Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Página 2 de 8 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 12, 2016 7:25 pm

Enquanto a faca não lhe tocar a garganta, o senhor conseguirá sobreviver; mas, tão logo seja feita uma pequena incisão em seu pescoço, será o fim.
Konstantin Aleksándrovitch ficou desolado, jurou não fazer a operação, mas até o inferno está cheio de boas intenções.
A família conseguiu convencê-lo do contrário.
O doente foi levado a Viena e submetido a duas operações seguidas.
Retornou a Petersburgo moribundo e um pouco antes de sua morte eu o encontrei pela última vez.
Sem condições de falar, escreveu no papel:
"Como o senhor estava certo!
Caí vítima de minha ignorância e tolo descuido."
O almirante se calou, pensou por instantes e, agitando a cabeça, prosseguiu:
— Podem imaginar, meus amigos, como me impressionou aquela narrativa.
Não podia duvidar de sua veracidade, e o perigo mortal ameaçando Marússya infundia-me pavor.
Supliquei a Nikolai Aleksándrovitch permitir-me aconselhar com a vidente, mas a jovem havia se casado e saído de Petersburgo.
Fiquei ainda mais desconsolado, quando recebi uma carta de Piotr Petróvitch.
Ele escrevia que a saúde da filha inspirava os mais sérios cuidados.
A jovem se preparava para ser mãe, mudara muito, andava abatida e estanha - o que desolava o pai.
Sobre Vyatcheslav - nenhuma palavra.
Piotr Petróvitch tinha achado por bem escrever para Kátya, residindo de novo no exterior, e pedir sua vinda para ficar em companhia da amiga Marússya.
Em resposta, chegara a notícia sobre a iminente vinda dela.
Essas nefastas notícias aguçaram ainda mais o meu estado de tensão.
Perseguia-me a ideia fixa de talvez existir um meio de salvar Marússya e arrancá-la do poder da criatura diabólica, de modo que eu insisti com o coronel para ele encontrar uma forma de destruir o avatar.
O bom coronel revelou uma verdadeira paciência de anjo comigo e, certa noite, anunciou-me, sorrindo:
— Tenho uma boa notícia, meu jovem amigo.
Vendo sua dor, eu havia escrito a um conhecido em Paris - um ocultista -, pedindo-lhe, caso não pudesse ajudar pessoalmente, indicar alguém com conhecimento para livrar-se das peias que aprisionaram a jovem infeliz.
E eis a resposta:
ele se acha inabilitado para tal empreitada e aconselha conversar com o ex-abade Johannes, um notável mago na França e a única pessoa que poderia ajudar.
- E como encontrarei esse abade? - perguntei avidamente.
- Ele mora em Lyon.
Consiga uma licença e vá até ele.
Eu escreverei uma carta a meu amigo, e este ao doutor Johannes.
Não vou me delongar aqui descrevendo quanto esforço me custou conseguir a licença de um mês.
Finalmente tomei o trem expresso para Paris.
Sem contar aqui detalhes insignificantes, falarei da visita ao doutor Johannes, residente em Lyon.
Este me recepcionou prazerosamente, leu a carta do ocultista parisiense e me pediu para expor toda a situação.
À medida que eu falava, seu rosto ia ficando circunspecto.
— Sim! - balbuciou ele, pensativo, quando terminei.
Coisas assim não só são possíveis, como ocorrem com maior frequência de que se supõe.
Neste caso, o espírito de uma criatura viva instalou-se no corpo, abandonado por seu legítimo dono; pode acontecer também que os espíritos larvais escolham um momento oportuno da lenta agonia da vítima para se encarnarem e animarem o cadáver com uma vida artificial.
Tal criatura funesta traz a infelicidade a todos que a cercam.
Oh, se os homens soubessem dos terríveis e perigosos mistérios do mundo invisível, levariam uma vida diferente!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75713
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 12, 2016 7:25 pm

Quando lhe perguntei hesitante se ele tentaria salvar Marússya, ele balançou a cabeça.
— E uma empreitada difícil e não posso garantir seu êxito.
Iríamos medir forças com um adversário fortíssimo.
Sabe, eu conheci Krassinsky:
ele foi discípulo do canónico Dokr - o mais terrífico dos magos negros de nosso tempo -, e saiu-se, pelo visto, um discípulo exemplar.
O facto de que ele sozinho conseguiu realizar a complexa e perigosa operação de avatar, confirma seu conhecimento e poderes.
Entretanto, antes de empreender algo - adicionou -, eu devo invocar o espírito do seu amigo.
Não teria o senhor algum objecto que a ele pertença?
Eu usava um anel presenteado por Vyatcheslav e assim o estendi a Johannes; mostrei também o medalhão com o retrato de Marússya.
— Ahá! Isso é bom, vou descobrir em que estado se encontra a jovem - disse, pegando o medalhão.
Após trazer uma pequena trípode e uma taça de cristal, Johannes acendeu o carvão e lançou na trípode um pó que, ao se consumir, deixou uma fumaça aromática esbranquiçada; dentro da taça ele depositou três seixos de cores diferentes, dispondo-os em forma de triângulo.
Ao defumar inicialmente o medalhão, ele segurou-o sobre a água e recitou fórmulas em língua estranha.
A água tornou-se cinza e efervesceu feito champanhe, ficando totalmente turva, suja e esverdeada.
Johannes balançou preocupado a cabeça e limitou-se a dizer:
— Ela está muito doente.
Veremos o que nos proporcionará o dia seguinte, quando invocarei o seu amigo.
— Entendam, meus amigos - disse o almirante -, com que ansiedade esperei o dia seguinte.
A noite do dia estabelecido, eu estava com Johannes e este me levou ao quarto destinado à evocação.
No chão, via-se desenhado um grande círculo, inserindo três trípodes com carvão e diversas ervas.
O doutor Johannes vestia uma longa túnica de linho; um medalhão contendo sinais cabalísticos descia pelo peito numa corrente de ouro e, na mão, ele empunhava um bastão com hieróglifos estranhos.
Postando-me num canto, ele traçou um círculo de protecção em mim, perfumou o ambiente com ládano, borrifou a água benta, sempre acompanhando suas acções com cânticos e orações.
Após irrigar as trípodes com um líquido aromático, acendeu o carvão.
Postando-se diante da circunferência, circundou a si por outro desenho e, pausadamente, pôs-se a recitar fórmulas quase inaudíveis, do que eu só lembro ter entreouvido o nome de Vyatcheslav, pronunciado por nove vezes.
Após algum tempo, ouviram-se estalidos do piso e das paredes.
Das trípodes, a crepitarem pelas ervas, alçaram-se nuvens de fumaça e o ambiente encheu-se de aroma agradável.
Súbito, bafejou uma onda fria e do círculo maior altearam lampejantes vapores esbranquiçados.
Aos poucos, as nuvens se condensaram e tomaram a forma de uma figura alta e garbosa em vestes gasosas, cujo rosto era toldado por véu cinza.
— Padrinho - interrompeu Nádya, estremecida -, você deve ter levado um imenso susto com aquele fantasma.
Eu teria morrido de medo!
— Sim, minha criança, não posso me gabar de não ter sentido medo - confessou o almirante, sorrindo.
Meus dentes chocalhavam de assombro, no entretanto, a surpreendente visão me fascinava.
Nisso, Johannes ergueu a cruz que carregava no peito e pronunciou em voz imperiosa:
— Forasteiro do outro mundo! Se você é de facto o espírito de Vyatcheslav, a quem evoquei, e recebeu o sacramento baptismal, bem como professa o Salvador e o Nosso Senhor Jesus Cristo, este aroma sacro do ládano e o grandioso símbolo da expiação não o afugentarão, ao contrário, este símbolo irá hauri-lo de forças para nos responder.
O espírito permanecia imóvel com o semblante coberto, se bem que o seu espectro parecia se compactar.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75713
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 12, 2016 7:25 pm

O evocador prosseguiu:
— Se não tiver receio de revelar seus traços, despoje-se do manto, inspire o aroma vivifico do ládano e ervas, refresque-se com as emanações da água benta e curve-se ao símbolo da expiação.
A visão iluminou-se de luz azul-celeste fosfórica; o véu arriou-se e diante do meu olhar assombrado surgiu Vyatcheslav.
Desta vez era ele de fato, mas o seu olhar límpido e puro franziu-se de tristeza.
Com um gesto bem familiar, ele ergueu a mão e persignou-se.
— Que Deus, nosso Criador, e o Seu nome sejam louvados por séculos e séculos - pronunciou Johannes.
Você é realmente o espírito do cristão, a quem invocamos.
O que tem a dizer?
O almirante se calou por instantes e apoiou a cabeça sobre os braços.
Aparentemente as lembranças instadas perturbavam o velho, e ninguém ousou quebrar o silêncio instalado.
Por fim, ele ergueu a cabeça e enxugou o suor da testa.
— Sou incapaz de repetir em sequência as palavras do espírito do meu amigo, talvez pela extraordinária comoção do momento.
Minha cabeça girava e a vista turvava-se; lutei contra a fraqueza na tentativa de não deixar escapar nada.
Não tive como não reconhecer a voz de Vyatcheslav, ainda que débil e longínqua.
Ele transmitiu os pormenores do avatar e do assassinato perpetrado, acrescentando que Krassinsky estava muito tempo em busca de um corpo novo, pois o dele encontrava-se por demais exaurido em consequência de exaustivas e perigosas operações ocultistas, sem falar de toda a espécie de excessos cometidos.
Uma coisa, porém, deu errado:
Marússya é uma mulher perigosa a seus propósitos.
Krassinsky planeia matá-la para evitar que os puros fluidos dela, somados à sua franca repulsa por aquele homem, rompam aos poucos os laços que o unem ao corpo violentamente usurpado.
De repente, o espírito voltou-se a mim e, estendendo as mãos, disse:
— Ványa, Ványa, resgate Marússya!
Suplique ao mestre armá-lo de flechas e de amuletos mágicos!
Oh, não posso descrever em palavras o quanto me dói ver os sofrimentos dela!
Se você conseguir tirar Marússya da maldita ilha, fazê-la comungar e destruir com as flechas o corpo animado por aquele demónio, você a resgatará...
A voz silenciou, a visão deslustrou-se e pareceu derreter-se, sumindo em seguida tal qual varrida por vento.
Estando extremamente esgotado, perdi a consciência...
Ao abrir os olhos, vi-me no chão, recostado à parede, enquanto Johannes segurava diante de mim um copo de vinho quente.
A bebida fortaleceu-me e, já no quarto ao lado, o abade me disse:
— Quanto às flechas mágicas, citadas pelo espírito, estas só posso lhe dar daqui a nove dias, pois terei de confeccioná-las; o amuleto, entrego-lhe já e que Deus o ajude!
Era uma caixinha feita de sândalo - uma madeira de árvore aromática.
Com cruz de ouro incrustada na tampa, seu interior - conforme ele disse - inseria hóstia consagrada e partícula de restos mortais de um santo.
Dez dias mais tarde, ele me entregou um estojo coberto por veludo vermelho, onde se encontrava um pequeno arco de ouro e três flechas de madeira que, é claro, jamais feririam alguém.
Tanto o arco como as flechas decoravam-se por surpreendentes sinais cabalísticos.
Um aroma agradável e vivifico exalava do interior do estojo.
— E como usarei estas flechas? - perguntei.
— O senhor deve carregar o amuleto sempre consigo e saber de cor as fórmulas escritas nesse pergaminho.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75713
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 12, 2016 7:25 pm

