A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 14, 2016 10:46 am

Uma semana depois, vi o senhor se aproximando da casa grande.
Fiquei sem fôlego.
Sua aparência dava medo:
cabelos em desalinho e barba por fazer.
Desceu no pátio da fazenda e perguntou ao feitor:
-Então uma negra deu cria a dois negrinhos de uma vez?
-Foi sim, senhor!
Os dois passam bem -respondeu o feitor.
-O senhor quer ir ver seus novos escravos?
-Não, deixe pra lá, que cresçam e sejam fortes!
Nós precisamos de braços fortes para trabalhar na terra!
Deixe que a mãe amamente sossegada, assim eles crescem mais cedo.
-E dos fugitivos, o senhor tem alguma pista? -perguntou o feitor.
-Ainda não encontramos os malditos negros, devem estar encurralados em algum buraco.
O castigo deles dobra a cada hora que passa.
Eu vou encontrá-los, sem sombra de dúvida!
Mandei cercar todas as entradas, dei queixa às autoridades, que estão alertas, e os caçadores de escravos já correm atrás deles pela recompensa.
Vocês são testemunhas de que na minha fazenda eu trato todos os negros com bondade.
Mas não vou admitir esse tipo de comportamento entre escravos meus!
Já contratei um profissional em castigos:
assim que resgatarmos os fugitivos, eles serão castigados na frente de todos os outros escravos.
Servirão de exemplo!
Acredito que depois de presenciarem o que nunca viram, os outros escravos jamais vão sentir vontade de fugir!
No outro dia, cedo, acompanhei avó Joana até a carroça.
Ela me pedia calma, mas eu não consegui segurar as lágrimas.
Assim que ela se afastou eu escutei os feitores reclamando da partida dela:
"Tomara que o senhor não queira trancá-la por lá!";
"Quem vai cuidar do parto das nossas esposas e de nossas doenças?".
Um deles comentou:
-O que será que aconteceu com a sinhá?
-Fiquei sabendo que ela teve um filho, e que o pequeno morreu! -o senhor Ambrósio respondeu.
O que se comenta é que ela enlouqueceu.
As poucas vezes em que estive lá a avistei de longe; nem lembra mais aquela sinhá!
Está acabada, parece uma velha!
Também, não foi fácil pra ela:
primeiro chega nesta terra sem ter nenhum parente, depois a dama que trouxe como companhia trai sua confiança (foi o que me contaram; dizem que ela hoje vive na cidade e toca uma casa da má fama).
Segundo as más línguas, comprou algumas escravas jovens e ganha a vida vendendo-as para os escravos livres, feitores e até senhores.
Isso foi o que me contaram.
O outro respondeu:
-Não é fácil!
Até hoje não entendo por que o senhor não vive nesta casa, que, na minha opinião, é bem melhor que a outra!
-Deve ser por afeição que ele vive lá!
Esqueceu que ele nasceu e cresceu naquela casa?
Com certeza vive lá por gratidão!
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Ave sem Ninho

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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 14, 2016 10:46 am

Eu também acho que esta casa é muito melhor!
Sem contar que aqui tudo está centralizado.
Fiquei sabendo que ele adquiriu meia dúzia de novos escravos; não posso afirmar, mas acho que vi alguns negros novos por lá.
Quem sabe avó Joana cura a sinhá e até a traz para nós.
Já começo a ficar preocupado: tem faltado tudo para os jovens escravos; eles crescem e engordam, e as roupas já não servem mais.
Quem fez as compras na última vez foi a sinhá; e agora, quem vai fazer isso?
O que vamos fazer com tantas coisas erradas?
Só Deus sabe, meu amigo!
Dê uma olhada nas minhas botas...
Estão furadas, e as chuvas já vão chegar.
Nós não sabemos o que vai acontecer.
Só podemos rezar e pedir a Deus que avó Joana consiga curar a sinhá.
Eu trabalhava nos meus arreios de cabeça baixa.
Os feitores não evitavam falar perto de mim, sabiam que eu não dava com a língua nos dentes para qualquer um.
Fiquei por ali, porque a conversa me interessava.
Um dos feitores perguntou para o senhor Ambrósio:
-Você viu o António por lá?
Uma coisa que me intriga é que este negro sumiu do mapa!
Antigamente o senhor só andava com ele a tiracolo, ele vivia até colocando a coluna do senhor no lugar...
De repente, ele sumiu!
Vou lhe contar uma história, e que fique aqui entre nós:
um dos fugitivos que o senhor procura é o António.
O feitor arregalou os olhos e exclamou:
-Você está brincando!
Justo aquele medroso que os outros escravos apelidaram de touro manso?
-Pois é. Não dizem por aí que devemos ter medo de boi manso?
Essa é a prova, ele fugiu!
Eu nunca mais o vi, então a história deve ser verdadeira.
Tenho até pena, quando o senhor colocar as mãos nele!
Que chance tem esse negro de sobreviver?
Ele deve estar escondido, sem comer e sem beber, em algum buraco por aí.
Nós sabemos que ninguém pode sobreviver muito tempo nestas condições.
-Quantos escravos fugiram além de António? -questionou outro feitor.
-Falaram em três!
Deve ser algum escravo afoito que chegou na fazenda, e tendo facilidade, porque lá está totalmente vazio, foi má influência para o António.
Bem, só Deus sabe o que vai acontecer com eles daqui pra frente.
-Pois é...
Um sujeito bom, vivia aqui no meio da gente!
Nunca tivemos nenhum problema sério com ele, e de repente faz uma bobagem dessa.
Ele não tem chance nenhuma de viver!
Eu sempre digo: não pode separar os negros!
Eles juntos se aconselham, se ajudam.
Quando são separados, acabam morrendo!
Eles não sobrevivem sozinhos!
Olha o caso dos que conseguem a carta de alforria!
Não ficam três meses vivos!
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 14, 2016 10:46 am

Eu acho que é até um crime o que fazem com eles:
vivem trancados a vida toda, e de repente são soltos; parecem passarinhos que nasceram na gaiola, não sobrevivem fora da prisão.
Vou ser sincero com você.
Às vezes fico pensando muito na minha vida e me perguntando:
que castigo é esse nascer com outra cor?
Ambrósio respondeu:
-Conforme nos diz avó Joana, cada um com sua sina!
Não devemos nunca questionar a sabedoria de Deus, porque Ele sabe o que faz com cada um de nós.
Assim passei o dia, trabalhando e me torturando, sem saber o que iria acontecer connosco.
No fim da tarde, avistei a carroça que havia levado avó Joana, e logo pude constatar que Zacarias estava voltando.
-Miguel? -O senhor Ambrósio me chamou.
-Sim, senhor. - Corri até ele.
Vá ajudar o negro Zacarias a descer da carroça.
E você ouviu o que disse o senhor, não ouviu?
Está escalado para ajudá-lo.
Naturalmente que deve dar conta dos seus outros afazeres.
E escute bem, Miguel:
Pelo amor de Deus, tome cuidado para não se meter em problemas!
Nós não imaginávamos que um negro sonso como o António fosse se meter a fugir!
Por isso lhe dou este conselho: não faça besteiras!
-Eu também acho que ele fez uma grande bobagem, sr. Ambrósio!
Rezo a Deus que o nosso sinhozinho o mantenha vivo, e que o castigo que ele vai receber lhe sirva de lição.
Quanto a mim, o senhor pode ficar sossegado que eu não vou dar desgosto para a minha avó Joana.
-Esperamos que sim, Miguel.
Nas conversas que tiver com seus amigos, diga isso a eles: nós estamos aqui cumprindo o nosso papel, não temos culpa de vocês terem nascido negros.
Somos apenas os feitores que trabalham para os nossos senhores.
Não vale a pena para ninguém tentar abraçar o que não pode abarcar!
Se um dia a liberdade geral dos escravos for aprovada como lei, eu serei o primeiro a comemorar com alegria; mas enquanto isso não acontecer, vamos procurar conviver como Deus concedeu a cada um o seu meio de vida.
Obrigado, sr. Ambrósio, eu farei o possível para ajudar meus irmãos a compreenderem o que precisamos aceitar como nossa missão de vida.
Ainda pude ouvir o feitor comentar com o outro:
-Se todos os negros fossem como Miguel, o sinhozinho nem precisaria de feitores!
Conheço esse negro desde que chegou aqui:
era um menino bom e obediente!
Avó Joana o criou e o educou, e assim ele se mantém até hoje.
Corri para abrir a porteira, peguei o braço do negro velho Zacarias e o coloquei no chão.
Nos olhamos em silêncio; nossa troca de olhares era nossa linguagem.
Entendi que ele havia conversado com avó Joana.
Já no barracão, ele me disse baixinho:
-Miguel, meu filho, nenhum sofrimento anda sozinho: um se sustenta no outro.
E nós estamos aqui também sofrendo por nossos irmãos, por isso é que devemos dar a eles essa sustentação.
E como vai o garotinho da sinhá?
Está lindo!
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 14, 2016 10:47 am

