Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 29, 2016 9:48 am

Capítulo VII - Tio Chico
O dia amanheceu com o céu em tons rosáceos.
Um vento suave balançava as copas das árvores; muitas flores caíam ao chão.
O cemitério ficara forrado de flores; parecia ter tapetes em todo o chão.
Zacarias, o mulato que cuidava do local, ficou arrepiado.
O lugar onde estava a sepultura de pai Francisco do Cruzeiro das Almas estava recoberto de flores recém-abertas.
De onde haviam surgido aquelas flores?
Mesmo trémulo e assustado, ajoelhou-se diante do fenómeno e manteve-se em oração, de olhos fechados.
Um vento leve roçava-lhe o rosto.
"Meu Deus, alguma coisa vai acontecer!
O que será?
Valei-me, meu pai Francisco.
Não deixe acontecer nada de ruim com nenhum dos nossos."
O campo santo estava todo perfumado, e os raios de sol pareciam fazer questão de iluminar o cemitério de canto a canto.
O rapaz deixou o lugar um tanto assustado; nunca havia presenciado nada igual.
Na volta, parecia que alguém lhe falava em silêncio:
"Não comente o que viu nem o que sentiu".
Ele prometeu à voz interior que não iria comentar com ninguém o acontecido.
Na fazenda, o clima era de alegria geral.
A notícia do casamento de Josefina se espalhava.
Chico Preto avisou aos irmãos e amigos que iria até a casa de tio Chico e logo estaria de volta.
Tio Chico estava coando o café quando ele bateu palmas na porta.
Sem olhar quem era o negro velho falou:
- Pode entrar meu filho!
Chegou em uma boa hora.
Vamos tomar um café juntos.
O rapaz contou do pedido de casamento feito ao amigo Bento e que já estava tudo combinado.
O noivado seria dali a um mês; o casamento, dali a cinco.
- Tenho um pedido a lhe fazer, meu querido amigo Chico - avisou o rapaz.
- Pode pedir meu filho. Se puder atender, farei de coração
- respondeu o negro velho.
- Quero que o senhor seja o meu padrinho de casamento, representando meu pai adoptivo, que me levou a ser quem sou hoje.
- Tudo bem, filho.
Estarei a seu lado; mesmo que não seja fisicamente, estarei com vocês.
- O senhor é um touro, tio Chico.
É bem capaz que eu parta e o senhor ainda fique por aqui!
Deus me livre de não encontrá-lo firme neste velho corpo no dia do meu casamento.
Abraçou o velho Chico e sentiu os olhos se encherem de lágrimas.
Ficou mais algum tempo proseando e contou que só iria partir no dia seguinte.
Queria conversar com o tataravô e também roubar alguns beijos e apertos de Josefina.
Tio Chico, rindo, comentou:
- Menino, menino, tenha juízo!
Você é afoito demais; espere com paciência a hora de essa jóia ser colocada em suas mãos.
- Estou brincando, meu velho.
Jamais faria qualquer coisa que viesse a manchar o nome de Bento.
E depois amo tanto aquela moça que viveria mil anos só a contemplando.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 29, 2016 9:48 am

- Também não precisa exagerar filho.
Se chegar à minha idade só a contemplando, aí de fato é mesmo a única coisa que vai fazer!
Despediram-se em meio a brincadeiras.
Ao retornar à fazenda, soube que o ex-senhorzinho estava na escola; pelo que se dizia, estava combinando de ajudar os professores.
Chico Preto teve certeza de que nada acontecia por acaso.
Se ele fosse participar dos trabalhos com seu tataravô, o que deveria fazer?
Convidá-lo para o noivado?
Josefina estava mais bonita do que nunca, e o rapaz esqueceu o mal-estar de rever o avô.
Convidou a moça para dar uma volta pelas redondezas.
- Vou avisar meus pais e volto logo - respondeu ela.
Realmente, logo Josefina estava de volta.
Ajudou-a a montar em seu belo animal e saíram a galope, sendo admirados por todos os moradores da fazenda, até mesmo pelo irmão e os pais da moça.
O ex-senhor ficou cabisbaixo ao saber que o neto saíra para passear.
Era evidente que o rapaz evitava se defrontar com ele.
Foi convidado para almoçar com o professor, ex-capataz agora responsável pela alfabetização na fazenda, e ficou sabendo que o preto velho pai Francisco do Cruzeiro das Almas viria abençoar os filhos da fazenda.
Em um impulso, pediu permissão para ficar e pernoitar na fazenda.
O professor lhe disse que poderia não só pernoitar corno também, se desejasse, poderia assumir o cargo e a moradia - tudo já estava autorizado pelo senhor Bento.
De volta à fazenda, Chico Preto suspirou de alívio ao ver que o avô não se encontrava na casa de Bento.
A família estava reunida, inclusive seus irmãos e amigos.
O sol baixava no horizonte.
Tio Chico já tinha tomado seu banho sagrado, arrumado os pertences de trabalho e foi avisar as mulheres que já estava indo para o terreiro da fazenda.
Queria ir andando, embora caminhasse devagar.
Nunca mais havia tocado nas árvores predilectas.
Ele as plantara; era como pai de cada uma delas.
Bento mandava agora buscá-los de carroça, por isso só as via de longe.
Desejava, naquele momento, abraçar uma a uma.
Assunta, pondo a mão na cintura, gritou:
- Está maluco, Chico?
Acha que virou menino de ontem para hoje?
Se for a pé, vai chegar no terreiro com a língua para fora!
Na nossa idade qualquer palmo de chão é uma légua.
Espera, homem de meu Deus, pela carroça que vem buscar a gente.
Se está com essa saudade doida das árvores, pede ao senhor Bento que amanhã mande uma carroça para levá-lo até elas.
Você vai subindo e descendo, assim pode falar com todas as suas amigas.
Mas hoje, por favor, esquece essa ideia.
Você precisa estar descansado para o trabalho espiritual, velho amigo.
- Não, Assunta. Não vou esperar a carroça.
Vou andando; preciso fazer essa viagem.
Quero sentir a força da terra sob meus pés.
E depois, do que estaria cansado?
De viver? Não estou nem um pouco cansado.
Adoro a vida!
Quero sentir o cheiro das flores, as pastagens, olhar para o horizonte e agradecer a Deus pela minha grande felicidade.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 29, 2016 9:49 am

- Velho teimoso! Então deixa as coisas do pai Francisco que a gente leva; toma uma moringa com água.
Ele saiu a passos lentos, com o coração repleto de alegria.
Fazia tempo que não se sentia assim.
Mas, com a intensa alegria, sua alma também foi invadida por um sentimento de saudade.
Tio Chico avistou as primeiras frondosas árvores que plantara naquela estrada de um lado e de outro; estavam todas floridas, parecendo lhe sorrir.
Ele tocava cada uma delas e ria.
Não concordava quando diziam que as plantas não falavam, não viam, nem ouviam!
Meu Deus, elas respondiam com tanta evidência aos seus sentimentos!
Antes de escurecer, chegou à fazenda. Bento arregalou os olhos.
- Não acredito que o senhor fez essa caminhada toda sem necessidade - comentou.
Sentando-se e tomando o primeiro gole de água que lhe foi oferecido, tio Chico falou:
- Bento, meu filho, você acha que na minha idade eu faço alguma coisa sem necessidade?
O carroceiro deve estar chegando.
O pessoal passou por mim no caminho e foi difícil convencê-los a me deixar seguir minha caminhada.
Precisava muito vir a pé hoje.
Estava saudoso das minhas árvores; pude ir falando e tocando cada uma delas, e fui recepcionado com uma chuva de flores.
Está tudo bem, fique tranquilo.
As primeiras estrelas apareciam na imensidão do céu.
Os trabalhadores preparavam o terreiro e o barracão, que ainda lembrava a velha senzala.
Tio Chico se concentrava embaixo da frondosa amiga árvore, que tanto o auxiliara a ser melhor com ele mesmo e com os outros, a antiga árvore/que fora testemunha de tantos sofrimentos e alegrias.
A lua cheia despontava, iluminando a casa-grande.
Várias cadeiras estavam ocupadas pelos moradores da fazenda e visitantes das redondezas.
Assunta e outras mulheres mais velhas cercavam tio Chico.
De olhos fechados, oravam e aguardavam a chegada de pai Francisco.
Logo todos puderam ouvir suas palavras carinhosas e alegres.
Sentado no tronco, ele pediu para falar com Bento e a família.
Lágrimas escorriam dos olhos de cada um deles.
Pai Francisco agradeceu e abençoou a esposa de Bento; disse-lhe palavras que apenas um sábio poderia dizer.
Ela lhe beijou os pés em agradecimento pela grande felicidade que aquela boa alma trouxera à sua família, pedindo perdão pela própria ignorância.
Chico Preto foi até o tataravô e lhe beijou as mãos.
Abraçou o preto velho sentindo forte emoção.
Após longa conversa com o rapaz, pai Francisco pediu que ele chamasse o ex-senhor.
Sentados frente a frente, pai Francisco entre eles, falou, estendendo as mãos e mostrando o espaço que os separava:
- O tempo pode ser um grande ou um pequeno espaço; porém, quando está entre nós, é a grande chance que temos de aproveitar as oportunidades oferecidas por Deus.
Querido tataraneto, como me orgulho de você!
Em pouco tempo você encontrou a maior riqueza que lhe faltava: o amor de uma mulher!
Não temos muito tempo para descobrir que podemos amar, perdoar e recomeçar.
Quando ganhamos de Deus essa riqueza que você ganhou, meu filho, somos capazes de entender os que amam e os que não aprenderam ainda a amar.
O que está esperando para abraçar seu avô e deixar para trás esse peso que não vai lhe engrandecer em nada lá adiante?
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 29, 2016 9:49 am

