Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 01, 2016 9:37 am

Mas, se o senhor tomou esta decisão com o sentimento de elevar os filhos de Deus a um entendimento maior, enquanto Augusto viver neste corpo que Deus lhe deu posso me comprometer em dizer que ele jamais vai vender este chão; um dia ele pode também doá-lo e, quando terminar toda a nossa missão, a terra continuará sendo do mesmo dono: Deus.
Após conversarem muito sobre o acto do juiz em doar as terras para Augusto, ele pediu que os dois guardassem segredo, que não contassem nem para o rapaz nem para quem quer que fosse.
Tudo tinha sua hora, e, no dia certo, no momento adequado, as coisas iriam acontecer.
Os dois prometeram guardar segredo, entreolhando-se.
Admiravam a inteligência daquele mestre de luz.
Não era bom que outros soubessem da riqueza de Augusto; a cobiça gerava e provocava muitos prejuízos espirituais.
Naquele momento, os dois Bento nem de longe imaginavam que o preto velho já sabia o que aconteceria no futuro.
Após a morte do juiz, um de seus herdeiros embargou e depois de mais de quinze anos ganhou na justiça as terras que foram doadas ao médium Augusto pelo juiz António Bento.
Augusto nunca compareceu às audiências convocadas pelo herdeiro; deixou bem claro que não sabia dessa herança e que não pretendia apossar-se de algo que não era dele.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 01, 2016 9:37 am

Capítulo IX - O reencontro
Após a assinatura da Lei Áurea, aumentou a violência em todo o Brasil.
Muitos abolicionistas foram sequestrados, aprisionados e por fim mortos, e as mortes, atribuídas a doenças misteriosas.
O país viveu um período de muita tristeza, que mudou a trajectória de muitas famílias.
Imigrantes chegavam ao Brasil com planos de fazer fortunas.
Aproveitando-se da situação em que se encontrava o país, realmente enriqueceram à custa do sofrimento daqueles que deixaram o cativeiro para viver outra prisão.
Os ricos senhores bem estabelecidos em nosso Brasil iam tomando conta de tudo e de todos.
Ofereciam empregos aos negros, e como pagamento davam-lhes comida e um canto para se abrigar; muitos se sujeitaram por não ter aonde ir nem o que fazer.
Alguns senhores expulsaram os escravos das fazendas; eles saíam com os trapos que lhes cobriam o corpo.
Estes faziam qualquer tipo de serviço por um prato de comida e um lugar para dormir.
Nesta época, pessoas como Chico Preto dobraram as oportunidades de emprego nos negócios.
Os inimigos de Chico Preto brincavam dizendo que nas minas dele havia mais negro do que ouro.
Surgiram diversos problemas envolvendo a mina de Chico Preto:
a pressão dos empresários e a política interna, que não deixavam os abolicionistas em paz, muitos saques, falsas denúncias tentando intimidar o progresso dos que não concordavam com a corrupção, algo que vivencia-mos, aliás, até os dias atuais.
No tempo marcado com António Bento, Chico Preto manteve sua palavra.
Estava com tudo pronto para receber a bela filha do amigo como esposa.
Para o casamento da filha do senhor António Bento, muita gente investiu em roupas e sapatos de luxo.
Ninguém queria perder a grande oportunidade de levar para casa uma peça de ouro e contar que fora convidada para o maior evento dos tempos:
o casamento de Chico Preto, o rei do ouro.
Corria o boato de boca em boca, e o noivo não economizou em nada.
O próprio convite do casamento foi todo desenhado em ouro, e os convidados já imaginavam o que iriam ganhar de lembrança do senhor das minas.
Parentes do noivo e da noiva estavam presentes.
António Bento notou a inquietação e o desconforto do amigo Antero.
O clima não foi dos mais agradáveis para o pai do noivo.
Antero não escondeu a decepção e a mágoa ao reencontrar entre os amigos aquele que um dia desejou nunca mais rever: seu pai biológico.
António Bento chamou o amigo Antero para dar uma volta pelos arredores da fazenda, mas seu objectivo era outro.
Conversou muito com ele, explicando que o antigo senhor vivia na fazenda e colaborava muito como voluntário na escola e em outras tarefas; que procurasse deixar o passado para trás e tivesse coragem de olhar para a frente e, quem sabe, com o tempo, até perdoar o pai.
Antero ouviu o amigo e prometeu que não iria arrumar nenhum mal-estar com o antigo senhor; iria evitá-lo, sim, mas respeitaria a alegria do filho e o amigo Bento, que sempre o acolhera de braços abertos.
Antero parecia amargurado, observou Bento.
Seria apenas pelo pai? Criou coragem e perguntou:
- Além desse problema, há mais alguma coisa que o atormenta?
No tempo que convivemos juntos aprendemos a nos conhecer.
Algo o atormenta... O que é?
Duas lágrimas rolaram do rosto do mulato.
Cabisbaixo, ele respondeu:
- O passado voltou para tirar meu sossego.
Não estou em condições de conversar agora; quem sabe depois, quando estiver com a cabeça no lugar.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 01, 2016 9:37 am

Antero pediu licença ao amigo; precisava caminhar sozinho com seus fantasmas.
Bento observou o amigo se afastar e rapidamente compreendeu qual seria o passado que deixara o amigo naquele estado.
Sua experiência de vida como homem que se envolvia com os sofrimentos alheios dera-lhe a resposta: Arlinda...
Antero olhava de um lado para outro, mas não reconhecia mais ninguém que dividira com ele os dias de horror e de alegria.
Os que viviam na fazenda pareciam pessoas alegres e felizes.
Tudo estava mudado; nada era como havia deixado. Até a casa mudara de cor.
Não existiam mais a senzala nem o quartinho que lhe servira de abrigo; o quarto fora derrubado e no lugar estava agora um lindo ipê, todo florido de flores amarelas, cobrindo o chão, onde derramara tantas lágrimas.
Aproximou-se do terreiro onde antes era a senzala e espreitou o interior.
Ali moravam tio Chico e outros velhos amigos.
Parado à porta do terreiro, Zacarias, que ajudava as mulheres a fazer a limpeza, convidou-o a entrar.
Antero entrou no local e observou cada canto, cada detalhe.
De repente, seus olhos depararam com uma peça de madeira.
Esticando o braço, perguntou:
- Esse pássaro aí é de quem?
- Pertenceu a tio Chico.
Ele cultuava esse pássaro como uma imagem de Nosso Senhor, e hoje, por ordem do pai Francisco, ele continua no mesmo lugar e sendo zelado do mesmo jeito.
Não sei onde tio Chico adquiriu esta peça, mas sei que tinha por ela grande zelo e amor.
Antero se ajoelhou e, sem se importar com a aprovação ou não do rapaz, agarrou-se à estatueta de madeira.
Fora ele quem fizera aquela escultura e, antes de deixar a fazenda, presenteara tio Chico com ela.
Havia comentado ao negro velho que, de todas, aquela escultura fora a que mais gostara de fazer.
Agora chorava abraçado ao pássaro, e podia sentir a presença viva de tio Chico.
"Querido Chico, como você foi importante em minha vida!
Daria tudo para tê-lo novamente comigo".
Sentia também saudade de sua avó materna; ela sim lhe dera amor de verdade.
Zacarias não entendeu nada; o pai do genro do senhor Bento ficara emocionado com os pertences de tio Chico?
Por que seria?
E, assim, Antero foi de ponto em ponto que conhecera, descobrindo que nada mais estava do jeito que deixara.
Sentado no velho tronco de uma frondosa árvore que conhecera saudável, cujo toco agora estava morto e seco, pôs-se a pensar:
"Nem o senhor é mais o mesmo!
Não posso negar que se o encontrasse em qualquer lugar não iria reconhecê-lo.
Está mudado; parece tranquilo e feliz.
Será que eu é que não mudei?
Parece que saí ontem desta fazenda, sinto-me fraco diante dela.
Tenho a impressão de que acordei de um sonho; algo me arrasta de volta para quem imaginei distante de minha vida".
Estava tão absorto em tais pensamentos que não percebeu a chegada de Arlinda.
Ela sentou-se ao lado dele e, tomando--lhe a mão, falou:
- Antero, não podemos reclamar de nossa vida.
Apesar de muitos sofrimentos que atravessamos juntos, chegamos até aqui.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 01, 2016 9:37 am

Olhe só onde estamos!
De volta a uma fazenda que simplesmente guarda na memória algumas passagens que não valem a pena ser lembradas.
Percebi que não se sente bem diante do antigo senhor; falo antigo mesmo, porque hoje ele é muito querido pelos jovens brancos e negros da fazenda; é um novo senhor.
Repare em nosso filho.
É um homem forte, decidido, feliz.
Sou uma mulher feliz também; se não tive tudo o que sonhei um dia, recebi muitas bênçãos de Deus em outras formas de felicidade.
Você também fez sua vida, tem uma família maravilhosa, alcançou seus objectivos antes de outros escravos; portanto, não pode se queixar da vida.
Eu e minha família sofremos muito, porém, Deus, em sua misericórdia, colocou pessoas iluminadas em nosso caminho.
Saímos da fazenda como mercadorias de segunda mão, mas nosso filho nasceu livre.
Não posso me lamentar.
Antero levantou a cabeça e, olhando dentro dos olhos de Arlinda, perguntou:
- Você é feliz?
Ela baixou os olhos e respondeu:
- Quando vivemos em paz e temos ao nosso lado pessoas maravilhosas como nós dois temos, não podemos dizer que somos infelizes.
Secando os olhos na manga da camisa, Antero comentou:
- Quando encontrei meu filho, pensei que fosse morrer de emoção.
Foi uma felicidade imensa, e em todos estes anos em que estivemos separados jamais deixei de pensar nele e agradecer a Deus pela felicidade que ele encontrou na bondade do padrasto que o tomou como filho.
Todavia, hoje, descobri que nunca me separei de vocês; no momento em que a vi pensei que fosse morrer.
Foi como se me virassem do avesso.
Senti vontade de correr e de abraçá-la; parece que nunca me afastei daqui.
Tenho a impressão de que estava dormindo e acordei em outra dimensão; tudo está mudado, diferente, menos o que sinto por você.
Arlinda, desnorteada, replicou:
- Talvez tenham sido as lembranças do que vivemos juntos nesta fazenda que o deixaram assim.
Não posso negar que me senti um pouco desconfortável, especialmente quando meu filho me levou até o antigo senhor e tive de lhe dar a mão.
Agora imagino você ter de olhar dentro dos olhos dele, se é que conseguiu olhá-lo, e dizer que está tudo bem.
- Não, eu não o olhei.
E também não estendi minha mão a ele.
Sinceramente, não tenho vontade nenhuma de fazer isso.
Não fui embora pela consideração que tenho ao nosso filho e a outras pessoas da família de minha nora; são amigos de muitos anos.
- Tenha paciência, Antero.
Por nosso filho sempre fiz e faço qualquer sacrifício.
Ele está tão feliz!
Não podemos entristecê-lo com nossos sentimentos pessoais.
- Arlinda, por favor, me fale a verdade.
Vou me sentir o mais feliz dos homens se me disser a verdade.
Diga-me que se casou com o doutor não por interesse na riqueza dele, mas pensando em proteger nosso filho.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 01, 2016 9:37 am

