Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 03, 2016 10:29 am

- E homem ou mulher?
Não quiseram me dizer na entrada; adoram aumentar nosso sofrimento.
- Apresento-lhe o mais lindo menino que já nasceu por estas bandas, depois de Augusto, é claro!
- Mamãe, ganhei um irmão? - indagou Augusto, chorando de alegria e tocando com a ponta dos dedos a testa do pequeno.
- Já tem nome, papai? - perguntou Augusto.
Não me atrevi a perguntar antes porque nome é algo tão sagrado, e vocês aprenderam que apenas os pais devem discutir nomes.
Você já falou para nossos pais como quer se chamar, não é verdade, pequeno? - falou Augusto, fazendo um carinho no bebé.
- Se seu pai não mudou de ideia, nosso reizinho se chamará Jorge.
Agora posso lhe contar o sonho que só compartilhei com seu pai.
Antes de engravidar, em uma noite de trabalho espiritual, pai Francisco do Cruzeiro das Almas nos contou uma história de um soldado que se chamava Jorge.
Fiquei tão impressionada com a história que à noite sonhei com ele.
Logo depois que engravidei, tornei a sonhar com o mesmo cavaleiro, que vinha montado em um cavalo branco e me levantava do chão que estava em chamas.
Quando me senti em segurança, perguntei qual era seu nome, e ele me respondeu: "Jorge".
Fiquei com essa imagem na cabeça e pedi a seu pai que, se nosso bebé fosse um menino, concordasse em chamá-lo de Jorge.
- Seja bem-vindo entre nós, Jorge - declarou Augusto, pedindo para segurar o irmãozinho.
A mãe colocou o bebé em seus braços e ele orou pelo pequeno.
Agradecia a Deus por ter recebido em seus braços alguém tão especial, um ser que acabara de descer de sua colónia para viver em terra.
O cheirinho dele era o mesmo que sentia quando estava ligado aos amigos espirituais.
Interessante; o cheiro transmitia paz, tranquilidade, esperança, e acalmava qualquer aflição.
Olhando para o pai, estendeu-lhe o bebé.
- Pegue seu filho, abrace-o, sinta seu perfume.
Ele é lindo; vamos cuidar de você, Jorge, com muito amor.
Obrigado, mamãe, você está linda, mas deve descansar.
Deus a abençoe.
Foi um presente divino que a senhora nos trouxe do céu.
Vou deixá-los a sós com Jorge; qualquer coisa podem me chamar.
Vou mandar avisar a todos, inclusive a Josefina, que Jorge acabou de nascer.
Assim o nascimento de Jorge mudou definitivamente a vida do mulato António Bento.
O juiz recebeu a notícia e ficou com os olhos marejados.
Como havia previsto, a esposa estava vivendo em Paris com os filhos, e ele vivia entre os pássaros, que sempre haviam sido sua paixão, e os poucos amigos que lhe restaram na fazenda.
Escolhera aquele local para morar devido à temperatura.
O ar das montanhas lhe dava tranquilidade.
O filho de seu amigo nascia; a vida era assim.
Uns se preparavam para chegar e outros, como ele, para partir.
Guardava muitas lembranças do amigo Bento.
O que deixara para trás lhe vinha à mente como um sonho; outras vezes, como um pesadelo.
Confessava-se diariamente com Deus.
De mãos postas diante do oratório, pedia perdão pelos pecados e perguntava ao Pai se tudo o que tinha feito na vida de fato fora um benefício ou um malefício.
Não gostava de falar sobre o assunto com ninguém, e buscava as notícias com muita discrição.
Sentia falta de Bento; gostaria muito de ir até a fazenda, mas, só de pensar no transtorno da viagem e na tosse, que lhe roubava o sono, desistia da ideia.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 03, 2016 10:30 am

Iria escrever uma carta ao amigo.
Quem sabe quando o tempo esquentasse e ele tivesse um pouco mais de ânimo...
Josefina ria de contentamento, arrumando a mala para visitar a mãe e conhecer o novo irmãozinho.
Abraçando o marido, disse-lhe:
- Será que mamãe vai ficar chateada quando lhe contarmos que já estou no terceiro mês de gravidez?
Precisamos convencê-la de que não lhe contamos antes para não deixá-la apreensiva.
Ela vai ficar brava, mas, depois, vai entender; papai e Augusto sabiam, mas guardamos segredo para não lhe causar preocupações.
- Meus pais vão ser avós, e ganharam um filhinho.
Não é maravilhoso?
- Acho que é uma dádiva de Deus um homem que chega a ser avô...
- Você vai ser avô, bisavô, tataravô, e por aí vai - respondeu Josefina.
- Não sei, minha querida, mas peço muito a Deus que este bebé que se forma aí dentro de você tenha o pai dele ao lado por um bom tempo.
- Ah, meu amor, você às vezes fala de um jeito que eu não gosto; dá a impressão de que vai morrer.
Pelo amor de Deus, só de pensar nisso sinto uma angústia dentro de mim! Deus me livre de ficar sem você.
- Vamos comemorar o nascimento do seu irmão e do nosso filho, que logo, logo também estará chegando para encher nossos dias de alegria.
- Estou pronta para seguir!
E estou até vendo a cara de felicidade do meu pai quando vir seu Antero e dona Arlinda.
Eles são muito amigos.
Certamente que sim, e numa ocasião como esta os amigos se alegram ao dividir a felicidade.
Foi por essa razão que convidei meus pais para nos acompanharem.
- Vamos verificar se está tudo em ordem?
Será que não esquecemos nada? - perguntou Josefina.
- Está esquecendo algo muito importante!
A caixa de charutos do seu pai.
Estou curioso para ver a admiração nos olhos de Bento.
Olha só, minha querida Josefina, quando nosso filho nascer, vou distribuir charutos amarrados em um cordão de ouro.
- E se for menina? - retrucou Josefina.
- Serão distribuídos finos bombons em uma caixinha de ouro.
Não pense que farei diferença se for menino ou menina; vou amar do mesmo jeito tanto um quanto outro, porque o bebé será fruto de nosso amor.
Abraçando a esposa, ficou em silêncio, pensando em Antero.
Agora entendia o quanto o pai havia sofrido.
Deus era maravilhoso, oferecia a todos novas oportunidades de vida.
Seria bom se o avô paterno aceitasse vir morar com eles, embora Chico Preto respeitasse os sentimentos do avô.
Ele estava feliz na fazenda de Bento; os jovens gostavam dele, e ele cuidava da escola como ninguém. Do antigo e odioso senhor não restara mais nada.
A viagem foi óptima, e a chegada de Josefina e Chico Preto à fazenda de Bento era aguardada com ansiedade por todos.
Entre abraços, risos e lágrimas, a família era conduzida para dentro de casa.
- Mamãe, preciso me banhar para ir até o meu irmãozinho.
Não vejo a hora de apertá-lo em meus braços.
- Vamos, filha, venham todos vocês. Tomem um suco para refrescar a garganta.
O pó da estrada castiga um pouco, não é mesmo?
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 03, 2016 10:30 am

