Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Página 4 de 5 Anterior  1, 2, 3, 4, 5  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 10, 2016 8:11 pm

- Posso lhe responder a pergunta — manifestou-se Zatórsky.
O barão me contou que o último representante da antiga linhagem dos Kosen, proprietário do castelo de Zeldenburgo antes do barão Maximiliano, ordenou abrirem a entrada para a capela, fechada com o muro, e que se encontra na torre setentrional da parte velha do castelo.
Estive lá com o barão quando ele veio receber a herança e, de facto, ali há uma cruz na parede.
Quem poderia dizer que ela apontava o jazigo terrível do coitado?
Nem eu nem o barão demos importância à lenda.
Maximiliano Eduárdovitch e o seu predecessor queriam a todo custo encontrar o caminho subterrâneo, mas tudo se verificou inútil.
Provavelmente, isso não passa de fábula.
- Ah, precisamos ver a capela; só que vamos todos, senão é de dar medo! — exclamou Mery.
Todos se dirigiram à torre setentrional.
A capela era pequena e sombria, iluminada por uma única janela estreita como seteira.
O velho altar, erguido na altura de dois degraus, estava descoberto e vazio; os afrescos, outrora adereçando as paredes, totalmente apagados; à direita da entrada, na parede cuja cor se destacava de outras estava pintada uma grande cruz vermelha.
Curiosos, aparentando medo supersticioso, todos examinaram a cruz — memento ao fratricídio; apenas Liza pôs-se de joelhos, persignou-se e orou.
Ao notar a aflição que assaltara os presentes, o médico levou-os ao jardim, pois o tempo estava maravilhoso.
Alisei Adriánovitch, alegando trabalho a fazer, retirou-se para seu quarto.
O doutor, Mery, a governanta e as crianças fizeram um longo passeio.
A impressão pesada deixada pelo acontecimento do dia anterior e a leitura da crónica dissiparam-se; a conversa fluía alegre.
Liza — ou Lili, como preferiam chamá-la na família — divertia todos ao se referir ao príncipe, que, como confessou inocentemente, era tão belo que "era difícil despregar os olhos dele".
- Ora, Lili, para uma menina que não tem nem catorze anos, você repara nele demais — motejou Vadim Víktorovitch.
Até parece que está apaixonada por ele!
- Oh, que é isso, tio Vadim?! — protestou a menina, embaraçada e corando toda.
Apenas o acho bonito, agradável de se ver.
Eu, feia e magra que sou, jamais me atreveria apaixonar por ele — concluiu ela, desalentada.
- Ao contrário, Lili, você é tão lindinha!
Olhe esses cabelos bastos e maravilhosos loiro-acizentados, e esses olhinhos escuros que lembram gazela!
É verdade, você é um pouco magra, porque cresce rápido, mas isso passa; quando tiver uns dezassete anos, será um doce.
Não é verdade, Vadim Víktorovitch? — disse Mery.
- Sem dúvida, tanto mais se tomar óleo de fígado de bacalhau — respondeu o doutor, com bonomia.
Feliz e lisonjeada, Lili beijou Mery; Bóris ouvia tudo enciumado e balbuciou com muxoxo:
- Para mim ninguém diz que eu vou ser bonito...
- O que você acha, tio Vadim, serei tão bonito como Liza?
- Só se parar de engordar e não tiver preguiça de fazer ginástica; caso contrário, ficará obeso e vai parecer um saco de farinha — o que não será bonito.
Todos riram.
A governanta anunciou, nesse ínterim, que era hora das crianças voltarem para casa e tomar suas lições de piano.
Estas, ainda que a contragosto, seguiram a governanta.
Mery e Zatórsky foram caminhando lentamente em direcção ao castelo.
- Preciso contar à baronesa sobre a minha partida e despedir-me — disse Mery.
Devo agradecer-lhe pela amável hospitalidade, à qual devo a minha felicidade — acrescentou ela, corando.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 10, 2016 8:11 pm

- A senhora vai na carruagem que virá buscar o barão; com o pretexto de aproveitar a condução, partirei também, só que nem vou-me despedir dela.
Levarei comigo apenas o saco de viagem e, mais tarde, mandarei buscar as minhas coisas.
Uma vez que o barão só volta amanhã, posso sumir sem risco de algum escândalo.
Ambos riram e retornaram ao castelo bem-humorados.
Depois do almoço, Mery mandou a camareira pedir para a baronesa recebê-la; a criada voltou com a resposta de que a ama a aguardava.
Ela recebeu a jovem amigavelmente, porém Mery ficou espantada com a mudança.
A baronesa estava pálida, os olhos fundos e nos lábios congelara-se uma expressão maldosa e cruel; além disso, a camisola estava desabotoada e os cabelos desgrenhados — tudo isso a tornava medonha e a envelhecia por dez anos.
Mery jubilou-se por dentro pelo facto de a anfitriã não lhe ter dado um beijo, estendendo-lhe apenas a mão, com jeito de cansada, e apontando a poltrona ao lado da cama.
- Foi muito agradável de sua parte vir conversar com a convalescente.
A terrível aparição de ontem abalou-me positivamente; o receio de que alguma desgraça desabe sobre meu marido atormenta-me e não me dá paz... preciso tanto dele!
- Infelizmente venho me despedir, querida Anastácia Andréevna.
Recebi uma carta do papai; ele me chama para voltar imediatamente e espero que a senhora não tenha nada contra eu aproveitar a carruagem que sai para buscar o barão em Revel.
- Oh, absolutamente!
Mas que pena que esteja nos abandonando, querida!
Espero que na carta de seu pai não haja notícias ruins.
- Não, Anastácia Andréevna!
O papai só escreve que a minha irmã e a mademoiselle Emily já retornaram; a mamãe volta daqui a duas semanas e o papai, porém, tem de viajar a negócios e quer que eu substitua a mamãe, até a sua volta.
Sinto muito ir embora, justamente agora, quando a senhora não está bem.
Não quero incomodá-la amanhã tão cedo, pois a carruagem parte às seis e meia; assim, vim me despedir agora e agradecer de todo o coração por ter sido tão boa comigo.
- Estou feliz por você ter se distraído um pouco.
Sente-se e conversemos, minha querida.
Isso dissipará meus tristes pensamentos.
A despeito da aversão que lhe sugeria a baronesa, a Mery não sobrava outra coisa senão sentar-se.
Anastácia Andréevna falou do inverno chegando, das festas que iria organizar, do amor do jovem Nordenskiold a Mery, e desejou vê-la em seu primeiro baile, já como noiva.
- Desejo-lhe isso, querida, porque o casamento é normalmente o sonho de todas as mocinhas, imaginando que por elas aguarda uma felicidade desanuviada.
Ledo engano!
Na maior parte das vezes, pela jovem mulher esperam as mais duras provações e perigos.
Fique alerta, Mery!
Tenha cuidado com os homens que irão assediá-la e não confie em suas juras de amor; tudo isso são mentiras deslavadas, urdidas pelos estroinas para seduzirem as mulheres.
Eles suplicam o nosso amor de joelhos e se, por impulso, cedemos, logo nos descartam descaradamente.
Não se surpreenda, Mery!
O que eu lhe digo é pura verdade, fruto da experiência própria.
Você já não é nenhuma criança e a minha triste lição lhe servirá de farol no futuro.
Quem, aparentemente, merece mais respeito do que Vadim Víktorovitch?
Um homem de ciências, um professor, um homem bastante maduro; mas, na realidade, por baixo daquela aparência enganosa, espreita-se um patife, um devasso tão insolente como todos os outros.
Acresce-se ainda:
ele é um canalha, que me expôs a muitos dissabores.
Eu sei que na sociedade todos me condenam; tudo por culpa dele, uma vez que ninguém sabe as causas.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 10, 2016 8:12 pm

Nem bem o meu marido viajou para fora, ele grudou em mim com o seu amor grosseiro.
Max confiou-lhe tudo:
a mim, os meus filhos e todos os assuntos financeiros — o que o deixava com livre acesso em casa.
Eu era sozinha e inexperiente na vida, pois me casei bem moça, quando não tinha nem dezasseis anos. Que infortúnio!
Não consegui resistir a sua paixão imunda...
Ele me puxou finalmente para o atoleiro e eu, apesar dos remorsos, afeiçoei-me a ele.
Seu amor, sua fidelidade canina, sua paciência comigo quando eu o maltratava — tudo isso m e deixava comovida...
Agora, ele quer se desfazer de mim... louvado seja Deus!
Sua cara de enfado há tempo m e dá nos nervos; fora isso, descobri que ele anda louquinho por uma cantora marrom-café e quer se amasiar com ela.
Não serei eu, naturalmente, que vou me interpor no caminho dela.
Essa tal de artista deve ser alguma ex-camareira ou lavadora de pratos — é o que ele merece, pois, devo-lhe dizer, minha querida, fui eu que civilizei aquele estouvado ingrato.
Como médico talvez ele até seja algo, mas como cavalheiro é um bronco, a quem ensinei boas maneiras.
Para mim esse rompimento é um alívio indescritível; o resto da minha vida consagrarei para reparar as minhas faltas com Maximiliano — um homem bom, marido ímpar, um cavalheiro intrépido e irreprochável.
Assim, minha criança, seja cautelosa e não abra a guarda às artimanhas dos homens.
Você vê como as aparências enganam e como é fácil cair nas redes de um patife indigno e impiedoso...
Mery tremia de indignação.
Ela compreendia perfeitamente que a baronesa se mostrava enraivecida por estar perdendo o amante e desconfiada de seu interesse por ela, fazia tudo para humilhar, deslustrar e apresentar de forma ridícula o pobre Vadim Víktorovitch.
Para pôr um fim àquela torrente de insultos contra a pessoa amada, Mery se levantou.
- Agradeço-lhe, querida Anastácia Andréevna, pelos bons conselhos, aos quais dispensarei a devida atenção; mas me desculpe, preciso ir, pois tenho de arrumar as malas e amanhã preciso me levantar cedo.
Mais uma vez ela agradeceu pela hospitalidade e, com nojo por dentro, recebeu o abraço de despedida da baronesa.
Mery adentrou o quarto feliz por se ver livre finalmente da mulher asquerosa que, sob o manto de bonomia e amizade, enlameou o homem supostamente amado.
Ao se ver sozinha, a baronesa pensou um pouco e depois mandou chamar Pénia, a criada mais antiga da casa e também confidente, sua fiel informante de tudo o que ocorria ou se falava na casa.
Das indagações, ela soube que Mery e o doutor passearam sozinhos por muito tempo e retornaram muito felizes, como que apaixonados.
Um sorriso de escárnio franziu o rosto da baronesa ao ouvir aquilo.
Ordenando que lhe fosse trazido um escrínio com jóias, ela tirou um relógio com corrente e o deu de presente para a criada.
Instruída pela ama, Pénia saiu e logo retornou trazendo no avental a corrente com o medalhão em forma de coração, que adereçava o pescoço da estatueta de Káli.
A baronesa examinou atentamente aquele objecto bizarro.
A corrente era maciça e cada elo, ao invés de ser unido por outro, era preso por pequeno rubi, que reluzia na luz feito um pingo de sangue.
O medalhão também era muito original, como que um coração humano verdadeiro, só que a metade de seu tamanho.
O fecho de rubi, transparente como água, representava uma pata de ouro de tigre ou leão, com garras de esmeralda.
A baronesa colocou o colar indiano no estojo, do qual esvaziara um colar de pérolas com medalhão, escreveu um bilhete e deu tudo para a camareira, ordenando que ela levasse para Maria Mikháilovna.
"Fique com ele, e que ele lhe traga a felicidade merecida e desejada pelo coração", resmungou ela, quando Pénia saiu.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 10, 2016 8:12 pm

