A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 21, 2016 10:09 am

Sem poder sustentar as lágrimas, comecei a chorar, e tive certeza, naquele momento, que nossa missão seria muito dolorosa.
Enquanto limpava as lágrimas, vi descendo as escadas da casa-
grande um cão, que corria atrás de um garoto lindo!
Ele devia ter uns três ou quatro anos.
Seus cabelos pareciam raios de sol.
O curioso é que eu não tinha visto aquele garoto quando ajudei a descarregar os baús; deve ter sido levado para dentro de casa dormindo.
Atrás dele, uma linda sinhá, de olhos serenos, olhou-me com bondade; tive a impressão de que ela sorria para mim.
Pegou o garoto pela mão, e foram para o jardim.
À noite, eu me sentei num velho tronco, embaixo da minha palmeira preferida, e fiquei olhando as estrelas que cruzavam o céu.
Os grilos cantavam como se estivessem perdidos no meio da multidão.
Os vaga-lumes acendiam suas luzes aqui e acolá; as lágrimas caíam dos meus olhos.
Meu Deus! Não deixe que falte a fé em meu coração!
Lembrava da minha aldeia em Angola, da minha mãe, do meu pai...
Fomos separados na hora da venda.
Olhava para o céu e via as estrelas, tão distantes...
Assim como a nossa liberdade.
Mas os vaga-lumes estavam tão perto de mim, e eles mostravam que a luz, mesmo pequena, pode levar a um caminho!
Mas... Que caminho, Senhor?
Zacarias sentou-se do meu lado, bateu em minhas costas e perguntou:
-O que há, Miguel?
Nunca o vi assim!
Alguma coisa grave você deve ter feito ou visto!
Seja o que for, filho, me conte!
Estou velho, muito velho para estranhar qualquer coisa nova nesta vida!
Confie em mim.
Balancei a cabeça e respondi entre lágrimas:
-Talvez, Zacarias, mesmo você, na sua idade, nunca tenha visto o que nós mais jovens teremos de passar!
-Menino, fale de uma vez:
O que é que você está sabendo?
-Vou lhe contar.
Acredito que o senhor tenha condições de me ouvir, e não enlouquecer pensando no que será de nós!
Porém, prometa que jamais vai contar para avó Joana o que vou lhe dizer.
Comecei a relatar o que ouvi.
Zacarias tossiu e colocou a mão sobre o peito, dizendo:
-Santíssima Mãe da humanidade, não deixe que o sangue dos seus filhos seja derramado...
Ficamos em silêncio alguns minutos.
Depois ele, segurando no meu ombro, levantou-se e me chamou, dizendo:
-Vamos jantar, meu filho!
Engula suas lágrimas e venha alimentar o seu corpo, pois precisará dele fortalecido para enfrentar a labuta da vida.
As mulheres me olharam e ficaram em silêncio.
Ritinha, uma mocinha que eu considerava minha irmã, se aproximou de mim e perguntou:
-O que houve, Miguel?
Eu o conheço como a palma da minha mão, e nunca te vi assim...
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Ave sem Ninho

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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 21, 2016 10:09 am

Pelo amor de Deus, o que aconteceu?
-Coisas de homem, Ritinha! -respondeu Zacarias por mim, batendo em minhas costas.
Ouvi uma das moças comentando:
-Será que Miguel está apaixonado?
Nunca percebi nada!
Nem mesmo nos dias de festa no terreiro da casa-grande o vejo se engraçando com ninguém!
A não ser que a fulana seja de outra fazenda, e não quis saber dele!
-Será? -disse outra, e logo se formou um grupinho de moças me olhando e rindo.
Pobres meninas!
Como todas as garotas do mundo, elas sonhavam com alguém que iria amá-las e protegê-las, e que seriam felizes ao lado de alguém que também pudesse amar.
Depois do jantar, avó Joana me arrastou para perto do fogo, onde o tacho com ervas e azeite fervia.
Ela preparava pomadas para frieiras e assaduras.
-Miguel? -chamou-me ela; eu estremeci, pois conhecia bem aquele timbre de voz.
Você não vai sair daqui sem me contar toda a verdade.
Antes de você colocar o pé pela primeira vez em terra para caminhar, lá na nossa África, eu já tinha, meu filho, atravessado o mar, e andado tanto nesta terra que se fosse colocar um passo atrás do outro eu alcançaria a lua e falaria com São Jorge!
Vamos lá, me conte tudo de uma vez!
O que é que está acontecendo?
Eu não acreditei na história de paixonite, e nem venha querer me tapear com essas desculpas.
Não se preocupe com a verdade:
eu já vivi bastante, filho, para aguentar qualquer peso, desde que seja verdadeiro!
Suspirei fundo e me sentei perto dela.
Ela acendeu o cachimbo e ficou esperando que eu começasse a falar.
Meu Deus! O Senhor tem que me perdoar!
Eu não posso contar uma verdade desta para minha avó Joana, ela já sofreu tanto, meu Deus!
Mais um sofrimento?
-Miguel, eu estou esperando... está com câimbra na língua?
Quando não é preciso você fala mais que o papagaio da lua cheia!
(Dizem que papagaios nascidos na lua cheia falam demais.)
E agora fica aí, parado, olhando para o chão!
Vamos, filho, abra essa boca de uma vez!
-Avó Joana, eu não posso lhe contar a verdade, e também não sei esconder nada da senhora! -respondi, chorando.
-Meu filho, eu não o gerei na barriga, mas o gerei no coração:
você é meu filho!
Se não puder falar comigo, terá coragem de contar para Deus, que também é o seu Pai?
Sei que você não fez nada de errado; só pode ser coisa nova dos novos senhores!
-É sobre eles, sim!
Não vieram a passeio.
Eu acho que eles querem comprar a fazenda da sinhá, e então ela irá embora...
E o que será de nós?
Eu acho que muita coisa irá mudar por aqui, e um sofrimento novo nos aguarda.
Sofro só de pensar no que vamos passar.
Pitando o seu cachimbo, ela demorou pra responder.
Depois, olhando para o céu, disse:
-Escute aqui, Miguel, o que os senhores brancos escrevem nós nem sabemos ler!
Imagine o que foi escrito pelo Pai de todos nós!
Pare de sofrer por aquilo que você nem sabe se vai acontecer.
Vamos lutar por aquilo que podemos resolver!
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 21, 2016 10:10 am

Se a sinhá tiver de ir embora, ela não poderá nos levar; e nós, por outro lado, não vamos morrer porque a sinhá terá que partir, mas teremos que nos adaptar com os novos senhores e ficar até quando o nosso Criador achar que é tempo de parar.
Eu, quando vi esses senhores descendo com tantos baús, logo vi que não eram da família; e tenho certeza que existe alguma ligação séria com o senhor que se foi!
Pense bem: ele foi ao estrangeiro fazer o quê?
Ele andava calmo demais para o meu gosto.
Alguma coisa ele fez contra a pobre sinhá!
Quer saber de uma coisa?
Eu não tenho provas, mas desconfio que esses senhores compraram estas terras, e a sinhá e sua filha não são mais donas de nada!
E se for assim, terão que ir embora.
-Que situação, vó Joana! -comentei.
-O administrador, se tivesse posse, estaria fazendo o quê nesta fazenda?
Fiquei sabendo que eles não têm mais onde morar!
Diante desta situação, até eu aconselharia a sinhá a voltar para sua terra; só assim daria educação e uma vida melhor para sua filha.
Quanto a nós, somos como as pedras desta terra:
rolamos de um lado para o outro, porém jamais poderemos sair dela.
Suspirei fundo e respondi:
-É mais ao menos isso o que eu ouvi, que o nosso sinhozinho que morreu tinha vendido a fazenda, e eles são os novos donos e querem tomar conta.
-Muito justo! -respondeu avó Joana.
Se eles compraram, são donos!
Se mostrarem as provas, os nossos senhores têm que entregar!
Mas me ocorreu uma coisa:
se ele vendeu as fazendas, cadê o dinheiro?
A sinhá também tem que ter as provas que eles pagaram ao senhor!
Não é ir entregando tudo nas mãos de quem ela não conhece.
Ela se levantou, ajeitando a saia, e me disse:
-Vou até a casa-grande, e é agora!
Passe-me o bule de chá, vou falar com a sinhá agora mesmo.
Tenho certeza que não estava errada sobre as minhas desconfianças, você me confirmou tudo!
-Eu não lhe disse nada, avó Joana!
Estou tão aflito que tenho medo até de pensar!
-E precisa, Miguel?
Cuide do fogo que eu vou até lá.
Não descuide!
Posso voltar logo ou demorar um pouco, fique no comando.
Ela saiu arrastando a sandália de cordas gasta pelo tempo.
Passou pelos feitores, que a cumprimentaram respeitosamente; todos ali a respeitavam muito.
Eu mexia o tacho, mas meus olhos acompanhavam os passos dela.
Lá na entrada da varanda, ainda no topo da escada, avistei avó Joana conversando com uma negra novata.
Talvez tenha vindo com os novos senhores, ou foi comprada na cidade; eu não tinha a menor ideia.
Logo vi avó Joana entrando, e fiquei ali, rezando para que os guias de luz que acompanhavam avó Joana iluminassem os pensamentos dela, e que saísse tudo bem.
Avó demorou um bom tempo.
Quando a vi saindo da casa, suspirei aliviado.
Ela veio ao meu encontro.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 21, 2016 10:10 am

