A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 19, 2016 10:22 am

Nestes dois dias, torno a voltar à cidade para assinar os papéis de venda definitiva!
Não me decepcionem, pois eu recomendei ao novo senhor que continue agindo no tratamento com vocês como sempre foram tratados!
De todas as fazendas desta região, vocês são os negros mais bem tratados, por isso não justifica o que aqueles dois ingratos me fizeram!
Fugir e ainda por cima me roubar! Eles me roubaram!
A queixa está aberta...
Mais dia menos dia eles terão que aparecer, e aí acertaremos contas!
Eu estarei em outro país, mas eles me pertencem, faço questão de vir resolver pessoalmente!
Foram os únicos que eu não quis vender!
O senhor queria me pagar por eles, correndo o risco, mas eu recusei!
É uma questão de honra, e tem muita gente trabalhando para mim.
O administrador fez suas recomendações e não economizou mentiras:
disse que não tinha arredado os pés dos cuidados com a fazenda, e que estava satisfeito com os resultados obtidos na ausência do seu sobrinho.
Nos entreolhamos.
Então o doutorzinho era primo do senhor?
Quem seria o novo dono?
Passamos o resto do dia nos perguntando.
E não chegávamos a nenhuma resposta.
Quem sabe as mulheres, com seus encontros amorosos com os feitores, não ficariam sabendo?
Era comum mulher colher informações nestes encontros amorosos e nos informar dos acontecimentos.
No outro dia, foi dito e feito!
Uma das mulheres trouxe a novidade:
o novo dono da fazenda era um rapaz jovem e afoito, que queria transformar a fazenda com outra agricultura:
em vez de cacau, ele iria plantar café!
Ficamos assustados e temerosos.
Zacarias comentou: esses jovens que querem ficar ricos a qualquer custo às vezes se transformam em cópias do diabo!
Mas não adianta ficarmos aqui chorando, o que tiver de ser já está feito!
Não somos nós que vamos impedir a vontade de Deus.
Só há um meio de podermos ajudar a Deus a mudar o mundo:
trabalhando e lutando para um dia sermos todos iguais!
Um dos negros comentou:
-Zacarias, acredita que vai chegar esse dia em que negros e brancos vão ser tratados de igual para igual?
-Acredito, sim! E é o que nós devemos fazer: trabalhar e lutar para aqueles que virão depois alcançar o que estamos deixando pra eles.
Estas terras plantadas, esses rios limpos, esses jardins floridos, estes pastos cheios de bois e cavalos, estradas abertas, tudo melhor e mais moderno!
Tudo isso que nós estamos fazendo para os brancos pode ser nosso amanhã!
Eu posso morrer e voltar branco!
Ou posso morrer e voltar um negro tendo os mesmos direitos que os brancos!
Você acredita ou não acredita em nossos guias?
E olhem aqui meninos:
quantas vezes vocês todos já ouviram as histórias contadas pelos mais velhos dos sofrimentos daqueles que estiveram aqui antes de nós?
Até o Filho de Deus foi castigado e tratado como escravo!
Ele sabia colocar as palavras com tanto jeito que era impossível não parar para ouvi-lo.
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Ave sem Ninho

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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 19, 2016 10:22 am

Foi um silêncio geral.
Ele, suspirando fundo como se estivesse voltando para algum lugar do passado, continuou falando:
-Vocês sabem que, além dos sofrimentos piores que os nossos, os brancos malvados mandavam castrar os negros como se fossem animais!
Graças a Deus, isso não é comum nos dias de hoje, desde a época em que eu estou na fazenda; e me lembro das coisas como gente grande.
Só sei de três casos que eu mesmo vi com meus próprios olhos.
Um foi do nosso feitor que mexeu com a filha do senhor; ele se matou no outro dia.
E a menina foi levada para um convento de freiras, e não sabemos o fim dela até hoje.
Outro foi um negro que teve a infelicidade de gerar uma criança branca, eu também nunca tinha visto nascer criança branca de pai negro!
Mas eu juro pra vocês que a criança era filha da mulata e do negro!
Aconteceu que a mulata era filha do sinhozinho; ele, branco que nem leite, com os olhos da cor do céu, e tendo o diabo no couro.
Toda menina-moça era feita mulher por ele!
-O filho do negro e da filha dele deu no que deu:
branco de olhos claros!
É como a filha legítima dele, branca que nem algodão, no mesmo dia teve um filho negro, o senhor achou que o negro roubou o neto dele, colocando o negrinho no lugar.
Então, junto com o genro, arrastou o coitado do negro até o curral e o castraram na frente de todos os negros, homens, mulheres e crianças, dizendo que nunca mais ele faria um filho, assim não punha em risco os herdeiros da fazenda.
Trocaram as crianças:
ele entregou o negrinho para a mulata e o branquinho foi a sua outra filha.
Ficamos sabendo depois que a filha dele teve um romance com um negro da fazenda, o pai do filho dela.
-Ele sobreviveu e criou o neto do seu senhor, e o filho dele se tornou homem e assumiu a fazenda como o novo senhor.
Eu saí de lá por causa das minhas qualidades com as ervas.
Ele continuou, e deve viver até hoje, sendo escravo do próprio filho, e o verdadeiro herdeiro sendo escravo de sua própria fazenda.
-O terceiro caso foi pior ainda!
Santo Deus, eu nem gosto de me lembrar, me dá arrepios!
Um mulato, que era filho de um senhor de outra fazenda, foi vendido por exigência da mulher dele para outra fazenda.
Como o coração não tem trámela, a filha do senhor e o mulato se apaixonaram, e eles preferiam a morte a se separarem.
Levaram um bom tempo tendo seu romance escondido; porém, como toda moça fidalga, o pai arrumou um pretendente.
E ela teria de se casar, como todas as moças filhas dos senhores, que obedeciam sempre a vontade dos pais.
No desespero da separação, os dois se descuidaram e foram descobertos por um feitor que não tinha o sinal de Cristo em seu coração.
Foi correndo contar ao senhor o que tinha visto.
-O senhor, tomado pelas forças que alimentam o mal, preparou tudo e seguiu a filha até o velho celeiro abandonado, levando o feitor junto.
Lá se encontrava o mulato Jeremias.
O pai teve a capacidade de esperar que eles tirassem as roupas; e teve a prova de que a filha já não era virgem, perdera-se com um negro!
Então eles entraram no celeiro.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 19, 2016 10:22 am

O senhor amarrou Jeremias e mandou o feitor ter relações sexuais com a filha na frente do mulato, que nada podia fazer.
Depois de todo o sofrimento aplicado à filha, foi a vez do mulato sofrer!
-O feitor, a mando do pai, arrastou a moça até onde se encontrava o mulato e, pegando na mão dela, decepou o órgão sexual do mulato.
Feito isso, amarrou os dois, trançando uma corda nos seus corpos, e o próprio pai ajudou a levar os dois até o rio que era conhecido pelos cardumes de piranhas acostumadas a comer gente.
Ele jogou os dois e ficou olhando, até que não avistou mais nada do corpo de sua própria filha.
Enquanto ouvíamos, ficamos pensando e vendo as cenas.
André perguntou:
-O senhor conheceu esse homem de verdade?
-Ele foi o meu senhor!
Eu conheci o mulato e a pequena sinhazinha, que morreu por ter amado quem não podia!
Quando eu saí de lá era da sua idade, Miguel, muito jovem!
Não acredito que o meu senhor esteja vivo!
Eu já estou esse resto de gente, imagine ele, que já era homem dos seus 40 anos!
Antes de deixar a fazenda, muitos negros comentavam que ouviam gemidos no velho celeiro, e que o próprio senhor não ia mais ao rio.
Cada vez que ele tocava na água do rio, a água virava sangue!
Não posso afirmar que isso era verdade, porque nunca vi; eu não tinha permissão de me afastar da fazenda.
Eu só digo e atesto um facto se eu mesmo o presenciei!
Mas gente de toda confiança me contou que ouviu gemidos no celeiro, e que ficou todo arrepiado.
Foi o negro Sebastião, que não era de contar lorotas, era um negro sério.
E uma negra que se deitava com o tal feitor criminoso nos contou que ele acordava gritando!
Dizia que tinha alguém apertando o pescoço dele, outras vezes reclamava do gosto de sangue na boca.
E que ele disse pra ela que não podia mais beber água daquele rio, porque quando pegava a caneca pra beber, a água virava sangue!
Muitos casos iguais a estes, e ainda piores, aconteceram aqui e acolá, antes de nós.
Se eu for contar pra vocês o que já vi e ouvi dos mais velhos sobre os sofrimentos dos escravos, vocês vão levantar as mãos para os céus e dar graças a Deus!
Por isso é que lhes peço:
vamos trabalhar, com bondade, para que os nossos descendentes possam amanhã colher o que nós semeamos hoje.
E não podemos duvidar dos nossos guias espirituais, nós mesmos podemos vir colher pessoalmente!
André comentou:
-Meu Deus!
Ainda bem que nós nunca passamos por isso!
-De certa forma, não!
Porém não se esqueça de que estamos com um problema que pode trazer derramamento de sangue a esta fazenda:
o doutorzinho e sinhá menina!
Temos que rezar muito e pedir protecção pra eles dois, eu não sei como essa história vai acabar.
Vocês ouviram o que disse o senhor:
que iria embora e levaria a sinhá! -disse Zacarias, e continuou falando:
-A sinhá vai embora, vem outro senhor...
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 19, 2016 10:22 am

Vamos continuar juntos ou não?
E se ele resolver nos vender, trocar, jogar na rua, nos matar!
Ele pode fazer connosco o que bem entender, somos suas propriedades!
-Mas e o filho da sinhá?
Vai crescer sendo escravo de sua mãe?
Vejo esta história se repetindo em cada rostinho mulato desta fazenda!
Os feitores desta fazenda muitos são o quê do nosso actual senhor?
O pai desses feitores está bem longe, e esquecido deles.
E os mulatos que estão lotando as fazendas do Brasil são o que dos nossos senhores brancos?
Ficamos em silêncio, pensando e dando razão ao que disse Zacarias.
Ali mesmo, na fazenda, tínhamos filhos do nosso antigo senhor, sendo feitores do próprio irmão; tínhamos mulatas que mantinham relações sexuais com estes feitores, sendo eles irmãos!
Nenhum deles tinha culpa, nem todos sabiam que eram irmãos.
-Vamos cuidar de nossas lidas e esperar pela vontade de Deus!
E Zacarias se levantou.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 19, 2016 10:23 am

Capítulo VIII - Novo plano era acção
Passamos um dia tenso, mas cada um procurou cumprir com o seu dever.
As mulheres cochichavam de um lado, os homens do outro; e os feitores estavam tão preocupados entre eles que nem prestavam atenção nos escravos.
No fim da tarde, eu achei muito estranho o pedido que me fez a sinhá menina:
"Queria dois cavalos preparados para passeio".
Ela e o marido iriam dar um passeio pelas redondezas da fazenda.
Ela se retirou, e eu fiquei pensando: Meu Deus!
Como é que esta criatura, no estado em que se encontra, enjoando pela gravidez, vai sair por aí a sós com este homem que já tentou matá-la?
Será que o doutorzinho sabe disso?
Eu não estou entendendo é nada!
Mas, como diz sempre avó Joana, eles, que são brancos, que se entendam!
Chega de me preocupar com quem não tem juízo!
Enquanto fumávamos o nosso cigarro de palha, eu comentei com Zacarias sobre o pedido da sinhá menina. Avó
Joana, que estava pitando o seu cachimbo, continuou olhando para as estrelas que mudavam de lugar no céu.
-O que você acha disso, Joana? -perguntou Zacarias.
-Eu? Acho que vamos ter grandes surpresas por aqui!
Vamos rezar e pedir protecção a nossas entidades.
O vento que está parado sobre essa fazenda é de tempestade, e não podemos fugir e nem interferir.
Quem somos nós diante de um dragão? -respondeu ela.
-Você me assusta, mulher!
Quem conhece esse seu olhar sabe que você está vendo os resultados dessa tempestade! - disse Zacarias.
-Quanto a você, Miguel, faça o que mandam os seus senhores.
Você é um escravo mandado, não tem que ficar choramingando pelos cantos e nem querer bancar o herói, arriscando sua vida e as nossas, por causas que já estão perdidas!
-recomendou avó Joana.
No outro dia, fiz como a sinhá me pediu e deixei os dois melhores cavalos prontos para o passeio.
Logo após o café da manhã os dois desciam as escadas da varanda, preparados para montar.
Ele até sorria, e deu a mão para ela, que também sorria.
Eu acho que de fato não entendo os brancos!
Pensei. Como é que a sinhá pode estar rindo desse jeito, acompanhando um homem que só não matou o filho dela pela misericórdia de Deus e a nossa ajuda?
E o doutorzinho?
Será que ele estava aceitando tudo aquilo sem fazer nada?
Entreguei o cavalo dela, e o senhor a ajudou a montar.
Ela nem ao menos notou que eu estava ali.
Os dois saíram galopando lado a lado. Olhei em direcção da casa-grande, e o doutorzinho estava na varanda.
Parecia muito tranquilo.
Continuei o meu trabalho, estava muito decepcionado.
Pobre Frederico, sua sorte não era diferente da nossa!
Estava trancado na senzala, dormindo no chão e em cima de uma esteira, e sua mãe verdadeira não pensava mais nele.
Senti uma revolta muito grande!
As escravas morriam pelos filhos, mesmo eles não sendo filhos gerados por amor, e as brancas não sentiam o mesmo amor pelos filhos?
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 20, 2016 10:24 am

Assustei-me quando ouvi a voz do doutorzinho atrás de mim. De um pulo só, me levantei.
-Miguel, onde está o meu pai?
-Ele saiu cedo, senhor -respondi.
-Bom, todos parecem que encontraram uma ocupação pra hoje.
Não sei se ainda posso tomar alguma decisão sem pedir permissão para o senhor dono desta fazenda, mas, na ausência dele e de sua sinhá, o feitor chefe responde.
Vou falar com ele.
Quero que você me prepare um cavalo para viagem.
Voltarei para a cidade.
Vou pedir ao feitor que me deixe levar um dos seus ajudantes, para que ele retorne com o animal.
Ele saiu, e eu corri a preparar os arreios.
Então ele estava indo embora. E a sinhá?
O que iria fazer com a gravidez
Como é que ela iria explicar ao marido sua gravidez?
Ou será que ela lhe contou a verdade, e ele aceitou?
Uma vez que o pai da criança era seu falso primo, poderia muito bem passar como se fosse filho dele!
Minutos depois, os feitores chegavam e me ordenavam preparar os dois cavalos de viagem.
Enquanto eu os preparava, eles conversavam, dizendo que o feitor voltaria no outro dia trazendo o animal que levaria o doutorzinho.
O senhor amarrou na garupa do animal um saco de viagem com suas roupas, despediu-se da mãe, que ficou aos prantos, e acenou para os feitores, que trocavam olhares entre si; pareciam tensos, mas tranquilos com a decisão do senhor em partir.
-Até logo, negro Miguel - disse o doutorzinho, olhando-me como se quisesse me dizer outra coisa no olhar.
O sol já estava no meio do céu; era quase meio-dia quando avistei uma tropa de cavaleiros entrando na cancela principal da fazenda.
Senti minhas pernas tremerem e um frio no coração.
Meu Deus, O que será que aconteceu?
Alguém segurava o cavalo da sinhá, e ela vinha de cabeça pendida no peito.
Outro cavaleiro segurava as rédeas de um cavalo que trazia o corpo ensanguentado do sinhozinho.
Mas não vi o cavalo que ele montava ao sair.
Vi que a roupa azul dele estava toda vermelha, e era sangue!
Corri para avisar os feitores; logo o terreiro estava cheio de feitores e escravos assustados.
Desceram a sinhá e a levaram para dentro de casa.
O feitor mandou avó Joana tomar conta dela, e um dos feitores correu com uma rede.
Chamando dois escravos, retiraram o corpo ensanguentado do senhor, colocando-o dentro da rede.
Foi um alvoroço só: o senhor estava morto!
Foi o que escutei da boca de um feitor, que não me pareceu muito triste; pelo contrário:
sem perceber que falava alto, ele disse:
-Hoje é um dia de sorte pra muita gente!
Cada um tem uma sorte, a dele foi essa, coitado!
Tentou corrigir o que tinha falado, depois que outro feitor lhe estendeu um olhar de desaprovação.
Eu entendi muito bem que ele deu graças a Deus, e pra ser sincero, no meu íntimo, eu também!
Fiquei sabendo que o cavalo caíra de uma ribanceira, jogando-o precipício abaixo, e que ele bateu a cabeça nas pedras pontiagudas que formavam pequenas cadeias de montanhas naquele local.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 20, 2016 10:24 am

O pobre cavalo quebrou a perna, e estava sendo transportado num carro de boi.
Eu corri para preparar os remédios pra ele.
Entre a morte do senhor e o cavalo, Deus que me perdoasse, mas eu preferia o cavalo vivo a ele!
Levei um enorme susto quando fui cuidar dos animais da sinhá e do que trouxe o senhor.
O animal estava lavado de sangue, e inquieto.
Eu mal pude acreditar no que via: aquele era o cavalo no qual o feitor saíra montado, acompanhando o sinhozinho que fora para a cidade!
Será que eu estava ficando louco?
Só queria ver em que cavalo ele iria voltar montado no outro dia!
Não sei se devia comentar com avó Joana e Zacarias, ou ficar bem calado!
A fazenda se encheu de gente.
A vizinhança vinha prestar condolências ao morto, não porque ele tivesse amigos, mas porque era normal nessas ocasiões o vizinho aparecer.
Sabíamos que era pecado, mas, nestas ocasiões, para nós era um divertimento ver caras diferentes.
À noite, avó Joana nos contou que a sinhá estava dormindo, tomou um chá forte e adormeceu, mas estava tudo bem com ela.
O administrador parecia inconformado.
Deu ordens ao feitor para ir buscar o filho de volta, pois o momento pedia a presença da família.
O velório corria noite adentro.
Havia bolo, café, conhaque, cachaça, vinho e outras comidas.
As negras estavam amontoadas na cozinha, preparando o que seria servido aos que estavam no velório, e também fazendo seus comentários.
Nós tomávamos café e até chegamos a beber um gole da boa cachaça lá no fundo da casa.
Quando os senhores abriam suas bebidas, nós disputávamos quem iria lamber a garrafa para sentir o gosto.
Rezávamos para ficarem restinhos nos fundos dos copos e das garrafas.
Avó Joana me chamou de lado e pediu que eu me sentasse perto dela.
-Miguel, responda sem mentir tudo o que eu vou lhe perguntar, está bem?
-Sim, senhora, o que é que a senhora quer saber?
-O primeiro a sair da fazenda hoje foi o administrador.
Ele saiu sozinho?
-Sim, ele não quis nenhum feitor ou escravo para lhe acompanhar.
-Depois que a sinhá moça e o marido saíram, onde estavam os feitores?
-Ficaram conversando baixinho.
Estavam todos reunidos no mesmo local.
-O doutorzinho saiu com um feitor.
E como os outros se comportaram na saída deles?
-Do mesmo jeito:
não saíram do lugar, conversavam baixinho o tempo todo.
-Você, nesse meio tempo, não percebeu nem desconfiou de nada?
-Eu não posso mentir pra senhora:
achei estranho que o cavalo que eu preparei para o feitor é o mesmo que voltou trazendo o corpo do senhor!
-Santo Deus! Então é isso!
Deus que nos perdoe, mas ele não morreu pela vontade de Deus, e sim por outras vontades!
Miguel, meu filho, fique com sua boca fechada, não conte a ninguém o que me contou, ouviu?
-Pode ficar sossegada, avó Joana, vou ficar calado.
No outro dia, cedo, esperei, escondido, pela chegada do feitor e do doutorzinho.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 20, 2016 10:24 am

Eles me apareceram em uma carruagem! E os cavalos?
E o feitor e senhor que nem cobrou nada do outro feitor?
A sinhá não desceu para ver o caixão do marido.
O administrador disse a todas as pessoas que ela estava em estado de choque!
E que ela precisava de muitos cuidados, justamente agora que o marido voltou e estava cheio de planos.
Dois dias depois da morte do senhor, o administrador foi até a cidade, acompanhado do filho e de dois feitores.
Soubemos que ele portava uma carta da sinhá desfazendo o negócio da venda da fazenda.
A vida continuava.
A sinhá andava pelos jardins, o doutorzinho não falou mais em voltar para a cidade, e à noite ninguém mais via luz de lampião no quarto dele.
O administrador voltou a dar ordens na fazenda; os feitores estavam tranquilos, trabalhavam rindo e trocando piadas entre si.
A barriga da sinhá começou a aparecer.
Ela já estava no quarto mês de gravidez, era o que se ouvia falar; mas nós sabíamos que na verdade ela estava no sexto mês.
Um dia eu vi o doutorzinho com a mão na barriga dela, fiquei envergonhado e pensando:
A sinhá deveria ser mais cuidadosa...
Pra que mostrar essas intimidades?
Quem não soubesse do caso dela podia passar a desconfiar!
Em um dia chuvoso, eu vi uma correria na casa-grande.
Avó Joana recomendou que eu preparasse alguns medicamentos, coisas que eu já conhecia.
Era para cuidar de mulheres na hora do parto!
O administrador e o filho ficaram sentados na varanda bebendo conhaque.
O doutorzinho andava de um lado para o outro, entrava e saía; eu entendi o que se passava:
era o filho dele que estava nascendo!
Lembrei-me do Frederico.
A sinhá, sua mãe, mandou renovar inteiramente os barracões da senzala, e as crianças ganharam coisas que jamais sonharam: brinquedos, roupas, calçados, etc.
No fim da tarde, ouvimos um choro de criança, e o doutorzinho saiu correndo pra dentro de casa, seguido pelo pai.
Ficamos sabendo que a sinhá deu à luz uma menina!
Um feitor comentou que mesmo sendo de sete meses ela tinha um fôlego e tanto!
Na semana seguinte, veio o homem do cartório fazer o registo da criança, com o nome de Rafaela.
Ouvi um dos homens do cartório comentando com o feitor:
-É uma pena!
Já nascer sem a presença do pai!
O choque da morte do marido antecipou o nascimento da pequena; veio ao mundo de sete meses e nem vai conhecer o pai!
Eu até dei risada!
Coitada da menina!
Primeiro ela nasceu na sua hora certa, graças a Deus, e teve muita sorte em não conhecer o marido de sua mãe!
Quanto a ter pai?
Ele ia crescer ao lado do pai, dos avós, do irmão!
E Frederico?
Ele, sim, me dava pena e me deixava revoltado!
A sinhá não olhava mais para ele!
Seria pela sua cor?
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 20, 2016 10:24 am

E agora que o senhor não estava mais na fazenda, a sinhá poderia trazer o António e a Anita de volta, e se ela não queria o filho deveria entregar para o António, que ele iria dar carinho e amor para aquela criança sofrida!
Só de me lembrar o quanto me arrisquei para salvá-lo!
Atravessei o rio com ele amarrado em minhas costas, ouvindo o seu choro.
Dois meses se passaram.
O administrador andava com a menina pra cima e pra baixo, no colo.
E o doutorzinho, então?
A sinhá estava bonita, rosada e voltou a sorrir.
Uma tarde, eu vi a sinhá sair com a menininha no colo.
Ela não me viu, e não tinha nenhum feitor nos arredores da casa.
Ela foi até a senzala e sentou-se num toco de madeira.
Pediu para trazer Frederico, entregou a menina pra mãe adoptiva dele e o pegou no colo.
Ele começou a chorar, estendendo os bracinhos; chamava pela "mãe preta" dele.
Vi a sinhá secando uma lágrima.
Entregou o menino e pegou a nené, e ficou conversando com Maria do Céu.
De vez em quando, passava a mão no filho, que se agarrava à sua "mãe preta".
A Maria já tinha me dito que não sabia explicar o porquê, mas Frederico era mais agarrado com ela do que o seu próprio filho.
Fiquei feliz com a cena:
coração de mãe é sempre coração de mãe!
Ela não desprezava Frederico como eu pensava!
E assim eu pude testemunhar que todas as tardes ela dava um jeito de ir ver Frederico.
Ninguém mais falava da morte do senhor.
Na fazenda, tudo corria às mil maravilhas; tudo se renovou, não havia brigas e nem desavenças, e a paz parecia ter vindo para ficar entre nós.
Só eu é que de vez em quando tentava entender sobre o que acontecera com a troca de cavalos.
Como foi que o sinhozinho voltou morto no cavalo que eu preparei para o feitor?
Como se explicava isso?
Mas a avó Joana me pediu que ficasse de boca fechada sobre essa história, e eu realmente não comentei nada com ninguém, nem mesmo com Zacarias, que era nosso verdadeiro pai e mestre.
O doutorzinho me chamou e pediu que eu preparasse uma carruagem para o outro dia.
Eu deveria ir junto com ele; iríamos à cidade, e a sinhá não poderia nos acompanhar, porque a filha ainda mamava e ela não queria judiar da criança levando-a em uma viagem cansativa.
Eu preparei a carruagem, me preparei também, e estava muito orgulhoso:
fazia um bocado de tempo que eu não saía da fazenda.
No outro dia seguimos viagem; um feitor e mais um escravo também foram juntos.
Na cidade, ele deixou o escravo e o feitor no armazém e me chamou, falando em voz alta para que eles ouvissem:
-Você vem comigo.
Enquanto eu vou resolver alguns assuntos de negócios, você irá até a igreja comprar alguns santos para a minha mãe.
Ela fica muito feliz com novos santos.
Eu, como não entendo de santos, não sei os que ela já tem.
Você deve saber, então compre os que ela ainda não tem!
No caminho para a igreja, ele me disse:
-Miguel, todo esse tempo você deve ter imaginado que eu sou um crápula, não?
-Não, senhor!
Eu não costumo julgar as pessoas.
-Pois bem, Miguel, eu não sou tão bom como deveria ser!
E nem sou o diabo encarnado!
Porém, a minha consciência me pede para lhe dar uma explicação!
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 20, 2016 10:25 am

Afinal de contas, devo muito a você.
O que vou lhe contar agora é para ser enterrado no pó dessa estrada, entendeu?
Apenas balancei a cabeça.
Um frio percorria o meu corpo, deixando-me todo arrepiado.
A cena do senhor chegando todo ensanguentado me veio à mente.
-Pois bem, Miguel, de uma forma ou de outra você está entre nós.
Eu sou conhecedor de tudo o que você fez para ajudar a sua sinhá, os dois escravos e o filho dela.
Quero que você saiba de uma coisa:
não sei qual será o meu castigo no outro lado da vida, mas eu precisava fazer o que foi feito!
Antes que morressem muitos inocentes, que morresse um só e nada inocente!
Veja só o que eu descobri:
o senhor estava negociando esta fazenda com um sujeito que subiu na vida roubando e explorando escravas.
Você o conheceu!
Ele recebeu uma quantia imensa da sinhá quando devolveu aquela bolsinha, e só devolveu porque não podia vender; ele sabia que seria investigado, e podia ser preso como ladrão, e de facto ele é um ladrão.
E sabe o que mais?
Ele estava negociando a fazenda, vocês e a sinhá.
O sujeito contou tudo para o senhor, inclusive onde estavam António e Anita.
Ele ia vingar-se de todos, e iria descobrir com certeza o filho da sinhá e dar cabo da vida dele.
Ele não tinha plano de levar a sinhá para lugar nenhum!
Mas planeava arrastar António e Anita com ele, e só Deus sabe o que ele iria fazer!
-Eu fui homem o suficiente para contar ao meu pai meu envolvimento com a sinhá.
Revelei que ela estava grávida de um filho meu, e relatei todo o plano que envolvia o marido dela.
Meu pai se revoltou, e me deu todo apoio.
Ele fez um levantamento, e descobriu que o maldito senhor planeava vingar-se da sinhá entregando-a para aquele ladrão ordinário.
-Os feitores mais velhos da fazenda, sabendo que rios de sangue iriam lavar estas terras, ficaram do lado do meu pai, e assim nós convencemos a sinhá a convidar o marido para um passeio.
No começo ela resistiu, dizendo ser contra as Leis de Deus.
Convencemos a sinhá de que esta era a única saída que havíamos encontrado para salvar tantas vidas.
-Eu não teria coragem de fazer o que o feitor fez, mas não posso negar que participei e acompanhei toda a trama.
Na hora do acidente, tirei a sua sinhá do local; mas para que tudo parecesse mesmo um acidente, ela teve que voltar acompanhando o morto.
E quanto à questão de registrar a minha filha com o nome dele, eu não queria em hipótese alguma, mas meu pai me convenceu que não haveria mal nenhum, uma vez que ele estava morto e, por lei e por direito, só como filha dele é que poderia ser herdeira de tudo.
Pensei bastante e conversei com a sua sinhá; chegamos à conclusão que seria o único caminho para se preservar inclusive a integridade dela.
E por falar em integridade, quero lhe dizer que vamos ajudar o Frederico em tudo que se fizer necessário, mas a sinhá não poderá reconhecê-lo nunca como filho!
Infelizmente não podemos, perante a sociedade, explicar o que aconteceu.
Talvez Frederico se revoltasse mais com a verdade de sua gestação do que se vivesse livre no meio dos escravos!
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 20, 2016 10:25 am

É isso o que eu vou fazer com Frederico:
dar liberdade a ele!
Vou colocá-lo em um colégio interno, para que ele estude e se torne alguém, independente de sua cor.
E assim que tiver se formado, voltará para trabalhar connosco, assumindo um cargo de confiança e importância.
Ele vai estudar fora do Brasil.
Sei que Maria do Céu vai sofrer, porém hei de convencê-la a deixar seus dois filhos irem estudar fora.
O mesmo direito que Frederico tem, o outro irmão, que dividiu com ele a mãe, também terá!
Eu só ouvia, não tinha coragem nem de pensar, que dirá de falar!
Suava tanto que a minha roupa colou em minha pele.
O senhor, olhando-me, perguntou:
-Está com medo de mim, Miguel?
Eu precisava lhe contar isso!
Como lhe disse, não sei o castigo que me reservam do outro lado, mas não me arrependo do que fiz junto com os outros.
Confio plenamente em você, e espero que jamais confie isso que ouviu a ninguém!
-Senhor, o que acabei de ouvir me deixou chocado, mas no fundo eu sabia que alguma coisa havia sido feita e bem pensada, pois o senhor voltou no cavalo que eu havia preparado para o feitor; e não dava tempo de o feitor ir até onde o morto se encontrava para trocar de cavalo!
-Miguel, mais alguém na fazenda percebeu isso? -perguntou o senhor, preocupado.
-Bem, senhor, a avó Joana e o Zacarias sabem.
Eles me pediram sigilo absoluto, que eu nunca falasse sobre isso com ninguém!
Acredito que eles sabem que o senhor não morreu de morte morrida, mas que houve alguma trama.
Mas o doutor fique tranquilo quanto a eles, pois os dois não contariam nem no tronco e nem nos pés de Deus o que desconfiam!
Eles são assim: quando não têm certeza de uma coisa e julgam que é bom para todos, fazem de tudo para nunca ter a certeza em mãos!
-E o que dizem os mais experientes:
não existe crime perfeito!
Olha só que mancada essa!
O feitor colocou o corpo no cavalo em que montava!
Nem parou para pensar que alguém teria visto ele saindo e montando o cavalo que trouxe o morto!
Chegamos à casa de diversão onde António e Anita viviam escondidos.
-Miguel, você segue para a igreja - disse o doutorzinho.
Pegue a autorização e a coloque no bolso.
Se alguém na rua o parar, mostre o papel e pode seguir.
Pegue estas moedas, vá até a igreja e compre alguns santos novos para a minha mãe.
Compre o que você quiser comer, e não tenha pressa em voltar.
Quando retornar, espere sentado aqui em frente, fique com o papel de autorização à vista.
Saí andando, e nem sentia os pés no chão.
As palavras do doutorzinho martelavam em minha cabeça.
Então a sinhá também participou da trama toda!
Ela não era tão frágil como eu imaginava!
Para acompanhar alguém que está marcado para morrer é preciso ter muita coragem.
E o feitor que acompanhou o doutorzinho, segundo o falatório, era filho do nosso antigo senhor, pai do sinhozinho; então eles eram irmãos!
Como foi que ele teve coragem de fazer isso?
O senhor era mesmo um monstro, mas ter coragem de ajudar a matá-lo era inacreditável!
Eu acho que eu não teria... Ou teria?
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 20, 2016 10:25 am

Chegando à igreja o sacristão me reconheceu e me perguntou:
-E então, negro, o que veio buscar hoje para sua sinhá?
Faz tempo que você não aparece, cheguei a pensar que a sua sinhá tinha morrido!
Temos novos santos e santas, todos poderosos!
Os fiéis precisam lembrar-se que os santos a cada dia aumentam sua santidade!
Quanto mais fazem milagres, mais Deus dá poder a eles!
E os preços continuam pequenos!
-Eu na verdade vim buscar muitos santos!
O meu sinhozinho pediu que o senhor me entregue o dinheiro para o meu suco e o meu bolo, e o restante para levar em santos!
-Que bom, filho! Viva Deus!
Esse é um bom cristão!
É consciente, e sabe que precisa ajudar a igreja e os santos em serem conhecidos.
Cadê o dinheiro que você trouxe?
-Aqui está! -Coloquei tudo em cima da mesa.
-É justo e correto dar de comer e beber aos viventes!
Pegue estas moedas.
Ali, naquela banca -disse, apontando para fora da igreja -, você vai comer e beber à vontade com esta quantia.
Lembra-se dos santos que já comprou para sua sinhá?
-Se eu puder vê-los, vou lembrar sim, senhor!
Os nomes eu não decorei, mas só preciso vê-los para os reconhecer.
-Muito bem, venha até aqui!
Olhe com calma e vá dizendo quais são os santos que ela ainda não tem -pediu ele.
No final, entre os santos que ela ainda não tinha só sobravam cinco.
Ele ficou pensativo, com as moedas na mão, e então me disse:
-Você levará os santos que ela não tem, mais as velas de que ela precisa, mais um pacote de incenso, alguns terços novos que chegaram, e um vidro de água benta para espalhar na casa.
Avise a ela que os santos estão todos bentos!
Aí está completo o pagamento.
E avise a ela que logo, logo vão chegar de Roma santos novos para levar mais milagres para aquela fazenda, entendeu?
Enquanto ele embrulhava os santos, eu criei coragem e perguntei:
-Por que ninguém compra São Benedito?
-Ah, negro Miguel!
Eu sei que é até injusto o eu vou lhe dizer, mas até eu acredito que São Benedito é branco.
Acontece que um revoltado, algum escravo livre, para contrariar os senhores inventou que ele é negro!
Ele fica ali escondido naquele canto.
Já recebemos muitas reclamações para tirá-lo do meio dos santos brancos; repare que ele está do outro lado, escondido!
-Esse dinheiro que ficou para minha comida não pagaria por ele? perguntei, olhando para a imagem e sentindo um aperto no coração!
Será que até no céu havia preconceito?
Será que Deus dava poderes aos santos brancos e castigo para o santo negro?
O zelador coçou a barba, olhando para o santo e para o dinheiro na minha mão, e respondeu:
-Pensando bem, vamos fazer o seguinte:
direi ao padre que o santo caiu e se quebrou!
Ele vai ficar até aliviado, pois recebe tantas reclamações contra a imagem do santo!
Vou lhe dar esse São Benedito!
Você vai escondê-lo bem escondido!
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 20, 2016 10:25 am

Os seus senhores não podem saber que tem uma imagem de um santo negro na fazenda!
Reze todos os dias e peça também por mim, para que eu consiga resolver todos os meus problemas financeiros; e se ele fizer algum milagre lá na fazenda, venha me contar!
E preste atenção:
se alguém, por ventura, descobrir esse São Benedito com você e chegar alguma reclamação até o padre, direi que você roubou o santo!
Que menti dizendo que ele havia se quebrado para não causar aborrecimentos a ele!
Cuide bem do seu santo, e se ele for mesmo milagroso, vai fazer milagres para vocês, negros!
Agarrei-me com o santo, e senti uma alegria tão grande no coração!
Eu nunca havia ganhado um presente tão valioso como um santo rejeitado!
"Meu senhor São Benedito, venha comigo, terá todo o nosso amor!
Eu prometo, meu santo protector, que não vou mentir a seu respeito, vou lhe mostrar ao meu senhor e pedir permissão para o senhor ficar no meio de nós sem precisar ser disfarçado!
Perdoe-me por ter pensado mal do senhor.
Sou um negro ignorante, penso besteiras, mas no fundo eu tenho um coração bom, e o senhor com certeza não foi um negro ignorante.
E se virou santo, é porque Deus lhe tem consideração!"
Saí da igreja pensando:
será que estes santos fazem milagres?
Nossos guias espirituais não têm imagens, e eles mesmos explicam que não fazem milagres, apenas nos ajudam a entender melhor a vida.
Como é que uma imagem que não fala pode fazer milagres?
Eu vou perguntar isso para o Zacarias e para a avó Joana, eles devem ter alguma explicação pra me dar!
Não consigo acreditar que estas imagens são os espíritos dos santos!
Como é que vou acreditar em espírito morto que não fala, não se move?
A gente fica mesmo falando é sozinho!
Grande coisa, eu falar, falar e falar, olhando para uma imagem silenciosa, que não abre a boca pra nada!
Eu prefiro ouvir os meus santos vivos, que são nossos guias!
Pelo menos eles dizem o que eu posso entender!
Mas talvez os brancos não precisem escutar tanto como nós, eles devem ser meio santos.
Será que é isso?
Estava tão absorto em meus pensamentos que nem percebi que uma carruagem fina parou do meu lado.
-Negro Miguel?
Tomei um susto medonho!
Fiquei parado sem me mover do lugar.
Vi uma cabeça pela janela, rindo para mim.
Era o antigo cocheiro que ficou rico!
-Não se lembra mais de mim, não é, negro?
Lembra-se que eu lhe falei que ia ficar rico?
Fiquei mesmo!
Eu gosto de cumprir as minhas promessas.
Prometi que assim que enriquecesse iria me casar com a sua sinhá, e fazer de você o meu braço direito, lembra-se?
Bem, rico eu já fiquei!
Estava quase acertando a compra da fazenda com o seu senhor quando aconteceu a morte estúpida dele!
Morte essa que eu ainda não entendi, especialmente porque o nosso negócio foi suspenso!
Vou esperar mais uns dias e devo ir visitar sua sinhá; e como sou um homem de sorte, a morte do senhor só me trouxe ajuda!
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 20, 2016 10:25 am

Nem vou precisar comprar a fazenda, ela será minha e sua dona também!
E você vai ser o meu escravo preferido!
Até logo, negro Miguel!
Em breve visitarei a sua sinhá e farei o que é necessário! -disse isso e ordenou ao cocheiro que seguisse.
Santo Deus!
Ele continuava desejando a sinhá; será que ela sabia disso?
Pelo que o doutorzinho me contou, ele sabia, mas o que eu podia fazer?
Ao chegar diante da casa de diversão, eu me sentei no canto reservado aos escravos que esperavam os senhores.
Logo avistei um negro velho sentado em um dos bancos.
Ele pegou um cigarro de palha e me ofereceu, dizendo:
-Pega, menino!
Você sabia que nesta praça agora só se sentam mulheres de vida suspeita, feitores, alguns senhores afoitos e rebeldes e nós, que ficamos aqui esperando por eles enquanto se divertem?
Eu acho é bom!
Assim fico observando o jardim, as flores e descansando enquanto pito o meu cigarrinho!
-É lei nova? — perguntei, pegando o cigarro.
-É a lei do povo, filho!
Os brancos fazem besteiras uma atrás da outra, depois eles mesmos taxam os seus actos de impuros!
Quem foi que criou esta casa de prazeres carnais?
Fomos nós? Foram eles!
No entanto, isolaram esta praça como um lugar impuro para as suas famílias passarem!
Quer saber de uma coisa, meu filho?
Os homens estão deixando este mundo pior do que quando veio o menino da cruz.
-Que menino da cruz? - perguntei ingenuamente.
-Nosso Senhor Jesus Cristo!
Este menino foi sacrificado ainda muito novo, e desde menino Ele começou a lutar pela nossa liberdade!
-Mas então ele não conseguiu foi nada pra nós!
Só beneficiou os brancos!
A escravidão continua pra gente! -respondi, magoado.
-Meu filho, você também é um menino!
Ainda vai viver e ver muitas coisas!
O menino da cruz veio ao mundo nos libertar da escravidão do espírito, e Ele conseguiu, sim!
Todos nós somos livres na alma!
Todos nós somos livres, meu filho!
Veja bem: até este meu corpo velho, que já não serve pra muita coisa, na hora que o meu espírito for libertado, ele também será livre de qualquer compromisso!
Qualquer homem pode tocar seu corpo físico, pode ferir, cortar, queimar, pode matá-lo; mas no seu espírito, filho, só tocam aqueles que você permitir!
É por isso que nós precisamos ter fé em Deus!
E muita fé!
Como é que você se chama? -ele perguntou.
-Eu me chamo Miguel.
Quer dizer, até isso me roubaram...
O meu nome era Luís Fernando, mas quando fui vendido recebi esse nome e me acostumei com ele.
Para falar a verdade, não sei se me acostumaria de novo a ouvir o meu outro nome!
-Viu só, Miguel?
O nosso nome torna-se importante quando nós começamos a gostar dele!
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 20, 2016 10:26 am

Você disse que lhe roubaram um nome, mas em compensação você ganhou outro que gosta!
E para ser mais sincero com você, vou lhe contar uma coisa:
os nomes pelos quais somos chamados em terra não são os nossos nomes verdadeiros; então, ninguém pode roubá-lo de nós.
O nosso nome fica bem guardadinho em algum lugar no céu.
Ele pigarreou, e depois prosseguiu.
-Eu mesmo recebi o nome de Justino, e nem me lembro que nome a minha mãe deve ter me dado!
Quando fui vendido, era tão pequeno que nem me lembro do que me chamavam; tenho uma vaga lembrança da senzala onde brinquei com outras crianças.
Fui dado de presente para uma sinhá que queria um menino para servir de cavalinho para o filho dela, e eu gostava de brincar de cavalinho.
Fui vendido quando era criança.
Minha sinhá foi embora, vendeu a fazenda, e o senhor vendeu os escravos criados na fazenda; dizia ele que éramos cobras criadas e que não ia dar certo.
Depois, já maduro, fui trocado por um negro jovem, que ia para a lavoura.
Eu fui cuidar dos doentes, e continuo por lá até hoje.
-Acredito que a minha próxima troca ou venda será para o cemitério, se Deus quiser!
Eu vivo feliz nos dias de hoje, acompanho os filhos do sinhozinho nestes divertimentos, cuido das sementes...
Porque você sabe, semente que não é preparada com oração e amor não vinga!
Faço remédios e vivo tranquilo, nada tenho para reclamar contra o meu Deus!
Sou um ser abençoado, e aconselho a vocês, mais jovens, que tenham paciência e cabeça para enfrentar o que virá pela frente!
Desde os tempos dos nossos mais velhos que ouvimos dizer que a escravidão vai ter fim!
Eu acredito que só é escravo quem quer!
Eu me julgo um ser livre de tudo!
Nunca fui prisioneiro de ninguém!
-O senhor me desculpe, eu sou um escravo e pensei que o senhor também fosse um escravo!
Se não é escravo, o que faz aqui?
-Eu sou cativo!
É bem diferente de ser escravo.
Cumpro um dever com os homens brancos, e eles não tiveram culpa da minha cor!
E se eu nasci nesta ocasião, e não em outra, é porque eu precisava cumprir estas tarefas!
Meu filho, ninguém vem a este mundo sem ter o que fazer!
Você acha que Deus é descuidado a ponto de deixar alguns dos seus filhos sofrerem e outros ficarem impunes?
Somos apenas instrumentos, meu filho!
Aquele que bate está apanhando!
Você acha que só os negros sofrem?
Brancos não têm sofrimento nenhum?
Fiquei ali, matutando em tudo o que havia acabado de ouvir da boca daquele negro velho, de olhar bondoso, pés enfiados em uma sandália de couro, chapéu de palha que lhe protegia os olhos das queimaduras do sol.
Ele falava manso, e só dizia coisas bonitas.
Eu queria ficar mais tempo com ele, mas avistei o meu senhor saindo.
Fiquei de pé, olhei para o negro velho e disse-lhe:
-Eu tenho que ir, o meu senhor está vindo!
-Vá com Deus, filho!
Que a gloriosa mãe do Menino Jesus o cubra sempre de luz!
Ah! Pega estes cigarrinhos de palha pra você, assim vai fumando pelas estradas e pensando na vida!
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 20, 2016 10:26 am

Leve também este binga [espécie de isqueiro, com duas pedras que entravam em atrito, gerando faísca de fogo] pra você acender seus cigarros.
Diga ao seu senhor que fui eu quem lhe deu de presente, pra ele não pensar que roubou.
Agradeci e saí correndo.
Cheguei perto do doutorzinho e mostrei o que havia ganhado, e apontei para o negro velha Justino, dizendo que foi ele quem me presenteara.
O doutorzinho olhou para o negro velho e deu com a mão, sorrindo.
Justino tirou o chapéu, colocando na altura do coração, e baixou a cabeça em sinal de respeito, permanecendo de pé.
-A nossa carruagem chegará daqui a pouco.
Mais três pessoas vão entrar bem disfarçadas:
são António, Anita e a ex-dama da sinhá.
Eu estou levando os dois escravos de vota à fazenda, afinal de contas eles são propriedade da sinhá.
Estou com todos os documentos deles aqui, não temos risco nenhum em transitar pelas estradas.
Quanto à ex-dama da sinhá, ela de facto é uma grande dama!
Vendeu a sua casa de diversão para o avarento rapaz que quer ficar mais rico do que já é!
Ele assinou um contrato com ela, e pagou pela casa um valor menor que a metade do que na verdade a casa vale.
Mas ele exigiu isso dela para renunciar à compra da fazenda e esquecer a proposta do senhor em relação à sinhá.
A dama lhe contou que o senhor morto deixara uma filha recém-nascida, e que a pequena tornou-se herdeira absoluta de tudo que lhe pertencia; isso já está lavrado pelos escrivães.
Quanto à sinhá, ela é simplesmente uma pobre viúva.
Como todo crápula, ele coçou a barba e disse:
"Eu vou encontrar outra viúva nova e bonita, e sem filhos!
Há tantos sinhozinhos doentes por aí!
Entre esta casa de prazer e uma viúva pobre, eu fico é com a casa!"
E assinou sem pestanejar.
O doutorzinho fez uma pequena pausa.
A dama vai voltar para a fazenda, e quando tudo estiver nos seus devidos lugares, ela pretende voltar à sua terra, o que eu acho totalmente justo!
Não sei o que você acha, mas, conversando com a dama, tive uma ideia que se a sua sinhá aceitar nós podemos colocar em prática:
Podemos dar cartas de alforria para António, Anita, Frederico e o irmão dele; assim, eles podem seguir com a dama, viver em outro país, como cidadãos livres!
Eu suspirei fundo:
meu Deus, mandar o Frederico embora?
Sem perceber, duas lágrimas já corriam pelos meus olhos.
O doutorzinho bateu no meu ombro e disse:
-Miguel, é uma alternativa de libertar Frederico e oferecer a ele a oportunidade de frequentar uma escola!
Se ele não pode viver ao lado da mãe, como deveria, pode viver ao lado do pai!
Você acha que se eu pudesse não colocaria Frederico nos braços da mãe?
Eu não posso fazer isso!
Porém, posso ajudar o filho dela a se tornar um homem livre e estudado.
Quem sabe futuramente as coisas mudem e ela possa reconhecê-lo publicamente como seu filho!
Você acha que foi fácil para mim renunciar à paternidade de minha filha?
Acha que foi puramente interesse de minha parte? Não, Miguel!
É que se não fosse assim, a sinhá iria ter muitos problemas agora, e no futuro seria a minha filha a trilhar esses sofrimentos!
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 20, 2016 10:26 am

Que bom colégio iria recebê-la tendo um passado mal falado?
Quem iria desposá-la sabendo de sua origem?
Não é fácil, Miguel, vocês sofrem de um lado e nós sofremos do outro.
Não demorou muito tempo e vi uma carruagem de luxo encostando, e o ex-cocheiro descendo, todo elegante; parecia mesmo um doutor!
Vendo-me, sorriu e disse:
-Miguel, eu vim de carruagem...
Cheguei na sua frente, e deu tempo de fazer bons negócios!
Pensando bem, você é esperto demais para ser meu escravo!
Escondeu-me tudo a respeito de sua sinhá.
Queria me enganar?
Eu sou um homem de sorte!
Ainda bem que não perdi o meu tempo indo atrás de uma sinhá pobre!
Agora que sou rico, só quero navegar em rio de ouro!
Justino estava do outro lado, só observando.
As mulheres subiram e, por último, foi António que apertou o meu braço em sinal de cumprimento.
O senhor subiu, eu fechei a portinhola e me sentei na direcção, junto ao cocheiro.
Acenei para Justino, que me respondeu também acenando, e com um sorriso meigo.
Fiquei calado, pensando na chegada de António à fazenda; os velhos companheiros iriam morrer de alegria em tê-lo de volta.
E a sinhá? Coitada...
Eu mesmo a andava julgando como uma pessoa má, e ela suportando e superando tantos sofrimentos para ajudar a todos nós.
E o doutorzinho, então? Jesus, esse homem foi um anjo que caiu do céu naquela fazenda!
Quem seria eu para estar pensando mais na morte do sinhozinho!
Eu não era Deus!
Ia procurar viver em paz, e não me questionar disso ou daquilo que aconteceu!
Ele estava morto, e, como disse o doutorzinho, antes morrer um do que morrerem muitos inocentes; o Frederico, por exemplo!
Coitada de sua mãe adoptiva, ela amava acima de tudo aquele menino...
Ele iria embora para outro país, nós não iríamos mais ver Frederico!
Meus olhos não seguravam as lágrimas, e eu voltei a me lembrar do seu choro nas minhas costas, quando cruzávamos o braço do rio.
Quando chegamos à fazenda, as estrelas cintilavam no céu, como sempre!
Desci e fui ajudar a abrir a porta da carruagem.
As mulheres desceram sob o olhar do feitor, que ficou espantado quando viu a dama descer, e quase deu um grito quando pôs os olhos em António e Anita!
Antes de entregar o pacote com os santos da mãe do doutorzinho, eu abri o pacote onde estava São Benedito e contei a ele que havia sido um presente.
E perguntei se eu podia colocá-lo à vista de todos os negros.
-Claro que pode, não é um santo?
Faça suas orações, seus trabalhos, seus pedidos; e que ele nos ajude.
O doutorzinho levou a dama para dentro da casa-grande, e eu levei António para o nosso barracão.
Anita foi levada pela avó Joana para as dependências femininas.
Quando colocou o pé dentro do barracão, a primeira coisa que António pediu foi:
-Pelo amor de Deus, Miguel, vá buscar o meu filho!
Quero vê-lo!
-Fale baixo, António!
Você pensa que todo mundo aqui sabe que Frederico é seu filho?
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 20, 2016 10:26 am

Todo mundo sabe que ele é filho de Maria do Céu com um feitor, e não seu com a sinhá!
Os amigos foram se achegando, todo mundo abraçando António e dando-lhe as boas-vindas!
Alguns queriam saber como ele sobrevivera à caça, pois foi procurado como ouro pelos capitães das matas; e ele se encantou, pois ninguém colocou as mãos nele!
-Você tem alguma oração que faz ficar encantado, António? perguntou André, brincando.
Ele olhava para mim ansioso, e, após cumprimentar todos os amigos da senzala, eu o convidei para ver avó Joana e as outras mulheres que faziam parte da nossa família de negros.
Ele veio correndo, e fomos até onde estava Maria do Céu com as duas crianças.
António foi se aproximando do filho. Frederico encolheu-se, agarrando-se com a mãe adoptiva.
António então passou as mãos em Frederico, e vi duas lágrimas rolando pelas suas faces.
Abraçou-me e ficou em silêncio, chorando, e disse:
-Muito obrigado, Miguel!
Mil vidas eu possa vir a ter, e ainda será pouco para eu pagar a você aquilo que fez por nós.
-Somos irmãos, António, tenho certeza que você faria o mesmo por mim.
Daqui pra frente você vai ter que enfrentar outros problemas; porém, acredito que hoje eu tenha ouvido as palavras mais certas deste mundo:
nós somos cativos de um sistema que precisamos viver para descobrir a verdadeira vida, mas escravos nós não somos!
Somos livres na alma, nos sentimentos, no coração...
-Miguel? Quem andou lhe falando isso? -perguntou avó Joana.
-Foi um negro velho que conheci lá na praça da cidade.
Ele fala como se conhecesse tudo neste mundo!
As coisas que ele me disse hoje! Vou pensar nelas todos os dias e tentar compreender melhor a minha própria vida e a dos outros.
Às vezes, a senhora e o Zacarias nos dizem coisas que fazem a gente rir, achando que é velhice de vocês!
Mas hoje eu tive a prova de que vocês falam a verdade de quem já viveu mais do que nós.
-Hoje eu descobri -continuei -porque suas flores e suas verduras são mais bonitas e não perde uma!
A senhora reza e agradece a cada semente que vai sofrer, enterrada na terra, para depois nascer, dar flores, frutos que salvam a outras tantas vidas...
-Que dia abençoado! Meu Deus!
Pra você voltar com tantas coisas boas dentro do seu coração, só pode ser mesmo a mão de Deus.
Como era o nome desse negro, Miguel?
-Justino! Ele me contou sua história bem triste!
No entanto, ele parece a pessoa mais feliz do mundo!
A senhora precisa ouvi-lo contar sua própria vida; é como se fosse a coisa mais natural...
Até brincou dizendo que foi negociado por três vezes, e que a próxima negociação é para mandá-lo para o cemitério.
Bem, bem, eu não tenho do que reclamar:
hoje de facto foi o meu dia de sorte!
Vejam o que eu ganhei!
Todo orgulhoso, eu exibi a imagem de São Benedito.
Avó fez o sinal-da-cruz e beijou o santo, dizendo:
-Meu filho, nem imagina que felicidade trouxe para nós!
Posso arrumar o lugar onde devemos colocá-lo?
-Claro! Ele será o nosso santo protector!
E olhem aqui o que eu ganhei de presente do Justino!
Eu mostrei para o doutorzinho na mesma hora, e ele consentiu que eu recebesse.
Peguei um cigarro, e com todo orgulho fiquei apertando o meu presente até que saiu faísca de fogo e acendeu o cigarro.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 20, 2016 10:27 am

Avó Joana encostou-se na parede, e pensei que ela fosse desmaiar.
Corri e a segurei.
-O que foi, avó Joana? O que a senhora está sentindo?
António, pegue um copo de água pra ela!
Vó, eu juro que não roubei isso!
Foi presente mesmo! O senhor viu, e sabe que eu ganhei mesmo!
Ela tomou água e me pediu pra ver o meu presente.
Passei para as mãos dela, ela examinou e disse, com lágrimas nos olhos:
-Isto aqui pertence ao meu irmão! Santo Deus!
Quando você me falou no nome Justino, nem por sonho eu podia imaginar que era o meu irmão.
Nós dois nos separamos ainda crianças; ele tinha cinco anos, e eu tinha nove!
Nunca vou esquecer aquele dia!
Uma sinhá o levou para o filho dela montar como se ele fosse um cavalinho.
Ele foi levado para servir de brinquedo para o sinhozinho!
Na saída dele, eu corri e lhe entreguei este acendedor que pertenceu ao nosso pai velho, o negro Artur, que cuidava das crianças.
Antes de morrer, ele entregou para nós o que tinha como herança:
uma cuia de coco, este acendedor de cigarros, uma mochila, um cinto, um chapéu e outras coisinhas.
-Nunca mais vi e nem soube do meu irmão!
Coitadinho!
Tão pequeno, ser o bicho de estimação dos sinhozinhos.
Naquele tempo era normal fazer das meninas negras os brinquedos das sinhás meninas brancas.
Elas cortavam nossos cabelos, puxavam, amarravam ao que queriam, pintavam nosso rosto, amarravam tecidos em nossos corpos, faziam o que queriam.
Hoje está melhor muito melhor... -Ela suspirou.
Meu Deus!
Como eu queria ter visto o seu rosto!
Como ele é, Miguel?
Fale-me tudo sobre ele, o que vocês conversaram? -pediu ela.
-Avó Joana, ele parece com a senhora nas palavras!
Agora posso entender por que ele diz as mesmas coisas que a senhora nos fala!
Agora eu sei o porquê:
vocês são irmãos!
Não conversamos muito tempo, mas o que ele me ensinou valerá por toda a minha vida.
Ele é calmo, tem um olhar de bondade e me disse ser muito feliz.
Nem preciso dizer o quanto ele é generoso e amável!
-Ele informou onde está, quem é o senhor dele?
Avó Joana ansiava por saber mais.
-Não! Eu não sei o nome da fazenda, nem do senhor dele!
Não falamos sobre isso.
Mas, eu tenho uma sugestão para dar à senhora:
peça ao sinhozinho que investigue onde se encontra seu irmão!
O doutorzinho tem tanta consideração pela senhora que é capaz de trazer seu irmão aqui para lhe ver!
Cada vez mais os senhores de bom de coração estão fazendo isso.
Eu até ouvi um senhor comentar com outro que os negros que trocam visitas com seus familiares trabalham melhor!
-Ah, filho, o doutorzinho não é ainda o nosso senhor!
Mas você me deu uma óptima ideia.
Eu ouvi falar nessa história de negros visitarem negros em outros lugares, mas não acreditei muito, não!
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 20, 2016 10:27 am

Aqui isso ainda não aconteceu, e olhe que nós temos parentes espalhados por esse mundo de meu
Deus que são até demais!
Você, por exemplo:
chegou aqui um moleque, cresceu no meio da gente; aonde foi parar o seu pai?
Quer saber de uma coisa, Miguel?
Vá chamar o Zacarias, vamos trocar umas conversas e ver o que ele acha!
Ficamos os três juntos trabalhando na preparação dos remédios:
eu mexia o tacho de ferro, Zacarias cortava as folhas e avó Joana separava as folhas e raízes.
Zacarias achou que seria válido pedir para a própria sinhá, e não para o doutorzinho.
Porém, deveríamos saber como conduzir tal conversa.
Não seria assim tão fácil!
Zacarias orientou avó Joana do seguinte modo:
quando surgisse uma oportunidade de falar sobre família, ela faria o pedido; aí, sim, o doutorzinho acataria com gosto, porque seria um pedido de sua amada.
António e Anita, pelo tempo que haviam ficado juntos, aprenderam a se gostar de verdade; eles pediram permissão para ficarem juntos como marido e mulher.
Anita agarrou-se a Frederico, e começou até uma guerra de ciúmes entre a mãe adoptiva e Anita, que pegava o menino e o levava para o pai.
E como dizem, e é verdade, sangue chama sangue; Frederico apegou-se a António, e estando com ele não queria mais ninguém.
Dois meses depois, na casa-grande, instalou-se um corre-corre:
a ex-dama da sinhá se preparava para partir.
António e Anita, como escravos livres, e Frederico e seu irmão também!
A mãe adoptiva chorava, gritava, e nós entendíamos o que ela sofria.
Até o feitor, que era acusado de ser o pai deles, estava revoltado!
Que direito a sinhá tinha de arrancar o Frederico e seu irmão e dar de presente para António e Anita?
Eles poderiam ter os filhos deles!
Aquilo era injusto!
Ele foi até pedir para avó Joana interferir para que sinhá não fizesse aquilo com a mãe; ela também era mãe, e sabia o quanto doía!
Em uma tarde ensolarada, eu, o doutorzinho e mais dois feitores acompanhamos os viajantes.
Frederico, em sua inocência, ria nos braços de António.
Deixamos a senzala em prantos, com duas mães trancadas e chorando.
A sinhá tentava consolar-se e consolar Maria do Céu, explicando a ela as vantagens de Frederico e o irmão irem para outro país.
Chegamos à cidade e pernoitamos.
No outro dia, de manhã, nós os acompanhamos até o porto, onde eles alcançariam mais adiante o navio e seguiriam viagem.
Peguei Frederico no colo e chorei.
Aquele ser tão inocente e tão querido estava indo embora, deixando saudade em nossos corações.
-Adeus, meu pequeno!
Não sei se ainda vou vê-lo um dia.
Passe o tempo que passar, jamais vou me esquecer de você!
Na volta à pousada, ninguém trocava uma palavra.
Chegamos no armazém, e as compras já estavam separadas. Colocamos tudo nas carroças dos feitores.
O doutorzinho pediu que eu fosse conduzindo uma das carruagens que vieram da fazenda.
Lá dentro, sentado, estava o negro velho Justino.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 21, 2016 10:08 am

Quando me viu, deu uma risada amável e disse:
-Olhe aqui, menino, mesmo velho ainda sirvo para alguma coisa!
Fui convidado para fazer uma visita a sua fazenda.
Disseram-me que eu tenho um parente lá, mas não sei quem pode ser!
Saí tão menino dos braços dos meus parentes que tudo o que sei de mim mesmo foi contado pelos mais velhos da fazenda.
Ah, claro que fico feliz em saber que sou reconhecido, pois me disseram que vou exactamente pelo bom comportamento e educação.
Pelo sim, pelo não, tendo parente ou não na sua fazenda, estou indo passear!
Você sabe de alguma coisa a esse respeito? -perguntou ele.
-Não, não sei de nada!
Lá na fazenda do senhor tem alguns negros velhos.
Quem sabe o senhor tenha mesmo algum parente lá!
-Menino! Eu já sou muito velho para ser tolo!
Tenho certeza que você sabe de alguma coisa!
Diga-me, quem é meu parente lá nessa fazenda?
Assim eu já vou me preparando.
Se eu já estou nessa idade, se for irmão meu que se lembra de mim deve estar bem velho também!
-Justino, é melhor o senhor chegar e olhar um por um, bem sossegado, e reparar se tem alguém parecido com o senhor!
-Ah! Então você confessa que tem um negro velho lá parecido comigo?
-Sinceramente?
Acho que todo negro, quando fica velho e de cabelos brancos, um é a cara do outro! -falei, rindo.
Ele gargalhou!
-Menino, você sabe que eu nunca tinha pensado nisso?
Realmente você tem razão:
quando somos novos, ainda dá para se ver alguma diferença; mas envelheceu, embranqueceu os cabelos, encolheu a espinha, fica tudo parecido! -E gargalhava com gosto.
Fomos conversando e brincando pelas estradas.
Fumamos um cigarrinho escondidos, mesmo sabendo que o doutorzinho fingia não sentir o cheiro do fumo.
Paramos em um lugar onde se vendiam bolos e sucos, e o doutorzinho fez todo mundo comer e beber.
Antes de subirmos na carruagem, o doutorzinho chegou perto de mim e comentou:
-Justino deve ter feito mil perguntas!
Não fale a verdade pra ele, senão a surpresa não vai ter graça!
-Ele me perguntou, sim, senhor, mas eu não falei nada pra ele!
Cada coisa deve ser dita no seu tempo certo, não é assim, senhor?
Quando descemos na fazenda, Justino olhou para os lados, admirando o lugar; depois, brincando, disse:
-Vou chegar mais perto da negrada...
Hoje não enxergo nada de longe, confundo branco com preto e preto com branco! -E gargalhou com alegria.
Avó Joana não suportou: ela, que andava arrastando os chinelos, quase correu de encontro a Justino. Abraçaram-se emocionados.
-Meu pequeno irmãozinho, como você está velho!
E agora, nessa idade, você é cara do nosso pai!
O que o tempo fez com a gente!
Quando você foi embora eu era uma menina...
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 21, 2016 10:09 am

E você, então? Era um bebé crescido!
Jamais esqueci aquele momento em que você soluçava e gritava, estirando as mãos e me pedindo socorro, e eu nada pude fazer por você.
Ela relembrava isso, enxugando as lágrimas na manga da blusa.
Parecia voltar no tempo e enxergar novamente a mesma cena.
Nós chorávamos, também imaginando a tristeza dela.
Justino sentou-a em um banco e disse-lhe:
-Minha irmã, sempre há um anjo de Deus iluminando o nosso caminho.
Eu tive esse anjo em minha estrada, para que eu nunca apagasse das minhas lembranças de onde vim, quem eu era, e que lá adiante eu poderia viver o que de facto estou vivendo neste momento!
Deus foi misericordioso connosco!
Não existe felicidade tardia!
Todo reencontro só acontece no momento certo, e hoje é o nosso dia!
Eu estou feliz, alegre e agradecido a Deus por ter encontrado você, minha irmã!
-Justino, meu querido menino!
Se eu morresse hoje acho que até iria para um bom lugar!
Não digo que iria para o céu, que nenhum de nós aqui pode pensar nisso; mas para um lugarzinho de paz eu acho que iria, tamanha é a minha gratidão para com Deus e a felicidade na minha alma!
Parece que todo o meu sofrimento foi levado embora, e no lugar dele apareceu o que eu nunca tinha visto: a felicidade plena e verdadeira!
Por isso, eu creio que alguém que vá embora no estado de felicidade em que eu me encontro só pode ir pra perto de Nosso Senhor!
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 21, 2016 10:09 am

Capítulo IX - A viagem
Maria do Céu estava de cama, tamanha era a sua dor, a falta dos seus filhinhos!
A sinhá foi pessoalmente lá e ficou trancada com ela, pouco se importando com o que iriam dizer os feitores!
Depois desse encontro, as duas começaram a voltar à vida!
Víamos cada uma cuidando dos filhos que precisavam delas.
Uma semana se passou.
Num início de noite, o feitor reuniu toda a negrada em frente da grande varanda da casa-grande, pois a sinhá queria conversar com os escravos!
Meu Deus, o que seria agora?
Ela, o doutorzinho, o administrador com a pequena no colo e a velha sinhá ao lado; e nós, ansiosos para saber o que seria.
A nossa sinhá iria embora?
Só de pensar nisso eu sentia as pernas tremendo.
Verificando se todos os adultos estavam presentes, sinhá começou a falar:
-Quero comunicar a vocês que a vida de uma mulher viúva não é fácil!
Não tenho condições e nem conhecimento nos negócios!
Mas também poderíamos resolver isso deixando a tarefa nas mãos do administrador, que tão bem cuidou da fazenda na ausência do senhor, que Deus o tenha!
Acontece que eu e o filho do administrador, até mesmo pela convivência destes últimos tempos, descobrimos que gostamos um do outro; e com a bênção do administrador e da sinhá, que está do meu lado, resolvemos nos casar!
Assim, a minha pequena filha terá condições de crescer tendo um pai ao lado dela!
Esse é o motivo de chamá-los até aqui: agora, o sinhozinho de vocês será ele! Espero que todos o respeitem e obedeçam suas ordens!
Ele é um bom senhor!
Tenho certeza que todos nós, cada um na sua condição de ser, vamos viver felizes!
Foi uma salva de palmas que só vendo!
Os primeiros a bater palmas foram os feitores, e nós os acompanhamos.
Um deles falou para outro:
-Essa nossa sinhá é esperta!
Graças a Deus que a menina é herdeira do falecido, senão era bem capaz de os parentes dele terem batido aqui atrás do que ele deixou!
Graças a Deus que ficou para a menina!
Agora ela vai ter chance de viver ao lado do pai e chamá-lo de papai de verdade!
-Fale baixo, Victor!
Enlouqueceu, homem de Deus?
Se isso cai no ouvido do seu senhor, a coisa pode ficar feia para o seu lado!
-Só se você for contar pra ele! -respondeu o outro.
-Mato tem olho e parede tem ouvidos!
Nós estamos aqui cercados de negros por todos os lados!
Não está enxergando Miguel, não?
-Ah! Esse aí é como um confessionário de padre honesto!
O que cai no ouvido dele, só sai se não for comprometê-lo!
Fique tranquilo.
Eu nem me incomodei!
Afastei-me e deixei os dois lá na prosa.
E nem podia me aborrecer mesmo, era verdade! Por outro lado, me alegrava porque eles tinham confiança em mim, sabiam que eu não vivia dando com a língua nos dentes aqui e ali.
O casamento da sinhá e do doutorzinho foi na fazenda mesmo.
A casa se encheu de novas cores e novos móveis, a fazenda foi toda enfeitada.
Os escravos trabalhavam alegres, era muita novidade.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 21, 2016 10:09 am

Mataram um boi, porco, galinhas.
Havia muitas variedades de comidas, muito vinho, cachaça e outras bebidas.
Convidaram os fazendeiros, e seus feitores e escravos, gente das redondezas, foram todos convidados.
Veio muita gente da cidade também; eu nunca tinha visto uma festa daquele jeito!
Os escravos receberam autorização para comer, beber e se divertir, naturalmente sobre os olhares vigilantes e controlados dos nossos feitores.
Parecia um sonho, conhecer outros irmãos, trocar informações! Até as moças se entrosaram logo, trocavam informações também.
Aquele dia ficou marcado, e nasceu uma nova história para os negros das fazendas vizinhas.
Graças ao casamento da sinhá, muitos negros foram trocados uns pelos outros; tudo isso envolvendo os sinhozinhos, pois alguns casamentos foram realizados com o consentimento deles.
A vida corria tão depressa!
Justino nos visitou várias vezes.
Certo dia, um negro da fazenda do Justino veio com o seu feitor buscar avó Joana:
Justino tinha morrido.
Morreu dormindo, não sofreu nada.
Dois anos se passaram, e num belo dia chegaram duas carruagens de surpresa.
Eu ajudei a descarregar os baús dos viajantes, mas não entendi nada!
Nos últimos tempos o sinhozinho e a sinhá conversavam muito comigo, eu nem parecia um escravo!
Eles me pediam opinião sobre várias coisas e me contavam as novidades.
Fiquei cismado com aquela gente; se eles fossem parentes, os senhores teriam me contado!
Talvez fossem os parentes da sinhá, que vieram visitá-la de surpresa!
O negócio era esperar!
Os feitores também de nada sabiam!
Um deles me chamou num canto e me perguntou:
-Miguel, você, que conversa muito com os senhores, sabe quem são esses aí?
-Não sei de nada! Sinceramente, estou tão surpreso quanto o senhor!
Se forem parentes da sinhá, chegaram sem aviso.
No outro dia, veio a notícia que pegou todos desarmados, tanto os senhores quanto nós, escravos:
aquela fazenda onde vivíamos anteriormente tinha sido vendida pelo sinhozinho que morrera, com tudo o que havia dentro dela, inclusive os escravos!
E a fazenda que pertencia à sinhá, comprada com dinheiro dado pelo pai dela, era a fazenda nova, sem posse de nenhum escravo.
Quanto à fazenda velha, e todos os escravos que pertenciam a ela, ele havia vendido a esse novo senhor, que chegava para assumir suas terras e seus bens.
Ele inclusive disse ao nosso sinhozinho que todas as crianças nascidas neste período pertenciam, por lei, a ele.
E que a sinhá iria pagar pelos negros que libertara por conta própria, dando cartas de alforria; e seria também intimada judicialmente por vender o que não lhe pertencia.
Com certeza a multa seria tão grande que a fazenda dela não cobriria as despesas.
Mas ele não era um homem sem coração, isso não!
Queria propor um bom negócio para a sinhá.
O sinhozinho ficou esperando a proposta dele:
ela assinaria em documentos lavrados pelo escrivão de venda da fazenda.
O novo senhor lhe daria uma certa quantia em dinheiro, o suficiente para que ela voltasse para sua terra levando toda a sua família.
Lá ela não precisaria se preocupar, pois sua família tinha posses.
Ele não daria queixa pela venda dos escravos!
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 21, 2016 10:09 am

Ela sairia livre, e assim o novo senhor seria poupado de aborrecimentos e de revoltas entre os escravos que adoravam a sinhá.
Tudo ficaria de acordo entre as partes.
Caso contrário, ele iria accionar a justiça e requerer os seus direitos, como estava comprovado e documentado.
Enfim, as duas fazendas com tudo o que estava dentro lhe pertenciam.
Ele disse tudo isso e estendeu uma pasta contendo vários papéis nas mãos do sinhozinho, que estava pálido.
O sinhozinho abriu a pasta e mexeu em todos os papéis; eu só observava.
Em seguida, ele se levantou e pediu ao recém-chegado que lhe desse tempo para analisar tudo aquilo e conversar com a sinhá.
O recém-chegado lhe respondeu:
-Pois não!
Temos até amanhã para vocês decidirem o que querem fazer!
Eu e minha família viemos para ficar, vou tomar conta do que é meu!
E para comemorar a minha chegada, tomarei um gole!
Passo sem muitas coisas, mas sem este aqui, não! -disse, enchendo o copo com uma bebida escura.
Ofereceu ao sinhozinho, que não aceitou, agradeceu e se retirou.
Eu pensei em sair correndo e contar para avó Joana e Zacarias o que havia acabado de ouvir, e pedir a ajuda deles.
Mas me faltava ar no peito, eu não conseguia respirar.
Não tinha tirado o pé do chão quando vi o senhor se aproximando de mim com o copo de bebida na mão; eu gelei.
Ele me olhou de cima a baixo e me perguntou:
-O que é que você faz aqui na fazenda?
Tentei explicar as minhas tarefas.
A voz não saía, ficou presa na garganta.
Fazendo um esforço tremendo, disse alguma coisa como:
domo cavalos, vou colher ervas e ajudo a preparar remédios, conserto as ferramentas e panelas, curo as bicheiras dos animais, racho lenha para cozinha, encho as bicas de água, ajudo na casa de farinha.
-Só isso? -respondeu ele, virando o último gole na boca.
Apontando uma garrafa que estava na varanda, ordenou:
-Vá buscar aquela garrafa ali!
Eu agora sou o seu senhor, e em breve lhe darei uma nova função!
A melhor de todas!
Até eu gostaria de fazer esse trabalho que vou lhe passar...
Infelizmente, temos que conceder estas tarefas apetitosas para os escravos!
Fui correndo e trouxe-lhe a garrafa.
Ele encheu o copo e me perguntou:
-Quantos anos você tem?
Aliás, quantos negros da sua idade há nesta fazenda?
Quero fazer uma avaliação destes negros!
Vou fazer essa avaliação pessoalmente.
Há muitos negros jovens e cheios de saúde que poderiam estar produzindo boas crias para esta fazenda, mas a incompetência desses desmiolados não ajuda em nada!
Ele falava enquanto virava o copo na boca.
Depois, resmungando, saiu andando.
Eu tremia, e senti um aperto no coração.
Uma nuvem negra se formava sobre nossas cabeças; já nem tinha coragem de sair correndo e falar para os mais velhos o que acabara de ver e ouvir...
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