Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 29, 2016 8:15 pm

Ele se recordou em seguida que tivera um momento de lucidez quando o erguiam, que ele vira o rosto pálido e transtornado de sua mãe, bem como o corpo de Filipina ainda estendido no leito, o pescoço violáceo, a camisola rasgada e o rosto crispado em mudo terror.
Mais vagamente ainda, recordava-se de ter ouvido cantos fúnebres e sentido um cheiro de incenso.
Com um arrepio disse a si mesmo que sem dúvida poderia ter ocorrido algo grave a Filipina.
Oh! Ele estava de facto a caminho do inferno e a paixão que fervia nele e que não tinha nada de comum com o amor que outrora lhe inspirara Leonor Lebeling, era um sentimento demoníaco, uma força que o aniquilava, que lhe anulava o raciocínio e a vontade, e que o colocara nesse caminho que agora seguia para atingir um fim desconhecido.
Um riso ligeiro, mas estridente fê-lo estremecer.
Bruscamente ele se voltou para seu companheiro.
Era mesmo ele que rira, e o jovem estremeceu sob o olhar sardónico e cruel que lhe dardejavam os grandes olhos verdolengos.
Nesse instante a aurora começava a tingir o horizonte.
Os dois cavaleiros desembocaram da sombra profunda da floresta que acabavam de atravessar.
Através da claridade branquicenta e brumosa do dia nascente, Walter percebeu um castelo fortificado, firmemente encravado no alto de uma rocha e ao qual conduzia um caminho estreito, em largos ziguezagues até o alto da montanha.
Ainda que cobertos de espuma, os dois cavalos subiam o perigoso trilho com uma segurança e rapidez espantosas.
As muralhas maciças do castelo se distinguiam mais e mais claramente, porém produziam em Walter uma impressão de tristeza e de opressão.
E as nuvens de corvos que voavam com grasnidos lúgubres por cima da velha e sombria construção, aumentavam ainda mais esta penosa impressão.
Enfim, chegaram a uma pequena plataforma em frente da ponte levadiça, que com a aproximação dos cavaleiros abaixou-se rangendo e penetraram num pátio pequeno e sombrio, rodeado de altas muralhas.
No limiar de uma porta gótica, à qual se subia por alguns degraus, estava um homúnculo ruço, com ar dissimulado e obsequioso.
Neste momento, o galo cantou e uma lufada de vento glacial atingiu Walter nas costas.
Ele se voltou para ver de onde isto provinha e viu com assombro que seu guia tinha desaparecido.
Seu cavalo, com a rédea no pescoço estava sozinho.
- Sem dúvida, - pensou o jovem, - ele já entrou por uma outra porta.
O homem ruço veio polidamente segurar-lhe o estribo, depois lhe pediu que o seguisse.
Atravessaram um vestíbulo que devia ter servido de sala de armas, deram com uma escadaria de honra e passaram por toda uma série de salas ricamente mobiliadas ao gosto de séculos passados.
O que pareceu estranho a Walter é que tudo estava deserto.
Nem um homem, nem um criado, uma servente, nada, ninguém aparecia nas salas, corredores e escadas.
A mansão senhorial parecia vazia. Por toda parte reinava silêncio e solidão.
Por fim, seu condutor o introduziu num quarto onde se erguia em dois degraus um leito com cortinas de veludo.
Os móveis eram de carvalho ricamente esculpido e sobre uma mesa havia uma jarra cheia de vinho e taças de ouro primorosamente cinzeladas.
- Eis aqui o seu aposento, senhor fidalgo, descanse e se precisar de um criado, toque esta sineta - disse Oxarat, o sinistro familiar de mestre Leonardo.
Tendo-o cumprimentado, ele se retirou e Walter ficou só.
Mas como se sentia cansado, encheu uma taça do vinho capitoso e bebendo-a foi tomado de uma tal vontade de dormir que se despiu às pressas e caiu em profundo sono.
Quando acordou, caía à noite.
Ele dormira todo o dia e despertava disposto, mas esfomeado como um lobo.
Vestiu-se e esperou, mas como ninguém viesse, decidiu tocar a sineta.
Um instante depois apareceu um anão de uma feiura e deformidade repugnantes, mas muito bem vestido.
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 29, 2016 8:15 pm

Trazia em grande salva de prata uma refeição copiosa, que colocou na mesa e retirou-se depois de ter acendido as velas de cera de dois candelabros.
Walter bebeu e comeu com apetite de um verdadeiro convalescente, depois esperou de novo a vinda de seu hospedeiro ou de Naema, mas ninguém apareceu.
Evidentemente era preciso ter paciência e não podendo resistir ao tédio, deitou-se de novo e dormiu.
O dia seguinte transcorreu no mesmo silêncio e na mesma solidão.
O anão servia-lhe refeições excelentes, mas parecia surdo e mudo, porque não respondia a nenhuma pergunta e parecia mesmo não ouvi-las.
Walter começou a aborrecer-se e procurando alguma coisa que o ajudasse a passar o tempo, descobriu numa prateleira um velho manuscrito.
Sentou-se perto da janela que dava para um pátio nu e deserto e se pôs a ler.
Mas o manuscrito não continha senão fórmulas de conjurações, cantos estranhos e totalmente cheios de blasfémias.
Walter atirou o livro com desgosto e se absorveu em tristes pensamentos.
Seu cérebro reconquistara toda a lucidez e com um amargo sangue-frio ele sondou sua posição.
Perdera seus direitos de cidadão.
Sua paixão pela misteriosa mulher de cera que - disso ele não podia duvidar - dispunha de forças diabólicas, fizera com que ele desprezasse todos os deveres de esposo e de cristão.
O nome de Deus, de Jesus, a cruz que ele usava no pescoço, o serviço divino, numa palavra, tudo o que lhe mostrava o céu, inspiraram-lhe horror e aversão.
Há meses que ele se deixara governar pelo espírito do mal e no final das contas caíra nas mãos de potência desconhecida e terrível.
Com um suspiro de angústia, o fidalgo perguntou a si próprio se sua mãe não tivera razão ao acusar Leonor de feiticeira.
A jovem desaparecera estranhamente para reaparecer de modo mais estranho ainda e vir fatalmente destruir a paz e a honra de sua família, tornando a ele próprio, cúmplice involuntário de um crime.
A entrada de Oxarat veio interromper suas reflexões.
- Siga-me, por obséquio, senhor Walter, o mestre o chama - disse ele.
O fidalgo se levantou imediatamente e seguiu seu condutor.
Este parou diante de uma porta coberta de sinais cabalísticos e fez-lhe sinal de entrar.
Ao primeiro olhar, Walter compreendeu que se achava no laboratório de um alquimista e procurou com os olhos o feiticeiro.
Viu seu misterioso salvador de pé junto a uma alta janela gótica.
Os raios do sol poente o envolviam em réstia de luz avermelhada, que dava a este homem alto e magro, de rosto pálido e anguloso, alguma coisa de estranhamente sinistro e infernal.
- Seja bem-vindo entre nós - disse mestre Leonardo com sua voz clara e metálica, respondendo com uma inclinação de cabeça à saudação do fidalgo.
Eu o chamei para que nós nos expliquemos, fidalgo, para lhe dizer quem sou e o que você terá de fazer aqui, - continuou o castelão.
Você não é uma mulher medrosa e tímida, posso então lhe falar francamente, ainda que Naema, apesar de ser mulher, consentiu corajosamente em tudo o que era necessário para escapar da fogueira.
Mas antes de tudo falemos claro de sua posição, fidalgo Walter de Küssenberg.
Você está proscrito pela lei, acusado de magia negra, de um pacto com o diabo e de relações criminosas com uma estátua de cera.
Uma única dessas acusações bastaria para entregá-lo à tortura e à fogueira.
As provas contra você abundam e você tem um implacável inimigo no pai de sua mulher.
Sua condenação é inevitável e as torturas que lhe aplicarão, vingarão amplamente os sofrimentos da senhora Filipina.
Você treme, é natural, mas no momento você não tem nada a temer.
Acrescentarei para sua lembrança que no mundo onde você viveu até agora, você tornou-se um mendigo.
Desaparecido ou queimado, você perdeu seus direitos.
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 29, 2016 8:15 pm

Seus domínios passarão para o primo Edilberto.
Quanto à fortuna de sua mãe, ela a doará à Igreja, sendo sua intenção tomar o hábito.
Contudo, enquanto você estiver aqui, como já lhe disse, isso pouco lhe importa.
Seus juízes não o acharão e você gozará sempre de sua independência, da riqueza e da posse da mulher que você ama.
- O que você exige de mim em troca de todos esses bens; e quem é você, homem horrível e misterioso? - perguntou Walter tentando sacudir o sentimento de dolorosa angústia que o sufocava.
Um sorriso de sombrio orgulho franziu os lábios do castelão:
- Meu nome lhe explicará tudo.
Eu sou mestre Leonardo.
Walter recuou cambaleando e involuntariamente gritou:
- Leonardo!
O bode asqueroso do sabá?
- Sim, o rei alegre do sabá, da sombria potência e dos prazeres delirantes que nenhum freio segura, - respondeu o homem diabólico com uma risada discordante.
E neste sabá você tomará parte, Walter, para ser definitivamente um dos nossos.
Esta noite nossos afiliados se reunirão lá na charneca.
Ele mostrou o lugar, deserto e queimado, que se via da janela e que o sol poente inundava de luz sangrenta.
- Quando soar o sino, você atenderá o chamado e estará na festa.
Senão, amanhã ao romper da aurora, você se achará em Friburgo, à disposição dos juízes e em frente da fogueira da qual o fiz escapar.
Eis aí, fidalgo, quais são minhas condições.
Mas de modo nenhum eu o quero constranger e lhe dou tempo e liberdade para reflectir.
Ele fez com a mão um sinal de adeus e desapareceu por detrás de um reposteiro, enquanto que, aniquilado, Walter se prostrava numa cadeira.
Num mudo desespero, ele torcia as mãos e a convicção de estar perdido inundava-lhe o corpo de suor glacial.
O que fazer?
Para onde e como fugir?
O inferno e as penas eternas dançavam diante de seus olhos.
Todavia, orar, pronunciar o nome de Deus ou do Salvador neste lugar de abominação, ele não ousava.
Um olhar lançado por acaso na janela lhe mostrou que a noite chegara e lhe pareceu que lá, na charneca maldita, dançavam já, duendes e turbilhonavam nuvens negras de corvos.
Com um surdo gemido, ele fechou os olhos, perguntando a si próprio se a tortura e a fogueira não seriam preferíveis ao execrável sabá que se preparava.
Mas neste momento, dois braços enlaçaram-lhe o pescoço e uma voz, fresca e bem conhecida murmurou:
- Não tema nada, meu querido, é comigo que você irá.
Walter estremeceu e levantou-se.
No mesmo instante os círios de cera na mesa de trabalho de mestre Leonardo acenderam-se por si mesmos e ele viu ajoelhada diante de si, não mais a estátua de cera, mas a própria Leonor, viva e adorável, tal qual a tinha conhecido.
Somente em lugar de sua comprida cabeleira, eram espessas madeixas louras que se derramavam pelas espáduas.
Ela vestia um vestido simples de lã branca e de toda sua pessoa emanava um perfume doce e delicioso.
Vendo erguidos para si os olhos cheios de amor de sua amada, seus lábios vermelhos que lhe sorriam, Walter esqueceu tudo.
Com um gesto apaixonado puxou-a para seus braços e cobriu-a de beijos.
Walter não se cansava de perguntar à jovem sobre seu misterioso desaparecimento e sobre a relação que havia entre ela e a figura de cera.
Ela ria, gracejava, embriagava-o com suas carícias, mas dava respostas evasivas.
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 29, 2016 8:15 pm