-E então, avó? -perguntei antes que ela se sentasse no toco.
-Calma! Me deixe sentar!
Você acha que tenho a sua idade?
Na sua idade eu era mais esperta que você no caminhar e no pensar; hoje eu me arrasto, as pernas não querem mais nada, até pra pensar fica difícil!
Bem, falei com os dois sobre a venda, e eles me confirmaram até coisas piores.
Lembrei a eles que procurem sobre o dinheiro que foi pago; pelo que eu sei, quando um senhor vende uma coisa para o outro existe uma garantia de que houve pagamento.
O sinhozinho me agradeceu.
Disse que ficou tão chocado que nem se lembrou disso.
E que amanhã mesmo vai até a cidade -acho que você irá com ele -atrás de um doutor que escreve lei e que lutará pelos direitos da sinhá.
E que realmente eu tenho razão!
Se ele vendeu as terras, com quem está o dinheiro?
Que seria herança da filha?
Agora, vamos descansar o esqueleto, que amanhã será outro dia e nós teremos muitas coisas para fazer.
Acompanhei avó Joana até o seu barracão, depois fui para o meu.
Muitos já dormiam em suas redes, e roncavam, cansados porém despreocupados; não imaginavam o que estava por vir.
Sei que a luta começou entre eles.
O comprador afirmou que o ex-marido da sinhá havia recebido o dinheiro, e mostrou o papel; o doutor disse que ali estava escrito que era só a metade, e outra metade seria a fazenda em que morávamos e alguns escravos!
O comprador alegou que a sinhá libertara três negros por conta própria, e que, além dos valores pagos por eles, tinha de pagar uma multa.
O doutor argumentou que ao libertar os escravos ela não sabia da venda das terras, e que os negros haviam fugido, e pelo tempo que ficaram sumidos, foram considerados perdidos.
Por fim, ficou decidido:
a fazenda antiga era do novo senhor, e a nova fazenda, onde morávamos, ficava para a sinhá.
Os escravos seriam divididos; era outra questão a ser discutida.
O novo senhor começou a se instalar na fazenda de imediato!
Mandou recolocar a cerca, e todos os escravos trabalharam na reconstrução das terras.
Agora era hora da divisão definitiva dos escravos.
Ele fez o seguinte relatório:
velhos e crianças são pesos mortos, são prejuízo!
Então ele propôs:
para cada três velhos, um jovem trabalhador.
Pais com crianças seriam avaliados com base no número de crianças do casal.
O levantamento foi feito.
Havia muitos velhos; como nunca se venderam escravos, descobrimos que havia mais velhos do que jovens!
Ele me colocou na lista de trocas nas seguintes condições:
Zacarias, avó Joana e outro negro velho que agora pertencia a nossa fazenda.
Daria um casal com seus filhos de até sete anos em troca de uma jovem de até dezoito anos e saudável.
A sinhá deveria escolher; era pegar ou largar!
Se ela escolhesse os jovens, então ele iria vender velhos e os casais, com filhos ou separadamente.
Para ele, não faria diferença!
Poderia comprar tantos escravos jovens quantos desejasse, tinha dinheiro pra isso.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 21, 2016 10:10 am

A sinhá fez uma reunião com todos os escravos.
Ela estava com os olhos vermelhos de tanto chorar, e os escravos também.
Passou a proposta do novo senhor, e disse-nos que não achou nenhuma saída para impedir o que ele queria fazer.
Diante da situação, iria propor a ele que levasse todos nós; ela não queria separar as famílias e nem ver todos serem vendidos.
Preferia ficar sem nenhum escravo a nos ver separados.
O sinhozinho e o administrador estavam de cabeça baixa.
Avó Joana se levantou, e, erguendo a mão, falou:
-Minha sinhá, eu sou sua serva, porém sou mais vivida que a senhora, que ainda é um botão de flor!
Se puder dar um conselho, ouça o que vou lhe dizer, minha sinhá!
-Por favor, Joana, fale!
Por Deus, me ajude! -respondeu a nossa sinhá, secando os olhos no lenço alvo.
-A sinhá já abriu as gavetas da parede?
Por detrás dos quadros de família há umas gavetas, sinhá; eu sei porque muitas vezes vi o senhor velho abrindo essas gavetas e fechando com chave, colocando o quadro no lugar.
Quem sabe, sinhá, o seu dinheiro não esteja lá, bem escondido?
A sinhá poderia comprar a fazenda dele de volta!
Eu escutei o homem falar bem alto que se pudesse voltaria atrás, que essa fazenda não é boa!
A sinhá se levantou:
-Segure minha filha - disse ao administrador.
Chamou o sinhozinho e pediu que avó Joana a acompanhasse e lhe mostrasse onde ficavam esses cofres.
Mandou a gente esperar.
Não demorou muito tempo e a sinhá voltava, corada e sorrindo:
-Encontramos o meu dinheiro!
Vão dormir, que amanhã será outro dia, e o nosso destino vai mudar!
No outro dia, eles foram à fazenda do senhor, e na volta nos chamaram outra vez para conversar:
-Quero dizer a vocês que todo o dinheiro, e um pouco mais que o senhor deixou guardado no cofre sem me avisar, eu usei para pagar por vocês.
Se não fosse Joana, esse dinheiro iria ficar ali, enterrado para sempre!
Continuaremos juntos!
Só peço a vocês que nos ajudem a fazer com que essa fazenda cresça!
Vamos todos trabalhar com mais disposição e alegria!
Não tenho mais nada a não ser minha filha, meu marido, a fazenda e vocês!
Todo o meu dinheiro foi para as mãos do nosso vizinho!
Parece que uma pedra foi tirada dos nossos ombros!
Eu me ajoelhei e agradeci a Deus e a São Benedito pela felicidade de me livrar daquele sinhozinho.
Só de pensar no que ele insinuou eu tinha arrepios!
O vizinho, como chamávamos, tentou travar amizade com o sinhozinho.
Ele comprava remédios para os animais e para os escravos, feitos por mim e por avó Joana, e vinha pessoalmente, de vez em quando, à fazenda.
Tornou-se amável comigo e com outros escravos.
Amansei muitos animais para ele, e fui algumas vezes cuidar das bicheiras do gado leiteiro; tive de reconhecer que a fazenda estava um luxo só!
Ele investiu muito dinheiro, e a fazenda agora não lembrava em nada a fazenda de outros tempos, quando vivi por lá.
As roupas dos escravos e dos feitores eram bonitas, os calçados eram novos, e os escravos pareciam felizes!
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 21, 2016 10:10 am

Pelo menos foi essa a impressão que tive; não cheguei a conversar com nenhum deles.
Um dia, eu estava curando uma vaca leiteira.
O sinhozinho ficou de lado, olhando o meu serviço e me olhando!
Pensei comigo: Aí vem coisa! O que será?
Notei que de uns tempos para cá os senhores andavam tristes.
Ela já não tocava tanto o seu piano, e ele não montava tanto o seu belo alazão.
Havia algo errado acontecendo na fazenda.
Assim que soltei o animal, ele me chamou a um canto e disse:
-Miguel, vou directo ao assunto:
sei que você é um sujeito observador, e já deve ter notado que estamos com problemas!
E nosso problema é financeiro, o que compromete a todos.
A nossa situação é péssima!
Não tenho mais o que fazer para levantar dinheiro para as despesas e manutenção da fazenda!
Recebi uma oferta que poderá ajudar a cuidar dos outros escravos velhos.
Uma saída é alugar você e outros jovens escravos, algumas moças que bordam e costuram para o nosso vizinho.
Ele me propôs um contrato por um ano.
A oferta dele nos permitirá comprar roupas e calçados para os outros escravos, além das sementes e ferramentas de que precisamos para tocar a fazenda.
Miguel, está compreendendo bem minhas palavras?
-Sim, senhor.
-Ele me garantiu que não haverá espancamentos e nem maus-tratos, e que especialmente a você serão confiadas tarefas comuns, como amansar cavalos, preparar remédios etc.
E as moças trabalharão em costuras, bordados e outras tarefas de mulher!
Veja bem, Miguel, não quero em hipótese alguma colocá-lo em uma situação difícil; porém, gostaria que você me ajudasse com os mais velhos, não posso exigir deles o que já não conseguem dar!
Nós estamos em uma situação muito difícil, Miguel!
Já discutimos até a ideia de irmos embora do país.
Vamos tentar de tudo para mantermos a fazenda, e queremos que vocês entendam a nossa situação.
Caímos em uma crise e não estamos encontrando apoio para nos erguer.
Não sabemos mais o que fazer para manter o pouco que nos sobrou!
A família da sua sinhá nos convidou para voltarmos para a terra dela.
Em último caso, ainda é o que nos resta fazer, mas e quanto a vocês?
Eu tomei um susto, porém respondi com toda convicção:
-O sinhozinho pode contar comigo para ajudar os meus irmãos de sina!
Eu não tenho nenhum compromisso com filhos e companheira, e fico feliz em poder ajudar os meus companheiros a ficarem junto dos seus filhos e mulheres!
Se for possível, sinhozinho, peça ao nosso vizinho para que ele me deixe ver avó Joana!
Eu trabalho mais horas que os outros escravos para poder vir até aqui vê-la.
O sinhozinho sabe que ela é a única família que tenho.
Vi que o sinhozinho secava os olhos na manga da camisa, e senti uma vontade imensa de abraçá-lo; mas a minha posição me lembrava que eu era um escravo, e como tal, devia saber controlar as minhas emoções.
Ele me respondeu:
-Miguel, você é o homem mais justo, a alma mais branca e limpa que eu já conheci em minha vida!
Eu jamais deveria pedir tanto a você, mas acredite, eu não tenho outra saída!
Ou faço isso agora ou terei de entregar esta fazenda de mão beijada para o primeiro que aparecer, colocar nas mãos de qualquer um a sorte destas criaturas infelizes que passaram a vida servindo a esta terra.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 21, 2016 10:10 am

