Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

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Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 23, 2016 10:04 am

Vozes do Cativeiro
Maria Nazareth Dória

Luís Fernando (Pai Miguel de Angola)

Os ESCRAVOS, NO BRASIL, SOFRERAM CASTIGOS E OPRESSÃO.
MAS DEIXARAM EXEMPLOS DE LUZ E AMOR.


O período da escravidão no Brasil marcou nossa História com sangue.
Castigos, dor e sofrimento fizeram parte do cotidiano da colónia por séculos.
Negros foram separados de suas famílias e crianças cresceram em meio à dura realidade do trabalho forçado.
Mas o legado dos irmãos africanos para as gerações futuras foi muito maior.
Exemplos de humildade, de religiosidade, afecto e carinho também deixaram marcas em nossas terras.
Nesta obra, o espírito Luís Fernando, o querido Pai Miguel de Angola, pela psicografia de Maria Nazareth Dória, vem nos trazer informações importantes não encontradas em nenhum livro escolar.
Ele viveu na carne a escravidão e nos fala sobre a Lei dos Sexagenários e a Lei do Ventre Livre, revelações fundamentais para pesquisas e para o verdadeiro conhecimento dos fatos.
Aqui, vamos encontrar muitas histórias que foram soterradas na consciência dos negociantes sobre a corrupção que reinava na época.
Vozes do cativeiro, um romance emocionante, nos ensina que, apesar do sofrimento desses seres humanos, nossos irmãos, a misericórdia Divina sempre esteve presente e proporcionou aos escravos a chance de sonhar, ouvir os pássaros e conviver com a natureza.
As vozes do cativeiro agora são o som dos tambores e dos cantos de alegria em louvor aos mentores espirituais.
A médium Maria Nazareth Dória nasceu no dia 28 de fevereiro em Canhoba, no interior do estado de Sergipe, mais precisamente em uma aldeia indígena.
Lá permaneceu até os 9 anos de idade, quando foi matriculada em um colégio interno de freiras na capital, Aracaju, e completou seus estudos.
Aos 17 anos, casou-se e mudou-se para São Paulo. Teve duas filhas.
Nesse período, deu sequência aos estudos e iniciou sua carreira profissional, trabalhando durante 30 anos, dos quais 22 como funcionária da Petrobras, empresa pela qual se aposentou.
A mediunidade de Maria Nazareth Dória se manifestou desde cedo, por volta dos 7 anos.
Descendente de índios, Nazareth sempre foi orientada sobre a existência da vida espiritual e a importância da natureza em nossa vida, sobretudo no campo da medicina alternativa.
Graças a esse aprendizado, Maria Nazareth Dória tem se dedicado hoje exclusivamente às actividades espirituais e á pesquisa de plantas medicinais, obtendo excelentes resultados alternativos com essências naturais.
É fundadora e dirigente de instituição sem fins lucrativos há 15anos, atendendo e orientando centenas de pessoas (inclusive jovens), contando com o apoio de médicos, dentistas, advogados, enfermeiras, psicólogos e professores.
O atendimento á população carente estende-se em diversas áreas, do apoio às necessidades básicas da família até o trabalho de afirmação de cidadania daqueles que vivem á margem da sociedade.
Além das actividades filantrópicas, Maria Nazareth Dória ministra cursos e palestra sobre a Doutrina Espírita e exerce sua mediunidade há mais de 30 anos, psicografando diversos romances sobre o mundo espiritual, mensagens de auto-ajuda e pensamentos espirituais notadamente sob a óptica da Lei de Acção e Reacção, um dos pilares básicos dos ensinamentos trazidos pelos amigos do Além que trabalham com a médium.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 23, 2016 10:04 am

Introdução

Lembramos aos leitores que, em Lições da senzala, pai Miguel de Angola conta passagens da própria vida enquanto encarnado.
Em A saga de uma sinhá e Minha vida em tuas mãos, retrata a vida de outros irmãos.
E, nesta obra, expõe em detalhes vários acontecimentos que não foram registrados em livros de História brasileiros sobre a escravidão.
Pai Miguel de Angola apresenta revelações importantes para pesquisas actuais, citando diversos dados que nos enriquecem e abrindo novas portas, até mesmo aos estudantes que se interessam pela raiz da verdadeira história da escravidão no país.
Uma revelação irreal e que consta dos arquivos é que o último navio negreiro que transportava escravos da África fez sua derradeira viagem ao Brasil em 1856.
São dados que estão registrados em bibliotecas, nos quais os alunos se baseiam para apresentar trabalhos e participar de debates escolares.
Mas não encontram autenticidade quando comparados aos dados que são apresentados pela espiritualidade!
Por muitos e muitos anos, dezenas de negros foram trazidos e escravizados nas fazendas dos senhores, de norte a sul do país.
A entrada no Brasil ocorria do mesmo modo que acontece nos dias de hoje com produtos ilegais.
Os jornais daquela época eram iguaizinhos aos dos dias actuais.
Havia muita corrupção na fiscalização - com isso, não desejamos afirmar que todos os fiscais são corruptos; pelo contrário, sabemos que existem pessoas honestas e sérias com relação a seus deveres.
Os esquemas, sim, são falhos dentro de muitas organizações.
Os corruptos dos navios negreiros, que tão somente haviam mudado de cor, nada viam nada sabiam, porque não há nada melhor que ouro, esmeralda e outros mimos para que todos se tornem cegos e não avistem absolutamente nada passando sobre as ondas do mar.
Sem mencionar que muitos negros foram trazidos como reféns; para fins legais, eram cidadãos livres.
Vinham famílias inteiras que declaravam estar aqui por livre e espontânea vontade.
Essas pessoas, ao serem contactadas e se certificarem do paradeiro dos entes queridos aqui no país, sujeitavam-se a vir trabalhar nas fazendas dos senhores, no mesmo regime de escravidão dos que haviam sido arrebatados da própria família, retirados de sua terra por força brutal.
A história oficial nos fala muitas verdades, mas outras tantas ficaram soterradas na consciência dos negociantes e na corrupção que reinava, e reina até os dias atuais.
Pai Miguel revela certos fatos que ficaram ocultos atrás das paredes do tempo.
Muitos senhorzinhos lucraram e enriqueceram com estas falsas bondades.
Colocavam ex-escravos de confiança para descobrir onde se encontravam os parentes dos que lhes convinham.
Uma crise na época também levou os fazendeiros a cometer loucuras.
A história também não cita que muitos negros trabalhavam contra seus irmãos de sorte; não raro, eram os próprios negros que passavam todas as informações de lugares e pessoas aos caçadores de escravos, que levavam os negros presos e acorrentados para entregar aos comerciantes estrangeiros.
Esses delatores continuavam na aldeia como se nada houvesse acontecido e, com dinheiro no bolso, aguardavam por um tempo para então se dirigir a outras localidades mais seguras, sem deixar a África nem ser molestados.
Há um ditado muito usado hoje em dia que nasceu naqueles tempos.
Os senhores se reuniam para discutir estratégias de comercialização legal de escravos e finalizavam dizendo:
"O negócio é matar dois coelhos com uma cajadada só!"
O escravo, feliz e agradecido ao senhorzinho por ter a família perto dele, dava a vida por seu senhor.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 23, 2016 10:05 am

E este "lamentava" a sorte do escravo, dizendo-lhe que não havia sido culpado de seu destino; fora apenas um comprador.
Se não ele, teria sido qualquer outro.
E, para tornar tudo mais real, simulava lágrimas, fingindo lembrar-se de quando o comprara e afirmando ter sentido pena de sua infelicidade.
Com isso, o senhor tinha as mãos e os pés beijados pelos escravos e por sua família; era garantia de fidelidade absoluta aproximar o escravo dos entes queridos de novo.
Felizmente, em algum momento, a estratégia fracassou.
Caso contrário, o Brasil continuaria até os dias de hoje escravizando africanos.
A luta pela liberdade dos negros se avultava contra os senhores de escravos; pressões europeias cobravam providências do Brasil, e os senhores se desesperavam vendo que estava próximo o fim daquele nefasto sucesso.
Um marco importante para a questão dos negros no Brasil foi a Guerra do Paraguai, de 1864 até 1870.
Centenas de escravos foram treinados e levados para combater ao lado dos brancos, assim como muitos índios, em particular do Mato Grosso.
Os indígenas foram influenciados pelo homem branco, abrandando, de certa maneira, seus costumes.
O lado positivo é que os índios simpatizaram e abraçaram o movimento de liberdade dos negros.
Muitos negros morreram com um sorriso nos lábios; ali eram tratados com igualdade: matar ou morrer!
Todos carregavam um sonho:
que, se voltassem com vida, seriam libertados com toda a família; e esta, no caso dos que morressem defendendo o Brasil, seria beneficiada.
Em 1870, fim da guerra - vitória brasileira!
Os que retornaram foram condecorados, considerados heróis, e então tiveram outro embate a travar:
os senhores que haviam lhes prometido liberdade, e às respectivas famílias, recuavam agora ao cumprir o acordo.
Nessa ocasião, já havia dezenas de quilombos esparsos por todo o território brasileiro, e muitos simpatizantes das causas da abolição juntaram-se a eles.
Houve diversas fugas e rebeliões nas fazendas dos senhores após a Guerra do Paraguai.
Alguns descendentes de negros e ex-escravos já tinham adquirido força, cultura, poder e dinheiro, e esses homens abraçaram a luta com convicção.
Citamos dois grandes exemplos da época:
António Bento (advogado, promotor e juiz) e Luiz Gama (rábula, jornalista e poeta).
Pai Miguel aborda os acontecimentos que marcaram e determinaram o fim da escravidão no Brasil, sempre nos chamando a atenção para o facto de que a união só apresenta bons resultados quando todos têm apenas um desejo; quando honestidade e lealdade caminham lado a lado.
Foi da união entre negros, mulatos e brancos, conscientizados e humanizados, que surgiu um desejo único:
tornar o Brasil uma pátria verdadeiramente livre, porque seria dado aos seres que ali habitavam o reconhecimento de que todos eles eram filhos de Deus, não importava a cor da pele.
Tal como acontece ainda hoje, só se modificam as fórmulas e os nomes que se dão às mudanças das leis, sempre no sentido de encontrar saídas que beneficiem em particular os que estão no poder.
Em 28 de setembro de 1871 foi assinada a Lei do Ventre Livre, após muita luta e pressão por parte do Senado.
Pai Miguel relata bem em sua obra a exploração humana dessa lei.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 23, 2016 10:05 am