Nem parece que passou por tanto sofrimento.
Olho pra ele e tenho vontade de chorar, lembrar que atravessei o braço do rio com ele amarrado nas minhas costas, chorando de frio e de medo!
Nos braços da Maria do Céu, ele parece até com o outro filho dela, que dizem ser filho do sr. Ambrósio.
Eu até acredito que seja mesmo; ela vivia escapando à noite, segundo as próprias amigas.
-Isso não vem ao caso! -respondeu Zacarias. -Já deram nome ao garoto?
-Com essa confusão toda, nem o sinhozinho nem a sinhá têm dado muita atenção para os escravos.
Os dois meninos estão sem nome respondi.
Zacarias, esticando as pernas, respondeu:
-A presença do padre já está fazendo falta aqui na fazenda.
Parece que esse novo senhor não tem muito compromisso com a Igreja.
Depois que o pai viajou, nunca mais foi trazido um vigário aqui para esta fazenda!
E a presença do padre é tão importante quanto a presença dos nossos deuses.
-E não é só o padre que faz falta, não, Zacarias!
Faltam roupas e calçados, e muitas outras coisas para nós.
Hoje mesmo eu ouvi os feitores conversando sobre isso.
Um deles mostrou a bota furada, e lembrou bem quando disse que as chuvas estão chegando.
Muitos negros já andam por ai descalços, pois as botas se partiram.
Os mais novos andam descalços, seus pés cresceram.
E as roupas, então?
Olhe as minhas roupas!
Eu, que ando no meio do mato e amanso cavalos, vejo minhas roupas se acabarem de um dia para o outro.
Essa aqui já não tem mais lugar onde colocar remendos.
-Olha, meu filho, as coisas não andam bem para nenhum de nós, e podem piorar se não tivermos cuidado e muita astúcia.
Vou descansar um pouco; e você, volte a seus afazeres.
Não demonstre alegria nem tristeza, procure manter-se tranquilo e concentrado no que faz.
Logo mais, à noite, conversaremos sobre o dia de amanhã.
Retirei-me, tentando me manter calmo.
Porém, ficava arrepiado só de pensar no que ouvi da boca do senhor, que tinha contratado um profissional em castigos.
Eu nem imaginava que existia pessoa especializada em castigar os outros!
Eu acreditava que apenas Deus ou nossos guias podiam fazer isso...
Mas havia homens que se preparavam para judiar dos outros, sem se importar com os seu sofrimento.
Fui ajudar nos cuidados com os animais.
Assim como nós, os coitados também viviam sofrendo com feridas causadas pelos maus-tratos dos feitores.
Ajudei a retirar todos os arreios, e esperei que seus corpos esfriassem, pois todos estavam suados.
Limpei as feridas dos animais machucados, coloquei pomadas e os soltei para descansarem.
Agi como se tudo estivesse bem.
Depois do nosso jantar, os negros podiam ficar sentados no terreiro da casa-grande, naturalmente sob a mira dos feitores.
Sentei-me perto de Zacarias, e ele então me advertiu:
-Vou falar, e você ficará ouvindo e fingirá que está cochilando, como se a minha conversa fosse conversa de velho, entendeu?
-Sim, senhor, pode começar.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 14, 2016 10:47 am

Capítulo IV - Segredos
Ouvi todas as recomendações de Zacarias, e antes de nos retirar ele foi até o feitor e pediu:
-Sr. feitor, eu gostaria de pedir a sua autorização para acompanhar Miguel até a mata em busca de um cipó, que avó Joana me pediu.
Miguel não conhece o cipó, e eu preciso encontrá-lo, pois o problema da nossa sinhá é coisa do parto, e grave, se não tratar com urgência.
Fingindo inocência, Zacarias ainda acrescentou:
-Esse cipó cura problemas de parto mal resolvido.
Foi o que aconteceu com a nossa sinhá; ela está perturbada, não só pela ausência do filho, mas também pelas consequências do parto.
Com esse cipó, segundo avó Joana, ela deve recuperar-se logo, logo.
O feitor chegou mais perto de Zacarias e, muito curioso, perguntou:
-Então é verdade que o filho do senhor morreu?
A sinhá está mesmo louca?
Como é que estão as coisas por lá?
-Bem, sr. feitor, as coisas por lá não andam bem!
A sinhá não fala, não come, parece uma morta-viva!
Está completamente enlouquecida.
De acordo com avó Joana, é problema do parto; ela até me disse que vai tentar convencer a sinhá a vir passar uma temporada nesta casa, até se recuperar da doença.
O sinhozinho anda aborrecido, nervoso...
Acredito que seja pela doença da sinhá, a morte do filho e também a fuga dos escravos.
-Você, que esteve lá, talvez saiba mais que nós: quantos escravos fugiram?
-Os feitores de lá não conversavam comigo.
Eu só fiquei sabendo que António levou uma mulher com ele!
-O quê? Santo Deus!
António levou uma mulher?
-Foi o que me disseram.
Mas, sinceramente, não sei afirmar quantos negros estão com ele.
Senhor, eu posso acompanhar Miguel amanhã cedo para pegar esse cipó?
-Vai aguentar, Zacarias?
-Tenho que aguentar, senhor, é um caso de vida ou morte! O feitor coçou a cabeça e respondeu:
-O diabo é que Miguel não conhece o cipó; por outro lado, é bom que ele vá aprendendo onde encontrar, e onde é que dá esse cipó!
O senhor procure ir devagar.
Se é para curar a sinhá, até eu iria buscar esse cipó com o senhor!
Só que eu não posso me dar a esse luxo, deixar o meu trabalho.
Mas posso liberar o negro Miguel para acompanhá-lo.
-Voltou-se para mim.
Miguel, leve água para o negro velho Zacarias.
Você acha que até o meio do dia estarão aqui?
-Eu acredito que sim -respondeu Zacarias.
-Um dos nossos feitores vai à fazenda onde estão os senhores, e ele pode levar o cipó que a avó Joana espera.
E por falar nisso, como se chama esse cipó milagroso?
-Cipó da cobra, senhor.
Ele lembra uma serpente enrolada.
Quando eu chegar mostro para o senhor.
Demos boa-noite e nos retiramos.
Peguei o que pude para levar para António e Anita.
No outro dia bem cedo, quando surgiram os primeiros raios da manhã iluminando o céu, eu e Zacarias andávamos pela grama toda molhada do orvalho da noite.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 15, 2016 9:42 am

Passávamos pelos feitores, que ainda não haviam trocado o turno; eles nem saíram de seus lugares:
vencidos pelo cansaço da noite, mal respondiam ao nosso cumprimento.
Quando chegamos na margem do rio, Zacarias me ajudou a amarrar o saco nas costas com tudo o que tínhamos levado para o casal fugir.
E conforme combinamos, ele ficou escondido na copa de uma velha árvore; assim, se algum caçador de escravos passasse por ali não ia sentir o seu cheiro.
Cheguei do outro lado da margem, e após a minha escalada pelas pedras encontrei os dois, que estavam ansiosos por minha chegada.
Foram logo me perguntando como passava o menino. António baixou a cabeça, e vi as lágrimas escorrendo pelo seu rosto.
-Fique tranquilo, o seu filho está seguro.
Maria do Céu teve um filho parecido com o seu, e vendo os dois juntos, ninguém diz que não sejam mesmo irmãos!
Quanto à sinhá, avó Joana foi cuidar dela, e tenho certeza que ela vai conseguir trazê-la para a fazenda nova.
Sem saber, a sinhá estará perto do filho.
Quanto a vocês dois, agora é rezar muito e apegar-se com o grande Deus de todos os nossos deuses, e tentar sobreviver, até conseguir um novo destino.
Anita pegou o saquinho que a sinhá entregara a eles e me disse:
-Leve, que é do menino!
Anita, nós já conversamos sobre isso!
Vocês devem levar, vão precisar para conseguir atravessar para outra capitania.
Façam o possível para sobreviverem.
Não tenham pressa em encontrar o porto seguro.
Sigam as orientações de Zacarias e não se descuidem, pois os caçadores de escravos estão por toda parte, dia e noite.
É caçando escravos que eles ganham a vida, e vocês dois estão sendo disputados entre todos os caçadores de escravos.
O senhor ofereceu uma fortuna por vocês.
Após todas as instruções eu me despedi deles, desejando sorte, e fizemos o nosso pacto:
em hipótese alguma deveríamos contar sobre o menino.
Se por ventura fossem pegos, até a morte eles jamais deveriam citar o paradeiro da criança.
Diriam que o menino não resistiu e faleceu, e eles o enterraram no leito do rio.
Era perto de meio-dia quando chegamos na fazenda.
O feitor veio correndo para ver o cipó cobra, que o negro Zacarias exibiu, dizendo:
-Esse aqui cura muitos males, nas mãos de quem sabe preparar!
Não é qualquer pessoa que sabe trabalhar com ele, tem os seus segredos.
Foi uma caminhada e tanto para pegar este cipó, mas vai valer a pena!
-Coloque as ervas dentro da mochila que eu vou mandar para avó Joana.
Tomara que a sinhá se cure logo, nós precisamos dela aqui para cuidar de vocês.
Veja a sua roupa, Miguel!
A última vez quem cobriu vocês foi ela, não é mesmo?
Mas vá logo arrumar estas ervas, que o feitor já vai partir para a casa nova.
Traga as ervas e depois vão almoçar.
Depois do almoço, Zacarias, vá descansar um pouco, que na sua idade uma caminhada dessas é muito puxada.
Descanse para no fim da tarde cuidar de suas tarefas.
Zacarias agradeceu e me seguiu.
Enquanto eu arrumava as ervas, ele deitou-se na rede e disse:
-Enquanto você atravessava o rio, eu invocava os nossos deuses da mata (espíritos da mata), e senti uma alegria muito grande em meu coração; por isso, acho que tudo vai dar certo na saída daqueles dois.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 15, 2016 9:42 am