Perdoe-me, Miguel, pelo amor de Deus!
Não sabe o quanto me dói sacrificá-lo; justo você, que arriscou sua vida por nós!
-Não se aflija por mim, meu senhor! -respondi.
Só permita que eu mesmo possa explicar aos meus companheiros que precisarei ficar trabalhando um ano fora da fazenda.
Eles vão compreender, pois sabem que sou eu que amanso cavalos...
Se bem que o Maneca vai me superar nisso, o senhor pode apostar!
Passe o cargo a ele para cuidar dos animais.
Só me deixe falar do meu jeito que todos eles vão entender, e ninguém vai ficar com medo ou revoltado.
E eu estou sossegado, o senhor pode fechar o seu contrato.
Estou pronto para partir.
Ele se afastou em passos rápidos.
Seus lábios tremiam, e os olhos estavam vermelhos.
Quando a sinhá soube que eu iria ficar um ano fora, ela gritou, brigou com o sinhozinho e veio correndo até mim, dizendo:
-Miguel, eu já disse ao meu marido que se você sair daqui eu irei junto!
Jamais vou aceitar esse sacrifício seu!
Nós estamos em uma situação muito difícil, sim!
Porém, eu já disse a ele que arrende as terras, com a certeza de que os escravos ficarão bem amparados; e nós vamos para a minha terra, e naturalmente eu levarei você comigo!
Acho que passei umas duas horas tentando convencer a sinhá de que se ela fosse embora e me obrigasse a acompanhá-la, não estaria me ajudando e sim me prejudicando!
A proposta do senhor era muito melhor!
Um ano passava voando!
Logo nós estaríamos de volta, e com certeza o senhor teria condições de nos receber.
Ela chorou muito, mas, por fim, acabou concordando e me pedindo para dar notícias, pois só iria sossegar quando eu voltasse.
Assim, uma semana depois eu partia, com o coração em pedaços!
Deixava meus amigos, avó Joana, saía levando a minha mochila de infância, e alguns outros apetrechos.
Carregava o coração cheio e pesado de saudades.
Não sabia dizer o que estava sentindo, mas algo dentro de mim chorava.
A sinhá, como sempre quebrando todos os tabus, me abraçou chorando.
Fez isso na frente de todos.
O sinhozinho também estava com os olhos vermelhos, e antes que eu pudesse subir na carroça ele veio até mim, me abraçou e disse:
-Miguel, me perdoe!
Se eu pudesse trocar com você de posição, faria isso!
Branco sem dinheiro não vale muita coisa, Miguel.
O que mais está me doendo é ter que sacrificar justo você!
Você não é um escravo, é um irmão, um amigo!
Fomos em um grupo de vinte pessoas, entre homens e mulheres, todos jovens entre 15 e 22 anos.
Alguns feitores também foram deslocados, os mais jovens da fazenda.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 21, 2016 10:11 am

Capítulo X - A chegada de um novo senhor
O meu senhor foi enganado, ele jamais imaginava que estava sendo traído!
Talvez por este motivo ele tenha começado a sofrer do coração!
Tudo o que eu já havia vivido foi pouco perto do que me obriguei a praticar como homem!
Nesses tempos é que eu descobri que Deus é a força que nos impulsiona a viver.
Passou-se um ano, dois, três, 15...
Não éramos mais escravos, e sim, prisioneiros.
Não sabíamos o que havia acontecido.
Perdemos todo e qualquer contacto com os irmãos da nossa fazenda.
Era como se todas as pessoas que passaram em minha vida agora fossem apenas fantasmas, surgindo como vagas lembranças vivas dentro de mim. De vez em quando lembrava da minha terra, e, sem poder segurar, via as lágrimas caindo dos meus olhos.
Revia a imagem do meu pai, distante!
Os rostos queridos se perdiam dentro das minhas lembranças:
a minha avó Joana, meus amigos... onde estavam todos eles?
Meus senhores, tão amáveis e bons!
Tudo se acabou para mim...
Eu me olhava de vez em quando nas águas do rio e sentia raiva de mim mesmo; me perguntava, com revolta no coração:
por que será que Deus me criou? Eu não tinha coragem para fazer o mal que às vezes vinha a minha mente.
Muitas e muitas noites pensei em dar cabo do meu sinhozinho!
Estaria livrando aquelas mulheres e seus filhos das crueldades dele!
Era só fechar os olhos e começava a ter pesadelos, e acordava em pânico!
E lá se ia mais um dia em que eu não tive coragem!
Era como se uma mão me prendesse e não me deixasse completar meus projectos de vingança.
Peço licença e perdão ao nosso Pai Maior por lembrar destas passagens tão dolorosas, que na verdade temos mesmo é que esquecer!
Uma bela tarde, depois de tanto tempo e sofrimento, vi uma carruagem se aproximando da fazenda do senhor.
Os feitores, como sempre, brecaram a entrada dos visitantes para ver se podiam ou não entrar.
Fiquei observando de longe...
Lá vinham os brancos!
Naquela semana eu estava dormindo, comendo e respirando melhor!
O nosso sinhozinho tinha ido embora; comentava-se que quase precisou fugir!
Graças a Deus! Se a nossa situação iria piorar, que piorasse!
Não podiam existir dois infernos na Terra, eu já vivia em um deles!
Qualquer novo demónio entre nós seria considerado normal.
Nem me alterei quando vi um jovem mulato todo vestido como branco, e dando a mão para uma dama de cabelos da cor do fogo; eles riam-se, como se fossem iguais!
Pensei comigo:
o cão, quando não vem, manda!
Olha só a pose do mulato!
Deve ser obrigado a fazer coisas que até Deus duvida!
Bem, deixa pra lá...
Quem sou eu para ficar com esses pensamentos?
Eu também faço coisas que até Deus duvida!
Vi que desceu esse mulato, um senhor branco de barbas grisalhas, três damas e outro mais escurinho, que também se vestia como branco.
Eu fingia que não prestava atenção neles.
O feitor responsável por nós levou os visitantes lá pra casa-grande.
E nós todos fomos chamados para levar baús e mais baús!
Santo Deus!
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 21, 2016 10:11 am

Disse um negro:
-Será o fim do mundo?
Esses mulatos todos engomados, e nós carregando os baús dos senhores deles!
Você sabe quem são eles?
Eu respondi:
-Sei lá!
Pela aparência deles, devem ser parentes do infeliz que se foi!
Devem vir tomar conta da fazenda!
-E os negros?
-Onde você viu negro aqui a não sermos nós? -respondi.
-Aqueles mulatos vestidos de branco.
O que será que eles são?
-Só Deus sabe!
Vamos descobrir logo, logo.
No fim da tarde o feitor veio me procurar, e foi logo dizendo:
-É, Miguel, a coisa vai ficar preta!
0 mulato está chamando você!
Mulato dando ordem a negro é pior do que branco dando ordem a branco!
Ele quer que você se apresente imediatamente em frente da casa-grande!
Pronto! Quando eu penso que o diabo está satisfeito comigo, ele me manda seus cobradores!
E o que mais me entristece é que Deus parece não se dar conta da gravidade do caso!
No dia em que for chamado para o outro lado, vou jogar na cara dEle as encrencas em que eu me meti por falta de ajuda dEle!
Eu estava tão bem lá no meu canto!
De repente, me viraram de cabeça pra baixo e minha vida se tornou esse inferno! — falei, em voz alta.
O feitor me respondeu:
-Calma, Miguel!
Você ainda deve dar graças a Deus!
Seus filhos são negros, e você já sabe que serão escravos!
E eu, que tenho filhos mulatos?
Eles não são aceitos no meio dos escravos como negros, e nem no meio dos brancos como filhos de branco!
Enquanto me dirigia à casa-grande encontrei algumas mulheres assustadas, que, de olhos arregalados, perguntaram-me:
-O que foi?
Por que você foi chamado?
Aconteceu alguma coisa?
E essas pessoas, quem são?
Respondi, rindo:
-Deve ser a alma do sinhozinho que veio me pedir perdão; vai ver que ele morreu!
E eu estou louco de vontade de dizer a ele que agora é a vez dele de ficar no inferno!
-Credo, Miguel! — comentou uma delas -, você não tem jeito mesmo!
Nós estamos preocupadas e você brincando!
-Vão para seus barracões.
Caso eu volte, digo a vocês o que eles queriam de mim.
Agora quem fala sério sou eu!
Voltem e fiquem juntas no barracão, não fiquem tentando escutar coisas aqui e ali!
Achei muito estranho; só quem estava no alpendre era o mulato, vestido igualzinho a um senhor branco.
Assim que me aproximei ele perguntou:
-Você é o Miguel?
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 21, 2016 10:11 am

