Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 03, 2016 7:21 pm

“O Terrífico Fantasma”
Wera Ivanovna Krijanovskaia

J. W. Rochester

(romance ocultista)

TRILOGIA — LIVRO 1

E o diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo.
E disse-lhe o diabo:
Dar-te-ei todo este poder e a tua glória, porque a mim me foi entregue, dou-o a quem quero.
Portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
Vai-te, Satanás; porque está escrito:
Adorarás o Senhor teu Deus, e só a Ele servirás.
Lucas, IV, 5, 6, 7 e 8.

UM ROMANCE EMOCIONANTE

Mais uma vez, leitor amigo, a LÚMEN EDITORIAL faz chegar às suas mãos uma obra do espírito J.W ROCHESTER, psicografada no início do século XX pela médium russa Wera Krijanowskaia.
Para nós, trata-se, novamente, de uma grande emoção, pois continuamos com nossa tarefa de levar ao público as obras do escritor inglês, na espiritualidade, sempre com a tradução cuidadosa de Dimitry Suhogusoff, esculpindo cada palavra, letra a letra, o pensamento rochesteriano em sua imaginação portentosa.
Este O Terrífico Fantasma é o primeiro romance de uma trilogia emocionante.
Depois deste livro, a história segue com No Castelo da Escócia e termina com Do Reino das Sombras. Só Rochester poderia conceber trama tão envolvente...
Necessariamente, a LÚMEN EDITORIAL pode não concordar com alguns conceitos e opiniões emitidas pelo autor espiritual.
Porém, julga de fundamental importância para o registo da História trazer à luz o texto tal qual foi criado pelo seu autor.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 03, 2016 7:21 pm

~I~

Sente-se, Nita, e espere um pouco!
Em cinco minutos eu termino esta carta e, então, ficarei à sua disposição — disse Mikhail Mikháilovitch Suróvtsev, apontando para a esposa a poltrona ao lado da mesa e retornando à escrita.
Anna Petrovna sentou-se, pegou da mesa um jornal e começou a percorrê-lo distraidamente com os olhos.
Era uma mulher bonita, com cerca de trinta e oito anos de idade, olhos escuros aveludados e cabelos densos.
A elegância apurada dos trajes e o luxo da mobília do gabinete eram um testemunho da riqueza da família.
Mikhail Mikháilovitch era um poméschi(1) no passado, que, tendo se desfeito de algumas propriedades, iniciou diversos empreendimentos e agora ocupava uma posição de destaque no mundo financeiro.
Após fechar a carta e escrever o endereço, ele acendeu um cigarro, recostou-se no espaldar da poltrona e disse sorrindo:
- Pode falar, Nita, sou todo seu por meia hora.
- Deus seja louvado! Normalmente tenho de lhe esmolar um tempinho para falar dos assuntos da família — queixou-se Anna Petrovna, contrariada.
Queria consultá-lo sobre Mery. Como você sabe, em vista da minha viagem com a prima Olga para Vichy (2), decidimos mandar Mery e Natasha para a casa de sua irmã, na aldeia, em companhia de mademoiselle Emily e da babá.
Mas aquela fazenda é tão minúscula, fica num ermo, os vizinhos são tão insignificantes e moram tão longe, que, está claro:
Mery ficará entediada.
Hoje de manhã, eu recebi um outro convite para ela, agradável em muitos aspectos, porém não quero resolver nada antes de consultá-lo.
A baronesa Kosen esteve em casa, conversamos sobre os nossos planos para o verão e Anastácia Andréevna disse-me de sua ida ao castelo da família, perto de Revel(3).
Ao saber que nós íamos mandar Mery para uma aldeia, ela pediu que a deixássemos ir com ela, por dois meses, dizendo que a nossa menina não ficaria ali enfastiada, visto eles terem muitos vizinhos. O que você acha, Misha? Como já lhe disse, a ida dela tem muitos atractivos.
A baronesa organiza muitas recepções, fora isso, nas proximidades do castelo estarão passando férias dois jovens, aparentemente interessados por Mery.
O marinheiro Paul Nordenskiold ficará algum tempo na casa da avó, vizinha de Kosen; ele é um jovem bonito e rico e está bem encaminhado na vida.
Eric Rautenfeld também passará o verão em sua propriedade, perto de Revel.
Ele é também um bom partido: diplomata, rico e com muitos contactos.
Com dezoito anos, está na hora de Mery arrumar alguém; aqueles dois pretendentes vêm a calhar.
Talvez dê certo...
Suróvtsev balançou a cabeça pensativamente.
- Tem razão, Nita!
Suas conjecturas são sedutoras e eu não teria nada absolutamente contra, não fosse Vadim Víktorovitch...
Seu papel dúbio — ou, aliás, muito claro —, na casa da baronesa, choca-me e eu não sei se é conveniente aproximar Mery de uma família assim.
Anna Petrovna pensou um pouco.
- Sim, de certa forma você está certo, Misha.
O papel de Vadim Víktorovitch quanto à baronesa é um segredo de Polichinelo; mas, externamente, o decoro é mantido e eu considero Mery demasiadamente inocente para suspeitar da verdade:
Lembre-se: Vadim Víktorovitch é amigo do barão, sem dizer que também é médico, que se redobra para cuidar da família.
Sendo médico e tutor temporário das crianças, explicam-se assim suas visitas assíduas e prolongadas.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 03, 2016 7:21 pm

- Aparentemente tudo isso é bom; mas, falando entre nós, foi uma tolice grande do barão sair viajando pela índia.
Está fora há mais de dois anos, condenando a esposa à viuvez de marido vivo; a baronesa está no florescer dos anos:
o máximo que deve ter é uns trinta e cinco, e a proximidade de um homem tão belo e inteligente, como o doutor Zatórsky, é um grande perigo.
- Chega disso! Após quinze anos de casada, com uma filha de treze e um filho de dez anos, já é hora de aplacar os ânimos, poupar o marido de chifres e deixá-lo realizar o seu sonho da vida:
visitar a índia — esse país das maravilhas! — replicou Anna Petrovna.
Aliás, o barão convidou-a para viajar junto, mas ela se recusou, preferindo, pelo visto, a companhia de Vadim Víktorovitch.
Oh, o belo doutor é tão gentil, cumprindo ciosamente as obrigações assumidas perante o amigo. Ha-ha-ha!
- Uma coisa m e intriga:
como Zatórsky, um homem inteligente e estudado, interessou-se por aquela nulidade como a baronesa.
Poderia ter achado algo melhor.
- Sem dúvida! Mas nós nos desviamos do assunto; o que você resolve quanto a Mery?
Prometi uma resposta à baronesa para hoje à noite, depois de consultá-lo.
Podemos, sem ofender sua irmã, mudar os nossos planos?
Suróvtsev pensou por um minuto.
- Deixe-a ir.
Espero que, na presença da nossa filha, Anastácia Andréevna tenha o juízo de não expor seu caso com o doutor.
Você está certa ao dizer que devemos aproveitar a oportunidade de arrumar a vida de Mery; na casa de Vália ela ficaria muito entediada.
Bem, está na hora — acrescentou ele, olhando para o relógio —, estou sendo esperado pelo conselho dos directores de uma companhia belga; mal terei tempo de chegar na hora.
Após beijar apressadamente a esposa, ele pegou a pasta e saiu.
Anna Petrovna retirou-se também do gabinete e dirigiu-se pelo corredor aos aposentos da filha, compostos de dois cómodos:
um boudoir pintado de rosa, repleto de flores raras e bugigangas valiosas, e um dormitório.
Ali, as paredes eram decoradas com papel branco, os móveis tinham os estofos de seda da mesma cor e a cama e o toucador arrematados em rendas.
Diante de um grande espelho, observando a si própria, estava parada Mery, enquanto a camareira lhe ultimava a toalete.
Mery Suróvtseva distinguia-se por rara beleza.
Era uma jovem esbelta, graciosa feito borboleta, tez de brancura acetinada, acentuada por cabelos negros azulados.
Ela herdou da mãe os olhos aveludados, ainda que maiores e expressão diferente.
O olhar de Anna Petrovna era límpido, alegre e tranquilo, enquanto nos olhos escuros de Mery fulgiam orgulho, energia e alma impetuosa, em cujos recônditos estariam espreitando as paixões que as contingências da vida haveriam de despertar.
Por enquanto, aliás, ela era uma criança inocente, absorta naquele momento exclusivamente com seus adereços e admiração prazerosa de sua figura sedutora.
Por uns instantes, a mãe olhou para ela com amor e orgulho, depois perguntou:
- Você ainda está aqui?
Não vai se atrasar para o chocolate da amiga?
- Não, mamãe!
Tenho ainda uns vinte minutos e mademoiselle Emily também não está pronta.
Pétia virá avisar assim que a carruagem estiver servida. Você quer me dizer algo?
Estou vendo pelos seus olhos. Sente-se no sofá.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 03, 2016 7:22 pm

Ela aproximou o tamborete e também se sentou, arrumando cuidadosamente as pregas do vestido branco rendado, sentando-se de modo a se ver no espelho.
Mery tinha consciência de sua beleza e gostava de contemplar sua figura.
Fraca e demasiadamente indulgente, a mãe acompanhou os seus trejeitos.
- Queria dar-lhe uma novidade fresca que, espero, a deixará muito feliz.
A baronesa Kosen convidou-a para passar dois meses em seu castelo perto de Revel e, uma vez que na casa da querida Vália você ficaria muito entediada, seu pai me permitiu aceitar o convite.
Os olhos da jovenzinha brilharam alegres.
- Oh! Como vocês são bons comigo!
Obrigada, obrigada!
Eu gosto muito da tia Vália, mas, é claro, será mais divertido ficar com a boa e encantadora baronesa.
- Sem dúvida!
Seu castelo, conforme dizem, é um dos mais curiosos em termos de monumento histórico, além do que ela recebe muito.
Lá, você encontrará seus conhecidos:
Eric Raurenfeld e o jovem Nordenskiold, parente do barão.
Ambos fazem-lhe a corte e isso não atrapalha em nada; eu percebi que você até gosta de Pável Fiódorovitch.
Ao notar que Mery enrubescera, a mãe acrescentou com bonomia:
- Você sabe, querida, eu e seu pai lhe damos a total liberdade de escolha; ambos os pretendentes são pessoas íntegras e um belo partido.
Mas repito:
é você que tem de decidir sobre o seu futuro.
- Querida mãezinha, não gosto de Eric Oskárovitch; ele é muito presunçoso, seco e frio, o seu olhar penetrante me deixa sem jeito.
Não, não, ele não é o herói do meu romance; antes prefiro Nordenskiold, ainda que eu ache que em relação ao homem com quem casarmos, devemos nutrir um sentimento diferente.
Como posso saber, mamãe?
Talvez o homem predestinado a subjugar-me o coração ainda não tenha surgido no caminho da minha vida — concluiu ela rindo.
O aparecimento ruidoso de um menino de treze-catorze anos, em uniforme de cadete, interrompeu a conversa.
Era o irmão de Mery que ia com ela para a festa de aniversário da amiga de infância deles.
Pétia anunciou que o carro estava estacionado junto à entrada e que mademoiselle Emily estava pronta, aguardando-os no saguão.
- Até breve, queridos!
Divirtam-se bastante! — desejou Anna Petrovna, quando os dois jovens saíam apressados levando os presentes:
um anel no estojo e uma caixa de bombons.
A baronesa Kosen ocupava um andar inteiro em sua casa na Rua Serguíevskaia; na noite daquele mesmo dia, ela estava sentada em seu boudoir e lia distraidamente um romance francês.
O quarto era amplo, revestido com seda verde-esmeralda; os estofos dos móveis também eram cobertos com mesmo tecido acetinado.
Numa depressão, com clarabóia saindo para a rua, viam-se numa elevação duas poltronas e uma mesinha sobre a qual jaziam, num vaso de cristal, violetas e narcisos, que enchiam o quarto de maravilhoso aroma.
As paredes eram decoradas com quadros caros; plantas raras, em grandes vasos japoneses, animavam o luxuoso ambiente, profusamente iluminado por lâmpadas eléctricas.
A dona daquele maravilhoso cantinho era uma mulher de meia-idade, alta e magra, porém ossuda — o que conferia à sua figura uma aparência volumosa e pesada. Seu rosto era agradável, fresco e muito branco, enquanto os grandes olhos escuros poderiam até ser considerados bonitos, não fossem inexpressivos como todo o rosto, em que não se insinuava nem inteligência, nem bondade, e que se animava apenas nos momentos da ira.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 03, 2016 7:22 pm

