o deprimido.
Ele anunciou sua recusa de passar mais um dia em Gorki; iria dormir na casa paroquial e, depois dos enterros marcados dali a um dia, ele se instalaria em algum lugar na circunvizinhança, até pôr em ordem todas as pendências.
A morte de Mila abalou profundamente a senhora Morel.
Ela não parava de chorar e berrar feito insana; depois mergulhava em apatia, da qual parecia sair apenas para gritar que queria ir embora de Gorki, onde tudo que amava lhe fora subtraído.
De manhã, Gueorgui Lvóvitch foi a cavalo ao castelo de Bélsky para informar Nádya sobre os últimos acontecimentos.
A condessa pediu-lhe para transmitir a Massalítinov e à senhora Morel o seu convite de se hospedar na casa dela, até que eles definissem seu futuro domicílio.
À noite, depois da primeira missa de réquiem, a senhora Morel teve uma crise tão forte de desespero, que todos começaram a se alarmar com sua sanidade mental e decidiram levá-la à casa de Nádya, chamando para lá seu médico.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 23, 2016 7:36 pm

No enterro de Mila e seu filho houve um acidente desagradável.
Uma vela caiu do castiçal e provocou fogo no vestido da falecida, e por pouco o incêndio não se alastrou; de qualquer modo, tiveram que trocar suas vestes.
Do cemitério, Massalítinov foi directo para o castelo de Bélsky.
Nádya o recebeu de coração aliviado e observou que seu aspecto deixava a desejar.
Falou da senhora Morel, que estava de cama por ordem médica.
A pobre mulher delirava, afirmando que lhe aparecia ora Mila, ora Krassinsky, tentando atacá-la.
Foi chamada da cidade uma irmã de misericórdia.
O médico ainda se encontrava no castelo e preparava-se para partir naquela noite.
Mas, durante o almoço, Mikhail Dmítrievitch passou mal e desmaiou.
O doutor, após tê-lo examinado, concluiu que ele estava com febre nervosa.
A doença agravava-se com rapidez e, por três semanas, a vida de Massalítinov esteve por um fio.
Esgotada pelos constantes cuidados a dispensar entre duas pessoas lutando contra a morte, Nádya pediu à sua mãe por telegrama que viesse ajudá-la.
Zoya Ióssifovna não demorou a vir e, com a bondade típica a ela, dedicou-se aos enfermos, sem lhes nutrir qualquer rancor pelo passado.
Contudo, no caso da senhora Morel, as providências para debelar-lhe a enfermidade verificaram-se inúteis, e um choque apopléctico levou-a à sepultura.
Exactamente três semanas após a morte de Mila, ela se juntou no outro mundo àquela a quem amava qual mãe biológica.
Quanto a Massalítinov, seu organismo forte e jovem levou vantagem, ainda que, segundo o médico, sua recuperação completa seria demorada.
Assim que Mikhail Dmítrievitch viu-se fora do perigo, Nádya viajou a Kiev para se encontrar com outro herdeiro do conde Adam - um pobre oficial de infantaria que servia no exterior e pertencia à linhagem lateral dos condes Bélsky - e ajustar a partilha de seus bens.
Passaram-se cerca de quatro meses, e todo esse tempo tanto Nádya como Massalítinov gastaram para resolver negócios pendentes.
O conde Adam, antes do casamento, legou à esposa a maior parte de seu património.
Tal generosidade não lhe custaria nada - imaginava ele, crente nas palavras de Farkatch - pois sua esposa não duraria mais do que três anos e, depois, ele teria todos os bens de volta.
Mas o destino decidiu diferente, e o primo em terceiro grau de Bélsky, um jovem humilde, feliz por ter recebido parte da herança inesperada, sequer pensou em questionar os direitos da jovem à maior parte do legado do conde.
Sendo o único herdeiro de Gorki, pelo testamento de Mila, Mikhail Dmítrievitch esperava vender a propriedade a um suposto banqueiro judeu, cujo filho se casara recentemente.
A paz parecia lhe retornar à alma, bem como seu corpo se fortalecia aos poucos.
Em consequência dos abalos físicos e espirituais, ele conseguiu obter sua reforma no exército.
Dos esponsais com Nádya, ambos aguardavam o fim do luto oficial; até lá, este compromisso ficaria em sigilo.
Em sua alma operou-se uma mudança completa na forma de encarar o mundo:
deixou de ser céptico e presunçoso, pois sentira na própria carne o poder das forças malignas.
Já acreditava em Deus, atribuindo-lhe sua salvação e o venturoso porvir da nova vida.
Os médicos sugeriram-lhe passar o inverno num clima quente, e como o almirante e Gueorgui Lvóvitch iriam voltar à índia com Manarma, Mikhail Dmítrievitch decidiu recuperar sua saúde perto de Génoa.
Ivan Andréevitch e o seu jovem companheiro ajudavam activamente Nádya e seu noivo a resolverem todas as pendências.
Massalítinov, sobretudo, ainda não totalmente recuperado, necessitava do apoio na solução da venda da propriedade, antes de viajar ao estrangeiro.
Aguardava-se apenas a vinda do banqueiro, a quem Ivan Andréevitch mostraria a propriedade, antes da assinatura do compromisso de venda.
Mikhail Dmítrievitch ainda não sabia da continuação dos fenómenos sinistros em Gorki.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 23, 2016 7:36 pm