Tempos depois, Josefina sustentava o irmão nos braços e chorava de emoção.
Era lindo, e seu nome também.
Chico Preto entregou a caixa de charuto ao sogro, dizendo que só tinha um pedido a fazer:
- Um dos charutos é de pai Francisco e o outro queria acender em memória de meu tio Chico.
No cair da tarde, o antigo senhor veio à fazenda, e abraçou o filho, a nora e o neto, demonstrando grande alegria.
Bento o convidou para jantar.
Antero, observando sua relutância, reforçou o pedido:
- Ficaremos felizes com sua presença entre nós.
O jantar em família foi cheio de brincadeiras e alegrias.
Cada um falou um pouco de si.
Augusto falou de suas intenções; pretendia se casar no próximo ano.
O pai de Antero declarou que vivia os melhores dias de sua vida.
Antero revelou que de seu passado guardava agora apenas os bons momentos, e que tudo o que desejava da vida estava ali a seu lado: a esposa e o filho.
Bento, tomando a mão da esposa, comentou:
- Posso afirmar a vocês que às vezes preciso abrir os olhos bem devagar para ter certeza de que não estou sonhando, que tudo o que estou vivendo é real.
Por fim, Chico Preto pediu licença, levantou-se e foi até onde Josefina estava sentada, ao lado da mãe.
- Eu e Josefina ouvimos vocês e nos alegramos com tudo o que escutamos.
Espero que todos vocês também se alegrem com o que temos a revelar:
eu e Josefina vamos ter um filho.
A mãe olhou para a filha e a abraçou.
Não conseguia falar, tamanha era sua emoção.
Logo após, respirando fundo, perguntou:
- De quanto tempo, filha, você está?
- Na verdade, a última vez que estive aqui estava no começo da gravidez. Algumas vezes corri ao banheiro para vomitar às escondidas.
Papai e Augusto sabiam; eu é que pedi que não lhe contassem.
A senhora não podia se preocupar com outra grávida, além de si mesma.
Estou no terceiro mês de gestação, e acho que engordei muito.
A senhora não percebeu?
- Notei que está mais forte, porém considerei isso normal; percebi que seu marido também engordou um pouco.
- Falei para você, Josefina.
Não é só você que está engordando; eu também.
Você, pela gravidez; e comigo, eu sei por quê.
Durmo cedo e fico muito mais tempo em casa, me alimento na hora certa e bem melhor.
Preciso tomar cuidado com essa vida boa que estou levando; as roupas já não me servem, até as botas estão apertadas - falou o rapaz, antes que a moça pudesse responder.
E, voltando-se para o sogro, acrescentou:
- Não é muito, mas dá para ver que Bento também ganhou alguns quilos, ou estou enganado?
- Não está não, Chico.
Engordei de quatro para cinco quilos, e a receita você acabou de passar:
vida tranquila, comida boa e ao lado de quem é a nossa própria vida.
A conversa prosseguiu em família.
O clima era de paz, alegria e muitas brincadeiras envolvendo todos os membros da família.
Após o jantar, as mulheres foram para o interior da casa-grande, e os homens se dividiram:
Augusto pediu licença, pois tinha um compromisso com o grupo que dividia com ele a missão espiritual.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 03, 2016 10:30 am

O antigo senhor agradeceu o jantar e desculpou-se, dizendo que tinha de corrigir trabalhos escolares.
Na verdade, sabia que os três amigos precisavam ficar a sós; com certeza tinham assuntos para colocar em dia.
Sentados na cadeira de balanço, os três amigos bebericavam um licor de jabuticaba, especialidade das ex-escravas daquela fazenda.
Chico Preto, puxando um dos charutos importados que gostava de fumar nessas ocasiões especiais, acendeu-o com seu isqueiro de ouro e passou a caixa, oferecendo aos amigos.
Fez-se um breve silêncio, e então ele falou:
- Vem acompanhando o que está acontecendo com nossos irmãos libertos, Bento?
- Mais ou menos, Chico.
Sinceramente, distanciei-me bastante do movimento; nestes últimos meses, praticamente não saí da fazenda.
Estou ansioso para que me coloque a par dos acontecimentos.
- A luta de todos os integrantes do movimento está a cada dia se tornando mais perigosa.
A chegada dos estrangeiros, na minha opinião, e acredito que na de todas as pessoas que têm olhos e coração, é uma represália à libertação dos escravos.
Os fazendeiros estão empregando os estrangeiros e fechando as portas ao negro trabalhador.
As ruas das cidades grandes estão lotadas de velhos e crianças pedindo esmolas.
Casas de prostituição estão apinhadas de mulatas, que, para não verem os seus morrerem de fome, prostituem-se.
Vários negros e simpatizantes do movimento tiveram as terras incendiadas, saques nas roças, e o transporte ilegal favorecido por autoridades corruptas está levando as sementes que poderiam formar o rebanho de gado e de cavalos dos pequenos agricultores.
Chico Preto deteve-se para soltar uma baforada do charuto.
E prosseguiu:
- Na verdade, a libertação dos escravos desenvolveu na vida de muitos negros outros problemas piores e maiores do que quando estavam nas senzalas; às vezes me pergunto se foi um bem ou um mal o que fizemos na vida deles.
Por outro lado, reconheço que, se para alguns não foi o que desejávamos, para muitos foi renascimento e esperança de um amanhã melhor para seus descendentes.
Do nosso grupo, temos casos de suicídios, com cartas deixadas à família.
Dois deles não suportaram as pressões que vinham sofrendo e se deixaram levar pelo caminho da morte.
Pessoalmente, tenho recebido correspondências anónimas com ameaças sobre a minha participação na compra das famílias que mantenho comigo como empregados da mina.
António Bento pestanejou.
Não sabia que o genro era alvo desse tipo de ameaça.
- Evito repassar esses problemas para Josefina e minha mãe.
Apenas meu pai conhece esses factos.
Reforcei a guarda e os cuidados com a minha família, mas não nego:
hoje tenho receio de sair por aí e até mesmo fico em dúvida sobre em quem posso confiar.
Graças a Deus que tenho meu pai a meu lado; hoje ele é como meus braços e meus olhos.
Os três silenciaram.
Antero recomeçou a conversa:
- Como ex-escravo, posso lhe dizer, meu filho, que a sua luta e a de todos os outros valeu a pena.
Sabíamos que iríamos enfrentar novos obstáculos, não é mesmo, Bento?
Com os olhos cheios de lágrimas, António Bento anuiu.
As palavras estavam presas em sua garganta.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 03, 2016 10:30 am

Respirou fundo e então respondeu:
- Temíamos sim.
E sabemos que ainda temos de enfrentar muitos descasos e preconceitos, mas, por outro lado, também deixamos as armas da coragem na mente e no coração dos negros que por si mesmos vão ajudar a mudar a história desse país.
Isso eu ouvi do juiz António Bento, e nunca mais esqueci, porque, na verdade, aprendi a confiar em suas palavras e na sensatez de sua análise.
Precisamos nos prevenir e resguardar nossa família, mas não podemos nos acovardar fugindo de nossas conquistas.
Precisamos manter dentro das fazendas os filhos de ex-escravos estudando com os filhos dos brancos e lhes transmitindo a ideia de como lutar pela sobrevivência de um entendimento entre brancos e negros.
- Falando no juiz, tem notícias dele, Bento? - indagou Antero.
- Tenho me correspondido com ele por cartas.
A saúde dele está instável, mas parece que o ar puro do campo lhe fez bem.
Segundo ele, está lutando para viver sem se importar com a doença.
A família está vivendo no exterior; isso ele já previa.
O fantasma da solidão não lhe chegou de surpresa.
Conforme conta, vive muito bem acompanhado pelos moradores da fazenda.
Eu acredito, pois se trata de uma pessoa admirável, uma companhia agradável para qualquer pessoa.
Os três amigos ficaram trocando confidências particulares até altas horas da noite.
As mulheres já tinham se recolhido sem mesmo terem lhes desejado boa-noite.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 03, 2016 10:31 am

Capítulo XI - A viagem de Chico Preto
No quinto mês de gestação, Josefina, orientada por Aurora, parteira experiente que já tinha trazido ao mundo centenas de bebés, brancos e negros, tivera a notícia de que teria dois filhos.
Sua barriga era de gémeos, e ela e o marido podiam se preparar para cuidar de dois, e não de apenas um.
Chico Preto estava nas nuvens de tanta alegria.
Tinha mesmo muita sorte.
A felicidade era grande demais.
Sonhava com nomes e discutia com Josefina para que ela o ajudasse na escolha.
Josefina estava intrigada com o que tinha ouvido falar:
que ter gémeos geralmente era uma característica hereditária.
Diziam que se na família de um ou de outro havia gémeos, então havia probabilidade de acontecer de novo, mas nem na família dela nem na de Chico Preto havia gémeos.
Qual seria a explicação para aquela gestação em dobrada?
Arlinda, sorrindo, esclareceu:
- Acho que um dia aconteceu de nascer gémeos na família de alguém e aí os gémeos começaram a chegar.
Mas, no seu caso, vou lhe confessar uma coisa: o avô de meu neto teve uma irmã gémea que morreu nos primeiros meses de vida.
Quem me contou isso foi Antero; segundo ele, a avó lhe confidenciou.
- Vamos chamar o senhor Antero aqui - pediu Josefina.
Agora a senhora me deixou curiosa.
Acredito que o Chico não saiba disso; questionamos o facto, e ele não me disse nada, então é porque desconhece, uma vez que entre nós não há segredos.
Antero chegou acompanhado pelo filho e encontrou as duas mulheres ansiosas por falar com ele.
- Aconteceu alguma coisa - indagou, apreensivo.
Josefina se precipitou a falar:
- Quero saber a história da irmã gémea de seu pai.
Por favor, conte-nos.
- Tenho certeza de que foi Arlinda quem lhe disse, e posso afirmar que está certa.
A minha amada avó, de quem nunca vou me esquecer, contou-me que meu pai nasceu de uma gravidez de gémeos.
Ele era o mais fraco e sobreviveu, e a menina, que era mais forte, viveu apenas três meses.
- Sabia disso, Chico? - perguntou Josefina.
- Estou tão surpreso quanto você, minha linda! - respondeu o marido.
Contudo, isso nos traz um alento.
Não sabíamos de onde vinha essa herança, e agora sabemos que podemos ter vários filhos em pouco tempo.
Que tal dez em cinco anos?
A esposa, rindo e apertando o braço de Chico Preto, falou:
- Só se combinarmos o seguinte: eu dou à luz, mas você amamenta, dá banhos, troca as fraldas e cuida deles à noite, tudo bem?
- Se você topar, negócio fechado! - tornou ele, abraçando-a.
Acho que vou adorar dar mamadeira a meus filhos, trocar fraldas, sustentá-los um em cada braço e cantar uma canção de ninar.
Não vou ser um pai coruja; vou ser um corujão.
Ao beijar a barriga da esposa, lembrou-se de que o pai não tivera a mesma felicidade que estava recebendo de Deus.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 03, 2016 10:31 am

Fitando-o com emoção, falou:
- Há muitas formas de amarmos, não é, pai?
Sei que o senhor não teve essa alegria com a minha mãe, mas vai desfrutá-la com seus netos.
Antero, envolvendo a esposa em um carinhoso abraço, disse:
- Mesmo não dividindo com sua mãe a sua chegada ao mundo, só tenho a agradecer a Deus pela recompensa de hoje tê-lo a meu lado e poder viver com meus netos, frutos de meu fruto, e com a maior ventura de minha vida.
Chegou o grande dia.
Aurora, auxiliada por mais duas experientes parteiras, preparava-se para trazer ao mundo os filhos de Francisco das Chagas de Jesus.
Pediu a Antero que ficasse com Chico.
Ele andava de um lado a outro sem sossego.
Arlinda preferiu ficar ao lado do filho e do marido; confiava em Aurora, e foi vontade de Josefina, que não quis ir para nenhum hospital; desejava ter os filhos em casa e com as parteiras de sua confiança.
Chico Preto rezava em voz alta a oração de tio Chico.
Pedia ajuda a ele e ao pai Francisco do Cruzeiro das Almas, seu tataravô.
Perdeu a conta de quantas vezes repetiu a oração; parou na metade quando ouviu o primeiro choro de um bebé.
Sem esperar, saiu correndo em direcção ao quarto, onde se encontrava a parturiente.
Aurora permitiu que ele entrasse e visse a esposa, que acabava de dar à luz uma menina, uma vez que o menino já estava sendo cuidado.
- Parabéns, seu Chico.
O senhor acaba de ser pai de um casal de filhos lindos, pode comemorar!
Agora o senhor vai nos dar licença; precisamos cuidar de sua esposa.
Assim que tiver tudo em ordem, o senhor pode vir e ficar o tempo que quiser com ela.
Chorando, Chico beijou a esposa e saiu gritando como um menino:
- Meus filhos nasceram!
Meus filhos nasceram!
É uma menina e um menino!
Senhor Antero e dona Arlinda, vocês são avós dos bebés mais lindos do mundo!
Meia hora se passou antes que a parteira os chamasse.
Para Chico, pareceram dias.
A parteira estava radiante; cada criança que ajudava a trazer ao mundo era um presente de Deus em sua vida.
- Entrem pai e avós.
Venham conhecer um príncipe e uma princesa, e dar um abraço na rainha, mãe deles.
Abraçados, avós e pai choravam de alegria diante das crianças e da mãe, que os contemplava com um sorriso nos lábios.
Vendo o marido entrar, ela disse:
- Amor, veja como são lindos!
- Os dois se parecem com você - respondeu ele, chorando de emoção.
A notícia se espalhou e alguém já partia às pressas para avisar aos outros avós, bisavós, tios e amigos que Marcos e Marina tinham chegado ao mundo e que todos passavam bem.
As crianças cresciam felizes e de vez em quando as famílias se visitavam.
Jorge, ao lado dos sobrinhos, parecia irmão deles.
Augusto se casou no ano seguinte.
Dava continuidade ao seu trabalho de evangelização e ajudava na administração da fazenda.
Chico Preto, apesar de distanciado dos cargos que ocupara no passado, não deixava de ajudar nos projectos sociais que beneficiavam os negros.
Josefina estava na segunda gravidez; desta vez a parteira também acertou:
era apenas um bebé.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 03, 2016 10:31 am

Pai de dois meninos e uma menina, Chico Preto se orgulhava da família que tinha formado.
Antero cuidava dos interesses e dos negócios do filho e vivia buscando aqui e ali as fontes de informações que pudessem livrar o filho das armadilhas que lhe preparavam constantemente.
Uma tarde, Bento, observando Jorge e os netos que brincavam diante da casa, notou que chegava alguém desconhecido.
Levantou-se e se dirigiu à entrada, pedindo que um dos trabalhadores olhasse as crianças.
Era um portador que lhe trazia a notícia:
o juiz havia falecido.
Bento empalideceu.
Nos últimos dez anos, haviam se encontrado poucas vezes; há um ano e poucos meses atrás, achara o juiz muito abatido.
Por mais que o homem queira entender a morte, há um enigma que envolve essa passagem, deixando quem fica em terra um tanto inseguro.
Augusto se aproximou, convidando o portador a tomar um suco e perguntando-lhe sobre o funeral.
Seria no dia seguinte; dava tempo de comparecerem.
- Vamos nos preparar para a viagem.
Infelizmente, tenho de enterrar meu segundo pai.
- Será que vai dar tempo de o Chico vir? - quis saber Augusto.
O portador respondeu:
- Ele também já foi avisado; acredito que consiga chegar a tempo.
Na saída do cemitério, Bento comentou:
- Dez anos passaram tão rápido!
Parece que foi ontem que estávamos comemorando a grande vitória conquistada a favor dos negros e já faz todo esse tempo...
Como todos nós devemos a esse homem!
Augusto, abraçando-o, respondeu:
- Vitória mesmo ele recebeu hoje, meu pai!
Tudo o que semeou por estas estradas está recebendo do Pai Criador em forma de bónus por sua felicidade espiritual.
- Foi uma grande perda a morte do juiz - era o comentário geral.
Pela distância, os familiares não vieram ao enterro do juiz.
Amigos e empregados derramaram lágrimas sinceras pela bondosa alma do doutor António Bento.
Alguém das relações do juiz se aproximou de Bento e lhe disse baixinho:
- Em breve, esposa e filhos devem vir ao Brasil para revirar os possíveis bens deixados como herança para eles.
E as surpresas serão grandes.
O juiz lavrou documentos da fazenda onde morreu para os antigos moradores e seus descendentes, e sei que fez isso com outras propriedades.
Já se comenta que, sendo casado em regime de comunhão de bens, a esposa pode entrar na justiça e reaver o que ele doou sem a assinatura dela.
É do meu conhecimento que a fazenda administrada por você foi doada a seu filho.
Estou avisando-o para que não seja pego de surpresa.
A briga vai ser grande; os familiares vão querer reaver o que julgam como herança de família.
Na volta, Augusto percebeu que o pai, além de triste pela morte do amigo, estava contrariado com alguma coisa.
Aproximando-se dele, perguntou:
- Pai, aconteceu alguma coisa?
Quer falar comigo?
- Está tudo bem, meu filho, vamos seguir adiante.
O amanhã a Deus pertence, e precisamos nos manter confiantes Nele.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 03, 2016 10:31 am

Augusto não tocou mais no assunto.
Em casa, comentou com a esposa:
- Posso estar enganado, e como quero estar!
Meu pai omitiu alguma coisa para mim.
Ele ouviu algo que o deixou preocupado, e deve ser grave, pois não quer me contar.
- Você não percebeu nada durante o enterro?
Com quem ele falou?
Está tudo bem com Chico?
Conversou com ele?
Augusto tentou se lembrar...
- Bem, meu pai conversou algum tempo com um amigo de meu padrinho.
Você tem razão, pode ser algo que ele ouviu dessa pessoa.
Amanhã, com jeito, vou falar com ele.
Seja o que for, é sempre bom dividir com alguém.
Augusto tentou arrancar do pai alguma coisa a respeito de sua preocupação, mas Bento desconversou, dizendo-se magoado com a morte do amigo.
Dois meses depois, Augusto teve certeza do motivo da contrariedade do pai na saída do cemitério:
receberam uma intimação sobre a doação das terras.
A viúva alegava ser a legítima herdeira da fazenda e exigia que desocupassem as terras imediatamente.
Bento disse ao filho que ele entregaria tudo sem contestar nada, mas e as famílias que viviam ali?
Para onde iriam e como viveriam?
Chico Preto entrou na questão para defender o sogro e as famílias.
Aquelas terras agora pertenciam a Augusto e era a vontade do juiz que os descendentes dos ex-escravos permanecessem trabalhando e criando os filhos ali.
Esta e outras causas de heranças deixadas pelo juiz estavam na justiça, e eram grandes as intrigas envolvendo a família de Bento.
Por questões de segurança, Chico convenceu o amigo Bento a deixar a fazenda e morar em outro local, em uma de suas propriedades.
Alegando que ali era perto de boas escolas para Jorge e que também ficariam mais próximos, não levava uma hora de viagem e estavam um na casa do outro.
O avô de Chico havia falecido pouco tempo depois da morte do juiz, e ele sentira bastante.
Apesar de não ter convivido com ele, aprendera a admirá-lo.
Augusto permaneceu na fazenda com a família.
Disse que não sairia dali sem a decisão judicial.
Assumira um compromisso com o juiz e com a espiritualidade.
Se fosse vontade de Deus, ele a cumpriria com humildade, mas não se acovardaria diante das exigências da família do padrinho.
O cunhado e a irmã fizeram de tudo para tirá-lo da fazenda.
Chico se comprometeu em receber e distribuir as famílias nas fazendas, garantindo trabalho para todos, mas ele não cedeu.
Era filho de Bento, como dizia o próprio Chico.
A família do menino que recebera o nome graças à oração poderosa de tio Chico vivia em plena paz e harmonia.
Chico Preto não queria mais nada de Deus, só manter a felicidade que havia conquistado, pensava ao olhar para os filhos e a esposa.
No plano espiritual, dois espíritos amigos conversavam:
- Está tudo preparado, Chico?
- Sim, está tudo pronto.
Não será uma tarefa fácil para nenhum de nós, mas a lei do Pai deve ser sempre cumprida.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 03, 2016 10:32 am

Era uma manhã de Sexta-Feira Santa.
Assim como em todo ano, na Semana Santa, Chico Preto abria as fazendas para os moradores pescarem nos açudes, colherem frutos, além do leite, que distribuía gratuitamente o ano todo para as famílias carentes.
A família de Bento, filhos e netos, Antero e Arlinda estavam sentados à mesa.
Chico fazia a oração que lhe dera o nome.
Bateram palmas à porta, e Antero se levantou para atender.
O filho fez sinal, dizendo-lhe:
- Hoje é Sexta-Feira Santa.
O dono da casa deve atender a qualquer chamado; tudo o que nos acontecer hoje, é pela vontade de Deus.
Josefina o olhou e sentiu um calafrio.
Levantou-se para segui-lo, mas ele pediu:
- Fique à mesa com nossos familiares.
Hoje é um dia muito especial; devemos nos manter em oração e em agradecimento. Volto já.
Uma sensação estranha tomou conta de todos que estavam ali.
Em volta deles, havia vários espíritos de luz sustentando-os.
Ouviram-se disparos e um tropel de cavalos.
Em segundos, todos estavam gritando e amparando Chico Preto, que, tocando a face da esposa, falou:
- Por favor, cuide de nossos filhos, eu amo todos vocês...
Enquanto Antero e Bento sustentavam o corpo de Chico, que fechou os olhos e parecia sorrir.
Tio Chico se aproximava dele, abraçando-o.
- Filho, como é maravilhoso poder recebê-lo entre nós.
Você fechou os olhos do corpo carnal e ganhou luz nos olhos espirituais.
Não se preocupe com nada; vamos cuidar de tudo.
Você vai ficar bem.
Sua esposa está cercada de familiares e seus filhos estão amparados; seus pais vão cuidar de tudo, fique bem.
- Tio Chico, não estou sonhando?
Eu morri? Por favor, me fale, preciso saber a verdade.
Pensei que estivesse sonhando, ou tendo mais um daqueles pesadelos.
Deixe-me pensar:
hoje é Sexta-Feira Santa, hora do almoço, e estou rezando.
É um momento sagrado; alguém está batendo palmas à porta.
Mal tive tempo de perguntar o que queriam e senti algo queimando meu peito.
Chegou o senhor e me abraçou, levando-me para fora de minha casa.
Não me lembro de mais nada.
Onde estão Josefina e meus filhos?
Estou confuso, por favor, me ajude.
Tio Chico lhe ofereceu um copo com água.
- Beba isto, vai lhe fazer bem.
- Que suco bom.
Tem um gosto maravilhoso.
Que bebida é essa? Ainda não havia provado nada assim.
- Já bebeu sim.
Muitos e muitos copos.
Depois vai se lembrar onde foi.
Chico sentiu uma paz enorme invadir seu coração.
- Onde estou tio Chico?
Por favor, confio tanto no senhor!
Fale-me a verdade: onde estou?
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 03, 2016 10:32 am

- Deite-se.
Vamos, relaxe e respire fundo.
- Pronto, está desligado - disse o assistente que acompanhava tio Chico.
Vamos transportá-lo agora?
- Vamos.
Por favor, chame dona lida para nos acompanhar.
- Pois não; vou avisá-la.
Logo uma senhora de beleza angelical acariciava o rosto de Chico Preto.
- Querido bisneto...
Como gostaria de dizer a seu pai neste momento que estou cuidando de você.
- Fique calma, dona lida.
Pai Francisco e os outros irmãos ficaram cuidando de toda a família; por meio de Augusto e de outros irmãos, aos poucos todos compreenderão a vontade do Pai.
- Francisco das Chagas de Jesus.
Veja só que nome ele escolheu para cumprir sua missão.
Fez coisas brilhantes, não é mesmo?
- Fez; brilhou tanto que vivia em meio ao ouro.
E, ainda assim, não se iludiu com a vaidade humana.
Deixou um grande legado em terra.
Por muitos e muitos anos, seu nome será lembrado por diversos encarnados, e, quando estes encarnados regressarem para o lado de cá, vão continuar lembrando dele, pouco importando seu nome.
Apesar de que um nome lindo como esse é impossível para qualquer um de nós esquecer, esteja onde estiver.
O povoado construído por Chico chorava e gritava sua morte.
Mulheres desmaiavam, o sino da igreja batia sem parar, os povoados vizinhos lotavam o local onde ele morava.
Todos queriam saber quem havia matado o pai dos pobres.
A tristeza cobriu de luto aquela Sexta-Feira Santa.
Quem fora o infiel filho de Deus que fizera aquela barbaridade?
Augusto, amparado pelo divino espírito de pai Francisco e outros irmãos espirituais, lutava para libertar a esposa e mãe de Chico.
Elas gritavam; não queriam acreditar no que estava diante de seus olhos.
Josefina gritava e implorava:
- Chame pai Francisco, não deixe meu marido morrer, você pode trazê-lo de volta.
Fale para mim que ele vai abrir os olhos e falar comigo.
O desespero tomou conta de todos; ninguém parava para fazer uma oração, mas todos queriam justiça, tal era o sentimento de revolta que predominava naquele momento.
Alguém lembrou que Chico tinha um caixão de ouro.
Não seria conveniente enterrá-lo no caixão?
Augusto disse que não.
Ele seria enterrado como um homem comum.
Aquele caixão de ouro era apenas uma fantasia; esclareceu a todos que Chico Preto se sentiria feliz sendo velado e enterrado como um filho de Deus.
Uma semana depois, Augusto retornava à fazenda, abatido e cansado.
A irmã, apesar de não ter trocado uma palavra com ninguém, estava mais tranquila.
Os pais de Chico e seus pais haviam ficado com ela e as crianças.
Nenhuma pista do assassino de Chico Preto.
A desconfiança vinha de todos os lados, mas provas, nenhuma.
Antero dizia que não iria sossegar enquanto não colocasse as mãos no assassino do filho.
Vingar a morte de Chico Preto tornou-se uma obsessão na vida de Antero.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 03, 2016 10:32 am

Graças à bondade infinita de Deus e Sua majestosa sabedoria, pai Francisco o libertou de seus algozes obsessores, que sonhavam em ver os inimigos aprisionados pelas mãos de Antero.
Josefina, por vontade própria, mudou-se com os filhos, pais e o irmão Jorge, a quem considerava mais filho que irmão, para uma cidade grande.
As crianças iriam estudar, e ela queria encontrar forças para continuar vivendo.
A sentença judicial saiu:
metade da fazenda continuaria com Augusto; a outra parte passaria para as mãos da viúva.
Augusto serenamente assinou todos os documentos e ali mesmo, diante das autoridades competentes, propôs dividir sua parte em lotes.
As famílias receberiam os lotes e poderiam fazer de suas terras o que bem entendessem.
Assim foi feito, e todos tiveram a própria chácara que, com o passar dos anos, lotearam e venderam, transformando aquela fazenda em lotes residenciais, hoje constituindo-se um sumptuoso bairro.
Os moradores, em casas ou apartamentos, nem desconfiam que ali já foi uma senzala; que dali saíram muitas vozes do cativeiro rumo à liberdade; que Bentos e Franciscos fizeram parte dessa história.
Chico Preto estava de cabeça baixa.
Tio Chico se aproximou dele.
- O que está acontecendo, menino?
- Tio Chico, procurei aceitar a minha passagem.
Tenho lutado para melhorar meu desempenho espiritual, mas não vou mentir ao senhor.
Não consigo esquecer Josefina, meus filhos, meus pais...
Preciso vê-los!
Ter notícias não é a mesma coisa quer ver.
Quando é que o senhor vai me levar para vê-los?
- Depende de você, filho.
Está pronto para encontrar todos eles?
Sabe quantos anos já se passaram desde que chegou aqui?
- Não, senhor. Isso eu não sei.
A única coisa que sei é que não morri nem esqueci nenhum deles, e tenho a impressão de que foi ontem que saí de lá.
- É verdade, faz pouco tempo mesmo.
Mas falo que tanto faz o tempo que já passou ou com o acréscimo de mil anos; daqui para frente, nossos sentimentos serão os mesmos.
- Há quantos anos estou aqui?
O senhor pode me falar?
- Faz apenas trinta e três anos - respondeu tio Chico com tranquilidade.
- Meu Deus!
Então meus filhos Marcos e Marina estão com quantos anos?
Josefina e meus pais estão de cabelos brancos?
- E você aí do mesmo jeito.
Quer dizer, muito mais jovem do que quando deixou a Terra.
- Bem, se você estiver disposto a fazer uma grande caminhada, hoje à noite posso levá-lo a um dos lugares mais bonitos que Deus criou: a Terra.
- O senhor fala sério?
- E teria motivos para brincar com você sobre isso?
Passava da meia-noite em terra.
Tio Chico chegou acompanhado por outros irmãos e por Chico Preto, que fechava os olhos e falava em voz alta:
- Nossa! Que cheiro divino tem essa Terra.
Tio Chico pediu que ele esperasse por ele ali naquela sala; logo estaria de volta.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 03, 2016 10:32 am

Chico ficou andando de um lado para o outro.
Onde se metera tio Chico?
O negro velho apareceu acompanhado por aquele senhor branco de olhos claros que havia lhe apresentado em sonho como pai Francisco do Cruzeiro das Almas; já nem se lembrava mais de seu semblante.
Perguntara por pai Francisco muitas vezes e sempre obtivera a resposta:
- Logo ele virá visitá-lo.
Havia desistido de perguntar por ele.
Quem seria aquele senhor?
- Chico, lembra-se dele?
O bondoso senhor com um olhar sereno e amoroso o abraçou, dizendo:
- Querido tataraneto, que bom recebê-lo entre nós.
- O senhor é o pai Francisco mesmo?
Mas o senhor era um preto velho na fazenda, foi um negro, meu tataravô...
Como pode ser tão branco assim?
- E qual é a sua cor? Pode me dizer?
- Eu sou... - Chico tomou um susto.
Estava tão branco quanto aquele senhor.
O que acontecera com ele?
- Não quero ser branco. Sou negro - disse ele, passando a mão pelos braços.
- Chico, você deixou de ser e de sentir o que você é porque a cor da pele mudou?
Os três Francisco deixaram a sala e se encaminharam até onde estavam Arlinda, Antero, seu amigo Bento, lida e, por fim, Josefina, que lhe abria os braços sorrindo.
Chico Preto chorava de alegria e emoção.
Ali estava a maior prova de amor que já havia recebido na vida.
Não havia ouro em Terra que pudesse pagar por aquela riqueza que acabava de receber.
- Então, Chico, ainda quer retornar para as minas de ouro? - perguntou pai Francisco.
- Não senhor; agora posso compreender o seu conselho.
Quando me disse para fazer algo por mim mesmo, o senhor me falou destas riquezas que estou recebendo todos os dias.
Chico ficou sabendo que a mãe chegara ali havia quinze anos; seu pai, dez; Bento, oito; e Josefina, cinco; e a amada bisa lida é quem cuidava de todos eles.
Ele arriscou uma pergunta que não podia ficar sem resposta:
- Onde está meu avô? Vejo todos por aqui; ele veio antes de mim, mas não o vi em lugar nenhum.
- Ele está empenhado em uma missão.
Pela grande experiência que teve antes de deixar a Terra, foi-lhe concedida a chance de resgatar os dois filhos e a esposa.
Eles reencarnaram, sendo ele o responsável pelos três.
- Agora que a família começa a crescer, é hora de investirmos em riquezas.
Convido vocês para me acompanharem ao trabalho espiritual que será realizado hoje pelo médium Augusto e alguns membros de sua nobre família.
Querem vir comigo? Chico passará as normas a vocês; devem segui-las ao pé da letra.
Ele será o responsável pela permanência de vocês em terra.
Era uma Sexta-Feira Santa. Em um salão amplo e simples, repleto de pessoas de olhos fechados e em posição de oração, um senhor de cabelos e barbas brancas, acompanhado por três pessoas de meia-idade, abria o Evangelho e lia uma passagem muito bonita de Jesus.
Em seguida, lembrou aos presentes que há trinta e três anos, em uma sexta-feira como aquela, o bondoso Chico Preto, como era conhecido por todos, fora morto na porta de casa.
Parou no meio da leitura, pois sabia que ali estavam os filhos de Chico Preto, que honravam a memória do amado pai.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 03, 2016 10:33 am

Então, outro senhor, meio calvo, de olhar bondoso, começou a orar.
Quando terminou, o senhor de cabelos brancos agradeceu:
 - Obrigado, Jorge, meu irmão querido.
 E, também presente com os amigos espirituais, a surpresa:
 - Chico Preto sou eu! E meus filhos? Eu os deixei tão crianças e agora estão de cabelos brancos.
Jorge está calvo e irreconhecível!
E Josefina, no entanto, mais jovem e bela...
 Chico Preto estava moço, e sua cor voltara a ser como antes, negra.
Gostava-se como negro, embora, quando ficara branco, não perdera seus sentimentos nem pensamentos; de facto, não era a cor das pessoas que lhe moldavam o carácter nem a alma.
 Emocionados, todos permaneceram ao lado de tio Chico, lida e pai Francisco trabalhavam e davam assistência aos trabalhadores encarnados e desencarnados.
Muitos irmãos sofredores eram trazidos até ali e recebiam os primeiros socorros.
Equipes de resgate transportavam os doentes; era um trabalho divino e gratificante, ponderou Chico Preto.
 Quando se encerraram os trabalhos espirituais, Augusto olhou na direcção deles e falou a todos:
 - Hoje é um dia muito especial.
Não que os outros não sejam; porém, hoje recebemos muitas visitas importantes, muitos familiares nossos.
Por um segundo, talvez, ele fixou os olhos nos olhos de Chico Preto e sorriu para ele.
Em seguida, pediu aos presentes que encerrassem orando um pai-nosso em agradecimento ao mestre Jesus por ter permitido a iluminada presença do espírito de Francisco das Chagas de Jesus.
 Tio Chico convidou todos para se retirar.
Os trabalhos haviam terminado; agora era hora de outros trabalhadores entrarem em acção naquele sagrado recanto espiritual.
De volta ao lar espiritual, onde os justos e os trabalhadores filhos de Deus têm direito de habitar, pai Francisco se sentou e mansamente lhes falou:
 - Convido-os a dar início às grandes tarefas que puderam presenciar naquele recanto sagrado.
Há muito trabalho e, quanto mais trabalhadores tivermos, mais irmãos doentes e carentes encarnados e desencarnados serão levados até lá.
Se estiverem dispostos a enfrentar esta grande maratona de luz, vou encaminhá-los ao departamento que planeia e treina os trabalhadores e, assim, sob a coordenação de tio Chico, todos poderão começar a servir.
 Por unanimidade, aceitaram, radiantes de alegria e esperança.
Queriam servir ao lado daqueles que, sendo seus entes queridos, desenvolviam uma missão de amor e paz, transmitindo aos presentes uma força imensa que os unia e enaltecia.
 Chico Preto, muito emocionado, lembrou que nos trabalhos de tanta nobreza e grandeza ele era citado como exemplo.
Iria se empenhar e fazer de tudo para se engajar naquele grupo de trabalho.
Sua vida estava completa.
Josefina a seu lado e essa nova possibilidade de trabalho eram de facto o maior prémio que um espírito em suas condições poderia ter recebido.
 E, assim, aquele grupo de irmãos afins dava início ao grandioso trabalho que favorece o conhecimento da doutrina em todas as regiões e camadas sociais do nosso Brasil.
 
Fim
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 03, 2016 10:33 am

A intolerância e a ignorância de muitos irmãos, que não conheciam a riqueza de nossos mentores espirituais, por muito tempo massacraram e até mesmo subornaram os escritos deixados por nossos protectores.
A luta do bem continua activa pelos filhos da luz e, nas prateleiras de muitas livrarias e outros departamentos comerciais, encontramos livremente as obras da espiritualidade.
Deparamos em muitos espaços, espíritas ou não, com médiuns irradiados pela luz de nossos Franciscos, merecedores de dádivas da espiritualidade por meio de seu trabalho humanitário, interligando-se com outros fiéis de muitas religiões, com as quais comungam um só desejo: que as palavras de nosso mestre Jesus sejam cada vez mais recitadas com consciência:
"E um só pensamento subirá até vós".
Que todas as religiões se harmonizem, pois os caminhos que seguimos podem ser diferenciados, mas nosso desejo é Um SÓ: CHEGAR AO PAI.

§.§.§- Ave sem Ninho
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

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