Chico Preto olhou fundo nos olhos do avô e viu um homem cansado e triste, uma alma perdida, desejosa apenas de um pouco de amor.
Estendeu os braços e apertou contra o peito o velho avô.
As lágrimas de ambos se misturavam; naquele momento não se lembravam da cor da pele, e sim do que sentiam no coração.
Pai Francisco disse com um sorriso:
- Hoje nasceu mais uma estrela no céu!
E assim que brotam as estrelas nos céus de nossas almas, quando presenciamos as fagulhas do amor se transformando em pontos de luz.
Aqui está sendo quebrado um grande bloqueio, não apenas entre eles, mas um bloqueio familiar.
E através de meu tataraneto que toda a família deixará os pesados fardos de lado para andar livre em uma só direcção.
Pai Francisco ficou um bom tempo abraçado aos dois.
"O que será que ele fez para Chico Preto?", pensava um de seus irmãos.
Chico não era homem de estremecer diante de nada, e estava ali como uma criança desamparada, agarrado àquele velho senhor branco.
Chico Preto tomou a bênção do tataravô e lhe beijou novamente as mãos.
Tomou a bênção do avô e lhe beijou também as mãos.
Ninguém sequer se atrevia a entender o que pai Francisco havia feito.
Chico ajudou o avô a se levantar e distanciou-se dos pés de pai Francisco abraçado a ele.
Pai Francisco chamou os irmãos de Chico Preto e só então eles puderam compreender o que sentira o irmão.
Ambos desataram a chorar; nunca haviam imaginado carregar dentro de si tantos sentimentos.
Aquele negro velho era um anjo envolto em luz.
A lua já alcançava uma boa altura no céu, como observou Assunta, quando pai Francisco, auxiliado por ela e pela outra amiga de tio Chico, entrou no barracão.
Muitos pretos velhos já estavam atendendo os visitantes e moradores da casa.
Quando o atendimento chegou ao fim, pai Francisco continuou sentado em seu toco dentro do barracão.
Todos os pretos velhos se levantaram e se aproximaram dele.
Ajoelharam-se e agradeceram muito as grandes oportunidades que ele dava a cada irmão.
Pai Francisco, como sempre, aguardou a desincorporação dos médiuns.
Antes de se afastar, sempre deixava uma mensagem geral para a comunidade.
Todos estavam atentos à mensagem, mas ele não parecia ter pressa.
Pegou uma pequena cuia cheia de pedrinhas do rio.
Despejou-as no chão e pediu que um dos médiuns olhasse para cada pessoa ali presente e colocasse uma pedrinha na cuia.
O rapaz fez isso com muito cuidado para não errar, e depois indagou:
- Posso pôr uma para nosso tio Chico?
- Pode, porque ele está aqui entre vocês - respondeu o preto velho.
Agradeceu o rapaz e, apontando para uma médium, solicitou:
- Seria capaz de olhar para cada espírito aqui presente e colocar uma pedrinha na cuia?
- Não, senhor!
Não tenho vidência, meu pai.
Acredito com todo o meu coração no senhor, mas não posso mentir dizendo que vejo outros espíritos; nunca tive essa felicidade.
- Pode ir para o seu lugar, filha.
Que Deus a abençoe pela sua fidelidade a Ele.
Sei que você não vê, mas crê.
O mais importante não é ver, e sim crer.
Nenhum de vocês aqui presentes, por mais que possam enxergar irmãos espirituais nos trabalhos, jamais poderiam afirmar quantos irmãos passaram por aqui hoje.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 29, 2016 9:49 am

Precisaríamos de uma carroça cheia de pedrinhas do rio e muitos médiuns para trabalhar.
O que quero pedir a todos vocês é que não se preocupem em contar os espíritos, e sim se eles podem contar com vocês.
Vejam bem:
ninguém aqui presente precisa ser letrado para compreender o pequeno número de pedrinhas colocadas na cuia representando cada um de vocês.
Assim também não precisam ser videntes para entender a quantidade de irmãos que vêm de longe buscar nosso socorro.
Diante dos olhares atentos dos médiuns, prosseguiu:
- Estejam sempre unidos em pensamentos e acções.
Não percam tempo com adornos e outras preocupações pessoais.
Cada minuto que é dedicado à espiritualidade equivale a dezenas de anos, pois, neste pequeno espaço de tempo, um médium pode resgatar e libertar centenas de espíritos aprisionados e esquecidos na eternidade.
Que os mais velhos repassem aos mais moços as lições que aprenderam com a vida e as lições que aprenderam com a espiritualidade.
A vida física é a prisão da alma encarnada; a vida espiritual é a liberdade.
Para onde iremos e o que faremos, e o que receberemos depois de deixarmos essa prisão, depende do que desenvolvemos ao longo dela.
Não venham até aqui porque acreditam em mim ou porque precisam de minha ajuda.
Venham por vocês.
Todos os pontos recebidos por meio do trabalho de vocês serão acumulados e destinados unicamente ao trabalhador.
Jamais vou abandonar as tarefas iniciadas com tanto amor, independente de um dia não ter mais meu parceiro trabalho, no qual me apoio com total segurança.
Desejo encontrar em cada um que se coloca à disposição do Mestre uma porta aberta e iluminada.
Com uma expressão que irradiava paz e tranquilidade, pai Francisco continuou:
- Estou muito feliz pelos preciosos presentes recebidos neste dia.
Quero dividir a felicidade deste encontro com cada um de vocês.
Olhando para Zacarias, que, em silêncio, derramava lágrimas, fez-lhe um sinal.
O rapaz ajoelhou-se aos pés dele, muito emocionado.
- Entre o céu e a terra há muitas coisas que os nossos olhos vêem e não compreendem, nossos ouvidos escutam e não entendem; são os anjos do Senhor anunciando boas-novas a todos nós - disse pai Francisco.
Zacarias lembrou-se do cemitério.
O que será que pai Francisco tentava lhe dizer, que não entendia?
Pai Francisco, abraçando cada médium e dando-lhe para beber um gole do seu líquido à base de ervas, colocava uma pedrinha na mão de cada trabalhador.
A última mão foi a de Assunta.
Olhando-a profundamente, falou:
- A você e a todos que receberam uma pedrinha, a presença de cada trabalhador aqui é muito importante.
Se faltar uma dessas pedrinhas, vai fazer muita diferença.
Por esse motivo devemos estar unidos para assumir o trabalho de cada pedra e também nos preocuparmos em lapidar novas, para dar sustentação na falta daquelas que precisam ser retiradas.
Alegremente, abençoou todos e se afastou da matéria de tio Chico.
Tio Chico, saindo de leve atordoamento, abraçou Chico Preto, que partiria no dia seguinte pela manhã.
Agradeceu a todos e aceitou voltar na carroça com os demais moradores da vila.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 30, 2016 10:38 am

Chegando em casa, tomou um banho de ervas, comeu um pedaço de bolo de mandioca feito por Assunta, bebeu seu chá e encaminhou-se para a rede ao ar livre.
Logo chegaram suas amigas.
O assunto eram as bênçãos dos trabalhos de pai Francisco e os ensinamentos deixados.
Elas aproveitavam para fazer perguntas a tio Chico.
Lá pelas duas da manhã, as amigas estavam sonolentas.
Pela idade delas, os trabalhos espirituais exigiam da matéria e lhes causavam certo cansaço.
Pediram licença a tio Chico para dormir.
Assunta aconselhou-o a fazer o mesmo.
Ele, rindo, deu boa-noite a elas e disse que ficaria mais alguns minutos antes de se deitar no colo dos anjos.
Pouco depois que as mulheres se recolheram, o negro velho começou a ver uma coisa estranha.
Não entendia o que estava acontecendo.
Viu descendo do céu, em sua direcção, uma bola imensa de luz.
Pôde vê-la nitidamente pousando na copa de uma árvore, bem perto dele.
O que seria aquilo?
Olhou fixamente para a bola de luz, que mudava de cor, e a bola saiu lentamente da copa da árvore e veio deslizando em sua direcção.
Parou bem em cima de seu coração e, ao observá-la de perto, tio Chico notou que uma porta se abria e muitas pessoas conhecidas e queridas saudavam-lhe com palmas.
Sua mãe, radiante, envolta em um manto de luz, sorria--lhe de braços abertos.
Ele correu para ela como uma criança.
Pai Francisco do Cruzeiro das Almas lhe estendia os braços:
- Filho querido, seja bem-vindo!
- O que está acontecendo, pai Francisco?
Nunca tive um sonho maravilhoso como este.
Nem dá vontade de acordar mais.
- Qual foi seu último trabalho na Terra? - perguntou pai Francisco, levando-o ao encontro de outros seres iluminados.
- Mas o senhor estava comigo!
Foi no barracão da senzala - respondeu o negro velho.
- E, antes de ter esse sonho, estava onde?
- Estava na minha rede.
As mulheres se retiraram, mas eu não sentia sono.
Resolvi ficar um tempinho a mais e, de repente, vi uma bola de luz baixando no pé de mangueira que fica diante da minha casa.
Eram muitas luzes.
E aí uma porta se abriu e eu entrei aqui.
A mãe acariciava-lhe o rosto, e duas lágrimas desciam-lhe em forma de luz sobre a delicada face.
- Claro que estou sonhando!
Meu Deus, que sonho lindo...
Ele fechou os olhos, mas podia até mesmo sentir o perfume que envolvia o ambiente.
- Abra os olhos, meu filho - pediu pai Francisco.
Você não está sonhando.
Esperamos você descansar do corpo físico e obedecemos à ordem sagrada do Divino Mestre.
Apenas resgatamos você porque a sua viagem estava autorizada.
- O senhor quer dizer que morri?
Não desacredito do senhor, meu pai.
Mas como posso estar morto se não sofri dor nenhuma?
Nem doente eu estava!
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 30, 2016 10:38 am