A despeito de tudo, de um modo geral, não era uma mulher feia; seus bastos cabelos ruivos vivos, em brusco contraste com os olhos escuros, conferiam-lhe algo diferente e picante.
Ela estava vestida festivamente e nas mãos, que seguravam o livro, fulgiam brilhantes; todavia os dedos curtos e grossos eram rudes, assim como o tornozelo que se entrevia por debaixo da saia que, apesar da meia de seda e sapato de couro dourado, não possuía nem sombra de pertencer a uma mulher aristocrática.
Aliás, Anastácia Andréevna era de origem bastante obscura. Seu pai, funcionário miúdo de um ministério, onerado por numerosa família e de poucos recursos, tiritava praticamente em indigência.
Desta forma, Nástia, a filha mais velha, cresceu em pobreza, habituada à parcimónia ciosa, tendo de ajudar à mãe tanto em casa, como cuidar dos irmãos.
Ao completar dezoito anos, ela aprendeu a dactilografia e, já por conta própria, conseguia se sustentar.
Aos vinte anos, graças a um feliz acaso, logrou um trabalho na casa do barão Kosen, um arqueólogo amador, muito rico, que na época contava com trinta anos.
Como Nástia conseguiu atiçar a paixão do barão, batendo na máquina de escrever suas descrições científicas, permanecia um mistério. Mas Kosen acabou se casando com ela, sendo que esta, mesmo após quinze anos de vida conjugal, não perdeu influência sobre ele.
Era de facto espantoso como um homem inteligente, até muito letrado, pudesse ter sido arrebatado por uma mulher limitada e vulgar, ainda que não sejam poucos os exemplos de que para seduzir um homem as mulheres não necessitam propriamente de inteligência especial...
Ao ter obtido finalmente a riqueza e a independência ansiadas, Nástia transformou-se rapidamente.
Esquecendo a pobreza da adolescência e juventude, esquecendo os tempos idos em que ela nem sequer tinha dinheiro para comprar um chapéu para si, quando tinha de empenhar trapos velhos na casa de penhores, começou a dissipar o dinheiro, comprando indistintamente tudo o que via.
Nada poupava, sobretudo quando se tratava de sua toalete e, como em sua mente estreita ela achava que tudo que era caro era necessariamente bom, suas roupas, apesar de terem custado preços espantosos, não raro deixavam a desejar quanto ao bom gosto e elegância.
Em uma coisa, aliás, permaneceu-lhe a avareza de sua ex-pobreza:
suas mesquinhas críticas com os gastos da casa, as quais por vaidade ela tentava esconder dos conhecidos, desejosa de brilhar diante de pessoas menos afortunadas pelo destino.
Quando as primeiras chamas da paixão amainaram, o barão retornou às suas ocupações científicas, enquanto Anastácia Andréevna, saciada e habituada à riqueza, começou a ficar entediada, achando o seu "marido cientista" bastante enfadonho.
Externamente, entretanto, ela propalava seu amor ardente a ele e, incansável, dizia a todos que o seu marido era louco por ela e que sua única rival era a paixão do barão à arqueologia e viagens.
Anastácia Andréevna era privada de qualquer talento; não tinha dom para o canto, não tocava nenhum instrumento, não pintava e sequer conhecia qualquer ofício artístico, que eventualmente enchiam as horas de mulheres de alta-roda.
Ela consagrava seu ócio interminável apenas aos cuidados dos trapos e à leitura de romances de mau gosto, que lhe incendiavam a imaginação.
Começou a sonhar com aventuras picantes e resolveu arrumar um amante — um passatempo comum das mulheres ociosas, sem princípios morais.
Entretanto, ainda contida por certos receios, não se arriscava a pôr em execução as suas fantasias.
A primeira oportunidade para o seu capricho apresentou-se graças a uma viagem.
Cerca de um ano depois do nascimento do segundo filho, o barão foi ao Egipto e levou a esposa.
No início, para Anastácia Andréevna a viagem foi um verdadeiro suplício; ignorante e limitada, não se interessou nem um pouquinho pelos maravilhosos monumentos e antigos tesouros da terra dos faraós e pensava morrer de tédio.
Sua salvação foi o aparecimento de um turista alemão que lhe fez os flertes, por si só interessantes pelo perigo que apresentavam e que saíram às mil maravilhas.
O barão estava convicto das "virtudes" da esposa, sempre ocupado com suas múmias, de modo que não desconfiou do que os dois faziam.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 03, 2016 7:22 pm

A baronesa tomou gosto pelas aventuras secretas e, ao retornar para casa, não deixou de arrumar novos casos.
Um deles, aliás, quase terminou mal e a obrigou a agir com mais cuidado dali para frente.
Para o filho, que então contava com seis anos, ela contratou um professor de inglês e para a filha — uma jovem governanta francesa.
O inglês era jovem e atraente, de modo que Anastácia Andréevna teve uma vontade incontrolável de aprender a língua britânica.
As aulas iam bem, até que a governanta deitou tudo a perder.
Ela contava com a boa disposição do inglês e, antes que este entendesse que a patroa gostava dele, a governanta fez uma cena de ciúmes tão grande, que a baronesa teve de despedir os dois.
Felizmente, o barão estava ausente no dia do escândalo.
Anastácia Andréevna teria de ser mais precavida; assim ela imaginou um passatempo menos perigoso.
Não era inteligente, mas esperta, principalmente quando se tratava de seus interesses.
Tinha seus próprios "fãs", perdidamente apaixonados, que não paravam de flertar com ela; isso a divertia.
Mais do que antes, punha-se a propalar e demonstrar o seu amor ao marido e aos filhos, com isso tentando silenciar as más línguas.
Ingénuo, o barão nem sequer suspeitava das aventuras da consorte; nunca lhe passou pela cabeça conhecer melhor os "adoradores" que acompanhavam a baronesa nas suas idas aos passeios e ao teatro.
Assim escoava a vida da bela Anastácia Andréevna, sempre contando com homens piedosos, prontos a consolar a jovem mulher, "sozinha e abandonada pelo marido", constantemente absorto em seus trabalhos científicos.
Cerca de três anos antes, ocorreu um episódio que pôs termo a todos os flertes passageiros e incendiou o coração da baronesa com uma paixão intensa e incontrolável.
O barão adoecera gravemente e foi chamado então um jovem médico, que gozava de uma certa notoriedade.
Tinha reputação de um homem sério e honesto, inimigo de mulheres e prazeres fáceis, inteiramente dedicado à medicina e aos pacientes.
Com o primeiro olhar para o médico, a baronesa ficou como que aturdida; parecia-lhe jamais ter visto um homem tão belo e interessante.
Sua reserva fria e o olhar indiferente que lhe foi lançado a deixaram ainda mais fascinada.
"Ele será meu.
Jamais gostei de alguém, como dele", - pensou.
A partir daquele dia iniciou-se uma obstinada e hábil investida, que aos poucos a aproximava dos projectos intentados.
Na penumbra do quarto do enfermo, desencadeavam-se as cenas de coquetismo refinado.
Em penhoares que custavam mais do que os vestidos de baile, com uma abnegação que beirava comoção, a baronesa passava as noites junto ao leito do marido, mal reservando a si um tempo para o próprio descanso.
Quando a doença parecia piorar, ela suplicava ao médico passar a noite em casa e aquelas vigilâncias conjuntas e os jantares a sós os aproximavam e estabeleciam uma relação que deveria subjugar o jovem médico.
O barão foi salvo e essa cura quase milagrosa propiciou ao médico uma notoriedade.
Ninguém estranhava que, ainda que o doente estivesse recuperado, o médico continuasse as visitas diárias e os encontros vis-à-vis no boudoir, diante da mesa do chá, como antigamente.
Dobrado, o doutor Zatórsky já olhava embevecido para a baronesa, pois esta era ainda mais sedutora em seus trajes caseiros reveladores e quase não escondia os sentimentos que a agitavam.
Por fim, deu-se a cena decisiva.
Certa noite, já levantado da cama, o barão estava organizando com o auxílio do secretário a correspondência acumulada; nisso, no boudoir apareceu o doutor, que ali não vinha havia uma semana.
A baronesa, dilacerada nesse período por dúvidas e ciúme, saltou da cadeira e atirou-se em sua direcção; as faces incendidas, os lábios frementes, a expressão dos olhos, tudo lhe traía os sentimentos.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 03, 2016 7:22 pm