-Sim, senhor, em pessoa! -respondi.
-Suba até aqui, por favor! -disse ele, sentando-se em uma cadeira de balanço como se fosse um senhor!
Pensei comigo:
este mulato está arrumando encrenca pra vida dele!
Não se enxerga mesmo!
Já não basta estar vestido como um branco, e ainda tenta ser um deles, até no jeito de falar!
Onde já se viu um mulato falando igual os estrangeiros?
-Sente-se na cadeira, Miguel! -disse ele, apontando para uma cadeira de balanço.
Eu tive vontade de rir.
Pensei:
Será que o sol da estrada não cozinhou os miolos do mulato?
Imagina só se eu ia me sentar em uma cadeira na varanda do senhor!
E ainda por cima, de quem era aquele cadeira?
Do maldito senhor!
Respondi com bastante calma:
-Obrigado, senhor, eu estou bem de pé; estou aqui para atender seu chamado!
-Já disse que você pode se sentar, Miguel!
Essa cadeira é minha, esta fazenda é minha e quem manda aqui sou eu!
Sou o novo proprietário desta fazenda!
Meu nome é Frederico, e nasci nesta fazenda!
Eis um dos motivos por que voltei!
E você foi o negro que me ajudou a viver, quando atravessou o rio comigo nas costas!
Eu conheço toda a minha história.
E por isso eu posso lhe dizer:
venha até aqui e me dê um abraço!
Eu fiquei trémulo.
Alguma coisa nos olhos dele de facto me lembrava Frederico!
Fiquei sem ar e parado, olhando pra ele, que estava de braços abertos.
Como eu não consegui me mover, ele veio até mim, abraçou-me e falou com a voz embargada de emoção:
-Meu caro amigo Miguel, você é o responsável pela minha vida!
Meu pai está para chegar, junto com minha mãe Anita, que você conhece tão bem!
Estou aqui para fazer justiça, e de agora em diante você se considere um cidadão livre!
Pegue estas roupas aqui.
Jogou-me um pacote que estava em cima de uma cadeira.
-Amanhã quero vê-lo vestido com esta roupa, com calçados nos pés, e barbeado; aí tem uma navalha, quem lhe mandou foi seu senhor, o marido de minha mãe biológica!
Cuidado para não se cortar.
Amanhã, após o nosso café, vamos até a cidade; quero regulamentar a sua carta de alforria, que já deixei assinada, e na volta vamos passar na fazenda nova, que me pertence também!
Herança de seu senhor!
Eu não conseguia dizer nada; só fiquei ali parado, olhando para o rapaz.
-Só para você sossegar seu coração:
avó Joana ainda anda.
Enxerga mal, mas está viva e o espera!
Vou chamar meu irmão, aquele que você obrigou a dividir o leite comigo.
Você não reconheceu ninguém, não é mesmo?
Bem, ele trabalhará connosco; nada mais justo que dividir com ele tudo o que é meu!
E é desejo do meu pai adoptivo!
Vou recompensar aquela que me ofereceu o seio e me amou como se eu fosse seu verdadeiro filho; quero abraçá-la e beijar-lhe a fronte.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 22, 2016 10:27 am

Sabe de uma coisa?
Quero transformar esta fazenda não em um lugar para brancos e negros; mesmo porque estas fazendas pertencem a um mulato, que não é branco nem preto!
Gargalhou alto, chamando a atenção dos feitores.
-Quero que esta fazenda se torne em um lugar para gente!
Brancos e negros terão que trabalhar em igualdade e ser tratados como pessoas.
Só então eu consegui abrir a boca:
-O senhor me disse que é Frederico, o filho de António?
-Sim, sou Frederico, filho de sua sinhá com António; quando eu era um bebé, você atravessou o rio comigo nas costas!
Meu pai e Anita se casaram, e eu tenho novos irmãos, negros como você!
E também tenho três irmãos brancos como leite!
Uma nasceu aqui, e os outros nasceram lá.
Com estes dois eu não posso ter uma relação aberta, por questões de ética familiar e não de preconceito racial!
Porém, veja bem, Miguel:
o marido de sua sinhá pagou meus estudos, e fez questão de me doar estas fazendas.
O que ele prometeu à minha mãe, ele cumpriu; este homem é uma grande alma!
Enquanto ele falava, eu revia a minha sinhá, tão menina, linda como um sol, e que sofreu tanto nas mãos do marido que a trouxe para o Brasil; mas acabou encontrando em outro sinhozinho um homem de verdade!
Como se estivesse adivinhando os meus pensamentos, ele disse:
-A sua sinhá infelizmente não pôde vir, está em tratamento; pegou uma pneumonia!
Doença de lugares frios.
Ela tem a saúde frágil.
Mas antes de viajar, fui até onde ela se encontrava, beijei-a no rosto e ela me abençoou, pedindo ao marido que me doasse as duas fazendas que foram adquiridas por eles; o seu antigo senhor faliu!
-Então o meu senhor não perdeu de todo o contacto com eles? arrisquei-me a perguntar.
-Eles fizeram de tudo para tirar você, Miguel, das mãos do seu senhor; foram anos de luta e expectativas, e sua sinhá não sossegou enquanto não teve de volta a fazenda com vocês!
As leis brasileiras davam a ele todo o amparo legal.
Mas tudo tem o seu tempo, e chegou a vez de todos vocês serem libertados, pelo menos dentro das nossas terras.
Atendendo ao pedido dela, eu estou aqui, e ao lado do meu pai e de cada um de vocês, quero apagar as lembranças dolorosas que ficaram para trás.
Amanhã nós vamos à cidade, e na volta pararemos na fazenda nova!
Quero ver a cara dos negros velhos quando o virem!
Será que vão reconhecê-lo?
Quero ver a expressão da minha mãe de leite...
Tenho certeza de que, quando me olhar, o sangue há de pulsar forte nas veias, pois eu carrego o sangue dela na alma!
Ela me amamentou!
E quando abraçar o filho, então?
Meu irmão está nervoso, esperando esse encontro de amanhã!
Ah, ia me esquecendo!
Esta moça loira de olhos verdes que você viu descendo comigo é a minha esposa, e os senhores são os pais dela.
Eles ficarão uns tempos por aqui e, se desejarem ficar, a fazenda é grande, dá pra todos!
Além disso, Miguel, quero lhe dizer que fui recomendado e já vim com uma carta de apresentação.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 22, 2016 10:27 am

Além de fazendeiro, vou assumir um posto de importância:
serei um dos primeiros juízes negros neste país!
Vou começar a fazer justiça, ou pelo menos tentar!
Quem já sobreviveu nas costas de um negro quando ainda era bebé pode sobreviver muito bem de pé entre brancos e negros!
Eu continuava de pé; ele sentou-se e disse, com ar de riso:
-Eu sou um juiz, embora ainda não tenha assumido o meu posto.
Mas se você não me obedecer, eu posso mandá-lo não para o tronco, mas para uma cadeia de brancos!
Sente-se agora mesmo!
Temos muitas coisas para conversar!
Ele tocou uma sineta, e logo apareceu uma das moças da casa; ele a chamou para perto dele e perguntou:
-Como é o seu nome?
Ela estava pálida por me ver sentado em uma cadeira que apenas brancos podiam usar.
Seus lábios tremiam, e não conseguia soltar a fala.
-Como é seu nome, menina? -perguntou ele, olhando para mim.
Ela, de cabeça baixa, tremendo dos pés à cabeça, respondeu:
-Eu me chamo Ritinha, senhor.
-Muito bem, Ritinha, peça para sua nova senhora vir até aqui, e me traga três copos e uma garrafa de um bom vinho!
Ritinha olhou para mim angustiada; eu tentei passar segurança a ela através do olhar.
Ela saiu correndo.
Eu até imaginava o que passava pela cabeça dela.
Não demorou muito tempo e a nova sinhá vinha sorrindo, e atrás dela, Ritinha, com três copos e uma garrafa de vinho vermelho que chegava a brilhar dentro da garrafa.
Lembrei-me que de vez em quando, nas festas dos senhores, eles bebiam estes vinhos coloridos, e nós lambíamos a garrafa para saber o gosto; era bom demais!
Ela beijou o marido na nossa frente, e nós baixamos a cabeça.
Meu Deus, que moça sem juízo!
Beijar o marido na frente dos escravos!
Então, fui pego de surpresa: ela me agarrou pelo pescoço e beijou meu rosto, dizendo:
-Miguel! Graças a você, tenho o melhor homem do mundo do meu lado!
Obrigada, obrigada por tê-lo salvo para mim!
Juro que não enxerguei e nem senti meus pés no chão; eu tive que sentar mesmo, porque senti as vistas escurecerem e as pernas amolecerem!
E os feitores olhando sem entender nada!
Se de fato eu fosse um negro doente do coração, teria morrido naquela hora!
Jesus Santíssimo, que moça doida! Frederico, rindo, abraçou-me e disse:
-Miguel, esta moça é uma pérola que Deus preparou para iluminar a minha vida!
Sou o homem mais feliz do mundo; e ela sempre o amou, mesmo antes de conhecê-lo!
Ela tinha os olhos cheios de água. Frederico colocou o vinho nos copos e falou, rindo:
-Vamos fazer um brinde a você, Miguel!
Nessa hora chegou o irmão dele, o outro mulato.
Olhei bem para o rapaz, e vi que ele tinha uns traços do feitor Ambrósio.
-Belo irmão é você, não, Frederico!
Não me convidou por quê? reclamou ele, rindo.
-Pensei que você estivesse dormindo!
Este aqui, Miguel, depois que descobriu que podia ter vida boa, dorme como um urso hibernando!
Tomara que esta terra o desperte para a vida diária mais cedo!
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 22, 2016 10:28 am