Ao surgir uma chance de apanhar aquele velhaco à noite - de preferência à meia-noite -, recite os esconjuros e atinja-o com uma dessas flechas.
Aliás - acrescentou -, eu vou ter uma outra oportunidade de instruí-lo melhor.
No dia seguinte, após ter agradecido de todo o coração ao doutor Johannes e recebido dele a permissão de escrever-lhe sempre que precisasse, retornei a Petersburgo.
O almirante se calou, aparentemente exausto, e recostou-se no espaldar da poltrona.
Minutos depois, levantou-se.
— Chega por hoje, meus amigos.
Reconheço estar exausto e preciso descansar antes de reiniciar a difícil e triste página da minha narrativa: a morte de Marússya.
Amanhã contarei os estranhos e terríficos fenómenos que acompanharam o fim precoce daquela inocente vítima, acometida de um mal misterioso.
Ademais já são quase três horas e está na hora de todos dormirem; olhem só como Nádya está branca!
A jovenzinha protestou, afirmando não estar nem um pouco cansada e que teria ficado a noite inteira para ouvir o desfecho da história, mas Ivan Andréevitch recusou-se peremptório a prosseguir o relato e todos se retiraram aos seus quartos.
No dia seguinte, quando Nádya desceu para o chá, não encontrou o almirante; o criado explicou que Ivan Andréevitch se levantara cedo e saíra em direcção do oratório tumular, pedindo que não o esperassem para o desjejum.
— Ahá! - pensou Nádya. - Ele foi orar no túmulo de Marússya.
A narrativa deve ter-lhe exacerbado as lembranças.
Teria ele ficado celibatário por causa dela?
Ela ainda reflectia sobre isso, tomando uma xícara de leite, quando veio o correio e a carta recebida deu um novo rumo a seus pensamentos, fazendo-a se esquecer da pobre
Marússya e até do padrinho.
A missiva era do seu noivo Mikhail Dmítrievitch Massalítinov, anunciando sua vinda um dia mais tarde e pedindo que fosse enviado um coche para buscá-lo na estação de trem.
Ele vinha com seu primo Jorj Vedrinsky, em viagem para Kiev, com o intuito de visitar seus parentes.
Conhecendo a inesgotável bondade e hospitalidade de Filipp Nikoláevitch e sua esposa, ele decidira levar Jorj sem consulta prévia e esperava que o desculpassem por isso.
Radiante de felicidade, Nádya imediatamente informou aos pais sobre o conteúdo da carta e ficou decidido que Zoya Ióssifovna com a filha iriam à estação para receber os hóspedes.
O assunto de acomodação sequer foi discutido.
O almirante chegou e foi posto a par da novidade.
— Agora, muito menos vou aceitar sua partida, padrinho!
Você vai conhecer o meu noivo - disse Nádya, dengosa.
— Sim, sim, ela está coberta de razão, Ivan Andréevitch.
E tenho ainda mais um bom motivo para você ficar - apoiou Zamyátin, dobrando a carta.
Kátya Tutenberg, ou melhor, a senhora Morel, vem para cá com Mila e, é claro, você não vai querer partir sem rever a filha da pobre Maria Petrovna.
O almirante estremeceu, visivelmente surpreso.
— Elas vêm para cá?
E para quê?
— Conforme a carta da senhora Morel, para Mila orar no túmulo da mãe e conhecer os lugares onde ela morava e pereceu tão tragicamente.
— E verdade, ela nunca esteve aqui, pelo que sei - observou o almirante.
De facto, nada sei sobre Mila ou Kátya.
Após a partida de Piotr Petróvitch, perdi-os de vista.
Fiquei navegando ao redor do mundo e, quando retornei, Piotr Petróvitch já estava morto.
Depois disso, servi por longo tempo no Oriente Extremo*, mas a filha de Vyatcheslav, ou melhor, de Krassinsky, nunca me inspirou muita simpatia.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75713
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 12, 2016 7:26 pm

— Vou-lhe resumir o que sei de Mila e da mãe que a adoptou - interveio Zamyátin.
Como sabe, o local tornou-se odioso a Piotr Petróvitch depois da morte da filha; após a construção da câmara mortuária e do oratório, onde também reservou um lugar para si, Piotr Petróvitch vendeu Gorki ao seu primo Víktor, do qual eu herdei a propriedade.
Uma vez que Vyatcheslav desapareceu desde aquela época e todas as buscas foram inúteis, todos acharam que ele havia morrido.
Sua filha tinha saúde fraca e vivia doente, assim Piotr Petróvitch instalou a residência no sul da França.
Lá, Ekaterina Aleksándrovna, casada com um tal de senhor Morel, se afeiçoou muito à menina.
Um ano mais tarde, o senhor Morel pereceu num acidente ferroviário e Ekaterina Aleksándrovna foi morar na casa de Piotr Petróvitch para educar a pequena Ludmila.
Quando Piotr Petróvitch estava moribundo, ela jurou dedicar a vida à criança e ser sua mãe; pelo visto a palavra foi cumprida, pois ambas estão juntas - concluiu Zamyátin.
— E quando estas damas chegam? - indagou Zoya Ióssifovna.
- Sinceramente, após o que Ivan Andréevitch nos contou, morro de curiosidade para conhecer essa Mila.
— Estarei telegrafando hoje mesmo que ficaremos felizes em recebê-las e, provavelmente, daqui a quatro ou cinco dias, podemos esperá-las por aqui - assegurou Zamyátin.
Zamyátina com a filha foram ultimar os devidos preparativos para a vinda dos hóspedes; os homens ficaram no terraço, fumando charutos e folheando jornais.
— Ouça, Filipp Nikoláevitch, como é que você herdou Gorki, pois, se não me falha a memória, o seu primo Víktor tinha uma família numerosa? - perguntou de chofre o almirante.
Zamyátin estremeceu e olhou para ele, hesitante.
— E verdade, Víktor tinha quatro filhos, mas todos morreram.
— E de quê?
— O mais velho pereceu num duelo com o fazendeiro vizinho, com cuja esposa flertava; o segundo ficou cego e por fim se enforcou de desespero.
Os dois menores, um menino de catorze e uma menina de uns doze, afogaram-se no lago após o barco ter virado.
Todas essas desgraças abalaram tanto a esposa dele, que ela teve um choque apopléctico e morreu paralisada após dois anos de sofrimento.
Víktor ainda viveu depois dela por uns três anos e morreu de infarto.
Não deixou testamento e a propriedade ficou para mim.
— E que grande propriedade, devo dizer! - resmungou o almirante, sacudindo com um gesto nervoso a cinza do charuto no cinzeiro.
Zamyátin se levantou.
— Eu o entendo, Ivan Andréevitch, e reconheço odiar este local sinistro, pois ele traz infelicidade a todos os seus habitantes.
Dependesse de mim, eu partiria amanhã mesmo, com toda a família.
Infelizmente, estou comprometido com a vinda do noivo de Nádya, sem falar na de Ekaterina Aleksándrovna e Mila.
Não posso simplesmente fugir daqui, tornando-me um motivo de riso.
Mas juro-lhe: abreviarei a minha estada em Gorki e jamais retornarei.
— Deus queira seja o mais rápido possível! - suspirou Ivan Andréevitch.
O dia passou em azáfama, envio de telegramas e assim por diante; após o almoço, toda a família novamente se acomodou no terraço.
Nádya se sentou numa cadeira de dobrar junto ao padrinho e, a pedido de todos, o almirante retomou a narrativa.
— Parei, caso não me engane, no ponto em que eu ia de Lyon a Petersburgo.
Daria tudo para ir a Gorki e salvar Marússya, destruindo o patife que acabou com a vida e a felicidade dela!
Mas o serviço me acorrentara à capital e eu nem podia sonhar com uma nova licença.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75713
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 13, 2016 7:59 pm

Nas cartas de Piotr Petróvitch, bastante raras, se entremeava uma preocupação crescente pela filha.
Ele me comunicara, entre outras coisas, o nascimento da neta, acrescentando que desde então a saúde de Marússya chegara a um estado preocupante; os médicos constataram nela uma anemia e temiam a extenuação completa de suas forças.
Caí em desespero. De posse de uma arma capaz de salvá-la, eu estava atado pelas mãos e pés feito um condenado.
Finalmente, em meados de setembro, a sorte me sorriu - se é que é possível assim se expressar.
Falecera uma longínqua parenta minha, deixando pequena herdade.
A legalização da papelada da herança propiciou-me oportunidade inesperada de conseguir uma licença de duas semanas e, literalmente, voei para Gorki.
Não me importava com o legado; queria tirar do perigo Marússya.
Encontrei Piotr Petróvitch muito mudado, envelhecido e doente.
Ele me recebeu de braços abertos e, imediatamente, confiou-me seus infortúnios.
— Quem poderia prever que Vyatcheslav fosse uma pessoa tão desagradável, de comportamento suspeito, o qual tornou a minha filha infeliz?
— O que o faz achar assim... de comportamento suspeito? - surpreendi-me.
Teria ele - pensei - descoberto o segredo infausto?
— Ele sai não se sabe para onde, some por dias inteiros, às vezes, por semanas.
Talvez até a maltrate às escondidas?
Ela, é verdade, não se queixa, mas evidentemente tem medo atroz dele; eu até observei o pânico no olhar dela.
Às minhas perguntas, ela não responde e só afirma estar muito feliz.
Com o nascimento da criança as coisas pioraram.
Ela está se acabando a olhos vistos.
Ficaram confinados naquela maldita ilha o inverno todo apesar de minhas persuasões de mudarem para cá.
Antes ela costumava, mesmo ele viajando ou até acompanhada por Vyatcheslav, vir almoçar comigo ou passar uma noite; agora, com o nascimento de Mila, não sai da ilha e sou eu que vou até lá para vê-la, por mais que sejam difíceis tais travessias do lago devido à minha doença.
Não a vejo há cinco dias por causa de minha gota nem ela me visita, enquanto ele deve estar sumido, Deus lá sabe onde.
Consolei o pobre velho, assegurando que iria ver Maria Petrovna imediatamente e, caso não conseguisse convencê-la a vir rever o pai, pelo menos traria notícias dela.
Comigo foi para a ilha o meu ordenança - um rapaz forte e corajoso, que eu levei a Górki, e o meu cão de estimação, da raça Newfaundland, adquirido no inverno, muito afeiçoado a mim.
Ao saltarmos na outra margem, o cão pulou de volta no barco com tal pressa que quase o virou. Nem minhas ameaças para acompanhar-me surtiram qualquer efeito.
Então, sozinho, galguei a escada, dirigi-me à porta de entrada trancada e toquei a campainha.
Uma mulher abriu a porta e perguntou o que queria.
Não era Grucha - aquela jovial e formosa copeira de Marússya -, mas uma senhora de idade mediana, magra e antipática, de pequenos olhos cruéis e penetrantes.
A minha pergunta sobre o senhorio, respondeu estar o patrão na cidade, com previsão de volta no dia seguinte ou depois, e a patroa se encontraria no terraço.
Dirigi-me para lá, mas, no limiar do terraço, estaquei abismado.
Na larga poltrona, cercada de almofadas, estava Marússya, ou melhor, a sombra dela.
Magérrima, de rosto diáfano e pálido feito máscara de cera, olhos esbugalhados e olhar apagado, ela parecia moribunda.
Mesmo assim era divinamente bela; os feixes solares, a se filtrarem através da vegetação, brincavam em seus cabelos loiros, circundando de auréola dourada seu maravilhoso semblante.
Meu Deus, o que sobrou em pouco mais de um ano daquela criatura viçosa, alegre e cheia de vida!
Ao me notar, ela soltou um grito de felicidade e estendeu-me as mãos.
Beijei-as e sentei-me ao seu lado, felicitando-a pelo nascimento da filha.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75713
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 13, 2016 8:00 pm

