AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

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AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 04, 2016 10:49 am

AMOR E AMBIÇÃO
MARIA NAZARETH DÓRIA

Romance do espírito HELENA

Loretta era uma jovem nascida e criada na corte de um grande reino europeu entre os séculos XVII e XVIII.
Determinada e romântica, desde a adolescência guardava um forte sentimento em seu coração:
a paixão por seu primo Raul.
Um detalhe apenas os separava:
Raul era padre, convicto em sua vocação.
Sem esperanças de conquistar o coração de Raul, Loretta perde irremediavelmente o seu grande amor para a Igreja.
Começa aí a sua saga:
inconformada com seu destino, jura vingança, não medindo esforços para isso.
Entre novos amores e desencantos, o tempo vai passando, e Loretta se apaixona pelo rei Henrique em uma das festas da realeza.
O relacionamento de ambos se inicia, e seu sentimento é correspondido...
Loretta, então, torna-se rainha de um império rico e próspero, amada pelo povo, poderosa e enérgica.
Mas a Lei de Acção e Reacção é implacável e se fará presente ainda nesta vida.
As consequências de seus actos repercutirão até no Brasil-colónia, onde o fazendeiro Arquimedes, um grande exportador de cacau, trará factos novos escondidos em um passado de amor e ambição.
Loretta ficará diante de seus próprios erros...
Como tentar obter o perdão de tantos a quem prejudicou?
Neste Amor e Ambição, o espirito Helena, pela psicografia de Maria Nazareth Dória, nos traz valiosas reflexões acerca da responsabilidade de nossos próprios actos, ensinando-nos que, acima de tudo, devemos compreender o funcionamento da Lei de Causa e Efeito para a conquista eterna da paz de espírito.
A médium Maria Nazareth Dória nasceu no dia 28 de fevereiro em Canhoba, no interior do estado de Sergipe, mais precisamente em uma aldeia indígena.
Lá Permaneceu até os 9 anos de idade, quando foi matriculada em um colégio interno freiras na capital, Aracaju, completando s estudos até o segundo grau.
Aos 17 anos, casou-se e mudou-se para São Paulo. Teve duas filhas.
Nesse período, deu sequência aos estudos e iniciou sua carreira profissional, trabalhando durante 30 anos, dos quais 22 como funcionária da Petrobras, empresa ela qual se aposentou.
A mediunidade de Maria Nazareth Dória se manifestou desde cedo, por volta dos 7 anos.
Sendo descendente de índios, Nazareth sempre foi orientada sobre a existência da vida espiritual e a importância da natureza em nossas vidas, sobretudo no campo da medicina alternativa.
Graças a esse aprendizado, Maria Nazareth Dória tem se dedicado hoje exclusivamente às actividades espirituais e à pesquisa de plantas medicinais, obtendo excelentes resultados alternativos com essências naturais.
É fundadora e dirigente de instituição sem fins lucrativos há 15 anos, atendendo e orientando centenas de pessoas (inclusive jovens), contando com o apoio de médicos, dentistas, advogados, enfermeiras, psicólogos e professores. O atendimento à população carente estende-se em diversas áreas, do apoio às necessidades básicas da família até o trabalho de afirmação de cidadania daqueles que vivem à margem da sociedade.
Além das actividades filantrópicas Maria Nazareth Dória ministra cursos e palestras sobre a Doutrina Espírita e exerce sua mediunidade há mais de 30 anos, psicografando diversos romances sobre o mundo espiritual, mensagens de auto-ajuda e pensamentos espirituais notadamente sob a óptica da Lei de Acção e Reacção, um dos pilares básicos dos ensinamentos trazidos pelos amigos do Além que trabalham com a médium.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 04, 2016 10:49 am

DEDICATÓRIA
Dedico este livro às minhas filhas Eliane e Carla.
E a você, Lya, com todo amor e carinho, pela alegria que me tem dado.
Enfim, a todos os amigos por apoiarem o meu trabalho, em particular a Boanéris da Silva, por estar de mãos dadas comigo.

SUMÁRIO
Palavras da Médium
Amarga prova
As bodas
A armadilha
A nova rainha
Declarada a guerra
O desencarne do rei
Fatos inesperados
O peso da culpa
A dor da separação
O novo herdeiro
A vida toma novos rumos
O paraíso perdido
A força do passado
Do outro lado do continente
Nada fica oculto
O cortejo real
O encontro
A colheita obrigatória
Inimigos espirituais
De volta à terra natal
Encontrando o rei
Tudo tem seu tempo
A verdade vem à tona
A cada um segundo suas obras
Tal pai, tal filho
Há sempre uma nova oportunidade
Um amor impossível
Nada fica sem resposta
Transformações
Os males que vêm para o bem
A vitória do espírito
Diana, a nova rainha
0 desencarne de Loretta
A revelação
A reencarnação
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 04, 2016 10:49 am

PALAVRAS DA MÉDIUM
Pretendemos divulgar cada vez mais a verdadeira ideologia dos trabalhos inspirados pelos espíritos de luz, mentores estes que nem sempre fazem questão de sua identificação, mas apenas de nos ajudar a enfrentar as duras realidades de nossa trajectória como encarnados.
O transporte das palavras dos mentores espirituais é sempre claro, objectivo e transparente, mas não é um trabalho fácil para nenhum médium!
Por isso, torna-se necessário o empenho e a boa vontade dos instrumentos (médiuns) em estudar, pesquisar e desenvolver-se espiritualmente, afim de compreender a seriedade dos trabalhos a eles confiados.
Alguns autores se propõem a escrever dignamente sobre personalidades que abriram e construíram as estradas que trilhamos nos dias de hoje.
Damos como exemplos os nossos cientistas, engenheiros, inventores, etc.
Quantas maravilhas deixadas para nós!!!
Devemos mostrar ao mundo as grandes obras que herdamos destes sábios.
E só temos um jeito de mostrar...
Escrevendo e retractando tudo aquilo que nos foi confiado por eles.
Não é fácil receber e transmitir os ensinamentos ou as mensagens com a mesma perfeição com que eles nos passam, pois ainda somos instrumentos imperfeitos... mas tenho plena convicção de que todos os médiuns que trabalham psicografando pelas inspirações dos espíritos de luz tentam fazer o melhor possível em cada obra confiada.
Em todas as obras psicografadas, precisamos da ajuda de outras pessoas, pois nenhum médium trabalha sozinho, sem o auxílio de outros irmãos; torna-se necessário corrigir as falhas nas escritas, falhas estas não dos mentores espirituais, mas nossas, como instrumentos humanos.
Falando dos sábios mentores, será que estes "Mestres" nos abandonaram?
Em hipótese alguma!
Continuam trabalhando tanto quanto antes para nos ajudar, não se descuidaram de sua maior obra, que é a "Instrução Divina" entre todos os povos.
O mundo mudou, as pessoas também mudaram!
Estamos passando por uma transformação íntima, buscando um conhecimento mais profundo sobre nosso próprio "EU".
Nessa Nova Era, 90% da população mundial hoje se questiona:
Quem sou eu?
Essa pergunta cria uma ansiedade...
De onde vim?
Fica uma dúvida...
Para onde vou?
Paira um medo pelo futuro.
A inquietação do mundo moderno nos obriga cada vez mais a fazermos uma avaliação diária sobre nossas atitudes e acções, nossos medos e carências, nossos sonhos e metas.
As pessoas buscam cada vez mais o conforto na espiritualidade, estudando, pesquisando e crendo que a morte não existe; e a certeza de que temos um caminho a seguir após esta breve passagem física nos anima na prática do bem, pois temos consciência de um novo amanhã, em novo mundo, em uma nova vida.
Como seres encarnados e conscientes daquilo que somos, só podemos abrir estes caminhos atendendo fielmente à chamada dos nossos mentores espirituais, que nos apontam a direcção da luz para uma conquista gloriosa:
elevação espiritual!!!
Helena mostra neste livro que Deus não abandona nenhum de seus filhos, e que todos os dias recebemos grandes oportunidades de mudar e melhorar a rota de nossas vidas.
Deus nos deu a Lei do Livre-Arbítrio, concedendo-nos o poder de conhecer a força do bem e do mal para escolhermos um caminho e, sendo ele escolhido, já sabermos do nosso destino.
Nesta vida, como encarnados, há dois caminhos, como já sabemos:
o do bem e o do mal. Um deles nos levará ao destino escolhido, e a justiça do Criador é justa e recta para cada um de nós.
Helena nos mostra claramente que muitos sofrimentos em nossas vidas foram gerados pela nossa teimosia em não ouvir a voz de Deus clara e nítida dentro de nós.
Retracta o que faz o orgulho e a paixão em nossas vidas.
"O orgulho e a paixão" são um par de algemas que aprisiona o espírito do homem, fazendo dele um escravo do mundo, um desertor da Mansão Divina.