Súbito, o som vibrante ainda que longínquo de um sino se fez ouvir.
Leonor empalideceu tão bruscamente que mesmo seus lábios embranqueceram e tomando a mão de Walter, ela murmurou:
- Vamos, vamos! Depressa!
O mestre nos chama!
O jovem tentou libertar-se.
- Não, não, deixe-me.
Prefiro as chamas da fogueira às chamas eternas da maldição.
- Walter, Walter, você me abandona, você me deixa só, porque eu devo comparecer lá.
Rompi com o passado, reneguei meu Deus, sou uma amaldiçoada e não posso furtar-me quando me chama o sinal do sabá.
Oh! Eis o sino que soa pela segunda vez. Venha!
Ela escorregou para o chão e abraçando-lhe os joelhos, repetia:
- Venha comigo, o céu o reprovou, ele foi surdo para nós dois.
Siga-me então a esta festa, você jamais viu coisa semelhante, você ainda não gozou desse prazer que faz esquecer tudo.
Vendo o jovem hesitar ainda, ela se afastou chorando:
- Adeus! Adeus para sempre, - disse ela, - eu não posso demorar-me mais.
Jamais ela fora tão bela e tão sedutora como neste instante.
Como uma torrente inflamada, o sangue encheu o cérebro de Walter, afogando temor e escrúpulos.
De um salto alcançou Leonor e pegou-lhe o braço:
- Leve-me ao inferno, contanto que estejamos juntos, - gritou ele com voz ofegante.
Com um grito de alegria, Leonor abraçou-o e arrastou-o.
Apressadamente desceram as escadas, atravessaram os pátios e deixaram o castelo.
Com uma segurança que provava conhecer bem este caminho perigoso, Leonor desceu o estreito e escarpado trilho que levava ao fundo da garganta.
Saltando de pedra em pedra, atravessaram a torrente e subiram a colina oposta, menos abrupta que a primeira, porém pedregosa, fendida, coberta de arbustos espinhentos, que pareciam espectros agachados nas sombras da noite.
Enfim, eles desembocaram na charneca, vasto terreno árido coberto de erva amarelecida e de moitas de espinheiros.
Já no subir, eles encontraram sombras que chegavam de todos os lados, deslizando, silenciosas e apressadas, para a reunião conhecida.
A lua acabava de aparecer e clareava a paisagem desolada, reflectindo-se ao longe num pequeno lago.
Havia já uma multidão de mulheres e homens e mesmo crianças, as classes e os sexos misturados, nobres e plebeus, senhoras e mendigos e toda uma população de anões e anãs.
Correndo sempre, Leonor e seu companheiro atingiram a extremidade da charneca, onde ela se limitava com a montanha.
Mas de repente, Walter parou e observou arrepiado o estranho e sinistro espectáculo que se desenrolava diante dele.
Entre várias árvores desprovidas de folhagem e cujos troncos enormes e ramos nus e retorcidos projectavam sombras fantásticas, erguia-se um outeiro.
Em sua crista, três pedras negras formavam uma espécie de dólmen e entronizada neste simulacro de altar acocorava-se uma estátua de madeira, negra e felpuda, com a cabeça cornuda de bode e com todos os atributos de Satanás.
Braseiros acesos em todo o seu redor iluminaram com luz vermelha e fumacenta o outeiro e uma velha enrugada que estava agachada ao pé do dólmen tinha na mão direita um punhado de varas e entre os joelhos, um pote de pedra.
Com uma voz aguda e estridente, a megera cantava encantamentos.
De súbito, uma vara pareceu inflamar-se em sua mão, o canto cessa e mergulhando dois dedos da mão esquerda no pote, a feiticeira gritou estridentemente duas vezes em voz alta.
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 29, 2016 8:16 pm

Um clarão pareceu jorrar do pote de onde pulou um animalzinho sobre o dólmen. A estátua do bode pareceu animar-se e crescer.
Seus olhos se iluminaram, uma fosforescência se expandiu de todo seu corpo e se perdeu em espirais.
Leonor e Walter se colocaram na primeira fila.
Os olhos da jovem cintilavam de selvagem entusiasmo e a todo o instante ela sussurrava aos ouvidos de seu companheiro, pálido e desfigurado, explicações do que se passava.
Uma procissão asquerosa, todos vestidos de veludo verde ou de seda carmesim, trazendo sininhos no pescoço, acabava de desfilar, dirigindo-se para o lago, quando viram chegar como um tufão, fazendo sibilar o ar com sua carreira desenfreada, um gigantesco carneiro preto, de olhos incandescentes.
Em suas costas montava uma mulher jovem e linda, cujos longos cabelos negros esparramavam-se ao vento, e seu pálido rosto se crispava de pavor.
Com as duas mãos ela se agarrava ao espesso pêlo de seu estranho corcel que, com largo salto, atingiu o meio do círculo.
- É a rainha do sabá, - murmurou Leonor, enquanto que a multidão aclamava furiosamente a recém-chegada.
Tão logo a linda jovem apareceu sobre o dólmen ao lado do bode monstruoso, a missa negra começou e durante o desenrolar dos actos ímpios desta cerimónia odiosa, a multidão que formava uma corrente viva diante do casal infernal, punha-se a dançar.
Aos poucos a corrente humana se desata, as vagas humanas se dispersam pela charneca em um festim improvisado.
Todavia, aí nada falta.
Nem o hidromel que despejam a jorros, nem os doces, nem a carne delicada.
Todos se fartam, mergulham numa orgia inacreditável, até o momento em que aparecem os primeiros sinais da aurora.
Um cocorocó retumba semelhante ao som sonoro de uma trombeta e o badalar longínquo de um sino se faz ouvir.
Num abrir e fechar de olhos tudo se extingue, a multidão se dispersa às pressas, os traços do festim desaparecem como por encanto e o sol nascente ilumina apenas a charneca solitária, agora silenciosa.
Embriagado pelo hidromel e tonto de horror, Walter nunca pode se recordar de como voltara ao castelo e se deitara.
E quando ele acordou no dia seguinte, como depois de um sonho absurdo, sentia a alma dolorida e o espírito pesado e perturbado.
Depois desta noite medonha, a vida do jovem decorreu sem incidentes dignos de nota.
Todos os dias ele via Leonor e tomava suas refeições com ela.
Faziam juntos passeios a pé e a cavalo, mas não conseguiam ultrapassar um certo limite.
Se eles teimavam em querer ir mais longe a pé, eram tomados de invencível fadiga e, por vezes, adormeciam sob a primeira árvore que encontravam.
A cavalo, os animais, como que repelidos por uma barreira invisível, empinavam e recusavam-se a avançar.
Fora dessa restrição, Walter gozava de liberdade total e o misterioso castelão provia todas suas necessidades com generosidade principesca, rodeando-o de luxo refinado.
De quinze em quinze dias festejava-se o sabá e era obrigatório para Walter e Leonor assistirem a ele.
Mas como o homem se habitua a tudo, o fidalgo também se acostumara ao horror destas reuniões, e a elas comparecia com uma espécie de indiferença.
Ele tinha a sensação de ser a presa de um pesadelo do qual, cedo ou tarde, despertaria e a simples ideia deste despertar o enchia de angústia e de terror.
Assim decorreram muitos meses quando, inopinadamente, começou a acontecer ao fidalgo uma coisa estranha.
De noite ele acordava em sobressalto, coberto de suor frio e parecia-lhe ouvir ao longe o canto vago de salmos ou de preces.
Em tais momentos, a lembrança de sua vida de outrora, honrada e cristã, enchia-o de remorsos e do desejo de voltar àquela calma e pia existência antiga.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 29, 2016 8:16 pm

VII - LUTA TENAZ

Enquanto Walter levava esta vida sacrílega, sua mãe desde que se restabeleceu, pôs em execução o projecto de se retirar para um convento.
Em virtude de seu zelo piedoso e da grande doação que ela fez à comunidade, o bispo abreviou-lhe o noviciado e deu-lhe permissão para professar.
Com ardor e uma fé profunda, a senhora Cunegundes, agora irmã Úrsula, rogava por seu filho, que ela acreditava estar entregue às chamas do inferno.
Incessantemente ela dizia missas, distribuía esmolas e procurava os santos eclesiásticos cujas preces podiam ser eficazes à alma de seu filho, de seu pobre Walter, que ela chorava como morto.
Um dia em que se celebrava uma festa no convento em honra de uma imagem milagrosa, havia entre os peregrinos um velho monge mendicante que caiu doente.
Irmã Úrsula cuidou dele e quando, restabelecido, ele se dispôs a deixar a abadia, ela lhe deu uma rica esmola.
Em seguida, como já o fizera mais de uma vez com outros, contou-lhe seus sofrimentos e pediu-lhe que orasse por Walter.
- De certo, de certo, minha irmã!
Orarei por seu filho, mas creio poder fazer muito mais por ele indicando-lhe um santo homem cuja intercessão diante de Nosso Senhor é bastante poderosa para arrancar uma alma das próprias garras de Satanás.
- E onde está este santo homem?
Como poderei encontrá-lo? - perguntou-lhe irmã Úrsula toda arrebatada.
- Eu mesmo, cara irmã, lhe servirei de guia, se sua abadessa e seu confessor o permitirem.
E agora vou contar-lhe a história do venerável eremita e a irmã verá que mais do que nenhum outro, ele é competente para frustrar a astúcia do demónio, curar os possessos e fazer milagres.
Se ele quiser ajudar seu filho, ele o salvará, morto ou vivo.
Para começar devo dizer-lhe que numa garganta solitária e selvagem das montanhas dos Volges, existe um pequeno convento colocado sob a protecção de São Lázaro, o bem-aventurado irmão de Marta e Maria, que Nosso Senhor ressuscitou.
Não longe do convento acha-se uma capela dedicada ao Salvador.
Foi um jovem e muito rico fidalgo dos arredores que a construiu, em gratidão a Deus por tê-lo salvo de um perigo mortal durante uma caçada.
Esse mesmo fidalgo, que era religioso e caritativo, também contribuiu para a reconstrução do convento, cujos antigos edifícios ameaçavam ruir.
Contudo, é velho o ditado que diz que a alma é forte e a carne fraca.
Esse mesmo jovem, apesar de suas virtudes e de sua religiosidade, sucumbiu à tentação.
O demónio apoderou-se de sua alma, arrastando-o a uma perdição igual a esta de que seu filho foi vítima.
Ele mesmo me contou, porque o santo eremita, frei Lázaro, e o jovem fidalgo que acabo de mencionar, são o mesmo homem.
Portanto, de sua própria boca ouvi a história de todos os crimes dos quais se tornou culpado.
Ele frequentou até o sabá e o diabo acreditava tê-lo definitivamente, quando se deu o milagre que operou sua salvação.
Uma noite, depois de uma orgia infame, ele se torcia e retorcia no leito não podendo dormir.
Apesar de seu esgotamento, o sono lhe fugia, decidiu tomar um forte narcótico e já tinha aberto o frasco, preparando-se para contar as gotas, quando uma luz repentina e brilhante encheu seu quarto e a dois passos dele apareceu um homem com uma túnica de uma brancura esplendente e flutuando acima do solo.
- Eu sou Lázaro, - disse a aparição.
Tu sabes, eu estava morto e a palavra de Jesus me ressuscitou.
Tu crês tua alma perdida para sempre, mas está no poder do Salvador devolver-te a vida verdadeira e eterna.
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 29, 2016 8:16 pm