A Lei do Ventre Livre previa a liberdade dos filhos nascidos a partir dessa data. Até os 21 anos eles poderiam permanecer com os senhores ou ser entregues ao Estado.
A Lei do Ventre Livre teve o efeito de uma bomba, trazendo muita dor; porém, o sacrifício de muitos inocentes ajudou a construir uma ponte que levou à libertação de todos, independente da idade.
A revolta crescia dia a dia, e os ingénuos - como ficaram conhecidos os beneficiados pela lei - eram todas as crianças nascidas a partir de 1871.
Os ingénuos passaram a sofrer todo tipo de castigo, e muitos desapareciam sem deixar rastro.
Os senhores burlaram tantos registros de nascimento que seria impossível controlar a demanda; os cativos poderiam ter um mês de vida e dez no registro, nos três primeiros anos de vigor da lei, e logo em seguida começou a se dar o contrário:
crianças de dez anos passaram a ter um mês de vida no papel.
Como sempre, a lei foi criada para burlar pressões estrangeiras; nada como o conhecido "jeitinho brasileiro" para resolver tudo em um almoço ou em um rico jantar, com algumas pedras preciosas estendidas sobre a mesa.
Diante das muitas pressões dos que verdadeiramente lutavam de modo incansável, apenas em 28 de setembro de 1885 foi promulgada a Lei dos Sexagenários, ou Lei Saraiva Cotejipe.
Essa lei libertava velhos escravos; os que completassem sessenta anos trabalhariam mais três para o senhor e então passariam a ser livres.
Os que tivessem 65 anos seriam libertos mediante o pagamento de alguma recompensa aos senhores, ou seja, se porventura o infeliz possuísse algum bem, não importava o que fosse, teria de deixar nas mãos do dono.
Os registros não mostram quantos sobreviveram, e os que conseguiram atingir tal idade não ficaram muito tempo pelas ruas, uma vez que não tinham como viver.
Pai Miguel chama a atenção para algo de que muita gente não tem conhecimento, pois a História do Brasil não faz muita questão de contar às gerações atuais, que o Ceará - terra do amado e respeitado médico dos pobres, doutor Adolfo Bezerra de Menezes - decretou a libertação dos negros em seu território em 1884, ou seja, quatro anos antes da assinatura oficial da Lei Áurea e um ano antes da Lei dos Sexagenários.
A partir da decisão do estado do Ceará, outras cidades brasileiras foram seguindo o exemplo.
Em 1887, muitas cidades já davam por decretada a abolição da escravatura em seu território.
Em 13 de maio de 1888, cedendo às pressões, o governo imperial, pelas mãos da princesa Isabel, assinou a Lei Áurea, extinguindo a escravidão no Brasil.
O documento original da lei, assinado pela princesa Isabel, encontra-se actualmente no acervo do Arquivo Nacional, na cidade do Rio de Janeiro.
Segundo Pai Miguel de Angola, a princesa Isabel não foi inspirada pelo espírito santo quando assinou a Lei Áurea.
Foi tudo muito bem planejado, quase um golpe de estado para enaltecê-la e livrar a nobre família de futuras represálias.
A assinatura da Lei Áurea foi mérito e honra dos abnegados homens de boa vontade, brancos e negros.
Maria Nazareth Dória

Sumário
Capítulo I - A revolta
Capítulo II - Planos nefastos
Capítulo III - A partida de Antero
Capítulo IV - A grande vitória
Capítulo V - A recompensa
Capítulo VI - A grande aliança
Capítulo VII - Tio Chico
Capítulo VIII - A sucessão de tio Chico
Capítulo IX - O reencontro
Capítulo X - Um emocionante nascimento
Capítulo XI - A viagem de Chico Preto
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 23, 2016 10:05 am

Capítulo I - A revolta
Ainda não eram nove horas da manhã, e o sol já incomodava as lavadeiras da casa branca e azul - marca registrada do respeitável senhor.
Todas as suas fazendas eram pintadas de branco e azul, lembrando o estilo europeu.
Tal característica determinava a quem pertencia a propriedade.
As lavadeiras cantavam e riam, brincando entre elas.
Assunta, responsável pelo grupo de mulheres, chamou a atenção:
- Escuta, minha gente, a prosa tá boa, mas vamos correr com essa roupa, que precisa de goma para não pegar o sol quente e amarelar!
De imediato, as mulheres encerraram as brincadeiras e passaram a recolher as roupas com rapidez.
- Traz a lata de goma aqui, Judite - pediu dona Assunta.
Vou misturar a quantidade certa de goma e água, e quero vocês todas olhando como é que se faz.
É uma mão de goma para meia lata de água.
Devemos mexer até a goma diluir bem; caso contrário, não se firma nos tecidos e estraga toda a roupa. Olhem aqui!
E fazia aquilo com tal destreza, que causava admiração nas outras.
- Agora vão me passando as camisas brancas do senhor, todas viradas do avesso.
E não torçam com força.
E as ordens prosseguiam.
- Corre lá, Zulmira, vá estendendo estas camisas por cima dos lençóis brancos nas cercas de estender roupa - falava Assunta, compenetrada no que fazia.
Agora, vamos às calças pretas e às outras peças.
Duas mãos de goma para meia lata de água, o resto já expliquei.
Tragam as anáguas das sinhás; estas peças sim é que têm segredo!
Duas mãos bem cheias de goma para meia lata de água e a gente pinga sete gotas de colónia.
Precisam ficar bem armadas para dar sustento às saias de seda, que não levam goma.
E vamos correr que não podemos perder tempo!
Qualquer descuido, o estrago é grande.
Todas se mantinham concentradas, pois as vestimentas dos senhores eram tão importantes quanto a comida; não se tratava de tarefa para qualquer uma.
Depois de todas as peças estarem estendidas sobre os alvos lençóis de sacos, era hora de virá-las.
E assim faziam, ficando mais descontraídas e voltando a brincar.
Uma das mulheres aproximou-se de Assunta e comentou baixinho:
- A senhora reparou quem está ali?
Esse rapaz parece que enlouqueceu depois que Arlinda foi embora.
A gente sabia que ele era doido por ela, mas não a esse ponto.
Dá uma espiada, dona Assunta.
Ele está embaixo da árvore.
Cada dia que passa ele fica pior, Deus me livre!
Sentado em um velho tronco de árvore, a cabeça do rapaz pendia-lhe sobre o peito, o olhar distante, o chapéu de couro caído de lado.
Ele, que era alegre e vivia assoviando para as mulheres e lhes contando pilhérias, agora parecia não se dar conta da presença de nenhuma delas.
Assunta puxou um cigarro de palha e, sem ter respondido aos comentários da companheira, apenas aconselhou:
- Judite, vai virando as roupas.
Vou até ali acender meu cigarro e trocar uma prosa com Antero.
Saiu em direcção aonde se encontrava o rapaz, que parecia alheio à sua chegada.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 23, 2016 10:05 am

- Bom dia, Antero! Quer um cigarro?
Empresta sua binga, que a minha está molhada.
- Bom dia, dona Assunta. Aceito o cigarro.
As ervas que a senhora coloca com o fumo me ajudam muito, sabia?
Quando estou com dor de cabeça é tiro e queda!
Oferecendo o fogo para a mulher que o observava, perguntou:
- A senhora teve notícias do pessoal do seu Bento?
Jogando uma baforada de fumaça para cima, Assunta respondeu:
- Tive sim.
Estão todos bem, graças a Deus, e você veja se levanta essa cabeça, Antero, e volta a se alegrar.
A gente não pode controlar o mundo nem os pensamentos das pessoas, mas pode se esforçar para viver melhor em qualquer situação.
Tenho fé que as coisas mudem para todos nós.
Na sua idade, a vida ainda está começando.
Não faça nenhuma besteira.
Do nosso amanhã só um é conhecedor: Deus.
Olhando para o horizonte como se buscasse uma resposta, o rapaz comentou:
- Não tenho mais ânimo para nada.
Minha vontade é largar tudo e sair mundo afora, mas para onde?
Não sou escravo nem filho de senhor!
Sou um intruso no meio deles, mas não posso tomar minhas próprias decisões.
Tenho de obedecer ao que manda o meu senhor.
Quem sou eu, dona Assunta?
- Tenha calma.
Todo mundo aqui sabe que você é filho do senhor.
Mesmo não sendo tratado como os filhos legítimos dele, você faz parte da família.
A sua avó, por exemplo, dona Luiza, é mais que anjo de Deus na Terra.
Ela deixa claro para quem quiser ouvir que seu neto preferido é você!
- Ela é a única que me trata como gente - tornou o rapaz, os olhos marejados de lágrimas.
Queria viver na senzala como minha mãe e meus familiares.
Preferiria trabalhar nas lavouras a viver servindo ao meu senhor como moleque de recados.
Onde estão meus avós maternos e minha mãe?
Servindo em outra senzala?
E eu aqui, como um rejeitado.
Todos me olham de lado, excepto a minha avó Luiza.
Você tem ideia do desprezo com que meus irmãos me olham?
Ai de mim se me aproximar da linda e branca donzela, a dona daquela roupa que você engomou.
Tem alguma roupa minha ali no meio?
Já me viu sentado na sala de jantar com eles?
O rapaz deixou escapar um longo e desanimado suspiro.
- Tudo o que queria era sair daqui - continuou -, ir embora com Arlinda, ter um pedaço de terra para plantar o que comer viver longe deles e passar a ser eu mesmo.
Quando fui pedir esta ajuda ao meu senhor e a permissão para me casar com Arlinda, a senhora sabe o que aconteceu.
Ele ficou furioso, ameaçou-me de morte e por fim tomou sua decisão.
Não acredito que ela e a família foram embora por livre e espontânea vontade, como ele me contou.
Por favor, dona Assunta, fale-me a verdade!
Peço a você, em nome de Deus, que me fale o que sabe a respeito da gravidez de Arlinda.
Quem é o pai do filho que ela espera?
Preciso saber!
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 23, 2016 10:06 am