Começaram a gargalhar.
-Ritinha! É esse seu nome, não é? -perguntou o irmão de Frederico à moça que estava parada do outro lado, aguardando ordens.
-É Ritinha, sim, senhor -respondeu ela.
-Você pode ir buscar mais um copo para nós?
Antes de sair, ela me deu uma olhada rápida; estava tão assustada quanto eu!
-Sente-se direito, Miguel! -ralhou comigo o filho de Maria do Céu.
Espere que vou lhe ensinar a se sentar como um doutor...
Pois é isso que você é!
Coloque a perna assim, os braços assim, e encoste-se na cadeira.
Não tenha receio!
Frederico, eu não tenho nada para fazer por enquanto, e ainda não arrumei uma namorada; posso dar aulas de etiqueta para o Miguel?
-Boa ideia!
Desde que você não vá se aproveitar dele!
Cuidado! Se fizer uma besteira com ele vai se ver comigo!
-E comigo também! -disse a esposa, rindo.
-Pessoal, assim vocês podem deixar Miguel encabulado, ou até com medo de mim!
Até parece que sou um pervertido! -respondeu o filho de Maria do Céu, abraçando-me.
Foi a primeira vez que bebi em copo de vidro, uma bebida tão fina!
Os feitores estavam de queixo caído, olhavam para nós sem trocarem uma palavra!
Até os escravos que rodeavam a frente da casa estavam assustados me vendo ali sentado naquela pose, e bebendo com dois mulatos e uma moça branca e fidalga, que gargalhava e brincava.
Eu pensava comigo mesmo: o negro Miguel sentado e fazendo pose em uma cadeira de balanço, onde o senhor ficava nos vigiando!
Agora era eu que estava no lugar dele!
Com um copo de vidro na mão, cheio de vinho da cor de sangue, bebendo que nem gente branca!
Só de imaginar o que os outros pensariam, comecei a rir sozinho.
Passei o resto da tarde lá, sentado igual a um rei.
Frederico ordenou que outro negro se encarregasse das minhas tarefas e chamou os feitores, dando a eles a seguinte ordem:
-A partir de hoje, Miguel não vai mais obedecer às ordens dos senhores.
Aliás, amanhã ele será um homem livre!
Continuará nesta fazenda não como escravo, mas como um membro de nossa família.
Irá nos ajudar na administração.
O feitor estava branco, parece que tinha visto um fantasma.
Olhou pra mim e, virando-se para Frederico, respondeu:
-As ordens do doutor serão atendidas por todos nós!
Tem mais alguma ordem, meu senhor?
-Por enquanto é só, porém acredito que vamos mudar muitas coisas por aqui, meu amigo! -avisou Frederico.
Ajeitando o chapéu na cabeça, de pé na minha frente, o feitor disse:
-O sr. Miguel fique ciente que todos nós teremos imensa satisfação em atender os pedidos do nosso senhor.
Pensei comigo: mas que cachorro!
Ainda de manhã me fez uma desfeita daquelas!
Justo ele que vivia me humilhando, que colaborou com tantas tormentas em minha vida de escravo, agora estava ali, me chamando de senhor!
Ah! Bem que eu podia me aproveitar da minha nova posição e dar o troco! "Não!", disse imediatamente a mim mesmo:
Avó Joana sempre me falou que quem é grande não se mistura com coisas pequenas!
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 22, 2016 10:28 am

Encarando o feitor, respondi:
-Ficarei grato com a sua generosidade, e aqui, na frente dos meus senhores, quero pedir permissão para que a Ritinha e outras moças que têm filhos na outra fazenda possam ir visitá-los!
Com a sua ajuda, senhor feitor!
Alvinho, o irmão de Frederico, entrou na conversa e falou:
-Vamos à primeira correcção:
você não se dirija mais a nenhum de nós, nem aos seus antigos feitores, dizendo "meus senhores"; substitua por "vocês" ou "meus amigos".
Em segundo lugar, solicito ao meu irmão e sua esposa que, usando o nosso bom senso, nós o façamos administrador das fazendas.
Assim você decidirá muitas coisas ligadas às fazendas sem precisar pedir autorização.
Por exemplo:
Essa seria uma questão que você mesmo poderia decidir; quem deve ir, quem não deve vir.
O que acha, Frederico, da minha ideia?
-Você, como sempre, dando um jeito de jogar nas costas dos outros suas tarefas, não é, Alvinho?
Bem, sinceramente, acho que foi a ideia mais brilhante que você já me deu!
Aprovado! O que acha, Helen?
-Estou de pleno acordo; e olhe só, meu marido, o que vou lhe dizer:
Miguel fará destas fazendas a terra prometida!
Todo mundo vai querer imitar o que ele criar por aqui.
Um jovem com tão pouca idade que fez o que ele fez é um herói!
Quem atravessou um rio a nado com um bebé nas costas jamais iria fazer uma injustiça sequer com os seus semelhantes!
Ela falava estas palavras na língua dela, toda enrolada; pensei até que estivesse me xingando, não entendia quase nada do que ela falava!
O feitor suava, e eu, que tinha bebido dois copos de vinho e já estava bem relaxado, olhei pra ele com aquele olhar de autoridade e ordenei:
-Amanhã, prepare carruagens para as mulheres irem rever seus parentes!
O senhor deve acompanhá-las.
Com o chapéu voltado para o peito, ele respondeu, trémulo:
-Sim, senhor.
E assim, no outro dia, eu não quis colocar as roupas de homem livre.
Disse a meus senhores ou amigos, como eles exigiam que os chamassem, que só me vestiria quando tivesse a carta na mão; antes disso, nem pensar!
Quando saímos do cartório, eu não pulava de alegria; havia um nó em minha garganta.
Eu era livre, mas os meus filhos seriam cativos!
O pai livre, os filhos escravos!
E não podia pedir a liberdade deles aos meus senhores.
Eu tinha noção da gravidade do caso:
mesmo que pagassem a fiança, eles não poderiam libertar a todos!
Era lei, e a lei era de fato muito cruel e severa para nós, que nascemos com uma cor de pele diferente.
Eles me levaram até uma pousada.
Alvinho quase me arrastou para uma barbearia de brancos.
Eu não queria entrar de jeito nenhum, pois vi a cara de nojo de alguns brancos olhando pra mim e pra ele, que era mulato!
O barbeiro cortou o meu cabelo e fez a minha barba, jogou água perfumada no meu rosto.
Então, Alvinho me arrastou até o banheiro.
Eu insisti que não havia necessidade de trocar as roupas, pois eu estava com roupas limpas; ele nem me ouviu!
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 22, 2016 10:28 am

