Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 26, 2016 7:29 pm

Como num sonho viu, por entre suas pálpebras meio fechadas, Oxarat trazer um objecto que lhe pareceu um esqueleto humano.
Em seguida mestre Leonardo tirou do caldeirão a cera rosada e flexível, endureceu-a e aplicou-a ao esqueleto.
Depois ela perdeu os sentidos.
Sem prestar-lhe atenção, mestre Leonardo continuava o trabalho com uma rapidez fantástica.
Sob seus dedos, a cera obediente se moldava com uma incrível facilidade e logo ficou esculpido o corpo do seu modelo, estendido em sua frente como que adormecido.
Oxarat o ajudava, apresentando-lhe ora um pincel ou tintas, ora cinzéis e esmaltes.
Em último lugar o demoníaco artista incrustou nas órbitas, dois grandes olhos negros feitos de uma substância desconhecida, mas vivos até a ilusão.
Enfim, com o auxílio de Oxarat, mestre Leonardo aspou a cabeça de Leonor e colou tão habilmente seus cabelos louros na cabeça da estátua, que pareciam ter nascido ali, envolvendo-a com um manto sedoso e dourado.
Ele contemplou com satisfação sua obra verdadeiramente admirável.
Cada fibra da linda estátua parecia vibrar e palpitar.
Com não menos cuidado, vestiu a estátua de cera com uma túnica branca, pôs-lhe no pescoço um colar de pérolas e nos pulsos, braceletes.
Recuando um passo e examinando sua obra infernal, ele disse:
- Para ser perfeita, falta-lhe a vida.
Tentemos corrigir este último defeito.
Tocou com uma varinha a fronte de Leonor, cujos olhos se abriram desmesuradamente.
Ela contemplou com mudo estupor sua imagem que lhe sorria como reflectida num espelho.
Quanto à falta de seus cabelos, ela nada notou.
Leonor também não viu Oxarat trazer um trípode cheio de brasas, sobre as quais ele esvaziou um frasco de essência incolor.
Uma fumaça branca encheu o laboratório, exalando um cheiro sufocante.
A vertigem a retomou, ela sufocava.
Cascatas de centelhas fosforescentes turbilhonavam diante dos olhos.
Sentia seus membros se enrijecerem e o sangue subir-lhe ao cérebro fervendo.
Depois ela teve a sensação de que um vapor ardente emergia de todo seu corpo, condensava-se numa nuvem de um vermelho carregado, o qual, como uma onda de sangue precipitava-se para o corpo de cera, ficando ligado a ela por um fio de fogo.
Por um instante tudo turbilhonou em torno dela com uma tal violência que de novo perdeu os sentidos.
Voltou-lhe a compreensão e com ela a esquisita e indescritível sensação de penetrar num outro corpo, nele se esparramando de qualquer jeito e animando com vida e calor essa matéria estranha.
Um instante mais tarde, seu olhar dilatado de espanto percebeu seu corpo abatido e inerte na poltrona, cabeça raspada, o semblante lívido e contraído numa tensão mortal.
Notando que era pelos olhos da estátua que ela agora via, um rouco suspiro escapou de seus lábios.
Porém mestre Leonardo soltou um grito de triunfo.
Ele tinha terminado sua obra infernal e animado à matéria inerte com uma alma humana, exteriorizando o corpo perispiritual de Leonor.(1)
E colocando ainda no dedo da estátua animada um anel mágico, colando no pedestal que a suportava uma faixa de pergaminho, na qual ele escreveu:
"Naema", mestre Leonardo esfregou as mãos com satisfação.
E voltando-se para seu ajudante, afirmou:
- Agora, amigo Oxarat, é preciso levar para o quarto a bela Leonor, a verdadeira, e providenciar tudo para que ela não sofra nada durante a viagem que sua alma fará a Friburgo.
Oxarat que, num êxtase de admiração, se tinha prosternado e beijado os pés de seu amo, levantou-se imediatamente e correu a buscar uma espécie de maca de rodas, na qual estenderam o corpo inerte de Leonor, que Oxarat transportou em seguida para o quarto.
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 26, 2016 7:29 pm

Lá, ele chamou a anã que a servia e com sua ajuda deitou o corpo rígido e frio, cobriu-o com um cobertor, depois de lhe ter colocado na cabeça raspada um gorro de lã embebido numa essência fosforescente.
Feito isto, ele abaixou as cortinas de brocado do leito, bem como as que cobriam as janelas, acendeu carvões num trípode e entregando à anã um saquinho e um frasco, ordenou-lhe sob ameaça da mais severa punição, que entretivesse noite e dia uma defumação ligeira que manteria no quarto um perfume acre e vivificante.
Quando ele voltou ao laboratório, encontrou mestre Leonardo sentado, contemplando a estátua que parecia ainda mais bela do que seu modelo e desta admiração Oxarat participava sinceramente.
- Você me ouve? - perguntou-lhe depois de um silêncio, mestre Leonardo.
- Sim - respondeu como um sopro entre os lábios de cera.
- E qual é o seu nome?
- Naema.
- Sorria para mim, bela Naema.
Nos olhos estranhos, transparentes e luzentes como diamantes negros perpassou uma expressão como se do interior uma flama os iluminasse e um fugitivo clarão animou as pupilas, enquanto que um sorriso fraco e forçado franzia os lábios encarnados.
- Agora, Naema, desça e colha-me uma flor lá naquele vaso.
É preciso que você aprenda a manejar seu corpo de cera.
- Eu não posso, os pés não me obedecem - respondeu a voz baixa e velada.
Mestre Leonardo sorriu e erguendo os braços começou a dar passes na estátua da cabeça aos pés.
Um clarão fosforescente, semelhante a uma fumaça, parecia exalar-se de seus compridos dedos afilados, enquanto que uma ligeira tinta vermelha percorria os membros da estátua de cera.
Um pouco mais tarde, um dos pezinhos moveu-se e desceu do pedestal.
Com um passo um tanto automático, Naema dirigiu-se para o vaso e com sua mão rosada colheu uma flor que ela ofereceu a seu misterioso criador.
- Perfeito!
Podemos agora, minha linda, enviá-la a seu destino.
Vá, vingue-se sem ter medo nenhum.
Enquanto este anel mágico estiver em seu dedo, ele a protegerá e nada poderá destruí-la.
De resto, eu mesmo velarei incessantemente por minha bela esposa.
Enquanto ele falava, Oxarat empurrava para o laboratório uma comprida caixa de madeira com o interior forrado de cetim azul acolchoado.
Com precaução, colocaram nele o corpo de cera e o cobriram com uma leve gaze.
Leonor sentia-se cair num agradável relaxamento, uma estranha frescura percorria seus ombros, agora de uma leveza ainda desconhecida.
Nenhuma fadiga, nenhum temor a atormentava.
Quanto tempo durou esta inconsciência?
Ela não o podia dizer.
Vozes altas e a sensação de uma luz muito viva arrancaram-na do seu torpor e no mesmo instante um estremecimento percorreu todo seu ser.
A voz conhecida do homem amado acabava de dizer bem perto dela:
- Meu Deus! Quem me terá enviado este presente?
Leonor sentiu que a tiravam da caixa e a depunham no chão.
Ela se achava no pedestal, mas via tudo o que se passava.
Ao redor dela se comprimia uma multidão de damas e fidalgos ricamente vestidos, cujos olhos se fixavam curiosamente nela.
Na primeira fila ela viu Walter em traje de cerimónia, uma pesada corrente de ouro no pescoço, mas pálido e triste.
Perto dele, a senhora Cunegundes vestida de brocado carmesim.
Filipina em seu esplêndido vestido de noiva, coberta de jóias.
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 26, 2016 7:29 pm

Atrás deles, entre muitos magistrados, Leonor reconheceu os juízes que a condenaram impiedosamente.
À vista de todas as pessoas que destruíram sua vida e foram causa de sua maldição, uma onda de ódio encheu-lhe o coração.
O grupo fora arrancado da ceia pela chegada do estranho presente.
Pela porta largamente aberta da sala percebia-se no salão contíguo a mesa do banquete, carregada de cristais e pratarias, o pavão assado que lhe enfeitava o centro e as ricas jarras cheias de vinho.
A senhora Cunegundes celebrava pomposamente o casamento de seu filho.
Os convidados giravam ao redor da estátua esquisita, trocando comentários e suposições a respeito do doador.
Um jovem pintor chamado Raimundo, amigo de Walter, estava sobretudo admirado.
- Que obra divina é esta Afrodite - repetia ele apalpando com precaução a mão transparente da estátua.
Sim, deve ser Afrodite, a túnica o indica.
Ela é feita de cera, mas a perfeição do trabalho é tal que a acreditaríamos vivente.
E os cabelos, são verdadeiros!
Senhor Deus, quem pode ser o artista que criou esta obra-prima?
- E vejam que pérolas ela tem no pescoço e que braceletes!
No dedo um anel com um diamante negro!
É um presente de rei, senhor Walter - gritou uma das damas contemplando com inveja as jóias incomparáveis.
Somente Filipina não disse nada e seu olhar sombrio e rancoroso passava da estátua para seu jovem esposo, o qual não conseguia despregar os olhos do rosto dessa fascinante mulher de cera.
Verdadeiramente o coração de Walter batia de se romper, enquanto ele examinava os traços da mulher adorada e uma espécie de ciúme de que tantos olhos estranhos a admiravam, tomou-o de repente.
Voltando-se para dois criados, ordenou-lhes que transportassem a estátua para seu gabinete de trabalho e que a colocassem num nicho, no momento ocupado por um busto.
- Voltem a cear, caros amigos e convidados.
Irei logo que instalar em seu nicho a maravilhosa estátua - falou o fidalgo com um sorriso afável.
Mas logo que os convidados tomaram o caminho do banquete, o jovem correu atrás dos criados que transportavam o misterioso presente, que ele acabara de receber.
Logo Naema se achou instalada em seu nicho.
Os criados se retiraram, mas Walter, sentando-se numa cadeira, contemplou a linda estátua, cujos olhos fosforescentes no escuro, fitavam-no com uma expressão indefinível.
- Obrigado, quem quer que sejas, amigo desconhecido, que modelaste esta imagem maravilhosa de minha amada - murmurou o fidalgo.
Não lhe pudeste dar a expressão da pura e radiosa inocência que iluminava o doce semblante de Leonor, mas são seus traços, seus belos cabelos de ouro, que tantas vezes eu cobri de beijos.
Levantou-se bruscamente, aproximou-se da estátua e, pegando com as duas mãos as madeixas sedosas que a cingiam como um véu ondulante, nelas encostou seu rosto.
Porém imediatamente ele pulou para trás assustado:
parecia-lhe que uma mão acariciava sua face e uma voz doce e velada murmurava - "Walter".
Seu olhar correu pela estátua, imóvel na sombra do nicho.
Evidentemente ele sonhara, ou então sua imaginação o enganava.
Apressadamente ele deixou o gabinete.
Terminado o banquete enquanto as pessoas idosas se agrupavam para conversar e os jovens dançavam no salão ao som de flautas e oboés, e depois que Walter cumpriu o dever do primeiro número com sua mulher, Raimundo se reuniu a ele e dando-lhe o braço arrastou-o para o vão profundo do balcão que dava para a rua.
- Walter - murmurou ele, inclinando-se quase em sua orelha - é a estátua de Leonor que lhe enviaram?
Você a reconheceu como eu?
A expressão não está correta.
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 26, 2016 7:30 pm

Nos traços da estátua há qualquer coisa de altaneiro, de voluptuoso, direi quase de demoníaco, que não havia absolutamente em sua pobre noiva, mas é ela e, sobretudo, são os cabelos dela.
Penso que em todo o Reino não existe uma segunda cabeleira com este colorido e de tal opulência.
- Sim, é mesmo a imagem de minha pobre Leonor, que me ofereceu um amigo desconhecido - respondeu baixinho o fidalgo.
Infeliz criança, jamais me consolarei de não ter podido salvá-la e até minha morte, seu vulto ensanguentado se elevará entre eu e esta estúpida e insignificante criatura que minha mãe me forçou a desposar!
O jovem pintor apertou-lhe a mão.
- Sim, a senhora Cunegundes deu provas, neste negócio de uma tenacidade rara, e Filipina, de raríssima modéstia.
Salta aos olhos mesmo de um cego que você não a ama.
Quanto à pobre Leonor estou certo de que ela morreu no meio das torturas, e que a história de seu desaparecimento é uma simples invenção.
Sem isto, como o artista conseguiria seus cabelos?
Quero a respeito disso tentar uma investigação junto ao carrasco.
Sua filha, a bonita Hildebranda, me quer bem.
Mas antes de tudo, Walter, faço-lhe um pedido.
Você me permitirá desenhar sua estátua?
Encomendaram-me um quadro para o qual julgo não encontrar um modelo melhor do que esta fada de cera.
- Sem dúvida, concedo-lho com o maior prazer.
Venha dentro de alguns dias e desenhe tanto quanto você quiser.

(1) - Sem estar totalmente de acordo com o autor, seria o que a Doutrina Espírita denomina de agénere (N. da E.).
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Set 26, 2016 7:30 pm

IV - INFORTÚNIO DE RAIMUNDO

Terminada a festa, a brilhante sociedade se dispersou.
Os recém-casados retiraram-se para seus aposentos e a escuridão e o silêncio reinaram na casa.
Pela alta janela do gabinete de trabalho de Walter, projectava-se um largo raio de lua cheia, inundando com sua luz o carvalho escuro do forro da parede, o feixe de armas e a armadura do fidalgo perto da porta, mas o nicho no qual estava Naema permanecia mergulhado em escuridão profunda.
Súbito, um suspiro abafado escapou dos lábios de cera, e um arrepio de vida percorreu os membros da estátua.
Lentamente ela desceu de seu pedestal, deu alguns passos e, hesitante, parou em plena claridade da lua, bela e estranha como uma visão fantástica.
Cólera, angústia, amargura, embaralhavam-se na alma de Leonor.
O que poderia fazer ela, uma estranha, encerrada neste corpo de cera, para lutar contra a mulher que lhe arrebatara o noivo amado?
Desencorajada, ficou imóvel fixando os olhos na janela com um olhar distraído, quando de repente uma nuvem avermelhada moveu-se nos vidros, projectando seu clarão sangrento no solo e na túnica de Naema-Leonor.
E logo, desta nuvem saiu um vulto humano, e ela percebeu de pé, no rebordo da janela, a alta e fina estatura de mestre Leonardo.
A lua iluminava fortemente seu traje preto, sua cabeça pálida e os grandes olhos esverdeados que dardejavam sobre ela um olhar escaldante e imperativo.
- Em que você está pensando em lugar de agir?
Vá e arranque o homem que você ama dos braços da mulher que lho tomou!
Não se esqueça, Naema, de que você é uma serva do mal, que você deve fazer o mal e jamais ficar inactiva.
Os sofrimentos que você infligir aos outros é que serão sua seiva vital e seus gozos.
O clarão vermelho empalideceu, o vulto humano se desfez como uma bruma ligeira, mas todo o ser de Naema estremeceu e sacudiu-se como sob o sopro de um golpe de vento.
Depois, como que animada de vida e de resolução novas, ela se dirigiu rápida para a saída, percorreu um longo corredor e encaminhou-se directamente para o quarto do casal.
A porta estava fechada, mas ao toque do dedo de cera ela se abriu sem ruído.
Naema ergueu o reposteiro e parou na soleira.
Ao suave clarão de uma luzinha, ela viu Walter sentado numa poltrona.
Diante dele, de costas para a porta, Filipina ajoelhada, vestida com uma camisola branca.
Ela abraçava o pescoço do marido que, pálido e mudo, ouvia as palavras carinhosas e cheias de amor, que ela lhe dizia.
Um sentimento acre e ardente atravessou como uma flecha o coração de Leonor.
Todo seu ser palpitava de ciúme e de ódio contra esta mulher que lhe tinha roubado tudo.
Se neste instante ela pudesse com seus dedos de cera estrangular Filipina, ela o faria com alegria.
Mas pelo menos, não lhe cederia o coração de Walter, ela o defenderia como sua propriedade legítima e somente a ela, a renegada, ele amará doravante!
Sim, ela o quer e assim será.
Não era em vão que vendera a alma às potências infernais.
Dando um curto passo à frente, Naema ergueu a mão e no mesmo instante os olhos do fidalgo se voltaram para ela e se fixaram, pasmados, na branca aparição que se apresentava a alguns passos dele, em toda sua estranha e misteriosa beleza.
Vendo a aparição fazer sinal de segui-la e depois desaparecer nas dobras do reposteiro, Walter saltou da cadeira e livrando-se dos braços que lhe enlaçavam o pescoço, repeliu bruscamente Filipina e lançou-se fora do quarto.
No corredor ele percebeu uma sombra branca que parecia deslizar em sua frente e que desapareceu em seu gabinete de trabalho.
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 27, 2016 7:14 pm

Walter aí entrou em seguida e trancou a porta.
Queria estar só.
Os acontecimentos da noite o tinham perturbado e ele não duvidava que a alma penada de sua pobre noiva acabava de lhe aparecer, pobre infortunada, assassinada Deus sabe onde e como, privada de uma sepultura cristã!
Soltando um profundo suspiro, ele deixou-se cair numa poltrona perto da janela e cobriu o rosto com as, mãos.
Um leve suspiro e o contacto em sua face de dedinhos afilados fizeram-lhe erguer a cabeça.
No mesmo instante, seu coração deixou de bater e seus cabelos se eriçaram de pavor.
Sentada no braço da poltrona estava a linda estátua de cera, sua Leonor adorada.
Agora ele a reconhecia bem.
Era seu olhar amante, seu sorriso tão, doce e tão acariciante.
Inclinava-se sobre ele, enlaçando-lhe o pescoço em seu braço diáfano, cobrindo-o com as madeixas sedosas de seus cabelos de ouro.
Ela mergulhava nos olhos dele um olhar cheio de amor, enquanto que de seus lábios entreabertos escapava-se um hálito ardente que perturbava e embriagava Walter.
- Minha querida, como você veio aqui?
Como você escapou da morte? - balbuciou ele todo trémulo.
Oh! fale-me, dê-me a certeza de que não estou louco, que não sou vítima de uma miragem enganadora, que é mesmo você que está aqui e não a estátua de cera que mandei colocar neste nicho!...
- Meu Walter, não pergunte de onde venho, nem o que me tornei.
Contente-se em saber que eu o amo com todas as forças de minha alma e que eu vivo para você.
Veja, meu corpo é macio e tépido, meus lábios quentes, meus cabelos sedosos como outrora.
Mas o sentimento que você me inspira tornou-se diversamente poderoso, - porque aprendi a sentir como eu nunca supunha que pudesse sentir.
Não tenha medo de mim, mas não procure jamais aprofundar o mistério que esconde meu ser sob esta figura de cera.
Era preciso tomar uma forma que me permitisse chegar até você sem que sua mãe e Filipina, sua cúmplice, pudessem denunciar-me ao carrasco.
Ela contou-lhe brevemente a intriga tramada pela mãe e pela mulher de Walter para destruí-la e continuou:
- Se me encontrassem em carne e osso, arrastar-me-iam à fogueira.
Tenho, portanto, que me ocultar para estar junto de você, para reclamar o que é meu: seu coração.
E para estabelecer-me em sua casa e reservar-nos estas venturosas noites em que gozaremos da felicidade de entregarmo-nos inteiramente um ao outro.
Agora, meu Walter, jure-me jamais pertencer à mulher detestável que me atirou no abismo...
Diga-me que você não tem medo de mim e que me ama ainda.
Embriagado, cego, esquecendo tudo excepto a paixão que lhe fervia dentro, Walter atirou-se em seus braços e colou seus lábios aos da jovem mulher.
- Se eu a amo?
Mas nunca deixei de amá-la!
Somente a você pertenço de corpo e alma.
E pouco me importa que você seja de carne e osso ou de cera, já que você está viva e não mais temerei que o carrasco venha arrancá-la de meus braços.
Jamais, eu lhe juro, jamais a mulher odienta que traz o meu nome, gozará da menor parcela de meu amor.
É para você que eu serei o esposo mais terno e mais fiel, a você pertencerão todas as minhas horas de liberdade, estas horas embriagadoras que nenhum inimigo não mais poderá perturbar.
Ele apertou contra si a estranha e misteriosa criatura e contemplando-a com adoração, acrescentou:
- Você é linda de fazer um pobre mortal perder a razão, minha Leonor!
- Não me chame jamais de Leonor, poderiam ouvir e procurariam destruir-me.
Trago agora o nome de Naema.
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 27, 2016 7:14 pm

- Bem, querida, o nome pouco importa, contanto que seja você quem o traz, você, minha noiva, minha esposa, o sol de minha vida!
As horas da noite escoaram-se como um sonho embriagador.
Nunca em sua vida Walter experimentara uma tão ardente e fogosa paixão como a que lhe inspirava esse ser enigmático.
E somente aos primeiros clarões da aurora, ele adormeceu, embalado mesmo em seu sono por visões estridentes e tentadoras.
Batidas violentas dadas na porta despertaram Walter e quando ele se levantou em sobressalto da poltrona, viu que era tarde e que o sol enchia o gabinete com seus raios.
O moço esfregou os olhos.
As recordações da noite lhe vinham em tropel e seu olhar procurou ansiosamente o nicho.
Lá em seu pedestal, erguia-se radiante a maravilhosa estátua.
O sol brincava em seus cabelos rutilantes, nos diamantes das presilhas e dos braceletes, e os lábios róseos pareciam sorrir-lhe.
Walter correu para a estátua e imprimiu em seu ombro descoberto um beijo longo e ardente.
Pareceu-lhe a este contacto sentir sob seus lábios o estremecimento da carne e um sentimento de inefável felicidade o invadiu.
Um bater reiterado na porta o chamou à realidade e de sobrancelhas franzidas ele abriu.
Imediatamente a senhora Cunegundes, de rosto vermelho, com os olhos chamejantes, irrompeu no gabinete e gritou com voz aguda e trémula de cólera:
- Você ficou louco para fazer um tal escândalo sem mais nem menos?
Com que direito você ofende tão cruelmente a inocente criança, cheia de amor por você?
Você se afasta dela e foge para passar sua noite de núpcias encerrado aqui?
É um ultraje sem causa que você faz a toda a família de Filipina, a seu venerando pai e a ela mesmo!
A pobre criança que não compreende nada de sua conduta chora de romper o coração.
Walter encostara-se na poltrona e com os braços cruzados escutou sua mãe sem interrompê-la.
Vendo-a parar para tomar fôlego, respondeu num tom gelado e hostil:
- A senhora não tem razão, minha mãe, de me fazer censuras.
Não podem forçar um homem a amar uma mulher, mesmo se chegam a fazê-lo desposá-la.
E quanto à Filipina, eu lhe disse francamente que não a amo e que ela me seria sempre indiferente.
- Mas isto não é justo.
Desde o instante em que você consentiu em desposá-la, deve aceitar todas as consequências de sua nova posição.
- Era minha intenção, mas ao consentir nesta união que me repugnava, eu não sabia que a senhora e ela foram às instigadoras da odiosa intriga que custou a vida da minha pobre Leonor e que o ouro dos Küssenberg serviu para pagar os vis mentirosos que pelas suas declarações caluniosas levaram ao massacre toda uma família inocente.
Se outrora Filipina me era indiferente, agora eu a odeio desde o instante em que eu soube da participação que ela teve na morte de minha noiva adorada.
E vocês duas responderão diante da justiça divina pelo sangue inocente, derramado por sua culpa e que cairá sobre ambas.
A senhora Cunegundes recuou pálida e de punhos cerrados.
- Calúnia! Quem ousou caluniar assim sua mãe e sua mulher?
- Calúnia?- observou Walter com desprezo, mencionando alguns detalhes que confundiram a senhora Cunegundes, e aumentaram sua raiva.
- Não somente esta miserável feiticeira o enfeitiçou com algum filtro diabólico, mas ainda sem dúvida insinuou-lhe suspeitas contra sua própria mãe!
Uma leve crepitação, que parecia vir do nicho, interrompeu-os, mas a estátua estava imóvel em seu pedestal e somente o véu ondulava como que agitado pela brisa.
Todavia foi sobre ela que se abateu a cólera da senhora de Küssenberg:
- Eu bem queria saber qual foi o brincalhão de mau gosto que teve a impertinência de enviar-lhe esta hedionda boneca de cera, que se assemelha à feiticeira.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 27, 2016 7:14 pm