Vivi até hoje acreditando nisso; se estive enganado todo esse tempo, vai ser bom para mim conhecer os verdadeiros motivos que a levaram a se casar com outro homem.
- Antero, quando deixamos a fazenda, não sabíamos do nosso destino.
Logo nos primeiros dias em que chegamos à fazenda do senhor, o irmão dele começou a me olhar diferente e tentei fugir de todas as formas.
Ele convidou toda a nossa família para trabalhar na mina.
Para o meu pai, foi um achado do céu.
Dias depois, ele se declarou e pediu permissão para falar com meus pais.
Disse que, se eu aceitasse, ele iria me libertar e toda a minha família.
Não poderia se casar comigo nas leis do Brasil, porque já era casado com uma sinhá que o abandonara, mas me daria a liberdade e me tomaria como sua esposa.
Contei toda a verdade a ele, que esperava um filho seu, e que por esse motivo havia sido obrigada a deixar a fazenda do senhor.
Antero, emocionado, ouvia o relato de Arlinda atentamente.
A mãe de seu filho prosseguiu:
- Então ele me respondeu:
"Seu filho vai nascer livre e será criado como meu filho.
Não importa a sua cor, crescerá com meia e sapato de couro no pé, vai estudar nas melhores escolas e ai de quem criar diferença com ele".
Enquanto ele falava, eu só pensava em você e no quanto o amava, mas sabia também que jamais iria estar com você, e a oportunidade que surgia para minha família e meu filho valeria qualquer sacrifício.
Aceitei sem pedir tempo para pensar.
A partir daquele dia, passei a viver para minha família e meus filhos.
Soube de sua luta e de seu sucesso.
Acredite, sempre pedi a Deus que o fizesse muito feliz.
A vida nos separou, mas não podemos reclamar da sorte que tivemos em encontrar pessoas maravilhosas.
Sei que se casou com uma moça branca e distinta, e que também tem filhos.
Não os trouxe por quê?
- Meus filhos estudam fora do Brasil, e minha esposa foi visitá-los.
Esse é o motivo de não comparecerem ao casamento.
Encontrei em minha mulher o amparo e a luz que me guiaram pelos caminhos.
Sem ela, talvez não tivesse sobrevivido.
Devo-lhe minha vida, tanto quanto você deve a sua ao homem que deu um nome a meu filho.
Contudo, não posso negar, nunca deixei de amá-la.
Não importa o que vier a acontecer entre nós, não vou mais viver com minha mulher; não posso enganar alguém que sempre me deu a mão.
Arlinda fitou Antero profundamente.
O tempo não apagara os sentimentos que levavam na alma e no coração.
Ficaram por alguns segundos se olhando e, como mágica, abraçaram-se.
Seria um sonho ou era real? Estavam vivos...
Podiam sentir o bater compassado dos corações.
Aquele abraço fora tão desejado pelos dois.
Não houvera oportunidade antes, mas agora, livres das algemas do espírito, estavam juntos; não era apenas o desejo da carne, o maior desejo era o da alma.
Antero levantou o queixo de Arlinda e lhe disse:
- Mande-me embora e desaparecerei para sempre de sua vida. Vou compreender.
Agora somos livres e podemos dizer sim ou não ao nosso próprio coração.
Arlinda, o olhar fixo no de Antero, respondeu:
- Um dia nos expulsaram desta fazenda e hoje nos convidaram a voltar.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 01, 2016 9:38 am

Nunca o tirei de minhas lembranças e nunca o expulsei de meu coração.
Não é agora que o encontrei que vou mandá-lo embora.
Assim, abraçados entre beijos e juras de amor, os dois não perceberam que já anoitecia.
Pareciam dois adolescentes, e combinaram de se encontrar no meio da noite, como faziam no passado.
Augusto, que voltava de uma de suas tarefas espirituais, avistou o casal.
Escondido, passou por eles sem que percebessem.
O que estaria acontecendo com Antero e Arlinda?
Não contaria a ninguém, nem mesmo ao pai, com quem não costumava manter segredos.
Os familiares estavam tão envolvidos nos preparativos do casamento que nem perceberam a ausência do casal, excepto António Bento, que se mostrava ansioso.
A esposa percebeu e, discretamente, perguntou-lhe se estava nervoso pelo casamento da filha ou se estava acontecendo alguma outra coisa.
- Não se preocupe comigo, está tudo bem.
Estou ansioso sim. Sou o pai da noiva; deve ser natural.
Vou tomar um banho e descansar alguns minutos no quarto, se não se importar.
- Claro que não me importo. Vá!
Daqui a pouco eu também vou me preparar.
Já está tudo pronto para o jantar.
Espero que esteja do gosto de todos.
Debruçado no parapeito da janela de seu dormitório, António Bento viu Augusto chegar com algumas folhas na mão.
"Meu filho querido, tão jovem e com tanta responsabilidade."
Orgulhava-se do filho; tinham acontecido tantas coisas nos últimos tempos que nem dava para acreditar.
O juiz, amigo e compadre de António Bento, é quem lavraria o casamento de sua filha, e logo após receberiam a bênção do padre José, que baptizara Josefina.
Isso fora conselho de pai Francisco quando conversara com os noivos.
Bento não deixava de pensar nos novos problemas que demandava agora a libertação dos negros.
Eram tão graves quanto os processos que haviam enfrentado para pressionar a assinatura da Lei Áurea.
Muitos senhores, revoltados, colocavam para fora os escravos, sem a mínima condição de sobrevivência.
Os negros buscavam abrigos aqui e ali, mas as grandes cidades brasileiras estavam lotadas de negros famintos e doentes.
Tentaram jogar os negros contra os abolicionistas, dizendo que a desgraça deles fora provocada pelos primeiros.
Os abolicionistas, por sua vez, buscavam de todas as formas redimir os sofrimentos dos negros que viviam sem rumo.
Muitos morriam pelas ruas depois de beberem muito.
Embriagados, partiam para brigas e caíam mortos.
Envolvido em seus pensamentos, notou um vulto que se aproximava do jardim da casa.
Era Arlinda; ele a reconhecera entre os arbustos.
Ela deu a volta e foi para o fundo da casa.
Em seguida, percebeu outro vulto que deixava o jardim e se aproximava do grande terreiro de terra batida onde estavam vários negros sentados pitando seus cigarros.
Era Antero.
Ele parou no meio deles e ficou conversando.
Logo o viu com um cigarro de palha na boca.
Antero não fumava; fazia aquilo para agradar os companheiros.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 01, 2016 9:38 am

Então ele não estava errado.
Antero e Arlinda estavam juntos.
O que lhes reservava o destino?
Antero era casado com uma mulher maravilhosa, mas isso não queria dizer que, diante do passado, como ele mesmo havia confessado, não pudesse ter uma recaída.
E Arlinda?
Estava viúva, sensível e carente.
Ao reencontrar o antigo amor, por certo não pensaria duas vezes antes de se atirar nos braços de Antero.
Lembrava-se do que lhe falara Chico Preto:
ela ainda era jovem; se desejasse se casar, teria todo o apoio do filho.
Mas teria de ser com alguém tão nobre quanto fora o padrasto.
Alguém bateu à porta do quarto.
Por certo não era a esposa.
Correu para atender. Quem seria?
Uma das mulheres que cuidava da arrumação da casa comunicou-lhe que a esposa se sentira mal; tivera uma vertigem e estava sendo auxiliada pelas mulheres da casa.
António Bento disparou quarto afora e encontrou a esposa sentada com um copo de água na mão.
Ela dizia que estava tudo bem; que fora uma tontura passageira.
Sentando-se perto dela e passando-lhe o braço pelos ombros, perguntou:
- O que está sentindo?
Vou mandar buscar o médico.
- Pelo amor de Deus!
Há pouco você me disse que estava ansioso porque era o pai da noiva, e eu lhe digo a mesma coisa:
estou tensa, sou a mãe da noiva!
Tomando a mão da filha, pediu:
- Josefina, fique tranquila.
Juro que não estou doente nem sentindo mais nada, é ansiedade mesmo.
- Pois então vamos tomar um banho.
Pedirei que lhe preparem um chá, e a senhora vai descer à hora do jantar.
Vou me encarregar de tudo, afinal, tenho de ir treinando.
Serei uma dona de casa.
Leve mamãe para o quarto e faça com que descanse - pediu Josefina ao pai.
Augusto quis acompanhá-los.
Precisava ficar ao lado da mãe por alguns minutos.
Bento fez a mulher se deitar, e pai e filho sentaram-se cada um de um lado da cama, cada um deles tomando uma das mãos dela.
Augusto fechou os olhos e começou a rezar em voz alta.
Repetia a oração de tio Chico, a das Chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Quando terminou, ficou em silêncio alguns minutos.
Então abriu os olhos e indagou:
- Está preparada para receber um bebé?
A mãe arregalou os olhos e respondeu:
- Augusto, não fale uma besteira dessas perto de ninguém.
Tenho uma filha casando-se amanhã.
Logo, logo serei avó.
Que vergonha uma mulher com dois filhos na idade de se casar tendo um bebé; não fale isso perto de ninguém.
- Não vou falar perto de ninguém, mas a senhora não vai poder esconder o volume da barriga quando começar a crescer.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 01, 2016 9:38 am

E, em vez de ficar indignada, agradeça a Deus esta grande bênção que está chegando a nossa casa.
Você está grávida, mamãe!
Parabéns, papai!
O senhor vai ganhar outro filho, e estou muito feliz em poder ajudar um novo ser a vir descobrir este mundo.
Fiquem a sós.
A senhora tem razão:
não está doente, é só uma gravidez.
Basta cuidar-se e tudo ficará bem.
A mãe o olhava sem palavras.
Tinha medo das intuições do filho; o que ele falava de facto acontecia.
Estaria grávida?
Augusto beijou-lhe a testa e bateu de leve no ombro do pai, que, imóvel, agradecia a Deus, pedindo que seu filho estivesse certo.
A sós, o casal se entreolhava.
Bento abraçou a esposa.
- Mulher, isso é bom demais para ser verdade! - comentou.
Contudo, digo-lhe uma coisa:
se Augusto estiver certo, e ele não erra nunca, juro que trocarei fraldas e aprenderei até mesmo a cantar para fazer o bebé dormir.
Prometo que não a deixarei uma noite sequer sozinha.
- Não sei o que lhe dizer - tornou a esposa.
A não ser que desta vez meu Augusto tenha se enganado.
Quando pai Francisco vier, vou perguntar a ele o que aconteceu comigo.
Não posso acreditar em uma gravidez assim do nada.
Por favor, não solte uma palavra a ninguém.
- Não vou comentar com ninguém por enquanto, mas fiquei magoado quando disse uma "gravidez assim do nada".
Sou nada para você? - inquiriu Bento.
- Foi apenas um modo de expressão.
Você bem sabe que o bem mais precioso de minha vida é você e meus filhos -respondeu a mulher.
O jantar transcorreu em perfeita ordem.
A mulher de Bento estava renovada.
Bento, à mesa, percebeu o olhar de Antero em direcção a Arlinda.
Ela não escondia o que estava sentindo e deixou bem claro o que acontecia.
Chico Preto pediu ao amigo Bento que convidasse o avô.
Este agradeceu, mas disse que Antero não se sentiria bem, e, se queria reconquistar o filho, sentar-se à mesa com ele naquele momento não seria bom nem para si próprio, nem para Antero.
Todos queriam saber se a esposa de Bento estava bem, ao que ela respondia que estava tão ansiosa quanto a filha, e que não ficara assim nem no próprio casamento, mas agora seu bebé estava se casando...
Augusto olhava com muito carinho para a mãe e o pai.
Em breve, aquela casa seria preenchida pelo cheiro de um anjo que vinha para trazer alegria.
Quem seria este espírito?
Como seria este bebé?
Os últimos detalhes da festa foram discutidos entre as famílias.
A festa duraria o dia todo e a noite.
Chico Preto combinou que logo depois do almoço seguiria com a mulher para uma de suas fazendas e ficariam em lua de mel por um mês.
Depois seguiria para Minas Gerais e, quando fosse possível, visitariam a família.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 01, 2016 9:38 am

Insistiu com o avô para ir com ele a Minas Gerais, e o avô respondeu que na fazenda se sentia útil e feliz, e que ali, onde ajudara a derramar tantas lágrimas, queria ver brotar sorrisos nos lábios dos descendentes de suas vítimas.
Chico Preto se despediu da noiva, que foi dormir cedo.
Precisava acordar bem no outro dia.
António Bento acompanhou a esposa, que foi aconselhada por todos a descansar.
Augusto se recolheu em suas orações.
A fazenda parecia silenciosa, mas muita gente estava acordada.
Chico Preto convidou o pai e o avô para ficarem um pouco mais.
Precisava falar com eles.
Antero manteve-se calado, observando o filho, e o avô anuiu com a cabeça, respondendo:
- Com todo o prazer, meu neto.
Gosto de ouvi-lo.
Chico Preto foi directo ao assunto:
- Sei, nessa altura de nossos caminhos, que se cruzaram há pouco tempo e o que pensam um do outro.
Gostaria de partir amanhã levando comigo a lembrança de no mínimo um aperto de mão entre os dois.
Afinal, nenhum de nós deseja trazer o passado ao presente, nem pensar em construir um futuro relembrando o passado.
Cresci chamando outra pessoa de pai, e tive conhecimento da história que separou meus pais biológicos.
Guardava de meu avô grande ressentimento, e me perguntava sempre por que fizera tanto mal a nós.
Tive a felicidade de conhecer os dois maiores Francisco deste mundo, e aprendi com eles que só poderia mudar minha história se acreditasse que as outras pessoas também poderiam mudar o roteiro de sua vida.
Todos nós mudamos, e o senhor meu pai precisa transformar muitas coisas em sua vida.
Para que isso aconteça, basta ter coragem, assim como tive, e como teve meu avô.
Esse homem é seu pai biológico, mas os senhores nunca se reconheceram como pai e filho.
Viveram distanciados um do outro.
Também vivi distanciado dos dois e seria cinismo de minha parte dizer que adoro vocês, que guardo momentos especiais vividos ao lado dos dois.
Não posso dizer isso, porém busco me aproximar de vocês para quem sabe, juntos, descobrirmos que ainda é tempo de aprender a nos amarmos como pai, filho e neto.
A luz da lua cheia iluminava-lhes os semblantes.
O ex-senhor daquelas terras, fitando Antero, falou:
- Filho, sei que não sou merecedor de seu respeito, tampouco de seu amor.
Mesmo assim, peço-lhe:
você me perdoa?
Não tenho como fazer o tempo voltar atrás; se pudesse certamente tudo seria diferente com a visão que tenho hoje das coisas.
Perdoe-me; deixe-me tocar suas mãos, algo que nunca fiz.
Só as usei para maltratá-lo.
Antero olhou para o filho e, em seguida, estendeu as mãos ao pai.
Pela primeira fez, fitou fixamente aqueles olhos, que brilhavam ao clarão da lua, dizendo-lhe:
- Hoje, Deus estendeu as mãos para mim, por isso estendo as minhas também a você.
Como disse meu filho, não posso dizer que o amo.
Mas vou lutar para aprender a gostar do senhor.
- Posso lhe pedir uma coisa? - solicitou o velho senhor com a voz entrecortada pelas lágrimas.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 01, 2016 9:39 am

- Se puder atendê-lo, eu o farei - respondeu Antero.
- Deixe-me abraçá-lo; sei que não deseja meu abraço, mas preciso abraçá-lo, pelo amor de Deus!
Antero deixou-se abraçar.
Depois de alguns momentos, o velho senhor se retirou.
Ali se quebrou um grande nó que bloqueava a passagem dos sentimentos de amor entre pai e filho.
Antero e Chico Preto, também emocionado, mantiveram silêncio.
Foi Antero quem primeiro voltou a falar.
- Francisco, meu filho, sei que você não me chama de pai e jamais vou cobrar ou até mesmo pedir que algo assim aconteça.
Só quero lembrá-lo de que não o abandonei; foi o destino, ou sei lá que força, que nos afastou, e esse mesmo destino nos aproximou de novo.
Estamos os três novamente aqui: eu, você e sua mãe, e não posso mentir agora para você, filho.
Ao reencontrar sua mãe, descobrimos que nunca estivemos longe um do outro.
- Perdoe-me, não estou entendendo.
O que o senhor está tentando me dizer?
Pode ser mais claro? - indagou Chico Preto.
- Não retornarei mais ao Ceará.
Se tiver de voltar lá, será apenas para resolver alguma questão de negócio.
Vou pedir ao Bento um trabalho e ficar por aqui mesmo.
Quem sabe essa não será a chance de me reaproximar de meu pai?
E não sei como vai receber esta notícia, mas eu e sua mãe passaremos o resto de nossos dias juntos.
Desta vez, só Deus poderá nos separar.
Talvez ela também não queira retornar a sua casa.
Seus irmãos já estão estudando na Suíça, foi ela que me contou.
Acho que não vamos ter dificuldades em viver por aqui.
Quem sabe não conseguimos a permissão de Bento para morar na casa que pertenceu ao tio Chico...
- Santo Deus!
Como isso aconteceu assim tão depressa?
Vocês mal se viram, e não percebi nada.
Onde é que se encontraram?
- Passamos algumas horas juntos, e para seu conhecimento apenas conversando.
O único pecado que cometemos foram beijos e abraços.
E, se não tivéssemos conversado nem trocado beijos e abraços, nossos olhos teriam feito o que fizemos entre beijos e abraços.
Amo sua mãe, e espero que possa compreender nossos sentimentos.
Não nos separamos; nosso amor não morreu, e descobrimos que a vida simplesmente nos afastou por um tempo.
Tenho esposa e filhos, e não vou virar as costas para nenhum deles.
Pretendo manter com meus filhos os mesmos laços e, quanto à mãe deles, farei o possível para que não me odeie.
Ela é uma mulher muito especial; sei que vai entender minha decisão.
O rapaz ouvia em silêncio e, assim que Antero terminou de falar, respondeu:
- O que poderia dizer à minha mãe?
Que não fique com meu pai?
Devo proibi-la de amar se eu mesmo não me contenho de tanto amor?
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 02, 2016 11:08 am

Diante do que me disse, só posso lhe falar uma coisa:
depois que retornar de minha lua de mel, gostaria que o senhor, que nunca fez nada por mim, aproveitasse essa chance que Deus está nos oferecendo e fosse me ajudar a cuidar das minhas fazendas e de meus negócios.
Vou precisar de alguém de muita confiança para administrar minhas terras.
É o que sempre digo:
sou um homem de muita sorte.
Estava coçando a cabeça e pensando onde iria encontrar alguém competente e de confiança para contratar, e de repente me cai do céu um homem apaixonado pela minha mãe que, para completar minha felicidade, é também meu pai.
O senhor será meu administrador.
- Está me dizendo que não se opõe à nossa decisão, meu filho?
- Não só estou lhes dando meu total apoio, como lhe ofereço uma oportunidade única de reparar seu erro com ela e comigo.
A minha única exigência é que a faça feliz.
Preciso do senhor a meu lado, não só pelo trabalho, mas também por amor.
Vamos compensar o tempo que perdemos; esqueçamos o que ficou para trás.
Devemos seguir em frente - afirmou Chico Preto, abrindo os braços para o pai.
Ficaram conversando um bom tempo.
Antero ainda estava arredio com a história de conviver com o pai.
O filho queria porque queria levá-los, dizendo que seria uma forma de fechar as feridas do passado de uma vez por todas.
Pensando em Arlinda, nada mais era importante do que estar ao lado dela.
Talvez com o tempo pudesse até mesmo encarar aquele senhor sem se perturbar.
Acabou concordando com o filho e prometeu que faria de tudo para conviver em paz com ele.
Antero se despediu.
Sentia-se como um menino indo ao encontro da amada, como nos velhos tempos, às escondidas.
Abraçado a ela, contou-lhe a conversa que tivera com Chico Preto e a felicidade que agora sentia em seu coração.
Estava diante de quem sempre amara, do filho e até mesmo do pai biológico.
Ria-se, lembrando-se da avó paterna.
Comentou em voz alta:
- Se ela estivesse presente, como estaria feliz!
Arlinda, preocupada, quis saber:
- O que fará em relação à sua esposa?
- Tenho certeza de que ela entenderá.
Conhecendo-a como a conheço, sei que vai compreender e me perdoar.
Ela vinha cogitando a ideia de nos mudarmos para o exterior, mas jamais deixaria meu Brasil, e ela sabe disso.
Acredito que, após resolvermos nossa separação, ela volte a seu país.
Nossos filhos estudam lá e não desejam voltar ao Brasil.
Os pais dela também retornaram à terra deles.
Ela chegou ao Ceará ainda menina, mas nunca perdeu seus costumes.
Sente saudade da terra natal, mas nunca fiz nenhum esforço para acompanhá-la em suas viagens.
Sinceramente, acredito que vá ser muito bom para todos nós.
Dentro do quarto, Chico Preto sentia-se tenso.
Não conseguia dormir.
"Amanhã estou me casando", reflectia, "e que felicidade ter meus pais perto de mim".
Pensava em tio Chico com saudade, lembrando-se de que ele sempre dizia que amor chamava mais amor.
Não podia condenar os pais.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 02, 2016 11:08 am

Haviam sido separados pela ignorância não de um homem, mas sim de toda uma sociedade bruta e ingrata.
Todos estavam de volta ao ponto onde tinham plantado as sementes da própria história, e o que deveriam fazer naquele momento era perdoar uns aos outros.
Eram as grandes oportunidades de Deus, palavras tão bem lembradas pelos pretos velhos nas palestras espirituais.
Precisava dormir um pouco, mas estava ansioso.
No dia seguinte seria seu casamento com a moça mais bela que já tinha conhecido em suas andanças pela vida.
E, ainda por cima, filha de seu amigo António Bento.
De facto, nascera com muita sorte.
Tinha de aproveitar cada minuto da vida; ser feliz e fazer os outros felizes.
De repente, as visões de sua infância que tanto o assustavam vieram-lhe à mente.
Só de pensar em morrer e deixar a esposa sozinha ficava arrepiado.
O facto de saber que seu pai estaria por perto dava-lhe tranquilidade.
Mas a pergunta não parava de vir ao pensamento:
"Será que vou morrer logo?"
Tentou relaxar e por fim adormeceu.
De repente, viu-se em um lugar bonito.
Tio Chico aparecia-lhe rindo, de braços abertos.
- Oh, filho, vim lhe dar os parabéns pelo casamento!
Distanciado deles estava outro senhor de cabelos grisalhos, pele alva e olhos azuis da cor do céu.
Tio Chico, rindo, fez sinal para que se aproximasse.
- Pai Francisco, olha só quem está aqui.
O bondoso senhor se aproximou dele e o abraçou.
- Querido tataraneto!
Estou muito feliz em revê-lo; receba nossas bênçãos e que amanhã seja um dos dias mais felizes de sua vida.
Chico Preto observava curioso, tio Chico e o senhor de cabelos grisalhos.
Pai Francisco também era negro; não podia ser aquele senhor branco de olhos azuis!
Andou com eles dois por vários lugares bonitos.
Conversaram muito.
Por fim, acordou sobressaltado.
Passou a mão pela testa; suava e sentia muita sede.
Sentou-se na cama, bebeu água e ficou olhando ao redor.
Tentava se lembrar do que havia conversado com os dois, mas não se recordava de todas as palavras.
Que coisa estranha!
Aquele senhor do sonho era branco como leite, e pai Francisco era um preto velho, então não poderia ser ele.
O sonho lhe parecera tão real, e fora tão bom falar com tio Chico!
Mesmo sendo um sonho, sentia-se amparado.
Os pássaros acordavam alegremente moradores e visitantes da fazenda com uma linda sinfonia de cantos e toques, anunciando que o dia chegava iluminado pelos primeiros raios de sol.
Antero virou-se de lado, ouvindo o canto dos pássaros.
"Santo Deus! Fecho os olhos e parece que nunca saí daqui.
Sinto como se estivesse em meu antigo quartinho."
Estirado no leito, Antero fazia um apanhado da própria vida.
Quando é que sonhara estar naquele dormitório que pertencera ao irmão branco, o qual usava agora como visitante?
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 02, 2016 11:08 am

Pensava no pai, antes dono absoluto daquele casarão, e agora vivia de favor em uma casinha isolada, da mesma maneira que um dia ele vivera no quartinho.
A vida dera muitas voltas; também jamais sonhara reencontrar Arlinda, e ainda no mesmo lugar onde um dia tinham vivido sua história de amor.
O filho era um homem de dar orgulho a qualquer um; fora gerado naquela fazenda e agora retornava às raízes.
O amor e a paixão que sentia por Arlinda não tinham morrido.
Ao reencontrá-la, houvera um despertar dentro dele.
Os sentimentos tinham explodido como um vulcão adormecido.
Lembrava-se das palavras de tio Chico.
O negro velho havia dito que, se fosse pela vontade de Deus, passasse o tempo que fosse, os dois voltariam a se reencontrar para viver o grande amor que os unia.
Como havia conseguido viver todo aquele tempo longe dela?
Casara-se, tivera filhos e vivera tranquilo ao lado da esposa, e só agora podia compreender que Deus fora misericordioso com todos eles.
Para que pudessem preencher a vida de sofrimentos, colocara pessoas maravilhosas que os tinham ajudado a viver até aquele momento.
Estava decidido: não voltaria ao nordeste.
Depois do casamento do filho, daria um tempo, e em seguida escreveria à esposa, assim ela poderia se preparar para, no retorno, apenas resolverem a separação.
Deixaria tudo para ela; sairia apenas com o suficiente para recomeçar a vida ao lado de Arlinda.
Sempre fora sincero e honesto com a esposa; iria lhe contar tudo.
Por um tempo ficou imaginando qual seria a reacção dela.
Será que entenderia?
Ou seria melhor não contar nada a respeito de Arlinda?
Chico Preto ajoelhou-se e, mãos cruzadas sobre o peito, rezou e pediu a Deus pela sua vida e pela da moça a quem se unia naquele dia.
Sentiu um aperto no coração.
Como gostaria de dividir aquele momento da vida com tio Chico!
Tivera tão pouco tempo com ele, mas o suficiente para carregá-lo dentro do peito por toda a vida.
Pouco tempo depois, estavam todos reunidos à mesa da sala de jantar.
Chico, perto da noiva, contemplava sua beleza e se orgulhava de ser amado por uma jovem tão bela e encantadora como Josefina.
António Bento sugeriu que se fizesse uma oração de agradecimento, pois aquele dia para ele, como homem, era tão importante quanto para o noivo.
Iria casar sua menina, sua filhinha.
Apesar de sentir um aperto no coração por vê-la partir, sabia que estava casando a filha com um verdadeiro homem.
Todos se deram as mãos em volta da mesa e Bento pediu ao filho que fizesse a oração.
Augusto, emocionado, agradeceu a Deus as bênçãos concedidas a todos e pediu pela felicidade da irmã e de toda a família.
Estavam sentados e sendo servidos pelos empregados.
A esposa de Bento se levantou rápido com a mão à boca e saiu correndo.
O marido a seguiu, e Josefina fez menção de fazer o mesmo, mas Augusto segurou-lhe a mão, dizendo:
- Calma, Josefina.
Não há nada sério com nossa mãe.
Vamos apenas deixar de ser os únicos filhos de António Bento.
Dividiremos nossos pais com mais alguém.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 02, 2016 11:08 am

Josefina, ainda assustada, indagou:
- O que está tentando me dizer, Augusto?
Que nossa mãe está grávida?!
Ela espera um bebé, que será nosso irmão ou irmã?
Todos se entreolharam.
- Mamãe, grávida? - insistiu a filha.
- Sim, mamãe grávida - tornou o rapaz.
Fez-se um breve silêncio, e Augusto prosseguiu:
- Veja só como Deus faz as coisas do seu jeito.
Está nos deixando e alguém está se preparando para vir alegrar os corredores desta casa.
Minutos depois, Bento voltava pedindo desculpas a todos, dizendo que a esposa estava descansando.
Justificou sua ausência contando que ela sentira enjoo, e tudo indicava que em breve teriam outro motivo muito importante para se reunirem e comemorarem:
o nascimento de mais um herdeiro.
Todos ficaram alegres e felicitaram Bento.
As mulheres se reuniram para ajudar a noiva, e os homens, naturalmente o noivo.
O pai da noiva esperava os convidados com muita alegria e ansiedade.
Tinha vários assuntos importantes para tratar com o amigo António Bento.
Um deles é que já havia tomado uma decisão: deixaria a organização, pois se dedicaria à família, especialmente agora que fora abençoado com outro filho.
A noiva se despediu do noivo e ambos se retiraram.
Agora só se reencontrariam na hora do juramento diante do juiz, das testemunhas e de pai Francisco do Cruzeiro das Almas.
O barracão estava todo enfeitado de ervas e flores.
Os médiuns, envolvidos com os trabalhos espirituais, tinham programado e preparado tudo o que fosse necessário para os dois jovens receberem as bênçãos dos mentores espirituais.
Assim que terminasse a cerimónia civil, seriam conduzidos pelas testemunhas ao barracão onde antes fora a senzala.
Muitos convidados chegaram.
A esposa de Bento sentia-se muito bem; os enjoos haviam desaparecido, e estava ainda mais bonita que antes.
Observou o marido, e os convidados comentavam entre si: a mãe da noiva parece irmã dela.
Augusto serviu de testemunha do cunhado.
Iria substituir fisicamente tio Chico, que fora o primeiro a ser convidado como padrinho de casamento.
Antero e Arlinda, ao lado do filho, não escondiam a emoção, e as lágrimas desciam dos olhos dos dois.
Chico Preto tremia enquanto aguardava a noiva, que logo apareceu sendo conduzida pelo pai até ele.
Enquanto aguardava a noiva, o juiz fez um breve retrocesso de sua vida.
Vira aquela menina nascer e hoje era seu casamento.
Olhava para o afilhado, que havia deixado a barba crescer e aparentava agora ser mais velho, tanto na aparência quanto nas atitudes.
Orgulhava-se de fazer parte daquela digna família.
Suas terras estavam em boas mãos; ninguém sabia ainda de sua decisão, nem mesmo a esposa.
Talvez tivesse sérios problemas com ela quando viesse a lhe falar sobre o que havia decidido:
mudaria para uma de suas fazendas e não desejava mais se envolver com nenhum movimento.
Sentia-se em paz consigo mesmo quando lembrava que ajudara a libertar várias pessoas do cativeiro.
Agora, muitos mulatos, negros e brancos de mãos dadas iriam continuar lutando, e essa luta iria perdurar por muitos e muitos anos.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 02, 2016 11:09 am

Ultimamente não vinha se sentindo muito bem.
Não conseguia mais fazer tanto esforço físico como antes.
Qualquer pequena viagem causava-lhe fadiga.
Sentia muitas dores nas costas e no peito; havia consultado alguns médicos e tomado remédios, mas sem muito resultado.
O que de facto aliviara a tosse nocturna foram os remédios do preto velho pai Francisco do Cruzeiro das Almas.
Tomava todos os dias.
Quando terminava um vidro de xarope, receita do preto velho, sua fiel servidora, uma negra velha de mais de oitenta anos, preparava-lhe outro, e assim conseguia dormir durante algumas horas sem tossir.
Após o término do casamento, os padrinhos acompanharam os noivos ao barracão.
Augusto, emocionado, fez as orações e consagrou as alianças abençoando os noivos e lhes borrifando água perfumada e fluidificada.
Não houve incorporação física, mas todos puderam sentir a presença e o perfume da espiritualidade.
Os noivos receberam os cumprimentos dos convidados e as bênçãos dos familiares, e a festa começou.
O cheiro de carne assando, música, risadas, e logo o terreiro da casa-grande estava repleto de casais dançando e se divertindo.
As crianças corriam de um lado a outro, mulheres conversavam alegremente e homens trocavam informações de negócios.
Os dois Bento estavam sentados na varanda, bebericando uma cachaça curtida com ervas, receita do preto velho tio Chico.
O mulato Bento então falou:
- Amigo juiz, neste momento, peço licença para lhe falar como amigo de luta.
O juiz replicou:
- Pois pode começar a falar que o ouvirei como o amigo que sempre fui e quero continuar sendo.
- Nesta altura de minha vida, casei minha filha hoje e também tive certeza absoluta de que vou ser pai de um novo bebé.
O juiz se levantou e abraçou o amigo, saudando-o:
- Parabéns, Bento.
Essas recompensas que vêm de Deus nos fazem acreditar no quanto vale a pena viver e lutar por nossa vida.
- Diante desses fatos, e bem antes mesmo, para falar a verdade, já havia tomado esta decisão: vou me desligar do movimento.
Não quero mais nenhum compromisso de correr estados e cidades.
Preciso ficar ao lado de minha mulher; não acompanhei o crescimento de meus dois filhos, mas na vida do terceiro quero estar presente.
Após alguns segundos, o juiz respondeu:
- Então, amigo, temos mesmo muita coisa em comum.
Até nossas decisões pessoais estão em sintonia.
Também eu vou me afastar de todos os cargos públicos.
Definitivamente, estou me mudando para a fazenda e pretendo ficar por lá até a hora da grande chamada.
- Fico contente por você aproveitar sua vida.
Contudo, não me fale mais nesta tal grande viagem - pediu Bento.
- Não comento com minha mulher - falou o juiz -, mas acredito que não vou muito longe, meu amigo.
Um homem conhece melhor seu corpo que qualquer outra pessoa, ainda que seja um médico.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 02, 2016 11:09 am

Vou para a fazenda, pois o ar lá é melhor.
Quem sabe conseguirei esticar um pouco mais minha caminhada por aqui.
- Tem procurado o tratamento certo?
Já tentou buscar os dois lados, o médico dos homens e o de Deus?
Você tem conhecimentos e posses, pode ir ao exterior para fazer um tratamento mais adequado.
E jovem, então com certeza as chances dobrarão.
- Já estou muito bem atendido dos dois lados, pode ficar sossegado.
Graças ao remédio de pai Francisco, consigo dormir à noite.
Acredito que, não fosse esse abençoado xarope, estaria bem pior.
Não pretendo mais ir ao exterior, apenas ao meu interior!
E, por falar em interior, a ciência que conheci nesta fazenda está se espalhando por aí como fumaça no ar.
Em todo lugar há guias baixando e curando muita gente.
Lá mesmo, na fazenda onde pretendo me instalar, tem o negro velho Dedé.
Acho que chegou a conhecê-lo; está famoso agora.
Vem gente de toda parte atrás dos tratamentos dele.
A conversa que se ouve é: se o velho Dedé não curar a doença aqui, é porque a cura está no céu.
Vou estar sob os cuidados dele, e desde já acredito que, se for da vontade de Deus, viverei um bom tempo; mas, se não for de Sua vontade, posso encontrar a cura no céu.
- Fico feliz com esta notícia.
Posso lhe afirmar que a ciência trazida pelo nosso protector pai Francisco do Cruzeiro das Almas é sincera e verdadeira.
Tio Chico, que foi o responsável por esse trabalho, é a pessoa mais séria que conheci neste mundo, por esse motivo não questionei quando meu filho foi tomado por essa vontade de Deus.
- Pois é, meu caro amigo, nosso trabalho em ajudar a libertar os negros também abriu novos caminhos para o iluminado trabalho da espiritualidade.
Sou católico e, como católico, lamento que a igreja não reconheça os benefícios trazidos por esta ciência.
Hoje creio que somos filhos de um só Pai, e os caminhos são diversos.
Não posso negar a ajuda que venho recebendo.
Estou tranquilo quanto à decisão de deixar para o meu afilhado Augusto estas terras em que recebe o pai Francisco do Cruzeiro das Almas.
Ter você ao lado para ajudá-lo na administração me dá a certeza de que a vida desse povo terá um futuro seguro.
E olhe só o que vou lhe dizer:
se der; se minhas forças permitirem, virei aqui algumas vezes, e espero que também possa ir me visitar de vez em quando.
Vamos manter contacto e saber sempre um do outro.
E claro, qualquer coisa que precisar de mim, não vou me lembrar de doenças e não medirei esforços para chegar até você.
Nem que venha me arrastando, jamais vou deixá-lo em apuros.
O mulato António Bento secou as lágrimas na manga da camisa.
Apesar das diferenças culturais e sociais que os dois dividiam, amavam-se como verdadeiros irmãos, e sempre fora assim: um dando a vida pela do outro.
Respirando fundo, respondeu:
- Digo-lhe a mesma coisa, e muito mais!
Devo a você minha vida e tudo o que tenho hoje.
O juiz estava com a voz embargada pelas lágrimas que lhe desciam pelas faces.
- Amigo Bento, cada um de nós recebe de Deus aquilo que o fará feliz, ou de um jeito ou de outro.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 02, 2016 11:09 am

Você vai ser pai; por favor, cuide bem de sua mulher e de seu filho.
Acredito que nós dois estamos começando um novo caminho; indo ou ficando, cada um tem seu destino traçado por Deus.
Temo que irei terminar meus dias sozinho.
Minha mulher não gosta do mato nem do cheiro dos bichos da fazenda; não posso arrastá-la para ficar a meu lado.
Meus filhos estudam na Europa.
Vou fazer o possível para que ela vá viver com eles; cada um segue seu destino e assim a vida cumpre com todos nós seu papel.
- Já falou sobre isso com ela? - indagou o amigo.
- Não, mas nem é preciso.
Naturalmente, se ela percebesse minha doença, não me abandonaria.
Mas não é esse meu desejo.
Quero que ela vá sem preocupação, acreditando que está tudo bem e cuidando de nossos filhos bem longe das minhas dores.
- Vai mandá-la para a Europa sem consultá-la se deseja ir?
Foi isso que entendi?
- Há muito venho sondando os anseios dela; a saudade dos filhos a tem deixado distante de tudo.
Acredito que ela vai aceitar minha proposta sem pestanejar.
- Posso ser um tanto pretensioso e atrevido como nos velhos tempos?
- Como sempre, pode - respondeu o juiz.
- Por que não fica comigo nesta fazenda?
Seria a maior alegria de minha vida poder dividir com você as alegrias e as tristezas; pouco importa o que vier, o importante é estarmos juntos.
Lembra-se de como você falava isso nas reuniões?
- Não imagina o bem que esse convite me faz!
Contudo, devo lembrá-lo de minhas ideologias:
não há espaço para dois homens onde só cabe um.
Sou dono de minha doença e quero vivenciá-la até o fim.
Não posso e não quero dividi-la com ninguém, nem mesmo com meus filhos, minha esposa, ou com você, que é meu amigo mais querido e confiável.
Por favor, não se aborreça comigo, mas já está decidido o que desejo para minha vida daqui para frente.
Não se preocupe; não será ruim como imagina.
Serei servido pelas melhores pessoas que conheci; vou ser tratado pelo velho Dedé e por dona Isaura.
O que mais posso esperar da vida?
Ficaram conversando sobre os últimos acontecimentos e a respeito da crise que tomava conta do Brasil.
A escravidão tivera fim, mas crescia um monstro entre os negros: o preconceito!
O juiz comentou sobre a quantidade de negros que morria pelas ruas.
Eram a fome e a violência, que se alastravam por todo o país.
O sofrimento dos negros deixara de ser dentro das senzalas; agora dava-se nas ruas, onde a lei decretara que poderiam circular livremente.
Enquanto os dois Bento faziam comparações entre o passado e o presente, os convidados aproveitavam a bela festa do casamento de Josefina.
Augusto estava rodeado por muitas moças, mas baixava a cabeça e pedia a Deus que não lhe deixasse cometer desatinos.
Estava diante de Marina, uma linda moça que fizera seu coração pulsar mais forte.
Ela também o olhava com um sorriso nos lábios; alguém havia lhe contado sobre os poderes dele com os espíritos, e ela a princípio ficara curiosa, mas agora estava atraída por ele, tomada por um sentimento que jamais imaginara possível.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 02, 2016 11:09 am

Augusto não conseguia desviar o olhar dos olhos da moça e, por um momento, pensou em pai Francisco e se lembrou do que sempre dizia:
"Não nos meta em suas aventuras!
O que fizer de sua vida como homem, será responsabilidade sua, e não nossa.
Quando escolher alguém com quem dividir a vida, lembre-se de que estará dividindo a sua vida, e não a nossa.
Tudo o que queremos é que seja feliz com a escolha".
Aproximando-se de Marina, sentiu seu perfume e, naquele momento, teve certeza de que seu coração fora tomado e invadido pela paixão, pelo amor, por desejos...
Se pai Francisco lhe pedisse que desistisse dela, já era tarde.
Logo os dois estavam trocando ideias sobre muitos assuntos.
Ela era prima de uma vizinha deles e morava em outro povoado, não distante dali.
Chico Preto observou o casal e comentou com a esposa:
- Veja seu irmão.
Acho que ele está encantado com a menina, e parece que ela corresponde às intenções dele.
- É a primeira vez que vejo Augusto tão empolgado.
Fico feliz por ele. Depois que se envolveu com a responsabilidade espiritual da fazenda, não procura nenhum divertimento.
Tomara que os dois se entendam; formam um bonito casal.
O pai do rapaz e o juiz também notaram o interesse dos dois jovens um pelo outro.
O juiz comentou:
- Ele é bem jovem, mas, diante do que já o vi fazer, tenho certeza de que está preparado para assumir um compromisso amoroso com alguém que me parece especial.
- Casei minha filha hoje, e percebo meu filho se descobrindo como homem.
Reparo que minha mulher me esperou todo esse tempo e agora está me oferecendo uma chance de saber o que é ser pai.
Não ajudei na educação dos meus filhos, não notei que haviam se tornado adultos.
Foi um choque para mim quando o amigo Chico Preto pediu a mão de Josefina em casamento.
E olhe lá nosso amigo Antero e dona Arlinda!
Estão dançando como dois adolescentes.
Não posso condená-los por isso - afirmou Bento.
Lá pelas quinze horas, o sol já cruzava o outro lado da fazenda.
O juiz se despediu dos amigos e abraçou os recém-casados, desejando-lhes felicidades.
Abraçou também Augusto e, por alguns minutos, fitou o moço antes de dizer:
- Sinto orgulho de ser seu padrinho!
Seja feliz e faça outras pessoas felizes também.
Antes de se acomodar no transporte, apertou a mão do amigo Bento e, com um sorriso, falou:
- Sou um homem de sorte em ter um amigo como você.
Fique com Deus; em meus pensamentos você sempre estará presente.
E então o amigo partiu.
Apesar de tantas vezes ter se despedido dele, desta, Bento sentiu um aperto no coração.
Os recém-casados se aproximaram dele.
- Vamos sair devagarzinho - disse Josefina.
Não queremos chamar a atenção dos convidados, que devem aproveitar a festa, mas do senhor não poderíamos deixar de nos despedir e de receber sua bênção.
Já me despedi de mamãe.
Por favor, cuide bem dela e do bebé.
Logo nos veremos, se Deus quiser.
Ela foi para os aposentos de vocês.
Acho que vai chorar.
Vá até lá, papai, e a traga para a festa de novo.
Bento abraçou os dois e não conseguiu prender as lágrimas.
Sua filhinha estava indo embora.
Mesmo que levada pelas mãos de um grande homem, como as do amigo Chico Preto, doía saber que estava partindo de casa para construir a própria vida.
Os convidados não perceberam a saída dos noivos.
Tudo já estava preparado para a retirada deles, que partiam em lua de mel.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 02, 2016 11:10 am

Capítulo X - Um emocionante nascimento
Para António Bento, a fazenda estava menor e mais silenciosa sem a presença da filha.
No entanto, a vida continuava, e ele tinha obrigações com outras pessoas.
Pediu para falar com Antero em particular.
Quando a sós com o amigo deu sua sincera opinião pessoal:
- Sou o primeiro a lhe dizer que vocês dois seriam mais tolos do que antes se deixassem esta chance escapar de suas mãos, porém, você deve encarar a situação como um homem que nunca temeu a verdade.
Vá ao Ceará e não minta à sua esposa.
Fale a verdade sobre o reencontro com dona Arlinda e seus sentimentos.
Sua esposa é uma mulher inteligente e digna; por certo compreenderá a situação.
Durante esses anos todos, preparamos as pessoas para se colocarem sempre diante da verdade, fosse ela qual fosse, e não podemos agir diferente, não concorda comigo, Antero?
- Não só concordo como reconheço cada uma de suas palavras como sábias e verdadeiras.
Devo parte de minha vida à minha esposa.
Sem ela, não teria suportado tantas coisas.
Se cheguei até aqui, em tudo há a força e o equilíbrio dela.
E também é verdade o que lembrou bem:
exigimos das pessoas posturas que julgamos ser corretas e, quando deparamos com situação semelhante, percebemos que é muito fácil pregar uma ideia, mas difícil cumpri-la.
Vou sim ao Ceará resolver minha situação conjugai, e só depois é que poderei recomeçar a minha vida de cabeça erguida, sem remorso ou culpa.
Vou conversar com Arlinda e partirei logo.
Quanto antes resolver essa situação, melhor para todos nós.
Posso lhe fazer um pedido, Bento?
- Pode pedir o que quiser.
Só não atenderei se não estiver a meu alcance.
- Gostaria que Arlinda me esperasse aqui na fazenda.
Acredito que, antes de meu filho retornar, já esteja de volta.
Então poderemos iniciar uma nova etapa de vida.
- Se ela desejar permanecer aqui, sinceramente, para nós será imensa satisfação.
Melhor ainda para minha esposa, que se encontra sensibilizada com o casamento de Josefina e também com a gravidez.
Será muito bom ter dona Arlinda connosco.
E você, Antero, se desejar ficar por aqui também, trabalho e moradia não lhe faltarão, isso eu garanto.
Sei que seu filho quer vocês dois perto dele e não devo lhe tirar a razão, mas, se não for essa sua vontade, por favor, aqui você tem uma família.
- Muito obrigado, Bento.
É bom saber que posso contar com sua amizade.
Dei minha palavra a meu filho que iria ajudá-lo nos negócios.
Tanto eu quanto você sabemos que ele não precisa de mim na administração de seus bens; que o que quer mesmo é ajudar.
Ele compreendeu meu reencontro com a mãe dele e sabe que desta vez vamos ficar juntos até quando Deus quiser.
Depois de conversarem um pouco mais, Antero pediu licença ao amigo dizendo que, assim que tivesse conversado com Arlinda, voltaria a lhe falar.
Bento andou entre as pessoas que se divertiam com alegria, e discretamente se pôs a observar o filho.
Estava tão envolvido com a moça que sequer notara a presença do pai.
O sol se escondia entre as nuvens do fim de tarde, e os últimos convidados se retiravam.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 02, 2016 11:10 am

Augusto, acompanhado das duas moças, aproximou-se dos pais e as apresentou:
- Papai, mamãe, essa é Marina, minha namorada, e sua prima, Carminha, que já conhecemos.
- Encantado, minha filha - respondeu Bento, tomando as mãos da moça entre as suas.
Augusto, as moças estão acompanhadas?
- O pai de Carminha teve de retornar cedo; tinha compromissos na fazenda.
Eu me antecipei e convidei as duas para ficar.
Prometi ao pai de Carminha que ficariam em nossa casa, sob sua guarda, e que amanhã eu acompanharia as duas até a fazenda.
- Fez bem, filho.
Vamos convidar as moças para entrar.
Eu e sua mãe estamos felizes com a presença de vocês em nossa casa.
A esposa de Bento levou as duas moças ao quarto da filha.
Abrindo os armários, disse-lhes:
- Vocês, jovens moças, tudo que vestem lhes fica bem.
A roupa de Josefina com certeza vai servir em vocês.
Podem usar o que quiserem.
Fiquem à vontade.
Hoje vocês dormem neste quarto.
Tenho certeza de que minha filha ficaria muito feliz em dividir o quarto dela com duas amigas.
Qualquer coisa que precisarem, é só chamar.
Enquanto isso, Bento falava com o filho.
Augusto revelou ao pai que estava gostando de Marina e que, se tudo corresse como ele desejava, também não iria demorar muito tempo para que pedisse a mão da moça em casamento.
Ninguém quis jantar; todos estavam satisfeitos.
Tomaram apenas um suco de maracujá.
A esposa de Bento ficou conversando com Arlinda, e as duas moças, convidadas de Augusto, estavam sentadas com ele no jardim.
Bento e Antero saíram para dar uma volta.
Alegaram querer relembrar os velhos tempos, quando em noites de lua cheia saíam para conversar.
Antero contou a Bento que tinha acertado tudo com Arlinda.
Partiria no dia seguinte; não queria perder tempo.
Ela concordara em esperá-lo na fazenda de Bento, assim ele ficaria tranquilos sabendo que Arlinda estaria na companhia de amigos.
No outro dia, Augusto, como prometido, preparava-se para levar as moças, e Antero também se preparava para partir, deixando o que tinha de mais precioso e sagrado:
sua amada.
À tarde, Bento e a esposa conversavam sentados na varanda da casa-grande.
Esta parecia ainda maior sem Josefina, pensava a mãe.
Arlinda foi até o rio com algumas lavadeiras, dizendo que queria matar a saudade dos velhos tempos.
O antigo senhor observava a moça com os olhos marejados de lágrimas.
Tudo poderia ter sido tão diferente se ele tivesse a visão e os sentimentos do presente.
A vida de muita gente seria diferente, inclusive a dele.
Já passava das dezasseis horas quando Augusto retornou, sentou-se entre os pais e, suspirando fundo, disse:
- Corrijam-me se estiver errado.
Não devemos confiar tarefas a nenhum apaixonado, porque ficam no mesmo estado em que estou: nas nuvens, desligados de tudo e até de si mesmos.
No caminho de volta, lembrei-me que hoje é dia de abrirmos os trabalhos.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 02, 2016 11:10 am

Desde que comecei minha missão, pela primeira vez não estou em condições de me doar a ninguém.
Vou pedir aos outros médiuns que toquem o trabalho sem mim.
Não sei se isso pode me prejudicar, mas, sinceramente, necessito parar para um reajuste; tenho de me equilibrar para continuar com as funções.
O pai, que só ouvia, esperou que Augusto terminasse de falar.
Então lhe respondeu:
- Filho, acredito que não esteja cometendo nenhum erro; temos outras pessoas capacitadas para dar sequência ao trabalho.
Se não está se sentindo bem com você mesmo, vá descansar, reflicta, analise e repense os acontecimentos.
Amanhã, descansado e tranquilo, saberá o que fazer.
- Obrigado, papai, pelos conselhos sempre tão sábios.
De facto, não me sinto bem em me sentar hoje naquele lugar santo.
Não que tenha feito algo de errado, mas há dentro de mim um fogo de desejo e paixão que não me permite pensar em nada a não ser em Marina.
Estou completamente apaixonado!
Preciso administrar esse novo sentimento que me pegou de surpresa, deixando-me assim, completamente embriagado de amor.
- Você é um homem, Augusto.
Isso é natural para todos os seres humanos.
E você disse bem: é preciso aprender a administrar todos os envolvimentos de sua vida; cada sentimento tem um lugar especial dentro de nós.
A mãe observava o filho atentamente.
Perguntou a ele:
- Augusto, você contou para a moça sobre a sua religiosidade, sobre o que faz no terreiro da nossa casa?
- Não precisei falar apenas responder às perguntas dela.
O povo fala demais.
Falaram até o que não faço, mamãe.
Imagine que disseram a ela que fico invisível, que me transporto do céu ao inferno, isso todas as noites.
E, quando vou ao inferno, dependendo do trabalho que vou fazer, não durmo nunca, e outras loucuras mais que nem valem a pena comentar.
Expliquei a ela o que de facto praticamos, e ela quer vir assistir a um trabalho.
Não a convidei; para ser sincero, até desconversei, porque tenho vergonha e medo de que, depois de me ver receber um preto velho e me comportar como um velho, não me queira mais.
- Pois eu acho que você está errado em pensar assim -aconselhou a mãe.
Se a moça gostar de você, vai aprender a gostar e a respeitar o que você faz com tanto amor.
Também não compreendia o que faziam os espíritos, mas, quando descobri o que a espiritualidade é capaz de realizar, nunca mais quis ficar longe dos trabalhos nos quais você se envolveu e que desenvolve com outras pessoas.
Como é que pode pensar em casar com alguém ocultando as coisas mais importantes de sua vida?
- Eu sei mamãe. Quero que ela entenda e fique a meu lado.
E que ainda está tudo tão confuso dentro de mim, entende?
- Claro que entendo, filho.
Seu pai tem toda a razão.
Vá tomar um banho e descansar.
Amanhã será outro dia, e tudo estará diferente.
Pode ir que eu mesma me encarrego de conversar com o pessoal da casa.
Também quero descansar hoje; se fosse para assistir ao pai Francisco esta noite, iria porque tenho um compromisso com ele, mas, na verdade, estou muito cansada, e ainda sinto uma ponta de tristeza pela partida de sua irmã.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 02, 2016 11:10 am

Augusto agradeceu e se retirou.
Bento tomou a mão da esposa.
- Orgulho-me de você.
Tem fama de falar pouco, mas, quando abre a boca, não tenho dúvidas de que suas palavras valem ouro.
Prometo que de agora em diante vou prestar mais atenção em você e quero aprender a ter essa tranquilidade que consegue transmitir a todos.
Uma coisa eu posso afirmar: se não fosse você em minha vida, não teria feito a metade do que fiz, nem por mim, nem pelos outros.
Ela se levantou e o convidou para acompanhá-la ao barracão, onde já se encontravam algumas pessoas reunidas.
Eles preparavam a casa com flores e ervas para receber a nobreza da espiritualidade aquela noite.
Bento conversou com os mais velhos da casa - era assim que tratavam os que haviam começado com tio Chico a nobre função que tinha início no terreiro da casa-grande e terminava no barracão onde fora a antiga senzala.
Todos acataram a decisão de Augusto respeitosamente.
Um dos mais velhos chegou a comentar em voz alta:
- Nosso paizinho é de carne e osso, o que ele tem de diferente de nós é a missão de nos trazer pai Francisco.
Fale para ele, sinhá, que estamos aqui, e, segundo temos aprendido com pai Francisco, através da matéria dele, quando um falta, o outro deve fazer o seu trabalho e o do irmão.
Vamos procurar fazer o melhor possível.
- Obrigado, Juarez, pelas palavras.
Só não gostei que me chamasse de sinhá; quando é que vai se acostumar a me chamar e a me tratar de igual para igual? - tornou a esposa de Bento, batendo-lhe levemente nas costas.
Uma semana depois, a namorada de Augusto presenciava a manifestação de pai Francisco e não precisou fazer esforço para compreender e entender as diferenças que havia entre Augusto e o preto velho.
Ficou encantada com pai Francisco, e este declarou publicamente que gostara dela como Deus gosta da luz.
Arlinda ansiava por notícias de Antero.
Apesar da amizade e do carinho que recebia de todos, inclusive do pai dele, não via a hora de ter Antero de volta.
Olhando para o horizonte, fazia as contas dos dias que já haviam passado.
Vinte dias! O que será que resolvera com a esposa?
E se, de repente, decidira continuar casado?
Era um direito dele, mas ela precisava ser notificada.
E os dias demoravam a passar...
Vinte e dois dias...
Arlinda foi ao rio com as mulheres.
A tarde já se preparava para se entregar nos braços da noite, conforme as histórias de Luiza.
As mulheres não precisavam mais ir ao rio para lavar a roupa; agora iam por divertimento.
Uma delas apontou um cavalheiro ao longe.
Quem seria àquela hora?
O coração de Arlinda disparou.
Como uma adolescente ela disparou estrada afora.
Era Antero! Ela sabia que era ele e que voltava para buscá-la, conforme havia lhe prometido.
As mulheres ficaram paradas, rindo, e uma delas comentou:
- Ai, que inveja da Arlinda.
Antero foi seu primeiro e único amor.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 02, 2016 11:11 am

Acho que nem todas as pessoas deste mundo sabem o que é amar de verdade; eu mesma ainda não encontrei meu verdadeiro amor.
Tomara que ainda possa encontrá-lo.
Antero estava de volta.
A fazenda toda já sabia de sua chegada.
Ele e Arlinda chegaram bem depois, e os amigos os aguardavam ansiosos.
Antero contou a Bento que resolveu tudo com a esposa da melhor forma possível.
Ela compreendera e lhe desejara felicidades.
Estava decidida a ir viver com os filhos e os pais.
Ele deixara os negócios encaminhados; não haveria prejuízos para ninguém, inclusive a esposa fizera questão de deixar parte dos bens com ele.
Alegara que era fruto do trabalho dele e que ela não iria precisar.
Se algum dia porventura necessitasse de algo, ela o procuraria.
Mas queria continuar sendo sua amiga.
Ele iria vender as propriedades e definitivamente se estabelecer no sul.
Tinha um empregado de confiança que ficara encarregado de negociar as propriedades, e pretendia trazer essa pessoa para tomar conta de um sítio que pretendia comprar.
Antero propôs aos dois que esperassem a volta de Chico Preto, que ficaria um mês em lua de mel com Josefina.
Nesse meio-termo, não deveriam ser interrompidos.
Assim que Chico voltasse, dali a uns dias, os dois poderiam ir ao encontro da felicidade.
Uma semana depois chegava uma comitiva de Chico Preto à fazenda de Bento.
Tinham vindo buscar Antero, Arlinda e o antigo senhor.
Trouxeram muitos presentes para o casal, até mesmo roupinhas de bebé e uma chupeta em uma corrente de ouro.
A mãe de Josefina ficou emocionada.
A filha estava bem e falava na carta que sentia muita saudade de todos, mas que estava muito feliz ao lado do marido, o melhor e mais atencioso homem do mundo.
O antigo senhor, sentado na varanda de cabeça baixa, depois de alguns segundos de reflexão diante dos homens enviados pelo neto, respondeu:
- Considero-me o mais feliz dos homens neste momento, mas não posso deixar esta fazenda.
Ainda não terminei as minhas tarefas por aqui.
Só posso deixar estas terras se seu Bento me pedir para sair.
Não quero partir com vocês, apesar do grande amor que tenho pelo meu neto.
Aprendi a amá-lo como deveria ter amado meus filhos.
Antero abaixou a cabeça e replicou, olhos no chão:
- Entendo o que o senhor quer dizer, mas, por outro lado, acho que todos nós estamos recebendo outra chance de rever os erros e tentar corrigi-los da melhor forma possível.
Não guardo nenhum ressentimento do senhor; pelo contrário, comecei a vê-lo com os olhos do coração.
Foi assim que me ensinou o preto velho pai Francisco..
Os olhos do coração são aqueles que enxergam a alma.
Meu filho o estima muito, e eu gostaria de viver perto do senhor.
Hoje sua presença me faz lembrar os melhores momentos de minha juventude, e os olhos de minha avó; o senhor se parece com ela.
Emocionado, o pai de Antero respondeu:
- Prometo que em breve vou visitá-los, se assim me convidarem.
Contudo, minha consciência me pede que fique aqui e faça pelos descendentes daqueles que maltratei algo de bom.
Fez-se silêncio entre eles.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 02, 2016 11:11 am

Arlinda, que estava até então calada, manifestou-se:
- De minha parte quero dizer ao senhor que aprendi a gostar de sua pessoa; iria me fazer muito bem tê-lo connosco.
- Sei, minha filha, o anjo de bondade que você é.
Faça meu filho feliz.
Agradeço do fundo de meu coração a luz que derramou sobre o meu neto e sobre o meu filho.
Deus a abençoe por todo o sempre.
Vão vocês, eu fico por aqui.
Afinal de contas, estamos em família.
Ao lado deles, amigos espirituais apertavam as mãos, congratulando-se pela alegria contida no coração de cada um.
Depois de tanto tempo e tantos acontecimentos, as barreiras da ignorância humana, sempre alimentadas por forças negativas, ruíram como as correntes que também foram partidas.
Os gritos das chicotadas transformaram-se em palavras dóceis, amáveis e serenas, cercadas de bons sentimentos, promovendo no ambiente uma energia de paz e harmonia.
Pai Francisco do Cruzeiro das Almas bateu de leve no ombro de tio Chico.
- Bem-aventurados os que sofrem, porque verão Deus.
Valeu a pena a chuva que caiu alimentando a árvore, que formou a madeira, que nos serviu de tronco; valeu a pena a chuva que ajudou a crescer o capim, que alimentou o boi, que nos cedeu o coro, que serviu como chicote; valeu a pena a chuva que caiu na terra, enriquecendo nossos senhores, que, fortalecidos em seus poderes mundanos, compraram-nos por algumas moedas; valeram a pena as noites daquelas mulheres que foram objectos nas mãos dos frequentadores dos palácios; também sofreram na carne e na alma, com o propósito de nos ajudar.
Vai valer a pena, velho Chico, ajudarmos estas moças que, espiritualmente, ainda são tão malfaladas!
Sabemos que são apenas irmãs que ainda conservam a beleza e o gosto pelo belo, mas o trabalho delas é livrar o homem de cometer injustiças e maldades.
Vamos ajudá-las.
Chico concordava com pai Francisco.
- Sabe Chico, foi criado o mito de que os espíritos, para serem bons e confiáveis, devem ser velhos e feios.
Mas sabemos que por aqui tudo é tão belo e luminoso, que, se isso procedesse como verdadeiro, não haveria espírito trabalhador!
Começando pela família real e sagrada, no céu, na terra e em qualquer lugar:
Jesus, Maria e toda a sua corte de anjos e santos.
- O senhor tem toda a razão.
Já entendi o que o senhor deseja que eu faça.
Vou me reunir com todas as belas moças que se encontram aqui e entrar no barracão.
Estamos precisando renovar a alegria dos trabalhos; eles acreditam ser apenas os pretos velhos que chegam lá para trabalhar.
Vou coordenar essa tarefa; pode ficar sossegado que assim que a menina Marina chegar perto do senhor uma linda moça vai se encostar nela, assim outras moças vão se chegando naquela casa e as energias de esperança e alegria vão se espalhar.
- Reparou velho Chico, quantos jovens estão envolvidos nos trabalhos?
Começando pelo aparelho que você me deixou; é um menino homem.
Você coordena o lado jovem, e não seja preconceituoso.
Devemos ter trabalhadores masculinos e femininos; estas duas energias se fazem necessárias em qualquer ocasião de nossa vida.
São os pares cósmicos; sem eles não há equilíbrio.
Mas tome cuidado com a euforia dos jovens encarnados; eles podem entender que as energias espirituais vêm deles, e não da luz.
E necessário o aprendizado e a disciplina.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 02, 2016 11:11 am

Esse trabalho eu me proponho a fazer; vou orientá-los sobre como entrar em sintonia com as moças e os moços espirituais sem criarem desafectos.
A semente lançada neste terreno fértil de fé e amor está se espalhando por aí, de norte a sul deste Brasil.
Temos encontrado diariamente muitos irmãos engajados com esta nossa causa:
levar e acender a luz em todos os corações distanciados das palavras do nosso Mestre Jesus.
Tio Chico, olhar atento, ouvia as sábias palavras do amigo. Quanto ainda havia por fazer...
- Com este novo caminho que se abre para todos - prosseguiu pai Francisco -, acredito que o fim do cativeiro se aproxima, pois já podemos ouvir essas vozes que, definitivamente, libertaram-se dos grilhões.
A vida na fazenda transcorria tranquilamente.
Bento rezava todos os dias, agradecendo a Deus pela barriga que via crescer; com os outros filhos não tivera esse cuidado; não tivera tempo de acompanhá-los, mas agora era diferente.
Longe dos problemas que afligiam os negros libertos, ficava sabendo pelos amigos das novas dificuldades que enfrentavam na sociedade.
Não tinha trabalho, faltava moradia, as doenças matavam os negros sem dó nem piedade, não havia nenhum sistema de saúde que os atendesse, viviam à mercê da sorte e de remédios caseiros.
De vez em quando, Bento parava e ficava pensando se fora um bem ou um mal que causara na vida de tanta gente.
A filha Josefina viera visitá-lo algumas vezes.
A mãe não podia ir até onde ela morava, pois passava mal em viagem pequena, imagine só grávida e em uma caminhada grande como era para chegar à casa da filha em outro estado.
Augusto, com muitos sacrifícios, terminou os estudos, envolveu-se na administração da fazenda e até se comentava que superara o pai em muitas coisas.
Estava levando a sério seu namoro e já pensava em noivar e casar, apesar da pouca idade física - porque, espiritualmente, dizia ser mais velho que o pai.
O inverno chegou e, em uma manhã chuvosa, os primeiros sinais de quem desejava chegar ao mundo também apareceram.
Foi aquele corre-corre.
Bento chamou Augusto e pediu que fosse buscar o médico.
A mãe agarrou o braço do filho e do marido, e pediu:
- Por favor, esperem um pouco.
Tenho tanta confiança em dona Joana e dona Isabel; quero ter meu filho de forma natural, como tive você e sua irmã.
As duas parteiras acalmaram Bento dizendo-lhe que estava tudo bem com o bebé; que ficassem rezando porque acreditavam que logo, logo o bebé estaria dando os primeiros sinais de vida, e então os dois poderiam entrar.
Augusto tomou a mão do pai e o conduziu ao barracão. Disse a Bento:
- Vamos permanecer aqui.
Assim que o bebé nascer, ouviremos o choro e sairemos correndo até lá.
Para Bento, aquelas duas horas valeram vinte anos de angústia e ansiedade.
Agarrou-se com o filho, que parecia calmo, quando então ouviu o choro do bebé.
Augusto permanecera quase todo o tempo de olhos fechados e orando, mas, ao ouvir aqueles gemidos, saiu correndo ao lado do pai. Também chorava de emoção.
Receberam a notícia de que estava tudo bem e se prepararam com a higiene exigida por Isabel, antes entrar no aposento.
A mãe sustentava o bebé nos braços, envolvido em um lençol de linho branco com um cobertorzinho.
E lá estava um bebé cabeludo, cujos cabelos lhe caíam pelas orelhas.
Bento se aproximou da esposa chorando de emoção.
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