Tive que me vestir com as roupas que os brancos usavam.
Causou-me um desconforto que só vendo!
Enfiei umas meias nos pés, calcei sapatos de couro brilhante...
Me senti um morto preso no caixão, tudo me sufocava.
Ele pegou um espelho, colocou na minha frente e disse:
-Sabe quem é este jovem?
-Santo Cristo da Misericórdia!
Como eu ia chegar à fazenda daquele jeito?
Já fazia tantos anos que não colocava os pés por lá.
Se chegasse com aquela aparência, quem iria me reconhecer?
-Sr. Alvinho, eu acho que não posso sair daqui assim...
Nem me pareço mais comigo!
Se nem eu mesmo me reconheci, como é que os outros vão acreditar que sou eu?
-Deixe de bobagens, Miguel!
A roupa melhora nossa aparência por fora.
O que você é por dentro vai continuar do mesmo jeito, a não ser que você queira mudar; nesse caso, eu iria ficar muito decepcionado!
Antes de deixar o privativo, ele me chamou e disse:
-Pegue isso e coloque no bolso.
Um homem deve andar sempre com algum dinheiro guardado para alguma providência que se fizer necessária!
Por exemplo:
pagar um suco para uma moça!
Comprar flores!
Pagar um drinque para um amigo.
Essas coisas do dia-a-dia!
-Eu terei que fazer isso também?
-Você vai ter que aprender a ser você mesmo, Miguel, o menino que perdeu sua identidade e que agora como homem está se reencontrando!
E cá entre nós: ser negro não é o fim de ninguém.
Logo mais você saberá o que está acontecendo!
Os negros estão de mãos dadas e a corrente está se fortalecendo.
Eu, pessoalmente, acredito que logo, logo vamos acabar com a escravidão no Brasil.
Ah, Frederico e Helen têm uma novidade para você!
Não vou antecipar, mas acho que você vai gostar, e muito!
Meu Deus, tomara que não sejam outras coisas que serei obrigado a fazer contra o meu gosto!
Eu já estava sem sossego vestido daquele jeito, e ainda nem acreditava no que me acontecia.
Eu, que passei a minha vida sonhando com a liberdade, tinha uma carta de alforria na mão dizendo que eu era um homem livre.
No entanto, eu me sentia um traidor!
Como é que eu voltava para os meus vestido como um branco, exibindo a liberdade, e eles, que me deram força e apoio, e que eram meus irmãos de vida, iriam continuar escravos?
Sentei-me e comecei a chorar.
O filho de Maria do Céu se sentou do meu lado, e agora falava como um negro:
-Miguel, eu sei o que se passa dentro do seu coração, não é diferente do que se passa dentro do meu!
De quem eu sou filho? De uma escrava!
Sou um mulato livre com mãe e irmãos no cativeiro!
Nós devemos agradecer a Deus por esta oportunidade que recebemos dEle, e tratar de trabalhar muito para libertarmos todas as correntes da escravatura!
Portanto, sr. Miguel, trate de levantar sua cabeça, arregaçar as mangas e começar a lutar connosco pela liberdade daqueles que amamos.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 22, 2016 10:28 am

Preste bastante atenção:
quero morar com a minha mãe e meus irmãos, quero andar de braços dados com ela, entrar em qualquer lugar público e não ter que suportar ver as pessoas discriminando minha mãe e meus irmãos!
E olhe aqui, Miguel, veja bem o que vou lhe falar:
mesmo que conseguíssemos a carta de alforria para todos os nossos escravos, isso não iria ajudá-los muito!
Sabe por quê?
Porque os negros continuarão escravizados, e todos os negros livres continuarão sendo escravos da sociedade, que jamais os aceitará como homens livres!
Você conhece muitos escravos que ficaram livres e perderam a protecção dos seus senhores.
Eles estão vivos?
Eu pensei um pouco antes de responder.
Realmente conheci uns pobres infelizes que, recebendo a liberdade, estavam velhos e cansados, e perambulavam pelas ruas na esperança de que alguém lhes desse um trabalho, como cortar lenha, limpar quintal ou qualquer outro serviço.
Acabavam mortos, às vezes pisoteados pelos animais dos senhores que eram contra a liberdade dos negros.
Por fim, respondi:
-Os poucos que eu conheci que foram libertados pela lei estão mortos!
-Então, meu amigo!
Entendeu agora por que eu e Frederico ficamos tanto tempo fora do nosso país, e como fomos abençoados pelo padrasto do Frederico?
Concluímos nossos estudos e voltamos como cidadãos livres, e veja como o povo desta terra olha para nós!
Eu estou preocupado com este cargo que Frederico vai assumir!
Ele encontrará muitas dificuldades, pois a cor dele não agrada muito aos advogados, que se sentirão ofendidos em ter um mulato no meio deles como juiz!
Nós precisamos, em primeiro lugar, libertar os negros da maior escravidão que pode existir: o medo!
Ensiná-los a ler e escrever, abrir mercados de trabalhos e valorizar a mão-de-obra deles.
O trabalho do branco é bem remunerado.
E o trabalho do negro? Você sabe que as escravas fazem vestidos.
Se suas sinhás vendem dizendo que foi feito por empregadas brancas, valem uma fortuna.
Se abrir a boca e disser que foi costurado por uma escrava, o vestido não é nem tocado!
Ficamos conversando um bom tempo, e naquele dia eu pude perceber o quanto aquele menino era generoso, inteligente e preocupado em nos ajudar.
Ele parecia um moleque, mas só na aparência.
Quando parava para conversar, era sério, tudo o que ele falava tinha sentido.
Foi nessa conversa que ele me disse que era médico formado, e que também teria que brigar com o diabo para tratar de pacientes brancos!
Os doutores brancos só atendiam brancos, e o médico dos negros era Deus e os remédios das matas, os negros e negras velhas que receberam dos mais idosos os ensinamentos.
Nenhum doutor branco colocava a mão em negro. Imagine ele, um médico mulato...
Fiquei tão fora de mim que nem pensei para falar:
-Sr. Alvinho, aqui o senhor não vai ter nem um paciente!
O senhor acha que os brancos vão deixar seus filhos e esposas, ou eles mesmos, se consultarem com o senhor?
Ele gargalhou, e, batendo nas minhas costas, respondeu:
-Das duas uma: ou vou ter que ajudar a libertar todos os negros para me tornar médico da negrada, ou vou ter que ser melhor que todos os médicos brancos daqui para que possa conquistar a confiança dos pacientes brancos!
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 22, 2016 10:29 am

No caminho para a fazenda, fomos conversando.
Falei tudo o que sabia sobre a vida de Maria do Céu; ela teve outros filhos, porém a falta do filho dela e do outro, a quem ela havia adoptado, nunca foi esquecida.
Narrei toda a vergonha que nos envolveu na fazenda do senhor, e que muitas moças foram separadas dos seus pais e tinham filhos meus e de outros negros; moças que foram massacradas, humilhadas sem ter nenhuma chance de vida.
Algumas foram levadas às casas de má fama; eram alugadas para atender todas as loucuras dos senhores.
Corriam boatos de que muitas mulatas, filhas de negras com feitores brancos ou com seus senhores, foram vendidas e levadas para fora do país, para serem usadas como instrumentos do prazer masculinos.
Revelei a Frederico e Alvinho tudo o que eu sabia, pois ouvíamos conversas entre feitores e escravos que os acompanhavam e traziam as novidades para dentro da senzala.
Muitos feitores se rebelavam contra os seus senhores, alguns faziam trato com os escravos, facilitavam suas fugas para que eles levassem suas filhas antes que elas fossem vendidas pelos senhores.
Contei a eles que em volta de todas as casas de má fama havia um cemitério.
Ali se encontravam corpos de moças e de escravos homens, que também eram usados para os prazeres de alguns senhores tanto quanto as moças.
Esqueleto de recém-nascido nem se falava!
Muitas infelizes engravidavam e eram obrigadas a praticarem o aborto, e as que não conseguiam abortar ficavam trabalhando na cozinha e na lavandaria até o nascimento da criança, que era sacrificada antes mesmo de chorar!
Quando terminei de relatar o que sabia, vi que os dois secavam os olhos.
-Miguel, você deve colaborar connosco!
Tentaremos resgatar estas moças e moços e trazer de volta para seus pais.
Vamos começar fazendo um levantamento com as mães, quantos de seus filhos e filhas foram levados embora!
-Desta fazenda, você tem ideia de quantas pessoas foram vendidas, alugadas, trocadas, presenteadas ou sei lá o quê? -perguntou Frederico.
-Nos meus cálculos, durante estes anos que passei por lá, umas duzentas pessoas foram levadas embora!
Alguns já nem têm mães, elas já morreram, graças a Deus que descansaram!
Mas ficaram os irmãos.
-Pois é, meu velho amigo, este jovem juiz aqui na sua frente não terá escolha:
ou vai viver muitos anos no meio de vocês ou vai morrer muito jovem por lutar por vocês!
Chegamos à fazenda.
Tudo estava diferente, e avistei muitos velhos de cabelos brancos.
Onde estavam todos?
Alguns negros andavam puxando lenha, água, mas eu não conhecia nenhum deles.
Uma velhinha bem curvadinha, arrastando os chinelos e se apoiando em um cajado de madeira, com uma toalha branca amarrada na cabeça, se aproximou; senti um aperto no coração!
Meu Deus seria quem eu estava pensando?
Nem precisei saber quem era: ela abriu os braços, e com a voz baixa e cansada pela idade falou:
-Miguel, meu filho, venha até aqui!
Eu não posso enxergá-lo, as minhas vistas se acabaram, filho, mas posso sentir o seu cheiro de longe!
Corri até ela, ajoelhei-me e beijei suas mãos enrugadas.
Chorei como uma criança e, diante daquele corpo frágil, pude novamente encontrar a força e a grandeza de um espírito de luz.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 22, 2016 10:29 am

Um anjo chamado Joana.
Frederico, emocionado, não conseguia falar.
Alvinho era um doutor, e logo pediu que fossem buscar um chá doce para todos.
Meus velhos amigos, todos tão diferentes das lembranças que levei deles!
Chorei com verdadeira dor no meu coração!
Meu amigo Zacarias havia morrido, eu nunca mais iria vê-lo!
Avó Joana não enxergava mais, a catarata cobrira seus olhos; porém, continuava sábia como sempre.
Ouvindo o meu silêncio sobre a morte de Zacarias e sobre o paradeiro dos outros, ela disse:
-Meu filho, ali dentro daquele tacho velho tem uma lembrança do Zacarias para você!
Antes de morrer, ele me pediu para lhe dizer que ninguém morre por completo; ele estava morrendo na carne, e iria se fortalecer no espírito para lutar junto de vocês.
O danado do velho até sabia da volta desses meninos!
Ele me falou que antes da minha partida eu iria ver as coisas modificadas, que todos voltariam!
E não é que ele acertou?
Voltaram os dois meninos, voltou você, e acho que muitos dos nossos voltarão!
Então eu espero e acredito que ele vai cumprir a promessa que me fez.
-Que promessa, avó? -perguntei, enxugando os olhos.
-Que você iria me enterrar ao lado dele!
E que ele me esperaria do outro lado para continuarmos com o nosso trabalho!
Mas vá, filho, pegue o que ele lhe deixou!
Eu não tive a curiosidade de olhar, embrulhei na minha toalha e pedi a
Lourdes e às outras que, se eu morresse antes de você retornar, elas se encarregassem de lhe entregar; pois todos aqui foram avisados por ele que você voltaria e iria trazer muitas coisas novas e boas.
Fui até o tacho, e peguei o embrulho; lá estavam o seu velho canivete de cortar fumo, o acendedor de cigarro, o umbigo de Frederico.
Reconheci porque ele havia me mostrado, dizendo que iria guardar, e que um dia ele teria como provar que era filho legítimo daquelas terras.
Quando mostrei a Frederico, ele apertou entre as mãos e chorou, me abraçou e ficou olhando para o pequeno embrulho que segurava.
Maria do Céu foi chamada.
Ela chegou toda desconfiada na porta do barracão da avó Joana; estava envelhecida.
Todos pareciam ter envelhecido!
-A senhora me chamou, avó Joana? -perguntou ela sem entrar.
-Maria do Céu, entre aqui, minha filha -pediu avó Joana.
Ela entrou torcendo as mãos, e olhando para os dois jovens sem entender nada!
Maria do Céu, eu não consigo enxergar, mas você tem as vistas boas...
Repare bem nesse negro que está do meu lado e veja se ele lembra algum dos nossos!
Ela me olhou e respondeu:
-Sinceramente, se é conhecido daqui eu não me lembro, não!
-Maria do Céu, esse é Miguel, minha filha! Ele voltou!
E se prepare para receber outras pessoas muito importantes.
Abraçando-me, ela caiu em prantos; soluçava, e as palavras não saíam de sua garganta.
Alguém lhe ofereceu uma caneca d'água.
Peguei os dois jovens pelas mãos e disse:
-Maria do Céu, aqui estão os seus filhos, Frederico e Alvinho!
Não preciso nem relatar a emoção daquele momento: mãe e filhos se encontrando depois de tantos sofrimentos e tanta distância.
Cada rosto era lavado pelas lágrimas da felicidade e pela bênção de Deus.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 22, 2016 10:29 am

Capítulo XI - A vida livre
Daquele dia em diante, eu, que passei uma vida inteira sonhando com a liberdade, descobri que sempre fui livre!
Como homem livre, me sentia aprisionado dentro de mim; honestamente, era mais infeliz como homem livre do que no meio dos escravos!
No meio deles, sim, estava a minha vida, a minha identidade, os meus filhos, os meus irmãos e amigos.
Fui descobrindo aos poucos que a vida entre os brancos era bem pior que a nossa vida na senzala.
Nossos sofrimentos eram simplesmente por causa da nossa cor.
Já os brancos sofriam por criarem leis que os levavam a brigar e guerrear.
Não preciso relatar a felicidade de voltar para os meus amigos e irmãos de fé!
Tudo estava mudado; cada um passou por seus apuros.
Como se fôssemos sementes esperando a chuva cair na terra, começamos a colocar para fora nossa alegria.
A fazenda definitivamente transformara-se em uma só. Derrubamos as cercas.
Muitas casas foram construídas, e muitos escravos, mesmo sem ter a carta de alforria nas mãos, passaram a ser trabalhadores livres, trabalhando de "ameia":
eles plantavam num pedaço de terra, colhiam e dividiam com o senhor.
A prosperidade entrou na fazenda!
Os negros velhos que haviam sido libertados e não tinham para onde ir vinham em busca da protecção do filho da sinhá.
Uma parte da fazenda foi apelidada de ruas dos velhos.
Muitas casinhas foram construídas, e Frederico trouxe de volta os maridos e as esposas que foram separados pelos senhores.
Sentíamos até inveja da felicidade deles; plantavam ervas, flores, fizeram um pomar, uma horta, tricotavam, faziam panelas de barro, cestos de vime, costuravam, faziam brinquedos para as crianças, doces e compotas.
Ali, naquele pedaço de chão, ergueu-se um verdadeiro império; encontrávamos mercadorias de alta qualidade, e o senhor começou a comercializar os produtos e investir na liberdade dos escravos.
Muitas vezes, olhando para aquele mulato bem vestido e que colocava brancos na cadeia, eu me sentia orgulhoso:
bendita hora aquela em que atravessei o rio com aquele mulatinho nas costas!
Ele era amado pelos negros, mulatos e feitores.
Foi uma grande ajuda para nós, negros que chegamos de fora, e para os filhos nascidos das nossas negras com os brancos, feitores e senhores, pois a semente mulata já cobria o Brasil!
A cor da pele já não era somente branca ou negra:
surgiam os mulatos de cabelos lisos e olhos claros, eram os "gasos", os sararás, os crioulos e outros nomes.
Tudo mudava; a força avançava a nosso favor, conforme as previsões de Alvinho.
Eu também já sentia e acreditava que a liberdade estava prestes a chegar para todos.
Muitos estrangeiros estavam engajados no movimento.
Iniciou-se uma rebelião que resultou em muitos mortos:
morreram brancos e negros, e Frederico foi afastado.
Decidiu que faria uma viagem até as coisas se acalmarem.
Alvinho ficaria tomando conta das fazendas, que eram lucrativas.
O progresso, quando bem intencionado, incomoda os ricos que vivem da miséria humana.
Eu fiquei revoltado, pois não existia nenhum homem capacitado pelo senso de justiça como Frederico.
Todos estavam revoltados e queriam partir para a luta.
Até os feitores estavam agora do nosso lado!
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 22, 2016 10:29 am

Fomos aconselhados a nos manter calmos e a não entrar em conflitos com a oposição.
Frederico e Helen iriam viajar para o exterior.
Eles diziam que a vida por lá era bem diferente, muito melhor!
E Frederico insistiu que eu deveria atravessar o mar, desta vez não como prisioneiro, mas como um cidadão livre.
Iria visitar a minha terra, e reencontrar a minha família.
Ele havia descoberto minhas origens; usou sua influência de juiz e, junto com o marido da sinhá, conseguiu saber de onde eu tinha vindo, e que um padre amigo deles e um jovem português me esperavam para levar-me até a minha aldeia.
A princípio, senti muito medo, já nem me lembrava de nada que deixei por lá.
Vivia em harmonia com os meus filhos, tive a grande felicidade de reencontrar o meu pai - pelo menos o enterrei com dignidade ao lado da minha avó Joana.
Não tinha mais sentido nenhum voltar em busca de um passado que se tornara apenas um fantasma em minha vida.
Eu ia explicar a Frederico que não queria ir com ele, não tinha mais esse desejo em meu coração.
Aconselhei-me com os amigos.
Alguns me diziam que eu deveria ir, outros achavam que de fato eu não tinha mais nada por lá, e que eu era outro homem, bem diferente do menino que foi raptado.
Armei-me de coragem e fui falar com Helen e Frederico, porém os argumentos deles não me deixaram outra escolha a não ser seguir com eles.
O nosso coração nos avisa sempre quando estamos nos despedindo.
Não podemos entender de imediato a mensagem, porém o conforto vem depois, quando nos lembramos dos últimos apertos de mãos, olhares e palavras.
Deixei a fazenda com lágrimas nos olhos e o coração partido.
Meus filhos me acenavam; suas mães tinham lágrimas nos olhos, e algo me dizia que eu não voltaria dentro de seis meses, como foi prometido por Frederico e Helen.
Reencontrei minha terra, meus irmãos e amigos, porém me perdi completamente dentro de mim.
O tempo marcado por Frederico chegou; eu estava ansioso, não via a hora de voltar para o Brasil.
Parecia que a minha alma não tinha me acompanhado!
O tempo passou, outros tempos passaram, multiplicaram-se e nunca mais vi ninguém...
Caí em uma tristeza terrível, queria morrer a qualquer custo!
Não tirei minha própria vida por medo!
A minha avó Joana, em quem eu confiava tanto, alertou-me sobre isso!
Não queria saber de nada!
Os nossos orixás mandavam me chamar para conversar comigo, e eu não aparecia, não acreditava mais neles!
Se existissem de verdade não teriam feito aquilo comigo!
Comecei a beber todas as noites; dormia bêbado para não ficar deitado, pensando na minha vida.
Muitas e muitas noites, debruçado na janela da minha casa, lá no alto, onde construí uma casa, pensei que iria enlouquecer.
Olhava as estrelas atravessando o céu de um lado para o outro.
Eu queria me agarrar em uma delas, atravessar o mar e chegar outra vez ao Brasil!
Meu Deus, eu era feliz como escravo, não sabia o que dizia quando pedia para ser livre!
Agora sim, eu era livre no corpo e prisioneiro na alma.
Como Deus está acima de qualquer sofrimento ou sabedoria, Ele pode mudar a vida de um homem em um minuto:
foi o que aconteceu comigo.
Acho que de tanto eu desejar me agarrar em uma estrela, Deus me mandou uma em forma de mulher.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 22, 2016 10:29 am

De facto, esta mulher me trouxe de volta a vida!
Descobri nela o que havia de bom dentro de mim.
Encontrei forças para me levantar, tive outros filhos, reconstruí minha vida.
A única coisa que jamais consegui esquecer foram meus filhos e amigos.
Sentado na minha rede nos fins da tarde, esperava até a noite chegar para poder ver as primeiras estrelas aparecerem no céu.
Os vaga-lumes passando na minha frente, piscando aqui e ali...
Eu pensava neles e sentia uma dor tão grande em meu coração!
Não pode haver felicidade completa nesta vida, quando estamos longe dos nossos filhos.
Eu daria tudo para saber deles...
Muitas vezes secava os olhos rapidamente, no escuro, para que a minha mulher não percebesse que eu chorava de saudades do Brasil.
Os anos voaram, e eu fui arrastado em suas asas.
Eu estava velho e cansado.
Mais uma vez Deus me levou a força que sustentou por alguns anos a minha vida: minha mulher morreu, e a vida acabou-se para mim.
Eu passava os dias sentado em uma rede.
Não escutava o que me perguntavam, não me interessava por mais nada!
Queria mesmo morrer, todas as noites eu dormia na esperança de não acordar no outro dia.
Não sonhava mais, não enxergava mais as estrelas, e nem os vaga-lumes.
Esperava a morte e pedia a Deus todos os dias que fosse generoso comigo, me tirasse a memória, pois as lembranças continuavam vivas dentro de mim e eu não podia continuar vivendo de lembranças.
Eis que mais uma vez Deus não me atendeu!
Ele dá a cada um dos seus filhos o que eles precisam, e não o que eles desejam!
O meu destino mais uma vez foi mudado.
Será que eu fiz mal em pedir às estrelas que me permitissem atravessar de novo o mar?
Lá estava eu de volta, depois de tantos anos, atravessando o mar que me trazia ao Brasil, e ao lado de um filho brasileiro!
Desta vez eu confesso que voltei a ser uma criança, tamanha era a minha felicidade quando pisei no chão do Brasil.
Encontrei tudo diferente; então pensei, sorrindo: se eu estou diferente, imagine o Brasil!
Voltei velho, mas a minha memória estava nova e ainda pude colaborar com muitos estudantes que me procuravam diariamente em busca das minhas histórias.
Acho que ajudei aqueles meninos em alguma coisa; dava-lhes conselhos e me colocava como exemplo.
Agora brancos e negros andavam juntos!
Estudavam juntos!
Como era bonito de se ver.
Muitos amigos já tinham partido para nossa verdadeira pátria, a espiritual, e outros continuavam se agarrando a suas bengalas e andando com dificuldades.
Porém uma coisa era dita por todas as bocas dos velhos: todo nosso sofrimento valeu a pena!
Nossos netos, bisnetos e tataranetos agora eram felizes, viviam como pássaros que nasceram nas matas, já nasciam na certeza que poderiam voar.
As fazendas viraram usinas, a riqueza tomou conta das terras.
Os meninos Frederico e Alvinho, depois de tantos sofrimentos, também estavam de volta a suas fazendas.
Passávamos horas conversando, e eu brincava com Frederico:
-Acho que você tem mais cabelos brancos do que eu!
E pensar que carreguei você nas minhas costas rio acima!
Ele, rindo, respondeu:
-Se fosse hoje, o senhor só teria que correr pela ponte!
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 22, 2016 10:30 am

Mas eu não teria chance nenhuma de sobreviver: no lugar das matas temos prédios e estradas.
Ele falava dos novos problemas que tomavam conta do Brasil, que estava sendo explorado; estavam levando nosso ouro, madeira e outras riquezas embora.
Até cheguei a perguntar a ele onde estavam os homens que lutaram tanto para defender a pátria.
Ele me disse:
-São estes mesmos homens que desviam as riquezas da nossa terra, arrancam o que podem levar, e abandonam o Brasil por outras terras distantes.
Sabe de uma coisa, velho Miguel?
Outro movimento está se levantando.
Por meus cálculos, nos próximos duzentos anos, brancos e negros viverão outra forma de escravidão, bem pior do que esta que você conheceu.
-Como assim, Frederico?
-Senti até medo, pois o que vivi dentro das senzalas não era vida recomendada para nenhum filho de Deus.
Ele me disse que diante do quadro que se apresentava dia após dia, logo, logo o mundo entraria em guerras, e a loucura tomaria conta dos seres humanos.
Passei a viver uma vida de regalias.
Tinha de tudo, até o que eu não precisava.
Meus filhos de Angola vieram me visitar.
Meus filhos do Brasil, netos, bisnetos, tataranetos e seus filhos se orgulhavam de mim.
Morri sem sofrimento nenhum; pelo contrário, foi em um dia de festa que meu espírito se apartou do velho corpo.
Naquele dia eu cheguei a ver uma estrela cruzando o céu e um vaga-lume passando perto da janela...
Bem que desconfiei que era o último presente que Deus me dava na Terra.
Hoje, totalmente consciente de que os meus deveres continuam, procuro me envolver em trabalhos de ajuda a outros irmãos.
A minha contribuição é pequena, mas pode auxiliar muitos filhos que necessitam se sustentar na mão de um velho amigo.
Meus amados filhos, tudo o que vocês enxergam existe!
E muitas coisas que os seus olhos não enxergam também existem, e como existem!
Muitas vezes presenciamos correntes de sofrimento tão pesadas que são bem piores que as correntes usadas nos antigos negros escravizados.
Aquelas correntes prendiam o corpo físico, doíam na carne, mas a alma era livre e sadia.
E isso atinge a todas as famílias, seja de brancos, seja de negros.
Os carrascos chamados droga, corrupção, violência e tantas novas doenças, tantos novos sofrimentos que naqueles tempos não nos atingiam, hoje aprisionam tantos jovens, mutilando seus corpos físicos e enlouquecendo suas almas!
Desde aqueles tempos, já pressentíamos que o descaso e o abuso no tratamento com a mãe Terra iriam trazer consequências dolorosas para os viventes do planeta.
Começaram com as derrubadas, e as matas foram desaparecendo; o fogo queimava a terra e matava os animais.
Os rios secavam; os peixes morriam envenenados.
A pesca nos mares não só matou enormes quantidades de peixes como poluiu as águas.
A ganância ultrapassou os limites; os homens esqueceram suas diferenças de cor, mas começaram a enxergar outra coisa bem pior: a moeda!
Se tiver dinheiro, tanto faz ser branco ou preto, o que vale mesmo é a quantia que se tem no bolso.
Vieram as guerras pelo poder, inventaram armas e mais armas, gastaram quantias enormes em invenções que não vão levar o homem a lugar nenhum.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 22, 2016 10:30 am

Enquanto isso, as doenças se alastram, e a pior fome que existe para o homem, que é a falta de amor, toma conta dos lares.
E nas novas previsões que tenho ouvido por aí, tanto dos estudiosos encarnados na Terra quanto dos amigos aqui de muitas esferas espirituais, se não houver um movimento mais rigoroso que o da libertação da escravatura, o planeta não terá condições de se sustentar em sua rotação.
Filhos do Brasil, filhos do planeta Terra, juntem-se a este movimento de libertação!
Libertem o sofrimento da mãe Terra.
Plantem e replantem o que arrancaram dela.
Este espírito velho que agora lhes fala já viveu nesse mesmo mundo em que você se encontra agora.
Já vi muitas coisas acontecerem.
Ouçam bem o que direi, meus filhos:
muita coisa boa foi trazida e colocada nas mãos de vocês.
Infelizmente, estes benefícios de Deus foram usados de forma errada, e eis aí os resultados:
um planeta pendurado por um fio de cabelo!
Com muita consideração e respeito, deixo a cada um de vocês o meu abraço e a minha bênção.
Continuo do mesmo jeitinho!
Confesso que não sinto falta do meu antigo corpo físico; sinto saudade, isso eu não posso negar!
Ele muito me ajudou a atravessar as barreiras, e é por isso que sinto saudade.
Meu corpo físico foi um instrumento amigo na minha escalada, e através dele conquistei amigos e mais amigos.
Irmãos, nunca é tarde para começar um novo empreendimento.
Que tal nos unirmos para fortalecer este movimento de fé?
Não estou falando de religião, estou falando de Deus.
Eu, por exemplo, pelo bem do nosso Deus entraria em qualquer lugar sem hesitar.
Separados, não somos ninguém; juntos, somos um povo!
Deixo a minha mensagem de amor e fé a todos vocês, e espero que tenham gostado dessa minha história:
uma história mais real do que possa parecer.
Paz!

Luís FERNANDO (PAI MIGUEL DE ANGOLA)

§.§.§- Ave sem Ninho
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