A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 16, 2016 12:34 pm

-Desconfia do quê? -insistiu avó Joana.
O feitor, olhando para os lados, respondeu:
-Que ela conte para a família o que lhe aconteceu, e eles acabem com o senhor!
Fiquei sabendo que esta fazenda foi comprada com o dinheiro do dote da sinhá!
Parece que a família dela tem muito dinheiro.
A dele também tem! Dizem que são tradicionais!
Esse nosso senhor é muito estranho, vó Joana.
Vou lhe contar uma coisa estranha demais:
o pai dele (pelo amor de Deus, não comente com ninguém!) tem mais filhos espalhados por aí do que batata na terra!
E o filho é um homem cobiçado pelas mulheres.
Eu sou homem, mas tenho de reconhecer que ele é muito bonito!
E sabe de uma coisa?
Com toda beleza, dinheiro e poder que ele tem, não tem nenhuma amante!
Dá para entender?
-Dá, sim, sr. Ambrósio!
Há coisas que parecem que ficam mais claras entre nós do que entre vocês!
-Do que está falando, avó Joana?
-Ah! Sr. Ambrósio, eu acho que estou é com medo e nem sei mais o que digo!
Quer saber de uma coisa?
Eu vou é me deitar para estirar os ossos, que amanhã será um dia cheio de novidades para nós.
-Boa-noite, avó Joana!
Leve as mulheres com a senhora.
Pedirei a Zacarias para levar os homens, assim todos nós podemos descansar o corpo.
Se não conseguir descansar a mente, pelo menos o corpo.
Fiquei me revirando na rede e não conseguia dormir, e assim estavam os meus companheiros de quarto, no escuro da noite.
Não falávamos, mas sabíamos que todos estavam acordados, cada um com os seus pensamentos.
Quando consegui dormir, sonhei que António entrava no nosso barracão e, me abraçando, perguntava:
"Onde está o meu filho?
Onde está a sinhá?"
Sorrindo de alegria por vê-lo bem, respondi:
"O seu filho está lindo!
E a sinhá está connosco aqui na fazenda, ela está cuidando do filho de vocês com muito amor e carinho.
Que bom que você voltou!
Mas onde está Anita?"
"Ela está na casa da dama de sinhá.
Nós trabalhamos lá, ela nos comprou de um atravessador de escravos!
Eu ainda não tive coragem de contar tudo o aconteceu com a nossa sinhá e o menino; acha que eu devo revelar isso para a dama?
Eu sei que ela nos comprou para pirraçar o senhor!
Ela mesma disse que iria nos esconder para que ele sofresse a humilhação de perder.
Encostou-me na parede, queria a todo custo saber se o senhor me obrigou a fazer o que eu não queria -você sabe do que estou falando.
Eu neguei, porque fiquei com medo que ela, tendo a minha confissão, me jogasse de volta nas mãos dele.
Acabei dizendo que ele nunca me obrigou a nada.
Tenho certeza que ela não acreditou em mim.
Por sorte, Anita disse que sempre fomos namorados e que fugimos porque queríamos ficar juntos e o senhor me levava para longe."
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 16, 2016 12:34 pm

Acordei assustado e pulei da rede.
No outro dia, pela manhã, chegaram as carruagens trazendo as mudanças do nosso novo senhor.
Logo atrás, uma carruagem de luxo encostava, no terreiro da casa-grande.
Nossa curiosidade era grande, espreitávamos para vê-los.
O feitor abriu a porta da carruagem e vimos descer um senhor alto e forte, cabelos grisalhos e uma expressão forte.
Ele deu a mão a uma senhora de meia-idade, sacudindo o pó do vestido e reclamando.
Atrás dela descia um rapaz loiro, parecia um moleque brincalhão.
A sinhá aproximou-se e apertou-lhes as mãos, levando-os para dentro.
Então esse era o nosso novo senhor?
Tínhamos que esperar para ver o que ele queria de cada um de nós.
Eu limpava os arreios e soltava os animais quando vi o rapaz loiro se aproximando de mim.
-Como se chama, negro? -perguntou ele, alisando o belo corcel marrom-café.
-Eu me chamo Miguel, meu senhor -respondi, de cabeça baixa.
-E o que é que você faz aqui na fazenda? -ele tornou a perguntar.
-Cuido de todas as ferramentas da fazenda, amanso cavalos, colho e cultivo as ervas que se preparam os remédios, cuido da horta e do jardim, ajudo na preparação dos remédios e dou uma mão às mulheres que trabalham na casa, seja para pilar café, arroz ou outra coisa qualquer.
Abasteço a casa de lenha e água, transporto as coisas pesadas de um lado para o outro e sigo qualquer ordem dos meus senhores com alegria e obediência.
-Ah! Então é você o Miguel amansador de cavalos?
Olha aqui, Miguel, na próxima semana, meu pai vai comprar um lote de cavalos.
Ele é criador de cavalos:
ele compra, amansa depois vende!
Você é amansador de cavalos e meu pai é amansador de escravos!
Quero que você amanse um para mim.
Só de olhar para o bicho você deve saber se dará um bom cavalo depois de domado, não é?
-Sim, senhor, algumas vezes eu percebo isso no cavalo.
As minhas pernas tremiam; senti um aperto no coração.
O pai dele era amansador de escravos?
Porque será que ele disse aquilo?
Fiquei apreensivo com essa declaração e comentei com os outros, que ficaram assustados.
Os novos senhores foram à cidade, porém não me levaram; dei graças a Deus.
Realmente eles trouxeram seis cavalos de raça, e o senhor me recomendou:
quero estes cavalos prontos para qualquer homem montar e fazer deles o que quiser!
-Sim, senhor, farei o que me pede.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 16, 2016 12:35 pm

Capítulo VI - Surge o administrador
Os senhores conversavam e andavam de um lado para o outro da fazenda.
O nosso senhor mostrava tudo para o administrador.
A sinhá estava sempre ao lado deles.
As sinhás foram à senzala; o filho da sinhá dormia no colo de Maria do Céu.
A sinhá olhou pra ele com carinho.
Ouvi a outra sinhá dizer:
-Que bonitinho!
Ele deve ter puxado muitas coisas do pai, tem nariz afilado e lábios delicados.
A sinhá estava com os olhos marejados de lágrimas, mas nós sabíamos que o motivo não foi o que ela ouviu da outra senhora, e sim o segredo que estava escondido dentro do seu coração.
O senhor viajou e o administrador começou a fazer mudanças.
Trocou os feitores e as mulheres que trabalhavam dentro da casa-grande.
Mandou derrubar, retirar a madeira, e mandou queimar tudo o que sobrou dos gravetos; ia aguardar para plantar capim nas terras onde antes havia uma faixa de mata separando as duas fazendas; agora as fazendas de facto eram uma só.
Achamos aquilo muito estranho:
se ele ia ficar apenas tomando conta da fazenda até o dono voltar, por que fazia tantas mudanças?
Certa tarde, a sinhá foi até a senzala e, como sempre, longe dos olhos dos feitores, ela pegava o filho no colo e o beijava muito.
O administrador chegou em tempo de vê-la beijando o menino; vermelho de raiva, ele gritou: eu não quis acreditar que você de facto estava louca!
Agora tenho certeza!
Onde já se viu uma dama como você beijando um negro?
Ouça bem o que vou lhe dizer:
eu a proíbo de vir sozinha à senzala! De hoje em diante, só entra nesta senzala acompanhada por minha esposa, ela pelo menos tem juízo!
Não me arranje problemas, pelo amor de Deus, ou serei obrigado a tomar sérias providências!
A sinhá empalideceu:
-Desculpe-me, Humberto, eu não fiz por mal!
As crianças são tão inofensivas!
-Margareth! Não desmereça sua linhagem!
Você é uma moça de linhagem e nome!
Não pode andar por aí beijando filhos de escravos!
Com raiva, ele virou-se para Maria do Céu e disse com rispidez:
-Leve as suas crias e vá embora daqui.
Se pegar você outra vez usando estas crias para impressionar a sua sinhá, vou mandar levar os dois ao mercado e trocá-los por um tronco e um chicote!
-Perdão, senhor, isso não vai mais acontecer!
Eu prometo! implorou Maria do Céu de joelhos.
No fim da tarde, o senhor me chamou e disse-me:
-Amanhã, logo cedo, vamos à cidade e você deve nos acompanhar.
Meu filho cismou que você conhece os cavalos quando são bons, vamos ver se ele está certo.
Chegamos à cidade, e após andarmos de um lado para o outro, o senhor nos levou para um mercado de cavalos; acho que era isso, pois naquele local só havia cavalos.
Mandou que eu escolhesse três bons cavalos.
Eu rezei e pedi a Deus que me inspirasse, pois se não agradasse o senhor estaria em maus lençóis.
Após a compra dos cavalos, o administrador foi fazer o pagamento.
O sinhozinho me chamou de lado e falou baixinho:
-Agora você vai me acompanhar e ficar de bico fechado.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 16, 2016 12:35 pm