- Por que o senhor deixou de vir a semana inteira? — balbuciou ela com voz embargada pela emoção.
Vadim Víktorovitch passou a mão pelo rosto e disse em meia voz:
- Para que mentir?
Queria dizer-lhe que as minhas vindas serão mais raras, em vista do que me dita o dever de pessoa honesta.
Anastácia Andréevna soltou um grito surdo de alegria e segurou a mão do doutor.
- Continue... Diga-me se é verdade o que eu julgo ler em seus olhos?
Terei eu essa bem-aventurança suprema de ser amada pelo senhor?
- Sim — ciciou Zatórsky, resfolegando.
Neste instante, dois braços estreitaram seu pescoço e à boca premeram-se lábios ardentes.
Dominado instantaneamente pela paixão, ele apertou ao peito a mulher fremente de amor; em seguida, porém, afastou-a bruscamente e perguntou indeciso:
- A senhora me ama?
Mas a senhora ama seu marido?
- Eu o amava até encontrá-lo, mas continuo a nutrir pelo barão um sentimento de respeito, amizade e gratidão, pois ele me tirou da pobreza.
Mas meu coração se agitou tão logo vi o senhor e então compreendi que o amor é um sentimento divino, que a tudo faz esquecer.
Que homem, ainda que não totalmente ofuscado com suas próprias qualidades, não ficaria adulado com esta confissão?
Não era apenas um mero "sucesso" ser o primeiro a excitar uma paixão genuína na alma de uma mulher, sem dúvida jovem e bonita, com doze anos de casamento, que ainda não encontrara o seu ideal até encontrá-lo, apesar da experiência da vida.
Aquilo não era uma conquista fácil do coração ingénuo de uma mocinha, ainda franqueado e pronto a aceitar qualquer impressão.
Zatórsky estava subjugado.
Laborioso, um homem da ciência, até então ele só vivera aventuras amorosas fáceis, e uma paixão pela esposa alheia cegou-o e o fez se esquecer de todos os seus princípios e escrúpulos.
Sob a influência da sensual e devassa mulher, ele tornou-se temporariamente o mesmo cínico que seus conterrâneos.
Porém, a honestidade que embasava o seu carácter sugeria-lhe obrigar a amante a divorciar-se do marido e casar-se com ele.
Mas Anastácia Andréevna era assaz cuidadosa e prática para trocar sua vida fausta de "grande senhora" por uma existência bem mais modesta.
Por isso ela rejeitou a sugestão do amado sob o suposto pretexto de que os sentimentos de gratidão e lealdade não a deixariam quebrar a paz do marido com um rompimento tão ruidoso, de modo que essa solução foi descartada.
O doutor continuou apenas "um amigo da família".
O barão, infinitamente grato ao homem que lhe salvara a vida, afeiçoou-se sinceramente a ele, elogiava-o por toda parte e granjeou-lhe numerosos clientes ricos, considerando o jovem médico como um membro da família.
Por sua vez, Vadim Víktorovitch aproveitou amplamente tal situação vantajosa:
tornou-se amigo e confidente dos dois filhos, cobriu-os de presentes e rebuçados e, tomando o lugar do barão, sempre ocupado por seu trabalho, acompanhava Anastácia Andréevna por todos os cantos.
Por fim, ele deixou praticamente todos os seus amigos e conhecidos, consagrando o seu tempo apenas aos pacientes e à família do barão.
Tal situação perdurava cerca de um ano, quando aconteceu um fato inopinado.
O barão tinha viajado a Londres para participar de um congresso arqueológico.
Lá, examinando as antiguidades recém-trazidas, Kosen conheceu um jovem hindu e seu amigo — o príncipe russo Alisei Eletsky, cujos pais o barão conhecia bem.
Ambos planeavam voltar para a índia para estudarem o ocultismo e fazerem escavações, e convidaram o barão para acompanhá-los.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 03, 2016 7:23 pm

A proposta era demasiadamente atraente para que o arqueólogo exaltado pudesse resistir, e ele aceitou; mas, ao retomar para casa, teve muito trabalho para vencer a oposição da esposa.
Ainda que intimamente Anastácia Andréevna estivesse feliz com a viagem, fingia-se amargurada e ofendida com a longa separação.
Seu papel foi tão bem representado, que o barão partiu convencido do amor sincero da esposa e jurou, apenas para deixá-la mais calma, mandar notícias suas o mais frequente possível.
Uma vez que a viagem seria demorada e apresentava muitos perigos, o barão, antes de viajar, fez um testamento.
À esposa ele deixava um substancioso capital e designava Vadim Víktorovitch como o tutor temporário dos filhos, pedindo-lhe para proteger a família na qualidade de médico e amigo.
Os amantes se sentiam magnificamente bem:
o próprio marido estendera a mão protectora para a relação secreta deles e abençoou, até certo ponto, as visitas assíduas do doutor.
No início tudo ia bem e o decoro se mantinha; mas a baronesa, sendo uma mulher imponderada, ciumenta e lasciva, apesar da máscara de hipocrisia, permitiu-se a despropósitos que a comprometeram.
Bem logo, não só a criadagem, mas também seus conhecidos, começaram a se entreolhar e sorrir maliciosamente.
Na sociedade, o médico era chamado de pessoa perdida e achavam que ele nunca conseguiria escapar das garras daquela matrona apaixonada.
Esta era a situação quando do início desta narrativa e os pensamentos que tempestuavam na cabeça da baronesa, enquanto ela folheava impaciente o livro, não eram, aparentemente, dos mais agradáveis.
A despeito de sua relação com o médico estar perdurando por mais de três anos, sua paixão não arrefecia; entretanto, ela era por vezes assaltada por lampejos de raiva ao perceber que ele havia mudado e, pelo visto, fartara-se dela.
Externamente, tudo permanecia como antigamente.
Vadim Víktorovitch visitava quase exclusivamente a sua casa, submetia-se paciente ao seu poder tirânico, quase brutal; ela, não obstante, sentia que ele lhe escapava.
Subitamente, ela estremeceu ao ouvir no quarto vizinho as passadas firmes e leves e, um minuto depois, no umbral do boudoir surgiu a alta figura de um homem.
Seu rosto um tanto pálido, de traços regulares, estava severo e calmo; os densos cabelos negros exibiam um corte curto e nos enormes olhos cinza de tonalidade metálica, sob os cílios densos, fulgiam inteligência e força.
A baronesa largou o livro e atirou-se em direcção dele, querendo abraçá-lo, mas este, com um movimento brusco e impaciente, desenvencilhou-se e a levou até a mesa.
- Meu Deus, como a senhora é imprudente!
Quantas vezes já lhe pedi para conter seus transportes de ternura para quando estivermos com a porta trancada e a sós?
Imagine o escândalo se um dos criados ou um dos filhos entra! — observou ele a meia voz.
A baronesa corou densamente e seus lábios tremelicaram, quando disse:
- No começo você não era tão precavido.
As crianças só poderão entrar, se eu as chamar; quanto aos criados, só falta que eu me constranja com eles!
- Mas eu, sim!
Já basta sermos falados na sociedade e eu já estou cheio de olhares e risos ambíguos — replicou Vadim Víktorovitch, afundando-se na poltrona e acendendo um cigarro.
Seu rosto estava incendido de desagravo.
— Oh, peço-lhe chamar as crianças, ou iremos até lá nós mesmos.
Liza está tão pálida — acrescentou após um silêncio oprimente.
- Ela não tem nada, afora um leve resfriado e é só — observou zangada a baronesa, erguendo-se rápido e dirigindo-se para o quarto das crianças.
Um menino taludo de faces coradas e uma menina magra, frágil e pálida lançaram-se nos braços do médico e o afagaram.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 03, 2016 7:23 pm

- Finalmente você veio, tio Vadim.
Já não o víamos faz uma semana; seu criado Iakov, sempre que eu telefonava, dizia-me que você não estava em casa.
- É verdade!
Tive alguns pacientes seriamente doentes e fiquei ocupado todo esse tempo — alegou Vadim Víktorovitch, sentando-se no sofá entre o menino e a menina.
Pelo visto, as crianças gostavam dele; elas falavam sem parar, serviam-no a todo o instante com amêndoas em açúcar e frutas; a viagem a Revel era o tema principal.
- Quando você vai nos visitar lá, no nosso castelo, titio? — perguntou a menina.
- Irei todas as sextas, à noite, e ficarei até a segunda de manhã; em julho poderei ficar por uns seis meses.
Estou exausto e quero descansar.
Ao falar, Vadim Víktorovitch observava de soslaio a baronesa.
Com ar carrancudo, ela mordiscava os lábios e não interferia na conversa; a raiva pela reacção inopinada do amante ainda não havia passado.
- E a senhora, baronesa, aprova os nossos planos e está de acordo em conceder-me uma hospitalidade tão prolongada? — perguntou Vadim Víktorovitch, curvando-se e beijando a mão de Anastácia Andréevna, que repousava sobre a mesa.
O rosto da baronesa desanuviou-se um pouco.
- Claro, claro, ficaremos felizes em recebê-lo.
Só que, caro doutor, não se esqueça de levar consigo um pouco de bom humor.
Seus nervos estão abalados e às vezes nem eu mesma o reconheço.
- A senhora tem razão, estou nervoso e chato.
No sossego do campo e ar fresco eu melhorarei.
- Com toda certeza; há um jardim enorme, o mar — a dois passos, e temos barcos para passear.
Além disso teremos visitas: a bela Mery Suróvtseva e a tia do meu marido — Elena Oreéstovna, uma mulher espirituosa.
Quero crer que esses hóspedes lhe serão de agrado.
- Para partidas de baralho, sem dúvida — riu o doutor.
Um criado, anunciando a chegada de algumas damas, interrompeu a conversação.

1. De russo: grande senhor de terras, normalmente cortesão e de origem nobre. (N.T.)
2. Cidade francesa de águas termais. (N.T.)
3. Nome antigo de Tallinn, capital da Estónia. (N.T.)
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 03, 2016 7:23 pm