- Sente-se aqui, filho, entre mim e sua mãe.
Você sofreu na carne todas as dores necessárias; porém, no momento de sua partida, foi agraciado por Deus e não sentiu dor física nenhuma nem precisou passar por nenhum processo de desenlace.
Quando atravessou aquela porta, foi desligado do corpo físico sem nenhum transtorno para seu espírito, que simplesmente pulou de uma nave para outra.
Agora, anime-se, e vamos abraçar os amigos e familiares que o aguardam.
O negro velho foi reconhecendo seus amigos.
Cada abraço era uma festa.
A mãe lhe tomou uma das mãos e o convidou a acompanhá-la.
- Vamos descansar um pouquinho - sugeriu.
Você precisa beber um copo de água que tem todas as cores do arco-íris. Quer ver?
Tio Chico ficou encantado com a fonte de água em forma de luz que iluminava um jardim de beleza indescritível.
- Sente-se aqui neste banco.
Vou pegar água para você.
Em segundos, ela voltou com um copo cheio de águas coloridas.
Rindo, o negro velho comentou:
- Muita gente não iria acreditar nisso.
Talvez nem eu mesmo acreditasse no que agora estou vendo!
- Beba bem devagar.
Vá sentindo a força que cada cor lhe concede.
Logo vai poder enxergar seu corpo como ele é.
Esta água vai curando a visão espiritual, reconstituindo cada parte do corpo espiritual.
Ele sentiu sono, e ela lhe ofereceu o ombro.
Quando tio Chico deitou a cabeça, amorosamente sua mãe lhe disse baixinho:
- Vamos rezar a oração das Chagas de Jesus?
Vou rezando e você vai ouvindo.
Quero que durma tão tranquilo como quando era menino.
Vou levá-lo ao leito celestial para o colo dos anjos.
Ouvindo a oração das Chagas de Jesus, tio Chico adormeceu de facto como um menino.
A morte de tio Chico abalou a estrutura da fazenda.
Uns gritavam, outros desmaiavam, ninguém queria acreditar que ele estava morto.
Um dos moleques da fazenda trazia o leite logo cedo para a vila dos velhos, como os jovens chamavam.
Deixava as vasilhas de leite penduradas nas estacas das casas, assim nenhum gato se atrevia em bulir nos caldeirões.
Os velhos iam dormir quase na hora de eles se levantarem.
Mas o garoto achou estranho...
Chico, àquela hora, deitado na rede com as mãos cruzadas no peito?
Ficou parado, observando e reflectindo:
"Ele trabalhou até tarde ontem com o pai Francisco.
Deve ter adormecido aqui mesmo na varanda.
Será que devo acordá-lo?
Já sei! Vou à casa de Rosário.
Ela deve estar se preparando para ir à escola; quem sabe não acorda a avó e pergunta se devemos ou não chamar o tio Chico".
Depressa, pendurou as vasilhas de leite e saiu correndo.
Bateu à porta da menina que vivia com a avó, uma das amigas de tio Chico.
Ele relatou o que tinha visto e a menina sugeriu:
- Vou chamar minha avó.
Tio Chico nunca dormiu na varanda não!
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 30, 2016 10:38 am

Todo dia passo por lá quando vou para a escola e nunca o vi deitado na rede a essa hora.
Adelina, alertada pela neta, apressou-se em calçar os chinelos, prendeu o cabelo e foi andando no compasso em que a idade lhe permitia.
Diante da casa de Assunta, parou e pensou:
"Acho que devo chamá-la.
Ela é muito esperta e está sempre com ele; quem sabe está sabendo de alguma coisa?"
Assunta se levantou às pressas, sem se preocupar sequer em prender os cabelos.
As duas mulheres andaram em silêncio até a casa do velho Chico.
Avistando o amigo deitado na rede, antes mesmo de chegar perto dele, a velha senhora já sentiu uma pontada no coração:
- Chico, o que faz deitado nessa rede, tomando a friagem da manhã?
Tocando em seu rosto, tão sereno quanto o de um anjo, sentiu que a face estava gelada.
Sacudiu-lhe de leve o braço e gritou:
- Chico, pelo amor de Deus, acorde, homem!
Não mate a gente do coração.
Pelo amor de Deus, acorde!
Chico não se mexeu, Chico não respondeu.
Assunta passou a gritar por pai Francisco do Cruzeiro das Almas.
- Valei-me, meu pai!
Não deixe o Chico partir!
A notícia correu mais rápida que o vento.
A fazenda em massa estava na casa do velho Chico, que parecia dormir o mais doce sono.
Zacarias chorava e não se perdoava por não ter contado a pai Francisco do Cruzeiro das Almas o que vira no cemitério.
Os médiuns choravam, recordando das pedrinhas e dos conselhos de pai Francisco.
E agora? Faltava a pedrinha mais preciosa, faltava a fonte, o caminho, a direcção.
Como viveriam sem ela?, todos se perguntavam.
Chico Preto abraçou o caixão do preto velho e, chorando, lamentava-se:
- Tão pouco tempo estivemos juntos, mas foi suficiente para nunca mais viver sem ele!
Relembrava os conselhos do tataravô.
Estaria ele sabendo e, quem sabe, até esperando o término dos trabalhos espirituais para levar tio Chico com ele?
Recordava as conversas que tivera com o negro velho, e a resposta que ele lhe dera na ocasião do convite para ser padrinho de seu casamento.
Dissera-lhe que estaria presente, e com certeza estaria mesmo, porque nunca mais deixaria de levar tio Chico dentro do coração.
O cemitério encontrava-se forrado de flores.
Assim que o corpo do velho Chico desceu a cova, o sol brilhava de um lado e uma nuvem passageira derramava-lhe água na sepultura.
O cheiro da terra molhada e das flores cobria o campo santo com um perfume singular.
Brancos e negros, e gente de toda a redondeza, lotavam o lugar.
Um bando de pássaros cantava sobre a cova onde agora jazia o corpo de tio Chico.
Todos os presentes se ajoelharam no túmulo de pai Francisco do Cruzeiro das Almas.
Oravam e pediam que cuidasse do amado tio Chico.
Na cova de tio Chico, a pedido dele mesmo a seus filhos espirituais, foi fincada em terra a cruz que o próprio pai Francisco, incorporado no negro velho, preparara para a ocasião de sua partida.
Chico Preto recebeu do avô paterno todo o amparo paternal.
Um novo sentimento tomava conta do coração do rapaz em relação ao avô.
Antes de partir, dirigiu-se a ele e o abraçou da mesma forma que fizera na presença de pai Francisco.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 30, 2016 10:39 am

O avô, chorando, disse-lhe:
- Meu neto amado, vamos aproveitar os ensinamentos do amado pai Francisco e ganhar um pouco de luz, pois ainda é tempo.
Ganhei de Deus esta grande oportunidade e não posso perdê-la.
Quero continuar a pedir perdão a todos.
Por favor, meu neto, não posso morrer sem pedir perdão ao meu filho Antero.
Em nome de Deus, interfira por nós.
- Prometo que farei o possível para colocá-los frente a frente, e Deus há de colocar no coração dele a mesma luz que entrou no meu.
Daqui a um mês estarei de volta.
Quero reencontrá-lo.
Pai Francisco, meu tataravô, tem toda razão: preciso aproveitar bem meu tempo.
Quero tê-lo perto de mim, por essa razão, quando estiver de volta, gostaria de levá-lo comigo.
Professor nós podemos arrumar mais de mil, já avô é bem diferente, o senhor não acha?
O branco senhor de cabelos grisalhos e olhos azuis sentia os lábios tremerem.
Não conseguia soltar a palavra que estava presa em sua garganta.
Apertou o neto nos braços e não disse nada.
Os médiuns da fazenda se reuniram à noite.
Oravam e choravam, pedindo a Deus por tio Chico.
No desespero que acomete todos os mortais, sempre surge uma luz enviada pelo Pai Criador.
O avô Sebastião apresentou-se em meio à dor dos filhos espirituais de tio Chico.
A presença dele foi como uma estrela baixando na escuridão de um deserto.
Todos se ajoelharam aos pés dele pedindo forças.
Serenamente, o avô Sebastião pediu que todos se sentassem no chão ao redor dele, e solicitou a uma das médiuns que o ajudasse, trazendo-lhe uma cabaça com água e a cuia com as pedrinhas deixadas por pai Francisco.
Falou que em breve entenderiam a história das pedrinhas do rio.
Pegou as pedras e as distribuiu na mão de cada filho, solicitando que soltassem a pedrinha na cabaça de água.
Assim que cada um colocou a própria pedra, ele pediu-que guardassem a cuia com o restante das pedrinhas.
Pitou seu cachimbo e, fitando os presentes, fez a seguinte pergunta:
- Se pedisse a vocês que cada um pegasse a sua pedrinha, seriam capazes de identificar a pedra?
Todos responderam em coro:
- Não, senhor.
Não poderíamos identificá-la.
Elas são todas do mesmo tamanho e da mesma cor; é impossível, pai Sebastião.
- Mas vocês acreditam ou não que as pedras estão aí dentro da cabaça?
- Sim, senhor.
Temos certeza de que estão dentro garrafa - falaram.
- Então prestem atenção ao que vou falar:
a morte física é exactamente assim.
Vemos o corpo desaparecer de nossas vistas, mas sabemos que ele continua existindo e está bem guardado em algum lugar especial.
Não podemos identificar uma luz em meio a tantas outras com características semelhantes, porém Deus as conhece uma por uma, e, se não perdermos a fé e a confiança em Seu amor, Ele será o caminho que nos levará a todos aqueles que amamos e que desejamos reencontrar.
Quanto ao Chico, neste exacto momento ele dorme o sono dos anjos, sendo coberto pelas chamas de amor de sua mãe.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 30, 2016 10:39 am

