Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 14, 2016 7:41 pm

Em volta do tanque perfilavam-se floreiras e, ao longo da galeria abobadada, sofás baixos revestidos por brocado seduziam-me ao repouso.
É impossível descrever o luxo daquele salão e dos cómodos anexos.
Era o palácio de "Mil e uma noites".
0 sonho deixou em mim uma forte impressão e, quando eu contei a Dom Diego, ele debochou de mim, dizendo que o espírito das ruínas me enfeitiçara.
Para distrair-me das fantasias arqueológicas, ele me levou à casa de sua dama, que frequentávamos amiúde.
Dona Rosarita de Roias y Montero era uma viúva belíssima de uns trinta anos, de reputação um pouco suspeita.
Provavelmente era rica e recebia muita gente, na maioria público heterogéneo e sobretudo masculino e jovem.
Jogava-se muito naquela casa - preferencialmente cartas.
Agora eu sei que ela tinha uma dessas espeluncas ilegais, existentes em qualquer cidade grande.
Dom Diego era um jogador inveterado; até eu, reconheço, comecei a me envolver no jogo, mas não apostava alto devido à limitação dos meus recursos.
Entretanto, aos poucos, fui me esquecendo das precauções e me empolgava.
Como frequentemente conseguia ganhar bem, ficava mais ousado, e a paixão infausta apossava-se de mim cada vez mais e mais.
Amiúde eu encontrava na casa de Dona Rosarita um jovem, por quem desde o começo sentia uma profunda antipatia; coincidia, porém, que quase sempre ele era o adversário.
Dom Eusébio Gomes era bastante apessoado, mas em seus olhos afundados espreitava-se algo sinistro e malicioso, o que me afastava dele.
Após um período de sorte em baralho, esta me abandonou, e comecei a perder.
Obviamente eu devia parar de apostar, mas como acontece a qualquer jogador impetuoso, acreditava poder interromper a má fase.
Certa noite, eu voltei para casa especialmente nervoso, pois há algum tempo eu já desconfiava que Dom Eusébio trapaceava no jogo e eu não conseguia pegá-lo em flagrante.
Fui dormir e tive um sonho ainda mais estranho.
Como antes, eu me vi no palácio da Mauritânia.
A lua cheia inundava com o luar o enorme edifício que, com a sua galeria coberta e as abóbadas qual renda, unia-se à enorme torre sobrevivente.
Tal qual agora, eu vejo-me no jardim em vestes de brocado cor de cereja, com desenhos dourados e botões de rubi, cingido por faixa branca de seda, atrás da qual luzia uma adaga de empunhadura cinzelada e, rente à cintura, pendia um sabre afiado, em cujo punho descansava a minha mão.
Contudo, o mais estranho é que eu tinha nítida consciência de ser ao mesmo tempo Vedrinsky e mais alguém, cujo nome me escapava, mas eu sabia sê-lo.
Caminhei lentamente, inspirando o aroma forte das laranjeiras em flor e das rosas.
Ao sair da aleia sombrosa, vi-me perto do tanque quando, de súbito, a mim chegou um grito surdo.
Fui para o outro lado do chafariz, já que os jactos de água ocultavam o palácio, e divisei um homem descendo em carreira a escada lateral.
Ele carregava nas mãos uma mulher se debatendo, cujo rosto estava coberto por mantilha.
Seu semblante era invisível, tampouco ela podia gritar, pois aquele homem lhe tapava a boca.
Mas eu como que sabia pertencer-me aquela desafortunada refém, e ela era a minha actual noiva Elena, falecida.
Nem me passou pela cabeça que ela já não estava viva.
Eu investi contra o captor e iniciou-se uma luta violenta.
Jamais iria pressupor em mim tanta fúria e ferocidade.
E dos praguejamentos recíprocos, guardo hoje na lembrança que o captor se chamava Abdalla, e ele me chamou de Hassan.
A mulher aproveitou a confusão da luta e fugiu, deixando cair a mantilha, cobrindo trajes mouros.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 14, 2016 7:41 pm

Aliás, não tive tempo de examiná-la, pois Abdalla nisso me atacou ferozmente; porém eu fui mais ardiloso.
Recuei, desnudei o sabre e desfechei-lhe um golpe letal.
A cabeça do meu inimigo, decepada tal qual um melão maduro, rolou para o solo, saltitou e ficou presa no degrau da escada.
O luar iluminou o rosto transfigurado pela convulsão, cujos olhos esbugalhados me fitavam com olhar terrificante.
E aquele rosto era o de... Dom Eusébio!...
Acordei em suor gelado, mas como apraz a um homem "inteligente" e céptico, não dei qualquer significado ao sonho, convencido de que o anterior prejuízo no jogo, somado às minhas suspeitas contra Eusébio, tenham desencadeado aquele tétrico pesadelo.
A noite, sem dar atenção aos argumentos do bom senso, fui à casa de Rosarita.
A mesa do jogo atraía-me qual ímã, mas eu legitimava aquilo pela necessidade de desmascarar Dom Eusébio.
Como normalmente, ele foi o meu adversário e eu perdi uma soma de vulto; contudo, desta vez eu o fiquei vigiando atentamente e segurei-lhe a mão ao perceber sua trapaça.
Desencadeou-se um escândalo.
Apesar da evidência da trapaça, ele negou a culpa e, entres os presentes, alguns ficaram do meu lado, outros - do lado dele.
As altercações acabaram em desafio ao duelo por parte dele:
somente o sangue poderia lavar a ofensa causada à sua honra.
O combate aconteceu no dia seguinte, perto dos escombros do palácio mouro, como um local mais desértico.
Eusébio escolheu esgrima.
Não sei de onde naquele dia eu hauri tanta agilidade no duelo, pois não manejava muito bem essa arma e, quando Eusébio me atacou enraivecido e me feriu no peito, senti a fúria que experimentara no sonho.
Num lance, desarmei o adversário e estoquei-lhe a garganta.
Vi o seu rosto se transfigurar e... aquele rosto, transfigurado pela convulsão, de olhos esbugalhados, pareceu-me o rosto de Abdalla.
Não vi mais nada em seguida, pois perdi os sentidos e passei mais de três semanas na cama; o golpe no peito atingira um pulmão e minha vida correu perigo.
Mas eu era jovem e forte e me recuperei rapidamente.
Só os meus nervos estavam abalados:
perseguia-me uma inquietação vaga e ansiedade pela mesa de jogo.
Dom Diego e os demais amigos vinham me visitar, ansiosos em reencontrarem-me na casa de Dona Rosarita.
Ao me recuperar, decidi certa noite ir até lá, tanto mais que na véspera ela me escreveu uma carta simpática.
Eu estava acabando de me vestir, quando atónito vi, postado à porta...
Dom Eusébio.
Ele segurava na mão uma carta de baralho ensanguentada e seu rosto expressava raiva diabólica.
Esfreguei os olhos para me certificar de que não era alucinação.
Mas não, ele continuava ali postado, o sangue gotejava do ferimento da garganta, e a carta na sua mão era um ás de espadas, justamente que dele arranquei na trapaça.
Tomado por pânico, semicerrei os olhos e, ao olhar de novo, a visão havia sumido.
Tomei um calmante e decidi tratar seriamente os nervos.
Pelo visto a minha debilidade ainda se fazia sentir.
Jamais imaginaria poder topar com um fantasma.
Entretanto, ao galgar a escada da casa de Dona Rosarita, novamente divisei, num canto escuro, o rosto de Dom Eusébio; escarnecendo-se de mim e arreganhando os dentes, mostrando-me a carta ensanguentada.
Enfurecido, eu desviei o olhar.
Positivamente aquelas alucinações iam se tornando insuportáveis.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 14, 2016 7:42 pm

Em excitação jamais experimentada, sentei à mesa do jogo.
Das duas horas seguintes, guardei apenas uma lembrança vaga.
Basta dizer que eu jogava feito insano, como se alguém me empurrasse a arriscar e me enterrar mais e mais.
Corriam apostas infernais e eu estava perdendo.
De cabeça afogueada, com tenacidade incompreensível, eu continuava a arriscar.
Por fim, coloquei uma carta apostando tudo e, subitamente, vi diante de mim o rosto transfigurado de Eusébio, estendendo-me o ás de espadas.
E eu soube que perdi.
Foi como se alguém me desferisse um golpe na cabeça, desmaiei e, quando abri os olhos, estavam me dando algo para beber e jogavam água no meu rosto.
O numeroso público presente cercava a nossa mesa e percebi olhares surpresos e participativos.
O meu credor era filho de um rico comerciante e verificou-se ser um homem cortês.
Ele se aproximou, apertou-me a mão, justificou a minha perda pela recuperação incompleta da saúde e me assegurou de sua disposição de aguardar a quitação da dívida, já que levaria muito tempo para um estrangeiro providenciar dinheiro de tão longe.
Agradeci e retornei imediatamente para casa.
Toda a minha excitação desapareceu como por encanto e, ainda a caminho de casa, avaliei a situação.
Eu jamais poderia pagar aquela soma perdida, nem mesmo sacrificando todo o meu pequeno património.
Conscientizado da situação terrível, assaltou-me um desespero e uma repugnância insuportável à vida.
Aguentar a humilhação, reconhecer-me insolvente, passar vergonha diante da minha irmã e parentes, amigos?.. Não, jamais!
Decidi dar fim à minha existência, e logo... antes do alvorecer.
Olhei para o relógio:
era uma hora da noite.
Febril e apressadamente, fiz os últimos preparativos e escrevi duas cartas:
uma para o meu credor, entregando-lhe em pagamento da dívida a minha vida; a outra enderecei à minha irmã.
A ela eu confessava tudo abertamente, suplicava-lhe me perdoar, vender todos os meus bens e, se possível, cobrir a minha dívida vergonhosa, feita num minuto de real insanidade.
Depois, peguei o revólver; mas, de súbito, repugnou-me a ideia de morrer naquele quarto onde, parecia, faltar-me o ar e, ademais, o suicídio ali acarretaria enormes inconveniências e problemas à pobre viúva, dona da hospedagem.
Resolvi ir até as ruínas do palácio da Mauritânia, que me seduziu pela sua magnitude em sonho, onde eu matei Eusébio, cuja visão - uma misteriosa caçoada da minha imaginação - me mostrou sendo o mouro Abdalla.
Por certo um destino sinistro fadava-me a perecer ali, onde o meu inimigo encontrara a morte.
Saí do quarto, ganhei a estrebaria, selei um cavalo e dez minutos depois trotava pelas ruas de Granada em direcção às ruínas.
Era uma noite maravilhosa, quente e perfumada; a lua cheia iluminava tudo com luz suave.
Eu prossegui decidido pelos escombros, pois na minha imaginação o imponente prédio se me apresentava em forma reconstituída, tal qual eu vi em sonho.
Entrei na sala, a mais bem conservada de todas, sentei num monte de entulho e, recostando-me à parede, mergulhei em devaneios.
O revólver estava pronto a meu lado.
Uma penumbra pálida envolvia tudo, o silêncio mortal em volta tranquilizou parcialmente a minha alma e, à memória, afluíram os factos do passado.
Assomou-se-me a recordação da velha mãe, uma mulher de muita fé; revivi a imagem da noiva falecida, também profundamente religiosa, que deixou o mundo com oração nos lábios.
E, à medida que diante de mim desfilavam os rostos dos entes queridos, um sentimento pungente apoderou-se do meu coração e, pela primeira vez, quiçá, a minha alma, atolada em descrença e negação de Deus, foi iluminada por interrogação:
o que será daquele nada que em mim cogita, sofre e ama?
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 14, 2016 7:42 pm