Seu rosto franziu-se de raiva diabólica.
Para explicarmos esse acto generoso, convém reproduzir a conversa que ocorreu alguns dias antes entre a baronesa e o príncipe Eletsky.
Aconteceu numa determinada manhã.
O príncipe trabalhava no museu para inventariar os objectos da Antiguidade, quando entrou Anastácia Andréevna.
Aproximando-se da estatueta de Káli, ela examinou atenta o colar, sobretudo o coração de rubi, observando a seguir:
- Que coisa original!
Imagine só a inveja que este colar despertará, se eu o colocar no baile!
Não seria mais inteligente eu usá-lo, ao invés de ele enfeitar o pescoço de um ídolo?
- Cuidado, baronesa, não toque nesse colar!
Infeliz daquele que possuir e usar esse terrível adereço — comentou o príncipe, deitando na baronesa um olhar tão severo e desaprovador, que esta desistiu do intento.
Por outro lado, agora, a ideia de presentear com o colar valioso a sua rival odiosa veio a calhar, pois esta lhe desconhecia o significado fatídico.
Mery estava arrumando no quarto as suas últimas coisas, quando Pénia lhe trouxe o estojo com um bilhete.
Nele, a baronesa em palavras amáveis pedia que o presente fosse aceito como lembrança do castelo de Zeldenburgo.
Mery ficou intrigada mas, para não ofender a baronesa, não pôde recusar e escreveu um bilhete de agradecimento, que foi levado por Pénia.
Só depois disso, ela abriu o estojo, sem reconhecer, todavia, o colar de Káli, pois nunca o examinara detalhadamente.
Aliás, nunca lhe passaria pela mente que o adereço pudesse ser tirado da estatueta tão zelosamente guardada pelo barão, para ser dado a ela; além disso, desde o dia em que ela viu o tigre se arrastando até ela, não mais cruzou a porta do museu.
Apesar de seu valor inestimável, entretanto, o objecto lhe sugeria, naquele momento, uma repugnância indefinida e, sem examiná-lo melhor, ela o atirou na sua cesta.
Enquanto isso se dava no castelo de Zeldenburgo, o barão tratava tranquilamente de seus assuntos em Petersburgo.
Com o auxílio de seu secretário, ele havia montado um catálogo dos livros trazidos, tendo-os arrumado na biblioteca, e ultimava os guarnecimentos das salas destinadas para o futuro museu.
Certa manhã, a sua tranquilidade espiritual foi abalada por uma carta da baronesa, informando da morte violenta de Karl e das falácias estranhas sobre aquela tragédia misteriosa.
A notícia deixou-o deprimido e então ele se lembrou das palavras do príncipe, insistindo que o tigre e a estátua fossem atirados ao mar.
Seus devaneios foram interrompidos pelo mordomo, anunciando que seu ex-criado Ossip pedia para ser recebido, a fim de ser tratado um assunto importante.
Ossip fora um empregado irreprochável, que servira o barão por cerca de sete anos e, se este não o levara em sua última viagem, foi apenas no intuito de deixar, junto à esposa, uma pessoa honesta e confiável.
Para seu grande desgosto, Maximiliano Eduárdovitch não encontrou Ossip quando do seu retorno para casa.
Ao ser inquirida, a baronesa respondeu que ele havia viajado para a aldeia, por ocasião da morte do pai, a fim de cuidar dos assuntos da herança e, quando ele retornaria, isso ela não soube dizer.
Ao ouvir que Ossip queria vê-lo, o barão supôs que Ossip desejava de volta seu emprego, ou que fora para pedir uma carta de recomendações.
Ordenou que seu comparecimento fosse franqueado.
- Finalmente você voltou de sua aldeia.
Bem, se você concluiu a partilha entre os irmãos e quer trabalhar aqui, terei o prazer de tê-lo de volta — disse o barão, em tom de bonomia.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 10, 2016 8:12 pm

O rosto do ex-criado reflectiu surpresa.
- Excelência, eu não fui para a aldeia; o que eu faria lá?
Meu pai está, graças a Deus, forte e saudável.
Desta vez quem se surpreendeu foi o barão.
Por que então você me largou? — perturbou-se ele.
- Fui despedido pela baronesa.
- Por qual razão? — inquiriu o barão, empurrando para o lado os papéis que lia.
Ao ver a indecisão de Ossip, evidentemente com medo de falar, o barão disse, impaciente:
- Fale de vez!
Quero saber por que a minha esposa o despediu?!
- Porque eu sabia demais sobre os assuntos deles.
Para ser franco, vim para revelar toda a verdade e espero, bondoso senhor, que me perdoe este atrevimento.
Considero, porém, de meu dever preveni-lo do que acontece em sua casa e do que falam abertamente todos os seus conhecidos.
O barão empalideceu, empertigou-se e franziu as sobrancelhas.
- Fale sem esconder nada, Ossip!
Por mais que me seja duro, quero saber a verdade e ficarei reconhecido por isso.
O criado tirou do bolso uma velha carteira recheada de cartas e envelopes cor-de-rosa perfumados e depositou tudo sobre a mesa, diante do barão.
- Devo dizer que ainda bem antes da viagem de Vossa Excelência, as coisas andavam precárias entre a baronesa e o doutor Zatórsky; com sua viagem, a situação tornou-se pior e mais aparente.
Não se podia entrar no boudoir da baronesa sem topar com alguma indecência.
As cartas não paravam de chover de ambos os lados e, quando o doutor viajou para Moscou por três semanas, a correspondência era diária.
Tudo que eu pude interceptar está aqui.
O pior foi este último ano. Fênia confessou-me que a ama estava grávida; depois ela viajou, não se sabe para onde, e só é certo que ela tem um filho, que está sendo criado por um colono em Strelna, para quem a baronesa manda dinheiro.
Annuchka leva-o para o correio e eu consegui até surripiar dois recibos: ei-los!
A baronesa também viaja às vezes para Strelna, como que para visitar o pai.
Logo após o nascimento da criança, lembro-me de ter entrado no boudoir inopinadamente, onde a encontrei de joelhos diante do doutor.
Depois disso, a baronesa ficou brava e me deu as contas, dizendo para que eu jamais pusesse os pés na casa.
Um rubor intenso cobriu o rosto bronzeado do barão, enquanto ele ouvia o ex-criado, que arrematou:
- O que eu digo, sabem todos os criados, que poderão confirmar as minhas palavras.
Todos se calam porque têm medo de perder o emprego.
Não quero que o meu amo, que sempre foi bom para mim, seja enganado e alvo de riso.
- Obrigado, Ossip, pelo aviso.
Deixe o seu endereço; provavelmente você me será útil.
Com a mão trémula, o barão tirou da carteira uma nota de cem rublos e a estendeu a Ossip; depois, dispensou-o com um gesto.
Assim que a porta se fechou atrás dele, o barão saltou da poltrona, arrancou do pescoço a gravata e começou a andar agitado pelo quarto; todo o sangue lhe afluiu à cabeça e ele achava a se sufocar.
Então é assim que era o seu "amigo", considerado personalização da integridade, a quem confiara a casa e a família!
A que patife ele distinguiu com sua confiança e amizade!
Jamais desconfiou que aquele insolente, com quem vivia topando ainda antes da viagem e que se instalara em seu lar, havia se aproveitado de sua bonacheirice para conspurcar seu nome honesto.
E você, criatura imprestável?!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 11, 2016 7:35 pm

Com que hipocrisia representava seu papel de esposa apaixonada e mãe carinhosa, fingindo dedicação exclusiva ao marido e filhos!
Que atrevimento em abrigar junto a si um amante e, simultaneamente, acolher o marido meigamente e fazê-lo alvo do escárnio da sociedade!
E as crianças inocentes foram testemunhas dessa vergonha!...
Como saber?
Talvez elas tivessem entendido a torpeza da situação, ou tivessem visto alguma cena semelhante à presenciada pelo criado?...
"Que idiota fui, arrancando da sarjeta e vestindo aquela indigente que, já naquela época, gozava de reputação duvidosa!
Mal se viu bem de vida, não poupou recursos para os gastos com o luxo, nem piscava ao apresentar-lhe contas fabulosas, que ele, conformado, pagava, relevando as loucuras daquela desavergonhada.
E eis que, como gratidão, ela dá à luz um filho espúrio e o cria secretamente.
Oh, essa vergonha ultrapassa qualquer limite!..."
Aos poucos, entretanto, o barão se acalmou, ainda que se sentisse indignado. Sentando-se à mesa, tirou da carteira o maço de cartas e começou a lê-las.
Comparou as primeiras missivas, que respiravam paixão fervorosa, com as cartas, jurando o amor e a saudade, enviadas pela baronesa durante a sua viagem.
Como ela o amava e aguardava impaciente seu retorno.
Nas cartas ao amante, então, jorravam as expressões de paixão animal, censuras de ciúme e menções de sacrifícios inaudíveis a Zatórsky, por suas obrigações conjugais e fidelidade ao marido.
De maneiras mais variadas, ela celebrava os seus sofrimentos morais e as lágrimas vertidas, dilacerada pelos remorsos em relação a seu bom Maximiliano, que confiava cegamente nela e a amava tanto.
- Que sorvedouro de mentiras e traição insolente se espreita no coração e na mente dessa mulher infame!
Eis um exemplo de palavreado vazio, em toda a sua nudez! — balbuciou o barão, amassando com nojo as cartas restantes e lançando-as na lareira para incinerar.
Quando o último pedaço de papel se converteu em cinzas, ele tornou a se sentar à mesa e mergulhou em devaneios.
Sem dúvida, não era o único marido traído em Petersburgo; podiam-se contar em dúzias as famílias com os "amigos de casa", que gozavam da protecção benevolente do marido, todavia, a humilhação dele era demais!
"Não, não e não!
Ele não queria fazer parte dos carneiros de Panurgo(10) e, pela injúria de seu coração e honra, pagarão ambos os traidores; ele mostrará àquela vadia o que era fazê-lo de idiota...
Ele não se deterá frente a qualquer escândalo"...
E em sua imaginação excitada germinavam os meios mais cruéis de vingança e um desejo violento de afogar aquela mulher, tirada da indigência.
Mas, antes de tudo, era necessário flagrá-los e desmascarar...
Após reflectir por algum tempo, o barão chamou o secretário e passou-lhe as devidas instruções; em seguida, escreveu um telegrama, informando de sua chegada.
Só que sua volta, marcada para o dia seguinte, de manhã, ele antecipou para a mesma noite, numa hora em que ninguém o esperava.