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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 04, 2016 10:49 am

AMARGA PROVA
A primavera desabrochava caprichosa naquele recanto do mundo, enfeitando e perfumando o palácio D'armis.
O sol brilhava aquecendo as rosas que começavam a abrir-se.
O jardineiro Manuel ajeitava a terra em torno das roseiras e respondia, muito orgulhoso, às perguntas da sobrinha do patrão, o Conde D'armis.
Debruçada no peitoril da varanda, Loretta olhava para o imenso jardim e fazia perguntas ao jardineiro sobre as rosas vermelhas e aveludadas.
Nunca tinha visto flores iguais àquelas em lugar algum.
Enquanto o jardineiro continuava cuidando das rosas, Loretta viajava em pensamento.
Seus olhos se perdiam no azul do horizonte.
Quanta beleza, quanta fartura, e seu coração tão solitário, ferido e magoado...
Era injusto, muito injusto!
Em silêncio, rezava, pedindo a Deus:
"Afaste de mim esse sentimento, Senhor.
Sei que estou cometendo um grande pecado amando a quem não posso amar.
Como posso amar um padre?
Como posso ter esse sentimento por um de seus pastores?
E se alguém descobrir?
Antes a morte; seria melhor morrer...".
Ela não tinha coragem de pedir aos tios notícias do primo; temia que descobrissem seu segredo.
Somente com Deus podia falar e abrir o coração.
Há muito tempo fugia do confessionário, não podia mentir para Deus, e estava sempre arrumando uma desculpa, a fim de despistar a mãe.
Quando ouvia qualquer comentário sobre seu secreto amor, seu coração parecia partir-se ao meio.
Alegando um pretexto qualquer, fugia para chorar às escondidas.
A saudade era demais!
O simpático jardineiro falava e falava sobre as rosas, sem nenhuma malícia, mas Loretta não ouvia uma palavra do que ele dizia.
Com o coração batendo forte, arriscou uma pergunta:
— Senhor Manuel, o filho do conde tem aparecido por aqui?
— Não, senhorita.
Estou aqui há dois anos e ainda não o vi uma só vez — respondeu, sorridente.
Sempre trabalhei para o conde.
Trabalhava antes na fazenda, mas com a idade que tenho e sozinho, pois enviuvei e não quero incomodar meus filhos, o senhor conde trouxe-me para trabalhar no castelo.
Passei mais de quinze anos na fazenda e nunca o vi, ele nunca apareceu por lá.
A senhora também foi à fazenda poucas vezes, não é mesmo?
E continuou falando:
— Fico pensando, senhorita, como se sente o senhor conde tendo um único filho e este ser padre...
Tanta riqueza o pai tem, e o filho não tira proveito nenhum!
Vive em conventos e igrejas, trabalhando e convivendo com pobres e doentes.
As vezes sinto pena.
O senhor conde tem um filho, mas vive tão solitário...
Ainda debruçada no parapeito da janela que dava para o jardim principal, Loretta viu uma carruagem de aluguel aproximar-se do portão de entrada do castelo D'armis.
O jardineiro também parou o que fazia para ver quem chegava.
A carruagem parou em frente ao portão.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 04, 2016 10:50 am

O cocheiro desceu, abriu a portinhola, e um homem alto, moreno, de cabelo escuro, vestido com uma batina preta, desceu com um pequeno baú na mão.
Loretta empalideceu, seu coração começou a bater acelerado.
Emocionada, gritou para o jardineiro:
— É ele! É ele!
Correu para dentro de casa, arrumou o vestido e o cabelo, suas pernas tremiam, suas mãos suavam; era tudo o que ela queria, mas a surpresa fora demais!
Ele entrou na varanda e, vendo Loretta, abriu os braços e disse:
— Loretta! Que surpresa agradável encontrá-la aqui!
Abraçou e beijou a prima no rosto.
— Para mim também é uma grande surpresa; não esperava encontrá-lo — disse isso controlando os impulsos do coração.
Meus tios não comentaram nada sobre sua chegada — comentou, corada.
— Eu realmente não os avisei, vim de surpresa.
Vou ficar uma semana com eles.
E graças a Deus fui premiado com sua presença.
Como estão meus pais e sua mãe?
— Sua mãe não está bem, por isso vim com minha mãe ficar uns tempos fazendo-lhe companhia.
Estão conversando no andar de cima.
Acho melhor prepará-los, sua mãe não pode se emocionar.
Por favor, Loretta, faça isso.
Parece que nem saí e já faz três anos que estive aqui.
No ano passado, quando a vi em Roma, você me pareceu menor.
Seu cabelo mudou, está brilhante e bonito, e você está linda, querida prima — comentou ele.
Com as faces coradas pelo elogio, Loretta subiu as escadas correndo.
Chegando onde estavam os tios e a mãe, disse, emocionada:
—Acabamos de receber uma ilustre visita; vocês vão gostar de vê-lo.
Minha tia, fique sentada onde está que meu primo vem até aqui.
A condessa pôs-se a rir e a chorar ao mesmo tempo.
— Meu filho está aqui!
Peça-lhe que venha, minha filha.
Quero abraçá-lo.
O conde desceu rapidamente para cumprimentar o filho.
Emocionados, subiram as escadas.
Loretta entrou em seu quarto chorando.
Ele estava mais bonito que antes!
Ainda sentindo o perfume do corpo dele próximo ao seu, fechou os olhos, e as lágrimas desceram sem que pudesse contê-las.
— Meu Deus, o que vou fazer de minha vida?
Ele era seu primo e o mais grave: era padre!
Quando crianças, brincaram juntos, mas agora eram dois jovens com destinos diferentes.
Raul nunca lhe tinha falado sobre a vontade de ser padre, mas, quando foi para o convento estudar, descobriu a vocação pela Igreja.
No dia em que o viu vestido com a batina branca, sua alma perdeu-se para sempre.
Ficou oito anos sem vê-lo.
Guardava dele uma imagem infantil, mas, vendo-o como homem, algo explodiu dentro de seu coração.
Faria qualquer coisa para estar a seu lado.
Chegou a pensar em tornar-se freira para ficar próxima dele.
Mas era tolice sua; as freiras ficavam enclausuradas, longe dos padres.
Depois, ela o queria como homem, não como padre.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 04, 2016 10:50 am

Trancada no quarto, chorando, pensava:
"Não vou suportar ficar aqui!
Ele me vê como uma criança; dentro dele não existe maldade, eu é que peco todas as vezes que olho para ele".
Deitada, ficou olhando o vazio e começou a se lembrar da infância.
Ela, de trança, correndo no gramado do jardim, escondendo-se atrás dos arbustos, enquanto Raul a procurava, brincando:
— Vou caçar uma coelhinha branca de cabelo loiro!
Ela tinha apenas cinco anos, e ele parecia um caçador de verdade, pois era cinco anos mais velho.
Tomou uma decisão: levantou-se e começou a arrumar seus pertences.
"Amanhã logo cedo partirei; não vou suportar ficar aqui.
Prefiro morrer a ele perceber que não o vejo como padre ou primo.
Não vou descer para o jantar, inventarei uma desculpa...
Não quero mais vê-lo."
Loretta só se deu conta de que escurecia quando ouviu pancadas na porta do quarto.
"Deve ser a criada", pensou.
Levantou-se, arrumou o cabelo e respondeu:
—Pode entrar.
Raul estava na penumbra da porta.
Ela sentiu as pernas tremerem e começou a gaguejar como uma criança pega fazendo algo errado.
—Loretta, você desapareceu por toda tarde!
Não gostou de me ver?
Vim buscá-la para o jantar.
Vendo a mala pronta, perguntou:
— O que significa isso?
—Preciso resolver algo em nossa casa.
Minha mãe poderá fazer companhia para a sua até minha volta — respondeu, entre lágrimas.
— Loretta, eu lhe peço, fique mais um pouco.
Abraçou-a, puxando-a de encontro ao peito.
— O que está acontecendo com você?
Confie em mim, por favor.
— Você não pode entender o que se passa comigo, pois nem eu mesma entendo.
Sofro demais, já pedi tanto a Deus que tire isso de dentro de mim, mas a cada dia que passa meu sofrimento aumenta mais.
Amo alguém que nem em sonho poderia pensar em me amar.
— Minha pequena, não fique assim. Preste atenção ao que vou falar:
eu a amo de todo o coração, sempre a amei e a amarei eternamente.
Vou estar ao seu lado e ajudá-la a conhecer o verdadeiro amor do Mestre.
Amo-a com o mais sublime e digno amor.
Ouça o que tenho para dizer-lhe: Loretta, o amor nunca traz sofrimento para a alma.
Quando amamos verdadeiramente, basta respirar o mesmo ar, basta olhar para o céu e sentir o olhar de Deus sobre nós para nos alegrarmos em saber que existe alguém especial em nossa vida.
Sua alma me ama, e seu corpo físico não entende o que isso significa, mas vou mostrar-lhe o que é o verdadeiro e cristalino amor entre duas almas.
Somos duas almas separadas por um breve tempo para nos unirmos na eternidade.
E disse por fim:
—Arrume-se, enxugue as lágrimas.
Vamos descer para o jantar.
Não se culpe pelo amor que carregamos no coração um pelo outro; nada fizemos de errado perante Deus.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 04, 2016 10:50 am