Seu semblante atestava apreensão e sofrimento.
Olhou-me meio assustada.
Tendo me certificado da impossibilidade da copeira nos ouvir, inclinei-me e murmurei:
— Eu entendo seu terror, Maria Petrovna.
Você também deve ter descoberto... aquele monstro!
Ela se endireitou toda trémula e expandiu as pálpebras.
Alegria e medo parecia nela se confrontarem.
Súbito, agarrou convulsivamente minha mão, inclinou-se bem ao pé do meu ouvido e ciciou em voz entrecortada:
— Você... também o reconheceu?
Não imagina o horror que passei.
Sinto estar morrendo...
Ele está sugando as minhas forças vitais.
Não posso revelar nada ao papai, mas estou muito feliz por ter vindo.
Você conhece a verdade e me entenderá...
Espere! Eu quero lhe entregar algo.
Ela se levantou e, apesar da visível fraqueza, correu para o quarto vizinho.
Eu a vi apertando a mola do compartimento secreto de pequena escrivaninha e de lá tirar um caderno espesso em encadernação vermelha.
Quase em carreira ela retornou ao terraço, passou-me o caderno e se sentou, só se acalmando quando eu o enfiei debaixo da blusa.
— Durante as ausências desse monstro, anotei todos os factos... os meus sofrimentos.
Estou certa de que o meu diário não terá mais continuação, pois as minhas horas estão contadas.
Só que - sua voz mal se podia ouvir - eu queria morrer junto ao papai - nisso os seus lábios quase tocaram a minha orelha - e me comun...
Sua voz então se interrompeu.
Empalidecida repentinamente e tremendo feito vara verde, o olhar assustado dela fixou-se em algo atrás de minhas costas.
Eu me virei feito um raio e congelei.
Aquele gato, que eu vi enrijecido, estava sentado na cadeira.
Fiquei possesso comigo mesmo por ter esquecido o arco e as flechas mágicas na mala; mas, pelo menos, poderia contar com o amuleto contendo as relíquias santas e a hóstia consagrada, pendurado no pescoço.
Johannes havia me ensinado uma fórmula que, segundo ele, pronunciada por alguém que tivesse muita fé, era uma arma poderosíssima contra as forças do mal.
Era chegado o momento de testar o poder do amuleto.
Agilmente tirando o amuleto, ergui a cruz na direcção da criatura e pronunciei o esconjuro.
O gato, nesse ínterim, já armava o bote, mas antes de dá-lo projectou-se para trás e, em reviravoltas, começou a se torcer convulsivo, miando e uivando.
Nesse instante, de um outro quarto, ao terraço irrompeu a nova camareira, visivelmente perturbada e trémula.
Continuei segurando alto o talismã, ao qual os olhos daquela mulher parecia terem se pregado horrorizados.
Ela soltou um grito surdo e tombou inconsciente sobre o chão.
Eu estava perplexo.
— Está abafado!...
Ar, ar!... - ouviu-se atrás de mim.
Esta exclamação entrecortada e de desespero me fez retornar à realidade.
Branca feito cadáver, Marússya se agitava na cadeira, premendo o peito e parecia se sufocar.
Era preciso fugir daquele lugar maldito o quanto antes.
Decidido levantei a jovem, pesando não mais que uma criança e, empunhando o medalhão, corri para o barco.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75713
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 13, 2016 8:00 pm

Tendo ali acomodado Marússya, ainda num estado de desvario, desacostamos da margem.
O valente marinheiro persignou-se, tomou os remos e, qual numa disputa de canoagem, partiu feito flecha e, em dez minutos, já estávamos junto à escada, que pode ser vista daqui.
Primeiro desembarquei Marússya, mais calma e de olhos abertos, ainda que pela fraqueza não se aguentasse em pé.
Eu e o ordenança a carregamos para cá, justamente para este terraço, ao qual acorreram várias pessoas e se arrastou também, mancando, Piotr Petróvitch .
Marússya atirou-se aos braços do pai, e ambos choraram de alegria e desventura.
— Minha querida criança!
Jamais eu a deixarei voltar àquela maldita ilha.
Ficaremos juntos; vou cuidar de você e, tão logo você fique forte, viajaremos ao exterior - dizia Piotr Petróvitch por entre as lágrimas.
Marússya estava feliz, mas exausta.
Sua antiga ama-seca Aníssya levou-a, apoiando pelo braço, até a cama.
Piotr Petróvitch, tão logo a filha se retirou, agarrou-me pela mão e perguntou alvoraçado:
— O que significa este sequestro ou fuga desabalada?
Marússya corre algum perigo?
Ou vocês descobriram alguma vilania daquele patife Vyatcheslav?
— Vyatcheslav como sempre está desaparecido.
Se eu lhe contasse o que sei dele, o senhor me tomaria por um insano - disse eu.
Talvez, algum dia, eu lhe conte tudo e, então, poderá pensar o que quiser.
Neste momento, só me deixe agir e siga os conselhos que visam, exclusivamente, a pôr a salvo sua filha.
Em minha voz e olhar devia haver algo de significativo e sério, de modo que ele, acabrunhado, aceitou que eu tomasse conta de tudo.
Mandei de imediato um cavalariço buscar o padre Tímon para ele celebrar a eucaristia de Marússya.
Mal o enviado partiu, Aníssya veio me avisar que ela queria me ver juntamente com o pai.
Estava deitada em sua cama de solteira, branca tal qual o seu travesseiro, mas visivelmente feliz.
Certificou-nos se sentir melhor desde que chegara; tomou uma xícara de caldo e um copo de vinho, e pediu ao pai buscar o sacerdote.
Ao saber que isso já havia sido providenciado, Marússya sossegou-se, mas em seguida sobressaltou-se de novo.
— Papai, não o deixe entrar no quarto, se ele vier, pois quero morrer em paz...
E mais um pedido - prosseguiu ela, agitada -, se de repente eu tentar hoje à noite voltar para a ilha, por nada neste mundo deixe acontecer isso, nem que seja à força...
Oh, não vejo a hora do padre chegar!...
Piotr Petróvitch prometeu cumprir o desejo e nós saímos.
Ele estava apreensivo, não tinha ideia do que estava acontecendo, porém sentia um drama invisível desenrolando-se em torno.
Para a nossa amarga decepção, o mensageiro retornou, noticiando ter o padre Tímon viajado por emergência a uma aldeia longínqua; na carta escrita por sua filha, esta assegurava que assim que o pai retornasse, ele iria imediatamente a Górki e no máximo até as duas horas da noite estaria ali.
Maus pressentimentos oprimiam-me o coração.
Fui até Aníssya, comuniquei-lhe o atraso e ordenei que não pregasse os olhos até a chegada do padre.
Além disso, coloquei junto ao leito de Marússya mais duas mulheres de constituição forte para impedir a jovem perpetrar qualquer tentativa de querer voltar à ilha.
Segundo Aníssya, Marússya dormia um sono agitado, a julgar pelos gemidos constantes.
A velha jurou-me que ela e suas ajudantes nem cochilariam ou perderiam de vista a jovem, mesmo que fosse preciso amarrá-la.
Piotr Petróvitch e eu acomodamo-nos na antiga saleta de estar de Maria Petrovna, separada do dormitório apenas por biblioteca, que servia também de oficina.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75713
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 13, 2016 8:00 pm

Até a meia-noite, conversávamos baixinho, até que fiquei dominado pelo cansaço e um desejo insuportável de dormir.
Piotr Petróvitch também confessou estar exausto e de cabeça zonza.
— Acho que poderíamos tirar uma soneca por uma hora antes da chegada de Tímon.
Vou chamar Savely e lhe darei instruções de nos acordar com a vinda do padre lá pelas duas horas.
Ele tocou a campainha, expediu as ordens e deitou-se no sofá, enquanto eu continuei sentado na poltrona.
Peguei no sono muito agitado, perseguido por pesadelo repugnante.
Via-me assediado por um bando de ratos nojentos, de cujos corpos escorria sangue, que subiam em mim, procurando me morder, ou que me acossavam na minha tentativa da desesperada fuga.
De súbito acordei.
Vi o fiel Savely, muito aflito, me sacudindo com todas as forças.
— Graças a Deus, pelo menos o senhor acordou, Ivan Andréevitch!
0 patrão está dormindo feito morto, enquanto isso uma terrível desgraça acabou de acontecer.
Saltei da poltrona; o meu primeiro pensamento foi o de que Marússya tinha morrido.
— O quê? O que aconteceu?
Fale logo! - gritei.
O velho criado ainda tremia, incapaz de pronunciar uma palavra.
— Maria Petrovna... se afogou! - a muito esforço proferiu ele.
Tal qual atingido por uma paulada na cabeça, cambaleei e deitei um olhar no desafortunado pai, dormindo um sono pesado.
Obviamente não quis acordá-lo; ele ainda teria muito tempo para saber da infelicidade.
Urgia saber dos acontecimentos e, quem sabe, ainda fazer algo pela desditosa.
— Onde está Aníssya? - gritei, saindo em carreira do quarto.
— Na praia - respondeu Savely, arrastando-se atrás de mim e esforçando-se em me seguir o quanto lhe permitiam os velhos pés.
A casa toda estava de pé.
Ao me aproximar do terraço, ouvi um barulho vago de vozes e gritos.
Havia gente correndo pela praia e, na lagoa, avistavam-se dois barcos; num se encontrava o meu ordenança com o jardineiro - um rapaz forte; no outro - dois criados.
Eles iluminavam a água com as tochas, sondavam o fundo com os remos e vasculhavam a margem.
Embaixo da escada, Aníssya, de cabeça descoberta e toda desarrumada, puxava os seus cabelos; seu rosto era de lividez terrosa e os olhos vagavam qual de alguém que perdera juízo.
— Aníssya! - berrei, sacudindo-lhe o braço com força.
Como isso veio a acontecer?
Você adormeceu?
— Ai, não, paizinho, não, não!
Não dormi ... Não consigo atinar do acontecido - gritava a fiel Aníssya em prantos.
Não me foi fácil acalmá-la; e eis o seu relato.
Marússya estava dormindo, bateu meia-noite e ela acordou, sentou-se bruscamente sobre o leito e pôs-se a fitar algo invisível com os olhos esbugalhados de terror.
Súbito, ela começou a se debater e gritar:
"Deixe-me! Suma!
Eu não vou, eu não quero!"
— Pensei que ela estivesse delirando - prosseguiu Aníssya chorando -, eu a abracei e tentei tranquilizar.
Nisso ela solta um grito forte, atira-se para o lado e segura o ombro como se alguém tivesse lhe dado um soco.
Começa então a chorar e esboça um movimento de saltar da cama.
Eu a agarro com todas as minhas forças e chamo por Grúnya e Fedóssya - ambas dormindo e roncando a toda.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75713
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 13, 2016 8:00 pm