1. Rei lendário de Corinto, condenado, nos Infernos, a empurrar eternamente uma enorme pedra que sempre caía antes de atingir o cume da montanha. (N.T.)
2. Alusão a personagem do Pantagruel, de Rebelais. Panurgo compra de Dindenault, rico e pretensioso, um de seus carneiros e joga-o no mar; outros carneiros também se jogam na água; Dindenault quer deter um bode, acaba arrastado por ele e morre afogado. (N.T.)
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 11, 2016 7:35 pm

~XI~

Em Zeldenburgo, acabava-se de tomar o chá da noite, após o que todos se dispersaram; a baronesa não saiu do quarto, a governanta levou as crianças embora, e Mery, constrangida em ficar sozinha em companhia dos homens, disse que precisava arrumar as malas.
O príncipe trancafiou-se em seu aposento pensativo.
Ele tirou de uma caixa dourada um pergaminho e iniciou preparativos bastante estranhos, não sem antes abaixar os pesados reposteiros e as cortinas nas janelas, tendo cuidado para que no quarto não penetrasse nenhum feixe de luz.
Abrindo o baú, ele tirou um tapete de veludo vermelho com sinais cabalísticos bordados e uma bacia metálica, que encheu de ervas, regando-as com diferentes líquidos; colocou tudo sobre a mesa, diante do crucifixo com as velas, anteriormente descritas.
Acto contínuo, trocou de roupa e envergou-se numa túnica alva e comprida de linho; apagou a luz e, descalço, ajoelhou-se no tapete.
Por alguns minutos o príncipe orou de olhos fechados e mãos estendidas.
Finda sua oração devotada e absorta, tirou do peito uma espécie de apito pendurado numa corrente de ouro e soprou nele, pronunciando a seguir, em voz alta, palavras em língua estranha e uma série de fórmulas.
Na escuridão completa, o príncipe, então, entoou em voz baixa uma melodia cadenciada e singular; toda a atmosfera começou a vibrar e crepitar.
Aos poucos o ambiente foi tomado de fagulhas multicolores, transformando-se em chamas verdes, vermelhas e douradas a turbilhonarem em torno da bacia, onde, por sua vez, acenderam-se as ervas, espalhando uma luz suave azulada e o odor de flores vivas.
Então, a vibração deu lugar a uma melodia suave, como que secundada pelo tilintar de sinos de prata; depois, formou-se lentamente uma névoa esbranquiçada e, em seguida, surgiu a figura alta e esbelta de Vedjaga Singa, que se postou no tapete a um passo do príncipe.
O visitante misterioso trajava também uma alva túnica comprida e sua cabeça era adereçada por turbante de musselina.
Deitando um olhar amistoso sobre o discípulo, ele depositou a mão em sua cabeça; este a tomou e beijou.
- Agradeço por ter vindo, mestre.
Preciso de seus conselhos, em vista dos acontecimentos nesta casa.
Sou muito ignorante ainda e receio desencadear, a despeito de estar bem intencionado, consequências desastrosas.
- Toda boa intenção, qualquer acto desencadeado por bons propósitos, não pode ser reprovável, desde que se busque combater as forças do mal.
Entretanto, meu filho, nem sempre podemos impedir as más consequências dos actos humanos.
Não há vitória sem luta.
Que importância teria a provação terrena, se o homem não tivesse que haurir, em si mesmo, as forças para resistir ao mal?
O nosso mundo amesquinhado carece de bondade e, para alcançar a luz, precisamos atravessar as trevas.
Todo homem bem-intencionado pode se defender do mal e para isso ele tem a fé em Deus, a cruz, que dissipa as trevas, e um conselheiro incorruptível — a consciência moral.
Esta casa, como já é de seu conhecimento, tornou-se um reduto de espíritos malignos, cuja entrada foi promovida por insensatez humana.
Além disso, este lugar é palco de carma terrível — concluiu o hindu.
- Estou ciente, mestre, de que os homens não podem evitar o carma criado por eles mesmos; gostaria, porém, de salvar o jovem médico que aqui conheci.
Em essência, considero-o uma pessoa honesta e boa, destruída por circunstâncias infaustas.
Ele atolou-se em lama e debate-se em vão para sair dela, aprisionado pela infame mulher que usou contra ele as forças do mal — o que o releva da culpa.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 11, 2016 7:35 pm

Além disso, ele é um homem de ciências e é bem ilustrado.
Talvez eu esteja equivocado; a sua vontade, mestre, é lei para mim.
- Deus m e livre desautorizá-lo a ter um sentimento tão bom de ajudar o próximo.
Amor ao próximo é um nobre princípio que une as forças do bem.
Terei prazer enorme em ajudá-lo a salvar a alma do homem que cativou seu interesse; mas, para que eu possa fazer algo, há uma condição.
Num grandioso minuto de sua vida — e este minuto está próximo -, ele deverá dar provas de sua magnanimidade:
um sentimento puro e altaneiro, alheio à ira e à hostilidade.
Se a sua alma for capaz de se elevar a essa altura, ela criará um fluido que o tornará puro, e uma luz que limpará sua aura, possibilitando-me orientar o seu espírito; então você ouvirá uma música suave — a vibração do bem; só então eu lhe entregarei as instruções.
Seguiu-se uma conversação longa e animada, após a qual o adepto deitou a mão sobre a cabeça do príncipe, este sentiu uma vertigem e perdeu a consciência por uns instantes...
Quando abriu os olhos, a lâmpada de mesa estava acesa e ele se viu sentado na poltrona, segurando numa mão um frasco de cristal com rolha dourada, cheio de uma substância que parecia mercúrio, e, na outra — duas folhas de pergaminho, traçadas com letra do mestre.
Na folha menor, ele leu:
"Não se deite e fique com o frasco por perto".
Seguiam-se depois diversas instruções; o hindu havia desaparecido.
O príncipe se levantou e guardou o pergaminho maior; o outro ele enfiou no bolso do colete, da mesma forma que o frasco, que irradiava um calor intenso.
Em seguida, arrumou os objectos utilizados, pegou um livro e começou a lê-lo; estava convicto de que algo especial aconteceria naquela noite...
Fênia, a criada mais antiga da baronesa, era uma morena bem apessoada e vigorosa, de uns vinte anos, astuta e coquete.
No último inverno, ela havia usado de seus encantos e Akim, o adestrador de cavalos, um rapaz belo e inteligente e, por sinal, bastante bem de vida para a sua classe, apaixonou-se por ela.
Fênia o conhecia bem, pois ambos eram da mesma aldeia.
Eles eram tidos como noivos, antes de irem a Zeldenburgo, quando a situação mudou drasticamente.
O administrador do castelo, ex-sargento Piotr Shultz, ficou cativado pela jovem criada que, por sua vez, começou a gostar dele.
Esperta, Fênia logo atinou que ele tinha uma bela e aconchegante residência de três cómodos, um bom salário, vivia perto da cidade grande — o que, indubitavelmente, era bem melhor do que viver numa aldeia perdida na província Olonetskaya, para onde Akim planeava voltar e mais tarde chamar a futura esposa, já que a mãe dele estava velha e tinha dificuldades de administrar uma boa propriedade.
As intenções de Akim fizeram pesar a balança a favor de Shultz, a quem Fênia dispensava franca preferência.
Ao se sentir um tanto desprezado, Akim tornou-se sombrio e irritadiço, instando da traidora explicações tempestuosas que, aliás, não levaram a nada, pois Fênia não pensava desistir de seu brilhante partido.
Depois de levar o bilhete e o presente de recordação a Mery, Fênia resolveu encontrar-se rapidamente com o administrador.
A ama estava doente, ademais ela contava com Annuchka, e ninguém lhe notaria a ausência, ainda que demorasse conversando com seu admirador.
Destarte, ela partiu em desabalada carreira para o pomar, onde estaria sendo esperada por Shultz e, de facto, viu-o sentado num banco, sob uma enorme tília cercada por arbustos de acácia silvestre.
Fênia não reparou estar sendo seguida por um homem que se escondia sob as árvores sombrosas; mas, sem dúvida, teria se assustado, se pudesse ver o semblante transfigurado e os punhos crispados de Akim.
Porém, ela não pensava nele e, rindo de felicidade, atirou-se nos braços abertos de Shultz, que a fez se sentar no banco, cingiu-a pela cintura e encetou uma conversação afectuosa.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 11, 2016 7:36 pm

Fênia reiterou ao recente noivo seu amor eterno, assegurou-lhe nunca ter amado Akim e descartou qualquer possibilidade de casar com ele; a paixão ridícula daquele mujique(11) estúpido apenas a divertia.
No calor da conversa, ambos não se deram conta de Akim escondido atrás das acácias, a dois passos deles, que rangia os dentes ao ouvir aquela conversa.
- Víbora miserável! — guinchou ele.
Saltando dos arbustos por trás do banco, ele agarrou a garganta de Fênia e começou a enforcá-la com as mãos, ainda que ela estivesse abraçada ao seu amado.
Por uns instantes, Shultz ficou pasmo, mas ao escutar a jovem rouquejando em voz baixa e contorcendo-se em convulsões, ele se deu conta e, no instante em que Akim largou Fênia, esta tombou no chão e o maluco estava prestes a se lançar sobre ele,
Shultz lhe desferiu um soco tão potente que derrubou Akim por terra, sem sentidos.
Assustado, o administrador levantou Fênia e tentou reanimá-la; ao ver que não conseguia, ele a carregou à casa do jardineiro, perto dali, e correu para chamar o doutor.
Vadim Víktorovitch estava arrumando seus pertences, triste e atormentado por um perigo indefinido, quando o administrador irrompeu no quarto e lhe transmitiu o ocorrido, pedindo para socorrer a pobre moça e Akim, que não dava sinais de vida.
Pelo rosto assustado de Shultz, que mal conseguia permanecer de pé,
Zatórsky concluiu que o caso era sério.
Pegou a sua farmácia ambulante e mais alguns preparados e seguiu o administrador até a casa do jardineiro.
Para não chamar a atenção da criadagem e evitar conversas prematuras, eles saíram pelo terraço.
A baronesa, neste ínterim, não conseguindo dormir, mandou chamar Fênia.
Tendo esperado um tempo bastante longo, estava prestes a tornar a tocar a campainha, quando veio Annuchka, anunciando que Fênia não estava em seu quarto e que, provavelmente, teria ido ao pomar, pois algo tinha acontecido com o administrador ou o jardineiro.
Contou que o cozinheiro viu Shultz correr até o aposento do doutor e, depois, Vadim Víktorovitch saiu com ele pelo terraço, ambos se dirigindo pela alameda para o pomar.
- Ah, no mínimo a mulher do jardineiro está passando mal; ela não consegue se recuperar do parto e, então, seu compadre foi buscar o doutor — observou a baronesa, em tom entediado.
- Apague a luz, Annuchka, quero dormir e que não me incomodem até eu tocar a campainha.
Ao se ver sozinha, Anastácia Andréevna levantou-se, cobriu-se de capa, calçou os chinelos nos pés sem meia e se esgueirou silente na escuridão directamente ao quarto do médico.
Sobre a mesa, uma lâmpada iluminava o ambiente e perto dela havia uma caixa de remédios.
Após esquadrinhar o quarto, a baronesa viu uma mala arrumada aberta.
Seu rosto franziu-se em sorriso maldoso de escárnio. Um compartimento especial da caixa de remédios era ocupado por um estojo de couro com substâncias perigosas;
a baronesa tirou-o da caixa e começou a ler as etiquetas nos frascos e caixinhas com os pós.
Por alguns instantes, o ópio e a morfina detiveram sua atenção, mas ela recolocou-os de volta e tirou o frasco com o clorofórmio.
"Eis do que preciso!
Uma toalha, dele embebida, e colocada no rosto, fará o serviço sem deixar suspeitas;
a janela aberta ventilará quaisquer evidências", pensou ela, satisfeita.
Ela fechou o estojo, recolocou-o no lugar e se preparava a meter o frasco no bolso, quando repentinamente uma mão fria segurou seu punho cerrado. Sobressaltada, levantou a cabeça e viu Vadim Víktorovitch pálido; este a fitava com nojo.
- Estou vendo que Deus me trouxe na hora oportuna para evitar um homicídio.
Que veneno uma fiel esposa usaria para se tornar viúva?
Mas isso não tem importância.
Se o barão morrer, serei o primeiro a denunciá-la.
Também é equívoco seu ao achar que, enviuvada, me obrigará a casar com a senhora.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 11, 2016 7:36 pm

