Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 24, 2016 9:40 am

Pense no sonho que teve com a sua mãe e comece a reflectir sobre tudo o que conversaram.
Tenho certeza de que ela veio para ajudar.
O negro velho saiu balançando a cabeça.
Quem o olhasse de longe, pensaria:
"Esse negro velho está ficando caduco; fala e gesticula sozinho".
Todavia, não falava sozinho.
Conversava sempre com Jesus e, quando deparava com situações semelhantes à de Antero, balançava a cabeça e falava consigo:
"Oh, meu Senhor!
Estou tão longe de entender a Tua grandeza, por esse motivo peço que me ajude a ajudar sem julgar.
O que o Senhor faria em meu lugar?
Jesus, me fale no coração para que possa fazer igual".
Quando alguém estava magoado, revoltado, sempre vinha lhe pedir conselhos.
O velho Chico então oferecia às Chagas de Jesus uma bonita prece que nascera da fé de seu coração.
Ouvia todos os lamentos orando de olhos fechados e, em seguida, citava várias passagens da vida de Jesus, embora nunca houvesse lido uma bíblia.
Mas tinha quem lhe falasse ao coração.
E, após citar esses exemplos, pedia que a pessoa se perguntasse:
"O que faria Jesus em meu lugar"?
A resposta que viesse ao coração era a verdadeira, e todas as pessoas que vinham em busca de ouvir suas palavras tinham por conselho questionar com essa simples pergunta a própria consciência.
Os senhores, quando estavam com problemas de saúde ou outras aflições familiares, chamavam-no para orar em silêncio dentro da casa-grande.
Era apenas em ocasiões como essas que entrava na casa branca e azul, orgulho e marca dos senhores.
Gozava de algumas regalias devido à boa reputação.
Era o único escravo velho que tinha liberdade de andar pelos jardins da casa-grande e circular pelos arredores da fazenda.
E os senhores sabiam que ele era do bem, que conseguia desarmar os cativos revoltados apenas sentando ao lado deles e conversando por alguns minutos.
Sem contar seus unguentos, garrafadas, pomadas, banhos, e o canivete, bisturi dos escravos.
Seu canivete era sagrado; ninguém o tocava, e o velho Chico também era o único escravo a possuir tal arma.
O preto velho era um negro com a sabedoria de uma alma branca -assim dizia a velha-sinhá aos padres que vinham buscar suas ricas contribuições, muitos deles se servindo das garrafadas do velho Chico para curar mal do estômago, reumatismo e outras doenças.
Tio Chico sentou-se no velho tronco da mangueira.
Aquele lugar de trabalho do preto velho era tão respeitado que nenhum escravo ou capataz tinha coragem de se sentar nele.
Tio Chico esfregou as duas mãos no chão.
Quem o observasse naquele momento, poderia estranhar aquele gesto.
Por que esfregar as mãos no chão daquele jeito?
Enquanto o fazia, rezava e pedia a Jesus que limpasse seus pecados no pó daquele chão, e que lhe permitisse cuidar da saúde das pessoas.
Chamou o moleque Zezinho, que veio correndo com uma cabaça cheia de um líquido escuro.
Tio Chico lavou bem as mãos e espalhou seu material de trabalho.
Pediu a Divina que fosse trazendo os meninos mais velhos para o tratamento dos pés.
Os novos ficariam olhando e não teriam medo quando chegasse a vez deles.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 24, 2016 9:40 am

Dentro de um bornal feito de couro de boi, guardava enormes jabuticabas.
Abriu-o e o deixou bem à vista.
O moleque Zezinho foi o primeiro.
Sentou-se, pegou uma jabuticaba e passou a mastigá-la.
Enquanto isso, o negro velho esfregou bem suas solas dos pés com um óleo escuro que ele mesmo preparava, cutucou o bicho-de-pé e, com um chumaço de algodão embebido em querosene, puxou o malvado, como o descrevia às crianças.
Limpou com outro líquido e falou para o moleque pegar mais uma jabuticaba.
- Fica sentado ali até eu dar ordem para você se levantar.
E assim foi, um por um.
Enquanto fazia esse trabalho com o auxílio de algumas mulheres, ia contando histórias para as crianças, que ficavam encantadas e se punham a devanear.
Terminado o trabalho com os bichos-de-pé das crianças, pediu que fossem brincar no espaço de terra batida ao lado da senzala, e avisou que não podiam, em hipótese alguma, ir ao monturo atrás da senzala.
Foi então a vez das mulheres e de alguns velhos escravos que serviam nas tarefas da casa.
Quando finalizou a tarefa daquele dia, pediu às mulheres que levassem seus pertences e ali ficou, sentado de cabeça baixa, orando e agradecendo a assistência recebida naquele dia.
Uma das crianças que brincava em meio a outras no espaço reservado a elas, apontando em direcção à mangueira, falou olhos arregalados:
- Tia Zulmira, tia Zulmira!
O tio Chico está voando no meio de uma nuvem igual ao sol.
Olha lá em cima da mangueira!
A menina parecia extasiada com o que somente ela podia ver.
Não se cansava de apontar e falar:
- Olha lá! O tio Chico voando na nuvem da cor do sol!
As outras crianças olhavam e perguntavam:
- Onde é que está?
Não estou vendo!
Tia Zulmira pegou na mãozinha da menina e falou, os olhos marejados de lágrimas:
- Vamos brincar, vamos brincar!
Aquilo ali é um anjo da história do tio Chico.
Os anjos são parecidos com a gente, entendeu?
Aquele anjo ali é o encantado, do qual o tio Chico fala.
Por essa razão só você pode ver.
Não olhe mais para o anjo.
Vá brincar com seus amigos.
Assim o anjo vai brincar com os outros anjos também.
- Ah, então é isso?
anjo fica igual ao tio Chico só para me enganar.
Que danado! - constatou a menina, toda orgulhosa.
As outras crianças passaram a repetir as histórias do tio Chico e logo esqueceram a aparição descrita pela menininha.
Um tropel de cavalos tirou o negro velho de sua concentração.
Era o capataz Toninho, que passara por ele e, em tom sarcástico, dissera:
- Isso é que é vida, hein, velho Chico?
Barriga cheia, sombra e água fresca.
Quem não queria ter essa regalia?
O preto velho não respondeu nada.
Balançou a cabeça assim que o capataz deu as costas e entregou a Jesus as palavras que havia acabado de ouvir.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 24, 2016 9:41 am

Levantou-se se apoiando no tronco e saiu arrastando as velhas alpargatas confeccionadas por ele mesmo.
Foi até os canteiros de alecrim verificar como estavam, pois precisava colher alguns ramos para preparar seus remédios.
Viu o senhor montando o belo alazão todo enfeitado.
O animal brilhava ao sol; era um lindo cavalo.
O capataz, bem-vestido, peito estufado para frente, seguia o senhor na própria montaria.
Os dois se encobriram no horizonte.
O preto velho, matutando, reflectia:
"Aí vem novidade.
Essa reunião de ontem à noite está me cheirando a desgraça...
Só tenho de pedir às Chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo para ter misericórdia desses pobres infelizes".
Rodeando os canteiros, fazia a oração que um dia lhe brotara do coração e da fé.
Estava de castigo quando a recebera, os pés acorrentados, sem camisa, sob o sol do meio-dia.
A sede era tão grande que perdera as forças e desfalecera.
Escutara uma mulher gritando e implorando ao capataz que desse a ele um pouco de água.
Escutara então o estalo do chicote e os gritos dele:
- Se não sair daqui agora, vai para o tronco com ele!
Naquela aflição danada, adormecera e saíra do corpo.
Vira perfeitamente o corpo encolhido no chão ardente.
Os capatazes sentados à sombra, jogando baralho e tomando aguardente, contavam as aventuras da noite anterior e com que mulher cada um dormiria naquele dia.
De repente, uma força invisível, como um redemoinho, arrastara-o para longe.
Vira a si próprio à beira de um rio.
As águas eram azuis e ao redor havia pés de manga, maracujá, goiaba e outras frutas de que gostava.
Muitos meninos brincavam subindo nas árvores, tirando frutos e lhe oferecendo. Comeu avidamente.
Banhou-se no rio e ficou apreciando o pôr do sol.
A noite foi chegando.
As primeiras estrelas surgiam no céu límpido e os meninos continuavam por ali rindo e correndo de um lado para outro.
Ficou observando a imensidão do céu, que logo estava repleto de estrelas que reluziam e piscavam tanto, que pareciam se comunicar com ele.
Sorrindo, agradecia a Jesus.
Estava ali todo o entendimento do homem.
Algo foi lhe chegando à mente e tocando seu coração.
Era a oração:
Deus salve este momento de graça para a minha alma!
Forças das Chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo, as minhas forças há de guardar.
A minha alma será guardada longe dos olhos dos meus inimigos, o meu corpo será guardado e tratado como tratadas foram as Chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo.
O irmão que me ensina hoje terá a alma limpa e purificada amanhã.
Como salvo foram todos os que se arrependeram diante de Nosso Senhor Jesus Cristo, eu me arrependo dos meus pecados.
Pelas Chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo no alto da cruz, pelas lágrimas de sua Santa Mãe, pelas orações de Seu Pai, por todos os que rogam ao Pai pela Sua alma, entrego as minhas chagas a seus santos cuidados, e, pela fé e confiança que deposito no filho de Deus Pai Todo-Poderoso, peço-lhe que abrande o coração de meus algozes, ressuscite as forças de meu corpo físico e meu espírito elevado na Sua luz.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 24, 2016 9:41 am

Dê-me, Senhor Jesus, a fé e a razão para que possa entender a minha dolorosa passagem em terra.
Abençoa Jesus, a todos os que me rodeiam; tenha misericórdia de nós.
Alivia a sede da minha alma com a suavidade de Sua Luz; protege, Senhor, o meu corpo físico.
Que ele suporte o castigo carnal de que se faz merecedor neste momento.
Sopra o seu hálito sagrado e refresca o fogo que queima dentro de mim.
Em seus braços, a minha alma descansa e se fortalece.
Pai Nosso que está nesta terra onde o meu corpo descansa.
Pai Nosso que está no sol, não deixa que o meu corpo desfaleça sem a Sua gloriosa presença.
Pai Nosso que está no ar, na água e nas florestas, envia--me Seus anjos e santos em meu socorro.
Glorificado seja hoje e por todo o sempre, amém.
Neste maravilhoso desprendimento, abriu os olhos, e os primeiros raios da aurora anunciando o nascer do dia despontavam no céu.
Tentou se lembrar de onde estava e logo a razão lhe voltava à mente:
estava acorrentado ao tronco; as carnes doíam devido às chicotadas.
Tentou respirar fundo, mas não conseguiu.
A garganta queimava.
A única coisa boa é que estava vivo, e começou a se lembrar de seu desprendimento.
Quantas horas mais suportaria aquela aflição?
Ouvia o ruminar das vacas leiteiras e o canto das corujas; esses sons lhe davam um pouco de esperança, pois não estava sozinho.
Não conseguia mexer os pés de tanta dor.
As argolas que prendiam seus braços eram muito pesadas e ele estava sem forças.
Fechou os olhos e se lembrou das palavras lindas que haviam nascido de seu coração, das águas límpidas do rio e da alegria dos meninos.
Chegou mesmo a rir de olhos fechados, imaginando e sentindo o sabor das frutas na boca.
Para ele, fora um delírio, mas havia decorado perfeitamente palavra por palavra aquela oração.
Ficaria ali até Jesus vir a seu encontro.
Só pedia e Ele que não demorasse muito; sua boca estava seca, e a garganta queimava e doía.
De repente, ainda de olhos fechados, ouviu o ruído de um trovão.
Ou seria uma ilusão de sua mente?
Abriu os olhos com dificuldade e pôde ver um clarão riscando o céu.
Era um relâmpago!
"Oh, Jesus, o Senhor veio ao meu encontro!
Faz cair sobre o meu corpo Sua bondade".
Como mágica, os primeiros pingos começaram a descer, fortes e pesados.
Abrindo a boca, agradecia sorrindo por cada gota que lhe descia suavemente pela garganta.
A chuva aumentou.
Batia-lhe no corpo, lavando as chagas e refrescando o corpo febril.
Apenas a dor do chicote ainda teimava em lhe castigar as carnes do corpo físico, porque espiritualmente sentia-se aliviado e agradecido, muito agradecido.
Desejava viver bastante ainda, para ajudar os outros irmãos nos castigos carnais.
Com muito sacrifício, ajeitou-se, mantendo-se sentado junto ao mourão onde estava acorrentado.
Começou a rir ao se lembrar de que ele próprio escolhera na mata aquele mourão, o maior tronco de pau-ferro.
Fora ele quem cuidara de secá-lo na sombra e o preparara.
Com a ajuda de dois negros o havia fincado na terra, fazendo uma amarração que nenhum touro, por mais valente que fosse, arrancaria.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Set 24, 2016 9:41 am

Estava acorrentado no curral.
Uma vez ouvira um padre dizendo que Jesus e o pai faziam cruzes, e que Jesus fora pregado em uma cruz.
Ele também estava amarrado ao mourão que tinha preparado.
O céu estava coberto por nuvens escuras.
Tio Chico viu os capatazes correndo para o abrigo, protegendo-se com as capas de couro.
Os bezerros berravam, procurando pelas mães.
As vacas respondiam, aproximando-se dos abrigos.
O vento arrancava tudo.
O negro Chico viu telhas e galhos de árvores voando por todas as partes.
"Santo Deus!", pensou.
"Não morri no sol, mas vou morrer nas águas".
O capataz-chefe aproximou-se dele, atolando as botas na lama.
- Recebi ordem de soltar você, negro - disse.
Nunca vi uma chuva dessas por aqui assim tão fora de hora.
Vai para a senzala e não faça alarido, se não quiser vir pagar o resto das horas que ficaram para trás.
Tio Chico saiu cambaleando e rezando a oração que aprendera.
Chegou à porta da senzala e não sentiu mais o corpo.
Acordou deitado ao redor, esfregando-lhe poções nos pulsos.
Graças a Jesus, logo se recuperou do castigo e não guardou nenhuma mágoa do irmão que lhe causara todo aquele sofrimento.
Assim que se sentiu melhor, as mulheres e os mais velhos, que o conheciam bem, vieram conversar com ele.
Todos os negros sabiam que Chico jamais levantaria um dedo para pegar nada de quem quer fosse, quanto mais mexer com coisas dos senhores.
O negro Zé Pedro, contudo, vivia se metendo em encrencas.
Tinha o hábito de pegar o que não lhe pertencia.
Quando as roupas dele rasgavam, ia escondido e pegava a do outro.
Na cozinha, precisavam vigiar quando se aproximava, pois enfiava a mão e levava escondido o que podia.
Tirava coisas dos capatazes e acabava complicando os inocentes.
Não faltavam conselhos.
Tanto os mais velhos quanto os mais novos estavam sempre abrindo os olhos dele.
Naquele dia, Zé Pedro aproveitara que o capataz havia descuidado da capanga com todos os pertences e pegara tudo o que desejava, depois a colocara dentro da rede do pobre Chico.
O capataz invadira o barracão e fora chutando redes e o que mais encontrasse pela frente.
Quando vira a capanga dentro da rede de Chico, erguera o chicote e começara a perguntar aos outros onde ele estava.
Tio Chico, tão logo ouvira aquela gritaria toda no barracão, mulheres e crianças chorando e correndo, largara com rapidez a enxada com a qual limpava o monturo e viera correndo saber o que se passava.
O capataz avançara sobre ele, já o chicoteando e chamando-o de ladrão sem-vergonha.
Arrastara-o até a frente da casa-grande e o apresentara ao senhor como um ladrão.
- Olha só o que encontrei escondido dentro da rede dele: minha capanga!
Mas meus pertences continuam desaparecidos.
O velho senhor, em pé com as mãos no cinturão, perguntara:
- Onde estão os pertences dele, negro safado?
Sem ouvir resposta, desceu os degraus e socou o rosto dele, dizendo ao capataz:
- Leve-o ao curral.
Faça com que lhe diga onde se encontram suas coisas.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 25, 2016 11:59 am

E, se houver mais alguém envolvido no roubo, coloque-o também no curral.
Deixe-o sob o sol o dia todo e a noite inteira.
Amanhã de manhã, quando tomar meu café, lembre-me do ocorrido que vou pensar no que fazer.
Não quero ladrões na minha fazenda.
Pagamos uma multa alta se vendermos um escravo ladrão.
Esses safados só têm dois caminhos: ou aprendem no tronco e não roubam mais, ou matamos o infeliz.
O capataz o levou ao curral, dando-lhe chutes por todo o corpo.
Prendeu-lhe pés e mãos nas argolas mais pesadas.
Começou a chicoteá-lo, enquanto gritava:
- Fala onde estão meus pertences, negro safado!
Vou trazer todos da sua laia aqui, velhos e crianças.
Todos vão apanhar na sua frente se não me contar logo onde estão as minhas coisas.
Chico não tinha a menor ideia de onde estavam as coisas do capataz.
A única certeza era sobre o ladrão:
por certo se tratava do Zé Pedro, pois o negro era o único que roubava na senzala.
E, como todo gatuno, sempre dava um jeito de se sair bem e deixar que outra pessoa pagasse pelo seu crime.
Chico escutou outro capataz se aproximando do companheiro.
Estendendo alguns objectos, falou:
- Zé Pedro achou isso no barracão onde o Chico fica.
Veja se está tudo aí, e não se canse perdendo tempo com um negro vagabundo desses.
Arranque a roupa dele para o sol fazer sua parte.
Vamos ver se ele resiste até amanhã.
Aí então veremos o que o senhor vai resolver.
O capataz terminou de conferir os pertences e respondeu ao companheiro que estava tudo ali.
Aproximou-se de Chico e passou a chicoteá-lo com tanta força, que podia sentir o sangue pulsando forte dentro das veias.
Passaram-se horas.
O sol estava tão quente que Chico o sentia queimar-lhe os órgãos internos.
Todo seu corpo tremia de dor.
Uma mulher começou a implorar a permissão de colocar uma caneca de água na boca de Chico, mas o senhor lhe deu uma chicotada e a fez ir embora.
Fora assim que saíra do corpo e passara horas na mansão do Senhor.
Era um milagre de Jesus aquela chuva e ele ter sido solto; não havia outra explicação.
Dois dias depois do castigo recebido, o mesmo capataz fora mordido por uma cascavel.
Só Chico sabia onde se encontrava o remédio.
O senhor o mandou buscá-lo com outro capataz.
Na estrada, o capataz lhe perguntou:
- Chico, eu e outros companheiros temos certeza de que não foi você quem roubou o Jerónimo.
Por que ficou calado?
- Porque não podia acusar ninguém.
Não vi quem colocou aquilo na minha rede.
Mas realmente não fui eu.
Jamais peguei uma pena perdida de uma ave voando por aí, imagina se ia pegar as coisas do capataz.
Contudo, se tivesse negado o que iria acontecer?
Outros teriam ido comigo para o tronco, mas quantos teriam suportado o que aguentei?
- Você suspeita de quem, Chico? - insistiu o capataz.
- Não suspeito de ninguém.
Não posso levantar falso-testemunho contra uma pessoa se não posso provar nada.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 25, 2016 12:00 pm

Chico encontrou as cascas e as raízes para o remédio do capataz, que permaneceu um mês em isolamento.
Com os cuidados e a sabedoria das negras curandeiras da senzala, ficou bom.
O senhor o testava de todas as maneiras.
Facilitava todas as oportunidades para que, se de facto fosse um ladrão, caísse em tentação.
Certo dia arrumava sacos de milho no paiol, quando o senhor, sem vê-lo, comentara com um feitor:
- Acho que o negro Chico aprendeu a lição.
Faz mais de seis meses que ele vem sendo testado e, por enquanto, não pegou uma agulha!
Gosto do trabalho desse negro.
Às vezes, nem acredito que foi ele quem roubou o Jerónimo.
- Olha senhor - tornou o capataz -, tenho quase certeza de que o castigo foi aplicado no negro errado.
Duvido que tenha sido o Chico.
O senhor tem um ladrão na senzala que é protegido pelos outros negros por pena.
Depois do que aconteceu com Chico todos os negros o vigiam dia e noite.
- E quem é? - indagou o senhor, de olhos arregalados.
- É o Zé Pedro.
Se o senhor o colocar na mesma prova do Chico, não vai precisar esperar muito tempo.
Ladrão só necessita de uma ocasião.
- É o que vou fazer.
E, se o que está me falando se confirmar, vou mandar dar um fim nesse negro.
Uma laranja podre no meio do saco apodrece as outras.
Não se passaram muitos dias e Zé Pedro chegou à senzala para arrumar seus pertences.
- Estou indo para um barraco onde vou ficar sozinho e mais perto da boa vida - esclareceu aos que ficavam.
Fui escolhido para cuidar dos pertences dos capatazes, por minha competência e esperteza.
Chico se levantou e avisou:
- Zé Pedro, pense bem no que vai fazer por lá.
Entre nós, as coisas se resolvem de um jeito.
Lá no barraco dos capatazes a coisa é resolvida por eles.
Você sabe bem do que estou falando.
- Sei sim.
Você está com inveja de mim, mas pode ficar sossegado, negro burro, que sei me virar muito bem!
E deixou a senzala sem olhar para trás.
Não durou um mês e chegou a notícia ao barracão dos negros:
Zé Pedro tinha morrido afogado.
O corpo dele estava dentro de uma rede amarrada com uma corda.
Ninguém pôde vê-lo; era ordem do capataz, pois o corpo estava deformado.
A senzala chorou, afinal, Zé Pedro era um deles.
Chico derramou suas lágrimas em silêncio.
Sabia que o negro não morrera afogado, que fora morto a mando do senhor.
Com certeza fora flagrado roubando.
Rezava por sua alma; era apenas um pobre e infeliz irmão.
Dali para frente, diversas tarefas de confiança lhe foram confiadas.
Ele e Zé Pedro haviam pagado um preço alto, e não tinha um dia que não rezasse e recomendasse sua alma a Jesus.
Em meio a tantas lembranças, só voltou ao presente quando viu Divina correndo em sua direcção e gritando:
- Chico! Vem até o barracão, que Sula e Jerusa estão se matando!
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 25, 2016 12:00 pm

O velho Chico saiu nos passos que aguentava andar.
Entrando no barracão, deparou com as duas mulheres rolando no chão, arranhando-se e se mordendo.
Tio Chico deu um grito:
- Vamos parar com isso!
As duas mulheres, ofegantes, se separaram e, arrumando as saias, ficaram de pé.
- Sentem-se aí as duas.
E não abram a matraca para me falar nada!
Vocês é que vão me ouvir.
Só vão abrir a boca quando eu mandar.
As duas se sentaram em tocos, silenciosas.
- Divina, sabe por que essas duas criaturas estão tentando se matar?
- Aqui está o motivo da briga.
Divina estendeu duas anáguas surradas.
- O que é isso? - perguntou o negro velho.
- A sinhá-velha deu essas duas anáguas para elas, e agora estão brigando por uma das peças, esta aqui - explicou Divina, mostrando uma das anáguas.
- Dê-me isto aqui, Divina - pediu o velho Chico.
Então as duas estão brigando por esta aqui?
Óptimo! Pega a outra para você, Divina.
Traga para mim dois caroços de milho que vamos tirar na sorte quem vai usar esta.
As duas querem a mesma anágua; nenhuma das duas quer a outra.
Encontrei a solução para descobrir quem será a dona.
Chame as galinhas com pintinhos até aqui, Divina.
Sula e Jerusa venham aqui.
Escolham a galinha.
Aquela que pegar o milho em primeiro lugar dará a uma de vocês grande sorte, apresentando quem será a dona da anágua.
Sula foi a ganhadora.
- Agora venham aqui dentro - chamou o velho Chico.
Quero conversar com as duas.
Vocês não se acanham disso?
Brigando desse jeito por uma roupa velha da sinhá?
No que a vida de Sula vai mudar por causa dessa anágua velha?
E você, Jerusa, vai ficar mais pobre do que é porque não ganhou a anágua?
Vocês precisam se valorizar um pouco mais.
Estão se comportando como duas tolas.
As anáguas velhas da sinhá logo vão estar rasgando, acabando, e vocês acham que a amizade e a irmandade valem a mesma coisa que uma anágua velha?
Sula chorava com a anágua na mão.
A outra, cabisbaixa, também derramava lágrimas.
Sula foi até Jerusa e lhe estendeu a anágua, balançando a cabeça em negativa, dizendo que não a queria mais.
O velho Chico ficou orgulhoso das duas e se aproximou delas, abraçando-as.
- Filhas - falou -, vocês valem muito mais que isso.
Posso dar uma ideia às duas?
Cortem essa peça e façam peças íntimas para vocês.
Vai ser muito melhor, não acha Divina?
- Não só acho como é isso que farei com esta aqui que o senhor me deu.
E vou dividir com Antónia e Zulmira.
Depois, para onde é que vamos com essas anáguas?
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 25, 2016 12:00 pm

O negro velho resolvia assim mais uma intriga dentro da senzala, e saía balançando a cabeça.
"Santo Deus!
O ser humano está tão longe do entendimento.
Como podem duas pessoas perder o controle a ponto de se agredir física e espiritualmente por causa de uma porcaria?"
O velho Chico foi cumprir seus deveres.
O pensamento estava voltado para o senhor e o capataz que haviam saído a sós.
Tinha certeza de que escondiam alguma coisa.
Zulmira veio até ele contar que a sinhá-velha queria porque queria ver o neto.
Mas Antero ainda tinha o rosto um tanto inchado.
- Vamos vê-lo - o negro velho a convidou.
Quero falar com ele.
Encontrou o rapaz sentado, esculpindo em uma madeira.
- O que está fazendo, Antero? - perguntou tio Chico.
- O senhor gosta?
Esculpia o busto de uma mulher negra.
Era uma perfeição, reflectiu tio Chico.
- Tio Chico, esse menino parece um doido - comentou Zulmira.
Faz cada coisa com madeira...
O barraco dele está cheio dessas artes.
Já o alertei para tomar cuidado.
No dia que a sinhá resolver entrar lá, vai botar fogo em tudo.
- Não tenho o que fazer aqui na fazenda.
Foi um meio que encontrei para preencher meu tempo.
Não estou fazendo mal a ninguém.
Faço bichos, estrelas, gente, tudo o que me vem à cabeça.
- Isso não é para qualquer um não, Zulmira.
Esse menino é um artista.
Desde pequeno que gostava de brincar fazendo bonecos e animais de madeira, lembra?
Chegando mais perto do rapaz, tio Chico pediu:
- Deixe-me olhar como está essa ferida.
Graças a Deus está boa.
Vá até a casa-grande.
A sinhá-velha está sentada na cadeira de balanço lá no jardim.
Não fale o que não deve para ela.
Caso perceba esse corte, diga-lhe que caiu da goiabeira, mas que está tudo bem.
- Tio Chico, devo pedir a ela que fale com meu senhor sobre aquele assunto de estudar com os padres?
- Não fale nada, Antero - aconselhou o negro velho.
Aguarde mais um pouco.
Tenho um pressentimento de que alguma coisa vai acontecer por aqui.
Então espere um pouco para sabermos o que é que vem.
O sol já tinha cruzado o céu.
Era essa a expressão que tio Chico usava quando queria dizer que já era mais de meio-dia.
Os dois cavaleiros voltavam a um só galope.
Os negros correram para ajudar o senhor a descer e foram cuidar dos animais.
Tio Chico ficou observando de longe o capataz.
Ele mal cabia em si de tanto orgulho; algo estava sendo tramado, com certeza.
O sol já baixava no horizonte, quando o senhor mandou chamar Antero nas dependências onde tratava de assuntos com os subalternos.
No escritório da casa-grande, só entravam pessoas importantes e especiais.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 25, 2016 12:00 pm

Divina saiu correndo para chamar tio Chico e os outros, para que rodeassem o local a fim de descobrir alguma coisa.
O senhor, ao avistar Antero, sem demonstrar nenhuma emoção ou outro sentimento paterno, foi logo dizendo:
- Arrume todos os seus pertences.
Amanhã logo cedo, antes de o sol nascer, você vai ser levado aos cuidados de um frei.
Vai ficar lá durante cinco anos; já fechei um contrato com ele.
Ai de você se tentar fugir ou não seguir as ordens do frei.
Se fugir, será capturado e eu mesmo lhe darei fim.
Estou gastando uma fortuna para me livrar da situação de ter um mulato com a cor de meus olhos dentro da minha fazenda, motivo de falatórios e brincadeiras que envolvem até a minha família.
Antero não se aguentava de alegria!
Não precisara pedir; a providência divina o fizera por ele.
Graças às orações de tio Chico, recebia a oportunidade de mudar sua vida.
- Agradeço senhor, e prometo que não vai se arrepender de me enviar ao colégio dos padres.
Quero aprender a ler e a escrever, e um dia desejo lhe devolver tudo o que o senhor vai gastar comigo.
- O capataz Toninho vai levá-lo amanhã cedo.
Não faça alarido ao contar aos escravos; não quero que a notícia chegue aos ouvidos de minha mãe.
Saia em silêncio, obedeça às novas regras que vai encontrar pela frente, e não esqueça de que continua sendo propriedade minha; apenas estou retirando-o de nosso meio e colocando-o sob os cuidados dos padres.
E completou, sem olhar o rapaz:
- Deixe o barraco arrumado e só leve o que lhe pertencer.
Está dispensado.
Antero arriscou uma última olhadela a seu senhor, ponderando:
"Este é o meu pai, o homem que nunca me olhou nos olhos; que nunca encostou um dedo sequer em mim.
Adeus, meu pai.
Espero que nunca mais nos encontremos.
Espero nunca mais vê-lo de novo".
Tio Chico estava sentado em frente ao barraco de Antero.
Assim que o jovem se aproximou, o negro velho se levantou e foi ao encontro dele.
- Então, meu filho?
O que queria o seu senhor?
- Graças a Deus, ele vai me mandar embora.
Vou morar e estudar no colégio do frei Gregório.
Ele fez um contrato de permanência por cinco anos, e já estou ciente de que não sairei de lá durante esse tempo.
Mas isso não me impede de obter informações sobre as pessoas que amo.
Vou implorar a frei Gregório por notícias de minha mãe, de Arlinda e, sobretudo, de meu filho.
Sei, tio Chico, que aquela criança que Arlinda espera é meu filho.
Dona Assunta deu-me bons conselhos.
Disse-me que quem ama sabe esperar o quanto for preciso, pois amor não é flor que morre por causa do tempo.
Tenho certeza de que Arlinda vai saber me esperar, e vou lutar por ela e por meu filho.
Dona Assunta prometeu me ajudar.
Falou que vai descobrir como Arlinda e meu filho estão, e que me trará notícias, embora até agora eu não saiba de nada.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 25, 2016 12:00 pm

Estou preocupado em partir sem ter notícias dela.
- Deus está lhe preparando um novo caminho, meu filho.
Vamos sentir muita sua falta, mas Deus sabe o que faz!
Isso é para o seu bem.
Quanto às notícias sobre Arlinda, daremos um jeito de levá-las até você.
Toda semana, o João da madeira vai ao colégio.
Por intermédio dele terá notícias nossas, fique sossegado.
- Estou com o coração apertado.
Não posso me despedir de minha avó, a única pessoa daquela casa azul e branca que me acolhia no coração, que reparava o que ia dentro dos meus olhos.
- Fique tranquilo; não se desespere pensando nisso.
Ela também desejava que você fosse estudar.
Foram nossas orações que iluminaram a mente do senhor.
Vamos continuar rezando por você. Entre e comece a arrumar seus pertences.
Não abuse dessa ferida, que ainda está aberta.
Vou separar para você levar uma pomada e a solução de limpeza, e outros remédios que deve ter em mãos quando precisar.
Se tiver qualquer necessidade de remédio lá no tal colégio, peça permissão a frei Gregório, que eu mando pelo João da madeira.
Acho que ele não vai proibir, pois preparo soluções para as alergias e o remédio para as más digestões dele, e é sempre o João quem leva.
Vendo a expressão entre aflita e feliz do moço, completou:
- Sempre no fim da tarde a sinhá-velha costuma ir ao jardim.
Apareça por lá de longe.
Se tiver uma oportunidade, aproxime-se, mas não lhe conte nada.
Despeça-se intimamente da sua avó.
Beije-lhe as mãos e tome-lhe a bênção.
Dizendo isto, despediu-se de Antero e saiu arrastando os pés pela poeira do caminho.
"Santo Deus! O que será que o senhor está armando para cima de nós?
A saída de Antero foi a solução que encontrou para não ter de dar explicações sobre sua paternidade."
Deparou com Assunta e as outras negras lavadeiras.
- Sua bênção, tio Chico - falaram todas as mulheres de uma só vez.
- Jesus abençoe todas vocês, minhas filhas.
- Vão indo, meninas.
Vão levando as roupas com cuidado, que acompanho vocês já, já.
Quando estava a sós com o negro velho, indagou:
- Como está Antero, tio Chico?
- Muito ansioso em obter notícias de Arlinda e saber da criança.
E hoje ele recebeu a informação de que logo cedo deixará a fazenda.
Vai para o colégio do frei Gregório.
O senhor fez um contrato de cinco anos de permanência dele por lá.
- Senhor Jesus das Santas Chagas!
Tio Chico, o senhor entendeu o que vai acontecer com esse mulato?
Ele vai ser morto!
Cinco anos é muito tempo; todos vão esquecê-lo e, nesse intervalo, acredite no que estou lhe dizendo, vão matar o Antero.
E já descobri o que ele queria.
Arlinda está mesmo na tal mina de ouro com a família.
O nobre mulato lhe deu carta de alforria a ela e aos pais dela.
Além disso, o filho que ela espera nascerá livre!
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 25, 2016 12:01 pm

Falaram-me que está uma revolução só na cidade.
Nós é que não estamos ainda sabendo da tal lei que chamam de Ventre Livre.
A mulher negra que daqui para frente tiver um filho vai continuar servindo na fazenda ou vai para outros cuidados.
Mas um negro que adquire liberdade nos dias de hoje ou se une aos velhos capatazes ou morre de fome...
Isso sem contar a revolta dos escravos.
As matas estão cheias deles como capitães do mato.
- E onde você ouviu isso, Assunta?
- A beira do rio é o lugar onde a gente mais escuta as novidades.
Uma negra dormiu com um capitão do mato; outra com um capataz, e por aí vai.
Isso da lei não é conversa não, viu tio Chico?
Acho bom que vocês, os mais velhos, chamem os mais novos e os instruam sobre como trazer mais informações para nós.
- Converse com Antero, Assunta - aconselhou o negro velho.
Só tome cuidado com como vai colocar as palavras.
Ele pode não entender direito as coisas quando se trata de Arlinda.
Vamos nos reunir esta noite lá embaixo do velho imbuzeiro para falar sobre isso que está me passando.
Tinha ouvido falar sobre o assunto, só não sabia que a lei já estava assinada.
Talvez o senhor e o capataz Toninho queiram manter a notícia em segredo.
Temos de ficar de olhos abertos, saber direitinho quando é que esta lei foi assinada.
Nasceram crianças nestas duas semanas.
Será que o senhor está ocultando a notícia para tirar o direito delas?
Assunta se despediu de tio Chico e foi correndo ao barraco de Antero.
Contou-lhe o que sabia.
Cabisbaixo, o rapaz comentou:
- Então meu filho será entregue ao senhor da lei?
O que aconteceu com Arlinda?
Por que se rendeu dessa maneira?
Ele iria estudar muito e um dia as coisas mudariam a seu favor.
Antero arrumou seus poucos pertences.
Guardava como se fosse uma jóia de ouro a peteca colorida que a avó lhe dera.
Tinha muitas peças talhadas em madeira, mas as entregaria a tio Chico.
Ele gostava; dizia que era trabalho de quem tinha dom especial.
Não poderia levá-las, tampouco as jogaria fora.
Algumas haviam lhe tomado dias para ficar prontas.
O sol já baixava por trás das árvores.
Antero saiu cuidadosamente e avistou a avó acompanhada da criada.
A moça já sabia da partida de Antero e estava com pena da sinhá.
Aproximou-se dela e sussurrou:
- Antero está ali do outro lado.
Quer que o chame?
- Chame, chame esse moleque danado!
Traga-o até a mim.
A moça fez sinal, e Antero se aproximou.
Tomou o cuidado de olhar ao redor para conferir se não havia ninguém por perto.
Ninguém, graças a Deus.
Abaixou-se e tomou as mãos da avó, levando-as aos lábios.
- Jamais vou deixar de amá-la.
A senhora é muito importante em minha vida.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 25, 2016 12:01 pm

- Oh, meu filho. O que foi? Está chorando?
E esse ferimento no rosto?
Se ficar sabendo que alguém ousou lhe encostar um dedo, o sujeito vai acertar as contas comigo.
Já proibi meu filho e todos daqui de maltratá-lo.
Hoje mesmo exigirei de seu pai uma posição para sua vida.
Está na hora de lhe dar um trabalho decente para que possa ganhar dinheiro e passar a viver melhor.
- Por favor, minha querida avó, por enquanto não fale nada com o senhor.
Deixe para falar com ele depois da missa de domingo. Promete?
- Não sei o porquê, mas, se quer assim, prometo.
Depois da missa de domingo, então, terei uma conversa com ele e com minha nora, que parece não ter coração.
Ela é mãe; deveria ter compaixão dos filhos de outras mães, principalmente do filho do marido, mas ela não o aceita de jeito nenhum!
Antero ficou abraçado à avó por um longo tempo.
A sinhá-moça os observava por trás da cortina com um sorriso sarcástico nos lábios.
"Graças a Deus, minhas preces foram ouvidas.
O mulato atrevido vai embora amanhã e logo, logo é a vez da senhora, minha insuportável sogra!
É bom mesmo que se despeça do netinho querido, pois nunca mais o verá entre nós.
Quando os dois estiverem no inferno, podem ficar juntos eternamente.
Daqui a uns seis meses, seu Toninho já terá assumido seu novo posto, então passarei minhas ideias a ele.
Você vai queimar no inferno, mulato maldito!"
O senhor havia acordado do sono vespertino e, ao ver a esposa espreitando atrás da cortina, indagou:
- O que está olhando escondida?
- Uma cena maravilhosa. Quer ver?
- Fale que acredito em você - respondeu ele, espreguiçando--se na cama.
- Sua mãe e Antero estão abraçados; parecem estar se despedindo.
- Falei para aquele maldito não comentar com a minha mãe que estava indo embora.
Vou arrastá-lo ao curral e mandar que lhe dêem uma surra de chicote cru!
Mal terminou de falar e já estava de pé.
- Calma, amor, não sabemos se ele contou alguma coisa.
Pode estar se despedindo sem dizer nada.
Vamos aguardar.
- Graças a Deus esse maldito vai embora.
Não tenho mais paciência para lidar com as regalias dele em tirar proveito da minha mãe, que, além de velha, parece estar caducando.
- Coitada - penalizou-se falsamente a esposa.
Está velha sim, mas caducando, não.
Disso você pode ter certeza.
Tudo o que faz é bem pensado.
Nem preciso lhe dizer; você sabe o quanto ela despreza meus filhos e a mim.
Não esconde que o neto preferido dela é Antero.
Talvez, se a mãe dele estivesse aqui na fazenda, ela a traria para dentro de nossa casa.
Abraçando a esposa, o senhor pediu:
- Por favor, Helen, tenha calma.
Logo tudo estará resolvido.
Perdoe-me por fazê-la sofrer tanto.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 25, 2016 12:01 pm

Sei que não deveria ter mantido esse rapaz aqui, mas naquela ocasião foi a melhor opção.
Amanhã esse será um problema definitivamente resolvido em nossa vida.
Quanto a mamãe, espero que tenha um pouquinho mais de paciência; apenas dois meses e minha irmã vai nos ajudar, está bem?
Olha Helen, no fim deste ano, assim que fizer o fechamento do balanço das fazendas, faremos aquela viagem que lhe prometi.
E, com muito pesar no coração, vou permitir que nossos filhos voltem para a França, desde que continuem estudando.
Ficaremos apenas nós dois por aqui.
Será que vai conseguir me aguentar?
A esposa pulou de alegria, enquanto o abraçava e o beijava efusivamente no rosto.
Ficara tão eufórica que disparara quarto afora.
Ele sorriu e pensou:
"A felicidade dela é mais importante que os meus problemas".
O filho estava trancado no quarto.
Nos últimos tempos, vivia de mau humor.
Ele não suportava a fazenda e retornar ao Brasil fora o maior dos castigos.
A mãe o chamou, mas não obteve resposta.
Bateu à porta, e ele a abriu, a expressão sonolenta e denotando mau humor.
- Filho, tenho uma notícia maravilhosa para você.
Seu pai permitiu a partida de vocês para a França.
Naturalmente ficarão sobre a custódia de seus avós.
Não é maravilhoso, filho?
- Maravilhoso?!
Vou beijar seus pés e suas mãos!
Posso ir arrumando as malas?
Meu Deus, ficar livre desse cheiro de cavalos, desses negros fedorentos e sair dessa fornalha parecem-me um sonho.
E você, mamãe?
Vai continuar aqui neste inferno?
Não sente falta da fragrância de perfume, de ver gente como a gente?
Prefiro morrer a ter de voltar a esteja lugar amaldiçoado!
- Sinto muita falta da França...
Não podemos comparar Paris com o Brasil.
Seria comparar champanhe a cachaça.
Infelizmente, ainda tenho de me curvar diante do pesadelo que é viver neste país.
Tenho fé que um dia voltarei a viver longe desses horrores.
Vocês morando lá já abrem uma porta para mim.
Pelo menos duas vezes por ano sei que vou visitá-los e poderei aproveitar um pouco para respirar o ar da civilização - disse ela com um suspiro.
Você sabe meu filho, que meus pais perderam muito dinheiro, e eu, para não deixá-los na miséria, aceitei me casar com seu pai.
Fomos colegas no colégio, e confesso que as histórias dele me encantavam.
Quando me pediu em casamento, sonhei viver um conto de fadas no País das Maravilhas!
Meus pais obtiveram auxílio graças a ele; meu pai recuperou a vinícola, e assim se mantém até hoje.
Com expressão meditativa, prosseguiu conversando com o filho:
- Mas, quando cheguei aqui, a realidade foi outra.
Viver isolada da civilização, neste fim de mundo, sem amigos, sem o conforto a que estava acostumada...
Pensei que fosse enlouquecer.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 25, 2016 12:01 pm

Não posso negar que seu pai se desdobrou para me dar do bom e do melhor.
Mandava vir encomendas da França, como faz até hoje, para que pudesse suprir minhas necessidades, mas o lugar não ajuda, não é, filho?
O filho, ainda eufórico pela recente notícia, comentou:
- Também, o que podemos esperar dessa gente, se é que podemos considerar gente esse bando de índios e negros?
São ignorantes, sem classe, não têm noção do que seja civilização!
Ah, Paris... - suspirou o rapaz.
Mulheres lindas e perfumadas.
Meu Deus, quero ir embora agora!
Preciso ver gente.
Minha irmã já está sabendo?
- Ainda não.
Vim correndo lhe dar as boas-novas.
Vamos juntos contar a ela?
A moça, ouvindo as palavras da mãe, gritou de alegria:
- Graças a Deus! Graças a Deus!
Vou sair deste inferno!
Pensei até em me matar.
Não aguentava mais viver este pesadelo.
Quero ver gente, quero rever meus amigos.
Nunca mais quero voltar a esta terra amaldiçoada.
Sonho em comer um escargot, peixes regados a finos temperos, que só temos em Paris.
Sabe há quanto tempo não como um bom peixe, mamãe?
Não sei como suporta o cheiro desses peixes nojentos que papai traz para comer.
Só de pensar que estes negros fedidos tomam banho em um rio sujo onde também se pesca, meu estômago chega a revirar.
Quando vejo meu pai comendo os pescados com tanto gosto, peço licença e vou vomitar de nojo.
- Calma, filha, não fale assim perto de seu pai.
Ele adora tudo isso aqui.
Fiquem calados diante dele.
Não expressem o que pensam; façam como eu.
Se se rebelarem, seu pai pode mudar de ideia.
Falem que o tempo que ficaram aqui foi maravilhoso e que, estando na França, sempre vão visitar a vovó.
Comentei com vocês que ela partirá daqui nos próximos dois meses, não é?
E, depois de fazer o sinal da cruz, bateu os nós dos dedos na cómoda.
Nem sempre, meus filhos, podemos ser sinceros com quem amamos.
Não me culpo mais diante de Deus.
Ele sabe que, desde que cheguei aqui, minto para o pai de vocês, dizendo que estou feliz ao lado dele, mas nós três sabemos muito bem que quem nasceu em Paris jamais poderá encontrar a felicidade neste fim de mundo.
Daria tudo para voltar à França, mas temos um nome a zelar e uma fortuna que não podemos jogar fora.
Iríamos viver de quê?
Meus pais não estão mais nadando em dinheiro, e, entre sofrer no conforto ou viver na pobreza, prefiro sofrer no conforto.
E vocês?
- Nós também! Deus nos livre de viver na pobreza.
Não tenho dificuldade nenhuma em ser rico.
Mas teria problemas, sim, se ficasse pobre - constatou o rapaz.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 25, 2016 12:01 pm

- Então, quero ver os dois daqui a pouco descendo aquelas escadas sorrindo, abraçando e beijando o rosto de seu pai, e agradecendo-lhe na hora do jantar.
Vocês dois me farão um favor, uma coisa que nunca fizeram nem na presença, nem na ausência do pai de vocês - disse a mãe, encarando os dois.
- Lá vem pedra.
Pelo seu olhar, só pode ser algo relacionado àquela velha imbecil que fede tanto quanto os negros - falou a filha.
- Vocês vão abraçar a vovó na frente do papai e dizer que a amam muito, que sentirão falta dela.
Peçam perdão por não terem sido bons netos.
- Pelo amor de Deus, mamãe!
Não merecemos esse castigo - gritou o rapaz.
Não vou conseguir encostar a minha boca no rosto dela.
- Filho, não é castigo.
E apenas um sacrifício.
Todos temos de fazer algum quando desejamos alcançar algo bom na vida.
Seu pai vai ficar emocionado e, com certeza, a mesada de vocês dobrará.
O que acham?
Não valerá o sacrifício?
- Mamãe tem razão - concordou a moça.
Farei o que me pede, mesmo que depois tenha de ir correndo ao banheiro vomitar e lavar a boca.
- Beijar aquela velha antipática não será uma tarefa fácil, ainda mais se lembrar que ela beija aquele negro sujo.
Encostar minha boca no rosto dela vai me custar muito - desabafou o rapaz.
- Vamos, vamos lá.
Nada de cara feia hoje no jantar.
Quero vê-los sorrindo, alegres e agradecidos.
Façam de conta que não sabem de nada.
Vou lhes contar um segredo que o pai de vocês me contou:
a partir de amanhã não vamos mais ter o desprazer de dar de cara com aquele mulato imbecil.
- Por quê? Papai mandou matá-lo? - indagou o rapaz, ansioso por obter uma resposta afirmativa.
- O que é isso, menino?
Seu pai não mata nem um mosquito.
Imagine fazer algo ruim assim.
O mulato ficará durante cinco anos sob os cuidados dos padres que seu pai auxilia.
A moça, que até então apenas ouvira, manifestou-se:
- Ou seja, vai viver como tem vivido até hoje: na boa vida, como se fosse um de nós!
E não me espantará nada se essa velha gagá entregar tudo o que tem a ele.
Mamãe, você é uma santa!
Como pode ter suportado tudo isso durante esses anos todos?
- Calma, filha.
Quando seu pai se deitou com a mãe dele, era muito jovem.
Não pensava no que estava fazendo.
Foi em um período de férias, na ocasião em que esteve aqui para visitar a família.
Quando cheguei à fazenda, a negra já não pertencia à família.
Quanto à sua avó dar algo para o neto que tanto ama, não será possível.
Não fica nada nas mãos dela; disso eu me encarrego.
Seu pai é um homem sábio, e não toma certas decisões sem me pedir opinião.
Acham que facilito alguma coisa quando se trata de cuidar dos interesses de meus filhos?
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 25, 2016 12:02 pm

Fiquem aí traçando o plano de viagem de vocês que a mamãe vai conversar com o papai.
Confiem em mim: comportem-se como dois bons meninos diante da vovó e do papai.
Beijando os filhos, retirou-se.
Em seguida, os jovens ouviram uma batida à porta do quarto.
Era a criada, que levava as roupas perfumadas e engomadas da sinhá-menina.
Olhando para os irmãos que a observavam, perguntou a cabeça baixa:
- Posso arrumar seu armário, sinhazinha?
Sem prestar atenção à criada, a jovem respondeu bruscamente:
- Coloque estas porcarias aí!
E, voltando-se para o irmão, disse em voz alta:
- Se Deus quiser, em breve não colocarei mais nenhuma dessas peças no corpo.
Tudo aqui me dá nojo.
Tudo aqui cheira a estrume.
Veja só se essas são roupas de uma moça fina usar no dia a dia.
Pensei até em me matar, caso nosso pai resolvesse me arranjar um marido neste maldito lugar.
Não suporto o cheiro das águas desse rio.
As minhas roupas fedem.
E nosso pai come os peixes deste rio onde cavalos, bois e negros tomam banho!
- Calma, mana.
Logo, logo vai estar com os vestidos de seda e ouvirá o farfalhar do tecido ao tocar o solo dos salões iluminados e perfumados da nossa velha Paris, ao som de orquestras e na companhia de belos cavalheiros que a convidarão para dançar.
A mucama saiu discretamente.
"Ela não gosta daqui.
Até parece que eu gosto...
Tendo a vida que tem, já se sente assim.
Imagine se vivesse a nossa.
Será que vão viajar?
O senhorzinho disse que logo, logo ela estaria nos salões de festas.
Aqui é que não é.
Tomara Deus que viajem mesmo.
Dois a menos para tirar nosso sossego.
Sinhá ingrata!
Até dos peixes ela fala.
Não comem os peixes do rio porque têm nojo da gente.
Será que nessa tal de Paris os peixes usam perfume antes de sair da água?"
Tio Chico esbarrou com a moça, que resmungava sozinha.
- Que é isso, menina? Falando sozinha já nesta idade?
- Não tem ninguém nos ouvindo, então deixe lhe contar uma coisa.
E passou a narrar o que ouvira, sobre a possível partida dos dois jovens, por fim contando também o que escutara sobre os peixes e as águas do rio.
Tio Chico baixou a cabeça e respondeu com seriedade:
- Pois é, minha filha.
A sinhá não come peixes porque tem nojo dos negros e dos animais que se banham no rio.
Coitada dela se voltar de novo a esta mesma terra no tempo em que não haverá negros nem brancos tomando banho neste rio.
Os peixes que ela não quer comer hoje lhe farão muita falta amanhã, quando sentir fome e sede e não tiver água limpa para beber e sequer um peixe para matar a fome.
- Credo, tio Chico!
O senhor fala como se a sinhá-menina fosse se tornar uma de nós.
Quem nasce branco é afortunado, e nós, que somos negros, nascemos para servi-los de tudo que é jeito.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 25, 2016 12:02 pm

Não consigo me esquecer de uma coisa que ouvi a outra sinhá-velha que foi embora falando muitas vezes:
que os brancos são filhos de Deus; os negros são filhos do Diabo.
Que Deus é poderoso e rico, e o Diabo, pobre e fracassado.
Às vezes acho que ela tinha razão.
Apesar de os mais velhos dizerem que Deus gosta da gente, fico pensando:
se Ele gosta mesmo, por que não nos ajuda?
- Venha aqui.
Deixei eu lhe explicar uma coisa:
Deus não favorece um filho mais do que outro.
Se hoje estamos servindo aos brancos na pele, quem garante que, antes de sermos estes negros, não estávamos nos lugares dos que estamos servindo hoje?
Quando lhe disse que amanhã a sinhá poderá voltar e procurar por este caudaloso rio, não estava brincando.
Estou dizendo a você que não deixamos de existir porque morremos, e há uma grande chance de voltarmos em grupos de espíritos afins.
Quem poderá garantir que no futuro estas águas não vão estar limpas, correndo livres por este chão?
Já pensou se a sinhá voltar em uma época em que o rio estiver sujo, seco, sem peixes e cheirando a carniça?
- Ah, tio Chico, o senhor fala essas coisas só para animar a gente.
Já estou mais calma; vou cuidar dos meus afazeres.
Sua bênção, tio Chico!
A moça foi embora levando as roupas sujas da sinhá.
Tio Chico ficou observando e pensando:
"Queria tanto, minha filha, estar enganado..."
Lembrava-se do sonho no qual um amigo espiritual lhe mostrava o rio totalmente morto, sem vida, cheirando mal, com muitos abutres andando ao redor.
Nos museus, fotos desse mesmo rio, que antes era o centro de atenção e diversão dos nobres, mas que passara a ser apenas um espectro do que era antes.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 25, 2016 12:02 pm

Capítulo III - A partida de Antero
Após ter se despedido em silêncio da avó, Antero se trancou no barraco para chorar.
Tinha certeza de que jamais a veria de novo.
Sentiria muito a sua falta, cercado que era por tanto desprezo e pouco-caso por parte dos parentes de sangue e pelos irmãos de senzala.
A avó fora a única criatura branca que encostara os lábios em seu rosto para lhe dar um beijo; eram dela os únicos abraços verdadeiros que recebera de alguém de seu sangue naquela fazenda.
Jamais deixaria de amá-la.
Observou tudo ao redor.
Era a última noite naquele barraco, e algo lhe dizia que jamais voltaria a ver muita gente da fazenda outra vez.
Ali nascera, crescera e se apaixonara por Arlinda, que levava no ventre seu filho.
As lágrimas molhavam-lhe as vestes de saco.
O velho Chico bateu à porta e entrou sem esperar.
Vendo o estado lastimável do rapaz, ficou penalizado e se sentou perto dele, tocando-lhe o braço.
- Meu filho, a vontade de Deus é sempre melhor do que a nossa.
Anime-se e siga por essa nova estrada.
Vou sentir muito sua falta e nunca vou deixar de rezar por você, meu filho.
O negro velho dizia palavras bonitas e animadoras, que o rapaz ouvia de cabeça baixa.
Antero voltou-se para tio Chico com um olhar de desespero.
- Por que o senhor reza tanto para Jesus, que é protector dos brancos? - indagou.
Acha que Ele defende os negros?
Estou lhe perguntando isso porque sei que serei obrigado a rezar todos os dias com os padres.
- Filho, Jesus não tem cor.
Ele é como o sol:
ilumina o caminho de todos, dos justos e dos injustos, dos brancos e dos negros.
Ele é a luz do mundo e Nele podemos confiar.
Se a nossa sina parece ser triste, imagine sem a bondade Dele para nos sustentar as forças.
O que passamos nesta vida, Antero, não é nada senão consequência do que já fizemos em vidas passadas com outros irmãos.
- O senhor quer dizer que já fiz outras pessoas sofrerem?
Não acredito que já tenha feito isso! Não tenho maldade dentro de mim.
- Que bom, filho, hoje você se libertou desse laço.
Mas não significa que um dia não o tenha usado contra essas pessoas que hoje o cercam.
Passe a orar muito e a ter esperanças, peça sempre perdão a Deus pelos seus pecados e aceite com resignação as provações pelas quais tiver de passar.
Tio Chico continuou a dar bons conselhos e orientações ao rapaz que, por fim, rendeu-se à sabedoria do negro velho.
- Já arrumou suas coisinhas?
Não está esquecendo de nada?
Sempre é bom dar uma olhada; já não temos muitas coisas e, se fica algo para trás, faz falta.
Tio Chico abraçou o rapaz com lágrimas nos olhos, deu-lhe remédios para que levasse e fez mais recomendações.
- Vou procurar saber notícias suas, filho, pelo João da madeira.
Que Deus sempre o ampare e ajude por toda a vida.
Até um dia, se Deus quiser, Antero!
Neste mundo ou no outro, sempre recebemos boas oportunidades do Pai, e nunca vou esquecê-lo.
O rapaz ajoelhou-se aos pés do bondoso negro velho e, segurando-lhe nas pernas, falou:
- Pelo amor de Deus, perdoe-me por ter lhe causado tantos aborrecimentos.
O senhor foi pai, amigo e conselheiro.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Set 25, 2016 12:02 pm

Onde eu estiver, tio Chico, o senhor estará comigo em minhas melhores lembranças.
Faça chegar a Arlinda este recado, se puder:
eu a amo, e um dia vou procurar por ela e pelo meu filho.
Apesar das diferenças que os negros tinham com Antero, abateu-se entre eles um clima de tristeza.
Até mesmo os que o menosprezavam estavam tristes.
Nascera e crescera entre os negros; fazia parte da senzala.
Algumas mulheres foram ao barraco de Antero se despedir e se desculpar.
Ele ficou comovido; não esperava que tantas pessoas se importassem com um mulato.
Assim que se deitou, pôs-se a reflectir:
"Muitas vezes ficamos vendo coisas onde não existe nada.
Talvez me tratassem assim por minha culpa.
Não correspondi ao que esperavam de mim".
A noite parecia voar, e ele custava a dormir.
Mal fechou os olhos e foi acordado com uma pancada de facão e a voz do capataz:
- Levanta, mulato. Vamos lá!
Antero saltou da rede, pegou a mochila com os poucos pertences e, antes de sair, olhou ao redor, sentindo um aperto no coração.
Já montado no cavalo que o levaria ao colégio dos padres, viu vultos ocultos em frente dos barracões da senzala.
Eram pessoas que se importavam com ele.
Olhou para a casa azul e branca; nenhum sinal de vida.
Ali, porém, repousava uma santa.
Era sua avó, e dela levava saudades.
O sol estava alto quando chegaram ao colégio.
Antes de entregar Antero aos cuidados dos padres, o capataz virou-se para o rapaz e comentou:
- Não pense que se livrou de mim. Estarei aqui toda semana.
Atreva-se a dar uma de rapaz fino e verá o que lhe acontecerá.
Ainda tenho uma questão para resolver com você: Arlinda.
Mas disso cuidarei mais adiante, não tenho pressa.
Antero desceu e foi recebido por um padre que não lhe deu sequer um sorriso, tampouco demonstrou alegria em recebê-lo; apenas o conduziu a um dormitório comprido e lhe apontou uma cama.
- Esta será a sua.
Ficará aqui com outros rapazes.
Não admitimos intrigas nem brigas com nenhum interno.
Se se portar como manda o regulamento, vai se dar muito bem.
Mas, se não obedecer, vai se arrepender pelo resto de seus dias.
Os outros internos estão nas hortas trabalhando.
Amanhã você vai acompanhá-los nas muitas tarefas que temos por aqui, e a noite terá aulas.
Essa é a rotina do colégio.
Aguarde aqui até a chamada do almoço. Então você receberá também as instruções de comportamento dentro do colégio.
A sós no dormitório, Antero riu sozinho.
Dormir em uma cama? Coisa que nunca fizera na vida!
Será que se acostumaria?
Receou sentar-se na cama e manteve-se imóvel, em pé, investigando os arredores.
Era tudo muito bonito.
O tempo parecia não passar.
Estava cansado de esperar e não ouvia ninguém falando, só canto de pássaros.
De repente, escutou diversas vozes e, ansioso, aguardou para saber quem seriam seus companheiros.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 26, 2016 10:06 am

Eles entraram. Todos vestiam roupas idênticas.
Um deles encarou Antero e disse aos outros:
- Vejam só quem teremos como companheiro de quarto!
Um sujeito que não é branco nem preto.
Um mulato! Nem precisamos perguntar para saber que é um filho enjeitado.
- E, aproximando-se, prosseguiu:
- E o seguinte, mulato: dê uma olhada à sua volta.
Tem mais mulatos que negros por aqui.
Se for gente boa e colaborar com o nosso trabalho, encontrou sua família.
Se nos trair, será carta fora do baralho, entendeu? Essa é nossa lei.
Antero ficou parado, só os observando.
Não conseguia se mover.
De repente, sentiu medo dos companheiros.
- O que foi? Está com medo do quê?
Coloca essa sua mochila naquela tábua ali na parede.
Eles chamam isso de prateleiras...
Coloque as coisas sempre no mesmo lugar, não toque em nada que não lhe pertença e não suje o quarto.
Aqui fazemos tudo:
lavamos nossas roupas, plantamos o que comer, criamos galinhas para ter ovos e carne, e também criamos porcos e ovelhas.
Cozinhamos, limpamos, plantamos e colhemos, entendeu?
Cada semana é feita uma escala.
São os padres que fazem; eles chamam isso de trabalhar em equipe.
A gente se reveza nas tarefas, mas todos participam dos trabalhos gerais do colégio.
Cada semana estamos em um local diferente.
Logo todos o observavam com curiosidade.
O rapaz que lhe dirigiu a palavra foi apresentando cada membro, falando os respectivos nomes.
O dele era António Bento.
Antero simpatizou com o rapaz e compreendeu que ele era o líder.
Inteligente, sabia comandar.
- Vamos ao refeitório - convidou António Bento.
Vá prestando atenção no que os outros fazem assim você não erra.
Antes de deixarem o aposento, ele ainda comentou:
- Não se esqueça de uma coisa:
trocamos os antigos senhores por novos senhores; aqui devemos obedecer fielmente aos padres e trabalharmos muito para que eles próprios possam ter boa vida.
- Sim, senhor - respondeu Antero.
- Presta atenção, rapaz:
aqui, entre nós, não nos tratamos por senhor.
Procuramos ser iguais.
Chega de senhores.
A única coisa que respeitamos é a capacidade de cada um.
Não temos traidores em nosso grupo.
Avisamos aos novatos porque temos nossas leis aqui no colégio.
Obedecemos às ordens dos padres e obedecemos às nossas também, entendeu?
Uma semana depois Antero já estava se engajando com os companheiros.
Descobriu que entre eles muitos já sabiam ler e escrever, e tinham contacto com negros, mulatos e brancos, que trabalhavam juntos no que chamavam Leis e Direitos dos Escravos.
António Bento quis conhecer a história de Antero.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 26, 2016 10:06 am

Ouviu calado, a cabeça baixa, e então comentou:
- A história é sempre a mesma.
Por isso sonhamos em mudá-la, Antero.
Você já ouviu falar na Lei do Ventre Livre?
- Não, não sei o que é isso - tornou o rapaz.
- Hoje à noite vamos nos reunir e você vai ficar sabendo o que ainda não chegou às senzalas.
E, se nossa organização não cair em cima e fizer pressão, esse benefício jamais alcançará os escravos das fazendas.
De que adianta brancos bem-intencionados assinarem leis se os negros nunca ficam conhecendo?
Está entendendo qual é nosso objectivo?
Seu filho vai nascer e você precisa conhecer os direitos dele.
Pelo que soube, mesmo a mãe sendo livre, isso não impede que seu senhor tire a criança dela.
Graças a essa lei, as crianças nascerão livres, mas em termos, porque a lei prevê que a criança permaneça no sistema de escravidão nas fazendas dos senhores até vinte e um anos.
Depois, serão entregues ao governo.
Sinceramente, não sei o que é pior:
escravo do senhor ou do estado.
Nasceu uma grande amizade entre Antero e António Bento.
Em pouco tempo, Antero já era considerado um dos melhores alunos do colégio.
Na ânsia de ler e escrever, não perdia um minuto do pouco tempo livre.
Vivia com um caderno debaixo do braço.
João da madeira transmitia todas as informações que sabia.
Parecia um negro tolo, vivia calado e sisudo na fazenda, porém, quando se encontrava com António Bento e seu grupo, transformava-se em outra pessoa.
João informou a António Bento os nomes das mães que haviam dado à luz nas fazendas com as quais tivera contacto, e o amigo de Antero anotou tudo.
João, enquanto transportava lenha, colhia informações pelas estradas.
Os homens brancos vinham trazer donativos aos padres e se confessar.
Enquanto os padres ficavam trancados nos confessionários, mulatos, negros e brancos bem-intencionados trocavam informações e traçavam planos.
António Bento às vezes cochichava com alguns homens brancos que faziam parte do movimento.
Pedia que inventassem diversos pecados para prender os padres em confissão.
Eles eram vaidosos, adoravam ouvir os segredos dos coronéis, para depois tirar proveito do sigilo do segredo.
Entre eles havia dois padres, um italiano e um francês, que também lutavam pelos direitos dos negros.
Sempre ficavam de vigia, enquanto os outros disputavam entre si os pecadores que traziam dinheiro nos bolsos.
Um mês e poucos dias depois que Antero estava no colégio, encontrava-se trabalhando na horta, quando percebeu um corre-corre danado no colégio.
O que teria acontecido?
Pelo comportamento dos padres, deveria ser algo muito grave.
Frei Gregório saiu às pressas, acompanhado dos padres e de dois negros que tinham vindo buscá-lo.
- Será que algum senhor importante está à beira da morte?
Ou já morreu? - sugeriu António Bento.
- Vamos esperar que deixem o colégio.
Você, Zé Luís, pegue a cabaça e vá buscar água fresca.
Diga que o sol esquentou muito e não dá para beber a água.
Procure se informar sobre o que aconteceu.
Vamos ficar aqui fingindo que não estamos preocupados e não notamos nada.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 26, 2016 10:07 am

Não demorou muito, o rapaz voltou pálido.
- O que aconteceu, Zé?
Fala logo, homem!
- Armaram uma emboscada e acertaram o juiz, o irmão dele e todos os que estavam junto.
A cidade está de pernas para o alto.
Parece que estão chegando autoridades de outros estados.
Negros, mulatos e brancos que defendem nossas causas estão exigindo que se apure o caso e que os culpados sejam apresentados à justiça.
- Mataram o juiz? - repetiu António Bento, revoltado.
- Pelo que ouvi, morreram todos.
- Fiquem cada um em seu posto.
Vou falar com o padre António.
Quero saber o que de fato aconteceu.
Logo que tiver informações, trago para vocês.
O padre, que era um dos membros do movimento em prol da liberdade dos negros, informou a António Bento que não sabiam exactamente se todos haviam sido mortos; só teriam certeza quando frei Gregório retornasse da cidade.
Deveriam aguardar ao menos que viesse alguém do grupo trazendo notícias confiáveis.
No fim da tarde, tomavam banho quando ouviram o galope de um cavalo.
Era um dos membros que fazia parte do grupo e viera trazer sabão, pó de café e biscoitos de tapioca para os padres.
Na verdade, viera mesmo era trazer as notícias que todos desejavam saber:
o juiz estava vivo ou morto?
O irmão do juiz estava morto, e também três pessoas que o acompanhavam.
O juiz estava em estado grave, mas vivo.
Viera um médico de outro estado para ajudar na cirurgia, porque ele tinha perdido muito sangue.
Antero deixou pender a cabeça.
- Meu Deus!
Como ficará Arlinda e sua família?
E meu filho, que está prestes a nascer?
António Bento manteve-se em silêncio e afastou-se do grupo sem dizer uma palavra.
Entrou no dormitório, sentou-se na cama e deixou o olhar se perder no chão.
Naquele momento tomava uma grande e definitiva decisão:
pediria apoio ao grupo e faria o que precisava ser feito.
Não seriam os primeiros mulatos a serem mortos porque haviam assumido um posto que até então era ocupado por um branco.
Naquela noite, após as aulas, reuniu-se com todos os negros e mulatos do colégio.
Apresentou seus planos e, quando terminou, comentou:
- Levante a mão quem quiser me seguir, e não fiquem constrangidos os que não estiverem prontos para deixar o colégio.
Podem ficar, contanto que não revelem nosso plano.
Todos levantaram a mão sem pestanejar.
- Muito bem, arrumem as coisas de vocês que partiremos esta madrugada.
Nosso destino será cruzar o rio.
Chegando lá, receberemos o apoio de que precisamos para nos estabelecermos no local.
Há um velho coronel que está do nosso lado e muitos ex-feitores e ex-escravos que defendem nossa causa.
É necessário que todos estejam conscientes do que estão fazendo.
Levaremos cerca de três dias para alcançar nosso destino, e, se porventura qualquer um de nós for pego, que morra pela causa e não entregue o grupo.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 26, 2016 10:07 am

Nossa honra e nossa causa são pelo povo, e não por nós em particular.
Morrerei se assim for necessário para salvá-los e espero que cada um tenha certeza do que está fazendo.
Não estou deixando o colégio pensando em minha liberdade, mas sim na liberdade futura para todos.
Os padres não enviaram nenhum comunicado sobre a fuga dos internos.
Não havia como mandar a notícia, porque não haviam sobrado nem negros, nem mulatos.
Todos haviam fugido, e com a ajuda deles, que rezavam a Nossa Senhora das Graças para que não permitisse que o frei ou os outros padres voltassem naquele dia.
António Bento, com a ajuda dos padres, foi atravessando lugares que lhe eram indicados, até chegar à aldeia dos índios, que logo se prontificaram a ajudá-los na travessia do rio com rápidas canoas.
Dois dias depois, quando o frei chegou ao colégio e deparou com a situação, não suportou e desfaleceu, sendo amparado pelos padres, que o conduziram ao leito.
Recobrando a consciência, queria saber de cada detalhe.
Os padres relataram a história que haviam combinado entre si:
que os internos haviam fugido naquela madrugada; não poderiam estar longe dali.
O frei ordenou que os negros que o acompanhavam fossem às fazendas próximas que tivessem negros e mulatos, e pedissem ajuda no sentido de formar um mutirão para recapturar os fugitivos.
Alguns padres se prontificaram a ir junto, até mesmo padre António e padre Joseh, que haviam facilitado a fuga.
O frei agonizava, perguntando-se:
- Como vamos sobreviver sem os negros e os mulatos?
Antes não tivesse dado ouvidos ao conselho de que esse era um bom negócio para todos, inclusive para Deus!
- Tome seu chá, frei.
Se Deus quiser, logo, logo teremos todos de volta.
Precisamos depois é pensar em mais segurança para mantê-los aqui dentro.
Os fazendeiros vão nos ajudar a recapturar cada um deles; é mais interesse dos coronéis do que nosso.
- Deus o ouça, meu filho.
Deus o ouça - respondeu o frei.
Dois padres conversavam entre si.
Um deles perguntou ao outro:
- Você confia em nossos irmãos António e Joseh?
- Nem um pouco.
Ainda bem que você também já percebeu.
Não quis falar nada ao frei para não dar a entender que estou com ciúme.
Os dois vão muito à cidade e andam em tudo que é fazenda.
O frei os tem nas alturas do céu.
A maioria dos negros e mulatos internos foram eles que negociaram com os fazendeiros.
Posso estar cometendo um pecado diante do Pai, mas já me passou pela cabeça que estão envolvidos com os movimentos.
- Pelo amor de Deus! - O outro padre fez o sinal da cruz antes de prosseguir.
Seria uma heresia contra a igreja!
Seriam capazes de tamanha traição?
- Desejo fervorosamente estar enganado.
Mas ninguém me tira da cabeça que estão envolvidos nesta história.
Precisamos ficar de olho neles dois.
Vamos dar um jeito de pedir ao frei para um de nós sempre acompanhá-los nas missões em campo.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 26, 2016 10:07 am

Os dois gozam de muito prestígio com o frei por trazerem fartos recursos ao colégio, mas, por trás dos recursos, pode haver outros interesses.
- Você está certo. Devemos ficar de olhos abertos. Há alguma coisa errada com aqueles dois.
Se estivessem tão preocupados, um deles não poderia ter ido levar a notícia ao coronel mais próximo, que pediria ajuda aos demais?
Esperaram pelo frei para tomar uma decisão?
Vou apresentar este ponto na reunião desta noite.
Quero pegá-los de surpresa.
Os padres retornaram com os negros contratados, que também torciam pelos fugitivos e lamentavam não terem ido com eles.
Enquanto retiravam as botas, eram observados pelos outros dois padres que estavam desconfiados.
Aproximando-se deles, um dos padres perguntou:
- E então, irmãos, conseguiram informar os fazendeiros?
Eles vão nos ajudar na recaptura?
- Fiquem tranquilos.
Vamos tranquilizar o frei também.
Todos os fazendeiros das redondezas estão sabendo da fuga dos internos do colégio.
Eles não estão longe.
Para sair desta terra por qualquer lado, têm de atravessar o rio, e os coronéis já estão montando esquemas para trazê-los de volta.
Pedi que não os maltratassem.
Queremos todos com saúde.
O frei, ao ver os padres, alçou as mãos para o alto, aflito.
- E então, meus filhos?
- Fique calmo, frei. Descanse.
Acreditamos que amanhã os fugitivos já tenham retornado ao colégio.
Pedimos aos fazendeiros que não machuquem os rapazes.
Devemos estudar uma maneira de lhes oferecer algo para que se sintam bem aqui dentro e não sejam atraídos pelo desejo de fuga.
- O que me sugerem filhos?
- Que tal um campo para jogarem bola?
E se permitirmos que façam capoeira, levantamento de peso, desportos em geral?
Poderíamos construir uma piscina natural; o rio está próximo.
Vamos promover campeonatos entre eles com prémios, isso poderá estimulá-los e divertirá a todos.
- Obrigado, meus filhos.
Sempre têm essas ideias abençoadas por Deus!
Não sei o que seria de nós sem os queridos padres por aqui.
Estou mais tranquilo agora.
Sei que posso confiar em vocês.
Vão pensando em tudo isso.
Façam o projecto e partiremos para buscar os recursos.
Os dois padres, que haviam acompanhado toda a conversa, entreolharam-se.
Antes de deixarem o quarto, um deles dirigiu-se ao frei.
- O senhor me consente acompanhar meus irmãos nesses projectos?
Desejo acompanhá-los nessa nobre missão.
Admiro a competência deles, e quero aprender um pouco mais.
O outro se aproximou e completou:
- Faço das palavras do irmão minhas palavras.
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