Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 05, 2016 7:36 pm

Porém, antes de arrebatar aquele ser puro e inocente, ele deveria se livrar dos grilhões desonrosos, destruir aquele estranho e fatídico poder da baronesa sobre ele.
A luta seria renhida, mas teria de ser vencida, se quisesse ter a liberdade de dizer a Mery:
"Perdoe e esqueça o passado, pois eu não a conhecia antes"!
Por outro lado, transpondo esse obstáculo, diante dele se descortinava a felicidade desanuviada...
Mery continuava a dormir; ele saiu silenciosamente.
Uma semana depois, todos os pacientes da casa estavam de pé e, quando se reuniram em volta da mesa do almoço, fizeram questão de brindar pela saúde do médico.
A baronesa também rendeu-lhe agradecimento e até fez um pequeno discurso emocionante, onde se expressava a gratidão geral.
Mais tarde, do castelo apoderou-se uma atmosfera pesada como que prenunciando uma tempestade, externamente acolhendo uma alegria despreocupada.
A baronesa estava inquieta e atormentada por ciúmes; experimentava a sensação de que o homem a quem amava apaixonada e obstinadamente estava lhe escapando.
Já alguns meses antes, ela sentiu que Vadim Víktorovitch se incomodava com o relacionamento e, agora, ele estava arrebatado por uma moça sedutora, por ela
mesma colocada despropositadamente em seu caminho.
Sim, realmente, Mery agradava Zatórsky como nenhuma outra mulher, e que ela o amava também, era claro para ele — um médico acostumado a ler a alma humana.
Os inocentes olhinhos que se acendiam em sua presença traíam os sentimentos de Mery.
A doença dela aproximou-os.
Ela ficava aguardando impaciente aquelas horas, de manhã e à noite, quando Vadim Víktorovitch costumava visitá-la, quando ele se sentava junto à cabeceira e conversava com ela jovialmente.
Sentia-se feliz, acalmada e torcia para que ele não fosse embora nunca mais.
De um modo imperceptível, o sentimento do doutor em relação a Mery deu lugar à paixão, ainda que ele tentasse se dominar a todo custo e ocultasse seu amor, pois não conseguia vencer o medo e as dúvidas insistentemente alimentadas pelas palavras maldosas e maliciosas da baronesa.
Ela não perdia a chance, fosse oportuno ou não, de afirmar que não existia nada mais perigoso e funesto do que um casamento desigual.
Um marido muito maduro arrisca-se a entediar e tornar-se insuportável a uma esposa jovem que, tornada uma mulher feita, sentirá, é claro, seu coração desabrochando e instintivamente procurará o amor de um homem de sua idade.
Tais discursos viperinos feriam o coração de Zatórsky, semeavam contradições em sua alma e lhe abalavam a energia, conquanto a baronesa se regozijasse intimamente, vigiando-o ciumenta.
Tal era a situação no castelo, quando veio a tia do barão, Elena Oreéstovna Bármina, uma viúva rica e independente, mulher evoluída, espirituosa e, apesar da idade, viva e hábil.
Elena Oreéstovna nutria um ódio violento pela baronesa, ciente do papel que representava Vadim Víktorovitch na casa do sobrinho.
Penalizava-a o barão por sua cegueira e confiança nas virtudes da esposa, tendo encarregado uma raposa para tomar conta do galinheiro.
Contudo, Elena Oreéstovna tinha tacto suficiente para não interferir em assuntos tão delicados e não exteriorizava os seus sentimentos.
Ela gostava muito dos filhos do barão, sobretudo de Bóris, seu afilhado; sua intenção era passar cerca de duas semanas justamente com eles.
Tinha amizade com os Suróvtsev de longo tempo, pois estes eram seus vizinhos de uma casa de campo.
Conhecia Mery desde criança e surpreendeu-se muito ao encontrá-la no castelo da baronesa.
Todos ainda tomavam seu chá matinal, quando trouxeram o correio.
O doutor e a baronesa examinavam as cartas, quando a generala deixou escapar um grito surdo e o jornal caiu-lhe das mãos.
- Meu Deus, o que houve?
Qual foi a notícia? — ouviu-se de todos os lados.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 05, 2016 7:36 pm

- Nika Selivánov matou a esposa e o tenente Baluev — respondeu a generala, nervosa, e estendeu o jornal para o doutor.
- Peço-lhe, Vadim Víktorovitch, leia os detalhes.
Estou tão abalada.
Pobre Nika! Que fim trágico!
Zatórsky pegou o jornal e à medida que lia um rubor intenso lhe cobria o rosto; entretanto, aquilo era um dos desfechos trágicos habituais dos dramas familiares.
"O jovem engenheiro, Nikolai Petrovitch Selivánov, cinco anos de casado, estranhou, após ter voltado de uma viagem a negócios, as visitas demasiadamente assíduas do tenente Baluev; certos indícios confirmaram suas suspeitas quanto a uma relação secreta de sua esposa.
Decidido pôr tudo em pratos limpos, ele inventou uma viagem e, voltando inopinadamente, flagrou os dois no local do delito.
Tomado de fúria desesperada, sacou o revólver, matou a esposa e feriu mortalmente seu amante.
Feito isso, ele se entregou à polícia e acha-se preventivamente preso.
Os dois filhos, de três e de um ano, tornaram-se órfãos; a mãe de Baluev, que perdera o único filho, enlouquecera".
Apesar de estar abalado, o doutor leu a nota em voz firme, deitou o jornal sobre a mesa e pôs-se a devanear.
Eram da alta-roda os três heróis do drama e ele sabia que Selivánov era um parente da generala.
A baronesa foi a primeira a quebrar o silêncio opressivo.
- Selivánov foi um idiota e velhaco, matando duas pessoas por causa de ciúmes tolos; ademais, ele arruinou sua própria vida e, provavelmente, será condenado a trabalhos forçados — disse ela, desdenhosamente.
A generala enxugou os olhos marejados e levantou-se bruscamente.
- Não, minha querida, não é o marido traído o velhaco, mas sim aquele casalzinho, que recebeu o castigo merecido.
Cedo ou tarde, o lamaçal acaba tragando os delinquentes que acham ingenuamente que ninguém lhes nota sua sórdida perfídia.
Como é que tendo dois filhos e marido maravilhosos, que eu conheço bem, ela arruma ainda um amante?
Tenho pena da pobre Balueva; no entanto ele, um patife, que conspurcou um nome honesto, teve um castigo justo.
Oh, meu Deus!
Quantas mulheres e moças existem à disposição dos homens; por certo há onde se arrumar uma amante ou esposa, sem sacrificar um lar estranho e sem se esquecer do mandamento divino e velho como o mundo:
"Não desejar a mulher do próximo".
Mery ouvia tudo empalidecida.
Não acabaria o amor do doutor à baronesa também tão tragicamente?
- Meu Deus, querida, você parece perturbada!
Que este caso lhe sirva de lição para o futuro; nunca empreenda intrigas tão perigosas.
Este tipo de drama é causado pela devassidão da sociedade de hoje.
Eu temia este desfecho há muito tempo.
Selivánov m e disse certa vez agastado:
"Estou cheio deste Baluev; faço um esforço enorme para suportá-lo à mesa e cumprimentá-lo.
Tenho ganas de atirá-lo pela janela ou quebrar-lhe o pescoço, ao ver a presunção com que flerta com minha esposa"...
- Sem dúvida, em se lidando com homem tão ensandecido, Baluev deveria desfazer seu caso com madame Selivánova.
Ele era tão belo que podia encontrar facilmente uma outra — observou a baronesa, sombria e enraivecida.
- Desfazer? Oh! E como faria isso?
Um homem nesta situação não se livra fácil, perecendo feito mosca caída na teia de aranha.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 05, 2016 7:36 pm

Conheci um homem que vivia com uma mulher casada, mais tarde enviuvada.
Uns quinze anos depois, ele se cansou dela e decidiu casar-se com outra; tudo estava pronto, quando uns dias antes do casamento o homem, que sempre gozou de boa saúde, morreu de infarto.
Oh! As emboscadas amorosas são às vezes piores do que uma guerra.
O tom da generala era sarcástico e seu olhar revelava franco desprezo; a baronesa mal conseguia se conter.
- A senhora é demasiadamente apressada em tirar suas conclusões, Elena Oreéstovna — disse ela em voz rouca.
Por acaso a senhora conhecia a vida conjugal daquela mulher?
Talvez esta lhe fosse insuportável e a coitada era infeliz; quando então o destino lhe enviou um homem que a entendia e confortava, ela, evidentemente, a ele se afeiçoou.
É claro que ele poderia encontrar uma outra mulher que o amasse, mas ela, unida ao marido, uma escrava, fadada a arrastar a sua miserável existência, não quis que o seu esteio, sua âncora de salvação, dela escapassem...
- E feito uma jiboia preferiu estrangular seu consolador, ao invés de devolver-lhe a liberdade? — observou em tom severo a generala.
Não, minha querida, sua tese não vale nada.
Quem impedia a "coitada" de se separar e de se casar com seu "consolador", o único que parecia compreendê-la, adoçando-lhe as horas de solidão, enquanto o marido suava a camisa para pagar seus vestidos e satisfazer os caprichos da "pobre vítima", propiciando-lhe todos os prazeres de vida ociosa?
Temos é que ter pena do marido, compelido em sua própria casa a deparar-se a toda hora com um homem enamorado pela esposa, o qual não hesita em apertar a mão do marido e o chama de amigo.
Tenho um profundo desprezo por pessoas corno Baluev, incapazes de estabelecer sua própria família e que preferem, feito parasitas, instalar-se no ninho alheio, conspurcá-lo e, não raro, destruí-lo definitivamente.
A colher de chá tremia na mão de Vadim Víktorovitch; a baronesa estava possessa e seu rosto cobriu-se de manchas vermelhas.
Em voz estridente ela guinchou:
- Seja como for, eu defendo esses dois infelizes, ambos mortos; não se pode jogar lama em suas sepulturas...
E se entre eles houve apenas uma amizade pura, platónica? Se ele a visitava apenas para conversar, para distraí-la?
Infelizmente, o mundo está cheio de coquetes decrépitas que não conseguem arrumar um amante e vivem invejando as jovenzinhas.
Essas bruxas caluniam, armam escândalos familiares, enviam cartas anónimas e açulam os maridos inocentes; estes, não sendo tolos, simplesmente ignoram tais maledicências e continuam a gozar da felicidade e do amor de sua esposa, que lhe guarda a fidelidade.
A generala desfechou uma gargalhada de escárnio.
- A senhora raciocina como uma verdadeira estudante.
Quando um homem estranho se gruda, feito emplastro, a urna mulher casada e passa com ela todo o tempo, somente pessoas muito ingénuas podem presumir uma amizade platónica.
E, se o marido simplório se satisfaz com o amor hipócrita, tanto melhor para ele, e viva le ménage à trois!
Mas deixemos de lado esses pormenores; nós esquecemos que a jovem Mery não deve ouvir tais polémicas.
Aliás, já acabei o meu desjejum e vou passear.
Ela se levantou, inclinou-se sorrindo amavelmente para os presentes, pegou a sombrinha e saiu.
Mery ouviu a conversa, pálida e constrangida; cada nervo seu tremia e o seu olhar não se despregara da generala, que ousara proferir aquelas verdades ao casal de enamorados, directo nos olhos.
Quando Bármina saiu, Mery também se levantou apressada e, hesitante, disse que iria escrever uma carta para a mãe; ela ansiava por ficar sozinha e trancafiou-se no quarto.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 05, 2016 7:36 pm