Meu senhor me disse apenas que ela, logo ao deixar a fazenda, já arranjou esta barriga.
Não vou conseguir viver com essa dúvida...
Enquanto falava, o rapaz apertava as duas mãos contra a cabeça.
- Meu filho, fique calmo. Vou lhe contar tudo o que sei, mas não posso inventar o que não sei só para agradar-lhe.
E, voltando-se para as mulheres, que, curiosas, observavam-nos de longe, tentando entender o que se passava, gritou:
- Judite? Não deixe as roupas torrarem ao sol; vá recolhendo as peças ainda húmidas para facilitar o ferro de engomar.
Tragando o cigarro de palha, Assunta encarou o rapaz.
- Depois que o senhor ficou sabendo do acontecido entre você e Arlinda, mandou toda a família dela embora, isso você conhece melhor que eu.
Arlinda foi trabalhar na casa do doutor da lei.
Pelo que sei, ele tem um irmão que também se prepara para ser da lei.
É o que dizem, porque eu mesma não vi; falam que eles são donos de uma mina de ouro, e o irmão do doutor se engraçou com Arlinda.
Dizem que ele comprou a liberdade dela e a dos pais, e que levou todos eles para as minas de ouro.
Quanto ao filho que ela espera como vou saber qual é a verdade?
Sei que a gravidez já está bem adiantada.
Você acha que pode ser o pai do filho de Arlinda?
Teve envolvimento íntimo com ela, Antero?
Perdoe-me por falar assim, mas, se me pede auxílio, preciso conhecer os fatos.
- Sim, tivemos um envolvimento íntimo.
Por essa razão é que preciso saber quando é que vai nascer a criança, que pode ser meu filho.
Não acreditei em uma palavra do que ele me disse.
Se Arlinda deitou-se com outro homem não foi por vontade própria; nós nos amamos de verdade, dona Assunta.
- Homem de Deus, ergue essa cabeça e não demonstre sua agonia a ninguém.
Tenho meus contactos com os negros que vão à cidade e sempre trazem notícias.
Vou tentar descobrir alguma coisa sobre Arlinda e a gravidez, e vou colocá-lo no conhecimento da situação.
Fizeram breve pausa.
Depois de certo tempo, Assunta comentou:
- Reconheço meu filho, que você vive o mesmo dilema de muitos outros filhos de Deus:
não é branco nem preto; não é escravo nem é livre.
Tem negro que já sabe ler e escrever, isso posso afirmar porque vi.
Aliás, ouvi falar, e, se for mentira, que o pecado caia nas costas de quem me contou que já tem muitos mulatos e até negros que são doutores!
E você, Antero, ainda é muito jovem.
Precisa aprender a ler e a escrever, e escute o conselho que vou lhe dar:
faça as coisas com cuidado; peça com humildade a sua avó Luiza, que o ama tanto. Ela pode interferir com o senhor.
Quem sabe você não alcance uma oportunidade de estudar e adquirir algumas qualidades dos brancos?
O futuro pertence ao Criador, mas não é impossível no futuro você arranjar um bom emprego, como os outros mulatos filhos de senhores que já estão se destacando por aí.
- Mas, e quanto a Arlinda, dona Assunta?
O que faço?
Deixo tudo de lado, como se nada tivesse acontecido entre nós?
E o nosso amor? - indagou o rapaz, secando os olhos na manga da surrada camisa feita pela costureira da senzala.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 23, 2016 10:06 am

- Antero, você está sendo egoísta!
Quantos negros desta fazenda vivem ao lado das pessoas que amam?
Você acha que só branco ou filho de branco tem coração para sentir amor?
No seu lugar, lutaria para sair daqui e encontrar um novo rumo para sua vida.
E agora, Antero, vou lhe perguntar uma coisa:
você vive longe de seus familiares e, principalmente, da sua mãe.
Por acaso deixou de amá-los?
Torcendo as mãos, o rapaz respondeu:
- Perdoe-me pelas besteiras!
A senhora tem toda razão; preciso colocar a minha cabeça no lugar e agir como homem.
Por favor, dona Assunta, não fique com raiva de mim.
A senhora é como uma mãe; só me dá bons conselhos.
Vou fazer de tudo para sair desta fazenda.
Quero estudar...
Mesmo que depois passe a metade da minha vida trabalhando para pagar ao meu senhor, quero ser alguém, e vou ser!
- Assim é que se fala meu filho.
Você ainda é muito novinho, tem tudo pela frente.
E quem sabe amanhã poderá ajudar a sua família e outros negros que estejam em situação parecida com a sua?
Vou ajudá-lo no que for preciso.
Eu me informarei sobre como está Arlinda e seu filho, e vou lhe dar notícias.
Se ela amá-lo de verdade, vai saber esperar por você o tempo que for preciso.
Amor não morre nem com o tempo nem com a distância, disso sou testemunha.
Levantou-se do velho tronco e, dando tapinhas carinhosos nas costas do rapaz, falou:
- Vou cuidar das minhas roupas, que essas me garantem um prato de comida e uma esteira de palha na senzala para dormir, além do mais importante:
sossego na minha cabeça, quando tudo fica bem lavado e bem passado!
Por falar nisso, entregou suas roupas sujas para a Zefa lavar?
Cuidado, não vá deixar roupas sujas naquele quarto!
Se as arrumadeiras da sinhá contarem a ela que pegaram coisas sujas lá dentro, já sabe o que o espera depois nos sermões do seu pai.
Observando as mulheres inspeccionarem as peças finas como se fossem ouro, o rapaz reflectiu:
"Nem minhas roupas são dignas de serem lavadas pelas mesmas lavadeiras".
As roupas dos negros eram lavadas bem distante, abaixo da correnteza que lavava as roupas da casa azul e branca.
O sabão que limpava as roupas dos negros era o mesmo que eles usavam para tomar banho, feito de sebo e cinzas.
A cada quinze dias, as mulheres da senzala preparavam barras de sabão que, ao esfriarem, assemelhavam-se a sapos de brejo - eram amareladas, repletas de manchas escuras e cujo odor, mesmo de longe, não deixava dúvida ao identificar quem era escravo e quem era senhor.
As roupas dos senhores eram lavadas com sabão de coco perfumado, as peças bordadas a mão.
Não bastasse, ainda eram engomadas, o que indicava a posição de quem as vestia.
Um dia essa história iria mudar!
Ele se vestiria como os brancos, com roupas vindas de longe, teria brilhantina no cabelo, usaria colónia por todo o corpo e faria a barba da mesma maneira que fazia o seu senhor...
Assunta deixou o rapaz sonhando acordado e foi ao encontro das outras mulheres, que cochichavam entre risos.
- Vamos lá, gente!
Vamos recolhendo e dobrando as roupas já no jeito de passar.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 23, 2016 10:06 am

Acho que as peças brancas ficaram de acordo.
Amanhã é dia das roupas mais pesadas e dos lençóis de seda da sinhá.
Quero vocês dispostas e atenciosas; a sinhá me disse que aqueles lençóis, cada um deles, custam o preço de um bom escravo!
Uma das mulheres, ao ouvir aquele comentário, retrucou:
- É triste saber que não valho mais que um lençol, que não anda, não fala e não ama!
- É triste sim, minha filha, muito triste.
O único consolo que devemos ter é que os valores de Deus são bem diferentes dos valores dos homens.
Se a nossa vida já é penosa, não vamos torná-la ainda mais dolorosa, não é mesmo?
Vamos dar brilho nessas bacias, lavar bem as latas de goma, juntar o sabão com cuidado.
A sinhá está reclamando do gasto excessivo.
Temos de tomar cuidado com os abusos.
Sempre fiscalizando tudo, Assunta se aproximou de Judite e comentou baixinho:
- Não fique por aí falando coisas sobre o pobre do Antero.
Dei a ele alguns conselhos; tomara que tenha me ouvido.
- Dona Assunta, Mara me disse que Arlinda, antes de ir embora, contou-lhe que suas regras não tinham aparecido no tempo certo.
Acho que já saiu daqui emprenhada, e foi do Antero.
Os dois estavam vivendo como homem e mulher; não é mentira, eu mesma vi.
Uma madrugada me levantei para fazer uma necessidade que não dava para ser feita dentro da senzala e dei de cara com Arlinda e Antero escondidos atrás da senzala.
Ela me pediu segredo, por isso nunca contei a ninguém, nem para a senhora.
O capataz apareceu como sempre de surpresa.
Assunta sussurrou:
- Depois continuamos essa conversa!
A gente tem de se apressar em recolher o resto da roupa e voltar para a casa-grande.
Sob o olhar do capataz, colocaram as trouxas de roupa na cabeça e em fila passaram por ele, todas de cabeça baixa.
A última foi Assunta, que, dizendo-lhe bom-dia, também lhe dava satisfações do trabalho:
- Tudo correu bem, seu Toninho.
Pode verificar o senhor mesmo.
Balançando a cabeça, o capataz não respondeu ao bom--dia.
Observava o rapaz que caminhava entre o capinzal.
Matutando, tirou a própria conclusão, que não era difícil:
já estava procurando as beiradas do rio...
Fora assim que aquele Antero conquistara Arlinda, justo a mulata de olhos verdes que Toninho tanto queria para si.
"Esse safado não perde por esperar.
Vou contar ao senhor que ele anda vagando pelas beiradas do rio.
Embuchou a mulata Arlinda e, se ninguém tomar uma providência urgente, logo vai embuchar outras mulatas por aqui.
E isso o que dá os senhores permitirem que os mulatos machos vivam!
Com as fêmeas, é lucro na certa.
Mas os machos já estão causando as primeiras desgraças na sociedade", considerava o capataz.
"Mulato vestido como branco, entrando nas escolas e já assumindo lugar de branco na política e nos empregos do estado!"
Ainda bem que os senhores estavam preparando uma trincheira para pegar aquele mulato safado que chegara à cidade empunhando um diploma de doutor e assumindo o lugar do doutor Diógenes, juiz de lei e de palavra - quando dizia "é isso", não havia quem o fizesse voltar atrás.
O mulato, querendo ser gente, andava intimando os senhores a suspenderem os castigos nas senzalas.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 23, 2016 10:06 am