Segue-me, eu te conduzirei à salvação.
A doce majestade que emanava da alma santa, o poder persuasivo das palavras que ela acabava de pronunciar, abalaram o pecador.
Ele se levantou e seguiu Lázaro.
Aonde iam?
Quanto tempo caminharam?
Ele jamais pôde dar-se conta disso.
Somente, ele acabou por cair esgotado e perder os sentidos.
Cantos religiosos fizeram-no voltar a si, e com estupefacção ele verificou que estava estendido diante da soleira da capela que ele mesmo tinha construído outrora.
No interior havia muitos peregrinos que, prostrados diante da imagem de Jesus, oravam com fervor.
Um tal milagre sacudiu-lhe a alma culpada até seu mais íntimo refolho, e quando os peregrinos deixaram a capela, ele se prosternou aos pés deles com lágrimas de arrependimento.
Um ancião venerável, de aspecto ascético, aproximou-se, orou por ele e molhou a cabeça com água benta.
No mesmo instante o pecador sentiu uma dor horrível por todo o corpo, em seguida um peso enorme pareceu destacar-se dele, e pela primeira vez desde anos, ele orou com fervor.
Desse dia em diante, ele jurou consagrar o resto de sua vida ao arrependimento e à oração.
Dedicou o que lhe restava da fortuna à caridade, dotou o convento e ornou a capela com um magnífico quadro de São Lázaro e Jesus ressuscitado.
Em seguida professou e se fez monge neste mesmo convento para cuja existência ele contribuíra tanto, mas não viveu aí.
Num lugar selvagem e inteiramente isolado, ele descobriu uma gruta perto de uma fonte.
Foi para lá que ele se retirou, orando e chorando seus pecados.
Mais de uma vez, contou-me ele, o demónio veio tentá-lo, esperando apossar-se de sua alma, mas Jesus e São Lázaro não o abandonaram nestes momentos de luta, e Satanás foi definitivamente vencido.
Agora o irmão Lázaro é mais do que octogenário, mas o poder de sua prece é tão grande que ele cura os possessos e converte os pecadores mais endurecidos.
Ele trata também de diversas doenças com a água de sua fonte, que considera santa, porque mais de uma vez, ao orar de noite, ele viu brilhar dela uma cruz luminosa.
Ouvindo esta narrativa, irmã Úrsula caiu em lágrimas, porém uma nova esperança de salvar Walter acendeu-se em seu íntimo.
No mesmo dia ela se ajoelhou aos pés da abadessa e do confessor pedindo-lhes autorização para empreender essa peregrinação.
Ambos consentiram com alegria, deram-lhe uma irmã convertida para acompanhá-la e, sob a guarda do velho monge, as duas mulheres partiram.
Depois de viagem fatigante chegaram ao convento de São Lázaro, mas apesar do cansaço, irmã Úrsula tinha tal pressa de ver o eremita, que após algumas horas de repouso, ela se pôs a caminho novamente.
O trajecto era longo e os trilhos pelos quais se subia às montanhas, difíceis e perigosos.
Contudo o amor materno sustinha a pobre mulher.
Ainda que sua roupa estivesse rasgada e seus pés em sangue, avançava sempre e até que ela e seu guia atingiram a chapada onde se encontrava a gruta.
Ao lado da entrada, encoberta por uma cortina de erva selvagem, uma fonte jorrava da rocha viva e suas águas cristalinas deslizavam com um doce murmúrio no leito pedregoso, descendo para a planície em sinuosidades caprichosas.
Do interior da gruta se elevava uma voz grave e ainda sonora, que suplicava por todas as almas transviadas, implorando ao céu que não as abandonassem, à volta ao redil de uma ovelha perdida sendo mais preciosa ao bom pastor do que a presença de todo seu rebanho.
Sob a injunção de seu guia, irmã Úrsula penetrou na gruta e com o coração palpitante, parou junto da soleira.
Era uma espaçosa cavidade, no fundo da qual uma grossa pedra servia de altar.
Aí se viam colocados um Evangelho e um grande crucifixo de marfim com a imagem do Redentor, ao lado dos quais brilhavam velas de cera em candelabros de prata.
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Perto da parede via-se um punhado de folhas secas e uma imagem da Virgem, diante da qual brilhava uma pequena luz.
O monge contara que uma vez por semana mandavam do convento círios, óleo e pão, o qual, com a água da fonte, constituía todo o alimento do asceta.
Diante do altar estava ajoelhado um velho de longa barba branca e de ar inspirado.
Apesar de gasto pelas macerações, seus traços traziam ainda os sinais de beleza notável.
Tomada de profunda emoção, irmã Úrsula caiu de joelhos e rompeu em soluços, mas o eremita não demonstrou prestar-lhe atenção, e somente quando ele terminou suas preces e cantou um hino em honra ao Salvador, sua divina mãe e São Lázaro, seu patrono, é que ele se ergueu e fitou a religiosa prostrada, com um olhar escrutinador.
- Levanta-te, mulher, eu te reconheço, - disse ele após um pequeno silêncio e com severidade.
Tu te convenceste afinal de que os bens e as honras terrestres não são mais do que pó e podridão diante do Senhor, que nada pede ao homem senão um coração puro?
Teu orgulho, tua avidez, teu coração malvado, entregaram à morte e à desonra toda uma inocente família, e arrastaram à perdição uma meiga e virtuosa, mas fraca criança.
Foi graças a ti que as entidades do mal adquiriram poder sobre ela.
E para te punir por teres dado mais valor a um pouco de ouro e a alguns títulos do que à virtude e a um amor puro, teu filho caiu na mesma perdição.
E agora levanta-te e diz-me o nome de teu filho, a fim de que eu o nomeie em minhas orações.
É uma nobre e santa tarefa arrancar de Satanás uma alma que ele já pensa possuir.
Conheço os abismos que teu filho atravessa e procurarei salvá-lo.
Tu, durante este tempo, volta para tua cela, ora e arrepende-te de teu orgulho que Deus humilhou.
E, sobretudo, ora, ora sem desfalecimento, a força da oração é imensa, ela é mais poderosa do que as trevas.
Se teu filho encontrar o caminho da salvação, Walter virá agradecer-te por teres pensado nele e o Senhor te perdoará, porque o amor materno foi mais forte do que os maus pendores que obscureciam tua alma.
Ele a ergueu, abençoou-a, deu-lhe de beber da água de sua fonte e um pedaço de seu pão para ela comer, e disse-lhe ao entregar-lhe uma pequenina cruz de madeira:
- Vai em paz, minha filha, ora e espera.
Reconfortada e cheia de fé e de esperança, a mãe de Walter beijou a fímbria do burel do eremita, depois voltou ao convento para repousar um dia ou dois antes de retomar o caminho de sua cela.
Chegada que foi à noite, frei Lázaro se pôs a orar.
Numa ardente evocação, ele implorou a todos os bons Espíritos que o ajudassem em sua tarefa, todavia dirigiu-se especialmente ao arcanjo São Miguel:
- Espírito poderoso, grande combatente da luz, inspira-me! - pedia ele com unção extática.
Eu sei que devo arrancar esta pobre alma da perdição, que o céu deve triunfar sobre o inferno, mas não sei como agir, porque sou fraco e cego.
Tu que és forte, invencível, clarividente, guia-me e sustenta-me.
No ardor das evocações, o eremita esquecia-se das horas.
Toda sua alma erguia-se às regiões bem aventuradas e seu apelo humilde e cheio de fé não foi inútil.
Súbito, um jorro de claridade inundou a gruta e lhe apareceu o arcanjo vitorioso, rodeado de grande falange de Espíritos luminosos.
Ele resplendia como o sol.
Sua auréola imensa, mais branca do que a neve, mais cintilante do que diamantes, pareciam perfurar a abóbada da gruta.
Seu rosto, de beleza sobre-humana, irradiava energia e bondade, e na mão tinha uma espada cuja lâmina era como um relâmpago.
- Levanta-te, Lázaro. - disse ele, - toma tua cruz e caminha direito diante de ti.
Um anjo te guiará e encontrarás a ovelha desgarrada na relva.
A fumaça negra que ela exalará, o terror que lhe inspirará tua aproximação, te mostrarão que é aquele que procuras.
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 29, 2016 8:16 pm

Vais sem medo, a fé será tua força, a cruz tua espada, e meu pensamento te inspirará e te protegerá.
A radiosa visão empalideceu e desapareceu.
Mas cheio de uma ardente gratidão, o eremita ficou longo tempo prosternado, agradecendo a Deus a grande graça que lhe acabava de conceder.
Em seguida, ele fez apressadamente seus preparativos de viagem.
Num saco ele pôs um pão e uma cabaça cheia de água da fonte.
Tomou numa das mãos a cruz e na outra um bordão e de madrugada deixou a gruta.
Não sabia para qual lado se dirigir, mas de repente viu uma pomba que esvoaçava diante dele, pousando num ramo, se ele parava e retomando o voo, se ele se punha de novo a caminhar.
Frei Lázaro compreendeu que essa pomba era o guia celeste que lhe prometera o arcanjo e seu coração se encheu de alegria, porque ele já antevia em pensamento o triunfo do bem, e uma pobre alma devolvida ao Senhor, purificada e redimida.
Durante três dias e três noites caminhou assim, atravessando montanhas e planícies, e sempre a pomba continuava a voar diante dele.
Na manhã do quarto dia, tendo atravessado uma espessa floresta desembocou numa clareira.
A erva aí era verde e espessa.
Bonitas flores cresciam nela, mas o ar estava impregnado de um odor de carniça que tirava a respiração do eremita.
Lázaro caiu de joelhos e erguendo a cruz fez o sinal da redenção nos quatro pontos do horizonte.
Antes que ele tivesse tempo de se levantar, caiu num fosso que ele não tinha visto e um enorme lobo se atirou sobre ele, de goela aberta e cheia de espuma.
O temível animal parecia raivoso, mas o eremita não se deixou amedrontar:
- Em nome de Deus e dos bons espíritos! - Disse ele elevando a cruz.
Tirando do saco um pedaço de pão, estendeu ao lobo e acrescentou.
- Se tu és um animal comum, toma e farta-te!
Mas o lobo recuou.
Os olhos lhe saltavam das órbitas e com urros se pôs a arrastar em direcção ao asceta.
Este ergueu a cruz acima dele, gritando:
- Em nome de Deus. Recua Satanás!
O lobo então rolou em convulsões, gritando com voz humana, como um homem que estrangulam.
Em seguida ele desapareceu bruscamente e o eremita continuou seu caminho.
Mais longe, numa volta do caminho, frei Lázaro viu um homem deitado na relva ao pé de uma árvore e profundamente adormecido.
Ele era jovem, belo e estava ricamente vestido.
Porém seus membros magros, seu rosto envelhecido antes do tempo, demonstravam que ele se entregava a excessos.
Seu peito arfava e de todo seu ser evolava uma fumaça negra, enquanto que sobre sua cabeça voejava um gigantesco abutre.
Frei Lázaro se lembrou das palavras do arcanjo e compreendeu que encontrara aquele que procurava.
Mas quando ele quis aproximar-se dele, da relva ergueu-se uma cobra que tentou morder o pé do eremita.
Este a afastou com a cruz e, como que decepada, a cabeça do réptil destacou-se do tronco que se abateu no capim.
O abutre então se opôs à aproximação do eremita, dando-lhe com o bico e com as asas, mas vencido por sua vez pelo símbolo da redenção, desapareceu nos ares e Lázaro, aproximando-se do adormecido, esvaziou-lhe na cabeça o conteúdo da cabaça.
Era mesmo Walter que, atormentado neste dia por uma angústia excepcional, saíra para um passeio e tentara atravessar o limite que lhe traçaram.
Tomado, como sempre, de fadiga mortal ao atingir a barreira invisível, adormecera e apenas despertou quando a água benta o molhou.
Sentindo uma dor espantosa, ele rolou no capim, torcendo-se em convulsões.
A espuma corria-lhe da boca, e seu rosto crispado e retorcido, tornara-se irreconhecível.
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Set 29, 2016 8:17 pm