Direi ao meu pai que nós vamos à igreja, e que eu fiz uma promessa para que você acertasse na compra dos melhores cavalos.
Na verdade, vou à casa das mulheres de aluguel.
Você ficará escondido, me esperando.
O pai dele voltou, e o filho avisou:
-Meu pai, vou levar o negro Miguel comigo; quero ir até a igreja, vou pagar uma promessa.
Depois que eu pagar a promessa o próprio Miguel lhe contará qual foi a minha promessa.
Fiz em voz alta e fui atendido.
Não se preocupe comigo, vou à igreja:
se for hora de missa vou assistir, senão faço as minhas orações e depois vou tomar um suco de graviola e comer um beiju de tapioca na praça da igreja.
Fique sossegado que eu tomo conta do negro Miguel, e assim que terminar venho lhe encontrar.
-Muito bem, pode ir.
Cuidado com o que vai fazer, e fica de olho no negro, não quero aborrecimentos!
Agora que terminei os negócios vou prosear com os amigos e tomar meus drinques sossegado.
Não esqueça que temos que seguir viagem lá pelas 15 horas.
Quero chegar à fazenda antes das 20 horas.
-Fique tranquilo, pai, não vou me atrasar.
Eu gostaria que senhor me adiantasse algum dinheiro; tenho que pagar a minha promessa!
Minha mãe me ensinou que quando queremos algo melhor, temos que oferecer também uma quantia boa para os santos.
Foi o que eu fiz!
-Eu preciso falar com a sua mãe!
Ela precisa aprender a negociar com os santos!
Se cada vez que vocês fizerem uma promessa eu tiver que pagar esse preço alto, vou começar a cobrar as taxas dos milagres, porque estou sempre levando prejuízo com as promessas que você e sua mãe vivem fazendo!
De quanto foi agora sua promessa?
-Papai, eu sei que o senhor vai ficar aborrecido, mas eu prometi vinte contos de réis para a igreja.
-Você enlouqueceu?
Qual é o santo que cobra tão caro por um milagre?
Quem é, negro Miguel, esse santo?
Meu filho disse que fez a promessa em voz alta, então você ouviu!
Quero o nome desse santo esperto, que pensa que eu tiro dinheiro das folhas do pasto!
Quem é o santo, negro Miguel?
Olhei para o rapaz, que transpirava na testa.
De cabeça baixa, porque eu jamais iria falar uma mentira e caluniar o nome de um santo de cabeça erguida, respondi, pedindo perdão ao santo:
-É Santo António, senhor!
-Eu logo vi!
Sua mãe vive com esse santo pra cima e pra baixo como se ele fosse da família.
Pois muito bem: aqui estão os seus vinte contos de réis!
E leve mais algum dinheiro e traga outro santo qualquer que tiver lá na igreja.
Vou presentear a sua mãe, e você vai convencê-la de que quem fez o seu milagre foi ele.
Vamos dar uma folga para Santo António, ele está ficando caro para mim.
Será bom que sua mãe mude um pouco de santo, vai lá saber se um outro santo não precisa de trabalho e vai se esforçar em atender as promessas com mais rapidez, e mais barato também?
-Está bem, papai -respondeu o rapaz.
Vamos, Miguel, você me ajudará a escolher o santo para minha mãe.
Assim que nos afastamos, o rapaz disse:
-Pegue esse dinheiro aqui, vá até a igreja e compre o santo que custar mais barato; assim vai sobrar dinheiro, e eu pagarei um suco e um beiju para você.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 16, 2016 12:36 pm

-Sinhozinho, eu não posso ir sozinho e entrar na igreja sem uma permissão! -lembrei.
-Que inferno! Venha, vamos até ali.
Entramos em uma venda, e ele pegou um lápis e uma caneta.
Escreveu algo num papel e me pediu para mostrar o papel ao zelador, que iria me entregar o santo e me devolver o dinheiro.
E assim que terminasse lá na igreja, eu deveria descer a rua e, lá onde havia jaqueiras, seguir pelo meu lado direito e ir até onde estava uma praça com muita gente.
Que eu ficasse com o papel na mão; se por acaso alguma autoridade me parasse, era só mostrar o papel.
E que eu esperasse ali sentado no banco que dava para a frente da casa de aluguel das escravas; ele estaria lá.
Assim fiz.
Cheguei à igreja e apresentei o papel e o dinheiro ao zelador.
Ele me mandou esperar.
Ouvi-o discutir com o sacristão:
-0 santo mais barato é São Benedito!
Esse ninguém quer! Podemos vendê-lo.
-Quer arranjar confusão para mim, não é?
Você já viu em alguma casa dos senhores uma imagem de São Benedito?
-Não, nunca vi, só nas casas dos escravos libertos e de alguns feitores!
-Então vamos, ache outro -pediu o zelador.
-Tem que ser santo?
Não serve santa? -perguntou o sacristão
- No papel pedem santo!
Tem muitos senhores que não acreditam nas santas, só nos santos.
-Bem, eu tenho São João, São José... são da mesma família de Santo António, e o preço está dentro do que ele pede aí no bilhete.
-Embrulhe São José e mande!
Passe-me o troco que o negro está esperando.
O embrulho chegou às mãos do zelador.
-Está aqui, negro, o novo santo do seu senhor!
Diga a ele que esse faz milagres tanto para homem quanto para mulher, velho e menino, e dizem que atende negros e brancos do mesmo jeito.
Abracei o santo e saí com remorso.
"Oh! Meu santinho São José, o senhor me perdoe, e peço perdão a Santo António e ao senhor São Benedito.
Cá entre nós, eu não acredito que o senhor seja santo, não!
Perdoe-me, mas se o senhor fosse santo mesmo, ia deixar seus irmãos de cor no inferno?
Os homens brancos não querem o senhor dentro de casa e pra quem trabalha?"
"E o senhor Santo António, não me castigue!
Eu tive que mentir colocando o seu nome no meio da mentira, mas não tinha outro jeito!"
Cheguei diante da casa que eu já conhecia de longe, e lembrei-me do sonho que tive com o António.
Meu Deus! O sinhozinho estava pecando e colocando os santos no meio das histórias dele.
Eu era apenas um escravo, nem podia falar a verdade para o pai dele, mas também não sei se era certo ficar acobertando suas mentiras:
eu não estava acostumado com isso.
Iria conversar com avó Joana e Zacarias, precisava saber a quem eu deveria obedecer.
Não tirava os olhos da casa; alguns negros também estavam ali esperando seus senhores.
Um deles me disse:
-Sabe que eu já sonhei que estava entrando nesta casa?
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 16, 2016 12:36 pm

Passou um bom tempo, quando eu vi alguém pegando um feixe de lenha no quintal da casa.
Meu coração quase parou de bater:
de chapéu na cabeça, roupas diferentes, o negro tinha o mesmo jeito de António!
Meu Deus, eu estava ficando louco!
Só podia ser por causa do sonho que eu tive!
Mais uma vez o negro voltou para pegar lenha; sim, ele era idêntico a António no jeito de movimentar-se, andar, e tinha a mesma altura...
Santo Deus, seria possível?
Minha cabeça doía.
Como saber a verdade?
O tempo passou, e lá vinha o senhor olhando de um lado para o outro da rua.
Apressado, disse-me:
-Vamos andar rápido, meu pai deve estar louco da vida!
Você comprou o santo?
Vamos comprar o seu suco e o seu beiju, você irá comendo pelo caminho, não temos mais tempo para nos sentar em lugar nenhum!
Como é o nome do santo que você comprou?
Respondi a ele e dei o recado do zelador sobre os poderes do santo.
-Óptimo! Você dirá ao meu pai que teve de ir à casa do zelador buscar este santo, e que esse santo é o avô de Santo António; é muito mais experiente do que ele, entendeu?
-Mas o senhor zelador não me disse isso -respondi, com medo de receber o castigo dos santos.
-Você não vê que esse santo tem cara de velho, e santo António tem cara de novo?
Então, um tem idade de ser o avô do outro -disse o sinhozinho.
-E quem pode saber se de facto não são mesmo avô e neto?
-Mas, negro Miguel, nem lhe conto... -continuou o sinhozinho que maravilha aquela casa!
Esses santos vão ter que me ajudar muito!
Vou comprar todos os santos da igreja para minha mãe, mas quero voltar lá sempre!
Arranjaram para mim uma negra de quadris largos, seios fartos, dentes brancos, uma negra feita sob medida para agradar os desejos de um homem!
Paguei essa com gosto!
Essa Anita é uma negra e tanto!
Ao ouvir aquele nome, senti o sangue parar nas veias. Meu Deus!
Eu sonhei com António, e ele me dizia que morava naquela casa.
Tive a impressão de ter visto António pegando lenha no quintal, e agora o senhor me falava de uma negra chamada Anita!
E as descrições que dava dela combinavam com nossa Anita.
-Eu quero vir todas as semanas, vou arrumar um pretexto para vir à cidade, nem que eu comece a trabalhar! -disse o sinhozinho.
-Essa casa é só para os brancos? -perguntei curioso.
-Ah, sim! As mulheres são negras, excepto a dona, uma senhora ainda bonita, que é a dona da casa.
Você a deve ter conhecido, ela foi dama de companhia da sua sinhá!
Falam pelos quatro cantos que ela tinha um segredo com o seu senhor.
Você nunca viu nada entre eles?
-Mas será que é mesmo a dama da minha sinhá?
_ Claro, Miguel!
Acha que eu não a conheço?
Nós nunca soubemos o motivo verdadeiro da saída dela da casa-grande.
Sei que o seu senhor expulsou a coitada, e que quem se deu bem fomos nós; ela compra escravas jovens e bonitas e as prepara para servir bem aos brancos.
Dizem que no começo ela aceitava até escravos libertos, se eles chegassem com dinheiro!
Agora não! Foi proibida a entrada dos negros e de feitores, só entram os brancos com dinheiro no bolso.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 16, 2016 12:36 pm