Você vai almoçar, e eu ficarei aqui, tentando me comunicar com os nossos encantados.
Antes de sair, feche a porta. Se o feitor perguntar por que eu não fui almoçar, explique que me senti muito cansado, bebi água e preferi dormir.
Assim fiz: após ter entregado as ervas para o feitor, fui almoçar com os outros.
Logo o feitor se aproximou de mim e perguntou:
-Onde está Zacarias?
Por que é que ele não veio almoçar?
-Ele disse que estava muito cansado e sem fome; só queria beber água e dormir.
Enquanto nós almoçávamos, eu o ouvi comentando com o outro feitor:
-Você já pensou se essa lei que estão preparando para os velhos sair mesmo?
Repare: um velho da idade do Zacarias, que acho que já beira os oitenta anos, ser colocado na rua...
Uma criatura nesta idade poderá sobreviver?
E o mais difícil para mim é que eu cresci sendo ajudado por ele.
Zacarias curou minhas feridas, ensinou-me a nadar, descascar cana, laranja, preparar laços e outras tantas coisas.
Sei que ele é um escravo, mas não dá para deixar de lado estas lembranças e o sentimento que temos por ele.
O outro respondeu:
-Pois é... Por exemplo:
quem nesta fazenda não deve um pouco de sua vida a avó Joana?
Toda criança nascida aqui nesta fazenda passa pelas mãos dela.
Nossas mulheres são curadas com os remédios que ela prepara.
Não dá nem para imaginar que ela possa ser mandada embora desta fazenda!
Passei uma tarde tensa, a fuga dos dois não me abandonava os pensamentos.
Rezava e pedia intimamente aos nossos encantados (mentores) que ajudassem aqueles dois a seguirem seu novo destino.
A lua apareceu no céu, e a sua volta havia uma sombra cor-de-rosa.
O negro velho Zacarias ajudava a separar a lenha seca, e, apontando para o céu, disse:
-Ali é a luz do sol iluminando os que precisam de sua luz...
Entendi como um bom sinal.
Era exactamente o momento em que eles deveriam estar escalando as pedras.
Fomos tomar banho, e baixinho eu perguntei ao Zacarias:
-Recebeu alguma mensagem dos nossos encantados?
-Sim! Eles vão conseguir sair em paz.
Fique sossegado, vamos comer em paz, e mandar bons pensamentos para eles.
Deitado em minha rede, não conseguia dormir.
Fiquei ouvindo o ronco dos outros negros, e cada vez que ouvia o latido de um cão, estremecia e minha respiração mudava.
Meu Deus! Que tormento é a sensação de estar fazendo coisa errada!
Só consegui fechar os olhos perto do amanhecer do dia. Comecei a sonhar que via a sinhá chegando na fazenda.
Ela vinha correndo até o barracão da senzala, me encontrava e perguntava:
"Onde está o meu filho?"
"Ali, sinhá, é aquele!"
Quando me virava, via o senhor segurando o menino com uma das mãos, e na outra tinha uma faca que brilhava de tão amolada.
Rindo, ele falava pra sinhá:
"Agora você vai ver como se trata o filho de um negro mentiroso!"
Dei um pulo na rede, e acordei sentado.
Meu Deus, que pesadelo!
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 15, 2016 9:43 am

Os galos cantavam, e alguns negros já estavam de pé.
Fui até o fundo da senzala e olhei para o alto; o céu estava límpido, muitas estrelas cintilavam.
Pensei:
"Onde será que eles estão?"
Fiquei lembrando se realmente havia passado todas as instruções recebidas por Zacarias, que se resumiam nesta tabela:
Primeira noite:
Zacarias pediu que eles fossem pisando em folhas e galhos secos, e usassem o óleo preparado com banha de cascavel e pimenta, que servia para anular o faro dos cães.
Chegando no rio, andassem dentro da água, sempre cuidando para não deixar rastros.
Quebrassem um galho de árvore e andassem com ele cobrindo a cabeça.
Tirassem a roupa, que era feita de saco branco, e se cobrissem com os couros de boi que levei (eram negros) e andassem nus; pois a roupa branca chamava atenção à noite, especialmente no corpo deles, que eram negros.
Eles não poderiam parar em hipótese alguma; assim, quando o dia estivesse clareando, eles deveriam avistar uma cadeia de pedras, à esquerda do rio, e seguir até lá.
Assim que deixassem a água do rio, usassem uma loção que ele preparou, e que afugentava lobos e outros animais da região.
Que eles amarrassem nos tornozelos um colar de alhos com algumas gotas de tipi (guiné):
isso afastava as serpentes venenosas.
E que não deixassem rastros!
Eles deveriam ficar escondidos bem no alto das pedras, em alguma abertura na qual coubessem os dois.
Antes de entrar, seria preciso vasculhar o local com um pedaço de madeira, para ver se não havia alguma cascavel.
Esperassem ali até anoitecer.
Deveriam encher a cabaça de água e comer o pão e a carne seca que eu levei pra eles.
Esse alimento seria suficiente para sete dias, se bem racionado.
Não podiam sair dali em hipótese alguma, nem para fazer as necessidades; se sentissem vontade, que fizessem ali mesmo, sem deixar cair nada, para não chamar a atenção de animais para perto deles.
E mesmo quando estivessem andando à noite, se por acaso sentissem vontade, deveriam fazer e enterrar.
E sempre lembrando de apagar os passos.
Quando a lua aparecesse no céu, que esperassem até que, levantando os braços à lua, estivessem tocando na ponta dos dedos.
Eles deveriam descer e recomeçar a caminhada, porque nesta hora os animais nocturnos já estavam saciados em sua fome e não iriam acompanhá-los.
Tinham de olhar sempre para não esquecerem nada no local, sempre seguindo o curso do rio, ao lado contrário do vento; e a maior precaução: não deixar pegadas!
Segunda noite:
eles iriam encontrar muitas árvores antigas, sempre vasculhando os troncos secos para ver se não abrigava nenhuma cobra, que entrassem e usassem o óleo com pimenta vermelha com banha de cascavel que ele havia preparado, aquele óleo ajudava a confundir o faro dos cães.
E que não podiam deixar o esconderijo em hipótese alguma.
Olhassem para o céu e quando a lua estivesse na altura dos seus olhos, deixassem o esconderijo, era necessário dar um tempo aos animais nocturnos que saíam em busca de alimentos.
Observasse bem para não pisar na terra, era necessário só pisar nas folhas ou troncos, não deixassem pegadas!
Só deveria parar de andar no raiar do dia e sempre obedecendo às instruções quanto aos esconderijos.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 15, 2016 9:43 am

Terceira noite:
eles iriam deparar-se com uma curva; o rio segue para a esquerda, e eles deveriam seguir para a direita, prestando muita atenção para não deixar pegadas!
Com muito cuidado, porque ali havia ninhos de serpentes, escolhessem um lugar dentro do velho cemitério e ficassem quietos, até a noite chegar e a lua bater no coração deles.
Deveriam seguir uma trilha que dava no fundo do cemitério, sem esquecer o óleo e os colares nos tornozelos; era uma trilha estreita, forrada por folhas secas.
Que não se assustassem com os animais que poderiam encontrar, como lobos, porcos do mato, etc.
Fingissem que eram bichos também.
Eles iriam avistar uma mata fechada do lado direito e uma cadeia de montanhas do lado esquerdo:
seguissem o lado das montanhas.
Ali eles iriam encontrar algumas pequenas cavernas.
No lado direito havia uma abertura que só permitia a passagem de um homem agachado; António entraria, e depois Anita faria o mesmo.
Do outro lado, havia um poço de água doce logo à frente deles, e subidas à direita e descidas à esquerda, por onde deveriam seguir, segurando-se nos cipós, até chegarem a um pequeno riacho.
Ali iriam encontrar muitos frutos silvestres na beirada do riacho.
Eles teriam de andar riacho abaixo até alcançarem uma cadeia de pedras negras; isso seria por volta das três da tarde, quando o sol estivesse na altura dos rins.
Deveriam escolher uma pedra e subir, e descansar até chegar a noite.
Quando a lua estivesse na altura dos olhos deles, descessem e continuassem a andar riacho abaixo.
Ao amanhecer, deveriam avistar um largo rio.
Quarta noite:
Sempre cuidando das pegadas e não deixando nada para trás, seguissem a beira do rio e caminhassem a noite inteira, sem perderem tempo.
Ao amanhecer, eles deveriam avistar duas montanhas de areia, uma mais escura e outra mais clara; seguissem a mais clara, protegendo os olhos porque ali a ventania seria forte.
A vantagem é que o vento apagaria as pegadas.
Não parassem de andar até avistar uma lagoa cercada de pedras e arbustos; isso iria acontecer antes do sol cruzar o meio do céu.
Procurassem um abrigo entre as pedras e tomassem cuidado com as serpentes venenosas que se abrigavam naquele local.
Ai eles estariam seguros e protegidos pelo vento; nenhum cão iria sentir o cheiro deles.
Deveriam descansar o resto do dia, e aproveitar a noite para refazer as forças.
Quinto dia:
Deveriam andar sempre em frente.
É mais difícil andar na areia do que em terra, mas que eles se esforçassem no fim da tarde, iriam avistar lá embaixo um rio cercado pela mata.
Desceriam com cuidado a montanha de areia e se abrigariam aquela noite na copa de alguma árvore.
Amarrando-se nas árvores com as cordas de couro, não cairiam se cochilassem.
Quando o dia estivesse clareando, descessem e seguissem a trilha aberta que iriam encontrar à direita; era mata fechada, essa trilha estreita, iria levá-los a um lugar seguro.
No fim da tarde sairiam nas margens do rio.
Deveriam escolher um canto no meio do capinzal e ficar ali até o clarear do próximo dia.
Sexto dia:
Assim que amanhecesse o dia, que seguissem pela direita e andassem pelo capinzal, sem se desviar da rota.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 15, 2016 9:43 am

