Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 12, 2016 7:45 pm

Recuperar o património era impossível.
Servir num banco, quando ele era tido como um grande financista, feria seu orgulho e ele preferia a morte àquela humilhação.
Sentado à sua escrivaninha, ele se indignava com os "amigos" que ainda há pouco se apinhavam em seus salões, sabedor por experiência que nenhum deles lhe estenderia a mão em ajuda.
Toda aquela multidão ociosa já havia farejado sua ruína e, insaciável em prazeres, debandou, tal qual os ratos fogem do celeiro vazio em busca de um cheio, onde possam se locupletar.
Suróvtsev era filho de sua época, sem princípios morais sólidos, materialista e ateísta no íntimo, apesar da religiosidade aparente por hábito, em que a verdadeira fé simplesmente inexistia.
No momento terrível da provação, ele não tinha um sustentáculo moral, extinguiu-se-lhe a consciência do dever em relação à família, faltava-lhe a energia que sustenta um cristão, até em casos de maior infortúnio.
Em sua vida, ele jamais fizera uma transacção que o deixasse de consciência limpa e, naquele momento, cometeria até um crime, desde que esse acto ignóbil pudesse consertar a situação, assegurar-lhe uma vida luxuosa e fácil, a que estava acostumado.
Subsistir sem aquele luxo e boa comida parecia-lhe impossível.
Que suplício imaginar-se abandonando o gabinete maravilhosamente guarnecido, e a casa rica, obrigado a se mudar para algum buraco e tendo que aguentar os olhares zombeteiros dos conhecidos, que ele vivia atordoando com sua riqueza e recepções.
Um suor gelado cobriu-lhe a testa e do peito se soltou um suspiro rouco.
Ele já ouvia o riso de escárnio e as sentenças impiedosas:
"Nós prevíamos a sua bancarrota; suas especulações insanas não poderiam dar sempre certo; você colheu o que semeara."
Concomitante com aquela tortura moral, amadurecia a decisão de acabar consigo, para que a morte o livrasse da vergonha e pobreza.
Por um instante, assaltou-lhe a mente a ideia de orar, pedir por auxílio e apoio junto ao Pai Celeste, mas ele afastou o pensamento; em sua alma só sobejava bílis e revolta.
Ele ignorava que em tais minutos de angústia, quando tudo se agita e na alma do homem se desencadeia o caos, as forças do mal a espreitarem as fraqueza humana subjugam a sua vítima.
De súbito decidido, pegou um papel e começou a escrever suas últimas cartas, para que, antes que o dia clareasse, pudesse dar fim à sua vida.
Terminada e fechada a última, Suróvtsev recostou-se no espaldar da poltrona e fechou os olhos; estava totalmente exaurido e sentia a cabeça girando.
Quase maquinalmente, ele tirou da gaveta uma pistola e colocou-a na mesa.
Tudo estava pronto, só faltava concentrar-se um pouco.
Um estado estranho, tirante a catalepsia, dominou-o.
Ele não conseguia sequer mover um dedo, mas seus olhos estavam abertos e diante dele se desdobrava uma incrível "alucinação".
Parecia-lhe que de um canto escuro surgiu, e a ele rastejou, um banqueiro, seu "amigo", que se matara um ano antes também arruinado.
Como ele estava mudado!
O rosto escuro, transfigurado pelo sofrimento, era medonho, enquanto em torno dele pululavam criaturas asquerosas e zombeteiras, cujo cheiro fétido tonteou Mikhail Mikháilovitch, fazendo-o se sufocar.
Subitamente, fulgiu uma faixa de luz vermelha e, nesse clarão púrpuro, os espectros nojentos desapareceram.
Numa névoa, como que ígnea, dele se aproximava uma mulher alta e esbelta, envolta em echarpe larga de gaze com franjas douradas, que mal cobria a sumptuosidade de suas formas.
Adereços maciços valiosos engalanavam-lhe o pescoço, as mãos e os tornozelos; um largo diadema sustentava a vistosa cabeleira de seda dos negros cabelos soltos, que a envolviam como por manta.
O rosto brônzeo, tal qual a cor do corpo, era demoniacamente sedutor e os grandes olhos escuros semi-abertos fitavam Suróvtsev com olhar cruel e impiedoso, como de uma fera.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 12, 2016 7:46 pm