Assim que chegamos onde o pai dele estava esperando, pensei que o senhor ia bater no filho e em mim.
-Onde você se meteu até esta hora?
-Fale, negro Miguel, por que nós demoramos tanto para voltar!
Fale para meu pai!
-Bem, senhor, tive que ir buscar o santo na casa do zelador, pois o santo que está aqui é o avô de Santo António e tem mais experiência do que ele. Foi o que disse o zelador.
-E que santo é este? -perguntou o senhor olhando a imagem.
-É o senhor São José!
O sacristão disse que ele faz milagres para pessoas de todas as idades.
-Bom, ele tem cara de quem viveu muito!
Vamos ver se faz milagres mesmo!
Vocês comeram alguma coisa?
Deu alguma coisa para este infeliz comer?
-Não comemos nada, papai!
Eu fiquei sentado no banco da igreja, e rezei três terços e sete salve-rainhas.
Minha mãe me disse que quem reza muito é atendido no céu em qualquer coisa que pedir.
-Tomara que ela esteja certa!
Pelo que vocês rezam e o tanto que eu pago, nós temos passagem livre para o céu!
Venha comer e beber alguma coisa.
Espere aí fora sentado, negro Miguel, eu vou mandar lhe trazer alguma coisa para comer.
Depois você vai ajudar os outros dois negros, e vamos seguir viagem.
Vi o sinhozinho sentado, comendo e bebendo bem tranquilo; eu, porém, estava com o coração aflito!
Tive que mentir duas vezes usando os nomes dos santos.
Enquanto engolia outro copo de suco quase sem aguentar, pensava:
não dá para entender os senhores brancos:
primeiro, eles nos ameaçam com o tronco se pegarem uma mentira nossa!
E depois eles nos obrigam a mentir, a inventar histórias com os santos.
No caminho, eu estava calado.
Os outros negros me perguntaram:
-Está calado por quê?
Aconteceu alguma coisa grave?
-Não se preocupem, está tudo bem.
Acho que não gosto dessas viagens, mas nós não temos que gostar ou não, temos é que obedecer!
Um deles falou baixo:
-Pois eu confesso a você que adoro a cidade.
Há tantas coisas bonitas por lá!
Quando vou à cidade, para mim é o mesmo que ir ao céu.
Chegamos à fazenda já com o clarão da lua cheia. Os outros negros vieram nos ajudar, e o sinhozinho chegou perto de mim e falou baixo:
-Bico fechado, Miguel, não conte para ninguém o nosso dia de hoje...
Ou o tronco que meu pai trouxe será inaugurado por você.
Já no barracão, André me perguntou:
-O que o senhor falava com você?
-Sobre uns cavalos que eles compraram!
Devem chegar talvez amanhã.
Pediu-me para amansar o corcel negro para ele.
Zacarias falou baixo:
-Hoje a sinhá foi à senzala ver o filho.
Engraçado que o menino passou estranhá-la, está mesmo apegado é a Maria do Céu.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 16, 2016 12:36 pm

A sinhá precisa tomar cuidado para não despertar suspeitas, se um feitor apanhá-la sozinha na senzala e pegando Frederico no colo, isso pode comprometer a vida dele.
Não podemos confiar nem em nossos irmãos de cor, pois eles às vezes saem do nosso lado pensando que poderão ficar do lado dos brancos e acabam nos levando à morte.
Avó Joana trouxe um bule de café, e pelo buraco da janela Zacarias olhou para ver se não tinha nenhum feitor escutando a nossa conversa.
Só então eu relatei o que fiquei sabendo, o que acho que tinha visto, o nome e as descrições de Anita, e as mentiras sobre os santos, que estavam me deixando amedrontado.
Avó Joana e Zacarias ouviram a minha história, depois Zacarias perguntou:
-Joana, o que você acha?
-Sinceramente, pode ser que os dois estejam trabalhando na casa da dama da sinhá.
Ela odiava António, porque o senhor vivia com ele a tiracolo.
Mas ela pode estar usando António para vingar-se dele.
Pois lá ninguém irá procurá-lo.
Zacarias entrou no assunto e acrescentou:
-Eu acho que eles deram a volta e foram aportados do outro lado da cidade.
Alguns negociantes de escravos os levaram até a dama, os venderam, e devemos dar graças a Deus que eles vivem; mesmo no sofrimento estão livres das garras do senhor.
Tomara que sejam eles mesmos.
Só temo que algum amigo do nosso senhor dê de cara com António ou Anita e conte para ele.
Mas olhe, filho, Deus escreve certo por linhas tortas:
o sinhozinho branco vai voltar àquela casa e com certeza deve levá-lo novamente.
No caminho, você contará a ele que conheceu uma escrava chamada Anita, se ela não se lembrava de um negro chamado Miguel, e que você se recordava dela porque ela gostava muito de andar pela beirada do rio, não apreciava ver os seus próprios rastros, tinha medo que viesse alguém atrás dela.
Ela vai entender o recado; se forem mesmo Anita e António, ela mandará um recado que você também entenderá.
Zacarias silenciou por alguns instantes, e depois continuou:
-Quanto aos santos, fique tranquilo!
Eles não farão nada contra você, Miguel.
É por isso que são santos, porque aguentam tudo calados!
E para falar a verdade, talvez estejam até nos dando uma mão.
Quase um mês depois, o sinhozinho inventou que precisava ir pagar a promessa para São José.
Disse para a mãe que estava andando no meio da madeira que era consumida na casa-grande, e uma jararaca pulou em seu braço; ele só pensou no santo, e a cobra pulou de volta no chão.
A mãe chorava e agradecia o milagre, e encheu as mãos dele de moedas.
Nunca ouvi uma mentira tão sem lógica!
Uma cobra pulando no braço dele e desistindo mordê-lo!
E a mãe acreditou!
O feitor nos acompanhou; ele ia comprar algumas ferramentas para a lavoura.
Chegando na cidade, o sinhozinho deixou os dois negros com o feitor e lhe disse:
-Antes das três horas da tarde estaremos aqui, deixem tudo pronto!
Devemos obedecer às ordens do meu pai.
O negro Miguel vai me acompanhar.
Como ele mexe nas folhas dos remédios que todos vocês tomam, e amansa os cavalos, arruma as ferramentas da lavoura, etc.
O padre me disse, uma vez que o negro Miguel precisa receber água benta nas mãos para que tudo o que ele fizer seja bom para todos!
Eu não dei importância antes, mas agora, pensando melhor, acho que ele estava certo.
Vou levá-lo comigo até a igreja e conversar com o padre, adoro trocar ideias com ele!
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

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Eu só não ingresso para ser padre porque o meu pai não aprova!
Eu sou muito católico, não fico sem ir à igreja, e se venho à cidade não saio sem ir tomar a bênção do padre!
O feitor balançava a cabeça, admirando a fé do rapaz.
Depois o ouvi comentando com um dos negros:
-Senhor de coração santo como esse são poucos por aí!
São poucos mesmo!
É o que eu sempre digo para brancos e negros: cada um deve ter a sua fé e obedecer sempre o destino que Deus lhe deu!
Este nosso sinhozinho é um exemplo a ser seguido!
No caminho, eu criei coragem e disse:
-Meu sinhozinho, pelo amor de Deus, o senhor pode ser castigado e eu também!
Eu não posso desobedecer as suas ordens, mas vejo que agora o senhor está mexendo com os santos!
E santo é coisa séria, meu sinhozinho.
-Miguel, tem pessoas que fazem coisas piores do que eu!
Se Deus não levar isso em consideração, aí quem vai ficar chateado sou eu!
Veja bem: não mexo com as negras da fazenda, porque acho que a humilhação delas já ultrapassa todos os limites!
Não falto com o respeito com as esposas dos nossos amigos.
Então, estas mentiras entre mim e os santos não são graves!
Eu até ajudo a promovê-los!
Entre as amigas da minha mãe, já escutei três delas falando que fizeram promessas e foram atendidas por São José!
Por isso eu acho que os santos não vão se aborrecer comigo, e lá na casa de aluguel procuro ser bondoso e gentil com a escrava que me serve.
Chegando à cidade, ele deixou o feitor e os dois negros recomendando que eles arrumassem tudo, quando chegássemos era só pegar a estrada!
Deu ordens para o feitor alimentar os negros; nisso ele era muito atencioso, não tínhamos o que reclamar.
No caminho, eu fiz como Zacarias me instruiu, e o senhor caiu na minha conversa.
-Então você conheceu uma Anita? -perguntou o sinhozinho.
-Sim, éramos quase crianças.
Depois ela foi embora para outra fazenda e nunca mais a vi!
Só me passou pela cabeça que pode ser a minha amiga Anita.
Ela era muito bonita quando menina.
-Bom, se for sua amiga de infância, Miguel, eu descubro.
Vou perguntar se ela conheceu um Miguel, que andava com ela pela beira do rio!
Você está vendo?
Se for a sua amiga Anita, eu posso até dar um jeito de você vê-la.
-O senhor faria isso? -perguntei, cheio de alegria.
-Claro que faço!
Naturalmente que ela vai aparecer na janela, mas já é bom, não é?
-Sim, senhor!
É uma bênção do céu!
O senhor vai fazer isso hoje?
-Se for a mesma Anita, farei isso ainda hoje!
Com uma condição:
você vai me ajudar sempre confirmando as minhas histórias.
Quando a história com a igreja já estiver ficando suspeita, vou arrumar outra história de bondade.
Minha mãe acredita que a porta do céu é aberta quando agradamos aos santos, aos padres, etc.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 16, 2016 12:37 pm