Ao sair do refeitório, ainda ouviu a voz esganiçada de Anastácia Andréevna:
- Velha víbora, que a sua língua maldita seque!
E o que o senhor acha de todas essas alusões, Vadim Víktorovitch?
- Diria apenas que não é possível furar os olhos e calar a boca das pessoas — respondeu o doutor em voz rouca e entrecortada, afastando ruidosamente a cadeira e se dirigindo à saída.
Feito um tigre enjaulado, andava ele pelo quarto e tudo lhe fervilhava na alma; era a primeira vez que o despique o atingia:
ele foi chamado abertamente de patife e ladrão da honra alheia e, pior — na presença de Mery. O que ela pensaria se soubesse em que lodaçal ele se metera?
Seu amor seria motivo de desprezo.
Ele estava atado à paixão animal da mulher odiosa, que não o largaria.
Sua vontade era deixar tudo e fugir para não mais cruzar a porta daquela casa, mas a baronesa era bem capaz de fazer algum escândalo.
Com um suspiro pesado, tirante gemido, ele se afundou na poltrona e apertou o rosto com as mãos.
Durante o almoço, a conversa sucedeu-se modorrenta.
A baronesa mal podia conter a raiva que lhe fervia na alma, enquanto o doutor, tentando sair da situação embaraçosa, palreava com as crianças.
Depois do almoço, ele as convidou, junto com Mery, a dar um passeio nas ruínas de um velho mosteiro.
Anastácia Andréevna, até então taciturna e de cara amarrada, subitamente se referiu a um assunto financeiro muito importante, dizendo que teria de viajar na noite do dia seguinte para Petersburgo, e pediu que Zatórsky a acompanhasse, retornando no mesmo dia.
Vadim Víktorovitch respondeu que havia prometido ir para Briguitovka e que não podia acompanhá-la na viagem.
- Mas as crianças poderão ir sem nós; eu preciso de dinheiro... daí a minha viagem.
- Tenho comigo dois mil rublos e posso lhe emprestar o que precisa; à cidade poderemos ir na semana que vem.
- Não, eu quero ir hoje e o senhor irá comigo — objectou a baronesa em tom desafiador.
- E eu lhe peço deixar-me aqui — replicou o doutor, contrafeito.
- Não, eu quero que o senhor vá comigo.
Eu quero que o senhor vá! — gritava Anastácia Andréevna, corando feito pimentão vermelho.
O doutor nada disse, mas depois dessa discussão o almoço terminou em silêncio geral.
Após saírem da mesa, a baronesa e o doutor desapareceram e, uma hora depois, diante do portão do castelo encostou uma carruagem, onde adentrou, despedindo-se rapidamente, a baronesa e, um minuto após, Vadim Víktorovitch, que se acomodou junto dela.
Mery viu essa cena da janela e seu coração foi assaltado por tanta amargura que começou a morder o lenço para não desabar em pranto.
Que feitiços secretos possuía aquela mulher depravada?
Que poderes tinha para controlar o homem, aparentemente forte e orgulhoso, que a seguia feito um cão surrado?
Bóris, que veio correndo para chamá-la para passear, interrompeu seus pensamentos e a fez dominar-se; pretextando, porém, uma forte dor de cabeça, ela se recusou categoricamente, e as crianças foram passear com a governanta, ficando Mery sentada num pequeno sofá no vão da janela.
Ela se sentia quebrada e infeliz e, ao ficar sozinha, desabou em pranto.
De manhã e na hora do almoço, Elena Oreéstovna ficou observando Mery e, sem muita dificuldade, supõe-se, lia os sentimentos que lhe assaltavam a alma.
Tinha uma pena sincera da jovem criatura, cuja paixão impensada lhe reservaria duros suplícios.
Decidida a conversar com Mery e demovê-la do amor infausto, Elena Oreéstovna foi encontrá-la na saleta, em pose de profundo desespero.
A generala sentou-se ao seu lado, atraiu-a a si meigamente e lhe deu um beijo no rosto.
- Pobre Mery, foi uma imprudência de seus pais deixá-la vir para cá.
Estou vendo que você gosta do doutor; mas, querida criança, seria loucura confiar-lhe o seu coração.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 05, 2016 7:37 pm

A baronesa jamais o deixará livre.
Você ouviu o que eu falei àquela víbora asquerosa?
Uma mulher honesta teria morrido de vergonha.
Você acha que me agrada ficar aqui?
Absolutamente. Faço este sacrifício por causa das crianças e, sobretudo, por causa do meu sobrinho.
Com a minha presença aqui, eu quero evitar um falatório maior das pessoas.
Maximiliano é um homem bom, íntegro e estudado; intriga-me, todavia, como essa mulher nula e devassa subjugou-lhe o coração, tirada da miséria, refugiada sob seu nome honesto de um passado duvidoso.
É de se pensar em feitiçaria, a tal ponto é inverosímil que um homem inteligente, ponderado, acreditasse em suas juras de amor, das perorações do dever e das alegrias da vida conjugal e outras coisas maravilhosas, que ela repete feito papagaio.
- Não obstante, Vadim Víktorovitch a ama e faz tudo o que ela quer — sussurrou Mery, entre lágrimas.
Bármina balançou a cabeça e, após pensar um pouco, acrescentou:
- Vadim Víktorovitch é um excelente médico, um grande estudioso e sabe bem o seu ofício; entretanto... se ele está apaixonado por essa idiota horrível e ainda permite que ela o trate feito um criado, isso mostra até que ponto ele é um homem digno de pena.
O que eu queria lhe dizer, Mery, é que, infelizmente, você se apaixonou por um homem indigno de seu coração; a personalidade moral dele difere de tudo que você tem sonhado.
Um casamento, Mery, pode reservar muitas surpresas.
Por enquanto, você é incapaz de compreender todos os expedientes de que uma mulher feia e tola lança mão para arrebatar um marido ou amante e, o que é mais importante, estes permanecem, por anos, fiéis a ela, cegos em vislumbrar uma outra mulher bonita, jovem e inteligente.
Um facto irrefutável:
mulheres já maduras e desprovidas de qualquer encanto saem, não obstante, vencedoras e conservam seus adoradores.
- Qual é o segredo para que tais mulheres consigam isso?
- Perguntou Mery, sofregamente.
- O segredo é que existem homens indiferentes ao amor honesto e puro, dando mais importância às paixões vulgares e voluptuosas de mulheres experientes, que lhes saciem seus pendores lascivos.
A maneira como a baronesa trata o doutor inclina-me nele presumir um homem dissoluto por natureza, em busca de uma amásia que lhe satisfaça os prazeres.
Ainda resta uma questão:
dará Zatórsky o devido valor ao amor que você nutre por ele?
Não estará lhe reservando esta paixão apenas desgostos e humilhações?
Ouça o meu conselho, querida criança:
arranque do coração este sentimento que ainda não lançou as raízes e não se deixe enganar por ilusões.
Mery, é claro, não conseguiu assimilar todas as palavras de Bármina, mas uma coisa ficou clara:
Vadim Víktorovitch era um homem devasso, e ela, apesar de sua beleza e juventude, não podia competir com a baronesa.
Lágrimas copiosas rolaram por suas faces.
- Jamais me casarei então; se amo um homem tão imprestável, cujo coração não consigo conquistar, ficarei sozinha.
Nem papai nem mamãe vão poder m e obrigar a casar com quem eu não gosto.
- Que tolices está dizendo, Mery — riu, involuntariamente, Elena Oreéstovna.
Enterrar seu futuro brilhante, uma vida inteira, por causa de um homem sórdido que passa ao largo de uma rosa, preferindo um cardo?
- Meu Deus, acho-o tão belo e atraente! — sussurrou Mery.
- Tire os óculos cor-de-rosa e olhe-o à luz do dia, atolado em fossa de esgoto, onde ele indiscutivelmente se afogará.
O ar daqui não lhe faz bem, querida; vou escrever para o seu pai...
- Não, não, Elena Oreéstovna, não escreva nada, eu mesma o farei, pois acho que a senhora tem razão.
Agradeço-lhe os bons e sensatos conselhos.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 06, 2016 7:27 pm

Consciente de que não posso rivalizar com Anastácia Andréevna, eu m e subjugarei e farei o possível para dominar o sentimento indigno.
Bem, permita-me voltar para o meu quarto; de todas essas emoções me dói a cabeça.
A generala beijou-a e disse meigamente:
- Vá, chère enfant, descanse e não recue de sua decisão boa e sensata.
Ore para Deus, e Ele a auxiliará!
Mery voltou ao quarto muito perturbada.
Ela se enfiou no canto do sofá e tentou pôr os pensamentos em ordem.
Enquanto ficou analisando as palavras de Bármina, recordou-se, de repente, de um romance escabroso que lera em segredo dois anos antes.
Ao descobrir que a governanta lia antes de dormir um certo livro, cuidadosamente escondido, a esperta e curiosa menina surripiou e devorou-o rapidamente, sem ser notada.
No romance, apenas interessante pelo seu conteúdo sujo, descreviam-se as aventuras de uma dama de idade mediana, casada e muito feia, mas com corpo sedutor.
Essa mulher, heroína da narrativa, encontrou num baile de máscara um jovem e bonito aristocrata, casado com uma jovem bonita que, aliás, não sugeria ao marido nada além da indiferença; este andava cheio e desiludido da vida.
A despeito de tudo, ele se rendeu à sedução da picante Colombina, que o levou ao escritório do restaurante e, ali, após um lauto jantar, a dama se despiu e dançou em trajes de Eva.
O marquês se esqueceu completamente de sua cara horrível e apaixonou-se por ela perdidamente, embevecido pelas curvas maravilhosas de seu belo corpo.
Aquilo que não conseguiu alcançar a sua bela esposa, ou seja:
sacudir e tirá-lo do estado da indiferença, conseguiu realizar uma mulher horrorosa.
Finalmente, ela pôde dominá-lo tanto, que ele largou a esposa e começou a viver com a amante, tornando-se seu fiel escravo.
Ao acabar de ler aquele romance, ele pareceu a Mery tolo, sórdido e absurdo; mas, agora, ela o via diferente.
Aparentemente, os personagens foram tirados da vida real e, talvez, aquele marquês frio, presunçoso e entediado era um protótipo do doutor Zatórsky, da mesma forma devasso e voluptuoso, sob a mesma máscara da discrição severa.
Nisso, ela também se lembrou da visita nocturna da baronesa ao quarto do doutor.
O que ela ficou fazendo ali durante tanto tempo?
Talvez ficasse dançando nua e esse seria o meio de seu domínio sobre o doutor.
Mery estremeceu de nojo. Sim, ele seria posto para fora de seu coração e esquecido; ele que fique o quanto quiser com aquela sem-vergonha.
Tal resolução, aliada ao lampejo de desprezo, fez com que recuperasse a calma e o auto-controle.
Mais tarde, ao chegarem Nordenskiold e algumas outras visitas, ela desceu à sala de estar, alegre e amável.
A noite passou tão agradável, que Mery se esqueceu de suas ansiedades e divertiu-se muito.
Quando todos se dispersaram, Elena Oreéstovna beijou-a e disse no ouvido:
- Bravo, assim que eu gosto!
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 06, 2016 7:27 pm