~II~

Era uma noite no início de junho, alguns dias antes da ida da baronesa à sua propriedade perto de Revel, onde ela planeava ficar até o fim de setembro.
Anastácia Andréevna estava em seu boudoir em companhia de Zatórsky; eles tinham acabado de tomar chá sozinhos, pois as crianças com a governanta estavam em Pávlovsk, na casa de amigos, e só retomariam às onze horas.
Pretextando analisar contas, a baronesa levou o amante ao quarto e, como as portas estavam então trancadas, sentou-se descerimoniosamente sobre seus joelhos, cingiu-lhe o pescoço com os braços e imprimiu em seus lábios um beijo ardente.
Vadim Víktorovitch retribuiu-lhe a carícia, mas o seu beijo já não foi fogoso como antigamente e a baronesa sentiu isso; uma chama maldosa fulgiu por instante em seus olhos, ainda que, externamente, seu rosto permanecesse alegre.
Inclinando- se em direcção ao doutor, ela olhou maliciosamente em seus olhos meditativos e preocupados.
- Escute, seu resmungão inveterado!
Devo lhe dizer algo que há muito tempo me preocupa e que terá de ser resolvido:
você deve se casar.
Vadim Víktorovitch soergueu-se surpreso.
- Que brincadeira tola! — observou irado.
E com quem casaria, já que todos me julgam comprometido?
- Mais uma razão para calar a boca dos maledicentes.
Tão logo o barão retorne, você deve se casar para pôr um fim aos mexericos.
- E você aceitaria ceder-me a uma outra? — tornou Vadim Víktorovitch desconfiado, com ponta de zomba.
- Sim, se isso for preciso para a sua felicidade e do barão, cujo nome merece ser poupado.
Ela como que se contraiu, cobriu o rosto com as mãos e murmurou chorosa:
- Meu pobre Max!
Ele acredita que só ele eu amo... sempre tão bondoso comigo...
A baronesa era uma hábil comediante e sua manobra deu mais certo do que o esperado.
Perturbado, Vadim Víktorovitch premeu-a a si, beijou-a e jurou, acontecesse o que acontecesse, nunca deixar de amá-la.
Entretanto, a ideia de se casar, lançada como um balão de ensaio, calou fundo na alma do médico, mais fundo do que a baronesa podia supor.
Malgrado as juras de amor, aquela relação oprimia-o; a paixão se havia extinguido e o falatório assumia proporções inauditas, reflectindo-se em sua reputação e deixando-o em situação embaraçosa na sociedade. O casamento delineava-se-lhe, já há algum tempo, como uma tábua de salvação.
Ele próprio, é verdade, não amava ninguém, mas sabia que agradava a muitas mulheres e podia escolher.
Suas preocupações, aliás, já tinham sido notadas por sua tia, com quem morava.
Ela era a irmã mais velha de sua falecida mãe, viúva de um general, uma mulher rica e independente.
Zatórskaia, sua mãe, morreu durante o trabalho de parto e a esposa do general, assumindo os cuidados pelo recém-nascido, criou-o como seu próprio filho.
Seu pai, médico também, vivia sempre ocupado sem tempo para o filho, e o confiou de bom grado à sua cunhada sem filhos.
Vadim Víktorovitch respeitava e gostava de Sófia Fiódorovna como se fosse a própria mãe, e sabia que o seu caso com a baronesa muito a amargurava.
Religiosa e muito honesta, Sófia Fiódorovna considerava uma vilania e imoralidade trair o homem que depositara em seu sobrinho total confiança, e esta questão delicada frequentemente era motivo de altercações mútuas, que deixavam o jovem médico muito nervoso.
À noite do dia seguinte à conversa descrita com a baronesa, o doutor estava em casa.
Ele tinha uma consulta e, ao se ver livre do último paciente, por volta das dez e meia, foi ao refeitório, onde a tia o aguardava para o chá, jogando paciência.
Dispondo as cartas, Sófia Fiódorovna observava preocupada o sobrinho, que, meditativo, tomava o seu chá.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 04, 2016 9:27 pm

- O que o preocupa?
Teve algum aborrecimento com cliente ou com... aquela vagabunda? — perguntou ela, baixando a voz.
O doutor sacudiu a cabeça e pelo seu rosto escorregou um sorriso.
- Não, tia, não tive nenhum aborrecimento; estou preocupado com outra coisa.
E mesmo que eu tivesse algum problema, por que necessariamente sua causa deveria ser a pobre baronesa, que você tanto odeia?
- Porque essa imprestável mulherzinha está desgraçando sua vida e eu vivo com medo de algum escândalo.
Você está à mercê dos criados dos Kosen, ou acha que eles são cegos?
Ademais você é tão descuidado, seus bolsos estão repletos de cartas daquela imunda.
A começar pelo seu mordomo, quem poderá garantir que ele não se vingue de você por alguma censura mais brusca e entregue uma dessas cartas ao barão?
E então? Como você vai encarar o homem que depositou inteira confiança em você e cuja honra você aviltou?
Ninguém sabe ainda como esta história pode terminar.
Pessoas aparentemente mais pacíficas se tornam irascíveis e desafrontaram a desonra com o sangue.
Sófia Fiódorovna misturou nervosamente as cartas e as jogou de lado.
- Arre, tia!
Não venha com esses horrores românticos em nossos tempos prosaicos — tornou o médico, agitando os ombros.
- Oh, não zombe, querido Vadim!
Você não sabe, mas de algum tempo para cá tenho maus pressentimentos; uma certa angústia mórbida e um medo indefinido, como que uma desgraça o ameaçasse...
A voz de Sófia Fiódorovna tremia e seus olhos encheram-se de lágrimas.
Zatórsky inclinou-se, beijou sua face enrugada e disse meigamente:
- Acalme-se, titia!
Vou dizer-lhe o que me inquieta e isso porá um fim — eu espero — aos seus medos.
Eu entendo e, o que é mais importante, a própria baronesa tem consciência disso:
está na hora de acabar com esta relação ruidosa.
Assim, para terminar com o falatório, decidi me casar...
Uma exclamação alegre interrompeu-o:
- Ah! Deus o abençoe por esta decisão, querida criança!
E diga-me: já fez uma escolha, gosta de alguém concretamente?
Não quero crer que você faça de sua futura esposa um biombo para prosseguir em sua aventura.
Aliás, nenhuma mulher suportaria isso.
- Meu Deus, como você se preocupa, titia!
Só sei agora que preciso m e casar; tenho em vista algumas possíveis pretendentes e, até o outono, farei a minha opção.
- Não será difícil.
Tenho certeza de que terá sucesso.
Ao ver que o sobrinho desatou num riso franco, ela acrescentou incisiva:
— Estou falando sério; você é um partido invejável.
- Espero que o belo sexo tenha a mesma opinião de mim.
Repito:
até o outono eu decidirei, mas preciso de alguns meses para encontrar a pessoa certa.
Digo mais:
não vou casar com nenhuma menina.
Não sou mais jovem, tenho trinta e seis anos e quero ter uma boa dona-de-casa e, sobretudo, uma boa mãe, pois adoro crianças e quero tê-las, para possuir um objectivo na vida.
Assim orientado, escolherei uma mulher de uns vinte e sete — vinte e oito anos, saudável, prática e boa dona-de-casa, não uma tola qualquer de dezassete — ingénua, romântica e dengosa.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 04, 2016 9:27 pm

- Oh, tudo isso não importa, meu querido; está claro que você escolherá alguém que lhe seja de gosto, alguma moça adequada.
O que vale é criar um lar próprio e cortar a relação com a baronesa.
Francamente, ela me intriga:
como conseguiu seduzi-lo, sendo uma pessoa ínfima, incapaz de elevar-se acima da torpeza?
Vadim Víktorovitch nada respondeu e só passou a mão pela testa como que afugentando pensamentos enfadonhos; depois, terminando o chá e pretextando trabalho, ele se despediu da tia e foi ao quarto.
Três dias mais tarde, Mery estava ultimando em seu quarto a arrumação das coisas; a baronesa viria à noite para buscá-la e, no dia seguinte, elas já estariam em Revel.
A jovem ainda trajava suas vestes matinais e instruía a velha ama, uma mulher forte e bondosa, como arrumar os vestidos e as roupas numa grande cesta, enquanto ela mesma embrulhava e colocava no saco de viagem suas jóias e pertences de toalete.
Anna Petrovna, a governanta e a irmã mais nova haviam viajado na véspera:
Pétia foi ao acampamento em Peterhof e, no dia seguinte, Suróvtsev planeava ir passar uma semana na casa de um amigo na Finlândia.
A casa tomou um aspecto solitário e vazio; os tapetes, os retratos e as quinquilharias foram tirados; os lustres e os quadros — cobertos por panos de musselina; os móveis envolvidos em capas de linho, e as cortinas abaixadas fizeram mergulhar tudo numa penumbra cinzenta.
Isso não impediu que Mery se sentisse bem-humorada.
De manhã o seu pai presenteara-a com duzentos rublos para as despesas miúdas e os dois meses de total liberdade iminente deixavam-na exultante.
Ela podia fazer o que lhe desse na telha, palrear, flertar com quem lhe fosse de agrado, sem a vigilância da mãe, que sempre tinha algo a reparar-lhe com respeito a suas maneiras e toalete.
Mery levava consigo uma camareira, uma vez que a baronesa lhe havia dito:
"Mais uma pessoa não fará nenhuma diferença lá no castelo, de modo que pegue sua camareira, querida Mery.
Ela ajudará em sua toalete e você ficará mais à vontade com uma criada já habituada".
Naquela hora, a camareira foi dispensada para se despedir dos familiares e a velha ama, que cuidava da senhorita desde o seu nascimento, ajudava na arrumação das coisas.
Ao fechar o saco de viagem, Mery interceptou um olhar desgostoso da velha ama e estranhou o seu mutismo, tão diferente de sua habitual tagarelice.
- O que há com você?
Parece estar zangada e não conversa comigo.
Está doente?
- Não, não estou gostando de você ir sozinha à casa daquela baronesa.
Que modismo é esse?
Uma mocinha não deveria ficar tão longe da mãe, e você sempre viajou com ela; agora, de repente, deixam-na sozinha sem qualquer vigilância!
Onde já se viu isso?! — resmungou a velha.
- Mas eu não ficarei sozinha, a baronesa vai estar lá.
- Bela companhia!
Por acaso a casa dela prima por decência?
Seu marido está fora, e um tal de médico de lá não arreda o pé; quem é ele, não dá para saber... Correm boatos muito ruins sobre ele.
Tfu! — E a ama escarrou com raiva para o lado.
Não acharam um lugar melhor para mandá-la?
Você ainda é uma criança, tão nova e inexperiente.
Deus sabe o que poderá acontecer!
Mery desatou a rir.
- Mas, ama, já sou adulta; tenho dezoito anos e, graças a Deus, sei como me portar.
E o que eu tenho com o médico?
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 04, 2016 9:27 pm

Não estou doente e não preciso dele.
Pelo menos na casa da baronesa vou me divertir; ela é tão alegre e seus filhos são maravilhosos!
- Ela é desavergonhada, isso sim!
Ao menos tivesse vergonha dos filhos — resmungou Aksínia, tampando ruidosamente a cesta; mas, ao ver que Mery continuava a rir, acrescentou zangada.
Não ria, queridinha!
Oh, o meu coração sente que a sua viagem não acabará bem; tive um sonho mau esta noite: coisa ruim está por vir.
- Conte-me o que você sonhou!
Gosto tanto de ouvir os sonhos! — exclamou Mery, cingindo o pescoço da velha e fazendo-a sentar-se ao lado num pequeno sofá.
No início Aksínia relutou, mas depois iniciou em voz tremulante:
- Sonhei que estava sozinha em casa; todos haviam viajado não sei para onde.
Deus sabe porque, estava muito angustiada e fui ver pela janela se alguém de casa estava retornando.
Ao invés de nossa Rua Koniúchennaia, em frente de nossa casa estendia um mar, cujo fim não se via, e em direcção da nossa janela aproximava-se, a todas as velas, um enorme navio.
E eis que no convés eu vejo uma mulher alta, parecida com uma etíope, medonha e com grandes olhos maldosos, toda coberta de brilhantes.
Ela desceu; até pensei que ela tivesse caído no mar, mas, subitamente, vejo que o mar desapareceu e nós estávamos num quarto, que nunca vi antes.
A mulher negra estava sentada no tamborete no meio do quarto e, em volta dela, dançavam você, a baronesa e mais algumas pessoas desconhecidas.
Quando algum dos dançantes passava por ela, a mulher se levantava e o enforcava, imediatamente seu corpo desaparecia e em seu lugar formava-se uma poça de sangue.
Fiquei tão amedrontada que ela não agarrasse você, que quase fiquei maluca e não sei o que lhe aconteceu depois.
O sangue, naquela hora, espumava-se e refluía batendo na casa, que começou a ruir.
Apavorada, eu gritei e despertei toda suada.
Ai, ai! esse sonho não reserva nada de bom.
Mery ouviu-a com inquietação na alma; porém, sacudiu a cabeça energicamente.
- Não, ama, tudo isso são tolices.
O nosso médico me disse que os sonhos acontecem por causa da digestão:
quanto mais se come, piores são os sonhos.
Você deve ter comido muitos galúchki(4) ontem à noite.
E não se atormente com maus presságios!
Sou uma moça adulta e não permitirei que me maltratem ou asfixiem.
Agora, ajude a me vestir — tornou ela, beijando a velha.
Ao ficar pronta, Aksínia abençoou a jovem, beijou e sussurrou-lhe no ouvido:
- Fique o mais longe possível do doutor.
Você o conhece bem?
- Não. Nas vezes que fui à casa da baronesa, não o encontrei lá; só o vi uma vez ou duas, rapidamente, mas não prestei atenção nele.
E você, ama, já o viu, para ter tanto ódio por ele?
- A cozinheira da baronesa é minha conterrânea.
Certa vez, quando fui lá, ela me contou tanta coisa da baronesa!
Depois, ela e a camareira me levaram até o lavatório, de onde eu vi os dois tomando o chá.
Que indivíduos mais nojentos!
Mery riu, mas prometeu tomar cuidado e manter-se longe do médico como de um malfeitor; em seguida ela se dirigiu apressadamente à sala onde estava o seu pai e a baronesa, que acabava de chegar.
A despedida foi alegre.
Mikhail Mikháilovitch reportou-se aos negócios importantíssimos que o impediam acompanhá-las à estação e brindou-as com flores e confeitos.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 04, 2016 9:27 pm

