Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 08, 2016 7:22 pm

Temendo perdê-la de vista na escuridão, Bob montou o cavalo e pôs-se a persegui-la abertamente, julgando que ela fosse pegar um coche.
A perseguição tornava-se cada vez mais difícil, pois a mulher saiu pelos campos, correndo em direcção ao pântano, totalmente intransitável.
Acompanhá-la por aquele caminho era impossível; o cavalo se rebelou:
arrepiou os pelos, empinou-se e recusou-se a prosseguir.
Mas o grumete era pertinaz:
com vergasta e esporas, ele obrigou o cavalo a obedecê-lo e, a todo galope, partiu por uma trilha beirando o pântano, pelo qual a misteriosa dama corria sem tocar os pés no chão.
Por estar envolta numa luz fosfórica, Bob pensou que ela carregava uma lamparina.
Prosseguindo sua perseguição desenfreada, o grumete viu a desconhecida sair do pântano e, através de campos, seguir em direcção a uma pequena cidade, cujo campanário da igreja se delineava no lusco-fusco da aurora.
Subitamente, a dama perdeu- se de vista.
Bob, suando em bicas, aproximou-se do lugar de seu sumiço e viu-se diante de um pequeno muro.
Sem pensar muito, pôs os arreios no pescoço do cavalo, transpôs o muro e saltou.
Estava num cemitério.
Diante, divisavam-se os crucifixos e, no fundo de uma alameda longa, ele viu uma capela funerária.
Por aquela alameda corria a jovem, já não tão lépida e, subitamente, ela desapareceu.
Pareceu ao grumete que ela havia entrado na capela.
Ele examinou o monumento cercado de grade em bronze trabalhado e leu a inscrição de que ali se encontrava o jazigo familiar da família Wilson.
O grumete imaginou que a hábil desconhecida, ao se ver perseguida, escondeu-se por ali, julgando provavelmente que num cemitério e justo num jazigo familiar ela não seria procurada.
Entretanto, aquilo o intrigava muito.
Como alguém pôde atravessar um pântano, sem nele se afundar, e depois penetrar na capela funerária de uma família a quem, provavelmente, nem pertencia?
Decidido a desvendar o mistério o quanto fosse possível, Bob esperou o dia clarear, depois foi à igreja e conversou com uma empregada, que o informou de que Wilson era um homem velho e sem família, morava isolado e não recebia ninguém.
A chave do jazigo ele conservava consigo e ninguém podia entrar lá.
- O relato do grumete desapontou lady Evelin.
Ela não comentou nada com Lionel, pois este estava febricitante e tinha aspecto doentio, queixando-se de dor de cabeça insuportável e cólicas por todo o corpo.
Perspicaz, lady Evelin compreendeu que alguma coisa misteriosa estava acontecendo, para a qual não tinha resposta devido à sua ignorância, nem, muito menos, podia ajudar.
Instintivamente, movida por amor ao irmão, sabia que a questão era de vida ou morte e que ele caíra vítima de forças desconhecidas.
Desesperada, convicta da inutilidade de apelar para a ciência oficial, ela não conhecia ninguém que lhe pudesse dar uma luz na misteriosa ciência do mundo invisível.
Socorreu a esposa do administrador.
Esta lhe disse que, não muito longe dali, vivia um velho, de nome Brandle, tido nas redondezas como um bruxo, motivo de relatos estranhos.
Supostamente, ele conversava com mortos, fazia poções mágicas e teria realizado diversas curas milagrosas.
Talvez ele pudesse dar alguma luz para aquele enigma, já que conversava com os mortos, por meio dos quais se poderia descobrir a verdade sobre Fenimor.
Lady Evelin agarrou-se a esta ideia e, sem comentar nada com ninguém, foi à casa do feiticeiro.
Mister Brandle ouviu atentamente lady Evelin, mas não lhe fez nenhum esclarecimento, prometendo passar à noite no castelo e pedindo que Lionel não fosse avisado.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 08, 2016 7:23 pm

Fora isso, ele deu algumas ordens. Os Vorsted eram católicos e no castelo havia uma pequena capela, onde eram realizadas missas nos feriados santos.
Mister Brandle pediu para tirarem o crucifixo do altar e colocá-lo na cabeceira da cama de Lionel, escondido pelo cortinado, de modo que ele não o pudesse descobrir.
Era preciso também borrifar todo o quarto com água benta; na gaveta da mesa, sobre a qual seria posta a bandeja com vinho e pirojki, ele pediu que fosse colocado um escrínio com relíquias e hóstia consagrada.
À noitinha, Lionel estava mais animado.
Ele riu e palreou com a irmã, mas se recolheu cedo.
Por volta das dez horas, veio mister Brandle.
Ele solicitou que lhe trouxessem dois candelabros do altar, acendeu-os e colocou no quarto, ao lado do dormitório de Lionel, onde também se escondeu.
Ao mesmo local, à meia-noite, deveriam vir lady Evelin, Sara, o administrador e o grumete Bob.
Quando estes chegaram, viram mister Brandle segurando numa das mãos uma concha, da qual recendia um forte odor, e na outra — um toco de vela acesa.
Assim que bateu meia-noite, no dormitório ouviu-se um barulho, ou melhor:
um ruído, como se em ferro em brasa fosse despejada água fria.
- É ela! — sussurrou mister Brandle.
- Meu Deus!
O que há com você, Fenimor?
Por que... — ouviu-se a voz alarmada de Lionel, mas suas últimas palavras foram abafadas por um grito desatinado e rouquenho.
Mister Brandle correu para o dormitório, seguido dos outros.
Lionel estava semi-estendido no leito, uma mulher de branco, envolta em cabelos loiros soltos, segurava-o pela garganta e, aparentemente, tentava asfixiá-lo.
O rosto dele estava azulado e os olhos esbugalhados.
Brandle viu-se imediatamente junto ao leito.
Uma rajada violenta de vento como que atirou a mulher para o alto e seu corpo se enrodilhou, soltando colunas de fumaça negra e nauseabunda, tão forte que lady Evelin, o administrador e sua esposa sufocaram-se e caíram desfalecidos.
O corpo de Fenimor parecia um saco vazio.
Neste instante, a janela abriu-se ruidosamente, turbilhonou uma rajada de vento glacial e tudo desapareceu...
Mister Brandle tirou do bolso um frasco e esvaziou o conteúdo no chão; pelo quarto se espalhou um aroma forte e agradável, limpando o ar.
Todos, com excepção de Bob, jaziam sem sentidos; ele, ainda que tremendo todo, ajudava Brandle a transportar Lionel e os outros para o quarto ao lado.
O ocultista ordenou ao grumete acender imediatamente a lareira, enquanto despia Lionel e o esfregava com essência aromática; os chumaços de algodão usados atirou na lareira.
Ato contínuo, ele descerrou-lhe os dentes e verteu em sua boca um líquido vermelho.
Um pouco depois, Lionel abriu os olhos; de fraqueza não conseguia mover os lábios.
Brandle ocupou-se dos outros, que aos poucos foram recuperando os sentidos.
Quando todos estavam bem, Brandle aconselhou lady Evelin levar o irmão para casa dela, fazê-lo repousar por alguns dias na cama, ministrar-lhe o remédio fornecido e avisá-lo imediatamente se acontecesse algo de estranho.
Lady Evelin não via a hora de abandonar o castelo, que lhe sugeria terror e, duas horas depois, levava de automóvel o irmão, dormindo sono pesado.
Mister Brandle pediu para o administrador que desinfectasse o dormitório antes do amanhecer, mas o velho se recusou categoricamente a transpor o umbral do lugar diabólico e, novamente, o intrépido grumete se propôs ajudá-lo.
O quarto estava uma bagunça.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 08, 2016 7:23 pm

A travessa, a garrafa de vinho e os pirojki estavam espalhados pelo chão; o leito, o lençol, os travesseiros e o cobertor literalmente rasgados, e até os cortinados velhos de seda pendiam em farrapos, com excepção da cortina junto à cabeceira onde estava o crucifixo, que permaneceu intacto.
No meio do quarto, via-se uma poça de sangue preto com pedaços ensanguentados de algo parecido com fígado, e nessa repugnante massa boiava uma pasta amarelada e nauseabunda.
Sobre essa nojeira foi despejada cal virgem; depois, o ocultista defumou o ambiente, borrifou-o com água benta e incinerou na lareira toda a roupa de cama e as cortinas.
Bob ajudava com presteza e coragem crescente.
Mister Brandle o elogiou e acrescentou que, se ele não tivesse medo, nem mais tarde desse com a língua nos dentes, poderia levá-lo para dar uma ajuda no último acto do drama.
O grumete assegurou que, depois daquilo que havia presenciado, nada mais o assustaria no mundo e que ele estava ansioso para saber como iria acabar a história da "dama do cemitério".
Quanto ao sigilo, ele o manteria, pois jamais iria contar àquela gente tola e pusilânime tais acontecimentos estranhos, impossíveis de serem compreendidos.
Na manhã do dia seguinte, mister Brandle e o grumete dirigiram-se à cidadezinha, onde o ocultista informou ao pastor Wilson sobre o ocorrido, pedindo-lhe que este lhe desse a chave do jazigo e abrisse o caixão de Fenimor, para evitar desgraças que poderiam suceder.
Constrangido, o pastor ouviu desconfiado o relato.
- O que o senhor espera exactamente encontrar no caixão daquela infeliz? — perguntou ele.
- Indícios de que a larva foi eliminada — respondeu Brandle.
Após reflectir por instantes, Wilson anuiu, com a condição de que também fosse levado; em seguida, os três desceram ao jazigo.
O corpo de Fenimor descansava num caixão metálico, ainda decorado com coroas de flores ressequidas.
Quando tiraram o tampo, aos olhos dos presentes se descortinou um quadro realmente terrificante.
Na cabeça enegrecida da morta não sobrara nenhum fio da antiga cabeleira vistosa; o rosto, transfigurado por convulsões, era o de uma velhota de oitenta anos, e o corpo semi-desnudado, mal coberto por farrapos, constituía-se de membros contorcidos, a barriga aberta, cheia de sangue coagulado e uma massa grudenta e malcheirosa, colada às entranhas.
O pastor caiu de joelhos aterrorizado, recitando orações, mas mister Brandle apressou-se em depositar no peito do cadáver o símbolo místico, cobriu o interior do caixão com ervas aromáticas e ramos resinosos, depois acobertou o corpo com lençol, com desenhos de sinais cabalísticos e abaixou o tampo.
Em seguida, após defumar e espargir o jazigo com água benta, todos saíram.
Na mesma noite, um mensageiro montado passou na casa de mister Brandle para pedir-lhe que ele fosse ao castelo de lady Evelin, pois Lionel havia caído em estado letárgico, do qual ninguém conseguia tirar.
Brandle saiu imediatamente e encontrou o enfermo próximo à morte.
Os médicos chamados revelaram-se impotentes diante de seu estado e o consideraram desenganado.
Após examinar atentamente o enfermo, o ocultista anunciou a lady Evelin, esvaída em lágrimas, que, se não fosse prestada uma rápida ajuda ao irmão, a letargia acabaria em morte, e adicionou:
- Sir Lionel é vítima de uma força poderosa e cruel; no momento, está extinguindo-se seu corpo físico, pois o espírito já foi levado à esfera das larvas e elementais.
Para salvá-lo precisamos de alguém mais forte do que eu, sou apenas um aprendiz da ciência hermética.
Lady Evelin estava desesperada.
Adorava o irmão, a quem criou após a morte da mãe, pois era quinze anos mais velha que ele.
Ela suplicou chorando que Brandle salvasse Lionel.
- Vou tentar uma última solução para ajudá-lo.
Tão logo eu prepare tudo de que preciso, viajarei para trazer uma pessoa.
Ele deixou junto ao leito do enfermo um braseiro com carvões e ervas, deitou sobre eles um pó branco e um líquido resinoso e denso, feito mel e, quando acendeu aquele lume, espalhou-se uma cerrada fumaça de odor forte mas agradável.
De reserva, Brandle deixou ainda um cesto com diversas ervas, prescrevendo que a defumação fosse mantida 24 horas por dia, cuidando-se para que o fogo não se apagasse.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 08, 2016 7:23 pm