Ali há muitos animais selvagens, cavalos, jumentos, etc.
Eles deveriam se portar como se fossem animais também.
No fim da tarde, iriam se deparar com uma serra; procurariam abrigo no pé da serra, onde há frutos silvestres variados e água fresca que cai das pedras.
Que pernoitassem ali até o clarear do próximo dia.
Sétimo dia:
Ao raiar do dia, eles deveriam seguir pela esquerda, por uma pequena trilha; que andassem rápido, sem perder tempo e sem parar, até alcançarem a saída para seguirem um novo destino.
Neste ponto, Zacarias disse que não podia mais ver nada e nem interferir; a partir deste ponto, caberá a vocês decidir que direcção seguir.
Orem e peçam a Deus que os ilumine e indique o caminho certo, onde possam viver em segurança e paz.
Entre caminhada e descanso até esta saída, eles estariam entrando em seu nono dia de fuga.
Zacarias chegou perto de mim com uma caneca de café, que me passou, dizendo:
-Em vez de ficar alimentando o sentimento do medo, alimente o sentimento da esperança!
Eu tenho fé em Deus que eles já avistaram o seu primeiro abrigo!
Tem que dar certo!
Deus não ia permitir que os seus trabalhadores traçassem um mapa para ser jogado fora.
Peço ao Senhor governador deste mundo que eu tenha compreendido direito o que eles me instruíram, e que você também tenha passado direito o que eu lhe comuniquei.
Meu medo é que tenhamos falhado, já que nunca repassamos as coisas como as ouvimos.
Mas Deus queira que pelo menos os detalhes necessários para tirá-los dessa terra tenham sido repassados correctamente.
Venha tomar o seu café, que daqui a pouco você terá de sair!
Os deuses estão do nosso lado.
Imagine que o feitor da noite veio me pedir um remédio para a mulher dele!
E este remédio é feito com lama do fundo rio; então, você terá de ir até o rio!
-Meu Deus! Eu estou sofrendo tanto quanto eles!
Não existe coisa pior do que o medo e a incerteza! -eu disse.
O feitor se aproximou de mim e falou:
-Miguel, eu já acertei com o Zacarias, você deve ir buscar esta lama do rio e voltar voando!
Pois a minha mulher está agonizando de dor.
Sim, senhor, voltarei logo.
Zacarias, chegando mais perto de mim, falou baixinho:
-Corra até lá e verifique se tudo saiu como previmos.
Cuidado com as pegadas no chão, e veja se não tem outros vestígios deixados pelos caminhos.
-Zacarias eu juro que nunca pensei em ver as coisas que estou vendo acontecer neste mundo!
Começo a ter medo da vida.
Antes eu tinha revolta, hoje sinto é medo!
O filho da sinhá sendo criado na senzala, passando-se por escravo, António se aventurando com Anita por aí...
Só Deus pode ter pena de nós.
É, filho, cada um veio a este mundo com um destino a ser cumprido.
Seja feita a vontade Dele, pois a nossa vontade não é a Dele e nós temos que obedecer às leis do nosso destino.
Procure fazer tudo com muito amor e carinho, e o resto é Deus quem resolve.
Zacarias me entregou um pote de barro com tampa, no qual eu deveria trazer a lama colhida no rio.
Fiquei curioso e perguntei:
-Que doença é essa que se cura com lama, Zacarias?
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 15, 2016 9:43 am

Sério, o negro velho respondeu:
-É bom que você se interesse mesmo em saber, porque tenho ordens para lhe ensinar a preparar remédios para atender a fazenda e a senzala, e inclusive aplicar nos doentes.
Essa lama é para ser misturada com raiz de guiné e óleo de peixe.
Ela tira a dor das veias inflamadas que causam a febre na mulher do feitor.
A raiz da guiné é uma anestesia, o óleo de peixe desinflama.
Também vou preparar algo para que ela tome junto com a lama.
Em três dias, se Deus quiser, ela estará andando e sem febre.
Faça de suas pernas asas e saia voando, para ter tempo de ver o que nos interessa!
A esta altura os nossos deuses já estão colocando aqueles dois no caminho dos seus novos destinos!
Na nossa situação o que mais importa é manter-nos vivos, mesmo que separados das pessoas a quem amamos -falou Zacarias com o olhar distante.
Antes de deixar a senzala, ele me recomendou:
-Atravesse o rio, vá até o esconderijo e verifique de perto se eles não deixaram vestígios.
Pegue este fumo e esse mel, e coloque do outro lado do rio, embaixo da árvore mais bonita que houver por lá; é presente meu para os encantados da mata, que eles continuem nos ajudando!
Faça isso com todo cuidado, do jeito que você aprendeu.
Saí matutando no nosso destino como escravos:
os feitores incentivavam os escravos a fumarem, isso já era estratégia criada pelos senhores de escravos.
Uma vez que os negros adquiriam o vício, ficavam presos às vontades deles.
Os negros só podiam fumar os seus pitos de barro ou feitos de bambu, milho, etc., ou os conhecidos cigarros de palha de milho, na frente dos feitores.
E muitas vezes, como castigo, eles racionavam a quantidade de fumo dos negros, que acabavam multiplicando suas tarefas braçais em troca de um pedaço de fumo.
Todos os negros fumavam.
As negras trabalhadoras da casa-grande recebiam como prémio o direito de correr lá nos oitões da casa e pitar o seu cachimbo ou o seu cigarro de palha.
À noite, quando éramos recolhidos na senzala, sentávamos em círculo e sob os olhos dos feitores fumávamos nossos cigarros, e ali trocávamos palavras e olhares.
Os feitores alegavam que não podíamos andar com nada que activasse fogo, porque o diabo dominava o fogo e os negros podiam tocar fogo nas fazendas do senhor; então, isso era lei até nos escritos dos brancos.
Nunca fiquei sabendo se isso era real, se houve mesmo isso escrito no papel ou se foram apenas leis criadas pelas fazendas dos senhores, que os negros não podiam portar nada que provocasse fogo.
Assim, cheguei ao meu destino.
Verifiquei tudo; nem parecia que alguém havia passado por ali.
O vento tratou de apagar até o cheiro deles.
Fiz o que tinha que fazer e voltei com o que me foi pedido.
Zacarias ficou feliz com a notícia de que tudo saiu bem.
Voltei às minhas tarefas:
fui cuidar dos arreios, colocar cunhas nas enxadas, amolar os machados e facões.
Enfim, me envolvi tanto no trabalho que só me dei conta do tempo quando ouvi o trotar de um cavalo se aproximando do celeiro.
Levantei os olhos e senti o sangue fugindo do meu rosto: era o senhor!
Chegando perto de mim, chamou-me pelo nome:
-Negro Miguel?
De cabeça baixa, levantei os olhos e respondi, tremendo:
-Sim, senhor...
-Vá lá no barracão e pegue sua mochila, você vem com o feitor!
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 15, 2016 9:43 am

Ande logo, que o feitor já está do outro lado esperando para seguir.
Larguei o que estava fazendo.
Zacarias não estava no barracão; deixei o recado com Benedito, que não sabia o que estava acontecendo.
Não deu tempo de esperá-lo. Eu iria para a outra fazenda do senhor, tranquilo porque sabia que a avó Joana estava por lá.
Benedito me ajudou a colocar meus poucos apetrechos na mochila e me recomendou:
-Diga a Joana que as coisas por aqui vão indo.
Tome cuidado, filho, com o que fala com o feitor.
As vezes uma só palavra e perdemos nossa vida, cuidado!
No caminho, o feitor me fez várias perguntas; queria saber do comportamento dos outros feitores.
Fingi não entender e não respondi com as palavras que ele queria ouvir.
Dei graças a Deus quando avistei a fazenda, pois já estava tenso e nervoso com tantas perguntas do feitor.
Assim que descemos um negro foi instruído para me levar ao barracão, que eu já conhecia tão bem!
Foi uma sensação maravilhosa voltar para a casa onde cresci!
Justino, um negro simpático e bom sujeito, foi logo me dizendo:
-Quem vai ficar contente é a negra Joana!
Ela fala muito em você.
Também ela o criou, não foi?
-E verdade, ela me criou!
Já passei poucas e boas nesta vida, e se não fosse por ela ainda teria sido pior!
Falando baixo, ele me contou:
-Miguel, correm boatos por aí de que o senhor vendeu esta fazenda para um outro senhor que vem do estrangeiro!
Se de facto é verdade, não sabemos ainda.
A sinhá, tão boa que ela era connosco, praticamente hoje vive no mundo da lua.
Não se importa mais com nada!
Dizem que ele vai levá-la de volta para a família e também ficará por lá.
O medo é que pode vir outro pior, não é? Esse é estranho e louco!
Mas pelo menos não nos maltrata tanto!
E não vendeu ninguém, desde que chegou.
A única coisa estranha, e que talvez você não saiba, é que dois negros novos -um até parecia muito com o António -se mataram depois que começaram a andar com o senhor.
Ele obrigava os negros a ficarem com ele dia e noite.
Eles foram proibidos de falarem com os outros negros.
Uma bela manhã, olha o negro pendurado numa corda!
Já foram dois que se mataram!
E tem gente que desconfia que o António e a Anita também se mataram.
Mas o que intriga a gente por aqui é o sumiço do filho da sinhá!
Miguel, a sinhá estava grávida, nós vimos a sua barriga...
De repente, ela deu à luz e ninguém sabe da criança?
Não é estranho?
-Muito estranho! -Respondi.
-Você sabe por que o senhor me trouxe? -Perguntei.
-Sinceramente, não!
Deus o livre que seja para andar com ele!
Porque quem anda com ele desaparece ou se mata, e nós não conseguimos ainda descobrir qual é o mistério!
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 15, 2016 9:44 am