E eu sei que a porta do céu se abre é dentro do nosso coração.
-Eu prometo que vou lhe ajudar, meu senhor, pois o senhor está sendo generoso comigo.
-Preste bem atenção, Miguel, em uma coisa que vou lhe confessar:
eu sou a favor da libertação dos escravos!
Eu nunca vou querer tocar nenhuma fazenda do meu pai, pois jamais serei senhor de escravo!
E se eu pudesse escolher uma mulher para me casar, seria uma negra!
Porém, sei que vou me casar com uma mulher branca, pois a nossa sociedade não aceitaria que eu entrasse de braços dados com uma negra em local público!
E filhos, então?
Qual seria a igreja ou o cartório que iria registrar um filho meu, se fosse negro?
É complicado, Miguel.
Infelizmente não podemos expressar os nossos próprios sentimentos, mas, acatar os sentimentos de toda a massa!
E ele continuou falando, falando palavras que eu não entendia; mas sei que ele falava de liberdade e de igualdade entre brancos e negros.
Por muitos minutos eu ouvia aquele jovem e estremecia: um jovem revolucionário?
Ele me dizia que simpatizava com os negros e até casaria com uma negra!
E devia ser verdade, porque ele vinha até a cidade para ficar com Anita!
Ele me deu o papel autorizando a minha entrada na igreja e na mercearia.
Eu estava indo à igreja, adquirir mais um santo para a colecção da sinhá mãe dele.
O zelador me reconheceu e convidou a entrar, dizendo para o sacristão:
-Ele vem da parte dos senhores de Fazenda.
Vamos ver o que podemos mandar para a nossa boa senhora com essa quantia dada pelo filho:
o que você acha de mandarmos São João e São Jerónimo?
-perguntou o sacristão, trocando um olhar com o zelador.
-E se mandarmos São Pedro e São João?
Assim ela ficará com todos os santos da mesma família:
já tem Santo António, levou São José, agora pode completar com São João e São Pedro -respondeu o zelador, examinando as imagens e falando como se realmente estivesse sendo inspirado pelos santos.
-Isso! Então você leva os dois santos e diz para sua sinhá que agora ela tem todos os santos da mesma família!
Diga a ela que deve fazer pedidos a todos eles; se um estiver ocupado, passa o pedido para o outro que está perto dele!
Sem ajuda ela não vai ficar.
-Sim, senhor, eu dou o recado.
Então, os nomes dos santos são: São Pedro e São João? - falei alto para decorar os nomes dos santos.
-É isso mesmo! Vejo que você é um negro de memória boa!
Por isso vamos fazer um bom preço para o seu senhor!
Vendemos dois santos pelo preço de um, e ainda sobrou dinheiro para você beber um suco e comer um pedaço de bolo!
Vá com cuidado para não derrubar os santos do seu senhor, e diga a ele que nós temos muitos santos; ele pode mandar você vir buscar, e nós recomendaremos os mais milagrosos!
Voltei bem devagar.
O senhor me disse que eu podia apresentar o papel que me autorizava a comprar e pagar comida.
Então, todo orgulhoso por entrar sozinho em uma venda, apresentei o papel e mostrei o dinheiro.
O empregado era um mulato, depois fiquei sabendo que era filho do dono.
Entreguei o papel, ele leu e me pediu que mostrasse a quantidade de dinheiro que tinha, puxou as moedas e disse para outro mulato:
-Dê a este negro o suco no sabor que ele quiser, e pode escolher ou um beiju ou um pedaço de bolo.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 17, 2016 10:06 am

Peguei o meu suco e um pedaço de bolo, fui me sentar lá fora e comer sossegado.
Depois voltei e entreguei o utensílio que usei ao empregado.
Ele colocava os canecos usados pelos escravos de um lado e dos brancos do outro.
Os brancos comiam sentados em bancos lá dentro da venda, e os negros pegavam a comida e comiam lá fora; depois era só devolver o que utilizaram e ir embora.
Andei bem devagar, olhando os passantes, negros arrastando carroças, outros levando baús nas costas, algumas sinhás acompanhadas por suas mucamas, que as cobriam com sobrinhas coloridas.
Saí bem devagar.
Sabia que o senhor iria demorar um pouco mais lá dentro daquela casa.
Estava ansioso, ele havia me prometido que falaria com Anita sobre mim, e se fosse ela mesma ele a traria até a janela.
Fiquei sentado num tronco embaixo da sombra de uma árvore.
Fiquei sem fôlego ao ver que pararam bem na minha frente duas sinhás, com as suas mucamas.
As sinhás, cobertas de jóias, usavam chapéus e umas saias rodadas arrastando no chão.
Uma delas, olhando na minha direcção, falou alto:
-Eu sinceramente acho um absurdo o que temos que suportar!
Andar tropeçando aqui e ali com estes escravos!
O mundo está perdido!
Aonde é que vamos parar?
Estes rapazes vão estudar fora, e quando voltam trazem uns procedimentos vergonhosos!
Se não houver um pulso forte para colocar ordem, logo, logo vamos ter que comer sentados na mesma mesa com os negros!
Veja este aí!
Sentado, sem ocupação nenhuma!
Onde está o senhor deste escravo?
Com certeza é um sinhozinho novo o seu dono!
A minha vontade é de chamar as autoridades e mandar prendê-lo!
Quem sabe o dono deste escravo dá ocupação a ele?
A outra, parada e me olhando, respondeu:
-Deixa pra lá!
Que está uma vergonha, isso está!
No dia que o dono deste negro precisar vendê-lo, quem vai querer comprá-lo?
Daqui a alguns anos vamos ter o quê dentro de nossas casas?
-Um vagabundo -respondeu a primeira, com os olhos cheios de raiva.
Vamos sair daqui que está me dando nojo -cuspiu no chão e saíram.
Santo Deus!
Que perigo eu corro ficar parado aqui em frente desta casa..., pensei.
O meu senhor vai ter confusão pra ele, e muito mais pra mim!
E se vierem os caçadores de escravos e me prenderem?
Até provar que eu não fugi, já fizeram comigo o que bem entenderam!
De vez em quando passava uma dama branca e me olhava, algumas com simpatia, outras com desdém.
Mesmo assim, eu não tirava os olhos da janela; parece que havia se passado um século, eu estava morrendo de vontade de urinar, mas sem a ordem e a presença do meu senhor não podia entrar nos locais apropriados para os escravos.
Teria que esperá-lo, e rezava que ele viesse logo.
A janela se abriu, vi Anita me olhando, era ela!
Fiquei sem fôlego.
Ela se recolheu, e eu fiquei parado, com as pernas tremendo.
Logo o senhor saiu, quase correndo, para não ser visto por ninguém. Chegou perto de mim e perguntou:
-E então, é a Anita que você conheceu ou não?
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 17, 2016 10:06 am

Pensei na resposta e disse:
-Ela era muito pequena quando nos separamos!
Aquela é uma mulher!
Pode ser ela, mas se for, está bem diferente!
-Foi o que ela me disse!
Ela conheceu um Miguel quando era criança.
Quando foi à janela, eu perguntei se ela se lembrava de você, e ela disse a mesma coisa.
Bem, tudo deu certo lá na igreja? perguntou o senhor, ansioso.
-Sim, senhor!
O dinheiro foi suficiente para comprar dois santos, e ainda comi e bebi, como o senhor determinou.
-E os santos, quem são?
Preciso contar a história deles para a minha mãe, convencê-la!
-Bom, segundo o sacristão um deles é São João, e outro é São Pedro!
E ele disse que a sinhá agora tem todos os santos da mesma família, e ela pode pedir a todos eles:
se um estiver ocupado, pedirá para o outro atender!
Sem atendimento ela não vai ficar.
-Gostei! Esses vendedores de santos têm ideias brilhantes!
São melhores do que eu quando se trata de inventar uma história!
É por isso que eu não fico com remorso nenhum!
Eu invento minhas histórias para fazer o que gosto, e eles inventam suas histórias para ganharem a confiança dos fiéis e tirar o dinheiro deles!
Para mim, tudo bem!
Ele sorriu.
-Vamos apressar o passo, que nós precisamos seguir viagem! Bico fechado, ouviu, Miguel?
Você não sabe de nada, não viu nada e lavou as mãos em água benta!
Tudo o que você tocar será abençoado!
-Senhor! Eu tenho medo dessas mentiras!
E se Deus castigar as minhas mãos mandando alguma doença?
-Deus não vai lhe castigar!
Quem inventou a história fui eu!
E Deus sabe que eu não tenho outra solução a não ser essa!
Não estou prejudicando ninguém, e se toda mentira do mundo fosse como essa, teríamos um mundo melhor!
E por falar em mentiras, você nunca contou uma mentira do bem?
-Eu não entendi, senhor...
O que é mentira do bem?
-A mentira do bem é aquela mentira que se conta para proteger outras pessoas de algum mal.
-Eu já contei muitas mentiras do bem, sim, senhor, muitas mesmo falei isso lembrando dos últimos acontecimentos.
-Então. Você agora me entende?
-Acho que sim, meu senhor.
-Você é um homem de bem, Miguel!
Vamos lá!
Veja só, o feitor já arrumou a carga!
Chegando à venda, ele foi comer algo, e eu fui ao privativo dos escravos.
Logo mais, nós estávamos na estrada.
O senhor adormeceu e o feitor veio conversar comigo, e me perguntou baixinho:
-Miguel, o sinhozinho ficou todo esse tempo conversando com o vigário?
-Não, senhor!
Ele ficou muito tempo fazendo suas devoções!
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 17, 2016 10:06 am

-Pois é: um rapaz novo, rico...
Se fosse outro iria se divertir por aí.
Já ele vai à igreja, e sempre traz um santo para a mãe...
-Um, não!
Dessa vez ele trouxe dois!
São João e São Pedro.
Disse o sacristão que São Pedro é quem abre e fecha as portas do céu!
Se ele não abrir, nenhum outro santo abre, porque a chave fica na mão dele.
-Eu já ouvi falar muito desse santo, nunca vi a imagem dele, mas sei que é poderoso!
E você bebeu água benta? -perguntou o feitor.
-Eu não bebi água benta!
Eu lavei as mãos para que possa colocar as mãos em tudo e abençoar!
Foi isso que disse o meu senhor.
-Coloca então as mãos no meu facão, no meu chapéu, e passe as suas mãos aqui em minhas mãos, quero ser o primeiro e receber as bênçãos dessa água benta.
Fiz aquilo, porém com vontade de rir.
Se aquelas senhoras vissem a cena, o que iriam dizer?
O feitor alisando as minhas mãos de olhos fechados!
À noite, contei o que descobri sobre Anita para Zacarias e avó Joana.
O negro velho, suspirando aliviado, respondeu-me:
-Graças a Deus!
Agora, é cada um seguir o rumo do seu destino e deixar Deus decidir o que fazer!
Você, Miguel, não abra a sua boca com ninguém sobre Anita, António ou o menino!
Você não sabe de nada, não viu nada.
Deixe as coisas caminharem!
Antes que eu respondesse, avó Joana completou:
-Isso mesmo, Zacarias!
Você está certíssimo!
Se todos estão salvos, agora é só tocar a vida e não lastimar.
Nem com os nossos deuses devemos tocar mais no assunto, entendeu, Miguel?
Eles sabem tudo, antes de nós!
Todos calados e andando em frente com a vida:
é assim que devemos seguir, um respeitando o destino do outro.
Ficamos os três em pleno silêncio, e avó Joana, pitando o seu cachimbo, lembrou:
-O que me preocupa é a sinhá...
Ela é mãe, e mãe é mãe.
Mas por hoje é melhor não falarmos mais neste assunto!
Vamos dormir, que amanhã será outro dia, e para Deus tudo é renovado!
Encontraremos uma solução para cada coisa.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 17, 2016 10:07 am

Capítulo VII - Um dia após o outro...
Na fazenda, tudo seguia bem.
Nossa sinhá rodeava a senzala, Frederico crescia a cada dia, e os falatórios também.
Diziam que ele era filho do feitor, e alguns negros mais ousados falavam que o rosto dele era rosto de branco.
Na fazenda agora dava gosto ver o capinzal; onde era a faixa de mata virou um capinzal, não havia mais divisórias.
0 senhor não vendeu nenhum escravo, e a vida realmente continuava a mesma para todos.
A sinhá passava as noites tocando piano.
O sinhozinho me levava a cada quinze dias para a cidade; a casa-grande estava repleta de santos e santas, todos com recomendações do sacristão e do zelador.
A sinhá rodeava a senzala, olhava de longe as crianças, mas graças a Deus não foi mais ao barracão onde ficava o filho.
O inverno chegava, as primeiras chuvas caíram e a fazenda estava sombria.
A sinhá arrumou-se um dia e avisou que queria ir à cidade fazer algumas compras para a fazenda.
O senhor administrador alegou que ela fizesse uma lista que o capataz ou ele próprio iria fazer as compras, pois havia prometido ao senhor que ela seria poupada dessas caminhadas.
A sinhá bateu pé:
iria ela própria de qualquer jeito; afinal, queria comprar algumas coisas pessoais e precisava escolher.
No final, o senhor não teve alternativa a não ser consentir.
Acompanhamos a sinhá até a cidade, e, chegando lá, ela pediu para o capataz procurar uma pousada de família.
Ela iria pousar e só voltaria no outro dia.
Ele seguia levando as mercadorias juntamente com os negros que nos acompanharam. Ficaríamos com ela apenas eu e o sinhozinho.
Vi o capataz tirar o chapéu e coçar a cabeça.
Ele não podia desobedecer às ordens dela, e sabia que iria se complicar com o administrador.
Enquanto os negros ajudavam a arrumar as mercadorias, o capataz pediu para a sinhá que me deixasse acompanhá-lo até a pousada.
A sinhá consentiu, e nós nos pusemos a caminho.
Assim que alcançamos uma boa distância, o capataz me perguntou:
-Miguel, que diabo aconteceu com a nossa sinhá?
Ela não pode pernoitar na cidade como uma mulher qualquer!
O que vou dizer ao senhor administrador?
Que a nossa sinhá resolveu dormir na cidade, em uma pousada popular?
Respirei fundo e respondi:
-Se o senhor me permite uma palavra, eu dou a minha opinião de escravo.
-Fale, Miguel! Fale! -respondeu ele aflito.
-Diga ao senhor que, por não estar acostumada a fazer essas viagens, a sinhá não se sentiu bem, e o sinhozinho achou melhor que ela só retornasse no dia seguinte!
Assim, o nosso senhor pensará que foi decisão do sinhozinho e não dela!
O problema vai se tornar menor.
Será preciso apenas combinar tudo com os dois e explicar a situação.
-É, você tem razão!
Vamos à pousada conversar, e ver se conseguimos lugar pra vocês se ajeitarem!
Eu não vejo a hora de voltar, Miguel!
Ainda mais com o que eu ouvi hoje da boca de um capitão-do-mato!
Quer saber o que foi?
Fiquei em silêncio, olhando pra ele e me lembrando do que aprendi:
jamais responda aos seus superiores, mesmo que eles lhe ofereçam uma chance.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 17, 2016 10:07 am

-Pois é, Miguel:
segundo um capitão-do-mato que encontrei na venda, António e a companheira dele foram encontrados por um capitão-do-mato trapaceiro que vende escravos com documentos falsos.
E esse capitão-do-mato que me revelou isso irá à fazenda do nosso senhor levar-lhe uma nova proposta:
capturar o capitão-do-mato trapaceiro para fazê-lo confessar a quem ele vendeu os escravos do senhor; e aí, sim, eles serão devolvidos ao seu verdadeiro dono.
Senti um aperto no coração!
Meu Deus! O que fazer?
António e Anita estavam ali bem pertinho, na casa da ex-dama da sinhá.
Esse tal capitão-do-mato por certo até já sabia onde encontrá-los!
Arrisquei uma pergunta:
-Mas, senhor, se o António fosse vendido por essas bandas já não teria sido achado?
-Miguel, os senhores não andam fiscalizando as fazendas uns dos outros!
Não são todos os negros que podem andar como você, acompanhando os seus senhores!
Chegamos à pousada e o capataz deixou tudo acertado para que a sinhá, o sinhozinho e eu fôssemos alojados, cada um no seu lugar.
O capataz e os demais negros regressaram para a fazenda, e nós só voltaríamos no outro dia.
Comecei a pensar na situação do António, quando vi um capitão-do-mato vestido em uma farda verde, de botas até o joelho; ele se aproximou da sinhá e do sinhozinho.
Segurei a respiração enquanto ouvia o homem falar:
-Disseram-me que a senhora é a esposa do senhor que busca por seus escravos fugitivos, então tomei a liberdade de vir falar-lhe.
-Pois não? -indagou a sinhá.
-Fui um dos contratados para resgatar negros fugitivos de sua fazenda, e acabei de saber que um traficante de escravos capturou e vendeu o negro António e quem estava com ele.
Agora preciso de uma nova autorização para pegar esse falso caçador de escravos e fazê-lo confessar para quem foi que vendeu os fugitivos!
Para pôr a mão nesse pilantra, preciso de autorização... e de um novo pagamento, é claro!
A sinhá ficou pálida, pensei que ela fosse desmaiar.
Ela tossiu e respondeu:
-Perdão, capitão, mas este negócio é com o nosso administrador; o senhor deve procurá-lo.
Mas me fale um pouco mais sobre esta informação:
é verídico que os negros foram capturados, ou é apenas uma suspeita?
-É certeza, senhora!
Quem me passou essa informação disse-me que tem certeza plena!
Inclusive sabe quem foi o capitão-do-mato que nos trapaceou.
Ele deixou claro que iria até a fazenda negociar com o administrador sobre a captura do ladrão de escravos.
Com esse sujeito nas mãos, seria fácil reaver os dois fugitivos e ainda cobrar uma multa de quem os adquiriu!
Assim que nos dirigimos à pousada, a sinhá se aproximou de mim e disse, trémula:
-Miguel, pelo amor de Deus, o que vamos fazer?
Eles encontrarão António e Anita, e chegarão até o meu filho!
-Não, sinhá, eles não vão encontrar nem o António nem Anita, e nem chegar perto do seu filho, se a senhora ajudar!
-O que eu posso fazer, Miguel? -respondeu, aflita.
-Eu sei onde estão António e Anita, sinhá! -falei, confiante.
-Sabe? -Ela arregalou os olhos para mim.
-Sei, sim, senhora: eles estão bem aqui perto da senhora.
Na casa de sua ex-dama!
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 17, 2016 10:07 am

-Rose? O que você sabe da Rose?
Ela não foi embora do Brasil?
-Não, senhora.
Ela é a dona da casa onde se alugam as jovens escravas!
O sinhozinho visita a casa dela sempre que vem à cidade.
Com certeza, hoje à noite ele vai voltar lá, na casa onde se encontram António e Anita.
-Santo Deus!
Você tem absoluta certeza, Miguel, de que António e Anita se encontram lá?
-Tenho, sinhá.
Primeiro eu fiquei na dúvida, agora tenho certeza.
-Vamos andar -pediu a sinhá.
Quando chegamos à pousada, eu levei os pertences da sinhá até o quarto.
Ela me pediu para entrar e fechou a porta.
-Vamos falar baixo, e me ajude a pensar:
o que posso fazer para tirar os dois de lá?
Sem levantar a cabeça, respondi:
-Chegando até a sua dama!
Envie uma carta!
-Como mandarei uma carta?
Quem vai entregar esta carta?
-O sinhozinho!
A sinhá pode inventar qualquer assunto para o sinhozinho!
Peça-lhe para entregar a carta e trazer resposta!
Ele vai atender o seu pedido, porque se a senhora revelar ao pai dele que ele frequenta aquela casa, é bem possível que ele o mande embora do Brasil.
-Você é muito inteligente, Miguel! -respondeu a sinhá.
Agora você pode descer, e peça para o senhor vir até o meu quarto.
-Sim, sinhá.
Quer mais alguma coisa?
-Não, pode ir e aguardar o meu chamado.
Lá no bar, encontrei o senhor bebendo um copo de vinho juntamente com outros rapazes. Dei sinal e ele gritou:
-Aproxime-se, Miguel, o que deseja?
Dei o recado da sinhá.
Ele me pareceu surpreso.
Fiquei sentado com outros negros do outro lado do salão, no lugar reservado para nós.
Não demorou muito e vi o senhor subir as escadas.
Fiquei rezando e pedindo aos nossos deuses que instruíssem a sinhá no melhor caminho a seguir com o sinhozinho.
Enquanto eu rezava para a sinhá, um cão bonito e bem tratado que desceu de uma carruagem se aproximou de mim e começou a me lamber.
Eu já estava incomodado com aquele cachorro, mas não podia fazer nada, ele me parecia cão de senhor!
Pêlo bonito, aparência saudável, e uma coleira bem diferente no pescoço.
Um dos negros disse baixinho:
-Esse daí é que é feliz!
Deve ser o bicho de estimação desses senhores que entraram na pousada.
Ser cachorro de branco é ter sorte!
Não trabalha, não apanha, só come, se diverte e dorme, e ainda por cima provoca a gente, fazendo inveja! E veja só...
Eu não sei ler, mas sei que aí na coleira dele tem algo escrito!
Dê uma olhada!
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 17, 2016 10:07 am

Tem razão. Pena que nós não saibamos ler para saber o nome dele respondi.
-Se os homens brancos tivessem a bondade e os sentimentos dos animais, o mundo seria bem diferente!
Os donos não olham para nós; no entanto, os seus cães nos lambem, beijam e comem com a gente! Estes são verdadeiros amigos.
Enquanto o cão pulava em cima de mim, vi uma moça branca como nuvem deixando a pousada.
Saía de braços dados com um senhor de meia-idade que parecia bêbado.
Chegando mais perto de nós ele virou-se para trás e gritou:
Oh! Mesquita! Eu troco o meu perdigueiro por todos esses negros que estão aqui!
Quer fechar negócio?
O meu trovão não perde uma caça!
De bicho de pena a negro de couro, ele fareja e pega tudo!
O outro branco respondeu lá de dentro:
-Se esses negros fossem meus, eu estaria rico, Epaminondas!
E quem sabe trocava mesmo um deles pelo trovão!
Um dos negros saiu correndo para perto da moça, que lhe disse:
-Vamos, Tomás, leve o senhor até a carruagem e o acomode lá!
Virando-se para o lado onde estava o cão, ela chamou: -Trovão?
Vamos lá, suba!
0 cachorro subiu, balançando o rabo e olhando em nossa direcção.
Parecia se despedir da gente.
Ficamos olhando até a carruagem sumir.
O negro comentou:
-Reparou como os cachorros rodeiam a gente?
Na verdade, eles acham que nós também somos cachorros!
E não estão errados!
A única diferença é que eles são bem tratados, vivem no meio dos brancos, e nós não!
Eu entrei na conversa e respondi:
-Espere aí, irmão!
Eu não sou tratado como branco, mas também não sou tratado pior que os cachorros, não!
-Então você é um felizardo!
Quem é o seu senhor?
Conte-nos se você nunca ficou sem comer e sem beber, amarrado no tronco debaixo de sol, chuva e sereno!
-Eu? Sinceramente, nunca fui para o tronco.
Aliás, na fazenda do meu senhor não há troncos e nem esses castigos que você me falou!
Um outro negro, que tinha o rosto e os braços marcados por cicatrizes e manquejava de uma perna, chegou perto de mim e falou:
-Está falando sério ou só se gabando?
-Eu falo sério!
Fui comprado na fazenda ainda menino, cresci vendo os escravos trabalharem muito.
Mas nenhum deles sofreu estes castigos, a não ser nestes últimos tempos: tivemos uma situação por lá envolvendo até a fuga de um negro.
A história foi que o senhor resolveu fazer o negro de mulher dele!
Outro negro, chegando mais perto, acrescentou:
-Se os deuses não tiverem pena da gente, não sei qual será o nosso fim!
Dia desses, eu ouvi uma conversa estranha entre o meu senhor e um outro que não conheço.
Esse outro contou que recebeu uma proposta para que vendesse um escravo de sua fazenda.
No começo, ele rejeitou a proposta, mas o senhor interessado na compra insistiu muito; por fim, pagou uma quantia que daria para comprar dez bons escravos!
O dono do escravo fez o negócio, e entregou o negro.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 17, 2016 10:07 am

Tempos depois, ficou sabendo que o negro havia morrido.
E esse mesmo comprador voltou a negociar, com outro senhor, que pediu por um negro uma quantia suficiente para comprar cinco ou seis bons escravos; pois bem: o homem pagou na hora!
0 senhor que vendeu ficou sabendo que o negro terminou morrendo de forma estranha.
Então, começaram a desconfiar das atitudes do senhor que comprou os escravos, que por causa dessas besteiras perdeu muito dinheiro.
Ficamos em silêncio.
O negro fez uma pausa e continuou falando:
-Eles comentaram que um dos escravos deste senhor fugiu, e que ele ficou tão furioso que ofereceu uma quantia que dava para comprar escravos e mais escravos!
Foi a partir daí que passaram a desconfiar dele:
na fazenda do pai dele negro nenhum nunca tinha fugido!
Foi só ele tomar conta que começou a acontecer uma coisa atrás da outra!
Ouvi meu senhor comentar com seu amigo que esse homem está viajando, e que a mulher dele havia enlouquecido, e por isso ele não a levou.
Talvez por medo da família dela!
Dizem que ele deixou um administrador tomando conta das fazendas dele, e que os outros senhores o estão investigando.
Eu ouvi a conversa e meu coração disparou.
Meu Deus! Eles estão falando é do meu senhor e da minha sinhá!
O negro que havia começado a conversa, olhando pra mim, perguntou:
-Você disse que na fazenda do seu senhor os escravos não são castigados?
-Disse. É a fazenda desses senhores que entraram nesta pousada!
Respirando fundo, acrescentei:
-Vejo que você é bem informado!
Anda muito na cidade?
-Toda semana venho com o meu senhor! -respondeu ele, orgulhoso.
-Então me diga uma coisa:
o que você sabe da casa onde são alugadas as jovens escravas?
-Qual delas? -respondeu ele.
-Tem outra? -perguntei assustado, porque, de facto, nunca pensei que existisse nem aquela casa, que dirá outras!
-Aqui na cidade há várias casas em que se alugam escravas!
Tem senhor de fazenda pegando as escravas filhas dos feitores com as negras e alugando para o divertimento dos outros senhores.
Mas se você se refere à da praça principal, eu ouvi falar que ali se encontram as negras mais bonitas, e que a dama as ensina a se comportarem como se fossem brancas.
Usam roupas e perfumes iguais aos das damas, e por umas poucas horas com elas o preço é alto.
A dama está ganhando um dinheiro danado, e é sócia de um grande senhor da Lei; por isso a casa dela não é revistada.
Na certa há negros fugitivos lá dentro, trabalhando, e a dama só recebe lá quem ela quer!
Um negro mais idoso, que até então estava calado, aproveitou a pausa e falou:
-Pessoal, o que eu já ouvi falar dessas casas eu nem posso acreditar!
Nós reclamamos às vezes do nosso sofrimento e da nossa falta de sorte como homem.
Mas devemos ter pena mesmo é dessas meninas, que são obrigadas a se deitarem com esses monstros brancos!
Segundo Laurinda, uma negra velha que ajuda como parteira numa dessas casas, as doenças estão acabando com elas.
São obrigadas a fazerem abortos, e muitas ficam doentes.
E já há casos em que a coitada chega até o fim da gravidez, e quando dá à luz é obrigada a se desfazer dos filhos!
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Ave sem Ninho

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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 17, 2016 10:08 am

Os filhos são todos dos senhores!
Por isso, eles obrigam a dona da casa a matá-los!
E as infelizes que sobrevivem e não conseguem mais realizar o que se deseja delas acabam também adoecendo e morrendo, ou se matando.
Diz Laurinda que o fundo da casa é um verdadeiro cemitério de filhos e mães.
Podem vocês observar que todas essas casas são bem trancadas, e com terreno grande nos arredores e nos fundos; assim, eles enterram os desafortunados e ninguém sente a falta deles.
Ficamos nos olhando, e o negro velho continuou falando:
-Pois é, meus filhos, eu tenho idade para ser pai de vocês, e tem dias que me pergunto quando é que Deus vai tomar uma providência.
Antigamente filhos dos negros eram bem tratados enquanto bebés, com leite e tudo, para crescerem e se tornarem fortes a fim de serem bons escravos dos seus senhores.
Agora, nascem os filhos deles com nossas filhas e são mortos, porque não são nem brancos e nem negros!
O que vai acontecer daqui a alguns anos?
Hoje nós já temos muito mais da metade de filhos na senzala gerados pelos senhores e seus feitores, alguns com beiços finos, outros com olhos claros, cabelos avermelhados e assim por diante!
Como explicaremos a estes jovens que eles carregam o sangue branco nas veias?
E como vamos odiar os brancos se eles fazem parte de nossa família?
Ele falava e as lágrimas escorriam pelas faces.
-Eu mesmo tenho uma neta assim.
Nunca cheguei perto dela!
Vi a garota algumas vezes de longe...
Ela tem os olhos verdes, beiços finos, cabelos lisos e uma cor que fica entre branco e negro.
Sei que ela é filha do meu senhor...
E sabem o que ele fez com ela?
Colocou-a em uma dessas casas de aluguel!
Dizem que ela rende mais pra ele que dez negros na lavoura!
Foi isso o que eu ouvi os feitores comentarem.
Na verdade, nossas filhas estão se transformando em produtos de prazer nas mãos dos brancos.
Um outro acrescentou às palavras do preto velho:
-Isso é verdade!
Lá na fazenda, três mulatas foram levadas.
Dizem que não foram vendidas, mas alugadas!
Eu ouvi uns feitores bebendo cachaça e brincando; diziam que em pouco tempo o maior negócio do país não será mais o café nem o cacau e nem o boi, e sim as mulatas!
E que muitos senhores já as vendem para o estrangeiro!
Um deles, que não havia falado nada, resolveu também dar a opinião dele:
-Eu conheci um negro chamado Isaías, que me contou um segredo e jurou pelos nossos deuses ser verdade.
Disse-me ele que um tal senhor -deve ser o mesmo de que vocês falavam -primeiro obrigou a esposa a ter relações sexuais com um negro na frente dele, e que a sinhá engravidou do negro.
Depois o maldito aprisionou o negro, e fazia o que queria com ele.
Que esse senhor é um pervertido sexual, ele gosta de homens!
Especialmente dos negros!
Isaías também me contou que a sinhá teve um filho desse escravo, e que o senhor queria matar o menino na frente da mãe, mas resolveu usar o garoto para castigar o negro e obrigá-lo a servi-lo em suas perversidades sexuais; só por isso ele não matou a criança.
E disse-me que uma escrava de nome Anita, com ajuda da sinhá, conseguiu fugir com o menino e o negro, que se chamava António.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 17, 2016 10:08 am

E, segundo Isaías, estes fugitivos estão sendo procurados a preço de ouro, talvez por causa do menino!
A sinhá depois disso ficou louca.
Quando ele me contou eu não quis acreditar, porque via o senhor dele de longe:
parecia muito sério e tranquilo.
Mas um dia, com esses olhos aqui que a terra há de comer, eu o vi olhando por baixo do chapéu para um negro que rachava lenha, e era um olhar estranho!
Depois fiquei sabendo que ele comprou este negro pagando pelo preço de cinco escravos!
E dizem que ele levou o negro escondido, e até viajou para fora do Brasil com ele.
Eu ouvi aquilo e fiquei sem fala.
Nós ficávamos trancados na fazenda, e não sabíamos do que se passava pelas cidades, que cresciam a cada dia.
Por último, um negro que tinha um dos olhos vazados disse:
-Ouçam o que eu vou relatar para vocês:
me contaram que essas casas que alugam moças estão servindo também a navios, e navios lotados de homens brancos que vêm de fora do Brasil para trabalharem nos engenhos e nos negócios dos senhores brancos!
Ontem mesmo a casa da praça principal estava lotada de homens brancos que chegaram de longe.
São barulhentos e usam umas roupas estranhas.
Ouvi dizer que são portugueses.
Não entendi nem uma palavra do que falavam, mas entrei lá dentro da sala da casa de aluguel, fui levar umas caixas com bebidas; meu senhor parece que conhece a dona de lá!
Ele fez uma pausa.
Parecia lembrar-se do que vira lá dentro.
-Lá dentro é um luxo que eu nunca vi, nem na casa do senhor!
Tem cheiro de perfume, tapetes de couro espalhados pelo chão, um balcão cheio de copos e bebidas e muitas mulatas, bem diferentes de como estamos acostumados a vê-las!
Eu respirei fundo e perguntei:
-Falaram-me que nenhum escravo pode entrar lá casa da dama branca, nem mesmo acompanhando o seu senhor.
Como é que você conseguiu entrar?
-Nem feitor pode entrar naquela casa da praça principal, muito menos escravo!
Tem outras casas mais afastadas em que os feitores entram.
Se o senhor tiver influência e precisar carregar coisas até lá, lógico que os escravos entram!
Meu senhor levou para a casa da praça bebidas do estrangeiro, chegaram no navio que trouxe os homens brancos!
Ouvi dizer que os senhores estão ganhando com mulheres e com o que os brancos consomem enquanto estão com elas.
Então, vi o sinhozinho chegando no salão e olhando em volta.
Corri para que ele me visse; ele acenou, e eu fui até ele.
-Negro Miguel, hoje eu vou passar uma noite diferente, e você vai me acompanhar, levando algumas coisas que preciso transportar.
Nós sairemos assim que escurecer, e você volta num pé!
Aqui na cidade, tanto quanto na senzala das fazendas, os negros não podem circular depois das vinte horas se não estiverem acompanhados do seu dono.
Assim sendo, vou subir e me arrumar.
Se você desejar ir ao banheiro, aproveite e vá!
Na volta, vá se banhar e procure ir jantar com os outros negros.
Depois, vá deitar-se no seu canto e não saia de lá em hipótese alguma, ouviu?
-Sim, senhor, pode ficar sossegado que eu não irei desobedecer as suas ordens.
-Muito bem, me espere aqui mesmo.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 17, 2016 10:08 am

Assim que eu descer nós iremos.
Já mandei reservar e preparar a carruagem; você me leva e depois volta com a carruagem.
Amanhã cedo não precisa ir me buscar, eu alugo uma carruagem e volto, então seguiremos viagem para a fazenda.
Ele afastou-se, e o negro velho me perguntou:
-Esse é o seu senhor?
-Bem, ele é filho do administrador da fazenda.
O meu senhor, que é o marido da sinhá, está viajando -respondi.
Um deles, falando baixo, comentou:
-Aposto que ele vai passar a noite na casa da dama!
O meu senhor toda semana faz isso.
Hoje mesmo ele irá, e é bem capaz que os dois cheguem lá lado a lado.
-E sua sinhá, ela está sozinha lá no quarto?
Não trouxe nem uma mucama?
-Ela veio fazer compras para a fazenda, mas não se sentiu bem e acabou pedindo para pernoitar aqui e voltarmos amanhã.
Combinamos que iríamos tomar banho e comer juntos.
Logo cada um foi atender os seus senhores, e eu também corri, vendo o sinhozinho todo enfeitado, penteado e perfumado.
Sentou-se na carruagem e eu fui junto com o cocheiro; lá na praça, ele desceu e comprou um pacote grande de coisas que eu não pude ver.
Pediu que eu subisse com ele para entregar o pacote.
Meu coração saltava dentro do peito!
Quando entrei no salão, as lamparinas estavam acesas.
Uma dama toda pintada, e vestida de um jeito estranho, recebia os convidados e chamava alguém; aparecia uma moça e sumia com os senhores pelos corredores.
Quando foi a vez do sinhozinho, ele cochichou no ouvido dela, colocou em sua mão uma quantia em dinheiro que ela olhou, verificou, sorriu e gritou: número 21!
Qual não foi o meu susto ao ver Anita vindo igual às outras!
Nem parecia mais a moça que eu ajudei a sair da fazenda do senhor.
Ela falou no ouvido do sinhozinho:
-Ele pode levar até o quarto?
-Pode! Ele é o negro Miguel.
Ela, fingindo não dar importância, respondeu:
-Traga até o quarto este pacote, negro Miguel!
Antes de acompanhar Anita, vi o sinhozinho tirando do bolso um envelope e entregando escondido para a dama, que o colocou no seio e lhe respondeu alguma coisa.
Anita depressa me perguntou:
-Como está o menino?
-Na fazenda, perto da sinhá.
Ela sabe que ele é seu filho.
E António? Ele está bem?
A dama sabe o que aconteceu com vocês? perguntei ansioso.
O sinhozinho aproximou-se antes que ela me respondesse.
Ele abriu a porta do quarto, eu depositei o embrulho na mesa, e então ela disse:
-Está tudo bem connosco.
Pode ir, negro Miguel, siga em paz!
Olhou para mim e piscou.
Eu entendi o recado dela.
António também trabalhava ali na casa da dama. O que será que ele fazia?
A dama nunca gostou dele na fazenda; será que ela sabia o que acontecera com António e a sinhá?
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 17, 2016 10:08 am

Saí pela porta lateral e dei de cara com António, que estava disfarçado:
usava barbas e um chapéu de palha.
Não pude abraçá-lo, mas perguntei:
-Como vai?
Ele respondeu baixinho:
-Estou bem.
Como vão a sinhá e o menino?
-Os dois estão bem, e vivem na fazenda.
O menino é criado na senzala como filho de uma escrava, mas a sinhá sabe que é o filho dela.
-E o maldito? - Ele perguntou arrumando o feixe de lenha nos braços.
Eu fingia aguardar que ele saísse para que eu pudesse passar.
-O senhor viajou para o estrangeiro.
Deixou um administrador cuidando das fazendas e da sinhá, que se curou, com as graças de Deus.
Um outro me empurrava para fora, dizendo:
-Ei, irmão!
Vamos saindo, aqui ninguém pode parar!
Saia depressa, porque aqui também tem feitor, a diferença é que são mulheres!
Logo pude entender o que ele dizia:
uma moça branca, com cabelos da cor de fogo, apareceu do nada e começou a esbravejar, dizendo:
-Aqueles que não estiverem satisfeitos em trabalhar nesta casa continuem fazendo besteiras, e voltarão aos troncos dos seus senhores!
Ela continuou resmungando:
-Esse negócio de deixar os negros de fora entrarem aqui, com a desculpa de entregar isto e aquilo, está nos causando grandes aborrecimentos!
Precisamos tomar providências! -Dizia isso olhando para mim.
Eu voltei na carruagem que levou o sinhozinho, e no caminho o cocheiro me convidou para sentar perto dele.
Puxou conversa comigo, perguntando-me:
-O que você viu lá dentro?
As mulheres são bonitas mesmo?
Só tem negras ou brancas também?
Ao que eu respondi:
-As únicas mulheres brancas que vi lá dentro foram a dona da casa e as feitoras!
Não vi nenhuma das moças que são alugadas.
Ele falou, virando os olhos:
-Eu tenho a maior vontade de entrar naquela casa!
Já entrei em duas casas que ficam do outro lado do centro da cidade, porém aquela casa é a mais cobiçada por todos...
Mas só entram endinheirados!
Quem sabe um dia eu consiga entrar lá e me divertir com alguma mulata de olhos verdes!
Dizem que há lá umas mulatas, filhas dos feitores, que são verdadeiras princesas...
-Isso eu não sei, não, senhor!
Não vi nenhuma das moças.
Só entrei, coloquei o pacote onde mandaram e saí.
É proibido ficar parado lá dentro.
Assim que chegamos, fui directo para o banho, e logo em seguida acompanhei os outros escravos à mesa onde a nossa comida estava sendo servida.
Quando acabei de comer, uma negra velha veio para perto de mim e disse:
-Vá lá fora que a sua sinhá quer falar com você!
Eu dei a volta e fui até onde ela estava, sentada em um banco do jardim.
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 17, 2016 10:09 am

Fiquei em frente dela e disse:
-A sinhá quer falar comigo?
-Miguel, sente-se aí na grama, vamos conversar!
Eu hoje coloquei em risco a minha vida, a vida do meu filho e de outras pessoas.
Escrevi uma carta para Rose e lhe contei toda a verdade.
Pedi ajuda a ela, a fim de que possa proteger António e Anita.
Segui o que você me sugeriu:
escrevi para Rose e pedi ao senhor que entregasse a ela a carta e me trouxesse resposta.
Eu disse a ele que estava pesquisando os preços das cortinas e dos tecidos que vêm do estrangeiro; como não podia ir lá pessoalmente, ela me responderia através de uma carta.
Avisei ao senhor que mantivesse sigilo, pois ninguém poderia saber que eu enviei uma carta àquela mulher, assim como ninguém podia saber que ele frequentava aquela casa.
-Bem, sinhá -disse eu -, hoje entrei naquela casa para levar um pacote para a negra de aluguel do sinhozinho; essa negra é Anita!
Na saída, deparei com António, que carregava lenha.
Ele me parece muito bem:
anda como os outros, bem disfarçado, usa até um chapéu e deixou a barba crescer!
Dei notícias da sinhá e do menino para ele e para Anita.
-Eu vou subir e você também se recolha, Miguel.
Aguardaremos o resultado, e seja feita a vontade de Deus.
Naquela noite custei a dormir, pois havia muito barulho.
Lembrei-me do que falavam avó Joana e o negro velho Zacarias:
"No meio do nosso sofrimento, deixamos as coisas boas passarem despercebidas.
Não tem lugar melhor no mundo para se dormir que a nossa senzala..."
Eles tinham toda razão!
Ali, deitado naquele jirau de palha de milho, virando-me de um lado para o outro, não conseguia pregar os olhos.
Era barulho de gente e de carruagem, o tempo todo; parecia que ali ninguém respeitava o silêncio da noite!
Dormi mal, e me levantei cedinho.
Encontrei os meus irmãos de sina, fomos fazer nossas necessidades e aproveitamos para conversar e conhecer as moças que trabalhavam na pousada.
Nessas horas que os sinhozinhos e sinhás ainda dormiam, a gente aproveitava para namorar às escondidas, principalmente quando os feitores, cansados pela fadiga da noite, cochilavam pelos cantos.
A negra velha chamou as moças, e elas tiveram que ir cuidar de suas tarefas.
Alzira, uma das escravas que eram filhas da casa, falou em voz alta, revoltada:
-Meu sonho é ir trabalhar na casa das damas!
Dizem que lá é só luxo, ninguém trabalha pesado, come do bom e do melhor, e se veste e se perfuma como qualquer branca!
Eu quero ser vendida para uma dessas casas!
Vou começar a mostrar o meu corpo para o meu senhor; quem sabe ele me veja e queira me alugar!
Estou cansada de viver neste lugar, sem nunca ter visto nada!
Eu só ando da cozinha para os quartos, nunca vejo as pessoas bonitas!
Tenho inveja também de vocês! Reparem só!
Dormem em quartos arrumados, comem melhor do que nós! Passeiam!
Acompanham os senhores e ficam aí de papo pro ar, sem fazer nada!
Eu respondi a ela:
-Esse é o pior sonho que você já sonhou em sua vida!
Virar uma escrava de aluguel!
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 17, 2016 10:09 am

Se você soubesse o que se passa lá dentro com essas meninas, nunca iria desejar estar no lugar de nenhuma delas!
-Credo! E o que é que você sabe delas?
Por acaso já trabalhou lá? perguntou ela, com as mãos na cintura.
-Sei que elas estão cheias de doenças, e muitas morrem e são enterradas lá no fundo da casa-grande.
E há outro detalhe:
nenhuma delas têm filhos!
Sabe o que acontece com os filhos delas?
São mortos!
E elas apanham e se sujeitam aos desejos dos brancos, que fazem delas o que bem entendem.
São tratadas da pior maneira que você pode imaginar; sei disso porque converso com pessoas que conhecem a história dessas casas.
-Deus me livre!
Se eu quero uma vida dessas pra mim!
Aqui eu trabalho, mas como e durmo em paz e não sou violentada!
Posso escolher um negro para me casar e ter os meus filhos perto de mim; o nosso sinhozinho conserva pais e filhos juntos!
Acho que estou falando bobagens!
Ela saiu correndo, e eu fiquei pensando na situação que ouvi da boca dos outros escravos:
as mulatas rendiam fortunas para os senhores, que já a estavam levando para fora do país; e meninas como Alzira, escutando aqui e ali o que se falava das moças de aluguel, inocentemente sonhavam em se tornarem uma delas.
Para os senhores, isso era bom!
Facilitaria o tráfico, pois elas iriam de bom grado, pensando que mudariam de vida; e já conhecíamos casos em que as mocinhas eram maltratadas dentro das senzalas e sempre aparecia o convite de um feitor a mando do seu senhor; assim, ele lucrava prostituindo sua escrava.
E os filhos dessas infelizes? Pobres crianças!
Estavam sendo mortas sem dó nem piedade; alguém tinha que fazer alguma coisa!
Se fôssemos verdadeiramente maldosos, iríamos achar bom que os filhos dos brancos fossem mortos, e até facilitar isso.
Assim nos vingaríamos pelas mortes dos nossos filhos.
Porém, o ser humano carrega algo chamado consciência cristã, sendo branco ou negro, e não poderíamos permitir que crianças inocentes -como Frederico, filho da minha sinhá -fossem mortas, só porque nasceram com a pele escura.
Enquanto matutava com o meu medo, avistei uma carruagem chegando: era o sinhozinho, com cara de sono e cansaço.
Corri para ajudá-lo a descer, e ele me disse:
-Miguel, ainda é cedo; vou dormir um pouco, e quando a sinhá descer para o café você diz a ela que nós vamos pegar a estrada logo após o almoço.
Ele subiu, e eu fiquei esperando o café e os outros negros para continuar com a nossa prosa.
Logo estávamos todos juntos no nosso canto, trocando informações.
0 negro velho me perguntou:
-Teu sinhozinho voltou hoje cedo; passou a noite na casa da dama?
-Pois é, ele passou a noite por lá.
Eu o levei ontem, e veja o horário em que volta!
Morto de sono e cansaço.
Não sei se isso é tão bom assim, não!
Ele se arrisca a pegar uma doença; dizem que lá no meio daquele luxo é fácil pegar uma doença!
Comentam até que é doença dos estrangeiros!
Você já ouviu falar nisso?
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Re: A SAGA DE UMA SINHÁ - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 17, 2016 10:09 am

-Não só já ouvi falar, como já vi gente morrer por essa tal doença chamada de sífilis!
Apodrece as partes tanto do homem quanto da mulher!
Não tem perdão, essa doença mata mesmo!
Cega e aleija os que são contaminados.
E pega com facilidade; é bom que todos saibam e tomem cuidados.
O meu medo é que já conhecemos casos de negros contaminados vivendo na senzala!
Isso pode levar a morte lá pra dentro.
-Como assim?
Eles estão indo às casas das damas?
-Não é preciso!
Alguns feitores e senhores andaram com as mulheres destes escravos e jogaram suas doenças; agora a gente pode ter várias outras pessoas contaminadas, inclusive crianças, que podem nascer defeituosas, cegas e com outras doenças até piores.
-Meu Deus! O senhor está falando sério mesmo?
-Menino! Você acha que o assunto é pra brincar?
É pra você, que é moço, ficar de olhos abertos e não sair por aí aproveitando as chances com qualquer uma.
Pra sarar eu não sei o remédio, mas pra pegar a tal doença eu garanto que é num minuto!
Olha, meu filho, eu vou lhe contar uma coisa que ouvi dos mais velhos, quando ainda era um menino:
o velho António, sentado no seu banco debaixo da aroeira velha, dizia pra gente que ainda era pequeno, que ia chegar um momento no mundo em que a escravidão não ia ser nada, perto do sofrimento que estava chegando!
Eram umas doenças bravas, que não tinha doutor branco nem mão de nenhum negro com experiência no oculto que iriam salvar os doentes!
Essas doenças iam matar brancos e negros; ensinariam que brancos podem sofrer igual aos negros, e também mostrariam aos negros que o bem e o mal, quando Deus permite, pegam tanto o branco quanto o negro!
Fez uma pausa, e prosseguiu:
-Nós, ainda meninos, ficávamos de olhos arregalados e tremendo!
E eu digo mais, filho, estou vendo acontecer o que nossos mais velhos já diziam.
Essas doenças não existiam por aqui naqueles tempos, e agora matam brancos e negros.
O que mais tem por aí é sinhá contaminada.
Semana passada mesmo vi uma sinhá sendo enterrada por causa dessa doença; e dizem que o marido não vai longe, e que tem muito negro contaminado por lá!
Um outro amigo, que estava perto da gente, pediu licença e entrou no assunto.
-Olhe só o que eu já ouvi dizer dessa doença:
que se a gente usa resto de sabão, navalha para fazer a barba e as roupas dessas pessoas pode pegar a doença!
Será que isso é verdade?
O negro velho coçou a barba e respondeu:
-Para ser bem sincero eu não sei lhe responder com clareza o que é falso ou verdadeiro nisso, mas deduzo que se a doença está no sangue da pessoa, está na carne também; então, acho que para passar a outro corpo é bem fácil!
O outro negro prosseguiu falando:
-E o senhor não ouviu também dizer que uma tal doença chamada tuberculose vem se alastrando e matando muitos brancos que vêm de fora do Brasil, já com a doença?
-É, eu sei de muitos casos de morte por tuberculose, principalmente entre os que moram nas cidades.
E esta doença também é contagiosa e mata sem dó!
As pessoas que estão morrendo sentem febre, ficam fracas, emagrecem rápido, tossem até vomitar sangue e vão se esvaindo até a morte.
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