Transformar-se-á também em nada e desaparecerá sem deixar vestígios, tal qual a espuma do mar a coroar as cristas das ondas fustigadas pela tempestade, ou sobreviverá à morte e, consciente, apresentar-se-á diante do Juiz Supremo?...
Daqui a alguns minutos a charada será resolvida...
Pela vez derradeira pensei na mãe, na irmã e na noiva morta e, depois, instintivamente, persignei-me e peguei a arma.
Nesse instante, uma larga faixa de luz luziu da antiga porta, e um jacto de ar fresco bafejou-me o rosto; minha cabeça tonteou tão forte, que semicerrei os olhos e baloucei-me.
Ao abrir os olhos, a luz azulada continuava a inundar a sala destruída, mas agora a dois passos de mim estava Elena e, atrás de seu ombro, fitava-me Dom Eusébio com ódio mortal, ou melhor:
Abdalla, pois envergava os trajes mouros.
Fascinado, preguei a minha vista em Elena, tão parecida e, ao mesmo tempo, diferente daquela a quem amava.
Seus olhos outrora cinza eram de tonalidade escura; os antigos cabelos dourados desciam agora em duas tranças pretas; a brancura acetinada da tez contrastava agora com o delicado matiz brônzeo.
De antes, conservara-se apenas o sorriso singelo e o olhar amoroso.
O traje oriental caía-lhe divinamente:
as jóias faiscavam em milhares de brilhos a cada movimento seu.
Feito uma estátua, mirava eu aqueles seres, surgidos do passado ignoto, cuja presença ali era uma charada insolúvel.
Neste ínterim, Abdalla ou Eusébio, fez menção de se aproximar, empunhando algo brilhante e indefinido.
Como movido por força alheia, agarrei o meu revólver.
Nisso, com a rapidez do raio, entre mim e o meu inimigo se interpôs Elena, erguendo na direcção dele um crucifixo reluzente.
Como que por encanto, ele cambaleou e sua imagem começou a se desvanecer, derreter-se, sumindo em seguida.
Elena se voltou para mim e, com um gesto imperioso, fez um sinal para segui-la.
Eu caminhava feito num sonho.
Estranhava-me a sensação de estar em vigília - pelo menos não estar dormindo - e, ao mesmo tempo, via o palácio em toda a sua resplandecência.
Cruzamos uma série de galerias e aposentos.
Por fim, num dos quartos repleto de esculturas nas paredes, a minha acompanhante parou e accionou uma mola:
uma parte da parede cinzelada moveu-se, revelando uma portinhola estreita para um novo corredor que, à primeira vista, pareceu-me sem saída.
A minha guia accionou uma nova mola e a parte da parede, que terminava em passagem estreita, girou nos gonzos invisíveis, abrindo-se para os degraus da escada.
Descemos a um subterrâneo - um labirinto extremamente confuso - e deparamos finalmente com uma porta blindada de ferro.
Minha companheira a destrancou e adentramos um grande porão, onde se espalhavam diversos objectos.
Havia armas valiosas, louças de ouro e prata e, por entre aquele caos, alguns baús.
Mas tudo aquilo estava amontoado ao deus dará, como se largado às pressas.
Elena aproximou-se de um dos baús, em cima do qual jazia uma arca, e me fez sinal para pegá-la.
Não obedeci de pronto, pois o meu olhar percorria atónito todos aqueles tesouros.
Nisso senti sinais de impaciência em Elena e esta tornou a me apontar a arca.
Ergui-a e surpreendi-me com o peso - mal dava para carregá-la.
A minha acompanhante parecia apressada e saímos quase correndo pelas salas e galerias.
Por fim ela parou, e eu me sentei exausto no piso pétreo.
Súbito, ela se inclinou a mim e então senti na testa o contacto de seus lábios quentes.
Ouviu-se uma voz débil e longínqua:
— Sou Aisha.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 14, 2016 7:42 pm

Não se entregue ao vício do jogo.
Só fui autorizada a salvá-lo uma única vez...
Abri os olhos com a alvorada filtrando-se por entre as heras toldando a janela.
Levantei-me perplexo e agarrei a cabeça com as mãos.
Como pude dormir naquela noite, ali, naqueles escombros, quando devia estar morto para libertar-me da desonra vexatória?
Não me lembrava da visão, só dos devaneios que antecederam ao sono e, talvez, o tenham motivado.
Irado comigo mesmo, busquei pelo revólver.
Estava ele num canto, no meio do entulho.
Ao me inclinar sobre ele, notei um objecto, afastei o entulho... e reconheci a arca, quando então a minha aventura nocturna se ressuscitou por completo.
Com as mãos trémulas levantei-a, coloquei sobre os escombros e comecei a examinar a obra de antiga arte oriental.
Levantei a tampa com faca e a abri:
estava cheia de moedas de ouro.
Era a minha salvação!...
Catei o maravilhoso achado e, ao descer a velha escada onde num dos seus degraus vi em sonho a cabeça de Abdalla, no horizonte fulgurou o primeiro raio do sol nascente tal qual um mensageiro de Deus misericordioso, cuja graça inefável me resguardou dos padecimentos de suicida.
Pus-me de joelhos e da alma jorrou fervorosa prece ao Pai Celeste.
A partir de então recuperei a crença e jurei jamais tocar em cartas.
A simples lembrança de ter sido possuído pelo demónio naquela noite deixava-me arrepiado.
Ao retornar para casa, queimei as duas cartas e fiz o inventário da arca.
Além das moedas de ouro, esta guardava um escrínio dourado contendo rubis, safiras e esmeraldas brutas, um antigo enfeite feminino com pedras preciosas, e dois estojos.
Um deles continha um anel e um pedaço de pergaminho, o outro - uma adaga com empunhadura maravilhosa.
Vendi as moedas e as pedras brutas e quitei a dívida com o meu credor; em seguida voltei para a Rússia.
Minha ignorância, iluminada para sempre, foi curada.
Não tinha mais o direito de duvidar da existência do mundo do além, porquanto vi os seus habitantes.
Tive a protecção das forças superiores, a minha individualidade testemunhou a existência de vidas passadas, cuja lembrança infelizmente a nossa alma não guarda, mas que, não obstante, influencia a nossa vida terrena.
Meu único desejo agora é estudar essa ciência ridicularizada de modo infame, a qual todavia fornece a chave do mundo do além.
É indigno para um homem sensato viver ignorando esses mistérios do Universo com as suas forças terríficas desconhecidas.
— Bravo, meu jovem amigo!
O senhor está certo, mas devo acrescentar que é preciso estudar muito para se orientar num labirinto intrincado das leis governantes, quando a ausência dos saberes se torna ainda mais perniciosa do que em qualquer outro campo dos conhecimentos - observou o almirante.
— Bem, Mikhail Dmítrievitch, o que me diz agora para justificar suas convicções? - indagou Nádya, inclinando-se com um sorriso matreiro ao noivo.
Massalítinov, a despeito de sua habitual empáfia, sentia-se constrangido e tentava encobrir isso.
— Se acontecesse comigo, talvez até acreditaria.
E você, Jorj, como pode estar certo de não ter sonhado tudo isso?
— Oh, não!
Da minha aventura, eu extraí uma prova palpável:
uma quantia bem vultosa com a qual paguei a dívida.
Não descarto também a possibilidade de visitar o porão do mouro Hassan, escondido debaixo das ruínas - arrematou alegremente Jorj.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 14, 2016 7:42 pm

— E o que fez com a arca? - perguntou Nádya.
— Ainda está comigo.
Não me separo dela por trazer-me muita sorte.
— Ah, por favor, mostre-nos essa arca - suplicou Nádya.
— Duvido que ele faça isso, se a mim, seu primo, jamais comentou nada sobre o achado, temendo o olho gordo - provocou Massalítinov.
— Absolutamente!
Não lhe disse nada para não ter de aguentar suas brincadeiras - revidou Gueorgui Lvóvitch, levantando-se.
Minutos depois, ele depositava sobre a mesa uma arca de ébano - uma obra oriental efectivamente artística.
Suas paredes cinzeladas embutiam incrustações de madrepérola e coral rosa; por entre os arabescos finos e delicados destacava-se o nome de Alá e pensamentos do Corão.
Todos cercaram a mesa curiosos.
Zamyátin observou que só a arca já tinha um valor inestimável.
— Sim. Conheci um arqueólogo em Paris a quem mostrei, como sempre faço, o meu tesouro; ele me ofereceu vinte e cinco mil rublos.
Mas nunca vou vendê-lo - assegurou Gueorgui Lvóvitch, abrindo a arca.
O interior da caixa era revestido por folhas de ouro; a tampa trazia inscrições em árabe, executadas em pérolas e rubis.
— Deus, queria saber o que está escrito! - exclamou Nádya.
"Pertenço a Hassan ben Iussef e sou o presente do califa Abu Abdalla" - explicou Vedrinsky.
Ele retirou o pano de seda vermelha com franja dourada, cuja conservação saltava aos olhos, e iniciou a exibição do conteúdo da arca.
Apanhou algumas moedas de ouro, inseridas da gravação do nome de Abu Abdalla, ou Boabdila, o último rei de Granada, e de seu filho Multsi Hassen, em seguida extraiu uma "caixa oblonga de turquesa, em cujo interior havia algumas gemas brutas.
— E aqui está o que as damas mais apreciam! - exclamou, tirando da caixa um diadema de ouro, engastado de rubis e cingido por pingentes em pérolas graúdas.
Dois largos e originais braceletes e um colar culminavam os adornos maravilhosos.
— Estes enfeites guardarei para a minha futura esposa -se é que casarei um dia.
Caso permaneça solteiro, eu os darei de presente para minha sobrinha e afilhada - disse Gueorgui Lvóvitch, rindo e recolocando os adornos na caixa.
E eis a adaga e o anel que creio me protegem contra o mau-olhado - explicou ele, tirando dois estojos antigos.
Olhem só o ouro e estes três brilhantes: azul-celeste, rosa e branco.
No centro deste triângulo como que se agita uma gota, reverberando todas as cores do arco-íris.
Deus sabe lá que substância estranha é esta? O pequeno pedaço de pergaminho árabe embaixo, cujo texto me interpretou um estudioso do Oriente, reza que estes objectos são mágicos, e o anel possui um poder extraordinário contra as forças do mal, que porventura possam ameaçar o seu dono.
E agora, avisado por Ivan Andréevitch da existência delas na ilha, vou usar o anel constantemente - considerou Vedrinsky, meio brincando, meio sério, colocando o anel no dedo.
— E fará muito bem! - devolveu o almirante, pegando a adaga e tirando-lhe a bainha.
A arma era sem dúvida antiga, oriental e de estilo incomum; a larga empunhadura continha sinais estranhos e, na lâmina fina e brilhante, viam-se gravados símbolos cabalísticos vermelhos.
0 almirante examinou atentamente o misterioso objecto e depois, calado, estendeu-o a Zamyátin.
0 relato de Vedrinsky, bem como o conteúdo da arca, serviram de tema principal da conversa durante toda a noite; todos se despediram tarde e a contragosto, a tal ponto intrigados com a misteriosa e inexplicável história.
No dia seguinte, após o desjejum, todos, com excepção de Zamyátin e sua esposa, dirigiram-se à ilha para examinar a casa diabólica e servir de exemplo de coragem aos criados, relutantes em trabalhar ali na arrumação doméstica, visando a recepção da senhora Morel e Mila.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 14, 2016 7:42 pm