Semelhantes estátuas de traje pagão e de expressão escandalosa ficam deslocadas numa casa cristã e honrada.
Você deve vendê-la o mais depressa possível ou dar de presente esta obra impudica.
- Nunca! - gritou Walter postando-se diante da estátua como para defendê-la.
Destruir esta admirável estátua seria um acto de vergonhoso vandalismo e sou muito reconhecido ao amigo que me ofertou esta inimitável obra-prima.
Neste momento uma gargalhada estridente e prolongada se fez ouvir na rua.
A senhora Cunegundes debruçou-se vivamente para ver quem ria assim sob sua janela e viu um cavaleiro que fazia galopar seu fogoso corcel preto na porta da casa.
Seu rosto pálido se ergueu para ela e o riso sinistro que escapava de seus lábios lhe causou arrepios.
- Peço-lhe, minha mãe - acrescentou Walter que não voltes mais a estes dois assuntos que acabamos de tratar.
Todas suas persuasões serão vãs e me levarão somente a medidas penosas para a senhora.
Saiba que jamais eu me separarei desta maravilhosa estátua de cera e que do mesmo modo recuso-me a ter relações mais íntimas com Filipina.
Entre nós se ergue um passado criminoso e a sombra sangrenta da pobre Leonor.
Preciso de tempo para poder esquecê-la, para vencer a repugnância que Filipina me causa e perdoá-la.
Diante do mundo, eu lhe prestarei todas as honras devidas à uma esposa, mas na intimidade permaneceremos estranhos um ao outro.
E agora pare com discussões inúteis e venha tomar a refeição da manhã.
Tranquilo e interiormente feliz, ele se dirigiu à sala de jantar.
O que lhe importava sua mãe e mesmo Filipina?
Seu coração estava ocupado apenas por Naema.
Taciturna, carrancuda, os olhos inchados de tanto chorar, a jovem senhora de Küssenberg veio sentar-se à mesa sem cumprimentar seu marido, mas este não pareceu absolutamente afectado pela falta de atenção.
Bebeu e comeu de alma tranquila, e somente quando o almoço terminou é que se voltou para a jovem esposa dizendo com frieza:
- Toda má acção, senhora Filipina, é punida cedo ou tarde.
Destruindo e entregando ao carrasco Leonor Lebeling, você pensava achegar-se a mim.
Você conseguiu apenas repelir-me.
Mulher impudica e sem coração, você passou por cima de três cadáveres para subir o leito nupcial e disto não me esquecerei por muito tempo.
Ergueu-se, esvaziou um copo de vinho e sem lançar um olhar para Filipina, pálida e consternada, virou as costas e saiu.
Mandando selar o cavalo, deu um longo passeio, sonhando com a noite e devorado pela impaciência de rever Naema.
Voltou e após o jantar servido, Walter disse à sua mãe que decidira arrumar o quarto de dormir num cómodo junto ao gabinete de trabalho e cheio no momento de arcas e armários.
A senhora Cunegundes ficou escandalizada.
Abandonar assim o quarto nupcial era dar à publicidade o segredo de sua incompatibilidade com a mulher.
Ela esbravejou, rogou, suplicou, quis opor-se pela força a esta mudança, mas Walter permaneceu inflexível e apesar das invectivas de sua mãe, dos soluços e reproches de Filipina, o cómodo foi esvaziado e posto em ordem.
Só que o fidalgo não levou nenhum objecto do quarto de sua mulher.
O velho Gaspar, o fiel criado, trouxe do celeiro uma cama que já estava armada, bem como algumas cadeiras.
Um judeu que fazia todo serviço e traficava com objectos inimagináveis, veio discretamente ao cair da tarde, colocou cortinas no leito, um lampião no tecto, arrumou tudo e quando a noite chegou, o cómodo estava pronto e transformado num aposento elegante e confortável.
Furiosas e desoladas, Cunegundes e Filipina trocaram ideias.
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 27, 2016 7:15 pm

Como agir em tão extraordinárias circunstâncias?
Nem uma nem outra duvidava que Walter fora vítima de novo sortilégio.
Era preciso descobrir o feitiço e destruí-lo, mas para isso necessitavam de tempo e de prudência, porque na época em que viviam, a feitiçaria era uma questão perigosa, na expressão da palavra e ninguém podia saber se, de acusador, não tornaria acusado e em que findaria um inquérito a tal respeito.
As duas mulheres decidiram então calar-se para o momento, observar e ocultar tanto quanto possível para os estranhos o que se passava entre os recém-casados.
Não dando nenhuma importância ao que pensavam sua mulher e sua mãe.
Walter se fechou no quarto e acendeu as velas de dois candelabros.
Depois, sentando-se numa poltrona diante do nicho, fixou os olhos na estátua pensando, todo palpitante, se ele não tinha sido um louco, se verdadeiramente esta estátua lhe tinha falado e depositado nos seus lábios, beijos embriagadores.
Como Naema não se mexesse, ele fechou os olhos.
Talvez ela não quisesse que ele a visse descer, mas seus ouvidos superexcitados procuravam apanhar o menor ruído.
Walter não ouviu nada, mas de repente um hálito tépido e perfumado acariciou-lhe a face e uma mão se apoiou em seu braço, enquanto que a voz brincalhona de Leonor lhe perguntava:
- Você dorme, belo fidalgo?
Sem responder, Walter estendeu os braços e apertou contra o peito a estranha mulher de cera, neste momento ágil e flexível como uma cobra.
À claridade das velas, ele notou que o pedestal no nicho estava vazio.
Depois, examinou curiosamente a estranha criatura deitada em seus braços.
Seu busto de cera palpitava, os olhos de esmalte lhe sorriam e lábios rosados lhe falavam de amor e felicidade que não tinham passado nem futuro, mas apenas o presente e este era tão embriagador, que fazia esquecer todo o resto.
* * *
Alguns dias mais tarde o jovem pintor Raimundo veio, como lhe havia permitido Walter, começar a desenhar a estátua.
Rolaram o pedestal para o meio do gabinete e Raimundo pintou Naema de frente, de perfil, de costas, não se cansando de admirá-la e de se extasiar pela perfeição das formas desse corpo belo, que se percebia nitidamente através da gaze leve que o cobria.
- Veja, Walter, há alguma coisa de esquisito nesta estátua, - observou ele um dia.
Por vezes parece-me que ela respira, que a cera se agita e palpita e no meu estúdio, quando trabalho por estes desenhos, dir-se-ia que eles se animam e que é uma mulher vivente que posa diante de mim.
Assim penso não ter feito nada de tão belo, de tão completo como essa Afrodite.
Venha ver meu quadro e você se convencerá. Walter sorriu e prometeu.
Alguns dias mais tarde ele foi ao estúdio do pintor.
Encontrou-o radiante.
Não somente Afrodite já achara um comprador, mas nesta mesma manhã um dos cónegos da catedral encomendara a Raimundo um quadro da Anunciação e como a cabeça do pintor estava cheia apenas de seu extraordinário modelo, ele explicou ao fidalgo que seria também Naema que representaria a Santa Virgem.
Somente que ele daria ao rosto a expressão pura e doce que tivera a falecida Leonor.
Walter admirou o quadro começado e não achou nada a dizer do novo projecto do amigo.
Tudo de resto lhe era indiferente fora da louca paixão que lhe inspirava a estátua de cera.
Desejoso de terminar o mais rapidamente possível o quadro de Afrodite, Raimundo trabalhava com ardor, mas notava com espanto que nunca um trabalho seu se adiantou tão depressa.
O pincel parecia fazer um trabalho duplo, as cores se colocavam como por si mesmas e ainda nunca o que ele pintara antes tivera esta intensidade de vida.
Era a própria natureza que parecia palpitar na tela.
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 27, 2016 7:15 pm

Todavia ele julgou de bom alvitre levar ao cónego um esboço ou dois do quadro encomendado, para discutir com ele as minúcias desejadas e, com esta intenção, o pintor foi uma manhã à casa do fidalgo de Küssenberg.
Este se dispunha a sair a negócios, mas autorizou seu amigo a ficar no gabinete e fazer quantos desenhos quisesse.
Depois de bom almoço, Walter saiu e Raimundo, sentado na poltrona perto da janela, se pôs a desenhar, tendo colocado o pedestal em plena luz.
Apenas o jovem pintor começava a rascunhar a cabeça da Virgem, um arrepio nervoso sacudiu-lhe os pés e as mãos, e um golpe de ar gelado lhe tocou o rosto.
Espantado, ergueu a cabeça e tremeu de assombro e terror vendo os olhos de esmalte da estátua fixá-lo com um olhar sombrio e irritado.
Ao mesmo tempo Raimundo sentiu um sufocante cheiro de enxofre e meio asfixiado, paralisado, incapaz de fazer um movimento, ele se abateu na poltrona.
Apesar deste torpor e da vertigem que o tomou, ele viu distintamente a estátua mover-se no pedestal, seus lábios se entreabriram e ouviu uma voz metálica e velada pronunciar estas palavras:
- Se tens amor à vida, não ouses jamais dar a ela uma semelhança comigo, porque eu sou uma alma renegada, eu sou Naema, a esposa de mestre Leonardo.
Por toda outra obra em que reproduzires meus traços, eu te darei a glória e a riqueza.
Mas toma cuidado em não divulgares às almas viventes o que acabas de saber; minha vingança será terrível.
A mão de cera se ergueu, parecia que uma chama jorrou-lhe dos dedos rosados e afilados e subitamente tudo girou ao redor de Raimundo.
Ele sentiu-se rolar num abismo negro e perdeu a consciência.
Quando ele reabriu os olhos, Walter, pálido e ansioso, se inclinava, passando-lhe no rosto um pano de linho molhado n'água.
- Pelos céus!
O que aconteceu?
O que significam esta tela queimada e o seu desmaio? - perguntou o fidalgo, ajudando seu amigo a erguer-se.
Este lhe endereçou um olhar estranho:
- Walter, se você tem amor à alma e à sua salvação eterna, afaste esta terrível mulher de cera.
Enquanto ela estiver aqui, não porei os pés em seu gabinete.
- Fale então mais claramente o que você sabe sobre esta estátua?
Porque você a teme? - perguntou-lhe Walter empalidecendo.
- Eu não posso falar.
Apenas repito:
afaste esta medonha estátua.
E agora, adeus!
O chão queima-me os pés.
E o pintor partiu deixando a tela queimada totalmente no centro.
Tomando contacto com o ar fresco, Raimundo sentiu dissipar-se o peso de chumbo que lhe pesava nos ombros, e serenado de corpo, mas perturbado de espírito, entrou em seu estúdio e sentou-se diante do quadro quase terminado de Afrodite.
Ele tivera a ideia de representar nela, o símbolo da eterna beleza tal como aparecia à humanidade, para enobrecê-la e com uma admiração apaixonada, contemplou sua obra.
O plano esquerdo do imenso quadro era ocupado por uma praia pedregosa, bordada ao fundo por rochas.
Os raios do sol levante inundavam de ouro e púrpura as ondas que se quebravam na areia e de uma destas ondas, mais alta do que as outras, e coroada de espuma branca tingida de rosa surgia a deusa, esplêndida e triunfante em sua soberba nudez.
Um sorriso voluptuoso entreabria os lábios púrpuros, os olhos sorriam e a brisa da manhã erguia seus cabelos de ouro como uma auréola.
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 27, 2016 7:15 pm

Na atmosfera transparente, tão leves e vaporosos que pareciam tecidos de ar e de luz, flutuavam os espíritos dos elementos, rodeando e ataviando a deusa. Um zéfiro penteava-lhe os cabelos com um pente dourado, um outro lhe oferecia pérolas, um pequeno Eros prendia em sua testa uma estrela chamejante e as sereias cantavam sua beleza.
Na praia via-se ajoelhado um homem que, braços erguidos e cheio de êxtase, admirava a eterna beleza que acabava de nascer para brilhar para sempre diante da humanidade deslumbrada, como uma visão longínqua e tentadora.
Mas o que fazia deste quadro uma verdadeira obra-prima, era a perfeição do trabalho.
Era como se o espectador aspirasse à brisa matinal, o aroma acre e fresco do oceano.
As ondas pareciam marulhar no bordo da tela e as gotículas de água que orvalhavam a pele acetinada da deusa, resplendiam ao sol como verdadeiros diamantes.
Quanto mais Raimundo contemplava sua obra, mais a admirava.
Afrodite, sobretudo o fascinava.
Parecia-lhe que seu lindo corpo palpitava, docemente embalado pelo roda moinho das ondas e que seus olhos lhe sorriam.
Esqueceu que o que ele via era uma criação de seu pincel, não uma mulher viva e uma fogosa paixão acendeu-se em sua alma intumescendo-lhe o coração de impetuosos desejos.
No estranho e mudo êxtase que acabava de tomá-lo, o pintor perdeu completamente a compreensão da realidade.
Um mundo fantástico surgia ao redor dele.
Era ele próprio que se achava sentado na praia pedregosa.
A alguns passos de si marulhava o mar e as vagas se quebravam contra as rochas da costa.
Um vapor húmido molhava seu rosto escaldante e do abismo surgiam monstros aquáticos que o fitavam curiosamente.
Parecia que sereias com corpo de peixe, de cabelos verdolengos, brincavam na praia e nas ondas em que batiam com a cauda.
E lentamente, balançando voluptuosamente seu corpo esplendente de brancura, avançava para ele, Afrodite.
Ao redor dela surgiam enormes sapos, peixes odientos e imensos pássaros negros voejavam ao redor dela com gritos lúgubres.
Subitamente as sereias e os pássaros rodearam Raimundo, dançando uma sarabanda infernal, entoando um canto discordante cujos sons agudos se misturavam com o rugir das vagas, ao soprar de um vento de tempestade.
O céu se tornou negro e, num crepúsculo sem cor, rasgado de relâmpagos, o pintor viu a deusa flutuar acima da água negra e agitada.
No mesmo instante, a massa negra que formigava ao redor, apanhou-o e arrastou-o ao encontro de Afrodite.
Ele sentiu a água molhar-lhe os pés e submergir-lhe o corpo.
Flocos de espuma chicoteavam-lhe o rosto.
Bruscamente, os braços da deusa o enlaçaram, apertando-o contra o dorso frio e escorregadio como a pele de uma serpente.
Lábios gelados se colaram aos seus e um beijo sufocante lhe tirou a respiração.
Terror e angústia se apoderaram de Raimundo.
Vagamente, ele se debatia procurando furtar-se deste pavoroso abraço.
De repente, ele gritou com fervor:
- Senhor Jesus, meu misericordioso Salvador, ajuda-me!
Quase que instantaneamente, os seres fantásticos que o rodeavam e com eles Afrodite, se engolfaram numa nuvem avermelhada que se elevava do mar.
Ele próprio se sentiu repelido, com força, caiu sobre qualquer coisa de frio e de duro e reabriu os olhos.
O pintor encontrou-se estendido no solo banhado de suor, os membros como que quebrados.
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 27, 2016 7:15 pm

Era noite ainda, mas a aurora já se anunciava por uma faixa clara no horizonte e um crepúsculo cinzento.
Raimundo se levantou com dificuldade, acendeu uma vela e retomou o lugar diante do cavalete.
Ao seu redor tudo estava calmo e silencioso.
Afrodite parece que o fitava com seus olhos límpidos, sorrindo com sorriso voluptuoso e provocante.
- Uff! Que horrível e diabólico pesadelo!
Verdadeiramente, esta figura da mulher de cera é tão espantosa e perigosa como seu abominável modelo.
Mas espera, filha do inferno, eu vou domar-te - resmungou Raimundo.
Tomando sua palheta e molhando um pincel na cor vermelha, ele traçou rápido como o pensamento, um crucifixo na mão erguida de Afrodite.
No mesmo instante um abalo violento sacudiu a casa.
Ao redor de Raimundo tudo ruía.
Gritos e rugidos se misturavam ao barulho.
Depois, levantou-se diante dele uma cabeça com os olhos fora das órbitas.
Um punho de dedos aduncos caiu sobre ele, fazendo-o rolar no chão.
Inesperadamente e com uma rapidez vertiginosa, nuvens negras se acumularam sobre Friburgo, uma tempestade se desencadeou e um raio veio ferir a casa do pintor.
O relâmpago pôs fogo na tapeçaria do estúdio.
Celeremente o incêndio se propagou e logo a velha casa ardeu totalmente, ameaçando de destruição todo o quarteirão.
Durante esta mesma noite, Walter como sempre, entregava-se ao amor com sua bela amiga, quando de repente ele a viu agitar-se e gritar com compaixão:
- Pobre Raimundo, eu lhe trouxe infortúnio!
Como ele está atormentado!
Oh! fatal, fatal beleza!
Cruel Leonardo!
Ela se calou visivelmente inquieta e ficou muito tempo sem falar.
Depois desapegando-se dos braços de Walter, correu a agachar-se junto à parede, erguendo o braço para se proteger contra um projéctil invisível.
O anel mágico cintilava em seu dedo.
Os feixes de raios multicores que emergiam da pedra negra tomaram de repente a forma de um triângulo de fogo.
No mesmo instante apareceu como que furando e fendendo a parede, uma cruz luminosa que veio chocar-se na ponta do triângulo incandescente, girou um momento sobre si mesma e fundiu-se na atmosfera.
O triângulo então empalideceu e desapareceu.
Naema retomou seu lugar no nicho e mandou que Walter deixasse o gabinete.
O jovem obedeceu silenciosamente.
Contra sua vontade um arrepio de medo supersticioso sacudiu-o e este sentimento se mudou em angústia e terror quando, uma hora mais tarde, o som dos sinos anunciou que uma catástrofe ameaçava a cidade.
Walter atirou-se para a rua e com a multidão estupefacta que corria de todos os lados, achou-se logo diante da casa abrasada de Raimundo.
O jovem pintor, arrancado das chamas por um fiel criado, jazia na rua inconsciente.
Uma chuva torrencial veio pôr fim ao incêndio e ao perigo que ameaçava a cidade, mas as chamas tinham devorado o quadro de Afrodite e tudo o que a casa continha.
E quando depois de longos esforços conseguiram chamar Raimundo à vida, ele não reconhecia ninguém.
Com olhar vazio e espantado, ele ficou acocorado, resmungando a palavra estranha e desconhecida para o povo:
"Naema".
O médico declarou que, ferido pelo raio, o jovem perdera momentaneamente a razão.
Sombrio e pensativo, Walter entrou em casa.
O infortúnio do amigo produzira sobre ele uma profunda impressão e a coincidência dessa catástrofe com a estranha visão da noite, sua relação evidente com qualquer coisa havida entre Naema e Raimundo, deram o que pensar ao jovem fidalgo e lhe inspiraram, mau grado seu, um temor supersticioso.
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 27, 2016 7:15 pm

V - JULGAMENTO E CONDENAÇÃO

Fiéis aos planos que se traçaram, Filipina e Cunegundes observavam Walter, procurando descobrir o sortilégio que, segundo a convicção delas, era a causa da humilhante indiferença que ele demonstrava para com sua mulher, indiferença da qual esta procurava incessantemente vingar-se.
O facto do jovem se trancar toda noite no gabinete onde se achava a estátua e dormir ao lado atraiu vivamente a atenção das duas mulheres.
E com instinto de ciúme e ódio, Filipina supôs no corpo de cera, cujo semblante tinha os traços de sua rival, uma obra de magia e uma inimiga.
Ela pensou em destruir a estátua, mas como?
Walter ausentava-se pouco e de hábito, quando saía, o velho Gaspar guardava os aposentos de seu amo.
Ele não consentiria em absoluto que tocassem na obra de arte que o fidalgo prezava tanto.
Um dia, contudo, que Walter saíra e Gaspar estava ocupado na estrebaria, Filipina conseguiu chegar até o gabinete de trabalho.
No nicho, Naema reinava em seu pedestal, radiosa e impassível.
Com um olhar rancoroso, Filipina a examinava.
Sim, ela era linda, mas era apenas uma boneca de cera, ela não podia rivalizar com uma mulher de carne e osso.
Todavia uma convicção íntima dizia à jovem que era nesta boneca que se escondia o sortilégio.
Seu olhar rancoroso que corria pela estátua parou de repente no colar que ela trazia e as pérolas de grossura enorme e de incomparável brilho, excitaram sua inveja.
Alçando-se na ponta dos pés, ela tentou tirar o colar, mas as pérolas pareciam fortemente coladas à cera, que lhe foi impossível destacá-las.
Com cólera ela recuou e no mesmo instante percebeu o anel que ornava o dedo da estátua.
O diamante negro flamejava lançando feixes multicores.
- Eis uma jóia bem supérflua para uma senhora de cera - resmungou Filipina e pegando ousadamente o anel, tentou retirá-lo, com risco de quebrar o dedo frágil que o usava.
De súbito, os olhos de esmalte se animaram, dardejando sobre ela um olhar de ódio mortal.
Depois, a mão de cera empurrou a jovem paralisada de medo e os dedos rosados apertaram seu punho como pinças de ferro em brasa.
A dor provocada por este aperto foi tal que Filipina desmaiou.
Quando voltou a si, ela se viu estendida no chão.
A estátua estava em seu lugar no nicho, mas a dor que continuava a queimar-lhe o braço, provava que ela não tinha sonhado.
Contudo, nenhum traço visível havia na pele.
Cheia de horror, Filipina fugiu e contou o facto à sua sogra.
A senhora Cunegundes se persignou, muito emocionada, mas suplicou à sua nora que se calasse sobre o incidente, visto que isso podia dar lugar a suspeitas de feitiçaria pouco agradáveis para a família.
- Nós mesmas, eu o espero, conseguiremos quebrar o feitiço; porque começo a perceber onde está a chave do encantamento de Walter, - disse a velha senhora com convicção.
- Veja, Filipina - continuou ela, - o rosto de cera traz os traços da feiticeira maldita e foi de seu cadáver que alguém cortou os cabelos colados na cabeça da estátua.
Por conseguinte esteja certa de que é nos cabelos, tirados de seu próprio corpo, que está o feitiço.
Mas veremos se ele resistirá à cruz e à água benta.
A ocasião de tentar este exorcismo não se fez esperar.
Convidado por um primo que festejava o baptismo de seu primogénito, Walter teve de ir sozinho a essa festa, porque pretextando indisposição, sua mulher recusou-se a acompanhá-lo.
Quando a noite chegou e a maior parte dos criados estava deitada e adormecida, as duas mulheres se puseram a agir.
Filipina carregava um círio bento e precedia sua sogra a qual numa das mãos trazia uma caldeirinha de água benta e recitava uma ladainha.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 27, 2016 7:16 pm

Na porta do gabinete de trabalho, Filipina parou e murmurou com voz estrangulada:
- Oh! O círio se torna tão pesado que eu mal consigo arrastá-lo e os cabelos me arrepiam na cabeça.
- Recite uma ave-maria e entre.
Você julga que os demónios nos abandonarão a praça sem combate? - respondeu a senhora Cunegundes que era enérgica de natureza e estava tão cheia de raiva contra a estátua, que ela tentaria uma batalha contra o próprio mestre Leonardo.
O gabinete estava fracamente iluminado por uma luz pousada na mesa, perto da cama de Walter, mas a grossa vela trazida por Filipina espalhava boa claridade e quando as duas mulheres pararam diante do nicho onde se entronizava o corpo de cera, brilhos multicores jorraram dos diamantes de suas presilhas.
No momento em que a senhora Cunegundes molhava o hissope, preparando-se para aspergir a estátua detestada, uma lufada de vento glacial surgiu não se sabe de onde e apagou o círio e a luzinha ao mesmo tempo.
As duas mulheres se acharam em completa escuridão e no mesmo instante soltaram um grito de horror.
Mãos invisíveis arrebataram-lhes das mãos os objectos que traziam e moíam-nas de pancadas, esbofeteando Filipina, enquanto que erguiam a senhora Cunegundes no ar pelos cabelos ainda espessos e depois a lançavam por terra.
As duas mulheres julgavam ficar loucas, mas nem um grito escapava de suas gargantas, cerradas como uma prensa.
Walter que voltava muito mais cedo do que supunham, ouviu gemidos abafados em seu gabinete e para lá se precipitou, seguido de Gaspar que trazia um castiçal, encontrando sua mãe e sua mulher estendidas por terra, entre um círio quebrado e uma caldeirinha virada.
À sua vista, puseram-se a gritar como insensatas.
- O que vocês vieram fazer aqui, e porque gritam de alvoroçar toda a casa? - perguntou o fidalgo com cólera.
- Oh! Walter, esta estátua é habitada pelo demónio.
Ela soprou em meu círio e o apagou, assim como a luzinha! - gritou Filipina.
- O medo, sem dúvida, cegou-as.
Olhem, a luz está acesa e mesmo um castiçal queima sabre minha mesa de trabalha.
E isto está assim desde que entramos. Gaspar é testemunha.
- Mas não é verdade, tudo estava escuro e nos bateram e puxaram os cabelos - gritavam fora de si Filipina e Cunegundes, confusas por verem acesas tanto o castiçal como a luzinha.
- Vocês estão doentes ou loucas, que vêem o diabo em toda a parte, excepto em vocês mesmas - observou severamente o fidalgo.
- E agora calem-se ou acabarão por atraírem sobre vocês mesmas a acusação de estarem possuídas pelo demónio.
Depois de terem acusado de feitiçaria as vivas, encarniçam-se contra uma estátua de cera, unicamente porque ela se assemelha a um ser infeliz que vocês odiaram e destruíram, - acrescentou ele depois de ter despedido Gaspar.
Envergonhadas e furiosas, as duas mulheres se retiraram, bem convencidas e com razão, de que não foram sonhos as pancadas que lhes doíam ainda.
Mas o medo delas era tal que ficaram juntas toda a noite, falando sobre os acontecimentos e discutindo os meios de expulsar o diabo, sem gritos nem barulho, porque compreendiam que Walter estava certo.
Nos tempos críticos em que viviam, era perigoso divulgar factos como os da noite e que bem podiam acabar por serem acusadas de conivência com o diabo.
Malevolentes e invejosos há por toda à parte e um desses inimigos podia aproveitar a ocasião para lançar uma suspeita sobre a honrada família dos Küssenberg.
Ora, nos processos de feitiçaria nem a riqueza, nem a nobreza eram garantia de impunidade.
Por conseguinte era preciso ser prudentes e agir com a mesma astúcia que o diabo, o qual com toda a evidência tinha colocado no corpo de cera um de seus agentes infernais para prender Walter em definitivo.
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Set 27, 2016 7:16 pm

Era claro que o príncipe das trevas levara Leonor Lebeling, porque não se desaparece de uma prisão solidamente fechada sem a ajuda do demónio.
A paixão do fidalgo por essa moça loura que ele adorava, ainda na estátua de cera, desprezando escandalosamente sua mulher legitima, era de facto uma suspeita de influência satânica.
Ao cabo de todas essas reflexões, decidiram cozer nas roupas de Walter uma hóstia consagrada e de aspergir seu quarto com água benta.
Graças ao poder fascinador que Naema exercia sobre o fidalgo, a impressão produzida pela infelicidade de Raimundo se desvaneceu rapidamente do espírito de Walter o qual, absorvido por sua louca paixão, vivia durante todo o dia apenas para esperar a noite.
Uma noite, alguns dias depois da expedição da senhora Cunegundes, Walter tendo se fechado, esperava impacientemente que se animasse sua bem-amada, porém ela, imóvel em seu pedestal, fitava-o com tristeza.
Ele então redarguiu:
- Naema, venha, minha querida!
Ela logo respondeu com voz velada:
- Não posso, mas se você tirar o gibão e o jogar ao mendigo que está de pé sob a janela, poderei aproximar-me de você.
Sem hesitar, sem mesmo reflectir na esquisitice do facto de que no passeio que dava para o jardim, pudesse estar um mendigo, Walter tirou o gibão de veludo e abriu a janela.
Realmente, embaixo dela estava um homem em andrajos, cujos olhos queimantes fixavam-se na janela.
Quando o fidalgo lhe atirou o gibão, um estranho sorriso perpassou-lhe pelo semblante descarnado e avidamente pegou a rica esmola.
Um sentimento fora do comum, misto de temor e repugnância, apertou o coração de Walter, mas ele não teve tempo de pensar nisso, porque já os braços macios de Naema abraçavam-lhe o pescoço, um beijo lhe fechava a boca e ele observou gracejando que até as mulheres de cera tinham seus caprichos.
O sentimento de inquietação que se apossara de Walter quando da catástrofe de Raimundo, e no momento em que ele próprio atirara sua roupa ao mendigo, reproduzia-se frequentemente.
Apesar da ascendência exercida por Naema, uma voz interior lhe dizia que ele se achava subjugado por uma força estranha e suspeita, e Walter receava reconhecer como diabólica.
Ele confessava a si mesmo que a mulher de cera, retrato de sua noiva desaparecida, era um ser singularmente misterioso, terrível mesmo, considerado sob o ponto de vista da razão e por vezes lhe vinha o desejo de correr junto a seu tio, o abade, e confessar-lhe tudo, implorando socorro e conselho.
Mas bastava um olhar ardente dos olhos de esmalte, uma dessas horas de embriagadora paixão como só Naema sabia dá-las, para torná-lo de novo o escravo cego da fascinante e estranha criatura, pronto a tudo para defendê-la.
Notando que seu filho não usava mais o gibão de veludo verde no qual ela tinha cozido a hóstia, a senhora Cunegundes se aborreceu.
Secretamente ela deu buscas e se convenceu de que o gibão desaparecera sem deixar traços.
Apesar de seus defeitos, Cunegundes amava sinceramente seu filho único.
Seu coração se pôs a tremer pela salvação de Walter e apesar da repugnância que ela sentia pelo gabinete de trabalho depois de sua aventura nocturna, entrou nele uma manhã em que o fidalgo tinha saído e se pôs a procurar alguma nova prova da acção diabólica da estátua de cera.
Qual não foi seu susto, encontrando negligentemente jogada numa gaveta, a cruz que desde sua infância, Walter usava no pescoço.
- Deus poderoso!
Ele não usa mais sua cruz.
Mas espera, maldita cara de cera, é em teu pescoço que vou pendurá-la.
Agora, em pleno dia, eu não tenho medo de ti, - murmurou ela rancorosamente.
Mas apenas estendera a mão para pegar a cruz, ela sentiu dedos aduncos e queimantes agarrá-la pela nuca, a cabeça espremida contra o rebordo da mesa e a garganta tão violentamente apertada que quase perdeu a consciência.
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 28, 2016 7:35 pm

Assim, logo que pôde respirar, largou a cruz na gaveta, jurando nunca mais pôr os pés nesse gabinete maldito, e exigir de seu filho a devolução ou a destruição dessa infame estátua.
No mesmo dia ela fez saber a Walter o seu desejo de ver afastada a estátua, mas na primeira palavra que ela pronunciou a esse respeito, o fidalgo tomou-se de cólera, declarando que ela era louca de se envolver em um ódio tão tenaz contra um objecto de arte, mas que se ele e a mulher de cera a estorvavam, ele partiria para seu castelo e levaria consigo também o objecto incriminado.
Assustada e desolada, a senhora Cunegundes se calou, mas desde esse dia nem ela nem sua nora atravessaram a soleira do quarto de Walter, evitando mesmo passar pelo corredor que lá conduzia.
O mês de maio viera, trazendo as flores e o calor, porém nada mudara na casa do fidalgo de Küssenberg, e a cólera e desespero de Filipina atingiram o auge.
Há quatro meses que ela estava casada e a frieza desdenhosa de seu marido, sua aversão por ela, aumentavam em vez de diminuir.
Roída pelo ciúme e suspeitas indefinidas, Filipina foi tomada por um invencível desejo de ver o que Walter fazia quando se fechava em seu gabinete.
Este projecto uma vez desabrochado em seu cérebro, ela não perdeu tempo em pô-lo em prática.
Vindo a noite, ela entrou sorrateiramente no jardim, arrastou a escada do jardineiro e a encostou na parede, notando com satisfação que ela alcançava a janela de Walter, a qual estava aberta, mas tapada pelas cortinas abaixadas.
Era uma noite esplêndida, tépida e embalsamada.
A lua clareava vivamente o jardim, para desgosto de Filipina que teria preferido uma profunda escuridão, contudo ela estava muito impaciente, para adiar o seu projecto.
Lepidamente, subiu pela escada e com precaução afastou as dobras da cortina lançando um olhar no interior.
O que ela viu paralisou-a positivamente.
De cabelos eriçados, a boca aberta, ficou imóvel fitando Walter sentado em sua poltrona e tendo nos joelhos a mulher de cera que, debruçada em seu ombro, abraçava-lhe o pescoço, inundando-o com seus cabelos de ouro.
Os olhos do fidalgo se fixavam em sua estranha companheira, com uma expressão de adoração apaixonada que Filipina não lhe tinha jamais visto.
O terror e o ciúme tiraram a voz e os movimentos de Filipina, mas quando ela viu a mulher de cera levantar-se, apontá-la com o dedo e com um riso sinistro, ela gritou quase involuntariamente:
- Senhor Jesus e todos os bons Espíritos, nós louvamos a Deus, Nosso Pai, afasta-te Satanás!
No mesmo instante a escada vacilou e caiu, atirando a jovem contra o tronco de uma árvore, a cujo pé ela ficou estendida e desmaiada.
Todo pálido, pois também vira sua mulher, Walter desceu ao jardim e encontrando Filipina como uma morta, chamou gente para ajudá-lo a transportá-la para o quarto e mandou buscar um médico.
Este notou em primeiro lugar que Filipina tinha uma perna quebrada e quando ela voltou a si sem reconhecer ninguém, o médico declarou que ela estava com um forte problema cerebral, sobre cujo desenrolar ele ainda nada podia dizer.
Pálida e aterrorizada, a senhora Cunegundes veio postar-se ao pé do leito de sua nora e uma de suas parentes, religiosa de um convento vizinho, foi chamada para auxiliá-la junto à doente.
Vários dias se passaram sem trazer nenhuma melhora.
Filipina continuava a não reconhecer ninguém, rolava na cama num delírio espantoso e não falava senão na mulher de cera que ela tinha visto nos braços de seu marido.
O médico considerou que essas afirmações eram motivadas por um ciúme que sem dúvida atormentava a jovem mulher e agora criava em seu cérebro enfermo e sobre excitado imagens inverosímeis.
Todavia, surdos rumores começavam a circular na cidade sobre a estranha estátua oferecida por um desconhecido doador ao fidalgo de Küssenberg, no mesmo dia de seu casamento.
Murmuravam sobre esse estranho conluio, durante cujo decurso todo, Walter desdenhou sua jovem mulher.
Discutiam também o facto esquisito de Raimundo, que pintara um admirável quadro por esse misterioso modelo, ter perdido a razão em circunstâncias espantosas e em sua loucura falar apenas na mulher de cera, que ele chamava de Naema, contando a seu respeito, histórias extraordinárias e inacreditáveis.
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 28, 2016 7:35 pm

Uma parte desses rumores chegou até à senhora Cunegundes, enchendo-a de ansiedade, e com sua energia habitual ela decidiu desfazer-se radicalmente da abominável estátua, antes que os boatos que circulavam a seu respeito, produzissem uma catástrofe.
O meio mais rápido e eficaz de se desfazer da estátua era quebrá-la, mas Cunegundes não queria destruí-la dentro de casa.
Sabia-se lá que miasmas diabólicos se exalariam dela e empestariam toda a casa?
Ela julgou perigoso atirá-la igualmente no jardim e ficou decidido que a transportariam para a sala de jantar e daí a jogariam na calçada da rua.
Para ajudá-la em seu trabalho, a senhora Cunegundes conquistou o escudeiro de Walter, rapaz devoto e supersticioso, ao qual os processos de feitiçaria e a caça ao diabo que praticavam com furor, transtornaram completamente.
Leberecht, que amava muito seu amo e não duvidava que a mulher de cera tinha o poder de perder sua alma, consentiu de boa vontade em dar o seu concurso para acabar com o sortilégio.
Aproveitando-se da ausência de Walter, ergueu a estátua com seu Pedestal e levou o leve fardo para a sala de jantar.
Ele se preparava para arremessá-la pela janela aberta, quando subitamente aconteceu algo de espantoso e inesperado.
A mulher de cera tornou-se tão pesada quanto chumbo e como que se incrustou no solo, e foi Leberecht que, atirado com violência para fora, rolou na calçada da rua, enquanto que Cunegundes, meio estrangulada por uma mão invisível, caía aos pés da estátua vitoriosa.
Depois deste incidente, a senhora Cunegundes declarou não querer ficar nem mais um dia sequer na casa de seu filho e antes do anoitecer, mudou-se apressadamente.
A fuga da senhora de Küssenberg, bem como os golpes inexplicáveis ao pobre Leberecht, suscitou em toda a cidade uma tremenda comoção.
Puseram-se a falar tão alto da presença do diabo na casa do fidalgo, que os magistrados se agitaram e um inquérito foi aberto.
Ainda no mesmo dia, o pai de Filipina veio pedir-lhe que abandonasse a casa fatal, mas a jovem, já em convalescença, declarou não querer deixar seu marido e ficou, apesar de todas as rogativas.
Se ela esperava conquistar por esse meio as boas graças de Walter, se enganava.
O jovem espumava de raiva ao pensar no novo escândalo ocorrido e declarou duramente à sua mulher que a considerava a causa de todos os seus infortúnios, pelo assassínio de Leonor e pelo estúpido ciúme com o qual ela perseguia a estátua e as ridículas tentativas de destruição que terminaram neste vergonhoso escândalo.
Entretanto, o inquérito prosseguia, provocando uma cisão entre os juízes.
Todos os eclesiásticos optavam pela origem diabólica da estátua.
Os magistrados laicos emitiam dúvidas a esse respeito, supondo que a sobre excitação provocada pelos numerosos processos e o medo do diabo, tinham perturbado o juízo das senhoras de Küssenberg.
Walter negou energicamente ter alguma vez notado qualquer sinal infernal.
Contudo, no fim do processo, os juízes ordenaram que trouxessem ao tribunal o objecto incriminado e, acompanhada de multidão enorme, a estátua foi trazida ao palácio da justiça.
O povo, como os juízes, extasiaram-se diante da perfeição do trabalho e tiveram de confessar que a estátua não apresentava nada de extraordinário.
Era uma figura de cera como qualquer uma, somente bem feita e mais ricamente ornada do que outras da mesma espécie.
Todavia o processo tomara grandes proporções para que se limitasse a uma simples verificação.
As senhoras de Küssenberg foram chamadas como testemunhas e intimadas sob juramento a dizerem o que tinham visto.
Apesar do medo e das reticências das duas mulheres, o depoimento delas eriçaram o cabelo dos assistentes.
Trouxeram também Raimundo e à vista da estátua o pobre caiu em pranto.
Apesar de tudo, uma parte dos juízes, abrandados talvez pela admirável perfeição dessa obra de arte, continuava a duvidar de sua culpabilidade e acabaram por acertar com o bispo uma prova decisiva.
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 28, 2016 7:36 pm

A figura de cera devia ser levada à igreja e, colocada no altar e aí ficar durante toda a duração da missa.
Se a estátua fosse de origem satânica, sinais inequívocos o demonstrariam durante o ofício divino.
No dia seguinte de manhã, o clero se reuniu com grande pompa na catedral, e a estátua colocada num andor deixou o palácio da justiça, onde passara a noite, para comparecer à missa.
A vasta praça estava tomada por uma multidão compacta, através da qual os portadores abriam caminho muito lentamente.
Tudo correu bem até o pátio da igreja.
Ao chegar lá, a frágil estátua de cera adquiriu um peso enorme a tal ponto que seus robustos carregadores não puderam sustê-la e a depuseram no chão.
Outros homens se juntaram a eles, mas em vão.
Na proporção do número crescente dos portadores e do esforço deles, aumentava também o peso da estátua.
Pesada como um obelisco, ela estava enraizada no limiar da igreja.
Gritos de horror e de medo se elevaram da multidão quando um padre, que apareceu para aspergir a estátua, sentiu-se mal.
Novas provas se tornaram supérfluas.
Era evidente ser uma criação diabólica porque não podia penetrar no lugar santo.
Os juízes estavam presentes.
Sem voltarem ao palácio da justiça, pronunciaram a sentença no pátio da igreja.
A figura de cera foi condenada à fogueira e a execução marcada para a manhã seguinte.
A estátua, que se tornou instantaneamente leve desde que a fizeram recuar do limiar da igreja, foi levada para uma das células da prisão, onde devia ser guardada à vista até o dia seguinte.
Quanto ao Walter foi citado perante os magistrados solenemente reunidos em audiência extraordinária e no mesmo dia notificaram-lhe que ele devia reconciliar-se com sua mulher e começar uma vida conjugal honesta e cristã, se não quisesse ser acusado de conivência com o diabo e suspeito de frequentar o sabá.
O que significava uma tal acusação e o que ela pressagiava de tortura, de sangue e de vergonha, era suficientemente conhecido pelo jovem.
Assim, apesar do desespero profundo que o invadiu ao pensar em perder por uma segunda vez a mulher amada, ele estremeceu pensando em todo o opróbrio que se abateria sobre seu nome e, abaixando a cabeça, declarou submeter-se ao que exigiam dele.
Na manhã seguinte, enquanto a multidão curiosa se ajuntava na praça ao redor da fogueira, uma notícia terrível e inacreditável se espalhou bruscamente.
O velho Caspar, todo transtornado, contava que a senhora Filipina acabava de ser encontrada desmaiada em seu leito.
Quanto ao fidalgo, evidentemente atirado fora do leito por uma mão desconhecida, tinha uma ferida profunda na cabeça e contusões por todo o corpo.
Não tinham ainda conseguido fazê-lo voltar a si.
Era claro e indubitável que o diabo impedira a reconciliação dos jovens cônjuges.
Este novo incidente provocou no povo uma tumultuosa agitação.
Toda a cidade estava em alvoroço, e se comprimia na praça, nas janelas e até nos telhados.
As cabeças pululavam.
Jamais, em época alguma, se vira um espectáculo tão extraordinário como a execução de uma feiticeira em efígie.
O céu estava cinzento.
O dia se anunciava sombrio, encoberto.
O ar pesava, sobrecarregado de electricidade.
Mas nisso ninguém prestava atenção, nem mesmo nas grossas nuvens negras que se acumulavam na atmosfera baça e no ribombar longínquo do trovão.
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 28, 2016 7:36 pm

Todos os olhos como todos os pensamentos, fixavam-se no cortejo que avançava, e, sobretudo, no andor sobre o qual se erguia maravilhosa figura de cera, bela e radiosa como uma vivente.
Quando o andor parou ao pé da fogueira, a escuridão aumentou bruscamente.
Um vento violento sacudiu as árvores arrancando-lhes folhas e levantando nuvens de pó e de areia.
O povo começou a erguer a cabeça e a trocar olhares inquietos.
O juiz mandou que se apressassem.
Rapidamente a estátua foi içada à fogueira e o carrasco pôs-lhe fogo imediatamente.
A primeira acha começava a arder, quando um imenso relâmpago cortou o céu e um ribombo de trovão fez tremer o solo.
Uma verdadeira tempestade se desencadeou.
Uma chuva torrencial, entremeada de granizo grosso como um punho, caía com estrondo nos homens que, apertados uns contra os outros impedidos de fugir pela multidão que se comprimia em todas as direcções, se empurravam, se atropelavam e se pisavam vociferando.
Os relâmpagos se sucediam sem interrupção, o ribombar do trovão ensurdecia, o vento assobiava, urrava, e sua violência era tal que erguia as achas e grandes troncos, lançando-os ao longe como palha seca.
Somente a estátua parecia ainda intacta ao fulgor dos relâmpagos.
Apenas o furacão açoitava por todos os lados sua túnica de gaze e erguia sua cabeleira dourada, espalhando-a como centelhas.
O pânico apoderou-se da multidão.
Com gritos e urros que se perdiam no rumor da tempestade, ela acabou por se dispersar em todos os sentidos, refugiando-se nas casas.
Todo o resto do dia e uma parte da noite, o tufão continuou os estragos.
E quando ao amanhecer os moradores se arriscaram a sair de suas casas, verificaram que na praça não havia traços da fogueira, nem da linda estátua.
De resto, esqueceram-na por entre os males e embaraços suscitados pela tempestade.
Três pessoas dentre as que foram pisadas na confusão morreram.
Mais de trinta outras estavam bem feridas.
Em quase todas as casas da cidade havia vidros quebrados e numerosos telhados estavam estragados.
E ao pensarem nesse dia nefasto, todos se benziam e estremeciam de horror.
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 28, 2016 7:36 pm

VI- SALVAÇÃO COM DESONRA

Leonor voltou a si graças a uma dolorosa sensação de frio glacial, mas imediatamente esta sensação mudou.
Queimaduras percorriam-lhe o corpo, parecia-lhe rolar sobre brasas ardentes e com um grito medonho ela se levantou e abriu os olhos.
Com a consciência, voltou-lhe também a lembrança.
Ela acreditava ver ainda a fogueira, a multidão hostil e agitada que ondulava a seus pés, e o carrasco que erguia uma tocha.
Lembrava-se também da tempestade, dos relâmpagos, dos trovões, e dos granizos grossos que lhe caíam ao redor sem atingi-la.
Daí por diante ela não se lembrava de mais nada.
Apenas seu corpo estava dolorido, os membros rígidos e pesados como chumbo.
Medrosamente, ela lançou um olhar em volta e estremeceu.
Achava-se no laboratório de mestre Leonardo, e ele próprio, de pé a dois passos dela, misturava alguma coisa numa taça.
Ele parecia fatigado, o rosto estava ainda mais pálido do que de costume, porém, o olhar cintilava, projectando estranha e poderosa fascinação sobre quem o fitava.
Um pouco mais longe, Oxarat estava ocupado junto de uma máquina de forma estranha e desconhecida, que crepitava como um braseiro, lançando em todas as direcções feixes de fagulhas.
- Pegue e beba - disse mestre Leonardo aproximando-se e estendendo a jovem uma taça cheia de líquido fumegante.
Leonor bebeu avidamente, pois se sentia indizivelmente esgotada.
Um calor agradável percorreu-lhe os membros, mas os pensamentos se embaralhavam, tinha vertigens, um singular caos de lembrança e de quadros e mistura dos acontecimentos havidos desde há um ano, turbilhonavam em seu cérebro.
Pouco a pouco este estado desagradável se dissipou.
Contudo, sua mente trabalhava ainda com dificuldade e apertando a fronte com as mãos, ela murmurou:
- Onde estou?
- Em minha casa, na sua casa, minha bela; de volta ao lar conjugal depois de sua pequena viagem que podia ter acabado mal.
Enfim, tudo está bem quando termina bem - acrescentou mestre Leonardo com seu riso estridente e galhofeiro.
- E a felicito, Naema.
Sua vingança foi brilhante.
Aos magistrados você deixou de cara quebrada, como se diz.
E a senhora Filipina pagou duramente a impertinente fantasia de querer possuir o belo Walter.
Uma só coisa creio vai afligi-la.
É que este pobre fidalgo vai passar um mau quarto de hora.
Ele é acusado de magia negra e de conivência com o diabo.
Ah! ah! ah!
Logo que ele recobrar a consciência, será preso, e como o pai de Filipina encarniça contra ele todo o mundo, ele será posto a tormentos sem misericórdia, e certamente será queimado.
Leonor soltou um grito e agarrou a cabeça com as duas mãos, depois levantando-se com uma força inesperada, caiu de joelhos e erguendo as mãos postas, implorou:
- Oh! Leonardo, salve-o!
Poupe-lhe o horror da tortura.
Não o abandone nas mãos cruéis de seus inimigos!
Um sorriso sardónico aflorou aos lábios do feiticeiro:
- Bem, bem, já que você o ama e se interessa pela sorte dele, eu o salvarei e farei dele um dos nossos, isto é, trabalharei por fazê-lo, mas neste caso não há tempo a perder.
Agora coma, depois repouse e quando precisar de você, eu a chamarei.
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 28, 2016 7:37 pm

Ajudou a jovem a levantar-se e como Leonor cambaleasse, ele a amparou conduzindo-a a sala de jantar, onde uma esplêndida refeição estava preparada.
A moça sentou-se e comeu com vivo apetite.
Não se lembrava de jamais ter tido uma tal fome.
Quando se saciou e no momento em que se dispunha a erguer-se, apareceu a anã que a servia, a qual a auxiliou a ganhar seu quarto.
Fê-la tomar um banho tépido e aromático, em seguida deitou-a, e quase instantaneamente a jovem caiu num sono profundo e reconfortante.
* * *
A senhora Cunegundes se achava em casa de amigos, cujas janelas davam para a grande praça, porque ela desejava ardentemente ver queimar a estátua maldita, quando acorreu sua criada acompanhada do velho Gaspar, o qual lhe deu conta dos tristes acontecimentos havidos.
Ao saber que sua nora fora manietada em seu leito e que Walter, gravemente ferido, jazia inconsciente, ela pensou ficar louca.
E apesar do temporal que se aproximava, ela foi imediatamente para a casa de seu filho.
Mal ela atravessava a porta com Gaspar, quando caíram os primeiros granizos e se estabeleceu o pânico.
Porém, nesse momento, a senhora Cunegundes era insensível ao horror dos elementos desencadeados.
Ela apenas via seu filho ainda estendido inconsciente no solo, porque os serviçais tiveram medo de tocar nele.
Filipina, o rosto violáceo, o pescoço coberto de manchas negras, uma expressão de indescritível espanto em seu rosto, jazia revirada nos travesseiros em desordem, tal como a encontraram.
Toda arrepiada, ela se afastou da moça, fez transportar Walter para um outro quarto e tratou dele.
O jovem voltou a si em pleno delírio, e foram horas horríveis que sua mãe passou à sua cabeceira, ouvindo palavras incoerentes, mas que demonstravam de um modo suficientemente claro e compreensível, seus incríveis amores com a estátua de cera.
Cunegundes sentia os cabelos se eriçarem ao ouvir seu filho falar das visitas nocturnas de Naema.
E o rugir da tempestade que causava estragos lá fora, aumentava ainda mais o horror febril que a sacudia.
De manhã, logo que o dia clareou, ela teve de sofrer novas comoções morais.
Os parentes de Filipina vieram buscar a moça, que levaram para a casa paterna definitivamente e o velho Schrammenstedt evitou a mão que ela lhe estendia, pronunciando tão duras e ameaçadoras palavras que Cunegundes fremiu de pavor e quase desmaiou.
Como aniquilada, voltou para junto de Walter que continuava a delirar, não a reconhecendo.
O dia correu lentamente e a noite chegou sem lhe trazer nenhuma ideia salvadora.
As palavras de Schrammenstedt lhe tinham feito compreender que Walter seria acusado de magia negra, talvez tentativa de assassinato de sua mulher, e que o ódio do pai ultrajado não conheceria misericórdia.
Não faltavam provas contra seu filho.
Ele seria torturado, mutilado, desonrado e queimado vivo e ela não tinha nenhum meio de livrá-lo deste fim atroz.
Uma pedrinha atirada do jardim pela janela aberta, veio cair a seus pés, arrancando a senhora Cunegundes de seus pensamentos desesperados.
Ela correu à janela e viu um jovem, seu afilhado, que ocupava o posto de escrevente no tribunal.
Ela estimava muito esse rapaz, filho de uma amiga morta há tempo e que ela criava.
- O que você quer de mim? - perguntou-lhe.
- Madrinha Cunegundes, foi arriscando minha cabeça que vim preveni-la - respondeu apressadamente o rapaz saltando a janela, pois estava ao rés do chão.
Madrinha, faça Walter fugir ou esconda-o muito bem, por que amanhã virão prendê-lo.
- Mas ele está inconsciente!
- Não importa, prendê-lo-ão do mesmo jeito e o arrastarão ao cárcere.
Ele é acusado de ter feito um pacto com o diabo, e ter tido amores contra a natureza com uma mulher de cera e de se encerrar todas as noites apenas para ir ao sabá.
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 28, 2016 7:37 pm

É horrível o que Schrammenstedt declarou contra ele.
Acusa-o ainda de ter feito tentar estrangular por Satanás a desventurada Filipina.
Portanto, não perca tempo, madrinha, se a senhora quiser salvar Walter.
E agora, adeus!
Tenho medo de que alguém me veja sair de sua casa.
Cunegundes nada respondeu.
Tudo se escurecia diante de seus olhos e, tomada de vertigem, abateu-se no solo.
Mas a iminência do perigo mortal que seu filho corria tirou-a desse torpor.
Correu junto do leito, mas um simples olhar lançado sobre Walter que, lívido, aniquilado, jazia agora quase semelhante a um cadáver, convenceu-a de que tentar uma fuga era impossível.
Transportá-lo para outro lugar, tal como estava, exigia ajuda, chamaria a atenção, e já a maior parte dos domésticos desertara da casa, e os que permaneceram, com excepção de Gaspar, recusavam-se a aproximar-se do doente.
Ocultar Walter, ela não o podia, porque revistariam a casa, e os gritos que ele soltava em seu delírio, denunciariam qualquer esconderijo.
Tomada de louco desespero, Cunegundes se pôs a correr como uma doida, batendo a cabeça contra as paredes.
Mas por fim, ela voltou ao pé do leito e, caindo de joelhos, se pôs a orar.
O céu parecia ficar surdo às suas súplicas.
Nenhum socorro, nenhuma ideia salvadora lhe vinha.
Mas em lugar disso, um torturante remorso, um arrependimento desesperado de ter impedido o casamento de seu filho com Leonor instalou-se em seu coração duro, orgulhoso e egoísta.
Não seria mil vezes preferível vê-lo feliz, rodeado de afeição e de honra, casado com uma moça bela, amável, da qual não se podia dizer nada a não ser de sua pobreza, do que vê-lo desonrado e destruído, destinado a morrer uma morte horrível?
O que ela não daria neste instante para mudar o irreparável, para ver Walter ir ao altar com sua pobre Leonor!
O som cadente da sineta, que penetrava pela porta principal, veio tirá-la de suas lágrimas e arrependimentos tardios.
Sacudida por um arrepio nervoso, o corpo banhado de suor frio, aguçou-lhe o ouvido.
Não seria o juiz com seus arqueiros que, apressando-se, vinham prender Walter?
Maquinalmente, sem saber o que fazia, lançou-se fora do quarto do doente, cuja porta ela trancou a duas voltas, e correu para uma janela que dava para a rua.
Ao clarão avermelhado de uma lanterna pendurada no pórtico, ela viu um homem de alto talhe, envolto num grande manto e coberto com um chapéu enterrado na cabeça, de pé diante da porta e segurando pelas rédeas dois cavalos selados.
Cunegundes respirou aliviada.
Não eram os arqueiros, graças a Deus!
E como, neste momento, Gaspar abria a porta da rua, ela entreabriu mansamente a janela para ouvir o que diziam:
- Eu sou um médico enviado por Sua Reverência, o monsenhor abade Eberhard, para tratar de seu sobrinho - disse o desconhecido.
Faça entrar meus cavalos no pátio, mas não é preciso desarreá-los.
Em seguida você me conduzirá junto ao doente e à nobre senhora sua mãe.
- Entre, senhor - disse respeitosamente o velho criado.
E avisando a ama de Walter que, atraída pelo som da sineta, olhava pela porta semi-aberta, pediu:
- Ágata, leve o doutor enquanto eu cuido dos cavalos.
Alguns minutos mais tarde, o desconhecido se inclinava diante da senhora Cunegundes e exprimia o desejo de ver o ferido imediatamente.
Apesar do profundo espanto que lhe inspirava o envio do médico pelo seu cunhado, o qual humanamente não podia ainda saber das desventuras ocorridas e da doença de seu sobrinho, Cunegundes não hesitou em fazer entrar o desconhecido no quarto de Walter, e mesmo ela estava por demais perturbada para reflectir ao menos um pouco.
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 28, 2016 7:37 pm

Tendo examinado o ferido, o médico fechou a porta e, atirando numa cadeira seu manto e seu chapéu, voltou-se para a mãe do fidalgo:
- Por obséquio, senhora, dê-me uma taça de vinho.
Eu vim para salvar seu filho, se ele o quiser, mas antes de tudo é preciso dar-lhe forças.
Com as mãos trémulas, Cunegundes trouxe o que ele pedia e enquanto o desconhecido despejava na taça um pouco de vinho e esvaziava um frasco que tirou do gibão, ela o examinou curiosamente.
Era um homem ainda jovem, alto e magro. Os movimentos de seus membros delgados e flexíveis tinham qualquer coisa de felino.
Seu rosto pálido e os grandes olhos verdolengos mostravam algo dissimulado.
E suas mãos, de compridos dedos afilados, eram pálidas e amarelentas como mãos de cera.
Tendo preparado a beberagem, que exalava um cheiro acre e vivificante, o desconhecido tirou do bolso um segundo frasco, muito menor do que o primeiro, e com seu conteúdo esfregou as têmporas, as mãos e o peito do ferido.
Em seguida, ergueu-lhe a cabeça e levou-lhe a taça aos lábios. Walter bebeu avidamente sem abrir os olhos, depois recaiu soltando um suspiro rouco.
- Ele morreu! - gritou a mãe com angústia se precipitando sobre ele.
- Não, ele dorme, - disse o médico segurando-a.
Deixe-o repousar.
Dentro de uma hora ele terá forças suficientes para partir.
Enquanto isso, nobre senhora, solicito-lhe o favor de servir o jantar.
Tenho fome e estou deveras cansado porque fiz uma longa jornada.
Cunegundes apressou-se a dar ordens a Ágata e um quarto de hora depois, o misterioso médico sentava-se diante da mesa copiosamente servida.
Comeu e bebeu com bom apetite, louvando o vinho e a carne de caça.
Ao terminar a refeição, ouviram-se passos no quarto ao lado e na soleira e apareceu Walter, ainda pálido e esgotado, mas convenientemente vestido e perfeitamente lúcido.
- Santíssimo!
Você se levantou, Walter!
Como você se sente? - gritou Cunegundes.
- Eu me sinto bem, mãe.
Estive doente? - perguntou o jovem examinando espantado o desconhecido, sentado à mesa nesta hora imprópria, em sua casa.
- Sim. Você esteve muito doente, mas antes de recordar tudo o que aconteceu, venha, coma e beba, porque precisa de forças, - respondeu o médico.
Walter obedeceu maquinalmente e comeu com apetite voraz.
Verdadeiramente, ele parecia curado, mas sua cabeça estava vazia e lhe era difícil pensar.
A refeição terminou.
O desconhecido de braços cruzados, encostando-se na mesa, disse-lhe, de modo imperativo:
- Conversemos, senhor fidalgo.
E contou-lhe resumidamente os acontecimentos havidos, cuja lembrança Walter tinha esquecido, e acrescentou:
- Amanhã você será preso e acusado de magia negra e de cumplicidade com o diabo.
Você sabe, por experiência, como terminam semelhantes processos.
Mas se você quiser escapar da tortura e da fogueira, estou pronto a ajudá-lo.
Walter passou a mão na fronte banhada de suor:
- Como é natural, prefiro a liberdade a uma morte horrível e infamante.
Mas quem é o senhor, homem generoso, médico sem igual que vem curar-me como por milagre e agora quer livrar-me do suplício?
- Eu sou o amigo dos oprimidos. - respondeu o misterioso visitante com um estranho sorriso.
Mas é tempo de partir, senhor.
Antes da aurora, precisamos estar longe daqui.
Despeça-se de sua mãe e rápido!
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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O fidalgo se aproximou de sua mãe prostrada numa cadeira, desfeita e pálida como uma morta e, beijando-lhe as mãos, disse-lhe:
- Adeus, mãe!
A senhora me fez muito mal, causou-me bastante dor por seu orgulho.
Contudo eu a perdoo, porque a senhora sofreu muito e Deus a humilhou e a puniu severamente.
Rever-nos-emos algum dia?
Só Deus o sabe, porque daqui por diante minha vida e meu futuro dependem de meu salvador.
Ore por mim e não me esqueça jamais.
Sacudida por soluços convulsivos, Cunegundes abraçou o filho e cobriu-o de beijos.
Mas como o desconhecido lembrava que era preciso apressarem-se, e como Walter queria levar alguma coisa, ela tentou reencontrar sua calma e energia.
- Não lhe faltará ouro em minha casa, - observou o desconhecido.
- Agradeço-lhe, mas prefiro levar comigo uma pequena soma, para não lhe ser pesado desde já, - respondeu Walter.
- Como quiser - respondeu o médico com um sorriso ligeiramente irónico.
Amontoaram em uma mala, moedas de ouro, jóias e roupas.
Walter se despediu de sua ama e de Gaspar, e com a mãe e os dois fiéis criados, desceu ao pátio onde o aguardavam dois cavalos.
Por uma última vez, mãe e filho se abraçaram.
Depois, a senhora Cunegundes apertou a mão do desconhecido, agradeceu-lhe calorosamente o auxílio e pediu-lhe que lhe dissesse o nome, para que ela pudesse orar por ele todo o resto de sua vida.
O médico remexeu o bolso e lhe entregou um cartãozinho.
Em seguida, saltando na sela, gritou:
- Depressa, senhor, daqui a uma hora raiará o dia!
Dois minutos mais tarde, o portão se abriu, os dois cavaleiros em rápido trote desapareciam nas brumas da noite.
Alquebrada de alma e de corpo, chorando a mais não poder, a senhora Cunegundes entrou em seu quarto e nele se fechou.
Ela queria estar sozinha com sua dor e seus remorsos.
Cansada de tanto chorar, ela se lembrou do cartão que lhe dera o desconhecido e que ela guardara na bolsa.
Tirou-o para ler o nome do maravilhoso médico.
Talvez fosse uma indicação do país ou do lugar onde Walter ia viver.
Mas apenas ela aproximou o cartão da luz da vela, um som rouco e abafado escapou de sua garganta e, sem forças, ela abateu-se no solo.
No fundo negro do cartão estava pintado em vermelho um bode sentado, com uma tocha acesa entre os chifres e, em cima, via-se escrito com uma grande e bela caligrafia: Mestre Leonardo.
Naqueles tempos em que se praticava tão sabiamente a arte de caçar feiticeiros e de aprofundar os mistérios da magia negra, qualquer um sabia que era Satanás que, sob a forma de um bode, presidia o sabá e que nesta diabólica reunião, mestre Leonardo era um dos principais dirigentes.
A senhora Cunegundes compreendeu que jamais tornaria a ver seu filho, irremediavelmente caído nas mãos das potências infernais.
Voltando a si da síncope, seu primeiro cuidado foi queimar o cartão diabólico, que podia perder a ela própria se o achassem em sua casa.
Após o que, ela reabriu a casa e se deitou porque se sentia muito indisposta.
No dia seguinte o juiz veio prender Walter, mas não o encontrou como era natural e seus criados depuseram conforme a verdade, que um homem dizendo ser médico, enviado pelo venerável abade Eberard, viera de noite e levara seu jovem amo.
Ninguém sabia para onde, nem por quanto tempo.
O caso forçosamente parou aí.
Walter desapareceu e não queriam acusar Cunegundes de conivência com ele, tanto mais que a pobre senhora estava gravemente enferma.
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Set 28, 2016 7:38 pm

A doença durou perto de três semanas e a convalescença foi bem mais longa, porque a incerteza sobre o destino de seu filho, do qual não vinha nenhuma notícia, minava a doente.
Quando enfim ela pode levantar-se e as forças lhe voltaram, ela declarou querer retirar-se para o claustro e tomar o hábito.
Ela não confiou a ninguém que era para arrancar, por meio de incessantes preces, a alma de seu filho das chamas eternas, que ela queria entrar no convento.
* * *
Walter e seu companheiro cavalgaram muito tempo sem trocar uma única palavra.
Iam num rápido galope e deviam estar muito longe de Friburgo, mas o caminho que seguiam era completamente desconhecido ao jovem.
Ele sentia-se bem, a ferida da cabeça não queimava mais, mesmo esse cavalgar a passos velozes não o fatigava.
Só que ele tinha dificuldade em pensar e na memória havia lacunas.
Com curiosidade que não sabia explicar, examinava de soslaio seu companheiro que, com o rosto oculto pela gola do manto, galopava silenciosamente.
- Será indiscrição de minha parte perguntar-lhe para onde vamos, amigo e protector desconhecido? - perguntou por fim Walter.
- Vamos para junto de Naema.
A este nome, o fidalgo estremeceu e soltou uma exclamação abafada.
Ele acabava de se recordar de tudo.
Não só do processo da maravilhosa estátua que estava viva sob seu invólucro de cera, como de sua condenação à fogueira.
- Então Naema está salva? - gritou ele comovido.
- Certamente que ela vive.
Está em minha casa e hoje mesmo você a verá.
Vendo o misterioso e sinistro companheiro recair em seu mutismo, Walter se calou também pensando em Naema, o ser adorado que ele ia rever.
Mas com o despertar da memória, uma outra cena reviveu igualmente.
Quadro medonho e terrível que projectava uma sombra de mau agouro sobre sua Naema.
Ele se recordava daquela noite em que, por ordem do tribunal e do bispo, devia reconciliar-se com sua mulher.
Com o coração cheio de fel e de angústia, não pensando senão nessa fogueira que de manhã devia devorar a sua maravilhosa estátua de cera, ele entrara no quarto.
Filipina já estava no leito, mas ele se aproximara da janela, tentando coordenar as ideias e achar algumas palavras convenientes para dirigir à sua jovem esposa.
Com a fronte comprimida contra os vidros, cismava olhando para o céu, quando de repente um grito sufocado o fizera voltar-se e, petrificado de espanto, percebera Naema se inclinar sobre sua rival e com os dedos finos e flexíveis agarrar-lhe o pescoço.
Quando compreendeu que um assassínio ia consumar-se, ele se precipitou para o leito para impedi-lo.
Ele não amava Filipina, mas não queria sua morte.
Apesar de tudo, era sua esposa legítima e sua consciência o acusava de ter agido mal para com ela, cujo maior pecado se originara de seu ciúme e amor por ele.
E a moça era bem jovem, dezoito anos, para morrer tão miseravelmente.
Lembrou-se que havia gritado:
- Pare, Naema!
Todavia, como ele fosse agarrar-lhe o braço, recebeu não sabia de onde, um golpe formidável na cabeça e rolou no solo.
Seu último olhar consciente lhe tinha mostrado Naema, com os olhos chamejantes, cercada de fumaça pontilhada de faíscas, que emanava de seus cabelos e coloria de um reflexo purpúreo sua vaporosa túnica.
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