Maria Petrovna tenta se desenvencilhar feito desvairada.
Jamais suspeitaria numa moça tão frágil e magra a força de um homem vigoroso.
Ela me aplica então um safanão que me derruba no chão e, do jeito que estava, só de camisola e descalça, feito um pé de vento passa por mim.
Ergui-me e corri em seu encalço, mas não a consegui alcançar.
Assim, feito um turbilhão, ela atravessou o corredor e foi directo para o terraço.
Contudo meus gritos foram ouvidos.
Acorreu Savélio e quis agarrá-la, mas ela lhe aplicou no peito um murro tão forte que este foi de encontro à parede.
Logo depois chegou o zelador Deménty e demais criados em vigília, esperando pelo padre Tímon.
A noite hoje está clara, é lua cheia, assim todos nós vimos Marussenhka descendo a escada e, num pulo, entrar na água.
Só deu para perceber ela agitando as mãozinhas no ar e, depois, feito pedra, ir para o fundo.
O corpo deve estar por perto, mas já vasculhamos tudo com remos e ganchos, e nada de encontrá-la - concluiu a ama-seca, lacrimosa.
Eu tinha quase a certeza de não achá-la com vida.
A invisível, terrífica e misteriosa força que lhe despedaçou o destino acabou também destruindo aquela jovem criatura, supostamente nascida para ser feliz.
Em aflição soturna, fiquei olhando para a lagoa, na expectativa de, a qualquer momento, divisar o corpo inânime da pobre Marússya na ponta do gancho; mas as buscas foram vãs e o lago parecia ter tragado o corpo.
Já há muito tempo o padre Tímon chegara.
Piotr Petróvitch, acordado com a algazarra na casa e, ao saber do ocorrido, chorava feito criança enquanto os barcos ainda vasculhavam o lago.
Sobreveio o amanhecer, e com ele desapareceram as últimas esperanças de resgatar a jovem, que estaria debaixo d'água por mais de cinco horas.
Mas queríamos encontrar o cadáver a todo custo para enterrá-lo, ao menos.
O padre Tímon continuou ali e tentava consolar o pobre Piotr Petróvitch, a toda hora repetindo que queria ver a filha, nem que morta.
O bom sacerdote condoído, vendo o desespero do pai, observou após instantes de reflexão:
— Há uma crença popular que diz que se um afogado não pôde ser encontrado, é preciso pegar uma caixa ou um pote de barro, colocar ali um ícone e uma vela acesa consagrada e deixá-lo à deriva na água.
A caixa com vela estacionará exactamente acima do local onde se encontra o corpo.
— Ah, é verdade!
Obrigado, padre, por ter me lembrado - alegrou-se Savely.
Faremos isso agora mesmo.
— Eu vou lhe trazer a vela de Jerusalém, do túmulo de Cristo - acrescentou Aníssya.
— Enquanto vocês continuam as buscas - prosseguiu o padre Tímon - vou até o quarto de Maria Petrovna e rezarei um réquiem.
Após a missa, convenci Piotr Petróvitch a se deitar, prometendo avisá-lo quando o corpo fosse encontrado.
Ele concordou, pois estava extremamente exausto; o padre Tímon prometeu não deixá-lo sozinho.
Voltei ao lago, onde ainda se apinhava gente, mas desta vez resolvi participar das buscas.
Tão logo me aproximei da margem, o ordenança comunicou ter visto a caixa com a vela ficado muito tempo à deriva e depois arrastada pela corrente até o meio do lago, onde estacionou e permanecia imóvel.
Como ele se preparava junto com os vigias para ir até lá, embarquei também e nos dirigimos directamente ao local onde tremulava a chama da vela.
Em silêncio, mergulhamos os arpões e nem passou um minuto quando Nikífor - o meu ordenança - exclamou:
— Agarrei algo pesado.
Cuidado para a embarcação não virar!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75713
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 13, 2016 8:00 pm

Premendo as mãos contra o peito, onde se escondia o medalhão, comecei a orar com fervor, sem desgrudar os olhos de uma massa pesada a emergir lentamente.
Um dos homens se atirou na água para sustentar o corpo, temendo que afundasse de novo.
Por fim, aflorou a cabecinha loira de Marússya e logo ela jazia no fundo do barco, coberta pelo manto trazido.
Meu coração bateu angustioso ao ver seu rosto inânime, e as lágrimas me correram copiosas.
Ao desembarcarmos na praia, colocamos o corpo num colchão e o levamos ao quarto da vítima; em seguida fui até Piotr Petróvitch e encontrei-o em total desespero.
Não vou relatar a tétrica cena desenrolada junto ao cadáver.
Tanto o sacerdote como eu achávamos que o desafortunado Khónin enlouqueceria; finalmente, nós o tiramos dali desmaiado.
Após fazê-lo voltar a si, ele pediu que eu cuidasse do enterro.
Enviei um mensageiro à cidade e, finalmente, fui descansar um pouco.
Estava abalado de corpo e alma, deitei no sofá e cerrei os olhos.
Súbito, a porta abriu-se ruidosamente e uma voz penetrante me acordou.
— Patrão!... Patrão!...
Ivan Andréevitch!
Era Aníssya. Veio me dizer, toda esbaforida e nervosa, que na hora da ablução do corpo de Maria Petrovna, acharam nele impressas marcas de mão, formando sangue extravasado.
— Só pode ser coisa do diabo!
E como se alguém a tivesse agarrado com força...
Por favor, patrão, vou lhe mostrar os sinais.
Grucha e Fedóssya debandaram, recusando-se a lavar a falecida... estão com medo - concluiu a velha, enxugando os olhos.
Maquinalmente, segui-a, e no momento de ela soerguer o lençol a cobrir-lhe o corpo, fiquei abismado ao notar no cotovelo uma impressão enegrecida de mão, cujas unhas parecia terem perfurado fundo a carne, deixando na pele sinais de hematomas.
— Do outro lado há um sinal semelhante - explicou a velha.
- Minha pobrezinha, Maria Petrovna!
Ninguém quer ajudar a vesti-la; aquelas imprestáveis fugiram...
Bem, eu me viro sozinha.
Coitada, até perdeu o crucifixo..., mas eu lhe coloco o de sua mãe, presente do patrão...
Fiz sinal-da-cruz, orei junto à falecida e retornei ao quarto, muito nervoso e novamente assaltado pelo terror e pressentimentos de novas desgraças.
Levantei as cortinas e abri as janelas em busca da luz, pois a escuridão me assustava.
Em meu estado de excitação, comecei a andar de canto em canto e, pela primeira vez, lamentei profundamente ser ignorante das leis do mundo oculto.
Os homens normalmente zombam do "sobrenatural"; riem do alto de sua suposta grandeza de um curandeiro aldeão que consegue "secar" o leite de uma vaca, praticar um "mau-olhado"; fazer adivinhações ou fabricar poções de amor.
Ensinam-nos "ciências" e um monte de coisas inúteis, deixando-nos em total ignorância quanto ao mundo oculto e às forças maléficas e misteriosas ao derredor, as quais até poderíamos enfrentar, se conhecêssemos e entendêssemos sua manifestação.
E, ao invés disso, nos deixam cegos, ignorantes e impotentes, à mercê das forças inimigas invisíveis, fazendo-nos até nelas desacreditar, assim nos tornando duplamente indefesos.
Todos estes pensamentos se revolviam em minha mente, causando ira e lamentação.
Eu já não duvidava da força do mal, as provas cabais convenceram-me do seu poder e, então, era de se esperar que o vil feiticeiro, responsável pela morte da jovem e inocente criatura, arquitectaria um novo atentado contra os despojos dela.
Eu li um número suficiente de livros sobre o ocultismo e sabia que o corpo propiciava uma presa valiosa para um "mago negro", sendo a morte de Vyatcheslav uma confirmação disso.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75713
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 13, 2016 8:01 pm

Que Marússya sucumbira vítima de um homicídio sobrenatural - disso não tinha a menor sombra de dúvida.
Mas como proteger a falecida de um atentado por aquele malfeitor?
Em minha tola ignorância, sequer podia imaginar que tipo de atentado ele poderia
Talvez um novo "avatar", ou, quem sabe, uma outra espécie de sacrilégio?
Não tinha como não admitir a minha impotência em prevenir ou impedir qualquer acto dele.
Se Johannes estivesse comigo...
Ele poderia me aconselhar e prestar socorro e, fora ele, não havia mais ninguém capaz disso.
Exausto com todas essas preocupações, eu me deixei cair na poltrona; não conseguia mais pensar e tudo girava em meu cérebro.
A chegada do ordenança distraiu-me um pouco.
Ele trouxe uma carta e um pacote volumoso.
— Encomenda registada de Lyon - anunciou.
— De Lyon?
Saltei do lugar.
A carta só poderia ser de Johannes.
Oh, se ele soubesse dos meus sofrimentos!
Abri apressado o envelope.
A carta de facto era de Johannes e, enquanto eu percorria com os olhos as primeiras linhas, fui dominado por um tremor supersticioso.
"Meu jovem amigo!" - escrevia o doutor.
"Se as minhas previsões se concretizarem, essa carta chegará bem na hora em que o senhor mais precisará de ajuda e conselho.
Um grande malefício está sendo tramado e, talvez, ele se consuma antes de chegar a minha encomenda.
De qualquer forma, siga os meus conselhos para impedir uma nova vilania contra a desafortunada.
Obviamente ele vai tentar isso e, no pacote, o senhor encontrará os objectos essenciais e um pergaminho, cujas fórmulas mágicas deverão ser decoradas.
Inicialmente, pegue o lençol de linho que estou enviando e ordene que o corpo da falecida nele seja enrolado por baixo das vestes.
Coloque-lhe a cruz esmaltada com corrente vermelha no colo e, embaixo da cabeça, ponha a placa metálica.
Não deixe de espalhar ládano no caixão antes de transferir o corpo, e rodeie o catafalco com uma linha de giz vermelho.
Essas precauções acredito serem suficientes para proteger a falecida das investidas demoníacas.
Na terceira noite, véspera do enterro, tome cuidados especiais.
Certifique-se de que durante o dia todo estejam acesas as lâmpadas e as velas, esparja o quarto com água benta e, antes da meia-noite, esconda-se atrás da cabeceira do caixão, pronto para alvejar o malfeitor com as flechas fornecidas.
— À meia-noite, ele virá.
Tão logo comecem bater horas, recite as fórmulas.
Ele não o notará e, quando se aproximar do círculo vermelho, arremesse a flecha nele.
Seguiam-se depois outras instruções menos importantes e, no fim da carta, os votos de êxito.
Feliz e reconhecido, dobrei a carta.
Do meu coração senti como que uma grande pedra deslizasse; eu estava prevenido, instruído e armado.
Com curiosidade respeitosa, abri o pacote e examinei os objectos ali contidos.
O lençol era fino, feito de cambraia e coberto de sinais cabalísticos multicores.
Dentro dele havia um crucifixo antigo, de fino acabamento; a cabeça de Cristo era ladeada de aura, e o símbolo sagrado era preso a fina corrente de ouro esmaltado.
Na superfície da placa metálica de forma ovóide achavam-se gravados dois pentagramas entrelaçados, cingidos por sinais cabalísticos.
E óbvio que eu cumpri fielmente as prescrições do doutor Johannes.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75713
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 13, 2016 8:01 pm