Cedendo por fim às insistências de Nádya, o almirante também foi.
— Eu ficarei mais tranquila se você for connosco, padrinho - sussurrou-lhe ela.
Você está com o talismã do doutor Johannes e isso é uma garantia contra os espíritos do mal.
— Fique calma, Nádya, pelo menos entre nós não há bruxos, e que importância nos dariam os espíritos malignos em nossa inofensiva insignificância? - ironizou Massalítinov, que estava perto.
Ao acostarem na ilha junto aos degraus de pedra, todos se sentiram perturbados pela desolação em volta.
A camada densa de folhas, acumuladas em vinte anos, cobria tudo como um tapete grosso, impedindo distinguir aleias ou floreiras; a porta da entrada bem como os degraus do patamar estavam cobertos por folhas, galhos e areia arrastada, conferindo uma impressão sinistra ao prédio.
Os jardineiros e demais empregados principiaram pela limpeza da entrada obstruída para se conseguir abrir a porta.
Adentrado o vestíbulo, os visitantes passaram à sala que por uma porta de vidro se comunicava com o terraço, mencionado no relato do almirante.
O ar era pesado e cheirava a mofo; pelas janelas imundas, empoeiradas e cheias de teias, mal se filtrava ténue luz.
Para arejar o ambiente, as janelas foram abertas imediatamente.
No terraço ainda permaneciam as cadeiras e as poltronas, a mesa de junco - tudo em estado de deterioração ou empenado.
O grande vaso de granito, antigamente abrigando flores, estava repleto de lixo; o chafariz, defronte ao terraço, acumulava folhas e ramagens secas.
Sob esta impressão desagradável, todos retornaram para inspeccionar o interior da casa.
Na sala, palco da misteriosa morte de Krassinsky e ressurreição milagrosa de Vyatcheslav, eles pararam diante do relógio que representava a cabeça de Mefistófeles.
Estava parado, mesmo assim os olhos soturnos do espírito do inferno parecia observarem com ódio os visitantes.
— Argh! Pedirei ao papai para jogar no lixo este relógio nojento.
Como alguém pode idealizar algo assim?! - indignou-se Nádya, estremecida de sentimento pungente.
Até com o relógio parado, estes olhos infernais arrepiam, imagine se virando!
— Seria imperdoável desfazer-se de qualquer coisa aqui, pois a casa perderia o seu estilo demoníaco tão surpreendente, e nisso o mérito é todo do construtor - observou Mikhail Dmítrievitch.
— Fosse eu o dono da casa, já a teria derrubado - considerou calmamente Vedrinsky - e em seu lugar ergueria uma capela.
— Bárbaro! Destruir algo tão fenomenal?
Não nego que ela respire algo sinistro, mas, hão de convir, com estilo e arte.
A casa parece uma fantasia de algum "satanista" medieval, materializada em granito e mármore.
Na sequência, eles visitaram o antigo gabinete de Vyatcheslav e, finalmente, adentraram o quarto de Marússya.
No leito, com cortinado de veludo violeta e baldaquino, ainda estavam os travesseiros e o cobertor e, junto aos seus pés, encontrava-se um berço.
Pelo resto do cómodo, a desordem saltava aos olhos.
— Olhem, parece que o quarto foi deixado às pressas! - observou Nádya.
No chão, espalhavam-se roupas de bebé, almofadas rendadas e, na cadeira, estirava-se um penhoar de cambraia.
Ali, como nos demais cómodos, camadas grossas de pó revestiam tudo com a sua mortalha cinzenta.
— De facto, tem-se a impressão de tudo ser largado como estava após a morte de Maria Petrovna.
Só levaram a criança, da qual, confesso, nunca cuidei - observou o almirante.
Do dormitório, eles foram até uma pequena sala circular.
Não possuía janelas e, quando trouxeram as velas e a iluminaram, verificou-se vazia.
No fundo havia uma porta sagitada em carvalho cinzelado; mesmo depois de lhe descobrir a custo a fechadura oculta por entre os arabescos, e depois de experimentar abrir a porta com diversas chaves encontradas, decidiu-se, por conta da curiosidade excitada, arrombá-la.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 14, 2016 7:43 pm

Ao se escancarar sobre gonzos invisíveis, todos se viram em frente ao que parecia uma biblioteca ampla, iluminada por duas altas e estreitas janelas com vidros coloridos, cujas paredes se revestiam de madeira escura.
As mesas, as cadeiras de espaldares altos e as prateleiras eram de carvalho velho, enegrecido.
Em volta se viam rolos de pergaminho, muitos livros, alguns antigos, encadernados em pele de animais.
Sobre a mesa, no meio da sala, jazia um volumoso livro aberto, preso à mesa por corrente de ferro; próximo a ele estava uma bilha de prata e uma taça com um pouco de vinho e, ao lado - um cesto com frutas totalmente frescas.
Abismados com a descoberta, os visitantes examinaram em silêncio o ambiente, tão diferente dos demais da casa.
Não se via alhures nem teia nem sinal de poeira; os vidros da janelas estavam limpos e lustrosos; o chão parecia ter sido varrido recentemente; e o vinho e as frutas frescas eram o ponto culminante daquele misterioso quarto de uma casa abandonada havia mais de vinte anos.
— Com os diabos!
É de se pensar que a nossa vinda acabou de afugentar daqui seu habitante misterioso a ler um livro, bebericando o vinho e comendo as frutas.
— Então só pode ser um fantasma, já que a porta estava trancada e não há nenhuma outra saída por aqui - observou Mikhail Dmítrievitch, rindo da sua própria inventividade de domiciliar um espírito no quarto.
Somente Gueorgui Lvóvitch reparou no sorriso enigmático franzindo a tez do almirante no momento que este relanceou as folhas do livro e examinou o vinho e as frutas.
Mas nisso Massalítinov, diante de algo encontrado, chamou a todos:
— Venham depressa!
Olhem só que lareira interessante com o retrato do morador aqui!
Os visitantes acorreram e puseram-se a examinar surpresos a lareira em mármore preto, acima da qual se assomava esculpido em natural um bode sentado, segurando tochas nas patas, e com cabeça encimada por longos e encurvados chifres, por entre os quais parecia arder uma chama vermelha.
— E o bode de Mendes - o rei de Sabá - explicou o almirante, de cenho carregado.
Vedrinsky se abaixou para examinar a boca da lareira e a tocou levemente.
— Olhe só, Ivan Andréevitch, é um abismo insondável e, nas paredes, há desenhos estranhos.
Parecem dois capetas esculpidos, de cócoras, com uma mão apontando para o fundo, e com o polegar da outra fazendo um sinal para baixo...
O que poderia isso significar?
— Deixe esses demónios em paz, Gueorgui Lvóvitch, e vamos embora.
Este lugar me dá arrepio e eu já vi o bastante por hoje - interveio Nádya, pálida e trémula.
Sem querer ouvir mais nada, a jovem agarrou o noivo pela mão e o arrastou dali.
Quase em carreira, lançou-se Nádya fora da casa e só ao se ver no jardim, entre os empregados que o limpavam zelosamente, voltou-lhe a calma e o bom humor.
— Brrrr!... Garanto que não serei uma visita assídua de Madame Morel e Mila.
Tenho as minhas dúvidas de que elas fiquem neste lugar sinistro após conhecê-lo.
Bem, isso é com elas, vamos ver as ruínas do monastério.
Você conhece o caminho, padrinho, leve-nos até lá.
— Só estive lá uma vez com a falecida Maria Petrovna, mas a ilha não é grande e não iremos nos perder - assegurou o almirante.
Ao sondar em volta, ele foi em direcção à mata fechada.
Devido a longos anos de abandono, a vegetação cresceu muito; os arbustos e o mato seco literalmente cobriam o caminho, e todos avançavam com grande dificuldade.
As construções monásticas certamente eram amplas a julgar pelo facto de as ruínas estenderem-se por todos os lados.
Ali e acolá sobreviveram restos de muros e abóbadas do monastério; subsistiu até uma edícula destelhada, de cujo corredor distribuíam-se celas sem portas e janelas.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 14, 2016 7:43 pm

Por fim, chegando a uma plataforma, eles se depararam com os muros da antiga igreja.
A vegetação em volta era rara; vários elementos de abóbadas ainda teimavam em permanecer de pé sobre o piso coberto de grama.
Nos fundos, em cima de um patamar pétreo e musguento assomava-se um altar inclinado e um crucifixo quebrado.
Nas paredes, viam-se placas sepulcrais de abades.
Circundando a igreja, por entre os arbustos permeavam-se cruzes tumulares inclinadas e monumentos representando homens e mulheres em vestes ricas, deitados ou em posição genuflexa.
Ao circular por entre aquelas velhas sepulturas e tentando interpretar as inscrições quase gastas, Gueorgui Lvóvitch se deparou com um mausoléu muito estranho, oculto atrás da densa vegetação.
Consistia de três enormes blocos de pedra:
dois em pé e o terceiro em cima - feito dólmens - e, sobre Monumentos sepulcrais na Bretanha da época dos druidas, (Nota do Autor) essa espécie de mesa, como que acocorada, avultava-se estátua impressionante:
um mostrengo - misto de macaco e homem -, segurando uma corrente do sino, preso a pequeno poste, enterrado ao lado.
Vedrinsky chamou o restante do grupo, e todos se puseram a examinar a estranha figura.
O almirante parecia bastante surpreso.
— Não me lembro de ter visto esse símbolo de sabá, quando inspeccionamos as ruínas.
Sei que, na Idade Média, os satanistas se reuniam em cemitérios e outros locais secretos para a realização de seus rituais; mas não consigo entender como veio parar aqui esse mostrengo.
— Nem quero me imaginar aqui à noite! - exclamou Nádya.
Não dormiria nesta ilha por nada no mundo.
— Que aqui acontecem coisas estranhas, é certo.
Segundo o padre Tímon, alguns pastores viram clarões percorrendo a casa e ouviram cães ganindo.
Fora os pássaros, aqui não deveria haver vivalma.
Mikhail Dmítrievitch pôs-se a rir da ingenuidade da noiva e acresceu em tom propositadamente significativo:
— É uma pena não contarmos com Sherlock Holmes ou algum investigador para inspeccionar a ilha.
A casa demoníaca foi construída em cima de um monastério, e todos sabem que por trás da devoção dos venerados padres sobejam coisas obscuras.
— Os padres sempre têm cavado a terra feito toupeiras.
E quem garante que aqui não existam subterrâneos, servindo de esconderijo de mercadorias para os contrabandistas.
Por acaso algum agente alfandegário iria se atrever a procurar coisas contrabandeadas nos domínios do Satanás?
Não se esqueçam de que estamos a dois passos da fronteira austríaca e os subterrâneos seriam um local ideal para guardar mercadorias.
Acho a minha hipótese mais natural e mais próxima da verdade, ao invés de criar fantasmas e toda a espécie de demónios, frutos das superstições populares...
Mesmo admitindo a existência de fenómenos sobrenaturais, são casos raros e não podemos crer cegamente na conversa dos pusilânimes.
Por diversas vezes, já me convenci de que muitos casos misteriosos analisados à luz do dia perdiam sua fantasmagoria e se desmistificavam, por se tratarem de ocorrências simples e naturais ao absurdo.
Nádya desatou a rir.
— Quanto a contrabandistas, sua explicação foi bem espirituosa.
Não seria má ideia realizar uma busca para comprovar a existência de subterrâneos.
Talvez a gente até encontre um tesouro.
Todos retornaram à casa, pois Mikhail Dmítrievitch insistiu em vasculhar mais atentamente a biblioteca.
— Estou cismado com aquele cómodo.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 14, 2016 7:43 pm