Da mesma forma, teria de haver uma pessoa constantemente velando o doente, enxugando-lhe o rosto e as mãos com água benta misturada em uma porção de solução de ládano.
Lady Evelin me disse que os dois dias que ela passou sem mister Brandle foram para ela e sua dama de companhia os mais terríveis na vida.
A dama de companhia, miss Consuelo Smith, uma velha solteirona bondosa e religiosa, auxiliou lady Evelin a cuidar de Lionel e presenciou fenómenos bizarros e horripilantes.
Devo dizer que ambas viram e ouviram as mesmas coisas:
barulho estranho, pássaros ruflando asas, arrasto de sacos pelo chão, rajadas de vento glacial pelo quarto, miados de gato pelos cantos.
Porém o mais assustador eram as sombras escuras, vindas não se sabe de onde, que se aglomeravam junto da cama.
As pobres lady Evelin e miss Smith passaram aquele tempo com os cabelos em pé; de qualquer forma, permaneceram firmes em seu posto, orando ardorosamente.
Finalmente dois dias depois, à noite, chegou Brandle com um homem de talhe alto, envolto dos pés à cabeça em capa preta.
Brandle carregava cuidadosamente um grande escrínio preto com quinas em prata.
Ambos passaram ao quarto do enfermo e fecharam a porta.
Brandle depositou o escrínio sobre a mesa e ajudou o seu companheiro a tirar a capa.
Este se revelou um homem magro.
Seu belo rosto brônzeo, tipo indiano, era emoldurado por cabeleira e barba negras.
Trajava vestes brancas e compridas e um turbante de musselina.
Muda de surpresa, lady Evelin reconheceu nele o jovem rajá de nome Vedjaga Singa, que já encontrara nos salões londrinos da alta sociedade e na corte, onde esse aparecia amiúde.
Mal o hindu adentrou, dos cantos ouviram-se estrondos, os vidros da janela foram alvejados por chuva de areia, rajadas tempestuosas de vento turbilhonaram pelo quarto.
Na lareira uivou e gemeu o vento e escutou-se, nitidamente, o barulho dos passos de uma volumosa multidão, que se apinhava e se empurrava como que em direcção a uma saída estreita.
Lançando um sorriso ludibrioso para Lady Evelin que tremelicava de medo, o hindu cumprimentou respeitosamente a anfitriã e pediu-lhe para se acalmar.
Lady Evelin reiterou suas súplicas para salvar o irmão.
O hindu simplesmente assegurou que para isso ele estava lá e pediu que ela saísse do quarto e orasse.
O que aconteceu depois, eu sei do próprio Lionel, impressionado pelo resto da vida.
Uma dor lancinante em todos os membros tirou-o do estado da inconsciência.
Ele se viu pairando sobre a cama, onde jazia o seu corpo estendido, ligado a ele por um fio ígneo, que ora se esticava, ora se afrouxava.
Mas aquelas outras coisas na cama, junto ao seu "eu", eram tão asquerosas que ficou assombrado.
Criaturas negras e nojentas, metade seres humanos, metade animais, grudavam-se feito sanguessugas ao seu corpo, envolvendo-o por um vapor denso e pegajoso.
Do outro lado da cama, tal qual uma coluna ígnea, estava parado um homem; de sua cabeça, costas, peito e mãos irradiavam-se feixes largos, que oscilavam e coruscavam em chamas multicolores.
Mas eis que os feixes límpidos incidiram sobre o corpo inânime e, à medida que eles atingiam uma das criaturas nojentas, esta se incendiava feito uma tocha, contorcia-se, soltando urros terríveis, e separava-se do corpo em forma de espiral negra, derretendo no ar.
Então, notou que o seu corpo estava todo coberto de mordeduras pretas sangrentas e ele teve a sensação de ser perpassado por uma corrente ígnea; rodopiando, sentiu-se caindo em algo denso e pesado.
Depois, perdeu os sentidos.
Ao voltar à consciência, sentiu que um calor benfazejo lhe percorria os membros frios e enrijecidos; o peso plúmbeo derretia-se rapidamente e ele se via como que atingido por uma chuva de tufos de penugem, tépidos e macios, produzindo sensação de bem-aventurança indescritível; depois, uma torrente ígnea atravessou-lhe o cérebro e a garganta; soltando um grito débil de alegria, ele abriu os olhos.
Viu então turvamente um homem que se lhe inclinava, apertando-lhe a mão e dizendo:
- O senhor voltou à vida, meu amigo; agora fique quieto, tome este remédio tonificante e, depois, durma.
Com o auxílio de Deus, o senhor logo ficará bom.
O príncipe se calou, olhando pensativamente para o espaço, como se observasse um quadro longínquo.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 08, 2016 7:23 pm

~VIII~

Vadim Víktorovitch estava calado.
O que ouviu, deixou-o perturbado; porém o cepticismo em que fora educado era seu axioma, de modo que falou:
- Alisei Adriánovitch, o senhor tem certeza da veracidade dos fenómenos narrados?
Não foram alucinações de uma mente imaginativa, muito excitada? — perguntou ele, a meia voz.
- O senhor considera esses fenómenos inverosímeis, porque não conhece as leis a que eles se subordinam, da mesma forma que não tem ideia do mundo invisível que o cerca.
- Sem dúvida, não conheço nada neste campo e nunca me interessei por isso; entretanto, estou até disposto a admitir a existência de outro mundo e a sobrevivência do espírito.
Mas a minha razão recusa-se a compreender como um espírito pode aparecer num corpo tão táctil e material, a ponto de manter uma relação amorosa ou matar.
- Compreendo o seu ponto de vista, todavia o senhor não quer levar em consideração as experiências de Crookes com o espírito materializado de Katie King(6). Se aquele espírito permitiu que o professor pudesse examinar-lhe o pulso e auscultar-lhe o coração, o que poderia evitar que ele o apunhalasse ou flertasse com ele?
Mas não é disso que gostaria de falar.
Queria lhe dizer que os vampiros, tipo Fenimor, são espíritos malignos, cujo corpo astral está carregado de fluidos selvagens e materiais; aliás, esta questão é assaz complexa e eu demoraria para explicar-lhe as leis, já que o senhor é totalmente leigo.
Por sinal, o acontecimento de hoje é um fenómeno tão convincente e terrível que, a meu ver, pode abalar as convicções de um céptico dos mais arraigados.
- O senhor tem razão, príncipe, estou assombrado com o ocorrido e gostaria de entender essas coisas.
Mas me diga:
como o senhor teve acesso a esses conhecimentos?
Teve algum mestre?
Por acaso — Brandle, do qual o senhor falou, o hindu misterioso, ou lhe aconteceu algo iluminador, desencadeado por experiências que queira me contar?
Conte, por favor!
Reitero-lhe o meu juramento solene de guardar segredo.
O príncipe deitou um olhar triste em Vadim Víktorovitch, suspirou e passou a mão pela testa, como se quisesse afugentar pensamentos enfadonhos.
- Não suspeitei por um minuto de sua discrição, Vadim Víktorovitch e como o meu relato conterá respostas para algumas de suas dúvidas continuarei com ele.
Devo dizer que foi justamente por intermédio de Lionel Vorsted que eu tive a felicidade de conhecer os mestres que me iluminaram e me orientam até hoje no caminho ao saber.
Ele tomou o vinho, encheu o copo para o doutor e para si, e continuou:
- Já mencionei que fiquei extremamente impressionado com a mudança que se processara com o carácter e os hábitos de Lionel.
Como me disseram que ele esteve doente, atribuí a sua humildade puritana ao capricho do convalescente e à carolice da irmã.
Assim, de seu gabinete desapareceram fotos de mulheres desnudadas; os livros pornográficos e romances picantes, na biblioteca, deram lugar a livros relatando viagens pitorescas, obras filosóficas e de ocultismo.
Vivia ele solitário, saía pouco; amiúde eu encontrava em sua casa mister Brandle e o rajá Vedjaga Singa.
Este último, eu já conhecia um pouco antes, pois o encontrara em alta-roda, mas desconhecia o seu papel na vida de Vorsted.
Todavia, eu levava uma vida prazerosa, em meio à actividade arqueológica.
Assim, de manhã, eu trabalhava no Museu Britânico, em sua seção egípcia ou asiática e, ao retornar, saía para divertir-me.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 08, 2016 7:24 pm

Por várias vezes convidei Lionel para as minhas incursões recreativas — em Petersburgo nós éramos inseparáveis -, mas todas as vezes ele declinava.
Certa feita, estava em vias de ser promovida uma festa particularmente divertida em companhia de algumas artistas; eu insisti que o amigo tomasse parte, mas ele tornou a se recusar.
Resolvi então esclarecer o assunto definitivamente.
- Explique-me, Lionel, o que está havendo com você e por que é que você está levando essa vida de ermitão?
Você já se recuperou da saúde, é jovem, rico e ainda desimpedido.
(Esqueci de lhe dizer, Vadim Víktorovitch, que devido a uma enfermidade séria da noiva, o casamento dele fora adiado por um ano).
— Peço-lhe, meu amigo, responda sinceramente; acho que mereço sua confiança.
Algum mal, por acaso, corrói-o por dentro ou você está apaixonado por outra mulher e já não ama sua noiva, eleita pela família, ou você então fez votos de castidade?
Não o estou reconhecendo, nem entendo sua inexplicável mudança.
Lionel não respondeu imediatamente.
Percebi apenas que ele estava hesitante e insisti.
Subitamente ele se decidiu, agarrou-me a mão e apertou-a forte.
- Eu sei, Alisei, que você é meu amigo, por isso vou lhe contar a verdade.
Prometi a mim mesmo ser uma outra pessoa; percebi que levava uma vida dissipada e indigna — uma dádiva valiosa do Pai Celeste — e que estava me tornando bestificado.
Ao invés de ascendermos à luz, da qual fomos criados, passamos o tempo bebendo, comendo e buscando prazeres; em outras palavras: vivemos excitando todos os instintos carnais baixos.
Só pensamos no corpo, na ânsia de satisfazer o animal que em nós habita, enquanto o seu gestor — o espírito — prendemo-lo a ferro; no entanto, quantas forças divinas e poderes misteriosos se espreitam nesse súpero e imortal soberano.
Fui cego e jamais suspeitei dos tesouros inesgotáveis em mim nidificados, que me ajudaram a avançar no caminho do aperfeiçoamento; parei de ser escravo dos meus instintos animais.
Ah, Alisei, meu amigo, se você pudesse entrever os perigos que nos espreitam, estudar a ciência da alma, compreender a quantidade das forças desconhecidas que constituem o nosso ser, aprofundar-se em incríveis e terríveis mistérios do outro mundo, você teria se tornado meu fiel companheiro nesta nova vida!
Inspirado, Lionel parecia transformado e seus olhos brilhavam de fé e energia; eu o fitava embaraçado, sem nada entender.
Assegurei-lhe que o assunto me interessava, dizendo que eu queria conhecer justamente a conjugação das circunstâncias que o mudaram radicalmente.
Ele me contou o incidente com Fenimor, as terríveis visões que teve durante a letargia, entre outras coisas.
Disse que o terrível abalo físico e moral deu outro rumo ao seu modo de pensar; ele ficou tomado por uma vontade irresistível de compreender o mecanismo das forças malévolas, vítima das quais fora, e de alcançar os poderes enigmáticos de Vedjaga Singa, que o havia salvo.
Assim, ele insistiu suplicante a Brandle e ao hindu para iluminarem-no; esses aquiesceram, desde que Lionel confirmasse a sinceridade de suas intenções através de testes exigidos.
Após uma severa provação ao longo de alguns meses, Vedjaga Singa introduziu-o na irmandade misteriosa, nos arredores de Londres, onde se aceitavam apenas buscadores da verdade sérios e ardorosos.
A irmandade, cuja existência é totalmente desconhecida, é um centro de onde saem os missionários, dignados em propagarem a luz entre os irmãos, cegos em sua ignorância e paixões.
O que ouvi dele fez-me esquecer da bebedeira, para a qual eu fora convidá-lo...
Diante de mim se descortinavam novos horizontes e, de repente, senti a existência do mundo invisível que nos cerca, de onde viemos e para onde vamos, após uma vida terrena e fugaz...
E se ele estivesse certo?
Pois, de facto, era insensato e criminoso transformar em bacanal a nossa vida espectral e passageira, sempre à mercê da morte!...
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 08, 2016 7:24 pm