Fiquem tranquilos; ele não morreu sozinho como imaginam.
Aliás, nunca esteve sozinho e, na hora mais importante de sua vida, não ficaria sem o auxílio de quem ajudou.
O corpo físico de tio Chico nada sofreu ao desencarnar.
Ele adormeceu e, antes de deixar o corpo, foi resgatado por amigos e familiares, além de ser recepcionado por centenas de outros amigos que o esperavam em clima de alegria e festa.
As palavras do avô Sebastião ressoavam aos ouvidos dos presentes como um bálsamo.
- Ele foi conscientizado por pai Francisco do Cruzeiro das Almas sobre o desencarne - continuou -, e, assim como aconteceu com vocês, mal podia acreditar que houvesse desencarnado.
Dizia que não sentira dor nem estava doente, então como poderia ter desencarnado?
Mas teve certeza de seu estado quando foi encontrando familiares e amigos.
Como é natural com todos os viajantes, logo após rever os entes queridos, sentiu-se cansado e foi levado pela mãe ao leito divino, onde repousa coberto de luz.
Assim que acordar do sono dos justos, com certeza estará pronto para prosseguir com suas tarefas.
Todos ouviam com atenção e cheios de esperança.
Como era bom saber que o amado tio Chico estava descansando.
O avô Sebastião prosseguiu:
- Quanto a vocês, parem de chorar e cuidem da vida e de sua missão.
Há muito trabalho para ser feito, principalmente a favor de vocês mesmos.
Acham que vão ajudar o Chico chorando e atraindo outros sofredores para junto de vocês?
O Chico está dormindo, não está nem lembrando que vocês existem; façam o possível para que, quando ele acordar, receba dos que ficaram deste lado a mesma vibração de luz que recebeu do lado de lá quando chegou.
O espírito que entra em repouso, quando desperta, está cercado de amigos e familiares.
Os primeiros cuidados são com os que ficaram em terra.
Quando vale a pena o espírito ver e ouvir as mensagens familiares, é permitido a ele observar e, agradecido, ele se anima a prosseguir em sua caminhada.
Mas, quando o quadro familiar é de dor, falta de fé, mágoas e revoltas, o espírito não é notificado para que não sofra com a dor daqueles que ama.
Os filhos espirituais de tio Chico enxugaram as lágrimas e pareciam dispostos a levar adiante o trabalho deixado por ele.
O preto velho Sebastião, pitando o cachimbo recheado de erva-doce, canela e ervas secas, esperava que se acalmassem para passar novas instruções.
O avô Sebastião pegou uma garrafa com uma mistura de ervas preparadas por tio Chico e despejou em uma cuia de coco.
Fez uma oração em silêncio e depois convidou a todos para tomar um gole.
Assim que terminou, disse:
- Há algum tempo atrás vocês me viram conversando com pai Francisco do Cruzeiro das Almas, não viram?
- Sim senhor.
Não entendíamos por que os dois conversavam tanto incorporados nos médiuns; talvez os assuntos não pudessem ser tratados no plano espiritual - respondeu uma das médiuns.
- Não era que os assuntos não pudessem ser tratados no plano espiritual; o problema é que nós dois não nos encontramos tanto no plano espiritual.
Aqui em terra tínhamos mais oportunidades e também traçávamos planos de trabalho acompanhando cada um de vocês.
Responsabilizei-me em tomar conta do trabalho espiritual com vocês até o substituto do velho Chico atingir a idade na matéria para poder trazer para cá quem vai dar continuidade às nossas obras.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 30, 2016 10:39 am

Entre os muitos assuntos tratados entre mim e pai Francisco, esse foi o mais difícil, na minha modesta opinião.
Os presentes se entreolharam...
Todos os médiuns de incorporação já haviam atingido a idade madura; não havia jovens entre eles.
Os jovens vinham tomar a bênção dos pretos velhos, mas não se envolviam com o trabalho espiritual.
De quem será que o avô Sebastião falava?
- Amanhã vamos abrir os trabalhos com naturalidade.
Não podemos deixar de cumprir nossas tarefas.
A única coisa é que vocês devem trazer o filho António Bento até aqui.
Preciso passar a ele algumas recomendações do tio Chico e do próprio pai Francisco do Cruzeiro das Almas.
Uma médium, respeitosamente, indagou:
- Avô Sebastião, não devemos colocar luto por tio Chico?
Algumas pessoas se vestem de luto por um ano quando perdem o pai ou a mãe; no nosso caso, tio Chico foi um pai espiritual.
Não precisamos usar o luto em sua memória?
- Adelina, minha filha, você vai se vestir de preto por um ano para provar a seu pai espiritual que o respeita?
Que o ama? Para ajudá-lo a ir para o céu?
Para Deus ter misericórdia de você pelo seu sacrifício?
Para mostrar a todos que você foi vítima de Deus, que perdeu alguém muito amado?
Qual é a finalidade do luto?
- Sinceramente, não sei avô Sebastião.
Os senhorzinhos antigos obrigavam até os escravos a se vestir de preto quando morria alguém da família deles; eu mesma já vesti luto três vezes por eles, e nem os conhecia.
- E qual foi o seu sentimento a respeito do luto? - perguntou o negro velho.
- Não vou mentir para o senhor, ou estaria mentindo para Deus.
Fiquei com muita raiva, porque tive de tingir as roupas de todos os escravos com casca de angico-preto e lama do rio.
E, quando estava desbotando, lá estava eu de novo!
No fundo, nunca me conformei em vestir preto por pessoas que eu não conhecia e outras por quem dava graças a Deus de terem morrido.
Perdoe-me, avô Sebastião, eu precisava falar.
- Você já deu todas as respostas.
Não devemos cair na sintonia negra da tristeza porque um ente querido partiu.
Não é fácil saber que fisicamente nunca mais poderemos tocar o ente querido, mas não é difícil pensar que ele vai deixar o corpo físico e trocá-lo por um espiritual.
Então é uma questão até de inteligência divina:
não nos perdemos de ninguém; é apenas uma questão de tempo.
Não vão se cobrir de preto dizendo que é por sentimento ao tio Chico que ele não precisa disso.
Nenhum espírito precisa; precisamos mesmo é do clarão da luz!
Outro médium perguntou:
- Precisamos fazer alguma coisa em especial para abrir o trabalho espiritual, alguma oferenda no cemitério, por exemplo?
Não corremos nenhum risco espiritual pelo trabalho que tio Chico fez connosco?
- Julião, meu filho, e todos os outros, prestem atenção:
vocês precisam fazer algo muito especial para abrir o primeiro trabalho sem o tio Chico e continuar fazendo sempre em todos os próximos trabalhos:
primeiro, trabalhar com amor, fé, respeito, dignidade e honrar sempre as sementes dos ensinamentos que o Chico deixou como herança nesta casa; em segundo lugar, o que é que vocês querem fazer lá no cemitério?
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 30, 2016 10:39 am

Tem o Zacarias, que é encarregado de cuidar do campo santo; os cuidados que precisam ser feitos, ele faz.
Vocês não devem ir atrás do que não estão precisando.
Esperem a hora certa; um dia todos vão ao cemitério para deixar o corpo físico por lá, não vou dizer para todo o sempre, porque a eternidade é do espírito; em terceiro, todos correm o risco espiritual sim; se o trabalho que o velho Chico fez por vocês for jogado fora, vocês estarão sujeitos a muitas perdas e tormentas futuras.
Ele abriu o caminho e mostrou a cada um a passagem, só não anda por esse caminho quem não quiser.
O avô Sebastião abençoou os presentes e fez as últimas recomendações, pedindo de novo que notificassem seu António Bento do trabalho no dia seguinte.
Na casa de António Bento ainda reinava o clima de tristeza.
Augusto, sentado em uma rede no alpendre da casa, balançava-se ouvindo o canto dos grilos e o bater de asas de alguns pássaros nocturnos.
Pensava na trajectória do pai como homem.
Era um herói, fazia a parte dele, era um diferencial na humanidade.
Ele também queria fazer algo que pudesse ajudar o mundo, mas o quê?
Seguir as pegadas do pai?
Teria esse dom?
Seus pensamentos misturavam-se.
Sobressaltou-se quando o pai lhe tocou o braço.
- O que há meu filho?
Está tão pensativo.
Ficou muito triste pelo velho Chico?
- Ele foi tão bom!
Foi um homem que soube viver e ensinar os outros a descobrir o que é a vida.
Estava aqui pensando no senhor; orgulho-me de ser seu filho.
E me perguntava qual caminho devo seguir para alcançar minhas metas perante Deus e honrar o senhor como um homem que auxilia a humanidade.
- Não fique assim, meu filho.
Sei que você gostava demais do tio Chico; eu também amava aquele preto velho...
Ele me ajudou muito nesta vida.
Nisso chegou o grupo de médiuns e comunicou a António Bento o pedido de avô Sebastião para que ele estivesse presente no primeiro trabalho espiritual aberto sem a presença física de tio Chico.
Augusto, que só ouvia, pensou:
"Até isso ele fez...
Ensinou aos seus a continuarem andando mesmo quando ele tombasse.
Gostaria de ter a fé e a sabedoria de tio Chico, a coragem e a determinação de meu pai, a paciência e a resignação de minha mãe..."
António Bento confirmou sua presença nos trabalhos espirituais.
Os empregados deram boa-noite e seguiram adiante.
No meio deles estava Assunta e outras mulheres que eram amigas de tio Chico desde a mocidade.
O pai sentou-se perto do filho e disse:
- Augusto, orgulho-me muito de você.
Suas palavras no pedido de casamento de sua irmã me abriram os olhos para a vida.
Meus filhos estão crescidos e eu não havia percebido.
Vou ficar um pouco mais com vocês, vou delegar algumas tarefas ao grupo e me dedicar um pouco a minha família.
- Tenho ouvido muitas coisas a respeito do movimento de libertação da escravatura - comentou Augusto.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 30, 2016 10:40 am