Tenho a impressão de que justamente nele é que reside o chefe dos contrabandistas, regalando-se de vinho e frutas.
Contudo a reinspecção da biblioteca não revelou nada de novo.
Massalítinov folheou o livro em cima da mesa e decepcionado declarou:
— Não entendo uma palavra sequer.
O texto está em língua estranha; parece turco ou persa, e nem os desenhos me são familiares.
Sabe-se lá o que significam, por exemplo, esses triângulos, a forquilha e as mãos negras com os dedos separados, ou estas cruzes tombadas.
Aproximou-se Vedrinsky e também examinou curioso, os estranhos desenhos, entre os quais uns eram pretos, outros vermelhos ou marrons.
— O texto, com certeza, está em árabe e disso você pode se convencer ao compará-lo com o que está escrito no pergaminho do meu escrínio.
Os desenhos são símbolos mágicos.
Trata-se, talvez, de um antiquíssimo livro de magia - observou Gueorgui Lvóvitch.
— Sim, sem dúvida são símbolos da magia negra e o líder dos contrabandistas, como o senhor diz, é um feiticeiro de primeira grandeza - ironizou o almirante, ao olhar por trás do ombro de Massalítinov.
Como já se achegava à hora do almoço, todos tomaram o barco e voltaram para a casa.
Zamyátin e sua esposa aguardavam-nos no terraço, curiosos pelos resultados da expedição à ilha.
Após ouvir o relato de Nádya e dos outros jovens, Zamyátin observou:
— Bem, aparentemente é difícil deixar em ordem toda a vila em dois ou três dias.
Vamos reservar um par de quartos para a senhora Morel e Mila aqui connosco, enquanto arrumamos a casa na ilha.
Após o almoço, Nádya e seu noivo foram fazer um passeio no parque.
Até então, eles não tinham tido oportunidade de ficarem a sós, e os apaixonados sempre têm alguma coisa para dizer um ao outro.
Os jovens puseram-se a desenhar seus planos para o futuro, conversaram sobre o casamento iminente, discutiram sobre a decoração da casa e o itinerário da viagem de núpcias.
Envolvidos na conversa, nem perceberam o anoitecer.
Sob o luar, eles deixaram a aleia e depararam-se com a superfície prateada do lago.
Na praia, à sombra de um velho carvalho, havia um banco onde se acomodaram enfeitiçados pela vista maravilhosa.
Silenciosos e meditativos, os jovens contemplavam o lago dormente, encoberto por névoa azulada.
— Como aqui é maravilhoso!
É uma pena que este lugar só traga a infelicidade aos que aqui se instalam, como se sobre ele pesasse alguma maldição - considerou meditativamente Nádya, deitando a cabeça sobre o ombro do noivo a abraçá-la pela cintura.
— Ora, não se deve tomar a sério tal absurdo, querida!
Como pode ser amaldiçoado um lugar tão lindo e ainda trazer infelicidade a pessoas inocentes?
É ridículo!
Gosto muito de Gorki e, sempre que puder, virei para cá.
— Não, não!
Por nada no mundo moraria aqui neste lugarejo sinistro.
Se soubesse de tudo que nos contou o meu padrinho, seus cabelos ficariam em pé.
Contei-lhe por cima a história da pobre Marússya.
Vyatcheslav Turaev, o pai de Mila, não é o Vyatcheslav verdadeiro, mas um avatar.
O feiticeiro Krassinsky, ou melhor, sua alma, incorporou-se em Vyatcheslav.
Mikhail Dmítrievitch desabou em prolongado riso.
— Nádya querida, não fique ofendida, mas o seu padrinho deve ter perdido um pino.
Ninguém em sã consciência acreditaria nessas histórias de carochinha.
— Não, aqui até a atmosfera respira sinistramente.
Sinto-me assaltada por algo indefinido; parece que alguma desgraça está prestes a acontecer e estremeço com qualquer barulho inesperado...
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 15, 2016 8:06 pm

— Isso é bem compreensível.
Depois dessas histórias arrepiantes do almirante, os nervos tendem a se excitar e a imaginação abalada desenha quadros assustadores.
Nesse ínterim, Nádya subitamente estremeceu e agarrou convulsiva a mão do noivo.
Ao notar-lhe a reacção de surpresa, ela sussurrou:
— Olhe lá à direita!
Está vendo dois olhos luminosos naquele arbusto?
Massalítinov se virou e um arrepio percorreu-lhe o corpo.
De facto, na densa folhagem, a dois passos brilhava um par de olhos neles fixos, que em seguida se apagaram.
— Deve ser um gato procurando companheira - balbuciou Mikhail Dmítrievitch, tentando dominar a impressão de mal estar vivenciada.
De qualquer forma - acrescentou ele, pondo-se de pé - está na hora de voltar para casa.
É húmido por aqui e você pode se resfriar nesta saia de cambraia.
Nádya levantou-se de pronto, tomou-lhe a mão e ambos saíram caminhando.
— Ouça, Mikhail, sei que você é céptico enraizado e considera o meu padrinho uma pessoa sonhadora, mas não se pode rejeitar tudo sem distinção daquilo que ele e as testemunhas dignas de confiança viram e ouviram.
E os incidentes com Gueorgui Lvóvitch?
Tal como você, ele era um incrédulo, mas não iria inventar uma história assim, pois é uma pessoa honesta.
E, finalmente, a arca com os seus tesouros?
É um facto palpável, diante do qual uma opinião prejulgada é impotente.
— Sim, a história com Jorj é estranha e difícil de ser explicada - concordou Massalítinov.
O que mais gosto nela é a arca achada.
Nesse minuto, apontaram as janelas acesas da casa.
Junto ao terraço, recebeu-os Vedrinsky.
— Por onde andaram sumidos?
Eu já ia saindo à procura, temendo terem sido atacados por algum fantasma da ilha - brincou ele.
— Como vê, chegamos sãos e salvos.
Estávamos discutindo uma expedição a Granada para evocar o espírito de Boabdila e pedir-lhe uma parte de seus tesouros.
E como o seu escrínio também é um presente do califa, se nos emprestasse um ducado, isso facilitaria a identificação de nossas pessoas.
— Sem dúvida, meus amigos!
Posso lhes dar um ducado a título gratuito, bem como a informação de que qualquer criança em Granada conhece a lenda dos tesouros de Boabdila e o local onde estes estão escondidos; a entrada aos porões, segundo dizem, fica embaixo dos portões de Alhambra, onde há uma inscrição com o nome de Alá.
Tudo isso é verdade e é de conhecimento geral, mas ninguém consegue encontrar a entrada...
Talvez vocês tenham mais sorte - devolveu a brincadeira Gueorgui Lvóvitch.
O dia seguinte era domingo. Vedrinsky não esteve à mesa de desjejum, pois - conforme comunicou o criado - havia saído a cavalo bem cedo para visitar a igreja.
Antes do almoço, vieram os convidados:
um vizinho abastado, Maksákov, com a família.
Logo retornou Gueorgui Lvóvitch, desculpando-se pela demora por ter ido após a missa tomar chá na casa do padre Tímon.
O dia passou alegremente.
Os jovens jogaram críquete e ténis, deram uma volta de barco no lago e até estiveram na ilha, onde uma faxina geral estava em curso.
Já era tarde quando as visitas se despediram.
O almirante, de roupão, lia antes de dormir em seu aposento, quando bateram à porta e Gueorgui Lvóvitch entrou.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 15, 2016 8:06 pm

— Perdoe por estar perturbando a essa hora imprópria, mas é que gostaria de lhe falar.
— Não há nenhum problema, não estou com sono e fico feliz com sua visita.
Sente-se na poltrona e conversaremos.
— Bem, Ivan Andréevitch, fiquei pensando tanto na existência de um subterrâneo aqui, que não consegui dormir na noite passada - iniciou Vedrinsky, acomodando-se na poltrona.
— Estou atento caso queira compartilhar de suas descobertas.
Eu mesmo estou convencido da existência deles.
— O senhor se lembra da estranha lareira na biblioteca da vila com os capetas desenhados na parede interna, cuja profundidade não era comum?
Bem, é ali que eu imagino haver uma saída, por onde passa o habitante misterioso que lê livros na biblioteca, toma vinho e come frutas.
Mas não é tudo.
Veio-me à mente que deve existir também uma comunicação entre a ilha e esta casa.
O almirante se agitou, aparentemente interessado.
— Em que o senhor se baseia para tal suposição?
E como encontrar essa passagem, caso ela exista?
A casa é relativamente nova.
— Não toda.
A edícula que eu presentemente ocupo é construída de paredes velhas que eram restos do abrigo dos peregrinos; a outra parte, entre a edícula e as ruínas, foi derrubada para dar lugar ao pátio, estrebarias e um pequeno jardim.
Na minha opinião, a parte das edificações antigas não fora preservada à toa e ali provavelmente está a segunda saída.
— Neste caso os construtores da casa nova foram consagrados no mistério da passagem secreta - observou o almirante.
— Sem sombra de dúvida.
Vou lhe contar o que eu soube do monastério, sua destruição e os acontecimentos posteriores.
Consegui estes dados com o padre Tímon, com quem falei de propósito, pois o senhor havia comentado que ele tinha uma colecção de crónicas.
Assim, na esperança de encontrar alguma indicação para as questões que me interessavam, pedi-lhe para mostrar-me velhos papéis.
O venerado padre foi extraordinariamente gentil, apresentou-me tudo que havia colectado e, além disso, contou as lendas que se preservaram na região sobre a abadia e sua destruição.
Minha conclusão da conversa é que a abadia gozava de grande importância e ao monastério vinham fiéis de longe, até do exterior.
Para os visitantes ilustres e as mulheres, sem o direito de morar no monastério, é que foi justamente construído o abrigo.
Naqueles tempos remotos, a abadia até era temida, pois se achava que ela tinha relações com um tribunal poderoso na Idade Média.
Deve-se acrescentar que os abades sempre pertenciam à nobreza superior e entre esses havia alemães, italianos, checos e poloneses.
Sei disso porque entre os documentos do padre Tímon se preservou uma lista dos abades, ainda que incompleta.
Entretanto, com o correr do tempo, a fama do monastério chamuscou-se; correram maus boatos sobre os monges, principalmente sobre o último abade italiano, Don Pascoale Roveno.
Este Don Pascoale era tido por feiticeiro e até acusado de se relacionar com o demónio e da perversão de todos os seus irmãos.
Entre os documentos do padre Tímon, encontra-se uma revista interessantíssima - "Diário" - como a chama o próprio autor, um fidalgo polonês e contemporâneo do fim do convento.
Eu trouxe a revista para ler junto com o senhor, mas lhe transmitirei em resumo o que consegui interpretar.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 15, 2016 8:07 pm

O manuscrito está, como dizemos, em latim de cozinha.
Assim, esse fidalgo conta que a reputação da abadia e do monge estava péssima.
Os boatos vagos??
Mas maus corriam entre o povo e finalmente uma punição de cima fulminou o monastério criminoso.
Desencadeou-se tal tempestade jamais aqui vista; os raios atingiram diversas vezes a morada e causaram um incêndio.
O quanto eu pude levantar dos detalhes, aconteceu algo como um furacão ou torvelinho, pois o narrador fala de torvelim e da coluna que descera do céu, que aos estrondos varreu tudo em seu caminho.
Segundo suas palavras um dos povoados circunvizinhos foi praticamente varrido.
Da mesma forma, esta coluna punitiva alcançou um ferryboat??
Em que tentava se salvar uma parte dos monges da ilha, virou-o e todos se afogaram no lago; depois o furacão passou perto do abrigo e destruiu a maior parte das construções.
O restante dos monges pereceu na ilha, inclusive o abade criminoso - pelo menos o que se supunha.
Bem, eis uma coisa curiosa... pelo menos para nós.
Alguns monges, entre eles um bibliotecário, tesoureiro e mais dois ou três, cujos nomes não foram mencionados, apareceram no dia seguinte nas ruínas da hospedaria.
Todavia, nenhum meio de transporte fora estabelecido com a ilha, e mais:
ali só sobraram escombros.
De que forma eles se salvaram?
Ninguém tinha resposta e os fiéis atribuíram tal salvação ao milagre; mas o autor do "Diário" saiu-se com uma explicação inteligente de que talvez houvesse uma passagem secreta da qual eles se utilizaram.
Essa passagem secreta, na opinião dele, levava à sala de estar do monastério na praia, para onde viajavam muitos dignitários e pessoas ricas.
E bem possível que os padres os tenham espionado; dizia-se, entre outras coisas, que na hospedaria sumiam sem vestígios muitos ricaços.
Tão milagrosamente salvos do infortúnio, os pobres monges abandonaram o país, pois as autoridades eclesiásticas anunciaram o convento fechado.
— O senhor é um verdadeiro bruxo, Gueorgui Lvóvitch.
O senhor conhece a história do convento como se fosse dele um monge - admirou-se o almirante.
Devo reconhecer que suas suposições se parecem muito como a verdade; mas nós ainda estamos longe do objectivo e não possuímos a chave do enigma.
— Espere, eu ainda não lhe contei todas as descobertas!
Conhece o ditado:
"A quem madruga, Deus ajuda"? - replicou Vedrinsky.
Em outros documentos se fala que por quinze anos as ruínas tanto na ilha como aqui permaneceram intocadas, pois todos evitavam esses locais malditos.
E súbito correu a notícia de que todas as terras do monastério fechado, incluindo a ilha, foram compradas por um polonês rico, casado com uma condessa italiana.
Eles construíram a casa ou, pelo menos, uma parte dela, e ali se instalaram.
Mas alguns anos depois, ambos desapareceram inesperadamente e jamais alguém soube da sorte deles.
Deus lá sabe que drama se desenrolou naquele local funesto.
Em seguida, a propriedade passou por testamento a um parente do polonês que morava na Galícia.
Entretanto, nem o herdeiro, nem o seu filho, jamais moraram em Gorki; mas a neta, ao se casar com um russo, recebeu a herdade em dote e o seu filho foi o fundador da dacha na ilha.
Eis o que eu descobri quanto à genealogia dos proprietários.
E agora, Ivan Andréevitch, o senhor já esteve na velha biblioteca daqui?
— Não, eu sequer suspeitava de sua existência.
Só vi a biblioteca de Piotr Petróvitch, que pertence a Filipp Nikoláevitch e que lhe coube dos antigos donos da propriedade.
— Bem, na edícula existe a tal, e talvez seja a biblioteca da hospedaria que foi sendo completada, provavelmente, pelos proprietários posteriores, mas depois abandonada, quando foi ampliada e reconstruída a casa do senhorio.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 15, 2016 8:07 pm