Nunca! Está tudo terminado, definitivamente.
Para o cúmulo, só falta que alguém a veja aqui agora, nesses trajes indecentes!
Ele arrancou da mão dela o frasco, dizendo bruscamente:
— Saia!
Nem ele nem a baronesa notaram o vulto do barão, tal qual um fantasma parado no umbral.
- Não vou embora, pois eu o amo e jamais deixarei que me largue! — gritou ela, rubra de cólera.
— Exigirei divórcio e você, seu patife ingrato, haverá de se casar comigo, pois temos um filho...
Ela calou-se de repente e empalideceu feito cadáver, olhando aterrorizada para o marido que se aproximava.
O rosto transfigurado do barão estava decididamente terrível.
- Foi óptimo ter encontrado os dois juntos, casalzinho torpe; foi óptimo também ouvir da boca da víbora a confissão pérfida — berrou ele, em voz surda.
Espere só o divórcio que lhe darei!
E, com você, seu miserável, também hei de acertar as contas.
Os cães merecem uma morte de cão.
Uma pistola luziu em sua mão e, quase imediatamente, ouviram-se dois estampidos.
A baronesa soltou um grito desatinado e tombou pesadamente no chão;
Zatórsky agarrou o peito, cambaleou e também caiu, sem emitir nenhum barulho.
O príncipe foi o primeiro a ouvir os tiros. Largando o livro, ele correu para o quarto do doutor, imediatamente seguido pelo mordomo e camareira.
Pasmos, estacaram diante dos corpos estendidos; o barão estava sentado na poltrona, com olhar apalermado.
- Rápido, Ivan e Annuchka, levantem a baronesa!
Carreguem-na ao dormitório para atar o ferimento, enquanto eu examinarei Vadim Víktorovitch! — ordenou o príncipe, abaixando-se de joelhos diante do ferido.
Anastácia Andréevna não dava sinais de vida quando a ergueram.
Seu penhoar branco de flanela estava todo ensanguentado e no rosto se congelara uma expressão de terror insano.
Por todos os lados acorreram pessoas berrando, de modo que o príncipe teve de dar um basta à desordem.
Instando as mulheres a acompanharem Annuchka para cuidar da baronesa, ele ordenou a um dos criados ir a Revel para chamar um médico e os outros para transportarem Vadim Víktorovitch ao seu dormitório.
- Ele ainda respira e talvez possamos salvá-lo — disse ao criado que o ajudava a despir, deitar e fazer a atadura no ferimento do doutor, que poderia ser mortal, já que lhe atingira o peito.
Enquanto o príncipe lavava o ferimento e colocava o curativo, o criado contou, sussurrando, da outra tragédia que se desencadeara naquela noite fatídica, custando a vida de uma terceira vítima:
Fênia havia morrido.
"Deus misericordioso!
Que demónios assolam esta casa!" - pensou o príncipe, persignando-se.
Ele se inclinou apreensivo sobre o ferido, de cujos lábios entreabertos escapava uma respiração rouca e sibilante; os olhos estavam cerrados e aparentemente ele estava incônscio.
O príncipe releu as instruções do mestre, esfregou as pálpebras e as têmporas do ferido com uma essência de odor forte e esperou.
De súbito, ele se lembrou do barão e o foi espiar no quarto vizinho.
Maximiliano Eduárdovitch continuava sentado inerte na poltrona, ao seu lado o criado lhe dava sais para cheirar.
- Deixe-o, Ivan!
É melhor que ele descubra a terrível verdade só mais tarde — disse o príncipe, a meia voz.
Cuidaremos dele depois, pois não posso me afastar de Vadim Víktorovitch.
Alisei Adriánovitch voltou junto ao ferido, que se mexeu levemente e abriu os olhos; um sorriso fraco franziu seu rosto pálido ao reconhecer o príncipe.
- Rápido, traga-me um papel, uma pena e um pouco de vinho, preciso de forças — sussurrou ele.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 11, 2016 7:36 pm

O príncipe trouxe apressado o mata-borrão, colocou sobre ele uma folha de papel, abriu o tinteiro e estendeu a pena; a seguir, ao cálice de vinho ele ajuntou cinco gotas do líquido parecido com o mercúrio, deixado pelo adepto.
Cuidadosamente erguendo o ferido, ele levou aos seus lábios o cálice, engolido avidamente pelo doutor; um leve rubor invadiu o seu rosto.
Zatórsky, com vigor inesperado, pegou a pena e escreveu com mão firme:
"Declaro ser o único responsável pela morte da baronesa e da minha."
- Ela está morta? — perguntou, persignando-se.
- Temo que sim — respondeu o príncipe.
Mas o senhor, provavelmente, será salvo.
- Infelizmente, acho que não; o ferimento é letal.
Mas a minha confissão poderá inocentar o barão, evitando que seus filhos fiquem totalmente órfãos.
Peça-lhe para me perdoar! — murmurou Zatórsky, em voz quase inaudível.
Neste instante, ouviram-se grandiosos e incrivelmente melodiosos acordes e o rosto do príncipe foi bafejado por um aroma divinamente suave.
O doutor ficou toldado em luz azul-celeste, que foi adquirindo a forma de um enorme ovo de substância gelatinosa e, em seu interior, alçava-se em espiral uma fumaça negra cheia de seres asquerosos, tentando se grudar ao corpo.
Porém, acima da cabeça de Vadim Víktorovitch cintilava uma luz brilhante e seus feixes incidiam sobre as criaturas nojentas e as repeliam.
Ajoelhado, o príncipe ficou admirando o espectáculo, tremelicando de emoção indescritível ao som da maravilhosa música que ainda se ouvia no quarto.
Então, ei-la — a vibração do bem - a grandiosa harmonia gerada por sentimentos puros e altaneiros da alma humana.
Neste instante, em seus ouvidos soou a voz baixa feito um sopro do mestre.
- Mãos à obra!
Veja a luz gerada de bons arrebatamentos - prova do arrependimento dos crimes cometidos, do perdão ao seu assassino e do amor aos filhos dos que o arruinaram.
Zatórsky parecia ter retornado à inconsciência.
Sem dar a isso importância, o príncipe pegou uma xícara de água e nela acrescentou meia colher do líquido do frasco.
A água ficou rosa e borbulhou; então ele tirou a bandagem, embebeu-a com a mistura e aplicou novamente sobre o ferimento, atando-o em seguida.
Com a mesma mistura, ele lavou o rosto e os braços do ferido.
Zatórsky abriu os olhos e suspirou visivelmente aliviado.
- Obrigado, estou bem melhor, mas com muita sede — murmurou ele.
O príncipe aprontou uma bebida com o preparado fornecido pelo adepto e deu-o de beber para Vadim Víktorovitch; este fechou os olhos e adormeceu.
Ao terminar a arrumação dos pertences, Mery sentou-se à mesa e tentou ler; não queria dormir, tomada que estava por violenta e indefinida angústia.
Tomou calmante, mas não ajudou.
Debalde tentou se convencer de ter conquistado a felicidade, que ninguém mais lhe subtrairia, e que era uma tolice se preocupar; amanhã mesmo ela estaria longe do castelo odioso e ele - longe daquela imprestável.
Suas considerações, porém, não ajudavam e os receios pareciam ganhar mais força.
Por fim, ela se pôs a reflectir sobre o futuro e, em meio a esses devaneios cor-de-rosa, mergulhou sentada na poltrona num sono pesado e inquieto.
Ela não viu Pacha irrompendo no quarto, esbaforida e com olhos errantes, e só acordou quando esta a sacudiu pelo braço.
- Acorde, senhorita.
Aconteceu uma desgraça.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 11, 2016 7:36 pm

O barão matou a esposa e o doutor! — gritou ela, agitando as mãos.
Mery ergueu-se sobressaltada, esbugalhou os olhos e se agarrou na mesa para não cair.
- O doutor está morto? — balbuciou ela, agarrando a cabeça com as mãos.
- Bem, não tenho certeza, mas os dois estão mal; o príncipe está com eles.
A baronesa, apesar de todas as tentativas nossas, permanece inconsciente.
Dois homens partiram a cavalo a Revel para buscar os médicos; só depois saberemos — reportou-se Pacha.
- Onde está Vadim Víktorovitch? — perguntou Mery.
- Em seu dormitório.
Ai, ai! Que dia de pesadelos!
A senhorita ainda não sabe, mas Akim enforcou sua pobre Fênia — choramingou Pacha.
Mas Mery já não ouvia mais e corria aos aposentos do doutor.
Feito uma flecha, ela atravessou o gabinete, ignorando o barão estendido na poltrona e, sem pedir licença, irrompeu no dormitório.
A lâmpada sob o abajur verde espargia meia-luz alvacenta sobre as almofadas, onde se delineava a cabeça pálida do ferido.
Mery caiu de joelhos junto à sua cabeceira e em voz entrecortada ciciou:
- Vadim Víktorovitch!
Zatórsky abriu os olhos e em seu rosto reflectiu-se uma expressão de sofrimento e desespero profundos.
- Mery, minha pobre Mery!...
A felicidade parecia tão próxima, mas não era destino ela se realizar.
Eu carrego a punição por meus actos imundos — balbuciou, apertando-lhe fracamente a mão.
- Se o senhor morrer, morrerei junto; mas antes, matarei aquela miserável que pôs tudo a perder — respondeu Mery, tremendo feito vara verde.
Ela se ergueu e inclinou-se a ele; em seus olhos negros fulgia um ódio tão violento, que o doutor estremeceu.
- Mery, não diga isso, nem tenha essas ideias, pois isto me faz sofrer.
Jure-me agora jamais revelar a alguém de eu ter sido morto pela mão do barão.
Diante dos homens e da justiça, fui eu que matei a baronesa e depois suicidei; ninguém poderá ter dúvidas disso.
- Não, eu vou denunciá-lo.
Ele que carregue as consequências desse crime!
Seria idiota apiedar-me do patife que arruinou a minha vida — gritou ela, fora de si.
- Mery, este é o meu último desejo!
Será ele recusado?
Liza e Bóris são inocentes.
Deseja vê-los completamente órfãos?
Não torne mais penosos meus últimos momentos e prometa cumprir o meu derradeiro desejo.
Uma luta atroz parecia se processar na alma da jovem; depois, vencida pelo olhar suplicante com que ele a fitava, ela sussurrou:
- Prometo — e pôs-se a chorar convulsivamente.
- Obrigado. A promessa foi a melhor prova de amor que eu podia ter recebido e que me deixa feliz.
Não chore, querida, o tempo cura todas as desgraças e Deus lhe enviará a felicidade com alguém mais digno.
Agora me dê um beijo; a morte me será doce com ele.
Sem hesitar, Mery se inclinou e, no longo beijo, suas almas como que se uniram, selando a fidelidade.
- Jamais amarei um outro homem e não esquecerei deste momento — murmurou ela.
Contudo, a sua perturbação foi assaz intensa; ela cambaleou e teria caído, não fosse amparada pelo príncipe.
- Dê-lhe um sonífero — inquietou-se o doutor, fitando Mery, que parecia acometida de crise nervosa.
Quase à força, o príncipe a fez tomar as gotas; mas, vendo que ela estava definitivamente enfraquecida, ergueu-a nos braços como a uma criança, levou-a ao seu quarto e chamou por Pacha.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 11, 2016 7:37 pm

Ao retornar para Vadim Víktorovitch e passando pelo gabinete, o príncipe viu que o barão voltara a si.
Ele estava sentado na poltrona, seu olhar perdido e apático detinha-se na poça de sangue no chão; o príncipe se aproximou.
- Meu pobre amigo, volte a si e tente se acalmar.
Não há mais nada a fazer.
- Ambos estão mortos? — perguntou baixinho o barão.
- Ela, sim; mas ele ainda está vivo, porém o ferimento é letal.
Apesar de seus equívocos, ele é uma pessoa magnânima e boa.
Depois do tiro, quando ele recuperou os sentidos, pediu um papel e pena; pensei que ele queria deixar um testamento, mas, ao invés disso, o doutor assinou uma declaração confessando ter assassinado premeditadamente a baronesa e, depois, tentado suicídio.
Isso o livra, barão, da justiça humana.
- Não posso aceitar tal generosidade — protestou o barão.
- O senhor há de aceitá-la por causa dos filhos e não tem o direito de deixá-los órfãos, subtraindo-lhes o nome honesto com risco de um escândalo familiar.
Com um gemido surdo, o barão cobriu o rosto com as mãos.
- O senhor deveria falar com o doutor e dizer-lhe que o perdoa.
Não imagina a punição que lhe infligiu.
Os dois, ele e Mery, se amavam, já tinham se explicado, e ela está desesperada — observou o príncipe.
- Neste caso, por que ele precisava da amante?
Perdi a cabeça ao flagrar os dois.
O resto são tolices:
sua magnanimidade m e desarmou e, com um moribundo, a gente deve ter consideração.
Dê uma olhada, Alisei Adriánovitch, se ele está consciente.
Irei me reconciliar com ele — pronunciou o barão, num esforço.
Zatórsky estava lúcido.
Inquirido pelo doutor, respondeu que não estava sofrendo muito, apenas sentia uma fraqueza extremada.
- Perdoe-me a pergunta indiscreta, Vadim Víktorovitch:
para que veio a baronesa, já que não se cogitava uma reconciliação? — perguntou o príncipe, indeciso.
- De facto. Ela sabia perfeitamente que entre nós estava tudo acabado.
E então, o doutor, em algumas palavras, contou que, sendo chamado para acudir Fênia, ao voltar, flagrou a baronesa no quarto, subtraindo uma substância para se livrar do marido, com a esperança de obrigá-lo a casar-se com ela, porque se tornaria viúva.
- Ah, por que não nos ensinam na escola disciplinar a força de vontade para resistirmos aos ímpetos da carne?
Como gostaria de aprender esta ciência da alma e consagrar-lhe a vida...
Talvez, Deus não queira isso! — lamentou ele.
O príncipe apressou-se a voltar junto ao barão.
- Vim mitigar seus receios, Maximiliano Eduárdovitch.
No que lhe concerne à esposa, o senhor apenas serviu de instrumento da justiça.
Ela não só era falsa e ingrata com o homem que a prodigalizou de benevolências e amor dadivoso, como também planeava matá-la.
Ele, então, transmitiu o que acabara de ouvir do doutor e acrescentou: — Vadim Víktorovitch protegeu sua vida contra aquela hiena, com quem já tinha rompido o relacionamento.
Apesar do erro grave, o senhor perde um amigo.
Sendo, no íntimo, uma pessoa honesta, faltou ao doutor força de vontade, contagiado que está com os costumes dissolutos de nossa sociedade.
Ele tornou-se uma vítima da pregação criminosa da não resistência contra o mal.
O facto é o seguinte:
ele não conseguiu se resguardar de uma mulher mundana, que o subjugou.
Ah, se o senhor tivesse pedido por meu conselho, Maximiliano Eduárdovitch!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 11, 2016 7:37 pm

- Tivesse eu poder sobre a minha alma, como o senhor diz, não permitiria que um acesso de raiva me cegasse.
O demónio me empurrou para praticar esse duplo homicídio — disse o barão, lívido e desanimado, ao se levantar e se dirigir ao quarto contíguo.
Trémulo, ele se agachou sobre o ferido, que o fitava com os olhos dilatados.
- Vim agradecer-lhe, Vadim Víktorovitch, pela magnanimidade que remiu sua culpa, e pedir-lhe perdão por meu acto insano e criminoso.
Um duelo teria sido melhor.
A ira cegou-me — pronunciou, perturbado.
- Perdoo-o de toda a alma.
De todos, sou o mais culpado e a sua ira foi justa.
Não me lembre mal!... — pediu o ferido, em voz cansada.
As lágrimas que afluíram à garganta do barão impediram que ele respondesse.
Calado, apertou a mão do moribundo, virou-se e deu alguns passos cambaleantes; sua cabeça andava à roda.
- Vá para o seu quarto, Maximiliano Eduárdovitch, deite-se e tente dormir ou, pelo menos, descanse.
Amanhã, com a vinda das autoridades, o senhor precisará de forças, sobretudo para cuidar do enterro — observou o príncipe, pegando o barão pelo braço e ajudando-o a chegar até o gabinete.
Célere, ele retornou junto a Vadim Víktorovitch, que dormitava, sem sofrer aparentemente, pois não se lhe ouvia qualquer gemido, apenas uma respiração pesada e irregular.
O príncipe sentou-se aos pés da cama e mergulhou em oração.
Nisso, um leve barulho o interrompeu.
Levantando a cabeça, viu, surpreso, Lili.
Ela estava parada no umbral da porta, premendo contra o peito a imagem de Nossa Senhora, em rico caixilho de ouro.
Vestia um longo penhoar branco de baptista; os maravilhosos cabelos loiros estavam soltos e desarrumados e o rostinho pálido parecia transparente.
Frágil e magra, a menina parecia uma visão e os olhinhos, dilatados e assustados, estavam vermelhos de choro sob os densos cílios.
- Posso entrar e colocar no peito dele a imagem da Mãe de Deus?
Isso aliviará a sua morte — disse ela, baixinho.
- Claro. Entre, coloque o ícone de nossa Protectora e faça uma oração! — anuiu o príncipe, olhando para ela afectuosamente.
Lili aproximou-se do leito devagar e sussurrou:
- Eu estive com a mamãe, mas parece que ela está morta.
Rezei por ela e, quando fui colocar a imagem em seu colo, senti que ela me repelia, o que me deixou com muito medo.
Vim orar por Vadim Víktorovitch, para que a misericordiosa Rainha Celeste o salve e purifique.
Ele sempre foi muito bom comigo; no ano passado, quando fiquei muito doente, ele atravessou noites e noites junto à minha cama.
As lágrimas impediram-na de prosseguir.
Ela se curvou sobre o ferido e perguntou temerosa:
- Está vivo ainda?
O príncipe balançou afirmativamente a cabeça.
Então, ela deitou cuidadosamente o ícone sobre a mão imóvel de Vadim Víktorovitch.
Este estremeceu, abriu os olhos e sorriu ao reconhecer o rostinho querido inclinado.
- É você, Lili?
Obrigado por ter vindo.
- Eu lhe trouxe, tio Vadim, a imagem milagrosa, para aliviar seus sofrimentos.
Posso orar para que Deus o ajude?
Será isso de seu agrado?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 11, 2016 7:37 pm

- Ore, Lili!
Eu orei pouco na minha vida e estou feliz que a oração de uma alma inocente me acompanhará ao outro mundo.
Obrigado e adeus, querida criança!
Não se esqueça de mim e seja feliz.
Permaneça sempre boa e tenha fé em Deus...
Ele se calou, exaurido, depois murmurou em voz quase inaudível:
- Sede!...
O príncipe deu-lhe o resto da bebida misteriosa que o doutor tomou avidamente e mergulhou no esquecimento.
Lili se levantou e orou ardorosa.
O príncipe, que a observava atentamente, viu sobre a cabecinha loira uma luz suave azul-celeste; do peito fulgia um feixe púrpuro, do qual bafejou um calor vivífico.
"Quem poderia imaginar que uma mãe imprestável pudesse gerar uma criança tão maravilhosa, predestinada, pelo visto, a ser pura e altaneira", pensou o príncipe.
"De sua mente emanam pensamentos puros e, do coração, o calor de afeição sincera e profunda".
Um sentimento de cálida simpatia inflamou-se em seu coração por aquela menina tornada órfã tão tragicamente e ele prometeu a si empenhar todos os seus esforços para iluminá-la, ampliar seus horizontes mentais e instruí-la sobre as leis que governam o mundo, tanto visível, como invisível, para que a sua fé não se abalasse no meio da turba devassa com a qual ela deveria conviver, e para que os vícios não lhe maculassem a alma.
Sob a impressão daqueles pensamentos, ele se pôs de joelhos ao lado da menina e, tomando-lhe a mão, começou a recitar a mais grandiosa das orações, em que Cristo depositou todos os deveres e as necessidades humanas:
"Pai nosso que estais no Céu..."
Após algum tempo, difícil de ser determinado, Alisei Adriánovitch levantou-se e olhou para Zatórsky, cujo rosto adquirira uma tonalidade cérea; em seguida, ele ergueu Lili e beijando-lhe a mão disse:
- O nosso amigo parou de sofrer.
Vá descansar, Elizaveta, e depois eleve uma oração por seus pobres pais; eles precisam disso.
Toda em pranto, Lili persignou-se, beijou o morto e saiu.

1. Camponês russo. (N.T.)
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 12, 2016 7:43 pm

~XII~

Na manhã seguinte, um criado anunciou ao príncipe chegada do médico, do investigador e do promotor da justiça, vindos para tratar do caso de Fênia.
Mas a noite passada vitimara mais uma pessoa:
Akim enforcou-se em seu quarto, onde fora trancafiado.
O médico estabeleceu a morte da baronesa, do doutor Zatórsky e de Fênia com Akim.
O barão se encontrava em crise nervosa e estava tão fraco, que mal conseguiu fazer o seu depoimento.
Ele explicou ter voltado para casa antes do esperado, ansioso por reencontrar os familiares, tendo vindo de carruagem contratada.
Para não perturbar ninguém, ele abriu a porta com sua chave e, ao se dirigir ao seus aposentos, ouviu os tiros, em cuja direcção correu, encontrando dois corpos estendidos.
Com o choque da desgraça, ele se deixou cair na poltrona e, daquilo que aconteceu em seguida, só tinha uma ideia confusa.
Quanto ao motivo do assassinato e suicídio, o barão pediu que o poupassem dessa explicação.
O bilhete deixado por Zatórsky, sendo um documento genuíno, fez com que o seu relato fosse verossímil.
A comunicação do príncipe ao investigador sobre um relacionamento íntimo entre os mortos, confirmado pela criadagem, preencheu as lacunas.
Ficava obscura apenas a briga entre os amantes, que precedeu à catástrofe.
As autoridades judiciais ainda estavam lavrando os protocolos, quando, subitamente, chegou Elena Oreéstovna, surpresa por não ter encontrado a equipagem que deveria buscar o barão.
Ao se inteirar dos factos que ocorreram no castelo na noite anterior, quase desfaleceu, mas com a energia a ela característica imediatamente se pôs a ajudar Eletsky, que teve que cuidar de tudo, pois o barão não estava em condições de expedir as determinações mais simples.
A atmosfera na casa era lúgubre e carregada.
No salão, onde algum tempo atrás dançavam alegremente, descansava o corpo da baronesa, arrancada inopinadamente no florescer dos anos do banquete da vida.
Vestido para o sepultamento, Zatórsky foi deixado no leito colocado no meio do gabinete, aguardando-se a vinda dos caixões.
A criadagem, nervosa e sombriamente humorada, sussurrava nos quartos dos empregados.
Não só a morte trágica de Fênia e Akim oprimia como um pesadelo, mas o fim da baronesa e do doutor geravam falatório interminável.
Inicialmente, todos tinham o barão por assassino, e a história do suicídio propiciou discussões acaloradas; entretanto, ninguém tinha certeza de nada.
Quando Ivan e Annuchka tinham irrompido no aposento, ambos os corpos jaziam no chão; o barão, feito um aparvalhado, estava sentado na poltrona.
Annuchka confiou a todos que Anastácia Andréevna não raro batia em Vadim Víktorovitch.
Provavelmente, ao se sentir afrontado por algum desatino, ele tenha se enfurecido e a matado, suicidando-se em seguida para não ser sentenciado a trabalhos forçados.
Esta versão satisfez a todos, sem dizer que cada um tinha trabalho até o pescoço.
O príncipe cuidava de tudo e enviou, inclusive, um telegrama à tia de Zatórsky, comunicando o triste episódio e pedindo-lhe as determinações quanto ao lugar do sepultamento:
seria enterrado em Revel ou o corpo deveria ser transportado para Petersburgo?
Quando Mery despertou de seu longo sono e se conscientizou dos factos, teve um acesso de desespero desvairado, extravasando todo o desenfreamento de sua natureza fogosa e sobre-excitada.
Ela rolava numa crise de histerismo, arrancava os cabelos e culpava os Céus da crueldade e injustiça.
Elena Oreéstovna, presente no quarto, à qual o príncipe confiou toda a verdade sobre o infortúnio de Mery, já suspeitava de tudo bem antes; Eletsky aconselhara-lhe não deixar sozinha a jovem e manter longe os criados, receando que ela, num acesso de desespero, revelasse o verdadeiro assassino, apesar de sua promessa.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 12, 2016 7:43 pm

Deixando passar o primeiro paroxismo, ao qual sobreveio a involuntária tranquilizarão pelo esgotamento das forças de Mery, Elena Oreéstovna tentou agir sobre ela através das persuasões, envergonhando-a pelas imprecações e desespero insano, que poderiam deitar por terra o ato grandioso da pessoa amada que expiara seus equívocos com uma morte verdadeiramente cristã.
As palavras severas e ajuizadoras de Elena Oreéstovna não deixaram de fazer efeito sobre Mery e, à noite, quando se realizou o primeiro réquiem, ela compareceu nele, ainda abalada, porém nada denunciando que pudesse prejudicar o barão.
Este também presenciou a cerimónia, no fim da qual se sentiu mal e foi levado para o quarto.
Lili esvaziara todos os canteiros do jardim, cobrindo de flores frescas e aromáticas os corpos dos defuntos; até para Fênia e Akim ela trançou algumas coroas, enviando-as em seguida.
Sobreveio a noite e, no salão, um sacristão de meia idade recitava monotonamente os salmos.
Os grandes círios em castiçais de prata iluminavam opacamente a falecida.
Seu rosto estava coberto de gaze, já que nem a morte conseguiu conferir aos traços transfigurados da baronesa a expressão daquela serenidade límpida e grandiosa que a grande libertadora normalmente impõe sobre os restos mortais daqueles que compreenderam o magnífico enigma da existência.
Mal bateu a meia-noite, o sacristão sentiu um frio e pensou buscar o paletó; pareceu-lhe que uma lufada de vento abria a janela e a rajada glacial atravessava o salão, balouçando a chama dos círios.
Um pavor jamais sentido apossou-se dele.
Estava prestes a deixar o local, mas fraquejou e cobriu o rosto com as mãos.
Dominando com muito esforço a fraqueza, ele se retesou ao ouvir um barulho estranho, como que de um estalo se alternando com rugir surdo.
Ele esbugalhou os olhos e, mudo de pavor, presenciou um quadro inédito e incompreensível.
A dois passos dele, envolto num clarão amplo vermelho-sanguíneo, pelos degraus do catafalco subia um enorme tigre.
Erguendo-se nas patas traseiras e apoiando-se nas dianteiras sobre o peito da defunta, o olhar fosforescente da fera deteve-se no pobre sacristão.
Atrás do tigre, como que pairando no ar, via-se a figura de uma mulher de tez brônzea, cabelos soltos adereçados com jóias; na mão ela empunhava um objecto vermelho.
Um grito selvagem de terror soltou-se do peito do sacristão.
Como que através de uma névoa, pareceu-lhe o tigre ter recuado, enquanto a mulher nua, envolta tal qual em véu por cabelos negros, turbilhonava em bruma sanguinolenta; nisso ele perdeu os sentidos.
O grito desatinado fez os criados próximos estremecerem.
Ivan, o primeiro a irromper no salão, ainda viu a cabeça do tigre assomando-se sobre a defunta e como que a revirando; depois, tudo desapareceu.
O pânico tomou conta da casa.
Os criados resistiam aos apelos de permanecerem no castelo e só a muito custo alguns aceitaram ficar até a partida da família, marcada imediatamente depois do enterro da baronesa.
Ninguém quis tocar no cadáver achado com o rosto virado para baixo e com uma grande marca de mordida no peito.
É natural que aquele acontecimento abalou ainda mais o barão, ansioso por abandonar o local nefasto, que lhe lembrava o drama em que ele era um dos principais personagens.
No parque, nas proximidades do castelo, havia uma capela familiar com jazigo dos últimos von Kosen, da linhagem mais nobre.
O prédio fora erguido no fim do século XVIII e tinha tumbas vazias.
Percebendo a indisposição das pessoas e desejoso de acabar o mais rápido possível com o escândalo familiar, o barão decidiu enterrar a esposa naquele jazigo.
À tarde chegou um telegrama de Petersburgo da dama de companhia da tia do doutor; ela comunicava que, ao receber a notícia da morte do sobrinho, Sofia Fiódorovna teve um ataque apopléctico e que, no momento, não estava em condições de expedir qualquer determinação.
Não havia outros parentes próximos e onde moravam os mais distantes ela não sabia; portanto, ela pedia enterrá-lo no terreno de alguma igreja de Revel, até uma nova ordem.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 12, 2016 7:43 pm

Aconselhado pelo príncipe, o barão decidiu colocar temporariamente o caixão de Zatórsky no jazigo familiar.
Na manhã seguinte, às pressas e sem qualquer cerimónia sumptuosa, realizou-se o enterro; o caixão de Vadim Víktorovitch foi posto perto da entrada ao jazigo; de seu corpo já emanava o cheiro de cadáver, testemunhando uma rápida decomposição...
Logo após o meio-dia, Elena Oreéstovna partiu do castelo levando Mery, que parecia adoentada, as crianças com a governanta e todo o pessoal feminino da criadagem.
O barão ficaria ainda por uns dois dias.
Apesar da vontade de abandonar o mais breve possível o detestável castelo, ele foi retido por alguns assuntos importantes.
O príncipe anunciou que não deixaria o amigo e ficaria com ele em Petersburgo até que o barão decidisse de seu futuro, após o que Eletsky planejava voltar para Londres.
Na noite daquele dia, ambos estavam sentados no quarto do príncipe e tomavam o chá; abatido, o barão relutava em voltar aos seus aposentos.
Eles conversavam sobre os estranhos acontecimentos dos últimos dias, da morte de Karl, da visão do sacristão.
O príncipe lhe relatou sobre o aparecimento do fantasma do cavaleiro livónico, que se verificou, de facto, um arauto dos infortúnios.
O barão ficou pensativo e por fim observou:
- Se fossem críveis todas essas histórias com o tigre, seria terrível; mas confesso-lhe, Alisei Adriánovitch, eu não acredito que o pobre Pratissuria pudesse prejudicar a quem quer que seja.
A questão é que nenhum dos nossos tolos e supersticiosos criados jamais viu um tigre de verdade.
Acho que eles tiveram uma alucinação.
O melhor a fazer é levar a estátua e o animal para Petersburgo; que fiquem no museu!
Eu já encomendei uma campânula de vidro para eles...
- Pelo amor a Deus, desista de sua loucura!
Quer que seus filhos sejam vítimas do vampiro? — exclamou o príncipe irado e em tom tão convincente que o barão ficou constrangido.
Mas ele era uma daquelas pessoas turronas, aos quais não bastava uma forte evidência para mudar a opinião formada.
- O que me resta a fazer?
Não posso simplesmente me desfazer dos objectos tão raros e valiosos, jamais chegarei a tal ponto de crendice e vandalismo.
- Hn'y a de pire sourd que celui qui ne veut entendre (o pior surdo é o que não quer ouvir) — e, se não lhe bastarem essas provas, espere por novas — retrucou o príncipe, contrafeito.
- Bem, bem, meu amigo, não fique zangado; já sem isso não me faltam dissabores!
Seja condescendente com minha paixão arqueológica e, para provar-lhe que eu tenho em alto apreço a sua opinião, deixarei aqui Pratissuria e Káli; eles serão fechados por vidro e tenho certeza de que, dessa maneira, eles serão inofensivos.
- Graças a Deus!
Que eles fiquem aqui, esses mensageiros da vingança diabólica!
- O senhor é um homem ingrato, príncipe!
A pobre moça o amava tanto, que sacrificou a vida ao perdê-lo.
Sua solicitude de presenteá-lo com o mais valioso — o coração e o tigre —, ainda que lúgubre, é profunda, emocionante e poética.
Se o tigre fosse um mensageiro da vingança, teria, antes de tudo, atacado o senhor, e não um vigia inocente — observou o barão.
O príncipe deu de ombros.
- Estou salvo dos ataques dele pelo poder daquele que nos salvou.
O senhor, testemunha do caso, e sendo um homem não totalmente ignorante no ocultismo, não pode repudiar esses fenómenos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 12, 2016 7:44 pm

- Absolutamente! Acredito até na assombração do cavaleiro, comprovado através dos séculos, e considero os relatos fidedignos, pois a desgraça por ele pressagiada fulminou-me directamente.
O barão cobriu os olhos com as mãos.
— Oh, se eu pudesse achar um meio de lhe devolver a paz no túmulo, saciar- lhe a sede de vingança — bem mais terrível comparada à de Pratissuria!...
Alisei Adriánovitch, acredito que o senhor conhece muito sobre as ciências ocultas.
Não poderia me aconselhar como acalmar a alma do cavaleiro?
Ou, talvez, o rajá nos dê alguma instrução nesse sentido? — perguntou o barão.
- Antes que tenhamos uma resposta de Vedjaga Singa, estaremos longe de Zeldenburgo — observou o príncipe, evasivo.
A propósito, conversei com um místico muito estudado sobre um caso parecido e ele me disse o seguinte:
os locais dos delitos normalmente são visitados por espíritos malignos e, amiúde, as vítimas, fervendo de ódio, são ali aprisionadas por desígnios maléficos ou violenta sede de vingança.
Voltando ao caso que lhe interessa, é de se supor que o cavaleiro não era de todo irrepreensível, pois a sua relação com a esposa do irmão é duplamente criminosa; só o facto de ele ter escolhido aquele local sagrado para encontros amorosos, aponta uma boa dose de imoralidade.
Para cumprir escrupulosamente a sua provação terrena, o homem deve fazê-lo sem casuísmo, atenuando-lhe a culpa; a justiça implacável do carma não leva isso em conta.
Sem dúvida, a agonia do pobre Raimond foi terrível, mas o ódio, a fúria e as maldições de nada resolveram.
Pelo contrário, ele criou em seu nicho uma aura que o aprisionou àquele lugar, enquanto as pragas, actos de uma vontade poderosa, obrigam-no a aparecer à força, caso algum infortúnio ameace a linhagem a que ele é unido por laços; além disso, ninguém reza por ele.
Eis o que eu lhe aconselharia:
abrir o nicho, tirar de lá os ossos e sepultá-los em terra benzida em ritual religioso.
Proponho-me a cuidar da purificação da capela e do nicho.
Há de se orar pela paz da alma do cavaleiro e aconselho reerguer o altar sagrado e realizar ali pelo menos três missas por ano.
Acredito que dessa forma o senhor ponha um fim às aparições fatídicas e, mais tarde, acalme e purifique a alma penada.
- Amanhã mesmo mandarei abrir o nicho e farei de acordo com as suas instruções, muito justas, práticas e sensatas; orarei diariamente pela paz da alma do pobre Raimond.
Está vendo, meu amigo, o senhor é injusto ao considerar-me incrédulo.
Entretanto, seja como for, não posso acreditar que Pratissuria morto possa morder as pessoas.
O senhor, Alisei Adriánovitch, é um tanto místico e um pouco fanático, exagerando nas coisas.
O príncipe sorriu.
- Se quiser e não tiver medo, podemos ir ao museu agora.
Poderá verificar pessoalmente o olhar do tigre, que parece vivo.
O senhor, que o viu com vida, poderá julgar do realismo de seu olhar, difícil de ser esquecido.
- Vamos imediatamente!
Não tenho medo de nada e estou feliz por distrair-me dos pensamentos opressos.
O príncipe pegou uma lamparina e foi com o barão ao quarto do museu, onde acendeu um candelabro para melhor iluminar a fera.
O barão se inclinou e, zombeteiro, apalpou o tigre ceticamente; quando, subitamente, soltou um grito e retesou-se: ele reparou no desaparecimento do colar da estatueta de Káli.
- Olhe, roubaram o colar!
É uma insolência que passa de todos os limites.
O ladrão que se cuide se não me devolver o objecto sem preço — berrou ele, tremendo de fúria.
- Poupe-se da procura desta coisa terrível e agradeça a Deus por ter encontrado um idiota que o livrou dela com todos os seus infortúnios.
Esqueça por um minuto o colar, afaste-se um pouco e olhe bem para Pratissuria.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 12, 2016 7:44 pm

Tendo tirado do peito o crucifixo do qual se falou antes, o príncipe ergueu-o sobre a cabeça do tigre.
Imediatamente por sobre o corpo do felino percorreu um arrepio e nos olhos fosforescentes verdes cintilou uma chama de vida, deitando no barão um olhar feroz; suas poderosas garras crisparam e da boca semiaberta soltou-se como que uma labareda sanguínea.
Pálido e trémulo, o barão recostou-se na parede.
- Bem, agora o senhor acredita? — perguntou o príncipe, pendurando o crucifixo no pescoço.
- É difícil não acreditar.
Mas o que faremos com esta maldita criatura do inferno?
- Não possuo conhecimentos suficientes para acabar com o vampiro e a estátua, mas posso encerrar ambos num círculo mágico, que os deixará paralisados.
Estou demasiadamente fraco e seria perigoso iniciar um confronto com as forças do mal.
Mais tarde pediremos a Vedjaga Singa dar cabo desse animal diabólico e acalmar o espírito maligno de Vairami.
Farei o que puder agora; o senhor saia e me espere.
O príncipe foi ao seu quarto e trouxe de lá dois aros mágicos de esmalte vermelho, com sinais cabalísticos.
Um dos aros ele colocou sobre o pescoço do tigre; em seguida, tirou a estátua da base, apoiou-a sobre uma coluna que trouxe da sala e inseriu-a no segundo aro metálico.
Baixando os estores, o príncipe deitou no braseiro diferentes ervas, espalhou sobre elas o ládano, mirra e um pó branco, e pôs fogo em tudo.
Uma fumaça densa tomou conta do quarto.
Segurando alto o crucifixo e recitando fórmulas, ele saiu de costas, deu dois giros na fechadura, desenhou na porta uma cruz vermelha e foi ter com o barão.
- Por algum tempo, os nossos amigos ficarão presos e podem se divertir um com o outro.
Tranque a chave numa gaveta metálica e pendure um crucifixo na porta do quarto.
Proíba os criados de lá entrarem, a qualquer pretexto.
- Oh, quanto a isso não precisamos temer; todos estão apavorados e ninguém se atreveria a chegar perto do maldito lugar — disse o barão, pálido, e com o rosto mudado.
No dia seguinte, eles saíram para examinar a parede na capela, marcada com cruz.
Ao abrirem a parede, descobriram um nicho fundo, onde um pedestal vazio indicava que ali outrora se encontrava uma estátua de santo.
No momento, na base havia algo como uma múmia horrenda.
Uma corrente de ferro deve ter prendido firmemente o condenado, a julgar pelo facto de que ela ainda sustentava o corpo, envolto em farrapos.
Os membros, unidos convulsivos, a cabeça atirada para trás e a boca demasiadamente aberta testemunhavam o horror da agonia do infeliz.
Na mesma noite, os restos foram transferidos para a igreja luterana do povoado vizinho para serem sepultos segundo os ritos cristãos.
O nicho foi lavado e borrifado com água benta, sendo ali pendurada uma cruz, até que o local sagrado não fosse restaurado.
Os habitantes do castelo pareciam aliviados com a paz que ali se instalaria, já que os restos do cavaleiro não mais estavam lá.
Quanto à sala do museu, trancada à chave e onde ficaram guardadas as antiguidades de Maximiliano Eduárdovitch, inspirava tanto medo, que os moradores evitavam até passar por perto.
No dia seguinte, após a missa e o enterro do cavaleiro Raimond, o barão se apressou em deixar o castelo.
O príncipe faria o mesmo um dia depois, pois ainda não tivera tempo de terminar alguns rituais de purificação da capela.
O velho castelo ficou quase vazio e silencioso.
Entretanto, uma semana depois da partida do príncipe, uma carta alarmante do administrador comunicava ao barão que, por três noites seguidas, no quarto trancado, ouvia-se um barulho infernal, sacudindo a casa.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 12, 2016 7:44 pm

No começo eram urros atordoantes, que estremeciam as paredes, depois, gritos e cantos selvagens; parecia também haver luz no quarto.
Após aquelas três noites, porém, a calma voltou.
Apesar da magnanimidade do falecido Zatórsky, livrando o barão dos duros suplícios de um processo escandaloso, ele não conseguia readquirir o equilíbrio emocional.
Os jornais falavam do "misterioso drama de Zeldenburgo" e, na sociedade, o enigmático acontecimento era interpretado de várias formas; a morte prematura do médico envolvido num caso rumoroso consternava todos, sem empanar, todavia, a sua reputação adquirida.
Com tudo isso, ainda que o insulto infligido à honra do barão o absolvesse do seu acto insano, os remorsos atormentavam Maximiliano Eduárdovitch.
Ele se exprobrava de duplo homicídio e sua permanência em Petersburgo era insuportável.
Decidiu então passar alguns anos no estrangeiro e sua escolha recaiu na Itália, cujo clima poderia contribuir positivamente para o fortalecimento da saúde de Lili, que era muito fraquinha e adoecia com frequência, quando criança.
O barão convenceu o príncipe a ficar com ele, em casa, até à partida; ele se afeiçoava cada vez mais ao jovem sério e calmo, e as suas palestras instrutivas agiam beneficamente sobre o barão.
Os terríveis fenómenos que tiveram lugar em Zeldenburgo fizeram uma grande reviravolta em sua alma e o interesse pela ciência oculta quase abafou sua paixão pela arqueologia.
Os dois, entretanto, não se davam conta da avidez com que Lili se agarrava a qualquer oportunidade para ouvir suas conversas sobre assuntos místicos.
A menina era estranha, séria e muito inteligente para a sua idade.
Ainda que tivesse quinze anos completos, externamente parecia uma criança; apenas seus olhos escuros e sonhadores apontavam que sua alma amadurecera antes do corpo.
Religiosa ela sempre o fora, mas com a morte da mãe passava as horas rezando e ia assiduamente à igreja.
Certa noite, Lili se encontrava casualmente na biblioteca, vasculhando uma das estantes atrás do cortinado; neste ínterim, entrou o pai com o príncipe, falando das provações da vida, da lei do carma, da necessidade da purificação da aura e do destino humano em geral.
A menina ouvia feito enfeitiçada, com respiração suspensa, para não trair sua presença; mas mal o barão saiu para conversar com o administrador que o chamara, Lili saiu de seu esconderijo e aproximou-se do príncipe.
Este folheava um livro e só a notou, quando ela o tocou levemente no braço.
Ele ergueu a cabeça e surpreso olhou para seu rostinho enrubescido, visivelmente perturbado e olhar súplice.
- Quer me perguntar algo, mademoiselle Lili?
Pode falar, terei prazer de atendê-la — disse ele, afectuosamente.
- Sim, príncipe, gostaria de estudar a ciência da qual o senhor falava com o papai.
Quero conhecer as leis que governam o nosso destino, para viver de acordo com elas.
- Você é demasiadamente jovem para tal empreitada séria . - Considerou pensativamente o príncipe.
- O que tem isso?
O senhor também o é, no entanto sabe tantas coisas e não se parece com outros.
Teria o meu pobre e bondoso papai praticado esse hediondo crime, se conhecesse a lei do carma?
Eu sei que foi ele, e não Vadim Víktorovitch, que assumiu a culpa... — e as lágrimas embargaram sua voz.
Eu vejo como ele sofre.
Por favor, Alisei Adriánovitch!
Não sou tão ignorante como o senhor supõe; vivo lendo as escrituras sagradas e a vida dos santos, que permeiam de fenómenos ocultos, só não sei explicá-los.
Meditei muito sobre estas questões, comparando os factos com o que ouvi do senhor, e sei que existem tanto o mundo e a vida visíveis, como invisíveis, entrelaçados por leis misteriosas, ignoradas pela gente comum.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 12, 2016 7:44 pm

Sei que em Zeldenburgo ocorreram fenómenos misteriosos...
E o tigre empalhado que morde, que atacou Karl e sugou-lhe o sangue?
Ou aquele cavaleiro que, centenas de anos depois da morte, vagueia cheio de ódio e pressagia desgraças?
Explique-me, por favor!
Com vivo interesse, o príncipe fitou o rosto afogueado de perturbação de sua interlocutora e seus olhinhos, que brilhavam de inteligência e força de vontade.
- Você tem intenções sérias, Lili; estou feliz de ver uma criatura tão jovem interessar-se por questões tão importantes, querendo estudá-las.
Ele moveu uma cadeira e fez Lili sentar-se ao seu lado, prosseguindo:
— Prometo conversar diariamente com você sobre as questões que lhe interessam; além disso, dar-lhe-ei alguns livros que você poderá ler nas horas livres das aulas.
Quando eu estiver em Londres, você poderá escrever-me sobre as suas conclusões, dúvidas e perguntas, e eu prometo responder-lhe.
- Obrigada, obrigada!
Como o senhor é bom! — exclamou Lili, alegre.
O senhor vai ver como serei aplicada, pois tenho tempo de sobra.
O papai me disse que quer comprar uma vila nas redondezas de Spoleto, onde pretende viver por alguns anos em completo isolamento.
Darei conta das aulas, pois tenho facilidade para estudar e o tempo restante, no meio do silêncio e paz da natureza maravilhosa, dedicarei à leitura e ao estudo das matérias que acho mais importantes e úteis que as outras.
- Você tem razão:
o estudo da alma, que mune os seres humanos para a luta da vida, é mais importante que outros.
O lugar onde vocês ficarão foi escolhido com muito acerto.
Conheço Spoleto e suas redondezas pictóricas; o clima é suave e o silêncio e o isolamento são particularmente favoráveis para trabalho mental, inquebrantável pelo zunido desconexo das grandes cidades e pensamentos fétidos de gente ansiosa em saciar prazeres, paixões e arrebatamentos criminosos.
Não pense, Lili, que os pensamentos sejam simples emanações inofensivas decorrentes do trabalho mental.
Oh, não! É algo como uma nuvem de gafanhotos, pairando no ar, prestes a assediar os vivos.
Cada meio tem a sua "população" fluídica específica.
Assim, num povoado ou entre os selvagens de mesmo nível baixo do desenvolvimento mental, os pensamentos não superam a escala das necessidades materiais; mas, tão logo entre eles surja um novo elemento, ocorre uma drástica mudança:
para o bem — se o elemento for puro, levando ao progresso e à evolução mental, ou para o mal — se o agente do movimento for infectado, capaz, apenas, de despertar paixões e instintos baixos da carne.
Os gafanhotos fluídicos se grudam imediatamente nos que conseguem assimilar-lhes a existência, e a propagação maléfica tem seu início.
O que lhe digo é para preveni-la de como os homens devem ser cuidadosos com os pensamentos:
esses mensageiros do raciocínio podem ser bons, mas também causar muitos males.
Da composição química de nossos pensamentos e do grau de suas emanações depende a nossa evolução espiritual.
A irradiação do córtex, realizada energicamente, ou seja, com força dinâmica, gera pensamentos fulminantes, verdadeiros projécteis, tão letais como bombas ou balas, actuando para o bem ou para o mal.
O pensamento humano hipnótico pode fulminar feito um raio, subjugar ou incitar ao heroísmo, se voltado para a multidão.
A sociedade não tem consciência de estar sustentando uma luta eterna, em meio à chuva de projécteis maléficos lançados por mentes contagiadas por anseios impuros e paixões.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 12, 2016 7:44 pm