Não tenha medo de amar e ser feliz, apenas procure saber o que é o verdadeiro amor.
Estou em você como você está em mim.
Penso que nós dois somos uma só alma que se desmembrou por um tempo.
— Mas o que realmente sente por mim?
— Eu a amo, Loretta. Um dia saberá quanto.
Loretta sentiu uma alegria imensa invadir-lhe o coração.
Então ele a amava! Parecia um sonho...
Abraçada a ele, sentia o cheiro das rosas que penetrava pela janela do quarto e via uma estrela apontando no céu.
Naquele momento, era a pessoa mais feliz do mundo!
Raul também a amava.
Pouco importava o resto.
Tomando-lhe a mão, Raul lhe disse:
—Após o jantar, vamos nos sentar na varanda, olhar para o céu e procurar nossas estrelas.
Lembra-se de quando éramos crianças?
Você brigava comigo, queria todas as estrelas grandes para você, e eu sempre concordava em ficar com as menores.
O amor é isso, minha querida:
renunciamos até mesmo a um espaço no céu por quem amamos.
Aceitamos ficar com os pequeninos espaços aqui na terra em troca de um espaço maior no céu ao lado de quem amamos.
A mesa, sentaram-se frente a frente.
Agora ela o olhava e sorria-lhe sem medo ou culpa.
Se Deus não existisse, Raul seria todo seu, mas o primo era fiel a Ele, jamais O trairia.
Só de pensar que, depois de Deus, era ela a quem ele mais amava dava-lhe uma alegria muito grande.
No íntimo, pensava:
"Por que ele não me ama em primeiro lugar?
Ele poderia deixar a batina e casar-se comigo, seríamos felizes para sempre...".
O céu estava limpo e estrelado.
Após os outros se recolherem, Raul e Loretta foram até a varanda.
Deitaram-se em bancos separados, como na infância, e puseram se a rever suas estrelas predilectas.
Elas estavam lá, no mesmo lugar de antes, lindas e brilhantes.
Ele começou a falar de uma forma de amor da qual até então ela nunca ouvira falar.
Não soube quanto tempo ficaram olhando para o céu, ele lhe descrevendo o grande amor de Deus pela humanidade, e ela sonhando não com o amor de Deus, mas com o amor carnal dele.
Já era tarde quando se levantaram.
O perfume das rosas molhadas pelo orvalho da noite envolvia Loretta num clima de paixão e amor.
A moça sentia o coração dilacerar-se.
—Raul, por que, por que, por que escolheu esse caminho?
Como poderei viver sem você?
Eu o amo, não me deixe, leve-me contigo, deixe-me apenas ficar ao seu lado.
Sem você a vida não tem sentido para mim.
Com muito carinho, Raul tentou explicar a Loretta o grande amor que os unia, o amor espiritual, não o fogo da paixão ou o desejo da carne.
Ele iria ajudá-la a cumprir a missão: ela precisava se curar da doença e recomeçar o trabalho na carne.
Devia casar-se, ter filhos, renunciar a diversos sonhos e trabalhar para completar sua tarefa na terra.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 04, 2016 10:50 am

Ele jamais poderia lhe dar o amparo da matéria, mas daria o amparo espiritual, que era o mais importante.
Afastou-se da prima, ajoelhou-se de mãos postas e orou em voz alta:
—Pai Misericordioso, tende compaixão de vossos filhos.
Pai de Misericórdia, amparai-nos neste momento tão difícil de nossas vidas.
Pai, dai-nos a fé e a razão para que possamos alcançar o caminho de nossos objectivos.
Loretta cobriu o rosto com as mãos, soluçando.
Numa explosão de dor, gritou:
— Que pai é o seu Deus que faz as pessoas sofrerem?
Eu odeio esse Deus!
Você prefere Ele, esse Deus que não tem compaixão da dor de ninguém.
Pálido, na penumbra, o padre continuou a orar, agora em silêncio:
"Pai, em vossas mãos entrego minha vida.
Se for para salvar Loretta, tirai-me a vida do corpo para que o espírito possa ajudá-la".
Loretta saiu correndo em direcção às escadas.
Parecia outra pessoa, estava transtornada, chorava, e de seu coração parecia sair sangue vivo, tamanha a dor que sentia.
Queria poder morrer e acabar com todo aquele sofrimento.
Raul correu atrás dela, tentando acalmá-la.
Ela avançou sobre ele proferindo ofensas, com os olhos vermelhos, faiscando pela ira que lhe vinha da alma:
—Então você sempre soube que eu o amava, mas ficou quieto, fazendo-me sentir a pior das criaturas, divertindo-se com meu sofrimento.
Hoje encheu meu coração de alegria e esperança para depois acabar com minha vida.
Vá, siga seu estúpido Deus!
O amante dos homens!
Com certeza Ele não criou as mulheres, Ele as odeia, por isso sofremos tanto!
Lutarei contra Ele com todas as minhas forças.
Seu Deus tirou você de mim e de seus pais.
Sua mãe está morrendo, e você é o culpado; largou tudo por esse Deus que nem mesmo sabemos se existe.
Melhor que exista mesmo para que saiba o quanto O odeio!
Não vou esquecê-lo, Raul, juro que não vou esquecê-lo!
Quero viver para odiá-lo tanto quanto ao seu Deus.
Afastou-se rapidamente, deixando o padre ainda de joelhos invocando protecção e perdão para a criatura sofrida e magoada:
—Perdoai, Pai, ela não sabe o que faz!
Meu Senhor e meu Deus, tende de nós compaixão!
Chegando ao quarto, Loretta pegou tudo que lhe pertencia.
Seu coração ardia, um novo sentimento crescia dentro dela:
o desprezo pela hóstia consagrada.
Num ímpeto, quebrou tudo que havia ganhado do primo: crucifixo, medalhas, terços, rosário.
Rasgou o livro sagrado.
Não queria nada que a lembrasse Deus.
Invocou com toda sua ira e ignorância espiritual:
Se realmente existissem demónios e espíritos maus, gostaria de filiar-se a todos eles, contanto que a ajudassem a ter Raul e todos os padres e religiosos que cultuassem Deus a seus pés.
Que viessem até ela; estaria disposta a fazer tudo o que lhe mandassem.
Deitou-se na cama e fechou os olhos.
Parecia que algo a suspendia no ar.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 04, 2016 10:51 am

De repente, seu peito arfava, um calor intenso percorria-lhe todas as veias do corpo.
Teve a impressão de que várias pessoas entravam no quarto; podia ver nitidamente sombras humanas na parede.
Depois, viu-se no meio delas, acompanhando um grupo de pessoas estranhas, quando uma delas, que parecia comandar as outras, lhe perguntou:
— Você nos chamou e fez um pedido.
Tem certeza do que quer?
— Quem são vocês? — perguntou, ao mesmo tempo dizendo para si mesma:
"Estou sonhando".
— Somos aqueles que podem ajudá-la.
Você quer atormentar o padre, estou certo?
Se realmente é isso o que deseja, estou aqui para negociar.
—Vocês são demónios?
—Que bobagem, não existem demónios!
Somos espíritos como você e temos os mesmos sentimentos:
ódio por aqueles que nos desprezam.
Relembrando tudo e a humilhação de ter sido rejeitada por Raul, assentiu:
— Desejo de todo o coração trazer Raul para junto de mim.
Quero me casar com ele, ser feliz e nunca mais pensar que acreditei em Deus.
— Se quer mesmo nossa ajuda, terá de assinar um contrato com nossa associação.
Loretta acompanhou o grupo, disposta a dar início ao seu plano.
Assinou um contrato, prometendo trabalhar arduamente enquanto estivesse encarnada.
Consentiu em emprestar o corpo e os pensamentos para a organização.
Comprometeu-se a ser resgatada imediatamente à associação filiada e continuar o trabalho depois do desencarne.
O chefe da organização assegurou-lhe que ela desposaria Raul, que podia confiar nele, era homem de palavra.
O grupo era tão alegre e simpático que Loretta nem sentiu medo de segui-lo.
Quando abriu os olhos, estava suando.
Não sentia mais vontade de chorar e lembrava-se de todas as palavras ouvidas no "sonho".
Levantou-se, bebeu um copo com água.
Estava completamente refeita na matéria.
O primeiro pensamento de vingança veio-lhe à mente.
Como não pensara naquilo antes?!
Pegando a caneta, escreveu uma carta ao tio explicando que não poderia permanecer nem mais um dia na casa.
Pedia-lhe que ele mesmo verificasse a verdade.
Maliciosamente, colocou no papel que, naquela noite, quando todos se recolheram, inocentemente ela acompanhou o padre até a varanda.
Ele prometeu ensinar-lhe lindas orações e mostrar-lhe o rosário de Maria nas estrelas, e ela confiou nele.
Afinal de contas, além de ser seu primo e amigo de infância, também era padre.
Ao ficarem a sós, ele abusou de sua inocência.
Ali mesmo, sem dó nem piedade, violentou-a.
Ela narrou seu desespero e revolta com o acontecimento da noite.
Recomendava poupar a mãe e a tia da desgraça e implorava ao tio que contasse à mãe que precisara voltar ao castelo para resolver alguns problemas.
Saiu cautelosamente e foi até o chalé onde morava o jardineiro.
Aparentava haver sofrido uma grande agressão.
O homem assustou-se com a moça batendo em sua casa àquela hora, desalinhada e com o rosto transfigurado.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 04, 2016 10:51 am