Na mão erguida da intrusa, balançava-se um colar de ouro, como que salpicado por gotas de sangue, e que sustentava um coração ígneo, desprendendo colunas de fumaça escura; na outra mão, ela empunhava uma corda com laço.
Deslizando feito sombra e contorcendo seu corpo leve, feito cobra, ela iniciou uma dança tresloucada em torno de Mikhail Mikháilovitch, que se viu em pé no centro do quarto.
Uma música estranha secundava aquela sequência corporal em meio a gemidos roucos, estertores e choro.
Os círculos foram se apertando, a dançarina foi-se aproximando e agora, daquela roda infernal, já participavam bandos de criaturas com caras diabólicas.
Em seguida, os demónios pareciam ter cercado Suróvtsev, desataram o nó do cinto que lhe cingia o roupão e começaram a arrastá-la, enquanto através da névoa escura e fumacenta se destacou uma estátua de mulher de cabeça leonina, amparada por criaturas de caras animalescas, diante da qual a dançarina se prostrou...
No dia seguinte, de manhã, toda a casa se levantou alardeada.
Notaram que Mikhail Mikháilovitch não se havia recolhido para dormir e o seu gabinete estava fechado à chave, por dentro; por mais que chamassem, não houve resposta.
Então a porta foi arrombada.
A primeira que irrompeu no quarto foi Anna Petrovna e aos seus olhos descortinou-se um quadro aterrador.
Num grande gancho da parede, instalado para lâmpada eléctrica, pendia o corpo já enregelado de Mikhail Mikháilovitch e seu rosto estava transfigurado asquerosamente; ele se havia enforcado nos cordões de seu roupão.
Anna Petrovna, desfalecida, foi carregada do quarto; Mery também foi de lá levada, ensandecida de dor.
Em total apatia os infelizes presenciaram o enterro, feito às pressas e sem qualquer pompa.
Mais tarde, a família constatou a situação terrível.
Pelas cartas deixadas por Suróvtsev e após examinar seus negócios, soube-se que de seu património nada sobrou.
Com a batida do martelo, foi tudo; nenhuma alma foi acudi-los.
Entre os credores, encontrou-se apenas um homem que se penalizou pela pobre família e convenceu os outros a deixar-lhe um pouco de móveis e mais alguns objectos sem valor, mas caros como lembranças.
Mery não sabia que, de todas as jóias, ela só levava o colar fatídico de Káli.
Aconteceu isso da seguinte forma:
durante a desgraça, de toda a criadagem apenas Aksínia não traiu seu pobre senhorio.
Ao desfazer o cesto quando do retorno de Mery do castelo, ela achou o colar e o guardou.
O objecto não foi incluído no inventário.
Aksínia, achando que ele fosse valioso, escondeu-o do leilão e, ao arrumar os trastes deixados para Anna Petrovna e as crianças, colocou o colar numa caixa depositada no fundo de um baú.
Ela não mencionou isso nem a Mery, nem à sua mãe, temendo que por excesso de honestidade elas entregassem a jóia aos credores.
"Quando não tiverem o que comer, poderão vender o colar e aguentar mais um tempo até se arrumarem", pensou a babá.
Um mês após a morte de Mikhail Mikháilovitch, a família deixou a casa onde vivera por tantos anos feliz e bem de vida, indo morar num pequeno apartamento nos arredores da cidade.

1. Textualmente no original.
As referências, entretanto, modernamente seriam incluídas na Psicometria.
(N.T.)

Leia a continuação desta história nos romances
"No Castelo da Escócia" e "Do Reino das Sombras"

§.§.§- O-canto-da-ave
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