O almirante nada lhe falou da carta do padre Tímon, dizendo que os remanescentes criados debandaram de Gorki, os camponeses na vizinhança pediam que o corpo de Mila fosse desenterrado e a bruxa sepultada em outro lugar.
Muita gente viu, inclusive o próprio padre, Mila sentada na sepultura, chorando e retorcendo as mãos.
Em outras ocasiões, presenciaram-na correndo pelo cemitério, perseguida pelo menino assassinado.
Os casos do aparecimento do fantasma eram inúmeros e diferentes; na casa do senhorio, por exemplo, Mila foi vista em companhia de um homem de preto, e no antigo quarto da criança, à noite, se ouviam gritos, gemidos e barulho de luta.
Devido a todas essas histórias, foi com compreensível alegria que o almirante soube terem anunciado a Massalítinov a chegada de um senhor interessado na compra de Gorki.
No cartão de visitas constava o nome:
"Óscar Van der Holm"
Quando Mikhail Dmítrievitch adentrou com o almirante o gabinete para onde foi introduzido o comprador, e este lhes rendeu as reverências, Ivan Andréevitch estremeceu e fitou-o perscrutador.
Era um homem de cerca de quarenta anos, magro e forte de compleição, rosto bonito e feições corretas, mas de tez cérea.
Nos lábios descorados e enormes olhos escuros espreitava-se expressão estranha e indefinida.
O senhor Van der Holm afirmou conhecer a propriedade, pois tinha estado lá há muitos anos antes, quando o antigo dono era Izótov, seu conhecido da Itália.
Sem regatear, o comprador disse que pagaria à vista e em dinheiro a soma pedida, após a assinatura do contrato.
Massalítinov estava exultante, mas achou de seu dever informar que Gorki gozava de má fama.
Van der Holm soltou uma gargalhada e observou que sabia disso mas que, sendo um céptico incorrigível, achava isso um absurdo e nenhum fantasma o faria desistir da compra da propriedade da qual gostava imensamente.
À noite, Nádya, Massalítinov, Ivan Andréevitch e Vedrinsky conversavam sentados na sala.
Ao ver o almirante sombrio e apreensivo, Mikhail Dmítrievitch perguntou o que o perturbava.
— A venda de Gorki - respondeu este.
— Como? Está sentindo pena de perder esse lugar encantador, ou do comprador? - perguntou rindo Mikhail Dmítrievitch.
— Não, é outra coisa que me preocupa.
Vejam, senhores, o comprador deve ser um satanista de primeiro escalão.
É óbvio que ele adquiriu Górki para a sua comunidade, interessada em conservar a posse dos subterrâneos.
Pelo fim trágico da filha do feiticeiro, tenho a impressão de que a nossa luta está apenas começando.
— Que assim seja - observou Massalítinov.
Com fé em Deus e ajuda dos mestres hindus, nada temos a temer.
— Bem, se assim for necessário, continuaremos com a nossa missão ingrata de abrir os olhos dos homens alheios à existência das legiões malignas, em contacto com as quais, por ignorância ou leviandade, eles acabam perecendo...

Forma afectiva de Vladimir - N.T.

§.§.§- O-canto-da-ave
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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