Essa velha biblioteca está ao lado do meu quarto e serve actualmente para o depósito de móveis; ali também está o meu baú. O quarto evidentemente está abandonado, mas o acabamento em madeira das paredes é muito interessante.
São grandes panos cinzelados que representam nomes bíblicos, seja de monges de diversas Ordens.
Alguns desses panos servem de portinholas para armários -, outros estão embutidos na parede, e eis que um deles me fez reflectir muito.
Representava-se nele a figura de um templário, empunhando espada abaixada com empunhadura vermelha, e o gesto dele me lembrou um dos demónios na lareira da vila.
Eu suponho que nós devemos iniciar as buscas justamente dali.
— Muito bem, mas quando?
Devemos escolher uma hora para não sermos perturbados - observou o almirante, pensativamente.
— Ontem Nadejda Filippovna e seus pais insistiram junto aos Maksákov a visitarem todos seus vizinhos comuns depois de amanhã.
Como eu não conheço aquela família, posso dar uma desculpa e ficar aqui, e quanto ao senhor poderá também arrumar algum pretexto para não ir.
Nós teríamos um dia inteiro.
— Eu também não os conheço e tentarei arranjar uma desculpa.
Tenho um interesse enorme em penetrar no mistério do velho convento; ademais, considero você o meu guia nesta empreitada e um excelente e leal colaborador.
— Agradeço pelo elogio e espero ser digno dele - devolveu Vedrinsky, num sorriso franco.
Então, está decidido.
- Desejo-lhe uma boa noite.
Desculpe-me por atrapalhar o seu sono - acresceu, despedindo-se do almirante.
No dia estabelecido, mal a carruagem dos Zamyátin se perdeu atrás da curva da aleia de carvalhos, o almirante e o seu companheiro dirigiram-se à velha biblioteca.
Nádya insistira muito para que eles também fossem, e os dois tiveram dificuldade em declinar da visita aos vizinhos, pretextando dedicar o dia à interpretação de um interessante manuscrito hermético que o almirante trouxera.
Massalítinov ridicularizou o primo, afirmando ter ele se tornado aprendiz do almirante e que, avistando um reles rato, nele reconhecia o avatar de algum feiticeiro ou demónio.
Vedrinsky não se ofendeu com as brincadeiras e sequer deu-lhe o troco, tão absorto com o empreendimento a ser realizado.
Ainda na véspera, ele e o almirante analisaram os velhos papéis do padre Tímon e encontraram certos indícios da existência da biblioteca na hospedaria.
Estavam eles agora examinando curiosos os velhos entalhes cobrindo as paredes.
Mesmo danificados em algumas partes, enegrecidos e surrados pelo tempo, sujos de pó, era possível descobrir o conteúdo das representações, cuja maior parte tinha significado oculto, como concluiu o almirante.
Havia sete painéis de carvalho permeando os armários, cada qual trazendo figuras variadas.
Num se representava um ancião com coroa pontiaguda na cabeça, empunhando espada para o alto e, com a mão esquerda, segurando um escudo, cujos desenhos estavam apagados; num outro painel, representava-se um bebé alado em cima da lua crescente, com estrela na fronte e uma tocha na mão; no terceiro, delineava-se uma figura vestindo batina, cuja cabeça era de mula, e que segurava um livro aberto; no quarto - um rei portava um ceptro e, atrás dele, um capeta sustentava a cauda de sua mantilha, e assim por diante...
— Todas essas figuras demoníacas representam os génios maus dos dias da semana - explicou o almirante.
Pelo que me lembro, o velho com a espada é chamado de Nambrot; o bebé alado é Lúcifer; o monge com a cabeça de mula - Astarot, e este é Akham.
Finalmente eles se aproximaram do painel representando o templário.
O desenho também era estranho.
Ao lado do cavaleiro, estava o rei Salomão a lhe estender um anel; acima, via-se uma singular estrela de cinco pontas e com círculo no centro, findando cada ponta num círculo menor.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 15, 2016 8:07 pm

— Hmm! - resmungou o almirante.
A funesta estrela negra...
Esses padres ou seus sucessores não tão santos eram satanistas de primeira.
Tenho a impressão de que justamente atrás desta madeira se acha escondida a entrada ao subterrâneo.
Pegando um pequeno martelo, Gueorgui Lvóvitch começou a bater a placa, mas nada se mexia.
Ele já estava desistindo e, num gesto de decepção, deu uma forte martelada sobre a estrela acima das duas figuras.
Súbito, ouviu-se um estalido e o painel se separou da parede, cedendo a uma abertura.
Gueorgui Lvóvitch forçou a madeira de carvalho, verificando ser uma porta, atrás da qual tudo estava escuro.
Um palito de fósforo foi aceso para iluminar o espaço e, nisso, eles divisaram um corredor estreito aberto no paredão.
A entrada, sobre um gancho estava pendurado um antigo lampião com vela de cera vermelha.
Vedrinsky estava radiante com a descoberta.
— Diga verdade, Ivan Andréevitch, não tenho o faro de um perdigueiro?
Que tal empreendermos uma pequena excursão aos domínios subterrâneos dos "santos" padres?
Talvez encontremos coisas interessantes...
— Nem diga! Vamos fazer as buscas.
Antes, porém, devemos nos preparar.
— Não podemos perder tempo com as preparações.
Temos este lampião e estou com minha lanterna de pilha.
De que precisamos mais? - retrucou Vedrinsky.
O almirante não pôde conter uma gargalhada.
— Oh, jovens!
Acalme-se, apressadinho!
Os preparativos não são grandes, mas necessários para a nossa segurança e o êxito do empreendimento.
Primeiro, devemos munir-nos de um maço de velas, já que o caminho deve ser longo, e também levarei a minha lanterna.
Depois, trancaremos a porta entre o seu quarto e a biblioteca, e levaremos a chave connosco para ninguém entrar enquanto ficarmos ausentes.
Por fim, devemos barrar esta porta de entrada com algo pesado, a fim de que ela não se feche sozinha, e excluirmos a possibilidade de ficarmos presos.
Vedrinsky concordou com a justeza daquelas medidas preventivas e, sem perder tempo, encostou na passagem uma cadeira.
Recolhendo algumas velas dos candelabros nos dois quartos, o almirante trancou a porta, enfiou a chave no bolso e ambos adentraram corajosamente o corredor estreito.
Caminhados uns trinta passos, os exploradores se viram diante de uma escada íngreme para baixo.
Esta parecia infindável; o ar era pesado e húmido, conquanto os degraus e as paredes de tão frescas parecia terem sido recentemente construídas.
— E como descer ao inferno - comentou Gueorgui Lvóvitch, respirando com dificuldade.
— Esperemos que não seja longe - devolveu o almirante.
De súbito o corredor se alargou numa galeria subterrânea abobadada, bastante ampla.
Alguns passos depois, eles sentiram o ar mais húmido do que na escada; o piso pétreo era coberto por mofo, tal qual as paredes côncavas.
A despeito disso, tudo naquela galeria se conservara maravilhosamente.
— Nos velhos tempos os construtores eram excelentes - observou o almirante.
Estamos abaixo do lago e, mesmo assim, nenhuma gota de água se filtra pelas abóbadas, como que cimentadas com algum material desconhecido.
— Sim, esta galeria, provavelmente terminando na ilha, é muito engenhosa e a julgar pela sua conservação parece receber tratos constantes.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 15, 2016 8:07 pm

Se realmente Misha estiver certo quanto a aqui se localizar o ninho dos contrabandistas, podemos esperar encontros desagradáveis e sequer nos munimos de armas, salvo a minha faca finlandesa, inútil para este caso - observou Vedrinsky.
— Trouxe o meu bastão com estilete, mas duvido encontrarmos alguém.
Vamos em frente - disse calmamente o almirante, acendendo a lanterna.
Lenta e cuidadosamente, eles prosseguiram a caminhada pelo chão escorregadio daquela galeria que parecia infindável.
Por fim, o caminho tomou a direcção para o alto e divisaram-se degraus pétreos, que levaram os dois até um arco encimado por pentagrama.
— Já estamos na ilha e daqui possivelmente se iniciarão os subterrâneos - observou o almirante.
De facto, ao término do pequeno corredor, eles adentraram uma sala redonda, cujo tecto era sustentado no centro por uma coluna de tijolos e dali várias galerias se distribuíam radialmente.
Acima da entrada a cada galeria, havia um símbolo moldado diferente e de grande gancho de ferro pendia um lampião antigo.
— Vamos investigar as galerias, começando por aquela do lado esquerdo onde se vê moldada a cabeça decepada.
Dê uma olhada lá, perto do lampião, se não há um molho de chaves - pediu Vedrinsky.
— Excelente! Vamos vasculhar esta galeria fúnebre - disse o almirante, revirando as pesadas e bem trabalhadas chaves, cuja idade passava de, no mínimo, quatrocentos anos.
A galeria não era muito longa; das duas laterais saíam portas com janelas de vigia gradeadas.
— Parecem calabouços - observou o almirante.
— Vejamos o que há nessas celas!
Olhe, são numeradas tal qual as chaves! - admirou-se Gueorgui Lvóvitch.
Custou-lhe muito esforço para destrancar o cadeado penso e forçar a pesada porta de ferro.
Um ar húmido e viciado bafejou-lhes o rosto e, ao erguerem as lanternas iluminando a câmara, ambos soltaram um grito de horror.
Na parede oposta, viam-se dois bancos de pedra, a cada qual estava acorrentado um cadáver.
Um, sentado e com o tronco caído para o lado, tinha a cabeça recostada na parede; outro se estendia no chão junto ao banco e devia ter morrido em sofrimentos medonhos.
Seus pés e braços achavam-se encolhidos, os maxilares largamente abertos e a corrente que lhe envolvia o corpo estava esticada.
Ao lado do infeliz, jaziam destroços de uma caneca de barro.
— Deus misericordioso, que malefícios terríveis aqui foram perpetrados, que dramas se desenrolaram! - exclamou o almirante, persignando-se; e ambos se apressaram em deixar o recinto e trancar a porta.
— Eu acho não valer a pena, pelo menos por enquanto, investigar as demais celas; provavelmente são todas iguais.
Vamos abrir a porta no fundo do corredor! - propôs Vedrinsky, enxugando o suor.
A porta era pintada de vermelho tal qual a chave e conduzia a um salão abobadado de tecto baixo e enegrecido.
Ali, pelo visto, presidia antigamente um tribunal.
A altura de um degrau, junto à parede, havia sete poltronas de carvalho de espaldares altos e uma mesa, outrora revestida por linho negro - o que se podia inferir por alguns farrapos pensos, e diante da poltrona central, ao lado de um candelabro de sete braços e uma caveira, encontrava-se um grande tinteiro de chifre.
Tendo tudo examinado, o almirante e Vedrinsky retornaram ao salão redondo para dali fazer as buscas no segundo corredor, ao lado do primeiro.
Eles se viram numa ampla sala, no centro da qual, sobre pedestal pétreo, assomava-se a estátua de Satanás.
As paredes e o pedestal estavam cobertos por sinais cabalísticos.
Defronte à estátua, na altura de dois degraus, erguia-se uma espécie de trono e nele divisava-se um candelabro de sete braços com velas negras.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 15, 2016 8:07 pm

Um livro grande e bem antigo, encadernado em pele preta, acorrentava-se àquele altar e aos pés dos degraus jazia uma almofada pétrea de acabamento escultural primoroso.
Nas laterais do altar erguiam-se duas estátuas de demónios segurando tochas e cujas asas lembravam as de morcego.
— E um templo da confraria luciferiana.
Diante desse altar provavelmente se realizavam missas negras e, talvez, oferendas humanas - explicou o almirante com repugnância.
Ambos deixaram açodados o templo satânico para investigar a terceira galeria.
Ali tudo carregava um carácter diferente e tinha um estilo moderno.
À entrada, postavam-se duas estátuas de avental com colheres de pedreiro e martelos nas mãos; um amplo salão decorava-se por emblemas maçónicos; junto à parede havia uma grande cristaleira com louças, e a antiga mesa central da sala estava ladeada por vinte e quatro cadeiras.
Na sala contígua, livros, rolos e caixas adornados por sinais maçónicos, lotavam seus armários e prateleiras.
— Aqui se reunia sem dúvida a loja maçónica; só não consigo entender a sua instalação ao lado de um tribunal da Idade Média, sem antes limpar as prisões dos cadáveres podres observou Gueorgui Lvóvitch, ambos recuperando o fôlego e examinando os emblemas maçónicos a guarnecerem os espaldares das cadeiras.
— É de se supor que a loja maçónica funcionava aqui desde os tempos do imperador Pavel I, pois foi ele que autorizou a maçonaria francesa na Rússia, tendo se tornado grão-mestre, ainda assim fictício.
Mais tarde, quando a maçonaria francesa foi banida, a loja provavelmente teve de ser fechada e os seus membros debandaram; talvez a gente até possa encontrar seus nomes nos documentos guardados nos armários.
Mas, por que eles deixaram tudo intacto em outras galerias não entendo - admirou-se o almirante.
Na quarta galeria também havia celas, porém destinadas a dormitórios.
Os antigos leitos não pareciam danificados pelo tempo - o que seria de se imaginar após tantos anos de abandono.
Numa das celas mais amplas, havia um leito sob baldaquino e cortinas e, ali, os exploradores toparam com o primeiro ser vivo.
Da cama inesperadamente saltou um enorme gato de rabo eriçado.
Vedrinsky assustado deu um pulo para trás; o animal esgueirou-se arqueando o dorso para um canto escuro.
— Eis em que eu gastaria de bom grado a flecha de Johannes - murmurou Ivan Andréevitch.
Vamos procurar a saída do subterrâneo... não deve ser longe.
Realmente, não foi preciso procurar muito.
O quinto corredor conduziu-os directamente à escada e, em seguida, a um corredor estreito - idêntico ao que se escondia atrás do painel com o templário.
Ali também algo como uma porta com mola claramente se identificava por botão metálico.
Um minuto depois, a enorme placa de pedra virou-se silenciosamente e eles se viram dentro da lareira da biblioteca da vila.
O almirante fechou o vão e suspirou aliviado.
— Ufa! Que graciosa esta vila com seus mistérios subterrâneos, e não invejo o aprazimento da senhora Morel em viver aqui!
Bem, para não repetir a nossa expedição através dessas medonhas galerias - sugeriu ele - sugiro voltar pela vila.
Há muitos trabalhadores na ilha, pegaremos um barco e atravessaremos para a outra margem.
Na ilha evidentemente ninguém lhes deu atenção, pois os criados teriam atribuído a presença deles à inspecção dos trabalhos.
Tão logo em casa, os exploradores dirigiram-se ao quarto de Gueorgui Lvóvitch, recolocaram o painel com o templário e puseram tudo em ordem para ninguém desconfiar de nada.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 15, 2016 8:08 pm

No dia seguinte, estava tudo praticamente pronto na vila e Zoya Ióssiíovna sugeriu benzer a casa assombrada para purificá-la e extinguir as desagradáveis marcas do passado.
Mandaram vir o padre Tímon com o pedido de oficiar uma missa; contudo este se esquivou, alegando compromisso com outro ofício.
Zamyátin apelou ao padre do povoado vizinho e esse prometeu vir no dia seguinte, às dez horas da manhã.
- Tudo isso é inútil e não ajudará em nada - objectou o almirante.
São apenas medidas paliativas, pois aquele padre nem em Deus acredita.
Na manhã seguinte, apesar da promessa dada, o sacerdote não veio nem deu notícias; à tardezinha, soube-se pelo serviçal, enviado para fazer compras naquela cidadezinha, ter havido um incêndio na casa do padre Platon.
Pela investigação, determinou-se que a cozinheira recolocara no cesto um carvão parcialmente aceso, e este, queimando sob as cinzas, incendiou o cesto e o piso de madeira; o fogo se alastrou rapidamente e atingiu a cozinha e os demais cómodos térreos, causando grandes estragos.
Acordado pela fumaça e gritos dos vizinhos, o padre e sua esposa lançaram-se pela escada abaixo ao térreo.
Levando nos braços o seu filho de quatro anos, o padre ficou tonto com a fumaça intensa, tropeçou num dos últimos degraus e fracturou o pé.
O menino, a esposa do padre e os outros moradores da casa nada sofreram além do susto; o padre Platon teve de ser hospitalizado.
Zoya Ióssiíovna e Nádya ficaram bastante abaladas com o ocorrido.
O almirante se absteve de qualquer observação, conquanto Mikhail Dmítrievitch ficasse enfurecido com o infortúnio do padre, como que a confirmar as superstições de Nádya.
Quando a jovem desolada fez menção a uma força maléfica guardar a ilha de qualquer tentativa de para lá se levar a bênção divina, Massalítinov não aguentou:
— Ouçam, mes dames!
Isso torna possível enxergar maquinações demoníacas em tudo!
O que aconteceu realmente?
A cozinheira trapalhona coloca por idiotice o carvão incandescido no cesto e vai dormir feito um tronco, causando um incêndio - o que é natural.
Não há necessidade nem da assistência do demónio!...
Depois, o padre, sonolento e assustado, levanta-se, tropeça e cego da fumaça... cai.
Que ele quebre o pé é um acontecimento infeliz e casual tal qual o incêndio ocorrido à noite.
Mas, por mais que eu queira acreditar, não consigo encontrar nisso algo sobrenatural; ao contrário, seria até um milagre o cesto não pegar fogo a partir do carvão mal apagado.
— Suas explicações são justas, se bem que há uma coincidência sinistra em tudo isso - inferiu Zamyátina, estremecendo.
No dia seguinte, um dia antes do tempo previsto, chegaram a senhora Morel e Mila.
Zamyátina estava em casa sozinha, pois todos os outros foram passear a cavalo.
Ela recebeu alegremente as visitas e as conduziu aos aposentos para descansar até a hora do almoço.
Toda a família se reuniu no terraço aguardando as recém-chegadas para irem à sala de jantar; os jovens e até o almirante lançavam olhares curiosos para a porta, pela qual elas deveriam entrar.
A senhora Morel entrou primeiro e saudou o almirante como alguém já conhecido.
A antiga Kátya Tutenberg mudara muito e envelhecera.
Ela nunca fora bonita e agora era uma mulher alta, bastante volumosa e de rosto obeso.
Estava de vestido de cambraia com pequenas bolinhas; os cabelos grisalhos, ainda bastos, ostentavam um penteado à última moda.
Nesse ínterim apareceu Mila e a atenção de todos se concentrou nela.
O coração do almirante palpitou mais forte ao ver a filha da mulher por ele outrora amara apaixonadamente, e ele se pôs a procurar avidamente nela alguma semelhança com os traços da mãe.
Mas Mila não tinha nada da mãe e, ainda que indiscutivelmente bonita, sua beleza era diferente.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 15, 2016 8:08 pm

Muito alta e esbelta, ela poderia servir de modelo para um artista da época de decadência, de tão fino e flexível era o seu quadril e o busto sem relevo.
No pescoço longo e delgado, lembrando o de um cisne, pendia a cabecinha cansada, de melenas cheias, de matiz ruivo-dourado.
A tez de brancura de turvar a vista não revelava um menor sinal de rubor nas faces, o que acentuava mais ainda os lábios rubros.
Quanto aos olhos, era difícil definir-lhes a cor; eles estavam constantemente semicerrados, enquanto os cílios lanosos lhe encobriam totalmente o olhar.
Os movimentos do corpo longo e flexo denotavam uma graça singular, puramente felina, e a expressão geral do rosto tinha algo de malicioso e prepotente.
Ali estava uma criatura encantadora mas... estranha.
Todos passaram ao refeitório e a conversa girou principalmente sobre a viagem e a vila na ilha.
Zamyátina tentou em vão dissuadi-las de se hospedarem ali.
Mila anunciou não ver a hora de ir ao local onde morava sua mãe, e a senhora Morel riu da superstição tola que pesava sobre aquele recanto maravilhoso.
Ela assegurou que as duas não acreditavam no sobrenatural, não temiam fantasmas, nem mau-olhado e, obviamente, se sentiriam na ilha bem como em casa, uma vez que o anfitrião fora tão gentil em permitir-lhes ali se hospedarem.
O almirante pouco participou da conversa, posto a examinar atentamente Mila e tentando encontrar em seus traços alguma semelhança com o pai ou a mãe; mas a jovem não tinha nada com nenhum dos dois.
Súbito Ivan Andréevitch empalideceu e passou nervoso a mão pelo rosto coberto de suor.
Ao esboçar um sorriso, os lábios púrpuros de Mila desnudaram os dentes alvos e afiados...
Ela tinha o sorriso de Krassinsky.
Depois do almoço, as damas saíram para o jardim, enquanto os homens ficaram no terraço, degustando café e fumando charutos.
— Bem, senhores, e o que acham de mademoiselle Ludmila? - perguntou o anfitrião em meia voz, ao se convencer de que as damas não estavam por perto.
— Ela é encantadora.
Um verdadeiro crisântemo ao estilo decadente - opinou Mikhail Dmítrievitch.
Sabem a impressão que ela produziu em mim?
Ela parece uma pantera.
— Tal qual em mim - ajuntou Gueorgui Lvóvitch.
Seu rosto possui algo de felino; um algo diabólico nos movimentos e no corpo esguio.
Ela deve ser uma mulher muito passional.
— É uma mulher perversa, uma criatura realmente diabólica - observou o almirante, retirando-se do terraço.
No dia seguinte, as visitas se mudaram para a ilha.
Tendo examinado o jardim e a casa, Mila elogiou o lugar e disse não se surpreender pelo porquê de sua mãe não ter escolhido outro lugar para morar.
Causou-lhe admiração especial o jardim, naquela hora já arrumado.
O chafariz estava funcionando e espargia respingos prateados; as rosas, o jasmim e as floreiras cheias recendiam a fragrâncias maravilhosas.
Enquanto a senhora Morel desfazia as malas, as jovens ocuparam-se no terraço com o preparo da geleia de morango com creme de leite, e foi então que Nádya se deu conta, pela primeira vez, de não avistar sequer um passarinho na vegetação; nenhum pardal ali se transportava para ciscar migalhas, em nenhum lugar se via um ninho de pombos, conquanto no parque da casa do senhorio estes sobejassem.
Na manhã seguinte, Nádya visitou as damas e perguntou se, à noite, elas não tinha sido perturbadas com nada incomum.
Ambas certificaram-na, rindo, terem dormido bem, nada de misterioso ou alarmante ocorrido e que elas adoraram o silêncio na ilha.
Aquela paz teria um efeito benéfico sobre os nervos abalados de Mila.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 15, 2016 8:08 pm

Zamyátina contratou duas criadas da cidade e tanto as amas como a criadagem estavam contentes umas com as outras.
À noite, após o jantar, Gueorgui Lvóvitch tornou a visitar o almirante para conversar sobre o ocultismo e a intrigante incursão aos subterrâneos.
— Se não for segredo, diga-me, Ivan Andréevitch, onde o senhor adquiriu tantos conhecimentos esotéricos?
Tenho vontade de aprender os mistérios que nos cercam e gostaria de estudar a magia branca, não a negra - a ciência do mal.
Deter em mãos as forças devastadoras do mal é muito perigoso, pois, num acesso de fúria, sabe-se lá que crime oculto pode se cometer.
O almirante riu e adicionou em tom sério:
— Só um ignaro nessa área como o senhor, meu amigo, pode achar que eu tenho algum conhecimento esotérico.
Não passo de um ignorante.
Li muito e estudei o bastante para compreender que nada sei, postado diante do umbral dos conhecimentos.
Mas, de qualquer forma, durante a minha permanência na índia tive a sorte de prestar um serviço a um brâmane e nós ficamos amigos.
Ele consagrou-me em algumas áreas da ciência oculta.
Segundo as suas palavras, um adepto sério, que queira estudar e usar as forças da magia branca, deve antes fazer um curso completo da magia negra.
Não é para dela se utilizar, evidentemente, mas para adquirir saberes para rechaçar as forças malignas quando preciso, tal qual um médico estuda as doenças para poder curá-las.
Eis o que ele me disse, certa vez, a respeito dos que se dedicam ao estudo dessas ciências.
- Um feiticeiro ordinário, de saberes limitados e incompletos, apenas apreende os pontos máximos da magia negra, virando um adepto do mal por não ter haurido a ciência desde a sua base e torna-se uma vítima potencial de algum acaso desafortunado.
As forças do mal subjugam e transformam-no em seu escravo - um monstro perigoso, correctamente perseguido e aniquilado sem dó pelos tribunais da Idade Média.
Aliás, aos juízes daquele tempo, muitas vezes ridicularizados e condenados, deu-se até razão, não raro:
suas convicções, principalmente, e não os métodos empregados na investigação - segundo opinião geral dos históricos, - não eram apenas os frutos das superstições, e cujos objectivos eram enfrentar as forças malignas do mundo do além.
De qualquer modo, só poderá trilhar por esse caminho perigoso, impunemente, aquele que estudar os mistérios da magia negra sob a orientação de um mago com poderes sobre as forças maléficas, e que, por sua vez, posteriormente se tornará um senhor das forças ocultas.
A casa dos Zamyátin ficou animada.
As visitas aos vizinhos, os piqueniques e as recepções seguiam-se sem parar.
Além disso, um colega de Zamyátin, da Universidade de Kiev, agora professor, veio passar ali algumas semanas para descansar, ao ar puro, de seus trabalhos científicos.
Mila participava de todas as diversões e parecia feliz.
Mas os longos passeios, as danças e assim por diante, deixavam-na esgotada; por vezes, seu aspecto cansado e até doentio chamava a atenção de todos.
No dia seguinte, ela parecia se restabelecer, os olhos tornavam a brilhar, os lábios ganhavam um matiz vermelho sanguíneo e sua figura esbelta, alquebrada na véspera pelo cansaço, endireitava-se altiva.
O almirante ainda se encontrava em Gorki.
Ele cedeu às persuasões dos anfitriões hospitaleiros, esqueceu de seus temores e de sua aversão àquele local.
Por Mila, ele tinha um interesse todo especial.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 15, 2016 8:08 pm

Ele a estudava e vigiava ao mesmo tempo, conquanto a sua anterior amizade com o pai falecido facilitasse tais observações.
Ademais, um relacionamento dos mais cálidos e amistosos encetou-se entre o almirante e Gueorgui Lvóvitch.
Todas as noites, o jovem vinha conversar com ele antes de dormir, e assuntos não faltavam.
Certa vez, Mila estava novamente com aquele aspecto debilitado e doentio, o que fez a senhora Morel se redobrar nos cuidados com ela.
Todos, em Gorki, demonstravam grande preocupação com o aspecto, cada vez mais acentuado, de lividez da filha de Marússya.
Pouco antes desses acontecimentos, os Zamyátin receberam um telegrama comunicando-lhes a vinda de um certo professor e cientista, Franz Gotlfbovitch Biber, do qual Filipp Nikoláievitch se tornou amigo, após uma de suas viagens de negócios na Alemanha.
Franz Gotlíbovitch era um homem atarracado, com olhos miúdos e inexpressivos, de rosto corado e arredondado, lábios grossos e vermelhos que davam a impressão de uma saúde inabalável.
Já em sua chegada, não causara boa impressão nos convidados da família Zamyátin por seus ares prepotentes e deselegantes, pois em suas conversas impingia a todos o seu saber e suas convicções, não dando margem a qualquer dissidência de opinião.
Portanto, todos evitavam entrar em litígio com o professor Biber para não serem desagradáveis com os anfitriões.
Nesse dia, porém, a preocupação com Mila fez tudo mudar.
O almirante não desgrudava os olhos de Mila, sentindo, cada vez mais, um nefasto pressentimento.
A senhora Morel andava de um lado a outro torcendo exasperada as mãos, pois já não sabia o que fazer para que sua pupila melhorasse.
Nervosa demais, dirigindo-se a Zamyátina, perguntou-lhe:
— Você não teria, cara amiga, ovelhas negras nessas paragens?
— Acho que não; temos criação de ovelhas, mas creio que são todas brancas.
Por que quer saber? - respondeu, surpresa, Zamyátina.
— Porque para Mila fortalecer-se e voltar à normalidade, necessita tomar sangue fresco de ovelha negra.
Você poderia conseguir uma caneca de sangue para ela?
Os presentes ficaram petrificados com tal explicação e pedido.
Vedrinsky imediatamente relanceou o olhar para o almirante, mas este calmamente questionou:
— Senhora Morel, sabe então qual é o mal que aflige Mila?
Foi um médico que, ao invés de receitar medicação convencional, mandou dar-lhe remédio tão esdrúxulo?
Explique-nos por que deve ministrar-lhe sangue fresco de ovelha, devendo o animal ser especificamente da cor negra.
É difícil entender o motivo de tal prescrição!
— Realmente ninguém conseguiu, com certeza, definir a doença que afecta Mila, Ivan Andreévitch, - começou a senhora Morel.
Há alguns anos atrás, Mila e eu viajamos a passeio para a Inglaterra e ficamos na propriedade de um grande amigo meu.
Mila estava contente e participava de todas as actividades que nosso anfitrião proporcionava.
Percebíamos que, depois de algum tempo, Mila perdia a vivacidade, tornando-se abatida e cansada.
Não me preocupei muito, pois, no dia seguinte, sempre levantava bem disposta e novamente activa.
Passaram-se os dias com novos festejos, passeios e vida social intensa, mas percebia-se que, a cada dia, Mila ficava mais fraca e sem ânimo, com uma palidez assustadora, não se recuperando totalmente no dia seguinte, deixando-nos muito preocupados.
Apesar de tudo, Mila não queria parar a diversão, alegando que era coisa passageira, que nos preocupávamos à toa, pois estava muito bem de saúde.
Numa manhã esplendorosa, saímos todos para cumprir mais um dia de vários eventos.
Mila estava muito pálida e alquebrada, porém, insistiu estar bem e querer participar do passeio.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 15, 2016 8:08 pm

No meio do dia, enquanto fazíamos um piquenique no campo, Mila, após uma corrida a cavalo, chegou carregada por um dos convidados com a morte estampada no lindo rostinho; não havia qualquer cor nas faces, parecia uma estátua de mármore.
Fiquei desnorteada, comecei a gritar desesperada, deixando todos apavorados.
Nosso anfitrião, sem perda de tempo, pegou Mila no colo e levou-a a uma cabana próxima, onde se via um belo rebanho de ovelhas, seguido, obviamente, por todos que lá se encontravam.
No caminho, explicou-me lá se achar um pastor de seu rebanho, sempre procurado por ser um curandeiro de todos os males.
Com o alarido, saiu, de dentro da cabana, um velho vestido em pele de animal com um cajado nas mãos enrugadas, que, olhando fixamente para Mila, mandou-nos entrar e deitá-la num catre, pedindo que só ficasse ali o responsável pela jovem.
Assim, com a morte na alma, sentei-me sozinha num banquinho perto de Mila, observando o velho pastor que tranquilamente lhe tocava na testa, concentrando o olhar no topo de sua linda cabeça dourada.
Depois do que para mim pareceu uma eternidade, ele falou:
— Pobre criança!
Mal sabe a sina que carrega...
Temos que nos apressar, se quisermos salvá-la e fazer com que adquira novamente as forças vitais.
Essa criança, senhora, não é um ser humano normal como os outros.
Nessa hora, posso dizer, senhores, desconfiei do velho e tomei-o por louco e charlatão.
Como poderia engolir tal afirmação sobre a minha adorada Mila.
Mas ele, apesar da raiva estampada em meu rosto, prosseguiu:
— Aprenda, minha senhora, sempre que essa jovem demonstrar lividez e exaustão, deverá ser-lhe ministrado sangue fresco de ovelha negra.
O sangue lhe devolverá as forças e a vida, pois ela é filha de vampiro.
Agora, pensando melhor, acho que talvez o velho pastor tivesse razão ao chamá-la de filha de vampiro — devaneou a senhora Morel.
Voltando-se para Zamyátin, ela continuou:
— O senhor entenderá como me impressionou tal declaração.
Além disso, fiquei tão possessa, a ponto de querer matar o velho idiota que ousara ofender uma criança inocente.
Mas ele não se abalou e disse calmamente:
— Não fique brava, senhora, digo isso para que a senhora saiba de tudo; ela, de qualquer forma, não está ouvindo.
É preciso lhe dar de beber o sangue fresco de ovelha negra e, à noite, colocar em sua cama alguns porquinhos-da-índia.
Isso lhe propiciará forças vitais.
Ele saiu, retornando em seguida com uma grande caneca de sangue quente.
Colocando-a diante de Mila, ele mandou ajudá-la a se sentar.
Um minuto depois, ela abriu os olhos, emborcou avidamente a caneca e de facto se reanimou.
De volta a Paris, consultei o nosso médico, dr. Bonper, e descrevi o caso com o pastor.
Este, no início, desfechou uma gargalhada e disse que para as pessoas anémicas o sangue fresco de facto era muito útil, se bem que a maioria se recusaria a tomá-lo devido ao nojo sugerido.
Acrescentou também que, se Mila era capaz de tomar o sangue, ele só poderia elogiá-la, sendo certo a cor da ovelha não possuir, evidentemente, qualquer importância em termos práticos.
Quanto aos porquinhos-da-índia, - era uma antiga simpatia e, de qualquer forma, não prejudicava.
— Mas por que a senhora pediu, hoje, justamente o sangue de ovelha negra? - perguntou Zamyátin.
Temos as brancas e não sei se há alguma negra, - completou.
— Talvez pareça estranho, como queira, mas eu me convenci de que o sangue das ovelhas negras tem um melhor efeito para ela; o das ovelhas brancas provoca-lhe ânsia de vómito.
— Será isso também uma simpatia?
A ciência já comprovou a influência das cores sobre o organismo humano.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 15, 2016 8:09 pm

Provavelmente a cor branca reage de forma diferente no organismo sensível de Ludmila Vyatcheslávovna - argumentou Zarnyátin.
— E isso, é isso! O senhor acertou.
Agora me lembro que desde a infância Mila não gosta de trajes brancos.
Em seguida, abordou-se o efeito das cores sobre as doenças, como, por exemplo, o vermelho na cura da varíola.
O professor não tomou parte na conversa, aparentemente imerso em seus devaneios.
O doutor Biber era um alemão com grande capacidade de trabalho mas de horizontes limitados, a quem os estudos das matérias exactas nele fortaleceram as suas convicções materialistas, tornando-o intolerante às concepções que divergissem das suas e só reconhecendo o que podia ser pesado ou medido.
— Não! - exclamou ele de supetão, interrompendo a conversa.
Indigna-me aquele idiota, o pastor bretão.
Como é possível em pleno século XX encontrar na Europa, não numa tribo dos aborígenes, alguém que acredite em fantasmas, larvas e vampiros?
Isso é inverosímil e revoltante!
Quando a ciência conseguirá finalmente dissipar as trevas da ignorância ignóbil e desarraigar os tabus que envergonham a humanidade moderna?
— Ah, dou-lhe plena razão, Franz Gotlíbovitch! - exclamou com ardor Massalítinov.
As superstições são algo terrível e, sobretudo, contagiosas - o que é pior.
Ao ouvir essas tolices incríveis, não se sabe mais em que acreditar.
— Quem as espalha são mentirosos, e os que nelas acreditam são idiotas ou simplesmente insensatos! - emendou calorosamente o professor.
— Oh, não seja tão rigoroso, professor!
Mentirosos e insensatos?!
Como se pode condenar cruelmente os que acreditam, não no sobrenatural - o qual inexiste -, mas nos factos ainda não explicados pela ciência?
Assim aconteceu com a electricidade, o raio X e a análise espectral que há duzentos anos atrás também nos eram incompreensíveis.
Ainda que as assim chamadas superstições sejam tão velhas como o mundo, antigamente a sociedade acreditava nesses fenómenos e, em seu meio, contou com ilustres luminares da humanidade, tais como Sócrates, Platão, Pitágoras, e assim por diante - sustentou Vedrinsky e adicionou:
- Mudaram os nomes e não os objectos por eles designados.
Tifão - deus do mal dos antigos - é o diabo ou, se quiserem, sob esta denominação comum compreendem-se os espíritos malignos, e Amênti e o inferno são a sua morada.
A existência dos espíritos do mal fora reconhecida por santos bem respeitados.
— Mesmo no silêncio de suas celas ou no deserto, durante as preces ardentes, esses seres superiores são tentados por demónios com tanta obstinação, que só contando com uma fé inabalável e vontade férrea os ascetas conseguem resistir a essas criaturas imprestáveis.
O professor se desfez num riso de desprezo e respondeu, dando um sorriso irónico:
— Quando o senhor quiser discutir este tema, Gueorgui Lvóvitch, aconselho-o a jamais recorrer a este último argumento, ou seja:
as visões dos santos.
Os venerados indivíduos... que passaram a vida em ócio e preguiça, cantavam os salmos, inúteis a quem quer que seja, não passavam de fanáticos, cuja constante solidão contribuía enormemente para as ocorrências das alucinações.
A minha convicção é a seguinte:
um homem é sempre um homem, seja no deserto ou onde for; os instintos naturais e as paixões reprimidas geram quadros sedutores em forma de criaturas tentadoras, personificando em seu âmago desejos insaciados.
Quanto às superstições na antiguidade, estas nada provam, pois os equívocos não se tornam mais respeitados só porque eles são antigos.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 15, 2016 8:09 pm

Por fim, devo dizer-lhes que todas essas histórias sobre fantasmas, demónios e feiticeiros são conversas fiadas, visto nenhuma delas ter sido confirmada por pessoas sérias e dignas de confiança.
— Equívoco seu, professor.
Existem numerosos casos incríveis e até factos da magia negra que são registados por indivíduos respeitados, como confirmados em escritas - assegurou calmamente o almirante.
— E o senhor poderá me relatar pelo menos uma história dessas, registada em acta? - perguntou o professor com ar de zomba.
— Sem dúvida.
O senhor conhece a história da visão do imperador sueco Carlos XI?
— Não, reconheço a minha ignorância nisso, pois nunca me interessei por temas impalpáveis - respondeu sorrindo o professor.
— A história desta visão profética de Carlos foi protocolada na presença do imperador e o documento acha-se guardado no arquivo estatal sueco.
Ei-la resumida!
Na noite de 17 de setembro de 1676, o rei, sentindo-se indisposto, foi se deitar, e ao seu leito encontrava-se o chanceler Belke.
À meia-noite, o rei acordou e, ao olhar ocasionalmente em direcção da janela, viu uma luz na sala do quartel-general, localizado na parte oposta do prédio.
Ele apontou aquela luz ao chanceler e aventou a possibilidade do perigo de um incêndio.
Mas o chanceler certificou-o de que a luminosidade vista era um reflexo do luar sobre o vidro.
O rei não discutiu e tentou adormecer novamente e, quando algum tempo depois chegou o conselheiro de Belke, parente do chanceler, para saber como andava a saúde do rei, novamente todos viram a luz estranha na mesma sala em frente.
A indagação de se o conselheiro sabia algo do incêndio, este insistiu que aquilo era simplesmente um reflexo no vidro.
Mas, dessa vez, o rei já não acreditou nas explicações, pois viu como na sala se movimentavam figuras humanas e, depois, concluiu estar acontecendo algo estranho.
O rei se levantou, calçou os sapatos e vestiu o roupão.
— Senhores - disse ele -, quem teme a Deus, não teme mais nada no mundo.
Quero ver o que está ocorrendo na sala do quartel-general.
Antes de tudo, ele mandou chamar o administrador do palácio para trazer a chave do salão.
Quando este chegou, acompanhado pelo conselheiro Oksenstern, todos se dirigiram à passagem secreta, localizada no piso de baixo bem abaixo do dormitório do rei e ao lado do velho dormitório de Gustavo Ericson.
Junto à porta do corredor secreto, o rei mandou um dos acompanhantes abri-la; mas todos, tomados de medo, suplicaram ao rei que os dispensassem de cumprir tal ordem.
O corajoso Oksenstern, que nada temia, disse:
— Majestade, eu jurei sacrificar-lhe a vida, mas não abrir esta porta.
Nervoso, o rei pegou as chaves e a abriu ele mesmo.
Tão logo as tochas iluminaram o corredor, todos viram aterrorizados as paredes, o tecto e até o chão chamuscados.
Mesmo assim o rei, após uma breve indecisão, atravessou o corredor e disse aos acompanhantes para abrirem a segunda porta, guarnecendo a sala do quartel-general.
Todos tremiam de terror e hesitavam em cumprir a ordem; então ele se antecipou, abriu-a sozinho e estacou petrificado no umbral.
A sala adiante estava profusamente iluminada.
A comprida mesa no centro, acomodavam-se nas cadeiras cerca de dezasseis pessoas com rostos severos, diante de cada qual havia um livro aberto.
Entre eles, estava sentado um jovem rei em torno de dezassete anos, de coroa e ceptro nas mãos, balançando nervosamente a cabeça, enquanto os presentes davam sucessivas palmadas nos livros dispostos defronte.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 15, 2016 8:09 pm

Súbito Carlos percebeu, perto da mesa, cadafalsos de madeira e, pasmado, testemunhou a execução pelos verdugos de diversas vítimas, cujas cabeças rolavam ao chão e cobriam de sangue torrencial os pés dele.
Os condenados pareciam todos jovens e, a julgar pelos trajes, eram nobres.
Trémulo de terror - como testemunha do registo -, o rei se virou e, com um novo espanto, viu o trono meio tombado e, ao lado deste, postava-se um homem de uns quarenta anos.
O rei deu um passo para trás e exclamou:
— Ó, Deus Todo-Poderoso!
Quando isso vai acontecer?
Tenha piedade, Senhor, e nos diga o que podemos fazer.
Então o jovem rei, sentado no trono inclinado, pronunciou:
— Tudo que você está vendo não acontecerá em sua época, e sim no reinado do sexto monarca a segui-lo.
Ele terá a minha idade e aparência, e então acontecerá o que está vendo.
Este - e ele apontou para o homem que estava ao lado do trono - será o meu tutor e regente; antes, porém, alguns nobres tentarão destituir-me, mas pagarão com a vida.
Mais tarde o trono será ocupado pelo mesmo regente, um soberano poderoso, sob o governo do qual a Suécia irá prosperar, não sem antes de perder muito sangue.
Como você é o actual rei da Suécia, transmita aos descendentes as devidas instruções.
Tão logo o jovem rei ou quem lhe assumira as feições silenciou, a luz na sala se extinguiu.
Agora tentarei, tanto quanto lembro, repetir as palavras constantes na acta.
"Pode-se imaginar em que estado de pasmo saímos da sala e, quando atravessávamos o corredor, pouco antes revestido de piso preto, este já voltara a ser o normal.
Voltamos ao meu quarto e, imediatamente, eu comecei a anotar o presságio.
E por ser tudo verdadeiro, eu o certifico com o meu juramento, como é certo que Deus me ajudará.
Carlos XI - rei da Suécia.
Na qualidade das testemunhas presentes, vimos o que foi descrito por Sua Majestade e certificamos seu relato com o nosso juramento, e que Deus nos ajude.
Assinam:
Carlos Belke, chanceler N.R. Belke, conselheiro A. Oksenstern, conselheiro Peter Grauelen, vice-vagenmaster.
— Eis, caro professor, a história da visão do rei Carlos XI, como ela é descrita e assinada pelo mesmo, e certificada por testemunhas respeitadas, o que o senhor não pode negar.
Depois, basta abrir a história da Suécia e o senhor se convencerá de que o presságio feito em 1676 aconteceu de facto em 1792.
O cortesão sueco Ankarstrem, membro de um complô da jovem nobreza, mata, num baile de máscaras, o rei Gustavo III e depois morre com seus cúmplices no cadafalso.
O rei Gustavo IV, de quatorze a quinze anos, sucede ao pai sob a regência do tio, duque de Zudermailand que, após Gustavo IV ser destronado, assume o trono e reina glorioso por longo tempo.
Atento, ainda com desconfiança visível, ouvia-o o professor.
Terminado o relato, ele pronunciou-se, dando de ombros:
— Esse facto, Ivan Andréevitch, seria muito convincente se merecessem crédito duas coisas:
primeira - a autenticidade do documento; não poderia ele ser forjado já depois dos acontecimentos?
E, segundo - não estaria o rei e seus quatro súbditos vitimados por uma alucinação colectiva?
Eles viram algo e, ainda, à noite, e dessa impressão vaga criaram mais tarde uma verdadeira profecia.
Ademais, eles eram em apenas cinco - arrematou Biber.
— E a que número o senhor restringe uma alucinação colectiva?
Em outras palavras:
de que garantia o senhor precisa para considerar um caso oculto comprovado? - perguntou Vedrinsky.
O senhor diz ter sido a visão do rei sueco ocorrida à noite; bem, então eu lhe contarei um caso acontecido de dia, ouvido por milhares de pessoas, testemunhado por dois reis e seus séquitos.
Foi em Paris, alguns dias depois da noite de São Bartolomeu.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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