Queria tirar o emprego dos capatazes e dos capitães do mato!
Os capatazes das fazendas vizinhas estavam ao lado dos senhores.
Já haviam marcado uma reunião para acertar onde e como dariam cabo daquele mulato safado...
Ele mesmo desejava ter esse prazer.
Onde já se viu um mulato de cabelo pixaim sentado em cadeira de doutor?!
Era o fim do mundo!
Tinha virado moda os mulatos se reunirem com alguns brancos, que mereciam ser mortos, e tramarem contra eles.
Se libertassem esse bando de negros vagabundos, o que fariam da própria vida?
Capitães do mato, capatazes, olheiros e outros trabalhadores de confiança dos senhores trabalhariam em quê?
Ao pensar nessa possibilidade, o sangue de Toninho parecia lhe subir à cabeça; sentia o rosto em brasa.
Mal podia esperar pela reunião logo mais à noite.
Iria, mais uma vez, abrir os olhos dos senhores a respeito de deixarem mulatos machos crescerem nas fazendas.
As fêmeas davam lucro, divertiam as casas das cidades e a eles mesmos, mas os machos só traziam desgraça e, a cada dia, cresciam em número.
Pareciam ervas daninhas, e a situação tornava-se difícil de ser controlada.
Ele tinha conhecimento de alguns poetas que estavam reunindo gente de fora do país e criando movimentos secretos com a ajuda de mulatos estudados, tramando contra os senhores.
Era necessário montar uma estratégia para eliminar todos os mulatos espalhados pelas redondezas e dar cabo dos que nascessem nas fazendas.
Toninho aguardaria uma brecha para acabar com a vida de Antero.
Detestava aquele mulato!
Nunca gostara muito dele, mas, depois que lhe roubara Arlinda, a raiva se transformara em ódio.
Ia esperar à noitinha.
Na sua prestação de contas já estava incluso o que passar ao senhor a respeito dele.
Antero tinha a protecção da velha maluca, a mãe de seu senhor.
Mas, quando a velha descansasse no fundo da terra, Antero perderia toda a regalia.
A sinhá-moça o detestava; os filhos do senhor cuspiam no chão quando o avistavam.
Mas Toninho chegara a ouvir de alguns companheiros que estava próximo o momento em que o senhor tiraria algum capataz para colocar Antero no lugar.
Uma negra havia lhe contado que a velha sinhá pedia ao filho que desse uma oportunidade ao rapaz, uma vez que ele já estava na idade de assumir tarefas de confiança.
Antero dirigiu-se ao outro ponto do rio, onde as mulheres lavavam as roupas dos negros da senzala.
Deteve-se para observar a diferença e o descaso que havia entre as lavadeiras dos escravos, em comparação com as dos senhores.
As mulheres batiam as velhas camisas de sacos nas pedras e resmungavam de sujeiras e nódoas.
O odor de sabão de sebo invadia o ar.
As crianças gritavam enquanto as mulheres lhes esfregavam o corpo com sabão.
Lavavam as roupas e as crianças sem distinguirem o cheiro entre elas.
Os lençóis em que seu pai dormia valiam mais que cada uma daquelas mulheres da beira do rio, lembrou Antero.
Algumas vezes, ouvira-o exibir aos amigos garrafas de vinhos importados da França que havia trocado por escravos.
Recordava que algumas moças e rapazes da fazenda tinham ido embora com aqueles amigos estrangeiros e nunca mais haviam retornado.
O que teria acontecido a eles?
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 23, 2016 10:07 am

Assunta tinha razão.
Precisava sair daquela fazenda; era como um pássaro que nascera em um ninho que não lhe pertencia.
Conversaria com sua avó Luiza.
Desejava estudar e se preparar para ser alguém no futuro.
Ouvira falar que havia um lugar onde padres estrangeiros aceitavam mulatos e negros libertos, e os educavam para trabalhar como qualquer branco.
E que alguns mulatos e negros tinham ido embora para o estrangeiro como homens livres com a ajuda dos padres.
Uma das mocinhas que auxiliava na lavagem de roupas dos negros avistou Antero e chamou atenção da encarregada:
- Veja só quem está olhando para nós!
É o filho enjeitado do senhor.
O que será que ele quer aqui?
- Só saberemos se ele mesmo falar - respondeu a mulher, ficando de pé com as mãos na cintura e olhando em direcção a Antero.
Esse mulato sem-vergonha pensa que é o quê? - disse ela, em um tom de voz que as outras mulheres puderam ouvir.
Não pega na enxada, não levanta nenhum peso, come e dorme de graça, e se acha o próprio branco!
Se o senhor ou a velha sinhá morrerem, ele vai é parar no tronco para deixar de ser besta!
- Bom dia, Luzinete.
Tudo bem? - cumprimentou Antero, aproximando-se.
- Deseja alguma coisa?
Já estamos terminando de recolher a roupa da senzala, e não veio nenhuma peça sua.
Você já foi avisado pela sinhá, e eu sei, porque ela fez isso na minha frente, de que não tem mucama a seu serviço.
Você mesmo deve entregar suas roupas e limpar seu próprio canto.
Pelo menos, até agora não recebemos essa ordem dos nossos senhores.
E saia daqui antes que peça às mulheres que lhe forrem de pedras.
Lugar de vagabundo não é no nosso meio.
- Luzinete, pelo amor de Deus!
Eu lhe fiz alguma coisa para que sinta tanta raiva de mim?
Você me despreza porque sou mulato e tenho os olhos dessa cor?
E esse o meu pecado?
Peço perdão a Deus pela besteira que vou falar:
também acho que não deveria haver mulatos!
Se só existissem brancos e negros, ou eu estaria na casa azul e branca ou cantando e lavrando a terra no meio dos negros.
Não sou aceito nem entre vocês, nem entre eles.
Luzinete, secando as mãos na saia, respondeu:
- Se sabe disso, então evite aparecer de um lado ou de outro.
Se estiver aqui em busca de consolo com alguma menina, pode dar o fora!
Graças a Deus o senhor chegou seu Toninho - berrou a mulher, apontando para o rapaz.
Tire esse mulato safado daqui.
Ele pensa que a gente não tem o que fazer ou que vamos cair nas confianças dele.
Acha que toda moça da senzala é como Arlinda, que caiu em sua conversa mentirosa.
Se não fosse por ele, minha irmã e minha sobrinha ainda estariam aqui com a gente.
O capataz suspirou de contentamento.
A sorte lhe sorria.
Tinha como testemunha as mulheres da senzala; o mulato estava arrumando confusão na beira do rio.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 23, 2016 10:07 am

Precisava inventar uma história que deixasse o senhor possesso de raiva, e precisava falar na frente da sinhá, que, além de detestar o rapaz, não gostava da sogra, que o apoiava.
Esporou o cavalo e se aproximou do rapaz.
Com o cabo de ferro do chicote, bateu forte no ombro dele, falando bem alto:
- Mulato safado!
Deveria deixá-lo preto de pancada, mas não quero me apressar.
Vou pegar você de jeito; mudo até a cor dos seus olhos...
Eles vão ficar vermelhos, e você, mais preto que qualquer negro da senzala.
Suma daqui! - Bateu tão forte com o cabo do chicote no rosto do mulato que o sangue esguichou.
O rapaz sentiu tontura.
Fez um esforço e, resistindo à dor, saiu, cambaleante, apertando a ferida da qual o sangue escorria, molhando a camisa de saco encardida.
Voltando-se para Luzinete, o capataz ordenou:
- Podem cuidar de arrumar as coisas de vocês que vou acompanhá-las à fazenda.
Fiquem tranquilas que esse mulato safado não vai mais voltar para incomodá-las.
Enquanto Luzinete dava ordens às crianças e às outras mulheres, o capataz aproximou-se de uma das moças e, aos sussurros, combinou um encontro para o fim da noite.
Chegando pelos fundos da casa azul e branca, Antero entrou no modesto quarto contíguo à senzala, pegou uma quartinha com água e lavou o rosto, apertando a ferida com a camisa.
O sangue parou de escorrer, mas a dor era insuportável.
Deitou-se na rede e fechou os olhos; não aguentava mais tantas humilhações.
Não poderia aparecer assim diante da avó Luiza; ela ficaria nervosa, e iria chorar e chamar a atenção de todos.
Ele ocultava o próprio padecimento físico para não vê-la sofrer e também porque, cada vez que expunha a verdade, somava-se mais um castigo.
O velho Chico estava sentado, remendando as peneiras das cozinheiras, quando viu Antero passar, todo ensanguentado.
Levantou-se, dirigiu-se à senzala e pegou algodão e uma cabaça cheia dos seus preparados.
Saiu arrastando os pés e balançando a cabeça.
Encontrou uma das mulheres da cozinha no caminho.
Ela, ao vê-lo com o remédio na mão, perguntou:
- Tio Chico, quem se machucou?
- Foi o Antero, minha filha.
Passou por mim lavado em sangue.
Esse rapaz está fora de si desde que Arlinda partiu.
Anda feito alma penada, para cima e para baixo, e, numa dessas, acabou recebendo umas chibatadas!
Nem precisamos perguntar para saber de quem foi o chicote; sabemos que foi do seu Toninho!
- Vou com o senhor, tio Chico!
Que situação difícil é a dele...
Não tem posição nenhuma dentro da fazenda, nem na senzala.
Enquanto era um menino, a gente empurrava daqui e dali; agora é um homem e a coisa se tornou difícil.
O senhor não tem ideia do que vão fazer com ele?
- Ideia eu até tenho, filha.
Esse pobre mulato paga por um preço alto; a cor da pele e dos olhos é seu pecado.
E o mais triste é que ele não tem amparo nenhum dos negros.
Temos de rezar muito a Deus e pedir perdão pelos irmãos de cor que não o aceitam nem como branco, nem como negro.
É triste reconhecer isso, mas as diferenças de cor já começam a gerar uma guerra que vai longe.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 23, 2016 10:07 am