~V~

A baronesa voltou só no dia seguinte, trazendo numerosos pacotes, confeitos, frutas e outras guloseimas.
Mery permaneceu no quarto e apenas saiu na hora do almoço.
Ela sentia nojo daquele casal desprezível e era assaz moça e inexperiente para esconder seus sentimentos.
Sua circunspecção fria à mesa, a aversão mal contida com que recusava os doces e os pirojki[ oferecidos por Zatórsky, bem como as breves e as secas respostas às palavras a ela dirigidas — tudo saltava aos olhos e revelava a mudança que nela se processara.
Após o almoço, pretextando cansaço, Mery foi para o quarto; Bármina também se retirou, enquanto as crianças foram brincar no jardim.
A baronesa ficou sozinha com o doutor e os dois passaram para a sala de estar.
- O que está havendo com Maria Mikháilovna?
Está estranha.
Não quis nem comer seus pirojki preferidos e evitou as conversas — balbuciou sombrio Vadim Víktorovitch.
- A baronesa soltou uma sonora risada de escárnio.
- O senhor é ingénuo, meu amigo.
Será que não entendeu que aquele crocodilo da Elena Oreéstovna, que veio só para nos vigiar e difamar, valeu-se de nossa ausência para abrir os olhos daquela boba?
Não dê uma de escolar, meu querido Vadim.
O senhor sabe perfeitamente que a menina está apaixonada; isso é perigoso.
Na idade dela, apaixona-se fácil por qualquer homem atraente.
A digníssima Elena Oreéstovna, sabedora daquilo que todos sabem, contou-lhe algo picante, desenhando um quadro repulsivo do relacionamento íntimo de dois patifes. Ha- ha-ha!
Vadim Víktorovitch levantou-se bruscamente e afastou ruidosamente a cadeira.
Estava pálido, seus lábios tremiam nervosamente.
- Pare, por favor, com suas brincadeiras tolas e maldosas!
Mery não m e ama; tem dezenas de admiradores brilhantes de sua idade para escolher, bonita que é e jovem.
Quem sou, afinal?
Um médico como milhares de outros; mesmo na sociedade não represento nada.
Depois, permita-me dizer, com minha vida invadida, não tenho ilusões quanto ao meu futuro; perdi qualquer esperança de um dia me casar.
Sou alvo de escárnio da sociedade e qualquer pessoa íntegra está no direito de me chamar de canalha que conspurcou um nome honesto.
Como hei de ter a mão de uma jovem inocente? Que pais não pensarão duas vezes antes de entregar a sua filha, correndo o risco de atrair o ódio da amante rejeitada?
Assim, pare com suas provocações, não estou disposto a suportá-las.
Verde de raiva e perplexidade, ouviu-o a baronesa; suas últimas palavras e o olhar de desprezo que as acompanharam parecia atingirem-na como vergasta.
- O senhor deve estar louco, meu querido — tornou ela, rindo.
Por acaso o estou segurando?
Por favor, procure sua felicidade em outro lugar!
Estou cheia de seus caprichos, ingratidão e vulgaridades.
Se a sua vida de solteiro lhe é enfadonha e o senhor está apaixonado, conseguirei a anuência daquela menina.
Ela se levantou, inclinou-se até ele e sussurrou em voz moderada, fitando-o meigamente:
- Ingrato! É assim que me paga o amor?
Porém, eu sempre estou pronta para sacrificar a minha felicidade pela pessoa amada.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 06, 2016 7:27 pm

O senhor quer se casar, Vadim Víktorovitch? Meu Deus!
Serei a primeira a lhe dar apoio para buscar a felicidade.
Permanecerei, é claro, sua amiga, mas a amizade será platónica.
Então se anime, seu rabugento, e não ofenda a pobre Nástia.
Ela estreitou o pescoço do doutor e o beijou; Zatórsky não opôs resistência.
Ele era demasiadamente crédulo para não se render aos afagos fingidos da baronesa.
Deu um beijo em sua mão e saiu.
Mas, mal se viu atrás da porta, o rosto da baronesa transfigurou-se de ódio.
- Espere só! — ciciou ela, crispando os punhos.
— Vou lhe arrumar uma felicidade tal que jamais se esquecerá dela.
Mal todos se sentaram à mesa para jantar, no pátio ouviu-se o barulho de um carro chegando.
- Quem poderia ser a esta hora? — Bóris, vá ver quem é! — ordenou a baronesa, surpresa.
O menino saiu correndo e logo depois soaram gritos alegres:
- O papai chegou... o papai chegou!
A baronesa arregalou os olhos perplexa e continuou sentada como que atingida por uma pancada na cabeça; seu rosto cobriu-se de manchas vermelhas e ela tremia febrilmente.
Zatórsky no início empalideceu e, ao interceptar o olhar angustiado de Mery, compreendeu que ela sabia de tudo — o que o fez enrubescer intensamente.
Neste instante, no quarto vizinho ouviram-se passos e no limiar da porta surgiu o barão.
Com um grito surdo, a baronesa atirou-se em seus braços.
Choramingando nervosamente e rindo, ela recostou a cabeça em seu peito.
Feliz e emocionado pela manifestação da recepção, o barão beijou a esposa e tentou acalmá-la, mas esta relutava em soltá-lo dos braços.
Ela cingiu-lhe a cabeça com as mãos e começou a beijá-lo, examinando-o e cobrindo-o de nomes carinhosos.
Recuperara-se a tempo e representava habilmente o jogo duplo.
Com a empáfia a ela característica, expressava um amor meigo ao marido e com isso tentava despertar os ciúmes do amante; tal expediente, não raro, lograva sucesso.
Por fim, o barão desvencilhou-se dos braços da esposa, beijou a tia e depois estendeu ambas as mãos para Zatórsky.
- Agradeço, amigo fiel, pela amizade e por ter cuidado de minha esposa.
Ele não reparou no sorriso desdenhoso de Elena Oreéstovna.
Quanto a Mery, esta o notou e, apertando a mão da generala, olhou para ela suplicante como se quisesse dizer:
"Não fale do que nós sabemos"!
O barão neste instante se virou para a esposa.
- Querida Nástia, de alegria em reencontrar tudo que me é caro, esqueci de lhe apresentar o meu amigo e companheiro de viagem, o príncipe Alisei Adriánovitch Eletsky.
Todos se viraram para um jovem alto, parado junto à porta do refeitório, a quem ninguém dera atenção devido à agitação.
- O príncipe aceitou o meu convite de passar alguns meses aqui.
Ele é meu colaborador e nós vamos trabalhar juntos; e como ele é, felizmente, solteiro e ninguém o espera em casa, eu o trouxe comigo.
Você tem acomodações para o meu amigo? — continuou ele alegre, enquanto o príncipe cumprimentava a anfitriã.
O príncipe Eletsky tinha trinta anos.
Era alto e magro.
Seu rosto regular estava bronzeado; os olhos grandes azul-escuros e impenetráveis tinham expressão severa e na boca, maravilhosamente desenhada, entrevia-se por trás de bigodes escuros uma prega de vontade poderosa.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 06, 2016 7:28 pm

- Claro, claro, temos.
Ao lado da biblioteca temos dois quartos e um gabinete, que pode ser transformado em banheiro.
Espero que Alisei Adriánovitch goste! - disse a baronesa, sorrindo amavelmente.
Mas os senhores devem estar com fome?!
Sentem-se à mesa, eu mandarei servir algo substancioso.
O príncipe cumprimentou todos os presentes e o seu olhar escorregou pelo rosto do doutor e depois deteve-se, sério e perscrutador, no rosto branco e perturbado de Mery.
Uma expressão um tanto enigmática perpassou sorrateira em seu semblante quando ele saudou a jovem moça, sentando-se à mesa.
Entrou Anastácia Andréevna e a conversa versou generalidades.
O barão estava alegre, contava sem parar de sua viagem e dos tesouros trazidos; o príncipe, ao contrário, estava taciturno e respondia laconicamente as perguntas a ele dirigidas.
Mal todos se levantaram da mesa, um criado anunciou que de Revel chegara um furgão com as bagagens dos viajantes.
O barão ordenou que os dois baús fossem levados aos respectivos quartos, enquanto outros caixotes deveriam ser cuidadosamente colocados num quarto do andar térreo, perto do saguão.
Em seguida, todos se dispersaram, pois os recém chegados estavam muito cansados.
A criadagem pôs-se a transportar e arrumar uma infinidade de caixas de tamanhos diferentes.
Bateu meia-noite e os criados iam desembarcar do furgão o último caixão, quando, subitamente, do lado do pátio irrompeu uma lufada brusca de vento que fez bater com força algumas janelas do castelo; no ar levantaram-se, em coluna, pedaços de papel e palha.
Os criados entreolharam-se surpresos, já que fora estava totalmente calmo e o firmamento claro era salpicado de estrelas.
De onde viria aquela rajada inopinada?
Mas, no momento seguinte, tornou a soprar forte, silvando e gemendo feito tempestade.
Pelo saguão turbilhonou uma corrente de ar frio e da escada ouviu-se um barulho estranho:
como que de um saco fossem despejados seixos que rolassem a escada abaixo, ainda que ela fosse acarpetada.
Em seguida, da escadaria rolou, às cambalhotas, a camareira, pálida e aterrorizada.
- Oh, meu Deus!
Deus nos valha! — balbuciou ela, persignando-se.
O que está acontecendo?
Estive na galeria fechando as janelas, subitamente o vento me arrancou das mãos as persianas e quase fui ao chão; ao mesmo tempo ouvi estrondos, como se jogassem pedras na porta do príncipe; o vento uivava e gemia em vozes diferentes, como se alguma criança estivesse sendo degolada.
Fiquei apavorada e fugi...
- Nós também ouvimos a mesma coisa...
Parece que com as caixas veio o próprio Satanás — acrescentou um dos criados.
Rapidamente eles transportaram para dentro a última caixa e se trancaram no quarto de empregados.
Enquanto isso se passava, alguém que visse o quarto do príncipe teria ficado perplexo.
Alisei Adriánovitch estava parado perto da mesa, pálido e preocupado.
De uma mala aberta, ele retirou um crucifixo encaixado sobre base de metal, no centro da qual se embutia uma pequena lamparina de cristal azul.
O príncipe a acendeu e fez o mesmo com as três velas de cera, instaladas nas três pontas; a vela em cima era branca, nas laterais uma era azul, outra vermelha.
Na base da cruz prendia-se um cálice metálico e nele defumava-se uma substância resinosa que recendia um forte odor de ládano, rosas e sândalo.
Quando se ouviu o barulho de pedras, supostamente atiradas na porta, ele pegou o hissope e benzeu em cruz todos os quatro cantos do quarto com a essência aromática.
Colocando em seguida no pescoço uma faixa azul com estrela dourada, no centro da qual estava desenhada a cabeça do Salvador, o príncipe orou e deitou-se na cama.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 06, 2016 7:28 pm

No corredor continuava um barulho estranho, ouviam-se resmungos surdos, arranhões e miados; mas aos poucos os sons começaram a diminuir e, por fim, desapareceram por completo.
O doutor retirou-se para o quarto, lugubremente perturbado; sua alma estava assaltada por sentimentos contraditórios.
De um lado, a vergonha, os remorsos e o medo do futuro; de outro — um ciúme violento àquele príncipe, que ficara observando curiosamente Mery.
Aquele jovem era bonito, rico e titulado — um rival perigoso.
Quem sabe ele até tenha impressionado bem a jovem, decepcionada com ele graças à generala.
Após o jantar ele tentou por várias vezes aproximar-se dela, mas esta parecia evitá-lo...
Oh, por que se envolvera naquela relação vil e criminosa?!
Ele também ouviu no corredor o estranho barulho, mas, estando com o humor azedado, não deu atenção a ele e deitou-se.
Zatórsky sentia-se alquebrado;
sua cabeça doía e não conseguia conciliar o sono.
Mas eis que, aos poucos, o torpor o foi dominando, o corpo como que se encheu de chumbo e ele não conseguiu mover sequer um dedo.
Seus sentidos pareciam aguçar-se e em volta tudo vibrava; depois, as vibrações deram lugar a uma maravilhosa melodia sonora, cujos sons causavam uma dor lancinante em todo o seu corpo.
Subitamente, a escuridão no quarto cedeu à luz rosa tosca e, perto da janela, ele viu uma nuvem pairando.
A nuvem cinzenta reverberou em faíscas vermelhas e douradas e matizes de arco-íris, feito cauda de pavão ou borboleta gigantesca; depois, a fumaça se espalhou, alongou-se, e no centro do quarto surgiu uma mulher alta.
Era uma criatura muito jovem, de rosto encantador e tez brônzea escura.
Ela envergava uma túnica de gaze, bordada a ouro e lentejoulas, tão leve e transparente que mal lhe cobria o corpo de beleza estonteante; braceletes pesados adornavam as mãos e os tornozelos, jóias brilhantes cobriam-lhe o colo e sustentavam a massa densa de cabelos negro-plúmbeos, que desciam abaixo dos joelhos.
Grandes olhos negros fitavam o doutor avidamente e um sorriso sensual e ao mesmo tempo cruel entreabria a sua boquinha púrpura.
De súbito, ela se pôs a dançar.
Silenciosamente deslizavam suas pernas desnudadas; o corpo esguio e delicado contorcia-se como o de uma cobra, enquanto as mãos brincavam com um longo cordão de seda vermelha.
Continuando a dançar, ela se aproximou da cama e se inclinou sobre o médico; este não conseguia se mover.
Parecia-lhe sentir a respiração cálida da dançarina.
Perplexo, ele a viu fazendo um laço corredio que, em seguida, foi-lhe colocado no pescoço e ela então lhe disse numa língua estranha, que no entanto ele entendia bem:
- Afortunado! Você servirá de sacrifício à deusa e sua respiração a reanimará.
Tal era o sentido das palavras enigmáticas.
Ao mesmo tempo, a desconhecida começou a apertar o laço; Zatórsky se sufocava e se debatia, mas seus esforços eram inúteis.
Feito um anel de ferro, a corda apertava-o no pescoço, o cérebro parecia partir-se e o pensamento "estou morrendo" assaltou-o instantaneamente na consciência em extinção.
Por fim, a cabeça pareceu-lhe tontear, enquanto ela ficava pairando sobre um abismo lúgubre; em seguida, ele perdeu os sentidos.
Espargia a aurora, quando Zatórsky abriu finalmente os olhos.
Estava deitado no chão, perto da cama; sentia os membros enregelados de frio e a cabeça doía.
Ele se levantou e quis tomar água, mas perplexo viu que o jarro e o copo jaziam quebrados no chão e, neste instante, ele se lembrou do "sonho".
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 06, 2016 7:28 pm

Sim, era um sonho ou um tolo pesadelo, uma consequência das emoções vividas na véspera; está claro:
o céptico estudado não acreditava em "visões".
Limpou o rosto com água-de-colónia e tornou a deitar-se, logo se esquecendo num profundo sono.
Durante o desjejum, a baronesa observou, rindo:
- A felicidade da vinda de Maximiliano e suas narrativas devem ter abalado meus nervos.
Ele me contou diferentes episódios de sua viagem e eu sonhei que estava na selva, perseguida por um enorme tigre que queria me morder.
Gritei assustada e acordei meu pobre Max.
- Sim, realmente eu lhe contei os detalhes de uma caçada de tigre na selva de Bengala — comentou o barão, sorrindo.
Nem ele, nem os outros notaram um estranho sorriso zombeteiro que escorregou nos lábios do príncipe; o barão se virou para o doutor.
- O senhor não teve pesadelos, Vadim Víktorovitch?
Está tão pálido — acrescentou, em tom de brincadeira.
O doutor respondeu que havia dormido mal devido à dor de cabeça, mas que agora se sentia bem.
Depois do desjejum, o barão anunciou que queria abrir os caixotes repletos de coisas interessantes, e convidou todos a participarem do acto.
Ao passar por uma saleta ao lado do refeitório, o barão notou um nicho na parede, onde havia um grande vaso com flores.
- Que óptimo! Este vaso a gente pode tirar e em seu lugar colocar a estátua que eu trouxe.
É uma relíquia muito curiosa — acrescentou ele, satisfeito.
Todos desceram ao salão do térreo, onde estavam as caixas.
O barão, antes de mais nada, tirou de uma caixa os maravilhosos presentes que se lembrara de trazer.
Ainda que Mery não estivesse em seus planos, presenteou-a com uma belíssima echarpe oriental de gaze, como que bordada em ouro e seda pelas mãos de uma fada.
Em seguida foram tiradas peças antigas — um verdadeiro acervo de museu.
Logo só dois engradados ficaram para serem abertos:
um de tamanho médio; outro enorme, marcado com sinais vermelhos.
- Um acaso favoreceu-me obter a peça mais valiosa da colecção — disse o barão, tirando um objecto alongado embrulhado em panos de lã, e um pedestal fundido de bronze.
Sob os panos encontrava-se uma estátua de mulher sentada, do tamanho de uma criança de cinco anos; de seu pescoço descia numa corrente em ouro maciço um medalhão em forma de coração, de uma gema parecida com rubi.
- Esta é uma estátua da deusa Káli, muito venerada por hindus.
Pertencia a Alisei Adriánovitch, mas, conhecendo a minha paixão a semelhantes raridades, ele a deu para mim.
Devo acrescentar que esta estátua está associada a um drama comovente e enigmático, só que a história é muito longa para ser contada agora.
Além disso, devo confessar-lhes, mesdames e messieurs, que um ateísta e céptico inveterado como eu se tornou crédulo, até místico, convencido da veracidade das palavras de Hamlet:
No mundo existem mais coisas do que os nossos cientistas sonham.
A baronesa deu uma sonora gargalhada.
- Você se tornou um místico, Max?
Talvez um sábio? Há-há!
Receio que sua conversão seja superficial e preciso de mais tempo para convencer-me disso.
Mostre-nos o que você tem naquela caixa grande; estou curiosa.
- Talvez você se decepcione, ainda que o conteúdo seja extremamente interessante — tornou com bonomia o barão, ordenando que a tampa fosse retirada.
Com auxílio do criado, ele destampou um enorme tigre empalhado.
As damas soltaram um grito de susto; a baronesa observou, estremecida:
- Arre, que nojo!
Mesmo morto, fico com os cabelos em pé.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 06, 2016 7:28 pm

- Não nego que o animal é medonho, mas nem por isso nojento.
Sem dúvida, é um dos melhores exemplares de sua espécie.
Olhem que corpo poderoso, que cor de pele variegada! — observou Maximiliano Eduárdovitch, conferindo com a ajuda do criado a posição sentada da terrível fera, cujas patas pareciam fofas e flexíveis como de animal vivo.
Ademais — acresceu ele — o tigre também tem sua história, ligada com a da estátua.
Ele pertencia a uma jovem sacerdotisa que servia no templo de Káli, e ela o domesticou.
Dizem que o animal pereceu de morte misteriosa, morto com o olhar de um iogue; depois, nele injectaram uma substância, cujo segredo só é conhecido dos sacerdotes, transformando-o numa múmia e preservando a flexibilidade e semelhança de ser vivo.
Juntamente com a estátua, o príncipe ganhou o tigre, e deu ambos para mim.
- Ao invés de jogá-los no mar, como insisti — manifestou-se o príncipe, que até então guardava silêncio e não interferia na conversa.
- Oh, meu caro, o senhor está com os nervos abalados, caso contrário não pensaria nessas tolices.
Atirar para o mar tais preciosas raridades?
Perdoe, isso seria loucura.
E agora, mesdames et messieurs, aproximem-se mais:
o terrível rei das selvas não os morderá.
As damas, no entanto, expressaram receio, por mais inofensiva que fosse a fera.
Nenhuma delas se atreveu a tocá-lo; somente o doutor examinou longamente o animal e o apalpou com um interesse visível.
- A mumificação é incrivelmente perfeita.
O tigre preservou o seu aspecto natural, inclusive a expressão feroz dos olhos vitrificados, que parecem fosforizar.
- Perfeitamente correto.
Isso é porque o tigre na verdade não morreu — observou o príncipe, sorrindo.
Zatórsky estremeceu e olhou perscrutadamente para Eletsky e também sorriu.
- O senhor precisa se tratar, caro príncipe; digo-lhe isso porque sou médico.
Pense só no que o senhor acaba de dizer!
Como poderia sobreviver um animal durante semanas, ou talvez meses, ainda mais encerrado no caixão?
O senhor provavelmente está delirando e seus nervos precisam de um sério tratamento.
- Meu caro doutor, todos sabem que os faquires conseguem dormir meses enterrados.
Eu conheci um que ficou deitado por sete anos e, não obstante, acordou bem sadio — retrucou o príncipe.
- Que seja! Mas ele era um faquir, levado por meios específicos ao estado letárgico e não foi tocado durante o sono por ninguém.
Aqui se trata de um animal morto.
- Perdão, Vadim Víktorovitch, este animal não morreu de morte natural e... naquele país, onde tudo é mistério, ninguém é capaz de compreender as dimensões da força que possui aquele povo incrível.
Somos todos ignorantes, desde as pessoas simplesmente mundanas, até os cientistas renomados, que se teriam espantado com os conhecimentos daqueles terríveis encantadores.
Afirmo-lhe:
diante deles nós nos sentimos tão impotentes como um bebé de colo.
Oh, infeliz daquele que, descuidadamente, mexer com eles e provocar sua vindicta! — adicionou Eletsky, suspirando fundo.
O doutor nada disse.
Ele não queria discutir com uma pessoa a quem considerava doente.
O barão, que não interferia na polémica, deu um novo rumo à conversa, ao mostrar um velho vaso de bronze e explicando como o tinha adquirido.
Uma semana passou totalmente tranquila.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 06, 2016 7:28 pm

O barão com auxílio do príncipe e do doutor registava e numerava no catálogo os objectos trazidos; a baronesa resistiu obstinada para que a estátua de Káli e o tigre fossem colocados no quarto ao lado do refeitório, lugar de passagem obrigatória, e, por isso, Maximiliano Eduárdovitch teve de instalar temporariamente o seu museu na sala perto de seu gabinete.
No fim da segunda semana, o barão anunciou que tinha de viajar por alguns dias para Petersburgo, acertar alguns assuntos financeiros e achar um local para o Museu da índia, que queria adaptar até a volta deles do campo.
Zatórsky expressou o desejo de acompanhá-lo, a fim de fazer um relatório da tutela, mas o barão sustentou que essa questão era absurda e pediu ao doutor não interromper seu descanso no castelo.
Com o barão viajou Elena Oreéstovna, também para cuidar de negócios, prometendo voltar dali a dois dias.
À noite, depois da partida do barão com a tia, a conversa na hora do chá fluía tediosa:
cada um estava mergulhado em pensamentos particulares.
Mery estava triste e observava, de soslaio, o sombrio e taciturno doutor; a baronesa palreava com o príncipe, por vezes deitando olhares ressabiados para Vadim Víktorovitch.
Após o chá, todos se dispersaram.
Mery retirou-se para o quarto deprimida.
Ela não queria dormir e tentou distrair-se: escreveu cartas, leu, mas nada ajudava; a inquietação não a largava, ao contrário, aumentava.
Desanimada, ela pôs de lado o livro que lhe parecia enfadonho e resolveu buscar um outro, pois o barão dera-lhe a liberdade total de utilizar a biblioteca.
Levantou-se para pegar uma vela na saleta e, ao lançar um olhar para a janela do doutor, viu que a luz em seu quarto se apagou e, logo, a galeria foi atravessada pela alta figura de Vadim Víktorovitch.
Seu coração bateu acelerado: ele ia falar com ela!
Subitamente, Mery foi assaltada pela vontade incontrolável de ouvir-lhes a conversa e saber finalmente de que falavam aqueles torpes traidores, que iam se encontrar mal o marido deixara a casa.
Sem pensar muito em seu acto censurável, Mery pôs-se a analisar como colocaria em execução o seu plano; primeiro, ela tinha que descobrir onde estavam os adúlteros.
Feito uma sombra, esgueirou-se ao dormitório da baronesa, mas ali estava escuro e silencioso; do boudoir, entretanto, filtrava-se uma luz e o destino lhe favoreceu.
Ao longo de uma saleta de estar e d o boudoir, do lado de fora, havia um balcão, cujo acesso se dava pelo quarto anexo ao museu; no boudoir havia uma alta e estreita janela gótica, aberta na velha parede de cerca de dois metros de espessura e que possuía uma depressão de dois lados.
Foi nesse nicho que se escarafunchou Mery.
A janela viu-se aberta, mas a cortina de seda estava abaixada; a jovem olhou cuidadosamente para o interior, levantando a ponta do tecido.
Grandes vasos de flores no peitoril encobriam completamente a intrusa, permitindo-lhe tudo ver e ouvir.
Tremendo de ciúmes e excitação nervosa, Mery esquadrinhou aquele quarto, vivamente iluminado com lâmpada de tecto.
Sim, ambos estavam ali; ela, naquele minuto, odiava-os com todas as forças da alma.
Oh, ela haveria de arrancar do coração aquele torpe e imundo homem que, cinicamente, traía o seu amigo a confiar-lhe cegamente.
Ele, um devasso impiedoso, preferia uma mulher desavergonhada, murcha e feiosa, a ela — uma moça bela e pura!
Seu coração comprimiu-se de humilhação e desespero.
Ela premeu as mãos contra o peito e fechou momentaneamente os olhos mas esta fraqueza não perdurou por mais de dois minutos.
Na alma de Mery, despertavam-se o orgulho, a energia e a coragem espreitantes.
Queria descobrir finalmente como eles trocavam as carícias, com que feitiços arcanos aquela sem vergonha suscitava o amor e mantinha o poder sobre aquele homem.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 06, 2016 7:29 pm

Ela se empertigou e olhou perscrutadamente para o boudoir.
Sobre a mesa, onde normalmente ficavam os álbuns, havia uma lâmpada e uma travessa de prata com garrafa de vinho e dois copos, um prato de cristal com biscoitos e uma caixa de bombons.
O doutor acomodara-se na poltrona, recostando a cabeça no espaldar.
Estava pálido e em seu rosto se congelara uma expressão de angústia.
Parada junto à mesa, diante dele, Anastácia Andréevna escolhia um bombom na caixa.
Vestia um penhoar lilás de seda; seus cabelos ruivos estavam soltos.
Ela também estava lívida e em seus olhos afundados fulgia um ódio mal disfarçado e os lábios tremiam; tudo isso a deixava ainda mais feia e a envelhecia por dez anos.
Subitamente, ela desatou a rir com riso seco de escárnio, característico dela, e afastou bruscamente a caixa com guloseimas.
- Então, meu querido Vadim, o senhor se apaixonou na velhice feito um ginasiano! Ha-ha-ha!
Nada de surpreendente, porém não deixa de ser engraçado, tanto mais que cismou, ainda nesta vida, acertar contas com o carma pelos chifres galhudos colocados no ilustre barão.
Quem será seu carma — é difícil dizer; mas, sem dúvida, alguém assumirá este digno papel.
Assim o é sempre que um velho idiota se apaixona por uma inocente pensionista...
Que a menina se apaixonou pelo senhor, isso não me surpreende.
Ela acabou de sair da faculdade e não conhece o grande mundo; os jovens que a tentam namorar não tiveram sucesso; com um professor famoso é diferente!
Zatórsky se endireitou protestando, o que não era normal em se tratando de uma mulher que por tanto tempo o manteve obediente, paralisando sua vontade com uma força hipnótica invisível, ridicularizando-o na sociedade.
Em sua voz ouvia-se indignação e seus olhos faiscaram quando ele respondeu:
- Peço-lhe me poupar de seus chistes vulgares, Anastácia Andréevna, e mudar o seu tom; seu expediente de apresentar-me como velho já caducou.
Por mais que o seja, a senhora está sempre quatro anos na frente, tem quinze anos de casada e vai dizer para outros, menos para mim, que a senhora desposou o barão aos dezoito.
Não me obrigue a provar sua idade com documentos.
Ademais, a uma mulher de quarenta, casada, mãe de dois filhos grandes, não fica bem ter amantes ocasionais. O nosso caso não passou de brincadeira e não quero ser motivo de falatório na sociedade, nem enganar o bom e ingénuo barão.
Se me casarei ou não, é indiferente, só não quero mais continuar com a senhora.
Entende?
Estou cheio de suas intrigas tolas e familiaridade vulgar que tem me dispensado, expondo a público a nossa relação sórdida e criminosa.
Tenho tanta vergonha da jovem inocente, surgida qual uma aparição límpida no meu caminho!
A senhora me diz que Mery me ama com o seu primeiro amor puro de coração jovem?
Quero que saiba que eu reconheço o irrealismo desta ventura e serei incapaz de manifestar um sentimento mais tépido enquanto a senhora me perseguir feito sombra, condenando-me a viver manietado.
Quanto às suas ameaças de escândalo, não as temo.
Seu marido está de volta, mas eu continuo seu lacaio.
Basta, eu me demito.
Casar-me-ei ou não — não sei; mas eu já não a quero mais.
Pasma de fúria e ódio, ouviu a baronesa a escaldante censura e o seu rosto foi-se avermelhando; de súbito, com a agilidade de um gato, ela pegou um chinelo bordado a ouro, mas todo surrado, e tascou duas sonoras chineladas no rosto do doutor.
Se a isso recorria a baronesa antes impunemente, não se sabe, mas desta vez ele não estava disposto a engolir a afronta.
Soltando um grito surdo, Zatórsky saltou e atirou-se sobre ela.
Mery não assistiu ao término da cena.
Tremendo de nojo, saltou de seu esconderijo e correu pelo balcão até a sala anexa ao museu.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 06, 2016 7:29 pm

Mal lá ela adentrara, parou estupefacta e o terror a imobilizou.
No lado oposto do quarto, divisou o tigre sentado, envolto em auréola vermelho-sanguínea.
O terrível animal rugiu surdamente e foi-se arrastando em sua direcção; seus olhos fosfóricos brilhavam e pareceu-lhe até ouvir seus dentes rangerem.
Mery recuou instintivamente, mas sua cabeça tonteou e ela caiu sem sentidos no chão.
Neste ínterim, Vadim Víktorovitch irrompeu-se do boudoir, fechando com estrondo a porta.
Andando açodado, ele tropeçou sobre Mery, que jazia desfalecida, e quase caiu.
Soltando um impropério, inclinou-se para saber em que havia tropeçado e, ao reconhecer a moça, estremeceu, intrigado por ela estar ali.
Ao se certificar de seu desfalecimento, o doutor ergueu-a cuidadosamente, carregou-a para a biblioteca, colocou sobre o sofá e acendeu o abajur na mesa.
Depois foi ao refeitório, onde sempre havia vinho, encheu meio copo da bebida e voltou à biblioteca; Mery permanecia desacordada.
Como estava bela em sua imobilidade!
Seu coração palpitou forte e ele não resistiu em beijar a mãozinha gelada.
Então o médico se pôs a esfregar-lhe as mãos e as têmporas, deu-lhe sais para cheirar, que sempre carregava consigo, e, minutos depois, Mery abria os olhos.
Tremendo toda, soergueu-se e sentou-se.
Olhando assustada para os lados, ela murmurou:
- O tigre... O tigre...
- De que tigre está falando? — fez Vadim Víktorovitch, surpreso.
- O tigre do museu.
Ele vinha em minha direcção, iluminado por auréola cor de sangue, rangendo os dentes e rugindo — de terror, ela cobriu os olhos com as mãos.
- Maria Mikháilovna, volte a si; a senhora está doente e teve simplesmente uma alucinação.
Entenda: um animal morto há muitos meses não pode se arrastar, nem ranger os dentes.
Mas o que a senhora estava fazendo ali tão tarde?
- Eu não conseguia dormir e fui buscar um livro na biblioteca — disse Mery, fitando-o embaraçada.
Ela não podia confessar-lhe onde estava; procurava, contudo, no rosto do doutor os sinais da afronta infligida.
De facto, no rosto pálido de Zatórsky luziam duas manchas vermelhas!
Oh, como odiava aquela imprestável!
Se fosse esposa dele, jamais faria aquilo.
- Vou-lhe trazer um calmante e depois a senhora deita e dorme.
- E se o tigre voltar? — inquietou-se Mery.
- Não, não, ele não volta, fique sossegada!
Vou levá-la ao seu quarto.
Zatórsky saiu e voltou em seguida trazendo um copo com gotas; Mery o esvaziou submissa.
O doutor despediu-se dela na porta e voltou para o seu quarto.
Mery porém estava demasiadamente nervosa para conseguir dormir; em sua mente alternavam-se as imagens do tigre e da cena nojenta testemunhada.
Não, por nada neste mundo ela ficaria ali; amanhã mesmo escreveria uma carta ao pai, pedindo-lhe para buscá-la.
Mais tarde, ela faria o médico visitá-la em casa a pretexto de alguma doença; na cidade tudo seria mais fácil, sem a vigilância da bruxa.
O que diriam seus pais ao descobrirem a quem ela amava?
O papai era indulgente e compreensivo, mas e a mamãe?
O que ela dirá?
Assomava-se-lhe na mente a expressão surpresa e desconfiada da mãe, fazendo a pergunta:
— Como, Mery, você se apaixonou pelo amante daquela mulher?
Não tem vergonha na cara?
Com todos esses receios e devaneios, o cansaço a subjugou e ela adormeceu.

(5) Plural de pirojók; espécie de pastel assado no forno, normalmente recheado com carne ou repolho. (N.T.)
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 07, 2016 8:07 pm

~VI~

O doutor também não conseguia conciliar o sono.
A cena com a baronesa revoltava-o e sua fúria foi-se avolumando.
Já estava clareando quando, finalmente, adormeceu.
Não eram nem sete horas, quando um criado, pálido e assustado, despertou-o.
-Senhor doutor, aconteceu uma desgraça! Karl, o vigia nocturno, foi encontrado semi-morto; está com um ferimento no pescoço.
Não sabemos o que fazer — balbuciou ele.
Zatórsky vestiu-se rapidamente.
Ordenando ao criado que levasse sua farmácia portátil e uma caixa com instrumentos cirúrgicos, ele foi até o ferido.
No quarto dos empregados apinhado de gente, na cama jazia Karl; a seus pés, com o rosto enterrado no avental, chorava uma mulher.
O doutor inclinou-se sobre o ferido e o examinou cuidadosamente.
Karl era um rapaz de vinte e três anos.
Ainda na véspera, ele esbanjava saúde e o doutor o conhecia bem; agora, ele surpreendeu-se de sua palidez cérea, como que todo o sangue se esvaísse de seu ferimento que, aliás, não era grande.
- Quem foi que o achou e onde exactamente?
Quem é essa mulher chorando?
- É Frederica, a lavadeira; ela é tia de Karl.
Eu, Dietrich, jardineiro, e o meu ajudante Gotlib, achamos o rapaz no terraço do jardim, quando fomos regar as plantas — respondeu um homem, adiantando-se.
- Muito bem. Vocês ambos e a tia dele fiquem aqui para ajudar, os outros podem sair — ordenou Vadim Víktorovitch.
Em seguida, enquanto o ferido, inconsciente, era despido e acomodado na cama, o doutor perguntou se Karl havia perdido muito sangue.
Ele estava perplexo com a palidez do corpo.
- Não. Nas lajotas do terraço não encontrei um pingo de sangue; sua camisa e a blusa — olhe só, também estão limpas - respondeu Dietrich, apontando para a roupa.
Pela imobilidade do ferido, o doutor o considerou morto; mas, ao examiná-lo, verificou que o coração estava batendo, ainda que fraco, e sentia-se uma respiração débil.
Ele examinou-o melhor e, perplexo, notou nas bordas do ferimento sinais de grandes dentes.
- Há lobos por aqui?
Parece que ele foi mordido por um lobo — concluiu Vadim Víktorovitch.
Os criados entreolharam-se surpresos.
- Lobos?! Há muito tempo que não vemos lobos por aqui, principalmente no verão.
Perturbado e meditativo, o doutor fez um curativo no ferimento e mandou que lhe ministrassem a cada quinze minutos gotas com leite e conhaque.
Depois, sentando-se perto da cama e segurando a mão de Karl, tentou dar uma explicação àquilo.
Ele não via a hora de saber, do próprio ferido, os detalhes da ocorrência.
Ordenando para que trouxessem um bom conhaque, verteu na colher gotas tonificantes, e forçou que a mistura fosse engolida.
Um minuto depois, um tremor traspassou pelo corpo de Karl; ele abriu os olhos e moveu fracamente os lábios.
Vadim Víktorovitch inclinou-se sobre ele.
- O que lhe aconteceu, Karl?
- Fui atacado pelo tigre — ouviu fracamente o doutor, o que o fez recuar a cabeça, perplexo.
O infeliz praticamente repetia o que lhe dissera Mery algumas horas antes e a sua mente recusava-se, entretanto, a compreender o enigma inexplicável.
Após dar as devidas instruções, Vadim Víktorovitch saiu.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 07, 2016 8:07 pm

Ele estava convicto de que Karl não sobreviveria até a noite, todavia queria deixá-lo bastante forte até que recebesse um depoimento mais preciso.
Perturbado, dirigiu-se à sala onde se encontrava o tigre misterioso e sentiu-se horrorizado ao se aproximar da fera imóvel, cujos olhos parecia brilharem.
Dominando o sentimento de terror, começou a examinar o animal; seu corpo era flexível e emanava um odor fraco mas penetrante.
- Provavelmente está se decompondo — pensou o doutor satisfeito, pondo-se a examinar a boca da fera.
Nisso ele estremeceu e um arrepio percorreu sua espinha.
Por entre os dentes, notou algumas gotas de sangue coagulado e, ao mesmo tempo, parecia que nos olhos imóveis do tigre brilhava momentaneamente um olhar ávido de sangue.
Vadim Víktorovitch ficou branco e, recuando, recostou-se na parede, sem despregar o olhar do suposto assassino do homem — uma fera empalhada, que rastejara em direcção à Mery.
Sua razão verificava-se impotente para entender aquilo, algo inverosímil que ele não queria aceitar, se não quisesse ser tomado por algum maluco fugido de um manicómio.
Entretanto, os factos eram incontestáveis, ainda que difíceis de serem explicados.
Será que as palavras de Eletsky não eram delírios de um neurótico?
Existiriam de facto coisas diabólicas e mistérios desconhecidos aos cientistas patenteados?
Não, ele se recusava a acreditar em semelhantes disparates...
Era necessário achar uma explicação plausível para os factos, enigmáticos à primeira vista.
Um pouco mais calmo com esta decisão, ele se dirigiu ao refeitório, onde o desjejum já estava servido.
A baronesa ainda não viera; o príncipe acabava de entrar, de modo que eles se sentaram juntos, aguardando pela anfitriã.
- Já sabe, Alisei Adriánovitch, do caso incrível que aconteceu à noite?
Um rapaz, vigia nocturno, foi mordido no pescoço por um lobo.
A situação do infeliz é muito delicada; jamais imaginei que lobos pudessem rondar tão perto das casas.
- Oh, foi realmente um lobo? — observou o príncipe, ironicamente.
- E quem poderia ser, neste caso? — resmungou o doutor.
- Se o pobre Karl sobreviver, ele poderá fornecer os detalhes.
Mas não sobreviverá. Os que forem mordidos por esta espécie de lobo nunca sobrevivem.
Se ele aguentar até o anoitecer, será um milagre.
Se quiser, Vadim Víktorovitch, posso lhe fornecer um preparado hindu, que devolverá ao moribundo uma energia suficiente para falar por cerca de quinze minutos e até mais; será o bastante para que ele lhe conte o que aconteceu.
É verdade, isso pode abreviar o seu fim, que é inevitável, mas não terá muita importância.
O doutor alisou os cabelos.
- Karl falou comigo, mas o que me disse é impossível.
- Provavelmente ele lhe disse ter sido mordido por tigre?
- Sim, mas o senhor há de compreender que isso é impossível e, se o senhor acha que não, explique-me, pois a minha razão não aceita isso.
- Eu poderia lhe contar muitas coisas do género, bem possíveis, mas o senhor me tomará por um louco.
Se o senhor quiser, todavia, vá ao meu apartamento e eu lhe contarei uma aventura que, por certo, o senhor achará um conto de carochinha.
Silêncio, a baronesa está vindo!
Anastácia Andréevna estava muito mudada no rosto.
Ela cumprimentou os presentes, evitando olhar para o doutor e, imediatamente, entabulou conversa sobre o acontecimento nocturno.
- Acabei de estar junto a Karl.
O pobre menino morreu, quando tentei lhe dar leite com conhaque.
Que história incrível e horrorosa!
Jamais ouvi que lobos pudessem chegar tão perto do castelo e, o que é mais curioso, o lobo, feito um vampiro, sugou-lhe o sangue.
O que o senhor acha disso, doutor?
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 07, 2016 8:07 pm

- Acho que há lobos na floresta e a vítima perdeu muito sangue — respondeu friamente o doutor.
— Devo expedir um laudo do cadáver — acrescentou ele, acabando apressadamente de tomar o café.
Zatórsky levantou-se, trocou um olhar significativo com o príncipe e saiu.
Anastácia Andréevna retirou-se ao seu quarto nervosa e enfurecida.
Pelo olhar frio e hostil de Zatórsky, ela compreendeu que a cena nocturna não foi esquecida e um ódio impotente ferveu-lhe na alma.
No ímpeto da raiva e ciúme, parecia ter esquecido do acontecimento sinistro da noite e mandou atrelar os cavalos, tendo algo em mente.
Avisando que ia a Revel cuidar de uns assuntos e que retornaria para o almoço, ela partiu.
Na cidade, a baronesa despachou a carruagem para um hotel, onde o cocheiro deveria aguardá-la enquanto fizesse algumas compras e visitas.
Mas, assim que o coche dobrou a esquina, Anastácia Andréevna saiu da loja diante da qual descera e dirigiu-se a Katerinental.
Depois de diversas voltas, chegou até uma rua estreita, ao longo da qual se estendiam dos dois lados os jardins, os pomares e as datchas e, no fim dela, quase num descampado, erguia-se uma casa solitária cercada de jardim e uma cerca alta de tábuas.
A baronesa tocou a campainha da porta, que um minuto depois foi aberta por uma mulher de idade mediana, sequiosa e, aparentemente, bem conhecida.
- Por favor, minha senhora, meu avô está em casa — disse ela, introduzindo a baronesa num quarto mobiliado simplesmente e pedindo-lhe para aguardar um pouco.
Pouco depois, entrou um velho, apoiando-se num cajado, talhe alto mas curvado.
Pelo rosto corrugado e ressequido, feito um pergaminho, deveria ter uns cem anos; seus olhos, porém, eram límpidos e vivos como os de um jovem e brilhavam feito duas brasas.
Eric Keskonen era tido como um bruxo perigoso.
Ele saudou a baronesa com inclinação respeitosa, aceitou dela um pacotinho de tabaco e um outro com um vestido e guloseimas para a neta.
Após uma troca de palavras, ele conduziu a visitante através do corredor comprido até um quarto iluminado com lâmpada de querosene, sem janelas.
Pelo odor cáustico penetrante e mobília do ambiente, era possível inferir que ali era o laboratório do feiticeiro.
No canto via-se um monte de zimbro, nas prateleiras jaziam garrafas e frascos de diferentes tamanhos e feixes de ervas secas.
No centro da peça havia uma mesa coberta de pano vermelho, sobre a qual estavam dois castiçais de sete velas cada:
um com velas vermelhas, outro — com pretas; viam-se também três pequenos braseiros de ferro e uma bacia com água.
Ali mesmo havia um livro antigo com capa em couro.
No fundo, divisava-se um fogão russo e, na parede, uma cortina parecia encobrir algo.
Ao lado da mesa havia duas poltronas velhas, sendo que uma delas foi apontada para a baronesa se sentar.
Anastácia Andréevna tirou da algibeira e pôs sobre a mesa dez moedas de ouro, imediatamente guardadas pelo velho no bolso.
O velho sentou-se na outra poltrona e pediu à visitante para expor o seu desejo.
Com visível indignação, Anastácia Andréevna narrou que o seu amante estava lhe escapando, ao se apaixonar por uma reles menina, que ela inoportunamente convidara ao castelo.
Ela queria conservar o amante, livrar-se do marido e, se possível, também da rival.
Veremos agora se isso é possível e se as forças nos são propícias — disse o velho, depois de ouvi-la atentamente.
Ele se ergueu e puxou a cortina, atrás da qual se escondia um grande espelho sem moldura, cujo vidro parecia negro e tosco.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 07, 2016 8:07 pm

O velho fez alguns sinais cabalísticos, pronunciando esconjuros desconexos; a superfície do espelho começou a encher-se de nuvens, variegando faíscas.
Keskonen juntou no braseiro alguns pedaços de carvão, deitou sobre eles grãos de zimbro e um pó amarelado, despejou sobre tudo um óleo e acendeu.
Pelo quarto espalhou-se um olor de enxofre e os carvões acenderam crepitando; o feiticeiro se inclinou e sem tirar os olhos dos carvões começou a murmurar como se conversasse com alguém, fazendo e recebendo respostas.
À medida que se processava aquela bizarra conversação, o rosto do bruxo adquiria tonalidade terrosa; em seguida, os carvões apagaram, o velho virou-se para a baronesa, olhando para ela de modo estranho.
- Pegue de volta seu dinheiro, senhora — disse ele, colocando as moedas sobre a mesa.
Não posso fazer nada pela senhora:
as forças não se me submetem, pois há outras, muito mais poderosas.
- Mas por quê? O senhor ajudou antes.
Tente de novo, por favor, pagarei o dobro! — gritou a baronesa, enraivecida e perplexa.
- Nem que pague o cêntuplo!
Olhe a senhora mesma no espelho.
Lembra-se como era antes? — tornou o velho bruscamente.
- O senhor deve estar ficando velho, meu caro, e encobre a sua impotência com desculpa de forças hostis — retornou a baronesa com raiva e se aproximou do espelho.
Sem reparar no olhar de mofa e desdém com que a mediu o velho feiticeiro, Anastácia Andréevna aconchegou-se impaciente do espelho e pôs-se a observar a sua superfície, que outrora reflectia cenas de amor e sedução.
Da mesma forma que antes, a névoa dispersou-se e diante dela se descortinou um quadro estranho, em meio à escuridão cinzenta.
Ela não conseguia definir se ali deslumbravam os contornos de alguma muralha ou uma densa floresta, emoldurando um descampado, onde ela se via com Vadim Víktorovitch.
Mas entre eles, separando-os, corria um riacho sobre um leito pedregoso; suas ondas púrpuras, quebrando-se sobre as pedras, espargiam neles uma espuma sanguínea.
Subitamente, da névoa surgiu uma belíssima jovem em trajes indianos com um cordão comprido de seda vermelha na mão; seus enormes olhos negros fitavam a baronesa com olhar impiedoso.
A jovem se pôs a dançar em volta dos amantes, enrodilhando-os com o cordão púrpuro, que se tornava cada vez mais grosso.
Nisso, a baronesa e Vadim Víktorovitch, atados entre si, mas isolados por fumaça densa, despencaram na corrente, sendo carregados pelas ondas vermelhas para lados diferentes...
Muda de pavor e imobilizada, assistiu a baronesa àquelas imagens terríveis, as pernas lhe tremeram e, soltando um grito surdo, caiu no chão.
Keskonen arrastou a visitante para o corredor e, lá, a neta ajudou-o a recuperar os sentidos da baronesa.
Enquanto eles se ocupavam dela, a neta perguntou o que havia acontecido.
- Recusei-me a ajudá-la, porque as forças hostis se rebelaram.
- Não pode fazer nada?
Que forças podem se lhe opor, já que você a ajudou por duas vezes? — surpreendeu-se a neta, sobressaltada.
O velho soltou uma risada seca.
- Sim, sim!
Na primeira vez eu lhe arrumei um marido e, depois, um amante, assegurando uma união duradoura.
Agora sua casa está cheia de demónios terrivelmente poderosos, e os meus aliados são bem mais fracos e não conseguem enfrentá-los; assim, esses novos desfizeram o que eu fiz.
A baronesa há-de se cuidar agora!
Não queria estar em seu lugar.
Imagino o que ela deve ter visto no espelho, já que desmaiou!
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 07, 2016 8:08 pm

Que bruxa! Bem, não vou me intrometer em seus assuntos, senão vai sobrar para mim.
Ele se calou, pois a baronesa tinha se movido e aberto os olhos.
Pálida e desconsolada, ela se levantou e, esquecendo de pegar de volta o dinheiro, saiu da casa.
Ao saber da partida da baronesa para Revel, Mery não foi tomar café e permaneceu em seu quarto, para pensar e se preparar para a partida, já que não queria mais ficar no castelo.
Estava amedrontada e convencida de que o tigre, de facto, arrastara-se em sua direcção; esta certeza aumentou depois que a camareira lhe contou sobre os pormenores da morte de Karl.
Não era um lobo mas o tigre que o atacara; provavelmente, assustado pelo aparecimento do doutor, ele se escondeu e, mais tarde, investiu contra o vigia.
Mery escreveu para o pai, pedindo que ele viesse buscá-la ou, então, que a deixasse voltar sozinha.
Em seguida, chamou Pacha, revelou-lhe sua intenção de voltar para casa e pediu-lhe para trazer dois cestos para arrumar as coisas.
- Oh, senhorita, Deus seja louvado por esta decisão!
Não vejo a hora de sair daqui — exclamou Pacha, visivelmente contente.
Estou com tanto medo; com a chegada do barão, parece que o próprio diabo veio morar neste castelo.
- Por quê? Você viu alguma coisa? — indagou Mery, tentando parecer indiferente.
- Eu mesma não vi nada, mas outros viram e falam.
E ela contou sobre um barulho estranho naquela noite, quando transportavam os caixotes, e sobre outros diversos factos.
Fênia, a camareira da baronesa, dois dias antes vira o ídolo de além-mares tirando a cabeça fora da porta do quarto que servia de museu, e ouviu por várias vezes horríveis gargalhadas.
Como ela tinha medo de varrer sozinha o chão no boudoir, ela pegava Procófio, e ele ouviu também aquelas risadas.
O pior, porém, presenciou o cavalariço — Mítia.
Ele tem perto do paiol um pequeno quarto que sai para o jardim e, da janela, é possível ver o terraço, onde foi encontrado o pobre Karl.
Sua janela estava aberta naquela noite e, atormentado por dor de dente, ele não conseguia dormir.
- Pareceu-lhe estar ventando e ele foi fechar a janela; mas imagine o pavor do infeliz, quando viu o tigre empalhado descendo do terraço, a bocejar e abanar o rabo, e retornando mais tarde para dentro da casa. Brrr! Que medo!
- Talvez Mítia tivesse exagerado na bebida e viu o tigre no sonho? — observou Mery, forçando um riso.
Ela acreditava na visão do cavalariço e, desde o dia anterior, tornou-se também supersticiosa, porém não queria admitir isso diante da criada.
Fingindo-se de incrédula, ela riu dos testemunhos de Pacha.
Após arrumar as coisas, Pacha foi dispensada.
Apesar da impaciência de encontrar o príncipe e ouvir-lhe as histórias misteriosas, Zatórsky ficou retido por algumas horas por diversas formalidades pertinentes à morte enigmática de Karl.
Vieram autoridades para fazer a devida perícia; o cadáver foi transportado ao paiol, até que fosse enterrado.
Exausto, o doutor viu-se livre finalmente de todos os assuntos fastidiosos e dirigiu-se aos aposentos do príncipe, encontrando-o na saleta.
O príncipe estava mergulhado em seus devaneios e não ouviu a porta se abrir.
Por uns instantes, Vadim Víktorovitch deteve seu olhar naquele homem de beleza rara.
Os contornos de seu perfil eram classicamente correctos e revelavam energia serena; os cabelos encaracolados, cortados curtos, reverberavam tirante a azul; os grandes olhos de safira escura, sob os cílios lanosos, estavam pensativos.
"Que paixões tempestuosas deve sugerir um homem tão belo" - pensou Zatórsky.
- Nem sempre as paixões que sugerimos a corações femininos trazem a felicidade — observou o príncipe, virando-se para o médico.
O doutor estremeceu.
Teria ele dito aquilo, já que o príncipe respondera ao seu pensamento?
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 07, 2016 8:08 pm

- Escute, Alisei Adriánovitch, o senhor deve ser algum feiticeiro, pois adivinha os pensamentos alheios? — perguntou, rindo.
- Por que o senhor imagina em mim tal faculdade?
O senhor me chama de "feiticeiro" por causa da minha observação lógica, emitida no momento de sua chegada?
- Sua observação coincidiu com o meu pensamento e deixou-me intrigado; estou ainda mais ansioso por ouvir as incríveis histórias que o senhor prometeu me contar.
Só agora fiquei desembaraçado das formalidades referentes ao falecimento de Karl.
- Ah, sua morte me deixa preocupado.
Este Karl poderá causar-nos muitas desgraças — observou o príncipe, melancólico.
- Karl?... Mas ele está morto e o corpo do coitado foi transportado temporariamente ao paiol, onde sua tia e a noiva o velam.
Eu e o médico distrital atestamos sua morte; ele não está em sono letárgico.
- Sim, sim. Não duvido de sua competência, entretanto reafirmo que esse homem é perigoso. O que mais me preocupa é que eu não recebi nenhuma resposta de meu mestre e não sei o que fazer para prevenir eventual desgraça.
- O senhor fala por enigmas, Alisei Adriánovitch.
Peço-lhe ser mais claro!...
- Estou-lhe dizendo que as pessoas mortas por vampiros da ordem inferior — pelo tigre no caso — também se tornam vampiros.
Esse homem, até então inofensivo, apresenta um grande perigo para os vivos.
Não ficarei surpreso se, nestes dias, algum criado ou habitante deste castelo ou das circunvizinhanças não sucumbir, vítima deste ou do outro vampiro.
- Mas, príncipe, os vampiros não existem; tudo isso é conversa de mulher ou, se quiser, conto de fada!
- Deus queira que o senhor não tenha que se convencer do contrário! — suspirou o príncipe.
- Alisei Adriánovitch, por acaso o senhor é um iniciado, seguidor de alguma ciência arcana, cujos adeptos moram — segundo dizem — em abrigos inacessíveis do Himalaia?
- Não, não sou um iniciado, nem passei por nenhuma escola hermética; sou um ignaro.
Conheci, entretanto, um jovem hindu na casa de um amigo em Londres.
É um homem misterioso que se interessou por mim, tendo-me honrado com sua protecção e até amizade.
Tenho-o por jovem, ainda que em seus olhos impenetráveis e fundos, tal qual um abismo, espreita-se a sabedoria e a experiência de um ancião.
Quem poderia dizer a idade dessas criaturas estranhas que parecem subordinadas a outras leis da natureza, ao contrário de nós, os mortais?
Ele prontificou-se a repassar-me seus conhecimentos, abriu-me novos horizonte, revelou-me mistérios insuspeitos e mostrou fenómenos incríveis.
Vendo a minha vontade de aprender - disse- me certa vez:
- São justas as palavras de Cristo:
"O espírito é forte, mas a carne é fraca".
Uma alma impetuosa tenta alçar-se às alturas, mas seu corpo opressor e pesado, feito uma rocha, paralisa seus anseios.
Por isso, meu amigo, a primeira tarefa que espera por um homem, que queira estudar a verdadeira ciência, consiste em diluir a massa densa da carne, adequando-se à corrente ígnea que compõe a nossa alma.
- E o senhor tentou aplicar na prática essa fascinante tarefa? — perguntou Vadim Víktorovitch, visivelmente interessado.
- Sim, esta tarefa foi realizada por muitos, alguns cientistas desconhecidos ao público ou por pessoas inspiradas de cima, que chamamos de santos.
Munido de conselhos por aquele homem proeminente, que eu chamo de mestre, também trabalhei na solução da tarefa; lutei e estou lutando como se contra uma fera selvagem, contra os instintos vulgares do meu corpo e, graças a Deus, consegui certo sucesso no caminho espinhoso do autocontrole.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 07, 2016 8:08 pm

O senhor testemunhou um acontecimento misterioso e outros verá; assim, acredito, sendo um médico estudado, o senhor deve estar interessado por tudo isso.
- Sem dúvida, príncipe!
Ainda mais que a minha razão céptica exige uma iluminação especial para compreender os fenómenos que contradizem minhas convicções.
Um criado, que viera anunciar que o almoço estava servido, interrompeu a conversa.
- Venha para cá depois do almoço, Vadim Víktorovitch!
Passaremos a tarde juntos e eu lhe contarei algumas aventuras estranhas vividas.
Mery e as crianças aguardavam no refeitório, porém a baronesa estava ausente.
- Sua mãe não voltou? — perguntou o doutor.
- Voltou, inclusive antes da hora esperada.
Está com terrível enxaqueca e foi-se deitar; disse que almoçássemos sem ela — respondeu Liza.
- Estava tão abatida e pálida como nunca — ajuntou o menino.
O almoço passou-se em silêncio.
Os hóspedes estavam apreensivos; a criadagem também tinha aspecto desanimado. A morte de Karl e a presença do defunto na casa parecia oprimir todos.
Mais tarde, retornando ao quarto do príncipe, o doutor viu sobre a mesa uma garrafa de champanhe mergulhada num vaso com gelo, e uma bandeja com dois copos e um prato com frutas.
- A bebida é para acompanhar-nos na narrativa de suas terríficas aventuras? — brincou sorrindo Vadim Víktorovitch, apontando para a garrafa.
- Para o caso de o senhor sentir-se amedrontado, o copo de um bom vinho aquece o corpo e mantém o vigor da alma — sustentou em tom sério o príncipe.
Quando os dois se sentaram e acenderam os cigarros, Eletsky disse, após guardar um minuto de silêncio:
- Antes de iniciar o meu relato, gostaria de lhe pedir para manter em segredo as minhas estranhas aventuras.
Talvez fosse mais prudente eu me silenciar de todo sobre esses acontecimentos da minha vida; mas, como qualquer neófito, estou obcecado em pregar e converter um cientista incrédulo.
Ambos riram, após o que o príncipe continuou:
- Veja, esta vontade de compartilhar com outros os meus segredos é uma nova qualidade anímica adquirida — o primeiro despertar do altruísmo.
Normalmente, o egoísmo e a inveja impedem-nos de disseminar os bens auferidos; em nossos próximos, suspeitamos e tememos um rival, seja aquilo riqueza, sabedoria ou posição social, gostamos de resguardar tudo para uso próprio.
Por isso, esta minha vontade incontrolável de compartilhar os conhecimentos adquiridos talvez seja o primeiro despertar do espírito, seu primeiro passo ao objectivo superior.
- Estou feliz em poder ser incluído em seu desejo magnânimo, príncipe, e sou grato pela confiança.
Juro-lhe jamais revelar, a quem quer que seja, nenhuma.
- Começarei a minha confissão, remontando ao tempo de um acontecimento que não diz directamente a mim, mas que se constituiu num fenómeno oculto inexplicável, com que m e defrontei pela primeira vez.
Naquela época eu era, tanto como o senhor agora, uma pessoa incrédula; eu não tinha a oportunidade de conversar com um ocultista de verdade, ou seja, com alguém que vivesse — por assim dizer — fora da vida material, conhecendo suas condições, onde nossas percepções vulgares nada valem.
Naquele tempo eu estava em Londres, com a intenção de passar alguns meses para distrair-me e simultaneamente m e dedicar à arqueologia, que sempre m e interessara.
Após me instalar, procurei por meu amigo, Lionel Vorsted; ele servia em Petersburgo junto a uma Embaixada.
Era um jovem rico da sociedade, simpático e atraente, que levava uma vida dissipada.
Ao revê-lo, sua mudança me deixou perplexo:
estava pálido, magro e sombrio — parecia convalescido de uma grave doença.
Levava uma vida solitária e todas as suas convicções sociais e religiosas estavam tão radicalmente mudadas, que não o reconheci, ainda que corresse um boato dando conta de um acontecimento misterioso do qual ele era o personagem principal, cuja consequência processara a mudança que eu havia notado.
Transmitirei ao senhor esse episódio, tal como eu o ouvi do próprio Lionel.
Certas lacunas foram preenchidas por sua irmã, lady Evelin, que se viu envolvida nesta estranha história.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 07, 2016 8:08 pm