— Senhor Manuel, por favor, ajude-me!
Preciso sair daqui antes que outra desgraça aconteça.
Prepare o cocheiro, temos de seguir viagem com os primeiros raios do dia!
É tudo que lhe peço.
— Aconteceu alguma desgraça, senhorita? — perguntou o jardineiro, tremendo.
— Sim, Senhor Manuel, mas só eu posso resolver.
Em silêncio, ele pegou os pertences de Loretta, ajudou-a a colocá-los na carruagem, e, assim que os primeiros raios de luz apareceram no céu, ela subiu no veículo e colocou-lhe nas mãos a carta que escrevera ao tio, com a seguinte recomendação:
—Ninguém pode ler esta carta a não ser meu tio.
Assim que o dia clarear, procure-o e entregue-lhe a carta.
Não deixe meu primo perceber nada.
Converse apenas com meu tio, conte-lhe que pedi ajuda.
Por favor, Senhor Manuel, vá agora até a varanda do segundo andar e coloque tudo em ordem por lá.
Muito obrigada pela ajuda. Até um dia.
O velho jardineiro ficou com os olhos cheios de lágrimas.
O que teria acontecido com Loretta?
Ela estava em péssimo estado.
Foi até a varanda e viu que as plantas e as cadeiras estavam viradas para cima, como se tivesse acontecido uma luta por lá.
Arrumou tudo e ficou imaginando o que teria ocorrido.
O padre ficou em penitência até altas horas, quando por fim adormeceu.
Acordou com os primeiros raios do sol iluminando o quarto.
Com uma sensação de tristeza no coração, orou fervorosamente ao Pai, agradecendo pelas bênçãos e o despertar.
Tomou banho e vestiu cuidadosamente a batina negra.
Desceu as escadas pensando em Loretta; precisava ajudá-la.
Após o café da manhã, conversaria seriamente com ela.
Daria a vida para vê-la feliz, mas não da maneira como ela se comportava diante de Deus.
Chegando ao salão principal, percebeu uma agitação fora do comum.
Algo tinha acontecido.
A tia chorava, amparada por uma de suas acompanhantes.
Aproximou-se dela e, tomando-lhe as mãos, perguntou:
— Por que está chorando?
— Não sei o que houve de tão sério para que Loretta partisse sem ao menos se despedir de mim.
Seu pai me disse que ela foi resolver um problema em nossa casa, mas o que poderá ser, meu filho, se deixamos tudo em ordem?
Uma dor imensa invadiu o coração de Raul.
Então Loretta partira magoada, revoltada e em pecado.
"Deus, inspirai-me o caminho que devo seguir para ajudá-la", suspirou a si mesmo.
Consolou a tia por um instante e saiu à procura do pai no escritório.
Bateu na porta apenas uma vez e ouviu-lhe a voz:
—Pode entrar!
Raul notou o conde pálido, parecia ter envelhecido dez anos.
Com os lábios tremendo e a voz embargada pelas lágrimas, falou:
—Raul, você acabou com nossa família, desonrou o próprio sangue e cometeu um crime para com a Igreja!!!
Tomado de surpresa, o padre perguntou:
— Meu pai, pode me explicar o que está acontecendo?
— Como vou explicar o que não posso entender?
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 04, 2016 10:51 am

Você violentou sua prima em nossa própria casa!
Aceitei sua escolha de ser padre por respeito a Deus e à Igreja, mas vejo que me enganei com você.
Não vou mais permitir que use a batina e proclame o sacerdócio.
Tenho por dever e obrigação denunciá-lo ao bispo e assinar como uma das testemunhas seu desligamento da Igreja, em que será julgado e provavelmente excomungado para sempre.
Seu crime não tem perdão.
O padre sentou-se em frente à escrivaninha; estava pálido.
Suas mãos estavam geladas.
—Meu pai, pode me explicar melhor o que está acontecendo?
Tremendo, o conde levantou a cabeça e gritou:
— Você se recorda de que esteve ontem à noite na varanda com sua prima após todos irem para a cama?
— Sim, fui com Loretta até a varanda e ficamos apreciando as estrelas, conversamos e...
O conde cortou-lhe:
—... abraçou Loretta, beijou-a e fez coisas que não tenho coragem de acreditar.
Raul sentiu um aperto no coração:
"Deus, como posso explicar a meu pai o que está acontecendo?".
Ficou em silêncio, esperando que o conde falasse o que acontecera.
Este se levantou e ficou andando de um lado para o outro.
Depois, parou em frente ao filho e disse-lhe:
—Você vai subir agora mesmo, tirar essa batina e vestir-se como um homem comum.
Aliás, um homem comum não faria o que você fez.
Vou em busca de Loretta, e você, em busca do bispo.
Dentro de no máximo um mês vocês estarão casados.
A vergonha e o escândalo serão menores assim.
Quanto à sua posição perante a Igreja, você conhece melhor do que eu o que pode acontecer.
O conde ia saindo, sem esperar resposta, mas na porta voltou-se e disse, quase gritando:
—Quando voltar com sua prima, quero encontrá-lo vestido de homem e a Igreja já informada de sua renúncia.
Fechou a porta com violência e saiu com passos rápidos.
O padre ajoelhou-se.
"Meu Senhor e meu Deus, tende piedade de mim; afastai de mim este cálice, Pai!
Senhor, não sou digno de entrar em vossa morada, mas necessito de vossa palavra para minha alma ser salva.
Pai, que estais no céu, sejam quais forem Vossos desígnios para comigo, não me abandoneis.
Perdoai-me, Senhor, por ter deixado minha morada, que é a Santa Igreja, para vir a esta casa onde nada já me pertence, pois Vós, Senhor, sois minha vida, meus olhos, meu caminho.
Nada temerei, porque estais comigo."
Orou fervorosamente, e a paz tomou conta de seu coração.
Jamais tiraria a veste sagrada, jamais cairia nas mãos dos inimigos do Senhor.
Levantou-se e foi até o quarto.
Lá, pegou seu pequeno baú, desceu as escadas tranquilamente e encaminhou-se para a saída sem olhar para trás.
Chegando ao portão, encontrou uma carruagem parada com três senhores a postos. Um deles falou:
—Entre, padre. Temos ordem do conde de levá-lo até o bispo e trazê-lo de volta ao castelo.
Raul subiu na carruagem pedindo em oração que Deus não o abandonasse.
Quando pararam em frente à casa paroquial, um deles estendeu um baú, dizendo-lhe:
—Senhor padre, aí tem tudo de que vai precisar, roupas e calçados, assim que entregar a batina.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 04, 2016 10:51 am

Foi ordem do conde.
Esperaremos pelo senhor.
Logo estava à frente do santo bispo, que o recebeu amorosamente.
Entre lágrimas, relatou desde sua chegada ao palácio até os últimos acontecimentos, o bispo segurando-lhe as mãos, orando em silêncio e ouvindo sua confissão.
Ao final, o santo bispo lhe disse:
—O caso está nas mãos de Deus.
Troque sua batina e vista-se como homem comum.
Assim também foi Cristo, levado a julgamento tão inocente quanto você, meu bom filho.
Volte para seu calvário e espere a vontade do Pai.
Deus, nosso Pai, fala através de Seus filhos.
Apenas Ele poderá livrá-lo, e que seja feita a Sua vontade.
Se assim Ele achar que é o preço de sua alma nesta terra, sustente o peso da cruz com muita dignidade.
Oraram juntos.
O bispo confortou-o, deu-lhe a hóstia consagrada e abençoou-o, recomendando que aceitasse os desígnios de Deus.
Acreditava em sua inocência, mas Deus sabia sempre o que era melhor para Seus filhos.
Uma esperança surgiu no coração de Raul:
Loretta desmentiria todo aquele mal-entendido; talvez algum criado tivesse visto os dois abraçados, a moça chorando, e entendido mal.
Iria esperar a vontade do Pai Maior.
Ajoelhou-se diante de seu pai espiritual, tomou-lhe a bênção e entregou-lhe as vestes sacerdotais.
As lágrimas escorreram pelas faces de ambos.
O bispo beijou-lhe a fronte e animou-o:
—Confie na vontade de Deus, meu filho.
Estarei sempre contigo.
Sem a batina, Raul se sentiu completamente despido.
Imaginou como Cristo se sentira ao ser despido de suas vestes.
"Senhor, esteja comigo", pediu.
Sentou-se em silêncio.
Sabia que dali em diante sua vida como homem estava nas mãos de Deus.
Uma sensação de paz e calma tomou conta de seu espírito.
Estava preparado para aceitar qualquer caminho que Deus lhe tivesse reservado.
Ao entrar em casa, encontrou um clima de apreensão.
A mãe estava acamada, e a tia recusou-se a recebê-lo.
Subiu para o quarto e ficou à espera do porvir.
Um criado trouxe-lhe uma bandeja com alimento, mas ele não tocou em nada.
Anoitecia, quando ouviu o barulho de carruagens se aproximando.
Correu até a janela, estava escuro, mas pôde ver Loretta saltando de uma delas.
Estremeceu, imaginando o sofrimento dela.
Faria tudo para ajudá-la...
Pediu perdão a Deus.
Será que não estava sendo castigado por amar tanto Loretta?
Não, sabia que não, era o mais puro amor o que sentia por ela, jamais faria qualquer mal àquela criatura.
Naquela noite o pai não o procurou.
Assim que amanheceu, desceu e sentou-se no grande salão de refeições.
Logo chegaram os pais e a tia, acompanhados de Loretta, que o olhou de cima a baixo, admirando a beleza do jovem, agora vestido normalmente.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 04, 2016 10:52 am

Sem a batina, ele estava mais alto e mais bonito.
Por nada retrocederia em sua decisão; casar-se-ia com ele, sim; queria ver se o Deus dele iria se interpor entre eles.
Sentia-se vitoriosa:
arrancou-lhe a batina e o arrancaria definitivamente de Deus e da Igreja.
Seriam felizes, tinham tudo para ser:
dinheiro, saúde, beleza, título e juventude.
Raul foi até Loretta, beijou-lhe as mãos carinhosamente, puxou uma cadeira e ajudou-a a se sentar.
Voltou a seu lugar, sentando-se calmamente, e começou a falar:
—Minha querida prima, peço-lhe, em nome de Deus, perante nossos familiares, que fale tudo que aconteceu entre nós.
Vamos esclarecer esse mal-entendido.
Pelo amor de Deus, Loretta, conte para meus pais e à sua mãe a verdade, pois sei que estamos sendo vítimas de um terrível engano.
Alguém interpretou mal nosso comportamento.
Sei, minha querida, que você deve estar se sentindo tão mal quanto eu com toda essa história.
Loretta, os olhos faiscando, o rosto em brasa, levantou-se.
Parecia outra pessoa.
—Raul, em nome de Deus digo eu!
Como tem coragem de pronunciar tais palavras? — E começou a soluçar.
O conde levantou-se, pálido, e gritou:
—Nem mais uma palavra ou vou me esquecer de que você é meu filho e o arrebento aqui mesmo, na frente de sua mãe.
As mulheres começaram a chorar.
O conde ordenou:
—Acalmem-se, todas vocês! Loretta, peço-lhe perdão, minha filha.
Quisera estar morto para não passar por isso, quisera que Deus o tivesse levado quando criança, para não vê-lo praticar tamanha crueldade connosco.
Dirigindo o olhar para o filho, continuou:
— Sentem-se e ouçam-me:
a desgraça foi lançada em nossa família, e só temos um jeito de reparar a situação.
Loretta, você é quem vai decidir pelo melhor.
Diga se quer desposar seu agressor ou não.
Não posso forçá-la a unir-se a ele.
Caso não queira, entregaremos em suas mãos tudo que nos pertence, a fim de recompensá-la por um dano que será sempre irreparável.
Loretta, de olhos baixos, fingia pensar.
Raul, também de cabeça baixa, orava em silêncio:
"Pai, afastai de mim este cálice; faça-se a Vossa vontade".
Por fim, ela respondeu, mantendo os olhos baixos:
— Meu tio, um erro não justifica outro.
Jamais lhe causaria mal algum. Nunca aceitaria nada de seus bens.
Quero casar-me com meu primo, mas faço uma exigência:
quero permanecer aqui, na mesma casa onde tudo começou.
— Será feita a sua vontade, Loretta — respondeu o conde, suspirando aliviado.
Enfim, a coisa se resolvia da forma mais simples possível.
Loretta realmente era uma moça excepcional.
Quem sabe, com o passar do tempo, ela não viesse a gostar de seu filho?
Afinal, apesar de tudo, ele era culto e bonito.
—Na condição de chefe de família, devo comunicar a todos que a cerimónia de casamento será realizada dentro do menor tempo possível.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 04, 2016 10:52 am

Vocês, mulheres, a partir de hoje comecem a trabalhar nos preparativos.
Virando-se para as condessas, recomendou:
— Não economizem em nada.
O conde levantou-se da mesa após ter tomado apenas uma xícara de chá e pediu para as duas senhoras:
—Minha esposa e minha irmã, após o desjejum, deixem os noivos a sós.
Acredito que precisam conversar um pouco, e o lugar mais adequado é onde estão.
As duas senhoras saíram em seguida.
Raul estava imóvel, os olhos parados no rosto da prima.
—Loretta, minha querida, por que fez isso comigo?
Eu a amo de todo o coração, com tanta sinceridade, que jamais a tocaria com um dedo sequer para ofendê-la.
Por que, Loretta, por quê?
Você não sabe o mal que está fazendo a si mesma, a mim.
Está tirando de si mesma a oportunidade de ser feliz.
Ainda é tempo de retroceder, Loretta.
Não deixe que os inimigos de Deus lhe ceguem a consciência.
Ainda está em tempo, minha amada, de retroceder e falar a verdade para todos.
Ficarei ao seu lado por toda a vida, se é isso o que quer, mas fale a verdade, pelo amor de Deus!
Sem levantar a cabeça, Loretta apenas disse:
—Agora é tarde. O que está feito, está feito.
Ele continuou a falar-lhe como se falasse com uma criança, lembrou-lhe a infância que passaram juntos e como tinham sido felizes naqueles dias de inocência e simplicidade.
Ela apenas o ouvia.
Em dado momento, sentiu que ela estava prestes a chorar, mas conteve-se.
Após ouvir tudo o que ele falou, ela levantou a cabeça.
Seu rosto estava transfigurado, ele não reconhecia a meiga Loretta.
Disse-lhe, sem olhá-lo nos olhos:
—Já decidi: quero me casar com você e não há santo, nem padre, nem Deus que impeçam nosso casamento.
Pôs-se de pé e continuou:
— Vou dormir em sua cama e como esposa quero direitos sobre seu corpo.
0 padre estremeceu.
Deus poderia lhe impor qualquer castigo, mas nunca empurraria um filho seu precipício abaixo.
Calou-se diante de sua sentença.
Na semana seguinte, foi procurado pelo clero.
Deu-se início ao processo de seu afastamento do santo sacerdócio.
Foi alertado de que, dali em diante, estava proibido de entrar em qualquer igreja católica e receber a hóstia consagrada até o julgamento papal.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 04, 2016 10:52 am

AS BODAS
O aposento nupcial foi preparado com toda a pompa.
Alguns nobres foram convidados para as bodas, e o castelo D'armis ficou em clima de festa.
O vestido de Loretta foi todo enfeitado com pérolas e ouro.
Era o mínimo que o tio e sogro poderia fazer para animá-la.
Chegou o grande dia.
O escrivão do rei tomou nota de todas as palavras pronunciadas pela majestade.
O rei era primo de Raul e facilitou muitas coisas, atendendo a um pedido do conde.
Finda a cerimónia do casamento, deu-se início aos cumprimentos aos noivos e familiares.
O rei ordenou que a festa começasse e brincou ao ouvido do primo:
—Perto dessa beldade nem o papa teria resistido!
Você fez bem em deixar a cama solitária do convento!
Parabéns e muitos filhos são o que desejo aos dois.
Farei o possível para seu processo junto à Igreja correr rapidamente e sem maiores consequências.
No aposento nupcial, Loretta esperava ansiosa pelo marido, que continuava debruçado na janela da varanda, alheio a tudo.
O pai aproximou-se dele e abraçou-o, dizendo:
—Filho, meu sobrinho e rei prometeu ajudá-lo perante a Igreja.
Pensando bem, Deus sabe o que faz...
Agora, com toda certeza, terei netos.
Vamos reconsiderar tudo o que passou e começar uma nova vida.
Tenha paciência com sua esposa, vá conquistando-lhe a amizade e mostrando aos poucos que podem ser felizes.
Faça o possível para ela esquecer o grande mal que ocorreu entre vocês.
O filho do conde nada respondeu; apenas sorriu e assentiu com a cabeça.
Seu coração estava dilacerado, pois não podia mais entrar na casa do Senhor, em sua amada Igreja, dentro da qual estava sua vida.
Um vazio tomou conta de seu ser.
Conforme lhe dissera o bispo, somente Deus sabe se somos inocentes ou não.
Seu destino estava nas mãos Dele, e Ele o levara para um caminho cheio de espinhos.
O que iria fazer?
Sentia-se como criança perdida numa floresta.
O pai ofereceu-lhe um drinque, o qual recusou.
—Obrigado, meu pai, isso não me faz bem.
—Pois então siga para seus aposentos de casado.
Procure ser cavalheiro com sua esposa; toda sua vida de casado vai depender desse primeiro dia.
Faça apenas o que ela desejar.
Controle-se, meu filho.
Raul parecia mais alto e mais magro.
Tomou a bênção do pai e subiu lentamente as escadas que davam para o segundo andar.
Entrou sem fazer o menor barulho, foi até o banheiro que lhe tinha sido reservado, fechou a porta, tomou banho, trocou as vestes e sentou-se na ante-sala, em uma confortável poltrona.
Ficou muito tempo ali em silêncio, orando.
Isso ninguém poderia proibi-lo de fazer.
Ouviu passos, seu coração disparou.
Loretta apareceu vestida com uma longa e transparente camisola de seda rosa, bordada com capricho.
Ele desviou os olhos, enquanto ela se postou à sua frente.
Parecia uma menina e tinha as faces rosadas.
— Raul, por favor, perdoe-me pelo que fiz!
Eu o amo acima de tudo e de todos.
Sei que está magoado comigo. — Jogou-se sobre ele, chorando.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 05, 2016 10:07 am

— Fui obrigada a escrever aquela carta, e depois, meu amor, se não aceitasse se casar comigo, sua sentença seria a morte.
Não me faça perguntas; estou sofrendo tanto quanto você.
Raul empalideceu.
Teriam sido vítimas dos perseguidores da Igreja?
—Loretta, minha querida menina, fale-me a verdade para que eu possa acreditar que o Pai não me abandonou.
Foram os inimigos da Santa Igreja que a obrigaram a isso?
—Sim, meu amor, foram eles — respondeu, soluçando.
Ouviram nossa conversa, minha confissão de amor por você e minha revolta.
Quando entrei em meu quarto, fui abordada por três deles, que me obrigaram a escrever aquela carta.
Trémulo, Raul abraçou a prima, enquanto lágrimas lhe inundavam os olhos.
Tomou-a nos braços e levou-a para a cama, deitando-a e cobrindo seu corpo como se fosse uma criança.
Pegou um copo, encheu-o com água e colocou-lhe nos lábios.
—Minha pobre criança, o que lhe fizeram!
Ficou um tempo segurando a mão dela e alisando seu cabelo.
— Durma, minha querida, fique tranquila, não a deixarei sozinha.
Ela fechou os olhos, tonta de alegria.
Estava conseguindo seu intento, Raul acreditara na história.
Loretta respirou fundo.
Saberia esperar, faria dele seu escravo, suportaria com paciência.
Sabia que sua hora chegaria, ele a tomaria como sua mulher.
Iria ser gentil, compreensiva e educada para com ele, incentivá-lo a tomar gosto pelos negócios da família.
Seriam felizes.
Raul se sentia como se flutuasse ao redor do mundo.
Não tinha permissão de aproximar-se da Igreja até o final do processo, não tinha como se defender perante os homens, mas Cristo sabia de sua inocência.
O tempo corria lento para Raul, e Loretta se desmanchava em gentilezas para com ele.
Os pais começaram a lhes cobrar um neto, alegando que já completavam seis meses de casados.
A sós com Raul, Loretta comentou:
—Nossos pais não desconfiam de nada.
Acreditam que você é meu marido, e eu, sua mulher.
Não suporto mais viver de aparência!
Nossa família não pode sofrer; basta o que nos aconteceu.
E eu gostaria que nosso casamento se tornasse real.
Ele acariciou o cabelo dela:
—Perdi a chance de viver como padre, mas não perdi a alma.
Se esta é a prova que me foi dada pelo Pai, eu a honrarei até o fim.
Mas nunca tocarei em você como homem.
Se deseja ser tocada por um, vou entender e ajudá-la.
Loretta se lembrava dos amigos espirituais e inconscientemente os invocava, pedindo ajuda em seus planos.
Passara-se um ano do casamento, e os pais de Raul queriam comemorar a data com uma festa entre amigos.
Loretta estava triste nesse dia; até já se arrependia de ter-se casado.
Circulava entre os convidados, quando seus olhos se depararam com Hari.
Foi como mágica:
todo sentimento, todo desejo que sentia por Raul acabou no exacto momento em que viu Hari.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 05, 2016 10:08 am

Parece que o mesmo aconteceu com ele.
Era como se uma força os prendesse um ao outro.
Seus olhos ficaram fixos.
Em um momento em que não estavam sendo observados, ele se aproximou e tocou-lhe as mãos.
Foi como se uma corrente eléctrica percorresse todo o corpo de Loretta.
Ela estremeceu ao ouvi-lo.
— Senhora, não conheço bem a região, mas amanhã às 16 horas estarei do outro lado do lago à sua espera.
Prefiro morrer a voltar sem vê-la outra vez.
Afastou-se sem ninguém perceber.
Naquela noite, pela primeira vez, Loretta pediu que Raul não fosse ao seu encontro, pois estava cansadíssima e pretendia dormir.
Com todo carinho e compreensão, o esposo sorriu-lhe, desejando-lhe boa-noite.
Assim que se viu só, Loretta fechou os olhos e parecia ter esquecido todo o desejo por Raul...
Iria ao encontro daquele que entrara em sua alma, em seu coração pouco importava o que lhe poderia acontecer.
Na hora marcada, saiu, dando uma desculpa para sua dama de companhia.
Queria ficar só, não se afastaria dos jardins, precisava apenas respirar um pouco.
Vendo-se sozinha, correu em direcção ao lago, que ficava afastado dos jardins do castelo D'armis.
Atravessou os arbustos que escondiam o lago e avistou Hari, que a esperava.
Seu coração disparou. Era loucura, mas precisava vê-lo ou também morreria.
Abraçaram-se e beijaram-se demoradamente.
Ele lhe tomou as mãos e a levou para um esconderijo, onde podiam conversar sem serem vistos.
Loretta lhe contou que se casara com Raul por uma questão familiar e continuava casta como mulher.
Ele a abraçou, dizendo que não sairia daquelas terras sem ela.
0 sol baixava no horizonte, quando ela apressadamente decidiu ir embora, marcando novo encontro para o dia seguinte.
Voltou ao castelo tão bem-humorada que sua criada, acostumada a vê-la sempre de mau humor, estranhou.
Loretta desceu para o jantar com as faces rosadas, uma expressão de alegria nos olhos.
Foi gentil com todos e, logo após a refeição, foi até a varanda, sentou-se em um banco e ficou olhando para as estrelas, pensando em Hari.
Raul ficou contente.
Desde o casamento, ela nunca mais tinha ido à varanda à noite para ver as estrelas.
Tomou-lhe as mãos, fez uma prece em silêncio e pensou:
"O que fazer com esta criatura?".
Ela entrara em sua vida de forma súbita e violenta, mas fazia parte dela.
Já era tarde quando Loretta resolveu ir se deitar.
Subiram juntos, e, quando entraram em seus aposentos, ela se virou para ele e, após bocejar, disse-lhe:
— Estou me acostumando a viver com você e até gostando da situação.
Raul, você não acha que está demorando demais o processo com a Igreja?
— Confio em Deus.
Que seja feita a vontade Dele — respondeu.
Loretta se entregou por completo a Hari.
Começaram a fazer planos para o futuro.
Não poderiam se casar; fugir, nem pensar.
Ela era casada, o processo era pena de morte para os dois.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 05, 2016 10:08 am

Só havia uma possibilidade de realizarem seu sonho:
caso ela ficasse viúva ou Raul fosse preso e condenado à prisão perpétua, o casamento seria anulado.
Certo dia, Loretta voltava de um de seus passeios quando avistou uma carruagem eclesiástica defronte ao portão principal do castelo.
O que estariam fazendo lá?
Por certo era algo relacionado ao processo de Raul.
Ela foi chamada para uma sala fechada, onde já estavam o sogro e o marido.
Reconheceu o bispo entre eles.
Convidaram-na a sentar-se.
Raul estava pálido e de cabeça baixa, parecia dez anos mais velho.
Toda a sua beleza tinha desaparecido aos olhos de Loretta; era agora estranho e indesejável para ela.
O representante papal estirou uma folha de papel e pôs-se a dizer:
— Sou o enviado do Santo Papa para pronunciar a sentença do processo.
Sua Santidade, o Papa, deu a seguinte sentença:
o Padre Raul fica proibido de exercer qualquer cargo dentro da Santa Madre Igreja, bem como de por toda a vida receber a hóstia consagrada ou participar de qualquer evento religioso, ou apertar a mão ou receber a bênção de qualquer religioso de nossa Santa Igreja.
Seus filhos, caso venha a tê-los, não poderão receber nomes cristãos e não serão reconhecidos pela Igreja.
Quanto ao seu casamento com a senhora Loretta, não o reconhecemos na Santa Igreja.
Ela foi considerada uma mulher adúltera desde que aceitou se casar com um infractor da Santa Igreja, ficando sob a custódia do rei Henrique, e a qualquer momento poderá ser condenada à prisão perpétua.
Com a morte do rei ou a perda do trono de Sua Majestade, o processo perde o valor.
E, finalizando a sentença, por morte da senhora Loretta, a sentença do Senhor Raul permanece, mas, por morte do senhor Raul, fica a senhora Loretta livre do processo eclesiástico, voltando a adquirir seus direitos como cristã.
Assim, fica expressa a vontade de Deus e de Sua Santidade, o Papa.
Assinem aqui, por favor.
Duas vias ficam com vocês, uma delas será enviada a Sua Majestade, e as demais serão enviadas a todas as dioceses.
Raul assinou o processo, enquanto grossas lágrimas desciam de seus olhos.
Loretta ainda tentou protestar, não assinando o documento, mas alertaram-na de que a situação poderia ficar mais complicada caso se recusasse a assinar.
Ela o fez com o rosto vermelho, irada diante daqueles malditos padres que queriam dominar o mundo.
Eles se retiraram em seguida.
Então vieram excomungá-la e a Raul!
Seu caso era delicado, pensava Loretta.
Sua vida estava nas mãos do rei, primo e amigo de Raul.
Logo a mente de Loretta foi influenciada por seus acompanhantes espirituais, e ela começou a arquitectar um plano: ficar viúva.
Além de ficar livre do processo, poderia se casar com Hari.
Lágrimas corriam dos olhos de Raul, sentado, as mãos cruzadas sobre o peito.
Seu pai tentava animá-lo:
—Graças a Deus vocês não foram condenados a refugiar-se da sociedade, nem seus filhos.
Nosso rei há de viver muitos anos e ele tem seu descendente e herdeiro, que continuará sua obra.
Não vamos cair em desespero.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 05, 2016 10:08 am

Quem sabe no futuro tudo isso não poderá mudar!
O Papa está velho, e cada um que assume a cadeira de Roma tem plenos poderes para modificar todos os processos deixados pelo anterior.
Vamos manter a calma.
Loretta abraçou Raul num gesto de carinho e disse-lhe em tom de condolência:
—Você é devoto.
Creio que venceremos, somos inocentes.
Minha situação é pior do que a sua, meu amor.
Posso ser condenada à prisão perpétua, se o rei cismar connosco.
Mesmo assim, não quero pensar no pior.
Estamos salvos por enquanto e o futuro não nos pertence.
Acredito que amanhã tudo será diferente.
Malditos sejam esses padres que querem ter o controle do mundo nas mãos!
Veja agora, Raul, de que valeu você ter entregado a vida à Igreja.
Raul trancou-se no quarto.
Orava e chorava, agarrado ao crucifixo.
Teria de se desfazer dele também; sua casa não poderia conter nenhum quadro ou imagem que lembrasse a Igreja.
Estava proibido de recitar ou ouvir as palavras do Senhor!
—Porquê, porquê, Senhor? — Caiu de joelhos, soluçando.
Pai, fazei a Vossa vontade.
Se este é o peso da minha cruz, dai-me forças para que eu possa levá-la.
Sentada na poltrona macia e confortável de seu quarto, Loretta lia e relia o papel da sentença.
Agora tinha um plano ainda mais ousado.
Lembrava-se de que, no dia de seu casamento, o rei a olhava com respeito e admiração.
Pediria ao sogro para levá-la em audiência perante ele.
Em sua presença, cairia de joelhos, beijaria seus pés e mãos, conquistaria a confiança do soberano.
Imploraria para servi-lo em seu reino da forma que desejasse, uma vez que lhe devia a vida.
O marido não poderia exigir nada; na verdade, ela agora pertencia ao rei.
Passou a noite arquitectando o plano.
Precisava ficar livre daquela casa e viver seu amor com Hari, que era cunhado e cavaleiro do rei.
Tudo a favorecia.
No dia seguinte, logo cedo, Loretta apareceu no salão de refeições com ar triste e muito abatida.
O marido a abraçou carinhosamente, ajudando-a a se sentar.
O sogro a olhou, contristado:
"Pobre menina, que destino cruel!
Cresceu sem a companhia do pai, que morreu em combate, e agora toda essa desgraça em sua vida".
Loretta pouco se serviu à mesa.
Após o desjejum, pediu:
—Meu sogro, posso falar-lhe um momento a sós?
—Naturalmente que pode, minha querida.
Vamos até o escritório.
Sentada em frente à escrivaninha, ela começou a chorar e dizer:
—Meu sogro e tio, peço-lhe, pelo amor de todos nós, já que não posso mais falar no nome de Deus:
consiga para mim uma audiência com Sua Majestade, o rei.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 05, 2016 10:09 am

Preciso agradecer-lhe pelo que fez por nós; minha vida está nas mãos dele.
O conde, emocionado, abraçou-a.
—Fique tranquila, minha filha, você vai ter sua audiência com meu sobrinho e rei, eu lhe prometo.
Enxugando os olhos, ela beijou o rosto do conde, que permaneceu sentado, sensibilizado com o bom senso da nora.
— Aguardarei com ansiedade sua resposta.
Com a sua licença, meu sogro, preciso andar um pouco para respirar.
— Sim, minha filha, vá à sua caminhada.
Bom passeio.
Tome cuidado para não escorregar nas pedras, que estão húmidas devido à chuva que caiu ontem.
Ela saiu como sempre, em direcção ao jardim.
Assim que se viu encoberta pela vegetação, cortou caminho e entrou no meio dos arbustos, dirigindo-se ao lago.
Tudo que queria era estar nos braços de Hari.
Conversaram durante muito tempo.
Hari ficou enciumado com o facto de ela ir aos pés do rei pedir-lhe favor.
Conhecia bem o cunhado.
Então, instruiu Loretta de que deveria pedir para servir a rainha, que era sua irmã.
Aí, sim, estariam seguros.
Hari tinha total liberdade com ela.
Com Loretta ao lado dela, ele ficaria tranquilo.
Uma semana depois, Loretta entrava no palácio.
Sentado no trono, o rei parecia mais alto, e o ambiente intimidava qualquer pessoa.
Sabiamente, ajoelhou-se a seus pés.
O rei ergueu-se do trono para levantá-la do chão.
—Minha senhora, não faça isso.
Por que ajoelhar-se aos pés do rei?
Trémula e chorosa, começou sua lamentação de agradecimentos e, por fim, colocou-se à disposição da rainha.
— Minha senhora, não está feliz no casamento? — perguntou ele, pensativo.
Ou é só por gratidão que deseja entregar-se e servir à casa real?
— Pelas duas coisas, meu senhor e meu rei.
Gratidão por estar livre de uma pena que me custaria a vida e por Raul jamais ter deixado de ser o padre que sempre foi.
Não sei o que aconteceu naquela noite com ele...
Depois do nosso casamento, celebrado por Vossa Majestade, ele se recusa a dormir comigo.
Sou rejeitada por meu marido e agora pela Igreja.
Sou-lhe grata pela vida, que entrego em suas mãos.
O rei continuou pensativo, olhando aquela menina linda e jovem.
Como poderia Raul envergonhar a família de tal forma?
Afinal de contas, ele fazia parte da família real.
E era crime, com pena de morte para qualquer homem, o não-cumprimento de suas obrigações como marido.
Não foi à toa que largara as armas pela Igreja.
Se ao menos cumprisse o papel de marido, estaria honrando o sangue real!
—Loretta, você me diz a verdade quanto ao relacionamento com seu marido?
Sim, Majestade.
Posso provar o que estou lhe dizendo.
— Pode?
— Sim, posso.
— Como?
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 05, 2016 10:09 am

— Se Vossa Majestade suspeita de minhas palavras, coloque um de seus cavaleiros para vigiar a vida no castelo e verá que estou falando a verdade.
Dormimos em aposentos separados.
O rei aprovou a ideia:
—Muito bem, Loretta.
Para que fique testemunhado o que está me contando, vou mandar um de meus homens de confiança averiguar o que acabou de me contar.
Caso fique provado, você será transferida para o palácio imediatamente, ficando aos cuidados da rainha, como me pediu.
Quanto ao seu marido, pensarei no que fazer com ele.
Loretta beijou-lhe as mãos e retirou-se, radiante de alegria.
Logo estaria livre daquela casa e da presença de Raul, que agora a incomodava.
Como planejado, assim que Loretta saiu, Hari, cavaleiro e cunhado do rei, chegou, colocando-se à disposição dos trabalhos reais, visto suas tarefas terem terminado, conforme estava no relatório que estendia ao monarca.
Este examinou o relatório sem prestar atenção no que estava escrito e imediatamente se lembrou:
—Meu cunhado e fiel seguidor, tenho uma missão um tanto incómoda para qualquer cavalheiro.
Você agora é vizinho do castelo D'armis.
Infelizmente é lá onde irá averiguar uma história trazida pela mulher de meu primo, o ex-padre, excomungado recentemente pela Igreja, mas que recebeu meu benefício.
Vamos ao assunto:
sua missão é verificar se o visconde Raul dorme ou não com a mulher.
E relatou a denúncia recebida e o desapontamento familiar.
Seja discreto nas investigações e não aborreça a moça; ela é minha protegida.
Hari ficou corado com a insinuação "é minha protegida"; seria capaz de matar o próprio rei caso este ousasse tocar um fio de cabelo de Loretta.
Amava-a como nunca havia amado nenhuma outra mulher em sua vida de aventuras.
Daria a própria vida por ela.
Um mês foi o prazo estipulado pelo rei para Hari trazer as provas de que precisava.
O rei era um homem justo e bom, não gostava de cometer injustiças.
Hari montou todo o esquema de investigação, colocou empregados de sua confiança para servir no castelo D'armis, a fim de levar provas concretas de seu trabalho.
Naturalmente, Loretta facilitou todo o serviço.
Um mês depois, Hari se apresentou para uma audiência com o rei, levando o relatório completo.
O rei ficou aborrecido.
Baixou a cabeça por um instante, relembrando a infância com Raul.
Gostava dele.
Por que fizera aquilo?
Poderia ter procurado sua ajuda antes do casamento.
Teria interferido e quem sabe convencido Loretta a não exigir o reparo.
Assim Raul poderia ter partido para cumprir sua missão como padre.
Sabia de casos semelhantes em que tudo fora resolvido em segredo.
Mas, enfim, teria de tomar uma decisão.
Em situações familiares, ele mesmo redigia as ordens.
Ordenou que Loretta fosse imediatamente transferida para o palácio, ficando aos cuidados e a serviço da Sua Majestade, a rainha.
Quanto a Raul, certamente tomaria providências cabíveis, sem levar em consideração os laços familiares.
Afinal de contas, ele era o rei e precisava dar bons exemplos na corte.
Uma semana depois, Loretta estava instalada no palácio por ordem do rei.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 05, 2016 10:09 am

Sua mãe teve um ataque cardíaco ante a notícia e faleceu três dias depois de sua partida.
O conde interrogava Raul sobre o que teria Loretta contado ao rei.
O que haveria de errado com ela?
Como poderia abandonar a casa, o esposo, a família?
Raul não suportava tanta aflição.
Se Deus quisesse castigá-lo, poderia arrebatar-lhe a vida, mas não destruir toda sua família.
Sua querida Loretta estava sendo vítima de alguma chantagem, com certeza.
Arrumou-se e saiu decidido a procurar o rei e implorar-lhe a verdade.
Nunca tinha pedido nada para si; sempre confiara em Deus, entregando-se em Suas mãos como um cordeiro ao sacrifício.
No entanto, agora precisava fazer algo para salvar Loretta.
Era a primeira vez que Raul entrava na sala de audiências do rei.
Este se encontrava sentado no trono, sério e com toda a autoridade que possuía estampada no rosto.
Raul se curvou diante dele e foi convidado a se sentar à sua frente.
O rei adiantou-se:
— Raul, fico satisfeito que me tenha procurado.
Estava expedindo um mandado, convocando-o à minha presença.
Está diante não do rei, mas de seu primo e amigo de infância.
Fale-me a verdade.
Decretei seu casamento perante toda a corte.
Intercedi junto à Igreja por você e Loretta e tenho provas concretas de que não dorme e não tem vida sexual com sua mulher.
Você desmente isso?
— Não desminto.
E a pura verdade e, como já disse o rei, tem provas concretas em mãos.
Agora entendo o porquê de trazer Loretta.
Ela certamente já confirmou a farsa de nosso casamento.
— Diante dos factos que foram apresentados, você perde seu direito de cidadão, sua identidade de homem.
Por isso será confinado à prisão perpétua.
Será levado à Ilha do Esquecimento, onde jamais receberá visitas ou notícias do mundo exterior.
Quanto a Loretta, paguei por ela e vou me responsabilizar por seu bem-estar:
viverá sob minha protecção enquanto eu viver.
Raul abaixou a cabeça.
Enfim, chegara sua sentença.
Era estranho, mas sentia um alívio muito grande em poder ir viver em paz.
Ajoelhou-se diante do rei e pensou em Jesus Cristo.
—Meu nobre rei, em suas mãos entrego minha vida, confiante em sua justiça.
O rei estremeceu.
Esperava que fosse protestar, mas, em vez disso, ele lhe agradecia.
Raul se entregou ali mesmo.
Não desejava retornar para casa e esperar o mandado.
Olhando para o rei, pediu-lhe:
— Meu rei, em nome das brincadeiras de nossa infância, conceda-me apenas um último pedido.
— Qual é seu pedido, meu amigo de infância?
— Quero despedir-me de Loretta.
Apenas isto:
despedir-me dela e pedir-lhe perdão pelo mal que lhe causei.
— Seu pedido será atendido.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 05, 2016 10:09 am

Perdoe-me, caro primo, às vezes o papel de um rei é cruel.
Preciso cumprir a lei, você me entende?
— Naturalmente que sim, meu amigo. Não guardo nenhuma mágoa.
Loretta entrou no salão real e ficou pálida quando viu Raul e o rei olhando para ela.
Curvou-se diante do rei e olhou para o marido sem falar nada.
Ele se aproximou dela, tomou-lhe as mãos, ajoelhou-se e, de cabeça baixa e com a voz entrecortada pelas lágrimas, falou:
—Loretta, por favor, perdoe-me pelo mal que causei em sua vida.
Amo-a de todo o coração e viverei eternamente para rezar e pedir a Deus que a ampare e a proteja.
Diga-me que me perdoa, para que eu possa levar a paz em meu coração.
Imóvel e pálida, Loretta respondeu:
—Está perdoado, Raul. Siga em paz.
Ele levou as mãos dela aos lábios e, após olhá-la por instantes, disse:
—Deus a abençoe.
Amo-a de todo o coração.
Muito obrigado por tudo.
O rei não entendia como alguém poderia amar e portar-se como Raul.
Não havia explicação.
Loretta respirou aliviada, enfim.
Estava longe do castelo D'armis e agora podia viver com tranquilidade nos braços de seu amor.
Naquela noite, Hari esteve com ela e confidenciou que iria insistir com o rei para acompanhar a caravana que levaria os prisioneiros à Ilha do Esquecimento.
Raul estaria entre eles.
Era a grande oportunidade de liquidá-lo e ver realizado o sonho de ambos:
casarem-se.
Loretta ficou apreensiva.
Estava ali por causa de Hari, e sem ele o palácio seria uma prisão.
— Quanto tempo você ficará fora, Hari?
— Mais ou menos uns seis meses.
A ilha fica do outro lado do continente.
É nossa chance de sermos felizes, meu amor.
Preciso tentar.
Foi tudo acertado.
Hari estava escalado para acompanhar os prisioneiros, e Loretta procurava aproveitar o máximo possível dos momentos de amor em seus braços.
Já sentia saudade, mas valeria a pena esperar por ele.
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 05, 2016 10:10 am

A ARMADILHA
Dias depois da partida de Hari, a rainha escalou Loretta para acompanhá-la em todos os eventos ao lado do rei.
Num deles, o rei a incentivou a dançar para a corte e ficou extasiado com sua beleza.
Pareceu-lhe que tinha um ímã ligado a ela.
Ela, por sua vez, começou a gostar daqueles momentos de distracção e de poder tomar os melhores vinhos do reino.
Seus olhos se encontravam com os do monarca, e ela sentia uma onda de calor subir-lhe por todo o corpo.
Não sabia explicar, mas estava totalmente apaixonada pelo rei.
Este não disfarçava o interesse por Loretta.
Fazia quinze dias apenas que Hari tinha partido, e ela já caíra nos braços do rei, enlouquecida de paixão.
Estava em sintonia com seus amigos espirituais, que tinham planos nefastos, envolvendo-a em seus propósitos.
Diante daquela mulher, o rei se tornou como um pássaro indefeso na boca de uma serpente.
Seu coração estava preso a ela; queria-a como nunca havia desejado outra mulher.
Influenciada e com a mente dirigida pelos inimigos do bem, Loretta começou a arquitectar novo plano:
Hari voltaria com a boa notícia da morte de Raul, e ela se casaria, sim, não com ele, mas com o rei!
Seria a rainha e faria valer seu juramento contra Deus e a Igreja:
acabaria com os malditos padres.
Sim, por causa deles sofrera muitas humilhações.
Como rainha, faria o que nenhuma outra tivera coragem: acabaria com eles.
Loretta envolvia o monarca cada vez mais, e este já não ficava um dia sem vê-la.
Um pedido dela era uma ordem para ele.
A rainha não comparecia mais aos eventos; ela lhe tomara o lugar.
Espalhou-se pela corte a notícia de que a rainha estava adoentada, mas Loretta sabia que não era verdade:
simplesmente não havia mais espaço no coração do rei para ela ou qualquer outra mulher.
Ela não acompanhava mais a rainha a lugar algum.
Tornara-se a predilecta do rei e era mais bem servida que a própria rainha dentro do palácio.
Todos a temiam, pois sabiam que uma palavra sua, e o rei assinaria sem pestanejar qualquer sentença de morte.
Na verdade, ela tornara-se tão ou mais poderosa e temida que ele mesmo.
Passados seis meses, Loretta lembrou-se de que estava próximo o retorno de Hari.
Precisava pensar urgentemente no que faria com ele.
Se aquele tolo resolvesse contar toda a história ao rei, ela corria o risco de perder tudo e ser queimada viva.
Lembrou-se do amor que sentia por Raul, depois por Hari e agora pelo rei.
Não estava com o último apenas pelo poder.
Ela o amava, sim, e iria amá-lo por toda a vida.
E ninguém iria estragar seus planos.
Pensava em Raul e Hari:
era como se nunca tivessem existido em sua vida.
Sabia que, antes de Hari colocar os pés no palácio, já estaria sabendo de seu envolvimento com o rei; portanto, teria de agir antes que ele pisasse em terra.
Estava chegando a primavera, e as primeiras flores começavam a abrir-se.
Debruçada no parapeito da janela do quarto real, esperava pelo rei.
Tinha um plano em mente.
Olhava para as flores e pensava no campo e nos jardins do castelo D'armis.
O jardineiro Manuel estaria ainda no castelo?
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Re: AMOR E AMBIÇÃO - HELENA / Maria Nazareth Dória

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 05, 2016 10:10 am

Era o que pretendia saber.
O rei entrou, tomando-a nos braços com euforia.
Ela, porém, mostrando-se doce e inocente, puxou-o pela mão:
— Venha, meu amor, venha ver que coisa linda.
Olhe aquele canteiro de cravos vermelhos!
Sinta que perfume delicioso!
Estamos entrando na primavera, e me deu uma saudade muito grande do castelo D'armis, onde vivi tanto tempo e meus amores verdadeiros eram as flores.
Mostrando ciúme, o rei perguntou-lhe:
—Está pensando em Raul?
—Não, meu amor, nas flores e, para falar a verdade, em meus tios.
Eles foram bons comigo e gostaria de saber notícias deles.
—Está bem, meu amor, você pode ir visitar nossos parentes.
No dia seguinte, logo cedo, Loretta requisitou uma comitiva e seguiu para o castelo D'armis.
Já tinha o plano todo arquitectado.
Chegando lá, foi recebida pelo tio com um abraço.
Ele chorou, não parecia mais o homem forte e decidido de antes.
—Minha nora e sobrinha, falam muitas coisas por aí a seu respeito com nosso rei.
Não pense que lhe estou chamando a atenção por seu comportamento, absolutamente não.
Entendo perfeitamente sua atitude, minha filha; foi melhor assim.
A única coisa que me preocupa é seu futuro:
enquanto o rei viver, você estará segura, mas, se porventura uma desgraça acontecer a ele, provavelmente você não terá segurança nenhuma e ainda será vingada pela ira da rainha, que, apesar de boa e generosa, é mulher.
Loretta nunca havia pensado nisso; se acontecesse alguma coisa ao rei, seria queimada viva.
A rainha mandaria executá-la em praça pública com toda a certeza.
Baixou os olhos e sentiu medo, precisava agir com rapidez.
A tia, que havia perdido a memória com a sentença do filho, assim que a viu pareceu, por alguns instantes, recobrar a lembrança.
Tocando em seu rosto, disse-lhe:
—Minha criança, de todos nós você é a mais infeliz!
E em seguida voltou para seu mundo de esquecimento.
Loretta andou por todo o castelo.
Foi até a varanda onde costumava olhar as estrelas e sentiu um aperto no coração.
Se não tivesse vindo até ali com a mãe naquele verão, talvez sua vida fosse diferente.
Não teria encontrado Raul e, quem sabe, o teria esquecido.
Sentiu falta da mãe.
De repente, em uma só noite, mudou todo o rumo de sua vida e da vida dos outros.
Levara Raul à morte por um capricho, pois agora sabia que nunca o amara como homem, e sim como brinquedo querido de sua infância.
Enquanto relembrava o passado, lágrimas desceram de seu belo rosto.
O jardineiro a observava, e as lágrimas também desciam do rosto dele, marcado pelo tempo.
"Pobre menina, deve estar se lembrando do que aconteceu com ela.
Deus Pai", pensava ele, "como foi acontecer aquilo?
O padre, todo o tempo que passou no castelo, comportava-se como um verdadeiro filho do Senhor.
Bom e atencioso, só vendo para crer que um bom homem daquele seria capaz de tamanha covardia!"
Aproximou-se mais do jardim que dava para a varanda.
Loretta o viu e começou a gritar com alegria:
—Senhor Manuel, que bom vê-lo!
Que bom que está aqui.
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