A debilidade de Piotr Petróvitch impedia-o de ficar constantemente junto ao corpo da filha e acompanhar os Preparativos - o que me facilitava o trabalho, tanto mais pelo não aparecimento do suposto Vyatcheslav.
Por minha determinação, Aníssya envolveu o corpo no lençol mágico; eu pessoalmente coloquei no colo da falecida Marússya a corrente e escondi o crucifixo nas pregas do vestido, pondo a placa embaixo de sua cabeça.
A infeliz parecia ter recuperado a beleza anterior, pois aquela expressão de sofrimento e terror, congelada no rosto quando a tiraram da água, substituiu-se por semblante de paz.
O caixão estava submerso em flores e cercado de plantas raras e vasos de arbustos cítricos.
Durante todo o dia que antecedia a terrífica e inesquecível noite, fiquei repetindo as fórmulas para não cometer nenhum erro durante sua recitação, e tentei dormir para munir-me de forças.
À medida que a noite se aproximava, a minha coragem ia diminuindo, um terror involuntário de mim se apossava, não obstante a forte determinação em meus intentos.
Contudo, sustentava-me a sede da vingança e o desejo de liquidar aquele monstro.
Findo o réquiem nocturno, levei o padre Tímon ao quarto, contei-lhe tudo e supliquei ficar de vigília comigo - mas ele se recusou peremptoriamente.
— Deixe isso, Ivan Andréevitch, não se envolva com as forças do inferno - insistiu ele, visivelmente inquieto.
Ore com fervor e deixemos tudo à vontade do Senhor.
Nada mais podemos fazer, e nem devemos.
— Não! - protestei com veemência.
Será a minha prova de amor por Marússya, resguardando seus restos mortais do monstro assassino.
Se tivéssemos realmente a capacidade de orar com a energia de triunfar sobre os demónios - seria diferente.
Conhecesse eu algum asceta ou um homem santo, eu o teria chamado para ajudar, mas naquela ocasião só me restava seguir as prescrições do doutor Johannes.
Deixei tudo preparado:
tornei a reforçar o risco com giz em volta do catafalco, armei-me do arco com as flechas e me escondi junto à cabeceira do caixão, atrás das densas plantas e vasos com os arbustos cítricos.
Encorajava-me a consciência de não estar sozinho:
um clérigo ali recitava os salmos.
Jamais o tempo se alongava com tanta morosidade, e a minha tensão crescia a cada minuto, marcado pelo relógio pendurado na parede.
Uns dez minutos antes da meia-noite, notei inquieto que a voz do recitador ia se tornando indistinta, frequentemente se interrompia e, pouco depois, um ronquejar fraco sinalizava-me o seu adormecimento.
Um terror inusitado de mim se apoderou; os meus cabelos parecia eriçarem, prenunciando algo terrível.
As paredes começaram a estalar e uma rajada de vento glacial, vergando as plantas, atravessou a sala.
A espirradeira ao meu lado crepitou feito em chamas e, neste minuto, o relógio bateu meia-noite.
Num esforço sobre-humano da vontade venci o medo e pus-me a recitar as fórmulas.
A porta se abriu e à sala adentrou o suposto Vyatcheslav e, feito sombra, esgueirou-se junto ao caixão.
Estava tremendamente pálido, seus olhos afundados fosforesciam e, como naquela hora ele não temia ser reconhecido, sua semelhança com Krassinsky, apesar de aparentar Vyatcheslav, saltava aos olhos.
Ele estava acompanhado por aquele gato preto.
Ao se aproximarem do corpo de Marússya, Krassinsky súbito estacou trémulo.
O gato emitiu um miado pavoroso.
Eles haviam topado com o círculo mágico.
Enfurecido, o satanista gritou seus esconjuros, agarrou o gato pelo pescoço e tentou lançá-lo para dentro do círculo, agitando o bastão na outra mão e com ele desenhando sinais cabalísticos; seu anel no dedo faiscava.
Suas tentativas, porém, de penetrar no círculo foram vãs e, espumando pela boca, ele retrocedeu e ergueu o gato a se contorcer em sua mão.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75713
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 13, 2016 8:01 pm

Foi então que estiquei o arco e atirei.
A flecha, tal qual raio vermelho, atravessou o ar, e um grito alucinado retumbou na sala.
Entrevi Krassinsky cambaleando, todavia a flecha não o atingira, mas acertara o gato, que se espatifou no chão.
Eu deveria repetir o tiro, mas tonteei por esgotado e perdi os sentidos.
Recuperei a consciência só três semanas mais tarde.
Uma febre nervosa deixou-me a um fio da morte.
Através do padre Tímon, descobri o que aconteceu durante o desmaio.
Ele estava orando num dos quartos vizinhos, quando ouviu um forte barulho.
Temendo por minha segurança, ele persignou-se e empunhando o crucifixo correu à sala.
Estava vazia e mergulhada em penumbra; apenas as três velas ardiam junto ao catafalco, cercado por círculo mágico.
O padre sabia do meu esconderijo por entre os arbustos e se dirigiu para lá.
Encontrou-me estendido sem sentidos e de braços abertos, com o arco e as flechas ao lado.
Ele recolheu os objectos, escondeu-os e só os devolveu após a minha recuperação.
Ao chamado dele, acorreu a criadagem, levantaram-me e acenderam as luzes.
Foi então que, pasmados, os presentes repararam no cadáver do enorme gato, estendido junto ao círculo.
Minha recuperação foi lenta.
Como Gorki me inspirava profunda repulsa, na primeira oportunidade voltei a Petersburgo e logo obtive uma autorização para voltar ao navio.
Eu precisava de ar fresco e locais novos para me recuperar do forte abalo...
O almirante fechou o caderno e levantou-se.
— Boa-noite, meus amigos, está na hora de todos dormirem.
Vejo que o meu relato os deixou um tanto perturbados.
Reconheço que quero ficar a sós, tendo revivido na alma todo esse passado triste.
Realmente, os ouvintes achavam-se como que sob o efeito de grande pesadelo; ninguém protestou e todos, calados, retiraram-se aos seus aposentos.
O almirante não mais ocupava aqueles cómodos em que se hospedava durante os factos trágicos descritos; providenciaram-lhe um lugar na parte de baixo da casa, constituído de dormitório e sala de estar, com vista para o jardim.
De manhã, tendo acordado cedo, Ivan Andréevitch acabara de retornar do passeio e, sentado à janela aberta, lia e fumava, quando ouviu a voz o chamando do jardim.
— E você, Nadiucha, e acordou tão cedo!?
O que há, pequena?
Está pálida. Por acaso não está bem?
— Estou bem, padrinho, só que de pensar tanto no que você me contou, demorei para dormir e, depois, tive um pesadelo tão ruim que me arrepio só em lembrá-lo.
— Por que não o descreve para mim?
— E você será franco comigo na interpretação do sonho?
Posso ir aí para conversarmos?
Mas isso vai atrasar o nosso desjejum por pelo menos uma hora.
— Venha!
Minuto depois, Nádya se acomodava na poltrona em frente do padrinho.
A conversa não se iniciou, todavia, com o relato do sonho, mas com perguntas sobre os diferentes episódios do almirante, a ela desconhecidos.
Entre outras coisas, ela queria saber se o medalhão e as flechas ainda estavam com ele, e finalmente perguntou:
— E não se sabe mais nada de Krassinsky, ou melhor, do seu avatar?
Estará morto, talvez atingido pela flecha mágica ricocheteada?
— Nada posso lhe acrescentar quanto a isso.
Já se passaram vinte anos sem nenhum vestígio dele, e o seu corpo jamais foi encontrado.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75713
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 13, 2016 8:01 pm

É possível que ele esteja vivo, escondido em algum lugar, pois essas criaturas larvais conseguem, por conta dos actos criminosos, manter a existência.
— Então, caso ele ainda esteja vivo, com certeza não deve habitar por aqui, pois, segundo ouvi dizer, esta casa ficou trancada por mais de vinte anos, ainda por determinação do falecido Piotr Petróvitch; o tio Víktor também nunca a quis abrir e sequer a visitou.
O almirante pegou o chapéu e, calado, seguiu a afilhada dirigindo-se ao jardim.
Era uma manhã maravilhosa, o céu estava sem nuvens, o ar tépido e aromático - o que convidava para um passeio.
Nádya, a quem retornara o bom humor, levou o padrinho ao seu cantinho favorito, onde um carvalho secular abriu largamente seus poderosos galhos e densa folhagem.
A sombra daquele gigante havia cadeiras elegantes e uma mesa; das floreiras próximas de heliotrópios, resedás, narcisos e rosas, espalhavam-se aromas deliciosos.
— Não é maravilhoso aqui?
O sol não incomoda, e por todos os lados estamos cercados por flores e fragrâncias agradáveis - observou Nádya, acomodando o padrinho numa cadeira.
Nisso ela avistou o filho do jardineiro carregando cestas de morangos frescos, correu até ele, pegou uma cesta e voltou junto ao almirante.
— Coma, padrinho! Dizem que faz bem comer morango de estômago vazio; enquanto isso, eu lhe conto o meu surpreendente sonho. Ele já não me parece tão assustador...
provavelmente eu fiquei impressionada com sua história.
Ivan Andréevitch sorriu, pegou os morangos e anunciou estar pronto para ouvir o sonho.
Nádya reflectiu por instantes, apoiou os braços sobre a mesa e iniciou:
— Como já lhe disse, eu não conseguia conciliar o sono ontem, atormentada por preocupações e ansiedade vagas.
Finalmente adormeci e vejo todos nós:
o papai, a mamãe, eu e meus dois irmãos, bem como Mikhail Dmítrievitch, sentados no terraço com a vista para o lago, ao redor de mesa ricamente servida.
Você, padrinho, não estava.
Eu me sentia feliz com o luxo em volta e diante dos meus pratos favoritos em cima da mesa.
De repente, notei no céu azul uma nuvem escura, rapidamente encobrindo todo o horizonte e logo ficou tudo escuro; as nuvens enegreceram e desencadeou uma pavorosa tempestade.
Relâmpagos brilhantes rasgavam o firmamento; os trovões ribombavam sem parar.
Assustada, vi como se na ilha houvesse um incêndio, cujo fogo sanguíneo iluminava a água, pulei da cadeira e soltei um grito:
— Vamos para dentro... andem logo!
Por que estão sentados aí feito troncos?
— Eu quis correr à porta, mas neste instante ouviu-se um forte estrondo, como se o mundo estivesse acabando, e desmaiei.
Não é estranho sentir algo assim num sonho?
Bem, lembro-me perfeitamente de ter desmaiado e, logo, voltar a mim...
Tudo era silêncio e inundado por penumbra esbranquiçada; olhei em torno... e um pavor insano de mim se apoderou.
Até onde alcançava a vista era destruição.
O jardim estava arrasado, as árvores arrancadas pela raiz, a casa - simples ruínas.
O mais estranho é que a nossa casa em Kiev e esta daqui como se fundiram numa só e vieram abaixo juntas, pois através de montes de entulho vi as cariátides da fachada da casa de Kiev.
Mas, no sonho, tais circunstâncias não me surpreendiam e eu só pensava numa coisa:
achar os meus familiares, que não conseguia encontrar em nenhum lugar e, em desespero, eu vasculhava os escombros.
Súbito achei meu pai, morto e ensanguentado.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75713
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 13, 2016 8:01 pm

Gritei e, ao tentar reanimá-lo, vi dos escombros saírem rastejando a mamãe, branca e magra, toda de preto, e atrás dela o meu irmão e a irmã.
Enquanto eu tentava confortar a mãe e os pequerruchos, agarrando-se em mim, tudo em meu torno mudou.
Eu me vi numa estrada estreita e sinuosa, cheia de buracos fundos e coberta por pedregulhos; ao longe se divisava uma floresta densa e escura.
Entrei em pânico e comecei a chamar o meu noivo, mas este não aparecia, e eu o chamava e chorava...
Nisso divisei, ao lado daquela estrada esburacada, um caminho largo de terra batida, de nós separado por uma valeta profunda e, nele, seguia montado Mikhail Dmítrievitch com uma amazona, que não consegui reconhecer.
Eles iam trotando e, então, Mikhaill voltou a cabeça em minha direcção.
Ele me olhou com gélida indiferença; depois virou o rosto e continuou a palrear rindo com sua acompanhante.
Depois ambos desapareceram na curva da estrada.
Devo acrescentar que naquele minuto em minha alma despertou um sentimento cruel, maldoso e hostil, jamais experimentado.
Aí eu disse aos meus:
- "Esperem-me aqui, vou lhes buscar algo", e me embrenhei na floresta.
Caminhei por uma vereda cheia de arbustos espinhosos, acima de mim árvores frondosas se entrelaçavam com os galhos, formando um jardim verdejante e, embaixo, reinava a penumbra.
Súbito, como se brotado do interior da terra, diante de mim surgiu um homem preto, empunhando saco com ouro.
— Pegue! - disse ele.
Eu agarrei avidamente o saco e corri junto aos meus.
Depois só me lembro novamente na floresta, e o mesmo homem preto me deu um outro saco cheio de ouro, tão pesado que eu mal conseguia arrastá-lo, enquanto ele ia me seguindo e sussurrando no ouvido que me daria ainda muita, muita coisa boa, mas para tanto eu deveria ficar com ele, ser sua esposa.
Então ele me agarrou bruscamente a mão.
Fiquei aterrorizada e quis fugir, mas ele me segurava como garras e me arrastava em direcção a um lúgubre abismo insondável...
Eu tremia de medo, porém à medida que nos aproximávamos do precipício, essa sensação ia diminuindo.
Apoderada de fraqueza e apatia, não lhe opus qualquer resistência; então ele me ergueu e atirou no abismo.
Caí num vale inóspito, semeado de enormes blocos de pedra e circundado de rochedos pontiagudos.
Fiquei completamente alquebrada, porém sentia-me contente e só pensava em me vingar; de quem? - não me lembro.
Enquanto isso, o ar ia rareando e eu respirava com dificuldade, assaltada de súbita vontade de fugir dali.
Corri inutilmente em círculos à procura de uma saída.
Nessa minha angustiante tentativa, avistei uma enorme rocha de granito, maior de todas, em cujo centro havia um assento vazio esculpido.
Enquanto eu examinava curiosa aquela espécie de trono, a rocha se abriu ruidosamente, da terra faiscaram línguas de fogo e, cercado por aquela auréola chamejante, assomou uma figura masculina de chifres encurvados e asas dentadas.
Era belo, se bem que a sua beleza bafejava algo sinistro; o seu olhar perscrutador e a voz penetrante fizeram-me estremecer.
— Não me enfrente, criatura indomável, sua luta é inútil; você é nossa e sempre será. Quem entrar aqui jamais sairá.
Rápido! Servos! Aprisionem-na!
Não se sabe de onde, surgiram então monstros pretos e asquerosos de caras animalescas, que me agarraram e me prenderam com corrente à cadeira de pedra, onde se acomodava, olhando-me com zomba, aquele algo envergando os chifres curvados e asas dentadas.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75713
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 13, 2016 8:02 pm