É verdade que presentearam a princesa Isabel com uma caneta-tinteiro de ouro e uma carta de recomendação para que ela assine a lei da libertação?
E que a caneta veio da terra onde a família real matou e esquartejou o Tiradentes?
- Sim, foi enviada esta caneta.
A ideia foi de seu futuro cunhado, quando soube que o juiz Bento estava enviando um abaixo-assinado com milhares de assinaturas de diversos estados brasileiros exigindo a assinatura da lei, que já tem um nome: Lei Áurea.
O juiz não anda nada bem ultimamente.
Tem demonstrado muito cansaço físico.
Foi aconselhado pelos médicos a tirar umas férias.
Brincou dizendo que no dia em que a lei fosse assinada de bom grado não iria se importar de tirar férias prolongadas2.
E olha, filho, de norte a sul do Brasil e muitos países livres estão apertando a monarquia:
ou libertam os escravos ou os ricos senhores vão passar a comer no mesmo prato que eles.
Até assinarem a Lei Áurea, não vamos descansar.
O filho, interessado, não tirava os olhos do pai.
António Bento continuou:
- No Ceará não temos mais escravos; temos empregados.
Algumas cidades dentro de muitos estados brasileiros já fizeram o mesmo.
Depois de amanhã vamos nos organizar.
A França está pressionando o imperador dom Pedro II a prestar declarações contra denúncias por tráfico de negros.
A princesa Isabel vai assumir o poder nesse período e devemos pressioná-la; temos de cercá-la por todos os lados.
- Como vocês ficam sabendo da vida do imperador?
Pelo que sabemos, ali não entra um cisco no olho dele sem ser visto; não escapa uma vírgula de uma palavra; tudo é guardado a sete chaves - comentou Augusto.
- Temos informantes que estão dentro do palácio.
Uma dessas fontes de informação, filho, são as mulheres consideradas "fáceis".
Já deve ter ouvido falar delas.
Sabemos que nenhum mérito será escrito sobre essas tais como grandes colaboradores na libertação da escravatura brasileira.
Nas rodas masculinas brinca-se dizendo que no Brasil não podem faltar duas coisas preciosas: cachaça e mulher.
Essas mulheres têm pais, irmãos e filhos; são as maiores fontes vivas de informações confiáveis, verdadeiras aliadas do movimento.
Não fique pensando bobagem a meu respeito; eu amo sua mãe e sempre a respeitei, e amo estas mulheres de maneira diferente, como irmãs e filhas.
Não posso negar o carinho e o respeito que devoto a cada uma delas.
Augusto continuava a ouvir em silêncio.
Era uma de suas características, algo que realmente herdara da mãe.
Quando o pai parou de falar, Augusto falou:
- Preciso colher da vida o que os livros não podem me dar...
Meu Deus! Ouvindo seus relatos, viajei no tempo.
Acho que estou atrasado em tudo; preciso alcançar alturas e dar meus voos.
O senhor é verdadeiramente um homem e tanto!
Se um dia fizer um terço do que o senhor fez, vou me considerar um verdadeiro herdeiro de António Bento.
Diga-me, o Chico Preto faz parte de tudo isso que o senhor me falou?
Ele conhece esses planos todos e participa deles?
- Sim, Chico Preto é um de nossos maiores colaboradores.
É um homem que, em silêncio, está ajudando a mudar a história de muitos irmãos.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 30, 2016 10:40 am

- Observando-o, não dá para imaginar...
E tão jovem e já fez tantas coisas boas pela nação.
Eu é que preciso sair da barra da saia de minha mãe e descobrir o mundo pelos meus pés.
Que notícia boa o senhor me deu a respeito da viagem de nosso imperador; tomara que a velha Paris lhe faça bem e que sua filha, a ilustre princesa, seja inspirada pelos bons anjos e assine de vez a lei que ninguém aguenta mais esperar.
- Que os anjos digam amém, filho!
Pedimos a Deus que nos ajude.
Vamos pedir ameaçar, jogar com todas as cartas que temos em mãos; será nossa grande chance.
- Que pena que tio Chico, grande colaborador para que tudo isso acontecesse, não terá tido tempo de comemorar esse grande dia - disse o moço com melancolia.
- Quem disse que ele não vai comemorar?
Aí está o grande engano: você pensar que o velho Chico morreu.
Não lutaria tanto para retirar meus irmãos de sorte do cativeiro se acreditasse que iriam morrer um dia.
Talvez os auxiliasse a morrer mais depressa para obterem o descanso.
Nosso velho Chico vai ser um dos primeiros a dar pulos de alegria, e devo isso a ele.
- Pai - falou o rapaz -, o senhor acredita mesmo que esses espíritos que incorporam em nossa fazenda já foram pessoas como nós?
- Sim, filho, não tenho dúvida nenhuma. Você sempre recebeu as orientações deles; não acredita que entendem os sentimentos humanos?
Para compreender nossas penúrias somente os que já vivenciaram em terra tais dificuldades.
- Acredito sim, pai.
Deus me livre de dizer que não acredito.
Já vi tantas coisas acontecerem com a participação deles; seria loucura dizer que não existem.
E que às vezes penso que são seres de outras dimensões, bem distantes de nós.
Pela sabedoria deles, questionava se de facto já foram encarnados.
Falando neles, o que será que o avô Sebastião quer connosco amanhã?
- Apesar da tristeza que abate nosso coração, recebemos da espiritualidade o bálsamo que acalma e fortifica o espírito.
Certamente este primeiro contacto da espiritualidade com os médiuns foi para trazer o conforto espiritual que estavam precisando; e nós fazemos parte dessa preocupação espiritual.
Pai e filho ficaram conversando um bom tempo.
António Bento estava convencido de que não conhecia o filho.
O rapaz era um menino com cabeça de homem, e sentimentos nobres e elevados.
Naquela noite, os moradores da fazenda demoraram a pegar no sono, cada um repensando sua vida.
"A partida do velho Chico mudará a história de vida de muita gente", reflectia Assunta, olhando as sombras da velha lamparina.
Dava graças a Deus pela idade avançada; logo estaria seguindo ao encontro do velho amigo.
Ia ser muito difícil continuar vivendo longe dele, mas o ensinamento deixado pelo negro velho chamava-lhe a voz da consciência:
viver é um dever que, antes de chegarmos à Terra, assumimos com Deus.
Ela não iria em hipótese alguma quebrar seu juramento; faria tudo o que ainda fosse possível para transformar os dias de todos em um amanhã melhor.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 30, 2016 10:41 am

Capítulo VIII - A sucessão de Tio Chico
A vida seguia seu curso naquele novo dia, cada um tratando das próprias tarefas e ao mesmo tempo ansiosos pelo grande encontro com o avô Sebastião.
Ao cair da tarde, o céu iluminou-se.
Algo chamava a atenção dos moradores da fazenda:
um grande arco-íris atravessava o local de um ponto a outro.
Na vila dos Velhos, um chamava o outro para ver um dos mais bonitos fenómenos da natureza.
Assunta observava em silêncio, e dizia consigo mesma:
"É um sinal...
E pai Francisco do Cruzeiro das Almas que está preparando novos caminhos.
Quem será que vai assumir o lugar do velho Chico?"
A carroça veio buscar os médiuns na vila dos Velhos.
Os mais jovens haviam preparado o terreiro e o barracão da velha senzala, e aguardavam ansiosos pelas novas instruções deixadas por Sebastião.
A conversa do avô Sebastião com o senhor António Bento decidiria o destino da espiritualidade de todos os médiuns.
Alguns chegaram a comentar entre si:
"O senhor António Bento respeitava os trabalhos do tio Chico.
Com a partida dele de repente pode não querer mais nossos trabalhos".
Na fazenda todos almoçavam e jantavam cedo.
E, nos dias dos trabalhos espirituais, os médiuns almoçavam bem, faziam um lanche no meio da tarde e não comiam mais nada até que os trabalhos terminassem.
Logo após o jantar, António Bento convidou toda a família para acompanhá-lo.
A filha pediu:
- Se o senhor não se importar, gostaria de ficar conversando com a minha mãe sobre meu casamento.
Sinceramente, ainda estou abalada com a morte de tio Chico.
Acho que vou acabar atrapalhando.
O senhor reze por nós, por favor.
A esposa se aproximou do marido.
- Se não se importar, fico com nossos filhos.
Reze por nós e pela alma de nosso bom amigo.
A gente não se prepara para enterrar ninguém e de repente somos pegos de surpresa; confesso que ainda não acredito que isso aconteceu com tio Chico.
O filho se levantou e, pedindo licença à mãe, avisou:
- Vou acompanhar meu pai.
Vocês podem não entender, mas, de repente, em vez de tristeza, sinto uma alegria imensa dentro de mim.
E como se algo estivesse me esperando, algo bom.
Quando António Bento e seu filho chegaram ao terreiro, os médiuns estavam praticando o ritual que chamavam de abertura dos trabalhos.
Tio Chico explicava sempre que era necessário fazer orações para limpar o corpo astral dos médiuns e preparar todo o ambiente para que os bons espíritos pudessem se aproximar.
Tempos depois, manifestava-se avô Sebastião.
Bento não ouviu o que ele falou aos médiuns, mas reparou que estes secavam os olhos.
Pelo semblante de cada um, tinham ouvido palavras de amor e consolo.
Zacarias se aproximou respeitosamente do senhor António Bento e pediu:
Ele seguiu sozinho.
O filho permaneceu sentado e, de longe, prestava atenção ao comportamento dos médiuns.
Todos se aproximaram do preto velho que estava sentado diante de António Bento.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 30, 2016 10:41 am

O preto velho então começou a falar:
- Filho, fui encarregado de transmitir ao senhor as vontades de Deus por meio dos dois trabalhadores que sempre serviram nesta casa:
pai Francisco do Cruzeiro das Almas e o velho tio Chico.
O desejo dos dois é que os trabalhos continuem e que possam ir se espalhando aqui e acolá.
Já é de conhecimento de todos que mais três casas estão trabalhando com a iluminação dos ensinamentos dos dois trabalhadores.
Pai Francisco deseja continuar trabalhando e servindo a todos, por isso lhe pede ajuda.
António Bento, emocionado, respondeu:
- Os trabalhos devem continuar.
Acredito e sinto pai Francisco perto de mim; ele sabe que pode contar comigo.
Tio Chico deixou muitos médiuns preparados e o senhor, meu bondoso avô Sebastião, pode coordenar os trabalhos.
O avô Sebastião pitou o cachimbo de ervas e calmamente falou:
- Vou continuar trabalhando sim, meu filho, porém, quem vai continuar coordenando os trabalhos aqui é pai Francisco.
- Avô Sebastião quer lhe falar do Cruzeiro das Almas incorporado no sucessor do velho tio Chico.
António Bento passou os olhos pelos médiuns.
Quem seria o sucessor de tio Chico?
Não importava; cada um dos ali presentes estava preparado para isso.
O avô Sebastião pediu a todos os médiuns que entrassem em contacto espiritual com seus mentores e logo estavam incorporados com os pretos velhos.
Todos foram até avô Sebastião e António Bento.
Depois, ajudados por aqueles que lhes davam assistência, dirigiram-se aos tocos de madeira que serviam de bancos.
O lugar onde tio Chico recebia pai Francisco estava arrumado da mesma forma de sempre.
António Bento observou o avô Sebastião e, ansioso, esperava que lhe apontasse quem estava incorporado com pai Francisco.
Ou será que ainda não era tempo de ele vir?
O avô Sebastião chamou Zacarias e pediu que ele fosse até o jovem Augusto e o convidasse para se aproximar.
O rapaz veio cheio de alegria.
As mãos suavam e um tremor lhe tomava o corpo.
Reconhecia que estava muito emocionado.
Aproximou-se do avô Sebastião e lhe tomou a bênção.
- Meu Senhor Jesus cubra-o de luz e que Seu poder esteja sempre contigo - respondeu o preto velho.
Tomando as mãos de Augusto, pediu licença e cobriu as palmas das mãos com a fumaça de seu cachimbo.
Pediu que ele abaixasse a cabeça e cobriu-a com a fumaça perfumada de ervas, que criou uma nuvem branca em torno do rapaz.
Tocando no terceiro olho da visão de Augusto, prosseguiu:
- Peço ao Pai Criador que esta fumaça seja o seu manto, cobrindo-lhe a coroa e também permitindo que seja feita a Sua vontade.
De repente, Augusto sentiu uma tontura.
Estava de olhos fechados e teve a impressão de que iria perder os sentidos.
O pai acudiu em ampará-lo, mas o avô Sebastião calmamente pôs a mão sobre a fronte do rapaz e recitou:
- Em nome de Jesus, baixe com a sua Luz.
O jovem abriu os olhos e seu corpo cresceu.
A voz se fez ouvir por todos os lados.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 30, 2016 10:41 am

Era a mesma voz de pai Francisco do Cruzeiro das Almas.
Olhando para António Bento, disse sorrindo:
- Não me conhece mais, meu filho Bento?
Pensou que tivesse se livrado do negro velho?
Pois continuo aqui, só mudei de aparelho.
Troquei o meu velho por um novo!
Vou precisar me acostumar com esse novo; ainda tem coisas nele que preciso aprender a utilizar de modo correto.
Estava acostumado com outro aparelho; até me acostumar com este aqui vou sentir muita falta do outro.
Agradecendo ao avô Sebastião, chamou Zacarias.
- Leva-me até meu assento.
Ele ainda vai me aguentar por um bom tempo - falou pai Francisco.
E, virando-se para António Bento, disse em tom de brincadeira:
- Vou me ajeitar no meu canto, depois chamo você para a gente prosear um pouco.
Zacarias o encaminhou ao toco.
Chegando lá, procurou um de seus instrumentos de trabalho e, não o encontrando, perguntou:
- Zacarias, meu filho, você sabe que não me sento neste toco antes de benzer com a minha cruz.
Onde a colocaram?
O moço respondeu alto:
- Meu Deus!
Tina, a cruz do pai Francisco ficou lá no terreiro da fazenda.
Corra, vá buscá-la.
Perdoe-me, pai Francisco, não sei o que me deu hoje.
- Não faz mal não, Zacarias, fez bem o seu esquecimento, assim você vai acreditar que sou eu mesmo, não é, filho?
E olhe aqui, menino, amanhã você vai à cova do velho Chico e trate de arrumar aquela cruz que você botou invertida.
Parece que os dois lados são iguais, mas não são!
Desenhei um sol na frente da madeira e uma lua nas costas; é a posição correta, e desejo que conserte isso. Tudo bem?
- Sim senhor, meu pai. - Zacarias chorava; a emoção era grande demais.
Tratava-se, sem dúvida, de pai Francisco.
Faria de tudo para aprender a arpar aquele menino, Augusto, tanto quanto amava tio Chico.
A moça entrou correndo e entregou a cruz.
Pai Francisco repetia os mesmos rituais que todos estavam acostumados a ver.
Sentou-se, ajeitando a perna como sempre fazia, e mandou chamar o filho Bento, nome pelo qual sempre o tratara.
António Bento olhava para o filho e, mesmo sabendo que era um preto velho que lhe irradiava do corpo, sentia-se confuso.
Como fora acontecer aquilo com Augusto?
Pai Francisco pegou as mãos de Bento:
- Tudo é muito difícil quando estamos encarnados - disse.
Principalmente acreditar naquilo que não podemos ver.
Sou eu mesmo, meu filho Bento, quem está aqui, o velho pai Francisco do Cruzeiro das Almas, e já dei minha bronca em Zacarias.
Primeiro, o esquecimento dele, e depois a falta de atenção na posição da cruz que colocou na cova do Chico.
Olha aqui, Bento, quero pedir a sua ajuda.
Esse menino é tão criança ainda e já assumindo uma responsabilidade tão grande e tão perigosa quanto a sua missão!
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 30, 2016 10:41 am

Muita coisa vai mudar Bento.
Algumas para melhor, outras para pior.
Em breve você vai ajudar a realizar o sonho de milhares de negros.
Será uma grande vitória; são os frutos de sua conquista.
Mas devo adverti-lo de que a marcação em cima deles não vai acabar e muitos vão pagar com a vida pela tal liberdade.
- O senhor acha que a lei vai ser assinada, meu pai Francisco? - perguntou Bento, ansioso.
- Vai sim, meu filho.
A princesa só não vai usar a caneta de ouro do meu tataraneto, mas também pouco importa; o que vai valer mesmo é a assinatura dela no papel.
E tenho uma coisa muito importante para lhe pedir, filho, por conta dessa assinatura.
- Diga, pai Francisco - falou António Bento.
- Sei que vocês vão se reunir para tratar de assuntos ligados à viagem da família da princesa.
O negro velho também sabe que existe um plano para que o senhor e sua tripulação não atravessem o mar, e eu lhe peço, filho: não façam isso!
Deixem-nos desembarcar em paz.
Por mais revolta que cada um tenha no coração, não podem esquecer que ele não é o culpado pelo atraso da humanidade.
Querem se vingar das mortes dos mártires que lutaram pela liberdade dos negros, mas eu afirmo:
se estivesse encarnado, estaria fazendo a mesma coisa que vocês.
No lado de cá, a gente começa e enxergar com a visão espiritual e passa a compreender que, quando praticamos certas coisas motivadas pelos sentimentos carnais, estamos nos comprometendo com a espiritualidade.
António Bento estava pálido.
Como o preto velho ficara sabendo dos planos secretos dos líderes de seu movimento?
Não poderia modificar o projecto, que já estava esquematizado.
A família real iria desaparecer para sempre no fundo do mar, assim como muitos negros haviam desaparecido em navios negreiros.
Não dependia apenas dele; já estava engatilhado o plano que daria fim à história do imperador no Brasil.
Enquanto martelava esses pensamentos, permaneceu em silêncio, a cabeça baixa.
Como se pai Francisco ouvisse o que pensava, falou-lhe:
- Bento, meu filho, você não vai se sentar em volta daquela mesa sozinho.
Você lidera o movimento dos encarnados e nós lideramos o movimento dos desencarnados.
A sua opinião a respeito desse assunto vai ser o primeiro peso colocado sobre a balança da mesa.
Logicamente vai gerar uma grande discussão e, por fim, surgirá uma votação.
Neste momento é que vamos interagir, inspirando a mais nobre e melhor solução:
a manutenção-da vida.
Vai dar tudo certo, você vai ver.
De longe, quem os visse, diria:
"Pai e filho conversando".
Contudo, ali estavam pai, filho e muitos pretos velhos, conhecedores dos caminhos que eles ainda iriam atravessar.
Ficaram muito tempo tratando do delicado assunto, o preto velho instruindo e sugerindo a António Bento como deveria proceder para atingir a consciência dos outros homens envolvidos no projecto.
Antes de se despedirem, o pai Francisco acrescentou:
- Bento, aconselho vocês do movimento a ir pensando no que vão fazer com tantas bocas que precisam comer.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 30, 2016 10:42 am

Até as pedras se espalharem, muitas águas correrão sobre elas.
A preocupação do movimento deve ser libertar e também manter os negros vivos e seguros.
Os negros no cativeiro são como pássaros nascidos em gaiola; não conhecem a força da vida lá fora.
Ainda vai levar alguns anos até que os homens brancos ou negros compreendam que Deus não está na cor da pele, e sim na luz do coração.
Pai Francisco fez sinal para Zacarias se aproximar e pediu que convidasse os demais irmãos para chegarem perto dele.
Depois que todos estavam próximos, pai Francisco pediu:
- Sebastião, meu amigo, transmita para todos o que já tínhamos preparado para esta noite.
O avô Sebastião manifestou-se:
- Para os filhos encarnados, a surpresa é tão grande quanto a surpresa que o velho Chico pregou em vocês.
Os participantes daquela noite e alguns visitantes prenderam a respiração para ouvir melhor o que o avô Sebastião teria a dizer.
Pitando seu cachimbinho de barro, o preto velho falou:
- Quem poderia imaginar um rapazote, e ainda mais filho do patrão, sentado no toco onde se sentou o velho Chico para iluminar-se com pai Francisco, não é mesmo, pessoal?
Pois é... De hoje em diante, será esse menino o sucessor de Chico.
Este trono sagrado pertence a ele, e todos lhe devem obediência e respeito.
Vocês deverão ajudá-lo nesta tarefa tão difícil e deixar as dúvidas de lado, sem questionar, assim como eu não questiono, porque essa é a vontade de Deus.
Não vamos contestar o porquê de Suas decisões.
Todos entenderam?
E, para que todos vocês aqui presentes saibam que não importa o pouco da idade desse menino, quem caminha com ele está na frente de todos nós, por isso devemos segui-lo.
O menino senhor Augusto é o novo pastor do nosso rebanho.
Convido meus irmãos trabalhadores para deixar os preciosos vasos que são os médiuns para que todos os filhos possam receber a bênção de pai Francisco e para que se certifiquem dos acontecimentos de hoje.
Assunta, médium de avô Sebastião, ficou de olhos arregalados.
Ela era uma médium totalmente inconsciente; não via nem ouvia nada do que acontecia ao redor quando estava incorporada.
- Meu Deus, é pai Francisco quem está ali...
Mas quem é o médium que está com ele?
Tentou, com dificuldade, ver quem era, pois sua visão já não lhe permitia enxergar a distância.
Esfregou os olhos e pensou:
"Se não estou enganada, todos os médiuns que estão aqui estão ao redor do preto velho...".
Pai Francisco a chamou:
- Assunta, venha aqui, minha filha!
Que agonia é essa?
Olha direito para este corpo aqui; acha que tenho essa idade e essa cor, minha filha?
- Meu Jesus das Santas Chagas! - exclamou Assunta, aproximando-se.
É o filho do senhor António Bento...
Como é que aconteceu tudo isso, meu Deus?
Pai Francisco passou a conversar com cada um, e deixou os trabalhos marcados, orientando os trabalhadores.
Pediu que avisassem os filhos de que ele havia se preparado para actuar nos terreiros de outras casas, e que queria apresentar o novo instrumento de trabalho.
Apesar de novo e moderno, era tão bom quanto o velho aparelho, que agora estava se renovando.
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Ave sem Ninho

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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 30, 2016 10:42 am

Pai Francisco se despediu de todos e, quando se afastou do corpo físico de Augusto, este ficou imóvel, olhando ao redor.
Não estava entendendo nada; lembrava que fora levado até um preto velho e sentira tonturas.
Depois, não se lembrava de mais nada.
Avistando o pai, foi ao encontro dele, perguntando, assustado:
- Pai, o que aconteceu?
Por que esse povo todo me olha assim?
- Filho, você vai entender o que aconteceu ouvindo cada um deles - esclareceu o pai, convidando-o a se sentar.
Alguém lhe serviu um copo de água.
Ele aceitou e sentou-se, esperando que lhe narrassem o ocorrido.
Conscientizado da grande tarefa, tornou, emocionado:
- Deus prepara os caminhos de modo que só precisamos trilhá-lo para nos encontrarmos, e também encontrar os outros.
Vou honrar este convite que recebi do céu; farei o possível para não decepcionar nenhum de vocês.
Foi acesa naquela noite mais uma luz em terra, e no céu uma estrela cintilava de contentamento.
Tratava-se de tio Chico, que, irradiado pela luz do Pai, renovava-se, voltando à sua forma natural.
Na fazenda, as coisas corriam muito bem.
O antigo senhor agora era o mais dedicado trabalhador da escola e fazia questão de morar em uma casinha simples idêntica à dos escravos.
Crianças brancas e negras estudavam juntas e compartilhavam tudo.
Os pais, da mesma maneira, estavam juntos.
Muitos jovens filhos de ex-capatazes namoravam filhas de escravos, tudo com a aprovação da família.
O jovem Augusto era orientado pelos pretos velhos, e por médiuns como Assunta e outros, sobre comportamento e deveres espirituais.
Os médiuns tinham, ainda, cuidado para não retirar do menino o direito que tinha de viver como todo jovem da fazenda.
O país atravessava um dos piores períodos de sua história.
Era senhor se matando para não ceder às ordens da lei.
Era fazenda sendo extinta, senhor indo embora para terras distantes e negros e mais negros fugindo e ganhando força.
Negros e brancos saqueavam fazendas enfraquecidas; levavam o que podiam, e o maior interesse eram os escravos.
Contudo, muitos caminhos estavam bloqueados.
O imperador, desgostoso e enfraquecido pela doença, dentro de si já havia se entregado.
Ia a Paris e sabia que não voltaria mais ao Brasil.
Despediu-se com lágrimas nos olhos dos canários pertencentes à terra que tanto amava.
Os líderes do movimento acompanhavam seu embarque; não haviam mudado de ideia, apenas de plano.
Caso não acontecesse o que esperavam, o imperador jamais colocaria os pés em terras brasileiras.
Se António Bento estivesse certo, e tomara que estivesse, realmente seria muito melhor mantê-lo vivo e bem distante.
Se a lei não fosse assinada, novas e drásticas medidas seriam aplicadas, inclusive no tocante à princesa Isabel.
A sorte dos negros fora lançada; era só esperar.
Doze de maio de 1888 foi uma noite longa para muitos brasileiros e alguns estrangeiros que estavam envolvidos na mesma intenção.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 01, 2016 9:35 am

Antes de sair de casa aquela noite, António Bento conversou com pai Francisco do Cruzeiro das Almas e recebeu uma pequena cruz, que levou pendurada ao peito.
Avisou a esposa e os filhos que não se preocupassem, pois não tinha hora para voltar, mas que ficassem tranquilos porque sua decisão iria libertá-lo para lhes dar a atenção que mereciam.
A aurora do dia estava iluminada pelos raios do sol.
Nuvens em tons rosáceos e azuis anunciavam as boas-novas.
Reunidos em pontos diferentes de muitas cidades brasileiras, todos torciam para que a princesa acordasse bem e não deixasse para o outro dia o que precisavam anunciar mais que depressa aos negros de todo o país.
Após o desjejum, a princesa estava sentada na sala onde o pai costumava tomar as grandes decisões do Brasil.
Acomodada no trono real, examinava o documento cuidadosamente deixado sobre a mesa.
Passou os olhos em tudo que adornava a mesa de trabalho do pai e, preocupada, fitava a caneta que lhe viera como uma ameaça.
A situação da família real não era boa; fora aconselhada a assinar aquele documento.
Recebera uma correspondência anónima afirmando que a viagem do pai tinha sido planejada; seria um golpe.
Se não assinasse aquele documento, muito sangue seria derramado, e começaria pelo dos nobres.
"O que fazer?", reflectiu.
Não tinha como se comunicar com o pai...
Seus fiéis servidores haviam planeado aquela conspiração contra o imperador do Brasil.
Não demorou muito e o palácio real estava lotado.
A princesa Isabel percebeu que estava cercada por todos os lados.
Não tinha como se defender diante de tantos inimigos.
Olhava um por um, e tudo lhe parecia um pesadelo.
No dia anterior, todos haviam jurado obediência e fidelidade ao imperador.
Enquanto folheava a pasta, sem prestar atenção ao que estava escrito, ponderava:
"Será que meu pai deixou o Brasil como um refém do golpe?"
Na verdade, sentia-se como uma presa cercada por caçadores; não havia saída.
Alguém lhe estendeu a caneta de ouro, presente de algum abolicionista.
Ela afastou a rica caneta--tinteiro e, pegando a sua própria e velha caneta, molhou-a bem no tinteiro e corajosamente assinou todas as folhas que exigiam sua assinatura, fazendo questão de carimbar com o brasão real toda a documentação.
No dia 13 de maio de 1888 foi quebrado na espiritualidade um dos maiores nós que aprisionavam as almas no Brasil.
Como se o céu quisesse comemorar com os encarnados, pesadas nuvens provocaram trovões e relâmpagos, que cortavam o céu de um lado a outro.
As ruas começavam a lotar de gente anunciando a boa-nova, conquista de anos e anos de luta.
Os membros dos movimentos abolicionistas, mulheres da noite e toda a população, que se mantinha oculta, agora lotavam as ruas em comemoração à liberdade.
Um grupo de manifestantes tentava atiçar fogo no palácio; logo foram detidos pelos membros do próprio movimento, que exigiam respeito e ordem com o património do Estado.
Pelas estradas, cavalheiros galopavam por todas as entradas, levando às fazendas a nova notícia.
Pelos rios, barcos e remadores davam tudo de si para levar à outra margem das terras as boas-novas.
Dois dias depois, na fazenda do juiz António Bento, o alvoroço era grande demais.
Todos os escravos queriam saber como ficaria a situação deles.
Permaneceriam na fazenda?
O doutor iria dispensá-los?
Para onde iriam?
O que fariam?
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 01, 2016 9:36 am

Após o jantar, os dois António Bento estavam sentados na grande varanda que dividia o terreiro da casa-grande.
Os negros aguardavam ansiosos para ouvir o que o doutor diria a todos eles.
O juiz então começou a falar:
- Meus irmãos, independente de nossas religiões ou costumes culturais, somos filhos de um só Pai, o mesmo que nos permitiu esta grande bênção conquistada com minha fé e a de vocês.
Todos vocês aqui sempre foram pessoas livres para Deus e para nós, não é verdade, Bento? - fez tal pergunta olhando para o amigo que, emocionado, tinha os olhos cheios de lágrimas.
António Bento assentiu com um aceno de cabeça.
O juiz prosseguiu:
- Como pessoas livres, terão os documentos regulamentados.
Farei isso com muito gosto.
Agora livres, poderão escolher entre continuar connosco ou começar uma vida nova em qualquer lugar do Brasil, também com a minha ajuda.
Temos muita terra produtiva nesta fazenda e acabei de comprar a fazenda vizinha.
O coronel, desgostoso com a situação brasileira, resolveu voltar para o seu país, e pude adquirir as terras dele.
Podemos construir um povoado nas proximidades do rio e todos os moradores poderiam trabalhar em um sistema que fosse favorável a todos.
Vamos aumentar a criação de gado, carneiros, porcos, galinhas, e investir em novos plantios.
Depois Bento vai explicar melhor e com todos os detalhes o que é plantar e colher "de meia".
Começamos assim e quem sabe em breve trabalharemos arrendando as terras a vocês e lhes dando suporte, para que todos saiam ganhando?
No fim da conversa, todos aplaudiram o senhor juiz António Bento.
Após os agradecimentos, negros e brancos se abraçaram diante do senhor.
O antigo senhor já havia conquistado a confiança e a amizade de todos, e os jovens negros o abraçavam também.
Sinceras lágrimas escorriam-lhe pelo rosto.
Agradecia em silêncio a Deus; seu coração estava aliviado.
Sabia que Deus o havia perdoado, mas ainda precisava do perdão de alguém muito especial: seu filho Antero.
Augusto e o grupo de médiuns que o acompanhava deram início ao sagrado ritual.
O juiz era muito católico, porém, respeitava os trabalhos da espiritualidade e incentivava a manutenção da cultura viva daquele povo.
Manteve-se atento ao comportamento de Augusto, seu afilhado.
"Santo Deus", disse para si o juiz, observando o jovem entrar em transe.
"Como pode um menino de repente se transformar em ancião?"
Tudo o que ouviu naquela noite era a mais singela e pura verdade.
Não mudaria sua convicção religiosa, mas mudara o conceito a respeito de incorporações espirituais.
Em conversa particular com o preto velho pai Francisco, foram-lhe reveladas coisas no sentido de ajudá-lo, factos que nunca tinha comentado com ninguém.
Se houvesse comentado com o amigo Bento, iria desconfiar, mas não contara a absolutamente ninguém!
Como aquele ser lhe falava do problema com tanta naturalidade e discrição?
O preto velho recomendou-lhe um tratamento com produtos naturais; ele não andava se sentindo bem já fazia um bom tempo.
Não reclamava com a esposa nem com os amigos, para não deixá-los preocupados.
E o negro velho revelava todos os seus sintomas como se o acompanhasse diariamente.
Que mistério era esse que separava esses dois mundos?
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 01, 2016 9:36 am

Ali mesmo, diante do preto velho pai Francisco do Cruzeiro das Almas, tomou uma decisão:
- O maior presente que posso oferecer a Deus e a estes irmãos é o que vou fazer amanhã.
Deixarei estas terras como herança para Augusto.
Vou acrescentar uma cláusula:
este lugar deverá ser preservado como sagrado; não poderá ser vendido, será de uso e fruto de Augusto e seus descendentes, e a cultura trazida pelos escravos deve continuar, pois isso não é apenas religião, é ciência - concluiu o juiz.
Ao término do ritual, felizes por ter cumprido as tarefas com a espiritualidade, os médiuns se despediram e se retiraram.
Na estrada, voltando para casa, Assunta seguia muito calada.
Uma das mulheres perguntou:
- O que a senhora tem, dona Assunta?
Está tão quieta hoje!
- Não é nada, minha amiga.
Estava apenas relembrando os meus passos até aqui.
Nunca imaginei que fosse presenciar o fim da escravidão, quer dizer, a lei que deu início a uma grande e longa caminhada, porque até todos se libertarem de si mesmos vai demorar muitos e muitos anos...
- Pois é, tia Assunta - falou uma moça de pouca idade -, agora somos livres!
Será que vamos poder frequentar os mesmos lugares que as mulheres brancas?
- Acredito que no papel da lei deve estar escrito isso em algum lugar, mas você bem sabe que na vida real isso não vai acontecer.
Você acha que as moças brancas, que andam bem adornadas e vestidas de seda, vão abrir espaço para você?
Quanto a ser livre, minha filha, é um tanto difícil entender o que vou lhe falar, mas ouça bem:
livres vamos ser de verdade quando deixarmos o corpo carnal e alcançarmos o caminho da luz, que é leve e transparente, no mundo onde todos têm a mesma cor.
Esta lei veio e com certeza vai beneficiar muitos negros, mas dizer que o sofrimento deles foi totalmente extinto, isso não é verdade.
Até o negro conquistar um espaço em meio aos homens brancos, como diz o avô Sebastião, muitas águas ainda vão rolar...
"Desde a morte de tio Chico, tia Assunta não é a mesma", pensou a garota.
"Mesmo não querendo demonstrar, ela ficou triste, não brinca mais com ninguém".
Aquela noite Assunta não conseguia fechar os olhos.
Quem diria que fosse alcançar a assinatura da tal lei.
Se o velho Chico estivesse ali, seria bem diferente; iriam passar as noites rindo, contando histórias e tomando as ervas amargas que ele preparava tão bem.
Mas o amigo se fora, e, por mais que lutasse para não se deixar levar pela tristeza, não estava conseguindo viver sem ele.
A mesma coisa acontecia com as duas mulheres mais velhas, habitantes das casas vizinhas à de Assunta.
Como ninguém pode explicar a ciência oculta de Deus, na mesma hora, duas da manhã, as três amigas fecharam os olhos e se deram as mãos, partindo com um sorriso.
O desejo delas fora atendido:
lá estava o velho Chico, sorrindo e dando as mãos para receber as três.
- E então, Assunta, não arredou o pé da terra enquanto a princesa não assinou a Lei Áurea? - perguntou tio Chico em tom de brincadeira.
- E eu que pensei que iria lhe dar a notícia em primeira mão...
Mas você já está sabendo - respondeu, olhando ao redor.
Chico, o que estamos fazendo aqui?
Isso parece tão real; é algum trabalho de transporte que nós três estamos fazendo com você?
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 01, 2016 9:36 am

- Digamos que sim; foram transportadas até aqui.
As três estão decepcionadas ou arrependidas por terem vindo?
- Deus nos livre de arrependimento - respondeu uma das mulheres.
Acho mesmo que Assunta quis dizer o seguinte:
não queremos mais voltar!
Será que podemos ficar com o senhor?
- Você vivia me perguntando se era possível amigos voltarem a conviver juntos na espiritualidade, e eu sempre lhe respondia:
não posso afirmar, mas acredito que Deus não separa o que Ele uniu com amor.
Somos espíritos afins, por essa razão estamos novamente juntos para dar início às novas e grandes empreitadas.
De olhos arregalados, outra mulher perguntou:
- Tio Chico, nós morremos?
Não me lembro de nada!
- Está se sentindo morta? - inquiriu o negro velho.
- Não! Sinto-me a mesma - tornou ela, olhando-se.
- Então já entendeu que ninguém morre; a gente simplesmente se afasta de um lado para o outro.
Foi o que aconteceu com vocês três:
passaram de um lado para outro, e vieram juntas.
Isso é o que chamo de amizade eterna.
- Desencarnamos mesmo, Chico?
Não é uma ilusão da nossa mente? - insistiu Assunta.
- Sejam bem-vindas entre nós - respondeu tio Chico, enquanto se aproximavam delas outros espíritos amigos e familiares.
"A felicidade existe em algum lugar...
Sempre acreditei nisso", pensava Assunta.
Na fazenda foi um clamor geral.
Ninguém sabia explicar o que acontecera com as três mulheres mais velhas da fazenda.
O próprio António Bento averiguou o que elas haviam bebido e comido, mas não encontraram nada suspeito.
As mulheres nos caixões, cobertas de flores, pareciam sorrir.
Ali terminava a jornada delas e começava para outras uma nova história de vida:
o fim da escravidão no Brasil.
- Meu Deus, como é que isso foi acontecer? - dizia a esposa de Bento, inconformada.
Nos últimos tempos, ela acompanhava o filho em todos os trabalhos e não lhe restava mais nenhuma dúvida sobre a vida após a morte.
Mas, como entender que três pessoas tão próximas desencarnassem na mesma noite?
Será que haviam combinado alguma coisa, preparado alguma poção e bebido antes de irem se deitar?
Não gostava de ocupar o tempo precioso do preto velho pai Francisco com perguntas sem sentido.
O preto velho atendia tantas pessoas, que agora vinham de todos os lados:
eram brancos, negros, mulatos, todos querendo falar com pai Francisco.
Contudo, precisava tranquilizar o coração; queria saber a verdade sobre a morte das três mulheres.
Pai Francisco chegou e acalmou negros e brancos, que choravam a perda das três grandes senhoras que tanta luz haviam deixado naquele lugar.
- Filhos, o que Deus escreve lá no alto não podemos nem ler, nem mudar aqui embaixo.
O pranto continuava; o povo não se conformava.
Era muita dor.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 01, 2016 9:36 am

Pai Francisco se levantou de seu lugar e falou em voz alta, repleta de autoridade:
- Não vim até aqui para ficar ouvindo as lamentações de vocês.
Continuem chorando, aproveitem e chorem por elas e por mim, pois não voltarei mais entre vocês.
Já que acreditam na morte, também não existo.
Sendo assim, fiquem com Deus e boa sorte para todos!
Os médiuns avançaram até ele, pedindo perdão.
- Pai Francisco, pelo amor de Deus, não nos abandone -gritavam em coro os filhos do preto velho.
Pai Francisco voltou ao toco, sentou-se e pitou seu cachimbo.
Tal como mágica, o choro silenciou.
Ninguém falava; todos estavam de cabeça baixa.
- Posso falar agora?
Vão me deixar explicar alguma coisa para vocês ou vão começar a choradeira?
Quem não tiver condições nem forças para ficar e me ouvir vá chorar lá fora, que o terreiro é grande, mas chorem baixo que eu não quero ouvir.
Os que ficarem, prestem bem atenção ao que tenho a dizer.
Todos permaneceram.
- Bem, pessoal, as três se foram pela chamada de Deus.
Sosseguem o coração de vocês quanto a pensar que se mataram.
Por que fariam isso?
Quando passaram pelo castigo da fome, da sede e do tronco não fizeram essa besteira!
Agora, sendo tratadas como rainhas e conhecendo as leis da vida, acham que fariam algo assim?
É estranho, mas foi um facto legítimo.
Não vamos querer agora ser investigadores das causas de Deus.
De vez em quando me chega a tristeza de que três ou quatro da mesma família foram mortos em tocaias.
E isso vocês acham normal.
Mas se Deus chama três filhos de uma vez se torna espanto.
Estão com medo? Foi castigo?
Foi praga? Feitiço? Não, filhos.
Peço a Deus que tenham a mesma felicidade que tiveram estas três na partida e na chegada delas.
Vamos continuar com nosso trabalho.
Quero todo mundo aqui com a cabeça em Deus e pé firme no chão!
Naquela noite, os dois António Bento foram juntos falar com pai Francisco.
O juiz levava uma pasta debaixo do braço.
A mãe de Augusto ofereceu duas cadeiras para os dois homens, mas eles preferiram se sentar na esteira, aos pés do preto velho.
Após tomarem a bênção de pai Francisco, foi o juiz quem falou primeiro:
- Pai Francisco, está vendo este documento aqui?
- Sim, meu filho, estou vendo; é alguma coisa em que possa ajudá-lo?
- Sim senhor.
Quero sua ajuda e a do meu amigo e compadre Bento.
Passei estas terras todas para o meu afilhado Augusto e o senhor, como administrador espiritual, por favor, cuide e ajude para que esse lugar sagrado permaneça imantado pela sua luz.
- Oh, meu juiz, pelo amor de Deus!
Não sou administrador espiritual desse menino; o administrador de todos nós é um só: Deus.
Sou apenas um grão de areia que vindo de Deus desce entre vocês no sentido de promover a paz.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

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