Tenho ouvido falar que alguns brancos, mulatos e negros estão reunidos e a ponto de criar uma lei para libertar os escravos.
Primeiro crianças e velhos; depois, no geral.
- Credo, tio Chico.
Olha, fiquei arrepiada!
Vou mesmo rezar e pedir que, se for para piorar nossa vida, tal lei não apareça.
- Muitos inocentes ainda vão sofrer e derramar seu sangue para que nossos descendentes conheçam a liberdade no futuro.
Jesus derramou o sangue dele em nome de toda a humanidade, por brancos e negros, e, se for preciso derramar nosso sangue pelos nossos irmãos de cor, devemos fazer isso sim, pensando sempre em Jesus.
Vamos tratar dos ferimentos do rapaz.
O velho Chico bateu à porta de Antero, chamando-o, e ele a abriu de imediato.
Sem esperar convite, o negro velho entrou, acompanhado da cozinheira.
- Senta aí, Antero.
Vamos desinfectar esse ferimento - pediu, já molhando um chumaço de algodão.
Divina, você sustenta a cabeça dele.
Aguente firme, Antero, que vai doer um pouco. Tenho de limpar o corte; não adianta nada empurrar a sujeira do ferro para dentro da carne.
Preciso limpar a ferida com isso aqui e depois colocar a pomada, que vou pedir para Divina apanhar na senzala.
Antero tremia de dor, mordendo uma toalha dobrada colocada em sua boca por Divina.
Quando o negro velho terminou de limpar a ferida, pediu à mulher que apanhasse uma pomada e uma garrafada que tinha sempre à mão para essas ocasiões.
Assim que Divina saiu, o velho falou:
- Antero, você provocou a ira do seu Toninho, que vive buscando um motivo para bater em você.
O que foi desta vez?
- Fui aonde estavam as lavadeiras.
Dona Luzinete está com raiva de mim por causa da Arlinda e começou a me agredir com palavras.
Seu Toninho chegou e partiu para a ignorância.
Juro para o senhor:
não faltei com respeito a ninguém.
Tio Chico, não tenho mais com quem conversar.
Animais não falam comigo, folhas não falam, o vento não fala.
E as pessoas com quem tento puxar conversa acabam sempre me levando a esse fim.
O que vou fazer de minha vida, tio Chico? Estou desesperado com a partida de Arlinda.
Dona Assunta me deu uns conselhos.
E, dizendo isso, revelou ao negro velho toda a conversa que tivera com ela.
O velho Chico, cabeça baixa, ouvia as palavras de Antero.
Quando o rapaz parou de falar, o velho comentou:
- Assunta lhe deu bons conselhos, e eu vou acrescentar outro:
não saia de modo nenhum do seu quarto hoje.
Vou pedir à Divina que lhe traga alguma coisa para comer.
Você não deve deixar seu canto.
Primeiro, para evitar falatórios quando virem seu rosto.
Os falatórios, em vez de ajudar, poderão lhe acarretar ainda mais castigos.
Segundo, porque você deve ficar de repouso para a pomada fazer efeito.
Aproveite e reze para as Chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo, pedindo que Ele o proteja.
Tenho certeza de que será atendido.
Amanhã, com calma, vá falar com a sinhá-velha e lhe conte seu desejo de ir embora estudar com os padres.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 23, 2016 10:07 am

Quem sabe Jesus lhe abre esta porta.
Divina já chegava com a pomada e a garrafada.
O negro velho encheu uma cuia com o líquido amargo e o fez engolir.
Besuntou o corte com a pomada e pediu que Antero se deitasse.
- Amanhã cedo eu volto para ver como você está.
Fica sossegado aí, sem encher a cabeça de besteiras.
Se ficasse mais sossegado no seu canto, não teria recebido esse presente aí na cara.
Divina vai lhe trazer comida e água fresca, e você aproveite para rezar e agradecer a Deus, mesmo sendo injusto com Ele, dizendo que ninguém o ajuda.
Ele está sempre de olho e mandando a gente vir aqui.
- Perdão, tio Chico, por não ouvir o senhor.
Às vezes faço coisas que não deveria fazer e falo coisas que não deveria falar.
Muito obrigado a vocês, tio Chico e dona Divina.
A mulher, com lágrimas nos olhos, respondeu:
- Antero, meu filho, a gente se importa com você.
Eu, o Chico e outros negros aqui lhe querem muito bem.
Sabemos que entre nossos irmãos existem os que não aceitam a cor dos seus olhos e da sua pele, mas quem somos nós para julgá-los?
Cada um tem seus motivos, que são as más lembranças.
Quando olham para você, não se lembram da sua mãe, e sim do seu pai.
E, quando os senhores o olham, também têm as próprias mágoas.
Eles se recordam da sua mãe.
Esse é o preço que você paga por ser diferente.
Antes de aparecerem os mulatos, existiam dois tipos de seres:
o branco, considerado superior, e o negro, considerado inferior.
Se você é a mistura dos dois, deve ter um pouco de cada lado, e é isso que incomoda tanto brancos quanto negros.
Agora, veja se descansa.
Mais tarde eu trago alguma coisa para você comer.
Estou levando as roupas sujas de sangue; eu mesma vou lavar.
O rapaz permaneceu deitado, olhando as telhas que cobriam o pequeno quarto que lhe servia de abrigo.
A dor aliviou.
As beberagens do velho Chico começaram a surtir efeito, e o sono foi mais forte do que as lembranças.
Adormeceu pensando em Arlinda e em seu Toninho.
Logo começou a sonhar que andava por uma estrada toda florida e encontrava a mãe, que vinha correndo em sua direcção de braços abertos.
Sorrindo, ela chamava por seu nome.
Abraçou-a e se sentiu um menino.
Agarrado a ela, pedia:
- Mãe, por favor, não me deixe naquela casa.
Eles vão me matar! Ninguém gosta de mim.
Apenas a avó Luiza toca no meu rosto e fala comigo.
Leve-me com você.
Por que me abandonou?
- Meu filho, não o abandonei.
Rezo por você sempre e sei que um dia Jesus vai me devolvê-lo.
Não tive escolha, filho.
O senhor não deixou que me acompanhasse para evitar os falatórios a respeito dele.
Sei que não foi por amor que ele o prendeu na fazenda; foi para se livrar dos comentários.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 23, 2016 10:07 am

Mas tenha calma. Deus cuidará de todos nós.
Sonho com você todos os dias, e acredito que ainda vamos ficar juntos como mãe e filho.
Antero passeava de mãos dadas com ela.
Sentia-se muito feliz.
Quando acordou, havia a seu lado um candeeiro feito de lata e abastecido com óleo de mamona que tio Chico fazia para prover a senzala.
Ao lado da rede, sobre um tamborete feito por tio Chico, havia um prato de barro com comida e coberto com uma folha de bananeira, trazido por Divina.
Também tinha uma caneca de água coberta com um pedaço de folha.
Antenor olhou para o prato e a água, e sentiu um aperto no coração.
Teve vontade de chorar.
Ali estava uma prova de amor e de bondade; alguém se preocupava com ele.
Lembrou-se do sonho e não conteve mais as lágrimas.
A fisionomia da mãe ainda estava viva dentro dele.
Era tão pequeno quando o senhor a levara embora; sentia tanto sua falta!
Se a mãe estivesse a seu lado, com certeza sua vida seria melhor.
Havia uma paz tão grande em seu coração naquele momento, que tinha a impressão de que ela estava ali.
Tio Chico, como sempre, dava suas voltas ao redor da casa-grande.
Cutucava as plantas aqui e ali, mas sua atenção estava voltada mesmo ao movimento que envolvia os irmãos de sorte.
Os capatazes estavam reunidos na cocheira, falavam baixinho, e, pela experiência do velho Chico, tramavam algo.
O que seria?
O movimento na casa-grande parecia o mesmo de sempre.
Alguém tocava piano.
Ou era a sinhá-moça ou a sinhá--menina.
O rapazola deveria estar se divertindo com os jogos do estrangeiro que sempre ganhava dos parentes que moravam lá.
A sinhá-velha dividia-se entre ralhar com as negras e cochilar na velha cadeira de balanço.
O senhorzinho, sempre fazendo contas e anotações, um copo de um lado, o cachimbo do outro.
As negras correndo como loucas para não faltar nada à mesa dos senhores.
Essa rotina ele conhecia desde criança.
Não lhe causava nenhum espanto.
Contudo, o que estava estranhando naquele dia era o comportamento dos capatazes.
Começavam a chegar também alguns capitães do mato.
Alguma coisa havia acontecido pelas redondezas.
Teria havido uma fuga?
O único incidente do dia fora entre Antero e seu Toninho, o que não seria o bastante para provocar uma reunião entre eles.
Antero era como um cachorro que, quando entrava onde não era chamado, apanhava, e, se reclamasse, apanhava mais, e não havia ninguém para reclamar sua defesa.
O velho Chico foi se sentar em seu lugar preferido, embaixo de uma velha jaqueira.
Acendeu o pito e ficou matutando no que estava por vir.
Havia algo no ar, e ele sabia que era sério.
Logo após o jantar dos senhores, a luz da varanda foi acesa, e uma negra veio correndo ao longo do grandioso alpendre acendendo os lampiões.
Não demorou para o senhor aparecer, massageando a barriga, e de longe o velho Chico imaginava o que o motivava a fazer sempre esse gesto.
O senhor sentou-se na cadeira de balanço e acendeu o cachimbo.
Uma negra trouxe uma bandeja com um vidro de licor e duas taças.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 24, 2016 9:36 am

Em seguida, a sinhá-moça chegou e se sentou em sua cadeira toda forrada de seda.
A negra lhe serviu o licor, e o senhor também pegou uma taça, levando-a à boca e em seguida voltando ao velho cachimbo.
Meia hora depois, o senhor disse qualquer coisa à negra que o servia.
Ela então passou a recolher as taças de vidro e o licor, e se retirou depressa.
Tio Chico, observando toda aquela movimentação, tentava entender o que estava acontecendo.
Um moleque foi à cocheira e transmitiu alguma ordem aos capatazes.
Eles vieram correndo, e logo estavam todos de braços cruzados com o chapéu sobre o peito, reverenciando o senhor.
Abaixo do alpendre havia bancos de madeira pintados de azul.
A um sinal do senhor, sentaram-se, os olhos erguidos para cima, onde se encontrava o proprietário de todas aquelas terras.
Nenhum escravo poderia mais se aproximar; agora a conversa era entre eles.
O velho Chico pôde notar que cada capataz se pronunciava ao ser apontado pelo senhor.
Quando chegou a vez de Toninho, o senhor cuspiu longe e acendeu de novo o cachimbo.
A sinhá virou-se em sua direcção e principiou a falar e a gesticular, e o velho Chico não precisava ser adivinho para saber qual era o assunto - Antero.
Conhecia muito bem o ódio de Toninho e da sinhá-moça pelo rapaz.
Meia hora após a reunião com os capatazes, voltaram à cocheira e se juntaram aos capitães do mato, que haviam ficado à espera.
O velho Chico não tinha percebido que os cavalos estavam prontos.
Trovão, o cavalo preferido do senhor, foi levado até ele, que se despediu da sinhá e, montando o alazão, acompanhou os demais homens.
O velho Chico levantou-se e proferiu um "Ai, ai, ai!".
Alguma coisa séria estava por acontecer.
O negro velho deixou o toco e saiu matutando no que tinha visto.
Encontrou a sobrinha, que servia na casa-grande, e perguntou:
- Rosinha, que diabos está acontecendo?
Você ouviu alguma coisa?
- Ouvi o senhor falando para a sinhá que fosse dormir e não esperasse por ele.
Não sabia a que horas voltaria; ia ter uma reunião com todos os senhores das vizinhanças para decidir coisas do interesse deles.
Disse que os capatazes antigos iriam participar, mas que ela podia ficar sossegada porque os novos ficariam no lugar dos outros.
- Foi só isso que ouviu? - insistiu o velho Chico.
- Ah, seu Toninho falou para o senhor que Antero estava mexendo com as mulheres na beira do rio, e que ele precisou usar de leve o chicote para afastá-lo, pois ele teimava e o desafiava, dizendo que era filho do senhor e que estava na hora de exigir seus direitos.
A sinhá ficou nervosa e entrou na conversa.
Aí falou mais ou menos assim para o senhor:
"Tenho alertado você sobre esse mulato abusado.
Deveria vendê-lo como um escravo qualquer!
Seu maior erro foi deixá-lo na fazenda; se tivesse sido vendido com a mãe, nada disso estaria nos acontecendo. Olha só que problema!
Quem me garante que eu e meus filhos vamos estar em segurança com esse desocupado rondando a casa?
A sua mãe, pobre coitada, devido à idade, já não raciocina direito, e vive acobertando o mulato, tratando-o melhor que os próprios netos e gerando mágoa entre os nossos filhos".
- Que mais, Rosinha? - quis saber o negro velho.
- O senhor respondeu para a sinhá que vai tomar uma providência; que ela sossegue, porque ele vai dar um jeito.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 24, 2016 9:37 am

E eu lhe pergunto tio Chico:
o que será que vão fazer com o pobre do Antero?
- Vamos rezar e pedir a Deus que seja feito o melhor, minha filha.
Agora vou esticar minhas pernas e esperar o sono chegar; Deus a abençoe, e boa noite.
O velho Chico entrou na senzala.
Alguns companheiros já estavam deitados nas redes. Um deles lhe perguntou:
- Quais são as novidades, Chico?
Queria fazer companhia a você, mas as dores nas juntas me pediam descanso.
- Olha, pessoal, o senhor saiu com os capatazes.
Foram para uma reunião com os fazendeiros vizinhos.
Pelo que temos acompanhando e ouvido das notícias da cidade, a coisa está ficando feia para o lado deles e para o nosso também.
Temos de esperar para ver o que é que chega por aí.
Enquanto não sabemos, devemos rezar e pedir ajuda a Deus.
- O Tião veio da cidade hoje e disse que teve notícias do Bento e da família - contou um deles.
Parece que Arlinda e toda a família estão mesmo sob os cuidados do tal senhor lá das minas de ouro.
Quando falo "cuidados", quero dizer morando com ele, e ela agora é considerada livre.
O senhor das minas comprou a liberdade dela e a dos pais.
Quando Antero souber disso, vai ficar pior do que está, mas é a verdade.
Ele tem de esquecer a moça e viver a vida dele como Deus e o senhor quiserem.
Os negros velhos continuaram proseando enquanto aguardavam o corpo esquentar para dormir.
Na casa-grande, a sinhá-velha tinha cochilado durante a tarde e estava sem sono.
Chamou a negra que lhe fazia companhia e perguntou:
- Zefa, onde se meteu o meu neto Antero, que não o vi?
Veja se está por aí.
Tive um sonho com ele, e Antero não estava bem.
Preciso saber como ele está.
Vou até a janela; já coloquei meus óculos.
Peça que venha aqui na frente da casa para que possa vê-lo.
A negra, amparando-a, falou:
- Sinhá, vi Antero na hora do jantar. Ele está óptimo!
A senhora teve apenas um pesadelo.
Já é tarde, ele deve estar dormindo.
Depois, não posso sair da casa.
Os senhores estão sentados à frente dela, e os capatazes, cercando-a por todos os lados.
- Você não está mentindo para mim, Zefa?
Viu mesmo meu neto? - insistiu a velha senhora.
- Sinhá, nunca menti para a senhora!
Deus me livre.
Folheando um livro de moda e etiqueta, a sinhá-moça observava os filhos ao piano.
Enquanto isso, reflectia:
"Esse mulato tem de sair da minha casa.
Algo me diz que ainda vamos ter sérios problemas com ele.
Preciso pensar em um jeito de retirar esse infeliz daqui, ou melhor, de acabar com ele.
Mesmo que deixe a fazenda, será sempre um problema para nós".
E, ponderando a respeito, lembrou-se do capataz.
"Tenho um aliado, seu Toninho...
Será que ele vai me ajudar?"
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 24, 2016 9:37 am

Capítulo II - Planos nefastos
O vingativo fazendeiro mancava com a perna esquerda -vestígio de luta corpo a corpo com negociantes de um navio negreiro que haviam tentado lhe dar um golpe.
Naquele dia, não só conseguira reaver o próprio dinheiro como o de todos os fazendeiros da região, arrebatando as mercadorias valiosas e, por fim, matando a tripulação e incendiando o navio.
Não esquecera de recompensar bem seus homens.
A partir daquele dia, ganhara fama e respeito.
Os fazendeiros que haviam recebido o dinheiro de volta passaram a consultá-lo sobre estratégias de negócios.
Era soberano naquele território e ai de quem tentasse desafiá-lo em alguma coisa.
As reuniões eram lideradas por ele, e todas as decisões aguardavam sua aprovação.
Era o deus daqueles arredores.
Naquela noite, encontravam-se na fazenda todos os fazendeiros, capatazes e capitães do mato, bem como outras pessoas da região.
Mesmo quem não aprovava seu método de trabalho participava, com medo de represálias.
A palavra inicial foi proferida por ele:
- Se uma palavra que sair de minha boca se espalhar no vento e chegar aonde não deve, mando fazer a limpeza geral, depois boto fogo na fazenda, para não sobrar nada - avisou o ditador.
De facto, os que tinham tentado traí-lo não haviam tido tempo de lhe pedir perdão.
Ele mandava eliminar toda a família e queimar tudo o que pertencesse ao traidor.
Todos ali baixaram a cabeça e tinham as mãos suando frio.
- Bem, senhores, o que vou propor que façam nas fazendas de vocês eu já estou fazendo nas minhas.
E passou a relatar o plano diabólico.
Alguns capatazes mal podiam conter o prazer; um deles era Toninho.
Por fim, quando a execução do mulato atrevido que ousara se sentar em uma cadeira da lei já estava acertada, o fazendeiro desabafou:
- Não tenho dormido à noite, até emagreci.
Não sinto vontade de fazer nada!
Enquanto estiver respirando o mesmo ar que aquele mulato, não vou ter sossego.
Fez uma pausa e, soltando profundo suspiro, continuou:
- Nosso plano estando concluído, permanece o silêncio absoluto.
E não custa nada lembrar mais uma vez:
que nenhum de vocês dê com a língua nos dentes contando o que conversamos para as mulheres. O assunto morre aqui.
Ele mesmo estendeu uma das muitas garrafas que havia sobre a mesa e convidou todos a beber.
Depois, secando a boca na manga da camisa, olhou para os capatazes e capitães do mato, e falou:
- Desejamos ouvir o que têm colhido por aí.
Quem quer começar?
Falem um de cada vez, e não se estendam muito no assunto.
Sejam rápidos e breves.
Toninho levantou a mão.
- Pode falar capataz.
O que tem para nos dizer? - perguntou o manda-chuva, observando-o com os braços cruzados.
- Bem, coronel, serei breve.
O assunto que vou colocar aqui é para todos nós uma grande preocupação.
Nestes últimos anos, os mulatos estão se espalhando por aí como ervas daninhas que se alastram pelos campos.
Estão tomando conta de tudo, entrando em todos os lugares e pegando as funções que sempre foram ocupadas pelos brancos.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 24, 2016 9:37 am

Acho que os senhores deveriam começar a podar estas pragas aqui e ali.
Mantenham apenas as fêmeas.
Elas são úteis, e muitos senhores já estão ganhando mais com as mulatas do que com as vacas leiteiras.
Mas os machos... assim que nascerem, devem ser mortos!
Não deixem essas pestes se criarem.
O meu senhor vai me dar licença, mas preciso falar:
o maior problema que temos hoje na fazenda é um mulato.
Os negros, nós dobramos com facilidade.
Mas o mulato exige tratamento diferenciado e sempre tem alguém da família dando cobertura.
Já havíamos falado sobre esse assunto tempos atrás e agora vejo que o problema se agravou com a presença de tantos mulatos ocupando cargos e postos entre os senhores.
O mandachuva, vermelho de raiva, socou a mesa e bradou:
- Você tem razão, homem.
E muitos dos senhores aqui presentes são culpados por isso!
Estão enchendo as fazendas de mulatos e dando a eles tratamento de rei.
O negro trabalha sob as ordens do branco, que, se não se dobrar diante do mercado, vai à falência.
E estes amaldiçoados ficam por aí jogando praga naquilo que construímos com tanto sacrifício.
Nas minhas fazendas não tenho nenhum!
Nem macho, nem fêmea!
Se quiser me divertir com uma dessas mulas, vou às casas de diversão.
O certo é não ter nenhum deles por perto.
Sou a favor do que opinou o capataz, e me surgiu justamente agora uma ideia.
Podemos sustentar um convento e mandar as mulatas para lá, até completarem quinze anos.
Sairão prontas para serem negociadas como prendas, bem longe daqui.
Os navios negreiros vão ter cargas preciosas.
Os fazendeiros se entreolhavam.
Quase todos tinham filhos e filhas mulatos.
O que fariam com os que já tinham certa idade?
Um deles arriscou a pergunta:
- Entendo a proposta do coronel e acho até que tem sentido.
Todavia, devemos tomar cuidado com as investigações promovidas pelos movimentos que se fortalecem dia a dia com o apoio de países defensores da libertação dos escravos.
Vão cair em cima de nós!
Um convento só de fêmeas tudo bem...
Mas e quanto aos machos?
Como vamos explicar?
- Tem razão - concordou o manda-chuva.
Vamos colocar em aberto esse assunto, e cada um de vocês pense em algo.
Temos de discutir melhor a ideia.
Conversaram em grupo e, por fim, o coronel queria ouvir as novas sugestões.
Toninho sugeriu que se exterminassem aos poucos os mulatos de sete anos em diante.
Uma picada de cobra, um afogamento, uma queda de cavalo - acidentes ele arranjaria com o maior prazer.
As meninas, a partir dos sete anos, poderiam ser encaminhadas ao convento.
Para o plano não ficar muito evidente, deveriam manter um colégio só para meninos também.
Aliás, já até existia um; os padres eram os responsáveis por ele.
Poderiam custear o aumento de espaço e encaminhar os mulatos para lá.
No entanto, antes que se formassem e que pudessem tomar o emprego dos brancos, na festa de formatura seria colocado, em alguma comida ou bebida, veneno suficiente para matá-los de uma só vez, fazendo que a culpa recaísse sobre algum padre "maluco".
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 24, 2016 9:38 am

Depois desse primeiro incidente, achariam um meio de ir eliminando os demais.
O coronel achou aquela ideia fantástica.
Matariam apenas os que se preparavam para deixar o colégio; os que escolhessem continuar com os padres eram os maricás, portanto, não apresentavam ameaça, pois ficariam em regime fechado.
Diversas ideias foram apresentadas, uma mais absurda que a outra.
Por fim, resolveram marcar uma audiência com a madre superiora e o frei responsável pelo colégio que recolhia os negros.
Um dos fazendeiros levantou a seguinte questão:
- Hoje o colégio dos padres mantém apenas negros, filhos dos hipócritas que compraram cartas de alforria para si e para os filhos.
Eles morreram e os filhos ficaram sem dono, então os padres os recolhem e os tratam como brancos.
Mas esses padres não são tão santos como se pensa...
Tive notícias de que estão levando a negrada para o estrangeiro e voltando com os bolsos pesados.
Essa é uma questão que devemos investigar.
Estamos em uma má fase, e eles estão tirando proveito da situação.
Conheço vários casos assim. Citarei o do meu amigo, coronel Oliveira.
Ele está aqui presente e pode falar sobre isso melhor que eu.
O pai de um dos escravos dele havia adquirido a carta de alforria e, tempos depois, comprou a do filho.
Mas veio a falecer, o que não é novidade para nós, e o filho foi recolhido pelos padres.
O coronel tentou comprá-lo dos padres, mas eles não aceitaram.
Ao contrário, fizeram--lhe uma proposta: desejavam comprar a mãe do rapaz por uma mixaria, e o coronel teve de engolir esse desaforo.
O rapaz continua com os padres, e a mãe, que é escrava, continua com o coronel.
Temos aí um perigo próximo.
Esse infeliz ainda vai arrumar encrencas para o meu amigo...
Foi outra discussão boa.
O manda-chuva pensou e expressou sua opinião, que foi aplaudida por todos.
- Vamos dar uma lição nesses aproveitadores de saia.
Eles vão nos fazer um grande favor:
colocaremos negros e mulatos juntos, e então vocês vão ver no que vai dar.
Os negros não gostam dos mulatos, e a ideia de Toninho vai entrar em acção.
Os negros é que vão envenenar os mulatos!
- Tenho quatro mulatos em minha fazenda - comentou um outro fazendeiro.
Dois já adultos e duas crianças.
Com as crianças eu já sei o que fazer, mas e com os adultos?
- São seus filhos? - indagou o fazendeiro manda-chuva com sarcasmo.
- Um deles até acredito que sim; os outros são dos capatazes.
Vocês capatazes aqui presentes jogam a culpa e o peso dos mulatos para os seus senhores, mas são vocês mesmos quem mais geram mulatos nas fazendas.
Você mesmo, Toninho, tem noção de quantos mulatos na fazenda do seu senhor e em outras por aí são crias sua?
O manda-chuva levantou as duas mãos e falou:
- Não estamos aqui para defender ou acusar quem é o pai ou não dessas porcarias!
Estamos preocupados em prevenir nosso futuro, e queremos achar uma solução para o problema.
Não me vejam como um ser sem sentimentos nem preocupação com os demais.
Dói-me ter de tomar certas decisões, mas cada homem que veio ao mundo trouxe o seu destino, e, se Deus confiou essa carga a mim, preciso fazer a minha parte.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 24, 2016 9:38 am

Os coronéis assumiram o compromisso de que iriam encontrar uma solução para os mulatos adultos das fazendas, e o caminho mais viável seria o colégio dos padres, sendo que a sorte de cada um estaria a cargo de Deus.
Antes de deixarem a reunião, o manda-chuva fez um elogio ao capataz Toninho na frente de todos:
- Eu o contrataria pelo valor merecido.
Você é um capataz que, além de demonstrar amor pelo que faz, é fiel e destemido.
Toninho inflou o peito em um gesto de orgulho.
- Se depender de mim, nossa profissão se manterá ao longo dos séculos.
Gosto do que faço; defendo meus parceiros e sou fiel como um cão ao meu senhor.
E os senhores fiquem tranquilos; eu e meus companheiros já sabemos o que fazer.
É só os senhores aguardarem os acontecimentos.
Ele havia sido encarregado do plano discutido, e de fato ninguém tinha mais punho ou melhor pontaria que aquele capataz.
O seu senhor não respondeu nada, mas ficou vermelho de embaraço.
Toninho não dava ponto sem nó; estava querendo aumento e promoção.
Teria de rever esse caso.
O velho Pedrão, responsável por outros capatazes, andava meio acomodado e mole de coração.
Colocaria Toninho no comando e lhe daria um aumento.
Afinal, tinha de ficar bem com o coronel, que lhe devolvera parte de seu dinheiro quando comprara um lote grande de escravos, na ocasião em que afundara o navio dos comerciantes estrangeiros.
Ainda no caminho de volta para a fazenda, o senhor chamou Toninho para perto de si e lhe confidenciou:
- Lá pelas onze horas quero que me acompanhe ao colégio do frei Gregório.
Desejo mandar Antero para lá o mais rápido possível.
E, no fim da tarde, reúna todos os capatazes.
Vou colocá-lo como chefe da guarda da casa.
Pedrão está velho e cansado; não tem mais a mesma habilidade de antes.
- Obrigado, senhor, pela confiança.
Farei o possível para não decepcioná-lo e, se depender de mim, suas fazendas voltarão a ser prósperas.
Não podia interferir no trabalho do Pedrão, mas confesso que notei muitas coisas se perderem por falta de pulso dele.
Às onze horas, estarei com a sua montaria pronta e à espera de meu senhor.
Eu o acompanharei ao colégio com muito prazer.
Naquela noite, Toninho deitou-se ao lado da mulher, mas nem lhe prestou muita atenção.
Sentia-se feliz; teria poder sobre os demais, algo com que sempre havia sonhado.
Teria mais dinheiro no bolso, poderia gastar mais com suas aventuras.
Frequentaria a casa das mulheres do sul, que eram brancas como algodão, mas também continuaria a se embriagar nos braços das mulatas.
Defendia as mulatas; elas precisavam continuar nas casas de diversão.
O dono da fazenda rolou de um lado a outro na cama, os lençóis de seda enrugando-se tal era sua inquietação.
A esposa acordou e lhe perguntou:
- Como foi a reunião? Tudo bem?
Vejo que não consegue dormir.
- A reunião foi excelente!
Você sabe que, quando perco a minha hora de dormir, custo a pegar no sono de novo.
- Quer que mande Isabel fazer um chá?
Quem sabe você relaxa e adormece.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 24, 2016 9:39 am

- Não, não é preciso, obrigado.
Veja se consegue dormir; vou procurar não me mexer tanto.
Até que é bom ficar um pouco acordado para colocar algumas ideias em prática.
- Bom, também estou sem sono.
Acho que fui dormir cedo demais e agora despertei.
Se quiser conversar alguma coisa comigo...
Nunca me meti em seus negócios, mas, quando me pede um palpite, sempre acerto, não é?
- Tem razão.
Vou lhe perguntar uma coisa e você me responde como das outras vezes, em que sempre me deu a resposta certa.
Resolvi mandar Antero para fora da fazenda.
Acho que ele está causando muitos transtornos à nossa família. O que você acha?
A esposa do fazendeiro sentou-se de uma vez sobre a cama.
- Para onde vai mandá-lo?
Se for para a companhia da mãe, será um grande erro - tornou ela, nervosa.
- Calma, mulher!
Você não me deixou terminar a conversa.
Vou falar com frei Gregório e mandá-lo ao colégio que ele dirige.
Antero vai ficar lá por cinco anos, vai cumprir um contrato.
Depois eu vejo o que fazer com ele.
Se eu morrer, naturalmente será você quem vai decidir o destino do rapaz.
Penso que, findando os cinco anos, podemos cedê-lo para trabalhar no colégio por mais cinco, e assim sucessivamente.
- E se os padres quiserem comprá-lo?
Não pensou nessa hipótese?
- Antero não poderá ser vendido como os outros escravos.
Não o reconheço como filho, mas é de conhecimento geral que ele nasceu na minha fazenda e me pertence.
Quem vai se atrever a me fazer esta afronta?
Nem mesmo os padres seriam loucos de tentar algo parecido.
Estariam comprando o próprio túmulo.
- Tem razão.
Pensando bem, acho que no momento é a melhor solução para nós.
Com estes ataques que estamos vivendo nos últimos tempos, precisamos tomar muito cuidado para não nos tornarmos alvo de atenção.
Sua mãe é que vai ficar dia e noite falando sem parar.
Nossos filhos não se aproximam dela porque ela vive falando para quem quiser ouvir que tem um neto que vale ouro, e não é nenhum dos netos brancos.
Aborreci-me muito; agora não lhe dou mais ouvidos e pedi a nossos filhos que não dêem também.
Deixe para lhe contar depois que ele se for, senão vamos ter problemas, inclusive com os demais negros.
- Fique calma.
Farei tudo do meu jeito.
Tenha mais um pouco de paciência.
Já está confirmada a vinda de minha irmã, e minha mãe vai voltar com ela.
Faz cinco anos que está connosco; agora é hora de voltar com a filha, que tem mais obrigação de cuidar dela do que você.
A mulher o abraçou e respondeu com falsa suavidade:
- Adoro sua mãe!
Gostaria tanto que ela gostasse de mim e dos meus filhos...
Não quero que fique triste com essas coisas; sei o quanto ela é importante para você.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 24, 2016 9:39 am

Por mim, dona Luiza ficaria aqui connosco pelo resto da vida.
Não diga a sua irmã que ela deve levar a mãe porque ela me dá trabalho.
Pelo amor de Deus, não é verdade!
- Não, não vou precisar falar.
Minha irmã vai perceber que nossa mãe não se adaptou aqui.
É uma questão de costume.
Se até mesmo nós sofremos com as diferenças de hábitos daqui, imagine ela!
Mas me dê uma ideia:
quem você me indica para acompanhar minha mãe?
Quero doar um serviçal.
Pode escolher entre homem ou mulher.
- Mande a Selma.
Essa negrinha está começando a colocar as unhas de fora.
Sabe como são os jovens...
Peguei nosso filho estirando os olhos para os seios dela.
Chamei a atenção dele, e estou vigilante.
Mas ela é dissimulada; vive se oferecendo para os capatazes
Nem sei como ainda não embuchou!
- Tudo bem. Será quem você escolheu.
Graças a Deus não preciso me preocupar com estes problemas de casa.
É gratificante saber que tenho uma esposa que me ajuda.
Você foi o melhor presente que Deus me deu.
Abraçada ao marido, dizia a si mesma:
"Não foi bem meu filho que vi estirando os olhos; foi você, seu sem-vergonha!
E a negrinha safada toda derretida, agachando-se para mostrar o traseiro e os peitos".
Ela já estava mesmo prestes a pedir a Toninho que retirasse Selma dos arredores da casa, até que fosse embora de vez.
Quanto ao mulato, o ideal seria que morresse, mas por ora era suficiente ficar isolado e longe de seus olhos.
Depois pensaria nessa hipótese de novo.
Precisava cuidar do futuro e da segurança dos filhos.
Não via a hora de se livrar da velha sogra.
A presença dela em sua casa era um castigo.
O marido comentou, sorrindo:
- Vou incomodar você só com mais uma pergunta:
o que acha de nomearmos Toninho como chefe da guarda de nossa casa?
O Pedrão está devagar, já não atende a todas as necessidades da fazenda.
Acho que está na hora de parar.
- Sinceramente?
Você foi inspirado por Deus!
Tem coisas que não conto a você para não magoá-lo.
Sei que Pedrão o acompanha desde que você nasceu.
Todavia, o mundo não é o mesmo.
Tudo mudou ao redor, e ele ainda não se deu conta.
Cuido dos afazeres que envolvem a casa, procuro não interferir nas suas decisões com os serviçais, só dou palpite quando me pergunta.
Então, minha opinião é de que você acertou na mosca!
Seu Toninho é astucioso, atento, jovem e ambicioso; tem vontade de crescer e ser conhecido como um bom capataz.
Naquela noite, alguns brancos e mulatos preparavam-se para começar uma nova página na história de sua vida.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 24, 2016 9:39 am

Lá pelas quatro e meia da manhã, os gaios começaram a cantoria e a negrada já estava pronta para dar início a sua lida.
As negras velhas, arrastando as chinelas de corda, dirigiam-se à cozinha amarrando as toalhas brancas de saco na cabeça.
Os negros velhos faziam raspas de lenha para acender os fogões, outros corriam ao curral para buscar o leite.
Assim se dividiam entre servir a casa-grande e os escravos que precisavam seguir para os campos.
O capataz separava em grupos os negros que iam para as lavouras ou que fariam outros serviços, como arrumar cercas e cavar açudes, entre os demais trabalhos pesados desenvolvidos por eles.
Seu Pedrão aproximou-se de Toninho e lhe perguntou:
- Estou vendo que não está preparado para seguir ao campo.
Está acontecendo alguma coisa?
- Sim, senhor.
Ficarei aqui até receber as ordens do meu verdadeiro senhor.
E, se tiver alguma dúvida a esse respeito, fique também, que ouvirá da boca dele o que deseja de mim.
- Calma, homem.
Só lhe fiz uma pergunta.
Não estou duvidando de sua palavra.
Apenas achei estranho.
Geralmente, quando um de vocês recebe uma ordem do senhor, vem me comunicar para que eu possa mudar a escala.
Você mesmo nunca deixou de me avisar das mudanças em sua rotina.
- Pois é...
Mas hoje não o avisei e, daqui para frente, não o avisarei nunca mais.
Se não entendeu ainda, falta pouco para que compreenda.
Ao dizer isso, deu-lhe as costas e saiu tranquilamente.
O velho capataz, observando o outro partir, deu-se conta do que havia acontecido.
Ele agora seria o novo chefe dos capatazes.
Depois do que a velha raposa havia lhe dito, não restava mais dúvida; Toninho conseguira o que tanto queria:
havia tomado seu lugar.
Contudo, aquilo pouco importava agora.
Já estava cansado daquela vida.
Com os parcos recursos que adquirira na vida de trabalho, aplicando castigos e oferecendo aflições a outras pessoas, tinha adquirido um bom pedaço de terra e possuía algumas cabeças de gado e montarias.
Aquilo lhe seria suficiente para viver bem pelo resto da vida.
Muitos amigos dele haviam se dado ainda melhor.
Naturalmente, tiveram de se mudar, empregar ex-escravos, e já começavam até mesmo a plantar de "meia":
davam a terra para o ex-escravo cultivar, e o que era colhido era dividido meio a meio.
Estava dando certo, embora o arranjo estivesse criando uma guerra contra os senhores fazendeiros.
Pedrão sentia-se cansado de cometer injustiças.
Nos últimos tempos, fingia não ver certas coisas, e assim ia levando a vida e ajudando os pobres infelizes, que o adoravam.
O dinheiro que havia guardado dava para começar algum negócio longe dali.
Tinha ouvido falar que muitos ex-capatazes e ex-escravos começavam a escrever uma nova história no país.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 24, 2016 9:40 am

Ele seria mais um a se unir a eles.
O velho Chico foi ao barraco de Antero levar remédios e um pedaço de bolo de mandioca com uma caneca de café.
Encontrou o rapaz ainda deitado na rede.
- Bom dia, Antero. Como está?
O rapaz sentou-se na rede e respondeu:
- Bem melhor, tio Chico.
Dormi como uma pedra!
Aquele remédio que o senhor me deu foi muito bom, e tive um sonho tão lindo com a minha mãe...
Foi tão real que ela parecia estar aqui comigo.
Observando a ferida no rosto do rapaz, o preto velho comentou:
- Quem sabe ela não esteve por aqui mesmo?
- Mas as almas só aparecem quando a pessoa morre.
Será que minha mãe morreu?
- Que besteira, menino!
As almas não morrem nunca.
A gente só muda de corpo e continua existindo.
Com este ou outro corpo, vou ser sempre o mesmo.
E, se Deus permitir, você acha que meu espírito não pode sair um pouco do corpo para visitar outra pessoa?
Não precisamos morrer para que isso aconteça.
- Então pode acontecer de a minha mãe sair do corpo e vir até aqui para me ver? - indagou Antero, a expressão curiosa.
- Claro que sim.
Todos nós deixamos o corpo adormecido e saímos em busca dos entes amados.
Sua mãe com certeza vem sempre ver você.
Mas vamos mudar de assunto.
Tenho muita coisa para fazer hoje.
Essa época do ano é terrível...
O que tem de crianças e adultos com bicho-de-pé!
Daqui a pouco vai começar a gritaria das crianças.
Já desinfectei meu canivete e vou cuidar dos pés deles.
Seu rosto está bem desinchado, e a ferida está pronta para começar a sarar.
Vou limpar com água de alecrim e passar mais um pouco de pomada.
À noite, torno a passar.
Três dias e a ferida já estará fechando, com a graça de Deus.
Depois que o negro velho terminou o curativo, virou-se para o rapaz e recomendou:
- Tome seu café e não saia por aí fazendo estripulias.
Não pode nadar no rio nem ficar subindo em árvores.
Se cutucar essa ferida, pode até morrer.
Não se brinca com ferimentos de ferro.
Sossega o facho, e só saia daqui se for chamado, entendeu?
- Sim, senhor.
Prometo que vou ficar por aqui.
Perdoe--me, tio Chico, pelas coisas erradas que venho fazendo.
Se pudesse, iria ajudá-lo.
Queria fazer alguma coisa útil.
Meu maior desgosto é que me tratam como um ser sem utilidade nenhuma.
Os cachorros latem e correm atrás do gado, acompanham os capatazes, mas e eu?
Sinceramente, queria ser um deles, assim teria alguém que me desse algum valor.
- Sossega esse espírito e aprenda a rezar e a ter fé!
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

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