Os olhos saltavam das órbitas e por vezes proferia horríveis blasfémias, ou emitia vozes de animais.
Ele latia como um cão, urrava e arreganhava os dentes como um lobo, ou cantava como um galo.
Era um espectáculo medonho, mas frei Lázaro estava calmo e intrépido.
Sem vacilar, erguia sua cruz, repetindo com voz imperiosa:
- Saiam, espíritos inferiores!
Eu não lhes abandono esta alma, saiam, ou eu lhes aplicarei a cruz que doma o umbral e seus agentes!
As entidades não cediam.
Eles torciam a vítima, infligindo-lhe uma cruel tortura, eles próprios berrando como danados.
- Bem, - disse então o eremita, - já que vocês não querem sair, eu os levarei comigo e em minha casa vocês terão uma vida dura.
Ele se inclinou e tentou erguer Walter, porém este se tornara tão pesado quanto uma rocha.
- Senhor Jesus, em teu nome nenhum demónio pode resistir, assiste-me, ajuda-me a salvar esta alma culpada! - Exclamou Lázaro.
E no mesmo instante, da boca de Walter escapou um grunhido, enquanto que ele caía como morto.
Porém, seu corpo ficou leve e o eremita o ergueu nos braços como se fosse uma criança.
Louvando o Senhor e milagrosamente cheio de força sobre-humana, frei Lázaro retomou o caminho de suas montanhas.
A pomba o guiava de novo, mas desta vez a estrada parecia tão curta e fácil quanto fora comprida e penosa na vinda.
E os primeiros raios do sol nascente douravam o horizonte, quando o eremita depôs seu fardo ao lado da fonte que corria na entrada da gruta.
Durante todo o caminho um enxame de vespas o seguia de longe e, zumbindo, juntou-se numa cavidade da rocha, tanto eram grandes a força e o atrevimento dos espíritos.
Sem perda de tempo, frei Lázaro despojou Walter das roupas que ele trazia, queimando-as numa fogueira de lenha.
Escapou-se delas uma chusma de insectos que fugiram em todas as direcções.
Desalojadas pela fumaça, as vespas também voaram e desapareceram.
Dando graças a Deus por esta nova vitória, o eremita se ajoelhou ao pé de Walter sempre sem sentido e tirando água da fonte, molhou-o todo.
Por fim, quando esvaziou-lhe na cabeça a terceira cabaça, o pobre homem abriu os olhos e sentou-se assustado.
Lázaro trouxe então uma vestimenta de pano grosseiro e sandálias de palha trançada.
Em seguida, ele acabou de vestir-se, ajudou-o a levantar-se e o levou para a gruta.
Quando Walter, muito fraco e perturbado ainda, sentou-se, ele lhe disse:
- Você quer, meu filho, voltar aos princípios do bem e pedir perdão a Deus, dos crimes que você cometeu?
Os espíritos inferiores saíram de você, seus olhos estão abertos, e agora você possui todo seu livre arbítrio.
Somente neste instante Walter viu o imenso serviço que o santo velho lhe prestara.
Sentiu seu coração livre de um peso enorme e caindo de joelhos beijou os pés de seu benfeitor, soluçando como uma criança.
- Eu o compreendo, meu filho, - disse o ermitão pousando-lhe a mão na cabeça, - porque, como você, eu fui um miserável maldito que zombava de seu Criador.
A graça me tocou, obtive o perdão do Senhor, meus lábios voltaram a ser dignos de pronunciar seu nome e, em sua infinita misericórdia, ele me permitiu que resgatasse o passado salvando meus irmãos transviados da perdição.
Agora, meu filho, ouça o que lhe concerne.
Com a ajuda de Jesus Cristo e pelo poder de seu santo nome expulsei os demónios que possuíam e torturavam sua alma e subjugavam-lhe o corpo.
Mas apenas por isso, eu não creio que você esteja livre deles.
Eles voltarão para perturbá-lo com quadros imundos, com a tentação sob todas as formas.
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 30, 2016 7:52 pm

Eles despertarão em você, desejos impuros e sofrimentos agudos.
Enfim, eles farão tudo o que lhes for possível para retomar a possessão sobre você e reconduzi-lo àquela infernal confraria.
Aqui perto há uma gruta.
Para ela eu o levarei e lá você acabará sua salvação, porque se quiser ficar livre, deverá combater rudemente.
Mas não estará desarmado.
Prender-lhe-ei ao pescoço uma partícula da cruz que me trouxeram de Jerusalém.
Além disso, terá na mão uma cruz que você não deve jamais largar.
Um círio bento o iluminará.
Unicamente você deverá ter o cuidado de não dormir, porque é de noite e durante o sono do homem que os demónios têm mais força.
Você então dormirá de dia e de noite velará e orará se, contudo, quiser conformar-se com meus conselhos.
- Se o quero! - gritou Walter abraçando os joelhos do ancião.
Se você mandar, venerável irmão, irei hoje mesmo entregar-me à justiça humana.
Que as chamas da fogueira devorem este corpo infame, que serviu de gozo a Satanás.
Que arranquem a língua que blasfemou contra Deus!
Que quebrem estes membros que pisaram, e insultaram os símbolos sagrados!
Fale que eu obedecerei, porque compreendo agora que as torturas do corpo não são nada em comparação com as penas eternas!
O eremita sorriu.
- Pobre criança transviada!
Compreenda que Deus, infinitamente bom e misericordioso, não precisa de sua carne martirizada e queimada.
Ele quer seu arrependimento, sua vitória sobre o mal, a destruição de suas paixões.
Saiba também que os sofrimentos da fogueira não são nada em comparação com a luta que você deve empreender contra os demónios que virão atacá-lo.
Prove a sinceridade de seu arrependimento e a força de sua fé, dominando-os.
E agora, venha!
É preciso reconfortar o corpo e dormir.
Quando chegar a hora, eu o acordarei.
No fundo da gruta, dissimulado na cavidade da rocha, havia um armário onde o ermitão guardava provisões destinadas aos doentes, aos peregrinos, aos visitantes e aos viajores perdidos.
Dele retirou um pão, um queijo, um pote de mel e uma jarra de vinho, que depositou na mesa rústica, convidando Walter a comer e a beber.
Quando o fidalgo se fartou, obrigou-o a deitar-se em seu próprio leito de folhagem.
Logo, a respiração regular e profunda do jovem anunciou que dormia.
Lázaro, que o contemplava com afeição, veio então ajoelhar-se diante do altar.
Ele não sentia nenhuma fadiga, mas uma grande necessidade de orar, de agradecer a Deus.
Parecia-lhe que tudo o que fizera durante sua longa vida, fora em vão e que somente hoje ele cumprira um dever verdadeiramente digno do Senhor, e todo seu coração se inflamou no desejo de salvar esta alma obscurecida e criminosa.
Quando o sol se escondeu, o eremita acordou Walter que se sentia inteiramente recomposto, e o conduziu a uma pequena gruta, próxima da sua.
Lá também havia um altar pequeno e improvisado, sobre o qual se erguia uma grande cruz com a imagem do Salvador e também um livro de salmos aberto.
De lado, numa pedra mais baixa, estava um grande pedaço de pão e uma cabaça cheia d'água.
- Veja, meu filho, você passará aqui as noites em prece e se durante oito meses nenhum demónio aparecer para atormentá-lo, você poderá, mas somente então, considerar-se liberto definitivamente.
Agora pegue esta cruz de madeira na ponta da qual coloquei um círio aceso.
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 30, 2016 7:52 pm

Ele lhe servirá por muitas noites.
Deste pão, toma e coma quando os demónios lhe infligirem fome cruel.
Desta água santa, beba quando a sede ardente devorá-lo e quando lhe apresentarem uma bebida diabólica.
Porque o tentarão de todas as maneiras.
Seja firme, resista.
As primeiras noites serão as mais duras, porém delicioso é o repouso depois da vitória.
Agora eu o deixo, mas orarei por você em minha gruta, a fim de sustentar sua coragem.
Ainda uma coisa:
você está vendo aquele galo branco pousado num ramo seco?
Quando seu canto ouvir, eles o deixarão.
Ficando só, Walter experimentou primeiro um grande bem-estar e uma profunda tranquilidade.
Apertando a cruz contra o peito, ajoelhou-se diante da imagem do Redentor, e à claridade da luzinha e do círio, começou a ler os salmos e as preces que o eremita lhe indicara.
Um longo tempo decorreu.
Nada perturbava sua unção e em voz alta ele lia justamente uma ladainha à Virgem, quando de repente um vento frio percorreu a gruta, um estranho desassossego tomou-lhe o íntimo e um medo inexplicável se apossou dele.
Um suor gelado inundou-lhe o corpo, os cabelos se arrepiaram e um estremecimento nervoso sacudiu-o da cabeça aos pés.
Subitamente surgiram na sombra dois olhos fosforescentes e ele viu uma serpente que se arrastava em sua direcção, fascinando-o com suas terríveis pupilas esverdeadas.
Depois, um surdo grunhido se fez ouvir e ao lado do réptil, apareceu um lobo que o fitava com uma malvadez infernal.
Rapidamente, toda a gruta se encheu de animais imundos e quando Walter lançou ao seu redor um olhar apavorado, ele se viu encurralado num círculo intransponível.
De todos os lados ameaçavam-no goelas abertas e dentes agudos.
Olhares odientos o miravam, ratos enormes investiam contra ele, corvos e morcegos pairavam sobre sua cabeça.
Com a garganta cerrada, mas dominando corajosamente seu terror, Walter cantou as últimas linhas da página, e depois, mergulhando a mão na água benta, aspergiu amplamente a imunda malta que se comprimia ao seu redor.
Mas quase no mesmo instante ele soltou um grito de dor.
Um rato acabava de mordê-lo na perna, enquanto que um outro animal enterrava-lhe os dentes nas costas.
- Jesus, Maria, sustentem-me! - gritou ele com angústia.
E subitamente tudo empalideceu à sua volta.
Os odiosos animais desfizeram-se na escuridão e desapareceram.
Walter respirou aliviado e, prosternando-se, agradeceu ao Salvador o socorro manifesto, mas a trégua não foi longa.
Ele apenas começava a cantar um salmo, quando foi tomado por uma fome devorante e por sede inextinguível.
Ao mesmo tempo, surgiu-lhe na frente um ser horrendo e disforme que ele se recordava ter visto no sabá.
Trazia uma bandeja cheia de iguarias apetitosas e uma taça de vinho aromático, que lhe estendeu com um sorriso de mofa.
Lembrando-se do que o eremita lhe dissera sobre as investidas diabólicas, Walter desviou os olhos, partiu um pedaço de pão e o comeu e bebeu um gole de água.
A isto a face do ser infernal se crispou, sua bandeja de comida se desfez, e ele próprio fundiu-se numa nuvem negra e nauseabunda.
Walter retomou o versículo interrompido do salmo, mas logo uma brisa glacial começou a soprar na gruta.
O frio era tão intenso que o penitente pensava gelar.
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 30, 2016 7:52 pm

Batiam-lhe os dentes e os dedos rígidos mal seguravam a cruz.
Então ele ouviu um alegre crepitar e a alguns passos acendeu-se um braseiro que devia irradiar um calor reconfortante, se ele se aproximasse, porém Walter não se moveu e seus lábios arroxeados continuaram a recitar as palavras do salmo.
Pouco a pouco o frio terminou, mas foi substituído por um vapor húmido que caía no solo formando poças d'água sujas que rapidamente se estenderam.
De todas as partes a água se filtrava borbulhando.
Molhou os pés de Walter e depois lhe atingiu os joelhos.
As paredes da gruta desapareceram e de todas as direcções surgiram ondas agitadas que encharcavam o jovem até o pescoço que a cada instante ameaçavam afogá-lo.
Então apareceu uma barquinha dirigida por um rapaz de olhos doces e complacentes que, aproximando-se de Walter, estendeu-lhe a mão, convidando-o a subir a seu lado.
Por resposta, Walter abraçou-se à pedra que lhe servia de altar e que o crucifixo dominava como um farol de salvação e murmurou com uma voz quase extinta:
- Jesus, meu Redentor, não me abandones pelos meus pecados!
Uma lufada de ar tépido e embalsamado acariciou seu rosto e pareceu sacudir as ondas geladas e turvas.
Tudo sumiu e a gruta retomou seu aspecto habitual.
Vendo-se assim vencidos em todos seus ardis, a cólera se apossou dos maus Espíritos e como uma nuvem negra, apareceram de todas as partes.
Pedras, restos humanos foram atirados em Walter, ferindo e machucando-lhe todo o corpo.
Mas ele suportava tudo com humildade e paciência, invocando somente o santo nome de Deus, até que o galo cantou pela terceira vez.
Imediatamente tudo se dissipou, o primeiro raio do sol clareou a entrada da gruta e esgotado, mas feliz, Walter prostrou-se aos pés do altar.
A voz alegre de frei Lázaro que lhe dizia:
- Felicito-o, meu filho, você combateu valentemente! - arrancou-o de seu torpor.
Endireitou-se e beijou a mão do eremita, que o ajudou a erguer-se e acrescentou com um sorriso:
- Você não pode ainda julgar-se vencedor.
Eu o previno que novas lutas e duras provas o esperam, porque os demónios não abandonam facilmente uma presa que eles julgavam possuir definitivamente.
- Sofrerei tudo, mas me livrarei dessa escravidão - respondeu Walter enxugando a fronte banhada de suor.
Amplamente mereci o meu castigo e por maior que seja o poder dos maus espíritos, eles não me dominarão mais.
- Persevere, meu filho, em tão louváveis disposições e você reconquistará a graça eterna.
Venha agora à minha gruta e fortifique-se com o alimento e o sono para as lutas da noite.
Walter o seguiu com reconhecimento e tendo comido e bebido, deitou-se na cama de folhas secas.
O sol declinava quando acordou.
Não se lembrava de ter jamais dormido tão bem mesmo em seu leito macio, sob as cortinas de brocado da antiga casa.
Chegada a noite, depois de ter compartilhado da frugal ceia do eremita, Walter retirou-se para sua gruta e se pôs a orar.
Desta vez ele sentia mais segurança e cantou com voz firme e sonora os salmos da penitência.
Depois que o galo assinalou com seu canto a meia-noite, uma lufada de ar frio encheu de novo a gruta.
Em seguida no fundo escuro da rocha, apareceu um ponto luminoso que se tornou um disco imenso.
E aí, como num espelho, começaram a desfilar os mais tentadores quadros.
Todas as seduções da beleza e da volúpia se desenrolaram numa realidade embriagadora diante dos olhos deslumbrados e perturbados do pecador arrependido, estimulando-o e excitando-lhe os sentidos, revolvendo tudo quanto restava em sua alma de desejos impuros.
Mas Walter permaneceu firme ainda que todo fremente, com a cabeça em fogo, a respiração opressa.
E ficou de joelhos invocando os bons Espíritos, suplicando-lhes que lhe amparassem a fraqueza com suas forças celestes.
Sua prece não foi vã.
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 30, 2016 7:52 pm

O disco luminoso arrebentou-se com uma crepitação sinistra e em seu lugar apareceu mestre Leonardo.
Uma infernal perversidade desfigurava o rosto do ser misterioso, quando ele gritou com voz rouca:
- Ingrato, miserável poltrão, que prefere levar uma vida inepta, com o rolar de orações, vestir-se de trapos e comer pão seco, em lugar de gozar de uma existência principesca!
Tudo isso porque conseguiram amedrontá-lo.
Mas você tem de voltar!
Você me pertence, você confraternizou connosco no banquete do sabá, você celebrou a missa negra e cuspiu nos símbolos que adorava.
Sua alma me pertence!
A estas palavras Walter, que estava de joelhos, levantou-se e erguendo a cruz, respondeu com voz firme e enérgica:
- Recue, inimigo dos homens, serpente imunda que ousa lançar sua peçonha contra o Senhor, dono do Universo!
Você é impotente contra mim, porque sua força diabólica se derrete diante do símbolo da redenção.
Portanto, afaste-se e desapareça antes que eu o fustigue com esta cruz!
Mestre Leonardo recuou soltando um grito agudo e lançou no rosto de Walter uma baforada de ar inflamado e um tamanho cheiro de cadáver em decomposição, que a respiração lhe faltou.
Ao mesmo tempo uma verdadeira avalanche de restos humanos, de sapos, de lagartos e de vermes repugnantes, caiu sobre ele, cobrindo-o de resíduos pastosos e fétidos.
Walter ficou de pé com a cruz erguida e gritou com voz forte:
- Senhor Jesus, meu Mestre e Protector, envia teus espíritos superiores, para que eles me defendam contra esse demónio vomitado pelo inferno.
Mestre Leonardo soltou uma horrível blasfémia e desapareceu, atirando na cabeça de Walter uma emissão fluídica que quase o apanha.
O canto do galo e os primeiros clarões da aurora trouxeram-lhe o repouso.
O eremita veio, abraçou-o, felicitou-o e afirmou-lhe que ele estava no caminho da graça.
Porém devia acautelar-se para não enfraquecer e não dar o espírito do mal por vencido, porque era justamente nos momentos de descuido que ele aproveitava para recapturar suas vítimas.
Na terceira noite, Walter começou sua vigília com mais coragem ainda.
Ele se sentia como um convalescente depois de grave enfermidade.
A fraqueza, o peso de todo seu ser, o insaciável desejo de gozar que nada podia satisfazer, tudo isso desaparecera.
Seu cérebro estava claro, todo seu corpo leve e cheio de tranquilidade.
Com uma alegre disposição, ele se pôs a orar e como as horas decorressem calmas e silenciosas, começou a pensar que o demónio, convencido de sua impotência, o largara.
Mas repentinamente, ele estremeceu e seu coração parece que parou de bater.
Na abertura formada pela entrada da gruta, ele viu Leonor, não a figura de cera, nem a mulher sombria e apaixonada que ele conhecera no castelo de mestre Leonardo, mas a sublime e inocente criança que ele encontrara na casinha do velho Lebeling e que lhe inspirara um tão vivo e profundo amor.
Como então, ela vestia um simples vestido de lã, uma estreita fita azul segurava seu cabelo rebelde na fronte de marfim, as tranças espessas pendiam quase até o colo e tendo nas mãos uma cítara, ela cantava uma dessas árias populares, tristes e doces, de que ele tanto gostava.
Oh! Como estava linda!
O coração palpitante de Walter corria para ela e já ele abria a boca para chamá-la quando, de súbito, lembrou-se que o diabo era hábil em maquinações e que talvez ele contasse com a fraqueza de seu amor por Leonor.
Ele parou imediatamente.
Humedeceu a boca com água santa e firmando a voz perguntou:
- Quem é você e para que me quer?
Então a suave voz de sua bem-amada respondeu com tristeza:
- Estou muito só e abandonada, meu Walter.
Não posso vir abraçá-lo, reencontrar em seus braços o amor e a felicidade?
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 30, 2016 7:53 pm

- Se de verdade você é minha adorada Leonor, saúde-me em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, vem beber da água santa de minha cabaça e beijar a cruz que tenho nas mãos.
Então você poderá aproximar-se de mim e nós oraremos juntos.
Enquanto ele falava, viu com horror o vestido branco de Leonor se colorir de manchas negras, sua cabeça loura se dissipar e se transformar na face crispada de mestre Leonardo.
Soltando uma gargalhada infernal, o ser perverso pareceu estourar como uma bomba, fundir-se numa nuvem preta e espessa que salpicou Walter de imundícies e sumiu enchendo a gruta de um abominável cheiro de carniça.
- Senhor, meu Deus, era mesmo o demónio!
E eu que já queria chamá-lo, tomando-o por Leonor! - murmurou Walter benzendo-se.
Muitas noites se seguiram bastante calmas.
Por vezes os espíritos do mal apareciam inopinadamente, dançavam ao redor dele uma sarabanda infernal, procuravam perturbá-lo por meio de quadros impudicos ou blasfemavam de modo horrível, mas Walter, mais forte, conhecia já suas manhas e não se deixava fraquejar.
Sem mesmo lançar um olhar em seus perseguidores, ele fazia orações e cantava hinos à glória do Salvador e eles acabavam por desaparecer.
Em seguida tudo cessou.
Todas as noites Walter velava e orava, mas nada o vinha perturbar, tudo era silêncio e solidão.
Depois de terem decorrido perto de três semanas sem que nenhum ser inferior reaparecesse, ele se persuadiu que tinham renunciado a atormentá-lo.
O ermitão, ao qual ele exprimia esta convicção, sacudiu a cabeça:
- Não se iluda com tais esperanças, meu filho, e, sobretudo, não se embale numa perigosa tranquilidade.
Conheço a tenacidade de Satã e lhe predigo que esse abandono simulado é a calma antes da tempestade, o encolher-se do tigre ante um bote decisivo; mais do que nunca, vigie e mantenha-se em guarda.
E frei Lázaro não se enganava.
Alguns dias depois dessa conversa, Walter, de joelhos diante do altar, orava com fervor quando sentiu perto de si um aroma suave e penetrante que ele se lembrava de já ter respirado.
Ergueu os olhos e ficou petrificado.
A seu lado estava Naema, mais bela do que nunca.
A túnica de gaze mal encobria suas formas admiráveis.
As ondas de seus cabelos dourados acariciavam as faces do penitente e seus grandes olhos fosforescentes o fitavam, cheios de ardente paixão.
De todo o ser de Naema emanava um perfume perturbador de rosas e de violetas que embriagava e enervava ao mesmo tempo.
- Walter! - murmurou ela inclinando-se para ele, tão perto que seu hálito perfumado o acariciava - será que você me pode abandonar, rejeitar-me como réproba, de medo de um inferno ridículo que não existe?
Procurei-o muito, meu amado, antes de encontrá-lo aqui, tão pobre e tão miserável, meu belo e querido amigo!...
De novo ela se inclinou, estendendo os braços para abraçar Walter.
Este recuou com terror e ergueu a cruz.
- Naema, recue!
Eu não tenho mais nada de comum com você.
Em vão me vem tentar com sua beleza.
Você já não o pode - disse ele com tenacidade.
Então Naema caiu de joelhos e estendendo para ele as mãos juntas, suplicou-lhe com as mais ternas palavras que não a repelisse.
Ela se arrastou a seus pés, derramando uma torrente de lágrimas, repetindo que não podia viver sem ele, sem seu amor.
O poder da mulher que ele amara tão apaixonadamente era grande ainda e sua maravilhosa beleza exercia sobre os sentidos de Walter um ascendente quase irresistível.
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 30, 2016 7:53 pm

Pálido como um morto, tremendo de febre, coberto de suor, ele se encostara à parede, apertando no peito o símbolo da salvação.
Seus lábios frementes balbuciavam palavras incoerentes, farrapos de preces cujo sentido ele já não compreendia.
Ele lutara vitoriosamente contra os demónios que o assediaram, suportara o frio, a fome e as dores físicas, frustrara as malícias diabólicas e resistira às mais voluptuosas visões.
E agora ele tremia, sentia-se enfraquecer à vista dessa mulher bela, bela de fazer esquecer a condenação, cujo ser todo parecia exalar os mais ardentes desejos, despertar uma paixão insensata e infernal.
Walter percebia o abismo abrir-se a seus pés.
Tudo o que ele conquistara com um tão penoso trabalho esboroava-se.
A carne rebelde, os sentidos indisciplinados se erguiam como serpentes, abraçando-o, escravizando-o, impelindo-o para essa mulher que se arrastava para ele, aproximando-se sempre.
Já ela o tocava, embriagando-o com o perfume que irradiava.
A cabeça lhe girava.
O sangue, como uma torrente inflamada, afluía-lhe ao cérebro, obscurecendo-lhe a vista.
Um instante mais e a cruz cairia de suas mãos trémulas, e os braços flexíveis de Naema lhe enlaçariam o pescoço, quando subitamente entre Walter e a infernal tentadora, se interpôs uma mão luminosa segurando uma cruz.
Naema recuou, empalideceu e sumiu no crepúsculo que anunciava a aurora, enquanto que Walter caia desfalecido.
Ao se passar o que acabamos de narrar, o eremita orava em sua gruta e sua alma, clarividente graças à vida pura e ascética, assistira ao terrível combate travado por seu discípulo.
No momento decisivo, ele viera em auxílio do fidalgo, projectando por uma emissão de vontade, o símbolo luminoso da salvação entre Leonor e sua vitima.
Quando voltou a si de sua prece extática, foi logo para junto de Walter, que ele achou ainda sem sentidos.
Lavou-lhe o rosto com água santa e logo que Walter reabriu os olhos, levou-o ao ar livre, onde os raios vivificantes do sol nascente e os aromas das plantas e das flores acabaram por restabelecê-lo.
Lázaro felicitou-o por ter corajosamente lutado, mas avisou:
- Junte suas forças, meu filho, a luta suprema que lhe predisse acaba de começar.
A terrível visão virá tentá-lo novamente, impondo-lhe o mais tremendo combate que um homem possa travar:
o combate contra os sentidos, os quais ele não aprendeu a dominar.
E somente quando você os tiver domado é que poderá considerar-se livre das cadeias do mal.
Ore, então, como eu orarei, para que Deus lhe conceda a força de destruir a mulher enviada por Leonardo.
Walter abaixou a cabeça.
Agora compreendia muito bem o quanto era difícil livrar-se dessa força inferior à qual ele imprudentemente se ligara.
Após ter-se reconfortado com o sono e com um pouco de alimento, Walter, humilde, mas corajoso, voltou ao lugar de seu suplício, na gruta onde sofrera todas as torturas do combate, suportara dores pungentes e onde se erguia a fogueira invisível na qual ele consumia todas as fraquezas da carne.
O fidalgo orou sem ser perturbado por várias horas e já julgava que Naema não voltaria mais.
Todavia à meia-noite, ela surgiu no fundo da gruta e se pôs a tentá-lo.
O suor banhava o corpo de Walter, que se defendia apenas com a cruz ao procurar Naema aproximar-se dele.
O confronto durou até o raiar do dia e esgotou-o de tal modo que ele mal pode arrastar-se até a fonte e foi incapaz de dormir.
Com angústia pensou que na chegada da noite ele estaria sem forças e que lhe era indispensável domar de qualquer modo a infernal visão que, afinal de contas, podia levá-lo a sucumbir.
Mas como fazer?
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 30, 2016 7:53 pm

Ardentemente Walter implorou a Deus e aos bons Espíritos que o inspirassem.
Não cessando de orar, o fidalgo esperou a vinda de sua perseguidora.
Na hora habitual ela apareceu mais bela e mais fascinante do que nunca.
Mas, em seus olhos sombrios, entre olhares de amor, brilhavam relâmpagos de cólera e de impaciência.
Ela se mostrava mais ousada do que das outras vezes, atacando sua vítima com uma raiva cruel.
Vendo seus esforços falharem, ela ergueu de repente os dois braços e começou a fazer passes no ar.
De seus dedos emanavam longas réstias de luz avermelhada, que lançava sobre Walter e fê-lo fraquejar, depois de ser invadido por uma pesada sonolência.
Suas pálpebras se fecharam.
Como uma serpente, Naema deslizou e se inclinava para imprimir-lhe um beijo nos lábios, além de com um golpe brusco fazê-lo largar a cruz, quando no limiar apareceu frei Lázaro, que bradou com voz trovejante:
- Acorde, Walter, ou o demónio o reconquistará!
Como que tocado por uma ducha de água gelada, o fidalgo se endireitou e a consciência de ter estado tão perto da derrota o encheu de súbita cólera.
Agarrando Naema pelos longos cabelos, ele a derrubou, brandindo a cruz por cima de sua cabeça.
O ser demoníaco se torcia soltando gritos horrorosos e procurando livrar-se, mas Walter o mantinha com mão de ferro.
E por súbita inspiração, com o círio preso na ponta da cruz, ele pôs fogo na cabeleira de Naema.
- Em nome de Jesus e de Maria, consuma-se, criação infernal, volta para o abismo de onde você surgiu e não ouse mais aparecer em meu caminho - disse ele com voz forte e dando um passo para trás.
No mesmo instante o corpo de Naema pegou fogo inteiramente, derreteu-se crepitando, sibilando, urrando, depois explodiu com um estouro semelhante ao do trovão.
Uma sombra negra escapou-se das chamas e desapareceu, deixando após si um odor fétido.
Alguns minutos depois não restava da forma vivente de cera mais do que um pouco de cinzas enegrecidas e misturadas com restos de ossos calcinados.
Walter deu um grito e se atirou nos braços do ermitão que, com lágrimas de alegria, apertava-o contra o peito.
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 30, 2016 7:53 pm

VIII - VITÓRIA CONTRA O MAL

O desaparecimento de Walter que ele julgava possuir definitivamente, enchera mestre Leonardo de uma raiva espantosa.
Contudo ele contava ainda com Leonor para reaver a alma do jovem.
Não tendo conseguido enganá-lo ao tomar ele próprio as formas da jovem, resolveu usar uma vez mais a figura de cera.
Pelo processo que ele empregara tão bem, exteriorizou o corpo perispiritual de Leonor a qual, transformada em Naema, procurou seu antigo amante e tentou seduzi-lo, usando de todos os recursos de sua beleza, de todas as forças de que dispunha, porque à vista de Walter e a vontade de mestre Leonardo, reacenderam toda a paixão que ela sentia pelo fidalgo e sob a inspiração de seu infernal dominador, ela decidira matar Walter, se não conseguisse vencê-lo.
Vimos que todos os seus esforços malograram.
Apesar do sofrimento que lhe causava a presença da mulher amada e da paixão que se movia ainda no fundo de sua alma, o jovem se mantivera firme e na super excitação do fanatismo e do êxito religioso, queimara viva sua temível tentadora.
Na noite em que se desenrolava o último acto desse drama, gritos espantosos alarmaram todo o castelo de mestre Leonardo.
Oxarat e a anã precipitaram-se para o quarto onde repousava, como da primeira vez, o corpo rígido e gelado de Leonor.
Com espanto eles verificaram que a jovem despertara e rolava no leito, envolta numa fumaça negra e soltando gritos que nada tinham de humanos.
Quase no mesmo instante apareceu mestre Leonardo que, vendo o que se passava, pegou o frasco que continha a essência que a anã despejava nas brasas para conservar um aroma vivificante no quarto, esvaziou-o numa bacia cheia d'água e embebendo um pano, cobriu o corpo de Naema, que caiu em convulsões, torcendo-se, blasfemando e implorando a morte para se livrar de dores insuportáveis.
Pouco a pouco as convulsões cessaram, mas a desventurada continuava a gemer surdamente.
Então, mestre Leonardo tirou o pano que secara rapidamente e viu que o corpo da jovem não era mais do que uma só chaga, carnes queimadas, calcinadas em alguns lugares até os ossos.
Numa palavra, qualquer coisa de horrendo e de indescritível.
Somente a cabeça, ainda que inchada e coberta de manchas sanguinolentas, estava quase intacta.
Com os dentes cerrados, tremendo de raiva ao ver que existia uma força superior à sua e o subjugava, o sinistro castelão contemplou por um instante sua vítima, e ordenou a Oxarat que fosse buscar no laboratório uma caixinha que ele indicou.
Tendo pingado no vinho algumas gotas de um líquido incolor, ele o deu para a infeliz beber, e quase imediatamente Leonor caiu numa insensibilidade completa e igual à da morte.
Depois, ele tirou da caixinha um saquinho de pó branco com o qual lhe polvilhou todo o corpo.
Enquanto isso, Oxarat e a anã trouxeram uma banheira que encheram de leite morno em que Oxarat misturou ovos frescos e uma essência escura que coloriu o leite de cor estranha, imitando as cores do arco-íris.
Quando o banho ficou pronto, mestre Leonardo mergulhou nele o corpo de Leonor, e a anã segurou-lhe a cabeça, enquanto que ele colocava faixas de pano para que a cabeça não escorregasse e não mergulhasse no líquido.
De quando em quando, ele derramava entre os lábios azulados e crispados da enferma uma colher de essência fortemente aromática, durante o que a anã mantinha uma fumigação acre e penetrante.
Isto continuou toda à noite e uma parte da
Em seguida, mestre Leonardo mandou que estendessem no chão um lençol no qual esparramou uma espessa camada de pasta, feita de pó branco, de ovos frescos e da essência escura que tinha colocado no banho.
Com o auxílio de Oxarat, o mago ergueu a desventurada, que tinha mais o ar de morta do que de viva e deitou-a no lençol, cobriu-a inteiramente da mesma pasta, enrolou-a como uma múmia e a pôs no leito.
O corpo ao sair do banho tinha um aspecto menos horrível.
As chagas empalideceram e as menos profundas se cobriram como que de leve gaze.
Todavia, mestre Leonardo parecia muito preocupado.
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 30, 2016 7:54 pm

Tendo ordenado a Oxarat que vigiasse continuando as fumigações e ministrasse o vinho misturado com a essência, retirou-se.
Mas voltou ao cair da noite e renovou o banho de leite, de ovos e de essência, bem como as aplicações da pasta branca.
Desta vez, Leonardo pareceu mais satisfeito e manteve o tratamento que estava dando bons resultados.
Continuou assim a ministrar-lhe as gotas narcóticas, que mantinham a doente numa benéfica inconsciência dos sofrimentos que suportava.
Ao cabo de dez dias, o corpo de Leonor readquiriu aparência humana.
As queimaduras menos profundas eram vistas apenas como manchas arroxeadas, as outras se cicatrizaram rapidamente e mesmo a carne parecia recompor-se, dando aos membros a naturalidade e a graça primitivas.
Com um sorriso satisfeito, mestre Leonardo a examinou, depois verteu-lhe entre os lábios ainda pálidos, mas já ligeiramente coloridos, uma colher de vinho quente ao qual misturou uma infusão de erva, o que transformou o estado letárgico de Leonor num sono profundo e reconfortante.
Algumas horas mais tarde ela despertou em plena consciência, mas um arrepio a sacudiu ao encontrar o olhar frio e cruel de mestre Leonardo fixado nela.
Este pareceu não notar esta impressão pouco lisonjeira.
- Ei-la fora de perigo, minha amiga - disse ele com bom-humor - as dores que lhe restam são suportáveis e se você for inteligente e paciente, poderá levantar-se dentro de uma semana e comer e respirar um pouco de ar fresco.
Pela sua beleza, minha querida Naema, não tema nada.
Cuidei dela com a ternura de um amante e logo você estará adorável como sempre.
A jovem nada respondeu.
Leonor estava tão fraca que não se podia mover e todo seu corpo a incomodava, ainda mais do que a tortura.
Contudo, tinha fome e quando a anã lhe serviu um pouco de ave e de legumes que lhe introduziu na boca como a uma criança, comeu com apetite e tornou a cair em sono calmo e profundo.
Desde esse dia, sua convalescença progrediu a olhos vistos.
Todos os dias a anã lhe esfregava o corpo com um unguento preparado por mestre Leonardo, e de noite Leonor ficava durante três horas no banho de leite.
Seus padecimentos diminuíam celeremente, os sinais das feridas desapareciam cada vez mais, seus membros ganhavam a elasticidade de outrora e apenas a mortal palidez do rosto e uma indizível fraqueza recordavam ainda o espantoso acidente.
Um dia, mestre Leonardo que a visitava todas as manhãs, anunciou-lhe que ia levá-la para a casa de amigos onde ela se restabeleceria mais depressa.
Uma hora mais tarde, dois anões a carregaram de liteira até o pé da montanha.
Uma carruagem, à qual Oxarat servia de cocheiro, os esperava e partiram.
Na boca da noite chegaram a uma grande chácara rodeada de pastos, limitada de um lado por floresta de pinheiros e do outro por um pequeno lago.
O chacareiro e sua mulher, idosos ambos, acolheram mestre Leonardo com uma obsequiosa deferência, porém inspiraram pouca confiança a Leonor, a quem o olhar dissimulado da mulher desagradou.
Depois de copiosa refeição à qual ele honrou, mestre Leonardo partiu.
A chacareira conduziu Leonor ao quarto que estava preparado e lhe apresentou uma moça alta, magra e feia, como a criada destinada ao seu serviço, que a despiu em seguida, vestindo-a com roupa de dormir.
Somente de manhã a jovem se sentiu com coragem para examinar o que a rodeava.
Seu quarto, mobiliado simples, mas confortavelmente, dava para um pomar cujas parreiras, carregadas de uvas maduras, a tentaram.
Ela se divertia também em colher flores no campo vizinho, descansava à sombra dos pinheiros e sentia-se contente em sua nova residência.
Decorreram muitas semanas desta existência calma e monótona.
Leonor via raramente seus hospedeiros.
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Set 30, 2016 7:54 pm

