A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

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A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 13, 2016 9:31 am

A SAGA DE UMA SINHÁ
Maria Nazareth Dória

Luís Fernando (Pai Miguel de Angola)

Sinhá Margareth tem um filho proibido com o negro António.
A criança escapa da morte ao nascer.
Começa a saga de uma mãe em busca de seu menino.
Um novo sinhozinho assumiu os negócios daquela fazenda no Brasil - colónia.
Trouxe consigo Margareth, a esposa delicada vinda da Europa, meiga e sensível.
O jovem negro Miguel, que a todos os movimentos da casa acompanhava com atenção e humildade, previa tempos difíceis naquela propriedade, inclusive para a sinhazinha.
As previsões de Miguel estavam corretas.
O sinhozinho, homem devasso e inescrupuloso, obriga a jovem Margareth a ter uma aproximação íntima com o negro António, que servia dentro da casa como ajudante geral.
Começam aí o drama e a saga da sofrida sinhazinha.
Dessa relação nasce o pequeno Frederico, bebé que consegue escapar da morte graças a uma fuga espectacular organizada por Miguel, avó Joana e o velho Zacarias.
Muito tempo vai se passar até que a sinhazinha Margareth volte a ter alguma notícia de seu filho.
Teria ele sobrevivido?
Seria possível um reencontro?
Como ficaria a situação dos escravos naquela fazenda após tanto tormento?
O final desse enredo será surpreendente.
Esta é a história real que o espírito Luís Fernando, nosso Pai Miguel de Angola, nos conta agora com a emoção de quem viveu minuto a minuto cada facto de um tempo já distante, mas que marcou profundamente a memória e a evolução de cada espírito ali reencarnado.
Hoje um espírito iluminado, Luís Fernando, por intermédio da psicografia de Maria Nazareth Dória, vem trazer a todos nós exemplos de humildade e resignação que abrirão nossos caminhos rumo a um mundo melhor, com mais fraternidade e paz, acima da cor da pele ou da classe social.
Afinal, todos somos filhos de Deus.
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Ave sem Ninho

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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 13, 2016 9:31 am

A médium Maria Nazareth Dória nasceu no dia 28 de fevereiro em Canhoba, no interior do estado de Sergipe, mais precisamente em uma aldeia indígena.
Lá permaneceu até os 9 anos de idade, quando foi matriculada em um colégio interno de freiras na capital, Aracaju, completando seus estudos até o segundo grau.
Aos 17 anos, casou-se e mudou-se para São Paulo.
Teve duas filhas.
Nesse período, deu sequência aos estudos e iniciou sua carreira profissional, trabalhando durante 30 anos, dos quais 22 como funcionária da Petrobras, empresa pela qual se aposentou.
A mediunidade de Maria Nazareth Dória se manifestou desde cedo, por volta dos 7 anos.
Sendo descendente de índios, Nazareth sempre foi orientada sobre a existência da vida espiritual e a importância da natureza em nossas vidas, sobretudo no campo da medicina alternativa.
Graças a esse aprendizado, Maria Nazareth Dória tem se dedicado hoje exclusivamente às actividades espirituais e à pesquisa de plantas medicinais, obtendo excelentes resultados alternativos com essências naturais.
E fundadora e dirigente de instituição sem fins lucrativos há 15 anos, atendendo e orientando centenas de pessoas (inclusive jovens), contando com o apoio de médicos, dentistas, advogados, enfermeiras, psicólogos e professores.
O atendimento à população carente estende-se em diversas áreas, do apoio às necessidades básicas da família até o trabalho de afirmação de cidadania daqueles que vivem à margem da sociedade.
Além das actividades filantrópicas, Maria Nazareth Dória ministra cursos e palestras sobre a Doutrina Espírita e exerce sua mediunidade há mais de 30 anos, psicografando diversos romances sobre o mundo espiritual, mensagens de auto-ajuda e pensamentos espirituais notadamente sob a óptica da Lei de Acção e Reacção, um dos pilares básicos dos ensinamentos trazidos pelos amigos do Além que trabalham com a médium.

Dedicatória
Dedico este livro ao maior tesouro que possuímos na Terra: a família.
Aos estudantes da espiritualidade que são todos irmãos e médiuns.
Aos editores das obras psicografadas e aos nossos queridos leitores.
LUÍS FERNANDO (PAI MIGUEL DE ANGOLA)


Sumário
Uma palavra da autora
Apresentação - Bate-papo com Pai Miguel

Capítulo I - O cenário da fazenda
Capítulo II - Mudanças à vista
Capítulo III - Humilhações
Capítulo IV - Segredos
Capítulo V - Saindo da tormenta
Capítulo VI -S urge o administrador
Capítulo VII - Um dia após o outro
Capítulo VIII - Novo plano em acção
Capítulo IX - A viagem
Capítulo X - A chegada de um novo senhor
Capítulo XI - A vida livre
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Ave sem Ninho

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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 13, 2016 9:31 am

Uma palavra da autora
Para falar de amor, e confortar nossas almas, Luís Fernando novamente nos presenteia com mais uma de suas benditas obras.
Neste livro, podemos e devemos pesquisar cada detalhe por ele narrado; só assim vamos nos conscientizar da grandeza de Deus em conceder aos encarnados a grande oportunidade de evoluírem através dos seus mestres espirituais (nossos mentores).
Os espíritos de luz nunca param de evoluir, estão sempre aprendendo e nos ensinando.
As obras de Luís Fernando, que carinhosamente chamamos de Pai Miguel de Angola (nome que lhe foi dado em cativeiro), não estão unicamente em minhas mãos, mas nas mãos de muitos filhos de Deus, espalhados pelos quatro cantos do mundos Para qualquer médium, trabalhar em sintonia com este grande cientista do espaço é uma bênção, uma honra.
Humildemente ele se identifica entre nós apenas como um "Negro Velho" chamado Pai Miguel de Angola.
Na sua obra Lições da Senzala, nosso Pai Miguel abriu uma porta da espiritualidade, mostrando momentos vividos por irmãos que hoje podem viver lado a lado connosco, passando naturalmente por outros obstáculos, mas longe das correntes e dos troncos.
Hoje sofremos outras pressões, que não são mais dos "senhores das casas-grandes", mas de uma política mal administrada que nos leva a um tipo diferente de escravidão.
Temos a ilusão de sermos livres, mas na verdade ainda somos cativos de um sistema deficiente na distribuição de renda, e nada para o trabalhador é facilitado.
É o espírito de luta e liderança que nos faz vencer tantos obstáculos!
Nascidos num planeta abençoado, como é a nossa Terra, em hipótese alguma poderíamos ver irmãos morrendo de fome e de sede.
Todos deveriam receber instruções para aprender a fazer do mundo um lugar melhor para todos; infelizmente, padecemos pelo egoísmo de alguns, que lucram com a falta de educação dos desfavorecidos.
Os Mestres que passam por este planeta deixam ensinamentos de alto nível.
Se hoje não somos um planeta justo em educação, medicina, saúde e fé, a culpa é do próprio homem; não podemos negar o que recebemos diariamente do grande Pai.
Esse vaga-lume chamado Pai Miguel de Angola vem pedindo passagem em nossos corações, vem semeando o seu amor em forma de luz e de esperança.
E muitos outros mestres, que também estão encarregados de levar ao mundo inteiro o Evangelho de Cristo.
Vamos mais uma vez ouvir os relatos do nosso amado Pai Miguel, e fazer nossas reflexões a respeito da vida de nossos ancestrais e nossa vida de hoje.
Em que evoluímos? O que perdemos?
O que aconteceu no Brasil e no mundo com o fim da escravatura?
A escravidão acabou mesmo?
Os nossos sofrimentos continuam.
Porém, olhando para trás, descobrimos que nossos antecessores lutaram e sofreram muito para nos deixar novos caminhos abertos.
"Para entender nossos caminhos de hoje, é necessário uma compreensão maior dos esforços dos nossos antecessores."

MARIA NAZARETH DÓRIA
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 13, 2016 9:31 am

Apresentação
BATE-PAPO COM PAI MIGUEL
Nossa Senhora do Brasil, que é a mesma mãe de Jesus em todas as Nações, abençoe vocês meus filhos.
Adoro esta palavra: "FILHOS"...
Fico imaginando Deus nos chamando de filhos. Eu, pobre pecador, sinto minha alma estremecer de emoção quando ouço o som da minha própria voz pronunciando a palavra filho, imagino DEUS!
Alguns filhos podem ter tomado um susto com essa minha colocação: minha alma?
Ele não é uma alma?
Sou, meus filhos, uma alma liberta da carne, mas continuo sendo uma alma ligada à outra grande ALMA:
Nosso Pai Criador! Nunca vamos deixar de existir e ter essa Alma Santa por nós.
Amo e perpetuo a mãe de Jesus, mãe única de todas as mães, de todos os pais, de todos os filhos.
E por onde passo cumprimento, sempre louvando as Nossas Senhoras de todas as Nações.
Cada país tem a sua santa mãe guiando a nação, sustentando em seus braços todos os filhos de Deus.
Ligada a todas as santas está Nossa Senhora Maria, a mãe de Jesus.
Maria, mãe de Jesus, meus filhos, desceu do céu trazendo-0 dentro de si.
Explico melhor para vocês entenderem: é como se vocês preparassem um altar colocando uma vela num ponto, para no momento certo acendê-la.
Assim, muitos espíritos de luz desceram, e continuam descendo à Terra, cada um trazendo seus mistérios e missões, que em dado momento o anjo do Senhor vem e acende a luz que já estava ali.
Maria não se fez mãe de Jesus em Terra, ela sempre foi e por todo tempo será Sua mãe, assim como mãe de todos os filhos de Deus.
No livro baptizado (tudo que criamos pela vontade de Deus deve ser baptizado em Seu Santo Nome), como Lições da Senzala, eu falei muito de mim; talvez tenha sido até egoísta, mas foi bom e proveitoso colocar para fora da minha alma as verdades com que acredito ter ajudado outros filhos de Deus a ter paciência e continuar lutando pela sua liberdade espiritual.
Vocês que leram Lições da Senzala são sabedores de que naquele tempo fui o escravo Miguel e caminhei pelos arredores das fazendas dos meus senhores, como escravo de aluguel.
Ouvia histórias aqui e ali, e cada irmão tinha o seu sofrer.
O sofrimento de cada um era como uma cruz:
não tínhamos como carregar um pelo outro, porque a cruz de cada um pesava, mas trazia conforto quando descobríamos que existiam cruzes mais pesadas que a nossa.
Agora, tomo a liberdade de contar a vocês mais um pouco de uma realidade que já se passou, mas que deixou cicatrizes que ainda são profundas; tanto que ainda acompanhamos, entre brancos e negros, histórias semelhantes de tristezas e de horror envolvendo as pobres e indefesas crianças.
Todas as histórias que vou contar a partir de agora não são invenções nem minhas nem do médium; foram factos reais, que aconteceram, e graças a Deus já passaram!
As tristezas que vocês conhecerão me fizeram chorar muito, porém nunca desisti de ter fé.
Como me valeu ser o escravo Miguel!
Eu faria e passaria por tudo novamente, se assim se fizesse necessário.
Aprendi a compreender a mim mesmo e aos outros.
Descobri o verdadeiro amor que nos une ao Pai!
Aprendi tantas coisas boas e necessárias - como este exemplo: PERDOAR!
Cada passagem dessas histórias foi um acontecimento verdadeiro; pesquisem e analisem cada palavra deste Pai que ama vocês.
Se Deus permitir, onde houver espaço e oportunidade eu levarei verdades e mais verdades, não no sentido de fazer vocês sofrerem, mas no sentido de despertar em cada um a fé e a esperança de um Deus justo, que só quer o nosso bem.

PAI MIGUEL DE ANGOLA
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 13, 2016 9:32 am

Capítulo I - O cenário da fazenda
Sentado em sua confortável rede, com a cabeça pendida para um lado, amparado por uma almofada de penas de ganso, repousava o sinhozinho.
Rapaz novo, alto, loiro e de olhos azuis, era o filho caçula do velho senhor.
O fidalgo moço acabara de chegar ao Brasil, já com um cargo importante, dentro dos conhecimentos de sua família.
O pai estava muito orgulhoso com a chegada dele; o rapaz havia terminado os estudos no exterior e voltava cheio de novidades.
Naqueles tempos, assim que os jovens terminavam os estudos, voltavam para o seu país já com indicação para ocupar cargos elevados.
Muitas vezes traziam uma jovem rica e bela como esposa.
O jovem senhor voltou casado com uma fidalga e bonita sinhá, que não falava a nossa língua.
Ela era fina, delicada e muito discreta, tinha os olhos cor da mata e o cabelo cor de ouro.
A dama de companhia da sinhá arrastava a nossa língua, como diziam os velhos escravos, transmitia à sinhá tudo o que falávamos.
A dama de companhia era muito desumana, exigente e ingrata com os escravos, vivia revoltada e parecia enojada da terra.
O sinhozinho parecia calmo, sereno, ficava apreciando a tudo e a todos.
Às vezes parecia olhar com curiosidade, outras vezes com desconfiança.
Era calado e sisudo, bem diferente do pai.
Ele estava ali para ocupar o cargo do pai: era o que se falava de boca em boca, às escondidas e pelos cantos.
Os escravos mais velhos da casa comentavam o comportamento do rapaz, dizendo que ele era estranho.
Não dava pra saber o que ele pretendia fazer da vida.
O pai treinava o filho para assumir e administrar suas fazendas, alegando que ele de facto era o único homem da família, pois suas irmãs estavam casadas e moravam fora do país.
Nós o escutávamos dizer isso a outros senhores amigos da redondeza.
Naqueles tempos era assim: os rapazes saíam para estudar fora e casar-se com as estrangeiras, e as moças nascidas dos fidalgos brasileiros eram preparadas para casar-se com os fidalgos estrangeiros que vinham em busca de dotes.
Na maioria das vezes estas meninas iam embora do Brasil e nunca mais voltavam.
Já as sinhás de fora vinham e também ficavam por aqui, sem ter contacto com seus familiares.
As mulheres brancas sofriam muito nas mãos desses senhores.
Os escravos no corpo não percebiam o sofrimento daquelas escravas brancas; o sofrimento delas era pior que o nosso, pois elas eram aprisionadas na alma, que é a pior das escravidões.
O jovem senhor observava todos os escravos sem deixar transparecer o que pensava sobre eles.
O negro António, moço novo e com um corpo bem formado, era chamado por nós de "touro manso".
Ele não brigava com ninguém, era o escravo mais obediente do senhor e forte como um touro.
António cuidava da cerca que precisava de reparo, e o senhor o observava.
Vestido em sua calça larga confeccionada em algodão cru, ele suava em demasia debaixo do sol quente, sem nem ao menos desconfiar que era observado.
A pele do negro brilhava, seus músculos apareciam nos movimentos que fazia em seu trabalho.
O sinhozinho observava o negro, e só Deus sabe no que pensava!
A dama da sinhá, sempre sorrateira, andava nas pontas dos pés, e parecia vigiar o senhor.
Fingindo pegar algo na sala, ficou observando o sinhozinho pela janela, sem desconfiar que também estava sendo observada por mim.
Saiu furiosa, sem motivo algum, e chutou um gato que atravessava o corredor da casa-grande!
Não dava para entender a revolta daquela dama!
Estaria apaixonada pelo senhor?
Seria sua amante? O que será que ela tramava?
Fiquei cismado com a reacção dela.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 13, 2016 9:32 am

Não era tão jovem e nem tão bonita quanto a sinhá, mas era mulher!
Eu pensei: Há alguma coisa estranha entre eles.
O sinhozinho levantou-se e foi até a sala onde a sinhá bordava.
Sentou-se ao lado dela, elogiando o seu trabalho.
A dama da sinhá pediu licença e saiu, passou por mim com cara de poucos amigos, resmungando algo em uma língua que eu não entendi.
Cerca de meia hora depois, o senhor saía vestido e calçando botas de montaria.
Pediu ao negro António que trouxesse o seu cavalo preferido, depois montasse sua mula e o seguisse, dizendo que precisava dele para servi-lo em alguma necessidade.
O negro correu a atender as ordens do senhor.
Uns quinze minutos depois, os dois estavam saindo.
O senhor montava um alazão negro que havia sido amansado por mim.
O negro o seguia alguns metros de distância.
A dama de companhia da sinhá, com um regador na mão, fingindo que molhava as plantas da varanda, tinha os olhos fixos no senhor.
Assim que os dois se encobriram na estrada, ela largou o regador ali mesmo e foi até a cozinha infernizar as cozinheiras.
A nossa linda sinhá tocava piano, bordava e passeava pelos jardins da casa todos os dias.
As crianças ficavam assustadas quando a viam.
Quando podia, ela chegava perto dos negrinhos, olhava com bondade e ternura um por um, e, muitas vezes disfarçando, tirava de sua bolsa alguns doces e dava aos pequenos.
Ela fazia isso quando sua dama ou feitores não estavam por perto.
E pedia às crianças que não comentassem com ninguém o que haviam ganhado.
As mulheres estavam amando a nova sinhá, que em pessoa comprou sacos e ensinou as mulheres a preparar absorventes com algodão, para aqueles dias que todas as mulheres passam.
Os comentários a respeito dela eram cada dia melhores.
O que ela tinha de bondade, tinha sua dama de maldade.
Todo escravo, do mais moço ao mais velho, recebeu muda de roupas e calçados novos, tudo comprado por ela.
Um dos feitores tirou a medida dos pés dos jovens que haviam crescido; ela comprou tudo certinho.
A sinhá velha não era ruim, mas já não se envolvia com nada, e o senhor pouco se importava com o bem-estar dos seus escravos.
Ele não era bom nem mau.
A cozinha foi reformada, com panelas novas e tudo mais.
Só se via alegria entre as cozinheiras e lavadeiras! Nossa sinhá era uma santa.
Ela falava pouco, e muitas vezes a vi chorando escondida.
Devia ser saudade de sua família, dos seus costumes, de sua terra...
Como gostaria de chamá-la, mas...
Eu era um simples escravo!
O sinhozinho demonstrava ser um bom marido; nunca presenciamos nada de ruim no comportamento dele.
Ela devia chorar de saudades.
Aos poucos, ela modificou tudo com aquele jeitinho especial.
O jardim estava uma beleza, e a sinhá ensinava como fazer novas mudas e como podar as roseiras.
Mostrava o local onde essa ou aquela flor ia se dar melhor.
Era de uma sabedoria fora do comum!
Foi Deus quem mandou aquele anjo ao nosso encontro.
Enquanto isso, o sinhozinho, marido dela, ficava fora de casa, e às vezes voltava altas horas da noite.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 13, 2016 9:32 am

Estava envolvido com o trabalho, era o que ele dizia para esposa; nós escutávamos porque éramos escravos, ficávamos mudos diante deles, mas não éramos surdos!
O negro António foi o escolhido para servir ao senhor.
Até sua namorada já sentia ciúme das andanças dele.
Vivia agora pela cidade, usava roupas e sapatos melhores que os nossos.
Isso causou ciúme e desconfiança entre os outros negros.
Ele tentava explicar que apenas cumpria as ordens do senhor.
Entre os escravos havia muitos comentários; todos olhavam para o António com desconfiança, pois o senhor só saía com ele.
Será que ele não estava se aproveitando disso para nos passar para trás?
António até fingiu um dia ter se machucado para ver se o senhor chamava outro negro.
Mas o senhor foi sozinho à cidade, não quis nenhum outro acompanhante.
António nos falou que não entendia por quê somente ele era escolhido.
Ele se sentia mal diante de nós, mas não podia deixar de obedecer às ordens do senhor.
Os homens se entreolharam.
-Será que ele não anda enchendo os ouvidos do senhor contra os outros negros? - André falou alto.
Eu me arrisquei em defendê-lo, lembrando que o António não era de conversar nem com a gente, imagina com o senhor!
-Eis onde mora o perigo! -retrucou outro companheiro.
-Hoje em dia, eu desconfio dos nossos irmãos de cor.
Eles às vezes são mudos connosco e soltam a língua com os brancos!
Todos temiam uma traição do António; era só o que se falava.
Um outro jovem nos alertou, dizendo que precisávamos tomar cuidado com ele:
-E se tivermos um traidor entre nós?
Trair e entregar os irmãos de sua cor é comum entre os negros que caem na simpatia dos senhores!
Muitas de nossas sinhás às vezes escolhiam uma negra para vigiar os passos do marido e contar tudo a ela.
E algumas vezes era o senhor que favorecia algum negro com certas regalias, para obter todas as informações do que ocorria dentro dos barracões.
As tarefas pesadas sobraram para nós; o negro António agora era o "cachorro perdigueiro do senhor", como os outros escravos o apelidaram.
Quando ele entrava no barracão, parávamos de conversar e não respondíamos aos cumprimentos dele.
O António passou a realizar novas tarefas por ordem do senhor:
nadar, cavalgar, pescar, caçar e sustentar nas costas o senhor, que dizia sofrer de dor nas costas e acreditava que aqueles exercícios colocavam a coluna dele no lugar.
Pelo buraco da janela do barracão, ficávamos olhando enquanto o António se sujeitava àquilo.
Ríamos feito loucos, era a coisa mais doida que já tínhamos visto.
Um negro troncudo como era o António, machão que só ele, vivia nu da cintura pra cima, com o alto e fino senhor grudado nas costas!
Essa cena arrancava risos dos outros negros.
O negro Lutero, rindo, comentou:
-Não tenho nenhuma inveja do que estou vendo, olha que cena mais estranha!
Parece um urubu suspendendo um coelho branco!
E se desmanchava de rir.
A dama da sinhá cada dia se tornava mais ranzinza e maldosa para com os negros.
Um dia, ela brigou com uma das lavadeiras, sem motivo algum, jogou as roupas lavadas no chão e pisoteou as camisas brancas do senhor que já estavam engomadas.
A negra Zefa, chorando, apanhou as camisas do chão e, revoltada, comentou com o negro velho Zacarias que não havia feito nada para aquela sinhá tratá-la tão mal.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 13, 2016 9:32 am

O negro velho Zacarias, olhando para a frente, respondeu:
-Zefa, cuida em lavar e engomar estas roupas do senhor novamente!
Faz isso sem remoer ódio dentro do seu coração.
Ouça o meu conselho, filha, é pra seu bem.
-Ele era um negro experiente, e falou em voz alta:
-Quem mais sofre aqui é o António e a sinhá!
E isso nem você e nem os outros enxergam, não é mesmo, Zefa?
A negra arregalou os olhos pra ele, respondendo com raiva:
-Está velho mesmo, hein, Zacarias!
António é o único escravo aqui que não sofre, e a nossa sinhá vive igual a Nossa Senhora no Céu!
Se você acha pouco o seu sofrimento, peça ao senhor e ele lhe dará mais sofrimentos, e com alegria!
Ela saiu resmungando, e Zacarias balançou a cabeça, andando devagar.
Eu havia ouvido toda a conversa, e comecei a analisar as palavras de Zacarias.
Será que estávamos realmente errados a respeito do António?
Sentei-me e me pus a pensar.
Minha consciência dizia:
"Você está errado, todos estão errados!
Todos estão enciumados, por isso não enxergam o sofrimento do António!
Quem de bom grado se daria àquelas humilhações?
E se nós estivéssemos tratando como lixo um coitado de um inocente?
Todo negro devia obediência ao seu senhor; e se de repente o senhor cismou com o António?
Que culpa o infeliz tinha?
Eu iria conversar com os outros.
Tínhamos que ter cuidado, sim, mas não tratá-lo do jeito como fazíamos.
E quanto à sinhá?
Por que Zacarias falou que ela sofria?
Bem, muitas vezes encontrei-a chorando...
Qual era a diferença entre sua dor e a dor dos negros?
Comecei a fazer estas e outras perguntas.
Nós éramos vendidos e trocados por cavalos, bois, ferramentas etc., e também vivíamos com as nossas dores, sem poder fazer nada.
Assim, passei a tarde trabalhando e matutando nas palavras do negro velho Zacarias; ele era meio feiticeiro: quando falava uma coisa, a gente podia contar que aconteceria mesmo!
A noite, no barracão dos moços, onde ficávamos (pois os mais velhos ficavam em outro barracão), comentei com eles o que ouvi do Zacarias.
O negro André, olhando para os lados, comentou:
-Pessoal, ele pode estar certo no que disse.
Quando Zacarias fala, é bom tomar cuidado...
Se ele comentou isso, alguma coisa ele está observando ou sabendo.
E por falar em António, ele ainda não voltou? - Observou André.
Certificando-se de que António não estava presente, continuou falando.
-São estranhas as saídas do António com o senhor.
Ele está sendo obrigado, podia ser qualquer um de nós!
Há dias que ele não volta para dormir connosco!
Onde será que tem dormido?
-É verdade -respondeu outro negro -, nós nem observamos isso!
Ele não tem voltado para dormir.
-Eu observei! -respondeu o negro Carlos.
-O António tem chegado muito tarde, então vai pro barracão dos velhos e dorme por lá, para não vir incomodar a gente.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 13, 2016 9:33 am

Eu acho que não está certo isso.
Ultimamente ele anda de cabeça baixa, deixou até de nos cumprimentar...
Também, a gente não respondia mesmo os cumprimentos dele!
-Pessoal -eu tornei a falar -, e se estivermos cometendo uma injustiça contra ele?
Vamos tomar cuidados, mas também lembrar que ele é um dos nossos.
Está apenas cumprindo ordens, e nós lhe viramos as costas.
O coitado está se sentindo abandonado e magoado, e tem lá as suas razões.
Vamos ver as coisas de outro jeito e procurar saber o que está mesmo acontecendo; aí sim poderemos julgar.
Acho que o Zacarias tem razão: o António está sofrendo, e nós, que sempre fomos unidos, acabamos banindo-o do nosso meio.
Houve uma pequena discussão; alguns defendiam, outros achavam que ele também deveria ter insistido com a gente.
Por fim, todos aceitaram pedir desculpas ao António.
Um dos negros, mudando de assunto, comentou:
-Pessoal, estão acontecendo coisas estranhas por aqui.
Desde a chegada desse novo senhor, a dama da sinhá o vigia o tempo todo!
Das duas uma:
ou ela é amante dele, ou a sinhá está mandando a dama vigiar o marido!
Mas do que ela poderia desconfiar aqui na fazenda?
Outro negro entrou na conversa e acrescentou:
-Já que Zacarias falou do António, eu vou contar pra vocês o que vi outro dia:
a dama da sinhá saiu e deu de cara com o António, que esperava o senhor para cavalgar.
Ela tampou o nariz e disse:
"Não sei como alguém pode aguentar esse fedor!
Espera o seu senhor do outro lado do jardim, porque o vento está levando o seu cheiro para dentro de casa, e a sinhá pode sentir náuseas.
Os cavalos cheiram melhor que você."
Virou as costas pra ele e falou bem alto:
"Tenho de avisar a sinhá que o marido dela precisa tratar do nariz!"
Assim conversávamos quando ouvimos o trotar dos cavalos que chegavam.
Fiz um sinal para os outros e saí, abri a porta e pedi licença ao feitor que vigiava o barracão.
Comentei com ele que gostaríamos de chamar o António para vir dormir em sua rede.
O feitor pensou um instante, viu que eu estava sem armas, e balançou a cabeça afirmativamente.
Quando o senhor subiu as escadas da varanda, corri até António, que se assustou.
-O que houve? -ele me perguntou.
-Nada. Só vim chamá-lo para ir dormir na sua rede.
Percebemos que você não volta mais para dormir connosco.
-Não quero incomodar vocês.
Aliás, só Deus sabe o que venho sofrendo...
Todos vocês, que me tratavam como irmão, hoje me tratam como se eu fosse um inimigo.
Só cumpro ordens do senhor; trocaria com qualquer um de vocês o que sou obrigado a fazer, aceitaria qualquer trabalho mais pesado!
Só tenho passado humilhações e engolido calado, sem poder desabafar com ninguém, a não ser com Deus.
António fez uma pausa, depois continuou:
-Até a Ana, em quem eu confiava tanto, me virou as costas, alegando que eu a traí!
Será que ninguém consegue entender que cumpro ordens?
Isso é boa vida, irmão?
Abandonado por ela e por vocês, e tendo que me sujeitar a todas as vontades do senhor?
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 13, 2016 9:33 am

Em silêncio, fui com ele até a baia, ajudei a levar os animais e retiramos as selas.
Só então comentei:
-Nós queremos lhe pedir desculpas!
De facto, erramos com você, e é por isso que eu estou aqui, e os outros o esperam lá no barracão.
Apertamos as mãos, e senti um nó na garganta.
Entramos no barracão, e todos responderam os cumprimentos dele, coisa que não fazíamos já há muito tempo.
O negro Carlos começou falando:
-António, queremos pedir desculpas a você pelas besteiras que temos feito.
Vamos voltar a ser o que sempre fomos, irmãos?
Após uma breve conversa, todos abraçavam António, que chorava emocionado.
Ele informou que todos nós deixaríamos a fazenda, que precisávamos arrumar os nossos pertences.
Iríamos começar uma nova vida, em uma nova fazenda.
E as instruções que ele passou, nós ouvimos como se estivéssemos anestesiados.
E acrescentou que tudo iria mudar para melhor:
se colaborássemos com o nosso trabalho e obediência, ele seria bondoso connosco.
Não pretendia nos vender, contanto que déssemos o melhor de nós.
Então, dispensou-nos, mandando que arrumássemos nossos poucos pertences.
Saímos dali assustados, um olhando para o outro sem entender nada.
Logo mais iríamos tentar arrancar alguma coisa do António, somente ele poderia saber de algo Muitos negros haviam nascido ali; nunca tinham colocado o pé fora da fazenda.
Estavam todos assustados.
Zacarias, de cabeça baixa, animou-nos dizendo:
-Vamos arrumar nossas coisas, e nada de choradeira e nem de falação.
Há tempo pra tudo nesta vida.
Pensem que a fazenda vizinha vai unir-se a essa, e quem sabe logo a gente possa transitar da lá pra cá?
Vejam o lado bom da coisa.
Zacarias respirou fundo, e depois continuou:
-Ouviram o que disse o senhor?
Ele não pretende nos vender!
Façam o possível para que fiquemos juntos.
Esta mudança seria terrível se tivéssemos que nos separar.
Mudar de fazenda não vai ser tão ruim assim, e acostumar-se à outra é só questão de tempo disse Zacarias, tentando animar os outros.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 13, 2016 9:33 am

Capítulo II - Mudanças à vista
O negro António não voltou para o nosso barracão.
Segundo André, ele havia saído com o senhor; tentou fazer alguns sinais, pedindo calma e mostrando que não poderia falar connosco.
Ficamos cismados com os acontecimentos.
O António foi para a fazenda nova com o senhor, foi o que deduzimos, pois ele não voltou.
Na segunda-feira, como indicou o senhor, todos nós estávamos deixando a fazenda, acompanhados pelos feitores.
Depois de uma longa caminhada, entramos na nova fazenda, que à primeira vista nos causou medo.
Fomos levados para os barracões, que de facto eram dez vezes maiores que os nossos, e bem cuidados.
Logo descobrimos que ficaríamos juntos com outros negros.
Eles olhavam com desconfiança para nós.
-Cadê o António? -comentou o negro Carlos.
-Será que ele está por aqui?
Não precisamos de resposta, porque logo vimos que ele estava chegando, acompanhando os senhores.
As damas desceram, ajudadas pelo sinhozinho, e seguiram para a casa-grande, que parecia ser vinte vezes maior que a casa da fazenda.
Tudo ali parecia assustador!
O negro Chico, brincalhão como sempre, me cutucava falando baixinho:
-Olha lá, as mulheres aqui são uma beleza...
-Fica de boca fechada, Chico! -respondeu Zacarias, que estava perto de mim.
-O peixe morre pela boca.
Você ainda vai se encrencar, e encrencar os outros, por falar demais!
-Só estava olhando o que tem de mais bonito por aqui, não posso? respondeu Chico com ar de moleque.
-Chico, desde que seu pai morreu, tenho olhado por você.
Ouça o que vou lhe dizer:
aprenda a ver com os olhos e guardar pra você as palavras.
Meu filho, você nem sabe o que vai ser de nós, não brinque com coisa séria!
-Desculpe-me, Zacarias, o senhor tem razão.
Sou mesmo um irresponsável.
Um novo feitor se aproximou e nos apontou o barracão em que deveríamos ficar.
Senti alívio quando descobri que ficaríamos juntos.
O feitor nos levou para conhecer os arredores da fazenda, passou as instruções que havia recebido do senhor.
Iríamos começar a derrubar a cerca da fazenda; as duas fazendas seriam uma só.
À noite, após o nosso jantar, podíamos ficar sentados no terreiro da casa conversando, sob o olhar e os ouvidos dos feitores.
Ouvimos a sinhá tocando piano enquanto a sua dama andava pra lá e pra cá, inquieta.
O senhor estava sentado perto da janela no andar de cima; dava pra ver pela claridade da luz.
António se aproximou de nós, sentou-se e falou baixinho, olhando pra o outro lado:
-Façam de conta que estamos falando bobagens, e ouçam com atenção o que vou dizer: eu não sei o que o senhor tem em mente, mas já me avisou que devo acompanhá-lo, juntamente com a sinhá, até a fazenda que deixamos para trás.
Não sei por que, mas começo a sentir medo desse senhor.
-Como assim?
Todos os dias você sai com ele.
Não está acostumado? -falou o negro Carlos.
-Sim, só que agora é diferente!
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 13, 2016 9:33 am

A fazenda ficou praticamente vazia, só estão por lá alguns homens para fazer a guarda e quatro mulheres para cozinhar e limpar a casa.
Eu não entendo o que vamos fazer lá!
Se a sinhá mudou-se para cá.
-António, você esqueceu que as únicas mudanças foram as nossas, e não as deles?
A casa está toda montada!
Eles vão ficar pra lá e pra cá.
Quem não pode fazer isso somos nós, irmão! -comentou Carlos.
-Queira Deus não venhamos a ter outras surpresas! -respondeu António.
Ele foi o único que não ficou junto com nenhum negro da fazenda; foi dormir em barracão com outros negros.
O negro velho Zacarias, sentado e de cabeça baixa, fazia riscos no chão.
Não levantou os olhos e nada falou.
No outro dia, cada um foi cuidar de seus afazeres.
Meu trabalho era cuidar de todas as ferramentas de trabalho da agricultura na fazenda, amolar, colocar cabos novos, etc.
Eu também amansava cavalos, castrava porcos, ajudava os outros negros a ferrar o gado, buscar ervas para avó Joana e a preparar remédios.
A nossa lida era grande.
O sol já estava alto no céu quando vi o senhor e a sinhá entrando na carruagem, seguida por António, que montava sua mula.
A dama da sinhá ficou no alpendre, e enxugava os olhos na manga da blusa.
Pude ver que a sinhá também chorava.
Estava secando os olhos num lenço branco.
Fiquei cismado, mas continuei o meu trabalho.
Pensei comigo:
"Assim que o António voltar deve nos contar o que aconteceu.
Nunca vi a sinhá dar um passo sem sua dama...
O que estaria acontecendo?
Será que o senhor quer ter a esposa longe da amante?
Fica uma lá e outra aqui?
O feitor nos dispensou, pois já estava escuro.
Fomos tomar banho no rio que ficava ali perto.
No caminho entre os feitores, andamos em silêncio, mas quando entramos nas águas chegamos perto uns dos outros e logo veio a pergunta:
alguém viu o António chegar?
-Ele não retornou, com certeza ficará na fazenda -respondeu Zacarias.
Continuou se esfregando e falou:
-Eu posso estar errado, mas acho que durante um bom tempo não vamos ver nem o António nem a sinhá por aqui.
Todos ficaram em silêncio.
-O senhor pode nos dizer alguma coisa a esse respeito?
Nós não entendemos o que quis dizer.
-Meninos -tornou Zacarias -, eu acredito que o senhor queira ficar a sós com sua sinhá, e por isso não levou a sua dama.
Quanto ao António, é o homem que ele escolheu para acompanhá-lo, só isso.
Quanto a vocês, devem ficar calados!
Isso é um assunto delicado, e se cair no ouvido do senhor esse interesse de vocês...
Aí, sim, as coisas podem mudar!
Lembrem-se que "mato tem olhos, e paredes, ouvidos".
Vocês estão no meio de pessoas desconhecidas, falem o menos possível.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 13, 2016 9:33 am

Passaram-se três dias.
O senhor apareceu sozinho, montado em seu alazão, e entrou na casa-grande.
Logo uma criada vinha correndo chamar o feitor encarregado pelos outros feitores.
Fiquei arrumando uns arreios que estavam no sol para amaciar, mas os meus olhos estavam mesmo na casa-grande.
Vi a dama se aproximando do senhor; ela falava e gesticulava.
Fiquei pasmo quando o vi aplicar uma bofetada que a fez cair.
Saiu da sala batendo as botas, e a deixou caída no chão.
Senti um tremor nas pernas e um aperto no coração:
-Meu Deus! Nunca imaginei aquele senhor violento!
Era tão concentrado e parecia fino, como podia tratar uma mulher daquele jeito?
O senhor sentou-se na varanda com o feitor, enquanto fumava um charuto e bebia algo.
Ele sentado e o feitor de pé, só balançando a cabeça afirmativamente.
Naquele dia, ele ficou na fazenda fiscalizando tudo.
Chegou perto de mim, como sempre calado, e com um olhar frio.
A gente nunca sabia se ele estava aprovando ou reprovando o nosso trabalho.
Enquanto ele fiscalizava o curral, eu também o observava.
Havia algo estranho naquele senhor.
Eu não podia dizer o que era, mas que havia, havia!
O sol já baixava no horizonte quando ele montou o seu alazão e saiu.
Suspirei aliviado.
Vi a dama da sinhá na janela, e ela parecia doente.
Tinha os olhos vermelhos e inchados de chorar.
A mulher, que era sempre ranzinza, parecia desanimada de tudo, e observava a partida dele secando as lágrimas.
Por que ela havia ficado?
Existia algo entre ela e o senhor, com certeza!
Que mistério! Será que ele não a queria mais?
Depois da bofetada que presenciei, ele não a queria mais, só podia ser isso!
A noite contei aos outros o que tinha visto, e trocamos ideias.
Nenhum de nós chegou a conclusão alguma.
Por fim, perguntamos a Zacarias o que ele achava, e ele respondeu calmamente:
-Eu não acho nada, e vocês continuam mexendo onde não devem!
O que é que vocês têm a ver com a vida da dama da sinhá?
Lembrem-se do ditado que os negros criaram:
"Eles que são brancos que se entendam!".
Procurem trabalhar direito e falar menos, e todos nós vamos sair ganhando.
Miguel, você parece que anda com a língua solta entre os dentes...
Se continuar assim, vou ter que conversar com a velha Joana.
Acredito que ela tenha algum remédio para fazê-lo ficar com a boca fechada!
Onde já se viu, esse bando de homens linguarudos!
Vão se banhar pra poderem comer.
A comida já foi colocada nas cumbucas.
Andem logo, bando de faladores! - E Zacarias se afastou.
Depois desse sermão de Zacarias, saímos calados, mas cada um com uma cisma.
Ele também escondia alguma coisa que sabíamos ser grave.
Lutero comentou baixinho:
-Temos que rezar muito e fazer as coisas direito, conforme mandam nossos encantados.
Pra falar a verdade nem eu e nem vocês temos feito as coisas direito, como eles mandaram, e isso pode trazer atraso em nossas vidas.
Todos concordaram, e em comum acordo decidimos que iríamos esperar a próxima lua para começar todo nosso ritual, que era ficar orando acordado até a lua cruzar o céu depois da meia-noite.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 13, 2016 9:33 am

O tempo passava, e nada de António e nem da sinhá.
O senhor vinha na fazenda quase diariamente, trancava-se com a dama da sinhá, e ouvíamos os gritos dela.
Quando ele ia embora, ela ficava chorando.
Um dia, logo pela manhã, um dos negros foi chamado para pegar os baús da dama.
Segundo a negra que arrumava os dormitórios, ela havia chorado a noite inteira.
O senhor estava ao lado dela e fez questão de acompanhar a dama, que não parecia nem um pouco feliz.
O negro que a levou até a cidade nos contou que ouviu a dama dizer ao senhor que iria voltar para a terra da sinhá e contar tudo para a família dela.
Os dias passavam, e nenhuma notícia do António e da nossa sinhá.
Nosso trabalho continuava no mesmo ritmo, mas nosso irmão de destino havia desaparecido. Não sabíamos notícias dele, e estávamos preocupados.
Trabalhávamos de sol a sol, mas tínhamos alimentos e os castigos eram leves; coisa normal, perto do que ouvíamos falar de outras fazendas.
Um ano e meio depois, já estávamos até acostumados na nova fazenda, e imaginávamos que o António estivesse muito bem.
Um feitor nos contou que ele cuidava da segurança da sinhá; o senhor deve ter escolhido António já com essa intenção.
Todos nós ficamos aliviados.
Sentíamos sua falta, mas saber que ele passava bem nos trazia conforto.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 13, 2016 9:34 am

Capítulo III - Humilhações
O destino trouxe António novamente em meus caminhos, e só então tomei conhecimento do absurdo que se escondia por trás daquele branco senhor.
O caso do António foi o primeiro conhecido entre nós, que não suspeitávamos desses absurdos entre brancos e escravos.
Muitos já tinham sofrido a mesma humilhação que ele, muitos infelizes que apareciam pendurados numa corda, enforcados, sem que ninguém pudesse compreender o porquê.
Eram vítimas do mesmo mal que atingiu o pobre António.
Na verdade, o senhor casara-se com aquela doce criatura apenas e tão somente para esconder o que na verdade existia dentro dele.
A dama, por ser mais vivida e experiente, descobrira os desvios do senhor logo cedo.
Ele gostava de homens, e ainda por cima era um maníaco em relação às mulheres.
Ele jamais havia tocado naquela moça com quem se casara, mas fazia planos com ela.
Por isso afastou a dama de companhia e isolou a pobre-coitada naquela fazenda.
Longe de tudo e de todos, ele colocou em prática seus pensamentos doentios.
O pobre do negro António foi o escolhido do infame e doente senhor.
Na fazenda, portando armas de fogo, ele obrigou o negro a manter relações sexuais com a sinhá, em sua frente; isso lhe satisfazia.
O pobre negro apiedava-se da sinhá, mas nada podia fazer contra o senhor, que havia montado todo o esquema.
Após satisfazer seus pensamentos nefastos, o senhor queria ter contacto físico com o negro.
Este se enfureceu a ponto de entrar em luta corporal com o senhor.
Mas para o mal há sempre quem colabore, muito mais que para o bem.
Dois escravos foram contratados para ajudar o senhor em seus loucos propósitos, e obtiveram algumas regalias.
Eles colaboraram com a desgraça do outro.
A sinhá se acabava, e tentou o suicídio, sem sucesso.
Passou a ser vigiada vinte e quatro horas por dia.
O negro António, com cicatrizes por todo o corpo, acorrentado e torturado, começou a ser violentado sexualmente pelo senhor.
A sinhá estava grávida, e sua barriga crescia dia a dia.
O senhor, saboreando sua loucura, sempre com um copo de uísque na mão, ria diante dela, e falava:
-Estou curioso para ver o que sairá de você!
Se for parecido com você, e também se nascer branco, eu deixarei viver; mas se sair negro, vou me livrar imediatamente de sua cria.
O negro António recebia diariamente uma dose de bebida entorpecente, que o deixava sem forças e sem acção.
Transformou-se num morto-vivo.
O senhor fazia dele o que bem queria.
O inverno chegou forte aquele ano.
A sinhá entrou em trabalho de parto, e não havia ninguém para ajudá-la.
A criança não nascia; a sinhá agradecia a Deus, e pedia que os levasse logo.
Ela não fazia força para que a criança nascesse; já sabia o seu destino, e, como toda mãe, tentava proteger o seu filho.
Queria morrer junto dele.
Mas a vida fala mais alto em qualquer situação: assim, após um dia e meio de sofrimentos, sem nenhuma ajuda, a criança nasceu!
Um menino, franzino e debilitado, pois a sinhá não recebera alimentação e nem os cuidados necessários na gravidez.
Mesmo assim ele lutava para viver.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 14, 2016 10:44 am

Uma pobre escrava, sem nenhuma experiência, ajudou a sinhá, e chorava enquanto embrulhava o garoto num pedaço de saia de sua senhora.
Ao ouvir o choro da criança, o senhor entrou no quarto e olhou para o recém-nascido.
Num gesto de desprezo, cuspiu no seu rostinho, dizendo:
-Não se preocupe, minha querida, ninguém ficará sabendo disso.
Vamos dar um jeito neste filhote de urubu!
Virando-se para o bebé, disse:
-Eu tenho uma curiosidade!
Quero ver aquele negro maldito olhando para este verme, e o que vai sentir.
Saiu do quarto em passos rápidos, enquanto a escrava chorava num canto.
A mãe, sem forças e mal conseguindo respirar, pediu:
-Anita, pelo amor de Deus, faça alguma coisa!
Não deixe o senhor matar meu filho!
Não deu tempo de Anita responder.
O senhor logo entrava no quarto com dois outros escravos arrastando António, amarrado pelos pés e pelas mãos.
-Olha isso aí, negro! - Gritou o senhor, rindo.
-É teu filho com a sinhá branca!
Já pensou se deixo isso viver?
Mas repare que sou generoso com você, estou lhe mostrando a sua cria.
Como isso me pertence, vou fazer o que bem quiser com ele.
Arrastando o pano que cobria a criança, falou:
-Olha só! É macho, o infeliz!
E bem dotado como o pai.
O senhor pegou a criança pelo pé e encostou o seu rostinho no rosto do pai.
A escrava correu a tempo de apanhar o bebé antes que o homem o soltasse no chão.
Encaminhou-se até a esposa, que respirava com dificuldade, e falando perto do seu ouvido perguntou:
-Como se sente, sinhá, tendo o seu primeiro filho?
Esse vai morrer, mas pode ficar sossegada que você vai parir muitos outros...
Adorei ver você grávida.
Entre lágrimas, ela pediu:
-Por favor, faça o que quiser comigo, mas deixe o menino vivo!
Mande Anita embora da fazenda com ele...
Meu pai lhe deu um bom dote, dê alguma coisa pra ela, e deixe-a ir com a criança.
Puxando uma mecha de cabelo da sua cabeça, ele respondeu:
-Está brincando comigo, não é mesmo?
Acha que sou tão tolo assim, minha amada?
Sinto, sinceramente, sinto muito.
Vou lhe confessar uma coisa:
cheguei até a pensar que se o seu filho nascesse branco, eu o deixaria viver e ser criado por alguma escrava, pois quando crescesse poderia ser um feitor na fazenda.
Mas infelizmente seu filho nasceu negro.
Nada posso fazer.
António olhava para o recém-nascido e o seu coração sangrava.
"Deus, ajude-me!
Não peço por mim, mas por este pequeno e indefeso ser."
O senhor ordenou que levassem o António, e disse para a esposa:
-Esta noite, deixarei que você ouça o choro do seu filho; amanhã, logo cedo, venho buscá-lo para levá-lo ao seu destino.
Saiu batendo a porta do quarto.
-Anita? -chamou a sinhá.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 14, 2016 10:44 am

Apontando para um baú que se encontrava em cima do armário, a sinhá pediu que Anita lhe trouxesse o objecto no leito.
A escrava entregou-lhe a caixa.
Com dificuldade, a sinhá puxou uma tampa no baú, e apareceu um fundo falso.
Ela retirou algo que brilhava entre seus dedos e estendeu na direcção da escrava.
-Anita, eis aqui tudo o que possuo de valioso.
Minha mãe me recomendou que só usasse numa ocasião como esta.
A sua tarefa é arriscada, mas mesmo assim eu peço que tente.
Corra, chame a velha Isabel e peça-lhe que sirva aos escravos e ao senhor algo que eles bebam e caiam em sono profundo.
Você deve ajudar a libertar António, somente ele poderá nos salvar.
Você sairá daqui com ele e o meu filho, e fugirão desta fazenda.
A escrava tremia.
Olhava para o recém-nascido que se mexia na cama, e para a sinhá, que estava pálida como cera.
Sem responder nada, saiu correndo.
Com muito esforço a sinhá puxou o filho para junto de si.
Abraçava e beijava o rosto do pequeno; as lágrimas escorriam do seu rosto, molhando o pano que envolvia o pequeno ser.
-Meu filho, você nasceu entre os espinhos e a dor.
Se Deus nos ajudar você viverá.
Guarda, filho, dentro do seu coração este nosso momento.
Lembre-se sempre do quanto o amo.
Uma hora mais tarde, a escrava entrava no quarto da sinhá acompanhada do negro António, que tinha os pés e mãos inchadas e marcadas pelas correntes.
Ele aproximou-se da cama e disse:
-Sinhá, nós vamos tirá-la daqui.
Anita carrega a criança, e eu carrego a senhora nas costas.
Vamos tentar atravessar a mata o mais rápido possível.
O senhor logo colocará caçadores de escravos acompanhados de cães treinados por toda parte; mesmo assim vamos tentar escapar.
-Peguem o baú, apanhe as moedas que estão na gaveta, e fujam.
Eu não posso acompanhar vocês, sozinhos terão mais chances de sobreviver.
-Não posso deixá-la, sinhá, o que será da senhora?
-Fique tranquilo, António, o senhor não vai me matar.
Ele precisa de mim.
A sinhá apertou o filho contra o peito e o entregou para o pai.
A negra velha Isabel entregou uma sacola a Anita, informando que havia colocado o necessário para eles cuidarem do pequeno.
Eles saíram correndo, e a sinhá desmaiou.
A negra velha esfregou algo em seus pulsos.
Aos poucos ela voltava a respirar, abrindo os olhos com dificuldade.
Fazia dois dias que não se alimentava.
A negra tentava colocar um caldo em sua boca, erguia a cabeça da sinhá e pedia:
-Por Deus, sinhá, precisa engolir um pouco disso.
A senhora tem de viver, seu filho precisa da senhora.
Esta palavra soava tão poderosa para a sinhá!
Enquanto engolia o caldo, pensava no filho, pedindo a Deus que o amparasse.
A negra Isabel tinha razão, ela precisava viver para rezar pelo filho.
Após tomar o caldo, adormeceu pelo cansaço e a fraqueza que lhe abatia.
A escrava colocou mais uma coberta sobre o seu corpo.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 14, 2016 10:44 am

Guardou o baú vazio, arrumou o quarto, com cuidado, saiu sorrateiramente e foi verificar os homens que roncavam tomados pelo sono profundo.
Seu primeiro desejo foi matar um por um.
E se matasse só o sinhozinho?
Um arrepio lhe passou pelo corpo.
Não, ela não podia fazer aquilo!
O que iria acontecer com ela e com a sinhá?
Encorajando-se, dizia para si mesma:
"Seja feita a vontade de Deus!
Ele sabe o que faz".
Calmamente encolheu-se no canto do quarto, com os braços cruzados sobre os joelhos, e começou a orar.
"Jesus, tenha misericórdia desse pequenino que atravessa as estradas do perigo."
Lembrava-se que ouvira o padre contar a história de Jesus; sua mãe e seu pai fugiram muitas vezes para esconder o filho.
Nossa Senhora iria ajudar o filho da sinhá, e a ela também.
Já amanhecia quando o senhor entrou feito um tufão no quarto da sinhá.
A sinhá parecia morta. Ele a sacudiu, perguntando:
-Onde está o seu monstrinho?
Ela mal abriu os olhos, tombando a cabeça de lado.
Ele a largou, e só então se deu conta da negra velha encolhida no canto.
-Onde estão Anita e o menino? -gritou ele, colocando a mão na testa.
-Não sei, senhor, vim da cozinha trazer esse caldo para a sinhá e a encontrei sozinha.
O senhor pareceu sentir tonturas.
Observou a escrava, sentando-se nos pés da cama onde descansava a sinhá.
Subitamente, entraram correndo os dois escravos que faziam a segurança do senhor.
Tremendo, falavam ao mesmo tempo:
-Senhor, senhor!
O António fugiu!
Aquele suco que tomamos devia estar com alguma erva do sono, pois dormimos os três!
O outro negro acrescentou:
-Sinto a cabeça girando e tenho a boca seca.
António fugiu com Anita, levaram o menino.
E com certeza foram ajudados por alguém.
Apontando para os negros, o senhor ordenou:
-Vão até a fazenda, e juntem todos os caçadores armados e acompanhados pelos cães.
Vasculhem tudo!
Até o final da tarde eu os quero de volta.
Enquanto os negros se afastavam, o senhor arrastou a negra velha, dando-lhe um chute no ventre.
Gritando, ele perguntou:
-O que você colocou naquele suco, e quem lhe mandou fazer isso?
Torcendo-se de dor, a negra respondeu:
-Eu coloquei o mesmo preparado que o senhor dava para o António.
Dei também para a sinhá, por isso ela dorme.
Não sabia que aquilo fazia mal.
Achei que ia acalmar a todos.
Dando-lhe outro chute no estômago, o senhor saiu, gritando palavrões contra ela.
A negra velha ficou imóvel no chão.
Não conseguia respirar e nem se mover, tamanha era a sua dor.
Naquele quarto sombrio, marcado pelo sofrimento, duas mulheres em silêncio calavam a sua dor.
Ambas rezavam a Deus, pedindo pelos fugitivos.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 14, 2016 10:44 am

Na varanda, o senhor andava de um lado para outro.
Aquele negro maldito tinha de ser encontrado!
Ele iria receber o castigo que merecia.
Deixaria a cria do António crescer um pouco, e mataria aquela criatura aos poucos!
Todos os dias ele aplicaria um castigo naquele infame recém-nascido, e na frente dele.
E quanto a sua mulher?
O que fazer com ela?
Depois pensaria no que fazer.
Ela havia pedido pelo filho...
Será que teve coragem de amar aquela criatura? Só de ter tal pensamento, sentiu nojo e cuspiu no chão.
Quanto a Anita, quando retornasse seria colocada no tronco e ficaria sem água e comida.
Só seria retirada quando estivesse morta.
Mas antes de ir ao tronco ele queria ter o prazer de chutá-la várias vezes, como se chuta um monte de lixo.
A negra Isabel ficaria viva para cuidar do odioso menino.
Ficaria na cabana que os caçadores usavam antigamente.
E nesse mesmo lugar, António pagaria caro pelo que lhe fizera.
Lembrava-se que tentara ser generoso e gentil com ele.
O que custava lhe fazer o que pediu?
Ele poderia estar vivendo muito bem, se não fosse orgulhoso e rebelde.
Foi até a cozinha e comeu o que encontrou por lá; enquanto comia, decidiu que mandaria trazer duas novas negras para cuidar da casa.
Saciada a fome, passou pelo quarto, nas pontas dos pés.
A negra estava no chão, encolhida, e a esposa parecia morta.
Sentou-se na varanda e falou em voz alta, pois não havia ninguém para ouvi-lo:
-Diabos! Tomara que isso não me traga problemas.
Se isso cai no ouvido de algum inimigo meu, estarei encrencado.
Com dificuldade, a negra velha Isabel se arrastou até conseguir levantar-se.
Olhou a sinhá, que mal respirava.
Ela não tinha se mexido, encontrava-se no mesmo lugar.
A negra foi até a cozinha e esquentou o caldo de galinha, e com cuidado levantou a cabeça da sinhá, colocando em sua boca uma colherada do caldo.
Pediu a ela que engolisse.
Aos poucos ela conseguiu tomar uma xícara do caldo.
Suas faces estavam mais rosadas, seus lábios ganhavam cor.
O sol desapareceu no céu; a escuridão e o vento frio da noite penetravam na casa-grande.
O senhor levantou-se e foi até a sala, acendendo o lampião.
Preocupado, se perguntava:
-Será que não encontraram aqueles malditos?
Cadê aqueles negros que não me aparecem?
Enquanto isso, a negra Isabel acendia a lamparina no quarto da sinhá, ajudando-a a fazer as suas necessidades.
Também lhe ofereceu um pouco de chá quente.
A noite foi longa para todos.
O senhor andava sem parar, batendo as botas no chão, praticamente a noite inteira, mas não incomodou a sinhá.
Os primeiros raios do dia penetravam pelas frestas da janela.
Arrastando-se, a negra Isabel foi até a cozinha preparar o café.
O senhor estava sentado numa cadeira de balanço, e ao avistar a escrava, ordenou-lhe que preparasse o seu café.
Porém, ele iria vigiá-la, pois não confiava mais no que ela lhe servia.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 14, 2016 10:44 am

Após se servir, o senhor levantou-se e saiu apressado.
A escrava então preparou uma bandeja para sua sinhá, ajudando-a a alimentar-se.
Já passava de meio-dia quando os dois escravos apareceram.
Eles vinham sozinhos.
Desmontaram e, cabisbaixo, apresentaram-se ao senhor, dizendo:
-Os homens estão vasculhando tudo, mas até agora não encontramos nenhuma pista deles.
Se o senhor tiver alguma nova ordem para nós, pode passar.
Mas, se nos permitir, precisamos comer, pois desde ontem não colocamos nada na boca.
-Comam, e depois voltem aqui -respondeu o senhor.
Pediu que lhe preparassem seu alazão, e ordenou aos dois:
-Não me apareçam aqui sem eles!
Sigam com os outros e vasculhem todas as matas.
Montando em seu alazão, virou-se e disse:
-Não se atrevam a entrar em minha fazenda sem os fugitivos, ou então passarão a ser fugitivos também.
O senhor chegou à fazenda nova, como ficou conhecida, e chamou os feitores.
Conversaram alguns minutos; eu estava fazendo um curativo num animal que tinha uma ferida na pata.
Vi um movimento estranho entre feitores e os escravos internos; vi duas negras e três negros com um saco na mão, e entendi que iam embora.
Entraram na carroça e saíram.
O senhor seguia na frente.
O negro Chico me contou que ouviu os feitores comentando que haviam contratado alguns caçadores de escravos para atender a um pedido do senhor.
Quem poderá ter fugido na fazenda do senhor?
Fiquei matutando, e senti medo de pensar na hipótese de ser o António.
O velho Zacarias aproximou-se de mim e chamou-me de lado.
-O que há, Zacarias? -perguntei.
-Você conhece bem os atalhos das matas, não é?
-Por que me pergunta isso?
-Porque nossos irmãos precisam de sua ajuda.
-Que irmãos?
-António, por exemplo.
O sangue fugiu do meu rosto. Fiquei sem fala.
-O que aconteceu com António? - perguntei, trémulo.
Zacarias me chamou de lado e, falando baixinho, disse-me o que eu precisava fazer, e com urgência!
Pois era questão de vida ou morte.
Fui até o nosso feitor e lhe disse que precisava ir colher ervas e raízes a pedido da avó Joana.
O feitor, olhando-me com ar de desconfiança, respondeu:
-Você não foi na semana passada colher ervas pra ela?
Vai me dizer que já acabou tudo!
-Foi a avó que pediu, senhor.
Eu sei que só devo obedecer às ordens dos senhores, e do senhor, que é meu feitor.
Por favor, fale com ela!
Olhando-me de lado, ele mordeu o cigarro no canto da boca e respondeu:
-Tudo bem, tudo bem, assim que terminar seus afazeres pode ir catar as ervas; se foi a negra velha Joana que pediu, ela precisa mesmo, esta negra não mente.
Antes de me afastar, ele advertiu-me:
-Assovie e cante alto, para que os negros que estão caçando os fugitivos não o confundam com um deles e lhe quebrem as pernas no meio do mato.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 14, 2016 10:45 am

-Sim, senhor, fique sossegado, que eu faço isso sempre que colho ervas.
Os caçadores já me conhecem.
Peguei o saco de ferramentas, mas dentro dele havia outras coisas, que Zacarias e a avó Joana tinham preparado.
Saí assoviando alto até me afastar da fazenda.
Atravessei o rio a nado, cheguei do outro lado e encontrei a trilha que Zacarias havia me indicado.
Subi até o alto da pedra e descobri entre os pequenos arbustos uma fresta que dava para o outro lado.
Entrei com cuidado e andei mais ou menos uma hora.
Saí entre uma cadeia de pedras.
Elas se fechavam formando um círculo; não existia saída, era uma cadeia de pequenas montanhas.
Tive de escalar as pedras e descer.
Cautelosamente, dei alguns passos e chamei por António, identificando-me.
Ouvi um chorinho fraco, e logo mais António e Anita apareciam diante de mim.
-Meu Deus! O que aconteceu, meu irmão?
Vocês tiveram um filho?
Por que estão fugindo? -perguntei aflito.
Abri o saco e entreguei o que avó Joana havia preparado.
Anita pegou a garrafa de leite e foi amamentar a criança.
António me relatou todo o seu sofrimento, e como haviam chegado até ali.
Só não sabia como iriam sair.
Estavam cercados por todos os lados, e era uma sorte grande ainda não terem sido descobertos.
Ouviram os latidos dos cães e vozes bem ali pertinho deles.
Então, aquele menino era o filho de uma sinhá!
Meu Deus!
Sentamos. Eles estavam sem comer nada, cercados por pedras.
O que eles poderiam encontrar?
Não havia nem água nem comida; foi sorte eu ter levado comida para eles.
Olhando pra mim desesperado, António disse:
-Meu irmão, eu não sei o que fazer!
Como posso sair daqui levando Anita e esta criança?
Se estivesse sozinho, iria me arriscar a andar noite adentro e me esconder de dia, até o dia em que outro senhor me encontrasse.
Quem sabe teria mais sorte em ser seu escravo!
Mas quanto a Anita e esta criança, o que fazer?
A pobre escrava chorava, apertando o menino no peito.
Eu fiquei sem saber o que dizer, então respondi:
-António, Deus já olhou por vocês hoje, amanhã será outro dia.
Vou conversar com Zacarias e avó Joana, tenho certeza que eles consultarão nossos protectores e receberão alguma instrução para ajudá-lo.
Fiquem quietos e me aguardem.
Não prometo vir amanhã porque dependo do feitor para me liberar, mas aí tem água, um pouco de leite para criança, tem comida e uns lençóis de sacos para vocês dormirem.
Não saiam daqui; esperem que eu volto para ajudá-los.
Chorando, Anita me mostrou o que a sinhá dera a eles, dizendo ter muito valor; mas de que iria adiantar aquilo?
-No momento certo você vai saber o valor disso.
Corri feito louco, atravessei o rio de volta e enchi o saco de folhas.
Nem reparei o que era.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 14, 2016 10:45 am

Estava quase escuro quando cheguei suado e cansado pela corrida até a fazenda.
Quando passei perto do feitor, ele me falou:
-Espero que essa sua demora tenha rendido umas duas semanas sem precisar ir ao mato colher ervas!
Isso são horas de você voltar?
Se o senhor resolvesse vir até aqui na hora da comida de vocês e percebesse que faltava um, o que eu iria dizer a ele?
Dessa vez passa, não me apronte outra!
Vá comer com os outros! Anda, negro!
Joguei o saco dentro do barracão onde ficava avó Joana e lhe disse que depois contaria tudo.
Com a cumbuca na mão, sentado num toco, Zacarias me fitava aflito.
Peguei a minha cumbuca e fui sentar-me perto dele.
-E então? -perguntou ele, disfarçando, como se estivesse cobiçando minha comida.
Sem olhar para Zacarias, relatei-lhe a situação, acrescentando que havia prometido ajudá-los e que ele e avó Joana consultassem os nossos deuses e achassem uma solução.
Eu me arriscaria, mas iria ajudar.
-Vou conversar com Joana daqui a pouco.
Vamos pro tacho (eles preparavam as garrafadas à noite) e lá pensaremos no que fazer.
-Cuidado com a língua, meu filho!
Às vezes falamos sem pensar, e quando soltamos as palavras, não tem mais jeito de prendê-las alertou-me ele.
-Fique tranquilo, Zacarias, eu também estou metido nisso.
Um dos feitores que acompanhavam o senhor se aproximou e, apontando para Zacarias, disse:
-É você mesmo que eu vim buscar!
O seu senhor precisa de você com urgência.
A sinhá está muito doente, e o senhor quer que você leve o que tiver de remédio aqui preparado!
Vamos logo, que o senhor tem pressa!
Olhei para Zacarias e prendi a respiração.
Meu Deus, como eu poderia ajudar aqueles três sem Zacarias?
-Senhor feitor, posso pegar meus objectos lá no barracão? -pediu Zacarias.
-Tem dois minutos!
Vá, que eu o espero na saída.
Vou acertar sua transferência com o seu feitor.
Saí correndo atrás dele.
Em passos forçados, ele tentava alcançar o barracão; a idade já não lhe permitia andar rápido.
Zacarias me disse baixinho:
-Fique calmo, não deixe transparecer que você está aflito!
Joana vai lhe dar instruções; apenas tome cuidado.
Volte pro meio dos outros, enquanto falo com Joana.
Vi o negro velho Zacarias montando a mula e acompanhando o feitor, e meus olhos se encheram de lágrimas.
Ele era um pai para os jovens da fazenda.
Alguns negros cantavam, outros brincavam, espalhados pelo terreiro da casa-grande; naturalmente que estavam debaixo dos olhos dos feitores.
Sentado num toco, eu fingia que desenhava no chão.
A lua clara iluminava nossos rostos, e eu pedia a Deus que clareasse o meu caminho.
A avó Joana apareceu no terreiro com um lenço amarrado na cabeça, e uma colher de pau na mão.
Falava com o feitor.
Ele se aproximou de mim e ordenou:
-Acompanhe a negra velha Joana!
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 14, 2016 10:45 am

Vá ajudá-la a preparar os remédios.
Enquanto Zacarias não voltar, você irá ajudá-la.
Já conhece as ervas, e é bom pra você aprender:
assim, quando a negra Joana não puder fazer, você faz.
E levante-se cedo amanhã para ir colher mais ervas, pois Zacarias levou o que você trouxe hoje.
Tome cuidado!
-Sim, senhor, pode ficar sossegado -respondi.
Graças a Deus aparecia uma oportunidade para que eu escapasse e fosse até os fugitivos.
Avó Joana era um anjo disfarçado de escrava, que Deus colocou no meio de tantos sofredores.
Todos a respeitavam:
escravos, feitores e até os senhores.
Nenhum escravo ali se atrevia a destratá-la, pois os outros caíam em cima de quem a magoasse.
Suspirei aliviado olhando pra ela.
-Vamos, filho!
Estou com o tacho no fogão e preciso de braços fortes para mexer!
Corra lá e vá mexendo o tacho!
As suas pernas são boas, as minhas é que já estão fracas -falou bem alto para os feitores ouvirem.
Saí correndo enquanto ouvia Joana gritando:
-Não atice o fogo! Deixe como está.
Assim que ela chegou perto do fogo, eu mexia o tacho enquanto os feitores olhavam de longe.
-Filho, Deus sabe o que faz -disse ela sentando-se num pilão velho que servia de banco.
-Zacarias foi ajudar a pobre sinhá, e Deus não faltou connosco; amanhã cedo você pode ir ter com António.
Eu mexia o tacho, e de cabeça baixa ouvia o que ela dizia:
-Zacarias vai dar notícias do filho para a sinhá, ela precisa saber que ele está vivo.
E nós vamos pensar no que fazer para salvar António, Anita e a criança.
-Mas, avó, o que podemos fazer? -perguntei aflito.
-Cale essa boca, menino!
Se eu soubesse não ia perguntar a quem sabe mais do que eu! Você vai ficar mexendo isso aí até meia-noite!
Se secar, ponha mais água.
Na verdade, não estou preparando nenhum remédio; preciso mesmo é dos doutores de Deus aqui perto de nós.
Eu ficarei aqui e tentarei entrar em contacto com os nossos deuses, preciso ouvir o que eles têm a nos dizer.
E você, continue rezando e mexendo esse tacho, ninguém pode desconfiar de nada.
Assim, todos os negros passavam em frente do fogo e tomavam bênção da avó Joana.
Os feitores foram até lá e recomendaram:
-Avó Joana, nós vamos deitar que amanhã a luta será grande.
A senhora não fique nessa friagem da noite até altas horas, não!
Leve o negro para o barracão quando terminar.
-Vão se deitar, meus filhos!
Eu sei que estão cansados.
Querem tomar um chazinho pra dormir melhor? -perguntou ela.
-Queremos sim.
Eles foram até perto do fogo.
Ela pegou o bule e encheu as cuias para eles.
Tomaram o chá, agradeceram a ela e se despediram, dando boa-noite para vó Joana.
Um galo cantou fora de hora, e avó Joana disse-me:
-Filho, esse é um sinal...
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 14, 2016 10:45 am

Um dos nossos ancestrais está tentando falar comigo.
Vamos rezar.
Sentada no pilão, ela fechou os olhos, rezando.
Eu estremeci, pois vi uma luz imensa cercando o corpo dela.
Logo ela começava a falar não com sua voz, mas com uma voz forte e determinada.
Fiquei parado, ouvindo suas instruções quanto ao que deveríamos fazer em relação aos três fugitivos.
Assim que outro galo cantou, avó Joana ergueu os braços e se levantou, dizendo:
-Vamos seguir para o meu barracão, esta noite você dorme lá.
Seguimos adiante, e quando chegamos perto do feitor da noite, ela disse:
-Juvenal, meu filho, saia desse sereno, fique embaixo do telhado, ou vá aquecer-se lá perto do fogo, onde está o nosso tacho.
Ah! O negro Miguel vai dormir comigo, assim mostro as ervas que usarei.
Ele precisa ver as ervas para não trazer besteiras.
-Sim, avó Joana, com a senhora ele estará em boas mãos!
Durma com Deus, e até amanhã.
-Juvenal? -chamou avó Joana.
-Deixei um pouco de chá quente no bule.
Pode tomar para esquentar o peito.
-Obrigado, avó Joana, eu vou aceitar mesmo.
Até amanhã respondeu ele, retirando-se.
Trancados no barracão, eu passei para avó Joana o que tinha ouvido do nosso encantado.
E ela me alertou quanto às providências e os cuidados que deveria ter.
Fomos dormir depois de preparar tudo para a minha viagem.
Levava roupas, remédios, alimentos e uma ferramenta preciosa e necessária para António sobreviver: um facão!
Com os primeiros raios do dia avó Joana me sacudiu; eu acordei e me preparei para sair.
Outra negra velha, também envolvida com avó Joana em ajudar infelizes que se metiam em encrencas, já havia preparado o desjejum dos negros que cedo iam para a lavoura.
Eu aceitei o que ela me entregou, e ainda levei embrulhado um pedaço de bolo e pão para António e Anita.
Passei pelos dois feitores, e um deles me alertou:
-Vá correndo e volte voando!
Temos dois potros que você começará a amansar hoje.
Não se demore nas matas.
Realmente saí correndo; amarrei o saco na cabeça e atravessei o rio a nado.
As águas estavam geladas, mas a minha ansiedade era tanta que nem me dei conta.
Escalei as montanhas, e logo estava com António e Anita.
Então, passei o nosso plano.
Anita chorava, apertando o pequeno entre os braços.
Ela suspirou fundo quando ouviu o plano e a possibilidade de a criança sobreviver entre nós.
Quanto aos dois, assim que eu conseguisse tirar a criança eles deveriam fugir.
Eu iria fornecer um mapa para que eles se guiassem e conseguissem sair daquelas terras sem serem vistos.
Depois, deveriam tomar cuidado e pedir sorte a Deus, e desaparecer para o mais longe possível.
Combinamos que nos próximos três ou quatro dias eu voltaria para pegar o menino.
Então eu voltei correndo e procedi da mesma forma que antes: quebrei galhos das árvores e enchi o saco com eles, e voltei voando, como me pediram os feitores.
O senhor Ambrósio, um dos feitores bondosos que tínhamos do nosso lado, assim que me viu correndo com o saco nas costas me disse:
-Miguel, pra que tanta correria?
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 14, 2016 10:46 am

Desse jeito vai ficar doente, e aí eu quero ver quem irá buscar ervas!
Vá, entregue as ervas para avó Joana, beba água e descanse um pouco. Os cavalos podem esperar um pouco mais.
-Obrigado, senhor Ambrósio, Deus lhe abençoe.
Três dias depois, Maria do Céu teve os primeiros sinais de que ia dar à luz.
Acompanhada de avó Joana, Maria seguiu na direcção do rio, e eu saí correndo para ir buscar uma raiz que, segundo avó Joana, ela precisava tomar.
Tudo indicava que Maria teria dois filhos de uma vez.
Ela iria lavar-se nas águas correntes do rio para adiantar o parto.
Os feitores respeitavam a sabedoria da avó Joana, e os filhos que Maria do Céu daria à luz possivelmente eram do senhor Ambrósio.
Corri feito louco, desci pedreira abaixo me ralando todo, e dei a notícia do parto da Maria do Céu.
Anita embrulhou o pequeno, que dormia deitado sobre uma cama de folhas secas.
Ela abraçou o pequeno e, chorando, me pediu:
-Miguel, pelo amor de Deus!
Eu não me importo de morrer, mas, por favor, salve o filho da sinhá!
Eu prometi a ela que cuidaria da criança, e confiarei a vida dessa criança a você.
Puxou o saco com a fortuna que a sinhá lhe entregara e me disse:
-Leve com você!
Eu respondi que jamais levaria comigo aquela fortuna; o pequeno ia viver na senzala com os outros meninos escravos, ele seria um escravo e não um fidalgo!
E que aquele ouro poderia ajudá-los a seguir adiante na vida.
Peguei o menino ainda adormecido, e prometi aos dois que voltaria para ajudá-los a seguir os caminhos deles.
Na margem do rio, amarrei o pequeno nas minhas costas e atravessei rápido o braço do rio.
A água fria fez a criança chorar o trajecto todo.
Do outro lado do rio, embrulhei-o em um saco seco e limpo, dei leite que deixara escondido; logo ele fechou os olhos, e então eu segui minha corrida.
Vim rodeando a outra margem do rio, e avistei avó Joana com Maria do Céu, que já tinha uma criança no colo.
A avó me deu sinal, eu corri e quase joguei o menino no
colo dela.
Ela olhou para o pequenino com tanto carinho!
Vi duas lágrimas descendo dos seus olhos.
Segui escondido pelo outro lado, voltei para casa e avisei, na senzala e aos feitores, que Maria do Céu dera à luz dois meninos, e estava tudo bem.
Avó Joana queria uma carroça para trazê-la para a senzala, e assim foi feito.
Era um espanto!
Ela voltava com duas crianças nos braços!
Não era comum, mas acontecia de tempos em tempos.
Todos queriam ver as crianças.
Avó Joana pediu que deixassem Maria do Céu descansar, pois o parto havia sido muito difícil.
Depois, todos poderiam visitá-la.
Corria de boca em boca que as crianças de Maria eram do feitor da noite, e que ele também tinha filhos gémeos com a esposa.
Se o filho da Maria do Céu era dele, nunca fiquei sabendo; mas era bom que a notícia se espalhasse:
assim estávamos protegidos, embora o filho dela tivesse a mesma cor que o da sinhá - era mulato!
O garoto aceitou o peito, e era parecido com o outro; até o senhor Ambrósio foi olhar as crianças.
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