Senti um arrepio percorrer o meu corpo. Deus me livre dessa desgraça!
Eu posso até morrer, sim, mas antes dou fim à vida daquele abutre!, pensei.
O feitor veio me buscar e disse:
-Venha acender o fogo para negra Joana colocar o tacho de remédios.
Ela vai gostar de ver você, e como já é quase noite, você fica ajudando Joana nos remédios.
Amanhã cedo a sua tarefa será amansar as mulas para as lavouras, e os cavalos para os feitores.
Respirando aliviado e quase alegre, respondi:
-Sim, senhor! Com muito gosto!
Eu adoro amansar cavalos!
-E, negro Miguel, sua fama como amansador de cavalos tem que ser reconhecida.
Os melhores animais que existem nestas fazendas, tanto para a sela quanto para a cangalha, foram amansados por você.
Você é um negro que dá lucro para o nosso sinhozinho, além de ter outras qualidades.
É o melhor amansador de cavalos da região.
E nessa "leva" de cavalos, tem um que vai ser meu; quero que você capriche na atenção com ele!
Sim, senhor! Vou me empenhar para que o seu cavalo fique do seu gosto.
Saí quase pulando de alegria!
Graças a Deus que o senhor queria mesmo era o meu trabalho.
Mas esse assunto de ir embora seria verdade? Logo mais eu saberia, através da avó Joana.
Não demorou muito e avistei a minha querida avó Joana!
Tive vontade de sair correndo e suspendê-la no colo, mas nós não tínhamos o direito de expressar nossos sentimentos de amor na frente dos nossos senhores.
Esperei que ela chegasse perto de mim, então me ajoelhei e tomei sua bênção; senti um nó na garganta!
Aquela negra velha era uma santa que colocava ordem entre negros e brancos.
Até os senhores a respeitavam!
Ela tinha algo que impunha respeito.
-Miguel, meu filho, que bom que você veio!
Vamos sentar ali perto do fogo.
Enquanto eu amasso estas ervas, você vai cortando aquelas raízes e me contando como é que estão as coisas por lá!
Por aqui, meu filho, as coisas não vão nada bem!
Somente Nosso Senhor, que está acima de nós, pode ter misericórdia e acabar com este sofrimento.
Relatei tudo o que estava acontecendo:
falei do filho da sinhá, que ficava cada dia mais lindo, e dos dois fugitivos que tinham seguido seu caminho.
E que não tivemos mais nenhuma notícia de negros mortos e nem capturados.
Fiquei sabendo que o senhor havia comprado um negro e que ele se enforcou bem em frente da casa.
Logo em seguida, ele comprou outro negro, que acabou cortando os pulsos.
O que morreu enforcado era a cara do António; quem não olhasse bem podia até confundir um com o outro, foi o que me disseram.
A sinhá estava bem de saúde, mas não conversava com ninguém.
Era como se nada mais existisse pra ela.
Vivia por viver, e não era doença física, era doença da alma.
Perguntei sobre a história da venda da fazenda e ela me confirmou:
-É, filho, parece que não é brincadeira, não!
Dizem que esta fazenda foi vendida para um novo senhor, que vem lá do estrangeiro e que é parente da sinhá!
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 15, 2016 9:44 am

Vamos rezar para que este novo senhor traga um pouco de ajuda e de paz para nós.
Os negros estão sem roupas e sem calçados, as dificuldades chegam todas de uma vez.
A sinhá, que era tão boa com os escravos, caiu nesta desgraça.
O nosso antigo senhor, com todos os defeitos dele, está fazendo falta.
O filho é bem diferente, nunca sabemos do que ele é capaz.
E nós sabemos o motivo de esses negros terem se matado! O safado fez com eles a mesma coisa que fez com o António!
E acho que ele vai embora, porque já causou suspeita entre os outros senhores.
Fiquei mais de um mês sem ter notícias da outra fazenda.
Eu e a avó Joana ficávamos todas as noites rezando e pedindo a Deus que olhasse por nós.
Avó Joana conversou directamente com o senhor.
Disse a ele que precisava de ervas, e que o feitor deveria me levar para colhê-las, pois estavam acabando.
E também que precisava de lama do rio e algumas raízes específicas.
O senhor autorizou que o feitor me levasse até a outra fazenda, e que me esperasse apanhar as ervas.
Deveríamos estar de volta no fim da tarde.
No outro dia, logo cedo, antes do sol nascer, lá estávamos nós pela estrada que nos levava a outra fazenda.
Chegamos na hora do café dos negros.
Enquanto tomávamos café, Zacarias me disse que tudo estava tranquilo.
Ninguém ficou sabendo mais nada do paradeiro dos dois fugitivos.
E acrescentou:
-Fizemos nossa parte e com certeza Deus está fazendo a Dele!
Trocamos algumas informações e nos despedimos, mais aliviados pelas informações trocadas.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 15, 2016 9:44 am

Capítulo V - Saindo da tormenta
De vez em quando, a sinhá andava pelo jardim enrolada num xale preto.
Eu ficava fazendo o meu trabalho, mas também prestava atenção nela.
A coitada parecia uma velha:
não se cuidava, nem lembrava mais aquela moça bonita que chegara à casa do senhor.
Uma tarde, num desses passeios, ela se aproximou de mim e ficou me olhando; depois de alguns minutos, falou:
-Você é Miguel?
-Sim, minha sinhá, eu sou Miguel.
-Você é amigo do António, não é?
Ele me contou!
Por favor, me fale alguma coisa!
-Sinhá, a senhora me perdoe o pedido que vou lhe fazer:
fale baixo que os feitores podem ouvir!
Como se despertasse de um sono profundo, ela avivou o olhar e chegou mais perto de mim, quase implorando nas palavras:
-Pelo amor de Deus, me fale alguma coisa...
_ O seu filho está vivo, sinhá!
António e Anita também!
E a senhora precisa ficar boa, reaja!
O seu sofrimento não é maior do que o meu, por isso eu estou aqui para ajudá-la.
-Miguel, você não está mentindo para mim?
A sinhá limpou o suor do rosto.
-Não, senhora! Veja se a senhora consegue ir até a outra fazenda; lá, eu lhe prometo que saberá mais do seu filho.
-Amanhã mesmo eu vou sair desta fazenda!
Você me prometeu e vai cumprir com a sua palavra, não é verdade, Miguel?
-Sim, senhora, vou cumprir.
A sinhá afastou-se rápido, saiu quase correndo, e o feitor, desconfiado, chegou perto de mim e me perguntou:
-Miguel que milagre você fez para soltar a língua da sinhá?
Eu estava longe, mais vi que ela falava com você.
O que ela falou?
-Perguntou-me se eu poderia amansar um cavalo para ela, que estava com saudades de cavalgar! -respondi.
-Coitada! Está mesmo doidinha!
Mas só o facto de ela falar já foi uma coisa boa.
Não comente com ninguém que ela falou com você, está bem?
Vamos aguardar; se ela voltar a falar, aí sim eu devo comunicar ao senhor, que decerto vai ficar contente.
O feitor se afastou, e eu fiquei rindo sozinho e pensando:
Acho que o louco aqui é outro!
Tomara Deus faça com que ela reaja e tome a decisão de ir para a outra fazenda, e o senhor aceite o pedido dela, que pense que ela está louca mesmo!
No outro dia, avó Joana piscou para mim e fingiu que me dava uma bronca:
-Negro Miguel, você ultimamente anda muito sossegado!
Vá na mata e me traga um pingo de cada coisa!
Vou ter que pedir novamente ao senhor para que você possa ir colher folhas, cascas e raízes, mas desta vez leve um saco e traga cheio!
Está ficando preguiçoso, Miguel?
-Mas, avó Joana, é que o tempo não está propício para colheita!
As folhas estão escassas, não é época boa de colheita.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 15, 2016 9:44 am

O mesmo tempo que eu gasto na mata quando encho dois sacos de folhas, gasto nesta época e não colho a metade!
-Bom, isso é verdade.
O tempo não é bom, estamos no que chamam de outono.
Mesmo assim, abra o olho e preste atenção: quando as coisas estão ruins é que devemos fazer o melhor!
Entendeu, Miguel?
-Sim, senhora. Eu entendi.
Ela foi até o feitor e disse:
-Ah! Senhor Pedro!
Eu preciso preparar algumas pomadas, e também acabaram as folhas que coloco no querosene para matar bicho de pé!
O senhor pode conversar com nosso sinhozinho, ou me leva para que eu mesma converse com ele?
-Olha aqui, avó Joana, cá entre nós, eu acho que nem vai precisar a senhora pedir, porque o senhor vai mandá-la mesmo de volta pra fazenda, acompanhando a sinhá, que cismou em falar e a primeira coisa que pediu foi:
"quero ir para a outra fazenda!"
O senhor já ordenou:
ela irá para lá por uns dias, e a senhora irá junto.
-E o Miguel? -perguntou avó Joana.
-Isso eu não sei não -respondeu ele, enrolando um cigarro na palma da mão.
-Quem vai correr e subir nas árvores a não ser Miguel?
Como vou preparar remédios sem ter o que preciso?
Temos lá o Zacarias, mas o coitado não tem mais pernas nem para andar, que dirá subir nas árvores!
-É verdade, vó Joana, isso tem que ser lembrado ao senhor.
Se ele me permitir eu vou dar uma sugestão:
Zacarias volta pra cá, só para aplicar os remédios e reconhecer as doenças, e a senhora leva Miguel para ajudá-la fornecendo tudo o que vamos precisar por aqui.
Logo virá o inverno e junto as desgraceiras das doenças; vou lembrar isso ao nosso senhor.
-É, filho, vamos pensar antes dos acontecimentos! -respondeu avó Joana.
Naquela tarde, voltamos para a fazenda nova, como era chamada, e a sinhá foi junto.
Quando descemos e abrimos a porta da carruagem, à sinhá nem esperou para ser ajudada: pulou no chão e ficou olhando à sua volta.
Zacarias a observava de longe.
Notei que ele colocou a mão no coração; vi que Maria do Céu estava com os dois meninos no colo, e também ficou pasma com os garotos nos braços.
Os meninos estavam lindos!
Avó Joana foi até Maria do Céu, pegou o filho da sinhá no colo e beijou o outro, dizendo:
-Meu Deus, como estes meninos cresceram!
Parece que foi ontem que os deixei, e olhem só como estão fortes e pesados!
A sinhá chegou perto e ficou olhando para os meninos.
De repente, o filho dela esticou os bracinhos, pedindo colo.
Desajeitada, ela pegou o garoto, sem se importar com o feitor, que a olhava desaprovando o gesto.
Eu arrumava os arreios e ouvi o que ele disse para o outro companheiro:
-Graças a Deus o sinhozinho não está aqui!
Coitada, ela está louca mesmo!
Vamos recomendar a avó Joana que não facilite certas coisas; se isso cair nos ouvidos do senhor até para nós vai sobrar!
O outro, que tinha mais idade, respondeu:
-Será que um dia esse sofrimento todo vai acabar também para nós?
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 15, 2016 9:44 am

Eu ultimamente há noites que nem durmo!
Você sabe como é, temos filhos por aí.
Fico pensando nos coitados que não tiveram culpa nenhuma de terem nascido.
Tornam-se escravos, apanham na nossa frente e muitas vezes somos obrigados a matar nossos filhos nos troncos.
A semana passada, quando eu fui fazer as compras na cidade, fiquei sabendo de um caso que me deixou abalado.
-Que caso? -perguntou o outro feitor.
-Lembra-se do Zarolho?
Dizem que ele está igual a nossa sinhá!
-O que houve com ele?
-Em nosso trabalho, temos que aplicar o que se faz necessário para o senhor.
Zarolho teve que colocar um dos filhos dele no tronco e chicotear!
O negro ficou sem água, embaixo do sol quente; ordens do senhor. Quando foram verificar, estava morto!
Era um dos filhos do Zarolho com uma negra da fazenda do senhor.
-Santo Deus!
Agora você me deixou com o coração na mão!
Eu tenho dois filhos escravos.
São pequenos ainda.
Não sei se conseguiria fazer isso com eles!
-Os meus já são crescidos, e sei que estamos para receber um novo senhor como dono dessas fazendas.
Nem sabemos se vamos continuar com o nosso trabalho; e o que será desses pobres coitados?
-Olha, eu ouvi dizer que os filhos dos feitores Zé Pereira e Tonho da Barra fugiram, e as conversas que já andam de boca em boca é que os feitores estão facilitando a fuga dos filhos!
-Sinceramente?
Vai chegar o dia em que nós teremos que fazer isso mesmo!
Pense bem: entre matar o seu filho e ajudá-lo a fugir, o que você faria?
Pelo menos eles terão uma chance de sobreviver!
Veja o caso do António e sua companheira: até agora, nem sinal deles.
Os negros estão se reunindo em quilombos.
Dizem que estão se fortalecendo, e que já existem homens brancos como nós engajados em projectos para libertar os negros; e que em outros países os negros já são livres, então, por que não no Brasil também?
Eu só sei que ultimamente ando pensando muito na minha vida, e ver pessoas que têm o meu sangue sendo massacradas na minha frente...
Dói, dói muito!
Os dois ficaram em silêncio, e percebi que o feitor de meia-idade chorava.
Meu Deus! A gente se envolve tanto com os nossos sofrimentos e nem percebe que outros também sofrem, independente de serem brancos ou negros.
E a coisa está ficando séria!, pensei.
Antigamente não havia tantos filhos de brancos com negros; agora, o que mais havia eram filhos de brancos com negros!
Os brancos de coração já sofriam pelo sangue que corria nas veias dos seus filhos mulatos.
Começavam as fugas em massa, e o que se ouvia aqui e acolá eram as notícias dos quilombos, os próprios feitores estavam facilitando a fuga dos filhos escravos, e a guerra entre os brancos começava.
A sinhá embalava o mulatinho nos braços e ele sorria e pulava!
Meu Deus, é o filho dela...
Eu havia prometido à sinhá que ela saberia do filho, e nem precisei fazer isso, pois os dois estavam bem na minha frente, sorrindo um para o outro.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 15, 2016 9:45 am

Ela entregou a criança para Maria do Céu, que estava perturbada com a reacção do pequeno.
Ele chorava e estirava os braços em direcção da sua verdadeira mãe.
Avó Joana observava tudo; vi que ela disfarçava, mas tinha os olhos cheios de água.
Zacarias tremia os lábios fingindo que socava algo no pilão.
A sinhá entrou na casa-grande, e eu dei graças a Deus.
Todos os feitores e escravos a observavam de longe.
Ela de repente parecia curada!
Pouco tempo depois, eu a vi encaminhando-se para a senzala, e todas as crianças estavam à sua volta.
Uma negra velha costureira das nossas poucas roupas tirava medida do tamanho delas, e também dos pés.
O feitor Ambrósio comentou:
-Graças a Deus terei botas novas antes do inverno!
E a negrada terá o corpo coberto e os pés calçados.
Às vezes os senhores querem economizar e acabam perdendo, e muito!
Não calçam os negros e eles ficam doentes!
É bicho de pé, é frieira, vermes, cortam-se!
É muito mais barato pra eles cuidar bem dos pobres infelizes, você não acha?
O outro companheiro concordou, e acrescentou:
-E nós também temos menos trabalho quando eles estão satisfeitos.
Naquela noite, a lua iluminava o terreiro da fazenda.
Contentes, os negros cantavam e rodopiavam no terreiro da casa grande, naturalmente sob a mira dos feitores, que adoravam ver as negras requebrando os quadris.
Apesar de muito sofrimento aplicado pelos senhores feitores, pois era a profissão deles, os negros deviam-lhes os seus momentos de diversão.
Eles convenciam os senhores a deixar os negros dançarem, alegando que ficavam mais calmos e atentos quando se divertiam à noite; mas no fundo os feitores queriam mesmo era ver as negras pulando e mostrando suas formas.
Enquanto dançávamos, ouvimos a música da sinhá; e fez-se um silêncio geral.
Uma música caindo como um doce em nossos corações.
Uma música triste e ao mesmo tempo linda!
Ficamos ali em silêncio, ouvindo as canções que mais pareciam ouro caindo do céu.
Quando o apito do feitor anunciou que era hora de irmos para nossos barracões, chegamos a lamentar o tempo que passou tão depressa.
Enquanto deixávamos o terreiro de terra batida, vimos a sinhá chegar até a janela, a luz do quarto iluminando o seu rosto.
Ela parecia um anjo.
Avó Joana chegou perto de mim e disse-me:
-Miguel, cuidado com o que você vai dizer amanhã para a nossa sinhá!
Sei que você prometeu a ela que teria notícias do filho.
-Vou lhe contar que um dos filhos de Maria do Céu é o filho dela!
-Miguel, meu filho, eu não acredito que você faria isso!
Mãe é mãe, Miguel, ela iria agarrar-se ao pequeno e o senhor descontaria no garoto o que nós tanto lutamos para escondê-lo.
-Eu não tinha pensado nisso, Vó.
Quero que a senhora pense e me diga o que fazer!
-Ela com certeza vai chamá-lo para lhe perguntar do filho, pois foi isso você prometeu!
-Não pensei no risco em que estava colocando o menino, avó Joana! -respondi.
-Calma, nós vamos encontrar uma solução.
Durma bem, amanhã será outro dia.
Fiquei deitado, pensando no que iria dizer para a sinhá.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 15, 2016 9:45 am

Avó Joana estava coberta da razão, eu não tinha me preocupado com as consequências que a verdade poderia desencadear.
Eu, sempre muito emotivo, não pensei na reacção da mãe.
Também fiquei pensando em António e Anita:
o que será que aconteceu com eles?
Onde estariam?
Santo Deus, que castigo era esse de nascer com uma cor diferente da dos outros?
Tínhamos os mesmos sentimentos, éramos seres humanos, apenas a cor nos distanciava dos considerados normais, e nada mais...
No outro dia, cedo, fui correndo ao barracão da avó Joana.
Ela estava sentada num toco de madeira, fumando o seu cachimbo.
-E então, Vó, pensou no que vamos falar?
-Que modos são esses, Miguel?
Eu por acaso dormi com você?
Primeiro me tome a bênção, eu tenho idade de ser sua mãe e avó.
Segundo, um bom dia nós devemos dar até aos animais, que dirá às pessoas, que são iguais a nós!
-Perdão, Vó, eu estou tão aflito que já comecei o meu dia fazendo besteiras!
-Vá até o fogão, pegue uma caneca de café pra tomar e sente aqui perto de mim! -disse ela tranquilamente.
Sentei-me perto dela e fiquei esperando suas sábias palavras.
-Muito bem, Miguel, logo, logo a sinhá vai procurá-lo para saber do filho.
Você dirá a ela que o António e a Anita levaram o pequeno com eles, e que ele está a salvo.
António entregou a criança para uma negra que deu à luz o filho de um feitor; o menino morreu, e o filho da sinhá ficou no lugar.
É uma verdade no meio de uma mentira necessária.
Diga também que o senhor desta fazenda é muito bom com os escravos.
-Meu Deus, avó Joana!
A senhora vive me corrigindo para não inventar mentiras, e agora me pede para falar uma tão grave!
-Miguel, mentir sem necessidade é pecado, mas mentir para defender a verdade é uma bênção!
Faça o que lhe digo, e não fique titubeando nas palavras!
Eu estava cortando umas tiras de couro para preparar os cabrestos, quando vi a sinhá vindo na minha direcção.
Não usava mais o xale preto e tinha os cabelos soltos, parecia um anjo com os cabelos ao vento.
0 senhor feitor estava a certa distância.
Ela chegou perto de mim e começou a mexer nas tiras de couro.
Fingia me perguntar sobre as peças, mas o que ela me disse foi o seguinte:
-Miguel, eu sonhei que o meu filho está nesta fazenda.
Eu quero a verdade!
Não se preocupe, eu saberei cuidar da segurança do meu filho.
Não poderei tê-lo em meus braços e nem tratá-lo como meu filho, mas poderei ajudá-lo e amá-lo a distância.
Quero ter pelo menos o direito de saber a verdade sobre ele!
-Sinhá, o seu filho está a salvo.
António confiou o garoto a uma negra escrava de uma outra fazenda.
Essa negra deu à luz um menino que morreu; então, ela colocou o seu filho no lugar.
A senhora sabe que na fazenda do sr. Porfírio os escravos vivem bem e não são vendidos, o seu filho está protegido!
-Não minta para mim, Miguel!
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 15, 2016 9:45 am

O meu filho está entre os filhos desta senzala!
Eu confiei em você e não aceitarei isso que me diz, porque na verdade eu não sonhei:
eu estava acordada e alguém me dizia:
"O seu filho está na senzala e Miguel sabe!"
O feitor se aproximou e perguntou:
-Algum problema, sinhá?
-Sim. Quero que Miguel me ajude, pretendo ir à cidade e ele pode me acompanhar.
Assim carrega o peso.
Também gostaria que o senhor me acompanhasse.
Pretendo comprar calçados e tecidos, além de outras coisas necessárias na fazenda.
Distanciei-me de tudo e estes pobres negros ficaram aí, sem que ninguém fizesse nada por eles.
-A sinhá me perdoe, mas o sinhozinho não precisa saber que a senhora vai fazer essas compras? -perguntou o feitor.
Ela tirou uma lista do bolso e estendeu a ele, dizendo:
-Por favor, vá imediatamente até o seu senhor e lhe apresente esta lista.
Traga-me autorização dele, que amanhã mesmo eu pretendo ir à cidade resolver esse problema.
O feitor pegou a lista e olhou para mim, dizendo:
-Miguel, daria para você preparar um cavalo para que eu vá até a fazenda velha?
-Sim, senhor feitor, agora mesmo se a sinhá consentir! -respondi.
-Claro, Miguel!
Vá arrumar a montaria para o feitor e depois volte ao seu trabalho.
Assim que cheguei à estrebaria, o feitor, que estava atrás de mim, me chamou baixinho.
-Miguel? Acha que a sinhá enlouqueceu ou melhorou um pouco?
O que houve?
Ela recobrou a memória ou ficou louca de vez?
-Senhor, se essa decisão dela for uma loucura, é a primeira vez que vejo um louco acertar!
Eu não tenho mais roupas e o meu calçado não tem mais sola.
Dê uma olhada nisso aqui.
Levantei a bota de couro de boi curtido.
A sola dos meus pés apareceu nos buracos.
Ele respondeu:
-É verdade, a situação por aqui está difícil.
Vou até o senhor, e seja o que Deus quiser.
Logo me vi cercado novamente pela sinhá, que me cobrava uma resposta, dizendo que não acreditava na minha história.
Eu simplesmente fiquei em silêncio.
Ela se afastou, dizendo:
-Hoje à tardinha, vou mandar trazer todas as crianças.
Você chegará perto do meu filho e me dará um sinal de quem é ele.
Fique tranquilo, Miguel, foi a decisão mais penosa que eu já tomei quando arrisquei a vida dele e de mais duas pessoas.
Sei que o meu filho está salvo, sim, e vai continuar protegido!
Mas eu quero saber quem é ele!
Quando pude me encontrar com vó Joana, contei o ocorrido, e ela balançou a cabeça dizendo:
-Santo Cristo, nós vamos ter ventos e tempestades!
Seja feita a vontade de Deus.
No fim da tarde lá estava Maria do Céu no meio das crianças com os seus gémeos.
Assim que a sinhá apontou, o garoto estirou os braços para ela e chorou.
Santo Deus, será que eu preciso mostrar quem era o filho dela?, pensei.
Fui até o garoto e o tomei nos braços.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 16, 2016 12:33 pm

Olhei para a sinhá, que esboçou um sorriso de alegria.
Num ímpeto, ela avançou até onde eu estava com o garoto, que insistia em estirar-lhe os braços.
-Deixe-me pegar este menino lindo que tanto quer vir comigo!
Percebi que ela apertava o menino junto ao peito.
Olhei para avó Joana, que também acompanhava com os olhos o encontro do filho com a mãe.
-Então, você ganhou dois filhos de uma só vez?
O senhor deve ter ficado muito feliz, não?
Não é todo dia que uma escrava tem dois rebentos de uma só vez!
Maria do Céu tremia e balançava a cabeça.
A sinhá entregou o menino e pediu para segurar o outro filho de Maria do Céu, dizendo:
-Acredito que é difícil para você me dizer de quem gosta mais!
Até eu, que não sou mãe deles, não posso dizer qual é o mais bonitinho ou de quem eu gosto mais!
Cuide bem dos seus filhos, você é uma mulher muito abençoada por Deus.
Antes de sair ela me chamou em voz alta:
-Miguel, pode me ajudar com um vaso que quero trocar de lugar?
-Sim, senhora. -Enquanto andava ao lado dela, ela me disse:
-Muito obrigada, Miguel, pelo que fez por mim.
Vocês não são escravos, são anjos que Deus colocou em minha vida.
Fique tranquilo e procure tranquilizar a negra velha Joana.
Não vou prejudicar o meu filho, mas lutarei para ficar perto dele.
Não irei embora com o meu marido, ficarei nesta fazenda e vou ajudar vocês.
Meu filho mora na senzala e essa fazenda é dele, pois o dinheiro que foi pago por ela veio da minha família.
O feitor voltou, acompanhado do senhor.
Gelei quando os vi entrando na varanda da casa-grande.
O senhor entrou na casa e nós corremos a riscar o chão e, pisando em cima, invocávamos ajuda dos nossos deuses para a sinhá.
Depois de muito tempo, o senhor deixava a casa e chamava pelos feitores.
Conversaram algum tempo, e logo após ele montou seu belo animal.
Eu havia amansado aquele alazão negro.
Nós fomos chamados e avisados que iríamos receber roupas e calçados novos, e que todos deveriam comportar-se da melhor forma possível.
Na ausência do senhor quem mandaria ali era a sinhá.
Ficamos pulando de alegria!
Ouvi até uma negra dizendo baixinho:
-Tomara que ele não volte nunca mais!
Fomos à cidade no outro dia.
Enquanto a sinhá fazia as compras e eu aguardava embaixo das árvores, em frente das lojas, encontrei outros negros, que também esperavam suas senhoras.
Um deles, de nome Numi, me disse:
-Vê aquela casa ali com flores penduradas na janela?
É de uma mulher que aluga as escravas dela para os homens.
Ela só compra escrava bonita, e depois coloca a mulher para servir feitores, senhores e até os escravos livres e que têm dinheiro.
Eu mesmo tenho uma irmã que ela comprou do meu senhor, e ela aluga a coitada para os homens que vão buscar mulher.
Encontrei minha irmã só umas três vezes depois que ela foi vendida para aquela casa.
Dizem que essa mulher compra escravos homens também, para ajudar lá dentro, nos serviços.
Eu até pedi para minha irmã me recomendar, quem sabe ela um dia queira me comprar!
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 16, 2016 12:33 pm

Segundo a minha irmã, será muito difícil, ela não junta escravos que são parentes.
Lembrei-me que ouvi falar que a ex-dama da sinhá estava na cidade fazendo isso.
Arrisquei e perguntei:
-E como é essa mulher? Você já a viu?
-Não, eu nunca a vi, mas a minha irmã disse que ela é do estrangeiro e que foi expulsa de uma fazenda; comprou uma casa e abriu esse negócio de alugar escravas para os homens se divertirem.
-Eu queria muito ver essa mulher! -falei em voz alta.
-Ficou louco?
Se você chegar lá sem dinheiro e sem a carta de alforria, ela manda entregá-lo aos caçadores de negros, e aí você vai ver o que é ser negro!
-Ela não aparece na janela?
-Nunca vi.
Acho que só quem vir a cara dela é quem poderá entrar lá -respondeu ele.
Fiquei de olhos pregados nas janelas encobertas por vasos de flores, as cortinas fechadas.
Não víamos nada.
Algo me dizia que aquela casa era da ex-dama da sinhá.
No fim da tarde, um carro de boi estava lotado de compras e seguíamos para a fazenda.
Eu fui matutando de cabeça baixa.
A sinhá, no meio do caminho, colocou a cabeça para fora da janela e me perguntou:
-Miguel, o que você tem?
Está se sentindo bem?
-Sim, minha sinhá, eu estou bem -respondi.
A imagem da casa não saía da minha cabeça.
Quando chegamos à fazenda, a luz da lua já clareava o terreiro onde os negros brincavam.
Todos vieram nos ajudar a descarregar.
A sinhá nos alertou que só no outro dia iria distribuir o que trouxe.
Tínhamos feito mesmo uma longa viagem.
Contei para avó Joana sobre a tal casa de mulheres de aluguel.
Ela me disse que poderia ser da ex-dama da sinhá, e que eu não deveria comentar com mais ninguém, especialmente para não chegar ao ouvido da nossa sinhá.
No outro dia cedo, a sinhá estava de pé e deu ordem para os feitores fazerem filas com todos os escravos.
Pediu ajuda para alguns escravos, e no meio deles estava eu.
Começamos e entrega dos calçados, lençóis e toalhas de banho de saco alvejado, e as roupas iriam ser feitas pelas nossas negras velhas costureiras, que tiravam medidas de todos.
Quando terminou a entrega dos adultos, que saíram para suas ocupações, a sinhá dispensou os feitores, dizendo que bastaria ficarem alguns negros para ajudá-la com as crianças.
Estas se aglomeravam pelos cantos do terreiro, ansiosas e curiosas sobre o que iriam ganhar.
A sinhá começou a abrir os sacos, e avó Joana ia chamando pelo nome as crianças, que se apresentavam encolhidas e acanhadas perto da sinhá.
Ela deu roupas, calçados, lençóis, toalhas e bonecas de pano para as meninas, e peão com ponteiro para todos os meninos.
Distribuiu doces para todas as crianças, que saíam pulando de alegria e contentamento.
Maria do Céu estava com dois meninos no colo; eles lambiam o doce babando na roupinha.
A sinhá se levantou e pegou o filho no colo, sem se importar com a sujeira.
-Maria do Céu, como é o nome desse menino tão especial?
E, é claro, o nome do irmãozinho dele?
Ela olhou para mim como se pedisse socorro, e em seguida respondeu:
-Sinhá, eles ainda não têm nomes, era o senhor quem dava nomes para todas as crianças quando nasciam.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 16, 2016 12:33 pm

Os que nasceram depois que ele foi embora continuam sem nomes.
-Pois bem, Maria do Céu, então eu darei os nomes a todas as crianças.
Onde já se viu alguém não ter um nome?
Avó Joana! Chamou a sinhá.
-Sim, senhora minha sinhá, pode falar! -respondeu avó Joana.
-No fim da tarde, eu quero todas as crianças que não foram baptizadas e as que não receberam um nome.
Vamos resolver isso hoje à tarde.
Vão brincar, crianças!
E você, Maria do Céu, vá cuidar dos seus filhos!
Saiu em passos firmes.
Parecia outra sinhá; estava rosada, e muito decidida.
O que será que ela conversou com o senhor que ele não voltou mais para aborrecê-la, e nem para proibi-la de fazer o que estava fazendo?
A sinhá não demonstrava mais medo dele, e afirmou que não iria embora da fazenda.
Naquela tarde, algumas mulheres estavam acocoradas com os filhos entre as pernas, esperando o que sinhá poderia fazer por eles.
E ela fez:
deu nome aos que não existiam, e chamou o feitor mais velho da fazenda e mandou que ele combinasse com o padre para vir rezar uma missa na capela da fazenda e baptizar as crianças.
O clima começava a melhorar entre nós.
O nosso medo é que o senhor, achando que ela estivesse louca, quisesse levá-la à força.
Uma manhã, eu preparava remédios para os animais, e avistei o senhor chegando, montado em seu alazão preto.
Ele desceu e, sem olhar na minha cara, disse:
-Cuide do meu cavalo!
Peguei as rédeas do alazão, que era meu amigo.
Fui eu quem o amansou, e os animais guardam carinho ou mágoa pelas pessoas que trataram deles.
Ele me lambeu, e eu sorri, dizendo:
-Ah! Você é meu amigo!
Também tem a minha cor!
Embora você tenha mais sorte do que eu!
Pensando bem, acho que a nossa sorte é a mesma!
Vamos lá, deixe-me ver estes cascos.
Vou cuidar para ficar melhor!
O senhor entrou na casa-grande, e já era hora do almoço.
Vi as negras correndo; fui até a cozinha pelo lado de fora e perguntei baixinho para uma cozinheira amiga:
-Ele vai comer hoje aqui?
-Vai! Ah!
Se a gente pudesse espremer o veneno de uma cascavel no prato dele! -disse ela com raiva.
A outra respondeu, brava:
-Cala a boca, Irene!
Olha os castigos de Deus, mulher!
E você, Miguel, já ganhou a carta de alforria?
Com o senhor em casa e você aqui como se fosse um de gola branca?
Escafeda-se daqui!
Era só o que me faltava ter que ficar ouvindo besteiras de um negro desocupado!
-Calma! Eu só passei por aqui para ver como vocês estavam e se precisam de alguma coisa!
Estou indo para a senzala que pra comer, eu também sou filho de Deus!
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Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 16, 2016 12:33 pm

-Vá, vá! Os outros já estão comendo, está tudo bem por aqui.
Desculpe, meu filho, às vezes eu não penso para abrir a boca!
A gente despeja o que sente em cima dos inocentes -disse ela, sorrindo.
No meio da tarde vi o senhor deixando a varanda.
Larguei as ferramentas que estava cuidando e vim para servir ao senhor.
Ele gritou lá da varanda:
-Apronte o meu cavalo, negro Miguel, e depois vá pegar uma pomada daquelas que curam coceiras das plantas!
Corri a aprontar o alazão, e fui buscar a pomada do senhor.
A avó Joana disse em voz alta:
-O que será que o senhor está aprontando desta vez?
Dá medo de pensar nas coisas que pessoas como o sinhozinho são capazes de fazer!
Acho que ele vai embora logo, logo...
Mas o que fará com a sinhá?
O senhor montou o alazão e saiu.
O pó da estrada deixado pelas patas do cavalo chegava até onde eu estava.
Meu Deus! O que será que ele e a sinhá conversaram trancados tanto tempo?
O sol já se escondia no céu; os escravos voltavam dos campos.
Corríamos para retirar as cargas dos animais, colocar remédios nas feridas, e ajudar em outras tarefas.
Estávamos reunidos em uma roda, comendo e brincando.
Então o feitor se aproximou, e todos se calaram.
-Negrada! Amanhã, no fim da tarde, os nossos senhores querem fazer um comunicado importante!
É bom que estejam todos presentes e não se atrasem!
Podem continuar com a comida de vocês.
-O que será? -falou um dos irmãos em voz alta.
-Miguel! Você, que fica na casa-grande, nunca sabe de nada! -reclamou.
Essas mulheres escutam mais que o vento!
Garanto que elas sabem coisas do outro mundo, e você está aqui de boca aberta, sem saber nada?
Zacarias chamou a atenção dele:
-Quer ficar sem a língua, rapaz?
Quem é que pode ser adivinho aqui, menino?
Nós não ficamos grudados na casa-grande, e nem sempre as negras podem ouvir o que conversam os senhores!
O nosso sinhozinho passou o dia hoje dentro da casa-grande, e só Deus sabe o que ele combinou com a sinhá.
Só vamos ficar conhecendo amanhã, é bom vocês rezarem!
Os ventos andam muito calmos por aqui, e a gente deve ficar com medo das tempestades que podem se formar!
Naquela noite, não dormi direito.
Não via a hora de chegar o dia para que a gente ficasse sabendo do que se tratava a chamada dos escravos.
No outro dia, à tarde, lá vinha o senhor, acompanhado de dois feitores da fazenda nova.
Não demorou muito ele aparecia acompanhado da sinhá.
Ela parecia outra pessoa, rosada e altiva ao lado dele.
O senhor sentou-se na cadeira de balanço e deu ordem para os feitores que aproximassem os escravos do terreiro.
Ficamos sem respirar, o silêncio era geral.
Todos vocês aqui me pertencem.
Eu, como o senhor de vocês, tenho a comunicar o seguinte: vou fazer uma viagem deixando as fazendas a cargo do meu administrador e da minha esposa, que, com a graça de Deus, parece ter se recuperado.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 16, 2016 12:34 pm

E é exactamente este o motivo de não levá-la!
Ela pode se cansar no caminho e ter uma recaída.
Minha demora é pouca, em pouco tempo estarei de volta.
O meu administrador e sua família estão se transferindo para esta fazenda, e cuidará de tudo o que se fizer necessário.
Ele fez uma pequena pausa, e continuou:
-Dei ordens para o administrador tomar qualquer providência que se fizer necessária a respeito dos envolvimentos dos meus escravos com a indisciplina aqui nesta fazenda.
Não pensem que abandonei o caso dos fugitivos!
Assim que eles forem descobertos, e serão, virão acertar contas neste terreiro na frente de vocês!
Não ousem desobedecer às ordens do meu administrador, ele será o senhor de vocês até a minha volta; pois, além de ser meu tio, confio plenamente nele e em sua esposa.
Amanhã, logo cedo, ele deve chegar com a família, e todos devem acatar as suas ordens e determinações.
Pondo-se de pé, ele acrescentou:
-A sinhá fez uma grande compra de roupas e calçados, além de outros bens para a fazenda.
Espero que zelem pelo que receberam, isso é para durar!
Os feitores obedeçam às ordens do administrador, que na minha ausência é quem vai tomar decisões.
Quanto a vocês, escravos, voltem às suas obrigações.
Assim, ele nos dispensou.
Cada um tinha uma opinião diferente.
A verdade é que nenhum de nós sabia o que estava por vir.
Na boca da noite (por volta das sete horas), nos reunimos e, mesmo diante dos olhos e ouvidos dos feitores, trocamos ideias a respeito da vinda do tio do nosso senhor.
Ninguém sabia quem era esse tio.
Engraçado...
Se ele era da família do nosso antigo senhor ou da nossa velha sinhá, como é que nunca havia aparecido para visitar os parentes?
Teria chegado recentemente?
As perguntas eram muitas, e as respostas não tínhamos!
Avó Joana, que tinha liberdade de conversar com os nossos feitores, foi até o senhor Ambrósio e perguntou:
-O senhor conhece esse novo senhor?
O feitor, enrolando um cigarro na palma da mão, respondeu:
-Sinceramente?
Eu nem sabia que o senhor tinha outros parentes por aqui!
Nunca ouvi o senhor velho e nem a sua esposa comentarem sobre família, nem visitar ou receber visitas deles!
Cá entre nós, vó Joana, eu acho que esse novo administrador não é parente coisa nenhuma!
Isso deve ter outro fundo de verdade!
Ele pode ser amigo desse senhor, e eu posso até conhecer essa pessoa.
Vamos aguardar para sabermos quem é!
-E vamos rezar a Deus, sr. Ambrósio, não sabemos que destino esse novo senhor pode nos trazer!
E sabe mais o quê?
Eu não entendi por que ele não levou a nossa sinhá com ele!
Se bem que dou graças a Deus em tê-la do nosso lado.
-Eu não entendi!
Mas desconfio! -respondeu ele.
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