Os seres humanos desconhecem o perigo que correm, desarmados diante da terrível e imperceptível força desses inimigos hábeis e tenazes, que os assediam.
Não é à toa que os eremitas fogem dos locais povoados, buscando o refúgio nas florestas ou desertos, para evitar o sítio mortal dos inimigos invisíveis; e, caso o abrigo do ermitão seja visitado por um homem dissoluto, ele deixa atrás de si um verdadeiro exército de arruaceiros viciosos, gerados por sua mente, que quebram a paz do pacífico anfitrião e o obrigam a retomar a luta contra os sentimentos já há muito tempo dominados.
Por isso, minha jovem amiga, a sabedoria arcana do bem prescreve-nos orar de manhã e à noite.
O arrebatamento ardente e sincero ao Pai Celeste granjeia-nos os protectores — propósitos límpidos e poderosos que rechaçam os inimigos fluídicos e os pensamentos larvácios, dotados de vida, que polvilham em torno de nós trazidos da rua, das reuniões numerosas, ou levados à nossa casa pelos visitantes.
Pense em tudo isso, querida Lili, e ore sempre ardorosa e concentradamente.
Qualquer pensamento é uma combinação química dos átomos, que podem gerar doenças fluídicas, sendo gerados por mentes dissolutas, ou, ao contrário, podem conter substâncias que afugentam princípios contagiosos.
Lili, que ouvia atentamente, agarrou e apertou reconhecida a mão do príncipe.
- Agradeço-lhe imensamente, Alisei Adriánovitch, pela aula.
Compreendo a importância do que me disse e zelarei ciosamente os meus pensamentos.
Municiada de dois livros que o príncipe lhe aconselhou, Lili despediu-se feliz; ele jurou por dentro fazer o possível para apoiar a encantadora menina no caminho à luz e muni-la de forças para enfrentar as tempestades da vida.
Após alguns dias, Lili contou ao príncipe, com olhos brilhando, que jamais, até então, tivera tanta facilidade para estudar:
em meia hora ela fazia o que antes levava duas horas.
- Terei tempo de sobra para seus livros. Ontem, aliás, eu li sobre a psicografia( 12), mas não compreendi bem como pode um objecto físico, um livro ou algo de ouro, revelar o passado a ele ligado?
- O passado reflecte, por assim dizer, os pensamentos mumificados, presos a ele — disse o príncipe; mas, vendo que a sua interlocutora parecia não compreender, acrescentou:
— Existem na natureza seres pequeníssimos, quase invisíveis — insectos, que se misturam com areia, terra, musgo velho em forma de poeira, e que permanecem aparentemente secos, transformados em múmias; mas basta um pouco de água ou calor dos raios solares, para que tudo se reanime e a pequena população inicie o trabalho, independentemente do tempo que durou a sua inactividade, como se não existisse para eles.
De modo semelhante, existem, podemos dizer, pensamentos mecânicos que emanam dos laboriosos, proprietários do objecto, etc...
Tais pensamentos são repletos dos reflexos do ambiente que eles reproduziram em detalhes:
a época do ano, as cores, os aromas, o carácter, etc...
Todas essas emanações aderem ao objecto feito pó, intangíveis e invisíveis, é claro, para um olho humano rude.
Mas, se você pegar tal objecto coberto por essa população adormecida, concentrar nele o seu pensamento, atingi-lo com um jacto do sopro tépido e poderoso, ou seja, alimentar essa poeira com a corrente vital, tudo se despertará e, diante de seu olhar espiritual, abrir-se-ão o passado e o presente, ligados a tal coisa.
Além disso, existe um plano astral em que se reflecte fotograficamente e se regista tudo o que se passa no plano material, com a diferença de que nesta "fotografia" espacial preservam-se não só as imagens, mas os sons, as cores, os odores; resumindo: a própria vida, mantida intocável nos arquivos do Universo...
Por que, por exemplo, na igreja sentimos uma sensação de paz e bem-estar diferente?
Porque a atmosfera está saturada por emanações puras das orações, uma vez que aos pés do altar de Deus o homem leva o melhor de sua alma, e as correntes poderosas desses anseios ao bem varrem os fluidos maléficos e pesados, criando a bem-aventurança.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 12, 2016 7:45 pm

A palavra é uma materialização do pensamento e, quanto mais poderosamente for expressa no pensamento a força de vontade, mais substancial torna-se a palavra, que se reveste então de uma matéria fluídica e que se cristaliza, se pudermos dizer assim, adquirindo aroma e cor característicos.
Do que eu lhe disse, você poderá concluir que a composição química do pensamento corresponde à sua fonte.
Do pântano elevam-se os miasmas maléficos, enquanto do foco de luz emanam as correntes refrescantes e curativas.
- Meu Deus, que mistérios passam ao largo de nós e nem sequer deles suspeitamos!
Que horizontes se abrem!
Vou ler somente os livros que tratam deste assunto, ao invés de andar pelos bailes.
Bem que dizem:
os livros são os melhores companheiros! — exclamou Lili extasiada.
O príncipe sorriu.
- Sem dúvida, os livros são nossos companheiros, mas que também podem ser maus e muito perigosos.
- Como assim?
O senhor está falando, por acaso, de livros maus? — perguntou Lili, sem entender.
- Justamente!
Um livro, minha jovem amiga, é um objecto "mágico"; um néscio nem suspeita de sua força benéfica ou fatal.
Primeiramente, um livro cria um elo invisível, mas sólido, entre o autor e seu leitor, uma vez que toda a obra do pensamento concentrado é impregnada de sentimentos, convicções, paixões do autor e de seu desejo de transmitir a outros suas concepções do Universo.
É uma hipnose.
Eu já lhe disse que o pensamento é uma matéria, dotada de movimento, aromas e cores, que corresponde à composição química da alma que o criou e irradiou; o poder desse fluido é tamanho, que ele se manifesta numa obra impressa, como que um manuscrito original.
Um leitor ignorante nem suspeita do estranho trabalho que se processa em seu cérebro, onde se gravam as torrentes imperceptíveis das páginas supostamente puras e tão inofensivas.
Mas, se essa torrente é fria, as vibrações são irritantes, o odor é nauseabundo, emanando os vícios e as paixões caóticas.
O leitor se contagia espiritual e fisicamente, caindo no abismo das emoções desconexas e, frequentemente, torna-se vítima de alguma catástrofe.
A equidade do que digo é suficientemente comprovada pela epidemia de suicídios, assassinatos e casos de loucura, que se intensificam a cada dia, e a sua causa é a literatura indecente e imoral que campeia hoje, infelizmente.
Ao contrário, um livro cheio de pensamentos excelsos espalha calor benéfico, aroma suave e luz astral pura.
Ele eleva a alma dilacerada pelas provações, acalma e cura os nervos cansados; é uma espécie de médico invisível.
- Não vou nem tocar em maus livros! — exclamou Lili com tal ímpeto extasiado e ingénuo, que o príncipe pôs-se a rir.
Este tipo de conversa distraía a jovem, fazendo com que ela se esquecesse da morte da mãe, de Vadim Víktorovitch, e de suas preocupações com o estado de Mery, seriamente doente, sem falar da tia de Zatórsky, que se encontrava entre a vida e a morte.
O barão também sofria por conta dessas notícias tristes.
A ideia de que o seu crime poderia custar a vida de duas vidas inocentes oprimia-o feito pesadelo e ele ultimava apressadamente os preparativos para a viagem.
Qual não foi a sua alegria e de Lili, ao saberem que Mery estava fora de perigo.
Alguns dias depois, a família dos Kosen partiu para a Itália; o príncipe viajou para Londres.
Voltemos agora para a época em que Elena Oreéstovna levou Mery para seu lar paterno. Mikhail Mikháilovitch assustou- se ao rever a filha, que partira bela e viçosa feito uma rosa desabrochando e retornava pálida feito sombra, alquebrada e, aparentemente, doente.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 12, 2016 7:45 pm


A generala relatou a Suróvtsev os acontecimentos em Zeldenburgo e o amor infeliz de Mery, tragicamente rompido pela morte do doutor e da baronesa.
- Algo de sobrenatural e inexplicável houve naquele castelo - acrescentou ela, persignando-se.
— Por mais que riam os espertinhos ociosos, o mundo do além existe, com suas leis desconhecidas.
Vagamos aqui feito cegos, pois factos irrefutáveis deitam por terra as nossas descrenças.
Anna Petrovna ainda estava em Cannes, descansando do tratamento.
Preocupado, Mikhail Mikháilovitch enviou um telegrama para a esposa, pedindo-lhe para voltar urgente.
Quem cuidou de Mery foi Aksínia, sua antiga babá; ela ministrava os remédios receitados por médico e, quando essa ficou acamada, tentou confortá-la.
- Meu anjinho, não chore e não se lamente, pois ele não vale suas lágrimas.
Veja só por quem se apaixonou!
Um amante da baronesa!
Se soubesse do que as pessoas andam falando:
aquela bruxa o vivia maltratando, inclusive o surrava.
Até o último mujique, com mínimo de orgulho, não teria suportado aquilo; e ele só dava risadinhas.
Você se esquecerá desse velho devasso que não se avexou em girar a cabeça de uma criança, e logo conhecerá um noivo de verdade:
jovem, bonito e rico — tal como você merece.
Mas Mery permanecia muda, escondendo o rosto no travesseiro; nem sua dor nem as lágrimas diminuíam.
Aksínia estava desesperada, sem saber o que fazer.
À noite, conversando com uma amiga, governanta, ela despejou sua indignação.
- Não falei para a patroa que aquela sua ideia ia acabar mal?
Onde já se viu deixar uma menina ir sozinha à casa tão imunda, e ainda confiá-la àquela depravada.
Não me ouviram e agora tomem — o que já pressentia a minha alma!
Anna Petrovna retornou a Petersburgo muito alarmada e encontrou Mery doente; no dia seguinte, esta teve febre nervosa e, no decorrer de três semanas, a vida da jovem ficou por um fio.
Sua mãe começou também a se arrepender amargamente por ter deixado a filha hospedar-se numa família suspeita, em consequência de que Mery se envolvera com um homem de nome manchado.
As emoções de toda a espécie, vividas pela jovem, foram demasiadamente fortes para a sua natureza fraca.
Mal Mery começou a se recuperar e as preocupações causadas por sua enfermidade ainda não tinham serenado, uma nova desgraça atingiu os Suróvtsev.
De todas as suas numerosas propriedades, Mikhail Mikháilovitch havia conservado um ninho da família consistente de uma enorme casa, dos tempos de Katarina; quando a família não viajava para o exterior, ali passava o verão.
Certa noite, por causas desconhecidas, ocorreu um incêndio que consumiu toda a casa fechada e vazia, com todos os bens da propriedade:
haras, celeiros, gado e provisões.
O administrador, desesperado, enforcou-se.
Mas esse enorme infortúnio só era o começo de outras perdas irreparáveis, como que, com a volta de Mery, desabasse toda a sorte de desgraças. As perdas financeiras, maiores ou menores, alternavam-se sem cessar.
Suróvtsev perdeu a cabeça e, tentando reverter a situação, lançava-se em empreendimentos mais arriscados.
Finalmente, uns seis meses após o retorno de Mery do castelo dos Kosen, ele foi atingido pelo golpe derradeiro:
a casa bancária, onde ele guardava seus últimos capitais, quebrou inesperadamente.
Não adiantava mais se enganar:
Mikhail Mikháilovitch estava arruinado, não tinha como manter a família e as dívidas assumidas levariam tudo, inclusive a última cadeira.
O que aconteceria depois?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - O Terrífico Fantasma / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 4 de 5 Anterior  1, 2, 3, 4, 5  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum