Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 26, 2016 10:07 am

O frei, entre emocionado e orgulhoso, tornou:
- Se os padres não se importarem, da minha parte afirmo que só podemos ganhar se vocês também desenvolverem esses trabalhos de campo.
Estendendo a mão para o padre António, um dos padres desconfiados, ironicamente, perguntou:
- Sou aceito como seu aprendiz?
- Será uma honra tê-lo connosco, não é, irmão Joseh? - comentou, olhando para o outro padre, que parecia indignado.
- Ah, sim.
Se até o frei reconhece que somos bons, imagine agora que dobramos em número.
No pátio, as duplas se separaram.
- Você enlouqueceu?
Como vamos trabalhar com estes dois do nosso lado?
São duas raposas velhas e desconfiadas.
Estamos em um mato sem cachorro - comentou o padre Joseh.
- Calma, padre! Mas que homem de pouca fé! Acha mesmo que esses dois têm raça para nos acompanhar?
Na primeira saída com eles adentraremos regiões pedregosas.
Vamos ver se aguentam o que para nós é café-pequeno.
- Notei que os dois trocavam olhares - afirmou padre Joseh.
Precisamos tomar certos cuidados quanto a nossa postura aqui no colégio. Vamos nos separar um pouco.
Eles não são tolos; estão de olho na gente.
Acredite no que estou falando.
Vamos esperar as alfinetadas de hoje à noite à mesa de reunião. Aja de maneira calma, natural e tranquila - aconselhou padre António.
Enquanto isso, a outra dupla traçava um plano:
- A partir de amanhã, qualquer saída dos dois, um de nós estará colado neles.
Olhos e ouvidos bem abertos, mas não podemos deixar transparecer nossa intenção.
No silêncio do colégio só se ouviam as palavras dos padres, que ecoavam pelas paredes, ficando o som aprisionado na sala.
O frei falou sobre o infeliz acontecimento que havia tirado vidas de pessoas inocentes, comentando que o juiz estava entre a vida e a morte, nas mãos de Deus.
A Lei do Ventre Livre, assinada pelo barão do Rio Branco, causava polémica.
As pressões aumentavam de norte a sul do país.
Os fazendeiros não queriam abrir mão dos direitos sobre os escravos, e uma guerra fora declarada.
Os negros que haviam retornado da Guerra do Paraguai cobravam as cartas de alforria para si e a família; os fazendeiros, que haviam lhes prometido liberdade, agora não queriam cumprir a promessa, e a revolta era grande dentro das senzalas.
A produção caíra de tal forma que o prejuízo era irreparável.
Os castigos não amedrontavam mais os escravos.
Os indígenas ajudavam os fugitivos a atravessar as fronteiras do Brasil.
Diversos escravos estavam sendo levados de um lado a outro por trilhas só conhecidas pelos índios.
Para piorar a situação dos coronéis, muitos ex-capatazes e capitães do mato escondiam negros fugitivos na própria propriedade ou facilitavam a fuga deles.
O frei ponderou pensativo, que a situação era grave.
O trabalho deles era disseminar a palavra de Deus, mas nem por isso estavam isentos de serem atacados pelos movimentos que corriam como água de norte a sul.
A fuga de todos os internos de uma só vez mostrava que haviam sido atingidos.
O frei parecia abatido e preocupado.
Na sala de reunião, o clima entre os padres era tenso. Um dos padres da dupla que suspeitava de padre António e de padre Joseh, pedindo licença, levantou a mão para falar.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 26, 2016 10:08 am

- Não entendi por que padre António e padre Joseh, tão acostumados a se embrenhar a cavalo por essas matas, não foram buscar ajuda imediata nas fazendas próximas ao colégio, esperando que o frei chegasse para só então tomar uma acção.
O frei cocou a barba, encarando os padres e também se questionando a respeito.
Padre António não demonstrava nenhum embaraço ao responder:
- Para conhecimento de todos, vou responder ao irmão o que já sabia e que tornei a ouvir de todos os fazendeiros que visitamos hoje:
quando há fugas de madrugada, não adianta correr atrás dos fugitivos durante o dia, pois estarão bem escondidos.
Com certeza entre eles há algum que conhece um local seguro para passar o dia.
Só vão sair à noite, para tentar atravessar a mata ou o rio, e essas regiões os caçadores de escravos conhecem como a palma da mão.
Para seu governo, irmão, não sei se reparou, mas estávamos com dois cavalos selados para viagem.
Caso até depois do meio-dia o frei não retornasse, iríamos às fazendas, mesmo correndo o risco de sairmos do colégio.
Como em outras fugas que aconteceram por aí, às vezes os negros saem e ficam escondidos no caminho.
Quando alguém sai em busca de ajuda, é morto.
Essa é a estratégia deles, é a única chance de não serem recapturados.
O irmão tem mais alguma dúvida sobre nossas intenções?
Todos os outros padres, até mesmo o frei, que soltara um profundo suspiro ao ouvir a explicação sincera de padre António, encararam o inquiridor com ar de desaprovação.
- Perdoe-me, padre - justificou-se o outro, olhando de soslaio para o amigo e cúmplice.
Confesso que desconhecia esse facto.
- Irmãos, esse clima de desarmonia que se desenvolve fora do colégio não deve fazer parte de nossa vida.
Nossa missão é salvar vidas, e não julgar pessoas - tornou o padre António.
Os padres aplaudiram.
Terminada a reunião, o frei agradeceu a todos, abençoando--os e lhes desejando uma noite com Cristo.
Os dois amigos pararam a um canto e falaram baixinho:
- Aqueles dois se saíram bem!
Mas na hora certa os pegaremos com a boca na botija.
A notícia chegou à casa azul e branca como uma bomba.
Não demorou para que capatazes, capitães do mato e cães farejadores, sob o comando de seu Toninho, saíssem para se juntar aos grupos de outras fazendas em busca dos fugitivos.
O capataz Toninho já tinha tomado uma decisão:
Antero voltaria em uma rede.
"Quero ter o prazer de acabar com aquele mulato sem-vergonha e atrevido!
Quando falo que essas pragas de mulatos machos deveriam ser eliminados ao nascer, não me dão ouvidos.
Mais uma vez, a prova está aí!
Estou com toda a razão.
Não precisávamos passar por todo esse desconforto no meio do mato, cansando os cães, por causa de um bando de vagabundos."
Tio Chico estava sentado em um toco, fazendo sua oração de olhos fechados, e não percebeu a chegada de Toninho, que agora era o chefe da guarnição da fazenda.
- Está dormindo, negro velho?
Não tem mais nada para fazer?
Sua vida está boa demais.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 26, 2016 10:08 am

Preciso arranjar alguma coisa para preencher seu tempo.
Não quero nenhum negro cochilando por aqui como se fosse rei!
Vá apanhar o que tiver para picada de insectos.
Por causa de seu protegido, passarei a noite no mato.
O negro velho saiu se arrastando.
Já não conseguia andar em passadas rápidas como antigamente.
Voltou com os remédios e os entregou ao capataz.
- Esse aqui é para passar antes de entrar no mato, porque espanta os mosquitos.
E esse aqui é para o caso de ser picado.
O capataz arrancou com rudeza os remédios da mão do velho, sem sequer olhá-lo.
Virou as costas e saiu galopando seu belo animal.
A sinhá-moça estava nervosa.
Confiava em Toninho, e ele lhe prometera que não voltaria sem Antero.
Ela pediu que o levasse directo ao colégio; que não aparecesse com ele na fazenda.
Só desejava se certificar de que aquele mulato jamais fosse um empecilho em sua vida.
O senhor estava enfurecido.
Dera ordens aos feitores para agir como deveria ser feito.
Que não poupassem Antero, se assim fosse preciso.
Onde já se viu um mulato desavergonhado daqueles!
Colocara-o em um colégio, onde tinha a chance de viver o resto da vida em paz, se soubesse aproveitar, mas não...
Resolvera fugir para desafiá-lo.
Pois bem; seria recapturado e ele em pessoa iria ao colégio dar-lhe uma surra.
E autorizaria ao frei colocar grilhões em seus pés para dormir, até que descobrisse o que era obedecer.
A sinhá-velha, vendo todo aquele movimento, queria porque queria saber o que estava acontecendo.
Com a partida do neto, ficara muito abatida.
Vivia cabisbaixa, com os olhos lacrimejantes.
O filho lhe garantira e chegara a jurar que havia enviado Antero ao colégio dos padres.
Ao mesmo tempo em que se alegrava por saber que ele tinha uma chance de construir uma vida digna, sentia sua falta, pois era a única pessoa da família que lhe devotava amor.
A sinhá-velha insistiu:
- Por favor, falem-me o que está acontecendo.
A neta, que não suportava mais a ansiedade e o interesse da avó, berrou:
- Seu querido Antero fugiu do colégio e agora está sendo procurado.
Tomara que seja aberto ao meio pelos cães.
Rezarei para que morra.
A sinhá-velha pôs a mão no coração e tentava estender a mão para a neta, que lhe virou as costas e deixou a sala.
A criada a amparou.
A velha senhora não conseguia respirar, e a escrava gritou por socorro.
Por fim, a nora chegou e instruiu que a levassem ao quarto.
Em seguida, a sinhá-moça quis saber o que havia acontecido, e a criada relatou o que ouvira.
- Se o senhor perguntar, você não escutou nada, entendeu? - a sinhá-moça ordenou com rispidez.
- Sim, senhora.
O filho chegou e, ao deparar com a mãe naquele estado, perguntou o que tinha ocorrido.
- Não sabemos, amor. A criada disse que foi de repente.
- Chamem já o Chico aqui - gritou ele. - E mandem buscar o médico imediatamente.
A criada saiu correndo para atender à ordem do senhor, e a sinhá-moça, deixando o quarto da sogra, encontrou a filha, que lhe fez um beicinho.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 26, 2016 10:08 am

A mãe a arrastou a um canto.
- Pedi que se comportasse - disse-lhe.
Falta apenas uma semana para você viajar.
E agora se sua avó morrer?
Vai ter de esperar quarenta dias de luto para poder sair.
- Então a senhora acha que vou me vestir de preto por causa dessa velha imbecil?
Quero mesmo que morra.
Ninguém vai me impedir de ir embora desse inferno.
A senhora também teve culpa quando aceitou ficar com esse trambolho.
- Fale baixo!
Seu pai pode ouvi-la.
Vá para o quarto e não saia de lá.
Já passou das contas por hoje.
Não compreende o esforço que faço por vocês!
A moça saiu resmungando e falando alto:
- E vou ter de esperar ainda uma semana...
Não aguento mais isso aqui.
O velho Chico chegou às pressas, andando o mais rápido que as pernas lhe permitiam.
- Trouxe os remédios, Chico? - indagou o senhor, ao vê-lo chegando.
- Sim, senhor. Está tudo aqui.
- Veja se ajuda minha mãe.
O que acha que ela tem? - perguntou o senhor, acompanhando o que o negro velho fazia.
- Não posso responder ainda, senhor.
Só depois que os remédios forem aplicados.
Dependendo da reacção, aí posso dizer o que foi.
- Então, vamos. Faça o que precisa se feito - ordenou.
Vou esperar na sala, e quero bons resultados.
O velho Chico pegou uma colher do remédio que preparava para estas ocasiões difíceis.
Havia aprendido com os mais velhos alguns segredos de cura e, quando precisava, utilizava.
Raspara o nervo seco da pata de um veado macho.
Pedia aos caçadores, que eram os capatazes, patas, chifres e outras partes do corpo de alguns animais que, para quem os caçava, não tinham nenhuma serventia, mas que para ele eram relíquias.
Guardava essas partes como remédio para curar quem precisava.
Pediu auxílio à criada e, com muito sacrifício, fez a sinhá engolir o que havia misturado com o pó.
A criada sustentava a sinhá, e o velho Chico, com seus conhecimentos, pressionava os pontos certos dos nervos da sinhá.
Mais de meia hora de luta, e a sinhá se acalmou, relaxando.
Parou de convulsionar.
Parecia cansada, e fitou o velho Chico com um olhar cheio de agradecimento.
O negro velho pediu à criada que fosse chamar o senhor.
A sinhá estava melhor, mas precisava de descanso e cuidados especiais.
O senhor, entrando no quarto e vendo a mãe relaxada e tranquila, suspirou aliviado.
- A senhora está bem, mamãe?
Não precisa falar.
Só pisque os olhos para mim se estiver se sentindo bem.
A velha senhora desviou o olhar para tio Chico e, em seguida, fitou o filho.
Balançou a cabeça em afirmativa, dizendo em voz baixa:
- Graças a Deus e à ajuda do velho Chico, posso respirar.
Desejo dormir um pouco; sinto sono.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 26, 2016 10:08 am

O senhor virou-se para o escravo e perguntou:
- O que foi que aconteceu com minha mãe, velho Chico?
- Ela tomou um choque, senhor.
Na idade dela é muito perigoso.
Já não aguenta mais choque assim.
- Pode ir, Chico.
Se precisar, mando chamá-lo de novo - disse o senhor, observando a mãe que, pálida, ainda o encarava.
O coração do senhor apertou; sentiu pena da mãe.
Será que alguém tivera coragem de lhe contar sobre Antero?
"Se algum negro deu com a língua nos dentes perto dela, vai dormir no curral", pensou.
Deu ordens à criada para que não saísse do quarto.
Ao sinal de qualquer problema, ela deveria chamá-lo.
Dirigiu-se à varanda, onde estavam sentados os dois filhos e a esposa, tomando suco de manga.
Ao avistar o marido, a sinhá-moça se levantou e veio a seu encontro.
- E então, como está minha sogra?
- Não sei o que este negro velho faz...
Os remédios dele curam todo mundo. E um escravo de muito valor.
Minha mãe está dormindo, agora relaxada.
Você viu como estava toda retorcida?
Segundo o negro velho, ela deve ter recebido um choque para ficar naquele estado.
Alguém aqui sabe de alguma coisa?
Ela ficou sabendo da fuga de Antero?
A filha, com o copo de suco quase à boca, interrompeu:
- Eu sei.
- O que você sabe? Pode me contar?
- As negras que estavam escolhendo feijão no alpendre falavam sobre a fuga.
Eu mesma ouvi.
Minha avó ficou escondida, só ouvindo o que diziam.
O senhor me perdoe, não é por maldade o que vou lhe dizer, mas minha avó ultimamente vive se ocultando para ouvir conversas aqui e ali.
Não sei se é a idade, mas deu para fazer isso agora.
- Helen, você tem percebido isso também, ou é implicância de nossa filha com a avó?
- Não é implicância.
Sua mãe anda estranha nos últimos dias.
Vai à senzala e fica de conversa com as negras.
Não queria lhe contar para não lhe causar aborrecimentos, mas ela anda tirando coisas da casa e levando à senzala.
Talvez não ande bem de saúde.
Quem sabe, com a vinda do médico, ele possa lhe receitar um calmante.
O senhor sentou-se e ficou em silêncio.
A filha pegou um copo de suco e lhe entregou.
- Não minto para o meu pai.
Seja lá o que for, vou sempre lhe falar a verdade.
Magoou-me o senhor duvidar de mim.
Ele puxou a mão dela e lhe beijou o rosto.
- Filhinha amada, aja sempre assim com o seu papai.
Não quero que me esconda nada!
Seja lá o que for sempre me conte.
Desculpa o papai?
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 26, 2016 10:09 am

Vou lhe dar um presente.
O que você quer?
- Quero aquela pulseira que o senhor guarda com tanto zelo, a pulseira de pedras da vovó.
Vou usar com cuidado, e prometo lembrar com amor de minha avó toda vez que a usar.
Se não fosse por ela, você não existiria, nem eu.
- Está certo.
Vou dá-la à minha filhinha.
Você merece. Desviando o olhar para o filho, que exibia uma expressão de genuíno espanto diante da audácia da irmã, o pai comentou:
- E você, filho, que está aí calado nesse canto, procure seguir o exemplo de sua irmã.
Por que da sua boca nunca ouço nada?
- O que poderia lhe dizer, papai?
Não me envolvo com negros, não fico por aí prestando atenção ao que não me interessa, portanto, não tenho nenhum assunto para conversar com o senhor.
Acredito que, quando estiver em Paris, terei muito que falar.
Prometo que tentarei ser igual à minha irmãzinha.
Mas uma coisa é certa:
também sou sincero e corajoso.
- Vocês viajam a semana que vem.
Já estão arrumando as malas?
- Estou com tudo arrumado.
Só preciso, de fato, partir -tornou o rapaz.
- E em Paris vocês dois ficarão sob a custódia de seus avós maternos.
Tratem de obedecê-los e se comportarem como dois jovens de família, como de fato são.
Vou mandar quantia suficiente para se manterem e, assim que a minha mãe chegar lá, devem visitá-la toda semana, combinado?
- Sim, senhor.
Prometo que faremos isso.
Vou e arrasto meu irmão.
Apesar de um tanto rabugenta, adoro a minha avó.
O senhor sabe disso, não é? - indagou a jovem, fingindo uma docilidade e ternura que passavam longe de seu jeito de ser.
No barracão, o velho Chico comentou com as mulheres mais velhas o que havia ouvido da criada a respeito das palavras da sinhá-menina para com a avó.
Aquela sinhazinha tinha um coração frio; era muito ruim tanto com negros quanto com brancos.
Por causa das intrigas dela, diversos negros haviam recebido castigos perversos sem merecer.
Zulmira lembrou-se do castigo do negro Adelson, que o senhor trocara por um cachorro.
- Por onde será que anda este negro?
Com certeza foi colocado para desenvolver a pior tarefa da fazenda.
A sinhá-menina contou ao senhor que estava tomando banho e o negro foi espiá-la pela janela.
Fez isso só porque o coitado se recusou a levar um recado falso para a avó. O senhor mandou chicotear o negro até desfalecer.
Quando o tiraram do castigo, o pobre ficou oito dias entre a vida e a morte.
Ao voltar a si, chegou a cuspir sangue.
Se não fossem os remédios do velho Chico, teria morrido.
Quando o negro se pôs de pé, o senhor, na frente de todos os negros, trocou-o por um cachorro, e a sinhá-menina ficou na janela, olhando a cena com ar de riso.
O velho Chico acrescentou:
- Quem somos nós para entender esses filhos de Deus?
negro se revolta porque é preto; o branco se revolta tanto quanto o negro. Dá para entender?
- Minha gente - disse Zulmira -, as coisas estão se tornando mais difíceis a cada dia que passa, e vocês, que são novos, vão durar mais do que eu.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 26, 2016 10:09 am

Tratem de instruir esses meninos, porque senão teremos dias bem piores.
Não sabemos nada ainda dessa lei nova que dizem favorecer os que vão nascer daqui para frente.
Pelo que ouvi falar, os negros ficarão vinte e um anos com o senhor ou serão levados para ser propriedade do governo.
Aqui no nosso meio pelo menos estamos juntos sob os castigos.
Um socorre o outro.
E lá nestas terras de meu Deus, que não sabemos onde ficam como será a vida das criaturas?
- Onde ouviu isso, Zulmira?
- Os capatazes não falam em outra coisa - comentou um dos negros.
Dizem tio Chico, que é a Lei do Ventre Livre.
A gente tem de esperar pela vontade dos senhores para ter certeza se é verdade e se nós aqui seremos beneficiados.
Não adianta os brancos fazerem leis porque só são aplicadas quando querem.
E quem é besta de se meter em querer conhecer estas coisas de leis?
Assunta entrou na conversa:
- Pois estou sabendo que muitos brancos, mulatos e capatazes que deixaram a profissão estão unidos e vão cobrar de todos os senhores a aplicação desta lei, que já foi assinada faz tempo.
Nós é que demoramos para saber.
Os negros e os mulatos que fugiram do colégio estão com eles.
Tem um mulato chamado António Bento que, segundo dizem, tem mais inteligência que muitos brancos.
Pois então, esse mulato está protegido por brancos importantes, por esse motivo confio em Deus que Antero e todos os outros vão se sair bem.
Neles, ninguém vai conseguir colocar as mãos.
- Já amarrei minha saia na mangueira - comentou uma das mulheres.
Só vou soltar quando vir todos os capatazes e capitães do mato voltarem com o rabo entre as pernas.
A justiça de Deus pode ser demorada, mas chega.
Não tenham dúvida disso.
E quero estar bem viva e vê-los também vivos para comemorarmos juntos a libertação de todos os negros deste chão.
- Mulher de Deus, o sol anda lhe queimando os miolos?
Para de sonhar com o que está adormecido - comentou uma das escravas.
- Não estou sonhando acordada.
Tenho fé e certeza; tive uma visão daquelas que, quando me vêm, é certeza de virar realidade.
O velho Chico, levantando-se, deu boa-noite às mulheres.
Caminhou alguns poucos passos e, voltando-se, comentou:
- Assunta, você é bem informada e esclarecida.
Fique atenta sobre a saúde do juiz e o que acontece pela cidade.
Procure saber principalmente como ficou a situação de Arlinda e dos pais.
- Fique sossegado.
Tudo que souber o senhor vai ficar conhecendo também.
As mulheres continuaram conversando sob a mira do capataz, que as observava de longe.
Eram apenas lavadeiras, passadeiras e cozinheiras.
As perigosas eram as moças, que se envolviam com capatazes, negros, mulatos e senhores, reflectia o vigilante capataz.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 26, 2016 10:09 am

Capítulo IV - A grande vitória
Após longa caminhada, António Bento e seus amigos foram acolhidos pelos indígenas, que lhes dispensaram atenção especial.
Descansaram aquela noite na aldeia, uma vez que já se encontravam fora de perigo, longe do alcance dos capitães do mato e seus cães.
Na tribo eles jamais poriam os pés.
No outro dia logo cedo, guiados pelos índios, entraram na mata e saíram à beira do rio, onde eles escondiam as canoas.
Levaram umas quatro horas viajando.
As correntes estavam favoráveis, segundo o cacique.
Desceram no novo destino e agradeceram aos indígenas pela hospitalidade e solidariedade.
Foram em busca dos contactos fornecidos pelo grupo de apoio.
Ali despontava uma nova história na vida daqueles homens e na de muitos negros nascidos no solo brasileiro.
Houve mortes e tristeza; porém, o símbolo da vitória dos negros começava a ser formado com a luta de muitos que não se viam como brancos nem negros, mas, antes, como irmãos.
O juiz sobreviveu, e António Bento deu pulos de alegria.
Um dia desejava conhecer aquele homem de pulso e fé.
Em um dos encontros do grupo, conhecera poetas e advogados brancos que eram irmãos de verdade.
O cerco se fechava para os coronéis, que lutavam com todas as armas que podiam.
Mas o fim da escravidão se aproximava.
Fraudes foram descobertas.
Uma delas era a falta de registo de crianças que teriam direito à Lei do Ventre Livre.
As fazendas estavam apinhadas de crianças, mas não havia nada que comprovasse a existência delas.
Em um protesto público, os defensores dos escravos perguntaram aos senhores presentes o que estava acontecendo nas terras deles, porque as crianças simplesmente haviam parado de nascer.
Os padres e seus colégios passaram também a ser investigados.
Alguns recebiam auxílio de outros países para ajudar na causa da libertação.
Uma vez instalados, muitos deles recebiam ainda altos tributos dos senhores para manterem negros e mulatos em esquema fechado, como em uma prisão.
O país vivia o auge da pressão política.
Países estrangeiros cobravam uma posição e ameaçavam fechar as portas do comércio caso o Brasil teimasse em perpetuar o sistema escravocrata.
As notícias espalhavam-se como fumaça.
Os negros passaram a conversar mais a respeito dos assuntos de seu interesse.
Muitos e muitos senhores apoiavam os movimentos abolicionistas.
Houve uma campanha de incentivo para se libertar alguns escravos, e António Bento conseguiu legalizar sua situação como homem livre.
A partir daí, sua luta começou.
Os campos de lavouras e de criações de gado, cavalos, carneiros, galinhas e outros começavam a se espalhar pelo território.
A plantação, colheita e criação "de meia" invadia todos os estados.
Donos de terras, ex-capatazes e alguns coronéis, que lutavam pela libertação dos negros, forneciam a terra e a semente de gado, como se chamava na época, e os ex-escravos dia e noite se dedicavam à terra, embora muitos sofressem ataques de outros coronéis, que mandavam incendiar a plantação dos que tentavam se igualar a eles.
Vários escravos que não haviam obtido a liberdade provisória, filhos de coronéis e capatazes uniram-se a António Bento, e muitos foram levados ao norte do país, principalmente para o Ceará.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 26, 2016 10:09 am

Naquele estado já havia um movimento maior em apoio à libertação dos escravos, tanto que os registros provam que, quatro anos antes de a Lei Áurea entrar em vigor, o Ceará não admitia mais o sistema de escravidão em seu território.
Antero e diversos outros negros e mulatos foram levados para o Ceará.
Advogados, poetas e outros intelectuais mulatos, negros e brancos, com a ajuda do juiz António Bento, grande líder nas terras paulistas que jamais poderá ser esquecido, acompanhado do mulato que também tinha o mesmo nome, com braços fortes ajudaram a arrebentar as correntes que prendiam os escravos no Brasil.
Antero ficou sabendo que Arlinda estava bem amparada e tinha dado à luz um menino chamado Francisco Chagas de Jesus.
Mandou dizer a ela que estava lutando e tinha fé em que alcançaria um lugar no mundo para viver em paz com ela e o filho.
Também ficou sabendo que sua avó havia falecido em Paris e que o senhor e sua sinhá atravessavam momentos difíceis na vida por causa dos filhos.
O moço perdera-se no vício do jogo, e a moça, em outros vícios carnais.
Falavam que eles estavam vendendo o que possuíam e iam embora do Brasil.
Antero ficou pensando em seus irmãos de sina.
Como estariam vivendo envolvidos naquele ambiente pesado?
Quanto aos outros, lamentava pela avó, mas dava graças a Deus por nunca mais ter de olhar para nenhum deles.
Soube também que Toninho havia morrido em uma briga entre capatazes.
Não era de esperar outra coisa; ele vivia desafiando todo mundo, e uma hora teria de encontrar alguém à altura.
Temia pela sua situação.
Pertencia a um senhor que, apesar de ser seu pai biológico, não temia matá-lo se assim fosse necessário; era apenas um bem que pertencia ao coronel.
Se estava vendendo e transferindo tudo o que tinha, poderia complicar sua vida, deixando-o para novos senhores como escravo fugitivo.
O país atravessava uma das maiores crises financeiras e políticas.
De um lado, os movimentos engrossavam, negros e mulatos se uniam, apoiavam-se mutuamente, e o boca a boca levava às senzalas informações sobre os direitos que cabiam aos escravos.
As manifestações de revolta passaram a quebrar de vez o temor dos cativos.
Não aceitavam mais o castigo imposto pelos senhores; muitos morriam e matavam, lutando corpo a corpo com capatazes armados, que começaram a temer a reacção dos escravos, antes tratados como animais, mas resignados e calados diante de qualquer ofensa ou castigo.
O censo começou a ser feito com a ordem do Estado.
As estatísticas provaram o absurdo dos absurdos!
As crianças não tinham nenhum registo que lhes desse o amparo da Lei do Ventre Livre; apenas alguns casos de crianças deficientes, ou com outras doenças, eram apresentados e ofertados para fazerem parte do quadro no qual o estado se propunha a cuidar delas.
O velho Chico acompanhava toda essa movimentação de cabeça baixa.
Temia pelo futuro, não apenas dos negros, mas de todos os povos.
Comentou certo dia com Assunta, sua fiel confidente:
- Essa luta é correta e deve mesmo prosseguir; porém, o que me entristece é que sabemos que em outras partes do mundo há castigos bem piores que o nosso, e a escravidão não vai terminar para essas pobres criaturas.
- Do que é que o senhor está falando? - indagou a mulher, assustada.
- Assunta, fique sabendo que aqui sofremos porque somos negros, mas há lugares no mundo em que as pessoas nascem brancas, são da mesma casta e, no entanto, encontram-se martirizadas no corpo e na alma por serem de sexo diferente.
- Misericórdia, tio Chico!
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Ave sem Ninho

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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 26, 2016 10:10 am

De onde o senhor tirou esses pensamentos?
O senhor sonhou com isso, foi?
- Não, Assunta, não é sonho; é realidade!
Estou dizendo isso a você porque precisamos conversar com os jovens que começaram a meter as mãos pelos pés.
Na cabeça deles todo o sofrimento do homem caiu sobre nós, mas não é verdade.
Há pessoas que sofrem mais do que nós; sofrem física, moral e espiritualmente.
Assunta, entre curiosa e estupefacta, encarava o negro velho.
- Senta aí - disse ele - que vou lhe contar tudo o que sei a esse respeito, e não é coisa da minha cabeça de velho, não!
São factos verídicos.
Então tio Chico relatou tudo o que conhecia sobre o sofrimento de irmãos de outras nações.
Ao terminar de falar, Assunta, com lágrimas escorrendo pelo rosto, desabafou:
- Meu Deus!
Tenho de pedir muito perdão pelos meus pecados; nunca me passou pela cabeça que houvesse pessoas brancas passando por estas tormentas.
Os dois trocavam ideias quando uma moça que servia na casa azul e branca chegou correndo.
- Tio Chico! Tio Chico!
O senhor não queira saber o que acabei de ouvir!
- Se não parar com essa afobação e me contar, nunca vou saber mesmo - tornou ele, pitando o cachimbo de barro.
- O senhor vendeu esta fazenda, com tudo dentro dela.
Vão para a tal Paris, e os novos donos vêm amanhã fazer uma coisa chamada vistoria.
O senhor sabe o que é isso?
- Sei, sim. Vistoria é olhar tudo o que tem aqui e o estado em que se encontra.
Eu, por exemplo, não passo na vistoria se forem contar os braços de trabalho.
Hoje sou considerado um peso nas costas de qualquer senhor; já não sirvo para nada.
Quanto a você, fique sossegada que não vai correr risco de ser mandada embora daqui.
E uma negra nova e cheia de vida.
- Tio Chico, estou tremendo de medo e de preocupação, e o senhor me diz isso?
- Filha, deixe as coisas acontecerem primeiro para depois perder noites de sono.
Se você ficar hoje a noite inteira sem dormir pensando nisso, será que a situação vai mudar a seu favor?
Sabe o que temos de fazer? Rezar a Jesus pedindo protecção para nossos senhores que se vão; rogando por aqueles que virão e também por nós, que estamos aqui.
Temos de aguardar e esperar para conhecer o amanhã.
Vá se deitar, filha.
Quando raiar mais um dia em sua vida, terá de estar de pé e pegar na labuta.
Não saia espalhando essa notícia por aí; não tire a noite de sono dos que precisam dormir e descansar o espírito.
Não vamos mudar a nossa história nem a de ninguém se perdermos a fé em Deus ou sairmos por aí incendiando os pensamentos de quem já vive em aflição.
A moça pediu-lhe a bênção e saiu cabisbaixa.
O velho Chico balançou a cabeça naquele seu gesto tão conhecido.
- Em que está pensando? - Assunta perguntou.
- Não vou ter esse corpo neste mundo para ver o que está vindo a galope.
E, talvez, se for a vontade de Deus, posso até não desfrutar, mas verei chegar o dia em que a negrada toda vai sair em festa pelas ruas.
Vai ser bom de um lado e ruim do outro.
Muitos escravos não estão preparados para sair pelo mundo sozinhos.
Vários vão morrer assim que deixarem as fazendas; a bebida vai levá-los ao cemitério.
Grave bem o que estou lhe dizendo.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 27, 2016 11:29 am

No dia seguinte, logo pela manhã, o coronel já recebia visitas.
Trancaram-se no escritório do senhor.
Com certeza, tratava-se dos novos compradores.
"Quem seriam?
E o que fariam com eles?", reflectiu o negro velho Chico.
Uma semana depois, em um sábado à tarde, o senhor reuniu os escravos e pediu que tomassem banho e vestissem roupa nova.
Desejava que todos estivessem bem arrumados no domingo pela manhã.
Seriam apresentados aos novos senhores.
Dali para frente, a fazenda azul e branca teria novos donos e um novo destino.
Os negros se entreolharam.
As coisas estavam muito difíceis para todos; nada era mais como antes.
Antigamente, relembravam os mais velhos, mesmo no sofrimento do cativeiro eles tinham suas alegrias; cada um sabia onde era o seu lugar.
Mas, nos últimos tempos, ninguém entendia mais nada!
O assunto nos barracões da senzala era o que aconteceria no outro dia.
Ninguém conseguiu dormir, nem mesmo o velho Chico, que rolou na rede e depois foi se deitar em uma esteira de palha, e nada de o sono chegar.
No dia seguinte, cedo, os homens se dirigiram para certo ponto do rio.
Mulheres e crianças, a outro.
Todos tomaram banho e se vestiram da melhor forma possível.
Mesmo sendo cativos, tinham costumes ancestrais; gostavam de se arrumar e se enfeitar com ornamentos feitos de sementes.
Reunidos diante da grande casa azul e branca, aguardavam a presença do senhor.
Não demorou muito, ouviram um tropel de cavalos.
Eram os novos senhores, deduziram os cativos.
Em meio aos senhores, dois mulatos bem-apresentados chamavam a atenção dos negros.
Muitos escravos, em silêncio, pensaram:
"Devem ser os serviçais dos senhores..."
Todos desceram das montadas, mas nenhum mulato foi prestar auxílio aos brancos.
Os cativos permaneciam ansiosos e como que paralisados.
O capataz do senhor pediu a alguns escravos que levassem os animais à cocheira e que não se demorassem, pois logo o senhor falaria com eles.
Os visitantes entraram na casa do senhor, inclusive os dois mulatos!
Mulatos ou negros, para entrar naquela casa, só se fosse para fazer algum serviço de manutenção ou pegar algo pesado, mas aqueles dois haviam entrado na sala de visitas.
Era a primeira vez que mulatos entravam ali e eram tratados com igualdade.
Minutos depois, os senhores apareceram acompanhados dos visitantes.
- Aqui está o novo proprietário desta fazenda e senhor de vocês - anunciou o coronel, apontando para um dos visitantes.
O advogado dele, que se faz presente, vai cuidar de tudo.
Quero também deixar claro aos amigos que nenhuma criança beneficiada pela Lei do Ventre Livre entrou como valor a ser pago.
Eu as venho mantendo como posso; da mesma maneira que cuido bem dos escravos, faço-o também com os ingénuos.
Todo escravo é bem tratado aqui; podem reparar na aparência deles.
Sempre foram bem alimentados, e, nesta fazenda, escravo sempre gozou de certas regalias que, segundo sei, por aí não são permitidas.
Espero que os senhores dispensem a eles o mesmo tratamento que tenho dispensado.
Apontando para os negros, afirmou orgulhoso:
- Não tenho fugitivos entre eles.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 27, 2016 11:29 am

Todas as desavenças, coisa normal entre grupos de pessoas, são resolvidas da melhor forma possível.
Assim, temos uma vida harmoniosa, com as graças de Deus.
Os negros permaneciam mudos e de cabeça baixa, cada um com os próprios pensamentos.
O senhor falava de uma maneira que nunca tinham ouvido!
Parecia calmo e compreensivo.
E as chicotadas no curral?
E os castigos que os capatazes aplicavam?
E os pés descalços das crianças que cresciam?
Ah, se não fosse tio Chico, que fazia alpargatas com o couro dos bois que eles matavam para vender e comer...
Cabisbaixos, também reflectiam:
"Então o dono é o mulato?"
Uma felicidade e um sentimento de orgulho lhes invadiam o coração, especialmente do velho Chico, que se arriscava a dar uma olhada de esguelha para o novo proprietário da fazenda.
Enquanto o observava, alegrava-se imaginando:
"As mudanças estão mais próximas do que pensávamos...
Quem me dera poder ver chegar esse dia em que, eu sei, a luta, o derramamento de sangue e o ódio chegarão ao fim".
Na frente dos visitantes, que observavam os negros, o senhor prometeu cuidar deles até a próxima semana, comprometendo-se em entregar tudo em perfeita ordem, inclusive os cativos.
O mulato que foi apresentado como novo senhor ficou de pé e falou alto:
- No próximo domingo, logo cedo, estaremos aqui assumindo a fazenda.
Quero todos vocês presentes, a fim de receber as novas ordens que decidirão o destino de cada um.
Celebraremos também a primeira missa na fazenda.
O senhor dispensou todos e continuou no alpendre com os convidados, bebendo e comendo.
Os negros apressaram--se para o fundo da senzala.
Cada um tinha um palpite, mas todos queriam mesmo era ouvir a voz da experiência de tio Chico e das mulheres mais velhas da senzala.
Quando apareceram, todos os escravos os cercaram, no olhar a pergunta para a qual desejavam obter resposta.
O velho Chico se sentou e ajeitou o cigarro de palha.
- Não vamos nos precipitar em tentar ver o futuro - começou.
Com certeza, o que Deus já acertou a nosso respeito não mudará um palmo diante de nosso comportamento.
Uma coisa é certa: se a fazenda é do mulato, o futuro pode ser várias coisas.
Ter um senhor que não é branco nem preto deixa a gente sem saber directo o que está no coração dele, principalmente na cabeça.
Tanto pode pensar como branco, como pode pensar como negro, mas pode, também, apenas pensar como gente.
E é isso que devemos fazer:
enquanto o domingo não chega, vamos viver como gente, independente de nossa cor.
Soltando uma baforada, avisou:
- Espalhem--se aí, pessoal.
Daqui a pouco o novo senhor resolve vir aqui e, se pegar a gente falando o que não deve, aí sim pode já traçar um plano de prevenção contra nós.
- O velho Chico tem razão, pessoal - concordou Assunta, levantando-se.
Vamos andando; cada um que vá cuidar de seus afazeres.
Aquela semana passou como um relâmpago.
Assunta contou ao velho Chico que aqueles dois mulatos eram da família do juiz e que tinham outras fazendas.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 27, 2016 11:30 am

Colocavam administradores para tomar conta, pois não moravam nelas.
Contou também que nas fazendas deles não eram contratados capatazes; os próprios escravos eram responsáveis pela organização do local.
Ela ouvira essas informações de um empregado de confiança do novo senhor.
No domingo bem cedo, os dois mulatos apareceram acompanhados de dois negros e mais dois mulatos.
João da madeira correu para perto do velho Chico e sussurrou:
- Aquele mulato de chapéu de couro é o António Bento!
Eu o conheci no colégio dos padres.
É amigo do Antero...
O novo senhor falou dos planos que tinha traçado para o destino daquela fazenda que estava à beira da falência.
Pareciam um tanto assustadoras para os negros aquelas novidades.
Estavam habituados a fazer tudo no braço, mas o senhor disse, por exemplo, que traria água do rio para a fazenda, o que iria facilitar a vida de todos.
As mulheres que carregavam a água do rio temiam ser vendidas.
Se acabassem com o trabalho delas, o que fariam?
Muitos negros ficaram mesmo em estado de choque com as notícias dos novos senhores.
Não sobraria trabalho na fazenda, e por certo seriam vendidos.
Logo após ter exposto seu plano, o mulato, que, mesmo sendo muito jovem, expressava-se como um sábio, falou:
- Ninguém aqui será vendido.
A partir de amanhã começaremos a fazer o levantamento do direito de vocês, amparado pela lei.
Mandaremos construir várias casas pequenas, mas que possam abrigar os que forem dispensados dos trabalhos da fazenda.
Estes continuarão trabalhando e vendendo o fruto de seu trabalho para nós.
Amanhã, na parte da tarde, quero falar com os mais velhos.
Quem não souber a própria idade, não faz mal; venham assim mesmo que faremos uma estimativa, levando em consideração o tempo de cada um na fazenda.
Por fim, o mulato apresentou outro António Bento como administrador da fazenda.
Os escravos se entreolharam: dois António Bento?
O dono das terras era o juiz chamado António Bento, e o outro, o administrador, era o António Bento que ajudara Antero e outros a fugirem do colégio dos padres.
António Bento, o administrador, disse com a firmeza de um verdadeiro guerreiro:
- Conheço alguns homens desta fazenda.
Ali vejo o João da madeira e também outros amigos.
Quero de antemão lhes dizer que trabalharemos com dignidade e decência, honrando os votos de confiança do nosso patrão aqui presente, meu xará, o senhor doutor juiz António Bento, que será chamado por todos nós de senhor juiz.
Por ordem do patrão, foi destituído o título de capataz nesta fazenda.
Se nossos amigos desejarem continuar trabalhando connosco, será bom para todos.
Vamos nos reunir e acertaremos os novos encargos de vocês.
Para os que não desejarem permanecer connosco dentro do novo sistema, serão recompensados no que tiverem direito e dispensados do cargo.
Teremos muito trabalho, e os que tiverem disposição com certeza terão seu emprego amparado por lei.
Logo após ter apresentado as novas directrizes que a fazenda teria, o padre celebrou a missa na pequena capela na qual muitos negros jamais haviam posto nem pés nem olhos, e todos, curiosos, puderam entrar e ver o que tinha lá dentro.
Em seguida, António Bento dispensou-os para almoçar e falou que queria vê-los no fim da tarde em frente à casa azul e branca, que não tardaria a mudar de cor.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 27, 2016 11:30 am

Por volta de dezasseis horas, António Bento pediu:
- Vamos fazer um batuque aqui em frente da casa?
Improvisem um tambor como puderem; vou mandar confeccionar alguns para alegrar as noites nesta fazenda.
Os negros saíram se abraçando e chorando de alegria.
Era muita felicidade!
Seria mesmo verdade?
João da madeira afirmava aos outros cativos que António Bento era amigo de Antero e que tinha ligação com o movimento das leis que protegiam os escravos.
Um dos jovens chegou com um tronco oco e tirou um som de tambor.
Não demorou para que improvisassem o que iriam mostrar aos senhores.
Diante da casa azul e branca, ao cair da tarde, com o som dos tambores ao fundo, uma brisa perfumada parecia beijar a terra e seus viventes.
António Bento desceu e, em meio aos irmãos negros, puxou este canto:
Brasil e África neste instante param para ouvir o canto dos seus filhos; os ancestrais se alegram com nossa determinação.
Não há mais separação de cor; agora é tudo união.
Agradecemos ao nosso Criador, que lá no céu olha por nós, Ele não separa filhos pela cor, Viva o Brasil, viva a África!
Brancos e negros agradecem e pedem a protecção do Senhor, Salve a África e o Brasil, Salve seus filhos, São guerreiros trabalhadores.
Outros cantos foram chegando de improviso.
Sabe-se que todo canto é intuição de um mentor espiritual e, naquela noite, aquela fazenda, cenário de tantas tristezas passadas, também testemunhou grandes alegrias.
Tio Chico foi tomado de muita emoção e, sem que pudesse impedir, um negro velho baixou naquele terreiro da fazenda azul e branca.
Era pai Francisco do Cruzeiro das Almas, que explicou a origem de seu nome:
fora ele quem por muitos anos enterrara os escravos que morriam na fazenda do senhor, velhos, crianças e moços.
Muitas vezes, os negros não suportavam os castigos ou eram acometidos de doenças.
Era ele que se encarregava de cuidar dos funerais.
António Bento sentou-se perto dele e pediu que todos os negros fizessem o mesmo.
- Pai Francisco, conte-nos sua história.
Quem foi e quem é o senhor?
- Ah, meu filho!
ui um de vocês, e continuo sendo.
Somos todos filhos de Deus, e aqui, entre nós, não temos culpados nem inocentes.
Cada um tem sua missão, filho, e, quando um ajuda o outro a caminhar, as estradas se tornam mais curtas.
É por essa razão que estou aqui.
Vou passar a contar tudo o que fiz por aqui, antes de voltar novamente entre vocês.
E então pai Francisco do Cruzeiro das Almas narrou sua história:
Fui escravo aqui mesmo nesta fazenda, mas ela era bem menor do que é hoje.
As coisas mudaram muito por aqui.
O Chico tem esse nome por minha causa; sempre cuidei dele, desde menino.
Quando ele nasceu, eu já era bem maduro.
Não posso afirmar minha idade porque não tive registo.
Ele devia ter uns três anos quando desencarnei.
Construí, com a ajuda de outros negros, o cemitério que existe até hoje.
Na época, devia ter uns dezoito anos; calculo isso pelas minhas experiências actuais.
Nunca vou esquecer a primeira criatura que enterrei naquele cemitério.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 27, 2016 11:30 am

Era uma menina que mal havia começado a andar.
Morreu de um febrão para o qual não houve remédio na senzala que resolvesse.
Fui encarregado de cavar sua sepultura e depois deveria buscar a menina para enterrá-la.
Enquanto isso, a mãe poderia ficar com ela um pouco mais antes de voltar a cuidar de suas tarefas.
Cavei aquela covinha chorando...
Um moleque veio correndo me chamar dizendo que o senhor já estava gritando por causa da demora.
Entrei na senzala e estendi os braços para aquela pobre infeliz que soluçava, amparada por outras mulheres.
Peguei em meus braços o corpo da menininha, enrolado em um pano de saco.
O meu cachorro, cujo nome era Ligeiro, acompanhava--me em silêncio, apenas nós dois percorrendo aquele caminho doloroso.
O cemitério não ficava perto da casa-grande.
Imagina se o senhor iria querer um cemitério de negros perto de sua fazenda!
Chegando lá, pedi ao meu cachorro, que era tão obediente quanto eu, que ficasse me esperando na entrada.
Ele se sentou nas patas, encarando-me com um olhar compadecido, pois sabia que eu estava chorando.
Enterrei a menina, e as flores daquele túmulo foram minhas lágrimas.
Rezei com as palavras que sabia, entregando-a ao Senhor do Céu.
O cemitério era cercado de arame farpado para impedir que os animais entrassem nele; acho que não era nem medo de destruírem as covas, e sim de acabarem contaminados.
Puxei o fio de arame que servia de entrada e, olhando para trás e observando a cova, veio--me uma ideia à cabeça:
farei uma cruz e a colocarei na covinha.
Assim fiz; juntei as madeiras, amarrei-as bem com cipós e as firmei na sepultura.
Isso me deu um conforto muito grande; saí aliviado, acompanhado de meu cão.
Assim foi acontecendo:
todos os negros mortos era eu quem levava em minha carrocinha de mão se fosse adulto, ou no colo quando era criança.
Em minhas horas de descanso, que não eram mais que quatro por semana, comecei a preparar cruzes, uma diferente da outra, assim saberia onde ficava cada um.
O único que me acompanhava no trajecto fúnebre em uma caminhada de uma hora e tanto era o Ligeiro; aliás, no percurso de minha vida carnal, tive quatro cachorros, todos eles chamados Ligeiro, todos parecidos comigo:
fiéis e obedientes.
Plantei várias flores ao redor do cemitério.
As vacas iam lá e comiam tudo, mas dentro do cemitério parecia um jardim do céu.
Na época das chuvas eram flores, borboletas e beija-flores sobrevoando os túmulos, um espectáculo que só Deus poderia criar.
Um dia, estava sentado, observando o cemitério, e então me veio outra ideia:
na parte de dentro do cemitério e nas cercas de arame vou plantar aquela planta que se espalha fácil e é cheia de espinhos, e ela vai se enrolar pela cerca...
Em um ano, a cerca do cemitério estava a coisa mais linda do mundo, e os pés de goiaba, jabuticaba, manga e jaca que plantei em cada canto estavam de dar gosto.
Apreciando a paisagem do meu lugar preferido em vida, tive uma intuição:
"Pede licença ao senhor; corta angico-preto, que é madeira que não dá cupim, e faz um cruzeiro no meio do cemitério".
Assim, passei a obedecer todos os pedidos que me vinham ao pensamento.
O senhor consentiu, dei viva a Deus, e preparei o cruzeiro.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 27, 2016 11:31 am

Passei nele sumo de jenipapo, que lhe deu uma cor arroxeada.
Finquei no meio do cemitério e plantei oito pés de coco em formato de cruz.
Virou uma verdadeira capela em volta do cruzeiro.
Continuei minha jornada.
A tristeza maior foi quando o senhor morreu e o filho passou a tomar conta.
Os castigos eram diários; ele não tinha noção da besteira que estava fazendo.
Cada escravo que morria no castigo era prejuízo para ele, mas o rapaz não se dava conta disso, até que ficou mesmo na miséria.
Recebi uma ordem do perverso capataz:
- O negro que entrar em castigo no começo do dia embaixo do sol, para morrer de sede, e sobreviver até o galo cantar, pode levar para a senzala e mandar tratar.
Mas, se estiver morto, antes de raiar o dia suma com ele daqui!
Enterrei muitos irmãos que, sem suportar o castigo do corpo, encontraram a liberdade.
As mulheres barrigudas [grávidas] às vezes tinham desejo de comer uma fruta, mas na fazenda daquele ingrato senhor o único desejo atendido era o dele.
Havia mulheres que chegavam a abortar porque o desejo não era atendido, e aconteceu muito disso naquele tempo.
As frutas do cemitério eram doces e perfumadas.
Com honestidade, nunca vi em nenhum lugar uma goiabeira dar tantas goiabas!
Eu enchia bornais e bornais e não dava vença; distribuía entre todos na senzala, especialmente entre as grávidas.
Graças a Deus, os brancos não comiam nossas frutas; tinham medo, ainda por cima frutas do cemitério?!
Para nós, contudo, era uma bênção.
Foi um período em que fiz muitas e muitas cruzes; acho que aquele senhor matou mais da metade dos escravos.
Só caiu em si quando estava arruinado.
A fazenda foi vendida, então tivemos um pouco de paz e sossego.
Os novos senhores eram bondosos; dificilmente um negro recebia uma represália, e, quando praticava algum delito, não podíamos cobrir o sol com a peneira e dizer que todos os escravos eram santos, porque não eram!
Alguns praticavam pequenos furtos - fumo, bebida, ferramentas, coisas assim.
Ficavam trancados em um quarto escuro, de castigo, só comiam uma vez ao dia e dormiam no chão.
Eram castigos que mais humilhavam do que machucavam fisicamente, e assim são os tempos dos homens.
Havia épocas boas e difíceis, como acontece até nos dias de hoje, em que vocês vivem.
O mais engraçado foi quando a mulher do senhor veio escondida me pedir uma manga.
Ela estava grávida e vira as crianças da senzala comendo mangas; eram aquelas mangas-rosa e mangas-espada.
Tinha enchido o cemitério de frutas, tudo plantado em volta da cerca e na parte de dentro.
Peguei as mangas mais bonitas e dei a ela, que saiu à espreita para não ser vista.
Ali naquele campo santo e abençoado eu sabia onde estava cada corpo.
Quando os parentes tinham oportunidade de ir ao cemitério, eu os levava e apontava o lugar certinho onde se encontrava seu ente querido.
Peguei tanto amor pelo cemitério que todos os dias dava um jeito de ir lá; era como se cada um ali enterrado fosse um filho meu.
Eu e meus cães Ligeiro caminhamos muito empurrando a carrocinha que levava alguém pela última vez naquela viagem.
Vou revelar um segredo para vocês:
os meus Ligeiro também foram enterrados lá; nunca contei a ninguém.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 27, 2016 11:31 am

Coloquei uma cruz na cova deles, afinal, foram os únicos amigos que me viram chorar os mortos.
E eu também fui enterrado lá.
Tive um substituto, e para ele foi um pouco melhor, pois tinha dois ajudantes, e os mortos eram levados em redes.
Enterravam-nos com rede e tudo.
Tempos melhores!
Pois é, como a vida não está em nenhum corpo carnal, estou de volta para mais uma vez ajudá-los.
Faço uma observação: o cemitério foi ampliado, mas não está tão bem cuidado como eu cuidava; as flores desapareceram...
Nem notícia delas.
Mas o cruzeiro está lá.
E, apesar de precisar de cuidados, continua firme, provando que tudo, quando fazemos bem-feito, tem chances de alcançar muitas gerações.
Meus filhos, não chorem!
Todos estavam em lágrimas ao ouvir as palavras do querido preto velho.
António Bento (1) não continha a emoção.
Beijou os pés de pai Francisco, e lhe disse:
- Vou me encarregar de cuidar do cemitério e, com sua ajuda, peço perdão ao senhor por esse descuido de minha parte.
O senhor tem toda a razão.
Ali é lugar em que muitos heróis foram enterrados, um local de muitas relíquias, os restos mortais de nossos antepassados.
O senhor um dia poderia me mostrar onde estão seus restos mortais?
- Não só os meus, mas os de muitos parentes dos filhos que estão presentes, inclusive dos seus.
Entenderam agora por que sou chamado de pai Francisco do Cruzeiro das Almas?
Assim como Jesus, que também fez muitas cruzes e morreu em uma delas, eu também as fiz, e continuo a fazê-las em nome dele, de forma diferente.
Venham todos aqui que quero cruzar vocês todos em nome de Jesus.
Um por um se aproximou do preto velho, derramando suas lágrimas; cada um recebia dele palavras de fé, amor, esperança e conforto.
A presença de pai Francisco dava segurança e trazia esperança.
Assunta estava tão emocionada que não conseguia falar.
Pediu licença a António Bento, e pediu que alguém lhe fosse buscar um pouco de chá na senzala.
Quando se acalmou, solicitou a atenção dos presentes:
- Não posso dizer a vocês que me lembro de pai Francisco, mas posso afirmar que cresci nesta fazenda ouvindo falar dele.
Não havia um só negro entre nós que não chorasse quando tocava em seu nome.
Sei onde estão os restos mortais dele.
Os mais velhos, quando podiam ir ao cemitério e à sua cova, ajoelhavam-se e rezavam muito, e saíam de lá confortados.
O Chico até hoje, quando pode, vai lá e coloca flores sobre sua sepultura.
Ele fez uma cruz e repôs a antiga, que se partiu com o tempo.
O preto velho sorriu.
- Então agora vocês não precisam mais ir ao cemitério; no tempo que tiverem livre vamos conversar aqui mesmo.
Deixem o cemitério para o descanso de outras vidas que precisam se refugiar do sol, da chuva; falo dos pobres répteis e outros animais que buscam alento em lugares seguros e calmos, como o cemitério.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 27, 2016 11:31 am

António Bento chorava ao lado de pai Francisco.
Este espírito enchia de conforto o coração dos presentes; sua sabedoria ficava clara aos ouvintes.
O juiz António Bento ajoelhou-se aos pés de pai Francisco e lhe perguntou:
- Posso pedir algo ao senhor?
- Se for permitido pelo nosso Pai Criador, é para isso que vim, filho.
Desejo dar minha contribuição àqueles que ainda têm muito que fazer nesta terra.
- Gostaria que o senhor assumisse a missão de nos doutrinar, desenvolvendo essa grandiosa tarefa espiritual e ajudando a trazer outros irmãos espirituais, a fim de preparar os encarnados para recebê-los.
- Pelo que entendi, o senhorzinho está me dando um cargo de confiança na fazenda?
- Sim. Confio no senhor e sei que vai nos auxiliar a ter uma vida melhor, tornando os momentos de nossos dias mais justos e próximos de sua sabedoria.
- Pois então pai Francisco do Cruzeiro das Almas aceita.
E não vou deixar para amanhã o que já posso fazer hoje.
Chame essa filharada aqui!
Ali sob o céu estrelado, entre muitas testemunhas, pai Francisco aconselhou, orientou e desarmou capatazes, fazendo com que chorassem como crianças diante dos senhores.
Antes de se retirar, pai Francisco deixou recomendações de como queria que os filhos se apresentassem no próximo encontro e se portassem diante dos guias.
Ficou determinado dia e hora, tudo com aprovação dos senhores, e o preto velho instruiu homens e mulheres para que se preparassem de modo a não abusar de alimentos, bebida alcoólica e sexo, e como deveriam fazer a limpeza física e astral para participar do sagrado ritual.
Muitos trabalhos foram desenvolvidos no terreiro da casa azul e branca.
Foram histórias que salvaram e mudaram diversas vidas, ficando registradas na mente espiritual dos beneficiados e dos trabalhadores espirituais que participavam dos trabalhos.
Quantas histórias fantásticas se perderam na poeira dos terreiros das casas-grandes!
Hoje, por meio das psicografias, presentes da espiritualidade à humanidade, muitos médiuns irradiados pela divina luz dos mentores trazem ao conhecimento verdades que não foram escritas pelas mãos dos homens.

1- António Bento: administrador.
Quando a história se refere a António Bento, juiz, ele é designado como juiz ou de forma peculiar (Nota da Edição).
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Ave sem Ninho

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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 27, 2016 11:31 am

Capítulo V - A recompensa
Começava uma nova vida para todos.
A fazenda mudou de aparência. Vilas de pequenas casas foram construídas e os mais velhos foram dispensados dos trabalhos, incentivados a continuar fazendo seus produtos para que estes fossem adquiridos para abastecer a fazenda.
Cada família recebeu uma casinha.
Na verdade, criaram um povoado, com todos os recursos básicos e a maior surpresa de todos os tempos:
uma escola de alfabetização foi implantada na vila; jovens e crianças poderiam se matricular para aprender a ler e escrever.
Os capatazes, em vez de aplicarem castigos usando chicotes, agora usavam lápis e caneta--tinteiro para alfabetizar os negros.
De inimigos, passaram a ser vistos como amigos, mestres e parceiros.
A mulher poderia costurar bordar, fazer doces e artesanatos, panelas de barro, tachos de ferro - toda a criatividade de um povo sábio surgia naquelas terras.
Os produtos eram comercializados pelos próprios senhores, e a renda ia para as mãos dos negros trabalhadores.
Assim como naquela fazenda do sudeste brasileiro, outras também adoptaram esse sistema, que estava dando certo e trazendo benefícios imensos para senhores e escravos.
A fazenda foi reformada; os mourões agora eram realmente para bois e cavalos.
Correntes, chicotes e todos os instrumentos de tortura desapareceram das mãos dos capatazes.
Muitos foram destruídos nas próprias fazendas, por isso não se encontram tantos instrumentos de tortura expostos por aí.
A fazenda tinha água em abundância; o novo proprietário canalizara a água do rio para a fazenda e muitos reservatórios haviam sido feitos.
O trabalho agora era dobrado, mas a satisfação, que antes não existia, fazia o cansaço desaparecer.
Todo mundo trabalhava assoviando ou cantando, e o que antes lembrava o inferno agora era visto como paraíso.
Naquela fazenda, brancos e negros já começavam a se apertar as mãos, e a escola era para todos - estudavam crianças brancas, mulatas e negras.
António Bento disse aos amigos da fazenda que Antero estava muito bem instalado nas terras do Ceará e que não pretendia voltar.
Ele e muitos outros negros haviam conseguido, por intermédio da ajuda de amigos, regularizar seus documentos.
O coronel, antes de embarcar a Paris, foi procurado por um advogado e, sob pressão dos novos compradores da fazenda, concordara em assinar a liberdade de Antero, que agora era livre.
Segundo António Bento, ele conhecera uma boa moça que era branca de alma e de pele, filha de holandeses que lutavam ao lado deles -, casara-se com ela e estava muito feliz.
Antero lhe confidenciara que tinha conhecido o filho em uma visita rápida às Minas Gerais e que o garoto vivia com a mãe, que também adquirira a liberdade.
Arlinda estava casada com um nobre e educava Francisco Chagas de Jesus em escola de brancos.
Contou que ficara sabendo de tudo isso pela boca da própria avó, que levara o menino até ele.
A senhora lhe disse que, quando o menino nasceu, Arlinda fora amparada pelo senhor que a protegia, e que registrara o menino com o nome de Francisco Chagas de Jesus em homenagem às Chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo e ao tio Chico.
O velho Chico ficou muito feliz em saber que Antero agora era um cidadão livre e bem-sucedido na vida; que Deus o abençoasse.
E pediu a António Bento que, assim que possível, enviasse as boas notícias dos irmãos da fazenda: que estavam todos vivos e agora muito bem.
António Bento vivia lutando pela causa dos irmãos de sina.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 27, 2016 11:32 am

Pai de dois filhos, passava mais tempo fora de casa do que vendo as crianças crescerem.
Os negros da fazenda admiravam e respeitavam António Bento, e tinham também muito respeito por sua esposa.
Ela era uma mulher linda.
Filha de um capitão do mato com uma indígena, era dotada de beleza exótica:
morena, cabelos negros, lisos e brilhantes, olhos cor de mel e um corpo bem contornado.
Sua beleza atraía muitos olhares; se não fosse uma mulher honesta e fiel ao esposo, seria candidata fácil a cair nas malhas das tentações que a cercavam.
Não se envolvia nas questões políticas que absorviam o marido e deixara bem claro que não desejava acompanhá-lo nas viagens.
Discreta, falava pouco; vivia para a casa e os filhos.
O tempo passava, e as notícias das lutas dos envolvidos no movimento abolicionista chegavam à fazenda por intermédio de trabalhadores que acompanhavam o administrador e protector dos negros, António Bento, visto por eles como um anjo, e não como homem.
António Bento não dormia sequer uma noite inteira em casa, comentavam os escravos.
Andava dia e noite, percorria cidades e cidades, lutava como um leão defendendo o fim da escravidão.
Quando saía e passava uma semana sem retornar e sem dar notícias, o terreiro ficava apinhado de negros e brancos rezando por seu retorno e pedindo auxílio a pai Francisco do Cruzeiro das Almas, que, além de mentor espiritual, era o porto seguro de todos.
Os antigos capatazes agora eram grandes colaboradores de António Bento.
Com a ajuda deles, o administrador conseguira retirar do cativeiro milhares de escravos, muitos dos quais foram enviados às minas de ouro das Minas Gerais e ao norte e nordeste do Brasil.
Diversos filhos de capatazes foram trazidos de volta à fazenda.
António Bento comprara centenas de escravos e ajudara a libertar milhares deles, e os capatazes eram agora aliados dele nessa luta.
Pai Francisco brincava com os filhos, lembrando que agora até as panelas haviam se unido:
cozinhavam o feijão sem se preocupar se era para branco ou para preto.
E que as mesmas letras que o branco aprendia a escrever o pretinho também estava escrevendo.
O senhor dono da fazenda pouco aparecia; quem tocava todos os negócios era o mulato António Bento, que se tornou conhecido e respeitado por sua coragem em defender publicamente negros e brancos.
Ele explicava aos fazendeiros da região como era muito mais lucrativo ter os negros como parceiros, e não como inimigos.
Mas enfrentou diversas demandas; senhores e capatazes que não aceitavam o fim da escravidão não poupavam esforços para eliminá-lo.
Não foram poucas às vezes em que se livrou pela protecção divina de atentados em emboscadas nas estradas que percorria com os companheiros altas horas da noite.
Naquele terreiro de terra batida, iluminados pela luz da lua e das estrelas, desenvolviam-se mentes e corações.
Os pretos velhos atendiam e aconselhavam negros e brancos, que vinham de longe para obter auxílio, e assim a fama de pai Francisco ia abrindo estradas de luz e trazendo outros fazendeiros e capatazes para ouvir suas sábias palavras.
Os resultados eram os louros da liberdade que surgia aqui e ali.
O preto velho, fumando seu cachimbo de barro, repetia sempre aos filhos de fé:
- Não é o chicote nem o peso do ouro que carregamos nos bolsos que faz o homem mudar; o que transforma o coração do homem é a sabedoria do amor.
De norte a sul do país, o movimento abolicionista crescia.
Negros, mulatos, brancos e muitos estrangeiros engajavam-se na luta.
As notícias corriam como se levadas pelo vento.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 27, 2016 11:32 am

Os fazendeiros que escondiam dos escravos os direitos que haviam conquistado eram autuados e pagavam multas altas.
Os fazendeiros que não aceitavam o fim da escravidão no Brasil lutavam como feras enjauladas, tentando derrubar o grande movimento abolicionista.
Vários simpatizantes da abolição perderam a vida lutando por justiça social entre brancos e negros, e a cada morte o movimento se fortalecia.
O tempo passou voando.
Tio Chico ria e dizia consigo mesmo:
"Não pensei que ia durar tanto tempo neste velho corpo".
Sentado na calçada de sua casa, pitando o cigarro de palha, conversava com as amigas da senzala.
Assunta, que só de olhar para o velho Chico sabia o que estava pensando, comentou, rindo:
- Vamos ficar para semente!
O senhor já reparou que dos negros velhos homens só resta o senhor de semente?
- Que culpa tenho eu, mulher, se Deus me escolheu para ficar no meio de vocês? Vai ver que é para cuidar das que perderam os companheiros.
Acho que vocês são minhas cruzes...
- Ah, Chico. Tenha santa paciência!
Quem de nós aqui é uma cruz na sua vida? Fazemos de tudo por você, seu ingrato - respondeu Assunta fazendo um beiço.
- Não posso mais brincar, criatura?
Vamos dar graças a Deus, pois, apesar de velhos, ainda podemos fazer muitas coisas boas pelos moços!
Temos ajudado António Bento a mudar a história que foi construída com noites mal dormidas, corpo massacrado, sangue derramado, apesar de continuar acreditando que tudo isso não foi por acaso nem em vão.
A mulher, respirando fundo, respondeu:
- Graças a Deus que António Bento trouxe saúde para nós.
Hoje qualquer um quando partir não deixa motivo para os outros lamentarem.
Só deixa saudade, porque é impossível esquecer momentos como este e outros que já passamos juntos.
- É verdade, Assunta - concordou tio Chico.
Os momentos tristes da senzala ficarão guardados em nossa memória, pois os nascidos daqui para frente vão ouvir nossas histórias e ficar imaginando se foram de fato verdadeiras.
Assim como a gente hoje escuta as histórias dos mais velhos, quando se incorporam em um médium no terreiro, e por alguns segundos também nos perguntamos:
será que tudo isso aconteceu?
Mas de facto, Assunta, você falou uma coisa muito sábia:
momentos como estes que vivemos agora precisam ser guardados na memória.
Talvez um dia Deus nos permita nos reunirmos outra vez e então poderemos por esses terreiros afora levar alegria e fé aos muitos filhos de Deus.
Assunta, que escutava com atenção, meneou a cabeça em um gesto afirmativo.
- Olha, minha amiga - prosseguiu tio Chico -, vou dizer uma coisa para você.
Ainda era menino, mas guardei bem as palavras do meu pai; é como se tivesse ouvindo agora:
ele dizia que chegaria um tempo em que haveria tantas pessoas em terra recebendo a luz dos anjos como estamos recebendo a luz das estrelas.
Isso quer dizer que no futuro muita gente vai fazer o que estamos praticando hoje no terreiro da casa-grande.
- Credo, Chico!
E de onde virão tantas entidades para tanta gente?
Aí não vai ter guia para todo mundo trabalhar!
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 27, 2016 11:32 am

O velho Chico deu uma risada.
- Mulher de Deus, não me faça pensar que não tem aprendido nada com essa idade que lhe marca os cabelos brancos!
Mesmo com nossas dificuldades visuais, ainda podemos enxergar o clarão das estrelas no céu.
Será que precisamos para cada um de nós uma estrela ou todas elas iluminam o mundo inteiro e o que tiver dentro dele?
Assim são os guias; podem baixar e inspirar vários médiuns em muitos lugares do mundo, levando para cada um a bênção de um trabalho que se fizer necessário.
Você pensa que pai Francisco do Cruzeiro das Almas só se incorpora comigo?
Pois afirmo a você que mesmo aqui nesta terra de meu Deus que é o Brasil ele já chega em muitos terreiros, minha amiga, e o que faz por nós aqui faz por muita gente por aí afora.
- Santo Deus, meu velho amigo, você é sábio demais!
De onde tira tanto conhecimento?
Um homem que pouco andou pelo mundo como pode saber de tantas coisas?
E para qualquer um ficar pensando nos mistérios de Deus.
Uma das velhas amigas que só ouvia a conversa dos dois interrompeu:
- Chico, posso lhe perguntar uma coisa?
Será que é possível quando a gente partir deste mundo se encontrar e viver junto de novo, trabalhando e sendo amigos como somos agora?
- Eu, nos meus poucos conhecimentos e entendimentos, acredito que a gente vem junto cumprir uma obrigação de vida e, quando partimos, continuamos trabalhando naquilo que demos início.
Então é possível que a gente se encontre e continue a vida de trabalho por esse mundo afora.
- Como é bom acreditar nisso!
Nunca quero ficar longe nem do senhor, nem do pai Francisco do Cruzeiro das Almas, que é a luz de meus olhos - respondeu a mulher.
Assim, ficaram trocando ideias até altas horas da noite.
Chico lembrava que não ouviam mais os gritos no mourão nem o estalar dos chicotes, tampouco as lágrimas das mulheres encolhidas na senzala sem saber se iriam ter de volta o ente querido vivo ou morto.
Essas lembranças eram como um pesadelo...
Graças a Deus, agora as noites eram de sonhos e sons de pássaros nocturnos, sapos e grilos.
Para os moradores da antiga fazenda azul e branca, as vozes do cativeiro agora eram o som dos tambores e dos cantos de alegria em louvor aos mentores espirituais.
E tio Chico, acendendo um cigarro de palha, ofereceu-o às mulheres, que o aceitaram.
Puxou uma garrafinha de vidro e uma caneca que tinha ganhado da mulher do ex-capataz, e convidou com um riso divertido:
- Vamos tomar um gole dessa cachacinha com ervas.
Vai fazer bem para as dores das juntas, além de ajudar na digestão.
Não precisamos sair correndo para dormir porque não temos mais hora para levantar.
Os coitados dos gaios estão cantando mais tarde, notaram isso?
Não precisam mais acordar ninguém.
E tomaram a erva amarga, continuando a pitar seus cigarrinhos.
Assunta, gargalhando de súbito à lembrança de algum fato, comentou:
- Chico, você lembra quando a gente disputava para lamber os copos sujos das bebidas dos senhores?
Para que aquilo, se a gente adivinhasse que hoje poderíamos beber o que a gente quisesse?
- Para você analisar, minha amiga Assunta...
Quando a gente se precipita, acaba fazendo besteira sem necessidade.
Quantos irmãos ficaram com raiva um do outro e deixaram de se falar por causa de um copo sujo!
Fizera-se uma pausa, cada um deles relembrando os momentos difíceis que haviam atravessado juntos.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 27, 2016 11:33 am

Estavam velhos, tranquilos e sossegados, gozavam de certa regalia, tinham quem fizesse tudo para eles.
O passado era visto como um pesadelo, um sonho ruim que não amedrontava mais ninguém.
Foi tio Chico quem cortou o silêncio:
- Que recompensa divina recebemos de Deus!
Já temos tantos filhos espirituais preparados; não precisamos mais nos preocupar em quem confiar tarefas tão sagradas.
O terreiro agora está todo pintado e enfeitado com aqueles tambores lindos; jovens, velhos e crianças, pretos e brancos bebendo a mesma água de coco na cuia de pai Francisco.
E bom demais!
Quando partirmos deste mundo, vamos transportar uma só bagagem:
o peso do agradecimento divino.
E por falar em partir, na idade que nos encontramos não é para se ter mais pressa para nada; devemos aproveitar bem o tempo, conversar, brincar e viver.
Devemos ficar mais tempo acordados, aproveitando a vida, que dormindo.
Tem alguém aqui com sono? - perguntou ele com uma risada.
Ao notar que as amigas também não tinham sono nenhum, prosseguiu:
- Bom, se ninguém vai dormir, vamos botar os assuntos em dia.
Você Assunta que sempre foi a mais bem informada, conte-nos as últimas notícias.
- Ah, tenho boas notícias sim.
O senhor vai ficar contente!
Fiquei sabendo que o filho de Antero com Arlinda, com tão pouca idade que tem, é dono de uma mina de ouro.
O senhor acredita?
- Acredito!
Ele estudou desde cedo e, sendo filho de quem é, tanto de um lado quanto de outro, só pode ser bom fruto.
Mas me conte toda a história dele.
Como gostaria de conhecer esse menino, que carrega no nome a força da oração das Chagas de Jesus!
- Soube que Arlinda teve outros filhos, assim como sabemos que Antero também teve.
Dizem que ele tanto planta algodão como cria ovelhas, e que está rico e ajudando a negrada.
Quantos anos deve ter esse menino da Arlinda?
Parece que foi ontem que ela saiu daqui.
Como pode o filho dela ser tão novo e tocar uma mina de ouro?
- Assunta - tornou tio Chico -, quando a gente fica velho, parece que os anos não passam.
Segundo as conversas que tenho com António Bento, já faz mais de vinte anos que Arlinda saiu daqui carregando Francisco das Chagas de Jesus no ventre.
Pense bem...
Para ter uma ideia, quando António Bento chegou aqui era solteiro.
Se ele já tem filhos moços, o filho de Antero já é um homem, concorda?
- Tem razão, velho Chico.
Eu é que me perdi no tempo.
- Seu Pedro me contou que nas minas desse rapaz tem mais de mil homens que eram escravos e capatazes, e que ele construiu casas boas para os trabalhadores nas proximidades da mina.
Segundo o Pedro me contou, o lugarejo é bem grande.
O senhor António Bento foi para as Minas Gerais.
Quando ele voltar, o senhor puxe este assunto com ele:
parece-me que o filho da Arlinda financia a compra das cartas de alforria dos negros que vão trabalhar com ele, e que os negros vão pagando devagar a liberdade ao trabalhar nas minas.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 27, 2016 11:33 am

E assim os amigos prosseguiram contando casos, até que, ao ouvir o galo cantando, uma das mulheres comentou:
- Acho que o galo se adiantou hoje.
Também, para que a gente quer saber da hora?
- Você está certa, a gente não quer saber da hora, mas o galo não se adiantou não - esclareceu tio Chico.
Dá uma olhada para o Cruzeiro do Sul!
O galo já cantou e o Cruzeiro já virou, e nada de o sono chegar para nenhum de nós.
Vamos aproveitar e observar como o céu está lindo.
Reparem como as estrelas cruzam o céu nesta hora; parecem trocar informações.
- Zulmira, mulher de Deus, por que está tão calada hoje? - indagou Assunta.
- Estava pensando na vida.
Cada dia que passa parece que a gente tem mais ansiedade em aprender; quer viver o presente, imaginar o futuro e apagar o passado.
Estava deixando para contar a novidade perto de a gente ir para a cama, se é que vamos ter sono, como disse o velho Chico.
Na idade em que nos encontramos não temos mais pressa para deitar nem precisamos dormir tanto.
- E qual é a novidade, Zulmira?
Estamos esperando - disse Assunta.
- Hoje fui visitar a mulher do professor Juca, nosso antigo capataz.
Ele enviuvou e se casou de novo.
Vocês são sabedores disso.
A mulher dele deu à luz uma menininha.
Levei aquele conjunto de lã que fiz para o bebé e tinha muita gente proseando por lá.
No meio da conversa, Juca soltou que ficou sabendo que nosso antigo senhor está aqui no Brasil, na fazenda de um parente.
Tomara que não resolva fazer uma visita para saber como a gente está.
Parece que está sozinho no mundo.
A sinhá, que Deus a tenha, com toda aquela posse e vida cheia de regalias, se foi, e nós estamos aqui, firmes como rochas.
Os filhos se perderam na vida.
A moça virou mulher de vida livre; disse o Juca que ela fez um pé de meia e sustenta o irmão, que se perdeu na bebida e no vício.
Fim triste dessa família.
Para quem tinha tanto orgulho e vaidade no coração, olhando as tristezas do passado, nossa vida hoje é um céu aberto.
Acho que muitos de nós aqui já passamos dos noventa, não é não, velho Chico?
E estamos aqui, firmes e fortes.
- Olha Zulmira, se tiver aqui entre nós alguém mais jovem do que eu, passa dos oitenta.
Mas não exagere dizendo que já estamos todos com mais de noventa!
Devo ser mais velho que Assunta cerca de cinco ou oito anos, e você e essas meninas aí devem ter setenta e nove, oitenta, por aí.
Depois desse comentário, todos ficaram em silêncio.
A notícia dada por Zulmira tivera o efeito de uma bomba.
Após alguns instantes, tio Chico voltou a falar:
- Gente, não vamos ficar pensando bobagens a respeito do nosso antigo senhor.
Se ele está por aqui, é um direito que lhe cabe; o mundo não é nosso, pertence a Deus.
E, como você ouviu Zulmira, ele já pagou um preço alto, não acha?
Nós ganhamos paz, tranquilidade, saúde, amor e liberdade, e talvez ele tenha perdido o que conquistamos.
Assunta teve um ataque de tosse; todas as vezes que ficava nervosa, passava mal.
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Re: Vozes do Cativeiro - Luís Fernando (Pai Miguel de Angola) / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 27, 2016 11:33 am

Quando se acalmou, respondeu:
- Tenho fé em Deus que esse espírito sem cor não vai aparecer por aqui.
Não suportaria reviver minhas dores olhando para ele e me lembrando de tantos que morreram com o corpo cheio de cicatrizes dos malditos chicotes com os quais ele mandava acoitá-los.
- Calma, Assunta!
O que é isso, mulher?
E de onde você tirou essa história de "espírito sem cor"?
- Pai Francisco diz que espírito não tem cor, que todos os bons espíritos têm luz.
Mas eu, quando falei pensando nele, imaginei-o sem cor mesmo!
Sem nenhuma luz em volta e coberto de fumaça negra, que é como ele deve ser.
- Assunta, você está cometendo um erro muito grande julgando um filho de Deus.
Com certeza, se ele distribuiu coisas ruins, deve ter guardado as boas, e quem sabe se agora ele não quer repartir isso com os outros irmãos?
- Chico, meu velho amigo, que Deus tenha misericórdia de minha alma tão pecadora e, se for de meu merecimento, que possa continuar do seu lado para iluminar a minha estrada e arrancar as pedras das minhas mãos quando já estiver pronta para atirá-las.
Acho que ainda preciso aprender muito e praticar de verdade a lei do perdão.
- Assunta, aquele senhor, ainda menino, era levado ao campo das lavouras e obrigado pelo pai a atirar pedras nos escravos que trabalhavam em silêncio.
Foi treinado para se tornar um senhor de escravos; era assim que os meninos fidalgos cresciam nas fazendas dos pais:
treinavam para se tornar torturadores.
Será que a culpa é apenas dele?
Pense nisso.
Ao se recolherem, a barra do dia já aparecia no céu.
Devia passar das três horas da manhã.
Tio Chico se deitou na cama.
Era um luxo só, na opinião dele.
Estirou as pernas e ficou olhando as restas que entravam no quarto.
Ficou ainda algum tempo fazendo suas orações.
Assim que adormeceu, saiu do corpo e encontrou pai Francisco, que o abraçou e o convidou para ir ao cemitério.
Faziam sempre este passeio.

Enquanto andavam, pai Francisco ia cantando pelo caminho:
Quantas saudades eu tenho,
Do tempo do cativeiro,
Não do sofrimento, Senhor,
Mas da felicidade que tive,
Ao lado dos meus companheiros,

Sou trabalhador,
Da ordem superior,
Sirvo ao nosso Pai,
Também sou um pecador,
Filho de Nosso senhor.


Tio Chico recebeu as instruções do amigo preto velho.
Apreensivo, reflectia sobre como os outros irmãos iriam receber aquela novidade trazida por pai Francisco.
Só lhe restava rezar e pedir a Deus muita protecção e sabedoria a todos.
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