~VII~

Isso aconteceu logo após o seu retorno a Petersburgo.
Lionel viajou ao castelo da irmã, lady Evelin, para caçar nas redondezas e acabou se apaixonando pela filha do fazendeiro, Fenimor Wilson; a jovem moça também ficou apaixonada por ele.
Pelo retrato que eu vi, devo confessar que ela era verdadeiramente encantadora.
Tinha a cabeça de um querubim:
madeixas louras densas, enormes olhos azuis e tez maravilhosa.
Lionel estava louco por ela; os jovens se viam às escondidas e sonhavam unir as vidas, quando então o caso veio a público, desencadeando uma tempestade por parte da família de Lionel.
Seu pai planeava casá-lo com a filha de um rico vizinho e, Lionel, pode-se dizer, estava prometido a ela desde a infância.
Lady Evelin julgou-se afrontada pelo facto de o irmão pretender casar-se com a filha de seu arrendador.
Além disso, o pai de Fenimor Wilson era tido como uma pessoa vulgar, maldosa e insolente; sua esposa, um ano antes, matou-se, afogando-se por desgosto.
Não era também nenhum segredo que o fazendeiro queria casar a filha com um fazendeiro vizinho.
Assim, Lionel sofria pressão de dois lados e, como era de índole boa, conciliadora e até demasiadamente fraca, prometeu desistir de seu amor e da intenção "insensata", noivando solenemente com miss Elionor Krown.
Alguns dias após esta cerimónia, soube-se que na fazenda de Wilson se realizara o festejo do noivado de Fenimor com o fazendeiro Johnson.
Essas notícias abalaram profundamente Lionel.
Ele anunciou ao pai que precisava de alguns meses de completo isolamento e descanso e, assim, planeava ir ao castelo legado pela família da mãe, localizado às margens do mar.
Os de casa não se opuseram à sua vontade e Lionel, supostamente pela imposição do médico, partiu para respirar o ar marinho.
O resto, eu sei de suas próprias palavras.
- Certa vez, perto da meia-noite, ele estava lendo em seu gabinete, quando ouviu uma lufada de vento frio.
Pensou que a janela tivesse sido aberta pela ventania vinda do mar; mas, no mesmo instante, ouviram-se sons estranhos, como se alguém tocasse num instrumento uma melodia extremamente triste.
Lionel estremeceu, sem entender de onde podia vir aquela música, dilacerando a alma.
Neste instante, o reposteiro se levantou e no umbral surgiu Fenimor, trajando um largo vestido de musselina e capa com capuz.
Mudo de perplexidade ele a fitou e, depois, num ímpeto de alegria, atirou-se em seus braços.
- Você me traiu, Lionel — disse ela, sorrindo com tristeza e atirando a capa sobre a poltrona.
- Fenimor, não me julgue antes de ouvir!
De onde você veio?
Você está toda molhada — exclamou o meu amigo.
- Que tempo horrível: está chovendo!
Estou de visita na casa do tio, o reverendo Wilson.
Nós temos aqui, perto da igreja, um jazigo familiar — disse ela.
Naquela hora, o meu amigo não prestou atenção às suas palavras e pensou que ela tivesse vindo por ocasião da celebração de alguma missa, em memória de alguém falecido.
Feliz, ele lhe serviu o vinho e pirojki, e eles conversaram bastante.
Durante a conversa, ela lhe disse:
- Jamais serei a esposa de quem fiquei noiva.
Eu o amo e quero pertencer-lhe.
Os homens são fracos e ao jovem apaixonado foi difícil resistir àquelas palavras.
Lionel me confessou que, a partir daquele dia, Fenimor passou a visitá-lo todas as noites, sendo muito fogosa...
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 07, 2016 8:09 pm

À sua chegada precediam, invariavelmente, rajadas de vento frio e sons estranhos, e ela sempre partia antes da aurora; mas Lionel parecia enfeitiçado, sem ligar para essas extravagâncias.
Apesar das cartas dos familiares e seus pedidos para voltar, permanecia no castelo.
Entrementes, ele percebeu que todas as vezes que Fenimor saía, ele sentia uma fraqueza enorme, como se todas as forças vitais o abandonassem, e caía num sono pesado e profundo, tal qual o letárgico.
Mas, mesmo a essa circunstância alarmante, não deu qualquer atenção...
Sua ausência despropositada começou a inquietar finalmente lady Evelin, que amava muito o irmão, assim, ela foi vê-lo.
Sua palidez e fraqueza deixaram-na pasma.
Inquirido, Lionel assegurou que estava bem em seu isolamento, não querendo se separar dele.
Acabrunhada, lady Evelin foi buscar informações com a criadagem, e a esposa do administrador confessou finalmente que o jovem lorde era visitado todas as noites por uma mulher, com a qual ele conversava e ria.
Ninguém conhecia aquela intrusa, nem sabia de onde ela era; a criada sequer a via chegando ou partindo.
Apenas Bob, o grumete, viu certa vez do terraço, antes de amanhecer, uma mulher descendo, de capa preta, numa carreira tão desabalada, que seu destino ele não conseguiu descobrir.
O mais estranho é que no piso do terraço ficava um rastro de água, da mesma forma, no dormitório e no gabinete.
Os tapetes verificavam-se molhados, mas sir Lionel, entretanto, jamais comentou esse facto, como que não o notasse.
A velha Sara, esposa do administrador, confessou ainda que certa feita, por curiosidade, foi até o vestuário e espiou pelo buraco da fechadura.
Viu então sentada, nos joelhos do lorde, uma mulher de cabelos louros e compridos, beijando-o apaixonadamente; o rosto dela era branco tal qual giz e os olhos fulguravam feito brasas.
Preocupada, lady Evelin perguntou se por um acaso ela não ouvira o nome da visitante.
- Sim, ouvi — respondeu a velhota.
Sir Lionel a chamou de Fenimor por várias vezes.
Lady Evelin quase desfaleceu ao ouvir o nome, e só repetiu:
"Impossível, impossível!".
Ao perceber o espanto da fiel criada, lady Evelin fechou a porta e explicou-lhe a causa de seu espanto.
Ela contou a Sara sobre o amor de Lionel a Fenimor Wilson, da oposição dos familiares àquele casamento desigual e do rompimento dos jovens; falou também do velho Wilson, malquisto — um homem imoral que, tendo se amasiado com uma mulher, tiranizou-a, inclusive seus filhos; que a pobre infeliz se afogou para se livrar dos maus tratos.
Alguns dias depois da partida de Lionel e do noivado de Fenimor com um fazendeiro, um homem rico mas de idade, a quem detestava, o corpo da mulher foi encontrado na praia.
Ela havia se afogado tal qual a mãe, mas as circunstâncias de sua morte eram tão inverosímeis, que lady Evelin se recusou nelas acreditar.
Dos pormenores do episódio, lady Evelin soube por sua governanta — uma mulher de confiança que lhe servia por mais de vinte anos, que, por sua vez, ouvira esta história pela boca da prima do velho Wilson, sua amiga.
No dia daquele infortúnio, Wilson organizara um grande banquete em homenagem aos noivos; a festa prolongou-se e as visitas dispersaram-se tarde.
A tia de Fenimor, duas criadas e um jovem cavalariço estavam fazendo uma faxina na cozinha.
O tempo estava péssimo:
chovia a cântaros e do mar soprava um vento forte, gemendo nas chaminés e sacudindo árvores seculares no jardim; o barulho surdo das ondas se quebrando acentuava a impressão lúgubre.
Na cozinha, o trabalho era feito em silêncio; vez ou outra os trabalhadores lançavam olhares, cheios de pena, para a pobre Fenimor, de cujas faces escorriam lágrimas amargas.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 07, 2016 8:09 pm

Mal bateu a meia-noite, ouviu-se o repicar fúnebre dos sinos da igreja e, quase imediatamente, escutaram-se três fortes batidas na porta.
Fenimor empunhando uma vela levantou-se para abri-la, seguida da tia, de mais criadas e do cavalariço chamados, pois ela receava algum vagabundo, querendo se abrigar do mau tempo.
Qual não foi o terror, quando aberta a porta por Fenimor todos viram no umbral a fazendeira afogada, no mesmo vestido em que fora enterrada e até com o crucifixo que lhe fora colocado na mão.
De sua roupa e cabelos escorria água em profusão.
Todos estacaram aterrorizados.
Fenimor lançou-se adiante, exclamando:
- Querida mamãe!
Se você soubesse como estou infeliz!
- Sei, meu bem.
A morte é mais misericordiosa que os homens.
Venha comigo, pobre Fenimor — disse numa voz fraca mas nítida.
Deixando cair das mãos o crucifixo, a aparição abraçou a moça, conduziu-a consigo e, instantes depois, ambas desapareceram na escuridão da noite.
As testemunhas desta cena se paralisaram de pasmo, no início; recuperados, a tia, o cavalariço e uma das criadas partiram em perseguição de Fenimor, mas a moça e a aparição haviam sumido.
A tempestade no pátio não dava trégua e, com risco de serem varridos pelo vento, eles se abrigaram na casa.
Os gritos e a algazarra acordaram o velho Wilson.
Ele ficou possesso com o alarme dado e, ao ouvir a explicação, começou a xingar; mas, quando lhe mostraram o crucifixo deixado pela aparição, deixou-se cair na cadeira.
A cruz era realmente a mesma que ele havia deixado nas mãos da esposa morta.
Somente de madrugada, o furacão se amainou e, então, iniciou-se a busca de Fenimor, mas tudo foi debalde; só bem mais tarde os pescadores trouxeram o corpo encontrado boiando perto dos recifes.
Os pescadores asseguraram que a tempestade não fora assim tão terrível como afirmavam na fazenda de Wilson.
- Como já lhe disse, lady Evelin não acreditou nos rumores, mas o que acabava de ouvir de Sara abalou-a fortemente.
Por outro lado, despertou-se-lhe a suspeita de que toda aquela história não passava de uma simples invenção ou intriga, para reconquistar o amor de seu irmão a qualquer custo, e que a moça não fora enterrada, mas escondida.
Naturalmente, ela queria desvendar a história e mandou chamar o grumete, ao qual prometeu uma bela gratificação, se ele vigiasse a saída da misteriosa visitante de sir Lionel e conseguisse descobrir de onde ela vinha e onde morava.
Bob era um rapaz de uns vinte anos, corajoso e enérgico, que não tinha medo de nada; a recompensa ajustada animou-o ainda mais.
Ele decidiu seguir a misteriosa dama, por mais esperta que ela fosse.
Mais tarde, Bob contou que ele tinha intenção de flagrá-la no momento de sua vinda; mas, quando ele ocupou seu posto de vigilância no corredor, perto do terraço, pela primeira vez na vida sentiu um pavor inexplicável e acabou pegando no sono; ao acordar, a forasteira já estava no quarto de sir Lionel, do que ele se convenceu ao colar o ouvido na porta.
Louco da vida e envergonhado pela falta, Bob resolveu vigiá-la embaixo do terraço; além disso, por prevenção, atrelou um cavalo, para partir em sua perseguição, mesmo que ela tomasse automóvel ou coche.
Desta vez Bob conseguiu superar o sono e, quando os galos começaram a cantar, viu a mulher aparecendo no terraço, vestida em capa preta e com capuz abaixado.
Feito uma rajada de vento, ela passou ao lado de Bob, correndo qual gazela que se visse perseguida por matilha de cães.
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