A criada servia-lhe regularmente o leite e as refeições, sempre tudo muito bem preparado, mas a deixava só o resto do tempo.
A jovem observou que, por vezes, à noite, todos deixavam a casa e, então, o badalar longínquo de um sino feria-lhe os ouvidos.
Leonor conhecia esse som lúgubre e vibrante, sabia que reunião anunciava e um arrepio de horror sacudia-lhe as fibras do ser.
Todavia não exigiam que acompanhasse os habitantes da chácara e ela agradecia a mestre Leonardo por este favor.
Pouco a pouco, ela recuperava sua saúde e sua beleza, suas faces tornavam-se rosadas, a cor branca e nacarada e sua pele acetinada como antigamente.
Porém, em sua alma reinava um sombrio desencorajamento, e ela sentia um vazio atroz e esta incurável tristeza se reflectia em seus olhos.
Frequentemente, ela pensava em Walter.
Não lhe guardava rancor pelos sofrimentos que ele lhe infligira.
Ele, que se arrependera e que se achava no caminho da salvação, não podia agir de outro modo.
Mas a convicção de que ele estava irremediavelmente perdido para ela, que sua regeneração o separava dela para a eternidade, enchiam-na de sombrio desespero.
Leonor passava horas a sonhar, num abatimento profundo, não ousando elevar seu pensamento a Deus e implorar-lhe a graça.
Porque se furtivamente sua alma atormentada se voltava para Deus, dores agudas e insuportáveis trespassavam-lhe todo o corpo e, cheia de terror, ela repelia prece ou arrependimento, para evitar sofrimentos que ultrapassavam suas forças.
Somente quando pensava no passado, nas horas de felicidade inocente, de puro e calmo amor, é que ela gozava de um pouco de tranquilidade.
Mestre Leonardo, ao partir, lhe prometera ir visitá-la, mas não apareceu e unicamente Oxarat veio duas vezes saber notícias dela.
Entretanto, nos primeiros dias de outubro, chegou seu sinistro companheiro, que se maravilhou visivelmente da beleza que ela reconquistara.
Leonor estava no jardim e brincava com um passarinho que havia achado ferido e que curou e domesticou.
O olhar cínico e ardente de mestre Leonardo causou arrepios à jovem, mas ela não ousou resistir à carícia apaixonada que ele lhe testemunhou.
Na mesma noite retomaram o caminho do castelo.
Leonor adentrou um invencível sentimento de tristeza nessas paredes onde ela sofrera tanto e o pensamento de ser obrigada a assistir ao sabá a fazia agitar-se.
Contudo, este tormento lhe foi poupado.
Não havia mais reuniões ou simplesmente a excluíram delas?
Ela não soube dizer mais nada, mas sentiu-se extremamente feliz por não ver mais tais horrores.
Mestre Leonardo parecia apaixonado por ela como nos primeiros dias e a enchia de presentes, um mais precioso do que o outro.
Compreendam o espanto da jovem quando, um dia, ele a chamou ao laboratório e lhe disse que decidira casá-la.
- Cada membro de nossa comunidade, minha querida Naema, tem por obrigação contribuir, na medida de suas forças, para o enriquecimento da confraria.
O momento de cumprir este dever toca agora a você.
O senhor de Riding pediu-a em casamento.
Ele é velho, mas imensamente rico e em virtude de sua avançada idade, ele não viverá certamente mais do que alguns anos ainda.
E depois de sua morte nós herdaremos sua enorme fortuna.
O conde a ama com paixão.
Ele viu-a no dia de nossas núpcias e desde então aspira possuí-la.
Eu lhe concedi sua mão, sem mesmo consultá-la, porque não podemos deixar escapar uma tal ocasião.
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 01, 2016 8:31 pm

Somente quero preveni-la de que dentro de duas semanas celebraremos as bodas e que em seguida você partirá com seu marido para viver num de seus castelos.
Todos ignoram que ele é membro de nossa comunidade e é de seu interesse guardar bem este segredo.
Devo acrescentar que, ainda que a conveniência me force a cedê-la por algum tempo a este velho libertino, meu amor por você permanece o mesmo.
Irei visitá-la e providenciarei para que você volte a mim o mais cedo possível.
De cabeça baixa, Leonor ouviu sem interromper este cínico discurso.
Nada mais a espantava e tudo lhe era indiferente.
Não descera a todos os abismos e sofrera todos os opróbrios?
Estava apática demais para estremecer ainda ao pensar em pertencer a este homem desconhecido.
Seu coração morrera desde que o único homem que ela amou com toda sua alma se perdera para sempre para ela.
Um sentimento de ódio enchia seu coração por esse ser sem piedade que lhe fizera pagar uma vida salva por tantas mortes antecipadas, que usava dela para todas suas maquinações infernais, sem jamais se importar com os sofrimentos que disso resultavam.
- Estou pronta, porque pertenço a você de corpo e alma e que protesto posso fazer? - respondeu ela e um sombrio clarão iluminou seus olhos.
Porém eu maldigo mil vezes esta vida que comprei com o preço de minha salvação, e que me fez pagar por torturas mais atrozes do que a própria fogueira.
A moça lhe virou as costas e saiu.
Sombrio, inquieto, sobrancelhas franzidas, mestre Leonardo apoiou-se com os cotovelos em sua mesa de trabalho e pensou:
- O velho fermento está sempre vivo em seu íntimo - resmungou ele - e ai de mim se ela cair em poder dos malditos!
E ele, esse santo recentemente aparecido, está a procura dela para resgatar-lhe a alma!
Canalha! É por isso que Naema deve ir embora daqui.
Antes que ele a encontre lá embaixo, ela pode morrer.
Depois do presente que lhe deu o seu querido Walter, sua vida não vale grande coisa.
Alguns dias mais tarde houve no castelo um banquete em honra do noivo de Naema, o qual lhe foi apresentado na mesma ocasião.
Era um velho de baixa estatura, magro, amarelo, enrugado, repugnante apesar de trajar-se cuidadosamente.
Ele ofereceu à noiva, soberbos presentes, mas ela mostrou-se totalmente indiferente.
No dia marcado para o casamento, que devia celebrar-se à meia-noite, uma grande sociedade se reuniu.
O próprio Leonardo vestiu a noiva com um esplêndido vestido do qual ele lhe fez presente.
Era um vestido de brocado de prata incrustado de pérolas finas, um véu de rendas incomparáveis e um diadema de diamantes, que formava com o colar, os braceletes e o cinto das mesmas pedras, uma jóia de verdadeira rainha.
Foi também mestre Leonardo quem oficiou a cerimónia nupcial, se assim podemos chamar a comédia sacrílega a que ele dava o nome grave e místico do sacramento que a Igreja celebra.
Segundo o uso, ele a oficiou de trás para diante, uniu os esposos com anéis cheios de sinais cabalísticos e, em lugar da bênção, proferiu uma abominável blasfémia.
A festa terminou com um banquete esplêndido e ao romper do dia, os recém-casados deixaram o castelo rumo a seu domicílio.
* * *
Depois de sua grande vitória, uma temporada de calma e de repouso começou para Walter.
Frei Lázaro o levara para o convento e o prior o abençoara e lhe ministrara a comunhão.
Quem poderá descrever os sentimentos de alegria inefável, de profundo reconhecimento que o pecador arrependido experimentou ao receber o voto que o admitia de novo à comunidade dos cristãos?
Tendo voltado à gruta, ele se punha a orar todas as noites.
E como os demónios não o perturbassem mais, ele teve também longas horas para pensar no passado e no futuro.
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 01, 2016 8:31 pm

Como ele recomporia sua vida?
Voltar ao mundo lhe parecia impossível, mesmo que o absolvessem da acusação que lhe pesava nas costas.
Graças a seus pecados, havia ao redor dele apenas ruínas.
Leonor estava duplamente perdida, Filipina dementada e com ela a esperança de possuir uma família.
Sua mãe professara.
Raimundo era louco.
Não, não, o mundo nada mais lhe podia dar e ele tinha provado o poder do demónio.
O que poderia fazer de melhor senão se consagrar ao Senhor pelo resto da vida?
Depois de muito meditar resolveu tornar-se monge.
O eremita aprovou esta resolução e o prior do convento acolheu-o de boa vontade, como noviço.
Ele consagrava estima e afeição a este jovem que expiara tão valorosamente seus pecados e sofrera tão duras provas.
Por seu próprio pedido, o abade lhe impôs um severo noviciado.
Trabalhava o dia todo e de noite orava, concedendo-se apenas o repouso indispensável para não desfalecer.
Todos os monges o amavam por sua doçura, sua paciência, sua serviçal afabilidade e ao cabo de três meses o prior autorizou-o a professar.
Walter santificou pelo jejum e pela meditação o dia que antecedeu esta grave cerimónia.
Em seguida dirigiu-se à igreja para passar nela, a última noite em que pertencia ao mundo.
Ele tinha o pressentimento de que, apesar de sua purificação e de sua vida ascética, o Espírito do mal viria ainda uma vez atacá-lo e tentar arrancar-lhe a palma da vitória.
Só uma luz acesa diante do altar clareava a pequena igreja mergulhada na sombra e no silêncio.
E por muito tempo nada perturbou Walter.
Porém, quando o relógio do convento bateu meia-noite, uma vaga tristeza e angústia sem nome oprimiram-lhe o coração e um suor frio percorreu-lhe o corpo.
Ele sentia ao seu redor a presença de seres invisíveis e um sopro gelado o trespassava.
Depois, percebeu olhos queimantes, mas sem corpo, que dardejavam sobre ele, olhares rancorosos.
Mãos frias e gelatinosas o apalpavam, procurando empurrá-lo para longe do altar em frente do qual estava ajoelhado.
E ele não podia resistir senão com grande dificuldade a esta força.
Esgotado de fadiga, tremendo com todos os seus membros, Walter orava em voz alta, quando seu coração paralisou de terror.
O balir de uma cabra acabava de fazer-se ouvir.
Um clarão vermelho, semelhante a um incêndio, acendeu-se no fundo da igreja, fechando a saída e neste fundo projectava-se mestre Leonardo com todo o horror de sua majestade diabólica.
Atrás dele se comprimia um imenso cortejo de seres reflectindo em seus rostos desfigurados todas as paixões criadas pelo mal, cortejo hediondo que queria avançar, atirar-se sobre Walter, fitando-o com ferocidade e ódio mortal.
- Você nos pertence ainda, renegado!
Urrou mestre Leonardo com voz rouca.
E estendendo para ele a mão pálida e de dedos terminados em garras, tentava apanhá-lo, enquanto que seus aliados infernais rodeavam Walter, espremendo-o e sufocando-o.
Este se levantou e ergueu a cruz.
A malta recuou um pouco, tripudiando, urrando e soltando gargalhadas estridentes.
A cabeça de Walter girava neste caos infernal e em sua fraqueza gritou:
- Jesus Cristo, meu Salvador, envia um de teus anjos para me proteger.
Tu vês o meu arrependimento, meu amor por ti.
Não me abandones!
No mesmo instante, um raio de luz emergiu do lado direito do altar e um mensageiro celeste apareceu ao lado de Walter.
Era um adolescente de beleza suave, vestido com uma túnica de neve.
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 01, 2016 8:31 pm

Uma grinalda de flores ornava seus cabelos louros e uma estrela brilhava-lhe na testa.
Com uma mão erguia uma cruz luminosa e com a outra brandia um gládio resplendente.
Aroma delicioso evolava-se de todo seu ser e doce harmonia fazia vibrar a atmosfera.
Avançando contra a falange do mal que se comprimia e recuava diante dele, o mensageiro do céu levantou a espada resplendente e gritou com voz imperativa:
- Saiam deste lugar, Espíritos das trevas e escravos da matéria.
Que o mal que evocam caia sobre vocês mesmos.
A alma deste penitente está livre da obsessão e desde já ele se torna implacável adversário da iniquidade.
Ele conhece todas suas maquinações e maldades.
Temam-no porque vocês deverão curvar-se à sua passagem.
E agora retornem ao abismo de onde surgiram!
Erguendo sempre a cruz e a espada, o anjo avançou contra mestre Leonardo que, aterrado e abatido no solo, arrastava-se torcendo-se como uma serpente e soltando rugidos de animal feroz.
Os seres que o acompanhavam se dispersaram como nuvens negras, incapazes de suportar o contacto das forças do bem, da pura harmonia do céu.
Passo a passo o ser luminoso obrigava mestre Leonardo a recuar e quando ele transpôs a porta da igreja, uma detonação longínqua anunciou que fora definitivamente vencido.
Walter caiu de joelhos e estendendo os braços para seu celeste libertador, gritou derramando lágrimas de gratidão:
- De que maneira devo louvar o Senhor para agradecer-lhe sua infinita misericórdia?
O Espírito luminoso sorriu com bondade e tocando com sua espada de fogo a testa e o peito de Walter, respondeu-lhe:
- É arrancando das trevas as almas extraviadas que serás agradável ao Senhor.
Vai, combate pelo bem e a luz divina te concederá uma força invencível.
Ao toque da espada de fogo, Walter sentiu qualquer coisa de pesado destacar-se dele.
Uma chuva de centelhas o inundou, enchendo todo seu ser de calor, de vigor e de um poder jamais experimentado.
Ao mesmo tempo, suas pálpebras se abaixaram e como através de uma bruma, ele viu o mensageiro do céu fundir-se numa névoa luminosa e desaparecer, adormecendo em seguida.
O sol nascente enchia a igreja de luz, quando Walter abriu os olhos.
Ergueu-se para orar e percebeu que sua roupa estava rasgada e que na pele do braço estava impressa a imagem de uma cruz.
Ele compreendeu que foi o anjo quem o marcara assim e o dotara da força necessária para o desempenho da missão que lhe destinavam.
Com alegria e humildade, agradeceu a Deus.
Depois, chegou-se ao prior ao qual contou a visão cujo sinal visível lhe mostrou.
E o abade e frei Lázaro experimentaram uma alegria profunda.
Abençoaram o neófito e algumas horas mais tarde, às vozes dos cânticos sagrados, Walter vestiu o hábito branco dos dominicanos e tomou o nome de Miguel, em honra do arcanjo vitorioso, vencedor do espírito das trevas.
Desse dia em diante, profunda tranquilidade e alegre confiança encheram a alma de frei Miguel.
Seu exterior estava transformado, se bem que pálido e magro, ele reconquistara toda sua máscula beleza e apenas a expressão era outra.
Doçura infinita se pintava em seu rosto, uma luz interna parecia irradiar-se de todo seu ser e em seus grandes olhos luminosos, severos e profundos, brilhava uma poderosa vontade que tornava seu olhar difícil de suportar.
Ele parecia nada notar dessa mudança.
Com indizível ardor Walter se preparava com jejuns e preces para a luta que o anjo lhe indicara.
Logo, muitas curas de obsidiados, algumas pela imposição de suas mãos, atraíram a sua atenção, mas ele ainda não se julgava bastante forte para travar o grande combate.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 01, 2016 8:31 pm

Terrível era a época.
Contudo o mal aumentava em vez de diminuir.
Satanás estava mais forte do que nunca.
Foi nessa ocasião que frei Miguel decidiu ir visitar sua mãe.
Ele queria agradecer-lhe a peregrinação que ela fizera por sua intenção, e dar-lhe a alegria de sabê-la vivo.
Bateu na porta do convento e a seu pedido foi introduzido no parlatório.
Ao reconhecer o filho e ao vê-lo vestido com o hábito, irmã Úrsula quase desmaiou de alegria, porque compreendeu que ele estava salvo.
Longamente, mãe e filho se abraçaram e quando a primeira emoção passou, conversaram.
Ele contou-lhe toda a história das provas que tinha sofrido até a vitória final e pôs sua mãe a par da missão que o Senhor lhe confiara.
Falou do passado e com horror e pesar recordaram os tristes acontecimentos dos quais sua casa fora teatro.
No decorrer da conversa, o monge lembrou-se de seu amigo Raimundo o qual, graças a Naema, perdera a razão.
Irmã Úrsula lhe contou que o infeliz vegetava miseravelmente em Friburgo, incapaz de ganhar seu pão e tratado pela caridade de uma parenta velha, que recolheu o antigo artista agora objecto de piedade e de mofa.
Um doloroso remorso por ser a causa da perda de seu amigo encheu o coração de Miguel e ele tinha muita experiência para compreender que algum espírito do mal, mandado por mestre Leonardo subjugara a alma do pobre Raimundo.
Não era seu dever tudo fazer para salvá-lo?
Sua consciência lhe respondeu que sua missão lhe impunha essa tarefa e resolveu cumpri-la.
Depois de algumas horas passadas com sua mãe, despediu-se dela, prometendo vir visitá-la sempre que possível.
Agora ele tinha pressa de ir ver Raimundo.
O rumor da conversão do fidalgo de Küssenberg, de sua tomada de hábito e da vida ascética que levava, já tinha chegado a Friburgo.
Souberam também que ele semeava o caminho de sua vida, de boas obras e de curas milagrosas.
Assim, muitos olhares curiosos se fixaram no alto porte do dominicano que, de cabeça baixa, atravessava a cidade dirigindo-se para a casinha da velha Margarida, onde vegetava o pobre louco.
A mulher acolheu o monge com respeito, mas exprimiu-lhe a convicção de que Raimundo era incurável.
- Ele está inteiramente idiota e se fala é sempre de coisas esquisitas, que não têm sentido comum - disse ela com um suspiro.
- Nada é impossível a Deus.
Leve-me ao pé do doente, minha boa Margarida.
Eu orarei por ele e talvez o Senhor o aliviará.
A mulher o conduziu então a um quartinho que dava para o quintal.
Perto da janela o pobre louco estava agachado, de olhos fechados e murmurando palavras incoerentes.
Frei Miguel ergueu a cruz e disse com gravidade:
- Nosso Senhor Jesus Cristo atravessará esta porta.
Todos os Espíritos do mal devem afastar-se.
E tirando do peito um frasco de água fluida, aspergiu Raimundo.
O pintor estremeceu, abriu os olhos e depois caiu em convulsões.
Então o monge se aproximou, derramou-lhe água na boca, fez esparramar fumaça de incenso e pronunciou as preces prescritas pelo ritual para libertação do obsessor.
Uma voz esganiçada que não era a de Raimundo pôs-se a blasfemar e a injuriar o monge, mas este continuou a orar e a ordenar o espírito impuro que deixasse sua vítima, esclarecendo-o.
Súbito, o louco soltou um grande grito, e dele saiu um odor fétido, que mergulhou na chaminé, enquanto que o doente se prostrava como morto.
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Re: Conde J. W. Rochester - NAEMA, A BRUXA / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 01, 2016 8:31 pm

Miguel lhe lavou o rosto, mandou que lhe trouxessem uma roupa limpa e ele mesmo queimou os velhos trajes de Raimundo.
O pintor continuou prostrado, aparentemente sem vida, mas o monge não se alarmou.
Pediu a Margarida que se retirasse e ficando só, acendeu círios e se pôs em preces durante a noite toda.
Muitas vezes ele ouviu ao seu redor um rumor surdo, clarões fosforescentes esvoaçavam nos cantos escuros, mas a isto se limitaram às tentativas das forças malignas e ao primeiro raio do sol, Raimundo abriu os olhos em plena razão.
Vendo um monge ajoelhado ao seu lado, perguntou com espanto, sem reconhecer Walter:
- Meu irmão, será para assistir a um enfermo que você está aqui?
Será que eu estive acamado?
- Sim, meu pobre amigo, você esteve bem doente.
Mas ei-lo curado pela graça de Deus.
Mas você não me reconhece? - perguntou-lhe o monge levantando-se e estendendo-lhe as mãos.
- Walter! Você!
Que desventura o levou a renunciar ao mundo? - gritou Raimundo todo comovido.
- Será uma desventura renunciar à vida mundana? - observou o outro com um sorriso.
Você vê em mim agora frei Miguel da ordem de São Domingos, um pecador arrependido, ao qual Deus concedeu a graça de curar pelas mãos e pela oração os doentes como você.
Mas conversaremos mais tarde.
Antes de tudo agradeçamos ao Senhor que lhe livrou a alma das trevas em que ela vivia.
Durante o dia todo os dois amigos conversaram e quando ele soube da história de Walter, Raimundo já muito impressionado pela sua cura declarou a seu amigo que ele também se faria monge para acompanhá-lo junto aos doentes e ajudá-lo nas obras de caridade.
Mas frei Miguel sacudiu a cabeça.
- Antes de pensar em si mesmo - disse ele - você tem de cumprir o sagrado dever de assegurar os dias da velha parenta que o recolheu e cuidou quando você estava na miséria e abandonado por todos.
Sempre que cumprimos o nosso dever, somos agradáveis ao Senhor!
Assim, se depois de ter garantido o futuro da bondosa Margarida e ter provado a força de sua vocação no torvelinho da vida mundana, ainda perseverar no desejo de ser monge, venha procurar-me e você será bem-vindo.
Raimundo reconheceu a justeza das palavras de seu amigo e prometeu conformar-se com seus conselhos.
À tarde, frei Miguel retomou o caminho do convento, porém antes de deixar Friburgo, ele foi ao cemitério e orou longamente no túmulo de seu antigo escudeiro, Leberecht.
Lá derramou lágrimas amargas, porque ele se considerava como o assassino involuntário deste ser morto tão prematuramente.
A cura de Raimundo despertou grande admiração e criou para frei Miguel uma fama consolidada.
Doentes vinham ao convento buscar alívio para seus males e recomendarem-se às suas preces.
Ele, entretanto, continuava sua vida laboriosa e ascética, esperando que se lhe apresentasse a ocasião de empreender a missão que o anjo lhe designara.
Uma noite teve um sonho que considerou como o sinal de que o momento de agir tinha chegado.
Dirigiu-se de manhã ao prior, confiou-lhe o sonho e solicitou a permissão para partir, pedindo-lhe também uma cruz, que ele levaria no pescoço dentro de um medalhão.
Tendo obtido uma coisa e outra e levando alguns círios e uma caldeirinha de água, se pôs a caminho.
Caminhava ao acaso, mas firmemente convencido de que ia onde era preciso.
Ele se sentia tomado de um poder desconhecido que emanava de todo seu ser.
Caminhou assim muitos dias e uma tarde parou numa pequena clareira para repousar e dormir um pouco à sombra de uma árvore.
O lugar era solitário.
Ao longe via-se uma cadeia de rochedos e toda a paisagem, mergulhada no crepúsculo, tinha qualquer coisa de sinistro e desolado.
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