Meia hora depois, o automóvel de Anastácia Andréevna levava as viajantes para a Estação Ferroviária de Báltico.
Ao adentrarem o saguão da primeira classe, onde por elas já aguardavam os filhos da baronesa com a governanta, Anastácia Andréevna exclamou alegre:
- Ah, Vadim Víktorovitch, o senhor veio despedir-se de nós? Muito gentil de sua parte.
Querida Mery, permita-me apresentar-lhe o doutor Zatórsky, velho amigo da família e tutor de meus filhos na
ausência do meu marido.
Pela primeira vez Mery examinou curiosa aquele senhor, tão vilipendiado pela ama e o resultado do exame verificou-se positivo para o médico.
Ela achou o seu rosto pálido e regular bonito; a expressão confiante, serena e severa de seus olhos de matiz metálico sugeria respeito, enquanto o sorriso sedutor a iluminar o semblante do médico durante uma breve conversação encantou-a decididamente.
Ela resolveu de pronto que a sua velha ama era tola e preconceituosa e, se aquele homem, jovem e interessante, realmente amava a baronesa, só se poderia invejar a sorte dela.
Anastácia Andréevna estava bem humorada.
Ela pegou das mãos do doutor uma enorme caixa de bombons que este trouxera para os seus filhos e reiterou o seu desejo de vê-lo brevemente; riu bastante e brincou até embarcarem no trem.
Quando este partiu, a baronesa, exausta, estendeu-se no sofá e logo adormeceu.
Mery, sentada em frente, examinou-a longamente.
Notou que a baronesa já se maquiava:
em volta dos olhos havia pequenas rugas e, de modo geral, sua aparência deixava a desejar.
Seria possível que o doutor, um homem sem dúvida inteligente e com carácter forte, poderia ter se De Revel até o castelo era um pouco mais de uma hora e esta viagem, numa carruagem aberta, proporcionou a Mery imenso deleite; à vista do próprio castelo, ela deixou escapar um grito de surpresa. O prédio era antigo, mas ampliado e decorado com diversas edículas.
Todo o maciço, com uma alta torre lateral dentada, repousava sobre um enorme penhasco, aos pés do qual se arrebentavam as ondas do mar. Uma escada esculpida na rocha com corrimão levava a uma pequena baía, onde estavam ancorados barcos de diferentes tamanhos.
Olhando do mar, o castelo preservara um aspecto sombrio e feudal; do lado oposto, estendia-se um amplo jardim que com uma faixa verde cingia as construções novas.
Alguns anos antes, o barão Kosen herdou o castelo Zeldenburgo após a morte do último representante do tronco ancestral antigo.
Mas uma cláusula do testamento facultava a uma velha parenta o direito de habitar aquele castelo vitaliciamente; Anastácia Andréevna sentia horror em morar lá.
Ela odiava a velha matrona, mulher seca, severa e afectada, cujo olhar glacial parecia atravessá-la por dentro, e cujos lábios exibiam sempre um sorriso desdenhoso à qualquer seu despropósito ou palavra estouvada.
Somente o desejo de contrariar a metódica matrona fazia com que a baronesa inventasse uma série de modismos que perturbavam os hábitos da habitante do castelo.
Finalmente, no inverno anterior, Eleonora von Kosen morreu e então a baronesa resolveu passar o verão em Zeldenburgo.
Os aposentos de Mery consistiam de um dormitório e uma pequena sala de estar cobertos de cretone azul e rosa.
A vista para o mar e o jardim era maravilhosa e Mery estava definitivamente encantada.
Todo o tempo que se seguiu ao almoço foi dedicado ao passeio pelo jardim repleto de flores; de um alto caramanchão se abria um panorama para a lonjura marítima, com seus navios, que seguiam para o porto de Revel.
Feliz e contente, Mery deitou-se na cama; subitamente, ela olhou para um retrato pendurado na parede e que, involuntariamente, fê-la rir. O retrato representava a falecida fraulein Eleonora; a baronesa passara a noite inteira divertindo os presentes com as narrativas das pequenas fraquezas e das concepções ultrapassadas de Eleonora.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 04, 2016 9:28 pm

Mery riu muito, como todos os outros, e, agora, a visão do retrato motivou nela uma nova explosão de riso; mas, aos poucos, os olhos severos e meditativos que a fitavam com raiva e zomba provocaram nela uma impressão desagradável.
Ela se virou para a parede para não ver o retrato e logo adormeceu, mas seu sono foi agitado.
Mery passou revirando-se na cama, atormentada por aparições medonhas, como num pesadelo.
Ela se via no jardim do castelo, quando no horizonte surgiu uma enorme nuvem escura, cobrindo rapidamente o firmamento.
Ficou escuro como de noite e das nuvens negras dardejavam feixes de luz vermelhos, como sangue, que iluminavam todos os objectos numa tonalidade nefasta.
Em seguida as nuvens se dispersaram e descortinou-se uma gruta, no centro da qual, num trono, sentava-se o próprio Satanás que lhe estendia os seus braços peludos e gárrulos, tentando agarrá-la.
Apoderada de terror, ela queria fugir, encobrindo-se com capa negra e grande que envergava nos ombros, quando, de chofre, de cada prega da capa começaram a surgir nuvens incontáveis de pequenos seres repulsivos que, feito enxames de abelhas, encheram o ar.
Os seres minúsculos mordiam e picavam-na; ela, ensandecida, agitava-se por todos os lados, tentando fugir de seus perseguidores.
De súbito, ouviram- se gemidos e tiros; Mery escorregou em algo molhado e pegajoso, percebendo então que era uma poça de sangue.
A alguns passos dela estava parada Eleonora, apontando dedo para ela, cascalhando num riso sonoro que estremecia todas as suas fibras.
Mery gritou e despertou suada e febricitante.
- Arre, que pesadelo horrível — sussurrou ela, e levantou- se para tirar da sacola gotas de calmante.
Depois de tomá-lo, dormiu rapidamente um sono juvenil e sadio.
Durante o desjejum, a baronesa perguntou rindo:
- Como dormiu, Mery, e o que viu em sonhos?
Tive um pesadelo horrível, sonhei que um tigre estava me perseguindo, corri dele e tropecei várias vezes.
Certa hora, ouvi diversos tiros e senti o tigre morder-me; depois despertei.
- Meu Deus, também tive um pesadelo e ouvi os tiros.
Minha velha ama me disse que isso é mau presságio — observou Mery.
- Oh! Quem acredita em presságios neste século iluminado?! — manifestou-se mademoiselle Dobero, a governanta francesa, que gostava de passar por uma pessoa judiciosa.
A explicação é muito fácil:
alguém, provavelmente, estava caçando pardais por perto; daí a similaridade dos sonhos da madame e mademoiselle, que ouviram os tiros.
Todas riram e não pensaram mais sobre o acontecido.

1. Prato ucraniano: pequenos pedaços de massa cozidos em caldo ou leite. (N.T.)
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 04, 2016 9:28 pm

~III~

Na sexta-feira, veio o doutor Zatórsky e a sua chegada animou o castelo.
Jogaram críquete e ténis, passearam nas redondezas e voltaram só para o chá da tarde.
De soslaio, mas não com menos interesse, Mery observava o médico.
Antigamente, ela dava pouca atenção a ele, mas os mexericos de que ele era amante da baronesa excitaram-lhe a curiosidade.
Actualmente, não existe a preocupação com moças adolescentes, e muitos assuntos que elas nem deveriam saber são discutidos em voz alta em sua presença, sem falar dos jornais, cujas colunas sobejam das descrições de paixões dramáticas e casos vergonhosos que a juventude acaba lendo.
Com dezoito anos, Mery já se considerava adulta e bem informada, sempre ávida por descobertas que atiçam a curiosidade mórbida da imaginação jovem e intacta da realidade bruta da vida.
Mery tinha muitos adoradores, principalmente entre a juventude "verde" que mal acabara de sair das carteiras escolares:
estudantes, pajens e jovens oficiais de buço recentemente formado.
Mas a todos esses noviços ela tratava com um certo desdém; ela os conhecera desde que eram escolares e a seus olhos eles não eram cavalheiros de verdade.
Até o jovem marinheiro e o diplomata, dos quais falara sua mãe, não souberam sensibilizar seu coração, ainda que a cortejassem abertamente.
Agora se apresentava uma oportunidade única de conhecer um "romance" — um romance secreto de verdade.
Mas, por mais que Mery espreitasse, não conseguia perceber nada além de uma certa familiaridade que poderia ser natural em se tratando da baronesa, podendo ser justificada, talvez, pela longa amizade com o doutor...
Após retornar do passeio, a baronesa foi ao quarto para trocar de vestido, enquanto Mery se dirigiu à saleta ao lado do refeitório e sentou-se no parapeito da janela. O quarto se achava na parte velha do castelo e uma ameia funda ficava escondida por trás da cortina de veludo.
Da janela se via o mar iluminado pelo luar e Mery ficou deslumbrada pelo espectáculo maravilhoso.
Por alguns minutos ela ficou ali, quando na sala se ouviram passos; ela se virou e, através da fenda do reposteiro, viu o doutor, que se sentou à mesa, pegou um livro e o folheou distraidamente.
Pela primeira vez Mery podia examiná-lo com toda a liberdade.
Uma lâmpada iluminava-lhe o rosto, alheio aos olhos escuros a observarem-no curiosos.
Pela primeira vez também, Mery sentiu um interesse um tanto estranho por aquele homem praticamente desconhecido.
Sem dúvida, ele era um homem de posição social destacada, um médico eminente e reconhecido e, indiscutivelmente, bonito.
Os traços finos e regulares, o traçado severo e enérgico da boca e os olhos grandes de tonalidade cinza metálica — tudo nele era de seu agrado.
E aquele homem interessante, ainda jovem, amava a baronesa, que já apelava para a maquiagem, enquanto seu talhe, apesar de magro, parecia pesado e perdera a graça e flexibilidade que dão encanto à primeira mocidade.
Mery pensava assim com seus botões, quando entrou a baronesa, visivelmente nervosa, segurando um telegrama.
- Imagine, Vadim, minha mãe escreve que o papai está doente e deseja me ver.
Ela pede que eu vá imediatamente a Strelna.
- Bem! O que pretende fazer?
- Não posso me eximir; pegarei o trem nocturno.
De manhã estarei em Petersburgo e, depois de amanhã, retorno.
Ela ficou muda por uns instantes, repousou os braços nos ombros do doutor e, inclinando-se a ele de modo a roçar-lhe a face, disse:
- Vá comigo!
Zatórsky tirou calmamente os seus braços de si.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 04, 2016 9:28 pm

- Quantas vezes tenho de pedir-lhe, Anastácia Andréevna, para abster-se dessa familiaridade, que alguém pode perceber.
Mais do que nunca, isso é inconveniente.
Vá e, claro, eu a acompanharei até a estação; mas, pessoalmente, não quero voltar para Petersburgo.
Vim para descansar, tomar ar fresco e não quero chocalhar noite inteira num vagão de volta para a cidade.
Seu pai tem seu próprio médico e não precisa de mim.
Arrume as coisas, teremos tempo de jantar ainda, antes do trem.
A baronesa enrubesceu, mordiscou o lábio e uma chama maldosa faiscou em seus olhos.
Sem dizer uma palavra, deu as costas e saiu; o médico também se levantou e foi ao refeitório.
Feito uma sombra, Mery deixou seu abrigo, querendo contornar o refeitório por outro lado; mas, ao passar pelo boudoir da baronesa, viu esta diante do guarda-roupa aberto.
A camareira, neste ínterim, dispunha sobre a mesa o saco de viagem.
- Deixe o saco, Matriocha, vá arrumar a cesta e, depois, vista-se, vou levá-la comigo — disse Anastácia Andréevna, e, ao ver Mery, dirigiu-se-lhe alegre:
— Ajude-me, querida, a encher estes frascos com a água-de-colónia e perfumes, e colocar tudo no saco, enquanto eu pego os lenços e outras miudezas.
Só que aqui está muito escuro — ela comutou o interruptor eléctrico.
Uma luz rosada inundou o boudoir e a figura branca e esbelta da jovem, que se pôs a encher aplicadamente os frascos.
Anastácia Andréevna olhou para ela com expressão enigmática e observou com negligência, ao se curvar sobre um baú:
- Sinto pena de Vadim Víktorovitch.
Ele estava tão feliz com a possibilidade de passar comigo esses dois dias, no entanto eu preciso viajar.
Ele queria acompanhar-me, mas eu recusei.
O pobrezinho está loucamente apaixonado por mim e tenta me agradar de todas as maneiras; mas precisa descansar e eu insisti que ficasse aqui, vou levar comigo a camareira só para ele aquietar-se que não viajarei sozinha.
Felizmente a baronesa continuava a remexer no baú, caso contrário teria notado o olhar de Mery, constrangido com sua mentira deslavada.
Ela tinha escutado que Vadim Víktorovitch se recusara a viajar com ela e viu o gesto impaciente dele, desenvencilhando-se de seus afagos.
Mas por que razão Anastácia Andréevna estaria mentindo?
Por que ela se gabava e expunha um sentimento que deveria esconder de todos?...
Mery não encontrava resposta para essas questões e, a fim de esconder seu constrangimento, começou a arrumar no saco os frascos e os lenços de nariz.
O filho da baronesa, que veio correndo para informar que o jantar estava servido, deu uma nova orientação à conversa e todos foram ao refeitório.
Extremamente curiosa, Mery observava disfarçadamente os supostos apaixonados, mas não conseguiu captar nenhuma olhadela amorosa por parte do doutor; a baronesa tagarelava feito gralha e parecia não dar nenhuma atenção para seu adorador.
Quando anunciaram que o coche estava servido, Anastácia Andréevna disse que Vadim Víktorovitch não precisava acompanhá-la.
- O caminho é bastante longo e o senhor precisa descansar; os cavalos e o cocheiro vão ficar também exaustos e é melhor que fiquem descansando em Revel — acrescentou ela, despedindo-se carinhosamente dos filhos e de Mery.
Ao senhor, Vadim Víktorovitch, eu delego a tarefa de distrair a minha jovem amiga.
Claro, o senhor não é tão jovem para divertir Mery, mas tente, sacuda os seus velhos ossos; isso lhe fará bem.
Nos olhos da baronesa cintilava uma expressão de malícia e na voz ouvia-se algo muito significativo.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 04, 2016 9:28 pm

Mas o doutor parecia não notar e nem se ofendeu por ser incluso no rol dos velhos; com um sorriso gentil ele beijou a mão da baronesa, desejou-lhe boa viagem e, depois, todos a acompanharam até a carruagem.
Ao saírem ao terraço, de onde se via todo o mar, Zatórsky perguntou de repente:
- Maria Mikháilovna, não quer dar um passeio de barco?
A noite está maravilhosa e ainda é cedo.
Pode confiar em mim, eu remo bem e o mar está calmo.
- Oh, não tenho um mínimo de medo e ficarei feliz em dar este passeio — sustentou Mery e seus olhos brilharam de satisfação.
- Neste caso, vá se trocar rápido; à noite, no mar é fresco e húmido, e a senhora poderá pegar um resfriado.
- Não estou nem um pouco com frio, acredite; só vou pegar uma manta.
- Não, não, vista uma roupa de lã, enquanto isso vou providenciar alguns bombons para Liza e Bóris.
A mãe não permite que eles andem de barco, por isso não poderei levá-los.
A sugestão de agasalhar-se melhor foi expressa em tom tão imperioso que Mery, sem discutir mais, correu para o quarto; o doutor acompanhou a figura esbelta da moça e depois chamou Liza e seu irmão.
Já em seu quarto, Mery analisou rapidamente o que poderia vestir de mais quente e que lhe ficasse bem.
Após chamar a camareira, mandou que esta lhe desse um vestido de lã com um quimono de mesmo tecido, com forro branco de cetim; resolveu ficar com o mesmo colar de cristal de rocha que usara de dia.
Tudo posto, ela se olhou no espelho. Sem se dar conta dos motivos, não queria se mostrar naquela noite muito atraente nem agradar e, tendo se olhado no espelho, ficou satisfeita com a aparência. Feliz, desceu ao terraço, onde encontrou junto à escada Vadim Víktorovitch aguardando.
- Bem, agora eu já não receio que a senhora se resfrie — disse, sorrindo.
Eles desceram à praia e se acomodaram no barco.
O mar dormitava calmamente e o luar modorrento e mágico naquela noite inundava tudo como que com luz de dia.
Eles ainda estavam perto da margem, quando Mery observou:
- Ah, que pena que não estou com o bandolim, senão eu lhe cantaria uma canção italiana que aprendi com o nosso gondoleiro, quando estive com minha mãe em Veneza no ano passado.
Ali as noites também são maravilhosas e nós andávamos de gôndola no Grande Canale.
- E a senhora não sabe cantar sem bandolim?
- Não, nunca cantei sem acompanhamento.
- Neste caso eu posso buscar o instrumento, já que não estamos longe da margem.
Sem esperar pela resposta, com algumas remadas ele acostou o barco no cais da baía, amarrou-o e subiu com destreza a escada.
Mery acompanhou-o com os olhos e pensou, dando de ombros:
"Ele não m e parece velho...
Gostaria de saber por que Anastácia Andréevna insiste em dizer que ele é velho..."
Poucos minutos depois, Vadim Víktorovitch retornava com o bandolim que lhe foi dado pela camareira, e Mery, após um pequeno prelúdio, começou a cantar uma barcarola italiana.
Sua voz não era potente, mas o timbre aveludado tinha sido trabalhado em boa escola e ela cantava com paixão.
Com uma estranha emoção, ouvia-a Zatórsky, sem desgrudar os olhos do rostinho encantador da jovem.
Ele fez, involuntariamente, uma comparação entre a baronesa, mulher já murcha, e aquela flor primaveril, que mal acabara de desabrochar.
Os sons de sua voz maravilhosa e acariciante seduziam-no; os elos que o uniam à baronesa pareciam-lhe pesados feito chumbo.
Quando Mery terminou, ele pediu que ela cantasse mais, o que ela fez de boa vontade; o doutor ouvia-a cada vez mais enlevado.
Naquele momento, ele esqueceu completamente os projectos judiciosos expostos à tia, no que tangia a seu futuro, e lhe parecia que a posse daquele ser jovem e puro seria uma felicidade inebriante.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 04, 2016 9:29 pm

Mery também estava emocionada; o passeio de barco a dois deixou-a extasiada e seus olhos alegres fitavam carinhosamente o acompanhante.
Vadim Víktorovitch apresentava-se-lhe agora um homem diferente do que era na presença da baronesa; sua fria indiferença sumira, o sorriso cativante aformoseava e rejuvenescia seus traços, os olhos ganhavam vida como se descortinassem, da máscara de um cientista impassível e fechado, um homem de verdade, cuja alma se afinava com todas as fraquezas e paixões próprias a um mortal.
Falaram inicialmente pouco e ambos encontravam-se sob o encantamento dos sentimentos que deles se apoderaram.
O doutor foi o primeiro a quebrar o silêncio.
- Está na hora de deixarmos o mundo encantado e voltarmos à realidade prosaica — disse ele, sorrindo e orientando o barco para a margem.
Quando Mery saltou para a plataforma do cais, de seus cabelos caiu uma rosa vermelha que lhe enfeitava a cabeça.
Vadim Víktorovitch levantou a flor e perguntou, acolchetando-a ao botão:
- Posso ficar com ela?
Mery balançou a cabeça afirmativamente, mas o olhar dele, que acompanhou a pergunta, era tão enigmático que ela enrubesceu e, para sair do embaraço, disse apressada:
- Agradeço-lhe, Vadim Víktorovitch, pelo prazer a mim proporcionado.
- O prazer foi mútuo — tornou ele, retendo por instantes a mão estendida.
Voltando ao quarto, ele abriu a janela, recostou-se no parapeito e pôs-se a cheirar pensativamente a rosa.
E como que da fragrância da flor, em sua mente revolveram-se pensamentos tempestivos.
Em sua imaginação assomou-se a imagem de Mery, tal como a vira há pouco:
encantadora como a própria personificação da sedução.
Involuntariamente, ele tornou a comparar sua cútis branca com a fisionomia borrada da baronesa; os olhos grandes, claros e alegres de Mery, com o olhar diabólico da outra, com sua insuportável e vulgar sensualidade.
Neste minuto, sua amante lhe dava, decididamente, náuseas.
Aquela bruxa lhe tolhia o caminho à felicidade e não o deixaria escapar de suas garras; seus conselhos de casar eram um embuste:
para impedir-lhe o acesso ao coração da criança maravilhosa ela zombaria dele na presença de Mery...
Ele se pôs de pé e começou a andar nervosamente pelo quarto.
Sua natureza, porém, equilibrada e sensata, logo o fez recompor-se; afundando-se na poltrona e enxugando a testa molhada, ele se pôs a meditar:
"Devo estar ficando louco..."
Como posso entregar-me a tais pensamentos absurdos?
Sou realmente velho para essa menina.
Jamais poderei ficar livre da baronesa; o pólipo pegou-me firme e será minha Némesis pelo acto ignóbil...
E por que eu me fui envolver nessa torpeza?...
Sombrio e nervoso, levantou-se e foi dormir.
Sob a impressão do passeio nocturno, Mery não conseguia conciliar o sono e pensava em Vadim Víktorovitch; ela comparava o doutor com seus dois fãs:
o marinheiro e Eric Rautenfeld, e - coisa estranha — sua preferência caía em Zatórsky.
Sem dúvida, ele era mais belo e mais atraente do que os dois; seu coração disparava ao se lembrar da expressão enigmática de seus olhos, de seu fulgor descortinando o mundo desconhecido, e que jamais brilharam assim na presença da baronesa...
No dia seguinte, no desjejum, Vadim Víktorovitch reassumiu o seu tom habitual, ainda que estivesse mais alegre.
Jogou críquete e ténis com as crianças, andou de pernas-de-pau; Mery, alegre, ligou-se a ele, esquecendo-se até de quanto era mais jovem de idade.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 04, 2016 9:29 pm

Após brincar com bola, Bóris, enxugando a testa molhada, perguntou resfolegando:
- Tio Vadim, por que a mamãe sempre diz que você é um velho?
Você corre tão rápido e suas pernas não são piores que as nossas.
Mery desabou em gargalhada; o doutor virou-se e a fitou nos olhos.
- Maria Mikháilovna, a senhora também me acha muito velho?
- Absolutamente, acho o senhor jovem — respondeu ela, corando intensamente.
- Obrigado. E para confirmar seu testemunho, convido-a para mais uma partida de ténis.
O dia passou alegre.
Todos acabavam de tomar chá, quando, para surpresa geral, apareceu a baronesa, esperada somente para o dia seguinte.
Ela explicou que a doença do pai era um alarme falso e que o velho estava bem, de modo que se apressou em voltar.
A presença da baronesa influiu no humor de Vadim Víktorovitch:
ele parou de rir e tagarelar e se recusou a brincar com a bola, quando as crianças foram chamá-lo.
- Por que o senhor não vai?
Vá, vá! Na sua idade é saudável movimentar-se, vez. ou outra.
As palavras pareciam joviais e de brincadeira, mas no tom e no olhar sentia-se uma zomba maldosa.
Devido ao gesto brusco da recusa,
Mery deixou o terraço com as crianças.
Assim que eles ficaram longe da vista, Vadim Víktorovitch pôs de lado o prato com morangos, que estava segurando, e, todo vermelho, virou-se para a baronesa, franzindo o cenho.
- Insisto, Anastácia Andréevna, abstenha-se de brincadeiras de mau gosto.
Não m e considero uma velharia e tão decrépito para ser motivo de assombro quando faço algum exercício.
A baronesa escangalhou-se num riso exagerado e bateu-lhe jovialmente no ombro.
- Acalme-se, meu querido!
É claro que o senhor não é velho, mas se resolvesse pular e correr como Liza, Mery e Bóris, que aliás poderiam ser até seus filhos, seria engraçado.
Mery, é verdade, está com dezoito anos e é linda; pensei até em sugeri-la para sua noiva, mas depois me convenci que, infelizmente, ela é muito ingénua e nova e, decididamente, não servirá de esposa para um homem tão sério.
É possível, inclusive, em vista de tanta diferença de idade, que nem os seus pais concordem, ainda mais por algumas alusões de Anna Petrovna, dá para adivinhar em quem eles fizeram sua escolha.
Mas falemos de outras coisas; esqueci de lhe dizer que amanhã teremos visitas.
Encontrei Paul Nordenskiold e o convidei, junto com os seus primos também marinheiros, a passar alguns dias em Zeldenburgo.
Precisamos distrair a juventude; nós dois somos um pouco velhos para isso.
O doutor ouviu mudo aquela tirada jovial, em tom inocente, mas sentiu as garras afiadas como que, sem querer, arranhando, aludindo à diferença das idades que o separava da beleza e juventude apreciadas por ele.
Neste momento ele sentiu quase um ódio à mulher maçante e envelhecida, cuja língua viperina se interpunha para cavar um abismo entre ele e a criatura encantadora que turbilhonava em sua imaginação feito espectro tentador.
Parecia-lhe ser oprimido por um peso invisível que escurecia e cobria tudo, o sol e a alegria que o tinham ofuscado no dia anterior e ocupado o seu coração.
A verdade nua e crua, que era atirada inclementemente em seu rosto, dizia:
"Você é um velho e seria criminoso atar-se àquela flor primaveril".
E ele tanto queria ser jovem, só para ela e ninguém mais!...
Sobreveio um prolongado silêncio.
O doutor pegou um jornal e parecia absorto na leitura; a baronesa comia os morangos, folheando uma revista de moda que trouxera da cidade.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 05, 2016 7:35 pm

Passou-se talvez cerca de meia hora, quando se ouviu o barulho das vozes e, um minuto depois, Mery e Bóris entraram correndo pelos degraus da escada e, resfolegando, pararam diante do médico.
- Vadim Víktorovitch, venha brincar connosco!
Chegaram as duas filhas do administrador com o irmão, um estudante.
Vamos, vamos! O senhor organiza tão bem os jogos! — suplicou Mery, enquanto Bóris pendurou-se no pescoço do doutor.
Ao ver que ele estava calado em sua indecisão, Mery dirigiu-se à baronesa.
- Anastácia Andréevna, diga para Vadim Víktorovitch brincar com a gente! Por favor!
- Mas, minha criança, eu não tenho nenhum poder sobre ele e não o seguro; que vá brincar com os jovens se isso for de seu agrado! — disse a baronesa, forçando um sorriso.
O doutor não a ouvia; só via os dois olhos maravilhosos de Mery a ele levantados com súplica e meiguice.
Cedendo à sua sedução, ele se levantou e a companhia travessa o levou embora.
Anastácia Andréevna continuou sentada sombria e aparentemente com raiva:
não fora convidada para participar dos jogos.
Por quê? Consideravam-na velha demais?
Subitamente sentiu um peso nas pernas.
Claro, aquilo seria apenas uma fraqueza nervosa após a viagem; aliás, era melhor até não participar das brincadeiras...
E se ela se fosse muito lerda ao correr?
Seria risível!...
Mas ela haveria de vencer.
Quando os gritos e as vozes alegres dos foliões anunciaram que a animação estava no auge, a baronesa se levantou e recostou-se no corrimão.
O jogo passava-se numa área coberta de areia, perto do terraço, e o seu olhar pregou-se em Vadim Víktorovitch.
Como ele era ágil e rápido, sem perder para os mais jovens!
Uma expressão de inveja e maldade transfigurou o rosto da baronesa.
De facto, ele era ainda jovem e poderia pretender a mão de uma moça de dezoito anos, sem risco de tornar-se ridículo; só que isso ela jamais permitiria.
A noite passou animada e já era bastante tarde quando Mery voltou ao quarto, cansada e afogueada; estava sem sono e pretendia escrever algumas cartas.
Tirou a roupa, vestiu-se num penhoar, dispensou a camareira e sentou-se em sua saleta de estar.
O quarto saía para o jardim e, da janela, divisava-se a galeria que unia o velho castelo com a ala nova; ali se instalara o doutor e, provavelmente, ele estava lá naquele momento, pois através das janelas iluminadas e estores abaixados delineava-se a sombra de uma pessoa, andando para frente e para trás.
Ao terminar três longas cartas: para o pai, a mãe e a tia, Mery resolveu deitar-se, já que passava de duas horas.
Ela apagou a lâmpada, mas, querendo ainda deleitar-se do ar, abriu a janela e respirou várias vezes a plenos pulmões o aroma fresco e puro da noite.
As janelas de Vadim Víktorovitch continuavam iluminadas, sinal de que ele estava trabalhando.
"Como ele é gentil e encantador quando o quer!" — pensou Mery ao se lembrar da noite passada tão alegremente.
Subitamente ela estremeceu e recuou.
Na galeria assomou-se uma figura feminina que, provavelmente, dirigia-se ao quarto do doutor.
O talhe, como um todo, era bem conhecido de Mery e, logo, atrás dos estores abaixados se delinearam duas sombras.
Mery ficou imóvel, sem desgrudar os olhos dos estores, que já não reflectiam ninguém; uma sensação pungente e amarga, jamais antes sentida, assaltou-lhe o coração.
Então era verdade o que todos diziam: aquela insolente visitava à noite um homem estranho.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 05, 2016 7:35 pm

E, se ele a recebia, significava que ele a amava...
Lágrimas ardentes rolaram de seus olhos e o coração palpitou em sentimento próximo ao ódio.
Que nojo!
Aquela decaída, deteriorada pelo tempo, toda pintada, mãe de dois filhos, tinha um caso amoroso; ele, desprezível e desleal, trai desaforadamente a confiança do amigo ausente!...
Mery não tinha a consciência de que o novo e doentio sentimento era ciúmes; ela não imaginava que sua indignação era fruto daquilo.
Dando as costas, Mery deitou-se na cama.
Oh, como desprezava aquele casalzinho imundo; sem dúvida, ela haveria de mostrar ao doutor despudorado que ele simplesmente não existia para ela.
Ainda bem que amanhã haveria visitas!
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 05, 2016 7:35 pm

~IV~

De manhã ela acordou tarde e pediu que lhe servissem o café no quarto.
Nástia, sua camareira, anunciou-lhe que para o almoço estavam sendo esperado muitos hóspedes:
a baronesa recebera alguns telegramas sobre a vinda de amigos e, para a estação, foram enviados coches.
O almoço foi marcado para as duas horas; à uma estavam aguardados os marinheiros e outras visitas.
A irritação de Mery contra Vadim Víktorovitch não havia amainado; tinha a intenção de flertar com Nordenskiold, sabendo não lhe ser indiferente, e incendiar-lhe a paixão não seria difícil.
Sua toalete era a principal arma da conquista e assim ela se pôs a vestir-se com esmero.
Colocou um vestido branco de folar, ricamente bordado, com acabamento em renda e cingido por cinta branca de seda; calçou sapatos brancos de couro.
Após breve reflexão, resolveu deixar o seu traje branco com mais vida e acrescentou o colar de coral rosa; à cintura e aos cabelos acolchetou feixes de rosas brancas.
Ao término do reexame do seu aspecto sedutor no espelho, veio a camareira, anunciando a chegada de uma parte das visitas.
Saindo para o terraço, Mery viu entre os convidados o general Sómov, amigo e primo de seu pai; alegrou-se e surpreendeu-se com sua presença, pois o julgava estar passando férias em sua propriedade no sul da Rússia.
- Tio Pétia, que surpresa! — exclamou, beijando o velho general, que gostava muito dela e a mimava.
- Vim por esses lados a serviço.
Ao saber que a baronesa se encontrava aqui, passei para vê-la e descobri que você também estava.
Com um sentimento de nojo ciosamente dissimulado, Mery beijou a baronesa, cumprimentou os convidados e, corando levemente, estendeu a mão ao doutor.
Severo e impassível como sempre, ele estava fumando junto à balaustrada.
Logo vieram os três marinheiros e outras visitas e todos passaram para o refeitório.
A baronesa fez Mery acomodar-se ao lado de Paul Nordenskiold, e este lhe encetou uma veemente corte, sem esconder sua admiração.
Mery ria, tagarelava, flertava e, aparentemente, aceitava benevolente os sinais de atenção do vizinho da mesa.
Do outro lado, quase em frente, estava sentado Vadim Víktorovitch, perto de uma dama de idade indefinida e toda maquiada; mas ele lhe dispensava tanta atenção, quanta seria necessária pelo respeito e, absorto pelos pensamentos, parecia não perceber seu coquetismo.
Por vezes, seu olhar sombrio detinha-se em Mery; imediatamente, ela perdia a concentração, embaraçava-se e dava respostas despropositadas às amabilidades do vizinho.
Depois do almoço, Anastácia Andréevna sugeriu que todos dançassem.
A anfitriã estava no melhor de seus humores e bastante encantadora em seu vestido de gaze, com laços verde-esmeralda em seus cabelos ruivos; uma maquiagem caprichosa contribuía para aformosear-lhe a aparência.
No andar térreo do castelo havia um salão que a baronesa havia transformado num salão de concertos; ali ficava o piano, e mademoiselle Doberon, a governanta, ofereceu-se para tocar.
Até a baronesa deixou-se convencer para participar das danças e, após alguns turnos de valsa, convidou, sorrindo, Vadim Víktorovitch; este, porém, declinou friamente e afastou-se até a porta da entrada, onde se recostou à batente e cruzou os braços.
Ele fixou seu olhar em Mery que, leve e graciosa, passava de um cavalheiro a outro, constantemente rodeada por admiradores.
Ao se ver perto do doutor, Mery captou-lhe o olhar triste e desanimado.
Ele estava mais pálido que habitualmente e na expressão de seu rosto havia tanta resignação amargurada, que Mery esqueceu imediatamente sua raiva.
Por que ele, um homem ainda jovem e bonito, teria de ficar alheio às alegrias da vida?
E no coração de Mery espetou-se subitamente uma enorme pena por ele; lágrimas lhe embargaram a garganta e, simultaneamente, em seu coração assomou-se raiva contra a baronesa.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 05, 2016 7:35 pm

Enquanto ela dançava e representava uma mulher jovial, zombava dele e o tomava por velho.
Comovida, Mery rendeu-se ao primeiro ímpeto.
Assim que o seu cavalheiro a deixou ao lado da cadeira, ela se levantou e correu até o doutor; suas faces ardiam e a decisão e o embaraço se alternavam na expressão de seus olhos.
- Ainda que não seja um costume a dama convidar o cavalheiro, acredito que o meu gesto pode ser justificado em se tratando de um homem de ciências sisudo — pronunciou meio constrangida e meio maliciosa.
O doutor empertigou-se embaraçado.
- Agradeço, Maria Mikháilovna, mas não danço mais.
Primeiro, isso seria ridículo na minha idade, depois, eu desaprendi a dançar...
- Ah, Vadim Víktorovitch, não venha com essa desculpa de que é velho; o senhor não o é — interrompeu-o, rindo.
Vamos, vamos, prove a todos que o senhor sabe dançar tão bem como receitar remédios aos pacientes.
Seu lindo rostinho era tão persuasivo, que o doutor não hesitou mais e, cingindo-lhe a cintura, eles se misturaram a outros dançarinos.
Ele dançava bem e o formoso casal logo concentrou a atenção de todos.
O palor súbito da baronesa, nem o seu reboco conseguiu disfarçar; dominando-se, todavia, ela se pôs a bater palmas extasiada e gritou pelo salão:
- Bravo, bravo!
Vejam só o nosso carrancudo professor!
Está remoçado em vinte anos e dança leve feito uma pluma.
O resto das damas também aplaudiu Zatórsky e ele teve que dançar com todas.
Finalmente parou, enxugou a testa molhada e anunciou rindo:
- Por hoje chega, mesdames!
Às nove horas, todos jantaram e o doutor logrou o intento de se sentar perto de Mery.
Ele estava alegre, comunicativo e animado como nunca; a baronesa, ainda que fingisse alegria, estava nervosa e irritada.
Às dez horas os hóspedes se dispersaram; Zatórsky despediu-se também, pois queria pegar o trem nocturno para Petersburgo.
Ao se despedir, ele anunciou que viria na semana seguinte, já de férias.
- Por seis semanas eu não vou querer ver nenhum paciente — acrescentou ele, arrancando risos dos presentes.
Quando uma semana depois o doutor retomou ao castelo, a governanta, com a cabeça atada, anunciou-lhe em voz rouca que a baronesa não estava em casa havia dois dias e chegaria com o último trem.
- O que há com a senhora?
Por que a sua cabeça está enfaixada? — perguntou o médico.
- Estou com uma terrível dor de dente e o meu ouvido esquerdo lateja — respondeu mademoiselle Dobero, lamuriosa.
Isso não é nada, pior estão Liza e Bóris, que estão com tosse; e mademoiselle Mery também está mal:
tem febre e dor de cabeça.
Eu lhe dei limonada com rum, mas não ajudou.
- Aqui parece um hospital.
Como é que vocês se resfriaram todos?
- Foi na véspera da partida da madame.
Ela nos levou para passear na praia, estava frio e começou a chover.
Voltamos molhados e congelados até os ossos, pois havia um vento frio soprando do mar.
- E Maria Mikháilovna já foi dormir? — inquiriu ele, balançando a cabeça.
- Ainda não, está em seu quarto.
Ela queria tirar uma soneca por causa da terrível dor de cabeça.
- Avise-a que vou passar para examiná-la, enquanto isso vou ver Liza e Bóris.
A notícia da vinda de Vadim Víktorovitch perturbou Mery, ainda que estivesse realmente mal; sua cabeça estava em chamas e o corpo era percorrido por arrepios glaciais.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 05, 2016 7:36 pm

Ela se trocou, colocando um penhoar de flanela rosa com forro de seda e uma larga gola rendada.
Com a chegada do doutor, ela se levantou e estendeu a mão abrasada.
Vadim Víktorovitch balançou a cabeça, mediu seu pulso e depois pediu permissão de lhe auscultar o peito.
As faces de Mery incenderam-se vivamente e tentou opor-se; entretanto, com uma insistência branda mas inflexível, usual ao médico em relação aos pacientes, ele observou sorrindo:
- Não fique envergonhada, Maria Mikháilovna!
Sou um médico velho.
Mery desabotoou o penhoar, mas, quando Zatórsky lhe encostou o ouvido no busto, seu coração disparou.
- Essa sua taquicardia é frequente? — perguntou ele, levantando a cabeça e fitando perscrutador seus olhos constrangidos.
Mery nada disse, pois sua garganta embargou-se de sentimento de vergonha, medo e embaraço.
Ela se sentia sem jeito:
e se ele adivinhar que a perturbação fora causada por sua presença?
Ante aquele olhar profundo e perscrutador, que parecia ler-lhe os pensamentos mais recônditos, ela não pôde dominar-se e desatou em pranto.
Com expressão enigmática, Vadim Víktorovitch fitou o rostinho cheio de lágrimas, depois pegou a manta, cobriu com ela Mery e levantou-se.
- Vou buscar um termómetro para medir sua temperatura e depois lhe darei um calmante.
Agora, fique tranquila!
Mal ele saiu do quarto, Mery atirou-se no sofá, enterrou o rosto na almofada e começou a chorar.
- Meu Deus, meu Deus!
Ele deve ter desconfiado que foi a sua presença que me deixou tão perturbada; ele ouviu o meu coração bater acelerado.
O que pensará de mim, já que gosta da baronesa?
Não passo de uma menina para ele. Oh! Por que eu vim para cá? E lágrimas continuaram a rolar.
Um quarto de hora depois, Vadim Víktorovitch retomou com termómetro, gotas de calmante e comprimidos, sem notar, pelo visto, os olhos vermelhos de Mery; mas, quando o termómetro acusou quarenta graus, ordenou que ela deitasse imediatamente e acresceu:
- A senhora está com uma gripe séria e vai passar alguns dias de cama.
- Oh, não pensei que iria me esfriar tanto só porque tomei uma chuva — lamuriou-se Mery.
- Espero que fique boa logo!
Tente dormir; à meia-noite eu passarei de novo. Até breve!
O doutor estava ocupado com Liza e Bóris que tinham febre e tosse, quando chegou a baronesa, cujo aspecto era deveras lastimável; ela mancava e uma de suas faces estava inchada, entortando-lhe o rosto.
Ao vê-la, Zatórsky não conteve uma gargalhada.
- A senhora também está pagando pelo seu passeio maravilhoso?
Pelo visto, terei bastante trabalho nas minhas férias.
Constrangida e contrafeita, Anastácia Andréevna teve de se deitar.
Verificou-se que o seu pé e o joelho também estavam inchados; um dos braços ela não podia mover e, além de tudo, estava com terrível coriza.
O médico achou por bem mandar um criado à farmácia em Revel, para buscar alguns medicamentos.
Por volta da meia-noite, Zatórsky foi ao quarto de Mery; ela dormia um sono sobressaltado e estava em brasas.
A febre colorira suas faces e ela estava maravilhosa, dormindo; suas tranças densas e compridas projectavam-se sobre o cobertor e os cílios lanosos lançavam sombra sobre as faces.
O doutor inclinou-se sobre ela e o coração bateu acelerado.
Não querendo perturbá-la, sentou-se na cama, admirando aquela criatura; pensamentos tempestuosos agitavam sua mente.
Se esta encantadora criança de facto o amava, para a felicidade de ambos, não seria o caso de abrir a mão da falsa concepção de que ele era velho para ela?...
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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