Então, a educação da alma, infelizmente desdenhada, era uma necessidade, um dever nosso...
Passei com Lionel a noite inteira conversando.
Quando nos despedimos, o dia estava clareando e em mim assomara-se uma enorme vontade de estudar a ciência da alma.
Lionel forneceu-me livros, que devorei avidamente, e com isso fui penetrando no mundo diferente, de cuja existência nem sequer suspeitava.
Só então compreendi o profundo sentido das palavras de Cristo:
"Nem só de pão vive o homem".
Aos poucos comecei a evitar a sociedade que antes tanto procurava; as festas tornaram-se-me repugnantes como que poças de lama, pois eu sabia dos miasmas venenosos, emanados das orgias.
Desisti também dos alimentos pesados e prejudiciais à carne, tomando nojo dos cadáveres em decomposição que comemos; essa abstenção proporcionou-me um bem-estar de verdade.
Aproximei-me mais de Brandle e Vedjaga Singa; eles me apoiaram e suas palestras profundamente instrutivas fortaleceram-me a decisão de tornar-me um outro homem.
Aos poucos, eu me muni de coragem e pedi a Brandle para ser admitido na irmandade misteriosa, já que ali só eram aceites pessoas de boas intenções.
Ele me respondeu que aquilo dependia de Vedjaga.
O hindu misterioso, ao chegar meia hora mais tarde, parecia ter lido os meus pensamentos e disse-me, sorrindo:
- O senhor quer ingressar em nossa pequena comunidade, aliás pouco conhecida?
Conhece o caminho até ela?
- Não — respondi.
Eu sei que o céu existe, mas quem poderá encontrar o caminho para o paraíso, sem um guia?
Ele deu-me então uma prova de seis semanas.
Durante esse período, eu deveria estudar alguns livros de iniciação, aprender a me concentrar, habituar-me à escuridão e silêncio e submeter-me ao tratamento médico.
Após suportar a prova e tendo merecido a aprovação do mestre, fui honrado com sua promessa de levar-me à reunião seguinte.
A semana que antecedia este evento passei com Lionel.
Ele me fez tomar banho de imersão duas vezes por dia, adicionando na água um estranho líquido fosforescente; alimentei-me exclusivamente de pão e leite. Finalmente chegou o dia aguardado impacientemente.
À tardezinha, fui com Lionel no automóvel dele e — coisa estranha! — adormeci imediatamente.
Quando acordei, vi-me num quarto de paredes escuras, suavemente iluminado por abajur.
Estava deitado num sofá de estofos de seda; esfreguei os olhos sem entender como tinha parado naquele lugar desconhecido.
Subitamente, lembrei-me de ter tomado carro para ir com Lionel para a reunião da irmandade.
Acabrunhado, sentei-me no sofá; nisso, mister Brandle interrompeu os meus devaneios.
- Vamos! Vou apresentá-lo aos mestres — disse, pegando-me pelo braço.
Através de uma galeria sem janelas, adentramos uma sala oval, no fundo da qual se encontrava um nicho fundo e amplo, drapeado por pano vermelho.
Ali, na altura de um degrau, havia sete cadeiras em veludo, em semicírculo, ocupadas por homens em longos trajes brancos e turbantes de musselina.
Seus rostos brônzeos eram do tipo oriental.
Depois eu soube que, entre aqueles adeptos da ordem superior, na maioria hindus, havia um árabe, um egípcio e um tibetano.
Seus nomes e o seu passado não sei até hoje, com excepção de Vedjaga Singa, se é que esse nome não é inventado; todos eram chamados simplesmente por mestres.
Não pude despregar meu olhar daqueles homens majestosos, dos quais emanavam serenidade solene e bondade infinita; os olhos insondáveis feito abismo respiravam força de vontade hercúlea — o que me fez, involuntariamente, curvar-me diante deles.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 08, 2016 7:24 pm

Sem exagero, confesso que naqueles homens enigmáticos a límpida beleza interior e a grandeza de seus seres brilham até através do corpo.
Jamais m e senti tão insignificante, ignorante, mísero e pesado feito uma rocha.
Eu tinha dificuldade de respirar e parecia que, por entre os turbantes, filtrava-se um clarão azul dourado.
Conscientizei-me da minha própria nulidade:
um constrangimento que deve experimentar um mendigo, a quem foi dada a permissão de entrar num rico salão.
Caí de joelhos diante do estrado, sufocando-me de choro convulsivo.
No mesmo instante, senti na cabeça mão cálida e firme; em seguida, alguém me fez levantar.
Era um dos mestres.
Ele me beijou na testa, abençoou-me e disse cordialmente:
- Receba o ósculo fraterno!
Seja firme, alma humana que se desperta para contemplar a beleza celestial.
Olhe para seus orientadores e irmãos, seus mestres e amigos!
Em seguida, cada um deles me osculou, abençoou; o que falou primeiro, disse:
- Ouça, meu filho, e grave as palavras em seu coração, pois, simultaneamente, eu lhe transmito os pensamentos de seus mestres.
Nesta hora grandiosa, em torno de você se formará um círculo mágico; nós nos tornaremos seus próximos e você receberá o baptismo espiritual, que o unirá fluidicamente a nós.
Cada um ensinará a você de acordo com sua especialidade na ciência.
Entretanto, não espere que isso o livrará de lutas e provações; é bem possível que você tropece algumas vezes, torne-se vítima de suas próprias fraquezas, uma vez que a queda faz parte da vida de um homem, aos pés da escada.
A carne é um monstro terrível, que tolhe o caminho à ascensão, mas isso não deve afrouxar sua coragem.
Após cada queda, cada impetuosidade ou fraqueza, sejam elas milhares, aquele que busca a luz deve se levantar e retomar a luta contra os demónios da carne, para avançar até a vitória completa — uma vitória bela e grandiosa sobre si mesmo.
E agora, meu filho, faremos o baptismo místico, que o unirá à "Irmandade do Sol Nascente".
Vá e prepare- se para a cerimónia!
Mister Brandle e Lionel pegaram-me pelas mãos e me levaram ao quarto contíguo, onde me despi; depois, eles me colocaram uma túnica sem mangas, de modo que fiquei com o pescoço, braços e pés desnudados.
A seguir, levaram-me à outra sala, também circular, onde estavam os sete mestres e mais outros membros da irmandade — todos em vestes brancas.
Nas mãos, eles empunhavam velas de cera multicolores, das sete cores do arco-íris, e no peito envergavam estrelas em correntes de ouro e prata.
Mais tarde eu descobri que as diferentes correntes e cores de vela significavam o grau da iniciação obtida.
Brandle e Lionel levaram-me directamente aos mestres.
Dois deles ergueram-me, feito criança, e mergulharam-me por três vezes com a cabeça na água fria do tanque, de sorte que fiquei instantaneamente com a respiração sustada.
Finalmente, fiquei com a água até o pescoço; os mestres formaram um círculo em torno do tanque e entoaram um canto.
A estranha e poderosa melodia do hino sacudia cada nervo meu.
Ao término do canto, um dos mestres perguntou:
- Você tem medo de água?
- Não — respondi.
- Você tem medo de fogo?
Não tive tempo de responder:
a água começou a escoar e o tanque, em poucos segundos, ficou vazio.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 08, 2016 7:24 pm

- Queime, queime, queime o invólucro rude da carne e substitua-se por vestes ígneas — pronunciou majestosamente o mestre.
No mesmo instante, a túnica branca que eu vestia se incendiou, envolvendo-me por chamas; todavia eu não senti nenhuma dor, apenas um calor intenso.
Em resposta, quase gritei:
- Não, eu não tenho medo do fogo!
Imediatamente senti suaves picadas e uma espécie de corrente de fogo se espalhou sob a minha pele.
Então os mestres me tiraram do tanque, vestiram-me numa túnica bordada a ouro, cingiram-na com faixa prateada e no pescoço penduraram uma estrela em corrente de prata.
Em seguida, levaram-me para uma capela, onde eu li um juramento de "à medida de minhas forças respeitar as grandes leis que governam o Universo, gerar amor, ser magnânimo e piedoso, tornar-me um 'catador de almas', difundindo a luz adquirida dos conhecimentos entre os irmãos pela humanidade, cegos pelo egoísmo e ignorância".
Quando terminei o meu juramento, um mestre pegou do altar um cálice, encimado por crucifixo, e deu-me de beber um líquido vermelho e tépido, após o que fui dominado por bem-estar indescritível.
A reunião terminou por um repasto vegetariano, durante o qual os irmãos cantaram em coro; os mestres conversaram comigo e com outros buscadores da verdade.
- Príncipe — disse Vadim Víktorovitch, aproveitando uma pausa —, o senhor não tem medo de provocar o descontentamento de seus orientadores, revelando para um profano os mistérios a que teve acesso?
- Não — respondeu Eletsky, sacudindo a cabeça —, eu posso falar disso, desde que seja para salvar uma alma.
Hei-de confessar que justamente o senhor, doutor, eu gostaria de salvar.
O senhor é um homem da ciência, uma pessoa bastante iluminada, caída por suas paixões animais num atoleiro que ameaça engoli-lo.
O senhor se acha seriamente ameaçado e eu gostaria de iluminar-lhe a alma.
- Agradeço-lhe por seu interesse, a despeito de toda a imundície moral que o senhor vê em mim — respondeu o doutor, corando intensamente.
- Não precisa se envergonhar, pois também fui vítima de fraquezas da carne e traições covardes.
Não fosse o mestre, seria também um renegado, um peão mísero no reino das trevas.
A minha queda foi mais imperdoável, porque os meus olhos já estavam entreabertos e eu tinha antevisto a luz.
Mas continuarei com o meu relato e, inicialmente, transmitirei a essência da primeira lição aprendida.
"A primeira tarefa daquele que aspira à verdade e luz deve consistir na transformação do sangue" — disse-me o mestre.
"Saiba, meu filho, que existem vários tipos de sangue.
Pegue, por exemplo, o sangue vulgar de um homem material, obcecado por paixões animais; ele quase não difere do sangue de um animal, porque está cheio de substâncias em decomposição, tal qual qualquer ser que se alimenta de cadáveres.
Em sua presunção, o homem abomina hienas e chacais pelo facto de eles se alimentarem de carniça; no entanto, o que faz o próprio homem?
Ou será que ele imagina que um rosbife, um filé mal passado ou uma ave morta e conservada por algum tempo não é uma carniça?
Entretanto, ele deleita-se de cadáveres conservados em sal, defumados, temperados, e assim por diante.
O gosto embotado do glutão bestificado não sente o mau cheiro que se espalha desses corpos, cuja decomposição envenena com micro-organismos tóxicos o seu sangue e torna-se a fonte de inúmeras doenças.
Como obter uma chama limpa de massa quimicamente envenenada?
Ao contrário, o sangue de pessoas moralmente superiores, dos ascetas e homens santos, depurado das essências do vulgar amálgama, é saturado de electricidade e é receptivo; ele é acessível ao bafejo das correntes do espaço, torna-se sensitivo a quaisquer impressões, eleva o corpo espiritual dessas criaturas superiores à esfera da luz e bem-aventurança, onde a alma se refresca e haure forças novas.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 08, 2016 7:24 pm

Mas atravessar o caos da primeira faixa que envolve a Terra é a mais dura provação para o espírito do homem; este é um caminho cheio de sacrifícios por entre as fileiras dos exércitos de seres asquerosos e demoníacos."
- Naquele mesmo dia, o mestre me deu este anel, que nunca tiro, e uma cruz com corrente metálica, que carrego no pescoço embaixo da camisa.
Essa cruz é incrível.
Executada a partir de um metal desconhecido, assemelhando-se a ouro, ela reverbera todas as cores do arco-íris, feito madrepérola.
Eu sinto sua presença quando faço orações, quando leio livros sérios ou quando medito.
Ao praticar alguma boa acção, ela fica tépida, acalentando prazerosamente o meu corpo; no entanto, quando ajo mal ou me rendo a alguma fraqueza, ela se torna fria feito gelo e pesada como chumbo.
Este orientador silencioso me aponta o caminho certo; o mestre explicou-me que tais mudanças são decorrentes das emanações dos meus actos e pensamentos.
Os meses subsequentes foram os mais felizes da minha vida.
Semanalmente, eu frequentava as reuniões da Irmandade do Sol Nascente, recebia as instruções de um dos mestres para os estudos da semana vindoura.
Os estudos eram extremamente interessantes e, à medida que se processava a minha iluminação, eu me sentia invadido de energia e força e, diante de mim, descortinavam-se os novos e realmente incríveis horizontes.
Paralelamente aos estudos esotéricos, continuei os trabalhos arqueológicos, incentivado pelos guias; Vedjaga Singa, com seus relatos e explicações, derramava uma luz completamente diferente sobre os mistérios do passado, como se ele tivesse vivido naqueles tempos remotos.
Na ocasião, abriu-se em Londres um congresso arqueológico e eu conheci o barão Kosen, que, aliás, era um velho amigo do meu pai.
Meu trabalho com certos tesouros da Antiguidade excitou a tal ponto seu interesse, que ele se afeiçoou a mim.
Certa vez, quando estávamos trabalhando juntos, ele conheceu Vedjaga e, por sua dedicação e interesse ao passado da índia, granjeou a disposição do mestre que, sendo bom por natureza, começou também a orientar o barão.
Esqueci de lhe mencionar que os mestres, após permanecerem alguns anos em Londres, abandonaram a Irmandade e voltaram para a pátria, sendo suas vagas preenchidas por novos membros orientadores.
Certa feita, Vedjaga Singa me disse que também ia embora.
Fiquei triste com a notícia.
Notando isso, o mestre sugeriu-me que eu viajasse com ele até certo ponto, conhecesse os locais mais interessantes e, ao final dessa viagem, fosse visitá-lo em seu palácio himalaio.
O convite me deixou extasiado e, sem perder tempo, comecei a me preparar para a jornada.
O barão, entretanto, ficou tão enciumado, que Vedjaga, rindo a valer, convidou-o também.
Decidimos conhecer primeiro o Ceilão, onde nasceu meu mestre.
- É um lugar incomparável por sua beleza e importância arqueológica.
Encontrarão ali os hábitos mais curiosos e não se arrependerão da viagem — acrescentou o mestre.
- Assim, saímos e desembarcamos em Colombo; de lá, começamos a nossa excursão para o Pico de Adão, Kandy, etc...
Não vou lhe descrever agora a nossa viagem pela ilha mágica, visitas às ruínas de Anuradhapura, a antiga capital dos rajás da primeira raça, ou as viagens pela província de Katragam, com pagodes antiquíssimos em profusão, que deixaram em mim impressões impagáveis.
Centrarei o meu relato, resumidamente, na aventura com o tigre.
Estávamos viajando pelo distrito de Tamblegam, onde, nas redondezas do lago Kandeli, ainda se preservaram as florestas virgens impenetráveis, enormes pântanos em meio à selva e redutos de sucuris gigantescas, elefantes selvagens, tigres e outras feras.
Ao cabo de algumas excursões por aqueles locais, íamos nos separar:
o barão ia à Europa, enquanto eu passaria alguns meses no palácio de Vedjaga Singa, em seu palácio no Himalaia.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 09, 2016 7:41 pm

Estivemos caçando nas selvas, estudamos alguns costumes locais.
Certo dia, tive a ideia de passear pela floresta virgem.
Não tínhamos medo de cobras e animais silvestres, pois o mestre nos forneceu algumas tochas que recendiam um odor tão forte, que repelia os répteis.
É claro, só utilizávamos as misteriosas tochas em casos extremos.
Sendo acesas, queimavam sem chama, podendo ser apagadas se cobertas por pano umedecido em certa essência, também fornecida pelo mestre.
Assim, certa manhã, antes de alvorecer, partimos.
A nossa pequena caravana consistia de dois elefantes, dez carregadores hindus e um guia local.
Este nos assegurou que atravessaríamos a floresta em segurança, pois os velhos rajás haviam aberto inúmeras trilhas e construíram ao longo do caminho torres octogonais de alvenaria que serviam de abrigo aos viajantes para pernoitarem naquele local perigoso, cheio de feras.
Uma daquelas trilhas, abandonada e esquecida por séculos, estaria, segundo ele, fechada por mato impenetrável, sendo desconhecida aos "brancos", que jamais aventurariam naquela floresta selvagem; mas, ele, o corajoso Ramassami, jurava conhecer perfeitamente a trilha que cruzava a floresta.
Apesar da ideia ser atraente, a jornada era perigosa e arriscada, tanto é que quase íamos desistir, se não ficássemos seduzidos com as palavras de Ramassami.
Ele nos disse da existência ali de um palacete abandonado, jamais visto por um europeu, escondido feito um castelo da bela adormecida na densa floresta virgem.
No início cruzamos os matos; a grama alta, as ramagens secas e a cana-de-açúcar não passavam da altura das ancas dos elefantes.
Depois, os enormes bambus de até cinquenta pés de altura eram tão densos, que não se podia ver nada adiante de quinze ou vinte metros.
Aos poucos, a trilha tornou-se ascendente; os bambus e as moitas pantanosas deram lugar a vegetação diferente:
eram árvores cobertas de flores coloridas e odor entorpecente.
Por fim, ganhamos a sombra das árvores seculares de uma enorme floresta, que cobria o altiplano e, no primeiro dia, tudo correu bem.
Contando com a força de nossos magníficos elefantes adestrados, não temíamos nem tigres, nem panteras, nem búfalos, conquanto fôssemos protegidos dos répteis pelas tochas miraculosas.
Ramassami de facto encontrara o caminho, ainda que ele fosse escondido pelo mato e vegetação densa.
Passamos a noite numa das torres octogonais, que lhe citei antes.
Apesar de o abrigo ter sofrido com o tempo, era seguro.
Não obstante, aquela noite foi uma experiência terrível.
Os rugidos das feras e o urro dos elefantes, pressentindo perigo, não nos deixaram dormir.
Já estávamos arrependidos do nosso intrépido empreendimento, sem saber o que nos aguardava.
O dia seguinte iniciou-se com uma desgraça.
O nosso pobre guia, querendo se localizar melhor, afastou-se do abrigo e, subitamente, um grito desatinado anunciou-nos que algo de ruim acontecera com ele.
Picado por uma cobra, ele morreu minutos depois.
Estou omitindo alguns detalhes, mas o senhor há-de imaginar a nossa situação.
Resolvemos voltar; mas, horas depois, convencemo-nos de que estávamos perdidos.
Com toda a certeza, cedo ou tarde, iríamos perecer, se não conseguíssemos sair da floresta.
Mas que rumo tomar naquela floresta impenetrável?
Nem sabíamos retornar à torre que nos abrigara e, sem ela, o nosso fim era certo.
Desesperados, andamos às cegas, perplexos com a indiferença dos hindus, quando finalmente deixamos os elefantes andarem sozinhos, com a esperança de que o instinto dos animais inteligentes os levasse a alguma saída.
O sol estava a pino, a julgar pelos feixes ígneos que, por vezes, filtravam-se através da copa das árvores.
Foi quando, inopinadamente, ocorreu um encontro que nos pareceu salvação.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 09, 2016 7:41 pm

Eram dois faquires:
um — encantador de serpentes, coberto de cobras e répteis peçonhentos;
o outro — um homem sem um dos braços, magro e seminu, segurava um tigre pela coleira.
Devo dizer que um ano e meio antes da nossa viagem eu estudei a língua do lndostão e me comunicava nela livremente, o que facilitou o meu relacionamento com os aborígenes.
O barão, por mais que tivesse tentado estudar a língua, falava mal; qualquer um que entabulasse uma conversa com ele, descobriria que ele era estrangeiro.
Assim, eu me dirigi aos faquires, expliquei a nossa situação e pedi que eles nos indicassem o caminho.
Por cerca de um minuto, eles confabularam entre si e um deles me disse que estávamos muito longe da saída e só chegaríamos lá altas horas da noite; que atolaríamos num pântano de turfa, se não quiséssemos achar um abrigo mais perto.
Eles se ofereceram então a nos levar até um pagode nas proximidades, onde pernoitaríamos e, na manhã seguinte, eles nos acompanhariam para fora da floresta.
Não nos sobrava outra coisa senão concordar.
Prometendo aos faquires uma recompensa generosa, colocamo-nos a caminho.
O pagode a que fomos levados devia ser muito antigo; em torno dele se espalhavam diversas construções e tudo era envolto em vegetação exuberante.
Sob o pórtico das colunas, erguido na densa selva, divisava-se uma estátua gigantesca de uma mulher sentada, com cabeça de leão, e eu nela reconheci a deusa Káli, a consorte maligna do deus Shiva, devoradora de gente e demónios.
A representação da terrível deusa deixou-me aterrado; só fiquei mais calmo depois que um velho brâmane, após conversar com os faquires, convidou-nos gentilmente para entrar e descansar.
Fomos levados a um dos prédios, contíguo ao pagode, onde nos ofereceram refrescos.
Trataram-nos amavelmente, mas com grande reserva; ao nosso pedido de ver o interior do pagode, recusaram categoricamente, assim, limitamo-nos a examinar a antiga construção externamente.
No átrio, vimos faquires mendigando e, num terreno, junto à estátua de Káli, um grupo de jovenzinhas — lindíssimas em sua maioria -, por certo eram as bailadeiras do templo.
À noite, um dos brâmanes propôs que assistíssemos à dança das sagradas dançarinas, no que, é claro, concordamos, sabendo que tais espectáculos proporcionavam uma receita para os brâmanes.
Depois de jantar, estávamos fumando deitados nas esteiras, quando, de repente, a cortina da porta se levantou e surgiram quatro mulheres; duas se sentaram no chão com instrumentos musicais — algo como tamborim e um aro de madeira com cordas, que deveria ser uma espécie de guitarra.
As bailadeiras tinham de onze a quinze anos de idade, ou seja, no florescer da beleza.
Encantei-me, principalmente, com uma delas, que parecia dançar só para mim.
Na juventude, as moças indianas são particularmente belas, sobretudo pelas formas, já que seus corpos se desenvolvem livres; mas a jovem criatura que estava parada diante de mim, numa pose de indescritível graça plástica, parecia uma estátua viva.
No pescoço, nos pulsos e nos tornozelos fulgiam gemas; sua única vestimenta era um véu de gaze orlado de ouro, e os cabelos de beleza deslumbrante quedavam abaixo dos joelhos.
Já havia visto muitas bailadeiras bonitas na minha vida, mas nenhuma podia ser comparada a ela; jamais encontrei olhos tão imensos, flamejantes de algo diferente. Ou seja: ela personalizava a própria tentação...
Não vou me deter em pormenores, basta dizer que Vairami — assim se chamava a bailadeira, enfeitiçou-me.
No dia seguinte, quando soubemos sem muita surpresa que os elefantes estavam enfermiços e que era preciso adiar a nossa volta por dois ou três dias, nem fiquei aborrecido...
A soma paga pelas danças aparentemente contentou os brâmanes e a minha promessa de contribuir com o triplo para o templo, como sinal de reconhecimento pela hospitalidade, foi aceita sem objecções.
Permitiram-me, irrestritamente, gozar da companhia de Vairami; mas, toda vez que ela me oferecia uma xícara de vinho, eu era tomado de volúpia extasiada.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 09, 2016 7:41 pm

Vairami também se incendeu de uma paixão por mim cuja profundidade e obstinação eu não imaginava; normalmente, essas sacerdotisas de templo e amor, ainda que sejam voluptuosas, não se apaixonam.
Entretanto, quando a paixão amainava e a minha razão intimava seus direitos, eu me sentia deploravelmente.
Tal amor desarrazoado era proibido para discípulos da Irmandade do Sol Nascente e eu sabia o que me diria o mestre, se descobrisse as minhas aventuras.
O que mais me inquietava era que, na primeira vez em que a bailadeira dançou diante de mim, a cruz no meu peito ficou gelada e, uma manhã, ela simplesmente desapareceu junto com o anel.
Além disso, apesar da exuberante beleza de Vairami, havia nela algo que repelia; vez ou outra, seus olhos profundos feito abismo incendiam-se de luz fosfórica e seu rosto tomava feições cruéis e assustadoras.
Nestes minutos, seu olhar assemelhava-se terrivelmente ao do seu companheiro inseparável — um tigre real, cuja presença me sugeria — devo confessar pavor e repulsa.
A enorme fera era mascote de Vairami.
O tigre a obedecia só com o olhar e parecia entender-lhe as palavras; esparramava-se com ela na esteira, feito um gatinho, e me lançava olhares ferozes, rugindo sempre que eu me aproximava.
Quando comentei com Vairami a minha aversão à fera, ela disse:
- Criei Pratissuria desde filhote, quando ele nem tinha desmamado; ele é manso feito cordeiro.
Se eu ordenar, ele lamberá os seus pés ou então, se eu quiser, poderá despedaçá-lo.
Assim, saab (senhor), ame e não abandone a pobre Vairami, caso contrário, ela morre.
Dizendo isso, os olhos de Vairami pareciam com os do tigre.
Eu estremeci quando a terrível fera se arrastou até mim e começou a lamber a minha mão, obedecendo as determinações dela.
Passavam de dez dias que estávamos no pagode e a nossa viagem de volta era sempre adiada por diferentes pretextos.
Apesar da minha paixão fogosa, comecei a m e sentir prisioneiro e atribuí os adiamentos aos desígnios de Vairami, pela posse da qual queriam que eu pagasse.
Transmiti ao barão as minhas suspeitas; ele apenas riu, pois estava extasiado:
permitiram-lhe realizar as escavações das ruínas perto do pagode e ele já não queria ir embora.

1. William Crookes, cientista inglês, junto com outros 23 cientistas, fez experiências de "Materializações" do espírito de uma princesa indiana — Katie King.
Ele foi o descobridor do elemento Tálio e agraciado com o prémio Nobel. (N.T.)
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 09, 2016 7:42 pm

~IX~

Uma noite Vairami não apareceu, alegando serviço no templo.
Não tomei o vinho deixado por ela, desconfiado de que este m e deixava excitado e me mergulhava num sono mortal.
Não sei o motivo, mas eu era perseguido e assaltado por um medo indefinido de perigo invisível.
Subitamente, no meio do silêncio da noite ouvi uns passos e, depois, um barulho de vozes.
Saltei da cama e fui até a porta; ali, escondida na sombra, vi uma pequena caravana:
alguns hindus, dois europeus a cavalo e furgão com bagagem.
Eram dois jovens ingleses, falando alto em sua língua e com dificuldade de se explicarem com os brâmanes por meio de intérprete.
Mas o que me deixou assombrado foi um clarão vermelho vivo que vinha do lado da floresta, onde estava a estátua de Káli.
Surpreso, percebi que justamente para aquela direcção eram levados os ingleses, cada um escoltado por dois hindus falantes.
Intrigado, escondendo-me sob a sombra das árvores, segui o grupo que se foi acercando da estátua de Káli.
O prado era clareado por luminárias em vasos pétreos, onde ardia alcatrão; a figura aterrorizante da deusa parecia envolta em luz sanguinolenta.
Diante do ídolo dançava Vairami; algumas bailadeiras decoravam com grinaldas os pés da estátua.
outras cantavam e brincavam.
Vairami estava festivamente engalanada, fulgindo em gemas.
Desta vez, porém, eu permaneci indiferente à sua beleza; ao contrário, fiquei pasmo do que vi depois.
Prosseguindo em sua dança, a bailadeira deu duas voltas em torno dos ingleses extasiados; quando ela foi passar por eles novamente, tirou rapidamente da cinta um cordão comprido de seda vermelha com nó corredio e atirou-o, por trás, no pescoço de um dos britânicos.
Um dos hindus, parado perto da vítima, agarrou a ponta do cordão e a puxou até derrubar o infeliz no chão; a mesma sorte teve o seu companheiro.
Só então compreendi a terrível realidade:
havíamos caído nas mãos dos tugues(7), temíveis degoladores indianos, que haviam trazido em oferenda à sua divindade fatídica os pobres viajantes.
Virei-me e saí correndo.
Nisso, um urro horripilante sacudiu o ar e rolou feito eco; a alguns passos da habitação fui alcançado, em alguns saltos, pelo tigre.
Ele me derrubou e, continuando a urrar, pôs as patas dianteiras no meu peito.
O meu último pensamento foi Vedjaga Singa.
Após um chamado desesperador por meu mestre, perdi os sentidos.
Ao me recobrar, eu me vi deitado num subterrâneo semi-escuro.
Um pequeno lampião na parede mal iluminava uma parte do ambiente.
O fim do subterrâneo, com colunas grossas que sustentavam o tecto, perdia-se na escuridão.
Perto de mim havia alguém estendido, de rosto encoberto com as mãos, no qual reconheci o barão.
Ao tocá-lo com a mão, ele se retesou e disse, em voz fúnebre:
- É o nosso fim, pois estamos nas mãos dos tugues e, se ainda estamos vivos, foi graças à sua boa Vairami.
Ela o ama tanto!
O barão contou que, acordado por urros do tigre e gritos alucinados, correu para a saída e viu-me deitado no chão; em volta apinhavam-se alguns brâmanes que, furiosos, sacudiam facas, com intenção de matar-me.
Mas, ao lado, cobrindo-me com o corpo, estava Vairami e, diante dela, o tigre prestes pelo visto a atacar a quem ela ordenasse.
A voz metálica da bailadeira sobrepujava-se à algazarra geral, ainda que o barão não tivesse entendido o que falavam, mas a fúria dos brâmanes foi aos poucos diminuindo.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 09, 2016 7:42 pm

- O que eles decidiram a respeito de nós, não sei dizer — ele prosseguiu.
Mas devemos esperar pelo pior.
Sei apenas que dois dos demónios pretos o levantaram e trouxeram para cá; eu fui agarrado em seguida e trazido junto.
O tigre seguiu-nos feito um guarda-costas e agora está deitado em cima da escada, vigiando.
Oh, meu Deus, em que cilada caímos! — lamentou-se o pobre Kosen.
Tal como ele, eu compreendia que a nossa situação era desanimadora.
Estarmos sozinhos naquele subterrâneo com a temível fera já constituía um perigo mortal; seus rugidos surdos indicavam que o nosso terrífico vigia estava vigilante.
Subitamente, lembrei-me da derradeira chance de salvação.
Quando nós nos despedíamos de Vedjaga, ele me deu um estojo de marroquim e disse:
"Fique com esta corneta; em caso de perigo mortal, sopre nela por três vezes, pronunciando o meu nome, e vocês receberão socorro".
Depois que me desapareceu o crucifixo, sinal de que os perigos andavam me rondando, eu sempre carregava aquele estojo no bolso ou pendurado no pescoço.
Remexi temeroso o bolso e suspirei aliviado ao me convencer de não tê-la perdido; ninguém se apropriara do objecto sem preço.
Chegara a hora de utilizar-me dele, já que a situação não poderia ser pior.
Então eu tirei a corneta e examinei-a; parecia de ouro e era macia feito pele, sua ponta era de esmeralda.
Sem perder tempo, eu a levei à boca, soprei por três vezes pronunciando o nome do mestre e estremeci de pasmo.
A corneta começou a insuflar-se como por vento, e de seu interior ouviam-se sons estranhos, ecoando em tons diferentes o nome do mestre, num crescendo.
À medida que aumentava aquela música incrível, todo o ar tremia feito harpa eólica.
De súbito, ouvi a voz sonora do mestre:
- Coragem!
Conheço a situação de vocês e a ajuda está vindo.
A corneta escapou de minha mão e eu me recostei impotente na parede.
Estaria ficando louco?
De que maneira seria possível ouvir a voz do mestre num subterrâneo de um pagode perdido em uma floresta virgem?
A minha razão se recusava a compreender o mistério, mas eu estava aliviado; não duvidei nem por um segundo de nossa salvação e comentei isso com o barão.
Estávamos conversando a meia voz, analisando que expedientes o mestre utilizaria para nos salvar, quando subitamente, no fundo do subterrâneo, brilhou uma luz vermelha e fumacenta e eu vi Vairami correr em nossa direcção, com uma tocha na mão.
Com paixão selvagem, ela lançou-se ao meu pescoço e começou a me beijar, depois disse que salvaria as nossas vidas, sob certas condições.
Eu permaneci frio.
Lembrei-me do gélido e cruel sorriso com que ela laçava o pescoço do pobre inglês.
Eu intuía que aquela bela bailadeira brincava comigo, feito um gato com rato, e que nas profundezas daqueles olhos, húmidos de paixão, se espreitava crueldade impiedosa; se eu, na qualidade de seu capricho, um dia a entediasse, suas mãozinhas que cingiam meu pescoço m e enforcariam com o cordão de seda vermelha.
Entretanto, não era seguro provocar a tigresa; assim, fingindo-me tocado por sua bondade e agradecendo-lhe pela protecção, eu lhe perguntei em que termos ela me dadivava a vida.
"Você presenciou imprudentemente os sacrifícios à deusa e poderá denunciar os nossos irmãos, atraindo a represália das tolas leis dos "brancos".
Se ficar aqui para sempre, não poderá prejudicar-nos; o meu amor iluminará sua vida, ficando o futuro nas mãos da deusa, piedosa com sua sacerdotisa."
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 09, 2016 7:42 pm

Fiquei com os cabelos em pé só de pensar em viver confinado num porão, servindo aos caprichos da bruxa lasciva...
Não tive tempo de responder, pois neste instante Pratissuria soltou um rugido tão forte que as paredes tremeram.
No topo da escada faiscou um feixe de luz azulada, iluminando o tigre que, eriçado, fustigava as ancas com o rabo.
Vairami saltou do lugar.
Seu rosto, transfigurado por fúria, paixão e pavor, estava realmente assustador.
- Pratissuria! — berrou ela, erguendo a mão e dizendo palavras incompreensíveis que, certamente, eram ordens para o animal, pois este, urrando surdamente, lançou-se num salto contra mim, derrubando-me; senti sua respiração quente e a dor das garras penetrando em meu corpo.
De chofre, não se sabe de onde, um raio faiscante atingiu a cabeça do animal; seus medonhos olhos esverdeados imediatamente embaciaram e ele resvalou sobre mim, quase me esmagando com seu peso.
Imediatamente, porém, erguido por uma força invisível, o tigre foi atirado para longe, caindo inânime e esticando as patas.
Então, eu vi Vedjaga Singa de pé na escada.
Sua cabeça estava envolta num largo clarão azulado; atrás dele, postavam-se dois homens de branco, mas depois disso não vi mais nada: perdi os sentidos...
Ao recuperar a consciência, vi-me deitado nas almofadas do baldaquim sobre o lombo de um elefante; um dos ombros estava com atadura e eu sentia uma fraqueza extrema.
Ao meu lado, o barão, pálido e abalado, mas são e salvo.
Ele me contou que também desmaiara no momento que o tigre se atirou sobre mim e só voltara a si quando estava no prado, diante do pagode.
Ele não vira o rajá, mas as pessoas que cuidaram dele e que fizeram o curativo no meu ombro, arranhado pelo tigre, intitularam-se seus servos e tinham recebido instrução de nos levar para um de seus palácios.
Ele não viu também nem Vairami, nem qualquer brâmane do pagode; os nossos elefantes seguiam-nos com as tralhas, em companhia dos servos do rajá.
Depois de dois dias de viagem, chegamos a um espaçoso palácio, com jardim, onde fomos acomodados com muito luxo e comodidade; ali, descobrimos que Vedjaga Singa também estava lá.
Eu me sentia bem melhor e o ferimento no ombro cicatrizava com rapidez incrível.
À noite, o mestre me chamou à sua biblioteca e me recebeu com a cordialidade habitual, devolvendo-me o crucifixo e o anel.
Quando agradeci com lágrimas nos olhos pela nossa salvação, ele apenas sorriu e disse que cumprira o dever, salvando o discípulo e o membro da Irmandade.
Em seguida, ele me contou que os faquires nos levaram ao pagode no intuito de sacrificar-nos para a deusa; mas o relato dos nossos carregadores sobre as tochas que espantavam os répteis inibiuos, visto que tais talismãs só poderiam pertencer aos iniciados de grau superior por eles temidos e que condenavam e proibiam seus assassinatos.
Mais tarde, eles iniciaram uma investigação sobre nós, que não fora concluída até o momento do último acto do drama.
"E agora, meu filho, devo-lhe dar uma notícia que o deixará amargurado", acrescentou ele.
"Eu não posso, conforme prometi antes, levá-lo comigo ao palácio himalaio; a atmosfera daquele abrigo calmo não é adequada aos fluidos envenenados que lhe saturaram a aura; você mesmo não suportaria ficar lá."
Ao perceber a vergonha e o desespero que me deixaram mudo, ele apertou a minha mão amistosamente e disse sorrindo:
"Não desanime, meu filho!
A possibilidade de visitar-me não está perdida, apenas adiada.
Você deverá se purificar e, depois, suportar valorosamente a luta que o aguarda.
Sua relação amorosa com Vairami minou-lhe a aura para espíritos baixos e sedentos de sangue da bailadeira; eles se apossaram de você e será necessário algum tempo para livrar-se deles.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 09, 2016 7:42 pm

Dar-lhe-ei as devidas instruções para subjugá-los.
Não o julgo.
Você é jovem e ainda fraco para dominar os instintos da carne.
Aquela jovem era muito bonita, sem dizer que ela apelou a expedientes que o absolvem e fazem compreensível a sua queda.
Equívoco seu pensar que o caminho ao aspirante à luz é suave; os espíritos malignos interpõem-se — em sua jornada e procuram dificultar-lhe a ascensão.
Tal qual a maioria de pessoas de sua estirpe, você levava uma vida despreocupada, consagrando-a à satisfação dos gozos materiais e vícios refinados — valores, por assim dizer, da sociedade moderna.
Todavia, meu filho, esses pecados arrastam consigo um verdadeiro exército de espíritos impuros e, na aura turva e contaminada, fervilham larvas e outras monstruosidades, tal qual num corpo infecto proliferam parasitas.
Está claro que esses "ilustres hóspedes" não queiram abandonar seu hospedeiro e, tão logo este comece a desinfecção, atraindo os fluidos puros, todo esse bando se insurge contra ele.
Em seu caminho surgem obstáculos, tentações, maus pensamentos, ou seja:
eles apelam a tudo para reconquistar a vítima.
Jamais se esqueça de que sem luta não existe vitória, e esta é atrito dos princípios antagónicos, que geram fagulhas.
Se forem fagulhas puras do espaço, expulsando e incinerando o exército hostil, é um sinal da vitória; se gerarem o fogo impuro do sorvedouro, que onera e ata os anseios da alma, será uma derrota.
Em parte, você está armado; sem ser ainda um iniciado, já desenvolveu algumas aptidões e eu o proverei de instruções especiais.
Assim, trabalhe; e, quando estiver depurado, eu o chamarei".
- Não seria uma indiscrição minha lhe perguntar que aptidões são essas? — disse o doutor, quando o príncipe se calou.
- Absolutamente.
Posso, até um certo ponto, controlar a minha vontade e meus instintos.
Às vezes, consigo ver e ouvir o invisível ou ler os pensamentos alheios; por fim, posso sentir e distinguir bons e maus presságios.
Para o senhor, um céptico estudado, tudo isso não passa de balela; mas garanto-lhe que é verdade.
- O senhor se engana, príncipe, deixei de ser céptico, como o era uma semana atrás.
O que aconteceu hoje, sem falar de outros factos estranhos, abalou o meu cepticismo; já não contesto certas coisas gratuitamente, eu só queria entendê-las.
Mas, por favor, termine a sua narrativa!
Estou especialmente interessado nisso depois que tive um sonho estranho, que contarei após.
- Tenho pouco a acrescentar.
Ao me despedir do mestre, resolvemos voltar à Europa; em Colombo, embarcamos num navio que deveria zarpar no dia seguinte.
À noite, informaram-me que um homem me havia trazido duas caixas e pedia que eu o recebesse.
Fiquei surpreso e mandei que o introduzissem.
Era um hindu conhecido meu, que disse ter sido enviado pelo velho Kaziappa, um dos brâmanes do pagode onde quase morremos.
"Trago-lhe, saab, um abraço de despedida e os presentes de Vairami.
Ela não quis viver sem o senhor.
Amando como o amava, ela o resguardou da ira da deusa, dando em sacrifício sua própria vida ao se enforcar diante de sua estatueta de Káli, que vou lhe entregar a seu pedido.
De acordo com o último desejo da falecida, o seu coração foi retirado, os sacerdotes transformaram-no em gema preciosa e a penduram no pescoço da estatueta; assim, ao menos o coração dela permanecerá ao lado do senhor, protegendo-o contra os perigos.
Numa caixa maior, encontrará o corpo de Pratissuria, o tigre favorito da sacerdotisa.
Fulminado com o olhar e a palavra de um iogue, um animal assim morto traz muita felicidade."
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 09, 2016 7:43 pm

Fiquei perplexo.
A morte voluntária de Vairami, queira ou não, inspirou-me uma profunda pena; por outro lado, eu não confiava nos presentes daquela beldade e recusei-me a aceitar as caixas.
"Como, saab?
O senhor rejeita os presentes da sacerdotisa?
Não faça isso!
Caso contrário, a sombra punitiva da defunta será flagelo do navio e de sua desgraça" - observou o hindu, majestoso.
Não tive tempo de responder:
ele inclinou-se diante de mim e saiu apressado.
Chamei-o para que voltasse, mas ele já estava abandonando o barco.
O barão, presente na conversa, ao me ouvir dizendo que eu ia atirar ao mar aqueles presentes sinistros, chamou-me de ingrato, impiedoso e louco.
Censurou-me por eu não dar valor ao amor da jovem criatura e não compreender a poesia daquele ímpeto sincero; pior ainda:
eu ia, feito um bárbaro, perder objectos tão raros e valiosos.
Ele fez uma cena danada e implorou-me para deixá-lo ficar com as caixas, se eu não as quisesse.
Por fraqueza do carácter, eu cedi e ele trouxe para cá essas lembranças funestas, que me causam pavor e receio pela sorte de Maximiliano Eduárdovitch.
Não imaginei, infelizmente, o quanto eram malévolos e perigosos o tigre e a estátua; mas o barão estima-os tanto e é surdo às minhas persuasões — acrescentou o príncipe, suspirando.
- Agradeço-lhe a narrativa, Alisei Adriánovitch!
O sonho de que lhe falei tem uma ligação estranha com o que o senhor acaba de me contar; tanto mais que eu não tinha nenhum conhecimento dessas suas aventuras.
Tenho certeza de que vi Vairami na noite que precedeu a chegada das caixas.
Se foi um sonho ou uma aparição — não sei dizer.
E ele contou ao príncipe o sonho.
- Sem a menor dúvida, segundo a descrição o senhor viu a própria Vairami.
A meu ver, foi uma aparição fatídica.
Está aí a confirmação do perigo mortal que o ameaça; é dela que preciso salvá-lo — observou o príncipe, perturbado.
- Sou-lhe sinceramente grato por esse desejo generoso, mas não acho que está em poder dos homens alterar os desígnios do destino; sou um fatalista neste sentido — disse Zatórsky com sorriso amargo e, passando a mão pela testa pálida, acrescentou:
— Diga-me antes:
que encarnação diabólica é aquele tigre?
Para mim, ele é um animal morto, mas foi visto passeando por duas pessoas em perfeito juízo; depois, a fera matou um homem, de modo que a razão se recusa a aceitar.
Eu nunca tive tempo de estudar matérias ocultas, mas estou perplexo e gostaria de compreender e... confesso... ver com meus próprios olhos como o tigre se locomove.
- Oh, não creio que seu desejo seja difícil de ser satisfeito.
Já passa da meia-noite e Pratissuria deve estar passeando, pois o sangue de Karl atiçou-lhe o apetite.
Não se apavorará o senhor com semelhante empreitada?
- Não. Não creio que o ilustre Pratissuria queira aparecer para mim; mas, por garantia, vou pegar o meu Browning.
- Oh, isso será de pouca valia! — objectou o príncipe, sarcástico -, a mim ele não assusta, pois um discípulo das ciências ocultas deve reprimir a pusilanimidade, ser calmo e corajoso, já que o medo o sujeitaria ao poder das forças obscuras.
O relógio bateu meia-noite e meia e todos dormem no castelo; podemos investigar.
Vou buscar a minha arma — o crucifixo —, pois o animal deve ser bem mais perigoso do que na selva.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 09, 2016 7:43 pm

Eletsky puxou da gaveta um escrínio cinzelado e pegou uma grande cruz de ouro maciço, no centro da qual se embutia um cálice que brilhava com luz fosforescente.
Em seguida, ambos desceram ao jardim e saíram para o terraço vazio naquela hora, pois o posto de Karl ainda não fora preenchido.
O príncipe abriu a porta para a sala, convidou o doutor a se sentar num banco de pedra e postou-se atrás dos arbustos que decoravam o terraço.
Cerca de dez minutos passaram num silêncio completo.
De súbito, no ar turbilhonou uma lufada de vento, balouçando os galhos dos arbustos e ouviu-se um rugir surdo.
No chão rutilou um clarão vermelho e, pisando macio, a poucos passos do doutor surgiu o tigre.
A testa de Zatórsky cobriu-se de suor gelado; ele ouvia sua respiração pesada e nos ladrilhos iluminados pelo luar viu a sombra da fera.
O tigre deve ter percebido o doutor; cravando nele seus olhos esverdeados e fosforescentes e fustigando as ancas com poderoso rabo, a fera se agachou, prestes a dar o bote, e, entreabrindo a boca, como que já degustando a carne humana da qual ia se servir.
O doutor ficou paralisado, já sentindo em seu pescoço as presas terríveis da fera; mas, por atrás dela, assomou-se o príncipe, empunhando alto o crucifixo.
O símbolo místico da salvação e da eternidade irradiava luzes azuladas que dardejavam milhares de faíscas pelo ar.
O terrífico espectro sacudiu-se e começou a recuar rastejando em direcção à porta da sala.
O príncipe, entrementes, avançou ameaçando com a cruz, recitando em voz firme as fórmulas em língua estranha; pouco depois, ambos desapareceram no interior da casa.
Zatórsky, pasmo de terror, não conseguia se mexer.
Ao passar o torpor, correu atrás do príncipe, alcançando-o no quarto, onde ficavam as antiguidades trazidas.
Ali, ele estacou novamente.
Não seria um sonho o que acabava de ver?
O tigre estava estendido imóvel aos pés da estatueta; diante deles, o príncipe desta vez segurava uma vela de cera.
- Olhe! — disse ele, virando-se para o médico.
A fera voltou para o seu quarto.
Lívido e suando em bicas, o céptico materialista estudado, que vivia debochando das "tolas crendices", mal se mantinha de pé, recostado no batente da porta.
O príncipe aproximou-se dele e apertou-lhe a mão húmida.
- Acalme-se, Vadim Víktorovitch, o perigo já passou.
Seu nervosismo, aliás, é natural, já que pela primeira vez na vida presenciou um fenómeno incompreensível, que os ignorantes cegos não se dão ao trabalho de estudar.
Só damos crédito ao que podemos apalpar.
Oh, há tanta coisa terrível e desconhecida no mundo invisível, que teríamos de ver antes de acreditar!
- Então o mundo invisível existe? — exclamou o doutor, em voz entrecortada.
- Sim, meu caro professor, o mundo invisível existe; desafortunado é aquele que dele se aproxima desarmado.
- Suplico-lhe: ilumine-me!
Não quero permanecer cego e ignorante depois de todos esses factos! — rogou o médico.
- Terei enorme prazer.
Vamos tomar um pouco de champanhe para acalmar os nervos...
De chofre, um grito, seguido por vozerio, interrompeu a conversação.
Alarmados, eles aguçaram os ouvidos e ouviram os berros sonoros e desesperados da baronesa, intercalados com brados de Mery.
Os dois saíram em desabalada carreira do quarto.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 09, 2016 7:43 pm

O barulho parecia estar vindo da peça contígua à galeria de vidro; ao ali adentrarem, eles toparam com as camareiras, de camisola e descalças, o criado seminu e Mery, de penhoar, paralisada de medo.
A baronesa estava parada perto da porta escancarada para a galeria; diante dela, fechando-lhe o caminho, assomava-se a figura de um cavaleiro livónico(8), armado até os dentes.
Através da viseira levantada entrevia-se o crânio, nas órbitas fulgiam chamas esverdeadas; em tudo mais, o espectro tinha um aspecto real.
A luz da lâmpada de mesa coruscava sobre a panóplia metálica e a capa branca de lã.
Lívida, com cabelos desalinhados, a baronesa continuava a berrar.
Aparentemente, ela estava voltando do quarto do doutor, ignorando que este estava com o príncipe, e topou com aquele obstáculo inusitado; toda vez que ela dava um passo para frente ou para trás, para fugir, a mão do espectro erguia-se ameaçadora e a pregava no lugar.
Vadim Víktorovitch lembrou-se então de que o barão lhe contara sobre o fantasma de um cavaleiro emparedado vivo por um dos Kosen, e cujo aparecimento pressagiava sempre algum infortúnio familiar.
Mas, na época, ele atribuiu o relato a uma lenda; agora, sem acreditar no que via, estava quase em frente do terrível mensageiro fúnebre.
O príncipe, momentaneamente pego de surpresa, tirou do peito a cruz de ouro, ergueu-a alto e foi em direcção ao espectro, declamando fórmulas.
Como que arremessado para trás por um golpe de vento, o fantasma esmaeceu e derreteu no ar.
A baronesa deu dois passos para dentro do quarto, mas tombou desfalecida no chão.
A assombração foi vista por todos.
Os berros alucinantes de pavor reiniciaram-se com o desaparecimento do espectro, de modo que o doutor teve de instalar a ordem.
Ele mandou levar Mery ao seu quarto e depois examinou a baronesa, que jazia inconsciente.
- É um simples desmaio — assegurou ele, detendo as criadas que tentavam escapar, constrangidas com suas parcas roupas.
Vistam-se e levem a baronesa!
Ponham-na na cama e você, Annuchka, esfregue suas mãos e as têmporas com a água-de-colónia; depois lhe dê gotas do calmante que lhe mandarei em seguida.
Ele saiu, sem dar mais atenção à baronesa; seus pensamentos estavam com Mery.
Como ela estava maravilhosa em seu penhoar esvoaçante, cadavericamente lívida, olhos largamente abertos, tremelicando de medo!
Sendo um médico, era sua função verificar se o susto não lhe abalara o frágil organismo.
Ele bateu na porta.
- Maria Mikháilovna, posso entrar?
Quero ver se está tudo bem, depois de tantos sobressaltos.
Instantes depois, a camareira abriu a porta.
- É o senhor, doutor? Entre, por favor!
A senhorita está na sala; chora tanto que eu não sei mais o que fazer.
Parece febril, treme de frio e bate os dentes.
- Traga-lhe um chá quente e adicione uma colher de rum ou conhaque; ferva a água na espiriteira para ser mais rápido — ordenou Vadim Víktorovitch e, enquanto a camareira corria para a cozinha, ele entrou no boudoir.
Mery estava sentada à mesa.
Ela chorava convulsivamente, sem ter percebido a aproximação do doutor.
- Acalme-se, Maria Mikháilovna!
Não chore assim; não faz bem! — confortou ele meigamente, tomando-lhe a mão.
Ela se retesou e fitou-o, constrangida.
- Quem não choraria depois de ver esses horrores!
As almas penadas vagam por séculos, sem encontrarem a paz.
- Segundo os místicos, esta é a lei do carma:
um dos barões da linhagem dos Kosen não encontra a paz no túmulo por causa de um acto ignóbil praticado contra ele — observou o doutor.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 10, 2016 8:10 pm

- E o senhor também vagueará após a morte?
Elena Oreéstovna contou... — ela calou-se momentaneamente, ao ver o doutor enrubescendo.
Ah, não dê atenção à minha tagarelice!
Estou com tanto medo e não entendo o que está acontecendo comigo — disse soluçando.
Desta vez, o embaraço inicial de Zatórsky deu lugar a uma emoção jubilante; inclinando-se a ela, pegou sua mão.
- O que está lhe acontecendo?
Oh! Seus olhinhos inocentes e o coração puro já a denunciaram.
A senhora ama um homem indigno, que não merece o coração intacto de uma criatura tão jovem.
Mery, gira-me a cabeça, mas não ouso acreditar em tamanha felicidade.
Ah, diga que não estou enganado e que a senhora me ama, a despeito da imundície da minha conduta torpe e do atoleiro em que me encontro, do qual só poderei sair ajudado por um génio bom.
A senhora não imagina o quanto a amo!
Tenho-lhe um enorme afecto.
Ele ajoelhou-se diante dela e prosseguiu:
- Pode zombar, Mery, do homem beirando quarenta anos, que se atreveu a estender a mão a uma flor mal desabrochada.
De joelhos suplico:
ria, condene-me, mas perdoe!
Mery endireitou-se.
Seu rosto afogueou-se, seus olhos incenderam-se alegres e as lágrimas secaram como que por passe de mágica.
- É claro que eu o perdoo, já que o senhor não mais ama aquela mulher asquerosa e vulgar, e me ama!
Como posso condená-lo?
Jamais! Eu o amo também, e quem ama — tudo perdoa.
Sorrindo de bem-aventurança, ela se inclinou sobre ele.
- E o que dirão os seus pais? — sussurrou ele, atraindo-a a si e beijando seus lábios rosados.
- Oh! Eles ficarão muito felizes.
Todos o estimam e respeitam.
Eu mesma ouvi o meu pai dizendo:
"É uma pena que um médico tão estudado e inteligente tenha caído nos feitiços daquela bruxa"!
Mas como o senhor não a ama, tudo vai dar certo.
Não fosse aquilo dito por alguém que lhe nutria paixão verdadeira, suas palavras teriam soado como uma zomba impiedosa, de tão notório era o seu relacionamento vergonhoso, referindo-se a ele com tanta franqueza e pena.
Mas naquele minuto, Zatórsky estava demasiadamente feliz e não ficou melindrado.
- Tentarei apagar o passado e tornar-me digno desta felicidade.
Apenas, Mery, quero que vá embora daqui.
- Eu mesma decidi isso e já escrevi para o papai.
Estou pensando em partir amanhã, apesar de minha mãe ainda se encontrar no estrangeiro.
- Excelente! Alegando assuntos na cidade, eu a acompanharei.
Só que não conte a ninguém de nossa explicação, nem comente a sua partida até o último momento.
- Não direi nada àquela víbora.
Ficarei feliz em viajar com o senhor.
Oh, como será divertido! — acresceu, batendo palmas.
- Que seja abençoado o cavaleiro errante!
Não aparecesse ele, o senhor não viria para cá e não seríamos felizes.
Assim que eu for à cidade, mandarei rezar uma missa pela paz de sua alma.
Graças a Deus que o senhor decidiu corrigir-se e não terá de vaguear feito ele — adicionou ela com tanta satisfação ingénua, que Zatórsky não conteve uma gargalhada.
Neste instante, Pacha abriu a porta; o doutor se levantou e beijou a mão de Mery.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 10, 2016 8:10 pm

- Tome o chá, minha querida, e depois o calmante; deite para dormir e pense em mim — disse ele, meigamente.
Ao se ver sozinha, Mery pôs-se de joelhos diante do ícone de Nossa Senhora e orou ardentemente, agradecendo à protectora celeste pela felicidade recebida...