Gritei e acordei assustada, toda em suor; meu coração batia forte e não consegui mais dormir.
— Que sonho tolo, não é, padrinho! - concluiu Nádyaem tom indeciso, lançando-lhe um olhar perquiridor.
Ainda por algum tempo depois de acordar, eu continuei assustada, mas disse a mim mesma que aquele pesadelo asqueroso se deveu à profunda excitação, causada pelos relatos sobre o satanismo.
— Queira Deus que esse estranho sonho seja apenas um pesadelo e não o aviso de algum infortúnio! - desejou o almirante.
— Que perigo me ameaçaria e como eu poderia evitá-lo, caso fosse verdade?
— Ávida e o destino humano não são livres dos perigos e se sujeitam a tantas vicissitudes, que é difícil prever de que lado possa advir uma ameaça - asseverou em tom sério o almirante.
E contra os golpes do destino e as forças do mal nós só contamos com uma arma - a oração.
Sabe, Nádya, a oração é uma mobilização da vontade, um arrebatamento da alma à fonte do bem:
Deus e Seus servidores límpidos.
Este arroubo, reforçado pela fé, serve de sustentáculo nas provações e de escudo contra as investidas dos maus espíritos.
Vivemos numa época difícil:
as forças cruéis absorvem milhares de almas, a fé hesita e, por todo o lugar, o ateísmo medra, e as terríveis epidemias psíquicas tempestuam com força crescente.
Suicídios, insanidade e debilidade mental causam devastações horrendas, sem contar as obsessões, não reconhecidas pela ciência oficial - factos que não podem ser negados.
É contra isso que, justamente, a igreja e, sobretudo, os seres eleitos, os chamados santos, lutam vitoriosamente desde os tempos imemoráveis.
Nádya ouvia pensativa e perturbada.
— Sem dúvida eu vou orar, padrinho, pois sei que você passou por muita coisa.
Mas como vou conciliar tudo isso casada?
Mikhail Dmítrievitch não acredita em nada e irá debochar de mim implacavelmente ao saber que eu acredito em obsessão, demónios, feitiçaria, etc...
Tremo só de pensar!...
— Paciência, minha criança. Se não podemos obrigá-lo a crer, ele também não pode despojá-la de suas convicções.
Quem sabe, talvez o futuro lhe confirme a existência de tantas coisas, nem imaginadas por sua "sabedoria iluminada", e não há nada melhor para convencer os homens do que a experiência própria.
Aproximava-se a hora do desjejum e ambos, em passos lentos, dirigiram-se a casa.
— A propósito, quem é o jovem que está vindo com o seu noivo? - de súbito indagou o almirante.
— É seu primo - Jorj Vedrinsky.
É rico, não trabalha e só por passatempo estuda a Arqueologia.
Pouco sei dele, pois ele mora no exterior.
Vedrinsky é muito simpático e gentil, mas também um ateu inveterado tal qual Mikhail Dmítrievitch.
Já perto do terraço, Nádya disparou na frente ao ver a mãe arrumando a mesa para o desjejum.
Ivan Andréevitch acompanhou-a com um olhar triste e pensativo.
"Pobre criança!
Que Deus a guarde dos ardis diabólicos!
O seu sonho é um aviso sinistro, tanto mais estando neste local maldito" - pensou ele.
Findo o repasto, Nádya sugeriu ao almirante visitar o túmulo de Marússya e rezar pela inocente vítima do destino caprichoso e estranho.
No caminho, eles tiveram que passar por ruínas pitorescas, cobertas de musgo e plantas rastejantes.
— O papai quer derrubar tudo, mas eu sinto pena.
Olhe com que mistério venta daquela sala com grande janela sagital ao fundo; as ruínas são iguaizinhas às de um castelo feudal.
Havia ainda até uma parte de azulejos e uma pequena porta na parede, saindo para uma escada.
E uma pena não se poder descobrir para onde ela está conduzindo, pois o resto do prédio desmoronou-se.
Deus sabe o que ele tinha!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75713
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 13, 2016 8:02 pm

— Sim, são reminiscências interessantes do passado - considerou o almirante.
Se não me engano, são ruínas de uma hospedaria, antes pertencente ao mosteiro católico na ilha.
— Como? Na ilha havia um mosteiro?
Onde ele foi parar?
Não há qualquer vestígio dele - surpreendeu-se Nádya.
— Na floresta que cobre a ilha, bem em frente de seu terraço, ainda permaneceram as ruínas de uma velha abadia beneditina, antes ocupando toda a área da ilha e que hospedava seus visitantes na casa, por cujos escombros acabamos de passar.
Certa vez, eu e Marússya examinamos os restos da igreja e encontramos alguns vestígios do cemitério do mosteiro com seus monumentos tumulares.
Aliás, se isso lhe interessa, fale com o padre Tímon, pois ele gosta de remexer o passado e juntou uma colecção maravilhosa de diversas coisas.
Ele poderá lhe contar com mais detalhes sobre o mosteiro e seus objectos.
— Oh, tão logo o encontre, pedirei para fazê-lo e, depois, vou vasculhar as ruínas.
Por terem ali se abrigado uma igreja e mosteiro - locais de orações piedosas - exclui-se qualquer possibilidade de o lugar servir de esconderijo para algum demónio ou que possa trazer um infortúnio - alegou Nádya, com convicção.
Um sorriso triste e enigmático franziu os lábios do almirante, mas ele nada comentou, ademais, eles chegaram à capela.
Era uma construção de proporções médias, em mármore branco e com cúpula azul e cruz dourada no alto.
A porta da entrada era de carvalho maciço cinzelado.
No interior, diante da imagem grande da Ressurreição de Cristo, erguia-se um facistol; uma luz suave filtrava-se através de três janelas estreitas com vidros azuis.
Numa das laterais, uma porta dava para a escada em caracol, conduzindo à câmara mortuária, iluminada naquela hora por lâmpada de tecto.
No centro havia dois túmulos:
um grande, em cuja placa de mármore preto estava escrito o nome de Piotr Petróvitch, e um sarcófago em mármore branco - obra de um artista italiano.
Este sarcófago - reprodução de outros tantos, dos primeiros tempos do cristianismo - apresentava-se aberto e ali, tal qual, em almofadas, repousava a jovem de mãos cruzadas, em cuja cabeceira se erguia a estátua de um anjo em tamanho natural que, inclinado, empunhava sobre a adormecida um crucifixo, como que a abençoando e protegendo de algum inimigo invisível.
Naquela hora o sarcófago estava decorado com flores frescas:
rosas aos montes cobriam-no e um lírio branco estava enfiado nos dedos pétreos da defunta.
— Como ela era bela e jovem, e faleceu de modo tão triste! - balbuciou Nádya, perturbada.
— Foi você, Nádya, que mandou decorar o túmulo de Marússya? - perguntou o almirante, emocionado.
— Sim, padrinho.
Lembra de termos passado pelo canteiro de flores?
Enquanto estamos aqui, o jardineiro troca as flores a cada dois ou três dias.
Diariamente venho para cá para orar pela infeliz.
Sem nada dizer, Ivan Andréevitch deu um beijo em Nádya.
Após orarem, eles saíram da capela.
No dia seguinte, Nádya, radiante de felicidade, encantadora em sua saia cor-de-rosa e chapéu, foi com a mãe encontrar o noivo.
Filipp Nikoláevitch e o almirante acomodaram-se no terraço com seus charutos e jornais.
Diante deles, a longa alameda de tílias propiciava visão dos que se aproximavam da casa.
— Ivan Andréevitch, eu queria lhe falar sobre Mikhail Dmítrievitch.
Não sei porquê, mas não consigo gostar dele.
— De que você não gosta nele?
E, se é assim, qual é a razão de permitir esse casamento?
— Nádya o ama de paixão e não quero prejulgá-lo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75713
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 13, 2016 8:02 pm

Ainda que ele não disponha de grandes recursos, você sabe que isso não é um empecilho, pois Nádya é rica pelos dois.
Ele é uma pessoa correta, muito bonito e parece amar a minha filha de verdade, mas há algo nele também desagradável.
O olhar dele é presunçoso e frio, parece muito egocêntrico e perdulário.
Depois, o seu jeito de livre-pensador e a descrença de tudo, que ele vive exibindo, apontam uma mente estreita.
Mas aos olhos da moça apaixonada, tudo isso não tem importância, pois ele é bastante atraente para seduzir um coração feminino - é óbvio.
De quem eu gosto realmente e a quem queria por genro é o seu primo, Jori Vedrinsky.
Que jovem simpático, inteligente, franco, honesto; bem... não é o destino.
O almirante sorriu.
— O que se há de fazer?
Sã o raras as vezes em que os filhos compartilham do gosto dos pais, e devemos nos conformar com isso.
— Ah, esqueci de lhe dizer: hoje recebi uma carta de madame Morel e, na terça-feira, ou seja, daqui a quatro dias, ela estará aqui com Mila.
Imagine só!
Ela pede a permissão de se hospedar por duas ou três semanas com a afilhada na casa da
Diz que, sendo eu um homem "esclarecido", não daria certamente importância às conversas tolas que transformaram aquele maravilhoso cantinho num covil sinistro.
De qualquer forma, ela se diz livre de preconceitos e superstições, e o meu consentimento seria interpretado como deferência especial.
O almirante deu de ombros.
— Que ali se hospede e sinta na própria carne as garras do senhor capeta, o qual não deixará de pregar suas traquinagens!
Il n'y a de pires sourds que ceux qui ne veulent entendre (Os mais surdos são os que não querem ouvir).
E difícil convencer um incrédulo, e a experiência pessoal, nesses casos, é o melhor propagador da verdade.
— Você está certo.
Que se instalem naquele ninho do capeta.
Mas o que as atrai para lá?
Começo a achar que, apesar de ter casado com o nobre senhor Morel e passados mais de vinte anos, ela não consegue esquecer o seu ex-noivo - o misterioso Krassinsky, morto numa situação tão enigmática.
— O Deus, Nosso Senhor, aquela casa novamente será habitada! Felizmente estou de partida... - disse o almirante, em tom de repulsa.
— Já quantas vezes você me disse isso, mas nunca me falou onde pretende ficar. Como está reformado e livre, eu esperava que você fixasse o domicílio em Kiev, perto de nós -observou Zamyátin.
— Não, meu amigo, pretendo viajar para mais longe, e lhe direi para onde, se me prometer não soltar a língua.
Vou à índia, tão logo ponha em dia os meus negócios, o que, aliás, está quase feito.
Ainda antes, durante a minha visita àquele país, tive a sorte de conhecer um velho brâmane, e ele prometeu me introduzir numa seita secreta de sábios hindus.
Na expectativa de ser aceito, estudei diligente o sânscrito e inglês - você sabe - eu domino.
Poderei trabalhar sem problemas e dedicarei o resto dos meus dias ao estudo da ciência oculta, cheia de empolgantes mistérios. Já não sou jovem, é claro, mas ainda suficientemente forte de corpo e alma para receber a primeira iniciação.
O conhecimento do mundo oculto empolga-me e - quem sabe? - talvez eu consiga expulsar o demónio aqui instalado.
Zamyátin ouvia, visivelmente desapontado.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75713
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 13, 2016 8:02 pm

— De todo o coração lhe desejo que concretize suas intenções; não posso negar, por outro lado, que a sua partida me deixa desgostoso, pois esperava outra coisa.
E por quanto tempo planeja ficar ausente?
— Não tenho ideia.
Talvez nem volte à Europa; vai depender dos meus instrutores - disse o almirante.
Ao notar o desgosto do amigo, acrescentou:
- De qualquer forma, Filipp, terá notícias minhas e, assim que me sentir capaz de purgar Gorki, virei sem falta.
Instalou-se o silêncio, e ambos parecia meditarem.
Em seguida, cada um iniciou a leitura das cartas recebidas pela manhã.
No instante de o almirante dobrar a última carta, viu pela janela a carruagem chegando em carreira pela alameda das tílias.
Zamyátin e seu amigo já esperavam na entrada, quando o coche aportou.
Nádya estava radiante.
O seu noivo sentado na frente desembarcou primeiro.
Enquanto ele ajudava Zamyátina e a noiva a descerem da carruagem, o almirante examinou-o, meditativo.
De facto, Massalítinov tinha bela aparência:
alto, esbelto, cabeça clássica de camafeu grego e cabelos cheios, negros e encaracolados.
Os enormes olhos escuros aveludados com cílios felpudos não denunciavam seu lado espiritual; o olhar era frio, soberbo, e uma prega cruel encrostara-se em torno da boca belamente contornada.
Mas quando os lábios púrpuros se abriam, desnudando os dentes de brancura ofuscante, e um sorriso enfeitiçador se acendia sob as sobrancelhas semi-abaixadas, logo se tornava compreensível a sedução que ele exercia sobre as mulheres.
Nádya não despregava os olhos do noivo e sequer disfarçava seu desmesurado amor a ele.
Com interesse não menos intenso, Ivan Andréevitch examinou o primo apresentado de Massalítinov - Jorj Vedrinsky.
Era um moço também bonito, mas em sentido totalmente diferente.
Da mesma forma alto, era mais largo nos ombros, parecia a personificação da saúde florescente e virilidade, cujos músculos deveriam ser de aço.
Os cabelos loiros e uma pequena barba emolduravam o rosto; os olhos claros, cinza azulados, respiravam de rectidão e bondade.
Um contraste ríspido eram as suas sobrancelhas pretas, unindo o intercílio, o que conferia ao semblante uma expressão severa e enérgica.
O almirante sentiu uma imediata simpatia por Gueorgui Lvóvitch; por outro lado, a altivez de Massalítinov e o desdém forçado dos maneirismos produziam uma impressão desagradável.
Adentrados à sala, Mikhail Dmítrievitch e seu primo pediram licença para se retirarem aos aposentos reservados, por um quarto de hora, para sacudir a poeira da estrada.
— Bem, padrinho, gostou do meu noivo?
Ele é belo qual uma estátua da Antiguidade, não acha? - sustentou Nádya, afogueada de felicidade e orgulho.
— Sim, sem dúvida ele é bonito.
No entanto, espero que você adore não apenas uma estátua fria - devolveu Ivan Andréevitch, rindo.
— Como você é maldoso! - amuou-se Nádya.
O almoço transcorreu em clima de alegria.
Falaram do passado e futuro, e levantaram brinde pela saúde dos noivos.
Filipp Nikoláevitch relatou a vinda da senhora Morel com sua afilhada Ludmila Turaeva e acrescentou em tom de brincadeira que Gueorgui Lvóvitch também teria a oportunidade de se apaixonar.
Depois do repasto, Nádya levou os jovens ao parque, mostrou-lhes as ruínas no caminho, o mausoléu à Marússya e resumidamente contou a história trágica e misteriosa da jovem.
Mikhail Dmítrievitch escangalhou-se em gargalhada ao fim do triste relato e disse que aquelas "baboseiras" foram inventadas com a nítida intenção de desvalorizar a propriedade para comprá-la por ninharia.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75713
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 14, 2016 7:39 pm

— Esta ilhota verdejante sobre a vasta superfície do lago, com suas torrezinhas a se alçarem misteriosamente do verde, é simplesmente espectacular e eu não vejo a hora de visitar aquele recanto mágico.
Espero, Nádya, que não lhe falte coragem de me acompanhar.
— Dizem que o local traz má sorte - observou a moça, perturbada.
O noivo desfechou uma nova gargalhada.
— Nádya, Nádya!
Não tem vergonha de acreditar nessas tolices?
O seu querido padrinho contou-lhes meras invencionices, e vocês as têm como verdades sagradas.
E isso tudo em nosso século iluminado!...
A jovem não contestou e por estarem se aproximando da casa, Massalítinov mudou de assunto.
A noite, na hora do chá, ele tornou a expressar o desejo de visitar a ilha, tanto mais por sua má fama.
— A casa é tida por mal-assombrada e eu estou curioso por topar com um forasteiro do outro mundo.
Ficarei imensamente agradecido àquele senhor, caso ele me honrar com sua aparição, no que insisto.
— E por que não? Talvez ele lhe dispense tal felicidade -observou o almirante.
— Lamento, mas por ser um céptico enraizado não acredito nesse encontro; não existem nem diabos nem fantasmas.
O satanás e seus fantasmas foram inventados para assustar os ingénuos.
Eu, por exemplo, já frequentei várias sessões espíritas e nunca presenciei algum fenómeno que me convencesse.
Tudo não passa de engodo e mistificação.
— Ah, Mikhail Dmítrievitch, como é possível duvidar de tudo?
Que existem demónios, maus espíritos e fantasmas - tudo isso é confirmado pela Bíblia, Evangelhos e vida dos santos - sustentou irritada Nádya e, empolgando-se cada vez mais, acrescentou:
- Cristo curava os endemoninhados.
O venerado Sérgui viu um verdadeiro séquito de demónios; Santo António fora tentado pelas forças maléficas, bem como outros ascetas:
o padre Johann de Kronstad, no enterro de um ébrio, presenciou os espíritos do mal e, finalmente, a feiticeira de Aendor instava o espírito de Samuel.
Não se pode negar ao mesmo tempo todos os testemunhos dos santos e de pessoas altamente respeitadas.
— Nadejda Filippovna, tudo isso são fábulas, sem menor crédito.
De um modo geral, esses fenómenos "extraordinários" jamais foram incontestavelmente comprovados.
Agora, referente à nossa visita à ilha, que me interessa muito, obviamente será difícil, querida Nádya, deixar de fazer isso, pois as damas esperadas vão se hospedar lá.
— Sim, a senhora Morel, céptica de tudo tal qual o senhor, expressou a vontade de se instalar na casa sinistra.
Aliás, ela é movida por um sentimento específico:
veneração à lembrança do seu ex-noivo Krassinsky, falecido e enterrado na ilha - observou Zamyátin.
— Ah, sim!...
O pobre Krassinsky, que sacrificou a vida para salvar Vyatcheslav Ivánovitch Turaev, recebendo em reconhecimento o título de feiticeiro, vampiro ou algo desse género - debochou Massalítinov, rindo.
Bem, esse defunto sinistro repousa na ilha, e a terra não engoliu o seu túmulo, a dacha continua de pé e, durante os últimos vinte anos, não apareceu nenhum espírito por aqui, dando ar de sua graça.
E, se algum infeliz "capetinha" tivesse se instalado na dacha e conspurcasse o maravilhoso recanto à espera de alguma vítima, teria se enfadado pela longa demora e dado no pé há muito tempo.
Realmente, senhores, não seria mais lógico explicar tudo de forma mais natural?
Por exemplo, ao invés de atribuir ao demónio a culpa pela morte da pobre Turaeva, não seria mais simples supor que ela se atirou no lago para se matar pela depressão, causada por seu estado doentio?
Não ocorrem coisas semelhantes?
- E ele novamente se rompeu em riso.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75713
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 14, 2016 7:40 pm

O almirante permanecia calado.
Um sorriso de desdém vagava em seus lábios enquanto ele ouvia o jovem janota a gabar-se de sua descrença tal qual de sua erudição, tendo por tolos os que sabiam de algo a ele desconhecido.
E na alma de Ivan Andréevitch tornou a assomar um sentimento de antipatia vaga pelo belo oficial.
Ele, que muito vira e lera, detestava pessoas que, com riso zombeteiro e ditos chistosos, tentavam conferir a si o lustro de um iluminado e parecer acima de quaisquer preconceitos e superstições.
— Bem, o senhor não acredita em nada - observou o almirante.
E os fenómenos que começam a ser estudados pela ciência tais como a clarividência, a telepatia, a materialização dos mortos e demais manifestações dos que deixaram o mundo dos vivos, o senhor também refuta? - desafiou ele.
— Sem dúvida - revidou em tom decidido Massalítinov.
Fala-se muito disso e é compreensível os cientistas tentarem confirmar os rumores e... se esses fenómenos realmente ocorrem, conferir-lhes um fundamento natural e científico.
O futuro dirá o resultado dessas tentativas; porém a mim parece mais racional esperar até que a ciência anuncie o seu julgamento, antes de acreditar cegamente nos fenómenos que contrariam o bom senso.
— O senhor é decidido, meu jovem amigo!
De um só golpe o senhor risca os factos e as observações de milhares de pessoas - considerou o almirante, em tom de tanta ironia, que Massalítinov corou.
— Eu nada refuto - redarguiu ele - apenas exponho a minha opinião pessoal, também baseada em observações.
Eu frequentei, como já disse antes, sessões espíritas e ocultas, onde se trapaceava desavergonhadamente.
Quanto ao que li sobre as materializações, a vidência, feitiçaria, etc... - os fundamentos são inconsistentes.
Tudo não passa de "disseram" ou "ouvi dizer" - ou seja, factos não confirmados, ditos por pessoas crédulas, ou por vezes adeptos, que confiavam na palavra dos narradores.
— Perdão, Mikhail Dmítrievitch, o senhor está equivocado ao afirmar a inexistência de factos seriamente confirmados.
Por exemplo, Emmanuel Kant é uma autoridade digna de sua confiança?
Ou seja, o senhor o tem por débil mental ou mentiroso?
— Que pergunta!
Obviamente Kant é uma mente séria e totalmente digna de confiança.
— Pois bem, o mesmo Kant examinou um fenómeno parecido e confirmou sua autenticidade com as seguintes palavras:
"A ocorrência, de facto, parece ter provas cabais e irrefutáveis".
O caso aconteceu em 19 de julho de 1795.
Emmanuel Swedenborg, proeminente filósofo, retornava de sua viagem da Inglaterra e parou em Gotemburgo na casa de seu amigo William Kastel...
Juntaram-se numerosos convivas e, após o almoço, lá pelas seis horas da tarde, Swedenborg se despediu.
Mas mal ele deu alguns passos na rua, estacou de repente, e em seguida, pálido e nervoso, retornou à casa de Kastel, comunicando aos presentes que em Estocolmo se desencadeou um terrível incêndio e o fogo já alcançava a rua onde ele morava.
Pouco depois, ele saiu novamente para a rua e retornou para contar, com lágrimas nos olhos, que a casa do seu amigo .queimou até as cinzas e a dele corria um grande perigo.
Perto das oito horas, ele tornou a sair à rua, mas voltou.
- "Graças a Deus! - exclamou ele.
O incêndio foi apagado, o fogo parou a três casas da minha."
A notícia sobre esta estranha visão do velho filósofo - e Swedenborg tinha na época setenta e dois anos - espalhou-se por toda a cidade de Gotemburgo; o governador foi notificado, e todos que possuíam parentes e amigos na capital ficaram muito alarmados.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75713
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 14, 2016 7:40 pm

Somente dois dias depois, o mensageiro imperial trouxe a notícia do incêndio e relatou os pormenores, confirmando as visões de Swedenborg.
Ao comentar o facto, Kant, não obstante sua "mente prática e crítica", só conseguiu dizer:
"O que se pode contestar contra a autenticidade deste caso?"
Eis para vocês um facto belamente estabelecido pela vidência, pois Gotemburgo fica de Estocolmo a mais de 400 quilómetros.
Bem, agora existe o caso do moribundo, que escolhi fortuitamente em mais de mil ocorrências semelhantes.
Agrippa d'Obini, amigo do famoso rei francês Henrique IV, relata o que aconteceu na hora da morte do cardeal de Lorraine.
Foi em 1574; o rei se encontrava naquela época em Avignon junto com a rainha-mãe e o cardeal.
Catarina de Médicis deitou-se adoentada, mais cedo que o habitual.
Entre os dignitários presentes, quando ela foi se deitar, estavam:
o rei Henrique de Navarra, o arcebispo de Lyon, as damas Retz, de Linherol e de Sonney.
A rainha já se despedia dos presentes, quando jogou a cabeça sobre as almofadas, fechou os olhos com a mão e, aos gritos, começou a pedir por socorro, apontando para o cardeal de Lorraine, postado de joelhos nos degraus do leito, que lhe estendia a mão.
- "Vá, vá, cardeal, não preciso de você!" - gritava Catarina, pálida.
Sabendo-se o cardeal enfermo, todos se surpreenderam com seu aparecimento e, mais ainda, com seu rápido sumiço.
Então o rei de Navarra enviou um dos empregados à corte para informar-se do cardeal; ao retornar, o enviado comunicou que este havia falecido no momento em que foi visto junto ao leito da rainha-mãe.
Para concluir, vou lhes contar um caso em que o espírito do morto não só deu provas de sua existência além-túmulo, como expressou seus pêsames aos parentes.
Ocorre com bastante frequência o espírito expressar uma participação activa no destino e nas realizações de seus familiares e amigos.
Em 1761, a senhora Morteville - viúva do embaixador holandês em Estocolmo - recebeu de um dos credores do marido uma exigência de pagamento de vinte e cinco mil florins holandeses.
Ela sabia perfeitamente que essa importância já tinha sido paga pelo marido, e um novo pagamento significava falência.
Como não conseguia achar o recibo, recorreu desesperada a Swedenborg para pedir ajuda e conselho; este prometeu pensar no assunto.
Uma semana depois, seu marido lhe apareceu em sonho e indicou o local onde estava o recibo, bem como os rubis e brilhantes, perdidos por ela.
A senhora Morteville acordou e olhou para o relógio de parede:
eram duas horas da noite.
Ardendo de impaciência em confirmar o sonho, ela se levantou imediatamente, correu até o local indicado e ali achou o recibo e os objectos perdidos.
De volta para cama tranquilizada, dormiu até a manhã.
Eis os factos.
O que o senhor pode dizer contra os mesmos? - perguntou o almirante, sorrindo.
— Muita coisa, Ivan Andréevitch.
Perdoe-me, mas eles são tão pouco convincentes como os outros do género.
Mesmo, por exemplo, a visão de Catarina de Medici.
A consciência pesada daquela "generosa" rainha poderia ter provocado uma alucinação, some-se ainda o seu conhecimento sobre a doença do cardeal e não poucos pecados, por ela cometidos contra a Casa de Lorraine.
Seu grito, associado ao nome do cardeal, causaram uma alucinação colectiva, e o digníssimo Agrippa, que não tinha noção de tais fenómenos, registou-os como um facto.
Menos confiança merece o caso de vidência em Estocolmo, ocorrido com o velho e extravagante sonhador Swedenborg.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75713
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 14, 2016 7:41 pm

Quem lá pode dizer o que passa na cabeça de um doido?
Quanto ao testemunho de Kant, este também é duvidoso, pois foi fundamentado no relato de estranhos, sem ter testemunhado pessoalmente o estranho evento.
Quanto ao terceiro caso, eu...
— Não, não, eu o dispenso de suas contestações!
Estou certo de que o senhor destruirá quaisquer argumentos, provando de modo claro tal qual o dia, que eu não passo de um velho idiota crédulo, pouco superior a um pastor de ovelhas - exclamou o almirante com bonomia, mas em tom jocoso.
Mas me perdoe, o senhor me convenceu tanto quanto eu!
— E eu queria apenas convencê-lo da necessidade de ter bom senso - retrucou Mikhail Dmítrievitch, empolgando-se na discussão.
No calor dos debates, Massalítinov olhou para o seu primo, a ouvi-los atentamente e sem abrir a boca.
— Jorj, me ajude!
Está sentado aí feito toupeira.
Antes você era um adversário feroz de todo o "sobrenatural", sempre procurava desmistificar essas superstições, ardis espíritas e assim por diante e, agora, me deixa sozinho enfrentar um adversário tão terrível como Ivan Andréevitch.
Nem o reconheço!
Gueorgui Lvóvitch endireitou-se e disse sorrindo:
— Você tem razão, Misha, eu era bem céptico, mas não sou mais assim.
No verão passado, vivi uma aventura extraordinária e presenciei fenómenos, em que antes jamais acreditaria.
Topei-me com fantasmas e até hoje eu guardo uma prova de que aquilo não foi um sonho.
Mikhail Dmítrievitch saltou feito aguilhoado.
— Como? Você teve uma aventura e nem me contou?
Ficou com medo de minhas críticas? - gritou ele em indignação engraçada, gerando risos.
Quando todos silenciaram, Gueorgui Lvóvitch prosseguiu em tom sereno:
— É verdade, mas não é por medo de suas críticas que não lhe disse nada, pois os fenómenos vivenciados não se temem.
Nada falei porque você não se interessa por esses assuntos e, ademais, não nos vimos neste inverno.
Nas poucas semanas passadas juntos em Kiev, antes de virmos para cá, tínhamos muitas outras coisas para conversar.
— Bem, agora estando cercado de uma audiência simpatizante, o senhor talvez nos conte esse episódio extraordinário, se não for segredo.
Ou tal pedido foi uma indiscrição de minha parte? - corrigiu-se Nádya, embaraçada.
— Não, não, Nadejda Filippovna, nada tenho a esconder, ainda que os motivos que desencadearam os estranhos fenómenos não me sejam elogiosos.
Bem, não faz mal, terei o prazer em relatar o que me fez ficar curado do cepticismo imaturo.
Gueorgui Lvóvitch reflectiu por pouco e seu rosto tornou-se sério e pensativo.
— Antes de tudo, devo referir-me a um triste acontecimento - a morte da minha noiva, Elena Prosórova.
Era uma moça boa e bonita.
Eu a amava muito e, mesmo passados mais de dois anos, ainda sinto sua falta.
Ela faleceu inesperadamente duas semanas antes de nosso enlace, o que me deixou desconsolado.
Ao me recuperar dos primeiros sofrimentos, a minha irmã, casada com o secretário da nossa Embaixada em Madrid, convidou-me a passar alguns meses na Espanha, esperando com isso que um novo ambiente e a viagem pelo interessantíssimo país dissipassem a minha tristeza.
Naquela época, eu não pude aproveitar o convite, mas a ideia da viagem me havia agradado e no fim do ano passado eu fui a Madrid.
Senti-me bem no mundo diferente e fiz amizade com muitos espanhóis, principalmente com Dom Diego d'Alvares, com o qual combinei dar uma volta pela Espanha.
Ele queria me mostrar a pátria e surpreender-me com suas riquezas artísticas e arqueológicas.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75713
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 14, 2016 7:41 pm

Após interessantes excursões pelo norte da Espanha, chegamos a Granada, com a intenção de passar ali algumas semanas, pois Dom Diego, sendo natural daquela região, tinha numerosos amigos e alguns assuntos para resolver.
Granada me agradou muitíssimo.
A beleza sedutora das paisagens, as ruínas da divina cultura moura - tudo, enfim, me atraía e deixava extasiado.
Por horas eu vagava pelas salas do Alhambra e jardins de Generalifa, sonhando como seria o palácio cheio de vida e as suas salas mobiliadas.
O mais estranho é que em meus devaneios tudo ali me parecia familiar e, não sei explicar, muito caro.
Dom Diego me apresentou diversos amigos e primos, introduziu-me em algumas casas de parentes, e como aprendi muito rápido o espanhol podia me explicar sem dificuldade, tornando os meus relacionamentos dos mais agradáveis.
Dom Diego herdara de uma velha tia uma propriedade perto da cidade e me convidou a visitar a vila.
- "Não longe dali estão as ruínas do palácio mouro e, sabendo de sua paixão por nossas relíquias, a visita lhe proporcionará grande prazer" - disse-me, jovialmente.
Partimos a cavalo; quase bem junto à vila, meu amigo apontou-me os escombros do muro e uma velha torre, assomando-se no fundo, e dizendo que todo aquele lixo não estaria lá não fosse um medo supersticioso que impedia retirar os restos daquela velharia.
- "Os moradores locais acham que as ruínas são malditas desde a época, quando um camponês ao querer demolir a torre foi atingido mortalmente por um raio, e ninguém mais quis adquirir o local enfeitiçado."
Rimos muito daquele absurdo; nós nos separamos:
ele foi falar com o administrador e eu me dirigi para examinar os escombros.
As ruínas estavam quase cobertas por arbustos e estendiam-se mais longe do que imaginava.
Todavia, apesar da confusão em volta, investiguei o local.
Descobri uma galeria de colunas estreitas e um tanque de água, coberto por mato, onde outrora provavelmente ficava um chafariz.
Tratava-se por certo de um jardim ou pátio interno do palácio.
Adiante, os escombros de larga escada de mármore levavam a uma porta em arco e, atrás desta, havia um amplo salão, cujo tecto era o firmamento.
Sucediam-se-lhe dois quartos menores abobadados e restos de esculturas nas paredes, de acabamento fino e artístico, tal qual em Alhambra.
Os vestígios de tinta verde e azul em alguns lugares testemunhavam a antiga magnificência do lugar.
Nos fundos do segundo recinto também havia uma porta arqueada e decorada a cinzel, mas a parede caída atrás impedia qualquer possibilidade de exame melhor.
Ainda assim, os muros maciços da torre poderiam se sustentar por mais séculos; apenas a escada conduzindo aos pisos superiores havia desabado e só consegui entrever o salão redondo do segundo andar; as paredes nuas e esfareladas não davam qualquer pista de seu destino.
Estava tão absorto em minhas investigações, que me esqueci completamente de Dom Diego e de tudo o mais.
Estranho:
à medida que eu examinava as ruínas, estas me pareciam cada vez mais familiares, ou seja, eu me sentia como se estivesse em casa.
Por exemplo, de antemão eu sabia encontrar-se atrás da pequena porta abobadada uma galeria, coberta de piso azul e branco, e eu fiquei com vontade tão incontrolável de verificar essa sensação, que, ao tentar galgar os escombros, quase quebrei o pescoço, sem contudo lograr o meu objectivo.
Dom Diego me encontrou em estado de muita excitação; minhas vestes estavam sujas e rasgadas.
Ele riu à bandeira despregada, mais tarde, do meu arroubo arqueológico.
A noite daquele dia eu tive um sonho estranho.
Vi-me novamente no palácio mouro; mas esse já não era um monte de entulho como em vigília.
Não, ele se erguia em toda a sua magnitude do passado.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75713
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 2 de 8 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum