Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 16, 2016 7:56 pm

Gritos dilacerantes, o barulho da luta, gemidos dos feridos e moribundos ouviam-se no ar, alarmando toda a capital.
Esses gritos duraram três dias seguidos - o que é bastante estranho para ser uma alucinação.
E eis que, num desses dias, no Louvre ocorreu um fenómeno, causando entre os presentes um verdadeiro terror.
Numa das salas do Louvre, estavam jogando xadrez o rei Carlos IX e Henrique, rei de Navarra, futuro monarca da França - Henrique IV. Súbito, todos viram a mesa e o tabuleiro de xadrez repletos de gotas de sangue rubro vivo.
Carlos IX empalideceu e jogou o corpo para trás, depois afastou a mesa e saiu apressado.
Os próximos de ambos os reis, presentes na sala, foram testemunhas desse fenómeno.
Agrippa d'Obinia relembra-o em suas memórias, e o caso também é mencionado por Henrique IV.
— Acho que eu li sobre isso um dia - hesitou o professor. -
Mas este caso não merece muita confiança.
Toda essa gente antiga era de credibilidade fácil, supersticiosa e sem instrução, propensa aos engodos.
Henrique pode ter espetado o dedo e uma gota de sangue caído no tabuleiro, enquanto a consciência pecaminosa de Carlos IV imaginou-a como uma poça, escorrendo por todos os lados. Quem pode contestar o facto de os homicidas, sob o efeito do terror do crime cometido, aliado à consciência pesada, serem vitimados por alucinações.
Todos viram! - e eis uma lenda criada e comprovada.
Não, não, senhores; não me falem desses fenómenos centenários e, se quiserem me convencer - há-há - contem alguma história recente, explicada pela ciência ou, pelo menos, por uma investigação séria.
— Com prazer, professor.
Aconteceu em 1851 - quase na nossa época -, foi investigado por um tribunal e confirmado sob juramento por mais de vinte testemunhas e teve centenas de depoimentos.
Dessa vez não se trata de alguma visão, mas se refere aos fenómenos de magia negra - iniciou o almirante com frieza impassível.
O professor lhe lançou um olhar de desconfiança.
— O processo de magia negra ou feitiçaria foi aberto num tribunal de verdade? E no século XTX?
O senhor está brincando, Ivan Andréevitch?
— Deus me livre!
O senhor verá por si mesmo.
Eis toda a demanda em sua simplicidade, julgada no início de 1851 pelo tribunal da paz em Jerville, departamento do Baixo Sena.
Desde o começo, o conflito destacava-se pela sua bizarrice.
Não era um feiticeiro que se submetia ao processo no tribunal; ao contrário, era este, injuriado, que fazia uma denúncia de reparação.
Certo pastor, chamado de Torel, entra com um pedido de queixa ao juiz de paz contra um sacerdote da cidade de Sideville e exige uma compensação pelas pancadas de que fora vítima.
Eis resumidamente os fatos que resultaram em surra por parte do sacerdote e que serviram como fundamento da queixa do pastor.
Em Sideville, ou nas suas circunvizinhanças, vivia um feiticeiro aldeão, famoso em todo o distrito por suas curas pela medicina oculta.
Esqueci o nome dele, e o chamarei pela letra N, mesmo porque o seu papel no processo é secundário.
Por justa causa ou não, o abade Tinel de Sideville acusou N de diversas tramóias, em consequência das quais alguns dos clientes do feiticeiro pagaram até com a própria vida, e assim N foi recolhido à prisão e teve de pagar multa.
Possesso com a desmoralização, este fez ameaças e jurou se vingar.
A partir deste momento, N como que desaparece da cena e em seu lugar surge o pastor Torel.
Na audiência, o pastor se confessa um mero e respeitoso servo e discípulo de N, seu mandatário oculto, vingador e executor da vontade do mestre.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 16, 2016 7:56 pm

Sobre a casa do venerável padre, desencadeia-se um verdadeiro furacão de fenómenos estranhos, e a fúria retaliativa de Torel concentra-se em dois meninos:
um de doze e outro de quatorze anos, educados pelo abade Tinel para serem noviços.
Primeiro, ouvem-se pancadas fortes nas paredes, e estas estalam, trincam e ameaçam ruir.
Interferem as autoridades e, na presença de dezenas de testemunhas, a casa e seus anexos são investigados, inclusive com o apoio do povo, mas os esforços de explicar os factos não se coroam de êxito nem mesmo quando o prédio sofre os abalos mais intensos.
Os fenómenos mais tarde se intensificam, tornam-se diversificados e mais fortes.
Os objectos começam a se movimentar, as mesas emborcam sozinhas, as cadeiras passeiam pela casa, as facas, as escovas e os breviários mudam de lugar.
Acontecem cenas engraçadas, como por exemplo:
a pá e as tenazes dançam mazurca ou os ferros de passar roupa deslizam até o fundo do quarto.
Todos esses factos e muitos outros foram certificados por numerosas testemunhas, entre as quais pessoas inteligentes e respeitadas, como o médico de Baneville, o sacerdote, o vigário S. Roha e finalmente o prefeito e todo o quadro das autoridades municipais.
Quem mais sofreu foi o pequeno pupilo do abade Tinel.
Torturado por convulsões, ele afirmava ser perseguido por um vulto de blusa.
O menino andava sempre assustado e seu estado inspirava sérios cuidados.
Certa vez, estando o quarto repleto de gente, de súbito, ouviu-se o som de uma forte bofetada e o menino soltou um grito.
As testemunhas afirmaram que na face do coitado se gravara uma nítida marca de dedos.
O noviço, chorando muito, contou apenas ter percebido uma grande mão lhe desferindo o golpe.
— E todos esses contos de carochinha foram confirmados no tribunal? - indagou o professor, visivelmente hesitando entre acreditar ou rir.
— Como já tive a honra de lhe dizer, tudo isso foi confirmado sob juramento no tribunal por dezenas de pessoas.
Mas deixe-me prosseguir.
Obviamente, tais fenómenos espalharam-se por toda a vizinhança; os curiosos não paravam de chegar, e a casa do padre reunia gente do clero.
Um dos abades presentes possuía pequenas noções de ocultismo.
Ele sabia que os espíritos malignos, guiados por um feiticeiro, temiam a lâmina afiada de espada e resolveu tentar.
Seus primeiros esforços foram inúteis; o clero ficou desanimado e já queria desistir de outras experiências, quando o último golpe causou um efeito inesperado.
Esqueci de mencionar que entre as pessoas envolvidas nos episódios em Sideville estava também o famoso escritor e espírita Marvill.
Este tentou entrar em contacto com as forças invisíveis através de batidas e sua tentativa se revelou acima de quaisquer expectativas.
Uma entidade invisível respondeu, e ainda revelou grande conhecimento quanto a tudo a que se referiam os inquiridores.
De longe chegou uma voz pronunciando claramente:
— Perdoem...
Todos a ouviram e no primeiro instante ficaram cismados.
Depois um dos padres começou a conversar com o ser invisível pelo sistema de Marvill.
Desta vez a experiência teve êxito e ocorreu uma conversa interessante:
— Você pede por perdão - disse o abade Tinel - está bem, nós o perdoamos, mas com uma condição:
seja lá quem você for, venha pedir perdão a essa criança pessoalmente.
— De acordo, mas você perdoará a todos nós? - indagou a voz.
— Vocês são muitos? - tornou o sacerdote, surpreso.
— Somos em cinco, contando com o pastor - foi a resposta.
— Perdoamos a todos - prometeu solenemente o abade.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 16, 2016 7:56 pm

A partir de então os fenómenos cessaram; a paz e tranquilidade voltaram a reinar na casa.
Ao meio-dia, o pastor Torel aparece na casa do padre.
Seu rosto, que ele tenta esconder com o gorro, estava coberto de arranhões e via-se sangue em alguns pontos.
Mal o pequeno noviço o vê, começa a tremer e grita:
— Eis o homem que me persegue há duas semanas.
O pastor tenta explicar a sua vinda com pretexto simples; mas, incitado pelo padre a confessar e pedir perdão ao menino a quem perseguia, ele cai de joelhos e rasteja até a sua vítima.
— Sim, sim, perdoe!
Perdoe - repete ele.
Aproximando-se da criança, ele a agarra com ambas as mãos; logo depois todos notam que, desse contacto, o estado do menino piora.
O segundo encontro do padre com o pastor aconteceu na prefeitura diante de numerosas testemunhas.
Torel torna a se ajoelhar e pede:
— Perdoe! Peço-lhe perdoar-me - diz, rastejando em direcção ao padre.
— De que devo perdoá-lo, Torel?
Explique! - perguntou o padre, recuando.
O abade já estava acuado no canto da sala e as mãos do pastor quase lhe tocavam a batina.
— Não me toque, pelo amor de Deus, senão eu bato! - gritou.
Foi então que o padre desferiu três vezes golpes na mão do feiticeiro - o que deu origem ao processo.
O senhor compreende a estupefacção do juiz acompanhando os debates daquele estranho processo.
Jamais sua casa presenciou tais depoimentos bizarros.
Todavia, a numerosidade dos fenómenos, a ausência de contradições nos depoimentos mais importantes, assim como a presença das testemunhas voluntárias notáveis, não deixaram de lograr o devido efeito.
Em sua sentença, o juiz levou em consideração a unanimidade dos testemunhos e absolveu o padre, negando mérito a Torel na demanda e dele cobrando as custas processuais.
O julgamento foi em Jerville, em 4 de fevereiro de 1851.
Depois disso, todos os fenómenos cessaram.
Eis, meu caro professor, uma recentíssima história, iluminada por investigações judiciais sérias.
O que o senhor tem a contestar?
O professor permaneceu alguns instantes calado, juntando as ideias e, enxugando o rosto, levantou-se decidido.
— Sem dúvida, eu tenho contestações.
O caso aqui narrado é extremamente curioso - é claro - mas nem por isso mais convincente de que outros, apesar de sua modernidade.
Primeiro, a superstição está longe, infelizmente, de ser desenraizada...
Depois, esse caso se me apresenta com uma incrível semelhança aos fenómenos ditos espíritas.
Não foi o bastante provado que os espíritas são embusteiros, não obstante suas manipulações totalmente desvendadas.
Há de concordar comigo que todas aquelas pancadas na parede, o vulto nebuloso do homem, a mão que desfere uma bofetada no menino, as mesas dançantes - tudo são truques, normalmente realizados pelos espíritas em suas sessões.
Significa que alguém dessa seita agia em Sideville.
Com que objectivo ele, ou eles - pois segundo a confissão eram cinco - manipularam isso, eu não sei, mas o juiz não podia ter se comportado diferente ao aceitar os testemunhos tão-somente coerentes... pois eram resultado de uma alucinação colectiva.
O almirante desabou em gargalhada.
— Anuncio-me derrotado por seus argumentos; o seu cepticismo é incurável - disse com bonomia.
— Significa que eu o convenci para não acreditar em tolices?
- animou-se o professor.
— Absolutamente.
As minhas convicções são tão sólidas como as do senhor, apenas me recuso solenemente a convertê-lo - arrematou o almirante com desdém.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 16, 2016 7:56 pm

Todos riram e a conversa mudou de rumo.
Alguns dias se passaram sem quaisquer aventuras.
Os jovens estavam absortos com os preparativos para a festa de aniversário de Filipp Nikoláevitch.
Planeava-se iluminar todo o parque, organizar um espectáculo de fogos no lago e, para tanto, Massalítinov e Vedrinsky foram à cidade fazer as compras.
Mila demonstrou interesse vivo pelos preparativos, ajudou a confeccionar lanternas e trançar grinaldas.
Aparentemente ela se sentia bem com Nádya e seu noivo, pois buscava sempre a companhia deles.
Mikhail Dmítrievitch, ao contrário, mal disfarçava sua apatia.
À noite, na véspera do aniversário, quando todos se recolheram a seus aposentos, Gueorgui Lvóvitch foi ao quarto de seu primo.
Este, sentado junto à janela aberta, segurando o charuto apagado, olhos semicerrados, estava mergulhado em pesado esquecimento.
Vedrinsky aproximou-se, fixou-o por instantes balançando a cabeça e depois bateu no ombro do sonhador.
Massalítinov estremeceu e endireitou-se.
— O que há com você, Misha?
Está com péssima aparência.
Algo o preocupa?
Não está doente, está?
— Não, nada disso - retrucou Mikhail Dmítrievitch, passando a mão pela testa.
Ando muito tenso.
Não sei como explicar-lhe:
uma angústia me afugenta de um lugar a outro e, ao mesmo tempo, sinto-me cansado como se passasse o dia inteiro arando a terra.
— E desde quando você se sente assim?
— Alguns dias, não sei precisar.
Vedrinsky pôs-se a reflectir e perguntou de chofre:
— O que acha de Mila?
— Não gosto dela - respondeu Massalítinov surpreendido com a pergunta.
Ela é muito bonita, reconheço, mas sua beleza estranha e os olhos sempre semicerrados me deixam nervoso.
Ainda não vi a cor dos olhos desse.... crisântemo.
— Apraz-me o seu juízo a respeito dela, pois tenho fundamentos para achar que ela gosta de você mais do que deveria.
— Sério? Não está enganado?
Sequer a percebi me olhando - e ele deu um sorriso.
— Mas eu sim, e foi graças a isso que eu descobri a cor de seus olhos.
Foi no dia 3, no terraço.
Você estava fumando na cadeira de balanço, e Nadejda Filippovna com Mila estavam enfileirando as lamparinas confeccionadas.
Quando Nádya foi levar alguma coisa do terraço, flagrei casualmente o olhar de Mila pregado em você.
Ivan Andréevitch comparou-a com uma pantera e justamente essa palavra me veio à mente naquela hora.
Foi, pela primeira vez, que seus olhos fosfóricos de felino estavam bem abertos, fitando-o com uma expressão enigmática.
Um misto de paixão e cobiça se via neles - não posso definir.
Mas aquele olhar deixou-me com calafrios.
— Criatura nojenta! - indignou-se Massalítinov.
De qualquer forma isso é inútil porque - como lhe disse - não gosto dela e jamais a trocaria por minha Nádya.
— Deus o ouça! - suspirou Vedrinsky.
No dia seguinte reuniu-se uma grande companhia.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 16, 2016 7:56 pm

Vieram os fazendeiros vizinhos com suas famílias e oficiais do destacamento próximo.
Os sons da música militar enchiam as salas e o jardim; a juventude dançava com animação.
Nádya estava encantadora de vestido branco com flores vermelhas a lhe adornarem a cabeça de madeixas negras.
Vivaz e graciosa, ela voejava feito borboleta pela casa em afazeres de anfitriã, sem perceber que o seu noivo dançava mais com Mila.
A beleza demoníaca de Turaeva brilhava mesmo nesse dia.
Estava de vestido verde de gaze, com botões de lírios aquáticos nos cabelos e corpete.
Fios de pérolas maravilhosas enfeitavam-lhe o colo e serpenteavam nos bastos cabelos dourados.
Ela estava deslumbrante feito uma sereia, com tez pálida e diáfana, olhos esverdeados e lábios rubros sanguíneos, detrás dos quais brilhavam dentes de brancura ofuscante.
Apesar do calor das danças, suas faces não revelavam qualquer sinal de rubor, tão-somente acentuando a vermelhidão sanguínea dos lábios.
De quando em quando, seus olhos se abriam largos e cravejavam, sôfregos, Mikhail Dmítrievitch, e esse olhar cruel e fosfórico parecia penetrar nas profundezas da alma do jovem oficial, enfeitiçando-o feito os olhos de serpente.
Instantes depois, pelo seu corpo percorria um tremor quase imperceptível e, maquinalmente, ele se aproximava de Mila, convidando-a para dançar.
Mas, tão logo ele chegava perto dela, seus olhos parecia se ocultarem, toldados pela sombra dos cílios lanosos.
E assim sucessivamente Massalítinov a tirava para dançar com ânimo excitado, como que movido por alguma força estranha.
Nos intervalos entre as danças, Mikhail Dmítrievitch sentava-se para recuperar o fôlego, enxugando o suor gelado a lhe escorrer pela testa com os cabelos grudados.
— Meu Deus, Misha, que cara é essa!
Você parece ter acabado de carregar um monte de lenha.
Venha tomar um copo de vinho para deixá-lo fortalecido - disse Gueorgui Lvóvitch, pegando o amigo pelo braço e arrastando-o ao bufê.
Mikhail Dmítrievitch tornou a enxugar a testa molhada.
— Não quero mais dançar com essa Mila - anunciou ele, recuperando o fôlego.
Jamais me senti tão cansado, e, olhe, já dancei com mulheres pesadas e gordas, ainda que Mila seja leve feito uma pena.
Ao secar o copo de vinho oferecido pelo amigo, Massalítinov lavou o rosto e retornou ao salão de baile, decidido a só dançar uma quadrilha com Nádya.
Refugiado num canto aconchegante atrás dos oleandros, arbustos cítricos e outras plantas, Massalítinov se acomodou num sofá baixo e macio e se pôs a observar o movimento na sala.
Nesse ínterim, Gueorgui Lvóvitch saiu à procura do almirante que, tendo declinado da partida de cartas, vagava entre os convidados.
Algum tempo depois, este foi encontrado no terraço, sentado junto à balaustrada e olhando pensativo para o lago.
Vedrinsky contou-lhe do estado estranho do primo.
— Ele fica estranhamente esgotado após dançar com Mila.
Não acha, Ivan Andréevitch, que há coisa diabólica?
Talvez o velho pastor tenha razão ao chamá-la de filha de vampiro.
— Hmm! Ela é filha de Krassinsky e deve ser uma criatura larval - sustentou o almirante pensativo e, depois, se levantou.
Vou vigiar melhor sua "pantera" - acrescentou.
Andando como que sem objectivo, o almirante atravessou alguns cómodos e percebeu Mila sozinha no salão de baile.
Era intervalo e os dançarinos haviam se dispersado.
Viu-a esticando o pescoço para a frente, sondando com o olhar cálido por entre as plantas, atrás das quais estava o sofá - o que era de conhecimento de Ivan Andréevitch.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 16, 2016 7:57 pm

Acto contínuo, ela se esgueirou para lá furtiva tal qual gato e desapareceu.
O almirante aproximou-se lépido junto às plantas e, através destas, viu Mikhail Dmítrievitch dormindo um sono profundo.
Seu charuto estava caído no chão e o rosto dele carregava uma expressão de sofrimento.
Mila, inclinada, fixava-o com um olhar estranho, e nisso tocou com os dedos a sua testa.
— Após acordar, ordeno-lhe que você me tire para dançar! - sussurrou ela em tom imperioso.
Ouviram-se vozes dos convidados retornando.
Mila saiu feito uma sombra dos arbustos, passou qual flecha pelo almirante sem notá-lo e, abrindo uma porta lateral, deixou a sala; Ivan Andréevitch sentou-se para observar o desfecho.
Quando a música recomeçou, Mila voltou ao salão e, tão logo se sentou, dos arbustos saiu Mikhail Dmítrievitch.
Cambaleando levemente, de olhar vago e inquieto, ele se dirigiu a Mila e, abraçando-a pela cintura, puxou-a para uma valsa ligeira.
— Ah, essa imprestável!
É cópia do pai.
Vou estragar seus planos - resmungou o almirante, olhando condoído para Mikhail Dmítrievitch, pálido, alquebrado, respirando com dificuldade.
Ele tirou o crucifixo dado por Johannes e o soergueu em direcção do par dançante.
— Oh, Nosso Senhor Jesus Cristo!
Você, que expulsa os demónios, atenda a minha prece e proteja esta alma cristã, assaltada por feitiços impuros.
Ante o Seu milagroso crucifixo se dissiparão e cairão por terra os encantos do inferno.
No mesmo instante, a cabeça ruivacenta da jovem decaiu bruscamente para trás, o seu cavalheiro assustou-se e a largou, deixando-a cair com estrondo no chão.
A senhora Morel lançou-se para socorrê-la; dois homens levantaram a jovem desfalecida e a levaram para o sofá.
— Rápido, rápido, dêem-lhe água!
Ela exagerou na dança e tanto esforço lhe faz mal.
Ah, querida Zoya Ióssifovna, a senhora é tão boa, suplico que dê um copo de sangue quente, é o que mais lhe ajuda - disse Ekaterina Aleksándrovna alarmada, ministrando-lhe sais aromáticos.
A jovem foi transportada para um quarto anexo, onde logo voltou a si, mas que de fraqueza não conseguia nem mexer a mão.
Apenas um dos convidados - um médico -, Ekaterina Aleksándrovna e mais duas damas ficaram junto à debilitada jovem, qual moribunda.
Um hora depois, trouxeram uma caneca de sangue e o deram a Mila.
Esta sorveu-o avidamente sem descolar os lábios da grande caneca.
Conforme ela bebia, as forças a ela iam retornando a olhos vistos.
Os lábios tingiram-se de vermelho e a cor terrosa da tez substituiu-se pela brancura diáfana habitual.
Os presentes observavam-na com ar de repugnância engolindo avidamente o sangue, mas Mila parecia nada perceber em volta.
— Quero voltar para a ilha - murmurou ela em voz fraca.
Estou muito cansada e gostaria de dormir.
Aqui faz muito barulho...
Zamyátina tentou convencê-la a ficar no baile, abstendo-se naturalmente de dança, mas Mila afirmou necessitar de silêncio absoluto, acentuando que a presença de uma doente poderia constranger a alegria geral.
Trouxeram-lhe uma manta e envolveram-na numa echarpe bordada; apoiando-se no braço da senhora Morel, Mila caminhou até o barco, que as deixou na ilha.
Assim que a tranquilidade quebrada pelo incidente se restabeleceu, as danças recomeçaram com a mesma empolgação.
Por insistência de Nádya, Mikhail Dmítrievitch não participou devido à sua aparência extenuada.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 16, 2016 7:57 pm

Após assistir por algum tempo o baile, Massalítinov saiu ao terraço, vazio naquela hora, e sentou-se à mesa para saborear um copo de vinho.
Logo a ele se juntou Gueorgui Lvóvitch.
— Como está sentindo, Misha?
Você estava muito mal há pouco.
Só não entendo como você, sempre tão ágil, deixou cair Mila.
Mikhail Dmítrievitch deu de ombros.
— De repente ela ficou pesada como um bloco de granito.
Não entendo o que houve com ela.
Não sou tão supersticioso como você, mas esta moça parece um verdadeiro pesadelo.
Graças a Deus ela deixou o baile.
— Mas o que você estava sentindo?
Parecia estar mal e branco feito lençol.
— Eu fiquei extremamente extenuado, com a cabeça tonta e o peito apertando.
Pensei em deitar-me, mas o almirante me chamou, deu-me vinho, eu lavei o rosto e me senti bem melhor, apesar de ainda me sentir cansado.
Ele me aconselhou a evitar Mila dizendo ter ela olho-gordo.
Há-há-há! Ivan Andréevitch é um homem excelente e muito simpático, mas vem com cada tolice e é tão eivado de superstições, que me lembra a nossa velha babá Neonila.
Lembra, Jorj, quando nós éramos pequeninos e não conseguíamos dormir; ela atribuía aquilo a quebranto e, para nos curar, lambia-nos a testa com a língua e depois cuspia, afirmando as nossas testas estarem estranhamente salgadas.
Massalítinov desabou numa gargalhada, contagiando Vedrinsky; depois ambos voltaram ao salão.
Desolada, com amargura no coração, retornou Mila à ilha.
Desejando ficar a sós e pretextando sono, a jovem insistiu para que Ekaterina voltasse ao baile, e ela concordou desde que Mila fosse deitar.
Sem a mínima vontade de dormir, Mila se levantou mal Ekaterina saiu, vestiu o penhoar, desceu ao jardim e dirigiu-se ao pequeno balcão, construído bem na praia, de onde se abria uma maravilhosa vista para a margem oposta.
O balcão era cercado por corrimões; uma escada com cerca de dez degraus conduzia até a água.
Nos tempos de Marússya viva, ali ficava um quarto de banhos, mais tarde derrubado.
Mila sentou-se num banco de pedra e com um olhar sombrio perscrutou ao longe a casa e o jardim, iluminados por luzes multicores.
Da praia se ouviam os estalidos dos fogos de artifício. O lago dormitava silencioso e só de quando em quando chegavam acordes de música que quebravam a paz reinante.
Um sentimento de indescritível angústia e sofrimento espiritual dominou a jovem.
Cruzando as mãos sobre os joelhos, o olhar parado, envolta pela mantilha em massa de cabelos bastos a caírem sobre o penhoar, ela parecia petrificada, assemelhando-se à bela estátua do Pensador.
Jamais, talvez, ela se sentira tão sozinha como naquele minuto.
A mãe estava morta; o pai desaparecera sem vestígios; do avô ela não guardava qualquer lembrança; a senhora Morel, ainda que fosse boa com ela e a amasse, de qualquer forma não a entendia.
Na vida de Mila houve tantas coisas estranhas difíceis de compreender e a todas suas perguntas, quando criança e depois moça, a bondosa Ekaterina Aleksándrovna respondia invariavelmente:
— São nervos.
Você sofre de alucinações.
Você sabe que sua mãe morreu de uma doença nervosa e, assim, a sua neurose é hereditária.
Quanto menos pensar sobre esses acontecimentos mórbidos, tanto será melhor.
O mais importante para você é se distrair.
Mas, para Mila, tais respostas já não satisfaziam.
Ela ansiava por explicações precisas das razões que dela faziam uma criatura única, vivenciando sensações muito estranhas.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 16, 2016 7:57 pm

Por exemplo:
frequentemente ela mergulhava num estado cataléptico e ficava imóvel por horas a fio, toda enrijecida qual morta.
E sempre à noite!
E por que, quando a consideravam inconsciente, ela vivia uma vida diferente, desconhecida e sombria?
Já quantas vezes ela reparara, amargurada, que trazia desgraça a todos com quem se envolvia.
Não lhe saía da cabeça a conversa da senhora Morel com o médico certa vez, dizendo que Mila havia tido três amas-secas, todas consumidas feito cera e mortas de uma estranha subnutrição, tanto que ela teve de alimentá-la com leite de cabra.
Mila se perguntava se as amas-secas não teriam sofrido alguma doença estranha, a ela passada pelo leite?
Um suspiro profundo soltou-se-lhe do peito e em sua memória ressuscitou a lembrança torturante do episódio mais cruel de sua curta vida...
Ela era muito bonita para ficar imperceptível e muitos buscavam a sua mão.
Porém ninguém suscitava nela a aprazível sensação do afluxo do calor vivifico, experimentado raras vezes com raríssimas pessoas.
Mal ela completara dezassete anos, conheceu, no inverno em Florença, um jovem conde italiano, a quem se afeiçoou e em cuja presença se sentia bem.
O conde César Visconti, por sua vez, apaixonou-se loucamente por Mila e lhe fez a proposta; ela aquiesceu e o casamento foi marcado para dali a três meses.
As primeiras semanas do noivado passaram feito um sonho mágico.
Quando o noivo a abraçava e beijava, era como se dele emanasse uma fonte de vida, cujo calor a abastecia de forças, bem-aventurança e uma sensação de plenitude jamais experimentada.
Ela não conseguia passar sem ele e contava os dias até o casamento.
Foi então que, de súbito, o conde contraiu uma estranha enfermidade que os médicos não conseguiam explicar.
Era um esgotamento destruindo as forças do jovem a velocidade espantosa.
Ele emagrecia a olhos vistos em meio a tremores glaciais, com o corpo coberto de suor gelado; passou a respirar com dificuldade e ficou tão debilitado que logo já não conseguia andar.
Mila cuidava dele com abnegação.
Os médicos, por fim, concentraram-se na hipótese de o conde sofrer de uma doença hereditária cardíaca e sugeriram levá-lo a algum lugar no seio da natureza, onde um repouso completo e o ar fresco pudessem restabelecer suas forças extenuadas.
De facto, após algumas semanas passadas em seu castelo na Itália, o conde foi se restabelecendo, os sintomas alarmantes de esgotamento foram diminuindo, o seu vigor parecia voltar, enquanto o sono sadio e o bom apetite acenavam com cura completa.
Mila passou esse tempo em excitação febril.
Era ela que então murchava e, por fim, anunciou não poder mais viver sem ver o noivo.
Ao saber da iminência do restabelecimento total do conde, ela não se acalmou até que Ekaterina Aleksándrovna lhe prometesse ambas visitarem o noivo.
Mila queria fazer uma surpresa ao convalescente, que por certo ficaria feliz em revê-la.
Finalmente as duas viajaram e, no dia seguinte, encontraram o conde deitado no terraço do jardim.
Ele ficou felicíssimo.
Almoçaram ali mesmo, no terraço; Ekaterina Aleksándrovna foi tirar uma soneca e os dois ficaram a sós.
Então Mila cingiu-lhe o pescoço e, num ímpeto, seus lábios se juntaram num beijo prolongado.
Mila tornou a reviver aquele calor vivifico, aquela sensação inebriante e bem-aventurada da energia que dele sobejava.
De chofre, aquele estado maravilhoso foi interrompido por um grito surdo, dilacerando a alma:
— Ar!... Estou me sufocando!... - gritou o conde, tentando arrancar de si o colarinho.
Estava lívido feito cadáver e seus olhos estavam turvos, vitrificados.
Assustada, Mila tirou os braços do pescoço dele, mas ao ver sua cabeça pendendo inânime para trás, gritou por socorro.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 16, 2016 7:57 pm

Todos os esforços humanos se verificaram inúteis.
O conde morreu de infarto, causado pela alegria do reencontro com a noiva adorada - concluíram os médicos.
Antes do enterro viera o irmão do falecido e expressou a vontade de realizar uma biópsia.
Estranhou-se-lhe o estado do coração; sem sequer uma gota de sangue, o órgão apresentava-se macio feito um pano e enrugado qual um limão espremido; resumindo: parecia um saco vazio amassado.
A recordação desse episódio afluíra à lembrança de Mila, mas já sem aquela inquietação torturante que antes lhe despertava a imagem de Visconti.
Dentro dela brotou uma nova emoção tão logo ela viu Mikhail Dmítrievitch, tornando a sentir a mesma corrente vivifica, que antes emanava de César.
Que energia emanava daquele jovem belo e forte tal qual carvalho, quando ele dançava com ela ou lhe tocava a mão; e este afluxo inebriante chegava em ondas, elevando a vitalidade de todo o seu organismo.
A cada dia, sua paixão por Massalítinov dobrava.
Seus enormes olhos, o sorriso sedutor, enfeitiçaram-na positivamente e nela amadureceu o desejo de possuí-lo.
Não era ela mais bela e mais rica que Nádya?
Por que não conquistar o coração daquele homem?
Não lhe ocorria à mente ser esse desejo impuro.
Ao contrário - ela dizia a si:
Nádya era feliz sem Michel, pois tinha os pais - uma família inteira - e facilmente encontraria outro marido; enquanto ela, Mila, era órfã, sem contar obviamente a senhora Morel, que não a entendia.
Possuir o homem amado ela considerava uma recompensa plenamente justa.
Enlevada por esses pensamentos, Mila acabou adormecendo ali mesmo, no banco.
Sonhou com o céu cobrindo-se de nuvens escuras, sobrevindo escuridão completa; os lampiões no jardim se apagaram e só ao longe brilhavam as janelas iluminadas da casa.
De repente, ela viu algo deslizando pela superfície lisa do lago.
Uma sensação de frio interior imobilizou a moça e o seu olhar pregou-se em uma nuvem branca, pairando a alguns passos da escada.
Ali, a massa nebulosa começou a mudar de aspecto:
ampliou-se, foi se tornando mais compacta, assumiu um aspecto humano e, deslizando pela escada, deteve-se no penúltimo degrau, perto da jovem.
Diante de Mila, assomou-se uma mulher jovem e bonita, cujos longos e bastos cabelos loiros desciam por sobre o vestido branco, gotejando água em profusão.
No colo reluzia um crucifixo e, na cabeça, por entre as flores da coroa, ardia pequena chama, tremeluzindo tal qual bafejada por brisa.
Mila não conseguia despregar a vista da estranha visão a atraí-la com expressão de bondade infinita e tristeza profunda expressas no rosto, bem como no olhar amoroso.
Súbito ouviu uma voz débil:
— Não tema!
Eu sou sua mãe e vim preveni-la... ou melhor, suplicar-lhe abandonar este lugar infausto, onde por você espreita o inferno.
Já lhe basta sua infelicidade, pobre alma arrancada das trevas; o baptismo não a purificou suficientemente para romper seu vínculo com o abismo.
Repito: fuja desse lugar maldito e jamais pense em se casar, pois levará desgraça e morte àquele que a amar, e seus filhos, tal qual você, serão infelizes, renegados pelos Céus.
Fuja, fuja ao abrigo do monastério, onde sob os hábitos de monja estará protegida.
Só aos pés da vivifica cruz e com a prece fervorosa nos lábios sua alma poderá ser salva.
Reze! Que a guardem e apoiem as forças celestes, conquanto de mim você herdou uma partícula do Céu, e do pai recebeu o quinhão do inferno.
Mila ouvia enfeitiçada.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 16, 2016 7:57 pm

Não estava com medo; ao contrário, sentia-se atraída pelo belo e pelo dócil rosto e pelo olhar meigo daquela que era sua mãe.
Sua vontade era de se atirar aos seus braços.
Estendendo as mãos em sua direcção, ela murmurou:
— Mãe, mãe!...
Subitamente, ao lado dela avultou-se uma alta e esbelta figura de um homem de preto.
Seu rosto era belo, mas descorado; o olhar, dirigido para o espectro da mulher ainda postada na escada, fitava-o com chama contrariada.
A visão feminina oscilou e retrocedeu, e em seus olhos se lia medo e repugnância.
— Fora, insana, e não ouse tirar de mim a criança!
Ela é minha e servirá ao inferno, não aos Céus - bradou a figura masculina, erguendo a mão em gesto ameaçador, em cujo dedo brilhava um anel.
Em contrapartida, o vulto da mulher endireitou-se e em sua mão surgiu um crucifixo, estendido na direcção do espectro masculino.
Este recuou visivelmente assustado.
Entrementes, a imagem da mulher empalideceu e derreteu-se na névoa nocturna.
Em espanto emudecido assistia Mila aquela cena e, quando o vulto da mãe desapareceu, olhou para o novo forasteiro.
Era um homem ainda jovem, de beleza prejudicada pela sua palidez cadavérica e expressão maldosa dos olhos afundados, ardentes feito carvão em brasa.
— Levante a cabeça e me encare com coragem!
Sou seu pai e serei seu orientador.
Revelar-lhe-ei o mistério de sua essência e, se você mostrar-se uma aluna aplicada e obediente, obterá tudo que desejar:
a pessoa a quem ama e as forças de desfrutar as alegrias da vida.
Mas tenha o cuidado de não seguir os conselhos daquela mulher tola, que acabou de aparecer.
Eu já ofereci para ela a felicidade, o amor, a saúde e os prazeres, mas ela a tudo rejeitou para não trair sua fé, embora esta não a salvasse da morte.
Bem, você me parece abalada.
Chega por hoje, mas antes fique com o meu primeiro presente para você.
Ele pegou-lhe a mão e enfiou-lhe no dedo um anel.
Como que atingida por uma corrente eléctrica, Mila endireitou-se e viu-se desperta.
Seu torpor passou completamente.
No dedo indicador da mão esquerda reluzia um anel...
Em excitação febril, ela voltou ao quarto e pôs-se a examinar o objecto.
Era de ouro, com rubi do tamanho de uma ervilha.
No dia seguinte, à hora do desjejum, após a leitura das cartas recebidas, o almirante anunciou pesaroso sua partida antecipada, visto um assunto inadiável requerer sua presença em Petersburgo.
Todos ficaram desapontados, excepto Mila.
Ela sentiu até um grande alívio com a notícia, porquanto a presença de Ivan Andréevitch a oprimia e ela não conseguia suportar o olhar límpido e penetrante de seus olhos cinza metálicos, que pareciam atravessá-la feito espada afiada.
Quem ficou mais sentido com a partida do almirante foi Gueorgui Lvóvitch, afeiçoado ao velho marinheiro, partícipe da comunhão de suas concepções e conversas diárias, tidas pelo jovem como elucidativas e interessantes.
O dia inteiro Vedrinsky passou triste, irritado e de mau humor.
Após o almoço, ele travou uma discussão calorosa com o professor sobre a cura milagrosa, relatada no jornal, de uma mulher paralítica que, tendo sonhado com um homem santo e depois de ter-lhe visitado o sepulcro, ficou totalmente curada.
O almirante não interferiu na conversa.
Quando, porém, a altercação ficou demasiadamente acalorada, ele se recolheu ao quarto, alegando a necessidade de fazer as malas em vista da viagem no dia seguinte.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 16, 2016 7:58 pm

Ele recolhia os livros trazidos e, nesse ínterim, entrou Gueorgui Lvóvitch, vermelho de nervoso.
— Aquele idiota me deixou possesso com seus disparates arrogantes.
— O senhor mesmo é culpado disso, meu amigo.
Nunca se deve discutir com esse tipo de pessoas. Só estraga sua bílis inutilmente.
Lembre do ditado popular:
"Quand on est mort c'est pour longtemps, quand on est bête c'est pour toujours".
Vedrinsky sorriu.
— O senhor tem razão, Ivan Andréevitch.
É tolice falar com uma pessoa assim; mas eu nem teria começado a discussão não estivesse hoje mal-humorado por causa de sua partida.
O que farei sem o senhor?
Minha vontade é estudar as forças ocultas e as ciências herméticas e, inoportunamente, perco o meu único orientador.
Sinto-me perdido.
Caso eu não tenha um trabalho sério e útil, minha vida será vazia. Um mundo terrífico, invisível a olhos rudes, cerca-nos com seus mistérios.
Vedrinsky se aproximou e apertou forte a mão do almirante.
— O senhor sempre foi bom comigo, Ivan Andréevitch, e isso me dá coragem, ou melhor, a ousadia de lhe fazer um pedido.
Interceda por mim junto aos seus mentores; talvez eles me aceitem como um dos seus discípulos.
Eu me submeterei incondicionalmente a todas as provas e, ao seu primeiro chamado, largarei tudo para me juntar ao senhor e consagrar a minha vida à ciência.
Um arrebatamento extasiado soava em sua voz e no olhar brilhava força de vontade e decisão.
Um sorriso bondoso iluminou o rosto do almirante e ele devolveu amistosamente o aperto de mão de Vedrinsky.
— Suas palavras me deixam feliz, meu amigo, pois estou vendo que o seu arrebatamento não é uma simples curiosidade.
Com certeza os mestres o aceitarão.
No dia seguinte, o almirante viajou cedo, deixando para Vedrinsky alguns livros e uma carta.
O jovem ficou aborrecido por ter perdido a hora da saída do almirante.
Mikhail Dmítrievitch assegurou ter feito de tudo para acordá-lo:
sacudiu, passou água gelada na testa, mas nada adiantou, pois ele dormia feito morto.
Nádya lhe transmitiu lembranças do padrinho.
De olhos marejados, a pobre moça estava tão desconsolada que nem mesmo o noivo conseguiu alegrá-la.
Quando um homem morre - é por longo tempo; quando um homem é idiota - é para sempre.
Tão logo se lhe apresentou uma possibilidade de ausentar-se despercebido, Vedrinsky foi ao antigo quarto do almirante.
Sobre a mesa descansava um pacote de livros.
Muitos eram em inglês, francês e alemão, e a eles juntavam-se manuscritos e traduções de árabe, sânscrito e hebreu.
Bem ao lado havia um pequeno escrínio de sândalo com a carta em cima.
Ao abri-la, ele encontrou uma chave e alguns papéis com instruções detalhadas, onde no primeiro se lia:
"Jamais, a qualquer pretexto, deixe ler ou empreste os livros e os manuscritos destinados ao seu uso pessoal; eles não podem cair nas mãos de profanos.
No escrínio achará um frasco vermelho.
Tome diariamente três gotas de seu conteúdo.
Com o unguento incolor na latinha de alabastro, unte a testa e as têmporas antes de iniciar a leitura.
O segundo pequeno escrínio, com afigura de uma esfinge, deve ser guardado intocável; quando chegar a hora, será indicado o método de sua aplicação."
Vedrinsky agradeceu mentalmente a Ivan Andréevitch, cujo discípulo começava a ser.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 16, 2016 7:58 pm

Ardendo de impaciência para iniciar a leitura, pegou um dos manuscritos.
Sobre o texto achava-se um papel com inscrições em tinta vermelha:
"Quem iniciar estas páginas, sem antes se preparar com isolamento, concentração e prece, ou seja, quem começar os estudos ainda eivado do caos fluídico da turba humana, somente enxergará letras e palavras sem sentido. O profundo e misterioso significado permanecerá oculto aos profanos."
Vedrinsky fechou o manuscrito e seu rosto iluminou-se num sorriso.
A invisível força que passou a governar sua vida era assaz previdente e, desde o primeiro minuto, subjugava-lhe a alma.
Mas esse jugo não o constrangia nem contrariava posto sua alma estar tranquilizada pela existência de um guia e protector.
"Vou ler à noite depois de rezar e me concentrar.
Isso, se não me engano, é uma purificação da aura das influências estranhas" - pensou ele.
À noite, Gueorgui Lvóvitch retirou-se ao quarto antes da hora habitual, pretextando dor de cabeça e, depois de trancar a porta, tirou da gaveta o manuscrito.
Antes de iniciar a leitura, ele orou fervoroso, meditou e mergulhou mentalmente no passado.
Que estranhos caminhos escolheu a Providência para levá-lo ao limiar do aperfeiçoamento moral!
Afluiu-lhe à memória a aventura sinistra, quando ele se viu dominado pelo demónio do jogo e foi salvo miraculosamente em Granada; depois, o encontro casual com o almirante e um novo rumo de seu destino.
Ele pegou o manuscrito e o levou ao peito.
"Oh, mundo maravilhoso, oculto dos olhares dos ignaros!
Como é afortunado aquele que pode cruzar o seu umbral, penetrar em seus mistérios, pesquisar seus abismos e contemplar seus milagres."
Ao mesmo tempo em que os pensamentos incendidos e arrebatadores lhe enchiam a alma, parecia-lhe que se aliviava de um peso nos ombros.
Algo jamais experimentado nele se processava.
Na mente brotavam novas ideias; questões antes insolúveis resolviam-se à velocidade vertiginosa.
Eram tantas as ideias originais a lhe assaltarem a mente, que ele tinha a impressão de não conseguir guardá-las todas no cérebro.
As dúvidas não mais o acometiam, um misterioso trabalho astral operava-se em sua alma, inflamada de sentimento respeitoso e grato àquele ser incógnito a se manifestar ao derredor.
Um temor místico, só experimentado por crentes diante da coisa sagrada, dele se apossou.
Arrebatado pelo desejo de orar, ele se pôs de joelhos e uma onda de emoção cálida fluiu de seu coração e, dos olhos, verteram lágrimas.
Sua prece não se expressava em palavras ou mesmo em pensamentos definidos.
Sentia fluir do seu âmago uma oração verdadeira e grandiosa da união sagrada e inquebrantável entre o Criador e Sua criatura, tão bela e grandiosa como o próprio Deus, personificando a harmonia absoluta, cujo reflexo incide sobre os seres humanos imperfeitos, a fim de sustentar e elevá-los.
O tempo, após a partida do almirante, fluía sem mudanças especiais.
Os Zamyátin recebiam muito, ou iam em visita aos vizinhos, de modo que os passeios, as viagens, os piqueniques e toda uma espécie de prazeres campestres iam de vento em popa.
A despeito disso, uma atmosfera pesada instalara-se entre a família.
Filipp Nikoláevitch andava apreensivo.
Nádya estava tristonha, frequentemente perseguida por maus pressentimentos em vista da apatia de seu noivo, sempre pálido e cansado.
Mila era uma visita diária e participava de todos os passatempos dos jovens.
Massalítinov parecia ignorá-la e até evitar- o que a deixava possessa.
Nesses minutos, seus lábios rubros desfiguravam-se num sorriso de zomba e seus olhos verdes, penetrantes tal qual aguilhão, acompanhavam o insubmisso.
Aconteceu a Nádya interceptar um desses olhares.
De imediato, brotou-lhe no coração um sentimento hostil de desdém, bem longe de ser um ciúme e, aliás, sem fundamento devido ao mal disfarçado desprezo de Mikhail Dmítrievitch em relação a Mila.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 16, 2016 7:58 pm

A Nádya revoltava tão-somente aquela perseguição obstinada ao homem, praticamente atado com a palavra a outra e, some-se a isso:
dentro da casa, onde ela foi recebida com tanta hospitalidade.
Não existia qualquer camaradagem entre Nádya e Mila; ambas tinham um relacionamento frio e discreto entre si, encobrindo-se a antipatia mútua com aparência mundana.
Vedrinsky se isolava mais do que de costume e passava a metade das noites atrás da leitura.
Neste novo mister empolgante, as conversas vazias e o palrear da alta-roda pareciam-lhe tolos e enfadonhos e ele os evitava o quanto podia.
Um telegrama de Kiev fez Filipp Nikoláevitch deixar Gorki, visivelmente preocupado, na noite de seu recebimento.
Antes da viagem, Ekaterina Aleksándrovna pediu-lhe o favor de tentar achar em Kiev um amplo apartamento, onde ela pretendia se instalar no inverno com Mila por prescrição médica, no intuito de poder esta distrair-se o mais possível.
Zamyátin prometeu procurar por um imóvel adequado, mas esta perspectiva desgostou a Nádya, a quem não agradariam encontros constantes com aquela dupla antipática.
Nádya não via a hora de deixar Gorki, sempre lembrando as súplicas do padrinho de abandonar urgentemente aquele lugar sinistro. O casamento dela estava marcado para o início de novembro e havia ainda muito por se fazer quanto ao dote.
A proximidade da grande festa na casa dos Maksákov serviu-lhe de distracção e ela se entregou inteira aos preparativos de seu vestuário; jovem que era, tal evento concentrou-lhe toda a atenção.
Os Maksákov eram fazendeiros muito abastados, viviam nababescamente, recebiam muito e não perdiam uma oportunidade para divertir a juventude.
Dessa vez, eles festejariam a promoção a oficial do filho mais velho e, simultaneamente, o aniversário da única filha, a completar dezassete anos.
Como na opinião dos jovens tal evento deveria se festejar em dobro, para o primeiro dia foi marcado um baile de máscaras com iluminação especial, fogos de artifício e assim por diante; no dia seguinte haveria um banquete e um baile comum.
No baile de máscara, as mulheres se engalanariam em flores, borboletas, fadas e ondinas; previa-se uma interpretação de balé, e Mery Maksákova, como a heroína da festa, deveria representar a rainha da flores.
Foram convidados não só os vizinhos, num raio de vinte quilómetros, mas os oficiais do destacamento próximo com as respectivas esposas e filhos.
Muitos vieram na véspera, outros na manhã do dia da festa.
Os que moravam longe pernoitariam em Gorki nos dois dias de festejos.
A casa dos Maksákov comportaria tantos hóspedes.
Era um verdadeiro palácio, construído por um nobre da corte de Ekaterina II, depois passado em dote à sua filha e, posteriormente, herdado por Maksákov.
O enorme prédio, cujo parque era em estilo rococó, afigurava-se ao de Versailles.
Fica clara a excitação do mundo feminino pelo evento e dispensa dizer o quanto se falava do baile.
Todas as lojas de moda foram esvaziadas, e as costureiras mal podiam dar conta de tantas encomendas.
No meio dessa agitação, só Mila estava ociosa.
Ela já tinha um traje pronto, executado de flores em Paris para um baile ao qual acabou não indo por motivo de doença.
Mas, no íntimo, ela estava furiosa.
Sua paixão por Mikhail Dmítrievitch crescia tal qual a vontade de apossar-se dele.
Dormia mal, perdeu o apetite e, apesar de seus coquetismos e poderes hipnóticos, não logrou um passo avante na conquista do homem desejado.
A consciência de que todos dela se afastavam e até evitavam de lhe falar, a impressão de se sentir rejeitada, deixavam-na possessa, sem entretanto desesperá-la.
Alguns dias antes da festa, alegando cansaço, ela ficou na ilha e declinou do convite de tomar chá à noite na casa dos Zamyátin.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 16, 2016 7:58 pm

Assim que Ekaterina Aleksándrovna partiu, Mila chamou a camareira e mandou abrir as caixas com as vestimentas para experimentá-las.
O vestido representava uma papoula, executado com extraordinário gosto e delicadeza inigualável dos artistas parisienses.
A saia era uma flor caída; as grandes folhas em gaze violeta eram de belíssimo acabamento; a longa haste flexível cingia a cintura e dela pendiam dois cálices de papoula - um verde e outro escuro, já amadurecido.
Dos quadris subia uma outra ponta da haste, sustentada por grande flor na cabeça, em forma de adorno.
Neste maravilhoso fundo escuro, desenhavam-se pictoricamente os cabelos ruivos dourados de Mila, formando em torno de seu rosto fino um auréola aurifulgente.
O corpete do vestido era representado por um botão de papoula, enquanto as folhas da flor - as mangas e a guarnição de um corpete, aliás, bastante aberto, desnudando o seu pescoço de cisne em toda a sua beleza clássica.
Das jóias, ela pretendia colocar uma fiada de pérolas negras, encontrada no escrínio da mãe.
Com um olhar satisfeito, examinou Mila o seu aspecto sedutor.
Em sua beleza demoníaca havia algo de facto fascinante e a chama em seus enormes olhos esverdeados poderia facilmente enfeitiçar o coração de um homem.
— Sim - dizia ela para si com satisfação -, sou mais bela que Nádya com seu rosto inexpressivo de criança, e Mikhail sem dúvida se apaixonará por mim.
Assim quero e terei; mas preciso me apressar.
Daqui a vinte dias acabam suas férias e devo conquistá-lo antes disso.
E com um sorriso orgulhoso nos lábios, de olhos brilhantes, ela se inclinou para se ver melhor.
Quando ela estava desembrulhando seu leque de penas de avestruz, entrou a senhora Morel, que, após elogiar a beleza de Mila, contou os últimos detalhes da festa e previu-lhe as mais brilhantes conquistas, pois sua beleza não ficaria despercebida.
Após serem os trajes dobrados pela camareira, Mila foi comer um pedaço de ave silvestre fria com leite, e depois se recolheu ao aposento - antigo quarto da mãe.
Ali, em penhoar de seda, sentou e começou a ler um romance francês.
De súbito, porém, sentiu uma sonolência estranha; a vista escureceu, a cabeça girou e diante dela como que desceu uma cortina negra.
Instantes depois, perpassou-a a sensação de pairar sobre um abismo e, em seguida, ela perdeu os sentidos.
Ao abrir os olhos, soltou-se-lhe um grito de espanto.
O local lhe era totalmente desconhecido.
Encontrava-se semi-estendida numa grande poltrona de couro num quarto baixo com arcadas, parecendo subterrâneo, a julgar pela ausência de janelas.
Perto dela, sobre a mesa num candelabro, ardiam velas de cera, e um grande livro antigo escancarava-se diante de uma cadeira cinzelada com espaldar alto de couro.
Através de uma pequena e estreita porta sagitada, entrevia-se um segundo quarto com leito sob baldaquino.
Sem nada entender, Mila pôs-se a examinar sobressaltada o ambiente estranho; nisso, no limiar, assomou uma alta figura masculina, dirigindo-se a ela de braços abertos.
— Não fique com medo, Mila, você não corre nenhum perigo e está na casa do seu pai - disse ele, inclinando-se e beijando-lhe a testa.
— Pai, você mora aqui neste subterrâneo?
Mas me disseram que você estava morto.
Onde esteve todo esse tempo?
E por que está se escondendo?
Krassinsky deu um sorriso.
— Há muitas razões de ter acontecido o que aconteceu.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 16, 2016 7:58 pm

Com o tempo, minha criança, você saberá de tudo e só posso lhe dizer, por enquanto, que eu restabeleci contacto com você para cuidar de sua educação.
Você vive incompreendida na ignorância e sem protecção, cercada por gente hostil, a quem inspira medo e repugnância.
Entretanto, basta-lhe estender a mão e poderá conseguir tudo que desejar.
Você é jovem, bonita, rica, e o será mais ainda.
Você quer ser amada - o que é natural - mas alguns obstáculos tolos fecham-lhe o caminho para a felicidade.
Você quer se tornar minha discípula para aprender a comandar as forças ocultas e obter tudo o que deseja?
Mila o olhava em fascinação muda.
O pai parecia-lhe sedutoramente belo, apesar da palidez cadavérica e da chama estranha em seus olhos afundados.
O seu casaco longo de veludo negro e gola branca sobreposta conferiam-lhe a aparência de um alquimista medieval.
— Pai, você parece Fausto - comentou ela em tom indeciso.
Krassinsky soltou uma gargalhada.
— Absolutamente, ainda que em essência eu seja também um antepassado do grande feiticeiro - o senhor Tvardovsky.
E como você também é uma descendente indirecta dele, não pode continuar sendo ignorante em magia.
Está vendo este anel?
Ele estendeu a mão branca feito cera, em cujo dedo fulgia um anel mágico; Mila examinou-o com medo supersticioso.
— Pai, se você é de facto um feiticeiro, faça com que Massalítinov, o noivo de Nádya, por mim se apaixone.
Mas não quero que ele morra, como aconteceu com César Visconti, meu ex-noivo, cuja perda senti muito.
— Ele será seu, minha querida, e não vai morrer.
Mas você ainda não respondeu à minha pergunta:
você quer ou não ser a minha* discípula?
— Sem dúvida.
Quero aprender tudo o que quiser me ensinar.
— Excelente! Para iniciar, vou instruí-la a usar o anel, que coloquei em seu dedo quando você tinha adormecido no jardim.
Ele tomou o anel e mostrou-lhe onde se pressionava levemente o rubi, fazendo-se destacar de outro lado um finíssimo aguilhão penetrante.
— Quando você for estender a mão a um homem, cujo amor quiser conquistar, pressione levemente a gema.
A picada será quase imperceptível, mas a matéria contida na ponta da agulha de ouro se espalhará pelo corpo daquela pessoa.
O sangue lhe ferverá nas veias e ele será tomado por uma verdadeira paixão.
Mas não recorra a este expediente a toda hora, pois seu uso frequente numa mesma pessoa poderá levá-la à loucura. Entendeu?
—Sim, pai, serei cuidadosa.
Diga-me:
como você consegue viver neste subterrâneo sem ar, sem luz e sem comida?
Como você se alimenta?
— Fique tranquila, tenho tudo de que preciso.
Gostou do ar daqui?
— Gostei. Cheira a pinho, como se estivéssemos num bosque - avaliou Mila.
— Eis o meu bosque! - disse Krassinsky, apontando para um canto do salão subterrâneo, onde, numa mesa baixa, divisava-se um vaso de boca larga, por cima da qual jorrava pequeno chafariz de água esverdeada.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 17, 2016 8:20 pm

Além disso, por estar há tantos anos morando aqui sem ninguém, posso sair a qualquer hora para tomar ar puro e me aquecer ao sol.
— E onde é a entrada para cá?
Não me lembro como entrei.
Peguei no sono e acordei aqui.
— Você saberá, minha querida, depois de receber a iniciação, fazer o juramento e ser abençoada pela espada.
Você tem os meus olhos.
Sua mãe sempre foi uma mulher fraca e indecisa; é culpa dela por você ser tão infeliz.
Ouvisse os meus conselhos, ela estaria viva até hoje, cheia de força e beleza.
Você é mais sensata e logo fará parte de uma importante e poderosa comunidade, cujas ramificações cobrem o mundo inteiro.
Muitos dos seus membros são meus amigos pessoais e vêm me visitar.
Você ainda terá muitas oportunidades de conhecer os nossos irmãos e irmãs.
Sozinha você não vai se sentir, porém será a única a saber que muitos e muitos dignitários de reputação ilibada pertence à loja de Lúcifer.
Há-há-há! Oh, como esse mundo é estúpido!
Mais uma coisa:
a partir de hoje você não pode mais visitar o túmulo de sua mãe.
A alma daquela mulher rebelde e vingativa quer arrancá-la de mim e se interpor entre nós.
Por isso tome cuidado e não se envolva com ela, caso contrário, estará fadada a uma morte lenta e dolorosa por esgotamento de forças vitais, e disso você precisa para viver, amar e gozar dos prazeres.
E agora, minha criança, está na hora de voltar.
Ele ergueu a mão, nela girando algo parecido com pequena esfera brilhante e, como num sonho, Mila ouviu a voz imperiosa mandá-la de volta para o quarto, depois ela desmaiou.
Ao abrir os olhos, viu-se sentada na mesma poltrona; seu livro jazia no chão.
Sentia tanto esgotamento físico, que não conseguia raciocinar.
Arrastando-se até o leito, despiu-se com dificuldade e, mal caindo nos travesseiros, adormeceu um sono pesado.
Acordou bem tarde.
Recordava-se claramente de sua visita ao subterrâneo e do encontro com o pai, ainda que no primeiro minuto não tenha podido dar-se conta se aquilo havia sido real ou não passava de um sonho.
Súbito, lembrou-se do anel, e pôs-se a examinar sua parte interna.
A olho desarmado foi impossível achar seu aguilhão, e só depois de pegar uma lupa e pressionar a gema, ela o descobriu.
Com um sorriso satisfeito, ela enfiou o anel no dedo.
Não era um sonho...
Finalmente chegou o dia do baile.
Saíram todos antes do meio-dia, pois tinham duas horas de viagem, sem dizer que ainda teriam de descansar antes de começar a se vestir.
Mila estava furiosa com a frieza de Massalítinov e sua obstinação em evitá-la; em sua alma fervilhava uma vontade louca de se vingar.
Com a chegada da noite, as enfeitadas damas reuniram-se em torno da pequena gruta, iluminada por luz da cor de safira.
Assim que os fogos de bengala começaram a inundar com as torrentes multicolores as maravilhosas flores vivas, os espectadores reunidos tiveram um quadro realmente feérico.
Em seguida, o séquito liderado pela rainha das flores e sob os sons de música militar dirigiu-se ao salão de danças, organizado num vasto descampado provido de piso e coberto por lona listrada.
Lustres, candelabros e numerosos lampiões iluminavam aquele salão e as árvores em volta, embaixo das quais ficavam os bufês e pequenos pavilhões para descanso.
A noite era maravilhosa, aromática e estava quente como o dia.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 17, 2016 8:20 pm

Massalítinov estava simplesmente encantado com a formosura de sua noiva e, também, não deixou de perceber Mila, cuja beleza excêntrica produzira um verdadeiro furor entre os jovens.
— Está de papoula, quando deveria ter vindo de figueira-do-inferno - observou Vedrinsky.
Há algo de sinistro nessa mulher de olhos verdes e movimentos flexíveis de tigresa.
Reparou como ela não pára de olhar para você? - acrescentou ele.
Massalítinov deu de ombros.
— Não tema, não há perigo; ela pode olhar que não me tira pedaço.
Você tem razão, ela mais parece uma lagartixa, e pode até ser descortês da minha parte, mas não pretendo tirá-la para dançar hoje.
Mila não dava mostras de se importar que Mikhail Dmítrievitch não a tirava para dançar e mal conseguia atender aos convites dos cavalheiros a assediarem, se bem que, no íntimo, estava enraivecida.
Apesar de ter prometido não fazê-lo, Massalítínov acabou por convidá-la.
Ela o recebeu com um sorriso nos lábios e levantou-se.
Mal começaram a dançar, Mila arrancou da mão a luva verde de seda, propositadamente rasgada, e a atirou no chão.
— Esses rasgos já estão me enervando - disse rindo.
Quem disse que as luvas parisienses são as melhores?!
Em certo momento da dança, Massalítínov teve uma leve sensação de sua mão ser picada, a que ele não deu a mínima importância e, sem que se desse conta daquilo, por suas veias foi se espalhando um forte calor, o coração acelerou as batidas e, aos poucos, toda a fibra do seu ser estremecia e o sangue afluía torrencialmente à sua cabeça.
— Meu Deus, como o senhor está afogueado! - observou Mila, quando, após o término de uma figura de quadrilha, ele foi acompanhá-la ao seu lugar.
Também estou com calor.
Que tal tomarmos uma limonada? - acresceu, dirigindo-o ao bufê.
Lá havia muita gente e todas as cadeiras estavam ocupadas.
— Pegue uma garrafa e vamos ao jardim, onde encontraremos um banco vazio - sugeriu Mila, com ar inocente.
Sem nada suspeitar, Massalítínov pegou uma garrafa de limonada e seguiu sua dama; esta, quase em carreira, foi até as árvores meio afastadas, abaixo das quais um banco era iluminado por luz avermelhada de lampiões.
Mila encheu o copo e estendeu-o ao cavalheiro.
Seu olhar fosfórico, cheio de paixão, parecia devorar Massalítínov.
E, estranhamente, ele não sentiu por ela qualquer repugnância; ao contrário, seus olhos consumiam aquela jovem Circe postada diante, esbelta, flexível, airosa como borboleta, cuja cabecinha era encimada por basta coroa de cabelos dourados, entremeada de pétalas violetas e folhas verdes que, à luz do lampião, flamejavam feito ametistas e esmeraldas.
Mila revivia a mesma paixão tempestuosa que outrora lhe sugeria César Visconti e mal podia dominar a vontade de unir seus lábios aos do jovem hercúleo, respirando força e saúde.
Massalítinov estava em poder do feitiço.
Esqueceu-se de Nádya, do mundo inteiro e apenas via uma mulher encantadora a ele inclinada feito a materialização da própria sedução.
Quando Mila lhe estendeu o copo de limonada, ele o afastou e, ofegante, disse:
— Mila, a senhora está incrivelmente bela!
E, num átimo, buscou-lhe os lábios.
Feito serpentes, os braços alvos de Mila enrodilharam o pescoço do jovem.
Ela já não via nada e, literalmente, sorvia a respiração cálida de sua vítima.
Colada aos seus lábios num longo beijo extasiado, ela tampouco notou Massalítinov de súbito perdendo o viço e esmorecendo.
De cabeça girando, Mikhail Dmítrievitch não tinha forças para se desgrudar daqueles lábios sanguinolentos, aprisionado por seus olhos verdes esbugalhados.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 17, 2016 8:21 pm

Assim, ele perdeu os sentidos.
— Insana! Você vai matá-lo...
E uma sombra negra se destacou das folhagens escuras, agarrou Mila e separou-a de Massalítinov.
Inerte, este resvalou do banco para a terra.
Despertada como de um sono, Mila respirava de peito cheio, suas faces estavam incendidas e todo o seu ser tremulava de vida e força.
— Pai, é você?... - surpreendeu-se.
Só então ela reparou em Massalítinov, estendido inânime na terra, e assustou-se.
— Você quase o mata.
Não se pode abusar assim.
Quem quer desfrutar de seus prazeres deve ser moderado - admoestou Krassinsky.
E agora saia daqui.
Mila sumiu feito sombra.
Então Krassinsky abaixou-se de joelhos diante de Massalítinov e verteu-lhe na boca um líquido de um frasco tirado do bolso.
Erguendo em seguida o jovem, ele o sentou no banco, reclinou-lhe a cabeça no tronco da árvore e encostou a mão na sua testa.
— Durma por dez minutos e, depois de acordar, vá dormir em seu quarto.
Esquecerá tudo o que aconteceu antes do desmaio - ordenou em tom severo e imperioso.
Descerrando as mãos de Mikhail Dmítrievitch, ele esfregou-lhe as palmas com uma essência aromática e ocultou-se entre a folhagem à espreita do desfecho.
Minutos depois, Massalítinov abria os olhos que, errantes e embaciados, parecia não enxergarem nada.
Espreguiçando-se maquinalmente, o jovem endireitou os braços e orientou seus pés cambaleantes directamente ao aposento dos hóspedes, que dividia com Vedrinsky.
Caminhando feito autómato, Massalítinov não percebeu Mery Maksákova vindo de encontro.
A jovem dirigiu-lhe a palavra e, como não obteve resposta, notando o seu olhar estranhamente parado, ficou assustada.
— O senhor está passando mal, Mikhail Dmítrievitch? -tornou ela, elevando a voz.
Mas, nem desta vez Massalítinov parecia ter ouvido a pergunta, ou sequer sentido o leve esbarrão que dera nela sem intenção.
Mary o acompanhou com os olhos.
"O que está acontecendo com ele?
Há pouco estava dançando com Mila naquela empolgação... e agora se arrasta feito fantasma."
A simpática e boa moça atinou de imediato da necessidade de avisar seu primo.
Embrenhando-se na multidão dos convidados e, ao encontrar Vedrinsky, ela lhe comunicou o estado estranho do amigo.
— Meu Deus!
O que terá acontecido?
Vi Misha dançando com Ludmila Vyatcheslavna e depois ele sumiu; parecia estar bem e até muito alegre - observou Vedrinsky, assaltado por mau pressentimento.
Vou procurá-lo.
A senhora não viu para que lado ele foi?
— Estava indo na direcção da casa de hóspedes.
Vedrinsky agradeceu e correu ao aposento a eles reservado.
Ao acender a luz, viu Massalítinov dormindo sono forte na cama e surpreendeu-se com a palidez de seu rosto, olheiras e lábios azulados exangues, as mãos húmidas e frias.
E a alma de Vedrinsky indignou-se de ira, pois já era a segunda vez que ocorria semelhante caso com o seu primo, logo após ele dançar com Mila.
Após esfregar-lhe as mãos e as têmporas com água-de-colónia, Vedrinsky foi buscar um copo de vinho quente.
Já de volta, Massalítinov o encontrou sentado na beira da cama, cabisbaixo.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 17, 2016 8:21 pm

— Está doente, Misha?
Precisa consultar o médico.
Agora tome o vinho.
Você está parecendo um fantasma.
O que há com você?
— Nada. Sinto uma fraqueza estranha e muito sono.
É ridículo perturbar o médico agora.
Passe o vinho, talvez me ajude...
Já é segunda vez que isso me acontece. Estranho!...
— De facto, e sempre depois que você dança com aquela nojenta.
— Isso é um absurdo.
O que ela tem com isso?
É simplesmente meu estado de nervosismo, talvez eu tenha me excedido nas danças...
— Absurdas são as coisas que diz.
Um Golias como você não ficaria cansado por causa de algumas danças.
E outra coisa.
Agora vá se deitar e durma - disse Vedrinsky.
— Não, antes eu vou tranquilizar Nádya.
Ela ficará preocupada com a minha ausência; depois eu me desculpo e vou dormir.
A palidez de Massalítinov, surgido no salão de baile, espantou a todos.
Nádya, apreensiva com o seu aspecto, quis retornar imediatamente para casa, e o seu noivo teve muito trabalho em dissuadi-la disso, afirmando que aquilo não era nada e ele se sentia bem melhor; ademais, ele tomaria um calmante e iria dormir - uma solução bem mais razoável do que empreender uma viagem de duas horas, sacolejando no coche.
Isso não diminuiu a preocupação de Nádya.
Um velho médico, amigo da casa, prontificou-se a examiná-lo e seguiu Mikhail Dmítrievitch até o quarto.
Após o atento exame, o médico balançou a cabeça.
— Não entendo todo esse seu súbito esgotamento.
Receitou-lhe tomar uma caneca de sumo de carne, comer alguns ovos quentes e um copo de vinho de quinina.
Para a noite, mandou preparar e deixar junto à cama dele uma jarra de leite com conhaque, em caso de ter sede.
Ao deixar o quarto com Vedrinsky, o médico comentou em tom preocupado:
— Devo lhe dizer, Gueorgui Lvóvitch, que o estado do seu primo inspira cuidados; o coração dele está fraco e eu vou lhe dar um remédio da minha farmácia portátil para restabelecer a actividade cardíaca; no mais, conto com a compleição forte de Mikhail Dmítrievitch.
Em minha longa prática, jamais vi um caso igual.
Vedrinsky foi pedir à dona da casa para preparar um sumo de carne e, como a irmã dela também se tratava com esse extracto, havendo inclusive uma prensa na casa, um quarto de hora mais tarde Massalítinov sorvia gulosamente o sumo cárneo, depois o vinho e, servido de três ovos quentes, anunciou estar se sentindo revigorado.
Por insistência do amigo, Massalítinov tomou o remédio e adormeceu sono forte e sadio.
Nádya, cuja diversão estava estragada, não quis mais dançar.
Ao contrário, Mila, bailando sem parar, parecia mais activa e animada que de costume.
Nádya pegou sua mãe pelo braço e a levou ao balcão, naquele minuto praticamente vazio; só num canto oposto dois hóspedes bebericavam vinho jogando xadrez.
Zamyátina e a filha sentaram-se à mesinha do terraço.
— Mamãe, vamos sair daqui amanhã bem cedo - suplicou Nádya, nervosa.
Não quero ficar aqui para o segundo baile.
E não é só: quero deixar Gorki definitivamente.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 17, 2016 8:21 pm

O lugar me dá nojo e não consigo mais ver essa repugnante Mila.
Ela só traz desgraças.
Nas duas vezes em que ela dançou com Michel, ele passou mal.
E não suporto também a senhora Morel.
Essas duas não têm nenhuma importância para nós, sequer são amigas próximas, mas se enfiaram na nossa família com uma falta de cerimónia inaudita e já há quase duas semanas nem se mexem do lugar.
Partiremos, mamãe, eu lhe suplico; o papai também ficará feliz com a nossa ida.
Em sua carta, ele diz estar triste e com saudades e, aparentemente, deve estar enfrentando alguns problemas nos negócios.
Zoya Ióssifovna ouvia meditativa.
— Concordo, querida.
Também quero sair daqui.
Amanhã vou escrever uma carta ao seu pai, pedindo para arrumar a nossa dacha, a meia hora apenas de Kiev.
Será bom para ele e para nós, pois não precisaremos ficar enclausurados na residência de inverno.
— Claro, mamãe. Obrigada, obrigada.
Lá é maravilhoso e poderemos ficar até outubro.
Quando partiremos?
O professor partiu e estamos livres.
— Provavelmente no fim da semana, ou seja, daqui a cinco dias, se até lá fizermos as malas - respondeu Zoya Ióssifovna.
-Essas histórias de Ivan Andréevitch mexeram com os meus nervos.
Agora, com a chegada das noites longas e escuras, tenho medo de ficar na enorme casa.
Nas últimas noites, tenho escutado alguém andar ou correr descalço pelo corredor que leva ao antigo quarto de Marússya...
A conversa das duas foi interrompida pela chegada de Vedrinsky, noticiando o facto de Massalítinov estar melhor, ter comido e estar dormindo sono forte.
— É a segunda vez que lhe acontece isso depois de dançar com mademoiselle Mila.
Mas, por que só ele?
Eu já dancei com ela e não senti nada de estranho.
Provavelmente a natureza vampírica daquela moça não tem um efeito igual sobre os demais - arriscou Gueorgui Lvóvitch.
— É terrível que possam existir pessoas tão maléficas, - observou Nádya.
Ainda que seja egoísta e até desumano da minha parte, mas eu peço a Deus que aquele vampiro escolha outra vítima, e não o meu Michel, e o deixe em paz - completou ela.
A propósito, Gueorgui Lvóvitch, quem é aquele jovem oficial que não parou de flertar com Mila?
Ele não se afastou dela e, aliás, Mila parecia gostar disso.
É a primeira vez que eu o vejo; ele foi-me apresentado, mas esqueci-lhe o nome.
— É o conde Adam Bélsky.
Acabou de ser transferido ao destacamento próximo, e eu também o conheci agora.
Ele se formou no corpo de pajem imperial e era para servir na guarda, mas como a sua mãe tem três grandes propriedades por aqui, praticamente morando numa delas, Adam optou por servir no destacamento local.
Não notaram uma senhora de saia lilás com rendas, e diadema de ametista e brilhantes?
E a condessa Bélskaya - mãe de Adam - explicou Vedrinsky, levantando-se e oferecendo a mão para Zamyátina, pois vieram anunciar o jantar.
No dia seguinte, logo após o desjejum, malgrado as insistências dos Maksákov, os Zamyátin, Vedrinsky e Massalítinov partiram.
A senhora Morel e Mila renderam-se aos clamores dos anfitriões e ficaram para o segundo baile.
Mikhail Dmítrievitch estava recuperado e desjejuara com um apetite invejável.
O médico considerou sua actividade cardíaca restabelecida.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 17, 2016 8:21 pm

Ao retornarem a Gorki, Zoya Ióssifovna e a filha puseram-se a fazer as malas, ávidas em deixarem aquele lugar.
Só dois dias depois Ekaterina Aleksándrovna e Mila retornaram; ambas no melhor de seus humores.
A senhora Morel não cabia em si de felicidade ao relatar a Zamyátina a conquista do jovem conde Bélsky por Mila.
— Ele está caído por ela.
Até a mãe dele a adorou.
Fomos à casa da condessa e ali passamos um dia inteiro.
É um verdadeiro palácio.
O comandante do destacamento me disse que os Bélsky são milionários.
Isso, é claro, não me impediu de lembrar à condessa que só Mila tinha quarenta e cinco mil de renda - o que a tornava um excelentíssimo partido.
— Felicito-a, cara Ekaterina Aleksándrovna, pela conquista lograda; agora a senhora ficará mais tranquila pelo futuro dela, pois com certeza ela encontrará a felicidade com um marido tão belo e sedutor - observou a senhora Zamyátina.
A conversa logo convergiu para a discussão dos aspectos administrativos da casa, visto a iminência de seus anfitriões deixarem-na.
— E claro que podem ficar aqui o quanto quiserem; tanto a casa na ilha como esta ficam à sua inteira disposição - assegurou Zoya Ióssifovna.
Já expedi as devidas ordens para que as senhoras tenham todas as comodidades.
A velha Aníssya é excelente cozinheira, portanto ficarão bem servidas.
— Agradeço, agradeço, a senhora é tão gentil, mas pretendemos ficar na ilha.
Sinto-me muito bem por aqui e até me surpreendo com a pressa de todos em deixar este paraíso.
O tempo está excelente, o lugar é maravilhoso e a senhora bem que poderia ficar por mais um mês.
— Oh, não gosto daqui e estou feliz em partir - sustentou Zamyátina.
Ekaterina Aleksándrovna sorriu maliciosamente.
— Eu sei quem lhes sugeriu tanta aversão a Gorki.
É o almirante.
Mas que disposição em ouvir essas tolices!
Ele é um neuropata, pois ouvi dizer que Ivan Andréevitch ficou internado num sanatório espírita - o que para nós equivale a um manicómio.
— Quanto a isso, a senhora está mal informada.
O meu marido é amigo de infância do almirante e lhe conhece toda a vida.
Ele jamais esteve em qualquer sanatório, pois sua saúde sempre foi óptima.
— É possível que desta vez eu esteja enganada.
Quanto às suas incríveis histórias sobre a morte da pobre Marússya, estas não merecem nenhum crédito.
Desde já devo lhe adiantar que Ivan Andréevitch a amava com paixão e tinha ciúmes de todos, excepto de Vyatcheslav - manifesto, é claro - por isso esgotava toda a sua bílis acumulada em Turaev - o primeiro que apareceu, e inclusive no pobre Casimiro - o médico de Krassinsky e meu desafortunado noivo.
Ele odiou-o e, Deus que me perdoe! - atribuía-lhe os mais diversos crimes.
Já naquela época, ele era supersticioso feito camponesa velha.
Quando, depois daquele terrível acontecimento, Vyatcheslav ressuscitou graças ao conhecimento e lealdade de Krassinsky, Ivan Andréevitch voltou-se contra o amigo sem qualquer razão.
Não sei o que aconteceu entre eles, mas o relacionamento entre os dois tornou-se frio e, quando ele retornou logo após o nascimento de Mila, fez um verdadeiro escândalo; estando Vyatcheslav ausente, raptou a jovem que estava desfalecida.
Devo dizer que Marússya nutria uma paixão louca pelo marido e, naquele dia, debilitada e talvez arrependida pela fuga inconsequente, quis voltar para casa onde sua filha ficou sozinha.
Como veio a se afogar, isso ficará para sempre inexplicável:
teria tropeçado ao tentar fugir da perseguição ou estava com febre e se afogou em delírios - isso só Deus sabe!
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 17, 2016 8:21 pm

Numa coisa eu tenho certeza:
em toda essa triste história e, sobretudo, na morte de Marússya, o único culpado é o almirante.
Zamyátina ouvia com bastante frieza e, aparentemente, indignou-se pelas acusações contra o velho amigo da casa.
— A senhora está sendo demasiadamente severa com Ivan Andréevitch - observou.
Há muita coisa obscura nessa história; tomemos, por exemplo, o sumiço de Vyatcheslav Turaev.
Para onde ele foi?
O almirante não podia tê-lo raptado, pois se encontrava à beira da morte.
— Desculpe se a melindrei, não era a minha intenção - justificou-se a senhora Morel.
Quanto ao sumiço de Vyatcheslav, estou convicta de que ele foi assassinado.
Pavel Pávlovitch afirmou-me naquela época que Vyatcheslav havia viajado a Kharkov para receber uma grande quantia de dinheiro; possivelmente no caminho de volta ele foi assaltado, morto e enterrado, e o crime até hoje não ficou esclarecido.
Mas se o almirante não tem nada com a morte de Turaev - e ela deu um sorriso azedo -, ele é o responsável pela má fama de Gorki, em particular da fascinante dacha na ilha, conspurcada de modo abjecto com as suas baboseiras.
Estou ali hospedada há três semanas e nada de estranho ouvi ou senti, nem sequer vi a ponta do rabo do capeta.
O que eu não teria dado para vê-lo!
E ela soltou uma risadinha.
Esses criados medrosos são engraçados.
Imagine: o velho Akim só vem trabalhar de manhã, à tarde vai embora e por nada o velho turrão concorda em pernoitar na ilha.
Certa vez à tardezinha, ouvi um uivo de cão no mato, por certo trazido por algum jardineiro e esquecido na ilha.
E a senhora sabe o que me disse aquele excêntrico?
Que ele não podia afugentá-lo por não se tratar de animal vivo, mas do fantasma do poodle de Marússya, e que aquele cachorro sempre aparecia antes da morte de alguém.
Eu não sabia o que fazer:
rir ou ficar brava com aquelas asneiras, mas depois concluí que o velho estava bêbado.
Mais tarde, vi esse cão com meus próprios olhos.
Era de facto um poodle preto que corria ao longo do terraço com cabeça baixa como que cheirando algo, o rabo entre as pernas.
Não longe de mim, ele parou e começou a cavar a terra com as patas; mas era um cachorro absolutamente comum, e quando eu nele atirei um livro, ele fugiu e eu não mais o vi.
Aqui as superstições parecem pairar no ar, e as coisas mais simples transformam-se em enigmáticas, os cachorros viram fantasmas, os corvos - capeta transmutados.
Há-há-há! Por sorte, eu e Mila somos pessoas bem racionais...
— Seguramente há muito exagero nessas conversas, mas se as duas gostam tanto daqui, fiquem à vontade - considerou em tom amistoso Zamyátina.
— Sem dúvida aproveitaremos de sua gentileza, pois o clima daqui faz bem à minha pobre Mila.
Não a lembro tão viçosa e alegre como agora, e seus frequentes desmaios praticamente cessaram.
Em outubro estaremos em Kiev, a tempo de ir ao casamento de Nádya, e lá passaremos o inverno.
Quero ver Mila se divertindo.
Os jovens necessitam de movimento e, até hoje, ela tem levado uma vida monótona, sobretudo depois da morte do seu noivo, o conde Visconti.
No decorrer dos dias restantes a antecederem a partida dos Zamyátin, Mila evitou judiciosamente Mikhail Dmítrievitch que, a despeito de não se lembrar do acontecido no jardim dos Maksákov, andava agitado e mal-humorado.
A imagem de Mila não lhe dava trégua e dois sentimentos contraditórios nele se enfrentavam: um - hostil, dela o repelindo; outro - de atracção, misto de uma paixão surda, puramente animal.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 17, 2016 8:22 pm

Havia momentos quando ele era assaltado de vontade incontrolável de possuir aquela mulher esbelta e frágil de olhos de sereia, cuja cabeleira dourada reverberava em chispas.
Seguia-se, então, um sentimento de repulsa.
A flexibilidade de seu corpo lembrava-lhe uma serpente; os olhos verdes - uma pantera, ou outro predador; os cabelos ruivos o enojavam.
Tais emoções dúbias o atormentavam.
Desde o seu último desmaio, ele se tornara sombrio, pensativo e pouco comunicativo.
Finalmente chegou o dia da partida e, após um desjejum reforçado, os viajantes tomaram o assento no coche e se dirigiram à estação de trem.
Mila e Ekaterina Aleksándrovna fizeram questão de acompanhá-los e, para grande surpresa da Zamyátina, na estação por eles esperavam a família Maksákov e muitos outros vizinhos, incluindo o jovem conde Bélsky, trazendo convite da mãe para Mila e senhora Morel, para passarem na casa deles por um ou dois dias antes de retornar à casa vazia.
Uma vez que a bagagem fora expedida na véspera, os viajantes não estavam atados a nada e passaram agradavelmente uma hora inteira, palreando alegres.
Na estação, Vedrinsky cuidou para que o primo não ficasse sozinho com Mila, cujos olhares, de quando em quando, estacionavam, qual água na poça, em Massalítinov e, nesse intervalo de tempo, o rosto dele imediatamente se tornava inerte, o olhar turvava-se e ele passava nervosamente a mão pela testa.
Então Gueorgui Lvóvitch encetava uma conversa com ele, fazia-o caminhar, cortando assim os efeitos hipnóticos.
Em certo momento, ele a mediu com tanta severidade que ela se encolheu acabrunhada.
Por fim, os afortunados viajantes entraram no vagão e o trem partiu.
Nádya se persignou.
— Graças a Deus, estamos deixando este lugar amaldiçoado - pronunciou.
Juro não pôr mais os pés aqui e pedirei ao papai vender Gorki.
Talvez Mila queira comprar a propriedade, já que ambas gostam tanto.
— Sim, ela é antipática em todos os sentidos.
Estou feliz em não vê-la mais, nem Gorki.
Até eu tomei nojo deste lugar - observou Mikhail Dmítrievitch.
Voltara-lhe o seu bom humor habitual; ele ria, brincava e prodigalizava atenção a Nádya.
Ela estava feliz e expressou, a propósito, suas preocupações quanto ao seu estranho estado doentio.
— É verdade, tenho me sentido mal ultimamente e ando com a impressão de ter uma teia no rosto.
Às vezes até para respirar era difícil e minha visão parecia embaçada - comentou Massalítinov.
Agora estou como que aliviado de enorme peso - acresceu.
Com a chegada da noite, os cavalheiros se retiraram ao seu camarote e todos logo adormeceram.
No meio da noite, Vedrinsky acordou inquieto:
havia tido um sonho em que o almirante o estava sacudindo pelos ombros.
Como a impressão era tão viva, o jovem sentou-se na beira do leito e sondou em volta à procura de Ivan Andréevitch.
A visão do camarote o fez voltar à realidade e ele deitou-se de novo, quando ficou estremecido ao ouvir um suspiro pesado.
Forcejando a vista sobre o amigo no leito, reparou que ele se virava muito e gemia.
"Deve ser pesadelo"- pensou Vedrinsky, levantando-se para melhor examinar o primo, já que uma cortina azul obscurecia a lâmpada na parede.
Massalítinov, deitado de costas parecia sofrer.
Dos lábios semicerrados soltava-se-lhe uma respiração sibilante, sua mão estava húmida e fria, a testa transpirava.
Gueorgui Lvóvitch ficou alarmado.
Lembrou-se então do anel misterioso consigo, achado no escrínio do mouro, por ele considerado mágico.
Instruído pelo almirante, ele havia decorado os dizeres em árabe em torno do anel.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 17, 2016 8:22 pm

Como a situação lhe parecia difícil, decidiu recorrer ao poder dele e, erguendo a mão e dirigindo a gema para o amigo dormindo, pronunciou a fórmula mágica em árabe, cujo sentido desconhecia.
Imediatamente viu Massalítinov soltar um forte gemido, premendo as mãos contra o coração.
Sobressaltado, Vedrinsky abriu o nécessaire, tirou um frasco de vinagre de toalete e pôs-se a esfregar as têmporas e as mãos do amigo.
Um minuto depois, este abriu os olhos e sentou-se.
— Oh, Jorj, como lhe fico agradecido por ter me despertado.
Tive um pesadelo medonho.
— Você gemia tanto, que me acordou. Qual foi esse pesadelo medonho?
— Uma coisa absurda.
Sonhei que acima de mim giravam duas esferas verdes, chispando faíscas que me penetravam feito alfinetes, fisgando o coração.
Sentia-me sufocando e achava que ia morrer; a impressão era de que algo me sugava o sangue.
Estou exausto.
Pegue no saco de viagem uma garrafa de vinho e me dê um copo.
Gueorgui Lvóvitch abriu o saco e lhe deu meio copo de vinho madeira, ofereceu ainda um pedaço de frango assado, que Massalítinov comeu com grande apetite.
— Escute, Misha - disse Vedrinsky, cortando-lhe em seguida um avantajado pedaço de torta salgada - prometa-me consultar um bom médico em Kiev.
Não se pode permitir tais crises.
E não se esqueça de que você está com casamento marcado.
É melhor prevenir do que remediar.
— Tem razão, Jorj.
Vou falar com o doutor Ivanov.
Não sei o que está acontecendo comigo.
Jamais houve algo parecido em minha vida.
Eu sempre tive saúde perfeita e os médicos me comparavam a um carvalho jovem.
Sim, sim, preciso me tratar.
Em Kiev, Zamyátin recebeu a família na estação e todos seguiram à dacha, já totalmente arrumada.
Saltou aos olhos o aspecto de Filipp Nikoláevitch, sempre tão alegre e comunicativo: estava mais magro, encurvado, e parecia preocupado com algo.
Apesar disso, a vida na dacha logo ganhou animação, como era a marca da casa dos Zamyátin; sucederam-se muitas idas a Kiev, e as reuniões e os piqueniques não paravam.
Ademais, os preparativos com o enxoval ocuparam os pensamentos de Nádya, feliz por estar no ambiente habitual.
Massalítinov se recuperou por completo e não se repetiram mais aqueles sintomas alarmantes, mesmo assim Vedrinsky ficou atento à saúde do primo.
Ao mesmo tempo em Gorki, Ekaterina Aleksándrovna e Mila também não podiam se queixar da solidão:
além de visitar vizinhos, elas recebiam em casa.
A dacha na ilha jamais viu tanta animação durante todo o seu tempo de existência.
O conde Bélsky era uma visita assídua, e a senhora Morel recebia-o de braços abertos, ambicionada pelo desejo de ele se unir a Mila; esta, porém, não estava inclinada a isso, ainda que tratasse com benevolência e gostasse da companhia do jovem conde, sobejando daquela vitalidade, tão a gosto de Mila.
Bélsky era um jovem de vinte e dois anos, alto, forte e rosado qual um moço de campo, personificando força e saúde.
Mila apreciava estas qualidades, conversava e dançava com ele de bom grado, mas o conde Adam não era o herói de seus sonhos.
Ela ansiava por Massalítinov.
E não era porque ela o achasse mais belo; seduzia-a o especial prazer de arrancá-lo da odiosa Nádya, a quem não podia perdoar o facto de ser ela a noiva de Massalítinov e, o que é pior: por ele amada.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 17, 2016 8:22 pm

Também Mila não conseguia esquecer a indiferença e a frieza com que era tratada.
Uns dez dias depois da partida dos Zamyátin, certa noite Mila estava sozinha no quarto; Ekaterina Aleksándrovna deitou-se mais cedo por causa da dor de cabeça.
Mila tentou ler, mas seus pensamentos estavam longe - em Kiev.
Ficava enraivecida com a ideia de que naquela hora Massalítinov se divertia na intimidade de sua rival.
E o pai, que prometera iniciá-la em mistérios, ajudá-la e trazer de bandeja o homem amado logo que os Zamyátin tivessem partido?
Passada uma semana ou mais, nenhuma notícia dele.
Seu rancor ia se avolumando, quando, absorta em pensamentos sombrios, dela apoderou-se uma sonolência, seguida por uma espécie de síncope...
Recobrada, Mila se viu novamente no subterrâneo, semi-estendida na poltrona e, ao seu lado estava o pai, tocando-lhe a testa com frios dedos delgados.
— Enfim você acordou, pequenina.
Tome isso primeiro e depois conversaremos - disse Krassinsky, estendendo-lhe um copo com líquido rosado.
Mila obedeceu, e um calor agradável espalhou-se-lhe pelas veias.
— Obrigada, papai.
Seu remédio deixou-me melhor.
E já achava que você tinha se esquecido de mim.
Krassinsky sorriu.
— Oh, não!
Não a esqueci; apenas a fiquei observando de longe e posso dizer que estou contente com sua discrição quanto a não comentar nada sobre o nosso encontro a Katrin.
Por outro lado, cheguei à conclusão de que você jamais será uma grande feiticeira; falta-lhe aquilo, muito necessário...
Bem, isso não é o fim.
A magia negra superior, minha filha, é uma ciência complexa e exige muita dedicação e sacrifícios.
Bem, isso não importa, pois ainda assim poderá realizar muitas coisas, quando eu abastecê-la de ajudantes activos e argutos, a quem basta ordenar.
Mas para receber o prometido, você deverá servir à nossa irmandade, senão... nada feito.
Entende? Uma mão lava a outra.
— Entendo, papai.
Não existe nada de graça.
E o que deverei fazer para servir à irmandade e obter sua protecção?
— Seus serviços serão exigidos à medida da necessidade, mas disso falaremos depois.
Diga-me:
você sabe e gosta de rezar?
Sua fé é forte?
— Não! - fez Mila, com indiferença.
Jamais alguém me educou na religião.
Minha mãe adoptiva não crê em Deus e refuta qualquer participação divina na vida humana.
Nunca me ensinou a orar, ainda que - é verdade - não me impeça de respeitar os rituais religiosos, pelos quais também não tenho interesse.
Não entendo muita coisa disso e tampouco sei rezar.
O cheiro de ládano me dá enjoo e me arrepio toda vez que ouço ou vejo algo desconhecido, principalmente sobrenatural.
— Nada tema, nada a assustará.
O medo é uma fraqueza espiritual e nós temos um recurso certo contra este defeito.
Agora, nunca se esqueça:
Katrin jamais poderá saber de nossos encontros.
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Re: Conde J. W. Rochester - A Filha do Feiticeiro / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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