1. Membros fanáticos de uma seita secreta, adoradores da deusa Káli, a Mãe Negra do folclore hindu.
Calcula-se que mais de um milhão de viajantes tenham sido imolados por tugues.
O último tugue conhecido foi enforcado em 1882 pelo governo inglês na índia.
(N.T.)
1. Livónia — antiga província da Rússia, originalmente habitada pelos livos — povo ugro-finês desaparecido.
Em 1202, o bispo da Livónia cedeu um terço do país aos cavaleiros teutónicos (Ordem Teutónica), que estenderam suas conquistas até o lago Pskov.
(N.T.)
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 10, 2016 8:10 pm

~X~

De manhã, chegou um telegrama do barão, dando conta de seu retorno no dia seguinte.
A baronesa estava indisposta e por volta das dez horas mandou chamar o doutor; este foi imediatamente, porém manteve-se frio e reservado.
Após examiná-la, como compete a um médico, prescreveu um remédio e aconselhou-a a permanecer de cama — um óptimo expediente, aliás, para ter a liberdade de conversar com Mery, que não lhe saía da mente.
A baronesa estava irritada com a frieza do amante e observava-o cismada.
Era evidente que uma mudança radical nele se processara; jamais, até então, ele lhe parecera tão suspeito.
Afectara-o, a tal ponto, aquela chinelada?
Mas não era a primeira vez que ela havia recorrido àquelas medidas de correcção.
Para disfarçar a decepção, ela pôs-se a choramingar como que por causa da visão assombrada, lamentando a desgraça que supostamente desabaria sobre o pobre Maximiliano.
No momento em que Zatórsky entrava, Annuchka estava servindo um copo de limonada para a ama.
Mal o doutor segurou a mão da enferma para lhe medir o pulso, a criada desapareceu feito sombra.
Ao perceber que as lamúrias não produziam nenhum efeito, a baronesa agarrou a mão do doutor e, fitando-o ternamente, perguntou:
- Vadim, que significa essa cara amuada?
Por acaso ainda está zangado comigo?
Dê-me um beijo — eu exijo — e tudo volta ao normal.
Zatórsky arrancou a mão, recuando.
O nojo reflectido em seu olhar, esquadrinhando-lhe o cabelo desfeito, a blusa de seda desbotada e amassada, e toda a toalete negligente nocturna, fez o rosto da baronesa cobrir-se de rubor intenso.
- A senhora deve ter esquecido de seu ultraje — pronunciou ele, com o cenho carregado.
— Estou cheio desses tratamentos indignos.
Aliás, não vale a pena insuflar as cinzas das brasas — a única coisa que restou de nossa loucura. Da minha parte, pelo menos, não sobrou sequer uma fagulha.
Ademais, seu marido está de volta e sendo verdadeiras as suas afirmações de que a senhora o ama tanto, só me resta desocupar-lhe o lugar, definitivamente.
A baronesa saltou da cama com tanta agilidade, que nela não se podia pressupor cinco minutos antes devido ao seu aspecto agonizante, quando mal se lhe podia ouvir a voz debilitada.
- Seu traidor ingrato, você furtou a minha paz e agora quer se livrar de mim como de um objecto descartável — gritou ela, sufocando-se de ira.
Devasso, sem-vergonha e ingrato!
Eu sacrifiquei a minha honra e a felicidade e agora você me rejeita...
Sua voz interrompeu-se e ela desabou em pranto.
- Não vou tolerar isso — prosseguiu, entre o choro.
Amo-o e você continuará sendo meu.
Ela tornou a agarrar a mão dele e a premeu contra os lábios, mas ele a arrancou novamente e deu um passo atrás, furioso.
- Nunca! Não posso mais.
Odeio-a e tenho nojo de você.
A senhora jamais se sacrificou por algo e nunca m e amou.
Toda vez que eu queria romper o nosso relacionamento, acabava cedendo à sua volúpia animal.
Quanto à sua honra, esta já foi sacrificada bem antes; eu caí em sua teia feito uma mosca.
Aliás, deixemos esta questão de lado, a senhora não está passando bem hoje; mais tarde continuaremos a conversa.
Ele deixou o quarto quase correndo.
A baronesa ruiu sobre as almofadas num acesso de histeria, chorando convulsivamente.
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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 10, 2016 8:11 pm

No entanto, ela se acalmou antes que se poderia prever; cerrando os olhos, mergulhou em profundos devaneios e seus únicos pensamentos eram achar uma forma de recuperar o amante rebelde e nunca mais deixá-lo escapar.
Finalmente, em seu coração empedernido e na imaginação pérfida da bacante amadureceu um plano tão infame que qualquer mulher, menos estragada, o teria descartado.
Decidida a levar à frente sua empresa diabólica, Anastácia Andréevna tomou sonífero e adormeceu.
Neste ínterim, o doutor e os demais habitantes do castelo estavam tomando o café da manhã; o assunto principal da conversa era a assombração nocturna.
O cavaleiro fantasma e sua história intrigavam todos; a governanta francesa, que gozava de reputação de pessoa céptica, não ousou contestar a existência do fantasma, cujo aparecimento fora presenciado por oito pessoas em perfeito juízo.
A lenda dizia que um certo cavaleiro livónico, alvo de suspeitas de um marido ciumento, fora morto e emparedado numa velha capela do castelo.
- Esperem, acho que poderei satisfazer-lhes a curiosidade.
Remexendo na biblioteca, encontrei um livro velho, em capa de couro, com um título estranho:
"História terrível e elucidante do barão de Wilfrid, de sua esposa Gerta e do desafortunado e criminoso cavaleiro Raimond — Crónica da nobre família von Kosen" — disse o príncipe.
Veremos o que se fala sobre esse fantasma vingador nos escritos.
Logo ele retornou com um livro antigo, impresso sobre um pergaminho amarelecido e com quatro gravuras acima de uma árvore, que representavam:
um senhor levemente curvado, uma dama vestida festivamente, um cavaleiro livónico e um pastor robusto, de faces gordas — autor da crónica.
Na última página, representava-se fielmente o fantasma, visto na véspera.
- Meu Deus!
Como eles são horríveis.
E como decifrar essas letras; é um trabalho de Sísifo(9)! — exclamou Mery, quando o livro foi passado em torno da mesa.
- Conheço a escrita.
No que se refere à fealdade dos heróis, não se deve levar isso em conta.
Os quadros provavelmente diferem muito de seus originais.
A crónica do cónego Cornelius Rode dizia o seguinte.
"No fim do século XV, em Zeldenburgo, vivia o barão Luts von Kosen, que tinha dois filhos.~
O mais velho, Wilfrid, do primeiro casamento, era horrível de rosto, um mostrengo, detestado por seu carácter soturno, mau e rabugento; o segundo, Raimond, dez anos mais novo que o irmão, era um jovem belo, bondoso e alegre, amado por todos.
Wilfrid era rico não só pelo lado do pai, mas graças também à herança deixada pela mãe — filha única de um fazendeiro vizinho.
Após a morte do velho barão, os dois irmãos viviam juntos no castelo de Zeldenburgo e supunha-se que Raimond recebesse o baronato do irmão, ainda solteiro, e que, se bem que contasse com trinta anos, por sua natureza carrancuda evitava a companhia feminina.
Durante um casamento fidalgo, os irmãos conheceram uma moça jovem e bonita, de nome Gerta, e ambos se apaixonaram por ela.
O pai de Gerta, filho mais novo da nobre linhagem, um jogador e estroina, arruinara todo o seu património.
Sua esposa morreu de desgosto e a filha, que vivia num castelo velho e semidestruído — o único património remanescente — estava como hóspede na casa dos familiares.
Não é surpreendente que Gerta tenha se apaixonado por Raimond, mas Wilfrid não era dos que desistiam fácil.
Além disso, o aprazimento de tomar a mulher do irmão, odiado por sua beleza e que lhe inspirava inveja e ciúmes, excitava-o tanto quanto a sua paixão pela jovem.
O barão foi à casa do pai de Gerta e prometeu pagar todas as suas dívidas e recuperar todo o seu património, caso este lhe desse a mão da filha.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 10, 2016 8:11 pm

Para um nobre arruinado, a oferta pareceu cair do céu e ele, sem vacilar, deu o consentimento.
Imune às lágrimas e súplicas da filha, o pai ambicioso obrigou a pobre Gerta casar-se com um homem que lhe inspirava nojo.
Desesperado, Raimond ingressou na Ordem, tornou-se um cavaleiro livónico e deixou Revel.
Assim se passaram dez anos.
Raimond von Kosen guerreou por alguns sítios, distinguiu-se e foi chamado por um grande mestre da ordem para assumir o comando em Revel.
Achava ter dominado e esquecido o seu sentimento pela esposa do irmão; mas, quando reencontrou seu velho amor, a paixão assomou-se ainda mais forte.
Gerta já havia completado vinte e sete anos e a sua beleza alcançara o ápice; seu casamento, porém, era infeliz e uma frieza hostil imperava entre ela e Wilfrid, a ela odioso.
Esse sentimento de aversão ao marido voltava-se também a seu filho único, barão de Conrad, feio e desagradável como o pai.
Seu amor a Raimond, no entanto, não se apagara e, ao encontrar o cavaleiro, reacendeu-se com força redobrada.
Finalmente, a longa paixão reprimida de ambos alcançou o clímax.
Inexistiam detalhes da intriga amorosa na crónica; apenas se mencionava que havia um túnel subterrâneo de Zeldenburgo para o posto de comando dos cavaleiros livónicos; a entrada secreta para a galeria subterrânea achava-se na capela do castelo.
Era através daquele caminho que Raimond visitava Gerta e seus encontros, aparentemente, davam-se na capela.
O segredo do subterrâneo era apenas conhecido pelo velho barão Kosen e pelo comandante da Ordem.
Por causa de sua morte súbita, ou talvez por outro motivo — não se sabe — o barão Luts acabou não revelando o segredo ao filho maior; este ignorava a existência do túnel e, no momento em que o caso se encetou, estava ausente.
O homem que revelou ao barão Wilfrid sobre os acontecimentos no castelo foi o armeiro Rupert Craft, que descobriu a verdade e mais tarde figurou como cúmplice na vingança do marido.
Certa noite, Wilfrid retornou inopinadamente para casa e flagrou os amantes na capela.
Ao vê-lo, Gerta desmaiou e o barão, auxiliado por Rupert, dominou e amarrou o cavaleiro.
Os monstros não se detiveram ante a intenção de crime medonho:
o de emparedar o pobre Raimond vivo.
Enquanto Rupert preparava o nicho, Wilfrid tentou arrancar do irmão o segredo da entrada ao subterrâneo, habilmente disfarçada, de modo que era impossível encontrá-la.
Os esforços de Wilfrid foram inúteis:
Raimond nada disse e, quando foi empurrado para o nicho e começaram a construir um muro, ele rogou terríveis pragas a Wilfrid e seus descendentes.
Todos esses pormenores Wilfrid confidenciou no seu leito de morte para o cónego Cornelius, permitindo que este narrasse a história para instruir a posteridade.
Gerta recobrou-se delirante e sua vida correu perigo.
Restabelecida, ela se recolheu ao mosteiro por insistência do marido e, algumas semanas depois, enforcou-se em sua cela.
A entrada para a capela foi fechada por tijolos por ter sido conspurcada por encontros infiéis; o local em que fora emparedado o cavaleiro Raimond foi marcado com uma cruz vermelha na parede.
A entrada secreta continuou ignorada, mas — dizia-se que muitos viam uma monja correndo pelo corredor contíguo à velha capela e desaparecendo através da fatídica parede."
O príncipe fechou o livro e acrescentou, depois que lhe agradeceram pela leitura:
- Acabamos de ver ontem a confirmação da lenda sobre o cavaleiro fantasma, que dizem pressagiar uma desgraça.
Esperemos que desta vez ele apenas nos deseje lembrar que está vivo, pedindo por orações que o tirem do peso das esconjurações proferidas, que o aprisionaram àquele lugar.
Por acaso ninguém sabe onde se encontra a capela e se ainda existe aquela parte do castelo?
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